1 SUMÁRIO “Era uma vez...” ............................................................................ 03 Uma história de amor que conto agora ...................................... 03 Primeiras conversas sobre memória e a arte de narrar histórias. 05 A cegueira e o saber............................................................. 05 A escolha da história............................................................ 07 A preparação da história....................................................... 09 O preâmbulo e a finalização da história................................ 11 Figurino................................................................................... 12 O olhar..................................................................................... 13 A importância dos Contos de fadas na formação das crianças. 14 Análise crítica de “O Patinho Feio”.......................................... 19 “O Corcunda de Notre Dame”.................................................. 20 Texto para reflexão....................................................................... 22 Literatura infantil que trata da inclusão...................................... 25 Livros e autores que tratam da inclusão....................................... 28 Bibliografia básica......................................................................... 29 2 “Era uma vez...” É assim que boa parte das histórias começa e é assim que vou cumprimentar você, meu visitante, e contar um pouco de mim. Era uma vez um menino que adorava ler e gostava tanto das histórias que lia que um dia não aguentou e desandou a sair por aí contando o que leu. E quanto mais lia, mais contava, num círculo infinito de dar e receber. E é isso que você vai encontrar aqui. Vou partilhar com você as agruras, aventuras, alegrias e aprendizados desta minha caminhada tão maravilhosa na arte da contação de histórias. Mas, para início de conversa, leia a história abaixo: UMA HISTÓRIA DE AMOR QUE CONTO AGORA... “Contar histórias é revelar segredos, é seduzir o ouvinte, é convidá-lo a se apaixonar... pelo livro... pela história... pela leitura. E tem gente que ainda duvida disso”. Contar histórias é ser, sim, um pouco bruxo, feiticeiro, palhaço, pois encantadores de olhares e corações. Contação de histórias é “oração”, porque as 3 narrativas têm o poder de celebrar, de comungar. Altares são construídos sempre que se conta uma história. Interessante demais como as histórias têm o poder de agregar pessoas, de incluir pessoas na roda, cada uma com suas experiências de vida, que se ajuntam para ouvir, sentir ou apenas para ver as imagens e imaginar a história. Mas cada pessoa encontrando nas entrelinhas das histórias o sentido que suas experiências de vida lhes permitem. Por isso, o ofício que mais me dá prazer, pois me permite dividir sonhos, naquele momento de contação, adentro, com certeza, por outras dimensões. Meus últimos dez anos de existência têm sido misturados aos livros, histórias infantis e crianças com olhares de algodão doce e coração de maçã do amor. Esse ofício com certeza deixa minha vida mais colorida e suave. Tão bom ser identificado nas ruas pelas crianças como “O contador de histórias”! Cada gesto, cada pontuação, cada expressão no rosto, a hora certa de respirar, o tom de voz e as vozes dos personagens, sei que são os segredos do doce 4 chamado Contação de histórias e foram conquistados com prática e paixão. Ninguém ensina ninguém a contar histórias... acredito que se nasce contador de histórias. Histórias são as mentiras mais deliciosas que nos contam ou contamos. Defino-me assim: cinquenta por cento de mim é história infantil, os outros cinquenta também. Descobri, já há alguns anos, um baú que foi guardado em mim, por minha mãe, e todos os dias ela guardava uma joia nesse baú e me pedia segredo e muito cuidado, pois eram joias de família... histórias... e mais histórias, que meus avós contavam para ela e ela contava para mim. E que agora decidi dividir com vocês, pois só consigo encontrar o brilho dessas joias nos olhos de quem as ouvem. Primeiras conversas sobre memória e a arte de narrar histórias A cegueira e o saber “Era uma vez uma praga que atingiu os mongóis. Os saudáveis fugiram, deixando os doentes e dizendo: „Que o Destino decida se eles vivem ou morrem‟. Entre os doentes, 5 havia um jovem chamado Tarvaa. O seu espírito deixou o corpo e chegou ao lugar dos mortos. O governante daquele lugar disse a Tarvaa: „Por que deixaste o teu corpo enquanto ainda estava vivo?‟ „Eu não esperei que tu me chamasses‟, respondeu Tarvaa, „simplesmente vim‟. Comovido com a presteza com que o jovem obedeceu, o Khan do Inferno disse: „A tua hora ainda não chegou. Deves retornar. Mas podes levar daqui o que quiseres‟. Tarvaa olhou em volta e viu todas as alegrias e todos os talentos terrenos: riqueza, felicidade, riso, sorte, música, dança. „Dá-me a arte de contar histórias‟, disse ele, pois sabia que as histórias podem congregar as outras alegrias. E assim retornou ao seu corpo e constatou que os corvos já lhe haviam arrancado os olhos. Como não podia desobedecer ao Khan do Inferno, reentrou no próprio corpo e viveu cego, porém conhecendo todos os contos. Passou o resto da vida viajando pela Mongólia, contando contos e lendas e trazendo às pessoas alegria e saber.” Narrar é uma forma de sobreviver e afastar a morte, igualmente em “As mil e uma noites”, as peripécias que Sherazade vai desfiando noite após noite é o seu estratagema para postergar a sua morte. Ou seja, as histórias exercem um poder inestimável sobre o ser humano, e os descobrir essa educadores estratégia tão precisam eficaz, urgentemente pois capaz de sensibilizar nossos alunos pelo lúdico. A contação de 6 histórias pode ser uma grande ação pedagógica em prol da inclusão. Mas com essa história, começamos o nosso batepapo: quais histórias podem ser contadas? Onde elas estão? Como as escolhemos? A escolha da história Geralmente, contamos as histórias que mais gostamos. Aquelas que nos “apeteceram” na infância ou em outra fase importante da vida. Por isso, o contador de histórias deve escolher uma história que ele realmente goste. Uma história pela qual ele vibre como adulto, que mexa com ele de alguma forma. A narrativa chega cedo à vida da criança, já em seus primeiros dias de vida, por meio dos acalantos, das letras das cantigas que tantas vezes contam histórias, como O Cravo brigou com a Rosa e outras. Segundo a educadora Gilka Girardello (2010), “o poeta russo Kornei Chukovski (1968) dizia que as pessoas contam as histórias e canções de que mais gostavam quando elas próprias eram crianças, de modo que quem escolhe as histórias para as crianças de hoje são 7 as crianças de ontem” (fala proferida durante o Simpósio Internacional de Contadores de Histórias). Ao narrar, o contador reativa uma cadeia de contadores de histórias que vem do início das civilizações até os nossos dias. É difícil, por exemplo, imaginar por quantas bocas passou um conto. A Festa no Céu, que, por exemplo, permeou muitas infâncias, tem registros em cerâmicas e tapeçarias que datam do século IV a.C. Daniel Munduruku (2005), escritor indígena, disse certa vez que: “... as histórias [...] são como a areia no fundo do rio. Elas estão lá quietinhas, bonitinhas, branquinhas, a gente olha e elas estão lá. Mas água nenhuma é bonita, areia nenhuma no fundo do rio é bonita, se a gente não for lá e mexer um pouquinho com elas... Então, as histórias são como essas areias, que a gente vai lá e mexe um pouquinho com a mão e elas começam a subir. O rio é nosso coração, é história que mora dentro da gente, que vai lá e mexe um pouquinho e ela vem à tona. E quando ela vem à tona, ela se torna memória” (p.33). E é nessa memória que vamos buscar as histórias que queremos contar. Uma memória individual ou coletiva, 8 carregada de afeto, observação, percepção, curiosidade, senso de humor, brincadeiras, coragem, capacidade de sonhar. Ou seja, as histórias. A contação de histórias pode possibilitar ao professor a realização de um trabalho muito interessante dentro das escolas, que é a sensibilização, para o respeito ao outro, ao diferente, à diversidade. Atualmente, percebe-se a tão urgente necessidade de ações que promovam a inclusão afetiva nas escolas. É sabido que o bullying tem assumido proporções muito perigosas dentro do espaço escolar, e a grande maioria das vítimas são alunos que por algum motivo não se enquadram dentro do estipulado “padrão”. A preparação da história O narrador tem o papel de criar a ocasião para a narração, de sugerir formas de contar, ouvir e explorar histórias. Sem dúvida, sua dedicação em escolher e preparar carinhosamente cada história que for contar é fundamental, para que o público viva com maior intensidade possível a viagem imaginária para a qual história convida. E o professor precisa, ao preparar uma história para ser contada na sala de aula, tomar o cuidado de, se tiver algum aluno surdo, colocá-lo em ponto 9 estratégico onde possa observar as imagens, as ilustrações da história. Mas se a história não tiver ilustrações, ou se o professor não for utilizar o livro, ele pode usar a estratégia dos dedoches, fantoches ou mesmo os personagens desenhados previamente em folhas, ou, então, contar a história com desenhos no quadro. Já diante de alunos cegos recomenda-se a descrição de alguns detalhes físicos dos personagens, mas tomando o cuidado para que não influencie a interpretação do aluno. Apenas incite-o, lembre: o aluno cego é capaz de imaginar, de criar; portanto, não tente fazer por ele. Já em relação às crianças hiperativas, fazê-las se aquietar, ou chamar a sua atenção e conseguir que se concentrem na história, não é tarefa fácil. Podemos lançar mão de dinâmicas, brincadeiras e músicas cumulativas para introduzir a história e colocar elementos pelos quais tenham interesse. Logicamente, nem toda criança é igual a outra e os interesses mudam. Assim, conhecer seu grupo é importante. Uma boa maneira é deixar a história cheia de altos e baixos e solicitar, ora ou outra, a ajuda e participação das crianças. 10 O preâmbulo e a finalização da história Faz parte da preparação para a contação de histórias pesquisar e registrar diferentes começos e finais das mesmas. O início da história é essencial. É preciso que o contador prepare seu público para receber a história. Para educadores, é sempre agradável preparar um canto especial para histórias, para criar o hábito, a expectativa, o gosto. Procure aguçar a curiosidade da plateia, criar um clima de encantamento, tocar um instrumento, trazer um trecho de música, fazer um verso ou simplesmente chamar o tradicional Era uma vez. Trazer o público para o clima da sua história não significa apenas “exigir silêncio porque agora é hora de ouvir histórias”. Este momento deve partir do convite ao encantamento: “Há muito tempo, quando os animais ainda falavam...” Assim como o preâmbulo, é igualmente importante finalizar bem a história. Às vezes, as próprias crianças já 11 puxam o tradicional “e foram felizes para sempre”. Mas existem outras possibilidades... “Eu fui até à festa do casamento. Pensei em trazer uns docinhos para vocês, mas quando enchi a sacola, a meninada toda viu... eu tive que devolver e o gosto do doce só vai ficar na memória de quem me ouviu”. Os começos têm o poder de abrir as portas do universo da história; os finais fazem a passagem de volta ao mundo real. Figurino O figurino pode ser, portanto, aquilo que você gosta de vestir, aquilo que tenha uma intenção: um figurino que não roube a atenção da história a ser narrada. Os recursos externos, portanto, devem dialogar com a história e jamais aparecer mais que ela. É sempre bom lembrar que o trabalho do contador de histórias difere do trabalho do ator. Mas na contação de histórias, um detalhe, às vezes, é o que faz toda diferença. 12 O olhar É o olhar que diferencia a arte de narrar histórias de outras artes cênicas. É pelo olhar que o contador se conecta ao ouvinte, prende a atenção da plateia. É também aí que ele vai sentindo a “temperatura” do ambiente, se continua pelo mesmo caminho, se altera, se acelera, se degusta mais os detalhes, se chama a plateia para participar. O contador não pode ter a expectativa do “silêncio absoluto”, ou querer, antes de qualquer coisa, contar a história até o fim, do modo que a preparou. Estar de corpo presente durante a narração é dialogar com o que surgir. Assim, “a intenção, o ritmo e a técnica constroem passo a passo a possibilidade da presença, a capacidade de responder criadoramente a tudo que ocorre no instante da narração, com vivacidade e confiança. Confiança na potencialidade de seus recursos externos e internos, confiança na história como um presente que ele oferece a si mesmo e à sua 13 audiência. „Estar presente é poder presentear‟‟‟ (Regina Machado, Acordais. p. 81). A importância dos Contos de fadas na formação das crianças Sabe-se como é importante para a formação de qualquer criança ouvir histórias. Escutá-las é o início da aprendizagem para ser um bom leitor, tendo um caminho absolutamente infinito de descobertas e de compreensão do mundo. É poder sorrir, gargalhar com situações vividas pelos personagens e com as ideias dos contos. Então, a criança pode ser um pouco participante desse momento de humor, de brincadeira e de aprendizado. Os contos também conseguem deixar fluir o imaginário e levar a criança a ter curiosidade, que logo é respondida no decorrer dos contos. É uma possibilidade de descobrir o mundo imenso dos conflitos, dos impasses, das soluções que todos vivem e atravessam, de um jeito ou de outro, por meio dos problemas que vão sendo defrontados, enfrentados (ou não), resolvidos (ou não) por intermédio dos personagens de cada história. Essa é a importância dos contos. 14 Nelly Novaes Coelho (2003) diz que os contos de fadas são narrativas problemática que espiritual, giram ética e em torno existencial, de uma ligada à realização interior do indivíduo basicamente por intermédio do amor. Daí, explica-se o fato de suas aventuras terem como motivo central o encontro, a união do cavaleiro com a amada (princesa ou plebeia) após vencer grandes obstáculos proporcionados pela maldade de alguém. Já Bettelheim (2004) afirma que: “Enquanto diverte a criança, o conto de fadas a esclarece sobre si mesma, e favorece o desenvolvimento de sua personalidade. Oferece significado em tantos níveis diferentes, e enriquece a existência da criança de tantos modos que nenhum livro pode fazer justiça à multidão e diversidade de contribuições que esses contos dão à vida da criança” (p. 20). Assim, a suprema importância dos contos de fadas para as crianças em crescimento reside em algo mais do que ensinamentos sobre formas corretas de se comportar. Eles são terapêuticos, porque o paciente encontra sua própria solução pela contemplação do que a “estória” 15 parece implicar acerca de seus conflitos internos nesse momento da vida. Especialistas afirmam que a tendência de retirar o mal, o medo e o castigo das narrativas é forte atualmente. As mudanças de enredo apaziguam as emoções que precisam ser vividas. Não é saudável evitar que as crianças enfrentem os conflitos. Assim, é possível usar e abusar de filmes que recontam A Bela e a Fera e O Patinho Feio, por exemplo, mas é preciso apresentar, primeiro, obras que mais se aproximam dos originais. O maravilhoso sempre foi e continua sendo um dos elementos mais importantes na literatura destinada às crianças. Por meio do prazer ou das emoções que as “estórias” lhes proporcionam, o simbolismo que está implícito nas tramas e personagens vai agir em seu inconsciente, atuando pouco a pouco para ajudar a resolver os conflitos interiores normais nessa fase da vida; consequentemente, surge a necessidade de a criança defender sua vontade e independência em relação ao poder dos pais ou à rivalidade com os irmãos ou amigos. 16 É nesse sentido que a literatura infantil e, principalmente, os contos de fadas podem ser decisivos para a formação da criança em relação a si mesma e ao mundo à sua volta. O maniqueísmo que divide as personagens em boas ou más, belas ou feias, poderosas ou fracas etc. facilita à criança a compreensão de certos valores básicos da conduta humana ou convívio social. Tal dicotomia, se transmitida mediante uma linguagem simbólica, e durante a infância, não será prejudicial à formação de sua consciência ética. O que as crianças encontram nos contos de fadas são, na verdade, categorias de valor que são perenes. O que muda é apenas o conteúdo rotulado de “bom” ou “mal”, “certo” ou “errado”. Lembra a Psicanálise que a criança é levada a se identificar com o herói bom e belo, não devido à sua bondade ou beleza, mas por sentir nele a própria personificação de seus problemas infantis: seu inconsciente desejo de bondade e beleza e, principalmente, sua necessidade de segurança e proteção. Pode, assim, superar o medo que a inibe e enfrentar os perigos e ameaças que sente à sua volta, podendo alcançar gradativamente o equilíbrio adulto. Logo, a área do Maravilhoso dos contos de fadas tem linguagem metafórica que se comunica facilmente com o pensamento 17 mágico, natural das crianças, como bem explica Vera Teixeira Aguiar (2001) quando diz que os contos de fadas exercem um grande fascínio nas crianças, sendo caminhos de descoberta e compreensão do mundo. Segundo Bettelheim (2004) dentro do texto: “O conto de fadas procede de uma maneira consoante ao caminho pelo qual a criança pensa e experimenta o mundo; por esta razão, os contos de fadas são tão convincentes para elas” (p. 20). Bettelheim ainda assinala que as crianças, por meio da utilização dos contos, aprendem sobre problemas interiores dos seres humanos e sobre suas soluções. E também é por intermédio deles que a herança cultural é comunicada às crianças, tendo uma grande contribuição para sua educação moral. E por meio dos contos de fadas, pode-se trabalhar muito a questão da sensibilização dos alunos em relação ao respeito às diferenças e mesmo deficiências mais marcadas do ser humano. A partir dessas constatações da importância dos contos de fadas na formação da criança, analisar-se-á duas histórias “O Patinho Feio” e “O Corcunda de Notre Dame”, procurando verificar que atitudes estão sendo construídas 18 ou perpetuadas, com vistas aos preconceitos e estereótipos em relação à pessoa com deficiência que essas histórias podem passar às crianças. Análise crítica de “O Patinho Feio” Na história O Patinho Feio, pode-se perceber um retrospecto dos diferentes momentos históricos do preconceito em relação à pessoa com deficiência. O Patinho, por ter nascido diferente do resto da ninhada, é excluído, pois está fora da categorização esperada, não possuindo os atributos comuns e naturais dos membros de sua categoria e, por esse motivo, é rejeitado e abandonado. Continuando a história, aparecem atitudes de caridade e assistencialismo em relação ao Patinho Feio, quando ele é recolhido e alimentado por compaixão, atitudes típicas da Idade Média, época em que não havia o intuito de inclusão do deficiente, mas apenas de propiciar cuidados e assistência por benevolência, sendo o diferente visto como vítima, digno de piedade. Para um final feliz à história, o Patinho Feio “se descobre” um cisne e encontra sua verdadeira família, o 19 que deixa claro que a única possibilidade encontrada para um final feliz não foi a aceitação e inserção do diferente, mas, sim, a normalização. Só como cisne e pertencente a uma outra categoria pôde ser aceito. Sabe-se que a sociedade dita suas normas e o preço que a pessoa deficiente ou diferente paga neste mundo dito “moderno” é o de normalizar-se. “preestabelecido”, do Ou seja, “normal”, aproximar-se do “perfeição”, do da “saudável”, do “conhecido”. Só é possível a “inclusão” quando as diferenças são neutralizadas ao máximo, e o indivíduo se aproxima do usual, das normas aceitas pela sociedade. “O Corcunda de Notre Dame” A história de Corcunda de Notre Dame traz a amostra fidedigna de toda repulsa preconceito e estigmatização em relação ao deficiente físico. Quasímodo (o Corcunda), por apresentar uma deformidade física, não se enquadra nos padrões considerados comuns e normais para o grupo. É estigmatizado, não sendo considerado uma pessoa comum, sendo visto com menos valia e digno de pena. Vê-se, ainda, na história em questão, atitudes de ridicularização da pessoa 20 com deficiência quando Quasímodo é colocado como bobo da corte, sendo exposto e humilhado. Nessa história, a deformação e a desfiguração do personagem não permitiram um final feliz, e, só com a morte do Corcunda, foi possível um final dentro das normas aceitáveis, sendo transformado, então, em mito. Historicamente, o estigma em relação à deformidade física aparece em citações na Bíblia, em Platão, em Aristóteles e outros. Observação: vieram-me à mente, agora, alguns de nossos personagens do folclore brasileiro. Assim, contar histórias a uma criança tem que se tornar uma atividade bastante corriqueira, nas mais diversas culturas do mundo e em várias situações tanto no âmbito familiar como no escolar. A cada dia, essa prática vem se reproduzindo através dos tempos de maneira quase intuitiva. Contudo, alguns estudos já demonstram o importante papel que os contos desempenham nos processos de aquisição e desenvolvimento da linguagem humana e também, se bem trabalhados, cooperam imensamente na formação de cidadãos conscientes, pois fixam na memória. 21 Texto para reflexão NOTÍCIAS “Para Sara, Raquel, Lia e para todas as crianças” Carlos Drummond de Andrade Eu queria uma escola que cultivasse a curiosidade de aprender que é em vocês natural. Eu queria uma escola que educasse seu corpo e seus movimentos: que possibilitasse seu crescimento físico e sadio. Normal. Eu queria uma escola que lhes ensinasse tudo sobre a natureza, o ar, a matéria, as plantas, os animais, seu próprio corpo. Deus. Mas que ensinasse primeiro pela observação, pela descoberta, pela experimentação. E que dessas coisas lhes ensinasse não só o conhecer, como também a aceitar, a amar e preservar. 22 Eu queria uma escola que lhes ensinasse tudo sobre a nossa história e a nossa terra de uma maneira viva e atraente. Eu queria uma escola que lhes ensinasse a usarem bem a nossa língua, a pensarem e a se expressarem com clareza. Eu queria uma escola que lhes ensinassem a pensar, a raciocinar, a procurar soluções. Eu queria uma escola que desde cedo usasse materiais concretos para que vocês pudessem ir formando corretamente os conceitos matemáticos, os conceitos de números, as operações... pedrinhas... só porcariinhas!... fazendo vocês aprenderem brincando... Oh! meu Deus! Deus que livre vocês de uma escola em que tenham que copiar pontos. Deus que livre vocês de decorar sem entender, nomes, datas, fatos... 23 Deus que livre vocês de aceitarem conhecimentos prontos, mediocremente embalados nos livros didáticos descartáveis. Deus que livre vocês de ficarem passivos, ouvindo e repetindo, repetindo, repetindo... Eu também queria uma escola que ensinasse a conviver, a cooperar, a respeitar, a esperar, a saber viver em comunidade, em união. Que vocês aprendessem a transformar e criar. Que lhes desse múltiplos meios de vocês expressarem cada sentimento, cada drama, cada emoção. Ah! E antes que eu me esqueça: Deus que livre vocês de um professor incompetente. 24 Literatura infantil que trata da inclusão Coleção: Trabalhando as diferenças e a inclusão social, Blu editora. Títulos: Sofia, a ursinha vitoriosa. (Deficiência física) Clara, a ovelhinha que falava que trocava por sinais. as letras. (Deficiência auditiva) Osmar, o cãozinho (Dislexia) Davi, um coelhinho especial. (Síndrome de Down) Lívia e as mudanças que a vida traz. (Morte na família). Coleção: Bullying na escola, Blu editora. Títulos: Por trás da maldade virtual. -Mentiras e ofensas pela internet. Tamanho não é documento. -Zombaria da estatura. Voando sim, mas em direção ao futuro. -Chacota das orelhas. Quando a covardia pesa muito mais. -Ataques contra alunos obesos. Ver a todos com bons olhos. -Deboche aparência. Preciso de ajuda. -Agressão ao aluno tímido. 25 da Forte para vencer na vida. -Piadas do aspecto físico. A riqueza que o dinheiro não compra. -Preconceito social. Piolho não escolhe cabeça. -Piada por fato embaraçoso. Medo de gaguejar. -Agressão verbal. Quem zomba tem inveja. -Violência verbal. Amizade não tem cor. -Preconceito racial. Livre para seguir sua crença. -Preconceito religioso. Coleção: Meu amigo Down, de Claudia Werneck. Títulos: Meu amigo Down em casa. Meu amigo Down na rua. Meu amigo Down na escola. Um amigo diferente? Rubem Alves. Título: Porquinha do rabinho arrebitado. Elisabeth Maggio. Título: Maria Noite, Maria Dia. 26 André Carvalho e Alencar Abujambra. Título: Além de qualquer diferença: enamorados. Ana Maria Machado. Títulos: Menina Bonita do laço de fita. Beto, o carneirinho. Um ano novo danado de bom! Clássicos: Títulos: O Patinho Feio. O Corcunda de Notre Dame. A Gata Borralheira. A Bela e a Fera. 27 Dois Sacis Livros e autores que tratam do tema inclusão: EDUCAÇÃO INCLUSIVA: cultura e cotidiano escolar, organização e edição de Rosana Glat. NECESSIDADES EDUCACIONAIS ESPECÍFICAS: Intervenção psicoeducacional, de Eugênio Gonzáles. SURDEZ E LINGUAGEM: aspectos e implicações neurolinguísticas, de Ana Paula Santana. INCLUSÃO ESCOLAR: pontos e contrapontos, de Maria Tereza Eglér Mantoan. Livros de Claudia Werneck. Ninguém mais vai ser bonzinho, na sociedade inclusiva. Sociedade Inclusiva. Quem cabe no seu TODOS? Mas ele não é mesmo a sua cara? Você é gente? 28 Bibliografia básica: Acordais-Fundamentos Teórico-Poéticos da Arte de Contar Histórias, Regina Machado, Ed. DCL. A Casa Imaginária: Leitura e literatura na primeira infância, Yolando Reyes, Ed. Global. A Palavra do Contador de Histórias, Gislayne Avelar Matos, Ed. Martins Fontes. Como um Romance, Daniel Pennac. Ed.Martins Fontes. Magia e Técnica, Arte e Política, Walter Benjamim (capítulo O narrador), Ed. Brasiliense. O que conta um conto, J. Bonaventura, Ed. Paulinas. Outros Documentos http://www.artigonal.com/educacao-infantil-artigos/aimportancia-dos-contos-de-fadas-na-alfabetizacao762528.html http://www.escoladegente.org.br/ 29