ANDAR DE ÔNIBUS OU COMPRAR UMA MOTO? ASPECTOS POSITIVOS E
NEGATIVOS DA ESCOLHA PELA MOTOCICLETA EM DETRIMENTO DO
TRANSPORTE COLETIVO NA GRANDE FLORIANÓPOLIS.
AUTORES:
Valter Seicho Tamagusko
Secretaria Municipal de Transportes e Terminais de Florianópolis
Fone: 48-224-7218 Fax::48-2241299
[email protected]
José Leles de Souza
Instituto de Certificação e Estudos do Trânsito
Rua Santos Saraiva 840, Sala 403
[email protected]
Marcelo Roberto da Silva
Secretaria Municipal de Transportes e Terminais de Florianópolis
48-224-7218
[email protected]
Everaldo Valenga Alves
Gerência do Sistema Viário-IPUF
48-2125700
[email protected]
1.
INTRODUÇÃO
O fenômeno da redução de usuários no transporte coletivo vem sendo descrita há
décadas, seja pela ineficiência do serviço prestado, seja pelo custo da tarifa, pela
falta de prioridade para o setor, enfim, um panorama nada favorável a sua escolha.
Contribuindo ainda mais para essa redução a utilização cada vez mais intensa da
motocicleta e das motonetas aponta para um agravamento da crise no setor de
transporte coletivo e principalmente na saúde pública.
O transporte coletivo vem lutando contra um modelo que o desfavorece, seja
fisicamente, nas vias públicas, seja nos subsídios a outros veículos em outros
modais, em seu detrimento, seja pela ineficiência dos operadores, entre outros. São
de fato uma série de fatores que dificultam seu estabelecimento efetivo como meio
seguro, eficiente, economicamente viável e confortável de locomoção.
Nas vias públicas, os desenhos urbanos ainda não mostraram total apoio aos
ônibus, haja vista serem poucas as experiências com corredores exclusivos ou
faixas preferenciais e exclusivas para ônibus. A maioria das cidades Brasileiras, com
mais de 100 mil habitantes, sequer possuem Planos Diretores de Transportes.
Priorizar fisicamente o transporte coletivo é uma das saídas para melhorar a
eficiência na circulação no espaço urbano, o que poderia reduzir custos cativando a
clientela, aproximando as origens dos destinos. Segundo a Detrânsito (nº 21,
Fev/2005), revista do DETRAN Paranaense, em algumas cidades o custo com
combustível já é a metade do custo tarifário do transporte público.
Também a de se verificar que enquanto o transporte coletivo vem perdendo clientes,
estes vão migrando para outras formas de locomoção, quais sejam o transporte
clandestino, o automóvel, a bicicleta, a motocicleta/motoneta, e por fim o
deslocamento a pé. Entende-se aqui que cada modal têm sua fatia de mercado, com
seu público consumidor, e que o fenômeno que vem ocorrendo, um deles o
crescimento do número de vendas de motocicletas e motonetas aponta para um
desequilíbrio perigoso em relação a manutenção da mobilidade segura.
Somente no ano de 2004, segundo a FENABRAVE, o veículo novo com maior
número de emplacamento foi a motocicleta, representando 15% de todos os veículos
novos emplacados naquele ano. Aliás, dos dez primeiros veículos 04 eram
motocicletas e/ou motonetas.
2.
O CRESCIMENTO DO NÚMERO DE MOTOCICLETAS E MOTONETAS NO
ESTADO
Segundo Seraphim(2003) o setor de ciclomotores encontrou terreno fértil para o
crescimento no Brasil. O crescimento das vendas é refletido no dia a dia de todas as
cidades, de pequenas a grandes metrópoles. Segundo a ABRACICLO, até
dezembro deste ano, espera-se um crescimento em torno de 7%, ou seja, 976 mil
unidades comercializadas no mercado brasileiro. Santa Catarina foi em 2003 o
estado com maior índice de motorização, com 33,6 veículos por grupo de 100
habitantes, sendo que a participação dos veículos motorizados de duas rodas na
frota total vem aumentando, ou seja, em janeiro de 2002 representava 16,60%, e em
dezembro de 2004 ultrapassou os 20,17%(SINET/DETRAN-SC).
Os acidentes envolvendo motocicletas em Santa Catarina já ultrapassam os 35% do
total de veículos envolvidos, com as vítimas fatais somando 24% (SINET/DETRANSC). Estão distribuídos principalmente nas grandes cidades como Florianópolis, São
José, Joinville, Lages, Itajaí, Blumenau, Criciúma e Chapecó, não necessariamente
nessa ordem.
As estatísticas de acidentes do Aglomerado urbano de Florianópolis, formado pelas
cidades de Florianópolis, São José, Biguaçu e Palhoça, formam um dos cenários
mais terríveis em relação a esse modal.
Tabela 1: Frota Nacional registrada na BIN em 2003.
TIPO >
Total Nacional
%
total SC
% Por tipo
% SC / BR
Fonte: DENATRAN, 2003.
Ciclomotor
80.325
0,22%
7
0,01%
0,01%
Motocicleta
5.332.056
14,55%
22.845
36,23%
0,43%
Motoneta
807.775
2,20%
1.815
2,88%
0,22%
BRASIL
36.658.501
63.054
0,17%
3.
ESTRUTURA DOS ÓRGÃOS
Em levantamento realizado junto as cidades que compõem a Região Metropolitana
de Florianópolis foi constatado que:
O município de Florianópolis possui órgãos específicos para transporte e trânsito e
uma legislação que regulamenta os serviços de transporte público de passageiros e
que proíbe a utilização de motocicletas e ação com fiscalização atuante para coibir a
operação clandestina. O município de São José estruturou a Secretaria de
Transportes e Trânsito no ano de 2004 e não possui legislação sobre o assunto,
ficando restrita a regulamentação do transporte escolar. O município de Palhoça
esta estruturando a Secretaria de Transportes e Trânsito e não possui legislação
específica sobre o assunto, estando atualmente desenvolvendo estudos no sentido
de regulamentar todo o transporte coletivo no município. E o município de Biguaçú
ainda permanece discutindo o processo de municipalização do seu trânsito e não
possui legislação específica sobre transportes, tendo somente linhas intermunicipais
com características urbanas circulando no seu município.
4.
ÁREA DE ESTUDO
O Aglomerado urbano possuía em 2004 uma população de 755.205 habitantes
(IBGE) e uma frota veicular de 301.439 veículos(DETRAN/SC), ou seja, 2,50
habitantes/veículo. Esta população representa aproximadamente 13 % de todo
estado e sua frota representa cerca de 14% da frota registrada.
A FIGURA 1mostra a área de estudo, bem como as principais vias de ligação entre
FIGURA 1: Aglomerado Urbano de Florianópolis
eles. A Rodovia Federal BR 101 e um pequeno trecho de 5,6 Km da BR 282 que a
liga com o Centro de Florianópolis. Esta região, por sinal, é a de maior atratividade
em toda a região. Essas rodovias, apesar de terem importância nacional, funcionam
como Vias de Trânsito Rápido, tendo um tráfego com características muito mais
urbanas do que rodoviárias. Essa condição, por si só, causa inúmeros acidentes de
trânsito, sendo os mais graves envolvendo motociclistas.
A malha viária da região não possui ligação planejada, e quando ocorrem se dão
sem o devido planejamento que leve em conta os problemas de uma área
conurbada. As vias coletoras tomam um papel fundamental na interligação entre as
cidades e suas regiões de serviços.
5.
FUNCIONAMENTO DO TRANSPORTE COLETIVO NA REGIÃO
O transporte coletivo da região é composto por serviços municipais nas cidades de
Florianópolis, com um sistema tronco-alimentado com integração física e tarifária
com transbordos sendo realizado em 6 terminais e operado por 467 ônibus. São
José possui um sistema bastante incipiente composto de linhas diagonais operado
por 6 veículos e um serviço intermunicipal ligando as cidades do aglomerado urbano
a Florianópolis, através de linhas radiais partindo dos diversos bairros destas
cidades para a região central de Florianópolis.
Em todos os sistemas, tanto municipais como o intermunicipal a operação se dá
com modelos multi-tarifários, existindo cobrança eletrônica apenas no sistema de
Florianópolis, o que possibilita a integração tarifária.
6.
CUSTOS ENVOLVIDOS: MOTO X ÔNIBUS
Tabela 2: Custo do Tarifa de Transporte Coletivo
Origem - Destino
Forquilhinhas – Centro de Fpolis
Biguaçu – Centro de Fpolis
Palhoça(Centro) – Centro de Fpolis
Norte da Ilha – Centro de Fpolis
Sul da Ilha – Centro de Fpolis
Km
Tempo(min).
13
16
19
30
25
Tarifa R$
30
40
40
60
50
2,00
2,75
2,75
2,75
2,50
Obs.: As regiões Norte e Sul da Ilha fazem parte do Sistema de Transportes Público de Passageiros
de Florianópolis funcionando num sistema tronco alimentado.
Foram calculados os tempos médios de trajeto, com tempo bom, em horário de pico.
A tarifa refere-se a março/2005.
Tabela 3: Custos do Trajeto andando de motocicleta
Origem – Destino
Forquilhinhas – Centro de Fpolis
Biguaçu – Centro de Fpolis
Palhoça(Centro) – Centro de Fpolis
Norte da Ilha – Centro de Fpolis
Sul da Ilha – Centro de Fpolis
OBS.:
Km
13
16
19
30
25
Tempo(min).
Custo R$
18,00
25,00
23,00
35,00
35,00
1,90
2,34
2,78
4,40
3,67
1. O trajeto foi o mesmo utilizado pelo ônibus.
2. Foram calculados os tempos médios do trajeto, com tempo bom, em horário de pico da manhã.
3. Custos aferidos somando-se o combustível, troca de óleo, pneus e revisão a cada 3 mil Km. Valor
de R$ 0,15/Km.
4. Os trechos Norte e Sul da Ilha são feitos passando por trechos em rodovias. Em Biguaçu o
itinerário passa pela BR101.
7.
PESQUISA
Para a realização deste estudo foi realizada uma pesquisa num universo de 289
pessoas moradoras de duas regiões de Florianópolis e três das principais cidades do
aglomerado urbano da Grande Florianópolis, que trabalham na região central de
Florianópolis, com idade entre 21 e 50 anos com a proporcionalidade de 80% dos
pesquisados do sexo masculino e 20% do sexo feminino, mantendo parâmetros de
orientação já encontrados pela ABRACICLO na pesquisa que define o perfil do
comprador de motociclos. Sendo que deste total 185 utilizam o ônibus para se
deslocar e 104 motocicletas. O objetivo é avaliar indicativos que possam
potencializar o uso da motocicleta em substituição ao transporte coletivo.
Para os que utilizam o modal transporte coletivo foram realizadas as seguintes
perguntas, sendo obtida as seguintes respostas: Qual o meio de transporte utilizado
com mais freqüência: 173 são usuários cativo dos ônibus, 6 da motocicleta e 6 do
carro; Perguntado se existe alguma motivação especial para o uso do modal, foi
registrado os seguintes resultados: 18 pelo custo, 9 pela rapidez, 5 pela segurança,
10 pela facilidade do deslocamento, 1 porque gosta do serviço e 39 porque não
possui condições financeiras para utilizar outro meio de transporte; Dos que utilizam
o transporte coletivo com regularidade, indagados se utilizava outro modal
anteriormente foi obtido os seguintes resultados: 144 sempre utilizou o transporte
coletivo, 11 a motocicleta e 23 o automóvel; Indagados se trocariam o ônibus pela
motocicleta caso tivessem oportunidade, foram obtidos os seguintes resultados: 57
não trocaria, 35 trocaria em função da economia, 95 trocariam em função da
agilidade, 3 trocariam pela Segurança e 22 trocariam pela facilidade do
deslocamento; Sobre o modal utilizado, foi perguntado qual ou quais as situações
que mais os incomodam, sendo obtido os seguintes resultados: 68 responderam que
o custo alto o incomoda, 108 a demora no deslocamento, 38 o desconforto, 78 a
disponibilidade de horários, 6 a falta de higiene e 10 a falta de segurança; E
finalmente, indagados se recebem algum tipo de subsídio foi registrado as seguintes
respostas:127 o vale transporte, 26 recebe ajuda financeira, 4 outros tipos de auxilio
e 29 não recebem nenhum tipo de subsídio.
Para as pessoas que utilizam a motocicleta para o seu deslocamento foram
realizadas as seguintes perguntas e obtidas as seguintes respostas: O que lhe
estimula a usar a motocicleta para a realização dos deslocamentos: 47 o menor
custo, 57 a agilidade, 4 a segurança, 38 a facilidade de deslocamento e 7 a
economia; Indagado se utilizava outro meio de transporte anteriormente, foi obtido
as seguintes respostas: 49 utilizava o ônibus, 12 o automóvel, 1 a bicicleta e 3
outros; Dos que utilizavam o transporte coletivo, indagados sobre as razões da
substituição do modal, foram obtidas as seguintes respostas: 20 pessoas disseram
que é mais econômico, 33 que é mais ágil, 1 que é mais seguro, 26 em função da
baixa quantidade de horários do transporte coletivo, 07 pelo desconforto do ônibus e
04 pela falta de higiene; Sobre a fórmula do cálculo do custo do transporte pela
motocicleta foram obtidos os seguintes resultados: 45 só leva em conta os gastos
com combustível, 13 somando combustível com estacionamento, 13 somando
combustível, estacionamento e manutenção, 07 levando em consideração o
combustível, o estacionamento, a manutenção, depreciação e impostos e 32
levando em consideração o prazer, agilidade, facilidade de deslocamentos, etc.;
Indagados se substituem a motocicleta por outro modo em dias de chuva foi obtido o
seguinte resultado: 36 não substitui, 51 substitui pelo ônibus e 19 pelo automóvel;
Se possui equipamentos para deslocamentos em dias de chuva foram obtidos os
seguintes resultados: 76 possuem equipamentos e 22 não possuem; Sobre a
existência de subsídios para a realização dos deslocamentos foram respondidos
que: 38 recebem vale transporte, 29 ajuda financeira, 14 vale combustível e 20 não
recebem ajuda.
Dos resultados obtidos veremos que 49 dos 109 usuários de motocicletas
entrevistados são originários do transporte coletivo, ou seja, mais de 45% destes.
Quadro 1: Meio de transporte utilizado anteriormente
Ônibus
49
44,95%
Carro
12
11,01%
Bicicleta
Não utilizava
1
44
0,92%
40,37%
Outros
8.
3
2,75%
TOTAL
109
100,00%
GRÁFICO 1: Distribuição por meio de transporte utilizado anteriormente
E que outros 128 de 185 entrevistados que utilizam o transporte coletivo trocariam o
modo de deslocamento pela motocicleta a persistir as condições atuais dos serviços,
conforme mostra o quadro 2.
Quadro 2: Fator de Substituição
Freqüência
Economia Agilidade segurança de horários Desconforto Higiene
20
33
1
26
7
4
21,98%
36,26%
1,10%
28,57%
7,69%
4,40%
TOTAL
91
100,00%
GRÁFICO 2: Distribuição por motivos de troca de meio de transporte
Que dos usuários da motocicleta para o seu deslocamento uma boa parcela recebe
subsídios que dizem respeito ao transporte coletivo como veremos no quadro
Quadro 3:
Quadro 3: Tipo de Subsídio para Transporte
Vale
Ajuda
Vale
transporte
Financeira Combustível
38
29
14
37,62%
28,71%
13,86%
Outros
0
0,00%
Não recebe
20
19,80%
TOTAL
101
100,00%
GRÁFICO 3: Tipo de Subsídio para o meio de transporte
Ainda que os motivos que estão levando a substituição são descritos a seguir.
Quadro 4: Fator de incomodação
Custo
Demora Desconforto
68
108
38
22,08% 35,06%
12,34%
Disponibilidade
de horários Higiene Segurança
78
6
10
25,32% 1,95%
3,25%
TOTAL
308
100,00%
GRÁFICO 4: Fator de incomodação quanto ao transporte coletivo.
Por outro lado, é necessário ficar claro que boa parte dos optaram pela motocicleta
tem como base de cálculo dos seus gastos dados que não correspondem as
realidades dos custos como veremos no Quadro 5.
Quadro 5: Cálculo dos custos de transporte na visão do motociclista.
Opção A
45
40,91%
Opção B
13
11,82%
Opção C
13
11,82%
Opção D
32
29,09%
Opção E
7
6,36%
TOTAL
110
100,00%
GRÁFICO 5: Cálculo do custo do transporte na visão do usuário de motocicleta.
Diante desta situação fica claro há a necessidade de uma campanha pública
esclarecedora sobre os custos de cada modal de transporte, transporte coletivo,
motocicleta, automóveis e outros para que todos possam, a partir de valores reais,
tomarem decisões conscientes. Que há a necessidade de uma intervenção dos
órgãos de gerenciamento do transporte coletivo visando criar condições mais
favoráveis para o deslocamento através do transporte coletivo é imprescindível, haja
vista o grande número de entrevistados que não optam por outro modal por falta de
condições financeiras. Ainda que, é necessário uma intervenção no sentido de
esclarecer a população sobre as condições de segurança e integridade física em
que cada modal esta envolvida.
Quadro 6: Motivação pela escolha do ônibus como meio de transporte
Facilidade de
Sem condições
Custo Rapidez Segurança deslocamento Gosto
financeiras
TOTAL
18
9
5
10
1
39
82
21,95%
10,98%
6,10%
12,20% 1,22%
47,56% 100,00%
GRÁFICO 6: Motivação financeira para a troca de meio de transporte
8.
CONCLUSÕES
A presente iniciativa, inédita na região, é uma ação preliminar que visa contribuir
com a instrumentalização aos órgãos com atuação nas áreas de transporte, trânsito
e saúde do aglomerado urbano da Grande Florianópolis num primeiro momento. Em
médio prazo este trabalho norteará estudos mais aprofundados no sentido de
contribuir com o planejamento de transportes e trânsito, bem como constituir um
banco de dados com séries históricas, que reflita o desenvolvimento da utilização da
motocicleta como meio de transportes na região.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
ABRACICLO. www.abraciclo.com.br. Acesso em 10/04/2005.
SERAPHIM, Luiz Antônio. Revista dos transportes públicos, São Paulo, 3º trim.,
2003.
FENABRAVE. www.fenabrave.com.br Acesso em 10/04/2005.
SINET. Sistema Nacional de Estatística de Trânsito de Santa Catarina. Acesso em
07/03/2005.
DETRÂNSITO. Publicação mensal do Detran-Pr. Ano 2, nº 21, Curitiba. Fevereiro de
2005.
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