1 Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico - CNPq Secretaria de Desenvolvimento Territorial - SDT Universidade Federal do Amazonas - UFAM RELATÓRIO ANALÍTICO TERRITÓRIO RURAL MANAUS E ENTORNO - AMAZONAS Manaus, setembro de 2011 2 EQUIPE: Coordenação Antônio Carlos Witkoski Vice-coordenação Therezinha de Jesus Pinto Fraxe Professor-colaborador Davyd Spencer Ribeiro de Souza Kátia Viana Cavalcante Técnico da Célula de Acompanhamento e Informação Maria Elizabeth de Assis Elias Bolsistas Álvaro Jardel Conceição Santos de Oliveira Francisca Bispo de Sousa Colaboradores Allison dos Santos Andrade Amanda Nina Ramos Christiane Albuquerque Feitoza Guilherme Henriques Soarez Gleide de Souza da Costa Janaína de Aguiar Marinete da Silva Vasques Paulo Rodrigo de Sousa Santos Ricardo de Oliveira e Silva Rila da Costa Arruda Talita dos Reis Guimarães Apresentação 3 A abordagem aqui pretendida toma como aporte teórico-metodológico as contribuições conceituais referentes ao estudo das políticas públicas, no contexto do qual o Programa de Desenvolvimento Sustentável dos Territórios Rurais – PDSTR pode ser tomado como um tipo de ação pública, cuja implementação aponta para a necessidade de uma análise sistemática do processo de gestão. A abordagem da estratégia de desenvolvimento territorial sob o ponto de vista das políticas públicas coloca em destaque o estudo da ação pública, isto é, da ação do Estado em face das demandas da sociedade. Deste modo, o foco da investigação não é o Estado em si, mas a sua ação, isto é, a forma e os procedimentos adotados ao longo da formulação e implementação das políticas públicas. A política assume papel imprescindível na coordenação das políticas públicas, uma vez que estas são, na verdade, outputs, isto é, resultados da atividade política. Neste sentido, “as políticas públicas [...] compreendem o conjunto das decisões e ações relativas à alocação imperativa de valores” (RUA, 1998: 232). Esta compreensão acerca da relação entre política e ação pública revela uma importante distinção: a de que política pública e decisão política não é a mesma coisa. A política pública é o resultado de um conjunto de diferentes decisões e ações estratégicas selecionadas ou demandadas para implementar aquilo que foi decidido ou deliberado. Já a decisão política tem a ver com a escolha feita dentre uma diversidade de possibilidades. Tem a ver também com a hierarquia das referências dos atores envolvidos, expressando uma certa adequação entre os fins pretendidos e os meios disponíveis. “Assim, embora uma política pública implique decisão política, nem toda decisão política chega a constituir uma política pública” (Idem, p. 232). A dimensão política constitui, portanto, uma das questões centrais da investigação sobre o PDSTR, entendido aqui como um tipo de ação pública que resulta de um conjunto de decisões políticas tomadas no âmbito da esfera pública política, cuja formação se dá principalmente pela reunião de atores vinculados ao poder público, mas também à sociedade civil. Um aspecto importante a salientar na formulação de políticas públicas diz respeito às demandas da sociedade, ou seja, as necessidades expressas por determinados grupos ou amplos setores da sociedade. Trata-se, neste caso, de reivindicações das mais diversas possíveis, não limitadas a bens e serviços imediatos, como saúde, educação e etc. Tais reivindicações podem ser, inclusive, da ordem da participação no sistema político, de controle da ação pública, dentre outras. O conflito social no âmbito das políticas públicas também constitui uma questão importante, uma vez que a arena política de tomada de decisão é composta de diferentes atores políticos, cuja ação é movida por diferentes interesses e demandas. Estes atores têm algo a ganhar ou perder com as decisões tomadas acerca de uma política pública. A política, neste sentido, aparece como meio necessário para a resolução de conflitos de interesse e conseqüentemente para o estabelecimento de acordos racionais legítimos e aceitos pelos atores participantes do processo, dentre os quais os atores públicos – políticos e burocratas – e os atores privados – empresários (RUA, 1998). 4 Em face da variedade de atores que constituem a arena política, é importante compreender a dinâmica das relações entre os atores. Esta dinâmica pode revelar uma luta social pela efetivação de fins particulares, onde um grupo pode ganhar, ter sucesso, e outro perder. Todavia, não se trata de uma forma rígida de perda e ganho para os atores envolvidos, já que os interesses podem ser relativizados. Importa também destacar os jogos e debates concernentes à dinâmica das relações entre os atores. O debate, em particular, ocorre mediante o processo discursivo-argumentativo “[...] em que cada um procura convencer o outro da conveniência de suas propostas, de tal maneira que o que vence é aquele que se mostra capaz de transformar o adversário em um aliado. Aqui, a lógica é a persuasão, envolve análise e argumentação, e o conhecimento técnico desempenha um papel dos mais relevantes” (Idem, p. 242). A investigação acerca da dinâmica das relações entre os atores políticos é fundamental para a compreensão da própria implementação do PDSTR. A tomada das relações políticas entre os atores como objeto de estudo visa apreender o sentido da ação social, os interesses e preferências que marcam as identidades dos atores e grupos sociais. Assim, torna-se imprescindível analisar o processo de formação dos acordos e das deliberações realizadas pelo conjunto dos atores sociais. De mesma forma, a capacidade de persuasão, o domínio do conhecimento técnico, a troca de favores, as manifestações e proposições oriundas da pressão pública, também constituem objeto de investigação do jogo político e das relações estabelecidas entre os atores políticos, os quais aparecem como atores específicos e não entidades genéricas como “a sociedade” ou “o governo” (RUA, 1998). Importante salientar que a abordagem do PDSTR sob o ponto de vista teórico-conceitual das políticas públicas coloca em relevo a necessidade de identificar com clareza e precisão o “problema político” que norteia a agenda governamental, constituindo-se em uma prioridade para os tomadores de decisão vinculados à esfera pública administrativa. O problema político se distingue de um mero “estado de coisas”, isto é, de algo que pode incomodar, prejudicar, gerar insatisfação para muitos indivíduos, mas que não chega a ser discutido, problematizado e definido como um problema a ser incorporado pela agenda governamental para uma possível solução. Deste ponto de vista, este estudo ora em curso busca identificar e analisar o problema político central que constitui o objeto da ação do PDSTR e dos atores em nível local. Sabe-se, contudo, que o problema político de uma política pública pode aparecer como um conjunto articulado de problemas que demandam uma ação holística, integrada e efetiva por parte do poder público, no sentido de dar conta do problema tanto do ponto de vista macro, quanto do ponto de vista micro, de forma que, assim, os resultados da ação sejam sensíveis para aqueles que a demandam. Em face disto, o foco da pesquisa busca analisar o PDSTR, mais precisamente a gestão social do território, ao longo de um processo, cujo desdobramento compreende a formulação, a tomada de decisão, a implementação e a própria avaliação de sua efetividade. Neste sentido, ao estudarmos a gestão do PDSTR mediante a separação das etapas de formulação, de decisão, implementação e 5 avaliação dos resultados buscamos facilitar o processo de análise, uma vez que tal seguimentação não constitui, na prática, um fato real ao longo do processo político (RUA, 1998). Nossa preocupação acerca do PDSTR refere-se precisamente a sua implementação, a qual diz respeito às ações necessárias para que uma política saia do papel e funcione efetivamente. Assim, a implementação “pode ser compreendida como o conjunto de ações realizadas por grupos ou indivíduos, de natureza pública ou privada, com vistas à obtenção de objetivos estabelecidos antes ou durante a execução das políticas” (Idem, p. 252). Deste modo, a análise da implementação não pode deixar de investigar o tipo de política e de arenas políticas que abrange todo o processo de construção e efetivação de uma política pública. “[...] diferentes tipos de políticas e de arenas políticas envolvem diferentes participantes com distintos níveis de envolvimento, conforme o que esteja em jogo no momento. Assim, alguns tipos de políticas podem ser mais ou menos difíceis de implementar, podem ter maior ou menor probabilidade de interferência externa” (Ibidem, p. 254). Deste ponto de vista, busca-se analisar o tipo de política e de arena política no contexto dos quais se insere o PDSTR. O CODETER é tomado aqui como um tipo de arena política significativa, na qual está inserida uma pluralidade de atores políticos vinculados à sociedade civil, ao poder público e ainda ao setor privado. Na abordagem desta arena política, considera-se o contexto inter e intraorganizacional no qual ocorre a implementação; e o mundo externo sobre o qual a política deverá exercer seu impacto. Portanto, a investigação acerca do PDSTR apóia-se na idéia de implementação como “a formulação em processo”, uma vez que nem sempre todas as decisões são tomadas durante fase que se convencionou chamar de formulação. Na verdade, existem diversas razões para que boa parte das decisões seja adiada para a fase de implementação, tornando a efetivação do Programa ou da política pública um processo não dinâmico e passível de mudanças e intervenções. Assim, “o processo de implementação pode ser uma seqüência da formulação, envolvendo flexibilização, idas e vindas, um contínuo processo de interação e negociação ao longo do tempo, entre aqueles que querem pôr em prática uma política e os responsáveis pela execução dessa política” (Ibidem, p. 257). 6 Lista de Siglas CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico SDT – Secretaria de Desenvolvimento Territorial UFAM – Universidade Federal do Amazonas SEPLAN – Secretaria de Planejamento IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística SEGOV – Secretaria de Governo IDH – Índice de Desenvolvimento Humano IDAM – Instituto de Desenvolvimento Agrário do Estado do Amazonas ECT – Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos COSAMA – Companhia de Saneamento do Amazonas CEAM – Companhia Energética do Amazonas ONG – Organização Não-governamental FEMUPA – Festival da Música Popular de Autazes FECANON – Festival da Canção de Nova Olinda do Norte PNATER – Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural ATER - Assistência Técnica e Extensão Rural FECANI – Festival da Canção de Itacoatiara ZFM – Zona Franca de Manaus CNM – Confederação Nacional de Municípios SUSAM – Secretaria de Saúde do Estado do Amazonas FUNASA – Fundação Nacional de Saúde SGE – Sistema de Gestão Estratégica MDA – Ministério do Desenvolvimento Agrário SDT – Sindicato dos Trabalhadores Rurais CAI – Célula de Acompanhamento e Informação PIM – Parque Industrial de Manaus NUSEC – Núcleo de Socioeconomia PTDRS – Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentável CODETER – Colegiado de Desenvolvimento Territorial SEPROR – Secretaria Estadual de Produção Rural SEARP – Secretaria de Articulação de Políticas Públicas CMDRS – Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável CEF – Caixa Econômica Federal ICV – Índice de Condições de Vida Ceb – Comunidades Eclesiásticas de Base Pronaf – Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar LISTA DE FIGURAS 7 Figura 01 – Identidade Territorial Manaus e Entorno...........................................................................................57 Figura 02 – Definição dos limites do território Manaus e Entorno.......................................................................58 Figura 03 – Visão de futuro do território Manaus e Entorno................................................................................59 Figura 04 – Características marcantes do território Manaus e Entorno...............................................................62 Figura 05 – História comum do território Manaus e Entorno...............................................................................63 Figura 06 – Principais conflitos no território Manaus e Entorno..........................................................................65 Figura 07 – Biograma dos indicadores de capacidades institucionais.................................................................68 Figura 08 – Quantas reuniões formais o colegiado realizou desde a sua constituição........................................80 Figura 09 – Com que freqüência a plenária do colegiado se reúne.....................................................................81 Figura 10 – Como é avaliada a capacidade de decisão de cada um dos seguintes membros do colegiado........82 Figura 11 – Mecanismos utilizados para a tomada de decisões do colegiado.....................................................83 Figura 12 – Freqüência dos temas tratados no colegiado....................................................................................90 Figura 13 – Elaboração de documentos que contenha uma visão de longo prazo do território..........................91 Figura 14 – Papel desempenhado pelo colegiado territorial na elaboração do PTDRS.....................................93 Figura 15 – Freqüência dos problemas que prejudicam o desempenho do colegiado........................................94 Figura 16 – Mecanismos de comunicação utilizados pelo colegiado para informar suas ações e decisões à comunidade.............................................................................................................................................................98 Figura 17 – Mapa do Território Rural Manaus e Entorno.................................................................................108 Figura 18 – Faixa etária dos/as entrevistados/as ICV, 2011..............................................................................115 Figura 19 – ICV familiar.....................................................................................................................................127 Figura 20 – ICV Agricultura Familiar................................................................................................................128 Figura 21 – ICV com produção...........................................................................................................................129 Figura 22 – ICV sem produção...........................................................................................................................129 Figura 23 – Análise integradora de indicadores e contextos.............................................................................138 8 LISTA DE TABELAS Tabela 01 – Indicadores na Área de Serviços de Saúde nos Municípios do Polo 2...............................................32 LISTA DE QUADROS 9 Quadro 01 – Informações gerais sobre os municípios do polo 1...........................................................................15 Quadro 02 – Aspectos da situação geográfica e ambiental....................................................................................15 Quadro 03 – Aspectos demográficos da população residente no município..........................................................17 Quadro 04 – Aspectos econômicos dos municípios do polo 1................................................................................17 Quadro 05 – Serviço de assistência técnica e extensão rural nos municípios do polo 1.......................................18 Quadro 06 – Indicadores na área de serviços de saúde nos municípios do polo 1...............................................19 Quadro 07 – Indicadores da área do sistema educacional nos municípios do polo 1..........................................20 Quadro 08 – Aspectos da infraestrutura básica dos municípios do polo 1...........................................................21 Quadro 09 – Eventos culturais nos municípios do polo 1.....................................................................................23 Quadro 10 – Informações gerais sobre os municípios do polo 2..........................................................................28 Quadro 11 – Aspectos da situação geográfica e ambiental..................................................................................29 Quadro 12 – Aspectos demográficos da população residente no município........................................................30 Quadro 13 – Aspectos econômicos dos municípios do polo 2..............................................................................31 Quadro 14 – Assistência técnica e extensão rural nas comunidades pesquisadas..............................................32 Quadro 15 – Indicadores da área do sistema educacional nos municípios do polo 2.........................................33 Quadro 16 – Aspectos da infraestrutura básica dos municípios do polo 2..........................................................34 Quadro 17 – Eventos culturais nos municípios do polo 2....................................................................................35 Quadro 18 – Informações gerais sobre os municípios do polo 3.........................................................................41 Quadro 19 – Aspectos da situação geográfica e ambiental.................................................................................42 Quadro 20 – Aspectos demográficos da população residente nos municípios do polo 3....................................43 Quadro 21 – Aspectos econômicos dos municípios do polo 3.............................................................................44 Quadro 22 – Serviço de assistência técnica e extensão rural nos municípios do polo 3.....................................45 Quadro 23 – Indicadores na área de serviços de saúde nos municípios do polo 3..............................................46 Quadro 24 – Indicadores na área do sistema educacional nos municípios do polo 3.........................................47 Quadro 25 – Aspectos da infraestrutura básica dos municípios do polo 3..........................................................48 Quadro 26 – Eventos culturais nos municípios do polo 3....................................................................................49 Quadro 27 – Metas e objetivos do território Manaus e Entorno..........................................................................60 Quadro 28 – Indicadores de capacidade institucionais.......................................................................................67 Quadro 29 – Municípios e comunidades de aplicação do ICV no território Manaus e Entorno.......................109 Quadro 30 – Os principais produtos da agricultura familiar de acordo com os municípios que compõem a pesquisa do ICV...................................................................................................................................................112 Quadro 31 – Componentes da infraestrutura física básica nas comunidades rurais.........................................117 Quadro 32 – Principais componentes domésticos nos domicílios rurais...........................................................118 Quadro 33 – Fatores do desenvolvimento..........................................................................................................119 Quadro 34 – Características do desenvolvimento..............................................................................................121 Quadro 35 – Efeitos do desenvolvimento...........................................................................................................124 SUMÁRIO 10 1 Contextualização....................................................................................................................11 2 Identidade Territorial............................................................................................................50 3 Capacidades Institucionais....................................................................................................67 4 Gestão do Colegiado..............................................................................................................74 5 Avaliação dos Projetos .......................................................................................................100 6 Índice de Condições de Vida................................................................................................105 7 Análise Integradora de Indicadores e Contextos.................................................................137 8 Propostas e Ações Território....................................................................................144 Anexo: validação de instrumentos e procedimentos para o 11 1 Contextualização As informações dos municípios que compõem o Território Manaus e Entorno envolvem as principais características sobre as dimensões geográficas, histórica, demográfica, econômica e de infraestrutura de 13 municípios, divididos territorialmente em 3 Pólos, tais como; Pólo 1: Manaquiri, Autazes, Careiro da Várzea, Careiro Castanho e Nova Olinda do Norte, Pólo 2: Itapiranga, Silves, Itacoatiara e Urucurituba, Pólo 3: Manaus, Iranduba, Rio Preto da Eva e Presidente Figueiredo. Localizam-se no Estado do Amazonas na região Norte do Brasil. A análise de caracterização desses municípios seguirá essa organização territorial em Pólos conforme será apresentada a seguir. Pólo 1: Manaquiri, Autazes, Careiro da Várzea, Careiro-Castanho e Nova Olinda do Norte Aspectos Históricos Manaquiri Suas origens remetem ao município do Careiro Castanho, cujo povoamento da região ganha impulso a partir de 1877, com a chegada numerosa de nordestinos, principalmente cearenses. Em 1938, com o desenvolvimento local, é criado o distrito de Careiro como parte do município de Manaus. Em 1955, o Careiro é desmembrado, passando a constituir município autônomo. Em sua estrutura administrativa figuram os seguintes subdistritos: Careiro, Curari, Garupá, Mamori, Janauacá, São Joaquim e Manaquiri. Em 10 de dezembro de 1981, pela Emenda Constitucional nº 12, o distrito de Manaquiri, acrescido de outros territórios também do Careiro e mais áreas contíguas de Manacapuru e Borba, passa a constituir o município autônomo de Manaquiri (CNM, 2011; SEPLAN, 2011). Autazes Era uma região bastante conhecida já no Século XVIII, pela habitação dos índios Mura famosos por resistirem ao sistema colonizador dos portugueses. A origem do nome "Autazes" vem dos rios Autaz-Açú e Autaz-Mirim, ambos penetram e cortam o município de norte a sul. A exploração de suas terras se iniciou por volta de 1637, através do Rio Madeira, pelos 12 produtores de cacau e demais trabalhadores de produtos naturais. Porém, a ocupação definitiva de Autazes só aconteceu por volta de 1860. A Cabanagem também foi presenciada em suas terras, por volta de 1835 e 1840. Esse acontecimento, extraordinário na História do Brasil, envolveu índios, mestiços, negros e alguns brancos pobres que buscavam melhores condições de vida. O município de Autazes foi constituído juridicamente como município pela Lei nº 96 de 19 de dezembro de 1955, com o território desmembrado de Itacoatiara e Borba. Entretanto, sua ocupação consta desde 1860 com a chegada de colonos oriundos de várias partes do Amazonas e do Nordeste, atraídos pela perspectiva de enriquecimento com a exploração da borracha. A sede do município surgiu com a demarcação do lugar Vida Nova (Atualmente Autazes) em 1890, por Luís Magno Cardoso, e foi sendo efetivamente ocupada com a implantação de atividades econômicas (extrativista, agrícola e pecuária). Careiro da Várzea Cria-se no ano de 1938 no município de Manaus, através do Decreto Lei n. 176, o distrito do Careiro. Em 1955, é desmembrado do município de Manaus o seu território e o Careiro passa a ser município autônomo. No mesmo ato, a Vila do Careiro, sede do município, é elevada à categoria de cidade. De acordo com as mesmas fontes de pesquisa, através da Lei n. 1828 de 30 de dezembro de 1987, o município, sede da antiga Vila do Careiro, é criado sob a denominação de Careiro da Várzea que tem 90% de seu território coberto por várzea. Pela mesma lei é desmembrado do município de Careiro. Em divisão territorial datada de 1995, o município é constituído distrito sede. Careiro Castanho Esse município recebeu a denominação distrito do Careiro, através do Decreto Lei nº 176, de 01 de dezembro de 1943. Elevado a categoria de município do Careiro, pela lei estadual nº 99, de 19 de dezembro de 1955, desmembrando-se do município de Manaus passa a ser município autônomo e é elevado à categoria de cidade. Em 1977 a sede do município é transferida para uma área de terra firme. Nova Olinda do Norte Em 19 de dezembro de 1955, pela Lei Estadual nº 96, o município de Nova Olinda do Norte foi criado, com território desmembrado dos municípios de Maués e Itacoatiara, com sede na localidade de Nova Olinda do Norte, elevada à categoria de Cidade. Habitavam 13 primitivamente a região, os índios: Turás, Muras, Mundurucus e outros. A história de Nova Olinda do Norte está estreitamente ligada à exploração do petróleo do Amazonas. No dia 13 de maio de 1955 jorrou petróleo em Nova Olinda. Ficou conhecida como a cidade do petróleo e chegou a ser visitada por dois Presidentes da República – Café Filho e Juscelino Kubitschek. Em 31 de janeiro de 1956, deu-se a instalação do município de Nova Olinda do Norte. Aspectos Territoriais e Demográficos1 Manaquiri O Município está localizado na 7ª região do Rio Negro/Solimões. Dista da Capital do Estado 60 km em linha reta e 67 km via fluvial. Sua área territorial é de 3.985,10 Km², com densidade demográfica de 5,74 habitantes por km². Os nascidos nesse município recebem o nome gentílico de Manaquiriense. Possui clima tropical, chuvoso e úmido com temperatura: máxima de 30,9ºC e mínima de 24ºC. Altitude é de 34m acima do nível do mar. Coordenadas Geográficas: situa-se a 3º 33` 23`` de latitude sul e a 60º 18` 34`` de longitude a oeste de Greenwich. Limita-se com os municípios de Iranduba, Beruri, Manacapuru e Careiro. Autazes O Município de Autazes localiza-se na 7ª região do Rio Negro-Solimões, dista da Capital do Estado cerca de 110 km em linha reta e 218 km via fluvial. Sua área territorial é a maior do Pólo 1 com 7.632,10 Km², conforme se pode observar no Quadro 1, com a menor densidade demográfica dentre as demais cidades pertencentes a este Pólo, correspondendo a 4,19 habitantes por km². Sendo assim, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal é o maior do Pólo, com 0,661. Apresenta como código de identificação municipal o nº 1300300. Possui um clima quente e úmido, com temperatura: máxima 39º e mínima 28º. Sua altitude é de 50m acima do nível do mar. Coordenadas Cartesianas: encontra-se a 3º 36’de latitude sul e 59º 8’de longitude a oeste de Greenwich. Limita-se com os municípios de Itacoatiara, Borba, Nova Olinda do Norte, Careiro da Várzea e Careiro. Careiro da Várzea Localizado na 7ª região do Rio Negro Solimões. Dista da Capital do Estado 29 km em linha reta. Sua área territorial é a menor do Pólo 2 com apenas 2.643 Km², apresentando a maior densidade demográfica em comparação aos municípios deste Pólo com 9,11 habitantes 1 Os dados a seguir têm como fonte: IBGE/Cidades, censo 2010; 2 - SEPLAN (2010) IDH-M (Referente ao ano de 2000); 3 - SEGOV (2011). 14 por km². O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal corresponde a 0,658. Os nascidos nessa cidade recebem o nome gentílico de Careirense, com código municipal de identificação nº1301159. O clima é tropical chuvoso e úmido, com temperatura: máxima de 33ºC e mínima de 38ºC. A altitude corresponde a 30m acima do nível do mar. Coordenadas Cartesianas: 3º12’01” de latitude sul e 59º48’43” de longitude a oeste de Greenwich. Limita-se com os municípios do Careiro, Autazes, Manaus, Manaquiri, Iranduba e Itacoatiara. (IBGE, 2010; SEPLAN, 2010) IDH, 2003; SEGOV, 2011). Careiro Castanho O município situa-se 7ª região do Rio Negro Solimões, dista da Capital do Estado 102 km em linha reta. Sua área é de 6.124,30 Km², é a segunda maior cidade em extensão territorial do Pólo 1, com densidade de 5,36 habitantes por km². O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal corresponde a 0,630. Os nascidos nesse município recebem o nome gentílico de Careirense, com código de identificação municipal nº 1303106. O clima é equatorial, com umidade e temperatura máxima de 38ºC e mínima de 28ºC. Altitude é de 30m acima do nível do mar. Coordenadas Cartesianas: situa-se a 3º 12` de latitude sul e a 59º 1` 46` de longitude a oeste de Greenwich. Limita-se com os municípios de Borba, Autazes, Manaus, Manaquiri, Iranduba e Itacoatiara. Nova Olinda do Norte O município está localizado na 8ª região do Médio Amazonas, dista da Capital do Estado 138 km em linha reta e 144 km via fluvial. Sua área territorial é de 5.633.00 km², com densidade demográfica de 5,48 habitantes por km². O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal é o menor da região do Pólo 1 com 0,629. Os nascidos nessa cidade recebem o nome gentílico de Nova Olindense, e o código de identificação da cidade é o nº 1303106. O clima é o tropical, chuvoso e úmido, com temperatura máxima de 32,7ºC e mínima de 22ºC. A altitude é de 30m acima do nível do mar. Coordenadas Cartesianas: situa-se a 3º 45` 23`` de latitude sul e a 59º 03` 25`` de longitude a oeste de Greenwich. Limita-se com os municípios de Maués, Borba, Itacoatiara e Autazes. Município (1) Gentílico (1) Código do município (1) Área da unidade Territorial (Km2) (1)Densidade demográfica (hab/Km2) 15 Manaquiri Manaquiriense 1302553 3.985,10 5,74 Autazes Autazense 1300300 7.632,10 4,19 Careiro da Várzea Careiro Castanho Careirense da Várzea Careirense 1301159 2.643 9,11 1301100 6.124,30 5,36 Nova Olinda do Norte Nova Olindense 1303106 5.663.000 5,48 Município Manaquiri Autazes Careiro da Várzea Careiro Castanho Nova Olinda do Norte SITUAÇÃO GEOGRÁFICA DO MUNICÍPIO Localização da sede do município (2)Municípios limítrofes Lat Long 3º 33` 23`` 60º 18` 34`` Iranduba, Beruri, Manacapuru e Careiro -3º 36’ -59º 8’ Itacoatiara, Borba, Nova Olinda do Norte, Careiro da Várzea e Careiro -03º 12' 01'' - 59º 48' 43'' Careiro, Autazes, Manaus, Manaquiri, Iranduba e Itacoatiara. 3º 12` 59º 1` 46` Borba, Autazes, Manaus, Manaquiri, Iranduba e Itacoatiara 3º 45` 23`` 59º 03` 25`` Quadro 01 - Informações gerais sobre os municípios do pólo 1. Fonte: IBGE, 2010; SEGOVAM, 2011. Maués, Borba, Itacoatiara e Autazes 16 LOCALIZAÇÃO TERRITORIAL E ASPECTOS AMBIENTAIS Município (3)Temperatura °C Pólo ( 1) (3)Clima (3)Altitude Máxima Mínima (acima do nível do mar) Manaquiri 30,9º 24º Tropical chuvoso e úmido 34m Autazes 39º 28º Quente e úmido 50m Careiro da 38º 33º Tropical chuvoso e úmido 30m Várzea Careiro Equatorial 30m Castanho Nova 32,7º 22º Tropical, chuvoso e úmido 30m Olinda do Norte ASPECTOS DO CONTEXTO REGIONAL 1 Município ( )Bioma ( 2)Distância da ( 2)Divisão administrativa (2)IDH-M Pólo ( 1) capital do e regional/Sub-Região Estado (Km) Manaquiri Amazônia 60 (linha reta) 7ª (Rio Negro/Solimões) 0,663 67 (via fluvial) Autazes Amazônia 110 (linha reta) 7ª (Rio Negro/Solimões) 0,661 218 (via fluvial) Careiro da Várzea Careiro Castanho Nova Olinda do Norte Amazônia 29 7ª (Rio Negro/Solimões) 0,658 Amazônia 102 7ª (Rio Negro/Solimões) 0,630 Amazônia 138 (linha reta) 144 (via fluvial) 8ª (Médio Amazonas) 0,629 Quadro 02 - Aspectos da situação geográfica e ambiental Fonte: IBGE, 2010; SEPLAN, 2010, IDH-M, 2000; SEGOV, 2011. De acordo com o Censo Demográfico de 2010 em relação à demografia populacional, pode-se ser visualizado no Quadro 3 a distribuição comparativa da população total na área urbana e na área rural, desta forma percebe-se que o município do Careiro Castanho possui a maior população, com 32.734, dentre os demais municípios pertencentes a este Pólo 1, compreendendo a área urbana com um total de 9.437 e área rural com um total de 23.297, sendo assim, o número de mulheres 11.105 e homens 12.192 na zona rural é superior a zona urbana que apresenta respectivamente 6.810 e 6.816. O município de Autazes é o segundo populoso com 32.135 habitantes, sendo 13.893 na área urbana e 18.242 na área rural. Em terceiro lugar está Nova Olinda do Norte com um total populacional de 30.696, compreendendo a área urbana 13.626 e a área rural 17.070 habitantes. Em quarto lugar está o município do Careiro da Várzea com um total populacional 17 de 23.930, correspondendo à área urbana 1.000 e à área rural 22.930 habitantes. E o município menos populoso é o de Manaquiri com um total de 22.801 distribuídos na área urbana 7.062 e na área rural 15.739 habitantes. É importante ressaltar que os cinco municípios apresentaram um maior crescimento populacional na zona rural tanto em relação ao número Pólo (1)Municípios de homens quanto ao número de mulheres. POPULAÇÃO RECENSEADA POR RESIDÊNCIA E GÊNERO Município Total Área Urbana Área Rural Homem Mulhe r Tota l Homem Mulhe r Total Homem Mulher 7.06 2 13.8 93 1.00 0 3.514 3.548 8.230 7.509 6.963 6.930 10.026 8.216 481 519 15.73 9 18.24 2 22.93 0 12.207 10.723 9.43 7 13.6 26 4.798 4.639 12.192 11.105 6.816 6.810 23.29 7 17.07 0 8.938 8.138 Manaquiri 22.801 11.744 11.057 Autazes 32.135 16.989 15.146 Careiro da 23.930 Várzea 12.688 11.242 Careiro 32.734 Castanho Nova 30.696 Olinda do Norte 16.990 15.744 15.748 14.948 Quadro 03 - Aspectos demográficos da população residente no município. Fonte: IBGE, 2010. Contexto Econômico Na apresentação dos aspectos econômicos dos municípios do Pólo 1, conforme se observa no Quadro 4, todos os municípios expressam seu potencial econômico no cultivo de culturas perenes e anuais tanto para o consumo quanto para a venda. A pecuária é representada pela criação de bovinos e suínos, destaque para o município de Autazes que é conhecido como a cidade do leite e do queijo, e para Manaquiri com a produção de carne e de leite, no entanto nas demais cidades a pecuária é realizada somente para consumo. A pesca apresenta-se de forma artesanal e é a base alimentar da região. Destaque, também para Nova Olinda do Norte onde há prática do extrativismo na exploração de alguns recursos naturais que complementa a renda da população local. 18 . ASPECTOS ECONÔMICOS Sua produção agropecuária é baseada no cultivo de mandioca, milho, feijão e Manaquiri hortaliças em geral. A pecuária é representada principalmente por bovinos e suínos, com produção de carne e de leite. A pesca é abundante, e praticada de forma artesanal. Sua produção agropecuária baseia-se na criação de gado, seu rebanho é muito Autazes significativo, por isso Autazes é conhecida como a cidade do leite e do queijo. Tem grande produção de queijo coalho, queijo manteiga e leite. Bem como o cultivo da mandioca (farinha), do cupuaçu e do milho. Sua produção agropecuária e baseada no cultivo de tomate, repolho, Careiro da cebolinha, couve, coentro, feijão de metro e alface. Entre as culturas Várzea permanentes destaca-se a melancia, banana, laranja e limão. A pecuária é representada principalmente por bovinos e suínos, com produção de carne e de leite destinada ao consumo local. A pesca é praticada de forma artesanal. Sua produção agropecuária e baseada no cultivo de mandioca, batata doce, Careiro cana-de-açúcar, cacau, malva, milho e abacaxi. Entre as culturas permanentes Castanho destacam-se o abacate, banana, laranja e limão. A pecuária é representada principalmente por bovinos e suínos, com produção de carne e de leite destinada ao consumo local. A pesca é praticada de forma artesanal. Sua produção agropecuária é baseada no cultivo de mandioca, cana-de-açúcar Nova e abacaxi. Vasta exploração de recursos florestais, como a borracha, pau-rosa, Olinda do castanha e madeira. A pecuária é representada principalmente por bovinos e Norte suínos, com produção de carne e de leite destinada ao consumo local. A pesca é praticada de forma artesanal, é a base alimentar da região. Quadro 04 - Aspectos econômicos dos municípios do Pólo 1 Fonte: SEGOV-AM, 2011. Nos municípios do Pólo 1 foi verificado que o município de Autazes e Nova Olinda do Norte são os municípios que apresentam o maior número de comunidades não assistidas. Entretanto, a maioria dos municípios desse pólo apresenta mais de 50% das suas comunidades com o serviço de assistência técnica e extensão rural. Municípios Pólo 1 Manaquiri Comunidades com Serviço de Assistência Técnica e Extensão Rural Total Assistidas Não assistidas 57 42 15 19 Autazes Careiro da Várzea Careiro(Castanho) Nova Olinda do Norte 101 94 36 79 22 50 34 30 79 44 2 49 Quadro 05 - Serviço de assistência técnica e extensão rural nos municípios do pólo 1. Fonte: IDAM/DEPLA, 2010. Contexto Social Saúde Conforme os dados apresentados no Quadro 5, pode-se perceber que o município do Careiro Castanho possui um maior número de estabelecimentos hospitalares, no entanto, o município de Nova Olinda do Norte dispõe de um maior número de leitos hospitalares comparado aos demais municípios desse Pólo 1. Contudo, o município de Manaquiri detém o menor número de estabelecimentos hospitalares, enquanto que o município do Careiro da Várzea não possui nenhum leito para internação, pois dispõe apenas de Unidade Básica de Saúde. Contudo, o município que apresenta melhor estrutura na área da saúde é o Careiro Castanho com 16 estabelecimentos hospitalares e 20 leitos para internação, considerando seu contingente populacional. Neste sentido, se percebe o quanto a assistência médica nas comunidades rurais desses municípios é um desafio para Governo, pois em muitas comunidades nem sempre há o barco que funciona como posto ambulatorial e como S.O.S. No entanto, sempre há nas comunidades rurais um agente de saúde que faz um atendimento básico, principalmente na área de prevenção. Municípios Manaquiri Autazes Careiro da Várzea Careiro Castanho Nova Olinda do Norte Manaquiri Autazes Careiro da Várzea ESTABELECIMENTO HOSPITALAR Municipal Estadual Federal 2 1 0 8 1 1 8 0 0 Particular 0 0 0 15 1 0 0 3 2 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 Leitos para internação 12 28 0 20 Careiro Castanho Nova Olinda do Norte 0 20 0 0 0 38 0 0 Quadro 06 - Indicadores na área de serviços de saúde nos municípios do Pólo 1. Fonte: IBGE, 2010. Educação Nesses municípios do Pólo 1, percebe-se um maior número de alunos matriculados na educação fundamental da rede pública, considerando o contingente populacional das cidades esse número de alunos varia entre 534 a 8.065 para a educação infantil, pois a rede municipal concentra o maior número de alunos matriculados no ano 2009 no ensino fundamental, enquanto que a rede estadual concentra os alunos do ensino médio com baixa quantidade de alunos matriculados, em comparação à aqueles alunos matriculados no ensino fundamental. Pode-se supor que em alguns casos muitos alunos buscam a capital para concluir o ensino médio, outros talvez desistam de estudar dependendo da distância e acesso da comunidade a sede do município. Quanto ao número de professores atendendo a demanda dos municípios percebe-se no Quadro 6 que há um maior número de professores por dependência administrativa na rede municipal, para cidades de Nova Olinda do Norte e Autazes, considerando que também apresentaram um maior número de alunos matriculados. Enquanto que o número de professores da rede estadual no município de Manaquiri é o menor apresentado, igualmente considerando o menor número de alunos matriculados. Desta forma, a estrutura quanto a quantidade de estabelecimento de ensino percebe-se que é razoável em todos os municípios deste Pólo, com destaque para os municípios de Nova Olinda do Norte com 67 e Careiro da Várzea com 51 estabelecimentos de ensino na rede municipal, enquanto que na rede estadual essa estrutura de estabelecimentos de ensino é a mínima possível. Municípios Pólo 1 Manaquiri Autazes Careiro da Várzea Careiro (Castanho) Nova Olinda do Norte Manaquiri ALUNOS MATRICULADOS / EDUCAÇÃO INFANTIL Estadual Municipal Particular 0 599 0 0 0 0 0 8.065 617 534 1.263 Alunos matriculados / Educação Fundamental 652 3.336 0 0 230 35 0 21 Autazes 3.035 1.506 Careiro da Várzea 1.292 3.142 Careiro (Castanho) 2.105 4.846 Nova Olinda do 2.132 4.783 Norte Alunos matriculados / Ensino Médio Manaquiri 783 0 Autazes 3.035 1.506 Careiro da Várzea 1.009 0 Careiro (Castanho) 1.103 0 Nova Olinda do 1.053 0 Norte Municípios NºDocentes / Por dependência administrativa Estadual Municipal Manaquiri 77 222 Autazes Careiro da Várzea Careiro (Castanho) Nova Olinda do Norte Manaquiri Autazes Careiro da Várzea Careiro (Castanho) Nova Olinda do Norte 166 128 165 100 341 163 251 350 Número de estabelecimento de ensino 4 32 7 38 8 0 0 51 29 67 0 0 0 107 0 0 0 0 0 Particular 0 0 0 22 6 0 0 0 3 0 Quadro 07 - Indicadores da área do sistema educacional nos municípios do pólo 1. Fonte: SEPLAN, 2011 - Dados Referentes ao ano de 2010. Infraestrutura Os municípios desse Pólo 1, possuem serviços de fornecimento de energia e abastecimento de água, no entanto, nem sempre esses serviços atendem a todas as comunidades desses municípios, principalmente no que se refere aos serviços de comunicação que estão a cargo das operadoras de telefonia, ainda não têm um grande alcance restringindose muitas vezes e nem sempre de maneira eficaz às sedes municipais. O serviço de correios e telégrafos ficam a cargo da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, que mantém uma agência na sede municipal para receptação e distribuição de correspondências. INFRAESTRUTURA BÁSICA 22 Energia: a produção e distribuição de energia estão a cargo da Manaquiri Companhia Energética do Amazonas - CEAM, que mantém no município dois grupos geradores, dois de 180 HP somando uma potência instalada de 360 HP. Abastecimento d'água: A captação e o abastecimento de água estão a cargo da Companhia de Saneamento do Amazonas – COSAMA. A captação é do tipo subterrânea, há vários poços artesianos. A extensão da rede é de 5.927m. Energia: A geração e transmissão de energia no município está a cargo da Autazes Companhia Energética do Amazonas – CEAM, que mantém uma usina a diesel. Abastecimento d'água: A Companhia de Saneamento do Amazonas – Águas do Amazonas - COSAMA é responsável pela captação e distribuição de água para a população. Energia: a produção e distribuição de energia é de responsabilidade da Careiro da Companhia Energética do Amazonas – CEAM, que mantém uma usina a Várzea diesel. Abastecimento d'água: a empresa COSAMA é responsável pela captação e distribuição de água para a população. A captação é do tipo subterrâneo. Energia: a produção e distribuição de energia é de responsabilidade da Careiro Companhia Energética do Amazonas – CEAM, que mantém na sede uma Castanho usina à diesel com 3 grupos geradores, somando uma potência de 434 KVA. Abastecimento d'água: a empresa COSAMA é responsável pela captação e distribuição de água para a população. A captação é do tipo subterrânea com potência instalada de 15 CV. Há 1 reservatório do tipo elevado com capacidade para 65m3. Energia: a produção e distribuição de energia estão a cargo da Nova Olinda Companhia Energética do Amazonas – CEAM, que mantém no município do Norte uma usina a diesel com 3 grupos geradores, somando uma potência total de 712 KVA. Abastecimento d'água: A captação e o abastecimento de água, estão a cargo da empresa COSAMA. A captação é do tipo subterrânea com potência instalada de 15 CV. Há 1 reservatório do tipo elevado com capacidade para 65m3. 23 Quadro 08 - Aspectos da infraestrutura básica dos municípios do pólo 1. Fonte: SEGOV-AM, 2011. Aspectos Culturais Os eventos culturais nas sedes municipais e nas comunidades mobilizam muitas organizações públicas, privadas, ONG’s e grupos comunitários que se organizam nos preparativos das festas, com predominância das festividades religiosas dos santos padroeiros. Mas, há também as festas dos produtos de maior expressão econômica do município como, por exemplo, a festa do leite no município de Autazes e Careiro da Várzea. Assim como, os festivais de música e a expressão do folclore local, dentre outros eventos. Manaquiri EVENTOS CULTURAIS Festa do Padroeiro, São Pedro; Festa de Nossa Senhora de Fátima, em 13 de maio; Festa de Santo Antônio, em 13 de junho; Festa do Divino Espírito Santo, em maio ou junho; Festa em homenagem a Nossa Senhora da Conceição, realizada em agosto. Festa do Padroeiro, São Joaquim, em 16 de agosto; Autazes Festa do Leite em outubro; O Festival Folclórico no mês de junho; Festival de Música Popular de Autazes – FEMUPA; Careiro da Festa da Instalação do município, em 03 de março. Festa da Padroeira, Nossa Senhora da Conceição, em 08 de dezembro; Festival do Leite, no mês de março; Várzea Festival do Repolho, no mês de abril; Festa da Padroeira, Nossa Senhora de Fátima, em 13 de maio; Careiro Festa do Aniversário do Município, em 19 de dezembro; Castanho Festival do Lixo Reciclado, em fevereiro; Nova Feira do Artesanato regional, no mês de março. Festa dos Padroeiros, Nossa Senhora de Nazaré e São José, que se Olinda Norte do realiza de 04 a 12 de outubro; FECANON – Festival da Canção de Nova Olinda do Norte, em dezembro. Quadro 09 - Eventos culturais nos municípios do pólo 1. Fonte: SEGOV-AM, 2011. 24 Pólo 2: Itapiranga, Silves, Itacoatiara e Urucurituba Aspectos Históricos Itapiranga A toponímia Itapiranga é um termo de origem indígena que significa pedra vermelha. Do tupi ou nheengatu itá: pedra; e piranga: vermelha. A história de Itapiranga está intimamente associada à de Silves, por já terem formado uma mesma unidade administrativa. E de se alternarem como sede do município ao longo do tempo. O povoamento da região tem seu marco inicial na fundação da Missão do Saracá, por Frei Raimundo, da Ordem das Mercês em 1660. Em 1759, a aldeia de Saracá é elevada a Vila, com a denominação de Silves e como sede do município de mesmo nome, no qual se integrava o território que hoje constitui Itapiranga. O município de Silves é extinto em 1833 e restabelecido em 1852. Em 25 de março de 1922, pela Lei Estadual nº. 1.138, a sede do município é transferida para Itapiranga, sendo este povoado elevado a Vila. Em 27 de fevereiro de 1925, pelo Decreto Estadual nº. 23, a sede do município retorna para Silves. Em 1930, o município é anexado ao de Itacoatiara, e em 1931 a sede da delegacia municipal é fixada em Itapiranga. Em 1935, com a reconstitucionalização do Estado, Silves volta a ser município autônomo. Em 31 de março de 1938, pelo Decreto-Lei Estadual nº. 68, o município passa a ter dois distritos: Itapiranga e Silves. Em 24 de dezembro de 1952, pela Lei Estadual nº. 117 separam-se em municípios autônomos Itapiranga e Silves. Em 10 de dezembro de 1981, pela Emenda Constitucional nº. 12, Itapiranga perde parte de seu território em favor do novo município de Presidente Figueiredo. Silves A história de Silves está intimamente associada à de Itapiranga, por já terem formado uma mesma unidade administrativa, com as atuais respectivas sedes se alternando no decurso do tempo como sede do município. O povoamento da região tem seu marco inicial da fundação da Missão do Saracá, por frei Raimundo, da Ordem das Mercês, em 1660. Em 1663, sangrentas lutas são travadas entre os colonizadores portugueses e os indígenas de perto da foz do rio Urubu, até a chegada, no final desse ano, de Pedro da Costa Favela, que aí desembarca parte de sua tropa para a manutenção da ordem. Em 1759 a já aldeia de Saracá é elevada a vila, com a denominação de Saracá e como sede de município de igual nome. O município é extinto em 1833 e restabelecido em 1852. Em 1922, a sede do município é 25 transferida para Itapiranga, sendo este povoado elevado à Vila. Em 27 de fevereiro de 1925, pelo Decreto Estadual no. 23, a sede do Município retorna a Silves. Em 1930, o município é anexado à Itacoatiara, mas é restabelecido em 1935. Em 1938, o município passa a denominar-se Itapiranga, com sede na vila de mesmo nome, então elevada a cidade. Nesse mesmo ano o município tem sua estrutura administrativa definida com dois distritos: Silves e Itapiranga. Em 10 de dezembro de 1981, pela Emenda Constitucional no. 12 Silves perde parte de seu território em favor dos novos municípios de Presidente Figueiredo e Rio Preto da Eva. Assim permanecendo em divisão territorial datada de 2009. Itacoatiara De acordo com as informações obtidas no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o devassamento do território foi iniciado pelos Jesuítas, quando de árdua tarefa catequética às margens do rio Madeira. Em meados do século XVIII, foi fundado o primeiro núcleo de povoamento na região por Frei João Sampaio. Todavia, os constantes ataques dos silvícolas e ainda a procura de terras tropicais propícias para colonização, motivaram a retirada dos habitantes para a ribeira do Canumã e mais tarde para o rio Abacaxis. Em 1755, o Capitão-general Francisco Xavier de Mendonça Furtado, Governador do Grão-Pará e Maranhão que, em carta dirigida ao Ministro Ultramar (1758), descreveu a viagem e especificou as deliberações tomadas em visita as terras Amazonenses. Os habitantes do povoado, sabedores de que o Governador pretendia elevar a então aldeia dos Abacaxis à categoria de vila, pediram-lhe permissão para nova mudança, alegando, entre outras razões, o caráter inóspito da região. Mendonça Furtado acedeu à solicitação e, não concordando com o sítio escolhido, fez diversas sugestões, recaindo a preferência em Itacoatiara, distante dois dias de viagem da primitiva povoação. Apesar das divergências quanto a origem da povoação, pois há os que admitem ter o padre Antônio Vieira Criado uma missão Aroaquis, numa das ilhas próximas de Itacoatiara, denominada de Aibis, em 1655. Em 1759 a aldeia de Itacoatiara é elevada a Vila, com a denominação de Serpa, nome de origem portuguesa. No Amazonas, foi à terceira vila instalada, antecedida apenas por Borba e Barcelos. Era então, das mais importantes aglomerações da região. Em 1833, A Vila de Serpa foi suprimida e dois anos depois foi assolada pela Cabanagem, cuja sedição terminou em 1840. A restauração verificou-se em 1857 e em 1874, a Vila de Serpa recebeu foros de cidade passando a denominar-se Itacoatiara. Depois Manaus e Tefé, sendo a primeira localidade amazonense a ter a categoria de cidade. 26 A toponímia Itacoatiara, na língua Tupi-Guarani, significa pedra pintada. Entretanto, na literatura sobre História do Amazonas, tem a seguinte decomposição: Itá = pedra; Coati = o mamífero e Ára = o que nasce. Urucurituba O nome de Urucurituba que foi dado à povoação e posteriormente ao município, provém do nome de uma palmeira denominada “Urucuri”, como essa espécie de palmeira ocorria em abundância naquela localidade e adjacência passou a se chamar de Urucurituba. A toponímia do nome Urucurituba, vem do vocábulo indígena que significa palmeiral, “lugar onde há muitas palmeiras”. Do Tupi vem o nome urucuri, palmeira e tyba, abundância. Assim foi formado o nome Urucurituba ou lugar com abundância da palmeira Urucuri. Em 27 de abril de 1895, pela Lei Estadual nº 118, foi criado o município de Urucurituba, com os territórios desmembrados dos de Silves e Urucará, com sede na povoação de Urucurituba localizada à margem direita do rio Amazonas. Os índios Mundurucus, Maués e outros, eram os primitivos habitantes da região hoje ocupada pelo município de Urucurituba. Em 14 de maio de 1897, pela Lei Estadual n° 164, foi extinto o município de Urucurituba e pela Lei Estadual n° 212 foi restabelecido o município em 05 de março de 1898. A sede do município foi transferida para o Sítio denominado Tabocal, elevado então à categoria de Vila com a denominação de Silvério Néri. Em 27 de fevereiro de 1908, pela Lei Municipal n° 63, foi transferida a sede municipal para Urucurituba, que passou a denominarse Silvério Néri. Em 15 de dezembro de 1910, pela Lei n° 660, o município voltou a ter a primitiva denominação de Urucurituba. Em 14 de setembro de 1931, pelo ato n°33, o município foi rebaixado a simples condição de Delegacia Municipal, incorporado ao município de Itacoatiara. Todavia, em 1935, com a reconstitucionalização do Estado, foi restabelecida a autonomia do município de Urucurituba. Em virtude do Decreto-Lei Estadual n°68, a sede municipal recebeu foros de Cidade em 31 de março de 1938. Em 24 de dezembro de 1952, pela Lei Estadual n° 226, foi criada a comarca de Urucurituba. O município é constituído de um só distrito – o de Urucurituba. Em 10 de dezembro de 1981, pela Emenda Constitucional n° 12, Urucurituba perde parte de seu território, em favor do novo município de Boa Vista do Ramos. Em divisão territorial datada de 1988, o município ficou constituído por dois distritos: Urucurituba e Augusto Montenegro. 27 Aspectos Territoriais e Demográficos2 Itapiranga O município de Itapiranga está situado na 8ª região do Médio Amazonas, distante da capital do estado 222 km em linha reta e 231 km por via fluvial. Sua área territorial é de 4.231,145 km², com clima tropical, chuvoso e úmido e, temperatura máxima de 30ºC e mínima de 24ºC. Altitude: 18 m acima do nível do mar. Coordenadas Geográficas: situa-se a 2º 74’ de latitude sul e a 58º 02’de longitude a oeste de Greenwich. Limita-se com os municípios de Presidente Figueiredo, Itacoatiara, Rio Preto da Eva, São Sebastião do Uatumã, Silves, Urucará e Urucurituba. O gentílico para as pessoas nascidas nesse município é Itapiranguense. A cidade apresenta como código de identificação o nº 130200, possui a menor densidade demográfica do Pólo 2 com 1,94 habitantes por km². Sendo assim, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal até o ano de 2000 era de 0, 694. Silves O município de Silves localiza-se na 8ª região do Médio Amazonas. Distante da capital do estado 283 km em linha reta e 212 km por via fluvial. Apresenta como código de identificação municipal o nº 130400. Sua área territorial corresponde a 3.748,826 km², com uma densidade demográfica de 2,25 habitantes por km². O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal é o maior do Pólo 2 com 0,739. O clima é tropical, chuvoso e úmido, com temperatura: máxima de 36ºC e mínima de 23ºC. Sua altitude é de18 m acima do nível do mar. Coordenadas Geográficas: situa-se a 02º 50’ 20’’ de latitude sul e a 58º 12’ 33’’ de longitude a oeste de Greenwich. Faz fronteira com os municípios de Itapiranga, Itacoatiara e Urucurituba. Itacoatiara É um município localizado no médio Amazonas e faz parte da região metropolitana de Manaus. Itacoatiara tem grande parte do seu município coberto por floresta de terra firma, porto fluvial e o acesso a capital pode ser feito por via terrestre, rodovia AM-010, ligando esse município à capital do Estado do Amazonas (Manaus) (SEPLAN, 210). O município de Itacoatiara tem a maior área da unidade territorial 8.892,021 Km2, assim como a sua 2 Os dados a seguir têm como fonte: IBGE/Cidades, censo 2010; 2 - SEPLAN (2010) IDH-M (Referente ao ano de 2000); 3 - SEGOV (2011). 28 densidade demográfica 9,77 hab/Km2 é superior aos demais municípios do Pólo 2. A sede do município situa-se entre as coordenadas, Latitude 03° 14’ e Longitude 58° 44’. Os municípios limítrofes são: Silves, Boa Vista do Ramos, Urucurituba, Maués, Autazes, Nova Olinda do Norte, Careiro, Rio Preto da Eva e Manaus. Urucurituba O município de Urucurituba está localizado no Médio Amazonas e faz parte da Microrregião Itacoatiara. As pessoas que nascem nesse município são chamadas de Urucuritubense (Quadro 10). No Pólo 2, o município de Urucurituba tem a menor área 2.906,698Km2, no entanto apresenta a segunda densidade demográfica 6,14 hab/Km2. A sede do município localiza-se entre as coordenadas, Latitude 03° 07’ e Longitude 58° 09’. Os municípios limítrofes são: Urucará, Silves, Itapiranga, Barreirinha, Itacoatiara, Boa Vista do Ramos e Parintins. Município (1) Gentílico (1) Código do (1) Área da unidade município Territorial (Km2) Itapiranga Silves Itacoatiara Urucurituba (1) Densidade demográfica (hab/Km2) 1,94 2,25 9,77 6,14 Itapiranguense 130200 4.231,145 Silvense 130400 3.748,826 Itacoatiarense 130190 8.892,021 urucuritubense 130440 2.906,698 SITUAÇÃO GEOGRÁFICA DO MUNICÍPIO Município Localização da sede do (2) Municípios limítrofes município Lat Long Itapiranga -2.74º -58.02º Presidente Figueiredo, Itacoatiara, Rio Preto da Eva, São Sebastião do Uatumã, Silves, Urucará e Urucurituba Silves -2.83º -58.2º Itapiranga, Itacoatiara e Urucurituba. Itacoatiara -3.14º -58.44º Silves, Boa Vista do Ramos, Urucurituba, Maués, Autazes, Nova Olinda do Norte, Careiro, Rio Preto da Eva e Manaus. Urucurituba -3.13º -58.15º Urucará, Silves, Itapiranga, Barreirinha, Itacoatiara, Boa Vista do Ramos e Parintins. Quadro 10 - Informações gerais sobre os municípios do pólo 2. Fonte: 1 - IBGE, 2010; 2 - SEGOV-AM, 2011. 29 LOCALIZAÇÃO TERRITORIAL E ASPECTOS AMBIENTAIS Município (3)Temperatura °C (3)Altitude Pólo (2) (3)Clima (acima do Máxima Mínima nível do mar) Itapiranga 30º 24º Tropical, chuvoso e úmido 18m Silves 36º 23º Tropical, chuvoso e úmido 18m Itacoatiara 31º 23,2º Tropical, chuvoso e úmido 18m Urucurituba Município Pólo (2) Itapiranga Silves Itacoatiara Urucurituba 37º 22º Tropical, chuvoso e úmido ASPECTOS DO CONTEXTO REGIONAL ( )Bioma ( 2)Distância da ( 2)Divisão administrativa capital do e regional/Sub-Região Estado (Km) Amazônia 222(linha reta) 8ª (Médio Amazonas) 231(via fluvial) Amazônia 283 (linha reta) 8ª (Médio Amazonas) 212 (via fluvial) Amazônia 175(linha reta) 8ª (Médio Amazonas) 201 (via fluvial) Amazônia 212(linha reta) 8ª (Médio Amazonas) 216(via fluvial) 1 16m (2)IDH-M 0,694 0,739 0,711 0,663 Quadro 11 - Aspectos da situação geográfica e ambiental. Fonte: 1-IBGE, 2010; 2- SEPLAN, 2010; IDH-M, 2000; 3- SEGOV-AM, 2011. Os municípios de Silves e Urucurituba apresentaram temperatura mais elevada. O clima é o tropical chuvoso e úmido; e estão situados no bioma Amazônia na 8ª região. O município mais próximo da capital do Estado do Amazonas é Itacoatiara com a distância de 175,48Km2 e o mais distante é Itapiranga com 225,7 Km distante de Manaus. Com exceção de Urucurituba que apresentou a menor altitude 16m acima do nível do mar, os demais municípios apresentaram altitude uniforme de 18 m acima do nível do mar. O município de Itacoatiara apresentou o maior índice de desenvolvimento humano 0,711 e Urucurituba teve o menor 0,663. Nos aspectos demográficos (Quadro 12) foi verificado que no Pólo 2, o município de Itacoatiara apresenta a maior população 86.839 pessoas e a menor população, reside no município de Itapiranga, com 8.211 habitantes. Excetuando Silves, os demais municípios apresentaram maior número de pessoas residindo na área urbana, destacando-se nesse perfil o município de Itacoatiara com 58.157 pessoas na área urbana e 28.682 pessoas na área rural. A população masculina foi maior em todos os municípios na área rural, merecendo destaque o município de Itacoatiara com a maior população masculina na área rural 15.694 pessoas do sexo masculino. Município 30 POPULAÇÃO RECENSEADA POR RESIDÊNCIA E GÊNERO No município Total Homem Área Urbana Área Rural Mulhe Total Homem Mulhe Total Homem Mulhe Pólo (2) r r r Itapiran 8.211 4.299 3.912 6.451 3.339 3.112 1.760 960 800 ga Silves 8.444 4.498 3.946 4.029 2.110 1.919 4.415 2.388 2.027 Itacoati 86.83 44.426 42.41 58.15 28.732 29.42 28.68 15.694 12.98 9.529 3 8.308 7 10.44 5.379 5 5.069 2 7.389 4.150 8 3.239 ara 9 Urucurit 17.83 uba 7 8 Quadro 12 - Aspectos demográficos da população residente no município. Fonte: IBGE/Cidades, censo 2010. Contexto Econômico Nos aspectos econômicos dos municípios do Polo 2, percebe-se neste Quadro 13 que a economia em todos os municípios está fortemente baseada no cultivo de culturas perenes e anuais. A extração vegetal, para a maioria dos municípios deste Polo, também é um meio de movimentar a renda das famílias rurais, principalmente durante a vazante, destaque para o município de Urucurituba que exporta madeira para o exterior. E, a pecuária é realizada tanto para consumo local quanto para exportação como é o caso de Itacoatiara e Urucurituba. A pesca na maioria dos municípios é realizada de forma artesanal e para o consumo local, destaque para o município de Itacoatiara como entreposto pesqueiro tanto para o consumo local como para exportação. ASPECTOS ECONÔMICOS 31 Sua produção agropecuária é baseada no cultivo de arroz, guaraná e juta. Itapiranga Na extração vegetal, destaque para a sorva, castanha, borracha e cipó titica. A pecuária é representada principalmente por bovinos, com produção de carne e de leite destinada ao consumo local. A pesca é praticada de forma artesanal. A produção agropecuária é baseada no cultivo de mandioca. A pecuária é Silves representada principalmente por bovinos e suínos, com produção de carne e de leite destinada ao consumo local. A pesca é praticada de forma artesanal. Na extração vegetal, destaca-se a castanha. Na sua produção agropecuária predominam a cana, o feijão, o cupuaçu e a Itacoatiara malva. Nas permanentes se destacam cacau, café, coco e laranja. A extração de madeira, borracha e gomas não elásticas são bastante representativas na economia local. A pecuária é representada principalmente por bovinos e suínos, com produção de carne e de leite destinada ao consumo local e exportação. A pesca é abundante, o município destaca-se como entreposto pesqueiro, tanto para o consumo local como para exportação. A produção agropecuária é baseada no cultivo de mandioca e juta. A Urucurituba pecuária compreende principalmente a criação de bovinos e suínos. A produção de carne e leite destina-se ao consumo local e o excedente destina-se a outros municípios, principalmente Manaus. A pesca é praticada de forma artesanal. A extração de borracha e madeira se destaca, chegando a exportar madeira para o exterior. Quadro 13 - Aspectos econômicos dos municípios do pólo 2. Fonte: SEGOV-AM, 2011. Assistência Técnica Nos objetivos da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER), consta a promoção do desenvolvimento rural sustentável, o apóio as iniciativas econômicas que promovam as potencialidades e vocações regionais e locais, além do aumento a produção. Assim sendo, o serviço de assistência técnica e extensão rural, torna-se um componente importante na promoção de melhorias tecnológicas e apóio a produção. No Polo 2 foi verificado que os municípios de Itapiranga e Silves apresentam 100% das sua comunidades assistidas e os demais municípios mais de 50% das comunidades são assistidas com o serviço de ATER. Municípios Polo 2 Comunidades com serviço de Assistência Técnica e Extensão Rural 32 Itacoatiara Itapiranga Silves Urucurituba 178 23 28 51 41 23 28 26 137 0 0 25 Quadro 14 – Assistência técnica e extensão rural nas comunidades pesquisadas Fonte: IDAM/CEPLA, 2010. Contexto Social Saúde Nos aspectos sociais, os dados de infraestrutura relacionados à área da saúde hospitalar, conforme apresenta a Tabela 01 o município de Itacoatiara possui melhor estrutura com 11 estabelecimentos hospitalares e 98 leitos para internação. No entanto Urucurituba apresenta pouca estrutura para atender seu contingente populacional que é mais de 17 mil habitantes, possuindo apenas 5 estabelecimentos hospitalares e 4 leitos para internação. Os demais municípios também não possuem uma estrutura na área da saúde de acordo com seu contingente populacional, podendo ocorrer em muitos casos o deslocamento de pessoas para Capital (Manaus) a procura de atendimento hospitalar adequado. Municípios Itapiranga Silves Itacoatiara Urucurituba Itapiranga Silves Itacoatiara Urucurituba ESTABELECIMENTO HOSPITALAR Municipal Estadual Federal 2 2 0 4 2 0 11 0 0 3 2 0 Leitos para Internação 0 34 0 0 14 0 98 0 0 0 4 0 Particular 0 0 6 0 0 0 0 0 Tabela 01 - Indicadores na Área de Serviços de Saúde nos Municípios do Pólo 2. Fonte: IBGE, 2010. Educação Nos municípios que compõem o território de Manaus e Entorno, percebe-se no Pólo 2, de acordo com os dados do Quadro 15, a estrutura e organização existente na área da educação, desse modo o número de alunos matriculados na rede pública para a educação infantil varia entre 381 a 5.161, enquanto que a rede municipal concentra na totalidade dos municípios a maior quantidade de alunos matriculados no ensino fundamental entre 24.071 a 1.193, no entanto a rede estadual também tem um número expressivo de alunos matriculados tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio, cabendo ao estado essa formação. 33 Quanto ao número de professores por dependência administrativa percebe-se no geral que há um maior número na rede municipal, com destaque para o município de Itacoatiara com 877 em relação aos demais municípios, considerando que este município apresenta um maior número de alunos matriculados tanto na educação infantil quanto no ensino fundamental. Em relação ao número de estabelecimentos por dependência administrativa, o município de Itacoatiara se destaca com 142 escolas municipais, 16 escolas estaduais e 5 particulares, uma vez que teve uma maior quantidade de alunos matriculados, pois é o município com maior contingente populacional do Pólo 2. Municípios Pólo 2 Itacoatiara Itapiranga Silves Urucurituba ALUNOS MATRICULADOS / EDUCAÇÃO INFANTIL Estadual Municipal Particular 0 5.161 379 0 381 0 0 428 0 0 601 0 Alunos matriculados / Educação Fundamental Itacoatiara 10.880 24.071 1.194 Itapiranga 890 1.193 0 Silves 543 1.627 0 Urucurituba 1.806 1.902 0 Alunos matriculados / Ensino Médio Itacoatiara 7.529 0 57 Itapiranga 556 0 0 Silves 516 0 0 Urucurituba 777 0 0 Municípios Nº de docentes / dependência administrativa Estadual Municipal Particular Itacoatiara 428 877 107 Itapiranga 58 106 0 Silves 53 134 0 Urucurituba 107 143 0 Nº de escolas/dependência administrativa Itacoatiara Itapiranga Silves Urucurituba 16 7 4 7 142 22 24 36 5 0 0 0 Quadro 15 - Indicadores da área do sistema educacional nos municípios do pólo 2. Fonte: SEPLAN 2011 (Referente ao ano de 2010). Infraestrutura Esses municípios aqui descritos possuem serviços de energia e abastecimento de água, no entanto, esses serviços não chegam a atingirem todas as comunidades, as quais encontram 34 alternativas para terem energia e água, seja com um motor a diesel, seja com a perfuração de poços artesianos comunitários. A questão da comunicação é deficiente em todos os municípios, principalmente nas comunidades mais distantes, esse serviço de telefonia é assumido pela empresa Telemar e pelas operadoras de aparelho celular. Outro meio de comunicação é através de correspondências e/ou serviços postais, assumido pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. INFRAESTRUTURA BÁSICA Energia: a produção e distribuição de energia estão a cargo da Companhia Energética do Amazonas - CEAM, que mantém no município dois grupos Itapiranga geradores 438 KVA e um grupo gerador de 275 KVA, totalizando 1.151 KVA. Abastecimento d'água: a captação e o abastecimento de água estão a cargo da Companhia de Saneamento do Amazonas - COSAMA. A captação é feita através de um poço artesiano e do igarapé de São Tomé. A extensão da rede é de 12.819m e distribuição de 623 ligações ativas. Energia: a produção e distribuição de energia estão a cargo da Companhia Silves Energética do Amazonas - CEAM, que mantém no município uma usina a diesel com 3 grupos geradores, somando uma potência total de 508 KVA. Abastecimento d'água: A captação e o abastecimento de água estão a cargo da Companhia de Saneamento do Amazonas - COSAMA. A captação é do tipo subterrânea com 1 reservatório do tipo elevado com capacidade para 65m3. Energia: a produção e distribuição de energia estão a cargo da Companhia Energética do Amazonas - CEAM, que mantém no município uma usina a Itacoatiara diesel com potência total de 12.227 KVA. Abastecimento d'água: A captação e o abastecimento de água estão a cargo da Fundação Nacional de Saúde – FNS, com captação feita através de 8 poços tubulares. A água é recalcada até um reservatório com capacidade para 500m3 e distribuída aos consumidores, também em fase de expansão. Energia: a produção e distribuição de energia estão a cargo da Companhia Urucurituba Energética do Amazonas - CEAM, que mantém no município uma usina a diesel com 3 grupos geradores, somando uma potência total de 434 KVA. Abastecimento d'água: A captação e o abastecimento de água estão a cargo da Companhia de Saneamento do Amazonas - COSAMA. A captação 35 é do tipo subterrânea com 1 reservatório do tipo elevado com capacidade para 65m3. Quadro 16 - Aspectos da infraestrutura básica dos municípios do pólo 2 Fonte: SEGOV-AM, 2011. Aspectos Culturais Conforme o Quadro 17, geralmente os festejos que ocorrem nesses municípios são as festividades religiosas, a expressão do folclore, como também festivais de músicas, aniversários da cidade dentre outras comemorações organizadas tanto pela Sede dos municípios quanto pelas comunidades rurais. Itapiranga EVENTOS CULTURAIS Festa da Padroeira, Nossa Senhora de Nazaré, em 08 de setembro; Festival Folclórico, no mês de junho; E o tradicional Baile Carnavalesco, com desfile de bandas. Festa da Padroeira, Nossa Senhora da Conceição, em 08 de Silves dezembro; Itacoatiara Festa do Boi Bumba, realizada no mês de junho. Festival da Canção de Itacoatiara – FECANI, que acontece no mês de setembro; Festa do Aniversário da Cidade, em 25 de abril; O Salão de Artes Plásticas, no mês de março; Festival Folclórico, no mês de junho Festa da Padroeira, Nossa Senhora da Conceição, em 08 de dezembro. Festa do Cacau no mês de Maio Urucurituba Feira Cultural no mês de Maio Festa de São Benedito – Padroeiro do Município no mês de Julho Festival do Peixe Liso no mês de Agosto. Quadro 17 - Eventos Culturais nos Municípios do Pólo 2. Fonte: SEGOV-AM, 2011. Pólo 3: Manaus, Iranduba, Rio Preto da Eva e Presidente Figueiredo Manaus A primeira notícia fidedigna relativa á história dessa comuna está ligada ao início da colonização e povoamento da região, levada a termo na segunda metade do século XVII. Entretanto, o nome desse município foi originado de uma tribo indígena que primitivamente 36 habitava nessa região do Rio Negro, á qual pertenceu o legendário Ajuricaba. Segundo informações da SEPLAN, Manaus surgiu na segunda metade do século XVII, com a construção do Forte de São José da Barra, na margem esquerda do Rio Negro, cuja finalidade era proteger a região contra a invasão estrangeira. Em 1832 foi elevada a categoria de vila, chamada de Vila da Barra e em 24 de outubro de 1848 foi elevada a categoria de cidade com o nome de Cidade da Barra do Rio Negro. No dia 04 de setembro de 1856 recebeu a denominação de Manaus, em homenagem à nação indígena dos Manaós o mais importante grupo étnico habitante da região. Na história do município de Manaus, consta que a partir de 1877, o Amazonas, como alternativa de sobrevivência recebeu migrantes nordestinos, que atraídos pelas perspectivas de enriquecimento fácil passaram a habitar nos seringais, mas buscavam também ocupação em Manaus, fixando-se quase sempre nas áreas periféricas às margens dos igarapés. O período da borracha atraiu também para Manaus pessoas de diferentes nacionalidades que vieram pra trabalhar na rendosa atividade da exploração da borracha. No ciclo da borracha, há mais de 100 anos, foi construído o Teatro Amazonas que surpreendeu o mundo com seu luxo, requinte e beleza arquitetônica. O tombamento desse patrimônio cultural ocorreu em 28 de novembro de 1966. A cidade de Manaus foi uma das primeiras a contar com luz elétrica, galerias pluviais, tratamento de águas e esgoto e serviços de bonde elétricos. Em 1909, foi criada a primeira universidade brasileira, hoje chamada Universidade Federal do Amazonas, contribuindo decisivamente para a formação de cidadãos e o desenvolvimento da Amazônia (SEPLAN, 2010). Em Manaus foi criada uma área de livre comércio de importação e exportação com incentivos fiscais especiais, a Zona Franca de Manaus (ZFM) cujo projeto recebeu reformulação em 28 de fevereiro de 1967 pelo presidente Castelo Branco. O projeto foi instaurado com a finalidade de criar centro industrial, comercial e agropecuário, doado de concessões econômicas que permitissem o desenvolvimento do Amazonas com um prazo de duração estipulado em 30 anos. A cidade de Manaus toma novo impulso, além de transformar-se em pólo industrial, recebeu melhorias na infraestrutura urbana e expansão na abertura de estradas (www.bv.am.gov.br, 2011). Iranduba O município de Iranduba foi criado em 09 de abril de 1963 sob a Lei nº 07. As origens do município estão ligadas a Manaus, devido época de grande prosperidade do período da borracha. Após esse fastígio Manaus experimentou um período de estagnação e até retrocesso. 37 Com a implantação da Zona Franca e do Distrito Industrial, a economia foi reativada, florescendo em sua periferia vários núcleos populacionais. Entre eles Iranduba que, sobretudo a partir de 1976, recebeu considerável melhoramento urbano. Em 1981, é desmembrado de Manaus e, acrescido de território adjacente até então pertencente a Manacapuru, passa a constituir município autônomo. Na formação administrativa houve a elevação á categoria de município com a denominação de Iranduba, pela Emenda Constitucional nº 12 de 10 de fevereiro de 1981, delimitado pelo Decreto Estadual nº 618, desmembrado dos municípios de Manacapuru e Manaus. Sua instalação efetivou-se com as eleições gerais em 1982 e conseqüentemente com a posse de prefeito e vereador em janeiro de 1983 (SEPLAN, 2010). Rio Preto da Eva Conforme as informações da Confederação Nacional de Municípios (CNM), as origens do município do Rio Preto da Eva se prendem a Manaus, sede de Capitanias em 1791, perdendo este título em 1799 e recuperando definitivamente em 1808, atual capital do Estado foi elevada a cidade em 1856, quando contava com cerca de 4.000 habitantes. Na última década do século passado e nas primeiras décadas do atual, a região conheceu surto de prosperidade, com a fase áurea da borracha. A urbanização da cidade ganhou características européias, surgindo construções grandiosas, como o Teatro Amazonas e o Palácio da Justiça, etc. Com o declínio econômico, a região passou a viver de prolongada recessão, invertendo-se a tendência a partir da criação da Zona Franca e do Distrito Industrial. Como reflexo dessa fase de desenvolvimento, a área periférica da capital passou a ostentar maior envergadura econômica e social. Dando expressão política a essa realidade emergente, a Emenda Constitucional nº 12 de 10 de dezembro de 1981, desmembrou de Manaus a então colônia do Rio Preto da Eva, que com os territórios adjacentes de Itacoatiara e Silves, veio a constituir o Município Autônomo de Rio Preto da Eva. De acordo com informações do IBGE, a Lei nº 1, de 12 de abril de 1961, eleva à categoria de município pela primeira vez, sob o Governo de Gilberto Mestrinho de Medeiros Raposo, com o nome de Eva, com sede do mesmo nome localizado em um sítio aquém do Rio Preto da Eva, às margens do rio Grande. Com o advento da Emenda Constitucional nº 12, de 10 de dezembro de 1981, eleva à categoria de município pela segunda vez, porém com o nome de Rio Preto da Eva, situado a altura do Km 80 da rodovia Torquato Tapajós, também denominada como rodovia AM-010, ligando a capital à vizinha cidade Itacoatiara. 38 O município Rio Preto da Eva é um dos mais recentes municípios criados no Estado do Amazonas. O nome do município veio em conseqüência das águas pretas (ou escuras) do rio que banha a localidade e desemboca no Paraná da Eva. O estabelecimento do município deve-se ao fato de ter sido implantado a colônia agrícola por imigrantes japoneses e alguns colonos brasileiros que se instalaram em fins de 1967, três anos após ter chegado a estrada do Rio Preto, possibilitando a tornar-se município, vindo a ocorrer em dezembro de 1981, conforme deliberação tomada pelo governador José Lindoso. Presidente Figueiredo No documento da Confederação Nacional de Municípios, constam nas informações que a origem do município está ligada principalmente à Novo Airão e Itapiranga, dos quais foi desmembrada a maior parte do território que hoje constitui Presidente Figueiredo, bem como a Manaus, cuja vizinhança foi fator influente no desenvolvimento da região. Os primeiros assentamentos populacionais nesses pólos datam de 1657, para o local onde hoje é a cidade de Manaus, e 1668, o local hoje é a sede de Novo Airão. A partir desses núcleos foi que ocorreu a consolidação e ampliação do povoamento do Baixo Rio Negro. Integrado ao município de Manaus, Novo Airão passa a constituir distrito de capital em 1938, com a denominação de Airão. Em 1955 ocorreu o seu desmembramento de Manaus, constituindo-se no município autônomo de Novo Airão. Paralelamente, em 1952 foi criado o município de Itapiranga, contando em sua área com a atual Vila de Balbina. Em 10 de dezembro de 1981, pela Emenda Constitucional nº 12, foi criado o Município de Presidente Figueiredo, com o desmembramento dos territórios de Novo Airão (sua parte no extremo leste, limítrofe a Manaus) e de Itapiranga (Vila e arredores de Balbina), bem como áreas adjacentes de Silves e Urucará. A instalação do município efetivou-se com as eleições gerais de 1982 e consequentemente com a posse do prefeito e vereadores em janeiro de 1983. O significado do nome da cidade, oficialmente diz respeito ao primeiro presidente da Província do Amazonas, João Batista de Figueredo Terreiro Aranha, falecido em 1861. Esse fato coincidiu com o final do governo do Presidente Figueiredo. Aspectos Territoriais e Demográficos Conforme a SEPLAN (2010), o perfil dos municípios de Manaus, Iranduba, Rio Preto da Eva e de Presidente Figueiredo apresentam algumas características descritas a seguir: Manaus 39 Localizada na região norte do Brasil, á margem esquerda do Rio Negro, é considerada a porta de entrada para a maior floresta tropical do planeta. Na divisão administrativa e regional o município pertence a 7º sub-região. O acesso é feito por via aérea, terrestre ou fluvial. A cidade convive com a modernidade das empresas de tecnologia de ponta, instaladas no Polo Industrial de Manaus ao lado da exuberante floresta. A capital (Manaus) teve melhorias de infraestrutura urbana, mudando a paisagem com o crescimento da cidade, duplicação de avenidas, construção de viadutos, dentre outras modificações. A qualidade de vida é beneficiada por diversos parques. E o ecoturismo assume papel de destaque no caminho do desenvolvimento. Os dados do (Quadro 18) mostram aspectos da situação territorial dos municípios do Pólo 3 do Território Manaus e Entorno. Assim, de acordo com as informações do (IBGE, 2011; SEGOV-AM, 2011) as pessoas que nascem em Manaus são denominados pelo gentílico de Manauara e o município apresenta como identificação o código130260. Dentre os municípios que constituem o Pólo 3, o município de Manaus apresentou a segunda maior área da unidade territorial 11.401,077 Km e a densidade demográfica de 158,06 hab/Km 2 foi superior a dos demais municípios desse Pólo. Manaus está localizado entre às coordenadas Latitude -3,1° e longitude -60,02°. Os municípios limítrofes São: Itacoatiara, Iranduba, Careiro, Rio Preto da Eva, Presidente Figueiredo e Novo Airão. Iranduba O município de Iranduba localiza-se na 7º Região do Rio Negro Solimões. Apresenta vias de acesso terrestre e fluvial. A sede localiza-se à margem direita do Rio Negro, a esquerda do Solimões e sobre os sedimentos terciários areno-argilosos da Formação Alter do Chão, de idade Cretácea. A região está associada a um índice pluviométrico de 2.300mm/ano e exuberante cobertura vegetal (SILVA e SILVA, 2007). No Iranduba a descoberta dos sítios arqueológicos tornou-se importante para a descoberta dos primeiros habitantes da região. O gentílico para as pessoas nascidas nesse município é Irandubense. O município apresenta como código de identificação o número 130185 e a menor área da unidade territorial do Pólo 3 2.214,250 Km2. Esse município tem a segunda maior densidade demográfica 18,42 hab/Km2. A sede do município situa-se entre as cordenadas Latitude -3.28º e Longitude -60.18º e municípios limítrofes são Manacapuru, Manaquiri, Manaus, Novo Airão e Careiro. Rio Preto da Eva 40 O Rio Preto da Eva é um município brasileiro do estado do Amazonas que está incluído na região metropolitana de Manaus, abrange 69 comunidades e apresenta como fator relevante a facilidade de acesso a capital do estado por via terrestre (SEPROR, 2011; SEPLAN, 2010). As pessoas que nascem no Rio Preto da Eva são chamadas de Rio-pretense e o município é identificado pelo código de número 130356. O município do Rio preto da Eva tem a 3ª maior área da unidade territorial do Pólo 3 com 5.813,216 Km 2, da mesma forma, apresenta densidade demográfica de 4,42 hab/Km2. A sede do município situa-se entre as cordenadas Latitude 02º 41’ e Longitude 59º 41’. Os municípios limítrofes são: Itacoatiara, Presidente Figueiredo, Manaus e Itapiranga. Presidente Figueiredo O município de Presidente Figueiredo está situado á nordeste do Estado do Amazonas, norte de Manaus. A cobertura vegetal do Município é constituída, principalmente, por floresta ombrófila densa de terra firme e os principais acidentes geográficos são: cachoeiras, corredeiras, cavernas, igarapés, lagos e rios que, devido ás inundações periódicas, durante a estação chuvosa, mantêm em suas margens a floresta de igapó (SILVA e SILVA, 2006). As pessoas nascidas em Presidente Figueiredo recebem o gentílico de Figueirense. O município abrange uma área da unidade territorial de 25.422,259 Km 2, sendo dessa forma o maior município em área territorial, dentre os municípios do pólo 3. Entretanto a sua densidade demográfica com 1,07 hab/Km2 é a menor. A sede localiza-se entre as coordenadas Latitude 02º 02’ e Longitude 60º 01’ e os municípios limítrofes são: Manaus, Rio Preto da Eva, Urucará, Itapiranga, São Sebastião do Uatumã, Novo Airão e o estado de Roraima. Manaus Manauara 130260 (1) Área da unidade Territorial (Km2) 11.401,077 Iranduba Irandubense 130185 2.214,250 18,42 Rio Preto da Eva Presidente Figueiredo Rio-pretense 130356 5.813,216 4,42 Figueirense 130353 25.422,259 1,07 Município Município (1) Gentílico (1) Código do município (1)Densidade demográfica (hab/Km2) 158,06 SITUAÇÃO GEOGRÁFICA Localização da sede do município (2)Municípios limítrofes Lat Long 41 Manaus -3.1º -60.02º Itacoatiara, Iranduba, Careiro, Rio Preto da Eva, Presidente Figueiredo e Novo Airão Manacapuru, Manaquiri, Manaus, Novo Airão e Careiro Iranduba -3.28º -60.18º Rio Preto da Eva -2.69º -59.7º Itacoatiara, Presidente Manaus e Itapiranga Presidente Figueiredo -2.03º -60.02º Manaus, Rio Preto da Eva, Urucará, Itapiranga, São Sebastião do Uatumã, Novo Airão e o estado de Roraima Figueiredo, Quadro 18 - Informações gerais sobre os municípios do pólo 3 Fonte: 1 - IBGE/Cidades, Censo 2010; 2 - SEGOV- AM (2011). De acordo com a SEPLAN (2010), dentre os municípios que compõem o Pólo 3 Manaus é o município que apresenta temperatura mais elevada com máxima de 39°C e mínima de 27°C. Os municípios apresentam similaridade nas condições climáticas, classificado como tropical chuvoso úmido e a maior altitude foi verificada no município de Iranduba 140m. Os municípios estão situados no Bioma Amazônia. Abstraindo Manaus, a distâncias entre a capital e os municípios do Pólo 3 varia entre o mínimo de 27,7 Km e o máximo 107 Km. No aspecto da divisão administrativa, os municípios pertencem a 7ª subregião (Rio Negro/Solimões) e 8ª sub-região (Médio Amazonas). No índice de desenvolvimento humano destaca-se o município de Manaus com índice de 0,774. Esse fato pode estar associado a melhores fatores econômicos e sociais da sede do município (Manaus) que também é a capital do estado. LOCALIZAÇÃO TERRITORIAL E ASPECTOS AMBIENTAIS Município (3)Temperatura °C Pólo ( 3) (3)Clima (3)Altitude Máxima Mínima (acima do nível do mar) Manaus 39 27 Tropical quente e úmido 21m Iranduba 31 27 Tropical chuvoso e 140m úmido Rio Preto da Eva 32 25 Tropical chuvoso e 31m úmido Presidente 32 25 Tropical chuvoso e 40m Figueiredo úmido ASPECTOS DO CONTEXTO REGIONAL 1 Município ( )Bioma ( 2)Distância da ( 2)Divisão (2)IDH-M Pólo ( 3) capital do administrativa e 42 Manaus Iranduba Rio Preto da Eva Presidente Figueiredo Amazônia Amazônia Amazônia Estado (Km) 0 27,7 57,5 Amazônia 107 regional/Sub-Região 7ª (Rio Negro/Solimões) 7ª (Rio Negro/Solimões) 7ª (Rio Negro/Solimões) 0,774 0,694 0,677 8ª (Médio Amazonas) 0,741 Quadro 19 - Aspectos da situação geográfica e ambiental Fonte: 1-IBGE/Cidades, censo 2010; 2- SEPLAN (2010) IDH-M (Referente ao ano de 2000); 3- SEGOV AM, 2011. Em relação à demografia, pode ser verificado comparativamente que o município de Manaus destaca-se com a maior população 1.802,014 pessoas no município, na área urbana com 1.792.881 pessoas e a menor população na área rural 9.133 pessoas. O município de Iranduba tem a segunda maior população com 40.781, sendo que na zona urbana residem 28.979 pessoas e na zona rural 11.802 pessoa. O número de mulheres residentes na zona urbana 14.317 pessoas é superior ao das mulheres na zona rural 4.140 pessoas. A população do Rio Preto da Eva é a menor com 25.719 pessoas, sendo que a maior população está concentrada na área rural com 13.514 pessoas, onde a população masculina também é maior 7.322 pessoas. No município de Presidente Figueiredo a população é de 27.175 pessoas. A população rural com 14.174 pessoas é maior do que a urbana com 13.001 pessoas, e o número de pessoas do sexo masculino é maior 14.350 pessoas (IBGE, 2010). Outro aspecto que deve ser considerado é a distância da capital, ou seja, quanto mais distante da capital maior a população rural, que de modo geral apresentou maior número de pessoas do sexo masculino Polo (3)Municípios na área rural. POPULAÇÃO RECENSEADA POR RESIDÊNCIA E GÊNERO (PESSOAS) Total No município Home Mulher m Total Área Urbana Homem Mulher Total Área Rural Homem Mulher Manaus 1.802, 014 879.74 2 922.27 2 1.792.88 1 874.74 9 918.13 2 9.133 4.993 4.140 Iranduba 40.78 1 20.996 19.785 28.979 14.662 14.317 11.80 2 6.334 5.468 Rio Preto 25.71 da Eva 9 13.406 12.313 12.205 6.084 6.121 13.51 4 7.322 6.192 43 Presidente Figueiredo 27.17 5 14.350 12.825 13.001 6.622 6.379 14.17 4 7.728 6.446 Quadro 20 - Aspectos demográficos da população residente nos municípios do pólo 3. Fonte: IBGE/Cidades, censo 2010. Contexto Econômico Nos aspectos econômicos, excetuando-se Manaus, que tem grande aporte da sua economia na Zona Franca de Manaus (Polo industrial). Os demais municípios do Pólo 3, têm a maior expressão da sua economia, na atividade agropecuária (Quadro 21). A atividade pecuária é constituída pela criação de bovinos e/ou pequenos animais e a atividade agrícola no cultivo de culturas perenes e anuais para o consumo familiar, e o excedente para o mercado local. Nos municípios mais próximos à Manaus, a comercialização é feita nos mercados e feiras da capital. Em alguns municípios as atividades pesqueira, extrativista, de fabricação de artefatos artesanais e de turismo são fontes de renda para as famílias rurais e de desenvolvimento da economia do município. Manaus ASPECTOS ECONÔMICOS A produção agropecuária é baseada no cultivo de mandioca, cupuaçu, cítricos e hortaliças. A pecuária é representada principalmente por bovinos e suínos. A pesca é abundante. A Zona Franca de Manaus se tornou um pólo comercial e industrial. O comércio oferece produtos importados de alta tecnologia a preços acessíveis. Manaus vem se transformando no maior entreposto aduaneiro da América Latina e em porta de saída de produtos de Iranduba exportação para os mercados do Caribe e Estados Unidos. A produção agropecuária e baseada no cultivo de milho, arroz, mandioca, maracujá, repolho, pepino, couve, alface, tomate. A exploração florestal é grande, com destaque para e extração de madeira. A pecuária é representada principalmente por bovinos, das raças Nelore, Girolândia e Mista. A pesca é abundante no período de maio a novembro, onde o excedente é Rio Preto comercializado em feiras e mercados. A produção agropecuária é baseada no cultivo de mandioca, cítricos e da Eva hortaliças. Além da extração de madeira. A pecuária é representada principalmente por bovinos, com produção de carne e de leite. A pesca é a Presidente principal fonte de alimento da população local. A produção agropecuária é baseada no cultivo de mandioca, arroz, milho e Figueiredo cupuaçu. A pecuária é representada principalmente por bovinos, com 44 produção de carne e de leite. A atividade pesqueira é bastante desenvolvida, com destaque para a criação de alevinos. Quadro 21 - Aspectos econômicos dos municípios do pólo 3. Fonte: SEGOV-AM, 2011. Assistência Técnica A assistência Técnica e Extensão Rural – ATER, é um serviço de educação não formal, de caráter continuado, no meio rural, que promove processos de gestão, produção, beneficiamento e comercialização das atividades e dos serviços agropecuários, inclusive das atividades agroextrativistas, florestais e artesanais. Nesse sentido o serviço de ATER é um fator que pode contribuir para a melhoria da qualidade de vida das famílias rurais. No Polo 3 foi verificado que todos os municípios apresentaram mais de 50% de suas comunidades com o serviço de ATER (Quadro 22). Municípios Pólo 3 Manaus Iranduba Rio Preto da Eva Presidente Figueiredo Comunidades com serviço de Assistência Técnica e Extensão Rural Total Assistidas Não assistidas 101 55 46 63 48 15 69 44 25 54 49 5 Quadro 22 - Serviço de Assistência Técnica e Extensão Rural nos municípios do Pólo 3. Fonte: Unidades Locais do IDAM/DEPLA, 2010. Contexto Social Saúde Nos aspectos sociais, os dados indicam que no município de Manaus há maior número de estabelecimentos hospitalares e de leitos tanto na rede pública quanto particular (Quadro 23). Nos demais municípios, excetuando Manaus, foi verificado que Presidente Figueiredo conta com melhor estrutura na área de saúde, considerando a sua população e que na rede pública desse município existem 20 unidades hospitalares e 30 leitos para internação. Nos municípios de Iranduba e Rio Preto da Eva o número de hospitais e leitos é menor. Na área da saúde, a Secretaria de Saúde do Estado do Amazonas (SUSAM) é a responsável pela coordenação, execução e supervisão nas unidades de saúde do interior. Essa secretaria mantém na sede do município, uma Unidade Mista Hospitalar, destinado a prestar atendimento de pronto-socorro, maternidade, atendimento cirúrgico, odontológico e hospitalar para a população local e da periferia. 45 A assistência médica nas comunidades rurais ainda é precária, dentre outros fatores, pela estrutura das unidades de saúde nas comunidades rurais, pelo isolamento e a distância, além da disponibilidade de profissionais habilitados. Assim, no sentido de somar esforços para o atendimento da população rural, o Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) e a SUSAM colocam também para o atendimento da população ribeirinha, barcos que funcionam como postos ambulatoriais nas comunidades. Municípios Manaus Iranduba Rio Preto da Eva Presidente ESTABELECIMENTO HOSPITALAR Municipal Estadual Federal 237 49 13 12 1 0 10 1 0 20 0 Particular 201 0 2 0 0 196 0 0 775 0 9 0 0 Figueiredo Manaus Iranduba Rio Preto da Eva Presidente 69 0 0 30 Leitos para internação 2.268 29 19 0 Figueiredo Quadro 23 - Indicadores na área de serviços de saúde nos municípios do pólo 3. Fonte: 1-IBGE/Cidades, Censo 2010. Área da Educação Nos municípios do Pólo 3 a educação infantil teve maior número de alunos matriculados na rede municipal, com um número de alunos que variou de 1.518 a 41.518 alunos. Nas escolas particulares o número de matriculados foi menor, variando de180 a 15.359 alunos (Quadro 24). Porém vale ressaltar que o maior número de alunos matriculados foi no município de Manaus. No ensino fundamental, a rede municipal matriculou maior número de alunos, destacando-se com maior número de alunos, o município de Manaus e com o menor Presidente Figueiredo. O ensino médio apresentou um padrão inverso da educação infantil, ou seja, o maior número de alunos matriculados ocorreu na rede estadual, entretanto Manaus apresentou o maior número de alunos tanto no ensino público quanto particular. No município de Manaus foi verificado também o maior número de escolas e docentes. 46 Municípios Manaus Iranduba Rio preto da Eva Presidente Figueiredo Nº DE ALUNOS / EDUCAÇÃO INFANTIL Estadual Municipal Particular 0 41.818 15.359 0 1.722 180 0 0 2.025 1.518 Nº de Alunos / Educação Fundamental 144.789 170.977 1.753 8.605 1.330 8.660 590 5.410 Manaus Iranduba Rio preto da Eva Presidente Figueiredo Nº de Alunos / Ensino Médio Manaus 80.642 0 Iranduba 2.042 0 Rio preto da Eva 1.957 0 Presidente 1.143 0 Figueiredo Municípios Número de Docentes Estadual Municipal Manaus 7.206 6.576 Iranduba 154 446 Rio preto da Eva 65 187 Presidente 68 328 Figueiredo Número de estabelecimento de ensino Manaus 222 459 Iranduba 154 446 Rio preto da Eva 65 187 Presidente 4 27 Figueiredo 1.133 477 48.753 129 477 247 9.008 0 434 63 Particular 3.694 11 15 25 193 11 15 12 Quadro 24 - Indicadores na área do sistema educacional nos municípios do pólo 3. Fonte: SEPLAN – 2011 (Referente ao ano de 2010). Infraestrutura Os municípios do Pólo 3 possuem serviços de fornecimento de energia e abastecimento de água, sem, entretanto atingir, todas as comunidades rurais (Quadro 25). Nas comunicações, o serviço de telefonia mantém uma agência operando com os serviços de 47 DDD. A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos mantém uma agência para receptação e distribuição de correspondências, bem como os serviços postais necessários à população. Manaus INFRAESTRUTURA BÁSICA Energia: a produção e distribuição de energia estão a cargo da Manaus Energia S/A, com uma produção de 4.066Gwh, atendendo a população local e da periferia. Abastecimento d'água: A captação e a distribuição de água estão a cargo da Companhia Águas do Amazonas, com 3 Estações de Tratamento de Água, 63 Reservatórios e 103 poços ativos. Energia: A produção e distribuição de energia estão a cargo da Companhia Iranduba Energética do Amazonas - CEAM, que mantém no município uma usina a diesel com grupos geradores, cuja capacidade total é de 4.997 KVA. Abastecimento d'água: A captação e o abastecimento de água estão a cargo da Companhia de Saneamento do Amazonas - COSAMA. A captação é do tipo superficial. A distribuição é feita através de baixos recalques com grupos de motor bomba de potência de 20 CV. Energia: A produção e distribuição de energia estão a cargo da CEAM, que Rio preto mantém no município uma usina a diesel com grupos geradores, atendendo da Eva as necessidades da população. Abastecimento d'água: A captação e o abastecimento de água estão a cargo da COSAMA. A captação é do tipo subterrânea, há 1 reservatório do tipo elevado com capacidade para 65m3. Energia: A produção e distribuição de energia estão a cargo da CEAM, que Presidente mantém no município com três grupos geradores, somando uma potência Figueiredo total de 13.8 KVA. Abastecimento d'água: A captação e o abastecimento de água estão a cargo da COSAMA. A captação é do tipo superficial. A distribuição é feita através de baixos recalques com grupos de motor bomba de potência de 20 CV. Quadro 25 - Aspectos da infraestrutura básica dos municípios do pólo 3. Fonte: SEGOV-AM, 2011. Aspectos Culturais Os eventos culturais nos municípios estão relacionados predominantemente as festividades dos santos padroeiros, ao folclore e aos produtos de maior expressão econômica no município (Quadro 26). 48 EVENTOS CULTURAIS Festa da Padroeira, Nossa Senhora da Conceição, em 08 de dezembro Manaus Festival Universitário de Música – FUM, no mês de outubro Festival Folclórico, que acontece nos meses de junho e julho Festival Folclórico Marquesiano, no mês de junho Feira Agropecuária do Amazonas, no mês de setembro Festival de Jazz, que acontece uma vez ao ano Ensaios Oficiais dos Bois Garantido e Caprichoso, que se iniciam logo após o Carnaval e vão até uma semana antes do Festival. Festa do Padroeiro, São João. em 24 de junho Iranduba Rio Festa da Cerâmica. Preto Festa da Laranja, no mês de agosto Festa da Vaquejada, no mês de setembro Festa do Padroeiro, São Pedro, em 29 de junho Festival da Canção, no mês de abril Presidente Festa do Esporte, no mês de setembro. Festejos de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em 27 de julho Figueiredo Festa do Cupuaçu, no mês de março Torneio da Pesca do Tucunaré, que acontece juntamente com rodeios, da Eva canoagem ecológica e arraial Festa do Sol, de 5 a 7 de setembro Festa do Aniversário da Cidade, em 10 de dezembro. Quadro 26 - Eventos culturais nos municípios do pólo 3. Fonte: SEGOV-AM, 2011. 49 2 Identidade Territorial A análise de Identidade Territorial foi subsidiada por dados agregados, disponíveis no Sistema de Gestão Estratégica - SGE, que em um único gráfico sistematiza os fatores 3 que para a SDT demonstram a identidade do territorial. Outra informação utilizada para relatório está baseada nos dados desagregados gerados pela Célula de Acompanhamento e Informação do Território Manaus e Entorno. É importante destacar que ambos os dados tiveram como ferramenta o questionário de Identidade Territorial disponibilizado pela SDT. A utilização dos dados desagregados se faz necessário, pois os questionamentos indagados durante as entrevistas aparecem de forma separada e assim a partir da análise das partes terá uma melhor compreensão do todo, ou melhor, do território. Fora o uso da ferramenta questionário aliado as informações adquiridas e que não estão posta nesse instrumento, pois no momento de aplicação dos questionários se tinha um diálogo de até 2 horas de conversa, com isso tem-se o complemento das questões que são fechadas no questionário. Também a o uso de dados obtidos através das reuniões, eventos, e oficinas realizadas pelo Colegiado Territorial e a Célula. Processos de territorialização na Amazônia A Amazônia está em voga em todas as discussões, sejam elas puramente econômicas ou ambientais. É uma região que foi e continua sendo sujeita de vários projetos. É quase uma normatização, principalmente quando nos remetemos ao período histórico de colonização desta região. As tentativas de apropriação do território foram muito agressivas para os povos que aqui já estavam. As formas de economia são exemplos de uso desordenado da região. Esta realidade é visualizada nos chamados ciclos econômicos que a Amazônia foi sujeitada como o ciclo das Drogas do Sertão, o ciclo da Borracha e implantação da Zona Franca de Manaus. Ademais quando na tentativa do governo de integrar a Amazônia a economia nacional com abertura de estradas e incentivo a migração com o intuito de povoar o que o governo chamava de vazio demográfico, prometendo áreas para o plantio e pastos. 3 Os fatores que para SDT possibilitam identificar a identidade seria o Ambiental, Agricultura Familiar, Economia, Pobreza, Etnia, Colonização e Política. 50 É importante destacar que as políticas de desenvolvimento ao longo das décadas do século XX, foram desagregadoras, tornando os amazônidas prisioneiros de uma realidade imposta por ações exógenas. A partir da década de 1980 que o debate sobre o planejamento territorial na Amazônia muda o foco e se tem na linguagem abordagens de cunho ambiental, hoje estamos no paralelo em que as políticas de desenvolvimento devem ou aparentam está ligadas a manutenção e prolongamento dos recursos ambientais. A preocupação com os atores sociais aparece nessas discussões. De acordo com Becker, 2004, esse cenário alterou o significado da Amazônia, com uma valorização ecológica de dupla face: a da sobrevivência humana e a do capital natural, pois ambos devem ser valorizados e pensados no mesmo contexto. É por várias tentativas do governo em desenvolver o Brasil numa paridade, ou tentar chegar a níveis menores de disparidade econômicas e sociais, se busca uma nova metodologia de desenvolvimento, embasado numa abordagem territorial. Esse desenvolvimento na lógica territorial com foco no meio rural conforme Perico (2009) é uma tendência na America Latina e o Brasil aparece com inovações na criação de estratégias para essas políticas. A inovação dita parte de um “redescobrimento” do território, o Brasil, na verdade os governantes, antes dessa nova configuração política, com o enfoque territorial, não mostravam um interesse nas questões particulares do país, havia um desconhecimento, ou não se importavam de fato com as particularidades de cada região. É nessa busca de desenvolver a partir do local para o global, que aparece o eixo central dessa nova estratégia do governo, a identidade, esta que expressa às características, as manifestações, os atributos, culturais, econômicos ou políticos, que são apropriados pelas pessoas em seus respectivos territórios. Desenvolvimento territorial e identidade A política de desenvolvimento decorre de séculos no Brasil, mas a atual política busca o desenvolvimento na lógica territorial. O desenvolvimento exprime-se através do acesso físico e econômico, principalmente as necessidades básicas contidas na Constituição. De acordo com Mafra e Silva, as políticas territoriais seriam: o conjunto de normas e intervenções ditadas ou adaptadas pela iniciativa pública, tendo em vista o ordenamento do território, isto é, a formação e o desenvolvimento dos centros urbanos/rurais, a distribuição espacial da 51 ocupação do solo no interior dos mesmos e nas regiões envolventes e a sua utilização por parte dos diversos agentes (2004, p. 9). O uso da categoria território se tornou comum nas estratégias de desenvolvimento rural do Governo Federal. Essas estratégias consistem em se apropriar de recursos específicos e enaltecer o potencial identificável do território, ou seja, a identidade territorial. A importância da identidade na estratégia de desenvolvimento dos Territórios Rurais é fundamental, haja vista, a diversidade territorial que possui o Brasil. Rafael Perico (2009), ressalta que as particularidades contidas nos territórios têm uma essência heterogênea, em especial no espaço rural brasileiro, onde culturas, entornos geográficos, sistemas econômicos, estruturas demográficas e modelos da gestão política definem diversos cenários. A tentativa de compreender e enaltecer as características e potencialidades dos territórios terá como possível resultado a coesão social, uma distribuição e alcance dos bens e serviços na lógica pública e privada. Além de proporcionar aos atores envolvidos o sentindo de participação na gestão pública. No entanto para delinearmos o cenário que se encontra o território Manaus e Entorno é fundamental refletir sobre a categoria que pulsa esse grande programa, a categoria território. O território envolve sempre, ao mesmo tempo, mas em diferentes graus de correspondência e intensidade, uma dimensão simbólica, cultural através de uma identidade territorial socialmente construída pelos diferentes grupos. Assim, no território existe uma pluralidade de sujeitos, em relação recíproca, contraditória e de unidade entre si, no em com o lugar e com outros lugares e pessoas e identidades. Os elementos basilares do território, ou seja, as redes de circulação e comunicação, as relações de poder, as contradições e a identidade, interligam-se, fundem-se uma nas outras numa trama relacional (HAESBAERT, 1997, p. 76) Nesse sentido, entende-se que as relações sociais são a base para a construção de um território e essas relações estão diretamente conectadas com os lugares, com seus fixos, fluxos, enfim, com suas redes de interconexões. O Programa de Desenvolvimento dos Territórios Rurais destaca que a participação da sociedade civil é imprescindível para a construção e efetividade dessa política territorial. As diferentes formas de ação organizada da sociedade civil são compreendidas aqui como forças horizontais, representadas pela ação dos Sindicatos de Trabalhadores Rurais (STRs), Associações de Produtores, de Pescadores, dentre outras. Para esclarecer melhor como se dá a apresentação das forças ou uniões horizontais cabe destacar a reflexão de Santos (1996) que descreve a maneira como os produtores rurais 52 se reúnem para defender os seus interesses, o que lhes permitem passar de um consumo puramente econômico, necessário às respectivas produções, a um consumo político localmente definido e que também distingue as regiões brasileiras umas das outras. Estes atores procuram defender suas potencialidades, suas características, ou seja, sua identidade. As forças ou uniões horizontais podem ver vistas no programa territórios nessa nova forma de gestão, incluir nas discussões de forma direta nas decisões de projetos para seus respectivos territórios. A descentralização e a participação da sociedade civil através das associações, sindicatos, colônia de pescadores, grupos de mulheres dentre outros, torna este programa diferente das tentativas anteriores de desenvolvimento, onde o governo pensava e implanta suas ações sem essa participação mais direta da sociedade. Santos (1996) alerta a pensar as novas horizontalidades que permitirão, a partir da sociedade territorial, promover um desenvolvimento na perspectiva do local ao global. Em outras palavras, que os questionamentos e ideias partam dos sujeitos em questão. Mas esse cenário só será conquistado se a compreensão de território e especificamente a identidade desse território for tomada como o ponto de apoio para as transformações necessárias a fim de se alcançar a melhoria de acesso as mercados, a financiamentos, alcance de novas tecnologias e inúmeros objetivos. Só quem está e vive o território é capaz de identificar os anseios e as demandas locais. Há dúvidas se o Território Manaus e Entorno é um território dado ou construído. Talvez no processo de um para outro. Esclarecer essa questão é fundamental para entender o cenário atual desse território, pois se busca neste espaço de análise visualizar a identidade do território. Para tanto é importante destacar o pensamento e a forma de territorialização desenvolvida pela SDT para o Programa Territórios Rurais, de acordo com Perico (2009) esse processo ocorreu através de uma ampla convocação dos atores locais e estaduais em cada uma das microrregiões selecionadas, com o objetivo de dar início à implantação da estratégia. Esse processo com o predomínio das reuniões realizadas pelos conselhos estaduais de desenvolvimento rural - conduziu a apreciação das realidades políticas e cultural de cada microrregião, o que resultou na redefinição das áreas. Esse foi o primeiro passo do processo de construção dos Territórios de Identidade. Através dessa descrição de criação dos territórios fica claro que a participação das organizações que representam a sociedade civil não foi tão participativa, este comentário se fundamenta nas falas dos participantes do Colegiado do território Manaus e Entorno obtidas nas entrevistas, oficinas e reuniões que esta Célula participou. 53 Ao descreverem o processo de criação do território Manaus e Entorno, são categóricos em seus comentários, para eles o território foi imposto, na medida em que não houveram discussões para se pensar quais municípios poderiam formar o território Manaus e Entorno, e sim sua criação ficou no campo político, nas mãos de um partido político, que determinou a criação desse território. Essa configuração pode ser comparada na análise de Pecqueur (apud Denardin; Sulbach, 2010), um território dado “é um território sem valor acrescentado com fatores de constrangimento ou limitações. Este território é tido como preexistente e se analisa o que ali acontece, o que lhe contem. Acaba sendo uma ‘porção’ do espaço que é objeto de observação”. Nesta mesma linha de discussão Flores (apud Denardin; Sulbach, 2010) definem o território dado como uma decisão político-administrativa é um processo top douw, cujo interesse pode ser, por exemplo, o estabelecimento de políticas de desenvolvimento para determinada região. Pode ser uma política nacional, como os Territórios Rurais, pois a matriz do programa é comum em todas as regiões do país, não se observa diferenciação em sua implantação nas diferentes regiões geográficas. O território dado faz parte de uma política comum no país, na configuração de verticalidade das ações e implantação dos projetos. A Amazônia é prova viva dessa lógica, pois os projetos implantados ao longo de décadas nesta região foram impostos, chegaram como pacotes fechados. A região Amazônica sofre até hoje com as políticas de desenvolvimento sem a participação de seus atores, sua população é refém de um sistema ambiental perverso que impõe limites ao uso do território e tão pouco dar alternativas. Ao analisar a criação do território em questão e dos seus respectivos municípios que o formam, são compreensíveis os comentários coletados pela CAI do Manaus e Entorno. Um território que tem em sua composição 13 municípios, onde 12 têm no setor primário suas fontes econômicas e destoando desse grupo uma capital com perfil contrariando a matriz do Programa. Manaus é a capital do estado do Amazonas e sua principal fonte de renda está no setor secundário, possui um parque industrial que é o motor não só da economia local, mas estadual. O seu potencial industriário está relacionado aos eletrônicos e setor de duas rodas, a matéria prima utilizada nas poucas fábricas que existem no pólo industrial de Manaus e oriunda de outras regiões e países. O Parque Industrial de Manaus é composto em sua maioria por montadoras, as peças chegam prontas e os industriários fazem o processo de montagem para gerar o produto final. 54 Fica esse questionamento sobre a participação de Manaus nesse território, pois atrelado a fonte econômica, o município comporta todo o aparo governamental e as organizações ligadas aos movimentos sociais. Esse cenário poderia ajudar na qualidade do projeto, mas pelo contrário, prejudica, pois Manaus é o centro geoeconômico e captam recursos e projetos para si, os demais municípios acabam sendo prejudicados. Atrelado a esse cenário está o forte poder político que ela detém e a presença de várias lideranças de movimentos sociais. Desta forma os movimentos sociais e os representantes do governo dos demais municípios acabam sendo guiados pelas decisões tomadas no município de Manaus. Já o território construído, é um processo de melhorias, fruto do jogo de atores e constatado a posteriori, é o resultado de um processo de construção social pelos atores, como nos alerta Pecqueur (apud Denardin; Sulbach, 2010). O território construído é um espaço-território que se forma a partir do encontro de atores sociais em um espaço geográfico dado; nele, os atores buscam identificar e resolver problemas comuns. Nesse território há sentimento de pertencimento com respeito à identidade construída e associada – trata-se de vários atores sociais com pensamentos e vidas diferentes – ao espaço de ação coletiva. Quando se constrói um território a solidariedade e o respeito entre os atores aparecerão em destaque. Isso significa que o Território Manaus e Entorno está ainda na idéia de território dado, buscando fortalecer sua identidade territorial para se tornar um território socialmente construído. O território construído tem na base a identidade, esta aparece com o sentimento de pertencimento e respeito. Sentir-se parte do território são os primeiros passos para o estabelecimento do território construído. É nessa concepção que os atores envolvidos nesse programa conseguirão êxito em suas ações. Na análise dos dados gerados a partir das atividades de campo verificaremos que a identidade do território Manaus e Entorno se configura na Agricultura Familiar, valorizar e viabilizar meios de fortalecer a identidade ajudará nesse processo. Os atores sociais tanto locais, quanto nacionais, participando cooperativamente e buscando atender as demandas e necessidades do território. A partir dessa interação os projetos e ações do programa e decisões locais terão uma abrangência maior, com resultados mais precisos. A identidade territorial não é um conceito fácil é inovador e complexo, está centrado na originalidade e singularidade de cada lugar (ROCA E MOURÃO, 2009). Levam em 55 consideração os aspectos físicos e humanos, suas características materiais e imateriais – biofísicas, socioculturais, econômicas, sóciopsicicológicas e etc. Este conceito permite analisar melhor os dados obtidos com o questionário de identidade territorial, que trás questões sobre o que nos aponta Roca e Mourão. A identidade territorial está além das formas de usos do território, das potencialidades. As relações sociais com seus valores culturais complementam e dão sustento para a identidade. A SDT para identificar a Identidade Territorial dos Territórios Rurais destacou sete fatores que de acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Territorial estão próximos ou influenciam o desenvolvimento territorial. Os indicadores de identidade que podem caracterizar o território são de ordem: Ambiental, Agricultura Familiar, Economia, Pobreza, Etnia, Colonização e Política. Os indicadores de identidade foram relacionados com alguns aspectos que para a SDT são fundamentais para auxiliar o desenvolvimento territorial: Limites do Território, Visão de Futuro, Metas de Objetivos do Território, Características marcantes, História Comum e Conflitos no Território. A correlação dos indicadores de identidade e os aspectos de desenvolvimento aparecem agregados em um único gráfico gerado pelo SGE. No gráfico abaixo é possível visualizar que o Território Manaus e Entorno tem como principal identidade a Agricultura Familiar, seguida da Economia e Ambiente. A Agricultura Familiar sem questionamentos forma o perfil desse território, as atividades econômicas estão atreladas a Agricultura Familiar. Os municípios que compreendem o Território Manaus e Entorno exceção de Manaus vivem da Agricultura Familiar, do pequeno produtor. A participação das organizações que os representam é fundamental para essa política de governo. No que diz respeito à Economia e Ambiente que também se destacam na identidade do território é fácil entender esse destaque, ambos tem ligação direta com a Agricultura Familiar. O setor primário de certa forma move esse território e a preocupação ambiental aparece em todos os discursos, nas falas de representantes do governo e da sociedade civil, do agricultor familiar que está a quilômetros de distância não só da sede municipal, mas do alcance das informações do Programa Territórios da Cidadania. Para todos esses atores desenvolver qualquer atividade sem preocupação com o ambiente está fora de questão. A preocupação ambiental é um reforço para a identidade territorial e mais é o eixo fundamental para o Desenvolvimento Territorial Sustentável. 56 Figura 01 – Identidade Territorial Manaus e Entorno Fonte: SGE/SDT, 2011. Para tanto, se faz necessário ressaltar que a capacidade e incapacidade das organizações que estão na linha de frente das ações territoriais são fundamentais para o estabelecimento das estratégias de desenvolvimento sustentável e não basta saber qual a identidade de um território e sim desenvolver as estratégias com base na identidade. A seguir teremos uma análise das questões que subsidiaram o questionário identidade, os dados estão desagregados, cada questão virá seguida de um gráfico que destacará as respostas dos 54 entrevistados pela Célula de Acompanhamento e Informação. Definição dos Limites do território A Definição dos Limites se fará através da análise dos dados quantitativos gerado com a aplicação do questionário Identidade Territorial. Nesse item busca-se entender o processo de definição dos limites territoriais do Manaus e Entorno. Mesmo por que entender os limites territoriais fortalecerá a identidade territorial e ademais mostrará se foi um processo participativo. 57 Figura 02 – Definição dos limites do território Manaus e Entorno Fonte: UFAM/NUSEC/SDT, 2011. Na figura 02 se observa que dos 54 entrevistados numa escala de menor importância (01) à maior importância (05) para a definição dos limites do território, 24 entrevistados deram nota 05 para Agricultura Familiar, 20 entrevistados deram nota 05 para os Movimentos Sociais e Políticos e 19 entrevistados deram nota 05 para os Recursos Naturais. Logo, os itens Agricultura Familiar, Movimentos Sociais e Políticos e Recursos Naturais são elementos que se destacam na definição dos limites do território. Na verdade esses aspectos são comuns e relevantes nos 13 municípios que o formam. Isso não significa que foram “determinantes” para a definição do território, pois nas entrevistas com os membros do colegiado, os mesmos deixaram claro que essa definição “veio pronta”. Um dado importante a ser destacado é que o questionário não aborda essa questão e com isso não nos permite compreender tal processo. Visão de futuro do Território Manaus e Entorno Na questão referente ao que o território almeja para o futuro (Figura 03), 41 entrevistados deram nota 05 para a Agricultura Familiar, 34 entrevistados deram nota 05 para os Recursos Naturais, 30 entrevistados deram nota 05 para os Movimentos Sociais e 29 entrevistados deram nota 05 para as atividades econômicas do território. Isso demonstra que numa perspectiva de futuro do Território a Agricultura Familiar e os Recursos Naturais do Território Manaus e Entorno são importantes. 58 Figura 03 – Visão de futuro do território Manaus e Entorno Fonte: UFAM/NUSEC/SDT, 2011. A visão de futuro é contemplada no PTDRS do Território Manaus e Entorno 4, este que está em fase de conclusão. Nesse aspecto está exposto o objetivo geral do Plano, aonde se quer chegar. De acordo com o Plano foram realizadas oficinas para delimitar os eixos estratégicos de desenvolvimento para se chegar à Visão de futuro do Território 5. Os eixos estratégicos priorizados no Plano estão divididos em três Dimensões: Sociocultural; Econômica; Ambiental Na Dimensão Sociocultural estão definidos dois eixos estratégicos: o social e a cultura para resolver os problemas relacionados aos dois eixos terão que ser feito programas direcionados: Eixo Estratégico Social, de acordo com o Plano para resolver problemas como d desigualdade social deve-se investir em educação no campo, qualidade de vida e controle social. Eixo Estratégico Cultural, programas que alcance os jovens e sem diferenciação de gênero. Já na Dimensão Econômica estão posto três eixos: Eixo Econômico, que a solução seria fazer Arranjos Produtivos Locais Prioritários, Diversificação da Produção Familiar e 4 A Visão de futuro tem a intenção de propiciar o direcionamento dos rumos da organização responsável pela gestão do Plano. 5 Espera-se que a população esteja organizada; que as estruturas de governo atuem de forma integrada; que as organizações dos produtores familiares estejam fortalecidas; que haja uma melhor integração entre produtores, meio ambiente e consumidores e, que haja igualdade, qualidade de vida e dignidade para os/as produtores/as. 59 incentivar a produção dentro da lógica Agroecológica. Eixo de Infraestrutura, os programas devem está voltados para o setor de comercialização dos produtos da Agricultura Familiar e de escoamento, este que é um dos principais entraves desse território. A Dimensão Ambiental trás o Eixo Meio Ambiente e os programas nesse eixo devem tratar da proteção ambiental. Para tanto é necessário a participação de todos na realização da Visão de Futuro do território, enquanto não houver a participação dos setores públicos, privados e da sociedade civil de forma engajada não obterão melhorias nas dimensões listadas acima. Está claro no Plano a Visão de Futuro, falta, porém por em prática as ações para alcançar esse objetivo comum. Metas e objetivos do Território No quadro 27, dos 54 entrevistados, numa escala de menor importância (01) à maior importância (05), para a elaboração das Metas e Objetivos do Território, 35 entrevistados deram nota 05 para a Agricultura Familiar, 30 entrevistados deram nota 05 para os Movimentos Sociais e Políticos, 21 entrevistados deram nota 05 para as Atividades Econômicas do Território e para os Recursos Naturais dos municípios que compõem o presente Território. Os números demonstram que as Metas e os Objetivos do Território foram estabelecidos partindo da importância da Agricultura Familiar e da atuação dos Movimentos Sociais e Políticos do Território. É importante ressaltar que no atual contexto do território Manaus e Entorno, são os representantes dos agricultores familiares e os movimentos sociais que de fato acreditam nessa política atual, são eles que com muitas dificuldades fazem o projeto caminhar. Metas e Objetivos do Território 1 Recursos Naturais Agricultura Familiar Atividades econômicas Pobreza, marginalidade e problemas sociais Comunidades tradicionais Processos de ocupação territorial Movimentos Sociais e Políticos Quadro 27 – Metas e objetivos do território Manaus e Entorno Fonte: UFAM/NUSEC/SDT, 2011. 2 2 1 2 3 1 2 4 6 3 2 3 9 5 7 11 12 11 7 4 14 9 20 18 16 15 10 5 21 35 21 16 14 19 30 99 7 4 4 5 4 4 4 60 São os agricultores familiares em conjunto com os movimentos sociais que resistem as dificuldades postas pela burocracia que dificulta o andamento dessa política territorial. A Agricultura familiar e os pequenos produtores constituem características da identidade com forte poder aglutinador dos atores na definição da identidade territorial, além de outras organizações que refletem grupos de interesse, com o principal interesse de encontrar espaços para superar os mecanismos de exclusão (PERICO, 2009, p. 153). Os interesses devem está direcionados para o alcance de melhorias para o território, compartilhar esse pensamento irá fortalecer a identidade desse território e em consequência as decisões terão mais força e principalmente resultados. Característica Marcante do Território As características que são referências no território aparecem novamente em destaque na Figura 04. A agricultura Familiar aparece como o principal aspecto e logo em seguida estão os Recursos Naturais e Atividades econômicas. Os Movimentos Sociais e a Pobreza, Marginalidade e Problemas Sociais também são relevantes. Figura 04 – Características marcantes do território Manaus e Entorno Fonte: UFAM/NUSEC/SDT, 2011. Esses dados revelam que apesar da potencialidade do Território nas atividades promovidas pela Agricultura Familiar e favorecida pelos Recursos Naturais de cada município, os índices de Pobreza e Marginalidade são elevados onde 16 entrevistados optaram pelo grau de relevância 05 e 21 entrevistados deram nota 04. 61 Esses dados mostram um sério problema que está atingindo o interior do Estado, esses problemas sociais típicos das grandes cidades ultrapassaram a barreira do urbano e são comuns nos municípios que compõem o Território. Nota-se que o rural e o urbano não estão dissociados, um faz parte do outro, o acesso a saúde, a educação, a lazer são necessidades de ambos os espaços, a diferença está no alcance delas, pois quem mora no meio rural tem limitações no acesso às políticas de governo e dificuldade em requerê-las. Não é espantoso ver que a agricultura familiar está em destaque como a principal característica do Território. Tirando o município de Manaus, todos os outros que compõe o território têm como principal fonte econômica a agricultura. Também não é estranho ser uma característica marcante os Recursos Naturais, pois o agricultor da Amazônia tem uma ligação muito forte com a natureza e sabe de sua importância para sobrevivência de ambos. História Comum do Território Na história comum do Território novamente a agricultura familiar é destaque. Outros aspectos também são importantes como os movimentos sociais, os Recursos Naturais, as atividades econômicas e o processo de ocupação do território. Por outro lado, os Processos de Ocupação Territorial e as Comunidades Tradicionais são apontados de forma tímida, por isso não aparecem na Figura 05, esses aspectos nos gráficos anteriores não apareceram com grandes notas também. Isso demonstra a importância da posse da terra e das populações tradicionais presentes nesses municípios, porém como dados históricos, pois como atuação presente a importância declina como mostram os dados anteriores. 62 Figura 05 – História comum do território Manaus e Entorno Fonte: UFAM/NUSEC/SDT, 2011. É instigante a pouca representatividade não só dos indígenas mais de outras comunidades tradicionais na identidade do território. As histórias de criação dos municípios que compõe o território estão muito relacionadas. A sempre uma ligação com alguma etnia indígena e essa ausência talvez esteja relacionada à separação que existe pelo próprio Estado de pensar políticas separadas, sem o envolvimento dos demais atores. Conflitos no Território O território Manaus e Entorno assim como todos os outros territórios não importa em que continente seja terá conflitos, as relações sociais e de poder estão na base de construção de todo território. A existência de conflitos no território foi visualizada de forma mais clara na Formação6 patrocinada pela SDT/MDA que alguns membros do Colegiado territorial do Manaus e Entorno, Baixo Amazonas, Alto Rio Negro e Madeira participaram. A pergunta orientadora da formação foi: Existem conflitos nos territórios do Amazonas? Responder esta pergunta não é fácil, mas apareceu em algumas respostas o porquê do atual cenário do território Manaus e Entorno. De acordo com os idealizadores, o principal objetivo é tentar montar uma matriz de leitura da realidade para entender a origem dos conflitos. 6 Formação SDT MDA - Dinâmicas Territoriais e Gestão de Conflitos na cidade de Manaus no período 6 a 10 de Junho de 2011 – Lord Hotel. 63 Uma das propostas é tentar desmitificar que conflito é algo ruim, serve apenas para atrapalhar o processo. O conflito é uma coisa boa, um instrumento de aprendizado. Talvez a resposta esteja na forma como as coisas estão ocorrendo, a falta de diálogo entre os principais atores seja a base dos conflitos. Foi dado destaque para palavra ESCUTAR, da importância de escutarmos uns aos outros. Deve-se evitar o escutar o que queremos. Essa questão está entendida quando se observa os discursos dos membros do colegiado. Na fala do coordenador do Núcleo Diretivo do Território Manaus e Entorno observa-se esse entendimento: é importante terminar o que é começado (projetos, ações). A não implantação das ações leva somente ao ouvir, e não ao escutar. Na formação os participantes concluíram que nos territórios do Amazonas os conflitos existem e os mesmos dificultam o andamento do território, ou melhor, o desenvolvimento. Como há conflito, e este deve está atrelado a um indivíduo ou grupo. Os participantes deixaram transparecer que os interesses estão dentro dos grupos. Cada grupo acaba propondo projetos/ações voltados para o interesse de poucos e assim não a uma abrangência de beneficiários. Os conflitos discutidos nos paragrafos acima estão relacionados aos interesses individuais ou de grupos que não foram abordado no questionário com a estrutura de perguntas e respostas fechadas, na figura 06 estão os dados gerados a patir das entrevistas com o Colegiado do Território Manaus e Entorno com o uso do questionário Identidade Territorial. Figura 06 – Principais conflitos no território Manaus e Entorno Fonte: UFAM/NUSEC/SDT, 2011. 64 Dentre os conflitos existentes no território o mais apontado pelos entrevistados está relacionado aos recursos naturais com 21 % das respostas e no mesmo nível estão a Agricultura Familiar, Atividades Econômicas e Pobreza, Marginalidade e Problemas Sociais, com 15 % cada. Os conflitos de ordem ambiental estão voltados para a questão de uso desses espaços, pois o território possui um número significativo de áreas protegidas, tanto de uso sustentável, quanto integral, além das terras indígenas. Os habitantes dessas áreas e os que estão ao redor em muitos casos, principalmente nas Unidades de Conservação, não foram consultados e com isso geram-se impasses na forma de uso. No caso da Agricultura familiar, a dificuldade está no acesso à documentação da terra, agrava o próprio desenvolvimento do território, pois sem título de propriedade o agricultor tem dificuldades no acesso às linhas de crédito. Tal situação é destaque no questionário de Índice de Condições de Vida aplicado com os agricultores. O aspecto Pobreza e marginalidade e problemas sociais está voltado mais para as áreas urbanas do território na ausência dos serviços básicos como educação, moradia, lazer etc. Já as Atividades econômicas têm seus problemas a partir das formas que são realizadas. Como as principais atividades econômicas são a pesca, piscicultura, pecuária e a agricultura, essas atividades nem sempre estão de acordo com as leis ambientais. Estas leis que acabam sendo severas com alguns grupos e com outros faz vista grossa. Os conflitos na Amazônia no atual cenário alcançam um patamar mais elevado. Não se trata mais apenas de conflito pela terra; é o conflito de uma região em relação às demandas externas. Esses conflitos de interesse, assim como as ações deles decorrentes contribuem para manter imagens obsoletas sobre a região, dificultando a elaboração de políticas públicas adequadas ao seu desenvolvimento. As opiniões internacionais e as inúmeras instituições/atores externos estão influenciando as decisões locais. Tem muita gente falando o que deve e não ser feito nesta região, mas sua população, esta não é ouvida, ou tão pouco é notada. Através dos dados é possível identificar o perfil do território Manaus e Entorno. Suas raízes estão voltadas para agricultura familiar e para os Recursos Naturais que são o centro das atenções do programa. Quer-se o desenvolvimento, mas dentro da lógica ambiental. Mesmo por que esse território está no estado com várias unidades de conservação, tendo como o seu principal cartão postal a floresta amazônica, não esquecendo o seu potencial hidrográfico. 65 Mas os dados não falam por si só. É importante levar em conta as informações adicionais relatadas pelos membros do colegiado nas entrevistas e nas várias reuniões que esta célula participou. Baseado nessas participações fica a observação que o Território Manaus e Entorno precisa entender a lógica territorial, que as ações devem ser tomadas em conjunto e pautada na identidade territorial, nas especificidades e potencialidades, estas devem atender o máximo da demanda territorial. É importante ficar claro que o território é construído a partir da mobilização dos atores sociais que procura identificar e resolver problemas comuns. Se a Agricultura familiar é a mão que os une, identificar os problemas e buscar as soluções para o desenvolvimento do território é algo possível. Mas, temos, sobretudo que alertar: a Amazônia é uma região continental e desenvolver projetos em um território com características tão singulares em relação ao restante do país não é fácil. Tão pouco se pode esquecer que os projetos bem sucedidos no eixo Sul/Sudeste nem sempre terão os mesmos resultados na região. Desta forma, fica evidente que qualquer projeto que vier a ser pensado para a Amazônia deve ser analisado e discutido com seus atores sociais. 66 3 Capacidades Institucionais A abordagem territorial fundamenta-se nos pressupostos de descentralização e gestão democrática do desenvolvimento rural. Neste sentido, a participação das instituições públicas e da sociedade civil é imprescindível para o fortalecimento e efetividade da ação pública, neste caso, para que os resultados do PDSTR possam promover a melhoria das condições de vida da população rural, particularmente aquelas que se dedicam à agricultura familiar. No contexto da estratégia de desenvolvimento territorial há um elemento importante que mantém uma relação direta com as metas estabelecidas para serem alçadas. Trata-se da capacidade institucional dos atores envolvidos em tal estratégia. Dentre estes, destacam-se os municípios, isto é, as prefeituras, as instituições estaduais e o próprio CODETER. O indicado de capacidade institucional permite avaliar o desempenho deste atores face aos resultados obtidos por meio dos projetos de empreendimentos e ao próprio desenvolvimento territorial. Sendo assim, o Quadro 28 mostra os índices de diferentes variáveis importantes, possibilitando uma compreensão geral sobre os níveis das capacidades das instituições e dos instrumentos correlacionados com a proposta do desenvolvimento rural. Quadro 28 – Indicadores de Capacidades Institucionais Fonte: Pesquisa de campo/SDT/SGE Os indicadores mais baixos são os de serviços institucionais disponíveis (0,272); de participação política (0,336) e aqueles que estão entre 0,40 e 0,60, considerados médios, entre os quais o de gestão do colegiado. Apenas um indicador tende a se destacar entre os demais, qual seja o de infraestrutura institucional, cujo índice é de 0,734 (Médio Alto). As capacidades institucionais são fundamentais para que a agenda territorial possa ter efetividade e promover o desenvolvimento rural. Sem o fortalecimento destas capacidades, particularmente dos órgãos públicos, é praticamente impossível concretizar as ações e 67 programas estabelecidos na esfera do colegiado territorial – órgão responsável pela gestão democrática do Território. Por meio do gráfico abaixo é possível ver as diferenças entre os níveis de capacidade institucional do Território Manaus e Entorno. Quanto mais próximo da ponta melhor a capacidade de cada uma das variáveis. Figura 07 – Biograma dos Indicadores de Capacidades Institucionais Fonte: Pesquisa de Campo/SDT/SGE. A ausência e o baixo comprometimento das municipalidades representam um dos maiores gargalos do processo de gestão do território, pois os projetos e ações programadas para os territórios deixam de ser implementadas no âmbito do Território. Como já foi dito, muitos dos projetos não saem do papel ou não apresentam os resultados esperados, é o que indicam as percepções dos atores envolvidos na estratégia de desenvolvimento territorial. Os prefeitos não apresentam interesse de maneira clara com relação à estratégia de desenvolvimento territorial. Muitos deles não vêem ganhos políticos com o PDSTR, principalmente pelo fato deles não administrarem diretamente os recursos e também pelo fato de terem seu poder de decisão limitado diante do CODETER. Esta percepção não aparece no gráfico, mas é oriunda do pensamento daqueles que estão envolvidos diretamente no processo de gestão do Território. Se por um lado, a participação e empenho das prefeituras locais é bastante precário, por outro, o governo do estado também não demonstrou até aqui um empenho mais amplo no sentido agregar o PDSTR às sua ações voltadas para o setor primário. A estrutura governamental não é aproveitada enfaticamente para fortalecer a estratégia de desenvolvimento territorial. Apenas uma instituição – a Secretaria Estadual de Produção – havia assumido compromisso de apoiar a estratégia, responsabilizando-se pela implementação 68 dos projetos deliberados na esfera do colegiado. Todavia, muitos dos projetos não foram implementados, embora vários outros tenham sido executados7. A insatisfação com relação ao andamento dos projetos é muito grande. Desde as primeiras atividades de trabalho de campo chamou atenção da equipe, as freqüentes críticas ao CODETER e às instituições governamentais pelo não cumprimento das ações programadas para os territórios. A Secretaria Estadual de Produção Rural – SEPROR e a Secretaria Estadual de Articulação de Políticas Públicas – SEARP foram duramente criticadas pelo não cumprimento daquilo que foi programado no colegiado. Coube a essas instituições executar os projetos encaminhados para os diferentes pólos e municípios do Território Manaus e Entorno o que não aconteceu. A insatisfação por parte dos membros do colegiado não se restringe apenas aos representantes das entidades da sociedade civil, mas também aos gestores públicos, particularmente aqueles vinculados às secretarias municipais de desenvolvimento rural e aos institutos de desenvolvimento agropecuário do estado (IDAM’s). Durante as entrevistas nos municípios, muitos deles manifestaram sua insatisfação e frustração com as instituições do Governo do Estado e do próprio Governo Federal. Um outro aspecto que revela a fragilidade das capacidades institucionais diz respeito à participação dos Conselhos de Desenvolvimento Rural Sustentável – CMDR’s no processo de gestão do Território. Durante as primeiras atividades de campo chamou atenção o nível de desmobilização e fragmentação da grande maioria destes conselhos. Muitos deles não se reuniam há bastante tempo, enquanto outros nem existiam de fato ou estavam em processo de reformulação jurídica e administrativa. Houve grande dificuldade para identificar os representantes do CODETER, sendo que em alguns municípios não havia o número completo deles. Durante as reuniões com os CMDRS’s, vários representantes foram eleitos para fazer parte da composição do CODETER. No que tange ao papel dos CMDR’s, muitos deles não exercem o controle social da gestão municipal. Na verdade, os CMDRS são muitas vezes controlados pelos prefeitos, que tem a seu favor a legislação, permitindo a ele colocar como presidente do conselho um dos seus secretários, em geral o representante direto da secretaria de desenvolvimento rural. Assim, o conselho tende a ser engessado e qualquer possibilidade de intervenção política ou questionamento da administração municipal é desarticulada imediatamente. Em consequência, 7 A Célula Manaus e Entorno ainda não dispõe de dados suficientes para fazer uma análise mais precisa sobre a situação dos projetos de empreendimentos implementados no Território. As reflexões que se seguem são baseadas em conversas informais com vários membros do CODETER. As dificuldades de obter informações sobre os projetos nas instituições parceiras tem sido um impedimento para a conclusão dos trabalhos. Espera-se que até final de novembro a avaliação de projetos já tenha sido concluída. 69 o CODETER tende a ficar mais enfraquecido na medida em que não consegue pressionar as prefeituras municipais para que estas se integrem à estratégia de desenvolvimento territorial. É importante salientar que nem todos os conselhos estão nesta situação, porém, certamente se trata de uma minoria. O gráfico demonstra, inclusive, uma fragilidade da participação da sociedade e das iniciativas comunitárias. Além destas, as capacidades organizacionais e os instrumentos de gestão municipal não passaram do nível Médio o que na prática corresponde a uma situação desfavorável à gestão territorial. Soma-se a estas fragilidades, o problema da burocracia e da desarticulação interinstitucional. Para muitos dos entrevistados, muitos dos projetos não saíram do papel por conta da burocracia enfrentada no âmbito da Caixa Econômica Federal – CEF. Para outros, falta maiores informações sobre os tramites burocrático para não haver retrocessos no encaminhamento e aprovação dos projetos territoriais. Para alguns, é necessário rearticular institucionalmente as entidades parceiras e promover um amplo esclarecimento sobre os trâmites burocráticos no âmbito da CEF a fim de simplificar o processo. De uma maneira geral, percebe-se uma fragilidade da governança territorial que se manifesta na desarticulação das instituições públicas e dos desníveis em termos de conhecimento entre governo e sociedade civil. Com isso, as políticas territoriais tendem a se enfraquecer e a não chegar à ponta, isto é, às populações rurais. Cabe aqui recuperar as dimensões políticas da idéia de governança a fim de que possamos entender melhor a conjuntura atual do território Manaus e Entorno e do processo de gestão territorial. A relação da estratégia de desenvolvimento territorial com a idéia de governança global é mais bem compreendida quando se têm clareza das dimensões conceituais da idéia de governance8. Um dos aspectos a salientar quanto a este conceito é o fato dele se contrapor a lógica do insulamento burocrático do Estado, que teve seu ápice com a hegemonia do pensamento neoliberal. Este reforçou a tese de que a eficiência governamental seria resultante de um processo de concentração, centralização e fechamento do processo decisório, portanto, resumida a atuação do corpo tecnocrata dos funcionários e das elites enclausurada na cúpula burocrática do Estado (DINIZ, 2001, p. 18). 8 A expressão governance surge a partir de reflexões conduzidas principalmente pelo Banco Mundial, “tendo em vista aprofundar o conhecimento das condições que garantem um estado eficiente” (DINIZ, 1995:400; SANTOS, 1997). Neste caso, a noção de governança passou a enfocar a capacidade governativa, sendo esta avaliada não apenas pelos resultados das políticas governamentais, mas também pela forma pela qual o governo exerce seu poder (GOLÇALVES, 2007). 70 Entretanto, este paradigma corroborou para enfraquecer os suportes institucionais da democracia em função de ter concentrado o poder decisório no Executivo, cada vez mais controlado pela tecnocracia. Além disso, a promessa de implementar escolhas públicas imunes às pressões dos interesses particulares e das forças políticas não se tornou realidade, pois, na verdade, eliminaram-se alguns interesses em benefício de outros, em geral daqueles que controlam a maior parte dos recursos e detêm maior poder de barganha (DINIZ, 2000). Ao contrário do paradigma da tecnocracia e do insulamento burocrático, a perspectiva da governança pressupõe uma lógica de governar pautada na capacidade de ação estatal na implementação das políticas e na consecução das metas coletivas. O sentido deste conceito refere-se ao conjunto de mecanismos e procedimentos para lidar com a dimensão participativa e plural da sociedade, o que requer a expansão e o aperfeiçoamento dos meios de interlocução e de administração dos diferentes interesses em jogo (DINIZ, 2000, p. 143). A dimensão da governança vem se fortalecendo nos processos de reforma dos Estados nacionais, porém de maneira distinta e em diferentes níveis de intensidade. Todavia, chama atenção o fato dos princípios da governança se contrapor ao insulamento burocrático enquanto paradigma de atuação governativa do Estado. Em outras palavras, “governança refere-se, enfim, à capacidade de inserção do Estado na sociedade, rompendo com a tradição de governo fechado e enclausurado na alta burocracia governamental” (DINIZ, 2001, p. 21). A noção de governança pode ser entendida como capacidade governativa de um dado sistema político produzir políticas públicas que resolvam os problemas da sociedade. Neste caso, o sistema político vigente em uma da sociedade pode ser analisado pela sua capacidade de “[...] converter o potencial político de um dado conjunto de instituições e práticas políticas em capacidade de definir, implementar e sustentar políticas (SANTOS, 1997, p. 338). Com base na acepção de capacidade governativa é possível entender o sentido proposto pelo ideário da governança como eficiência e ampliação da capacidade do Estado em formular e implementar políticas públicas. A governança – medida pela capacidade governativa – pressupõe que o sistema político, independente de qual seja, possa ser capaz de: 1) identificar problemas da sociedade e formular políticas públicas, isto é, oferecer soluções; e 2) implementar as políticas formuladas, mobilizando para isso meios e recursos políticos, organizacionais e financeiros. Tanto o processo de formulação quanto o de implementação de políticas públicas são elementos importantes e essenciais da capacidade governativa de um dado sistema político, e mais precisamente, de um estilo de governo baseado nos princípios da governança. Em síntese, “a formulação de políticas públicas depende, de um lado, do sucesso de a elite 71 governamental mobilizar apoios para as políticas de sua preferência mediante a formação de coalizões de sustentação e, de outro, da construção de arenas de negociação que evitem a paralisia decisória” (SANTOS, 1997, p. 339). Neste processo de construção da capacidade governativa ocorre que o Estado cada vez mais se insere no jogo de poder internacional para ampliar o seu poder local de intervenção e resolução dos problemas sociais. Desta forma, o Estado tende a se envolver e/ou corroborar com processos de governança não apenas em nível local, mas também em escala global. Isto decorre porque a sociedade mundial requer a viabilização da reforma do Estado com a finalidade de alargar suas relações governativas em âmbito mundial sem necessariamente perder ou enfraquecer-se quanto a sua soberania, poder e autoridade nacional. Assim: as novas condições internacionais e a complexidade crescente da ordem social pressupõem um Estado dotado de maior flexibilidade, capaz de descentralizar funções, de transferir responsabilidades e de alargar, em vez de restringir, o universo dos atores participantes sem abrir mão dos instrumentos de controle e de supervisão. Em outros termos, cabe viabilizar a inserção do Estado na sociedade, sem enfraquecer a autoridade estatal e os seus meios de coordenação e de execução (DINIZ, 2000, p. 143). Diante do exposto, pode-se afirmar que a governança global é um campo de poder, ou melhor, um sistema de poder de teor supranacional no qual estão inseridos os Estados nacionais. É imprescindível salientar que neste jogo de poder internacional é necessário se fazer opções políticas que venham a convergir em direção à defesa da soberania e do fortalecimento do poder de negociação dos governos nacionais (DINIZ, 2001, p. 14). Cabe, portanto, recuperar a dimensão crítica da governança territorial e do seu potencial enquanto fator de ampliação das capacidades institucionais do poder público e da sociedade civil no processo de implementação das políticas públicas. A retomada da governança territorial deve constituir uma das prioridades do CODETER, bem como dos gestores públicos responsáveis diretos pela estratégia de desenvolvimento territorial. A ação da SDT e da Casa Civil neste processo é imprescindível para que se possa estabelecer um pacto territorial em favor do desenvolvimento rural e da melhoria das condições de vida da população rural. Sem isso, a sociedade civil e os gestores públicos comprometidos com o projeto tendem a se frustrar e a se dispersarem em razão do sentimento de descrédito face à ausência da responsabilidade pública. 72 4 Gestão do Colegiado Descentralização e empoderamento da sociedade civil A estratégia de desenvolvimento territorial do Governo Federal, calcada na idéia de gestão social, tem contribuído para o processo de construção da democracia e da cultura política participativa e solidária no âmbito das instituições públicas. Isto se deve ao fato de que a estratégia do governo apóia-se na participação política dos movimentos sociais e demais segmentos da sociedade civil. O fortalecimento da relação entre Estado e sociedade civil no âmbito da gestão pública constitui um dos pressupostos fundamentais para promover as ações de desenvolvimento territorial. Neste sentido, o desenvolvimento territorial local tem sido pensado a partir da inserção, das demandas e das proposições erguidas pelos atores da sociedade civil, especialmente daqueles vinculados à agricultura familiar. De fato, o pressuposto da gestão descentralizada tem corroborado para a construção e para o fortalecimento da gestão democrática do desenvolvimento territorial. Observa-se claramente uma mudança nas formas de gestão das instituições públicas, no imaginário e no modus operandis dos gestores públicos, o que significa um avanço político no campo das políticas públicas e da sociedade de um modo geral. A gestão descentralizada mediante a formação de um espaço público de discussão e deliberação, aonde se encontram as instâncias político-administrativa do governo e os mais diferentes segmentos da sociedade civil, tem corroborado para construir o desenvolvimento sob uma perspectiva que aponta para as possibilidades de mudança com relação às formas tradicionais de governar, isto é, de conceber e implementar as ações de governo e mesmo as de Estado. Trata-se, na verdade, de um processo de aprendizagem político e moral entre sociedade civil e governo cujo desdobramento contribui para a construção da cidadania e para o exercício dos direitos políticos dos atores, especialmente em termos de controle social da ação do Estado. A mudança de perspectiva na forma de gestão pública do desenvolvimento rural corrobora para ampliar as possibilidades de construção de um modelo de desenvolvimento local que compreenda as especificidades regionais em termos econômicos, culturais e ambientais. Observa-se, assim, que o desenvolvimento pode representar a diversidade de pensamento, de proposições e demandas sociais que estão relacionadas às características regionais socialmente construídas pelos atores locais. 73 A descentralização da gestão pública do Território tem contribuído também para a ampliação das liberdades individuais e coletivas dos atores da sociedade civil. Trata-se, neste caso, da ampliação das liberdades políticas e direitos civis dos atores locais, cujo reflexo pode ser visto em uma maior capacidade de ação individual e coletiva na esfera do debate acerca do desenvolvimento rural nos territórios. Ao nosso modo de ver, a perspectiva do desenvolvimento rural adotada sob o horizonte da gestão social contribui para ampliar as liberdades e as capacidades dos atores locais. A expansão das liberdades individuais e coletivas constitui o principal objetivo do desenvolvimento e, conseqüentemente, de sua gestão. Sendo assim, “a expansão da liberdade é vista, por essa abordagem, como o principal fim e o principal meio do desenvolvimento. O desenvolvimento consiste na eliminação de privações de liberdade que limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas de exercer ponderadamente sua condição de agente” (SEN, 2010, p. 10). Esta relação entre a gestão social e a ampliação das liberdades, deve-se, na verdade, ao sentido atribuído à idéia de desenvolvimento. Este, por sua vez, está relacionado não apenas à melhora da qualidade de vida das pessoas, mas também à ampliação de suas liberdades. “Expandir as liberdades que temos razão para valorizar não só torna nossa vida mais rica e mais desimpedida, mas também permite que sejamos seres sociais mais completos, pondo em prática nossas volições, interagindo com o mundo em que vivemos e influenciando esse mundo” (Idem, p. 29). Portanto, o fundamento da gestão social do desenvolvimento territorial se assenta nas experiências de vida e no potencial da participação política dos atores locais. A perspectiva da gestão descentralizada contribui decisivamente para ampliar a liberdade política e os direitos civis daqueles que, na verdade, são os maiores interessados na efetividade do desenvolvimento. Aqueles que buscam maior participação e maior poder de decisão na esfera pública política pretendem orientar o desenvolvimento para que ele cumpra sua principal finalidade – ampliar as liberdades e as capacidades individuais e coletivas de diferentes grupos e atores sociais locais. Esta dimensão inerente à idéia de desenvolvimento é importante para que este não se restrinja apenas à satisfação das necessidades dos sujeitos em termos de segurança econômica, pois, mesmo quando não há a falta desta para pessoas sem liberdades políticas ou direitos civis, “[...] elas são privadas de liberdades importantes para conduzir suas vidas, sendo-lhes negada a oportunidade de participar de decisões cruciais concernentes a assuntos públicos. Essas privações restringem a vida social e a vida política, e devem ser consideradas repressivas [...]” (Ibidem, p. 31). 74 O fortalecimento e expansão das liberdades dos sujeitos no âmbito da gestão pública devem constituir o elemento básico da orientação política das instituições públicas e mais amplamente do Estado, particularmente no que se refere à política de desenvolvimento. No caso da gestão do desenvolvimento rural dos territórios, o que está em jogo é a possibilidade de “[...] expansão das capacidades das pessoas de levar o tipo de vida que elas valorizam e com razão. Essas capacidades podem ser aumentadas pela política pública, mas também, por outro lado, a direção da política pública pode ser influenciada pelo uso efetivo das capacidades participativas do povo” (Ibidem, p. 33). Trata-se, portanto, de uma via de mão dupla, cujo sentido deve orientar o modelo de desenvolvimento que se pretende construir sob as bases de uma gestão pública e democrática. Assim, a gestão descentralizada do desenvolvimento deve estar fundamentalmente concatenada ao propósito da expansão das liberdades e das capacidades individuais e coletivas dos sujeitos. Se, por um lado, o desenvolvimento aparece como um instrumento para este fim, por outro, a própria expansão da liberdade e das capacidades dos sujeitos tende a contribuir com o fortalecimento do desenvolvimento e da gestão pública, resultando, por vezes, em uma mudança política significativa na relação entre Estado e sociedade, particularmente em termos da formação da legitimidade democrática da ação pública. Com efeito, a gestão descentralizada do território corrobora no sentido de ampliar as capacidades institucionais não apenas dos sujeitos locais, isto é, daqueles que participam e ao mesmo tempo são objeto do desenvolvimento, mas, também do Estado, isto é, do poder público, em seus diferentes níveis, seja federal, estadual ou municipal. Com a orientação da gestão descentralizada, as instituições públicas tendem a corrigir, ampliar e a fortalecer suas ações a partir da intervenção dos sujeitos locais, dentre os quais se destacam as associações de produtores rurais, os sindicatos dos agricultores familiares, as associações de piscicultores, extrativistas, pescadores, mulheres, dos povos indígenas, entre outras, que participam dos espaços de discussão e decisão sobre os caminhos do desenvolvimento rural. Apesar de contribuir para o processo de construção democrática da gestão pública e, por conseguinte, para ampliar as possibilidades de ação coletiva dos atores inseridos na estratégia de desenvolvimento territorial, a gestão do Território ainda necessita de um maior protagonismo político por parte dos atores da sociedade civil. A movimentação destes atores no processo de indução e coordenação da política territorial local é limitada em razão das dificuldades de comunicação, de associação e também devido ao grau de frustração com relação aos poucos resultados da estratégia de desenvolvimento territorial. Soma-se a isso, o 75 fato da própria estratégia ter sido concebida pelo governo federal e implementada em nível local mediante a adesão quase que automática por parte da sociedade civil. Do ponto de vista do domínio do processo e da própria compreensão da estratégia de desenvolvimento territorial, observa-se haver um desnível relativo entre o Governo Federal e a sociedade civil local. Da mesma forma, observa-se um desnível entre o Governo Federal e as instituições públicas locais, particularmente aquelas representativas dos governos municipais. No que diz respeito aos atores da sociedade civil, essa desigualdade, em termos de protagonismo e condução da estratégia de desenvolvimento territorial, contribui para o prolongamento e reprodução de um tipo de relação calcada na ação tutelar do Estado. Esta tutela, porém, apóia-se no consentimento dos atores locais, sejam eles da sociedade civil, como também das instituições públicas estaduais e municipais. A ação tutelar do Estado aparece de forma mais expressiva em relação aos atores da sociedade civil, uma vez que a gestão territorial tende a ser fortemente conduzida pelas iniciativas do governo federal. Certamente que o grau de dispersão, fragmentação e frustração dos atores da sociedade civil em relação às descontinuidades e pouca efetividade das ações territoriais contribui para a reprodução da tutela do Estado. Esta, por sua vez, pode ser relativizada na medida em que ela não é absoluta e tão mecanicista, uma vez que o processo tende a oscilar conforme o grau de disposição, mobilização e protagonismo por parte da sociedade civil. Neste sentido, é importante mencionar que o Território Manaus e Entorno “já foi mais dinâmico”, pois a “mobilização e o envolvimentos dos atores locais era bem maior”. Os problemas em termos de participação e protagonismo político no âmbito do Território Manaus e Entorno também estão relacionados à fragilidade das formas de associativismo da sociedade civil. A inserção dos atores locais em se dá de forma pessoal e individualizada no âmbito dos espaços públicos de discussão e deliberação. A ausência de informações e comunicação entre os representantes indicados e a base social compromete o processo de empoderamento e de participação política dos diferentes segmentos representados no Território. Este problema não pode ser visto apenas como um tipo de falha de comunicação entre o representante e a base social; tem haver com a própria dificuldade de envolvimento e participação da maioria daqueles que são objeto das ações territoriais. No caso do Território Manaus e Entorno as dificuldades de participação da sociedade civil, particularmente dos agricultores familiares, vão desde a distância e complexidade geográfica do Território até a fragilidade da cultura política local. O pragmatismo e a objetividade da política cotidiana corroboram para reproduzir um tipo de participação imediatista ancorada em resultados práticos e visíveis. Em conseqüência, quanto maior o grau 76 de descontinuidade e ineficiência das ações públicas, maior tende a ser o descrédito, a frustração e o esvaziamento dos espaços públicos de decisão, o que implica no enfraquecimento da sociedade civil no processo de gestão do Território. O pragmatismo e a objetividade no processo de gestão do território se manifestam por meio da correlação de forças e concorrência entre os atores da sociedade civil que se articulam politicamente no sentido de disputar os recursos disponíveis para a viabilização dos projetos nos municípios e sub-regiões do Território. A concorrência e disputa entre os atores se dá por meio da formação de alianças entre os representantes dos municípios, que “precisam se unir” para conseguir a viabilização de algum projeto que atenda suas necessidades comuns. Este esforço nem sempre se materializa na efetivação dos projetos, alguns deles, por exemplo, não foram implantados desde 2003, quando do início do Território. Esta frequente concorrência pela viabilização de projetos tende a restringir a discussão sobre a estratégia de desenvolvimento territorial local. A própria discussão em torno de uma agenda territorial e de uma perspectiva de desenvolvimento rural fundamentada no contexto amazônico fica bastante limitada quando a atenção do CODETER está voltada basicamente para a execução de projetos de infra-estrutura ou de natureza emergencial. Em conseqüência disto, várias outras questões ou temas relevantes para o Território tendem a ficar em segundo plano devido à existência de uma demanda histórica por parte dos agricultores familiares. Apesar destas nuanças presentes na ação da sociedade civil organizada, bem como na sua relação com o Estado, a estratégia de desenvolvimento territorial adotada pelo Governo Federal vem contribuindo significativamente para o fortalecimento e empoderamento dos movimentos sociais. A tomada de decisão coletiva nos espaços públicos institucionalizados pela própria estratégia tem corroborado para a construção de um modelo de democracia deliberativa, cujo fundamento se assenta em procedimentos racionais e equitativos de argumentação e proposição, expressando, como resultando, a vontade da razão pública9. Deste modo, a gestão descentralizada do Território apóia-se na própria perspectiva da legitimidade política da ação pública, que tem como principal fundamento a participação da sociedade civil na esfera política do Estado. Apesar da tutela consentida do Estado, podemos dizer que a ação organizada da sociedade civil, ainda que fragilizada, constitui um aspecto relevante no processo de gestão do desenvolvimento territorial. Neste processo, a relação entre diferentes segmentos sociais, sejam eles vinculados ao poder público ou a sociedade civil, contribui para a formação de uma cultura política crítica e 9 Voltaremos a este ponto mais abaixo quando discutirmos a relação entre esfera pública e democracia deliberativa 77 solidária, bem como para a própria ampliação do capital social dos atores envolvidos. Deste ponto de vista, pode-se dizer que as instituições tendem a mudar o modus operandis e a sua cultura interna em termos de ação pública. Da mesma forma, a sociedade civil passa a se reconhecer como ator do processo, habituando-se a uma forma de relação com o Estado, cujo fundamento está no fortalecimento da cultura política e do capital social, bem como no exercício da democracia e da cidadania cotidiana. O capital social aparece como a forma de mediação entre Estado e sociedade, resultando em uma nova forma de relacionamento, sendo esta (re)interpretada e redimensionada conforme o desenvolvimento do capital social. Há uma espécie de “soma positiva”, onde ambas as partes tendem a ganhar na relação. Certamente que a construção da “sinergia” entre Estado e sociedade ainda é obstacularizada pela intervenção controladora e administrativa do primeiro sobre a segunda, porém, isto não anula ou elimina em absoluto as possibilidades de transformação do próprio exercício do poder administrativo estatal, uma vez que, der outro lado, a sociedade civil organizada exerce um contra-poder capaz de mudar a dinâmica da relação política. É justamente esta nova forma de relação entre Estado e sociedade que está em processo de construção, o que depende necessariamente do fortalecimento e expansão do capital social dos atores envolvidos. Esfera pública e democracia: reflexões sobre o desempenho do CODETER O Colegiado de Desenvolvimento Territorial – CODETER constitui a instância mais importante no que diz respeito à gestão do Território Manaus e Entorno. É a instância central para a tomada de decisões e para o planejamento das ações territoriais. Trata-se de uma grande arena política na qual estão dispostos os diferentes grupos e atores envolvidos na estratégia de desenvolvimento territorial. É neste espaço que as correlações de forças políticas manifestam-se por meio das relações de poder, influenciando o processo decisório. Neste espaço, estão em jogo objetivos comuns e particulares concernentes a interesses diversos de determinados grupos e segmentos sociais que o compõe. O CODETER exerce uma centralidade em termos de ação político-administrativa sobre o território. Em outras palavras, ele exerce um papel estratégico com relação à definição e implementação da agenda de desenvolvimento territorial. É, portanto, o grande responsável e condutor da gestão social do Território. Nesta esfera político-administrativa se fazem presente diferentes atores e instituições representativas da sociedade civil ou do poder 78 público. Esses atores são os principais protagonistas da gestão territorial. É por meio da participação destes atores que o colegiado decide os rumos do Território. Desde a sua fundação o CODETER tem apresentado uma dinâmica em termos de funcionamento, isto é, em termos de reuniões e encontros para discutir e deliberar acerca das ações territoriais. Esta dinâmica é acompanhada de grandes momentos de mobilização, como ocorreu principalmente no início do Território Manaus e Entorno, mas também de refluxos devido aos desgastes e frustrações dos atores participantes. O gráfico abaixo nos permite compreender esta dinâmica da quantidade de encontros do CODETER. Figura 08 – Quantas reuniões formais o colegiado realizou desde a sua constituição Fonte: Pesquisa de Campo/Sistema de Gestão Estratégica – SGE. Na figura 08, 25% das respostas indicam que o CODETER reuniu entre 11 e 20 vezes, enquanto 18,5% informam que o colegiado se reuniu mais de 20 vezes, o que significa um número razoável de encontros desde a sua fundação. A quantidade de reuniões ou encontros do colegiado revela a vitalidade e a capacidade de mobilização dos atores envolvidos na estratégia de desenvolvimento territorial. Entretanto, 18,5% dos atores não souberam informar quantas vezes o colegiado se reuniu, o que revela um certo distanciamento dos seus participantes em relação à vida e à dinâmica do CODETER. A dinâmica de funcionamento do colegiado pode ainda ser medida pela freqüência com que a sua plenária se reúne para debater as questões prioritárias da gestão do território. A freqüência ou a regularidade das reuniões e encontros do COLEGIADO é importante no sentido de dar continuidade e celeridade às ações, aos projetos e programas estabelecidos no contexto de uma agenda territorial. A maior parte das respostas indica uma freqüência de encontros que vai de dois meses (18,5%) até três ou quatro meses (25,9%). Essa periodicidade 79 representa uma margem relativamente boa para a realização de encontros entre os membros do colegiado, uma vez que as distâncias geográficas e as ocupações de seus atores constituem muitas vezes impedimentos para uma maior regularidade. Importa assinalar a percepção dos entrevistados quanto à periodicidade de encontros do colegiado que, a princípio, não parece ser tão ruim para uma parcela dos seus membros. Entretanto, uma outra parcela significativa das respostas indica não saber (16,7%) a freqüência com que o colegiado se reúne. Soma-se a isso também o fato de alguns afirmarem que o colegiado se reúne com intervalos de até seis meses entre uma reunião e outra (11,1%). Na verdade, a freqüência com que o colegiado se reúne depende muito das questões que estão em pauta e, mais precisamente, de uma agenda territorial bem definida e que necessita de um acompanhamento e monitoramento no que concerne a sua implementação. A própria construção de uma agenda territorial, em seu sentido amplo e não apenas em termos de implementação de projetos, depende de uma regularidade em termos de reuniões e encontros aonde devem ocorrer os debates em torno da questão do desenvolvimento territorial. Figura 09 – Freqüência de reunião da plenária do colegiado Fonte: Pesquisa de Campo/Sistema de Gestão Estratégica – SGE. A freqüência das reuniões e encontros já foi bem maior, principalmente no início do processo de formação do Território e das discussões em tornos das suas principais ações. Todavia, como já foi dito, esta freqüência em termos de mobilização passou por diferentes momentos de refluxos, motivadas, sobretudos, pela “pouca efetividade do PDSTR”, ou seja, pelo fato de se discutir, encaminhar, mas não haver uma concretização mais ampla das ações territoriais. Não quer dizer que ao longo de oito anos não se tenha feito nada, porém, o que a percepção dos atores indicam é que até aqui o território andou muito pouco e que suas ações 80 tiveram baixo impacto na vida das pessoas. Isto implica dizer que capacidade de decisão não implica necessariamente em resultados concreto para o desenvolvimento territorial. A capacidade de decisão destes atores pode variar segundo o grau de participação, protagonismo ou posicionamento estratégico no interior do espaço de decisão. Todavia, esta capacidade de decisão está vinculada a outros processos mais amplos da política pública que pode obstacularizar ou dar celeridade e efetividade as ações propostas. De qualquer forma, é importante ter conhecimento dos atores que possuem maior capacidade de decisão na gestão do território. A figura 10 abaixo permite observar determinada variação neste sentido: Figura 10 – Avaliação da capacidade de decisão de cada um dos membros do colegiado Fonte: Pesquisa de Campo/Sistema de Gestão Estratégica – SGE. Com base na figura, observa-se que os atores com maior capacidade de decisão são os (d) representantes dos agricultores familiares, com uma média de 3,75; (e) os representantes de movimentos sociais com uma média de aproximadamente 3,70; e, finalmente, (g) os representantes de associações e sindicatos, com uma média de pouco mais de 3,75. Os dados nos permitem inferir que a sociedade civil exerce um protagonismo maior no âmbito do CODETER. A própria descentralização da gestão territorial favorece a ação política destes atores, os quais são os maiores interessados no processo. Contudo, a capacidade de decisão e protagonismo da sociedade civil no colegiado não são acompanhadas, na mesma proporção, pela ação do Estado nos três níveis de governo. Importante salientar que a capacidade de decisão das formas de governo é associada, particularmente, à ausência e pouca participação nos momentos de decisão do colegiado. Os representantes designados muitas vezes não têm poder de decisão e liberdade para assumir compromissos perante a sociedade civil. Outro aspecto relacionado a esta questão refere-se à 81 ineficiência dos três níveis de governo na execução das ações programadas, ou seja, o poder público não consegue traduzir, em ações concretas, boa parte das deliberações tomadas na esfera do colegiado. Muitos projetos estão paralisados ou foram implementados parcialmente, outros foram concluídos, mas não estão funcionando e atendendo a população. O processo decisório se dá com base em alguns procedimentos importantes que contribuem para democratizar e tornar o espaço público uma arena deliberativa, cujos procedimentos adotados fortalecem a participação política e a construção de uma cultura política solidária, com amplos reflexos para o exercício da cidadania. O figura 11 mostra os principais mecanismos utilizados para a tomada de decisão na esfera do colegiado. Dentre eles, destacam-se: a votação por maioria (77,8%); os acordos por consenso (55,6%); e a articulação entre grupos (blocos) de interesse (37,0%). Figura 11 – Mecanismos utilizados para a tomada de decisão no colegiado Fonte: Pesquisa de Campo/Sistema de Gestão Estratégica – SGE. Os dois mecanismos mais importantes para a tomada de decisão – votação por maioria e acordos por consenso – constituem os procedimentos democráticos institucionalizados que permitem aos sujeitos deliberarem sobre o destino do Território Manaus e Entorno, isto é, sobre as ações territoriais voltadas para promoção do desenvolvimento rural. Um aspecto importante a salientar neste processo de deliberação pública dos atores envolvidos no Território buscarem construir consensos acerca das diferentes proposições erguidas com relação às ações territoriais, isto é, no que concerne aos projetos e investimentos previstos para serem aplicados. A deliberação pública – entendida enquanto processo racional e intersubjetivo – tem como pressuposto fundamental o diálogo entre os atores envolvidos. Neste sentido, a 82 deliberação pública requer necessariamente o exercício da competência comunicativa dos atores a fim de construir consensos racionais e legítimos. A linguagem e o potencial racional do sujeito aparecem como meios imprescindíveis para o entendimento recíproco e conseqüentemente para a validade das proposições erguidas nos espaços de discussão. Assim, no processo de discussão e deliberação pública, o sujeito busca a construção de consenso por meio da orientação de sua ação para o entendimento e não meramente para o sucesso, isto é, para um fim específico (HABERMAS, 2002). No caso da ação orientada ao entendimento, a racionalidade que conduz o sujeito em sua ação não é aquela objetiva e pragmática que tende a anular a relação dialógica e a ver o outro como mero objeto, isto é, como um tipo de instrumento a serviço de um determinado fim. Deste modo, a construção do consenso se dá com base no uso do potencial da razão comunicativa e da ação comunicativa como meios necessários para se chegar a um entendimento recíproco fundado em uma legitimidade intersubjetiva e democrática. Em outras palavras, a relação se dá entre sujeitos com capacidade de entendimento e argumentação e não, ao contrário, entre sujeito e objeto. Esta última forma de relação tende a ocorrer quando a racionalidade instrumental passa a predominar no âmbito das relações interpessoais, anulando as relações intersubjetivas entre os sujeitos, o que, por sua vez, corrobora para engendrar um tipo de relação calcada pelo medium poder e da dominação entre os sujeitos participantes. O que está em jogo no processo de deliberação pública é a possibilidade da construção democrática das decisões mediante a formação de acordos racionais e intersubjetivamente válidos. Para tanto, a capacidade de argumentação e entendimento dos sujeitos deve ser preservada mediante a adoção de procedimentos racionais que garantam o direito de fala e proposição dos envolvidos na arena de discussão e deliberação. Deste modo, a construção de consensos racionais pela via da racionalidade e da ação comunicativa representa o fundamento de uma democracia procedimental e deliberativa, cujo fundamento se assenta em uma razão pública, ou seja, em consensos construídos racionalmente, cujas pretensões de validez das proposições erguidas partilham de um reconhecimento intersubjetivo entre os atores participantes. Trata-se, portanto, de um potencial prático e emancipatório inerente à ética da discussão10, cujo processo fundamenta a formação dos acordos e das deliberações realizadas 10 Trata-se aqui da ética da discussão, teoria elabora por Jürgen Habermas e Karl-Otto Apel. A ética da discussão sugere a necessidade de demarcação dos pressupostos pragmáticos da linguagem e identificação dos termos de uma fundamentação intersubjetiva e racional das normas e acordos. Este pressuposto constitui o referencial para a análise dos potenciais da práxis comunicativa no que diz respeito à formulação de políticas públicas calcadas 83 pelo conjunto dos atores sociais. A razão pública e a legitimidade democrática dos acordos racionais se assentam em um processo ético-discursivo livres de imposição, mediante o qual os atores podem se relacionar como iguais, compartilhando dos mesmos direitos e obrigações no espaço público. Para tanto, deve-se adotar procedimentos racionais que assegurem a todos os participantes a liberdade de movimentação na esfera da ação discursiva, o que fundamenta a idéia de uma democracia procedimental-deliberativa (HABERMAS, 2002). A democracia procedimental-deliberativa está intimamente relacionada à formação de uma esfera pública, cujo pressuposto normativo da ética do discurso constitui o modelo operativo para a decisão pública. Construir consensos em torno das políticas territoriais, isto é, de uma agenda territorial local, na perspectiva de um processo emancipatório, requer dos atores participantes o empenho da competência comunicativa. Deste ponto de vista, coloca-se a possibilidade de alcançar um ideal em termos de razão pública capaz de orientar de forma democrática e deliberativa os fundamentos do desenvolvimento rural no âmbito do território. Daí a necessidade que a formação de uma esfera pública seja acompanhada do exercício da práxis comunicativa e da idéia da democracia deliberativa, ambas apoiadas na ética do discurso. Ao lançarmos mão da idéia de esfera pública, partimos do pressuposto de que a rotina de funcionamento do poder político tende, com dada freqüência, a se fechar no núcleo institucional do Estado, o qual se encontra configurado segundo composições duradouras de poder partidário que impedem, ou ao menos dificultam, a circulação de novos fluxos de argumentos, temas e problematizações oriundos do mundo real (HABERMAS, 2003). Em função disto, o núcleo do poder político não absorve de modo espontâneo os constantes fluxos comunicativos gerados socialmente no âmbito da sociedade civil. A possibilidade de romper com a rotina de funcionamento burocrático e insular do sistema político, exige, portanto, a mediação de uma prática política não-institucional, mas direcionada às institucionais. Em contraposição à instituição do Estado, a esfera pública política, isto é, as redes de comunicação não-institucionais que se situam à margem do núcleo do sistema político, são vistas como capazes de identificar os problemas sociais com a sensibilidade e a linguagem específica dos próprios atingidos, articulá-los fora das estruturas governamentais e inseri-los na pauta das deliberações políticas institucionalizadas em vista da modificação de situações reais consideradas injustas. Neste sentido, os debates e resoluções tomadas nessa esfera pública não-institucional, ou seja, os fluxos de comunicação aí acumulados mostram-se na construção de acordos racionais baseados em proposições universais, cuja pretensão de validez deve contar com o assentimento dos demais atores envolvidos no processo discursivo (HABERMAS, 2007). 84 capazes de atingir o sistema burocrático-estatal na medida em que alcançam força suficiente para exercer “pressão” ou “influência” nas instituições formais de tomada de decisão, obrigando-as a inscrever suas reivindicações na agenda da política oficial. Em outras palavras: a esfera pública é um sistema de alarme dotado de sensores não especializados, porém, sensíveis no âmbito de toda a sociedade. Na perspectiva de uma teoria da democracia, a esfera pública tem que reforçar a pressão exercida pelos problemas, ou seja, ela não pode limitar-se a percebêlos e a identificá-los, devendo, além disso, tematizá-los, problematizá-los e dramatizá-los de modo convincente e eficaz, a ponto de serem assumidos e elaborados pelo complexo parlamentar (HABERMAS, 2003, p. 91). Devido ao fato de a esfera pública estar vinculada essencialmente aos processos comunicativos efetivados no âmbito da sociedade civil, ela não se confunde com a esfera do Estado. A esfera pública se formou historicamente em contraposição ao poder, no interesse em estabelecer um Estado Democrático de Direito. Daí a necessidade de construção e consolidação de esferas públicas politicamente atuantes não-atravessadas por relações de poder e pela intervenção do Estado, mas sim constituídas de fluxos de comunicação ensejadas pelos diferentes atores e grupos sociais que compõem o mundo social, mais precisamente a sociedade civil. A esfera pública apóia-se, portanto, no uso argumentativo e prático da linguagem cotidiana. Com efeito, pode-se dizer que: a esfera pública ou espaço público é um fenômeno social [...]. A esfera pública pode ser descrita como uma rede adequada para a comunicação de conteúdos, tomadas de posição e opiniões; nela os fluxos comunicacionais são filtrados e sintetizados, a ponto de se condensarem em opiniões públicas enfeixadas em temas específicos. [...] A esfera pública se reproduz através do agir comunicativo, implicando apenas o domínio de uma linguagem natural; ela está em sintonia com a compreensibilidade geral da prática comunicativa cotidiana. [...]. A esfera pública constitui principalmente uma estrutura comunicacional do agir orientado pelo entendimento, a qual tem a ver como o espaço social gerado no agir comunicativo (HABERMAS, 2003, p. 92). A abordagem aqui utilizada para analisar a dinâmica do CODETER sugere que a interação entre os atores, instituições e organizações sociais, se dá no contexto de um espaço público, no qual o processo discursivo-argumentativo constitui a base de sustentação da discussão e da construção de acordos racionais. A noção de esfera pública possibilita a compreensão do processo de tomada de decisão e de formação pública da vontade coletiva, permitindo identificar as principais demandas da sociedade civil organizada e sua incorporação no âmbito da agenda oficial do poder público, isto é, do sistema administrativo. 85 Em consonância com este empreendimento, a pesquisa adota o conceito de política e de democracia deliberativa sugerida por Habermas. A idéia de uma política deliberativa fundamenta-se em um poder comunicativo que advém de uma comunicação política expressa na forma de opiniões majoritárias estabelecidas por via discursiva. A democracia deliberativa baseia-se nas condições de comunicação sob as quais o processo político de tomada de decisão supõe-se capaz de alcançar resultados racionais, por cumprir-se de forma deliberativa, calcada no processo discursivo-argumentativo do agir comunicativo (HABERMAS, 2002). Trata-se de um procedimento democrático que permite criar uma coesão interna entre as diferentes formas de negociação, discursos e proposições, as quais devem se apoiar em princípios universais que almejem resultados racionais, justos e bons para todos os envolvidos. Assim, este modelo de democracia “[...] baseia-se nas condições de comunicação sob as quais o processo político supõe-se capaz de alcançar resultados racionais, justamente por cumprir-se, em todo seu alcance, de modo deliberativo” (Idem, p. 277). A tomada da idéia de uma política democrática deliberativa como marco referencial contribui para a compreensão da dinâmica dos espaços de tomada de decisão sobre as políticas e ações do Estado voltadas para os territórios rurais. O trabalho de investigação sobre a ação do CODETER, isto é, dos seus atores, focaliza as correlações de força, as coalizações, os arranjos institucionais e administrativos, a construção da agenda política e administrativa, enfim, todo o processo e estrutura de deliberação. Neste sentido, interessam-nos apreender as relações estabelecidas entre os diferentes atores, grupos e instituições da sociedade civil e do Estado com vistas ao estabelecimento de acordos consensuais legítimos referentes às demandas sociais. Esta abordagem parte do entendimento de que, o conceito de política deliberativa só ganha referência empírica quando fazemos jus à diversidade das formas comunicativas na qual se constitui uma vontade comum, não apenas por um alto-entendimento mútuo de caráter ético, mas também pela busca de equilíbrio entre interesses divergentes e do estabelecimento de acordos, da checagem da coerência jurídica, de uma escolha de instrumentos racional e voltada a um fim específico e por meio, enfim, de uma fundamentação moral (HABERMAS, 2002, p. 277). O processo de formação democrática da opinião e da vontade pública sob o horizonte da política deliberativa não se limita apenas a uma função mediadora das demandas sociais da sociedade civil frente à administração pública; a política deliberativa, ao se apoiar em uma práxis comunicativa, tende a corroborar para a efetivação de uma verdadeira práxis de autodeterminação por parte dos cidadãos. Esta práxis se assenta em uma base social 86 autônoma e independente da administração pública e da mobilidade socioeconômica privada dos atores envolvidos. Visto por este ângulo, a práxis de autodeterminação contribui para a construção de acordos mútuos por via comunicativa, cujo procedimento permite afastar os fins coletivos de uma mera negociação entre interesses particulares opostos. Pode-se dizer, portanto, que a política deliberativa, no sentido de uma práxis de autodeterminação por parte de cidadãos, apóia-se no paradigma da interlocução, da qual se origina o poder comunicativo11. O processo político de tomada de decisão, isto é, de formação da opinião e da vontade pública, deve orientar-se em função de acordos e resultados racionais efetivados de modo deliberativo e segundo as condições de comunicação adotadas. Assim, o modelo de política procedimental-deliberativa calcada no agir comunicativo pode ser visto como uma forma ideal para o aconselhamento e tomada de decisões no âmbito da esfera pública política. Em outras palavras, “esse procedimento democrático cria uma coesão interna entre negociações, discursos de auto-entendimento e discursos sobre a justiça, além de fundamentar a suposição de que sob tais condições se almejam resultados ora racionais, ora justos e honestos” (HABERMAS, 2002, p. 278). Portanto, vemos surgir, no âmbito do colegiado territorial, uma esfera pública que se manifesta com base nos preceitos colocados acima, contribuindo para a construção de uma democracia deliberativa. Entretanto, é importante salientar que este processo enfrenta grandes dificuldades, principalmente no que diz respeito à cultura da construção do consenso. O gráfico posto mais acima mostra, por exemplo, como as possibilidades do consenso como forma de deliberação pública tende a concorrer com outras formas mais pragmáticas e desiguais de tomadas de decisão. Assim, os dados revelam que a construção do consenso, com 55,6%, fracassa quando a votação por maioria, com 77,8%, e a articulação entre grupos (blocos) de interesse, com 37%, são utilizados com maior freqüência pelos atores durante o processo de decisão. O fracasso na construção do consenso tem a ver diretamente com as divergências de interesses entre os atores quanto às prioridades das ações territoriais, particularmente quanto aos projetos a serem implementados no Território. É neste momento que o mecanismo da votação por maioria associado à ação de grupos em bloco se manifesta na tomada de decisão, 11 A definição da política como espaço de formação de uma práxis de autodeterminação constitui um dos pilares do modelo de democracia republicana. Todavia, ao transferi-la para o modelo de democracia deliberativa, Habermas (2002) fundamenta esta práxis com base na teoria do agir comunicativo ou do discurso. Deste modo, o próprio procedimento discursivo-argumentativo possibilita a formação de um auto-entendimento ético e normativo, cujo conteúdo apóia-se em um consenso autônomo, legítimo e livre da intromissão do Estado. 87 como, por exemplo, na definição dos tipos de projetos de empreendimentos e aonde estes deverão ser implantados, isto é, em quais municípios e sub-regiões do território ou, no caso, do Território Manaus e Entorno, em quais pólos territoriais. Neste processo, os grupos minoritários, ou com menor poder de articulação, tendem a ser desfavorecidos ou a esperar por uma próxima oportunidade que este ou aquele projeto possa entrar na pauta e ser implementado. Este pragmatismo em torno de projetos de empreendimentos ou de investimentos em infraestrutura ou de outra natureza mais concreta constitui muitas vezes o foco da política do CODETER, isto é, das relações sociais estabelecidas no processo decisório. Daí o fato de que, ao invés de uma política deliberativa, tal como posto acima, a política instrumental ocupa, com certa freqüência, maior espaço nas relações sociais, sustentada por uma racionalidade instrumental e objetiva que bloqueia ou dificulta a consolidação de um espaço público enquanto espaço de debate e de idéias para a construção de uma agenda territorial local e amazônica. Quando os atores estão muito focados na discussão de projetos ou de ações mais concretas, com base em uma racionalidade orientada ao sucesso, a construção de consensos em torno de um ideal de desenvolvimento territorial, isto é, de uma estratégia econômica, social e ambiental, mediada pelos pressupostos da cultura e da política deliberativa, fica comprometida. Trata-se aí de uma colonização do “mundo da vida”, isto é, da racionalidade comunicativa e emancipatória, provocada pelo predomínio da racionalidade instrumental e pelas relações de poder que se manifestam no espaço público devido à ausência de procedimentos racionais que evitem este processo (HABERMAS, 2002). Certamente que a objetividade das ações dos atores participantes tem a ver com uma demanda histórica e cada vez mais crescente por assistência ao setor primário, isto é, à agricultura familiar. Todavia, o problema da predominância do pragmatismo no âmbito do CODETER diz respeito ao impedimento ou bloqueio que ele provoca quanto aos fluxos de comunicação, principalmente no que concerne a um debate mais amplo em torno de questões centrais relativas ao desenvolvimento rural e à construção de uma visão de futuro do Território em médio e longo prazo. A política instrumental que aparece com dada freqüência no CODETER tende a privilegiar determinados temas em detrimentos de outros. Muitos dos temas destacados remetem aos objetivos particulares de certos seguimentos e grupos sociais representativos de determinados setores da agriculta familiar e da produção rural. O gráfico abaixo destaca os temas mais debatidos no âmbito do CODETER, dentre os quais, planejamento, projetos e reforma agrária. Em seguida, aparecem os temas do desenvolvimento agropecuário e da infraestrutura. Com exceção do tema da reforma agrária 88 e desenvolvimento agropecuário, que são de caráter mais amplo e que estão em segundo lugar, os demais – planejamento, projetos e infra-estrutura – são de caráter mais pragmático e mais recorrente nas reuniões do colegiado. Figura 12 – Freqüência dos seguintes temas tratados no colegiado Fonte: Pesquisa de Campo/Sistema de Gestão Estratégica – SGE. Enquanto determinados temas recebe maior atenção dada sua relação mais imediata e direta com as demandas da agricultura familiar, outros aparecem como sendo de caráter secundário, dentre eles, podem ser citados: saúde, segurança, justiça, cultura, lazer, controle social, cidadania e inclusão social, gênero, raça e etnia. Temas muito pouco debatidos ou quase ausentes nas discussões do CODETER. Segundo os atores do CODETER, alguns temas ocupam uma posição intermediária, tais como meio ambiente, assuntos políticos e educação. Importante colocar que muitas vezes os temas são debatidos de forma aleatória e dispersa e sem a preocupação de sistematizá-los no sentido da construção de uma visão de futuro e estratégica para o Território, ou seja, na forma de propostas concretas de médio e longo prazo para o desenvolvimento territorial. Não quer dizer, entretanto, que isto seja uma prática recorrente. Contudo, ainda não há um documento oficial que apresente de forma materializada os resultados de toda a discussão que o CODETER realizou ao longo de sua existência. Questionados, por exemplo, se há algum documento que contenha uma visão de longo prazo do território, isto é, uma visão de futuro, praticamente a metade dos membros do colegiado disseram não haver (9,3%) ou que não sabe da existência de tal documento (40,7%). Este problema pode ser observado com base no gráfico abaixo. 89 Figura 13 – Elaboração de documento que contenha uma visão de longo prazo do território Fonte: Pesquisa de Campo/Sistema de Gestão Estratégica – SGE. O fato de praticamente metade dos membros do colegiado não saberem da existência de um documento contendo uma visão de futuro do Território demonstra a existência de uma dispersão e fraca articulação entre os atores, que se expressa na fragilidade da comunicação interna. Quando questionados sobre o papel desempenhado pelo CODETER na elaboração de um diagnóstico territorial, mais de 40% dos entrevistados informaram não saber (37%) ou que o colegiado não participou (3,7%). Estes dados contrastam com aqueles que afirmaram (42,6%) que o CODETER participou na concepção e elaboração do diagnóstico territorial, bem como das oficinas de discussão para sua formação12. Quando indagados sobre o desempenho do CODETER na construção da visão de futuro do Território, os membros do colegiado responderam que o mesmo participou na concepção e elaboração (33,3%), bem como das oficinas de discussão para a sua formação (44,4%). Todavia, um número significativo afirmou não saber (40,7%) se o CODETER participou da elaboração da visão de futuro, enquanto 5,6% afirmou que o mesmo não participou do processo. A questão não é se o CODETER teve envolvimento ou não no processo de construção da visão de futuro, mas sim o grau de envolvimento e acompanhamento daqueles que fazem parte de sua composição. A este respeito, os dados indicam a existência de uma dispersão e fragmentação na esfera do colegiado. 12 Importante salientar que cada um dos entrevistados pôde assinalar mais de uma resposta com relação à questão apresentada. Assim, um entrevistado pôde afirmar que o CODETER participou na concepção como também das oficinas de discussão para a formação do diagnóstico territorial. Todavia, o gráfico revela sempre uma divergência entre aqueles que respondem de maneira favorável ou negativa quanto à ação do CODETER. 90 Esta situação se confirma quando os atores opinam sobre o desempenho do CODETER na elaboração do Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentável – PTDRS. A este respeito, o gráfico abaixo aponta novamente para uma divergência quanto ao tema em questão. Mais de 40% das respostas não foram favoráveis ao desempenho do CODETER, enquanto a maioria (entre 40% e 44%) reconheceu sua ação quanto ao PTDRS13. Figura 14 – Papel desempenhado pelo colegiado na elaboração do PTDRS Fonte: Pesquisa de Campo/Sistema de Gestão Estratégica – SGE. Em resumo, há um grande problema entre os membros do CODETER no que diz respeito ao envolvimento e acompanhamento das ações do CODETER. Não saber da existência de um PTDRS ou se o CODETER participou na sua elaboração é um sintoma grave da fragilidade de articulação e do alto nível de dispersão dos atores participantes desta arena tão importante e vital para os rumos do território. Essa desarticulação e dispersão tem a 13 Aqui também os entrevistados puderam responder mais de uma vez a mesma questão, conforme as diferentes respostas que aparecem no gráfico. 91 ver, como já foi dito mais acima, com um enorme sentimento de frustração e indignação em relação pouca efetividade das ações planejadas e deliberadas para o Território, ou seja, há pouca efetividade em termos de política territorial. A não concretização e efetividade em termos de resultados daquilo que se discute e delibera na esfera do CODETER corrobora para o “desperdício da razão pública e da experiência” dos atores participantes. As dificuldades de articulação e mobilização do colegiado podem ser mais bem observadas com base no gráfico abaixo, que indica os fatores que tendem a agir com maior freqüência prejudicando o CODETER. Dentre os principais fatores estão: a pouca participação dos gestores públicos e a alta rotatividade dos membros do colegiado. Figura 15 – Freqüência dos problemas que prejudicam o desempenho do colegiado Fonte: Pesquisa de Campo/Sistema de Gestão Estratégica – SGE. O problema da alta rotativa tem a ver com a constante mudança dos representantes das instituições que têm assento no CODETER. A cada vez que mudam os representantes ou as instituições há um prejuízo para o andamento das discussões e dos processos de decisões. Muitos daqueles que passam a fazer parte do CODETER não têm conhecimento sobre o que representa a estratégia de desenvolvimento territorial, bem como a respeito do seu próprio papel na esfera do colegiado. As dificuldades de entendimento em torno das questões centrais e prioritárias tendem a aumentar dada a falta de sintonia entre os participantes, especialmente 92 quanto ao sentido territorial dos projetos discutidos. Para muitos, contudo, a alta rotatividade representa ao mesmo tempo a oxigenação do próprio CODETER, uma vez que os novos membros muitas vezes tendem a contribuir com novas idéias, injetando um novo gás e ânimo entre os participantes. Assim, para muitos, trata-se de um falso problema, que tende a prejudicar o andamento do colegiado na medida em que este não toma providências sistemáticas para contornar esta situação, como por exemplo, a realização de cursos de capacitação ou a confecção de cartilhas e folders que tratem da estratégia de desenvolvimento territorial e que sirvam como instrumento de informação e esclarecimento. Outro problema apontado, esse sim de maior impacto no desempenho do CODETER, diz respeito a pouca participação dos gestores públicos. Como se sabe, a estratégia de desenvolvimento territorial depende fortemente do apoio, participação e comprometimento institucional do poder público nos três níveis de governo – federal, estadual e municipal. Entretanto, a participação dos governos estadual e municipal tem deixado bastante a desejar, uma vez que suas estruturas governamentais não têm sido colocadas à disposição do territorial de maneira mais enfática. Este problema tem ocorrido especialmente quanto à participação das prefeituras municipais. Muitos dos prefeitos não se comprometeram de fato com a estratégia de desenvolvimento territorial, outros alegam não a conhecerem bem, o que dificultaria um envolvimento e uma maior participação mais ampla com o programa. Entretanto, o que se observa é a ausência de uma vontade política por parte da maioria dos administradores públicos. Para muitos, o programa de desenvolvimento rural dos territórios não implica em um repasse maior de verbas para os municípios que possam ser geridos de acordo com a vontade do governante. Além disso, prevalece no âmbito das administrações públicas uma cultura política centralizadora e de pouco diálogo com os movimentos sociais. Só para se ter idéia disto, os Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural Sustentável – CMDRS, assim como vários outros, estão fragilizados e esvaziados devido ao desinteresse dos prefeitos em fortalecer estas instituições enquanto instrumentos de descentralização, compartilhamento e de controle social democrático da gestão pública. Na maior parte das administrações públicas dos municípios prevalece também uma cultura política que tem no clientelismo e no assistencialismo as principais formas de relacionamento entre os governantes e a população em geral. Isso dificulta qualquer pratica institucional que contribua para uma mudança política na forma de tratar a coisa pública e que implique na superação destas formas de dominação e poder hoje institucionalizadas e disseminadas na ação governamental. 93 A estratégia de desenvolvimento sustentável dos territórios rurais implica essencialmente uma mudança nas formas de gestão pública, propugnando pela descentralização, pelo empoderamento da sociedade civil e sua maior participação nos processos decisórios e nas formas de controle democrático e legítima da ação governamental. Estes pressupostos colocam-se frontalmente contra o sistema político, mais precisamente contra as práticas autoritárias e, portanto, antidemocráticas, de muitos governantes locais. A inserção dos movimentos sociais como protagonistas do desenvolvimento rural e como ator importante na formulação, implementação e acompanhamento das políticas públicas aparece como um entrave para os governantes de tipo tradicional cuja forma de relacionamento com a sociedade civil e com a “base aliada” se dá por meio do corporativismo institucionalizado, pelas relações de compadrio, pelo personalismo e pelas formas antidemocráticas de governo. Em outras palavras, queremos dizer que no essencial, a estratégia de desenvolvimento territorial não tem conseguido mudar o modus operandis dos governantes locais e, por conseguinte, pouco impacto tem provocado no sentido de promover uma articulação entre a concepção do desenvolvimento municipal com a idéia de desenvolvimento territorial. Na prática, o pensamento territorial acaba sendo reduzido aos interesses municipais e a projetos de baixo impacto e de amplitude restrita. A articulação política e institucional que garanta a viabilidade de um pacto territorial ou da governança territorial é precária nos dia de hoje, no que tange à participação dos municípios. Não há instrumentos que assegurem este pacto e que institucionalize os territórios rurais como política pública de Estado, determinando competências legais e específicas aos municípios. Em razão disto, a participação dos gestores públicos tende a ser baixa, tal como indica o gráfico acima. Muitos deles não têm poder de decisão ou estão enfraquecidos politicamente nos seus municípios pela falta de um apoio maior dos governantes locais. Só para se ter idéia, muitas secretarias de desenvolvimento rural estão desassistidas, sem condições de trabalho e sem um plano estratégico que oriente as políticas públicas para o setor primário. Ao que parece o setor primário não é uma prioridade para muitos dos prefeitos dos municípios do Território Manaus e Entorno. Isso se revela pelo próprio desinteresse do prefeito diante da estratégia de desenvolvimento territorial e diante dos programas de apoio ao desenvolvimento e compra dos produtos da agricultura familiar. Boa parte das prefeituras, por exemplo, não cumpre com a lei que determina que os municípios tenham que gastar no mínimo 30% da sua receita com a compra de produtos da agricultura familiar para a merenda escola. Os prefeitos ainda continuam comprando produtos industrializados, como a conserva, a sardinha, entre outros, para servir de merenda escolar. 94 Mas é importante destacar também um fato significativo que tem corroborado para a pouca participação dos gestores públicos. Trata-se da pouca efetividade das ações territoriais que são debatidas e deliberas na esfera do CODETER. Há certamente um grande desgaste político para aqueles que participam de todo o processo não vêem as ações se materializarem em projetos e resultados concretos para a agricultura familiar. Muitos dos projetos discutidos e encaminhados até hoje não saíram do papel. Isso tem provocado uma grande dispersão e frustração por parte tanto da sociedade civil quanto dos atores representativos das instituições vinculadas ao poder público, particularmente dos municípios. Alguns dos prefeitos identificados politicamente com a estratégia de desenvolvimento territorial, inclusive vinculados à partidos entendidos como de esquerda e representativos da classe trabalhadora, demonstram grande insatisfação e até irritação pelo fato de “uma política tão importante e tão bem concebida não estar dando certo”, ou seja, pelo fato de não estar apresentando os resultados esperados haja vista que nem mesmo os projetos encaminhados foram implementados ou quando não foram implementados parcialmente. Com efeito, embora o Território tenha avançado sob vários aspectos, a falta de operacionalidade e de apresentação de resultados concretos e mais amplos, tem repercutido em um forte sentimento de frustração e desânimo que, por sua vez, implica em prejuízo para o próprio andamento do Território, particularmente quanto à atuação do CODETER, que tem demonstrado fragilidade política e pouca capacidade de articulação e mobilização. Certamente que nem sempre foi assim. “O território já foi mais animado e mobilizado”, hoje há um momento de refluxo, mas que já sinaliza para uma recuperação do vigor e da mobilização política, especialmente pelo fato de estar passando por uma reformulação institucional quanto aos seus componentes e quanto ao seu regimento interno, que ainda não havia sido aprovado formalmente. Cabe salientar que o desempenho do CODETER é prejudicado pelo fato deste não ser escutado por outras instâncias. Não ser escutado implica na não aceitação dos pressupostos da política de desenvolvimento territorial. Implica em não aceitá-la como paradigma de implementação das políticas públicas voltadas para o desenvolvimento, implica em não incorporá-la como forma alternativa de pensar a relação sociedade e ambiente, particularmente no que tange a relação cultura e natureza. A estratégia de desenvolvimento territorial pode representar a possibilidade de construção de um modelo institucional de política pública que se contraponha aos pressupostos tradicionais e conservadores do desenvolvimento e das formas de governo dominantes na Amazônia. É justamente em face desta oposição que se tenta impor uma marginalidade social e um desprezo com relação às 95 proposições do CODETER, que no fundo representa a manifestação das demandas e das expectativas da sociedade civil e de vários segmentos sociais que se propõem a repensar os modelos de desenvolvimento e de gestão pública, especialmente na Amazônia. Do ponto de vista político, as conseqüências são muito negativas para o desempenho do CODETER, particularmente quando este não é escutado nos diferentes níveis da esfera governamental, seja municipal, estadual ou federal. Finalmente, é importante destacar as formas de comunicação entre o CODETER e a própria sociedade civil, especialmente no caso das comunidades rurais. O gráfico abaixo indica alguns dos mecanismos utilizados pelo colegiado para manter a comunicação com a base social, dentre eles, destacam-se os parceiros da sociedade civil (44,4%) e as reuniões comunitárias (48,15%) promovidas nas diferentes sedes dos municípios. Os parceiros do governo (46,3%), como as secretárias municipais de desenvolvimento rural e os institutos de desenvolvimento agropecuários (IDAM’s), também contribuem com os processos de comunicação das ações territoriais. Em geral, tanto as instituições da sociedade civil, entre eles, os sindicatos dos trabalhadores rurais (STR’s), como as instituições parceiras do governo, contribuem com os processos de comunicação no âmbito do território. Figura 16 – Mecanismos de comunicação utilizados pelo colegiado para informar suas ações e decisões à comunidade. Fonte: Pesquisa de Campo/Sistema de Gestão Estratégica – SGE. Apesar dos mecanismos de comunicação indicados no gráfico, algumas dificuldades têm sido observadas pelos atores do colegiado com relação ao tema em questão. Eles têm 96 apontado para a própria fragilidade dos meios de comunicação utilizados pelo CODETER, uma vez que não há uma frequência sistemática no repasse de informações sobre o andamento das ações e projetos territoriais encaminhados. Esta constatação ficou visível nas reclamações apresentadas pelos atores pertencentes aos CMDRS’s. Estes atores têm reclamado da ausência de atas, documentos e informações sobre o andamento dos projetos e das demais ações do Território. Informações estas que são cruciais para o acompanhamento e controle democrático da gestão do Território. Na verdade, grande parte destes atores obtém informações apenas quando participam das plenárias do CODETER. Depois que retornam aos seus municípios o diálogo e o repasse de informações são interrompidos, o que contribui para a desarticulação e fragmentação do processo. Esta dificuldade de comunicação e troca de informação também se dá no âmbito das relações institucionais, isto é, entre as instituições que compõem o CODETER, sejam elas vinculadas ao poder público ou à sociedade civil. Em geral, as informações circulam apenas entre aqueles que estão participando mais diretamente do CODETER. As comunidades rurais tendem a ficar à margem do processo devido à dimensão geográfica e à ausência de mecanismos de comunicação que possam atingir estas pessoas nos diferentes municípios e sub-regiões do Território. Um programa de rádio, por exemplo, é fundamental para que o CODETER pudesse manter uma interlocução contínua com as comunidades rurais e assim contribuir com o processo de empoderamento destas pessoas, as quais têm o maior interesse em participar da construção de uma agenda territorial e dos seus resultados. 97 5 Avaliação dos Projetos A célula do Território Manaus e Entorno está responsável em avaliar 15 projetos, estes estão distribuídos em vários municípios do Território. De acordo com boletim de informação da SDT14 a formulação dos projetos de investimento é a materialização, em documento formal, das ações previstas no PTDRS, da sua viabilidade e prazos de execução. Os projetos são propostas técnicas com metas específicas que podem ser apoiadas com recursos de investimentos em obras, empreendimentos, máquinas, equipamentos e outros bem necessários para o fortalecimento da agricultura familiar, em especial, nos aspectos econômicos, sociais e culturais, coerentes as prioridades identificadas no PTDRS. Os projetos que forem implantados devem atender uma coletividade, para tanto essas questões devem estar frisadas em um documento, nesse caso seria no PTDRS. O desenvolvimento só ocorrerá se os atores envolvidos de fato sejam atendidos e obtiverem êxitos nas atividades propostas pelo plano de projeto. Todas essas especificações destacadas pela SDT deveriam estar expostas no PTDRS do Território, mas como o documento não foi finalizado e tão pouco essas questões são discutidas. Com isso a avaliação fica comprometida. Outro entrave é a falta de conhecimento sobre os projetos por parte dos membros do colegiado e também pelas instituições executoras. A célula está com dificuldades em obter informações sobre os beneficiários, e a própria SDT informa que todas as fases de gestão dos projetos devem prever a participação dos seus beneficiários, não só as de gestão, mas elaboração. Os beneficiários devem participar de todo o processo. Com esse cenário que esperamos ser resolvido o mais rápido possível, e destacando que a avaliação de projetos é uma atividade do segundo semestre de 2011, aqui se expõe alguns dados parciais de entrevistas já realizadas. Projeto: Construção e implantação de agroindústria de frutas no município de Presidente Figueiredo. A entrevista foi realizada com o gerente do IDAM que é representante do colegiado. São duas as localidades beneficiadas: Assentamento rio Pardo e Canoa (450 famílias), havia uma demanda de banana, cana, cupuaçu, alem de tubérculo. De acordo com o entrevistado foi um projeto requerido pelos agricultores. Os principais objetivos do projeto são: geração de renda, fortalecimento das cadeias produtivas, desenvolvimento fortalecimento do cooperativismo. 14 Dados retirados do documento Avaliação de Projetos -SDT/MDA. de tecnologias e 98 O projeto está operando de acordo com o entrevistado de maneira satisfatória e algo curioso, são as esposas que operam com mais frequência a agroindústria, pois o trabalho se tornou mais leve e não atrapalha em outras atividades como a doméstica. O principal mercado consumidor dos produtos é a cidade de Manaus. Tem o apoio da prefeitura no escoamento da produção. A principal dificuldade encontrada é a adequação dos agricultores com as novas tecnologias existentes. O entrevistado sugere que seja feito oficinas de esclarecimento sobre os equipamentos e forma adequada, principalmente para não haver perdas de produto. O agricultor familiar tem um desperdício significativo se forem considerar as etapas de colheita até a entrega do produto para o consumidor. Esse problema se encontra em todos os municípios do Território, talvez uma das respostas fosse o meio de transporte e os ramais no caso do município de Presidente Figueiredo. Projeto: Infraestrutura dos núcleos municipais CIAT, o objetivo central do projeto é o fortalecimento da Gestão Social. A entrevista foi realizada com o executor do projeto e o mesmo não conseguiu dar informações do início e tão pouco da gestão do projeto. A Secretaria de Produção Rural Amazonas que aparece como proponente em 6 projetos tem “dificuldades” de repassar informações sobre os projetos vinculados a ela e de delegar alguém para discutir com a Célula sobre esse assunto e em consequência o termino de aplicação dos questionários é prejudicado. Projeto: Implantar Centros de Apoio e Integração para produtores da agricultura familiar e CMDRS no município de Rio Preto da Eva. A entrevista foi realizada com o beneficiário. O objetivo do projeto é a redução da pobreza, desenvolvimento de novas tecnologias e fortalecimento do cooperativismo, de acordo com o entrevistado houve participação dos beneficiários na elaboração do projeto. Uma das dificuldades na operacionalidade ainda é a gestão do projeto, acesso a informação, capacitação e financiamento. Foi implantado no bom momento para suprir as necessidades. Falta dispor de mais técnicos para atender a demanda. O município de Rio Preto foi contemplado com outro projeto que é um caminhão que apóia o escoamento da produção dos agricultores. O assentamento Yporá é o principal beneficiado. A produção é reunida e transportada para a cidade de Manaus todas as quintasfeiras. Os produtos são expostos para a comercialização na feira do produtor que é incentivado pela Secretaria de Produção Rural. Os agricultores vendem o seu produto direto para o consumidor. 99 Os produtos vendidos na feira, que é conhecida como feira da SEPROR atende vários municípios: Rio Preto da Eva, Presidente Figueiredo, Itacoatiara, Iranduba e das comunidades rurais do município de Manaus. A quantidade de transporte não é suficiente, pois muitas comunidades não são beneficiadas. Porém é um começo comparando com outros tempos comenta um feirante. Projeto: Fortalecimento e dinamização da cadeia produtiva do pescado no município de Manaus e entorno em Manaus. Entrevista com o membro do colegiado, um dos principais problemas destacados é o não funcionamento do CMDRS do município de Manaus, quem acaba fazendo essa representatividade junto aos agricultores é o fórum permanente em defesa das comunidades rurais de Manaus - FOPEC. O projeto foi uma demanda dos beneficiários, mas não foi implantado devido o período de liberação do recurso ter sido em ano eleitoral. O recurso foi devolvido e agora no mês de julho de 2011 foi liberado para iniciar o processo de licitação para contratação da empresa que fará a obra. Projeto: Implantação de Centros de apoio e integração para produtores, CIATs e Conselhos Municipais – Urucurituba. A entrevista foi realizada com um dos beneficiários - o material foi alocado para escola do município. Logo em seguida para prefeitura. Só em 2010 que o material foi para o sindicato dos trabalhadores rurais, onde será o espaço do centro de apoio. De acordo com o entrevistado não houve participação dos beneficiários, veio de cima para baixo. No projeto está posto que para elegibilidade do projeto o beneficiário deve ser agricultor, na verdade não houve critérios definidos previamente. O projeto não está operando, pois está incompleto. Não houve comprometimento por parte da prefeitura, pois havia acordado que ia instalar os equipamentos, mas até agora nada. RECOMENDAÇÕES- imediata instalação e repasse para o CMDRS. O entrevistado propõe uma audiência pública sobre os projetos do programa Territórios da cidadania no Território Manaus e Entorno, mediada pelos sindicatos. É nítida a indignação com os gestores públicos e com as secretarias. Este cenário fica claro em uma fala de um membro do colegiado sobre a SEPROR (governo do Estado), esta secretaria foi eleita para executar os projetos aprovados, Casa de Farinha e Agroindústria, mas não conseguiu fazer tudo, algumas coisas saíram. Atrelada as dificuldades de repasse de informação sobre os projetos que a tem como proponente. Uma sugestão que foi dada, seria deixar claro o papel da cada instituição nesse processo e sua importância. Convocar o governador e os prefeitos do Território para uma 100 reunião séria e detalhar o papel de cada um nessa política de governo. A tendência é o trabalho isolado. Agora quando se trata de estratégias de Desenvolvimento Territorial, as parcerias são fundamentais para o bom caminhar das ações. Projeto: Apoio escoamento de produção no município de Silves. O entrevistado foi o membro do colegiado, objetivos centrais - redução da pobreza, geração de renda e fortalecimento da identidade territorial. Houve participação dos beneficiários. O caminhão tem uma importância muito grande para os produtores rurais que tem suas propriedades ao longo da AM 363, são 4 comunidades atendidas, no total de 40 produtores que levam seus produtos até a cidade em 107 km de estrada. O município de Silves tem 30 comunidades que estão nas margens de rios e igarapés e a necessidade para estas é um barco. Projeto: Implantação de 17 km de eletrificação rural com rede de alta tensão e transformadores de 5 kwa, entrevista feita com o beneficiário, foi uma demanda dos beneficiários, objetivos: redução da pobreza, geração de renda e fortalecimento da educação no campo, principalmente na área de intervenção. Recomendações: aumentar a eletrificação para outras comunidades rurais. Dificuldades: devem-se desenvolver novas tecnologias, pois a maior parte das comunidades que compõe este município é ribeirinha. Nas informações descriminadas acima, lembrando que são todas retirados do questionário avaliação de projetos, os entrevistados concordam em um ponto, deve haver mais participação dos beneficiários na elaboração dos projetos e na sua gestão. A partir das entrevistas já realizadas, é possível fazer uma avaliação parcial dos projetos a serem monitorados. Deve-se ter claro que a qualificação do questionário se faz por comentários que não tem espaço no instrumento da pesquisa, então cabe aqui fazer a análise ligando os dados quantitativos e qualitativos. Pensar em projetos que possam ajudar a melhorar as condições de vida desse território não é fácil, pois sua mobilidade é complexa, verifica-se uma dificuldade de acesso aos municípios e principalmente as comunidades rurais que compõe esses municípios. Por que tal comentário? Verifica-se que os poucos projetos já observados tem uma limitação de participação dos beneficiários em seu planejamento e aplicação de fato, outro problema é o compartilhar territorial desses empreendimentos. Haja vista que os projetos que estão em operação não abrangem a concepção territorial e sim local. Temos que pensar esse território com uma estruturação em rede que conecte diferentes pontos ou áreas, Haesbaert (2005, 116) enfatiza que não há território sem essa estruturação. As distâncias físicas não podem atrapalhar o seu desenvolvimento, pois se o objetivo 101 principal é melhorar a qualidade de vida de quem mora no meio rural, essa busca tem que passar pela “desconstrução” de obstáculos geográficos. Os projetos devem servir não para uma comunidade, ou município e sim para o maior número possível de comunidades e principalmente de municípios. Já que as atividades econômicas desse território estão voltadas para o setor primário, excerto o município de Manaus que tem outra lógica. Esta análise ficará mais aprofundada no próximo relatório, devido à finalização das entrevistas. Vale ressaltar que a atividade de avaliação dos projetos é para esse semestre, então a célula do Território Manaus e Entorno está cumprindo com o que está posto no calendário da SDT. Em razão da não conclusão desta etapa de avaliação de projetos, não será possível desenvolver uma analise mais aprofundada sobre a situação dos projetos implementados no Território Manaus e Entorno. A Célula já realizou algumas entrevistas já citadas no texto desse relatório, porém ainda não conseguiu concluir o total das entrevistas em razão das dificuldades de acesso às informações que constam em diferentes instituições, de maneira dispersa. A previsão para a conclusão desta etapa dos trabalhos é até o final de outubro. 102 6 Índice de Condições de Vida A elaboração do Índice de Condições de Vida passa pela orientação de dois objetivos principais: 1) Estabelecer a qualidade de vida na percepção das famílias rurais tendo em vista a situação do Território Manaus e Entorno. Visa indicar em que medida a condição percebida se relaciona aos indicadores de desenvolvimento; 2) Comparar as condições de vida de agricultores familiares com outros tipos de domicílios, produtivos e não-produtivos, levando em conta o contexto econômico e social do Território, indicando os aspectos mais frágeis de cada segmento. Indicar pontos em comum e aspectos divergentes entre os segmentos, destacando fatores que possam justificar os resultados obtidos. A questão que se propõe para a problematização dos resultados da pesquisa do Índice de Condições de Vida é: em que medida a Política de Desenvolvimento Territorial da Secretaria de Desenvolvimento Territorial – SDT e Ministério do Desenvolvimento Agrário MDA no Amazonas permitiu a construção e/ou promoção da identidade das unidades produtivas familiares; implementou ações de infraestrutura; favoreceu a dinamização das atividades econômicas desenvolvidas pela agricultura familiar; criou mecanismos de gestão dos recursos naturais da região por parte dos agricultores familiares e aperfeiçoou a autogestão política e organizacional das lideranças locais? A metodologia de análise está focada nos dados quantitativos identificados nos gráficos gerados pelo Sistema de Gestão Estratégica – SGE da Secretaria de Desenvolvimento Territorial. Entretanto, esses dados são analisados também a partir das reflexões qualitativas, das etnografias e das entrevistas feitas com os agricultores familiares durante a pesquisa de campo. O Índice de Condições de Vida está dividido em seis partes. Na primeira parte se estabelece a contextualização da pesquisa Índice de Condições de Vida – ICV dentro da abordagem territorial proposta pela Secretaria de Desenvolvimento Territorial e Ministério do Desenvolvimento Agrário. O ICV faz parte de uma série de pesquisas realizadas pela Célula de Acompanhamento e Informação desde sua constituição. Na segunda parte encontram-se as questões voltadas para a várzea amazônica (rios Solimões e Amazonas), pois se compreende que esse foi o principal lócus da pesquisa realizada. É necessária a compreensão desse espaço que para a análise dos índices apontados nesse relatório. O desenvolvimento rural e as condições de vida no Território Manaus e Entorno é o tema da terceira parte. É a análise dos índices mais significativos gerados pela pesquisa 103 partindo das três dimensões do desenvolvimento, a saber: fatores, efeitos e características. Apesar da grande variedade numérica a pesquisa também apontou dados qualitativos que servirão para uma análise mais profunda dos números revelados. A quarta parte é uma análise síntese que retoma os índices gerais do ICV, ICV Familiar, ICV com Produção e ICV sem Produção. Nessa amostra se pretende estabelecer uma comparação entre os diferentes índices que permita apontar as fragilidades, os pontos comuns, os pontos divergentes bem como os fatores que explicam a realidade do Território Manaus e Entorno. A quinta e a sexta partes são temas transversais que os dados da pesquisa despertaram para a discussão e problematização na análise do ICV. São levantadas algumas observações sobre as relações de gênero no Território Manaus e Entorno e o empoderamento da mulher nas organizações sociais presentes no Território. E são apresentadas sete teses sobre o cooperativismo como estratégia de organização econômica e social para solucionar alguns dos entraves da questão da comercialização na agricultura familiar. Nas considerações finais não se encerra a reflexão sobre a abordagem territorial, mas num tom de perspectiva abre caminhos para novas possibilidades e ajustes na política territorial da Secretaria de Desenvolvimento Territorial e do Ministério do Desenvolvimento Agrário. Procurou-se analisar os dados partindo de uma abordagem territorial e não por municípios ou comunidades para não se perder a coerência interna dos dados coletados. Os gráficos que foram gerados no Sistema de Gestão Estratégica da Secretaria de Desenvolvimento Territorial serão a base quantitativa da análise, assim como, os índices numéricos gerados pelo mesmo, a partir dos itens listados – fatores do desenvolvimento, características do desenvolvimento e efeitos do desenvolvimento. Espera-se que, com o labor da pesquisa e análise dos dados à luz dos temas ligados às Ciências Sociais, se recomponha a idéia territorial fragmentada para estabelecer políticas públicas de cunho espacial com caráter participativo, democrático e autogestionário para um meio rural mais desenvolvido e digno de ser ocupado. 1 O Índice de Condições de Vida e seu contexto na abordagem territorial A abordagem territorial ressurge no contexto agrário brasileiro com o objetivo principal de enfrentar os entraves clássicos para o acesso às políticas públicas voltadas ao meio rural. A partir da troca de experiências e da realização de debates durante a transição do Governo Lula foi implementado o Programa de Desenvolvimento Sustentável dos Territórios 104 Rurais (PDSTR), que é um dos programas territoriais de maior destaque na atual conjuntura agrária do país.. O processo de implantação e desenvolvimento do programa iniciou-se em 2003 e 2004 e foi dividido em três fases (CAZELLA, 2009). Na primeira fase foi pensada a definição do programa, a formação dos envolvidos, o desenvolvimento da metodologia para a seleção dos territórios e a identificação de territórios já constituídos no cenário agrário do Brasil. Na segunda fase deu-se a qualificação dos instrumentos de apoio à elaboração e execução dos projetos via PDSTR e na terceira fase foram definidas as orientações para a gestão e governança territorial com a criação dos Colegiados Territoriais investindo na formação e na capacitação dos sujeitos envolvidos na gestão do programa. O Programa de Desenvolvimento Sustentável dos Territórios Rurais tem como meta fundamental reduzir as assimetrias sociais e espaciais no meio rural brasileiro. O foco do programa está voltado para as populações rurais como agricultores familiares, assentados da reforma agrária e acampados, extrativistas e populações tradicionais como quilombolas e indígenas. A categoria “território” abordada pela Secretaria de Desenvolvimento Territorial ligada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário tem a perspectiva de que em todo o espaço geográfico constituído há identidades sendo forjadas e relações sociais construídas. Isso exige um tratamento diferenciado nos processos identitários vivenciados no ambiente, na economia, na cultura, pois os mesmos são localmente organizados em projetos específicos o que revela uma identidade própria e uma imagem coletiva em construção. No Território Rural 44 – Manaus e Entorno – o foco principal do programa tem sido voltado para os agricultores familiares distribuídos em treze municípios do estado do Amazonas. Esses municípios estão organizados em três pólos. O pólo 1 é formado pelos municípios de Nova Olinda do Norte, Autazes, Careiro, Manaquiri e Careiro da Várzea. O pólo 2 é constituído pelos municípios: Itacoatiara, Silves, Urucurituba, e Itapiranga. E fazem parte do pólo 3 os municípios Presidente Figueiredo, Iranduba, Rio Preto da Eva e Manaus. 105 Figura 17 - Mapa do Território Rural Manaus e Entorno. Fonte: UFAM/NUSEC/SDT, 2011. É nessa complexa espacialidade territorial que tem atuado a Célula de Acompanhamento e Informação do Território Manaus e Entorno, formada por pesquisadores do Núcleo de Socioeconomia – NUSEC da Universidade Federal do Amazonas - UFAM. Dentre as atividades desenvolvidas pela a Célula, estão aquelas relacionadas à aplicação do instrumento de coleta Índice de Condições de Vida – ICV. Esta pesquisa foi a que mais demandou tempo, empenho, logística e criatividade dos pesquisadores da Célula. O ICV é um indicador territorial que visa representar as mudanças percebidas, em termos das condições de vida das famílias nos territórios rurais. Este índice é um instrumento de análise e acompanhamento das condições de vida das famílias nos territórios rurais, permitindo as análises comparativas, tanto ao longo do tempo como entre territórios distintos, sem depender da disponibilidade e atualização dos dados secundários. O objetivo do ICV foi criar indicadores que permitam estabelecer condições diferenciais quanto à qualidade de vida na percepção das famílias rurais, particularmente de agricultores familiares. As perguntas do questionário permitiram captar dados em três dimensões: fatores que favorecem o desenvolvimento, características do desenvolvimento e efeitos econômicos e sociais do desenvolvimento. Esta estimativa permitiu construir uma escala de classificação territorial disponível no Sistema de Gestão Estratégica – SGE da Secretaria de Desenvolvimento Territorial. A realidade específica da Amazônia, considerando a grandiosa espacialidade, não nos permitiu realizar a pesquisa do ICV numa jornada. A falta de condições estruturais de transporte, hospedagem, poucos recursos financeiros, escasso apoio logístico local por parte das prefeituras, nos obrigou a gastar um tempo a mais para organização do suporte logístico em cada localidade visitada. 106 Outra questão sentida durante a pesquisa foram as informações censitárias repassadas pela SDT que estavam desatualizadas e muitas delas não eram compatíveis com as informações colhidas no campo quanto à localização das comunidades onde se deveria realizar a coleta de dados, demandando mais tempo para a realização da pesquisa. Daí a aplicação do ICV ter sido realizada em três etapas consecutivas como mostra o Quadro 29: ETAPA MUNICÍPIOS Manaus COMUNIDADES VISITADAS NÚMERO DE QUESTIONÁRIOS APLICADOS Nova Canaã (BR 174, Km 4, ZF 1) 31 I Presidente Figueiredo Autazes II Manaquiri Careiro da Várzea Iranduba Itacoatiara III Rio Preto Eva Careiro Castanho Jardim Floresta e Boa Esperança Bom Jesus e São Sebastião do Itaboca Caminhando com Cristo e São Francisco do Cai n’água São Francisco do Baixo Cambixe, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e Estrada do Paraná do Cambixe. Bom Jesus do Xiborena, Santo Antônio do Paracuúba, Santa Luzia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e Santa Luzia da São José, São Lázaro do Rio Preto da Eva, Igarapé Guariba, Santa Cruz do Rio Preto, Redenção. São Francisco (BR 319) 31 31 31 31 31 31 31 31 Quadro 29 - Municípios e comunidades de aplicação do ICV no território Manaus e Entorno. Fonte: UFAM/NUSEC/SDT, 2011. O universo da pesquisa totaliza 9 municípios, 21 comunidades e 279 questionários aplicados do Índice de Condições de Vida. Esse universo nos permitiu captar dados quantitativos e qualitativos que agora serão analisados. Nas entrelinhas dessas três dimensões – fatores, características e efeitos do desenvolvimento - estão questões pontuais que ajudam a perceber a realidade territorial. Elas acompanharam a reflexão sobre os dados coletados a partir do questionário do ICV e das entrevistas com os agricultores familiares. Em resumo se questiona: em que medida a Política de Desenvolvimento Territorial, através dos seus projetos 107 no território Manaus e Entorno, sobretudo o PDSTR, permitiu a construção e/ou promoção da identidade das unidades produtivas familiares, implementou ações de infraestrutura, favoreceu a dinamização das atividades econômicas desenvolvidas pela agricultura familiar, criou mecanismos de gestão dos recursos naturais da região por parte dos agricultores familiares e aperfeiçoou a governança e a autogestão política e organizacional das lideranças locais? Dada a complexidade da pesquisa, priorizar-se-á a análise dos dados territoriais e não dos dados desmembrados (por municípios e comunidades). Isso facilita a própria análise e permite ter uma visão da realidade do território, o que em outro momento nos permitirá apontar os principais entraves e as potencialidades do mesmo território. 1. A várzea amazônica15: um território natural e humanizado Aqui será explicitada a identidade da unidade produtiva familiar numa perspectiva de construção e/ou promoção através da exposição de algumas características fundamentais das famílias rurais verificadas no decorrer da coleta de dados. O lócus da maioria dessas famílias é a várzea amazônica sobre as influências dos rios Solimões, Amazonas e Negro. É desse território natural e humanizado (WITKOSKI, 2007) que se irá falar e levantar as características que forjam uma identidade maior e marca a relação do sujeito amazônico com o meio onde vive. A várzea amazônica é o território por excelência da maioria dos camponeses entrevistados durante a aplicação do ICV. Entender como funciona esse ambiente natural e humanizado significa compreender o modo de vida de quem nele vive e trabalha. São famílias que se dedicam às atividades da agricultura e da pesca na várzea amazônica, sobretudo do rio Solimões e Amazonas. O mito do intocável, do inacessível e do inabitado sempre acompanhou o pensamento social sobre a Amazônia. Até serviu de justificativa para muitas políticas públicas voltadas para a região. Mas muitas populações seguiram o curso de suas vidas alheias a esse mito, confiando apenas no trabalho e na prática de seus costumes. E assim elas resistiram a toda espécie de ‘intervencionismo’ governamental que, por sua vez, sacrificou muitas vidas. Hoje, não parece diferente. A idéia do intocável se justifica sob a égide da preservação; o ‘intervencionismo’ estatal ganhou o nome de desenvolvimento, e assim, usinas 15 Grande parte dos municípios visitados para a coleta de dados tem como o principal ecossistema a várzea alimentada pelos rios Solimões/Amazonas e Madeira. Mas há também localidades onde toda sua dinâmica social, econômica e produtiva é desenvolvida na ‘terra firme’. A ‘terra firme’ é um ecossistema formado de terras elevadas que não esta ligada aos ciclos aquáticos permitindo ao agricultor um manejo livre das áreas de cultivo o ano inteiro. 108 hidroelétricas vão se erguendo no coração da floresta. E o que se difere do ‘ontem’ é que ‘hoje’ “todos os ambientes atuais são espaços mais ou menos extensos de vários aprendizados contínuos engendrados pelo homem, o que nos faz crer na inexistência de lugares intocados pelo homem. De um modo ou de outro, os ambientes dos diversos lugares podem ser estimados como artefatos culturais humanos” (WITKOSKI, 2007, p.111). Esta afirmação abre precedentes de legitimação para aquilo que as populações tradicionais – indígenas, quilombolas, agricultores familiares, ribeirinhos – podem forjar no interior dos seus ambientes. Estes, por sua vez, servem de resistência frente às ameaças externas de poderes hegemônicos. Na várzea amazônica esta dinâmica também acontece por ser um território de grande complexidade, pois articula a relação entre terra, floresta, água e sujeitos (WITKOSKI, 2007). Logo, conjuga uma paisagem natural sobre a intervenção e ocupação do homem. Um exemplo significativo de tal conjugação são os ciclos ou os regimes de seca e cheia dos rios que intervém na prática dos agricultores familiares. A fertilidade da terra está ligada diretamente a esse regime e a produção agrícola também. “A sedimentação que ocorre com as inundações anuais e o acréscimo de fertilidade, resultado de novos depósitos de terra (colmatagens), permite a exploração agrícola dessas áreas, ano a ano, sem que haja queda da produtividade que comprometa os resultados dos cultivos” (WITKOSKI, 2007, p.114). Há uma relação permanente entre atividade agrícola e água, mesmo quando essa fica escassa nos períodos de estiagem, mas fundamental porque é a água que permite o depósito dos nutrientes que irá fertilizar o solo da várzea. Assim, “[...] podemos dizer que as águas dão lugar à formação de um tipo de terreno na várzea (sua constante fertilização promovida pelas águas) que pode ser responsável pela possibilidade de uma produção agrícola com significativos níveis de sustentabilidade (WITKOSKI, 2007, p. 117-118). A produção agrícola na várzea depende do ciclo das águas. Nessa dinâmica repousa toda a vida do agricultor familiar da várzea, desde os aspectos econômicos até as suas relações sociais16. Witkoski em seu trabalho Terras, florestas e águas de trabalho (2007), faz uma indagação que é pertinente nesse momento da reflexão: Como se relaciona o camponês amazônico com a dinâmica desse diverso e complexo ambiente?” Ou ainda “[...] como se dá o envolvimento do camponês amazônico com essa extensão de terra, floresta e água (seu 16 A relação do camponês amazônico com o ciclo de enchentes e vazantes dos rios da região se revela bastante complexa. Percebe-se uma dependência contínua desse ciclo para a produção familiar. Por outro lado, o mesmo ciclo das águas limita o deslocamento dos agricultores, dificulta acessos e em alguns casos força os mesmo agricultores à migração sazonal nos períodos extremos da cheia – de maio a julho – e de seca – de outubro a novembro. 109 território) [...] que estamos nomeando de ecossistema de várzea?”(WITKOSKI, 2007, p. 125). A partir dos dados colhidos na aplicação do ICV podemos perceber o envolvimento do camponês amazônico com o seu território terrestre, aquático e vegetal vendo os resultados da produção colhida durante o ano: MUNICÍPIOS Manaus COMUNIDADES PRODUÇÃO FAMILIAR RURAIS Nova Canaã (BR 174, Laranja, mamão, maracujá, Km 4, ZF 1) maxixe, pepino, pimenta de cheiro, macaxeira, açaí, cupuaçu. Presidente Jardim Floresta e Boa Cupuaçu, Figueiredo Autazes Esperança Bom Jesus pimenta, cacau. São Mandioca, cupuaçu, e Sebastião do Itaboca Manaquiri castanha, n’agua Várzea açaí, cará, laranja. Pecuária extensiva Caminhando com Cristo Mandioca, milho, melancia, e São Francisco do Cai açaí. Careiro cheiro-verde, Pecuária extensiva, avicultura. da São Francisco do Baixo Macaxeira, milho, melancia, Cambixe, Nossa tomate, jerimum, maracujá, Senhora do Perp. cebola. Pecuária extensiva, Socorro e Estrada do avicultura, pesca. Irnanduba Paraná do Cambixe. Bom Jesus do Xiborena, Feijão de corda, pepino, Santo Antônio do alface, couve, pimenta, Paracuúba, Santa Luzia repolho, cheiro verde, mandioca. Pecuária extensiva, avicultura, pesca. Itacoatiara Nossa Senhora do Perp. Laranja, abacate, cupuaçu, Socorro e Santa Luzia tucumã, mamão, mandioca, abacaxi, maxixe, cheiro verde. Pesca. Rio Preto da São José, São Lázaro do Cupuaçu, Eva Rio Preto da Eva, macaxeira, pupunha, tucumã, Igarapé Guariba, Santa banana, Cruz Careiro Castanho do Rio mandioca, abacaxi, laranja, Preto, verdura, cebola. Avicultura, Redenção. pesca. São Francisco (BR 319) Mandioca, banana, macaxeira, abacaxi, Avicultura, pesca. açaí. 110 111 Quadro 30 - Os principais produtos da agricultura familiar de acordo com os municípios que compõem a pesquisa do ICV. Fonte: UFAM/NUSEC/SDT, 2011. A listagem de alguns dos produtos da agricultura familiar nos permite pensar que o território ocupado pelo camponês amazônico possui uma dinâmica particular com marcadas especificidades. Quando se trata das atividades agrícolas, o “território” camponês pode ser reduzido à sua propriedade – várzea baixa e/ou alta e, às vezes, um pedaço de terra, no ambiente de terra firme. Quando se trata das atividades desenvolvidas na floresta de terra firme (não na floresta de várzea que circunda sua propriedade), pelo fato de a floresta não possuir fronteiras demarcadas, o camponês amazônico transforma-se em um trabalhador nômade. Quando se trata das águas de trabalho, a plasticidade do território do camponês amazônico fica 112 condicionada ao ambiente “aquático público” (os rios) e aos “ambientes aquáticos coletivos” – os lagos (WITKOSKI, 2007, p. 125). Daí se justifica a outra grande produção de cunho familiar: a pesca. Mas sem perder de vista as atividades extrativistas e a pecuária, também presente na produção familiar camponesa amazônida. As especificidades estão presentes na maneira como o camponês amazônico lida com a sua produção. Isto é, ora o que predomina é o que advém diretamente da terra; ora é a água que oferece sua abundância de pescado e ora é a floresta que oferece suas resinas, cascas, frutos e cipós. É nesse ambiente específico que as relações sociais são construídas, as identidades são forjadas e os direitos defendidos. [...] o território pode ser definido como uma porção da natureza e do espaço sobre a qual uma sociedade determinada reivindica e garante para todos, ou uma parte de seus membros, direito de estáveis acessos, controle ou uso sobre a totalidade ou parte dos seus recursos naturais aí existentes que ele deseja ou é capaz de utilizar [...] (GODELIER, 1984, p. 83 apud WITKOSKI, 2007, p. 125). O território rural Manaus e Entorno constrói sua identidade territorial em meio a essas especificidades que somadas às demandas sociais revelam um cenário fragmentado que necessita de políticas territoriais que pensem não somente numa lógica de produção e comercialização dos produtos da agricultura familiar, mas que leve em consideração a relação específica que o camponês amazônico estabelece com o seu ecossistema. Na pesquisa realizada o camponês amazônico que se dedica à agricultura familiar possui a média de idade de 40 anos. Isso revela que a prática da agricultura familiar é centrada na mão de obra adulta, tendo como principal gestor o chefe de família – categoria que teve maior destaque nas respostas do questionário. Tal dado levanta uma importante questão que é a da seguridade social no campo. Muitos desses camponeses estão sindicalizados o que pode no futuro assegurar a aposentaria. Por outro lado, até a obtenção da aposentadoria o tempo de dedicação ao trabalho é longo e esse se mostrou, na maioria das vezes, precarizado e com baixo rendimento financeiro. Se o resultado de uma dedicação inteira ao trabalho do campo é uma aposentadoria fixa o que pode ser colhido antes dela? A questão do assalariamento rural ainda é uma situação isolada. O tempo corre veloz para um trabalhador rural principalmente se suas 113 condições de vida e trabalho estão fora de uma média satisfatória e expostas a riscos constantes17. Daí a necessidade dos governantes regularem as relações de trabalho no campo através da formalização do agricultor familiar assegurando também que essa formalização atenda aos demais membros de sua família de forma a tornar o trabalho no campo menos desigual. O gráfico a seguir mostra a faixa etária predominante entre os agricultores familiares entrevistados. Figura 18 - Faixa etária dos/as entrevistados/as. ICV, 2011. Fonte: UFAM/NUSEC/SDT, 2011. Além da predominância daqueles com mais de 40 anos, destaca-se também a presença e o protagonismo dos jovens no meio rural. A pesquisa revelou que 40%, se considerarmos o a faixa etária dos 25 à 40 anos, dos domicílios rurais têm como mão de obra principal a de um jovem adulto chefe de família. Isso revela a possibilidade de continuidade do trabalho rural empreendido pelos seus antepassados. Durante a coleta, muitos desses jovens manifestaram a alegria de ‘tocar para frente’ o trabalho da família e não demonstraram o interesse de ir para a capital Manaus ou para os demais centros urbanos, a fim de conseguirem um trabalho ‘melhor’. Ao contrário, alguns jovens casais retornaram para os seus municípios de origem após terem ido a capital tentar um novo modo de vida, mas sem grande sucesso. Investir na juventude rural pode significar um grande ganho em termos de renovação da agricultura e outras práticas familiares no meio rural. Principalmente em novos padrões produtivos e sociais, mais sustentáveis, com alto investimento em tecnologia e formação. Mas ainda há uma ausência do Estado para a promoção desses investimentos. As políticas públicas voltadas para a juventude rural ainda são escassas, mesmo que muitos desses jovens tenham 17 Durante o trabalho de campo foram encontrados agricultores rurais usando agrotóxicos de maneira excessiva e sem nenhum tipo de equipamento adequado para o manuseio. Muitos se queixavam de dores na cabeça, tontura e mal estar. A exposição ao forte sol amazônico é o outro grande risco, foram observadas manchas na pele dos agricultores e agricultoras provocadas pela exposição contínua aos raios solares sem proteção adequada. Em alguns casos se constaram câncer de pele já avançado, sobretudo nas mulheres e nos idosos. 114 acesso à escola, isso não significa uma inserção social que pense numa prática produtiva e política da juventude no meio rural. Os dados referentes à educação no meio rural revelaram números animadores quanto ao acesso à escola, sobretudo, entre os adultos. Dos entrevistados 73,73% acima de 15 anos são alfabetizados e grande parte dos adultos retornou à sala de aula através da Educação de Jovens e Adultos ou do Ensino Tecnológico que ainda atinge em sua maioria os jovens das comunidades. Quanto aos filhos dos agricultores esses somam 55,08% como matriculados regularmente nas escolas o que lhes permitem ter acesso ao programa do governo federal ‘bolsa família’. Por lado, o acesso via transporte à escola é um desafio para os estudantes amazônidas. A precarização do transporte (barco ou ônibus) é a principal queixa ouvida durante as entrevistas com os pais. Em algumas comunidades as crianças levam até oito horas para chegarem à escola18. Mas alguns ganhos foram sentidos também. Como o acesso dos jovens ao Ensino Médio sem precisar ir à capital ou a outra cidade maior. Nos domicílios rurais os que se identificaram como chefes de família somam 57,71% representados pela figura masculina. Já 42,29% se identificaram como esposas do chefe de família. Essa é uma das poucas questões pontuadas durante a aplicação do questionário que envolve o gênero no meio rural. Em que medida as Políticas de Desenvolvimento Territorial através dos seus projetos implantou uma infraestrutura física básica de modo a favorecer o desenvolvimento nas comunidades rurais do território Manaus e Entorno? O Quadro 31 indica que há certo grau de acesso a essa infraestrutura, mas com significativas limitações. CARACTERÍSITCAS DA INFRAESTRUTURA FÍSICA BÁSICA Componentes Índices absolutos Índices percentuais (%) Rede elétrica 178 75,42 Água dentro ou próximo de casa 152 64,41 Banheiros (rede de esgoto) 92 38,98 Quadro 31- Componentes da infraestrutura física básica nas comunidades rurais. Fonte: UFAM/NUSEC/SDT, 2011. 18 Com o ciclo das enchentes e vazantes dos rios amazônicos tal situação agrava-se ainda mais. Segundo Witkoski (2007), o calendário hidrológico dos rios Solimões/Amazonas apresenta fortes variações no decorrer de um ano inteiro. A enchente dos rios ocorre entre os meses de dezembro a abril. Em seguida ocorre o período ‘estável’ da cheia que vai de maio a julho. Seguindo o período de vazante que é de agosto a setembro e o de seca – mais crítico – de outubro a novembro. 115 O destaque numérico é para o acesso à rede elétrica encontrada em 75% das comunidades visitadas. Grande parte dessa rede foi implantada pelo programa “luz para todos”. Nas comunidades onde o programa “luz para todos” ainda não chegou, há dificuldades de acesso para a implantação da rede de fios, o que exige dos camponeses a abertura de ramais na floresta. E quando há a abertura desses ramais, os entraves burocráticos, como os licenciamentos ambientais, impendem à implantação do programa. Um dado observado durante as entrevistas é que muitas famílias que migraram em algum momento para a capital, a fim de terem acesso a infraestrutura e outros serviços básicos, retornaram para suas localidades de origem com a implantação do programa “luz para todos”. A justificativa é que com a energia elétrica é possível ter acesso a equipamentos necessários à vida no campo para o trabalho e o lazer. Entretanto, muitas comunidades ainda sofrem com a falta de energia elétrica, “o luz para todos” ainda não chegou, a falta da contrapartida das prefeituras e dos próprios moradores trava o acesso ao programa. Logo, persiste em algumas comunidades a energia proveniente de geradores domésticos alimentados por diesel ou mesmo por usinas termoelétricas. Neste caso, a energia é limitada a algumas horas do dia ou da noite. O acesso a água encanada é quase inexistente nas unidades produtivas. Em geral, os agricultores familiares captam a água direto do rio ou furam poços artesianos e ainda captam água da chuva enchendo cisternas. Essa água serve para auxiliar os serviços domésticos e também para o consumo, mas antes ela recebe um tratamento de purificação devido ao grau de contaminação que se encontra. As condições de acesso aos serviços e equipamentos básicos são precárias. É a conclusão que se chega quanto à infraestrutura básica nas localidades rurais. Apesar dos avanços, ainda se está longe dos índices necessários para se alcançar algum benefício satisfatório. As comunidades rurais que estão mais afastadas das sedes dos municípios sofrem com a falta dos serviços básicos como saúde, saneamento, água encanada, energia elétrica. E quando há equipamentos, esses se encontram sucateados e até abandonados. O uso de equipamentos domésticos também foi percebido pela pesquisa. Há algum acesso a eles, principalmente onde a rede elétrica é permanente e de bom uso. As famílias não hesitam em comprar aparelhos eletrodomésticos e eletrônicos que no cotidiano podem trazer alguma qualidade de vida. 116 CARACTERÍSTICA DA INFRAESTRUTURA FÍSICA BÁSICA Componentes domésticos Índices absolutos Índices percentuais (%) Fogão a gás 229 97,03 Geladeira 161 68,22 Telefone 131 55,51 Computador 12 5,08 Quadro 32 - Principais componentes domésticos nos domicílios rurais. Fonte: UFAM/NUSEC/SDT, 2011. Um dos itens a ser destacado é o uso do telefone, especificamente o uso da telefonia móvel. A rede comunicação na Amazônia se revela um tanto caótica e precária e as comunidades rurais sofrem muito mais com essa precarização devido às deficiências de acesso com as distâncias geográficas. Apesar dessa situação o uso do celular tem encurtado as distâncias e as disparidades na comunicação que é um serviço ainda muito limitado nas localidades rurais. Foi constatada nas narrativas dos agricultores familiares a preocupação dos governos municipal e estadual em criar mecanismos para a melhoria sistemática da rede de comunicação entre os municípios do território. Mas o acesso a essas melhorias muitas vezes se resume as sedes dos municípios onde se encontra internet, telefonia móvel e fixa de certa qualidade. O desafio desse cenário é como estender essas melhorias às comunidades rurais, ao menos o serviço de telefonia fixa que há um tempo atrás se tinha acesso maior e hoje se mostra mais limitado. Outro dado que chama atenção é o uso do computador nas localidades rurais. Apesar de tímido é um item que chama atenção, pois os filhos dos agricultores familiares começam a terem acesso a esse equipamento e a toda comodidade que ele promove principalmente para os estudos. Nas escolas de ensino fundamental e médio, onde há o Ensino Tecnológico, as aulas são realizadas por vídeo conferência. Através da rede, os alunos têm acesso direto à internet via satélite. Seria esse o caminho para se favorecer a comunicação nas áreas rurais do 117 Território Manaus e Entorno? A tecnologia da informação aliada a uma boa infraestrutura pode favorecer sim o acesso mais ampliado aos meios de comunicação no território com amplas conseqüências para a melhoria da qualidade da educação. 2 Desenvolvimento rural e condições de vida no Território Manaus e Entorno Os dados colhidos a partir das questões do Índice de Condição de Vida – ICV – permitiu estabelecer um indicador19 geral das condições diferenciais quanto à qualidade de vida na percepção das famílias rurais, sobretudo dos agricultores familiares do território rural Manaus e Entorno. As questões da pesquisa colocadas aos agricultores permitiram revelar outros pequenos indicadores dentro de três dimensões: fatores do desenvolvimento territorial; características do desenvolvimento territorial; e os efeitos do desenvolvimento no território Manaus e Entorno. Abaixo será feita a análise dos dados mais significativos da pesquisa partindo das dimensões já mencionadas. 2.1 Fatores do desenvolvimento Os índices gerados a partir dessa dimensão estão centrados nos aspectos do trabalho dos agricultores familiares, bem como, nas condições necessárias para o desenvolvimento das atividades voltadas para a agricultura familiar. Quadro 33 - Fatores do desenvolvimento. Fonte: SDT/SGE, 2011. Na esfera da comercialização os produtos da agricultura familiar podem ser mediados por dois processos segundo Witkoski (2007, p. 347): “[...] 1) os camponeses trocam seus valores de uso por outros valores de uso de outros atores sociais (mercadorias), sem a mediação do dinheiro e; 2) vendem seus produtos e, com o dinheiro obtido, adquirem outros valores de uso (mercadorias)”. Essa aparente facilidade comercial guarda no seu interior perversas contradições, onde os principais atingidos são os camponeses amazônicos. O 19 O índice gerado a partir dos dados do ICV vai de 0 a 1, onde 1 é o melhor nível. Sendo que: 00,0-0,20: Baixo; 0,20-0,40: Médio baixo; 0,40-0,60: Médio; 0,60-0,80: Médio alto; 0,80-1,00: Alto. 118 gráfico bem revela tal contradição quando mostra o bastão acentuado do acesso aos mercados, cujo índice é médio de 0, 432 (ICV/SGE, 2011). A carência de infraestrutura adequada de transporte é uma questão acentuada nos municípios do território Manaus e Entorno. Mesmo com BRs, estradas, ramais e com uma grandiosa rede fluvial o acesso aos mercados é um desafio constante enfrentado pelos agricultores familiares devido à falta de manutenção das vias terrestres e pelos altos custos da rede fluvial com o gasto de combustíveis e manutenção dos barcos. Daí, os grandes mercados tornam-se restritos aos camponeses ficando o gerenciamento sobre a responsabilidade do “atravessador20”, sujeito “nocivo” à unidade produtiva familiar. Por não haver canais de comercialização entre camponês e consumidor direto, quem faz a mediação são os “atravessadores” que impõem preços baixos aos produtos da agricultura familiar, o que faz com que a dinamização econômica caia num labirinto que parece não ter saída. Soma-se a essa dura realidade comercial o escasso acesso a crédito (0, 349) e as deficiências na assessoria técnica (0,321). Os entraves burocráticos e a falta de planejamento adequado na elaboração dos projetos voltados à agricultura familiar dificultam o acesso ao crédito e aos financiamentos. A falta de legalização fundiária é outro grande entrave para a obtenção de financiamentos junto aos bancos e às instituições financiadoras de projetos rurais. A escassez de um quadro permanente de técnicos agrícolas, seja nas prefeituras locais, seja no âmbito do Estado, obriga o agricultor a trabalhar sozinho na sua produção sem nenhum tipo de apoio técnico, comprometendo a produtividade e mesmo outros aspectos como a saúde dos camponeses, pois muitos deles têm que utilizar equipamentos e agrotóxicos que oferecem riscos à vida. 1.1. Características do desenvolvimento As características do desenvolvimento rural são percebidas no crescimento da renda familiar que depende diretamente da dinâmica das atividades desenvolvidas na agricultura familiar. Outra questão mensurada é a relação do camponês com seu meio ambiente: terra, água e solo. 20 A figura do atravessador nos remonta aos mascates que vendiam e compravam os produtos naturais da Amazônia a um preço bastante inferior ou trocavam por outros produtos que os produtores não tinham acesso. 119 Quadro 34 - Característica do desenvolvimento. Fonte: SDT/SGE, 2011. É possível pensar a vida camponesa sem a presença de um poder econômico organizado no campo ou no espaço da cidade? Apesar da facilidade da resposta, essa indagação carrega consigo um conjunto complexo de determinações e significados. A relação do camponês amazônico com esse poder organizado, que pode se encontrar na própria comunidade a que pertence e/ou na cidade, é, antes de tudo, marcada por dilemas de natureza diversa. Sabemos que a unidade de produção camponesa produz essencialmente para a subsistência. Essa é uma das faces – sua principal face – da vida camponesa amazônica. Mas ela não produz tudo o que necessita – daí a inevitabilidade de o camponês ter que recorrer ao mercado, seja no local de moradia (porto de sua casa), na comunidade, na sede do município, na cidade de Manaus etc (WITKOSKI, 2007, p. 347). A citação resume bem o que significa a busca de dinamizar uma economia concebida como doméstica fora da lógica de mercado. A marca da subsistência é o que sempre acompanhou as atividades desenvolvidas pelo agricultor familiar. Por outro lado, somente a subsistência não dá conta de suprir as necessidades das famílias rurais seja na alimentação básica, seja no acesso a outros suprimentos necessários a dinâmica da vida. Daí o imperativo de tornar produtivo o que é cultivado pela agricultura familiar, assim como, o que é extraído da floresta e o que os grandes rios oferecem com a pesca familiar. A dinamização econômica é um dos grandiosos desafios percebidos durante a aplicação do ICV junto aos agricultores familiares. Nesse processo há mais entraves do que possibilidades. Os dados que a pesquisa revela mostram grandes disparidades econômicas que se relacionam e se justificam entre si como num efeito em cadeia. O bastão que representa a renda familiar se afasta significativamente do alcance da teia revelando o índice médio de 0,504 de fragilidade econômica que se encontram as famílias rurais. Isso revela o baixo poder de compra e de venda da produção oriunda da agricultura familiar. As famílias mostram que a renda só não é mais baixa devido ao programa de transferência de renda do governo federal como o “Bolsa Família” que ajuda a assegurar ao 120 menos as necessidades urgentes dos filhos, como o material escolar e a alimentação quando essa é escassa. A agricultura familiar é a principal fonte de renda das famílias entrevistadas e uma das principais bases econômicas dos municípios visitados. Porém, isso não significa que ela seja uma atividade produtiva valorizada e estimulada na economia local e regional. O estímulo e as iniciativas partem dos próprios camponeses e quando eles vão em busca de algum programa governamental voltado para a agricultura familiar esbarram na morosidade política do Estado e das prefeituras locais. Daí a diversificação nas fontes de renda familiar ser médio baixo de 0,371, e escapa o alcance da teia na tabela. Em geral, as fontes de renda das famílias rurais são oriundas da venda dos produtos da agricultura familiar, do programa federal “Bolsa Família” e da aposentadoria dos idosos das famílias. O trabalho do camponês amazônico é contínuo, mas obedece ao ciclo do complexo ecossistema que o circunda. A produtividade do trabalho (0,638) e da terra (0,576) estão intimamente ligadas e nessa relação se acrescenta um terceiro elemento determinante: a água, sobretudo, quando se trata da várzea amazônica. Mesmo com a prática tradicional da agricultura, do extrativismo e da pesca, trabalhar com o sistema da várzea nem sempre é fácil para as famílias rurais devido aos ciclos aquáticos. Apesar da produtividade do trabalho da agricultura familiar apresentar um índice médio alto, essa é comprometida pela falta de capacidade técnica dos camponeses amazônicos e isso se conjuga também com a ausência de um quadro de técnicos agrícolas no Estado que permita uma assessoria permanente e contínua nos domicílios rurais. O resultado disso é a deficiência no inventário florestal que permite registrar a variedade de espécies nas unidades produtivas a fim de serem manejadas. O registro de um calendário de produção é extremante limitado, seja por parte dos agricultores, seja por parte dos órgãos de assistência técnica do Estado do Amazonas (IDAM e SEPROR 21), que contemple os diferentes ciclos da várzea (cheia, vazante), para o plantio, coleta e comercialização buscando garantir renda durante o ano todo. A diversificação da produção agrícola é média considerando a abrangência da teia no gráfico, resultando em 0, 469 no índice. Ao retomar a leitura da tabela 2 observam-se produtos do subsistema agrícola (WITKOSKI, 2007), como: mandioca, milho, feijão, macaxeira, hortaliças; e de sítio: banana, cacau, cupuaçu, mamão, manga. E ainda se destaca o 21 Respectivamente, Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas e Secretaria de Estado da Produção Rural. 121 subsistema da criação de animais como o gado bovino. Todos esses são “produtos” cultivados na terra, portanto, da agricultura e voltados à comercialização (WITKOSKI, 2007). Outros produtos são fornecidos pela floresta e pela água. Na floresta vemos a extração do açaí, do tucumã, da pupunha. Já a água oferece o pescado de grande apreço comercial. Os dados referentes à gestão dos recursos naturais, bem como sua preservação e conservação, se mostram com indicadores satisfatórios como revela a teia do gráfico. O agricultor familiar procura preservar a vegetação nativa, como demonstra o índice médio alto de 0, 724 de preservação. Mas sente que as queimadas têm se acentuado nesses últimos anos, provocada por pessoas de ‘fora’ da comunidade e que não tem o objetivo de produção familiar. A vegetação nativa tem dado espaço aos campos de gado. Foram identificados conflitos entre grandes proprietários que tem comprado terras próximas às comunidades para a criação de gado bovino e búfalo22 com os agricultores. Com relação às nascentes dos rios e igarapés o agricultor também tenta conservar. O índice encontrado foi médio de 0, 647. Mas a queixa de poluição dos rios foi constante no relato dos agricultores. Há muito lixo despejado no rio e quem despeja são os barcos turísticos. Há também o despejo de esgoto vindo das sedes dos municípios, restando o consumo da água de poço menos comprometida pela poluição. A importância da educação ambiental dentro e fora da comunidade foi uma ação apontada pelas lideranças sociais. Com a educação ambiental há a possibilidade de amenizar o quadro atual através de campanhas de conscientização nas escolas locais, formação de agentes ambientais, orientação para os turistas e até ações de repressão contra os que poluem e provocam algum tipo de degradação ao meio ambiente. A pesca predatória também é uma queixa apontada pelos agricultores. Muitos turistas saem de Manaus a fim de praticarem a pesca esportiva e comercial. No entanto, isso serve de pretexto para se pegar as espécies na época do defeso contribuindo ainda mais para a escassez de peixe nas comunidades. 1.2. Efeitos do desenvolvimento Os efeitos do desenvolvimento serão percebidos nas condições mais básicas da existência, como: alimentação e nutrição, saúde, situação econômica. Mas outros efeitos do desenvolvimento são sentidos e passam pela dinâmica das populações rurais, é o caso das 22 O manejo errôneo da criação búfalo em áreas de várzea tem se caracterizado como um problema. As áreas não são adequadas estão muito próximas aos sítios e à roça. Os animais atravessam as cercas dos sítios, destroem as plantações para se alimentarem. 122 migrações e da situação ambiental. A luta pelo desenvolvimento pode levar também à organização social e à participação política. Quadro 35 - Efeitos do desenvolvimento. Fonte: SDT/SGE, 2011. Os dados referentes à segurança alimentar e condições de saúde podem ser demonstrados no quadro 35. Ele mostra que as condições de seguridade alimentar e nutricional, bem como as condições de saúde se afastam do alcance da teia, revelando o déficit alimentar e nutricional médio de 0,678 das populações ribeirinhas do Território Manaus e Entorno e o precário acesso ao serviço de saúde que aparece na média geral do índice com 0,628. Quanto às condições de saúde, a queixa maior é o difícil acesso aos postos de saúde, a falta de profissionais nas comunidades menores, a falta de acompanhamento permanente dos agentes de saúde locais. O mesmo gráfico revela o item permanência dos familiares no domicilio, revelando a pouca mobilidade humana nesse Território com índice médio alto de 0,858. Esse dado é importante ser destacado, pois o Território de Manaus e Entorno é formado por importantes cidades do Amazonas, principalmente a capital Manaus que é sempre um atrativo para se ter acesso a uma melhor infraestrutura e melhores condições de trabalho e renda. A linha que representa o item é alcançada quase que totalmente pela teia. Isso revela que poucos migraram para outras cidades e se houve alguma mobilidade, essa foi num período sazonal. Em geral, a venda dos produtos da agricultura familiar e outros negócios comerciais e mesmo tratamento de saúde os abriga a saírem de seus domicílios, mas isso é por um período determinado e pontual. Outro fenômeno percebido durante as entrevistas é o retorno à cidade de origem. Muitos dos agricultores migraram em alguns momentos de suas vidas. Entretanto, as más condições na cidade receptora os obrigaram a retornarem ao lugar de origem para se dedicarem ao trabalho com a agricultura familiar. Por outro lado, a ampliação dos serviços de 123 infraestrutura, saúde e educação nas sedes dos municípios e interior, bem como o acesso aos programas sociais do Governo Federal, contribui para estimular a migração de retorno. A participação política é um aspecto do Programa de Desenvolvimento Sustentável dos Territórios Rurais que deseja despertar e promover entre os agricultores familiares o protagonismo político e social a partir das suas organizações sociais como sindicatos, associações, cooperativas etc. O aspecto da governança nos territórios rurais é um processo em construção que flutua entre as possibilidades e os limites dos seus envolvidos. As bases dessa dinâmica são a democracia participativa, a cultura da gestão social, o fortalecimento das redes sociais de cooperação que, atuando junto aos governos federal, estadual e municipal, visam estimular iniciativas que permitam reorientar as políticas públicas, de caráter centralizador, para dinâmicas mais participativas e de gestão compartilhada. Desde o espaço político ocupado pelos agricultores familiares se pretende estabelecer um amplo debate que permita a inclusão dessa nova forma de gestão democrática e que vá forçando à mudança na estrutura política do cenário rural brasileiro. Mas os passos dados ainda são vagarosos e limitados. O gráfico demonstra uma limitada participação política dos agricultores nas suas organizações sociais e políticas resultando num índice médio de 0, 567. Apesar do índice médio, a participação social e política dos agricultores familiares estão fragilizadas. Muitos fazem parte de associações de moradores, cooperativas, partidos políticos. Mas a frustração com essas organizações e com a política local é grande provocando um descrédito e um afastamento contínuo das formas de organização social. Eles dizem que há muita promessa dos governos locais. Até o Programa Territórios Rurais vêem como uma promessa, mas que nenhum benefício viram chegar nas comunidades. As lideranças sociais também sofrem com esse descrédito, pois elas são a ponte entre os governos e a comunidade. Mas como as políticas públicas não são efetivadas, muitas lideranças são vistas como ‘mentirosas’ ou que desviaram os recursos para benefício próprio. A relação de poder nas comunidades muitas vezes é o reflexo do que acontece num contexto político maior. Há uma permanência nos cargos de liderança da comunidade, favorecimento de parentes em trabalhos da prefeitura, influência partidária, troca de favores políticos entre políticos locais e lideranças comunitárias. As mulheres e os cristãos convertidos às Igrejas Evangélicas (Assembléia de Deus) têm ocupado os cargos de lideranças sociais nas comunidades, alterando significativamente as formas de organização comunitária marcadas até então pela figura masculina e pela atuação das Comunidades Eclesiais de Base ligadas à Igreja Católica. 124 Outro dado presente no gráfico 35 o índice de 0,574 revela uma média participação em atividades culturais características das famílias agricultoras do Território Manaus e Entorno. Apesar de serem permanentes, as festas e atrações culturais não são atrativos para as famílias e mesmo as dificuldades de acesso às sedes dos municípios, onde se concentram as atividades culturais, não permitem tal participação. As atividades culturais das comunidades visitadas se resumem às festas do padroeiro, festas ligadas aos produtos de cada comunidade – festa do cupuaçu, festa da laranja, festa da castanha, festa do tucunaré –, festividades folclóricas, torneios de futebol, atividades desenvolvidas pelas igrejas evangélicas e católicas, entre outras. 2. Análise síntese Como exercício de síntese dos índices expostos acima se apresentará os gráficos gerais sobre o ICV desdobrados em quatro aspectos sociais: ICV Familiar (índice geral); ICV Agricultura Familiar; ICV com Produção e ICV sem Produção. Esses aspectos são desdobrados também a partir das dimensões do desenvolvimento. 2.1. ICV Familiar Figura 19 - ICV Familiar. Fonte: SDT/SGE, 2011. Conforme a figura 19 o índice geral das condições de vida das famílias do Território Manaus e Entorno é de 0,576 apresentando uma classificação média. Essa média também acompanha os índices gerais das dimensões do desenvolvimento. Entretanto, muitas 125 limitações foram percebidas nas condições de vida das famílias rurais. Em alguns casos, até de extrema precariedade das condições mais básicas, como: alimentação, moradia, educação, saúde e transporte. Essa média apresenta sérios limites e não pode ser visto como números animadores, pois as famílias rurais ainda buscam condições mais dignas de sobrevivência. 2.2. ICV Agricultura Familiar Figura 20 - ICV Agricultura Familiar. Fonte: SDT/SGE, 2011. O índice sobre a agricultura familiar também se apresentou como médio, isto é, 0,579. A reflexão síntese não é diferente, há muitos entraves que impedem o desenvolvimento da agricultura familiar. Dentre eles os mais apontados foram: o difícil acesso aos mercados para o escoamento da produção familiar; a carência de um quadro de técnicos agrícolas permanentes que possibilite uma assessoria de qualidade e contínua aos agricultores familiares; o acesso a crédito que é escasso e limitado devido à questão fundiária, pois a ausência dos títulos de posse da terra trava qualquer negociação com os órgãos financiadores de projetos, além da dificuldade técnica dos agricultores de fomentar projetos em suas comunidades através de suas organizações sociais. Somando-se ainda a essa realidade, a fragilidade das instituições políticas locais, principalmente das Prefeituras que não conseguem articular programas de cunho territorial devido a falta de interesse político, a forte burocracia que trava os processos, a alta inadimplência que dificulta os acessos aos recursos do Governo Federal. 2.3. ICV Com Produção 126 Figura 21 - ICV com Produção. Fonte: SDT/SGE, 2011. O índice médio do ICV com produção ficou em 0,577. Nos fatores do desenvolvimento o índice alcançado é de 0,516; as características do desenvolvimento apresentaram um índice médio de 0,575 e os efeitos do desenvolvimento apresentou um índice médio alto de 0,660. As demandas percebidas durante a coleta do ICV dos domicílios com produção não se diferencia das da agricultura familiar em geral. A reflexão sobre as famílias que possuem produção não é diferente, assim como os limites apresentados acima. 2.4. ICV Sem Produção Figura 22 - ICV sem Produção. Fonte: SDT/SGE, 2011 127 Os domicílios que não desenvolvem produção familiar apresentaram um índice médio alto de 0,618 sendo que nessa realidade a pesquisa só considerava os efeitos do desenvolvimento. O índice é satisfatório, devido à seguridade social de muitos agricultores familiares idosos, a prática de outras atividades não ligadas a agricultura como o comércio ou mesmo a produção agrícola em larga escala. Índices satisfatórios, mas com grandes ressalvas. A comercialização dos produtos da agricultura familiar é a grande fragilidade do Território Manaus e Entorno. Há produção intensiva o ano todo de diferentes produtos que obedecem o ciclo das águas, a dinâmica da floresta e a produtividade da terra. A questão é a manutenção da produção e sua comercialização justa. A queixa maior dos agricultores gira em torno dessa fragilidade e as demais questões levantadas por eles acabam por ser justificadas pelos limites da comercialização isso é comum a todos. Alguns possíveis fatores que provocam tal realidade: 1) a não incorporação da abordagem e da política territorial por parte do poder público local e também dos agricultores familiares; 2) a falta de inovação tecnológica para o manejo das potencialidades produtivas do território; 3) o isolamento produtivo; 4) a ausência de um planejamento sério e profundo sobre as cadeias produtivas do Território Manaus e Entorno que permita disponibilizar os serviços produzidos pela população; 5) a ausência do Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentável – PTDRS23; 6) a gestão territorial está vinculada a determinados grupos políticos partidários que travam o processo de decisões no colegiado territorial isso acarreta a troca de influencias num espaço onde a gestão deveria ser compartilhada e não partidária. 3. Agricultura familiar e gênero: o advento de novas relações? Uma agricultura definida como familiar permite levantar questões quanto a sua organização interna e as relações que aí se desenvolvem, isto é, no ambiente familiar e de trabalho. Disso, não está à parte a questão da relação de gênero na agricultura familiar. Apesar de que nem sempre nas pesquisas e nas reflexões sobre o meio rural essa temática tem sido contemplada. Entretanto, o que há já desenha um cenário a ser considerado. A clássica divisão social do trabalho definiu o que era trabalho do ‘homem’ e trabalho da ‘mulher’. E essa divisão no meio rural foi constituída quase como uma regra social, ‘o trabalho rural é coisa de homem’ (PARRY, 2006). Uma hegemonia que perdura, sobretudo, 23 Essa ausência provoca a má administração da política econômica e social do território; não há um planejamento estratégico das ações, dos projetos, e a visão de futuro do território fica comprometida. 128 porque a herança histórica e social do espaço campesino brasileiro é o patriarcado que rege as relações sociais no campo. Felizmente tal realidade tem sido modificada. E essa mudança tem advindo do grupo que tem sofrido com essa lógica patriarcal que são as mulheres. As mulheres camponesas com suas práticas, não somente de afazeres domésticos, mas de organização social e trabalho ‘pesado’ tem imprimido no meio rural uma nova configuração de relações. Durante a coleta do ICV não foram feitas grandes questões para se colher dados referente à relação de gênero no território Manaus e Entorno. No questionário aplicado as questões: sexo da pessoa entrevistada e você é: chefe da família; esposa/marido do(a) chefe da família[...], trazem questões de fundo sobre relação de gênero, mas de maneira muito tímida. De qualquer forma revelaram números que podem ser analisados se somados à etnografia feita durante as entrevistas. Não se pretende estabelecer uma ampla análise sobre as relações de gênero no território rural Manaus e Entorno. O intento é revelar algumas percepções dessa temática colhidas durante a prática de campo. Durante as entrevistas, os pesquisadores identificavam se o sexo da pessoa entrevistada era masculino ou feminino. Sem perguntar, eles deveriam marcar a resposta no quadro do questionário de acordo com a percepção. Parece algo simples, mas isso consistiu um limite no instrumento de coleta de dados, pois, deixa a margem quando não permite o sujeito da pesquisa reconhecer o seu sexo enquanto identidade deixando que um outro faça tal reconhecimento. Isso pode se desdobrar na afirmação de posturas de dependência, subordinação, dominação e violência, traços do patriarcalismo e que podem ser identificadas na unidade de produção familiar. No universo da pesquisa foram entrevistadas 118 mulheres, isto é, 42,29% e 161 homens que correspondem 57,71%. Outra questão que se fazia, e essa poderia ser lida para o sujeito, era se ele ou ela se afirmavam como chefe de família, esposa/marido do(a) chefe da família e outros itens. Das respostas, resultaram 172 (61,65%) sujeitos se identificando como chefes de família e 77 (27,60%) mulheres se identificaram como esposas dos chefes de família. A questão colocada também trás sérias falhas metodológicas. Uma vez que não permite a mulher se afirmar como chefe de família cabendo esse papel apenas ao homem. Mas esses 172 chefes de família não constituem apenas homens, as mulheres também se identificaram como chefes de família, mesmo que o instrumento de coleta induzisse a uma resposta. A questão da renda familiar e a educação dos filhos foi um forte definidor da chefia 129 familiar. Nesse caso as mulheres se destacaram quebrando a hegemonia masculina de ser o único provedor da família. O trabalho rural que a mulher e sua família desenvolvem é voltado para o consumo familiar e para o comércio em pequena escala. O acesso aos ganhos econômicos é escasso com uma excessiva carga de trabalho com condições de trabalho precárias. As mulheres camponesas do território Manaus e Entorno desenvolvem seu trabalho em diferentes espaços. Numa mesma proporção, permanecem nas suas casas cuidando dos filhos e maridos, mas labutam diariamente nos sítios e roçados. Nem sempre a contribuição financeira da mulher na família é contabilizada e efetivada. Mas elas não deixam de produzir ao menos para a subsistência. Os espaços que as mulheres camponesas ocupam hoje não se resumem mais somente a casa e a roça. Durante as entrevistas foram percebidas que os espaços domésticos ocupados pelas mulheres estão sendo aos poucos alterados por elas. Agora é a Igreja, a Associação, a Escola da comunidade. Esses “novos” espaços abrigam um processo de empoderamento começado pelas mesmas mulheres tendo o controle dos recursos econômicos e materiais de suas famílias e de seus empreendimentos, como também as decisões políticas que afetam a vida das comunidades como num todo. O processo de empoderamento não é algo vivido em harmonia, envolve “[...] processos políticos, prenhes de disputa, contradições, negociações, avanços e recuos, entendidos à luz de contextos históricos específicos e das tramas locais” (PARRY, 2006, p. 152). Porém, legitimados pela luta empreendida por essas mulheres na vida cotidiana e na labuta diária. Um dado etnográfico da pesquisa é a liderança de mulheres à frente de associações de moradores, sindicatos rurais e de Igrejas como católicas e evangélicas. Estar à frente de uma associação e de um sindicado – espaços dados como masculinos – pode significar a busca por emancipação social e política para assegurar o pão cotidiano de todos. Esse pão simboliza a segurança material, mas pode ser também considerado o pão da distribuição equitativa dos bens, a segurança alimentar e nutricional com alimentos melhor produzidos, a conquista e a defesa dos direitos e o exercício dos deveres. As mulheres camponesas têm ocupado os cargos de coordenações das comunidades religiosas de base ligadas às Igrejas Católicas e Evangélicas. A mudança do perfil religioso no cenário brasileiro tem provocado a migração de muitas das lideranças religiosas que no 130 passado foram ligadas às Comunidades Eclesiais de Base 24 (Ceb’s), da Igreja Católica, para as Células Familiares das Igrejas Evangélicas, sobretudo, Assembléia de Deus. A mudança é de caráter estrutural e teologal sobre a concepção de Deus. Mas nessa migração acabam também indo às lutas sociais antes empreendidas. Disso resulta a busca pelo sagrado com um sentido da busca pelo transcendente que não se encerra no céu, no paraíso, mas se materializa no cotidiano pelo reconhecimento da igualdade nas relações de gênero, no cuidado com o meio ambiente, na reciprocidade, na criatividade, na solidariedade. Ser uma liderança feminina no ambiente religioso pode significar empreender uma luta que conjuga a defesa do pão diário, a busca do divino que faz transcender, mas que se materializa nas relações humanas e nos sistemas da vida (GEBARA, 2010). Vale lembrar que os processos de empoderamento não atingem as mulheres camponesas da mesma forma e na mesma proporção. Há fragilidades, descontentamentos e muitas vezes mostram caminhos que reafirmam o poder patriarcal. Por outro lado, as mulheres se colocam em marcha indo além da casa e da roça. Lutam por direitos, asseguram a ação coletiva e o fazer político para terem acessos plenos às políticas públicas e aos recursos necessários que vão além de simples programas de transferência de renda para suas comunidades e suas famílias. 4. O Cooperativismo rural Aqui não se pretenderá problematizar sobre o cooperativismo e o associativismo. Mas se apresentarão sete teses em perspectiva sobre o trabalho e a razão cooperativista tendo como pano de fundo a narrativa dos agricultores familiares que identificavam o trabalho em cooperação (SCOPINHO, 2010), como uma importante saída para os entraves econômicos que a agricultura familiar sofre no território Manaus e Entorno. 1. Uma cooperativa formada por agricultores familiares é uma organização social e econômica que reúne princípios como a diversidade cultural dos produtores cooperados, a sustentabilidade ecológica da produção e a racionalidade ambiental no manejo dos produtos 24 As Comunidades Eclesiais de Bases foram importantes organizações sociais entre as décadas de 60 e 90 nos contextos urbano e agrário do Brasil. Eram pequenos grupos populares ligados à Igreja Católica que eram inspirados pela Teologia da Libertação. Na base de organização desses grupos havia duas importantes dimensões: a reflexão bíblica desde as minorias sociais e a práxis da libertação política e social. Essas comunidades promoveram intensos debates em torno da libertação da mulher, dos negros, dos operários, da juventude, dos camponeses, da reforma agrária, . Hoje essas comunidades continuam espalhadas pelas cidades do Brasil, mas com uma limitada atuação no campo teológico e político. De qualquer forma, a herança deixada por elas permite hoje um olhar mais crítico e libertador de questões que ainda geram opressão no interior da sociedade. 131 da agricultura familiar. Isso mostra que é possível uma produtividade sustentável onde conservação e crescimento podem caminhar juntos. 2. A práxis da gestão cooperativista entre agricultores familiares mostra que não basta “preservar” de qualquer maneira a floresta e seus recursos sustentando o mito da Amazônia intocável. A questão é incorporar na prática de manejo tecnologias ou mesmo atitudes “limpas” que promovam uma maior preservação do ecossistema para o mesmo. 3. A produtividade sustentável é possível a partir da gestão dos sujeitos da floresta e da capacidade dos mesmos sustentarem a ecologia local através de um manejo responsável que são um conjunto de práticas que eles mesmos vão incorporando ou ensinando. 4. Para isso é necessário continuar oferecendo possibilidades e meios para que esse processo de produtividade sustentável tenha condições de seguir adiante e torne-se cultura, isto é, uma prática herdada dos antigos e ao mesmo tempo aperfeiçoada pelas novas gerações. Isso implica considerar os recursos disponíveis, a produtividade ecológica, gestão sustentável dos recursos, tecnologias adequadas para uma produção sustentável. 5. Em contrapartida, considerar as especificidades dos sujeitos de cada ambiente é outra atitude necessária para o incremento dos processos produtivos de maneira sustentável. É necessário compreender a produção não partindo dela mesma, mas de quem a produz: o camponês amazônico. E esse traço deve ser reafirmado, pois sem a “preservação” das identidades étnicas dos camponeses, da “gente” da floresta não pode haver uma produção sustentável. 6. Para tanto, é necessário preservar antes de tudo a memória camponesa amazônica, sua cultura e seus valores ligados à terra, à floresta e às águas (WITKOSKI, 2007), pois é a partir dessa racionalidade que vemos os suportes de conservação da biodiversidade e abre-se possibilidades de agregar a tais suportes tecnologias que possam continuar desenvolvendo as unidades socioprodutivas sem que comprometa todo o ecossistema. 7. A práxis cooperativa em comunidades tradicionais deixa uma lição de que é possível articular processos ecológicos, tecnológicos e culturais. O resultado de tal articulação é o surgimento da própria Cooperativa como espaço de formação social que agrega todos os valores econômicos, culturais e tecnológicos. Essa sinergia de processos provoca um maior incremento nas unidades socioprodutivas do ecossistema da várzea amazônica e abre perspectivas para outros produtos considerando a polivalência de seus produtores. Essas teses apontam um caminho que não é único, o cooperativismo rural, mas que se propõe a romper entraves históricos quanto à organização das unidades produtivas familiares e da comercialização dos produtos da agricultura familiar. Considerá-las pode significar abrir 132 possibilidades de organização social e econômica que o próprio PDSTR propõe a partir da autogestão e da organização política e social dos agricultores familiares. ***** A dinâmica territorial que envolve as cidades do Amazonas não deve ser vista como um problema, mas como solução que ainda necessita ser pensada com criatividade e inovação. Os dados apresentados aqui nesse relatório podem nos levar a três atitudes: A) pactuar com os que, movidos por interesses próprios, desejam que permaneçam tais cenários apontados; B) ficar indiferente diante das problemáticas reveladas por comodismo ou C) fortalecer as organizações sociais para a mediação séria e produtiva da gestão territorial. Quanto aos fatores do desenvolvimento os dados referentes ao território rural Manaus e Entorno revelam um índice médio de 0, 516 (ICV/SGE, 2011). Quanto as características do desenvolvimento do território o índice também ficou na média de 0, 575 (ICV/SGE, 2011). Os efeitos do desenvolvimento geraram um índice de 0, 653 (ICV/SGE, 2011). No geral, o Índice de Condições de Vida do Território Rural de Manaus e Entorno soma 0,576 ficando numa média onde o índice total é de 1,000. O território rural Manaus e Entorno poderá alcançar melhores índices de desenvolvimento caso suas potencialidades produtivas sejam utilizados de forma inovadora e não com isolamento produtivo. Para isso, é necessária a construção de cadeias produtivas baseadas em elementos das florestas, das águas e de serviços ambientais produzidos pela natureza e pela população. Uma importante lacuna encontrada no território rural de Manaus e Entorno é a ausência do Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentável – PTDRS. O resultado dessa ausência é a falta de um planejamento estratégico para a gestão do território. Os sujeitos que estão envolvidos na gestão territorial não conseguem estabelecer um horizonte para os projetos voltados à agricultura familiar e isso acaba comprometendo todas as ações empreendidas dentro do território Manas e Entorno. A abordagem territorial constitui uma rede de cidades que necessita ser fortalecida e adequada de acordo com as demandas sociais e econômicas do território. A organização da rede de cidades é um instrumento crucial. Cabe transformar a competição em complementaridade (BECKER, 2009). A compreensão do próprio bioma amazônico pode revelar um zoneamento concreto estabelecido pela natureza que deve indicar o modo inovador de uso do território rural. Cada cidade vista como unidade territorial estratégica pode induzir ao desenvolvimento territorial através de um novo modo de produzir e romper com a dicotomia entre grandes e ricos e muitos pequenos e pobres sujeitos do Território. 133 7 Análise integradora de indicadores e contextos As possibilidades de tornar efetivas as políticas públicas voltadas para o desenvolvimento sustentável dos territórios rurais certamente depende da visão integradora da realidade social, econômica, política e ambiental destes territórios. A tentativa de uma análise integradora dos indicadores de desenvolvimento aqui estabelecida tem a intenção de apontar as principais variáveis que estão correlacionadas e que nos permitem ter uma visão substantiva da conjuntura do Território Manaus e Entorno. Cada um dos indicadores aqui analisados de forma integrada – identidade, capacidades institucionais, gestão do colegiado e resultados dos projetos – permite desenvolver diferentes possibilidades de interpretação, considerando a relação que tais indicadores mantém entre si. Neste sentido, optamos por fazer algumas escolhas em termos de abordagem analítica sobre os indicadores em questão. A primeira pergunta que se coloca é: como integrá-los? Qual dos indicadores ocupa certa centralidade na compreensão da dinâmica do território e de sua conjuntura atual? Será que um dos indicadores pode ser tomado como o principal fator para o estado atual do Território? Acreditamos que se trata de um processo dialético no qual os indicadores tendem a interagir numa via de mão dupla, condicionando o estado atual do Território. Certamente que cada um desses indicadores pode ser analisado de maneira autônoma, uma vez que eles não são necessariamente condicionados por meio de uma relação entre causa e efeito. Todavia, ao analisarmos de forma integrada os indicadores de desenvolvimento, a dimensão da causação-funcional tende a aparecer no processo de explicação dos resultados da pesquisa e da própria análise. Apesar disto, queremos chamar a atenção para a necessidade de relativizarmos esta relação na medida em que não se trata de uma visão mecânica e imediatista dos processos sociopolíticos e econômicos que marcam as características e o estado atual do Território Manaus e Entorno. A tentativa é estabelecer algumas correlações explicativas, mas que não são absolutas e nem deterministas. Dentre os indicadores apresentados, um deles pode ser tomado como um dos principais para a análise aqui proposta. Este indicador apresenta alguns desdobramentos significativos para os demais processos relativos ao Território e que reflete de certa maneira nos resultados de outros indicadores. Trata-se do indicador de gestão do colegiado. Este indicador guarda uma relação com os demais indicadores, sendo que o de capacidade mantém uma relação de maior proximidade. 134 Antes de analisarmos mais especificamente a correlação entre os indicadores, com base nas suas variáveis principais, é importante salientar a relação que estes mantêm entre si de maneira geral. A figura abaixo pretende demonstrar como se dá esta relação: Identidade Territorial Condições de Vida Gestão do Colegiado Resultados dos Projetos Capacidades Institucionais Figura 23 – Análise integradora de indicadores e contexto Fonte: Célula de Acompanhamento e Informação/SDT A partir da figura acima, podemos observar que a gestão do colegiado assume certa centralidade na dinâmica do Território Manaus e Entorno. Não quer dizer, todavia, que esta centralidade deva ser tomada como a responsável pelo sucesso ou fracasso das ações territoriais. Sua importância se deve ao fato dela constituir o espaço principal no qual os atores decidem os rumos do Território. A centralidade aqui se refere ao protagonismo que a gestão do colegiado assume ou deve assumir na condução das ações territoriais, as quais repercutem sobre o Território. A gestão do colegiado repercute diretamente nos resultados dos projetos implementados no âmbito do Território. Sem os processos de monitoramento e avaliação constante por parte dos seus dirigentes, não há como saber do nível de abrangência e, principalmente, do impacto dos projetos sobre as condições de vida da população rural. Isto implica dizer que a gestão do colegiado deve tomar como uma de suas prioridades o acompanhamento dos projetos propostos para o Território. A efetividade destes depende necessariamente da capacidade de controle social do CODETER, especialmente no que diz respeito ao comprometimento das instituições públicas responsáveis pela execução dos projetos, dentre elas as prefeituras municipais e as secretarias do Governo do Estado. Ainda não dispomos de dados que nos permitam fazer uma análise mais aprofundada sobre a gestão dos projetos de empreendimentos e sobre a amplitude e efetividades destes. Todavia, a partir do trabalho de campo realizado e das conservas informais com os membros do CODETER foi possível perceber que boa parte destes projetos não resultou naquilo que se 135 esperava o que provocou um grande sentimento de frustração por parte dos atores. O impacto no imaginário social daqueles que se dedicam à estratégia de desenvolvimento territorial em âmbito local tende a ser maior quando se considera o fato de que determinada parcela dos projetos não saiu sequer da discussão ou do papel. Neste contexto, os indicadores de capacidades institucionais nos permite inferir acerca da relação entre os serviços institucionais disponíveis, cujo índice é 0,272, isto é, Médio baixo, e a pouca efetividade dos projetos de empreendimentos, constatação bastante recorrente na percepção dos atores envolvidos diretamente na estratégia de desenvolvimento territorial. Este indicador mantém uma relação bastante próxima com o de gestão do colegiado, cujo índice é de 0,554, isto é, Médio. Da mesma forma, o indicador de capacidades organizacionais, com 0,474, isto é, Médio, e os instrumentos de gestão municipal, com 0,549, Médio, tendem a corroborar com a percepção dos atores no que tange à pouca efetividade dos projetos propostos para o Território, especialmente em relação aqueles já implementados. É importante salientar que o nível Médio do indicado não significa necessariamente uma boa situação em termos de capacidades institucionais, uma vez que os resultados práticos são ainda incipientes. Em resumo, é possível observar uma estreita ligação entre a gestão do colegiado, os níveis de capacidades institucionais e os projetos de empreendimentos planejados e implementados nos territórios. Todo este processo está diretamente relacionado com os índices de condições de vida da população rural, os quais dependem necessariamente dos resultados das ações territoriais. Em outras palavras, a melhoria das condições de vida no meio rural depende necessariamente do fortalecimento da gestão do colegiado e das capacidades institucionais da sociedade civil e do poder público, de forma que as políticas públicas possam cumprir com seus objetivos. Verifica-se, portanto, que a gestão do colegiado mantém uma relação muito estreita com os níveis de capacidades institucionais. Poderíamos dizer que, muito do insucesso das ações deliberadas pelo CODETER é decorrente dos baixos níveis de capacidades de nossas instituições, tanto da sociedade civil quanto do poder público. É claro que o CODETER apresenta determinadas dificuldades em termos de fragmentação política, disputas políticopartidárias internas, fragilidade de comunicação e articulação interinstitucional, desentendimentos entre articuladores estaduais e membros da delegacia federal e, principalmente, ausência de uma agenda territorial, contendo as ações estratégicas e a visão de futuro para o Território. Apesar disso, podemos afirmar que muitas das ações programadas não foram adiante devido ao baixo nível de participação dos gestores públicos, isto é, em face 136 da incapacidade institucional das esferas governamentais, particularmente estadual e municipal, em executar as ações territoriais deliberadas no âmbito da gestão do colegiado. Se os resultados dos projetos e as condições de vida da população rural estão articulados aos níveis de capacidade institucionais e de gestão do colegiado, podemos dizer que a identidade territorial constitui uma variável importante que é socialmente construída no contexto deste processo. Em outras palavras, a identidade territorial atravessa todo o processo político-institucional de formação e consolidação do Território. A identidade é antes um processo que ocorre no âmbito do imaginário social daqueles que estão envolvidos na estratégia do desenvolvimento rural na perspectiva territorial. Isto implica dizer que a identidade é um elemento simbólico que vai sendo forjado dialeticamente na gestão do Território, isto é, nas discussões sobre as ações e programas territoriais, na visão de futuro que os atores buscam construir e até mesmo no tipo de projeto que se pretende implementar. Neste sentido, a identidade territorial constitui um elemento fundamental para determinar os projetos, as ações, os programas e, por conseguinte, a agenda pública de um território. Em outras palavras, ela é fundamental para a construção de um modelo desenvolvimento endógeno que abarque as singularidades locais, sejam elas econômicas, culturais e ambientais. A identidade de um território, isto é, daqueles que o constituem, materializa-se na forma do desenvolvimento adotado e este, por sua vez, tende a corroborar com o fortalecimento da própria identidade dos atores. Trata-se, portanto, de uma via de mão dupla, ou seja, ao mesmo tempo em que a identidade vai sendo construída, uma perspectiva de desenvolvimento endógeno tende a se manifestar enquanto projeto político e identitário que, por sua vez, tende a ampliar as liberdades individuais e coletivas, bem como a própria identidade social, dando visibilidade e peso político em termos de protagonismo e empoderamento dos atores locais. Neste sentido, a identidade territorial deve influenciar no modus operandis, isto é, na ação política, tanto dos atores da sociedade civil quanto daqueles que estão à frente das instituições públicas. A constituição de uma identidade territorial é importante no sentido de garantir o envolvimento, a participação e o comprometimento dos atores na construção e consolidação da estratégia de desenvolvimento territorial na perspectiva de um desenvolvimento sustentável. Daí a necessidade de se dar atenção especial às identidades locais, particularmente quando da definição das ações e programas voltados para o fortalecimento da agricultura familiar. Neste sentido, o fortalecimento da agricultura familiar representa um tipo de empreendimento político que aponta para um modelo de desenvolvimento contrário aos fundamentos do desenvolvimento capitalista, cujos processos 137 de exclusão social e degradação ambiental tendem a ser uma das suas principais manifestações. A agricultura familiar certamente é a categoria que define a identidade territorial, uma vez que os territórios rurais têm como objeto de suas ações o agricultor familiar. Dentre os principais elementos constitutivos da identidade do Território Manaus e Entorno, destacamse: o ambiente, com índice de 0,737 (Médio Alto); a própria agricultura familiar, com índice de 0,803, considerado Alto; as economias locais, com 0,722 (Médio Alto); o fenômeno da pobreza, com 0,669, considerado Médio Alto; as etnias, com 0,630 (Médio Alto); os processos de colonização, com 0,689 (Médio Alto); e, finalmente, os processos políticos, com 0,715 (Alto Médio)25. São estas as características que definem a identidade do Território Manaus e Entorno e que devem servir como parâmetros para se pensar o desenvolvimento local na forma de uma agenda territorial que atenda as expectativas dos atores locais. Para se ter idéia de como a categoria da agricultura familiar é importante no âmbito do território Manaus e Entorno, basta lembrar que das 279 famílias entrevistas pelo ICV, 178 são de agricultores familiares, uma vez que atenderam todos os requisitos para a definição desta categoria. Alem disso, 236 dos domicílios visitados apresentaram algum ou vários tipos de produção rural o que dá um peso maior ao setor primário e à agricultura familiar. Apenas 43 famílias não apresentaram produção em suas propriedades. Estes dados servem para mostrar a importância estratégica da agricultura familiar como fator de desenvolvimento rural e como prática de sobrevivência a partir da qual as condições de vida, isto é, de reprodução material e social, da população rural são sustentadas. A agricultura é a principal fonte de renda e de reprodução da vida dessas famílias rurais, requerendo, por isso, atenção especial do Estado. Não é difícil entender porque a melhoria das condições de vida da população rural, isto é, dos agricultores familiares, depende necessariamente do fortalecimento da estratégia de desenvolvimento territorial, e, em particular, de um maior protagonismo e fortalecimento do CODETER, bem como das capacidades institucionais do poder público. O fortalecimento ou a resolução, respectivamente, das características e problemas que determinam a identidade do Território Manaus e Entorno estão atualmente fragilizadas, de um lado, devido às dificuldades do CODETER em colocar em prática seus projetos e ações, de outro, em razão das péssimas condições das capacidades institucionais, dentre elas, aquelas relacionadas aos serviços institucionais disponíveis e à participação das instituições públicas, ambas com índices entre médio e baixo. Podemos sugerir que um dos problemas centrais do Território Manaus e 25 Legenda: 0,00 – 0,20 = Baixo; 0,20 – 0,40 = Médio Baixo; 0,40 – 0,60 = Médio; 0,60 – 0,80 Médio Alto; 0,80 – 1,00 = Alto. Fonte: SDT/SGE. 138 Entorno se assenta na fragilidade da Gestão do Colegiado e das Capacidades Institucionais, problema que tende a repercutir em termos de entraves no processo de efetivação de uma agenda territorial, cuja formação deve assegurar a melhoria das condições de vida da população, bem como a viabilização do próprio desenvolvimento rural. Estes indicadores, portanto, permitem inferir acerca do desenvolvimento rural no âmbito do Território. É claro que não se trata de uma análise do desenvolvimento com base apenas nos efeitos do PDSTR, afinal ainda não parâmetros mais específicos que possam revelar, de fato, a relação entre os programas dos PDSTR e os resultados destes na melhoria das condições de vida. Com já foi dito, ainda não temos dados suficientes que permitam desenvolver uma análise sobre a efetividade dos projetos de empreendimentos implementados no âmbito do Território. De qualquer forma, trata-se compreender o desenvolvimento rural em sentido amplo, considerando a história da ação governamental, que não se limite aos últimos oitos de existência do Território Manaus e Entorno, mas, certamente, atravessa este período tão significativo para o desenvolvimento da agricultura familiar em todo o país. Neste contexto, queremos destacar apenas algumas variáveis do ICV que julgamos pertinentes na análise integrada de indicadores. A intenção é correlacionar estas variáveis aos demais indicadores relativos à gestão do colegiado e à capacidade institucional. Como já foi mostrado, as três dimensões do desenvolvimento – fatores do desenvolvimento, características do desenvolvimento e efeitos do desenvolvimento – apresentaram um índice que varia de Médio a Médio Alto, este último referente aos efeitos. Para este momento, nos interessa analisar algumas variáveis referentes às três dimensões do desenvolvimento. Na primeira dimensão, destaca-se o acesso aos mercados, com índice26 de 0,432, ou seja, Médio; os programas de governo, com índice de 0,356 (Médio Baixo); o acesso a crédito, com 0,349 (Médio Baixo); o acesso à assistência técnica, com 0,321 (Médio Baixo); a presença das instituições, com 0,470 (Médio). Aqui podemos fazer uma relação com o indicador de capacidade institucional, especialmente com uma de suas variáveis talvez mais significativa, qual seja a dos serviços institucionais disponíveis, cujo índice é de 0,272 (Médio Baixo). No que tange à segunda dimensão – características do desenvolvimento – destacam-se as seguintes variáveis: renda familiar, com 0,504 (Médio); a produtividade do trabalho, com 0,576 (Médio); a produtividade da terra, com 0,638 (Médio Alto); a diversificação da produção agrícola, com 0,469 (Médio); e a diversificação nas fontes de renda familiar, com 0,371 (Médio Baixo). Enquanto a produtividade terra é considerada entre média e alta, a renda 26 Legenda: 0,00 – 0,20 = Baixo; 0,20 – 0,40 = Médio Baixo; 0,40 – 0,60 = Médio; 0,60 – 0,80 Médio Alto; 0,80 – 1,00 = Alto. Fonte: SDT/SGE. 139 familiar, a produtividade do trabalho e a diversificação da produção ainda é Média. Já a diversificação das fontes de renda ainda é considerada entre Média e Baixa. Isto implica em dizer que há um potencial produtivo que não se realiza plenamente, com reflexos na melhoria da renda e das condições de vida da população. Aqui novamente cabe um paralelo com os indicadores de capacidades institucionais e com o de identidade territorial, cujo índice de pobreza é de 0,669 (Médio Alto). Finalmente, é importante destacar os indicadores concernentes à terceira dimensão do desenvolvimento, isto é, de seus efeitos, estes, por sua vez, aparecem com índices que variam de 0,567, no caso da participação política, até 0,858, concernente à permanência dos familiares no domicílio. No geral o índice desta última dimensão do desenvolvimento é de 0,653 (Médio Alto), enquanto das outras duas é de 0,516 e 0,575 (Médio), respectivamente. É interessante como estes dados contrastam com os indicadores de gestão do colegiado e de capacidades institucionais, isto porque, o desenvolvimento rural, não pode ser analisado apenas com base nos indicadores referentes ao Território Manaus e Entorno, uma vez que a percepção da população rural leva em consideração um conjunto de fatores históricos que atingem diretamente suas vidas, dentre elas a ação dos governos, as quais não estão presas a programas específicos do governo federal. Com isso, queremos dizer que a percepção das populações sobre suas condições de vida leva em conta todo um processo que não se limita às ações governamentais, mas, inclusive, o lugar onde estas populações vivem, o mundo natural e social que os cercam, enfim, a cultura da qual fazem parte. Aliás, cultura e desenvolvimento são duas categorias correlacionadas e que devem ser melhor explorada nos processos de territorialização e desenvolvimento na Amazônia. 140 8 Propostas e ações para o Território O Território Manaus e Entorno para solucionar os problemas que inviabilizam o seu desenvolvimento deve centrar forças em propostas que seja realizada, com esse objetivo na Oficina de Informação e levantamento de proposta-ação para o Território Rural Manaus e Entorno foram postas questões pela Célula de Acompanhamento e Informação do Território para serem problematizadas. Com o objetivo de levantar propostas para solucionar os entraves que dificultam o desenvolvimento do território e mais que as decisões tomadas em Colegiado de fato saiam do papel e alcancem as necessidades territoriais. As propostas e ações para o território estão postas de 3 formas: Propostas para a Célula; Proposta para a SDT; Proposta para o Colegiado. Essa estrutura foi montada a partir da Oficina que ocorreu no período de 28 a 30 de julho de 2011 na cidade de Manaus. As informações repassadas foram subsidiadas pelos indicadores da SDT: Identidade Territorial, Gestão do Colegiado, Capacidade Institucional e Índice de Condição de Vida além das informações adquiridas na participação de reuniões e eventos do colegiado. O objetivo da oficina foi realizar um levantamento de proposta-ação de forma participativa para qualificação da política territorial da SDT, bem como o planejamento, gestão e controle social do Território Manaus e Entorno em parceria com a Célula de Acompanhamento e Informação, Colegiado, CMDRS, produtores rurais e suas organizações sociais. Através dos dados socializados os membros do colegiado se organizaram em grupo para reflexão dos dados expostos e com isso fazer as propostas para Célula de Acompanhamento e Informação, Colegiado Territorial e para SDT conforme suas obrigações e atentos as limitações de cada grupo. As temáticas que foram analisadas estão descriminadas a seguir. Gestão do Colegiado Territorial; Política Agrária; 141 Políticas Sociais; Comunicação; Autonomia e Economia, Trabalho e Renda; Meio Ambiente; Segurança Alimentar, Nutricional e Saúde; Formação e Organização Social; Unidade de Produção Familiar. As temáticas descriminadas são demandas do território e aparecem nas questões dos questionários utilizados na pesquisa e principalmente nas falas paralelas as entrevistas. Proposta para Célula: 1. Usar as informações do trabalho de pesquisa e extensão sobre o território Manaus e Entorno para a reelaboração do PTDRS; 2. Desenvolver ações de formação e capacitação técnica para os sindicatos, associações, cooperativas e conselhos dos municípios do Território Manaus e Entorno; 3. Estabelecer um link entre Universidade e organizações ligadas à questão rural para que disponibilizem novas tecnologias à agricultura familiar. Propostas para a SDT 1. Promover o diálogo entre organizações dos produtores e organizações públicas; 2. Informar para o colegiado quais as ações dos articuladores territoriais e qual a estrutura disponibilizada para a execução dessas ações; 3. Articular com as demais Secretarias Ministeriais os meios de acesso às políticas públicas e aos programas do governo federal voltadas para o Território Manaus e Entorno (crédito e financiamento rural, luz para todos, quadro de técnicos agrícolas, infraestrutura). Propostas para o Colegiado 1. Reestruturar o Colegiado Territorial permitindo uma renovada identidade e melhor divisão das responsabilidades de cada membro. 2. Facilitar a participação das organizações rurais nos conselhos e fóruns. 3. Estreitar o relacionamento com as organizações dos agricultores familiares e trabalhadores rurais. 142 Todas as propostas destacadas são fundamentais para o colegiado territorial e vão ajudar nas políticas de desenvolvimento. É importante frisar que as propostas destacadas foram postas a partir da problematização dos dados adquiridos em campo. Essas propostas foram sugeridas pelo Colegiado Territorial na oficina com intermediação da CAI. Em relação às recomendações para complementar as lacunas de pesquisa dos instrumentos de disponibilizados pela SDT, contribuindo nessa forma no conhecimento do território, a Célula do Território Manaus e Entorno aponta três propostas que se fazem necessárias para o avanço da política territorial. 1. Mapeamento do setor primário e da agricultura familiar O setor primário é uma das principais bases econômicas do Território Rural Manaus e Entorno, sendo que a agricultura familiar é uma das responsáveis pela sustentação produtiva desse setor daí sua importância para a economia do estado. Por outro lado, essa agricultura é a mais fragilizada em diferentes aspectos. Os motivos dessa “corda bamba” são diversos e complexos, por isso, há a necessidade de se compreender a dinâmica do setor primário e da agricultura familiar no Território Manaus e Entorno. Como questão produtiva a agricultura familiar, através de suas atividades agrícolas, garante a manutenção das famílias rurais com a produção e a venda dos seus produtos. Na continuidade dessa dinâmica, há quem se aproxima dessa agricultura como comprador para garantir a segurança alimentar e nutricional das populações. A agricultura familiar também demanda questões referentes à preservação do ambiente e do manejo sustentável dos recursos naturais, como rios e florestas. Por ser uma agricultura de caráter familiar ela se preocupa também com as questões sociais e culturais. A agricultura familiar vai além da questão produtiva. Em perspectiva, ela atende demandas sociais que as famílias rurais vivenciam no interior dos seus territórios como violências, questões de gênero, a pobreza, o tráfico de drogas, renda, segurança alimentar, questão fundiária, habitação. Por isso, é necessário compreender como se orientam as políticas públicas voltadas para o setor primário no Estado do Amazonas, responsáveis pela promoção e desenvolvimento da agricultura familiar para que as potencialidades desse tipo de agricultura sejam alimentadas e os entraves sanados. É necessário verificar até que ponto a agricultura familiar contribui para o desenvolvimento territorial e se ela se desenvolve melhor dentro de uma lógica territorial. 143 Como a agricultura familiar perpassa as questões produtivas é importante verificar o processo de construção social na dinâmica dessa agricultura identificando quem são os principais sujeitos envolvidos nela e as demandas que eles trazem consigo, como: interesses comuns e conflitantes; espaços de negociações; poder; gênero; violências; meio ambiente, cultura. 2. A situação fundiária e agrária nos territórios A sociedade pós-moderna, volátil e em rede impossibilita pensar em espaços não conectados. Porém, quando o foco de análise se centra na Amazônia, as disparidades se acentuam entre os espaços urbanos e os espaços rurais. Os primeiros quase sempre dotados de infraestutura e o segundo, quase sempre, carente de todos os aparatos tecnológicos apresentando, portanto, um mosaico de desenvolvimento desigual concentrado. Em 1995 o Governo Federal formula o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) com o objetivo de prestar assistência de forma diferenciada a pequenos produtores agrícolas que desenvolvem atividades com o emprego da força de trabalho familiar. Dentre os objetivos do programa está o de integrar e fortalecer o desenvolvimento da agricultura familiar, proporcionando a este o aumento do correspondente em moeda e agregando valor aos produtos e a propriedade. Um dos fatores agravantes de acesso ao crédito é a situação fundiária nos espaços rurais, permeado por barreiras burocráticas, como titulação legal da terra. A ausência de assistência técnica, também, se apresenta como agravante no acesso ao crédito rural, que deveria ser de competência do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Estado do Amazonas – IDAM informar sobre os financiamentos e linhas de crédito e prestar apoio técnico aos agricultores. A legislação ambiental e as exigências das instituições de fomento (certidões negativas etc.) impõem barreiras aos produtores familiares. Ao pleitearem financiamentos perante as instituições de fomento deve ser apresentado projeto que exponha ao banco os objetivos e de que forma se pretende lançar uso do recurso. A assistência do IDAM é escassa, pois há ainda baixa oferta de técnicos infraestrutura para atender as necessidades dos trabalhadores rurais. Dessa forma, os produtores não possuem assistência do IDAM o que corrobora para que se acentuem as barreiras de acesso ao crédito. A liberação do recurso segue a ordem da cadeia de acesso ao crédito rural, onde parte do recurso é destinada ao IDAM para a prestação de serviços técnicos junto ao produtor, além de exercer o papel de consultor financeiro verificando quais as potencialidades de cada 144 produtor e criando e/ou direcionando os mesmos ao agronegócio. Sendo relevante estudodiagnóstico da situação fundiária e agrária no território Manaus e Entorno. 3. Logística e infraestrutura dos territórios Faz-se necessário uma pesquisa que mostre a atual realidade do Território Manaus e Entorno em relação à Logística e infraestrutura. Esse tema é fundamental para solucionar os problemas de escoamento da produção do agricultor. É sabido que os meios de transporte as sua maioria na Amazônia se faz por via fluvial, dependendo do produto o tempo de deslocamento prejudica a qualidade. Mas nem sempre o agricultor tem condições de levar o seu produto para o mercado consumidor, por falta de transporte adequado, pois muitos possuem uma canoa com um motor rabeta. A falta de acesso ao mercado se torna pior no período da seca, pois as comunidades ficam isoladas e sem condições não só de acesso aos mercados, mas a outras necessidades, como assistência médica. É prioridade visualizar a realidade do Território, caso contrário não terá êxito à implantação de agroindústrias, casas de farinha e outros projetos sem uma logística que possibilite o acesso aos mercados que estão distantes das áreas de produção. Além do acesso é necessário identificar se as sedes municipais têm infraestrutura para receber as demandas dos agricultores. Mais essa questão também deve ser avaliada nas instituições que fazem trabalhos de assistência técnica (IDAM e Secretarias de Produção). Se observa a falta de técnicos e equipamentos, meios de transporte nessas instituições. A partir desse cenário que deve ser mais investigado até para buscar soluções cabíveis é fundamental uma pesquisa apurada, que pode não ser só um problema dos Territórios Rurais do Amazonas, mas de outros, os Territórios que tem as estradas como meio de transporte também devem ter suas limitações. Identificar como se encontra a parte de Logística e infraestrutura do Território Manaus e Entorno ajudará em quais projetos podem ser implantados. 145 Anexo: validação de instrumentos e procedimentos 1. Questionários fechados, sem espaço para respostas dissertativas Questionário: Identidade Territorial É um dos principais problemas dos instrumentos de pesquisa, principalmente quando os dados qualitativos são mais importantes que os quantitativos. O diálogo feito com os representantes do colegiado é muito mais relevante do que qualquer número. Expor os dados de forma integradora como está posto no sistema dificulta a análise. Cada pergunta do questionário Identidade, por exemplo, tem uma característica. Uma informação diferente. 2. A estrutura e a linguagem não condizem com a realidade da Amazônia Questionário: ICV O rural da Amazônia, mesmo com várias intervenções, é muito diferente do restante do país. As realidades e as necessidades são outras. Exemplos: • Na maioria das comunidades visitadas a ‘energia elétrica’ é alimentada por motor, e este fica ligado apenas no horário noturno. Informar que na casa dessa família tem energia é falsear a realidade. • O acesso a água. Ter água ‘próximo de casa’ somente é possível quando o rio está cheio nas localidades visitadas. Esse tipo de questão deveria considera o mínimo as realidades locais. Para sanar parte dessas dificuldades se sugere que as células de acompanhamento e informação elaborem, ao menos, um instrumento de coleta de dados para que se contemplem as dinâmicas próprias de cada território rural. 3. A metodologia de aplicação dos instrumentos de coletas de dados Metodologia da pesquisa A aplicação dos questionários na sua maioria foi aplicada em cada município que compõe o território. Não é fácil chegar a esses municípios, as estradas do Amazonas, continuam sendo os rios e o que nos preocupa é essa tentativa de enquadrar todos os 146 territórios numa mesma realidade territorial. O Brasil como num todo é muito diferente territorialmente. As distâncias e o transporte são complicados. Sabemos que há território no país que em um único dia se percorre todo ele, mas essa não é a realidade do Amazonas as viagens são longas e dificultosas. A aplicação do ICV é um exemplo real. Se não fossem as parcerias entre as Células do Manaus e Entorno e Baixo Amazonas com o Núcleo do Socioeconomia e a colaboração de outras Instituições ficaria inviável as atividades de campo. 4. Membros das Células de Acompanhamento e Informação Pesquisadores; suporte técnico O número de integrantes das células (1 técnico, 2 bolsistas e o Coordenador) para nossa realidade é muito limitador. Se tivéssemos somente essas pessoas para a aplicação dos questionários o tempo para o termino dos mesmos seria outro, pois seria preciso mais trabalho de campo, com isso mais recurso. Permitir que as células de acompanhamento e informação elaborem, ao menos, um instrumento de coleta de dados. 147 Referências Bibliográficas BECKER, Bertha Koiffmann (Org.). Um projeto para Amazônia no século 21: desafios e contribuições. Brasília, DF: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2009. BRASIL. Sistema de Gestão Estratégia-avaliação de projetos de investimento. MDA. Brasília, Julho, 2011. CAZELLA, Ademir A.; BONNAL, Philippe; MALUF, Renato S. (Orgs). Agricultura familiar: multifuncionalidade e desenvolvimento territorial no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad X, 2009. COMISSÃO SOBRE GOVERNÇA GLOBAL. Nossa comunidade global. O relatório da Comissão sobre Governança Global. Apud GONÇALVES, Alcindo. O conceito de governança. 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