O NORTE DE MINAS: CONEXÃO À REDE URBANA – DESESTRUTURAÇÃO/REESTRUTURAÇÃO E APAGAMENTO DO CONHECIMENTO LOCAL Augusto José Querino 1 RESUMO A região norte do atual Estado de Minas Gerais, no Brasil, esteve, durante um considerável espaço temporal, à margem dos constructos sociais, econômicos, políticos e culturais do ocidente europeu. Entendemos, como bases daqueles constructos, as relações econômicas voltadas para mercado e com finalidade de reprodução e acumulação de riqueza material e monetária, a racionalidade-científica, como delineadora dos pensamentos, a visão de progresso, focada numa perspectiva da evolução natural e biológica. Por não ter se integrado mais estreitamente ao mercado mundial já que não teve a sua reprodução material da vida determinada pela produção em larga escala para exportação, como ocorreu com outras regiões brasileiras, o Norte de Minas ocupou uma posição marginal no sistema mundo que a Europa-moderna construía. Essa posição marginal permitiu, na citada região, a configuração de lógicas e conhecimentos diferenciados em relação às regiões que se integraram, ou foram integradas, ao mercado mundial capitalista desde os primórdios da expansão européia. Contudo, essas lógicas passaram por um processo de desestruturação/reestruturação a partir da conexão do norte de Minas Gerais à rede urbana do sudeste e daí ao mercado mundial capitalista. Essa conexão ao mercado mundial, abriu as artérias pelas quais chegaram à região, as lógicas ocidentais que sobrepuseram às lógicas locais, apagando-as ou transformado-as em mercadoria, de acordo com os interesses mercadológicos que, também pela conexão, adentraram o sertão norte-mineiro. ABSTRACT The region north of the actual State of Minas Gerais, in Brazil, it was, during a considerable secular space, to the edge of the social constructos, economic, cultural politicians and of Western European. We understand, as bases of those constructos, the economic relations directed toward market and with purpose of reproduction and accumulation of material and monetary wealth, the rationality-scientific one, as limiting of the thoughts, the progress vision, focallity in a perspective of the natural and biological evolution. For not having more narrowly if integrated to the world-wide 1 Mestre em Desenvolvimento Social pela Universidade Estadual de Montes Claros, graduado em História pela PUC-MG, Professor de Sociologia, Antropologia e Formação Sócio-Histórica do Brasil na Sociedade Educacional do Brasil, Professor de História da América e Historiografia Brasileira na Universidade Estadual de Montes Claros. market since it on a large scale did not have its material reproduction of the life determined for the production for exportation, as it occurred with other Brazilian regions, the North of Mines occupied a position marginal in the system world that the Europe-modern set up. This position marginal allowed, in the cited region, the configuration of logics and knowledge differentiated in relation to the regions that if had integrated, or they had been integrated, to the capitalist world-wide market since the origin of the European expansion. However, these logics had passed for a process of unestructuring/restructuring from the connection of the north of Minas Gerais to the southeastern urban net and from there to the capitalist worldwide market. This connection to the world-wide market, it opened the arteries for which they had arrived at the region, the occidental logics that had overlapped to the local logics, erasing them or transformed them into merchandise, in accordance with the marketing interests that, also for the connection, they to penetrate into the hinterland north-mineirian. 2 Introdução A região norte do atual Estado de Minas Gerais era, desde o período colonial, por força dos interesses mercantis da metrópole portuguesa, uma região isolada do restante da colônia. Segundo Mata Machado (1991), “A carta régia de 1701, que proibia o comércio pelo caminho do sertão, pode ser considerada o marco inicial, do fenômeno do isolamento porque, mesmo não tendo sido respeitada, demonstrou a preocupação de isolar a região” (p. 59). EsSe isolamento associava-se, como já foi dito, aos interesses mercantis metropolitanos, uma vez que, grande parte do ouro extraído na região de Ouro Preto e Sabará, afluíam para os sertões às custas do abastecimento de gado bovino e de gêneros agrícolas para a região de mineração e à preocupação com o controle fiscal, já que a população da região se recusava a pagar os impostos instituídos pelas autoridades metropolitanas. Para Mata Machado (op. Cit.), outros fatores que contribuíram para o isolamento da região foram: a queda do preço do gado bovino no Centro-Sul, devido à concorrência com o gado dos sertões; o estabelecimento de relações de comércio entre a região das minas e outras regiões da colônia e da própria capitania; além das atitudes repressivas das autoridades portuguesas quando tentavam estabelecer um maior controle sobre a região. Tentativas na maioria das vezes fracassadas, como atestam os Motins do São Francisco de 1736 que, para Anastásia (1983), estavam “ligados aos interesses dos potentados do sertão agropastoril do São Francisco de continuarem excluídos da subordinação externa assegurando a continuidade não só de sua autonomia política como do controle do excedente, gerado pelas trocas com a região mineradora” (apud MATA MACHADO, op. Cit., p. 48-49). De acordo com Mata Machado, o isolamento da região se acentuou no final do século 18 quando “com a decadência da mineração, rompem-se os vínculos comerciais entre o sertão e as minas, dando início a um longo período de isolamento daquela região que, sob certos aspectos, perdura até os nossos dias” (op. Cit. p.59). Entendemos aqui, que esse isolamento proporcionou à região norte-mineira – os sertões – a configuração de relações sociais, políticas, econômicas e culturais baseadas em um background de matriz mais desvinculada dos padrões civilizatórios europeus de base iluminista. No mínimo, tivemos uma economia praticamente desvinculada do grande mercado de exportação e, portanto, menos especializada, quase de subsistência e 3 amonetária, “pré-capitalista” nos dizeres de Marx. O rompimento desse isolamento, para o qual tomamos como marco a chegada da ferrovia à Montes Claros em 1926, não somente abriu as portas para um processo de desestruturação/reestruturação, como também contribui para a representação do desenvolvimento, entendido como progresso material e pautado na racionalidade científica ocidental. Assim, o processo de desenvolvimento acionado pela inserção do norte de Minas Gerais na rede urbana do sudeste, tem funcionado como um elemento apagador e expropriador das lógicas e do conhecimento local, em favor dos interesses mercadológicos e da manifestação da racionalidade científica do ocidente. O Desenvolvimento como elemento Desestruturador / Reestruturador Partindo de observações empíricas, nos deparamos com alguns fenômenos que, em relação ao desenvolvimento, nos chamou a atenção. Ao estudá-los, encontramos, na literatura pertinente à questão, interpretações que confirmaram a maior parte de nossas pressuposições. E, entre elas, destacamos a da sua propriedade desestruturante / reestruturante que, no nosso entendimento, resulta da manifestação da cosmovisão ocidental-iluminista, nos lugares onde o desenvolvimento ocorre. A manifestação da cosmovisão ocidental forja a idéia de progresso como crescimento econômico, avanço tecnológico, aumento dos níveis de consumo, presença de objetos técnicos e do meiotécnico-científico-informacional, implantação do Estado de direito e de um aparato jurídico baseado nos princípios da impessoalidade e da igualdade e expansão do mercado como realizador da circulação e da distribuição de bens produzidos e validados pela ciência. Essa visão iluminista de progresso vem sendo representada socialmente como sinônimo de civilização e, portanto, como uma obrigação de todos os povos que se pretendam civilizados e que buscam a civilização à semelhança da que se instalou na Europa-ocidental. A idéia de desenvolvimento deriva dessa lógica, a da obrigação de progresso, da razão, da ciência e impessoalidade como base das instituições políticas e sociais e da vida. Seguindo essa observação, entendemos que o conceito de desenvolvimento, que é 4 hoje uma enunciação discursiva de escala planetária, é instrumentalizado em favor da expansão do mercado capitalista em primeira ordem e, em segunda, da civilização ocidental com as suas marcas do racionalismo, da ciência, da tecnologia, dos objetos técnicos e do sistema de objetos, do mercado e do consumo, do lucro, da monetarização, do Estado de direito, da impessoalidade e das leis positivas. Partindo dessa premissa, sugestionamos a hipótese de que o desenvolvimento, desde que ganhou a sua feição de obrigação, tem sido um fator de desestruturação / reestruturação das lógicas, conhecimentos e técnicas locais, que vão sendo relegadas ao esquecimento, apagadas e associadas ao atraso e ao arcaísmo, enquanto as técnicas, as lógicas e o conhecimento ocidental, transportados na bagagem do desenvolvimento, vão se tornando predominantes e representados socialmente como símbolo de avanço progresso e de melhoria de vida para todos. Sobre a hegemonia do pensamento ocidental, na concepção de desenvolvimento que se vem operando, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, Hobart (1997), analisando-o pelo viés antropológico, nos diz, “não somente o conhecimento nativo é ignorado, como a natureza do problema do subdesenvolvimento e sua solução são definidas tomando-se o conhecimento científico ocidental como referência para a ordenação do mundo” (p. 2). No Brasil, a busca do desenvolvimento, com base nas lógicas, técnicas e no conhecimento ocidental, sob o discurso do progresso e da melhoria das condições de vida da população em geral, ao contrário, parece ter ampliado o ambiente de contradições e disparidades sociais em que o país historicamente já se encontrava. entendido como crescimento econômico e capaz de, por si só, melhorar a condições de vida da população e diminuir as disparidades sociais, a despeito das melhorias, especialmente técnicas, como oferta de energia, saneamento, equipamentos urbanos em geral, saúde e escolaridade, O desenvolvimento, não proporcionou a diminuição das desigualdades sociais e, hipoteticamente, defendemos, concentrou seus benefícios em parcelas diminutas da sociedade e ocorreu centralizado espacialmente em algumas poucas regiões, polarizando-as. Segundo Furtado (1974), Aspecto fundamental, que se pretendeu ignorar, é o fato de que os países periféricos foram rapidamente transformados em importadores de novos bens de consumo, fruto do processo de acumulação e do progresso técnico que tinha lugar no centro do sistema. A adoção de novos padrões de consumo seria extremamente irregular, dado que o excedente era apropriado por uma minoria restringida... (p. 79). 5 O que percebemos é a manifestação de um processo de desenvolvimento atrelado aos interesses externos e internos de expansão do capital, do mercado, do lucro e da acumulação de riquezas materiais, excluindo a grande maioria que, neste processo, apenas se esforça laboriosamente, buscando acesso aos benefícios que, ao menos, na sua enunciação discursiva, o desenvolvimento propicia. Isso ocorre, na medida em que, o mercado e o dinheiro se tornam as bases sobre as quais se configuram as relações sociais, políticas, econômicas e culturais, desestruturando e reestruturando o conhecimento, as técnicas e as lógicas nativas, apagando ou relegando ao esquecimento e imprimindo ao conhecimento local, a representação de arcaico, atrasado e, às vezes, até a de bárbaro e selvagem e, enfim, não civilizado. Sobre esta ação desestruturante, referindo-se ao processo que tornou as lógicas mercadológicas predominantes na Europa do século 19, Polanyi (2000), nos diz, “a economia de mercado é uma estrutura institucional, e sempre nos esquecemos disto, que nunca esteve presente a não ser em nosso tempo (...). Se o efeito imediato de uma mudança é deletério, então, até prova em contrário, o efeito final também é deletério” (p. 56). Esse efeito deletério proposto por Polanyi, é uma propriedade do desenvolvimento, que opera como fator de expansão do mercado capitalista e conseqüentemente, como um agente desestruturador / reestruturador dos modos de vida, nos lugares onde ele ocorre. As técnicas locais, como parte da cultura local, na medida em que o desenvolvimento vai ocorrendo, vão sendo esquecidas ou classificadas como atrasadas e arcaicas e, por isto, não autorizadas pela ciência, ficando assim, passíveis de desaparecimento. O que propomos aqui, é que, tais técnicas, mais adequadas às realidades locais, exatamente por serem locais, poderiam ser de grande valia para o desenvolvimento, bem como poderiam contribuir para que ele ocorresse de forma mais eqüitativa e para uma parcela majoritária da sociedade, uma vez que, tendo suas técnicas como elemento operacionalizador, as populações locais ocupariam o papel de agentes e não apenas de objetos e receptores, tornando-se, então, agentes do seu próprio desenvolvimento. Assim, ficariam resguardadas as diferenças culturais em contrapartida à expansão da cultura ocidental igualizadora e solvente das mais diversas culturas espalhadas pelo planeta que têm seus conhecimentos e técnicas apagados ou expropriados em favor dos interesses mercadológicos, típicos da civilização ocidental. Para ilustrar essa hipótese, tomamos como exemplo a indústria farmacêutica. Classificamos os produtos de tal indústria como objetos técnicos da indústria ocidental. 6 Tais objetos carregam em si a enunciação discursiva da racionalidade-científica. São objetos que se fazem legítimos e válidos socialmente porque são produtos da ciência. Seu lay-out e o conhecimento científico empregado na sua criação, produção e distribuição, lhes conferem a imagem de progresso, de avanço, de moderno, enfim, a imagem do desenvolvimento. Por outro lado, as técnicas locais de cura e prevenção contra doenças, por não serem produtos da ciência ocidental, são consideradas ineficientes, fruto da crendice popular e arcaicas. Portanto, de acordo com o pensamento ocidental-iluminista, sem validade científica. Assim, conhecimentos e técnicas, muitas vezes milenares, que por séculos solucionaram problemas de saúde e de sobrevivência das populações locais, passam a ser considerados símbolos de atraso, de não-progresso, de arcaísmo. Outro aspecto que pode ser abstraído desta hipótese é o da vinculação e adequação das técnicas ocidentais às lógicas e necessidades mercadológicas. Os produtos validados pela ciência só podem ser adquiridos no mercado, gerando remuneração do capital. Enquanto os produtos das técnicas e dos conhecimentos locais são adquiridos e produzidos no local, não gerando lucros para o grande capital. No exemplo que aqui utilizamos, a indústria farmacêutica, é sabido que o volume de riqueza monetária que ela movimenta é exorbitante. Segundo dados do IBGE, somente no Brasil, ela movimentou, em 2001, o montante de R$ 4.175.691.097,00 em vendas. Os produtos da indústria farmacêutica são exemplos do que, neste trabalho, chamaremos de objetos técnicos que, além de serem produtos da racionalidade científica ocidental, entendemos que são também mercadorias e, portanto, geradores de lucro e produtores de um discurso que lhes confere a imagem do desenvolvimento. Além dos objetos técnicos que, segundo o professor Milton Santos (1997), constituem um sistema de objetos, o desenvolvimento levou também, ao meio-técnicocientífico-informacional. O espaço foi adequado às necessidades de circulação inerentes ao mercado. Horizontalidades e verticalidades, circulação de produtos e circulação de informações interferindo na conformação do meio, do espaço que vai sendo “relayoutizado” pela presença daqueles objetos técnicos e dos equipamentos necessários a sua circulação. Avenidas, vias de acesso, vias expressas, metrôs, terminais de ônibus, anéis rodoviários, edifícios, outdoors, néons, vitrines, fachadas de lojas, shoppings centers, vidros, formas matemáticas e geométricas representado socialmente o moderno, 7 o desenvolvido, vão recompondo o layout das cidades e dos lugares e representando o moderno, o avanço, a ciência, enfim, o desenvolvimento, metaforizando-o e dando-lhe o caráter de obrigação. O meio técnico-científico-informacional e os objetos técnicos, que falam por si, que possuem um discurso próprio, passam a ser perseguidos, pois possuílos representa ser desenvolvido, moderno e apto ao progresso, enquanto, ao contrário, não possuí-los passa a ser símbolo de atraso, de arcaísmo e estagnação. Alguns Aspectos das Lógicas e Conhecimentos Locais, no Norte de Minas, Anteriores á Conexão à Rede Urbana do Centro-Sul e ao Ocidente Se tomarmos por referência a cultura que se desenvolveu na região norte do estado de Minas Gerais, e para falar de cultura aqui utilizamos as proposições de Geertz (1973), segundo quem a cultura é o padrão de significados transmitidos historicamente, incorporados em símbolos; um sistema de concepções herdadas expressas em formas simbólicas por meio das quais os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem o seu conhecimento e suas atitudes em relação à vida (p. 89), observaremos que as técnicas e conhecimentos da região, suas formas de relacionamento social e interpessoal, suas condições de realização material, enfim, suas lógicas, ocorreram sob uma matriz muito autônoma, como já foi dito, em relação aos padrões civilizacionais ocidentais, produzidos pelo pensamento racional iluminista. Partindo dessa proposição, entendemos que o seu isolamento não significou, de forma alguma, ausência de civilização e de cultura e, muito menos, do ponto de vista econômico, ausência de produção de bens materiais. O que tivemos foi a conformação de relações econômicas desvinculadas do mercado e do lucro. Para Mata Machado, “a população desenvolveu um estilo de vida autônomo, fundado na agricultura para subsistência e na utilização das riquezas naturais” (p. 62). 8 Várias técnicas, baseadas no conhecimento local foram desenvolvidas para dar conta da vida material da população. Entre elas podemos citar a utilização do buritizeiro na fabricação de balsas, jangadas, cabos, cordas, embiras; na alimentação, a fabricação de doces e azeite e, como nos diz Sena (1918), “em várias outras aplicações domésticas e industriais” (p. 1147). Spix e Marthius (1981), chamaram o doce do buriti de “artigo do sertão” (p. 184), e ressaltaram a sua importância informando que, em São Romão 2 , era utilizado como dote no casamento das moças. Outras plantas eram largamente utilizadas na vida material da região como a carnaúba para o fabrico de cera e extração de um óleo utilizado para iluminação. As plantas eram também utilizadas para fins medicinais. Segundo Saint-Hilaire (1975), nessas regiões, onde não existem médicos 3 , encontram-se, em grande número de povoações, pessoas de idade, que se dedicam a procurar conhecer vegetais úteis, que recolham as tradições de seus antepassados; fazem, às vezes, experiências e dão conselhos aos doentes (p. 348). Podemos também, citar, como exemplo das técnicas e da cultura local, a utilização de recursos animais como pele de onça, de lontra, de anta, de raposa, de ariranha, de sucuriú e de outros animais no vestuário e na fabricação de bolsas, malas, roupas e calçados que eram até mesmo exportados e altamente valorizados no mercado externo. Sobre isto, Mata machado (op. Cit.), nos diz: As peles de onça, lontra, anta, raposa, ariranha, sucuriú e outros animais, utilizadas na fabricação de bolsas, malas, roupas e calçados, eram exportadas para o Rio de Janeiro, via Santa Luzia e para Salvador, via Juazeiro. Essas peles eram altamente valorizadas, pois os artigos delas confeccionados serviam às faixas privilegiadas da população. As plumas da ema, usadas para a fabricação de objetos ornamentais, tinham excelente aceitação no mercado europeu (p. 67). 2 Cidade do setão noroeste de Minas Gerais, localizada às margens do Rio São Francisco, distante cerca de 160 Km da cidade de Montes Claros no sentido norte. Foi um dos primeiros povoados da região e sua formação esteve ligada às tentativas dos governos das Minas coloniais de estabelecer o controle sobre a região. Nesta cidade encontramos uma das primeiras “Casas da Moeda” instaladas no Norte de Minas e foi aí um dos epicentros de uma das maiores revoltas contra as tentativas de controle da região pelas autoridades portuguesas: os Motins do São Francisco em 1736. 3 Grifo nosso. Destacamos aqui, na visão de Saint-Hilaire, o termo “médico”. No nosso entendimento Saint-Hilaire utiliza o termo para designar medicina ocidental de base científica que, como diz o autor, estava ausente no Norte de Minas. O que não significa dizer que não havia uma forma local de medicina, porém de base não ocidental. 9 As técnicas para a pesca, muito difundidas na região, como a até hoje apreciada fabricação do peixe seco, a utilização do mel para várias finalidades e a extração do salitre para a fabricação de pólvora, exemplificam também a riqueza das técnicas e do conhecimento local. Para Saint-Hilaire (op. Cit), a carne de surubim era “infinitamente superior ao bacalhau da terra nova, que é preferido, no entanto, no país, sem dúvida porque aí é mais raro” (p. 340). Carlos Lacerda, em viagem pelo vale do Rio São Francisco, em 1937, disse: “O surubim seco, especialidade regional com o nome de ‘surubilhau’ – bacalhau do São Francisco – já vem rendendo a anos modestas quantias” (apud, MATA MACHADO, 1991: p. 65). Saint-Hilaire (op. Cit.), nos falou também do mel da região, “devemos admirar de que os habitantes do sertão empreguem o mel como alimento... devido ao grande número de espécies diferentes de abelhas, que produzem um mel muito límpido e isento desse travo desagradável que tem o da Europa” (p. 332). Observamos, em nossas análises, que alguns aspectos da cultura local foram entendidos, a partir de interpretações baseadas nos valores iluministas ocidentais, como sinal de atraso. Este é o caso do ócio, que aqui proponho ser um privilégio da população sertaneja, na época ainda não submetida à divisão do trabalho à maneira capitalista, e sim ao trabalho determinado pelo meio, ao tempo determinado por fatores naturais e a uma produtividade definida pela necessidade e não pelo mercado. O maior tempo dedicado ao ócio pela população local, foi visto e representado pelos viajantes europeus, que por aqui passaram, como preguiça. E a simplicidade da vida material sertaneja, determinada pela pouca necessidade material, foi, por sua vez, em face à complexidade da vida material européia, representada como miséria e pobreza. De acordo com Mata Machado (op. Cit.), a inexistência de mentalidade capitalista e a fartura de recursos naturais conduziam a população a trabalhar apenas o bastante para a sua subsistência. Os viajantes europeus, habituados ao regime capitalista, observavam com estranheza a folga dos sertanejos e alguns atribuíram a vagabundagem ao excesso de preguiça (p. 95). 10 Wells (1995 [1887]), também relatou esse aspecto da vida sertaneja ao dizer que, Passando por essas casas sem portas pode-se ver homens e muitas mulheres balançando em suas redes; porque eles desperdiçam os seus dias dormindo e suas noites em orgias de cachaça, canções selvagens e danças. Pouco trabalho basta para suprir as suas necessidades muito simples (p. 338). Essa lógica não mercadológica, não capitalista da vida sertaneja, pode ser atribuída à incipiência dos mercados e ao isolamento da região, até então desconectada dos principais centros consumidores do país. Wells (op. Cit.), atestou essa situação registrando as reclamações de um criador de gado sobre as dificuldades de comercialização. Segundo o criador citado por Wells, Eu não posso vender mais que um número limitado na vila mais próxima; mesmo em Diamantina ou Ouro Preto eu não poderia vender um número pelo que eu consideraria um preço lucrativo. É a mesma história por todo o Brasil. Não há mercado para nenhuma produção que exceda as demandas locais a não ser através de uma viagem longa e cansativa (p. 370). As teorias da preguiça, da miséria e da pobreza, se consideradas as lógicas, as técnicas e o conhecimento local são infundadas. Na realidade, a miséria era praticamente inexistente e a pobreza era uma representação derivada da referência européia de riqueza, que beirava o luxo e a ostentação, o que no sertão parecia não existir. Retomando Saint-Hilaire (op. Cit.), A abastança é entre nós acompanhada de gozos multiplicados, e manifesta-se por uma imensidade de demonstrações exteriores; não sucede o mesmo, porém, com essas regiões longínquas, onde a falta de indústrias e a dificuldade das comunicações impediram o luxo de penetrar; e a casa de um proprietário rico do deserto de Minas, transportada para a França, seria aqui tomada pela morada de um homem da mais medíocre condição (p. 347). Mas a ausência do luxo e da ostentação à maneira européia, até mesmo entre os homens de posse na região, não significava, de maneira alguma, miséria. Sampaio, membro da comissão de Milnor Roberts, enviada à região, em 1887, para analisar as possibilidades de navegação no Rio São Francisco nos diz: 11 A natureza pródiga não deixa haver a verdadeira pobreza que force a trabalhar e que obrigue a mantenha a disciplina pela necessidade de viver. Não há aqui, tão pouco, estímulos para capitalizar. Vive-se bem, vive-se ao natural, sem cuidados pelo futuro, por que a pobreza aqui não aterra ninguém (apud. Mata Machado, p. 94). É interessante observar aqui, que a ausência de pobreza foi associada à ausência das relações mercadológicas capitalistas, nas quais, a produtividade do trabalho é associada à manutenção dos trabalhadores em condições materiais próximas e às vezes abaixo dos limites da sobrevivência. Isto parecia não ocorrer na região, já que a população local se fartava de tudo que necessitava para viver, sem precisar empreender muito trabalho para tal. Outro fator que contribuiu para a projeção da imagem, sobre o Norte de Minas, do atraso e da ausência de civilização, foi o da quase inexistência das instituições do Estado de direito na região. Pelo contrário, a existência de um código cotidiano de leis e de relações pessoais, no lugar das relações impessoais, tidas no ocidente como essenciais para a existência daquele tipo de Estado, foram interpretadas, na maioria das vezes, como desordem e tirania dos grandes proprietários sobre a população local. Contudo, é preciso observar que uma lógica muito típica da região é que determinava as suas relações de poder. Ao analisar a dinâmica do poder local, no sertão, percebemos a presença de princípios baseados na reciprocidade e na dádiva, no dom e contra-dom e não aqueles que encontramos nas relações mercadológicas, como determinantes da dinâmica política, social, econômica e cultural na região, já que, como já foi colocado, se desenvolveu, devido ao seu isolamento, à margem da economia de exportação, do mercado e da civilização ocidental iluminista. Queiroz (1973), estudando a população camponesa marginal à estrutura agroexportadora nos diz que: Todavia, além deste tipo de estrutura, outro sempre existiu também que tem sido pouco estudado, e que se localiza em áreas onde a agricultura de exportação e a grande criação raramente fizeram seu aparecimento. São ali encontrados sitiantes autônomos; diríamos melhor, são ali encontrados produtores, quer agricultores, quer criadores, os quais podem ser grandes proprietários de terras, porém não dispondo de recursos para aproveitá-las, limitam-se a uma utilização por meio de roças ou por meio de criação de uma vintena de cabeças de gado. A estrutura desses grupos é geralmente de tipo igualitário (p.101). 12 A esse respeito, a antropologia nos fornece um instrumental valioso para analisar determinados aspectos das relações que se estabeleceram em uma região, no nosso caso o Norte de Minas Gerais, que se constituiu, como estamos propondo, a partir de uma matriz relativamente desvinculada dos padrões do ocidente iluminista. Estamos falando do espírito da dádiva e da reciprocidade como proposto por Mauss (1974) segundo quem, Em todas as sociedades que nos precederam e que ainda nos rodeiam, e mesmo em numerosos costumes de nossa moralidade popular, não existe meio termo: confia-se ou desconfia-se inteiramente; depor as armas e renunciar à sua magia, ou dar tudo; desde a hospitalidade fugaz até às filhas e bens. Foi em estados deste gênero que os homens renunciaram a seu ensinamento e aprenderam a empenhar-se em dar e retribuir. É que eles não tinham escolha. Dois grupos de homens que se encontram podem fazer apenas duas coisas: ou afastar-se – e, caso suspeitem um do outro ou se desafiem, lutar – ou tratar-se bem. Até direitos bem próximos de nós, até economias não muito distanciadas da nossa, são sempre estrangeiros com os quais se ‘trata’, mesmo quando são aliados. (...) É opondo a razão ao sentimento, opondo a vontade de paz contra bruscas loucuras desse gênero, que os povos conseguem substituir pela aliança, pela dádiva e pelo comércio a guerra, o isolamento e a estagnação (pp.182-83). Queiroz (op. Cit.), parece concordar com a hipótese de que os grupamentos sociais que se constituíram à margem da economia agroexportadora e, portanto, do ocidente iluminista, já que aquele tipo de economia é que vinculava determinadas regiões como fornecedoras de bens primários ao mercado europeu, são insubmissos e se pautam nas relações de reciprocidade para garantir a reprodução do grupo. Nesse sentido, os homens do sertão, nos dizeres de Queiroz, são orgulhosos da liberdade, vangloriam-se da insubmissão a qualquer tipo de disciplina e não importa a que autoridade, desde que imposta pela força. Somente relações derivadas da amizade e da gratidão os fazem curvar-se diante de alguém, que então consideram superior (p.104). O que estamos propondo, não significa dizer que o mercado, bem como as injustiças e desigualdades, o autoritarismo e o mandonismo estavam ausentes no sertão, mas que tinham uma matriz diferente daquela que dá base, para estes mesmos elementos, na civilização ocidental. Porque lá, eles também se fizeram presentes. Sobre isto, a história nos dá uma fartura de exemplos, entre os quais, podemos citar, a situação a que ficaram submetidos os operários, à época da Revolução industrial e os camponeses vitimados pelo advento da propriedade privada, no meio rural, na Europa; o 13 extermínio das nações indígenas, a superexploração dos imigrantes e a negativa dos direitos civis aos negros, nos Estados Unidos. Os exemplos, como dissemos, são fartos, mas acreditamos não ser aqui necessário neles nos estendermos. Partindo do que expomos, entendemos que as observações e as representações construídas sobre o Norte de Minas, são passíveis de equívocos já que procuram interpretá-lo a partir da matriz ocidental. Aliás, diga-se de passagem, como colocamos em outro artigo nosso, a historiografia brasileira tem sido refém daquela matriz e parece estar buscando, na história do Brasil, semelhanças e manifestações da história da Europa ocidental. Portanto, podemos dizer que, no Brasil, fenômenos sociais, políticos, econômicos e culturais, têm sido interpretados à luz dos valores e concepções européias. Desta maneira, por exemplo, a violência política, a miséria e a pobreza, observadas por olhos ocidentais, serão assim qualificadas e vistas como uma grande injustiça. Não seria o caso, aqui, de serem vistas como grandes injustiças no ocidente, porém como justiça na lógica da população local. Tomemos o caso da violência política. Entre os estudos sobre a questão no Norte de Minas, destacamos o que temos utilizado como base para as nossas reflexões: o trabalho de Bernardo da Mata Machado, “História do Sertão Noroeste de Minas Gerais – 1690-1930”. Para o autor desta obra, “a luta pelo poder local, muitas vezes sangrenta, marcou a história política da região...” (p. 135). É certo que existiam os chamados chefes locais, amparados por parentes, agregados, compadres e por toda sorte de apaniguados e dependentes. Como também é certo que a violência caracterizava as relações, tanto horizontais, entre os chefes, como verticais, entre os chefes e sua clientela. Porém, podemos observar que a relação de tais chefes com seus apaniguados, por mais injustas e autoritárias que possam parecer, baseavam-se num princípio de reciprocidade e aliança. Tanto para a luta contra concorrentes na disputa pelo poder local, quanto para garantir a produtividade das terras e a sobrevivência material do grupo. Costa (1997), valendo-se de Queiroz (1976) e Leal (1948) nos diz: 14 ao descrevê-lo (o coronel) demonstraram o seu poder que se baseava em diversas ações: estendia-se a ponto de substituir o Estado e assumir, ele próprio, o seu papel para com as camadas inferiores da sociedade; através de trocas de favores a ele recorriam buscando solucionar a mais variada gama de necessidades pessoais ou da parentela (...). Articulando-se interna e externamente, os homens dessa região construíram uma identidade própria e uma cultura singular – a sertaneja – que Luz (1991) compreende como sendo fruto da relação estabelecida com a terra e com a natureza. Tratados como parceiros na reprodução da vida, constituíram coletivamente e viabilizaram um ‘modus vivendi’ que proporcionou uma cosmovisão inteira e integrada – holística – expressando-a no principal valor cultural: a solidariedade, através da parentela, bem como por relações de vizinhança e compadrio (p. 80). Contudo, aos olhos ocidentais, embaçados pela predominância das idéias iluministas da representatividade e do estado de direito, tudo isto era entendido como desordem e injustiça. Aliás, diga-se de passagem, imprimir ao outro a imagem do atraso é, em contrapartida, galgar para si a imagem do progresso. E a Europa iluminista sempre se esforçou em representar as formações sociais constituídas em outras bases, que não as suas, como atrasadas, negando-lhes assim, o status de proprietárias de conhecimento sistemático e desta forma, não apreendendo-as simplesmente como diferentes, como uma outra lógica, pois o pensamento europeu, em grande medida é atrelado à visão evolucionista do mundo e da humanidade. Sobre isto, Da Matta (2000) nos diz, falando do homem e deixando de lado as sociedades e culturas, fala-se de universalidades e de generalidades, jamais chegando perto das diferenças. É curioso observar essa ambigüidade diante do diverso e do específico, sobretudo em sociedades marcadas como é o caso da brasileira, por uma tendência hierarquizante. Tomando o homem como um ser da ‘resposta instrumental’, deixamos de lado a tarefa realmente básica de explicar as diferenças. (...) deixando de focalizar as diferenças, inventamos uma mentalidade ecológica, segundo a qual o homem não contempla nem pensa: ele apenas reage ao ambiente natural, como uma espécie de cão de Pavlov. E nesta mentalidade, essa resposta é tanto mais clara, quanto mais primitiva for a sociedade. Entre os índios brasileiros, que os antropólogos da ‘ciência ecológica’ percebem como primitivos, pois têm uma capacidade muito baixa de acumular energia, a sociedade somente reage de modo direto. Em tais sociedades não se contempla a possibilidade de o pensamento analítico existir de fato, de modo que o processo se passe ao contrário: com a sociedade provocando a mudança do ambiente em sua volta; ou pensando e experimentando com uma nova forma de organização social. Não! Só na nossa sociedade e no nosso sistema é que novas formas de relacionamento social podem ser descobertas ou inventadas (p. 43). A maior parte das interpretações do fenômeno do coronelismo, por exemplo, partem das concepções, primeiro da urgência da construção do Estado de direito no 15 Brasil e depois, de que a ausência deste tipo de Estado significa desordem e atraso e, até mesmo, ausência de civilização. Esta interpretação parece estar de acordo com o que diz da Matta, para quem, as sociedades que se formam sob uma matriz diferente da racional-iluminista, não são capazes de organização, de ordem e de progresso. A própria nominação “coronelismo”, nos parece um tanto quanto depreciativa das relações de poder no nível local, já que, na historiografia, o termo é representado como símbolo de autoritarismo e violência e, se pensarmos nas exigências para a construção do Estado de direito, como desordem e atraso. Carone (1973) tratando de definir coronelismo nos diz: a nossa formação histórica fez-se de maneira dispersa e desconexa. A falta de centralização resultou em liberdades locais e no fortalecimento de instituições sociais peculiares: o poder torna-se privilégio de uma camada social que possui os bens de produção – a terra – e a liderança política. O fenômeno do coronelismo tem suas leis próprias e funciona na base da coerção da força e da lei oral, bem como de favores e obrigações. Esta dependência é fundamental: o coronel é aquele que protege, socorre, homizia e sustenta materialmente os seus agregados; por sua vez, exige deles a vida, a obediência e a fidelidade. É por isso que coronelismo significa força política e força militar (p. 66). Analisando a interpretação de Carone, podemos inferir que, 1) o autor parece entender a “centralização” – que aqui chamamos de Estado de direito – como um elemento ordenador e construtor da unidade nacional; 2) em contrapartida, o que ele chama de “liberdades locais”, parece ser um fator desordenador e mesmo desagregador; 3) ao mesmo tempo em que apresenta o coronel como um tirano, o apresenta como um provedor ao dizer que, “é ele que protege, socorre, homizia e sustenta materialmente os seus agregados”; e 4) coronelismo, para o autor, significa tirania, já que o coronel, como diz Carone, exige de seus agregados “a vida, a obediência e a fidelidade”. Se observarmos o fenômeno do coronelismo como descrito por Carone, perceberemos que há, entre o coronel e seus apaniguados, uma troca calcada no princípio da reciprocidade: o coronel provém e em troca recebe a fidelidade dos providos e isto é claro no texto do autor, mesmo que ele não tenha pretendido dizê-lo. Nesta perspectiva, a “exigência da vida, da obediência e da fidelidade” se torna questionável. É preciso perceber, que na relação com os seus agregados, o coronel dava uma contrapartida. Esta concepção de coronelismo, proposta por Carone, predomina, no Brasil, praticamente em todos os estudos sobre a questão, na historiografia, na sociologia e nas 16 ciências humanas em geral. E, não poderia ser diferente, foi a concepção projetada sobre os líderes políticos locais do Norte de Minas. Esta interpretação do poder local, além de tudo, invoca um par de opostos: o coronel tirano e o agregado submisso e passivo – vítima. E é esta concepção que estamos questionando a partir da seguinte pergunta: de acordo com as lógicas e cultura locais, seriam os coronéis realmente tiranos e os agregados realmente vítimas da tirania dos primeiros? Supomos, partindo destes questionamentos que a relação dos agregados com os coronéis, se a analisarmos pelo princípio da reciprocidade, se tomarmos como referência a proposição maussiana da dádiva, assume uma outra perspectiva, diversa da que reduz o coronelismo à tirania e mandonismo. Campbel (1970), nos diz, relações de patronagem produzem uma certa eqüidade na distribuição de facilidades e privilégios e coloca alguns obstáculos na vitimização do indivíduo, por se constituir em estrutura hierárquica paralela àquela do governo, porém de natureza igual. É através dela que o cliente, excluído da hierarquia governamental, pode ser capaz, vicariamente, de estar ligado à mais ampla sociedade nacional (apud. Costa [1999]). Essas relações, baseadas nos princípios da dádiva e da reciprocidade, no código cotidiano de leis, na pessoalidade e na liberdade em relação a um poder imposto de fora, que configuram uma das características do que Costa (1997), chama de “cultura sertaneja”, sofrerão a desestruturação/reestruturação que estamos propondo como derivação da conexão do norte de Minas à rede urbana do sudeste e ao mercado global. Tomando as palavras de Costa (op. Cit.), a partir da década de quarenta deste século, entram em fenecimento as alianças baseadas na parentela e em relações de vizinhança e compadrio que propiciavam o estabelecimento de solidariedade entre grandes fazendeiros e agregados, sitiantes e posseiros. Com a modernização do Estado e da economia brasileira a partir da revolução burguesa de 30, os grandes proprietários da região iniciaram o estabelecimento de alianças horizontais, entre seus pares, através das sociedades e sindicatos rurais (p. 81). Em 1940, o norte de Minas Gerais já estava conectado à rede urbana do sudeste. A ferrovia, ligando Montes Claros a Belo Horizonte, já havia chegado em 1926. A conexão à rede capitalista envolveu a região na busca do desenvolvimento, do moderno e desestruturou/reestruturou as suas relações sociais, políticas, materiais e culturais anteriores, que passaram a ser representadas como símbolo de atraso e de ausência de 17 civilização. Porém, o que deve ser observado é que tal reestruturação destituiu a população local de suas lógicas, de suas formas de produção material e imaterial da vida, de seu conhecimento, de suas técnicas. O conhecimento local ficou relegado ao passado e ao esquecimento ou foi apropriado pelo capital e pelo mercado. Em outras palavras foi transformado em fonte lucro, perdendo assim a função de estratégia de sobrevivência da população local. E quando não, foi representado como atraso ou estágio primário na escala evolutiva como entendida na cosmologia ocidental. É recorrente, na literatura que aborda o processo histórico norte-mineiro, a comparação da fartura anterior com a penúria posterior à conexão do sertão à rede urbana do Centrosul. Esta desestruturação foi, por outro lado, reestruturadora. Para Maia (2004), estudando as migrações, o gênero e a reciprocidade no Vale do Jequitinhonha, “riqueza” e “pobreza”, “fartura” e “faltas” são aspectos que acompanham a trajetória da região desde a sua ocupação. Como conseqüência da atividade mineradora, e da produção do algodão de alta qualidade, o Vale do Jequitinhonha constitui-se durante os séculos XVIII e início do século XII (sic) numa das regiões mais prósperas do país. Hoje, contraditoriamente, a região é conhecida como o “Vale da Miséria” (...). A expansão da economia de mercado no vale, principalmente a partir do processo de modernização da agricultura (...) conduziram as famílias camponesas, através dos homens adultos, a novas estratégias de reprodução social (p. 20). O que percebemos, no norte de Minas, é um processo semelhante ao do Vale do Jequitinhonha. Ou seja, as relações de mercado agindo como um fator desestruturador / reestruturador do modo de vida local. Porém, como se deu essa reestruturação? Aqui, a nossa preocupação será com a reestruturação do espaço, especialmente no Norte de Minas Gerais e na cidade de Montes Claros. Espaço que acreditamos ter sido reestruturado pela busca da modernidade e do desenvolvimento que agiram como elementos espraiadores do mercado, das lógicas do capital e da civilização ocidental. Espaço que foi relayoutizado de acordo com as representações sociais do desenvolvimento e de acordo com as necessidades da velocidade e da fluidez que o mercado exige. Nesse processo, as lógicas, as técnicas, o conhecimento e a cultura local foram reinventados e readequados às novas exigências por ele criadas. 18 Conexão, modernização, desenvolvimento, reestruturação e relayotização do espaço em montes claros Como propusemos anteriormente, o Norte de Minas Gerais e a cidade de Montes Claros, estiveram por um bom período de tempo, devido ao isolamento a que ficaram relegados, desde o período colonial, até, mais ou menos, a sua conexão à rede urbana do Centro-Sul e, através dela, a um mercado global, às margens dos padrões do constructo sócio-cultural e político-econômico moldados pela matriz iluminista da modernidade e do progresso. Partindo desse pressuposto, acreditamos ter ocorrido na região a conformação de estruturas sociais diferenciadas com relações de produção “précapitalistas”, mais baseadas nas lógicas locais e na utilização mais equilibrada dos recursos naturais. Esta autonomia da vida sertaneja sempre causava estranheza e admiração aos que tentavam descrever os aspectos naturais e antrópicos da região. Estranheza e admiração potencializadas principalmente naqueles que tentavam entender a região pelas lentes da modernidade ocidental, do capitalismo, do mercado e da racionalidade científica. Era muito difícil aos que analisavam a região, a partir daquela matriz, a apreensão de algumas lógicas regionais, sem adjetivá-las, de atrasadas, pouco evoluídas, inadequadas e ineficientes, bárbaras e não civilizadas. Contudo, o que tínhamos, era uma região com um riquíssimo manancial de conhecimentos e técnicas que lhe davam as bases de uma formação social, de relações políticas e econômicas e de culturas menos atreladas aos interesses do capital e do mercado. Relações mais baseadas nos princípios da reciprocidade e da dádiva. Não estamos querendo dizer que não haviam conflitos, desigualdades e exploração do homem pelo homem. O que pretendemos fazer entender é que, tanto as convergências como as divergências, na região, estavam baseadas em outras lógicas que não aquelas advindas da modernidade ocidental capitalista e racional-científica. E estas lógicas eram a base da estruturação de relações sociais, políticas, econômicas e sociais que a tipificaram. O caractere do universalismo, muito presente na racionalidade ocidental, desconsidera a diversidade de conhecimentos. A cosmologia do ocidente então se impõe sobre as outras culturas e tende a apagá-las. De acordo com Wallerstein, 19 Diz-se que o progresso científico e tecnológico é inquestionável e surpreendente, o que seguramente é verdade, especialmente na medida em que a maior parte do conhecimento técnico é cumulativa. Mas nunca discutimos seriamente quanto conhecimento perdemos com a ‘varrida’ mundial da ideologia universalista. Ou se discutimos, qualificamos o conhecimento perdido como mera (?) sabedoria. Mas, nos simples níveis técnicos da produtividade agrícola e integridade biológica, estamos tardiamente descobrindo que os métodos de ação humana descartados há um ou dois séculos (um processo imposto pelas elites iluminadas sobre as massas atrasadas) muitas vezes precisam ser ressuscitados, porque se mostram mais, e não menos, eficientes. A um nível mais importante, estamos descobrindo, nas próprias ‘fronteiras’ da ciência avançada, a reinserção experimental de premissas triunfalmente descartadas há um ou cinco séculos (p. 83). Assim, acreditamos que as bases locais de constructo social, político, econômico e cultural serão desestruturadas a partir da inserção do Norte de Minas e de Montes Claros na rede urbana do Centro-Sul e reestruturadas devido à chegada de outras lógicas pelo emaranhado de artérias dessa rede. E essas outras lógicas chegantes de que estamos falando, são as lógicas da modernidade ocidental iluminista, do progresso, da racionalidade científica, da acumulação capitalista e do universalismo. Sendo assim, precisamos analisar a conexão de Montes Claros à citada rede urbana, por si só entendida como integração ao mundo civilizado e caminho para o progresso. O marco temporal que utilizando para a conexão é o da chegada da ferrovia em Montes Claros em 1926. Sabemos que outras iniciativas de integração da região foram tentadas desde o século 19: os planos e tentativas de fomentar a navegação pelo Rio São Francisco, as tentativas anteriores de construção de ferrovias de integração, desde então, tinham por objetivo, romper o isolamento de algumas regiões com o intuito de integrar o território. Porém, apesar das citadas tentativas, seus efeitos foram inócuos. Entendemos que, com a chegada da ferrovia é que essa intenção integradora do território começou a ter uma correspondência real e concreta. Observando o desenvolvimento no norte de Minas Gerais e especialmente na cidade de Montes Claros, sobre a qual projetou-se a imagem de mais desenvolvida da região, notamos que o meio-técnico-científico-informacional e o sistema de objetos foram operacionalizados pela sua inserção em um complexo de redes urbanas hierarquizadas e ligadas ao eixo São Paulo/Belo Horizonte. Essa rede urbana, ela própria representada como progresso, constitui-se em fator de fluidez, pelo espaço, dos objetos técnicos, da ciência e das informações hegemônicas no ocidente capitalista. Em outras palavras, a rede urbana, na qual Montes Claros se inseriu, ou foi inserida, foi a 20 artéria que alimentou o desenvolvimento da cidade e a levou ao meio técnico-científicoinformacional e ao sistema de objetos. A cidade, como tantas outras, a partir de sua conexão à rede urbana, passou a buscar a todo custo o desenvolvimento. Seus esforços, seus recursos, sua gente foram canalizados para este fim, o da inserção da cidade no mundo desenvolvido, no mundo civilizado. Nessa busca, a cultura e o conhecimento local foram sendo esquecidos, abandonados. O desenvolvimento, em Montes Claros, trouxe novas contradições e necessidades, transformado o modo de vida e os valores de sua gente que teve de se adaptar a ele por um processo de desestruturação / reestruturação. Estamos falando então de duas épocas distintas, uma anterior que será desestruturada e outra, contemporânea do desenvolvimento e reestruturada. E esse processo, insisto em dizer, foi acionado pela conexão ferroviária em 1926. Cardoso (1996), informa que, a ligação ferroviária começa a romper com o isolamento ao qual a região foi submetida desde o início do século XVIII, especialmente a partir da sedição de 1736. E representou muito mais que uma possibilidade para o incremento das relações comerciais da região: ela foi, na realidade, a via pela qual o Norte de Minas começa a integrar a dinâmica econômica do Centro-Sul do país (p. 42). Lessa (op. Cit.), foi mais além. Já no título de seu trabalho: “Trem de Ferro – do cosmopolitismo ao sertão”, a autora nos dá uma idéia de que a conexão à rede urbana do Centro-Sul alterou muito mais do que a dinâmica econômica regional. Para ela, a conexão foi também a via pela qual os padrões civilizatórios ocidentais, baseados na visão iluminista de progresso, adentraram a região e alteraram suas lógicas, sua cultura e seus conhecimentos. Segundo Lessa, “a ferrovia, símbolo da era urbano-industrial, é vista como a mensageira maior da civilização, da ordem e do progresso, para o interior ‘atrasado e incontrolável’ dos sertões; ela seria o veículo da inserção do sertão na lógica da ordem capitalista cosmopolita” (p. 159). 21 Conclusão Montes Claros ganhou, com a conexão, o papel de pólo regional na medida em que o Sudeste se transforma no centro dinâmico da economia nacional e em que se inseria na rede urbana que começa em São Paulo e passa por Belo Horizonte. Conforme Oliveira et al. (2000), essa conexão “reforça a tendência da comercialização com estas regionais, fluxo que passa por Montes Claros, seja como coletor dos produtos regionais e distribuição dos ‘importados’” (p. 26). Sobre a importância da conexão à rede urbana do sudeste através da ferrovia, aqueles autores nos dizem, ... para Montes Claros a chegada das paralelas de aço e sua interrupção aqui, por quase 20 anos, consolidou em definitivo sua posição de centro coletor da produção regional e distribuição de bens importados. (...). Estradas estaduais de terra rasgaram o sertão para ligar a ferrovia aos municípios próximos e longínquos. (...). O comércio desenvolveu-se extraordinariamente em todos os setores. A importação é quase ilimitada, principalmente de Belo Horizonte, Juiz de Fora e São Paulo, por estrada de ferro, caminhões e aviões. Há grandes casas atacadistas, que vendem aos municípios do Norte de Minas e Sul da Bahia. (p. 26). Ao integrar uma rede urbana hierarquizada, Montes Claros se desenvolveu economicamente e assumiu a função de centro regional, principalmente após a criação da SUDENE. Fato que esteve também, associado ao isolamento da cidade, distante dos grandes centros e ás condições locais – densidade populacional, infra-estrutura, etc. Ressalte-se que esses fatores citados, localizam-se em uma época em que a plugagem da cidade à rede urbana do sudeste era ainda relativamente precária. Contudo, tal desenvolvimento e polarização da cidade, gestou uma série de novas contradições e disparidades. Para Milton Santos (1992), 22 o aumento da densidade de capital tem nas áreas agrícolas um muito forte poder de contágio, arrastando no mesmo movimento as áreas vizinhas e as atividades complementares. Isto conduz, às vezes muito rapidamente (...) á tendência à ‘desculturização’ da área, na medida em que a substituição das pessoas, a alteração dos equilíbrios sociais de poder, a introdução de novas formas de fazer, geram desequilíbrios dos quais resultam, de um lado, a migração das lideranças locais tradicionais e a quebra de hábitos e tradições, e, de outro lado, a mudança de formas de relacionamento produzidas lentamente durante largo tempo e que se vêem, de chofre, substituídas por novas formas de relações cuja raiz é estranha e cuja adaptação ao lugar tem um fundamento puramente mercantil (p. 46). Enfim, cria-se a ilusão da modernidade, através da qual o meio técnico-científico se impõe com as suas desarticulações resultantes. “O uso do espaço se tornou mais capitalístico” (SANTOS, 1992; 42). Através da rede, Montes Claros recebe ou é invadida pela “modernidade”. “O sistema técnico dominante no mundo de hoje tem uma outra característica, isto é, a de ser invasor” (Idem, 26.). Ser moderno, diga-se “civilizado”, torna-se imperativo. Segundo a professora Simone Lessa (op. Cit.), A velocidade e a simultaneidade com que a informação chega atualmente aos diferentes pontos do planeta, apontando para uma “tendência homogeneizante”, faz de nós habitantes de um mundo onde as distâncias e o tempo são superados pelas telecomunicações e pelo aperfeiçoamento tecnológico dos meios de transportes. Para que possamos entender como chegamos a esse nosso complexo mundo “unificado” pelos meios de comunicação, investigamos a constituição dessa rede à qual estamos emaranhados. Procedendo a investigação nos deparamos com transformações sem precedentes que ocorreram no sistema de comunicação e transporte, a partir da primeira metade do século 19, em vários países do mundo, inclusive no Brasil. (p. 10) A chegada da ferrovia abriu um corredor, através do qual Montes Claros foi plugada na rede do sudeste. A partir daí, o fluxo de informações, de representações, de objetos e de interesses econômicos se tornou mais intenso e agiu como um agente transformador. A cidade e, por extensão a região norte-mineira, antes quase que isolada e vivendo, senão relações pré-capitalistas, pelo menos relações relativamente nãocapitalistas, é integrada a um mercado mundial, passando a transitar para o capitalismo. A cidade vai se transformando, incorporando uma nova lógica e caminhando para um novo modo de viver e de se reproduzir, os objetos técnicos vão se tornando mais presentes no espaço e o modo de vida local vai se transformando em favor dos interesses mercantis dos centros hegemônicos na economia mundial e passa a 23 simbolizar atraso e até mesmo, não-civilização, dando à chegada do capitalismo um simbolismo contrário: o de civilização. A simples chegada da ferrovia, já trazia consigo a euforia civilizatória. Ela foi representada com uma verdadeira revolução dos transportes que traria o progresso. De acordo com Lessa (op. Cit.), Os conceitos Revolução Industrial e Revolução dos Transportes impuseram à mentalidade de nossa época; na medida em que a ele foram se incorporando várias imagens caras ao século 19 e ao século 20, tais como: civilização, industrialização, progresso etc (p.16). Enfim, a análise das transformações produzidas pela plugagem de Montes Claros à rede urbana São Paulo/Belo Horizonte, moldada pelos interesses do capital, foi representada socialmente como uma via para a civilização e para o progresso. Por isso, entendemos ser necessária uma abordagem crítica das visões correntes de civilização já que, ao aceitar um novo padrão civilizacional, aceita-se, em contrapartida, a idéia de não-civilização. E, afinal, não-civilização é uma representação largamente projetada aos sertões que não estavam plugados ao mundo “civilizado”. Torna-se fundamental, portanto, fazer o seguinte questionamento: Se a região não era civilizada, que tipo de relações nela existiam? Quais eram as estratégias de sobrevivência material e imaterial e de convívio social de sua população? Quais eram as suas lógicas e os seus conhecimentos e as suas técnicas? Que transformações e impactos, no modo de vida local, foram produzidos pela chegada da “civilização” pelas artérias da rede urbana capitalista? 24 Referências bibliográficas ANASTASIA, Carla Maria Junho. A Sediação de 1736: estudo comparativo entre a zona dinâmica da mineração e a zona marginal do sertão agropastoril do São Francisco. Belo Horizonte, 1983, Mimeo. (Dissertação de mestrado, Departamaneto de Ciência Política, FAFICH, UFMG) ARRIGHI, Giovanni. Globalização e macrossociologia http://www.revistasociologiaepolitica.org.br/resumo.php?pidtexto=117 histórica. BASSIN, Mark. “Inventing Siberia: Visions of the Russian East in the Early Nineteenth Century”. in.: The American Historical Review, 1991. BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. ⎯. Les Sens Pratique. 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