HIP-HOP: IDENTIDADE, AÇÃO E MOVIMENTO Maria Aparecida Costa dos Santos1 Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo. Programa de Pós Graduação em Educação, São Paulo. Eixo temático: Pesquisa, Educação, Movimentos Sociais e Novos Protagonistas. Categoria: pôster. RESUMO O presente trabalho é resultado parcial de minha pesquisa de doutorado, em andamento desde 2013, cuja temática envolve o universo do Hip-Hop, expressão cultural que ocorre no mundo todo, especialmente no âmbito da juventude e com mais intensidade nas regiões periféricas das grandes cidades. O objetivo aqui é caracterizar, numa perspectiva introdutória, esse movimento no contexto de sua gênese e expansão, tendo como referências as noções de identidade, ação e movimento. Esta caracterização é parte da abordagem mais ampla que, na tese em construção, toma a problemática desse movimento com a perspectiva de explicitar a natureza de sua dialética enquanto fenômeno simultaneamente social e cultural. Para tanto, procura-se, neste estudo, articular as temáticas, identidade, ação coletiva e movimento social com esta manifestação da cultura juvenil, a partir as contribuições de Albert Melucci (1997 e 2004), de produções acadêmicas (teses e dissertações) e não acadêmicas sobre o Hip-Hop, no sentido de entender em que medida o Hip-Hop pode ser considerado um movimento social e em que medida pode ser entendido como um movimento cultural. Palavras-chave: Hip-Hop, Identidade, Ação Coletiva, Movimento Social, Movimento Cultural. 1 Doutoranda em Educação pela Faculdade de Educação da USP e professora de Educação Física da rede municipal de São Paulo, sob a orientação da Profa. Dra. Patrícia Dias Prado. 1 INTRODUÇÃO Este estudo é parte das investigações realizadas em minha pesquisa de doutorado2, iniciada há um ano, cuja temática envolve o universo do Hip-Hop. Manifestação cultural presente, principalmente, nas regiões mais pobres das grandes metrópoles do mundo, embora ocorra também em cidades distantes desses centros, o Hip-Hop, enquanto objeto de estudo, entrou recentemente nos estudos acadêmicos em educação, se comparado às temáticas clássicas dessa área de investigação. Paradoxalmente, sobretudo nas escolas brasileiras de Educação Básica, as manifestações do Hip-Hop estão sempre presentes, mesmo que de maneira difusa, no comportamento e nas variadas formas de expressão da cultural infanto-juvenil. O propósito aqui é caracterizar, numa perspectiva introdutória, esse movimento no contexto de sua gênese e expansão, tendo como referências as noções de identidade, ação e movimento. Esta caracterização é parte da abordagem mais ampla que, na tese em construção, toma a problemática desse movimento com a perspectiva de explicitar a natureza de sua dialética enquanto fenômeno simultaneamente social e cultural. Ao realizar as investigações para a determinação e a compreensão do objeto em questão, as categorias de análise identidade, ação coletiva e movimento social aparecem como fundamentais para explicar manifestações juvenis e quais resultados e representações podem surgir3. Hip-Hop, além de fazer parte da minha experiência pessoal, como dançarina e coreógrafa, tornou-se foco de meu trabalho profissional no ensino fundamental e, posteriormente, acadêmico. Não se propõe, pelas limitações deste estudo, traçar um histórico deste fenômeno cultural, mas, tão somente, contribuir para uma discussão possível sobre sua dimensão social. 1 HIP-HOP: ORIGEM E EXPANSÃO O movimento Hip-Hop surgiu em meio a diferentes crises norte-americanas ao final dos anos de 1960, como afirma Leal (2007), incluindo a Guerra do Vietnã, a luta pelos Direitos Civis, comandada por Martin Luther King Jr, e as buscas de alternativas, especialmente entre a comunidade de jovens negros, de novos estilos de dança, artes plásticas e uma música própria dos guetos. 2 “A Fúria dos elementos: a pedagogia do Hip-Hop” – tese em andamento O presente estudo foi escrito como parte da avaliação da disciplina “Identidade coletiva, gênero e educação”, ministrada pela Profa. Dra. Claúdia Vianna ofertada pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da USP, no 2º semestre de 2013. 3 2 De acordo Runell (2007), o “Hip-Hop was started by and for Young people of color in urban areas; this should never be left out of the analysis, discussion or history-otherwise it is likely to replicate oppression” (RUNNEL, 2007, p. 15)4. Segundo Toni C. (2005), o rapper Afrika Bambataa foi o responsável por agrupar e formular a estrutura do movimento por meio da união de quatro elementos existentes separadamente: deejay, emcee, bboy/girl e o graffiti5. E com o tempo, um quinto elemento foi identificado pelos praticantes como essencial para a transformação do homem: o conhecimento. No início, buscava-se a representatividade, a união para findar com a violência das gangues dos guetos norte-americanos, mantendo uma visão em parte alienada das políticas públicas, pois o grupo não se interessava nestas questões e nem compreender o porquê da violência, sabiam apenas que o negro e o latino eram as principais vítimas. A conscientização foi sendo construída com o tempo, por meio das letras mais politizadas do rap, pelos desenhos de protesto deixados nos muros e pela expressão corporal distorcida e revolucionária. A determinação em estudar esta expressão cultural, para além dos objetivos propriamente acadêmicos, ampliou-se após minha participação em novembro de 2013, no Think Tank III6, ocorrido na cidade de Nova Iorque (EUA). Durante os três dias de debates e discussões, dúvidas surgiram e ressurgiram acerca dos diversos temas abordados, destacando-se, principalmente, a utilização dos elementos do Hip-Hop como ferramenta e veículo educativo para populações carentes, o movimento social e as questões de gênero e etnia, além de abordagem sobre a sexualidade e sensualidade. Em comum os conferencistas presentes de diversos países, entre eles dois conferencistas brasileiros7, buscavam de alguma maneira pensar o Hip-Hop a partir de uma linguagem única, articulando-se entre fronteiras e permanecendo como um forte elemento artístico, social e educativo. Apesar das arguições produtivas e metricamente bem estruturadas, observei que a identidade e a ação coletiva do Hip-Hop não estavam muito bem definidas para os participantes, principalmente aos conferencistas que não possuíam vínculo com a academia e nem uma leitura mais ampla. Diversos e consistentes foram os questionamentos realizados pelos diferentes participantes. Pessoalmente, manifestei-me com a seguinte preocupação: O Hip-Hop deve ser 4 Hip-Hop começou com e para o jovem negro em áreas urbanas; isto nunca deve ser deixado de fora da análise, da discussão ou da história; caso contrário, é provável reproduzir a opressão. 5 Deejay – DJ- disck jockey – responsável pela a produção musical (picapes); Emcee – MC’s – mestre de cerimônia, ou rapper; Bboy/bgirl – breaker boy/girl, dançarino de break. Tanto a escrita como o conceito foram descritos de acordo as autoras Runell e Diaz (2007). 6 Think Tank III 2013 – Building a Hip-Hop Education Legacy, a Global Cipher from the sheets to the classroom – conferência internacional realizado pelo Hip-Hop Education Center entre os dias 09 e 10/11/2013 na Schomburg Center for Research in Black Culture, na cidade Nova Iorque (EUA). 7 Dois representantes brasileiros: Márcio Santos da Assessoria para o Hip-Hop do Estado de São Paulo e Toni C., autor de diversos livros sobre o Hip-Hop e divulgador da Literatura Marginal. 3 entendido como um movimento cultural ou um movimento social? Cerca de 70% dos conferencistas, participantes e ouvintes questionados informalmente por mim responderam que o Hip-Hop é um movimento social. Contudo, quando interpelados sobre o conceito de movimento social, não souberam argumentar a respeito das características desse tipo de fenômeno. Exceção foi o depoimento do prof. Dr. Christopher Emdim, ao afirmar o Hip-Hop como um movimento social iniciado timidamente na periferia nova-iorquina que, “como uma brasa”, incendiou várias outras periferias mundiais, causando desconforto ao pátrio poder. Por volta de 25% dos questionados defendem o Hip-Hop como uma manifestação cultural afrodescendente e das minorias. Os demais, 5%, consideram que o Hip-Hop tem um pouco de movimento social e cultural mesclados. Este resultado foi uma grande surpresa. As leituras que havia feito (Jeff Chang, Derrick Darby e Tommie Shelby, Bettina L. Love e Martha Diaz, entre outros) antes de começar a Conferência davam-me a certeza de que esta questão estaria claramente definida neste ambiente, já que se tratava ali não apenas de uma grande conferência internacional, mas de uma discussão no epicentro da matriz deste fenômeno cultural. Neste momento notei que é possível identificar no Hip-Hop uma confusão de conceitos e concepções acerca do que seria este movimento. Isso faz ressurgir a questão sobre se, de fato, há algo na expressão das minorias que as identifica nesse “movimento”. De acordo com Pimentel (1999), o Hip-Hop é uma utopia, ou comporta-se como tal, ao abarcar as expectativas de jovens das periferias das grandes metrópoles em meio ao caos de um século tão desencantado. Afirmando, desta maneira, a identidade do jovem na proposição de uma ação efetiva, no caso atitude contraditória ao poder, no auto-aperfeiçoamento, na expressão e no autodidatismo. Autêntica utopia em meio a uma aridez sem precedentes no espírito mundial é capaz de aglutinar em torno de si dezenas, talvez centenas de milhares de jovens que se tratam por “manos’, deixando transparecer essa espécie de fé tênue que lhes traz a sensação de fraternidade. (PIMENTEL, 1999, p. 106) Essa “sensação de fraternidade” é facilmente percebida entre conversas do ambiente Hip-Hop, assim como nas mesas de discussão de pesquisadores do tema. De acordo Khel (2008) tratar o outro como “mano”é uma indicação de igualdade, um sentimento de fratria, o pertencimento a um mesmo campo de identificação horizontal, em contraposição ao modo de identificação/dominação vertical que caracteriza a relação da massa em relação com seus ídolos. Então, por que as pessoas se agrupam? Antes de responder a questão acima, façamos algumas considerações essenciais para o pleno entendimento de agrupamento. Primeiro, utilizando como principal referencial teórico 4 Alberto Melucci (1997 e 2004) e outros autores que possam dialogar com estas questões e com o Hip-Hop. Tratarei sobre identidade e, em seguida, o pensamento para a definição da ação coletiva e finalizando com movimento social, defendo que ao esclarecer de maneira resumida estes três itens, alguns questionamentos surgirão e quem sabe, algumas dúvidas serão respondidas. 2 IDENTIDADE A população negra está marginalizada, pessoas marginalizadas não têm expectativas de vida e são mais facilmente coagidas a integrar grupos criminosos, não por escolha, mas porque todo o resto lhe virou as costas. (MOURA, 2013, s/p) O ser humano busca por segurança. A falta desta segurança individual tende a ser compensada pela companhia de pares semelhantes nas ideias, nos valores, na etnia, no gênero e na classe social. Porém, os valores do que seria importante para a boa convivência com os seus estão atrelados a valores pelos objetos, ou por status. O “Ter” passou a ser mais importante do que o “Ser”. Uma característica mercantilista da sociedade. De acordo Santos (2011), os moradores da periferia deixam de “Ser” algo para “Ter” algo. “Ter é o imediato, e passa a ser sinônimo de valorização, de ser melhor”. (p. 52). De acordo Melucci (2004), as necessidades são sinais de falta de algo, ou alguma coisa, e a busca pela participação em ações de mobilização coletiva e em movimentos sociais, o engajamento em atividades de inovação cultural e ações voluntárias de cunho altruísta fundamenta os alicerces sobre essa necessidade de identidade e contribuem para saciá-la. A resposta para estas necessidades compete a nós 5conhecê-la e elaborá-la culturalmente. E este é o ponto seminal deste ensaio, a ação cultural reconhecida pelo indivíduo capaz de construir uma identidade forte e consistente, usando a arte (música, dança e desenho) como ferramenta de e para a transformação, e como afirma Petrella (2006), a arte é um meio de comunicação social com a função básica de transmitir e de conscientizar acerca das grandes ideias e das grandes falhas atuais. O indivíduo ao tomar parte da arte, ou de qualquer ação distinta, deixa de lado uma determinada parte da sociedade, tornando-se distinto dela. De acordo Félix (2005) essa distinção da arte na sociedade pode ser entendida por meio dos bailes Black, na década dos anos de 1970, locais que eram a sensação da juventude paulistana. Nomes consagrados da música soul-funk brasileiro conquistaram prestígio, maturidade musical e divulgação do trabalho. Estes bailes foram os responsáveis na época pela “importação” do rap americano para as pistas e para o público em geral da periferia, onde o break dancing agregou dançarinos, como o bailarino pernambucano Nelson Triunfo. 5 Ainda citando Melucci (2004) a identidade é um processo de aprendizagem levando o sujeito a autonomia na construção e reconhecimento do seu próprio eu, assim como, na capacidade de reconhecer o outro. De acordo com o estudo de caso realizado por Santos (2011) sobre o autor Ferréz8, a Literatura Marginal9 produzida na periferia, e da periferia, representa não somente a ele, mas toda a comunidade envolvida, tornando-se um ato de comprometimento e de transgressão do comportamento estipulado e aceito pela sociedade burguesa. Segundo Rose (1997), “a identidade do Hip-Hop está profundamente arraigada à experiência local e específica e ao apego a um status em um grupo local ou uma família alternativa”. (p. 202). O vínculo cultural semelhante possibilita que estes grupos se transformem em uma nova configuração de família, o mesmo exemplo em relação às gangues, promovem isolamento e segurança em um ambiente complexo e inflexível. E, de fato, contribuem para as construções das redes da comunidade servindo de base para os novos movimentos sociais. Sabotage10 já dizia nas suas letras: Rap é compromisso. Compromisso este que você estabelece com a música, com os “manos”, com a sua comunidade e com o seu povo favelado. Podemos concluir, a partir destas considerações, que o conceito de identidade definida por Melucci (2004) como aberta, múltipla, reflexiva e diferenciada, parte de um processo de construção produzida por indivíduos em constante interação, isto não quer dizer, que todo o indivíduo cria, ou adere, a uma identidade coletiva. No caso do Hip-Hop, essa identidade coletiva aparece no dialeto (gíria), na vestimenta (calças largas e boné) e no estilo musical (rap). 3 AÇÃO Afrika Bambataa reuniu os elementos rap, graffiti e breakdancing para construir o movimento Hip-Hop sob a bandeira da “união, paz, amor e diversão” fundando em 12 de novembro de 1973 a Universal Zulu Nation, sediada no bairro do Bronx, na cidade de Nova Iorque (EUA). A primeira entidade voltada para o desenvolvimento de um fenômeno cultural advindo da periferia e concretizada por moradores da periferia norte-americana. Neste local, ainda hoje, são oferecidos oficinas de dança, música e artes plásticas, além de palestras sobre ciências humanas, exatas e sociais. A ideia seminal era transformar positivamente o 8 Reginaldo Faria da Silva – o Ferréz – é escritor mundialmente conhecido da Literatura Marginal brasileira, ativista do Hip-Hop, rapper, empresário, produtor musical, cineasta e morador do Capão Redondo, zona sudoeste da Cidade de São Paulo. 9 Segundo Nascimento (2009), a expressão “literatura marginal” classifica as obras literárias produzidas e veiculadas à margem do corredor editorial, no caso do escritor Ferréz, assim como tantos outros, os adeptos são advindos das perifeiras, integrantes do Hip-Hop ou ex-presidiários. Diferentemente, dos poetas marginais da década de 1970 que eram oriundos das classes média e alta, estudantes universitários com vínculos com membros da comunidade artística. 10 Mauro Mateus dos Santos – o Sabotage – considerado um dos maiores rappers da cena paulistana. Foi morto em São Paulo, em 24/01/2003 com quatro tiros. O crime nunca foi realmente esclarecido. (TONI C. , 2013) 6 comportamento e propor opções além da criminalidade aos jovens periféricos. (LEAL, 2007, p. 25). Ao desembarcar no Brasil, por meio da mídia, o Hip-Hop, aliás, o breakdancing encontrou adeptos e a Praça São Bento, no centro da cidade de São Paulo, morada e público. Os praticantes saíam das suas periferias, como Grajaú, Osasco, Capão Redondo entre outros, para se reuniram e trocarem ideias e passos de uma dança que era pura energia. Na Praça Roosevelt, também no centro de São Paulo, reuniam-se aqueles que preferiram cantar ao invés de dançar: os rappers. Cada qual construindo sua rima e sua batida, por meio do disco de vinil e das picapes compradas no viaduto Santa Ifigênia. Quanto ao graffiti, este elemento não possuía um espaço próprio, sua marca era deixada principalmente em prédios públicos e muros das grandes residências. Com a fundação da Universal Zulu Nation, e a expansão do Hip-Hop para além da música, outros praticantes passaram a buscar mais informações e desenvolvimento das suas habilidades, sendo assim formaram na metade da década de 1980, as primeiras “posses11”. Segundo Félix (2005) as posses, necessariamente, precisava de uma sede fixa, mas locais de fácil acesso, como por exemplo, pátios das escolas, praças públicas e etc. O mais importante aos membros das posses era o compromisso com os ideais do Hip-Hop e a construção dos debates e reflexões políticas e ideológicas. De acordo Andrade (1996), as posses surgiram pela insatisfação social dos jovens, tanto pela procura frustrada de emprego, sem expectativas de futuro ou melhorias para o bem-estar, além da constante perseguição policial sofrida pela maioria dos jovens integrantes do Hip-Hop, que sem um local apropriado realizavam suas performances nas ruas ou praças. Andrade (1996) afirma que mesmo com as limitações impostas e dificuldades presente no cotidiano, ainda não seria razão suficiente para estes jovens agruparem-se em torno do movimento Hip-Hop, afinal nem todos os moradores das periferias são adeptos ao movimento, ou sequer debatem sobre tais questões. De fato há um processo diariamente vivenciado por estes jovens na maioria negros, e desencadeado pela articulação do povo negro, propiciou um despertar crítico desse grupo juvenil, que passou a observar os fatos da sua vida cotidiana de forma mais acentuada e a considerar determinadas atitudes como o claro reflexo da discriminação ora racial, ora social. Sobreviver a estes determinados cotidianos fazia, e faz, parte do processo de crescimento dos jovens da periferia, o Hip-Hop é o resultado deste empirismo. Cada um dos membros ativos das posses, ou praticantes artísticos, tem sua razão pessoal para unir-se ao 11 Segundo relatos informais, não existem mais as posses. Estas associações foram oficialmente transformadas em ONG’s ou Casas de Cultura. Na minha pesquisa não encontrei a origem do nome posse no movimento. Porém, em conversas informais com ativistas e rappers, a palavra posse refere-se à ocupação de um espaço qualquer, tomar posse no sentido literal da palavra. 7 fenômeno cultural, contudo, o objetivo final é apenas um: liberdade para falar, dançar e cantar. Como escreve Ferréz (2005), Capoeira não vem mais, agora reagimos com a palavra, porque pouca coisa mudou, principalmente para nós. Não somos movimento, não somos os novos, não somos nada, nem pobres, porque pobre, segundo os poetas de rua, é quem não tem as coisas. Cala a boca, negro e pobre aqui não tem vez! Cala a boca! Cala a boca uma porra [sic], agora a gente fala, agora a gente canta, e na moral agora a gente escreve. (FERRÉZ, 2005, p. 9). Santos (2011) definiu este trecho como a conscientização e o “grito” do silenciado. Uma minoria que não se sente representada verdadeiramente e esta a procura, de seus legítimos representantes. “Ao se expressar, seja por meio do artifício literário ou não, o periférico manifesta o desejo de eliminar toda forma de poder opressor, seja qual for o lugar onde ele se manifeste inclusive na arte”. (p. 55). De acordo Melucci (1997), cada fenômeno coletivo, na sua manifestação empírica coexistem diferentes orientações, diferentes níveis de realidade social (a classe média também ouve rap, compra roupas de rap e contribui musicalmente, como por exemplo, o rapper carioca Gabriel, O pensador), muitas orientações da ação (organizações atuantes, como por exemplo, Movimento Enraizados, Nação Hip-Hop entre outros) e muitos campos de referência da ação. Pensando nos conceitos traçados por Melucci (1997) e na busca por uma leitura capaz de satisfazer minhas dúvidas, entendo que na verdade há definições que são generalizações empíricas, aspectos empíricos de fenômenos chamados movimentos. Ou seja, o Hip-Hop é um fenômeno sócio-cultural do qual reúne um grupo de pessoas dispostas a direcionar seus elementos em benefício próprio e do seu entorno. Essas generalizações, segundo o autor, são ações coletivas, que nada mais é o resultado de processos sociais diversificados e, não necessariamente, movimento social. 4 MOVIMENTO Todo o movimento social é fruto de uma ação coletiva, no entanto, nem toda a ação coletiva gera o movimento social. Esta argumentação foi apresentada na disciplina, causando em mim, um enorme desconforto epistemológico. Como afirma Melucci (1997), toda a ação coletiva da sociedade complexa se movimenta em duas direções: a) ação e conflito social; b) cidadania. A ação e o conflito geram uma reação da população carente e, nem sempre esta reação possui uma vertente política e organizada, podendo atuar no “calor do protesto”. A cidadania é a identificação, a comprovação do ser dentro de uma sociedade ativa. 8 Melucci (1997) ainda destaca que os chamados “novos” movimentos sociais têm a frente atores políticos de grande destaque entre seus pares e força argumentativa, contudo, apresentam padrões diferentes de comportamento daqueles atores políticos já determinados pelos movimentos sociais clássicos. Estes atores teriam maiores dificuldades em prever as formas de ação e reação, pois estas identidades coletivas são mais transitórias e mais móveis. Em contrapartida, Andrade (1996) aborda o movimento gerado pelo Hip-Hop de outra maneira. Segundo a autora, o Hip-Hop surgiu como um suposto movimento social geral, sem organização, sem uma liderança reconhecida e sem metas a alcançar. Porém, evoluiu em termos de conceitos e definição, tornando-se um movimento social específico, devido à organização das posses, a formação de equipes de som e grupos de dança. Uma cultura de resistência proveniente de uma prática social de contestação. E, Moassab (2011) defende o Hip-Hop e a sua representativa ao observar o alcance político contido nas letras de rap, o combate ao preconceito racial e social, a denúncia da violência policial e as desigualdades geradoras da miséria. 5 CONCLUSÃO Identidade, ação e movimento são elementos que deveriam estar presentes em qualquer manifestação social ou cultural. São elementos seminais para a formação dos integrantes ativos na multiplicação e na efervescência das ideias. O Hip-Hop ultrapassou fronteiras geográficas e linguísticas para agrupar diferentes pessoas sobre o mesmo ideal: a arte transformadora e agregadora. Este estudo não tem por pretensão encontrar respostas prontas, mas propor um novo diálogo para novos e antigos questionamentos, como por exemplo, será mesmo que o movimento Hip-Hop tem fundamentos necessários para ser considerado um movimento social? Será que a força cultural da periferia, não importa de qual periferia, teria forças suficientes para mudar a realidade dos seus periféricos? A comunidade Hip-Hop precisa ir à academia, libertar-se dos seus preconceitos e contribuir com os saberes periféricos na formulação de novos conceitos, ou melhor, no debate dos conceitos engessados. E a academia precisa aproximar-se mais da comunidade, sendo ela do Hip-Hop, do funk, do samba, não importa. O importante é ouvir, ler e aprender com a constante produção da periferia e, ampliar os conceitos dentro e fora da academia. 9 6. REFERÊNCIAS ANDRADE, Elaine Nunes. Movimento negro juvenil: um estudo de caso sobre jovens rappers de São Bernardo do Campo. São Paulo: Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, 1996. (Dissertação de Mestrado). COSTA, Sérgio Roberto. Dicionário de gêneros textuais. 2ª edição. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009. FELIX, João Batista de Jesus. Hip-Hop: cultura e política no contexto paulistano. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2005. (Tese de Doutorado). FERRÉZ (org.) Literatura Marginal: talentos da escrita periférica. Rio de Janeiro: Agir, 2005. KEHL, Maria Rita. A fratria órfã: conversas sobre a juventude. São Paulo: Olho d’Água, 2008. LEAL, Sérgio José Machado. Acorda Hip-Hop: despertando um movimento em transformação. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007. MELUCCI, Alberto. Sociedade complexa, identidade e ação coletiva – entrevista a Dalila Pedrini e Adrian Scribano. Cadernos do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Movimentos Sociais – movimentos sociais na contemporaneidade. São Paulo: PUC- Serviço Social, n.2, abr. 1997, pp.11-63. _______. O jogo do eu. Porto Alegre: Unisinos, 2004. MOURA, Gabriela. 9 motivos pelos quais você também deveria lutar contra o racismo. Geledés – Instituto da Mulher Negra. Disponível em: <http://www.geledes.org.br/racismopreconceito/racismo-no-brasil/22018-9-motivos-pelos-quais-voce-tambem-deveria-lutar-contrao-racismo#at_pco=smlwn-1.0&at_tot=1&at_ab=per-11&at_pos=0>. Acesso em: 23 nov. 2013. NASCIMENTO, Erica Peçanha. Vozes Marginais na literatura. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009. PETRELLA, Paulo. Sobre os novos conceitos de espaço e tempo. In: MOMMESHON, Maria; PETRELLA, Paulo. Reflexões sobre Laban, o mestre do movimento. São Paulo: Summus, 2006. PIMENTEL, Spensy. Hip-Hop como utopia. In: ANDRADE, Elaine Nunes (org.). Rap e Educação. Rap é Educação. São Paulo: Summus, 1999. ROSE, Tricia. Um estilo que ninguém segura: política, estilo e a cidade pós-industrial no HipHop. In: HERSCHMANN, Micael (org.) Abalando os anos 90 – Funk e Hip-Hop: globalização, violência e estilo cultural. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. RUNELL, Marcela; DIAZ, Martha. The Hip-Hop Education Guidebook – vol.1. Nova Iorque: Hip-Hop Association Inc., 2007. SANTOS, Maria Aparecida Costa. Ensino Paralelo na periferia: uma visão da educação à luz de Ferréz. São Paulo: Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Nove de Julho, 2011. (Dissertação de Mestrado). TONI C. (org.) Hip-Hop a lápis. São Paulo: CEMJ, 2005. 10