Pesquisa e extensão voltadas a incitar a vontade de
ler: esse é um dos objetivos do Núcleo de Biblioterapia, Bibliotecas Escolares e Leitura (Nubbel), que vem
acumulando experiências exitosas no caminho do encantamento de crianças, jovens e adultos pela leitura
Foto: Cláudia Reis
Para gostar de ler
Impresso
Especial
991295/2006-DR/SC
UFSC
CORREIOS
p. 10
Jornal
Universitário
Universidade Federal de Santa Catarina - Março de 2012 - Nº 423
Campus de Joinville terá
o maior prédio da UFSC
Localizado na Curva do Arroz, o genharia da Mobilidade. Os quatro
Campus de Joinville começou, final- blocos somam mais de 15 mil m²
mente, as obras do Centro de Enp. 5
Poder
Tempos de
transição
p. 6 e 7
Contas
A comunidade vê o que
a Universidade faz
Universidade
do cidadão
p. 2
Foto: Joi Cletison
Ciência
Corais no
Arvoredo
p. 4
Pesquisa
UFSC é a
4ª no País
p. 9
Maquete eletrônica mostra projeto de área geral do Campus de Joinville
Trânsito
Folias e melodramas de Rodrigo de Haro
O multiartista catarinense lança o
livro-embalagem Poemas, que contém
as obras Folias do Ornitorrinco e Espelho
dos Melodramas, em uma única edição
pela Editora da UFSC
p. 12
Carona da
mobilidade
p. 8
Caiu na cesta
Do Editor
Há 51 anos mudando
a favor da sociedade
A comunicação cuida da saúde da instituição
“A história é mais rica que a razão humana”
(Celso Furtado)
Sem nada a temer e dever às grandes universidades do Brasil e do mundo, a UFSC oferece à
sociedade o conhecimento capaz de mudar e melhorar a vida das pessoas. É a qualidade do ensino,
da pesquisa, da extensão e da cultura que vem, ao
longo de 51 anos de atuação, agregando valor à
comunidade, ao Estado e ao país.
Modernizada, a Universidade não perdeu a ternura e a solidariedade. Internacionalizada, ficou
mais perto do mundo. Interiorizada, aproximou-se
do cidadão; e online, não abriu mão do seu papel
e da missão estratégica para o desenvolvimento
sustentável.
A Universidade é uma aventura sem volta.
Instituição crítica, democrática e plural, confunde-se com a própria sociedade. A UFSC não é mais
uma ilha. Definitivamente atravessou as pontes e
irradiou mundo afora o saber produzido a partir do
investimento público.
Ilha de excelência, ponte do saber, a UFSC presta
contas à sociedade e reafirma diuturnamente os
seus compromissos com a transformação social,
política e cultural. O Relatório de Responsabilidade
Social, ora lançado pela instituição, surpreende, porque, ao contrário do que se diz, aqui a Universidade
se entrelaça concretamente com a vida das pessoas.
Mosaico do conhecimento e prova irrefutável da
indissociabilidade do ensino, da pesquisa e da extensão, o documento apresenta um leque de ações
de 360 graus, abarcando atividades importantes na
cultura, na educação, na ciência, na cidadania, no
meio ambiente, na saúde, na pesquisa e na terceira
idade, sempre na ótica das ações afirmativas e da
inclusão social.
Os projetos, programas e trabalhos desenvolvidos por professores, servidores técnico-administrativos e alunos não deixam dúvidas sobre o papel
vital da Universidade Pública no século 21. O relato
das ações, pesquisas e projetos, ao mesmo tempo
em que legitima a instituição junto à população,
aumenta a responsabilidade social da Universidade.
Agora, após mais um processo bem sucedido
no Vestibular 2012, a UFSC experimenta a transição entre a atual administração, comandada pelos
professores Alvaro Toubes Prata e Carlos Alberto
Justo da Silva, e a futura gestão, a ser empossada
em maio, a cargo das professoras Roselane Neckel
e Lúcia Helena Martins Pacheco.
Será um período de diálogo, visando a uma
continuidade de ações e projetos, mesmo com
a marca forte que caracteriza – como seu viu na
própria campanha – a chapa vencedora do pleito
de 30 de novembro.
A esperar, agora, que a Educação e CT&I mereçam a devida atenção da presidente Dilma Rousseff, que empossou ministros de sua inteira confiança
e pode dar novos rumos a áreas essenciais para o
desenvolvimento do país.
A nomeação do reitor Alvaro Toubes Prata
para a Secretaria de Desenvolvimento Científico,
Tecnológico e de Inovação define a nova face do
atual governo.
Moacir Loth
Artigos
Gosto pelas palavras
Jair Francisco Hamms
Foto: Joi Cletison
Cultura mais pobre. Quando editávamos o
Caderno C, do Jornal de Santa Catarina, o escritor
Jair Hamms também atuou como crítico literário.
Ex-chefe de Gabinete do primeiro reitor da UFSC,
matou a saudade da Universidade resenhando o
livro Educação, Ideologia e Constituição, da Coleção
Pós-Grado. Hamms faleceu dia 11 de janeiro. Exilado
na Armação, sua última ação política foi a eleição de
Olsen Jr. para a Academia Catarinense de Letras.
David, o fundador, avalia os pedidos dos Reis
Magos em época de transição na UFSC
Pernas próprias. Com a posse de Aloísio Mercadante no MEC, Dilma Roussef deve imprimir a sua marca
numa área estratégica dominada, com sucesso, por Lula.
Férias com crônica. Jornalista Paulo Clóvis, embora passeando na Europa, não deixou leitores a pé
em janeiro. A sua crônica semanal continuou saindo
todas às terças no Notícias do Dia.
Parceiro I. O novo ministro da Ciência e Tecnologia
(MCT) é amigo da UFSC e da comunidade científica catarinense. Marco Antônio Raupp, quando presidente da
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC),
abriu, em 2009, a 3ª Conferência Estadual de Ciência
e Tecnologia, realizada em Joaçaba pela Fapesc. Raupp
fez um raio-x preciso do sistema de C&TI do País, o que
demonstra que o setor está em mãos de quem conhece.
Parceiro II. Na Reunião Anual da SBPC em Manaus
(AM), em 2009, a direção da Agecom redigiu documento
em defesa do Currículo Lattes, assinado pelos presidentes da SBPC e da Academia Brasileira de Ciências (ABC).
Parceiro III. Marco Antônio Raupp foi apoiado
pela direção da Agecom na divulgação das reuniões
anuais da SBPC de Manaus (2009) e Natal (2010).
Memória
Com mais de trinta anos de
serviços prestados à memória
da UFSC, a equipe da Agência de
Comunicação (Agecom) perdeu
um amigo e um colega de lida. Internado no Hospital Universitário
(HU), morreu, no dia 10 de fevereiro, o fotógrafo Paulo Roberto de
Freitas Noronha (Choco). O velório
e o sepultamento no Cemitério do
Itacorubi, em Florianópolis, foram
acompanhados por pais, irmãos
e amigos emocionados. Aos 50
anos, deixa uma filha e dois netos.
Filho de um motorista aposentado pela UFSC, antes de ser
promovido a fotógrafo, atuou no
Cavalos de Troia. No 5º Fórum Internacional de
Universidades, ironicamente realizado na Grécia, foi
diagnosticada uma profunda crise política de identidade do ensino superior. Enquanto as instituições
dos países emergentes brigam para aparecer nos
rankings, as universidades seculares enfrentam
dilemas éticos e se enroscam em fraudes.
Papo plural. A Rádio Udesc, após debater os
problemas das universidades com os professores
Nildo Ouriques e Waldir Rampinelli, entrevistou o
reitor Alvaro Tobes Prata. O resultado foi um quadro plural sobre o papel exercido pelas instituições.
Os autores de Crítica à Razão Acadêmica foram
extremamente duros com a UFSC. Prata rebateu
as críticas mais ferozes. O entrevistador Salvador
dos Santos ficou sem saber se estavam falando da
mesma universidade. Pelo menos, não sobrou para
a Udesc, deve ter pensado.
Parceiro sensível. A morte do secretário Nacional de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento, Duvanier Ferreira, denunciou o caos da
saúde no Brasil. Seu plano de saúde, por exemplo,
não garantiu o seu atendimento de emergência em
hospitais particulares de Brasília. Mesmo criticado
pela sua postura nas greves, as universidades lamentaram a perda de um aliado sensível às mazelas que
assombram o cotidiano do campus. Nas palestras
defendia políticas semelhantes às adotadas na UFSC.
Salim. A comunidade universitária torce pelo
pronto restabelecimento do seu Doutor Honoris
Causa, escritor Salim Miguel, ex-diretor da EdUFSC
e autor de mais de 30 livros.
Projeto Larus e no laboratório
fotográfico da Agecom. Adotado
pelos colegas, compartilhava
publicamente suas amarguras
e alegrias. Ingênuo e puro, não
sobreviveu a um mundo cada vez
mais canalha e individualista. A
Agecom foi, com certeza, a sua
segunda casa.
A direção da Agecom, além
de se solidarizar com familiares e
amigos, agradece a compreensão
e o apoio incondicional oferecidos
ao companheiro. Frequentador
assíduo dos Volantes e xerife trovador aplicado nos campeonatos
da universidade, Noronha era
torcedor fanático: Avaí, Botafogo
e Inter (pela ordem).
O caixão desceu ao som do hino avaiano,
com soluços fazendo a trilha sonora. Sim,
passamos, a instituição fica. Mas para nós, o
que importa é só a vida, nada mais...Noronha, como muitos de nós, esqueceu de viver.
Expediente
Elaborado pela Agecom - Agência de Comunicação da UFSC . Campus Universitário - Trindade - Caixa Postal 476 . CEP 88040-970, Florianópolis - SC.
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Thomé (Bolsista), Camila Peixer (Bolsista), Jorge Luiz Wagner Behr . Arquivo Fotográfico: Aldy Maingué, Ledair Petry . Editoração e Projeto Gráfico: Cláudia Schaun Reis
(Jornalista) . Divisão de Gestão e Expediente: João Pedro Tavares Filho (Coord.), Beatriz S. Prado (Expediente), Rogéria D´El Rei S. S. Martins, Romilda de Assis (Apoio) .
Impressão: Arte Brasilis
UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 2
Foto: Divulgação/Notícias do Dia
A literatura catarinense
perdeu no dia 11 de janeiro o
escritor Jair Francisco Hamms,
autor de vários livros de contos
e crônicas, jornalista, publicitário e administrador. Na UFSC,
atuou como professor, chefe de
gabinete do reitor, secretário-geral e diretor de Extensão
nos anos de consolidação da
instituição. Um de seus contos,
A sobrinha da senhora Dodsworth, serviu de base para
a cineasta Laine Milan fazer
o curta-metragem Alumbramentos (20 min, 2002). Uma
das últimas contribuições do
escritor foi a participação no
volume 13 Cascaes, de 2008,
onde 13 autores escreveram
contos inspirados na figura do
artista Franklin Cascaes, pesquisador dos hábitos, crenças
e costumes dos moradores
do interior da Ilha de Santa
Catarina.
Filho de um combatente
na revolução de 30 e bisneto
de imigrantes alemães que se
fixaram na colônia de Santa
Izabel, hoje pertencente ao
município de Água Mornas,
Jair Hamms nasceu em Florianópolis, em 1935, e durante muitos anos trabalhou
no governo estadual, como
presidente da Companhia de
Desenvolvimento do Estado
(Codesc) e subchefe da Secretaria da Casa Civil. Ocupava
a cadeira 25 da Academia
Catarinense de Letras.
Os livros publicados pelo
escritor foram Estórias de gente e outras estórias (1971),
O vendedor de maravilhas
(1973), O detetive de Florianópolis (1984), A cabra azul
(1985), Santa Catarina, um
caleidoscópio étnico (1995),
Samba no céu (2002) e Batuque bem temperado (2009,
com Flávio José Cardozo).
Atraído pelas palavras, conhecedor e interessado pelos
regionalismos catarinenses,
Jair Hamms colaborou com
Aurélio Buarque de Holanda
Ferreira na elaboração do
Grande Dicionário da Língua
Portuguesa.
Paulo Clóvis Schmitz
Jornalista na Agecom
Para ler com vagar...
De fato, desde o título da coletânea – Crítica à Razão Acadêmica
–, temos uma tese indicada e que
traz suas provas. O importante na
Crítica da Razão Pura, de I. Kant,
dizem os comentadores, reside no
genitivo. A crítica
é da razão pura
pela razão pura.
Ou seja, o procedimento é de plena
autonomia, sendo
o sujeito passível
de se encontrar
consigo mesmo,
num movimento
livre. A razão deixa de ser criticada pela religião
ou pela jurisprudência (o célebre
enunciado do Prefácio) e arranca de
si mesma a critica
de si mesma. A razão, na atual universidade (mas já
no tempo de Kant, basta ler O Conflito das Faculdades) não é livre:
ela é cativa ou alienada. Não seria
possível, pois, escrever uma crítica
da razão acadêmica. Apenas, como
vocês bem definiram, uma crítica à
razão acadêmica.
Parabéns pela iniciativa! Desde
que recebi a coletânea – Crítica à
Razão Acadêmica: reflexão sobre
a universidade contemporânea,
Editora Insular, Florianópolis, 2011
–, a leio com vagar. Gostei muito do
que segui com os olhos e a mente.
Fiquei muito impressionado com a
similaridade do processo de puro
descarte da educação pública nos
Estados Unidos e no Brasil (Frank
Donoghue). Entre nós, as universidades que visam
o lucro conseguem
seu alvo, com pleno apoio oficial. É
espantoso notar
como “universidades” compram
outras, ampliando
seus dividendos
e levando estudantes pobres ou
de classe média
ao endividamento,
no mesmo passo
em que recebem
polpudos recursos
governamentais.
Nada temos nas
agências de “fomento à pesquisa” contra o esbulho. Pelo contrário, temos o
pleno apoio ao saque das verbas
públicas. E o Conselho Nacional de
Educação? Silêncio tenebroso...e
cumplicidade também silente.
É preocupante notar o quanto
as oligarquias regionais (as responsáveis pelo esquema de dominação) subjugam as estruturas
“acadêmicas”. Tudo o que vocês
indicam ao longo do Crítica à Razão Acadêmica, eu vi diretamente
em minhas andanças pelo Brasil.
Um amesquinhamento das eleições universitárias, como se cada
reitoria fosse cópia degradada de
prefeituras dominadas com mão de
ferro por prepostos das oligarquias
regionais.
Mas o que julgo mais grave
mesmo, em todo o processo, não
é o instante das eleições, lamentáveis que sejam. O pior é o modo de
funcionamento dos Conselhos Universitários. Basta olhar a pauta dos
referidos Conselhos. Imensas, com
indefinido número de processos
que implicam em convênios com a
“iniciativa privada, firmas estatais”,
etc. Normalmente a pauta é distribuída aos conselheiros com pouco
tempo para análise. Na reunião,
o reitor pede que os presentes
apresentem destaques. Eles são
debatidos e, grande parte, talvez
a maioria dos itens, são aprovados
sem discussão ou exame prudente.
É por tal ralo que passam, quase
sempre, os convênios marotos,
os tratos espúrios, as fundações
esponja, etc.
Bem, gostei do que li no Crítica à Razão Acadêmica – reflexão
sobre a universidade contemporânea. Tenho certeza de que o
trabalho será útil para os (poucos)
pensantes que ainda restam na
universidade.
Roberto Romano
Professor de Ética e Filosofia
Política na Unicamp (SP)
UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 3
Jair Francisco Hamms foi uma das primeiras pessoas que conheci, ao chegar a
Florianópolis, em fevereiro de 1964, para
lecionar na antiga Escola de Engenharia Industrial que então se implantava na UFSC.
Passei a encontrá-lo com frequência nos três
anos seguintes, mercê da proximidade física,
na velha Chácara da Molenda, entre a EEI e
a Reitoria, onde ele era o chefe de gabinete
do Reitor Ferreira Lima. Mas confesso que
embora informais no trato mútuo, nosso
conhecimento nunca realmente evoluiu para
o que se poderia chamar de uma amizade.
Em 1967 saí para fazer o Mestrado e,
ao retornar, a EEI havia se transferido para
o campus da Trindade, permanecendo a
Reitoria na Bocaiúva. Mais tarde, saí para
o Doutorado e fiquei na Inglaterra por um
lustro. Jair, entrementes, foi tratar da vida na
iniciativa privada. Passei umas três décadas
sem tornar a vê-lo. Só tornei a me deparar
com seu nome quando minha esposa, que
iniciava o curso de Letras na UFSC, começou a
adquirir e a trazer para casa livros de autores
catarinenses, entre os quais O Vendedor de
Maravilhas dele, Jair. E outros, anos depois.
Mas foi muito mais tarde, creio que já
em meados da década de 90, que tornei a
reencontrá-lo. Foi em algum lançamento de
livros, quando, de repente, fui surpreendido
com um efusivo abraço e um emocionado
“Arno, amigo! Há quanto tempo...“, seguido de um papo breve, mas que denotava
curiosidade e satisfação sinceras. A partir de
então os reencontros passaram a ser relativamente frequentes, sempre caracterizados
por renovadas manifestações de alegria e
emoção da parte dele, Jair, que aos poucos
me foram contagiando também.
Só aos poucos fui começando a me dar
conta de que Jair me via como membro, assim
como ele, de um clube não oficial, respeitável,
mas em processo de encolhimento: o dos
fundadores da UFSC, daqueles que militaram
simultaneamente, cada um em sua própria
trincheira, nos primeiros tempos, no processo
de criação de nossa universidade federal, de
sua afirmação como instituição digna de admiração e respeito. Éramos, todos, “meninos
do Ferreira Lima”, Jair e tantos outros porque
haviam sido seus discípulos e o conheciam há
mais tempo, eu e outros porque construíamos
a Escola de Engenharia Industrial, menina dos
olhos do reitor, por ser a unidade que não existia anteriormente, que não estava pronta, que
ele teve de criar, de tirar do nada. E passei a
compreender suas efusões de simpatia.
Com o tempo, sem dúvida influenciado por
seu exemplo, passei a incorporar este mesmo
esprit de corps, especialmente ao observar como
vem se acelerando o encolhimento deste nosso
grupo pioneiro. Creio que Jair se antecipou a
mim e a tantos outros, por causa sensibilidade
que lhe era característica, e com que ele nos
encantava em seus escritos e nos papos. Ou
talvez sua observação tenha sido agudizada
pela experiência pessoal de sua quase passagem
para o outro lado, com cuja descrição nos deleitava tantas vezes, como o fez em seu discurso
de posse na Academia Catarinense de Letras.
E agora, aconteceu... Jair se foi. O literato, o causeur, o dicionarista, o perfeccionista
no uso das palavras, foram-se todos. Ficam
a lembrança, os escritos, os exemplos. Mas
é pouco para aqueles que o conheceram.
Vai fazer falta!
Arno Blass
Professor aposentado da
Engenharia Mecânica da UFSC
Arvoredo revela bancos de corais
Resultados parciais dessa pesquisa acabam de ser publicados em um artigo na revista Coral Reefs
Rafaela Blacutt
Bolsista de Jornalismo na Agecom e
Arley Reis
Jornalista na Agecom
Em conjunto com pesquisadores da
UFSC que já desenvolviam projetos junto à
Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, em
2009, o biólogo e mergulhador Paulo Bertuol convidou o professor do Departamento
de Ecologia e Zoologia Alberto Lindner para
observar corais recifais na região. O fato
despertou novos interesses acadêmicos
e se tornou tema de uma dissertação de
mestrado que está sendo desenvolvida
junto ao Programa de Pós-Graduação em
Ecologia da UFSC.
Resultados parciais dessa pesquisa foram
este ano publicados em um artigo na revista Coral Reefs. “Nesse artigo reportamos
a formação de corais recifais mais ao sul
em todo o Oceano Atlântico, localizada na
Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, ao
norte de Florianópolis e a mil e quinhentos
quilômetros ao sul dos recifes de Abrolhos”,
destaca Lindner, que desde 1996 estuda os
cnidários, conjunto de animais que inclui
corais, anêmonas e águas-vivas e orienta a
pesquisa de mestrado da bióloga Kátia Capel.
“Os resultados apresentados no artigo são importantes pois mostram que é
possível a formação de bancos de corais
recifais mesmo no sul do Brasil, em Santa
Catarina”, complementa Lindner, também
coordenador o projeto Biodiversidade Marinha de Santa Catarina.
Monitorando o fundo do mar
Desde dezembro de 2010,
Kátia vai a cada três meses
visitar a reserva para monitorar
a população dos corais, que são
da espécie Madracis decactis. A
região ocupada mede 3.400m²
e está entre seis e 15 metros de
profundidade. A maior densidade (maior número de colônias
de corais por metro quadrado)
concentra-se em regiões com
cerca de nove metros de profundidade, e um dos aspectos
já observados é que conforme a
profundidade aumenta, aumenta
também o tamanho das colônias.
“Para nós foi uma grande
surpresa encontrar esse tipo de
formação aqui no sul do Brasil.
A espécie Madracis decactis
havia sido registrada para Santa
Catarina, mas não esperávamos
observar o desenvolvimento de
um banco de corais recifais no
estado”, reforça Lindner.
Ao contrário do que acontece
Maquete eletrônica mostra projeto de área geral do campus de Joinville
em Abrolhos, a espécie de coral
encontrada em Santa Catarina
não forma recifes, mas um
banco de colônias livres sobre
o fundo do mar. São duas hipóteses que podem explicar o
desenvolvimento desses corais
em forma livre.
A primeira é a de que esses
animais marinhos estavam em
formação rochosa e por algum
motivo, como hidrodinâmica
(movimento da água), se sol-
taram e continuaram se desenvolvendo de forma livre. A
outra teoria é a de que a larva
do coral pode ter se fixado
em algum local móvel, como
conchas, e se movimentou
através das ondas, marés,
ou movimento de outros animais. “Esse sítio de corais tem
grande potencial para estudos
e poderemos desenvolver
outros projetos na região”,
comemora Kátia Capel.
Saiba Mais:
Vulnerabilidade
De acordo com Lindner, a formação deve ser melhor estudada e
protegida, pois representa o limite
sul de distribuição de corais recifais em todo o Oceano Atlântico.
No Portal Biodiversidade de Santa
Catarina, colorido com imagens
de esponjas, medusas, corais e
peixes, a equipe coordenada pelo
professor alerta para a importância
do conhecimento e monitoramento
da fauna e flora marinha de Santa
Catarina.
Logo na página de abertura o
grupo destaca que modelos climáticos projetam um acréscimo
na temperatura dos oceanos até
2100. Como no Brasil o litoral do
estado de Santa Catarina representa o limite sul de distribuição
da fauna e flora marinha tropical
do Oceano Atlântico, pode ser uma
das primeiras áreas no Atlântico
onde os potenciais impactos deste
aquecimento poderão ser detectados em organismos marinhos.
“Isso faz de Santa Catarina um laboratório natural para se monitorar
e descrever respostas ecológicas
aos impactos antrópicos”, ressalta
Lindner.
Independentemente das projeções para os próximos 100 anos,
complementa o grupo formado
por professores, estudantes de
graduação e pós-graduação, é fundamental descrever em detalhe a
biodiversidade de organismos marinhos recifais em Santa Catarina,
o que pode proporcionar condições
mínimas para previsões e modelos
estruturados de cenários futuros.
“O levantamento taxonômico e o
monitoramento da costa é muito
importante e se tornou um assunto de interesse da comunidade
científica internacional”, destaca
o professor.
A Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de
Santa Catarina (Fapesc) financia
as pesquisas por meio dos projetos
Jovens Pesquisadores e Biodiversidade Marinha de Santa Catarina,
enquanto o Instituto Chico Mendes
(ICMBIO) auxilia com a logística
e trabalhos de campo por meio
da Reserva Biológica Marinha do
Arvoredo. A defesa da dissertação
de mestrado de Kátia, que trará resultados obtidos nos estudos sobre
a espécie de coral recifal Madracis
decactis em Santa Catarina, está
programada para o próximo ano. A
pós-graduanda é coorientada pela
professora Bárbara Segal Ramos,
do Departamento de Ecologia e
Zoologia da UFSC.
UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 4
O Projeto Biodiversidade Marinha
do Estado de Santa Catarina é desenvolvido por uma equipe de professores
e estudantes da UFSC. Sintetizar o
conhecimento sobre a biodiversidade
marinha de Santa Catarina e obter
novos dados estão entre os objetivos.
Dados sobre espécies de esponjas já
estão disponibilizados no site www.
biodiversidade.ufsc.br. A iniciativa tem
apoio da Reserva Biológica Marinha
do Arvoredo e recursos da Fundação
de Amparo à Pesquisa e Inovação do
Estado de Santa Catarina (Fapesc).
O trabalho integra a Rede Sisbiota-Mar (Rede Nacional de Pesquisa em
Biodiversidade Marinha), direcionada
a ampliar o conhecimento sobre a
biodiversidade brasileira.
O Sisbiota-Brasil é uma iniciativa
conjunta entre os ministérios da Ciência e Tecnologia, da Educação e do
Meio Ambiente, do Fundo Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq) e de 18 fundações estaduais de
amparo à pesquisa, incluindo a Fapesc.
Na UFSC é coordenado pelo professor
Sérgio R. Floeter, também do Departamento de Ecologia e Zoologia, e integra pesquisadores de Santa Catarina,
Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de
Janeiro, Espírito Santo, Pernambuco
e Ceará.
Mais informações com o professor
Alberto Lindner (48) 3721-4744.
Campus da UFSC em Joinville vira canteiro de obras
Os quatro blocos projetados para a Curva do Arroz somam 15 mil m²
Laura Tuyama
Jornalista na Agecom
O começo de 2012 ficará marcado
com o início das primeiras obras do
Centro de Engenharia da Mobilidade
(CEM) no campus da UFSC em Joinville.
O Bloco Acadêmico 1 já está em fase de
preparação do canteiro de obras, enquanto a construção de dois prédios de
laboratórios depende apenas da emissão
da ordem de serviço. Além disso, um
novo edifício para salas dos professores
está em processo de licitação. Os quatro
blocos somam mais de 15 mil m² de área
projetada.
O Bloco Acadêmico 1 será um edifício de quatro pavimentos destinados a
salas de aula, laboratórios, gabinetes de
professores e auditório. Com 40 metros
de largura por 80 metros de extensão, o
prédio terá uma área de 9.850 m². Esta
etapa envolve a execução de fundações e
estrutura de concreto pré-fabricado, com
custo de R$ 4.198.042,39, e conclusão
está prevista para julho deste ano. A
construtora é a empresa Proaço Metalúr-
gica Ltda. A etapa de acabamento, estimada em mais seis meses, vai requerer
uma nova licitação.
Outros dois prédios de laboratórios
foram licitados e aguardam a emissão da
ordem de serviço para o início das obras:
os blocos 2 e 3, cada um com área de
1.211,22 m². No Bloco 2 estarão os laboratórios de fabricação, projetos e maquetaria, o de protótipos, solda, marcenaria,
materiais, sistemas motrizes elétricos e
metrologia. O Bloco 3 abrigará os laboratórios de hidráulica e solos, além do setor
de manutenção e garagem. A empresa
Proaço Metalúrgica Ltda também venceu
a licitação da parte estrutural das duas
obras, com o valor de R$ 1.160.506,34.
Esta etapa envolve as fundações com
estacas, pilares e coberturas.
O Bloco 4 está em fase de licitação
da parte estrutural. Trata-se de um
prédio de quatro pavimentos, com área
de 2.815,60 m². No edifício ficarão os
gabinetes dos professores, gabinetes
administrativos, áreas de apoio, um pequeno auditório de 50 lugares e também
a administração do campus.
Os blocos 2 e 3 abrigarão laboratórios, como os de protótipos, solda e solos
O bloco 1 terá salas de aula, de professores, auditório e também laboratórios
Projeto para 15 mil alunos
“Levamos cerca de um ano estudando as condições ambientais do
terreno e elaborando o projeto para
o novo campus”, explica o diretor
administrativo do CEM, o arquiteto Francisco Alexandre Sommer
Martins. O projeto do novo campus
concentra as edificações em 30% do
terreno, que tem uma área de mais
de um milhão de m². Essa fração
terá capacidade de abrigar 110 mil
m² de construções, para atender a
até 15 mil alunos. No centro deste
espaço haverá uma grande praça, com um amplo gramado e um
bosque de mata nativa. Os prédios
ficarão localizados ao redor da praça
e serão conectados por corredores
cobertos, por causa da grande incidência
de chuvas na região.
O projeto inclui também uma pista de
testes com aproximadamente 1.600 metros, que servirá como laboratório para
o Curso de Engenharia da Mobilidade.
O objetivo é utilizar a pista para desenvolver pesquisas sobre a movimentação
de veículos e a infraestrutura necessária
para o seu deslocamento.
O restante do terreno será destinado
a reservas ambientais, a uma área para
alagamento e a uma linha de trem, que
já estava projetada para atravessar o
terreno. Há mais de um ano o campus
em Joinville está passando por terraplenagem, processo que deve continuar até
julho de 2012.
De acordo com Martins, para que seja
possível utilizar o novo campus ainda
será necessário licitar e executar várias
obras em paralelo: o acesso ao campus,
a infraestrutura elétrica, a infraestrutura
de água, estação de tratamento de esgoto e paisagismo. Em relação ao acesso,
já foi autorizada pela Agência Nacional
de Transportes Terrestres (ANTT) e pelo
Departamento Nacional de Infraestrutura
de Transportes (DNIT) a construção de
duas estradas paralelas à BR-101, que
será projetada e executada pela concessionária Autopista Litoral Sul. O campus
localiza-se a 12 km do centro da cidade.
Hoje a UFSC de Joinville está localizada no bairro Santo Antônio, em um prédio
alugado. Fazem parte da comunidade
UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 5
do campus 1.156 pessoas, dentre
as quais 1.100 estudantes, 36 professores efetivos, 5 substitutos e 15
servidores técnico administrativos.
Por ano são oferecidas 400 vagas
para a graduação. Os alunos podem
optar pelo Bacharelado em Tecnologia, que é um curso de três anos.
Passado esse período, os alunos podem continuar os estudos por mais
dois anos, escolhendo aprofundar-se
em uma das sete Engenharias: Aeronáutica, Automobilística, Ferroviária
e Metroviária, Mecatrônica, Naval e
Oceânica, Infraestrutura ou Tráfego
e Logística. Está prevista para julho
deste ano a formatura da primeira
turma de Bacharelado.
Bons ares que vêm de Brasília
Alvaro Prata será homem forte da CT&I do País
Mudanças ministeriais não alteram o humor nos campi da UFSC
Posse em Brasília ainda não tem data certa. Vice-reitor assumirá até a posse do reitor eleito, em 10 de maio
Paulo Clóvis Schmitz
Jornalista na Agecom
O ano é de mudanças na UFSC, mas
também começou com novidades em
Brasília. Tomaram posse, no final de
janeiro, os ministros Aloizio Mercadante, no MEC, e Marco Antônio Raupp, na
pasta da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Em Santa Catarina, o reitor Alvaro Toubes Prata foi convidado para assumir a
Secretaria Nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação, vinculada ao
MTCI, e levará para a capital federal a
sua grande experiência na área da pesquisa e o prestígio adquirido no trabalho
que realizou na Andifes e junto a outras
instâncias como a Capes e o CNPq.
Enquanto isso, a futura reitora da
UFSC, Roselane Neckel, monta a equipe
e define estratégias com a expectativa
de imprimir sua marca na gestão da
instituição, sempre a partir do diálogo
e da discussão conjunta das melhores
soluções para a comunidade acadêmica.
Tanto ela quanto o reitor que deixará
o cargo em breve são otimistas em
relação aos nomes que assumiram os
ministérios da Educação e da Ciência,
Tecnologia e Inovação. “Aloizio Mercadante tem uma trajetória muito próxima
às diretrizes do PT, partido do qual foi
um dos fundadores e que também foi
construído pelos presidentes Lula e Dilma Rousseff”, afirma Roselane.
Professora do Centro de Filosofia e
Ciências Humanas (CFH), ela aposta que
o ministério continuará fortalecendo as
universidades públicas e recorda que
na posse Mercadante deixou clara sua
preocupação com a melhoria das licenciaturas e a formação de professores
para os ensinos fundamental e médio.
Para Alvaro Prata, o fato de ser professor
universitário é uma credencial importante do novo ministro, que reconheceu a
excelência da UFSC em visita que fez ao
Estado quando ainda estava no MCTI.
“Ele elogiou o modelo de parcerias da
Universidade com incubadoras, empresas e a sociedade, dizendo que Florianópolis é a cidade do futuro”, destacou.
Foto: José Cruz/Agência Brasil
Roselane e Prata confiam nas mudanças de Dilma
Visão holística e sustentabilidade
Dilma é uma entusiasta do setor, tanto que lançou o
programa Ciência sem Fronteiras”, ressalta o reitor.
Para Roselane Neckel, sem descuidar da pesquisa e da criação de novos cursos na área tecnológica,
é preciso investir nas licenciaturas e em opções
de graduação e especialização em campos como
os Direitos Humanos e as Relações de Gênero. “É
importante ter uma visão holística, abertura para a
sustentabilidade e as questões ecológicas, além de
reforçar a educação afirmativa”, diz. E pergunta:
“Devemos nos preocupar com a produção, mas
como ficam as relações humanas?”
Papel das universidades
A futura reitora está agendando uma viagem a
Brasília para clarear as relações e as medidas que
podem ser tomadas sobre questões cruciais para
a Universidade, como a estruturação dos novos
campi e a reposição de professores e servidores. Ela
também deverá se reunir com setores técnicos dos
ministérios da Educação e da Ciência, Tecnologia
e Inovação, além de se encontrar com membros
da bancada catarinense no Congresso Nacional.
“Vivemos uma situação social grave no país, e as
universidades precisam discutir assuntos como a
segurança pública, as leis e os movimentos populares”, enfatizou.
No que depender dos ministros empossados em
janeiro, haverá abertura para o diálogo e a busca
de soluções para os problemas da educação e da
pesquisa. “Pela primeira vez [o MCTI] está no Plano
Plurianual como um dos marcos e objetivos estratégicos do país”, disse Aloizio Mercante ao transmitir
o cargo a Marco Antônio Raupp. “E é um ministério
que está pensando a nova economia brasileira”.
Quanto à educação, ele ressaltou que ela “precisa
se transformar numa espécie de saudável obsessão
nacional, que mobilize a todos”.
De sua parte, Raupp destacou a importância
da tecnologia e da inovação para o futuro do país.
“O Brasil tem que olhar para uma economia verde
sustentável e aprofundar ainda mais o processo de
distribuição de renda e riqueza”, afirmou. “Para isso,
a participação do Ministério da Ciência, Tecnologia
e Inovação é decisiva”.
Foto: Wagner Behr
Administração recebe nominata da equipe de transição
Em audiência realizada em 10/02, a reitora
eleita da UFSC, Roselane Neckel, entregou ao reitor
Alvaro Prata a nominata da equipe encarregada de
iniciar a transição na reitoria e preparar um diagnóstico técnico da instituição. As informações serão
levantadas nas unidades e nos documentos oficiais,
para que as equipes setoriais possam apresentar
seus relatórios até o dia 15/03. A partir deste
diagnóstico, serão organizados os fóruns de planejamento da gestão, em sessões públicas a serem
agendadas no Centro de Eventos da Universidade.
No documento, a futura reitora informa que o
Paulo Clóvis Schmitz
Jornalista na Agecom
(da esq p/ dir) Haddad abre espaço para Raupp e Mercadante
Foto: Wagner Behr
Sobre a situação e as perspectivas da ciência,
tecnologia e inovação, Alvaro Prata afirma que o país
está no caminho certo, embora entenda que o orçamento da pasta ainda é insuficiente para dar conta
das demandas do setor. São R$ 8 bilhões ao ano,
contra R$ R$ 80 bilhões da educação – que atingiu,
em 2011, o recorde de investimentos na história do
país. Entre as metas do ministério em que vai atuar
estão a aproximação com os setores produtivos, a
expansão da pesquisa técnica e das incubadoras
industriais e a implantação de novas políticas para
favorecer a inovação nas empresas. “A presidente
Foto: Cláudia Reis
objetivo da equipe é conhecer o funcionamento de
cada pró-reitoria e/ou setor, por meio de visitas e
consultas a documentos institucionais, “com a finalidade de evitar descontinuidades nos processos
administrativos”. Ela também solicitou a cessão
de espaço físico para que a equipe de transição
possa desenvolver seu trabalho.
Além da coordenação geral da equipe, há várias
comissões compondo o grupo, coordenadas por Joana Maria Pedro, Elias Machado Gonçalves, Roselane
Campos, Antônio Carlos Montezuma, Edite Krawulski,
Luiz Fernando Scheibe e Irineu Manoel de Souza.
Transição com diálogo para uma UFSC forte
UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 6
Para o reitor, também pesam a favor da UFSC as relações
com as empresas e a população catarinense
Sétimo na Academia de Ciências
Arley Reis
Jornalista na Agecom
O professor Alvaro Prata está entre 25 novos
membros titulares da Academia Brasileira de
Ciências. A cerimônia de posse será realizada no
dia 8 de maio de 2012, durante Reunião Magna
da ABC. Fundada em 1916, a entidade congrega
eminentes cientistas das áreas de Ciências Matemáticas, Físicas, Químicas, da Terra, Biológicas,
Biomédicas, da Saúde, Agrárias, da Engenharia e
Sociais. São 449 membros titulares, em um total
de 784, somados os titulares às categorias de associados, afiliados (jovens vinculados por apenas
cinco anos) e correspondentes (estrangeiros).
Com a indicação de Alvaro Prata para a área
de Ciências da Engenharia, a UFSC passa a contar
com sete representantes na Academia. São membros os professores do Departamento de Química
Adilson José Curtius, Faruk José Nome Aguilera e
Ademir Neves (todos membros titulares na área
de Ciências Químicas), João Batista Calixto, do
Departamento de Farmacologia, membro titular
na área de Ciências Biomédicas, e os professores
do Departamento de Matemática Ruy Exel Filho
e Clovis Caesar Gonzaga, do Departamento de
Matemática (área de Ciências Matemáticas).
A Academia Brasileira de Ciências é uma entidade independente, não governamental e sem fins
lucrativos, que atua como sociedade científica e
contribui para o estudo de temas de primeira importância para a sociedade e a proposição de políticas
públicas. Seu foco é o desenvolvimento científico
do País, a interação entre os cientistas brasileiros e
destes com pesquisadores de outras nações.
tério da Ciência, Tecnologia e Inovação e hoje
está no MEC, elogia o modelo de parcerias da
Universidade com incubadoras, empresas e a
sociedade, dizendo que Florianópolis é a cidade
do futuro”, destacou.
Sobre a situação e as perspectivas da ciência
e tecnologia no Brasil, Alvaro Prata entende que o
país está no caminho certo, embora o orçamento
do MCTI seja de apenas R$ 8 bilhões, contra
mais de R$ 80 bilhões do MEC. Entre as metas
do ministério em que vai atuar estão a aproximação com os setores produtivos, a expansão da
pesquisa técnica e das incubadoras industriais e
a implantação de novas políticas para favorecer
Convidado pelo ministro Marco Antonio Raupp,
o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Alvaro Toubes Prata, assumirá a Secretaria Nacional de Desenvolvimento Tecnológico
e Inovação, vinculada ao Ministério da Ciência,
Tecnologia e Inovação (MCTI), em substituição
a Ronaldo Mota. Quando isso ocorrer, Prata estará interrompendo uma trajetória de 33 anos
como professor do Departamento de Engenharia
Mecânica da UFSC, instituição onde também foi
pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação. As datas da nomeação e da posse,
em Brasília, ainda não estão
confirmadas.
“Aloízio Mercadante, que hoje está no
No ano passado, Alvaro
MEC, elogia o modelo de parcerias da
Prata chegou a ser convidado
para assumir o Secretaria de
Universidade com incubadoras, empresas
Educação Superior do MEC
e a sociedade, dizendo que Florianópolis
(Sesu), do Ministério da Edué a cidade do futuro” - Alvaro Prata
cação. Com trânsito fácil em
Brasília, o reitor tem atuado
em comissões e junto a órgãos
como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)
a inovação nas empresas.
e o Conselho Nacional de Desenvolvimento CienOutra prioridade é reforçar a interlocução com
tífico e Tecnológico (CNPq). Também é membro
os secretários estaduais e as fundações de amparo
da Associação Nacional dos Dirigentes das Insà pesquisa. “A presidente Dilma Rousseff é uma
tituições Federais de Ensino Superior (Andifes).
entusiasta do setor, tanto que lançou o programa
“Atribuo o convite do ministro à experiência que
Ciência sem Fronteiras”, afirma o reitor. Prata
acumulei como professor, pesquisador, pró-reitor
integrou o conselho que elaborou o documento
e reitor da UFSC”, diz ele.
Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e InoPara o reitor, também pesam a favor da UFSC
vação – 2012-2015, lançado no final de 2011 e
as relações que a instituição mantém com as
que projeta ações estruturantes para o segmento
empresas e a população catarinense. “O próprio
visando ao desenvolvimento do país. Prata já inministro Aloízio Mercadante, que saiu do Ministeirou a reitora eleita do convite recebido.
Prêmio internacional para professor da UFSC
Pesquisa de André Báfica investiga como bacilo da tuberculose se esconde do corpo
Alita Diana e Laura Tuyama
Jornalistas na Agecom
O professor André Luiz
Barbosa Báfica, 36 anos, do
Departamento de Microbiologia, Imunologia & Parasitologia (MIP) do Centro de
Ciências Biológicas (CCB)
da Universidade Federal de
Santa Catarina, foi um dos 28
cientistas selecionados para
receber o prêmio International Early Career Scientist
(IECS), do Howard Hughes
Medical Institute. O HHMI é
uma das mais importantes
instituições que apóiam pesquisas na área de saúde e
biologia dos Estados Unidos.
O prêmio foi divulgado em
24 de janeiro. A seleção foi
feita dentre 760 jovens pesquisadores do mundo inteiro.
André foi o único brasileiro
a receber o prêmio de 650
mil dólares ao longo de cinco
anos para desenvolver uma
vacina mais eficaz para tu-
berculose.
Para ser escolhido pelo
HHMI, André passou por um
amplo e rigoroso processo
de seleção, sendo seu projeto avaliado por 50 cientistas. O principal critério para
a escolha foi a excelência
científica: as conquistas de
cada jovem pesquisador em
sua carreira, seu potencial e
a clareza para explicar suas
pesquisas. Os pesquisadores
– que coordenam seu próprio laboratório há menos de
sete anos – serão integrados
à comunidade científica do
Instituto, participando de
encontros e fazendo palestras a outros pesquisadores
e cientistas em começo de
carreira do HHMI. Dentre os
375 pesquisadores patrocinados pelo HHMI, 13 são
ganhadores do Prêmio Nobel
e 147 membros da Academia de Ciências dos EUA.
O financiamento de André
começou já em fevereiro.
UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 7
Foto: Wagner Behr
André foi o único brasileiro a receber o
prêmio; objetivo é desenvolver vacina
mais eficaz para a tuberculose
Carona facilita mobilidade dos estudantes
UFSC conquista 129ª posição no Webometrics
Alunos do Centro de Ciências Agrárias criaram sistema que facilita deslocamento para diferentes bairros de Florianópolis
José Wilson Fontenele
Bolsista de Jornalismo na Agecom
Desde meados de 2009 funciona no
Centro de Ciências Agrárias (CCA) um setor
especialmente utilizado para as pessoas solicitarem carona. O ponto de carona surgiu
da idéia de um aluno do Centro Acadêmico
de Agronomia, e logo foi incorporada pelos
outros CA’s. O objetivo é facilitar a mobilidade dos alunos que moram perto do centro
e ajudar também a diminuir a quantidade
de carros que circulam por lá. A partir do
momento em que foi institucionalizado, o
ponto de carona funciona na saída do centro, indicado por uma placa semelhante à
sinalização de uma parada de ônibus.
Como informa Gabriel Gonçalves de
Souza (atual presidente do CA de Agronomia), o ponto é bastante utilizado em função
da grande quantidade de alunos que moram
nas regiões da Lagoa, Rio Tavares, Barra
da Lagoa e Joaquina, bem como aqueles
que se deslocam do CCA para o campus
central. “No início nós combinávamos de
vir juntos de casa, sem ser um ponto de
carona oficial. A gente começou a reunir
grupos para a vinda até a UFSC, e o pessoal acabava marcando a volta também.
Depois pedimos a placa para a Pró-Reitoria
de Assuntos Estudantis (PRAE)”. O aluno
da nona fase diz que o ponto nasceu como
uma alternativa ao uso de carro no CCA. “A
gente tinha um problema aqui no centro que
era a grande quantidade de carros e poucas
vagas para estacionamento. Mas em vez
de arrumar vaga só para carros pensamos
numa alternativa para evitar o automóvel.
Com uma iniciativa dos estudantes e apoio
dos professores, a gente pediu a placa”.
Novo ranking garante a UFSC como a 4ª melhor universidade brasileira
Fotos: José Wilson
Gabriel afirma que o ponto é bastante utilizado, e nasceu como alternativa ao
uso de carros
Tempo de espera depende do dia
Bruna, Patrícia e Angélica: espera dura, em média, de 20 a 30 minutos
Bruna Bonaldo Genoário, aluna de Ciência e Tecnologia de Alimentos, Patrícia
Rodrigues e Angélica Ferreira da Rosa,
de Engenharia de Alimentos, contam
que utilizam frequentemente o ponto de
carona e falam que o tempo de espera
depende muito do dia. Elas comentam
que a demora fica entre vinte e trinta
minutos, e que os professores sempre
ajudam. “A gente pega carona para a
Lagoa, pois moramos lá. Às vezes temos
aula bem cedo, daí não dá tempo de
esperar pela carona, mas quando temos
aula depois das oito horas, acordamos
às sete e conseguimos vir com amigos.
Mas a volta para a casa normalmente é
de carona”, explica Bruna.
Edemar Roberto Andreatta, diretor
do CCA, afirma que do ponto de vista
da administração do Centro o ponto de
carona cumpre sua função. “Foi uma iniciativa dos estudantes que agora funciona
perfeitamente, inclusive com as caronas
dadas pelos professores”. Da parte dos
estudantes, Souza conta que todos ajudam, e explica como ele também passou
a dar carona: “Estou há quatro anos e
meio aqui; nos dois primeiros anos eu não
tinha carro, e fiquei todo esse tempo indo
e vindo todos os dias de carona. Depois eu
comprei carro, mas eu não gosto de fazer
esse percurso sozinho porque é perda de
tempo. Hoje em dia eu dou carona. Tenho
uma lista na última folha do caderno com
uma divisão de caronas para a Lagoa e
para o Rio Tavares”, finaliza.
Vestibular 2012: divulgação dos aprovados traz risos e choro ao campus
Alita Diana
Jornalista na Agecom
Em tempos de internet, um
número grande de pessoas
preferiu conferir as listas dos
classificados do Vestibular 2012
diretamente do Ginásio de Desportos da UFSC
Pais e filhos, professores, irmãos, namorados, amigos e até
avós estavam lá para celebrar,
abraçar, chorar junto, pular de
alegria, receber um banho de
farinha e os tradicionais ovos.
O professor Julio Szeremeta,
presidente da Coperve, disse
que o concurso 2012 foi excelente, transcorreu tranquilamente
sem nenhum tipo de problema.
Os irmãos Whuiny Kallan
de Almeida e João Carlos de
Almeida Filho comemoraram
a classificação para o curso de
Engenharia Mecânica. Whuiny
cursava Engenharia Sanitária
e Ambiental na UFSC e João
Carlos cursava o ESAI. Os dois
são da Costeira do Pirajubaé,
em Florianópolis, autênticos
manezinhos da ilha.
Luiza Harger da Silva comemorou com a mãe sua classificação para o curso de Arquitetura,
e Lucas de Faria, classificado
para o curso de Engenharia
Civil, e o pai se abraçavam
muito emocionados, assim como
Shayane Resende Custódio, que
dividiu a emoção e a alegria de
passar para Enfermagem com
sua mãe.
Rita de Cássia da Silva, avó
de Rafale Nicolazzi Silveira, veio
ver o resultado para o neto que
foi aprovado para o curso de
Engenharia Sanitária e Ambiental. Ela transbordava de alegria,
toda coberta de farinha de trigo.
O professor Aureo Moraes, do
curso de jornalismo da UFSC, foi
às lágrimas com a classificação
de seu filho Arthur Bobsin de
Moraes para o curso de Direito.
Foto: Cláudia Reis
Arley Reis
Jornalista da Agecom
Fotos: Cláudia Reis
A Universidade Federal de Santa Catarina
passou à quarta instituição brasileira melhor qualificada na nova edição do Ranking
Web of World Universities, o Webometrics.
No levantamento publicado em janeiro é a
segunda federal (veja tabela). Na classificação para a América Latina, em que figurava
como sexta universidade, passou a quinta, e
no posicionamento mundial também subiu,
conquistando o 129ª lugar (na edição de
julho de 2011 era a 240ª).
Harvard University, Massachusetts Institute of Technology e Stanford University
estão no topo do ranking. Entre as brasileiras, permanecem liderando a Universidade
de São Paulo (USP) e a Universidade Federal
do Rio Grande do Sul (UFRGS). O terceiro
lugar passou da Universidade Estadual de
Campinas para a Universidade Estadual
Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp).
Disseminando o saber
com excelência
Webometrics é uma pesquisa realizada
desde 2004 pelo Cybermetrics Lab, grupo
de pesquisa do Conselho Superior de Investigações Científicas, ligado ao Ministério
da Educação da Espanha. É publicado duas
vezes por ano, nos meses de janeiro e julho. O instituto monta o ranking a partir da
análise do material disponibilizado nos sites
das universidades. Para os organizadores,
a presença de uma instituição de ensino e
pesquisa na internet é um indicativo de sua
excelência e de seu comprometimento com
a disseminação do saber.
Na visão da pró-reitora de Pesquisa e
Extensão da UFSC, professora Débora Peres Menezes, ainda que flutuações sejam
constantes, rankings gerem polêmicas e
devam ser vistos com cuidado, são importantes mecanismos de visibilidade das
universidades.
“O êxito neste novo ranking é significativo porque a UFSC está à frente de
instituições importantes nacional e internacionalmente, como Unicamp, UFRJ, Unifesp,
UFMG, UFV e UFLA”, considera o professor
Adilson Luiz Pinto, do Departamento de Ciência da Informação, diretor do Núcleo de
Apoio e Acompanhamento da Pró-Reitoria
de Pesquisa e Extensão.
Visibilidade dos portais da UFSC, especialmente dos repositórios institucionais e de periódicos
científicos, administrados pela Biblioteca Universitária, influencia na colocação
10 primeiras universidades
no ranking mundial
10 universidades brasileiras
mais bem colocadas no ranking
1 - Harvard University
20 - Universidade de São Paulo (USP)
2 - Massachusetts Institute of Technology
71 - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
3 - Stanford University
122 - Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp)
4 - University of Michigan
129 - Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
5 - University of California Berkeley
171 - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
6 - Cornell University
184 - Universidade de Brasília (UnB)
7 - Michigan State University
193 - Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
8 - University of Wisconsin Madison
206 - Universidade Federal do Paraná (UFPR)
9 - University of Pittsburgh
253 - Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
10 - Carnegie Mellon University
358 - Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Influência dos portais
Muitos candidatos conferiram as listas ao vivo
Shayanne e a mãe comemoraram a vaga em
Enfermagem
UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 8
Rita de Cássia levou farinha pelo neto
Whuiny e João Carlos comemoraram a
classificação para Engenharia Mecânica
Em sua avaliação, um dos principais motivos do posicionamento atual é a visibilidade dos portais da UFSC, especialmente dos
repositórios institucionais (com informações
gerais) e de periódicos científicos (administrados pela Biblioteca Universitária).
Outro ponto importante é o papel que
a web tem para a UFSC, universidade que
adotou modelos de aulas a distância e semipresenciais, com conteúdos e programas
atualizados. “Desde 2009, as instituições
brasileiras ocupam destaque no cenário ibero-americano, representando aproximadamente
25% das mais importantes neste meio de
divulgação de conteúdos informacionais”,
complementa o professor, especialista em
estudos métricos da informação (bibliometria,
cienciometria, informetria e webometria).
Posição na
América
Latina
Posição no
ranking
mundial
N° de
instituições
avaliadas
Data
Posição UFSC no Brasil
1/2012
(USP, UFRGS, Unesp, UFSC)
5
129
20.300
7/2011
(USP, UFRGS, Unicamp, UFRJ, UFSC)
6
206
20.000
1/2011
(USP, Unicamp, UFRGS, UFRJ,
Unesp, UFSC)
7
240
12.000
8/2010
(USP, Unicamp, UFSC)
6
377
12.000
12/2009
(USP, Unicamp, UFSC)
4
134
6.000
11/2008
(USP, Unicamp, UFRJ, UFSC)
4
381
6.000
UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 9
Pelos direitos de ler
Foto: Cláudia Reis
Nubbel tem foco nas bibliotecas, mas prioriza principalmente os futuros leitores
Cláudia Schaun Reis
Jornalista na Agecom
Para estimular a leitura desde a infância, o adulto deve propiciar
às crianças bons momentos relacionados aos livros
“Ois” e beijos estalados
A Biblioteca Livre do Campeche (bairro de Florianópolis), chamada carinhosamente de Bilica, já
foi tema de estudos do Nubbel em 2008. Naquele
ano, contabilizava cerca de 850 usuários e aproximadamente 10 mil obras, a maioria adquirida
por doação, e funcionava por meio do trabalho de
voluntários. A acadêmica Aline Deschamps atuou
junto à Bilica, no projeto de extensão “Organização do Acervo da Biblioteca Livre do Campeche”,
com os objetivos de sistematizar a disposição e
a procura do acervo e capacitar voluntários que
já se dedicavam ao ambiente. “É fundamental a
organização de bibliotecas comunitárias para a
continuidade da educação escolar. Além disso,
essa disposição também serve como estímulo
para que a criança explore, sem receio, o acervo
de outras bibliotecas”, defende Aline. Depois das
obras catalogadas, os voluntários puseram em
prática outras atividades, como a recitação de
poesias, o Dia do Conto, as oficinas de mandala
e origami e as aulas de espanhol.
Outra biblioteca que mereceu a atenção do
Nubbel foi a Monteiro Lobato. Localizada na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de
Florianópolis, o ambiente – que também se constitui
numa brinquedoteca - passou por um processo de
sistematização de seu acervo, contando inclusive
com a colaboração do Núcleo de Processamento
de Dados (NPD) da UFSC, que desenvolveu base
de dados estruturada pelas professoras do CIN.
Com a organização do acervo, surgiu a possibilidade de realizar as atividades de leitura para os
alunos de algumas turmas da Associação. O início
foi difícil: os estudantes se mostravam arredios,
mas depois de duas semanas as bolsistas do projeto já recebiam beijos e abraços em retribuição.
Ao fim do estágio as acadêmicas eram requisitadas
também por outros docentes da Apae para que
contassem as histórias às suas turmas. Débora
Russiano Pereira e Marchelly Pereira Porto relembram a experiência. “Além dos conhecimentos
adquiridos no Curso de Biblioteconomia - organizar, disponibilizar e atender o usuário -, o tempo
passado na Apae nos proporcionou a riqueza
de receber um muito obrigado, um sorriso, um
abraço, o beijo estalado, a risada e os ´ois` na
chegada ao Instituto”.
Há uns 70 anos, a fotografia não era
tão fácil de ser tirada como hoje. Os filmes
eram caros e só as famílias abastadas possuíam uma máquina. Quem teve registros
da década de 1930 ou 1940 possivelmente
foi visitado por um fotógrafo que batia de
porta em porta oferecendo seus serviços.
Quando o “homem da máquina” chegava,
as pessoas colocavam suas roupas mais bonitas – geralmente aquelas reservadas para
a missa de domingo – e incorporavam uma
postura solene, como se posassem para um
pintor. Nessa mesma época, em Caratinga,
Minas Gerais, o menino se aprontava para
o raro ritual. Ao vê-lo pronto para o click,
a mãe pediu que o companheiro do filho
também aparecesse no retrato: mandou
buscar seu livro de ilustrações, impresso
em duas cores. O menino, conhecido como
Ziraldo, completa 80 anos em 2012, já escreveu mais de 130 obras – a maioria para
crianças, dentre elas o famoso O Menino
Maluquinho – e conta que essa é a lembrança mais antiga que tem dos livros.
A relação com a leitura, para a maioria das
pessoas que gosta de ler, é um caso de paixão
desde a infância. E para que esse sentimento aflore, os livros devem ser relacionados
a bons momentos. “Muitas crianças ainda
veem a biblioteca escolar como um ambiente enfadonho; se deixam de fazer a lição, a
professora manda que fiquem de castigo na
biblioteca, à procura de materiais para pesquisa; se decidem pegar um livro e atrasam a
entrega, devem pagar multas. São poucas as
associações positivas que valorizam a leitura”,
explica a professora Magda Chagas, coordenadora do Núcleo de Biblioterapia, Bibliotecas
Escolares e Leitura, o Nubbel.
O Núcleo, criado pelas professoras Magda,
Clarice Fortkamp Caldin e Araci de Andrade
Hillesheim, todas do Departamento de Ciência
da Informação (CIN), desenvolve suas atividades de pesquisa e extensão desde o ano
2000, e tem como foco não só as bibliotecas,
mas principalmente os leitores, ou ainda, os
futuros leitores. “Há um movimento nacional
para que as bibliotecas sejam vistas como
um corpo vivo dentro da escola, que tomem
parte ativa no processo de aprendizado dos
alunos”, completa Magda.
Leitura fortalece espírito de equipe
A Biblioterapia – que significa o
cuidado com o ser, mediante a leitura de histórias - oferece disciplina
específica optativa no Curso de Biblioteconomia desde 2003. Durante
o semestre, são vistos conceitos,
histórico, fundamento filosófico,
objetivos, método biblioterapêutico e aplicações. “Os alunos, após
o domínio do referencial teórico,
elaboram um projeto e executam
atividades de Biblioterapia em instituições - que atendem crianças,
jovens, adultos e idosos - previamente selecionadas da comunidade”, explica a professora Clarice,
que ministra a disciplina.
Um dos projetos foi aplicado na
ala pediátrica do Hospital Universitário. Várias eram as técnicas utilizadas: leitura de livros, contação de
histórias com encenação, dedoches
– fantoches animados por um só
dedo - música, gravuras em cartolina ou em isopor, figuras fixadas em
palitos, desenhos, máscaras, balões
coloridos, bonecos e bichinhos de
pelúcia. A professora ressalta que
“existe de fato uma terapia por
meio da leitura” e que as atividades
realizadas “destacam o papel do bibliotecário como parceiro da equipe
médica no processo saúde-doença
em pacientes hospitalizados”.
O relato do projeto, denominado “Biblioterapia para crianças
internadas no Hospital Universitário da UFSC”, comprova a função
da prática. “A hora da história era
mágica: proporcionava uma viagem
ao mundo do imaginário, onde bichos e fadas saltavam das páginas
impressas e se misturavam aos
meninos e meninas em um corredor de hospital. O desconforto e a
dor cediam lugar às risadas ante as
passagens divertidas da história, em
que personagens inquietas transformavam o impossível em verossímel.
O universo ficcional com princesas,
palácios, dragões e animais falantes
estabelecia um contraponto à realidade da criança. Naquele instante,
abandonava-se a asséptica Sala
de Recreação e embrenhava-se na
floresta encantada cheia de perigos
- e garantia-se, dessa maneira, a
identificação com as personagens
e o alívio das pressões emocionais”.
O projeto alcançou resultados
inesperados. “Com as sessões de
Biblioterapia, as crianças foram
estimuladas para a leitura. As alfabetizadas emprestavam livros e as
menores pediam para que os acompanhantes lhes contassem histórias.
Algumas chegavam a exigir um livro
como presente, tanto dos pais quanto da equipe do projeto”.
A professora Clarice também
registrou outra experiência no artigo
“Biblioterapia para a classe matutina
de aceleração da E.E.B. Dom Jaime
de Barros Câmara”, localizada na
capital. A turma de aceleração dessa
escola era composta por jovens de
14 a 24 anos, com dificuldades de
aprendizado, histórico de repetência
e evasão escolar. Por meio da Biblioterapia, foram propostas atividades
paralelas: a escrita de uma história
maluca, em que todos os alunos participaram, juntando pedaços de contos lidos e textos criados; a confecção
de maquete com o tema da história
O aguilhão do rei, e a encenação de
uma peça teatral, O mágico de Oz.
“A maquete fez sucesso e foi apresentada a todas as salas do Ensino
Fundamental, servindo como pano
UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 10
Em lugar do
hábito
, o prazer
(Fragmento
de ilustração
do livro The
Curious Gard
en, de Peter
Brown)
de fundo para que os alunos da classe, que se revezavam, contassem a
história. Foi uma situação atípica. Até
os mais tímidos ingressaram na atividade e todos se sentiram valorizados
perante as outras turmas”. A encenação trouxe resultado semelhante.
“A peça foi apresentada no pátio da
escola aos alunos de todas as turmas,
professores e servidores. Foi um
trabalho bastante elogiado. Durante
os ensaios, procurou-se melhorar as
atitudes, diminuir os ressentimentos
e fortalecer o espírito de equipe”,
relata a professora.
A tônica do Nubbel é promover
a leitura pela leitura, como ainda
explica Clarice. “O ato de ler deve
ser praticado de maneira prazerosa,
desvinculado das abomináveis fichas
de leitura. Procuramos atender aos
‘Dez direitos imprescritíveis do leitor’,
estipulados pelo escritor francês Daniel Pennac: o de não ler, o de pular
páginas, o de não terminar um livro,
o de reler, o de ler qualquer coisa, o
direito a se sentir o próprio personagem, o de ler em qualquer lugar, o
de ler uma frase aqui e outra ali, o
de ler em voz alta, e o de calar’”. A
professora Magda completa: “leitura
não é hábito, é prazer”.
Foto: Cláudia Reis
Ombudsman
Imagem
Vínculo com o leitor
Ainda nos anos 60, o The
Washington Post criou a figura
do Ombudsman (termo emprestado do dicionário sueco,
que remete a ouvidor ou representante da população).
O diário espanhol El País foi
pioneiro na Europa. No Brasil,
o primeiro “jornalão” a ter
um profissional pago – e com
mandato - para fazer a crítica
editorial, na função de representante do leitor, foi a Folha
de S.Paulo, em 1989. O jornalista Caio Túlio Costa ficou um
ano no cargo, que existe até
hoje. Quase 23 anos depois da
primeira experiência brasileira, o “defensor dos interesses
dos leitores” ainda busca o seu
espaço na imprensa.
Por aqui, nos veículos catarinenses – com exceção da
iniciativa do extinto AN Capital, com a coluna do jornalista
Mário Xavier – a “participação”
do público se resume à seção
de cartas ou a esporádicos
encontros com hora marcada.
Acredito que a democratização
da comunicação passa necessariamente pela ampliação
deste espaço, que não pode
ficar restrito a uma página
no meio do caderno ou a
uma breve interferência na
programação. É preciso que
a população tenha um papel
ativo na definição das políticas públicas de comunicação,
que encontre um fórum para
dizer o que quer e possa ser
ouvida e atendida nas suas
reais necessidades de cultura,
educação e entretenimento.
Por si só já é louvável que a
UFSC mantenha um mensário
– já são 423 números! – que
traduza e reflita o conjunto de
posições, muitas vezes conflitantes, que interagem e habitam na universidade – como
se viu na correta cobertura
das eleições para a Reitoria,
por exemplo. Melhor ainda que
preserve uma coluna de Ombu-
Fotos: Wagner Behr
dsman, que permita a análise
do conteúdo. Curioso é, no
entanto, que os ocupantes do
espaço se revezem a cada edição, por mais democrático que
pareça, quando o ideal seria
ter um titular que construísse
um vínculo com o leitor e dele
fosse o cúmplice e confidente.
Da edição que me coube
comentar, fazendo às vezes de
Ombudsman, ressalto o bom
trabalho da equipe da Agecom, que ganhou o reforço da
jornalista Laura Tuyama. Nas
principais matérias, aparece
a tarimba do jornalista Paulo
Clóvis Schmitz mesclada com o
sangue novo injetado pelos bolsistas do Curso de Jornalismo.
Como porta-voz dos leitores
do JU faço eco à posição de alguns jornalistas que ocuparam
este mesmo espaço: é necessário inovar o formato da publicação, tanto do ponto de vista
gráfico quanto editorial, sem
abrir mão desta mídia, fundamental no registro, expressão
e divulgação do conhecimento
e do debate produzido no âmbito da UFSC. Resta ainda ao
JU avançar na oferta de uma
edição online – muito além da
simples conversão do arquivo
impresso em PDF, missão da
qual o atinado editor Moacir
Loth já deve ter se incumbido.
Valmor Fritsche
Jornalista formado na
UFSC em 1986
Crianças do Núcleo de Desenvolvimento Infantil (NDI) presentearam o reitor Alvaro
Prata com autorretratos pintados em tela
Livros do Vestibular 2013 falam do
Contestado e do Modernismo no Brasil
Paulo Clóvis Schmitz
Jornalista na Agecom
A passagem, em 2012, dos 90
anos da Semana de Arte Moderna
influenciou a escolha das obras
literárias para o Vestibular UFSC
2013. Entre os oito livros eleitos
pela Comissão Permanente do
Vestibular (Coperve) estão dois
que marcaram o modernismo brasileiro na área da literatura: Amar,
verbo intransitivo, de Mário de
Andrade (editora Agir), e Memórias
sentimentais de João Miramar, de
Oswald de Andrade (Globo).
Também a guerra do Contestado, conflito armado entre a população cabocla e os representantes do poder estadual e federal travado entre
1912 e 1916 em Santa Catarina, foi lembrada
por meio da indicação do romance Geração do
deserto, de Guido Wilmar Sassi (Movimento).
Em 2012 este evento histórico completa 100
anos. O segundo autor catarinense incluído na
lista é Silveira de Souza, com o livro de contos
Ecos no porão, volume 2 (EdUFSC).
Completam a listagem de livros indicados
para o Vestibular 2013 a peça teatral Beijo no
asfalto, de Nelson Rodrigues (Nova Fronteira), o
volume Poesia marginal (Ática), com poemas de
Floripa, Buenos Aires e os cães
Entremeando ícones do Brasil - mais especificamente da
Ilha de SC - e da Argentina, a partir da mistura da bernunça,
do mar, da capirinha e das ostras, e do tango e vinho tinto ao
som de Gardel, os artistas plásticos Digo Tertschitsch (BR) e
Patrícia Di Loreto (AR) trouxeram mais cor e alegria a uma das
paredes do Departamento de Administração Escolar (DAE).
A proposta da obra de 5m
X 6m é integrar Florianópolis e
Buenos Aires no circuito cultural
do Mercosul em 2012, e trouxe
também, no cantinho inferior
esquerdo, uma homenagem à
companheira Helga: nascida
em 2003, ela se despediu da
família de Digo na época em
que o painel foi concebido.
UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 11
Cacaso, Ana Cristina César,
Paulo Leminski, Chacal e Francisco Alvim, e os romances Capitães
da areia, de Jorge Amado (Companhia das
Letras), e Memórias de um sargento de milícias,
Manoel Antônio de Almeida. Este último é constantemente republicado por diversas editoras e
está disponível no site do Núcleo de Pesquisas
em Informática, Literatura e Linguística/Nupill/
UFSC (Literatura Digital/UFSC e Biblioteca Nacional Digital).
Mais informações podem ser obtidas em
http://coperve.ufsc.br/proximos-vestibulares/
e no telefone da Coperve: 48-3721-9200.
Fusão para melhorar diálogo
Resultado da fusão das Secretarias de Gestão e
de Recursos Humanos, que deixam de existir, a nova
Secretaria de Gestão Pública (Segep), do Ministério
do Planejamento, vai ficar responsável pela gestão
de pessoal na Administração Pública Federal e será
conduzida por Ana Lúcia Amorim de Brito. Em linhas
gerais, a Segep tratará, entre outras coisas, de formulação de políticas e diretrizes para a gestão pública,
compreendendo as carreiras, remuneração, concursos, cargos em comissão e funções de confiança.
Para Luiz Henrique Vieira Silva, pró-reitor de Desenvolvimento Humano e Social da UFSC, a mudança
deverá promover uma relação “mais direta com os
trabalhadores do serviço público federal. “Penso que
vai ampliar e melhorar as condições de diálogo do
Ministério com os vários órgãos do Governo”, resumiu.
Foto: Jones Bastos
A urgência poética de Rodrigo de Haro:
multiartista lança livros de poesias
Raquel Wandelli
Jornalista na SeCArte
Aos 72 anos, Rodrigo Antônio de Haro
trabalha com paixão e afinco entre a palavra
e a imagem. Empoleirado desde cedo em
um andaime de alumínio no atelier de sua
casa na Lagoa da Conceição, o multiartista
executa uma grande tela de quatro metros quadrados para o altar-mor de uma
Igreja em Curitiba depois de ter entrado a
madrugada revisando os originais de seus
dois novos livros de poesia. E assim o artista
sai do cavalete e volta para a escrivaninha,
criando, criando… “Dizem que nunca o
artista é inteiramente humano”, bem fala
o próprio Rodrigo no poema Invenção do
olfato. O verso integra os dois volumes inéditos de poemas que o artista lançou pela
Editora UFSC no dia 20 de dezembro, na
Fundação Cultural Badesc, em uma noite
de festa para a arte e a literatura.
Espelho dos Melodramas e Folias do
Ornitorrinco integram uma única e primorosa edição, embalados como um presente
para o público desta fase de jorro criativo
de Rodrigo, que tem mais cinco livros na
gaveta. São obras manuscritas em folhas
de papel amarelo onde o autor desenha e
lapida poemas, contos, novelas, ensaios,
que vão compor cadernos ilustrados com
desenhos, envoltos na beleza e raridade
de um pergaminho. Além da compreensão
cada vez mais plural e aberta da vida e da
arte, o peso dos anos só deu mais urgência
a esse monge da arte, consagrado além
das fronteiras do Estado e do País pela palavra, pela pintura e pela erudição. Com o
“álbum duplo” de poesia, a Editora da UFSC
encerrou um ano de grandes lançamentos
e comemorou o aniversário de 51 anos da
universidade.
O menino artista de São Joaquim deixou
a escola aos 16 anos para formar-se por
conta própria aproveitando os estímulos
dos pais, sempre mergulhados no mundo
da sensibilidade e do conhecimento. Difícil
encontrar uma expressão artística que ele
não tenha experimentado: roteiro para
cinema, novela, conto, poesia, aquarela,
mosaico, pintura — até
adaptações de literatura
para rádio-novela ele fez.
Foi integrante transgressor do grupo Litoral, que
atuou em Santa Catarina
no final dos anos 50, e do
grupo de poetas (Roberto
Piva, Cláudio Viller, Antônio
Fernandes Franceschi) que
consolidou o surrealismo
no Brasil a partir dos anos
60 e se confrontou com
a Ditadura Militar. Como
uma das maiores expressões contemporâneas da
arte brasileira, na avaliação
do editor Sérgio Medeiros,
seus poemas guardam uma musicalidade
poética serena e trágica ao mesmo tempo: “Primeiro amar os dados,/tutores das
moradas. Sempre/com malícia atirá-los/
sobre a mesa sem ocupar-se/de outras
faces – Onde vais?/ Agito o copo,/atiro as
pedras./Tantos tactos sono- /rosos trato –
dados por/vertigem lado a
lado./Furtar sem felonia,/
abrir última porta.” (Folias
do Ornitorrinco)
Retornando eternamente ao lar e ao mistério sagrado da vida, o filho do
pintor Martinho de Haro e
de Maria Palma produz sua
arte de uma concepção
sempre transversal sobre os
seres e as coisas. O maldito
e o sublime, o sagrado e o
profano compõem uma única dimensão do presente,
que busca sua força ontológica na tradição. Nesse
tempo anacrônico do poeta,
a ousadia estética se alicerça no legado
clássico. “Sim, abre as janelas, as janelas
cegas./Deixa cair a chuva misturada ao
vinho/sabático da Beladona. Espia. Ouve/
os fatigados rios do mundo e saúda/Dona
Urraca, a intrépida, girando/a chave do
abismo”. (Espelhos do Melodrama).
A palavra começa na alma
Conforme rezam as escrituras sobre a cena bíblica, onde o apóstolo S. Pedro recebe de Cristo as chaves da Igreja, a mesma cena que inspirou artistas célebres como
Velásquez: “…com estas chaves aquilo que ligares na Terra, será ligado nos céus; aquilo que desligares na Terra será desligado nos céus…”. Enquanto dá ao ramo de
oliveira a última pincelada, Rodrigo fala sobre sua obra poética:
- Que motivações éticas e estéticas têm movido a sua poesia?
Todo poeta almeja cativar a matéria, dominar, fazer
cantar a energia adormecida nas coisas. Precipitar a metamorfose das coisas é missão do poeta, conferir asas ao
inanimado. A poesia, disse Balthazar Gracian, consiste
em preservar o espanto: – o caderno alado que voa…
- Como um multiartista, você desafia a manifestação mais recorrente entre os criadores,
que é dominar bem apenas uma ou no máximo
duas modalidades literárias e mesmo artísticas.
E você transita pela poesia, conto, ensaio, novela e também por várias expressões das artes
plásticas. Como é esse trânsito da literatura para
as artes plásticas?
Não acho que desafie. Acontece simplesmente que
o mundo é um laboratório mágico, uma gruta de ressonâncias e apelos, onde se entremostram tentações e
miragens. Nada é impossível para esta arte combinatória – a poesia – capaz de acordar (sim…) os mortos.
Literatura, conto, ensaio e novela? É tudo poesia, se
for de – fato coisa real. Sim, sou também pintor – logo
desenhista. Apenas pintor e desenhista. Às vezes me
aventuro no conto, é verdade. Tenho mesmo participado
de algumas antologias até fora do país. O som, a palavra,
começa na alma. Pois só a poesia é familiar do sagrado.
- O mito, o sagrado, o inumano, a tradição, a
memória… Esses elementos estão sempre gerando
sua poesia e sendo gerados por ela… Você acredita que essas dimensões clássicas ainda ajudam a
compreender a vida no mundo em que vivemos?
Sim, uma certa tradição hermética me fecunda.
Acredito que os valores do sagrado e só eles poderão
salvar o mundo. Este mundo em que vivemos. É preciso reencantar o mundo através do apelo ao silêncio e
também a outros ritmos compatíveis com a expansão
do ser. O ético e o social devem expandir-se sem coerção, sem decretos, mas segundo o desabrochar da
consciência de cada homem: pois todos sabemos de
nossos deveres, todos podemos comunicar da mesma
alegria. Basta abrir a porta.
- Espelho dos Melodramas e Folias do ornitorrinco: como se pode falar dessas obras que você
UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 12
lança pela Editora da UFSC?
E esses dois volumes de poesia acompanham Voz,
Idílios Vagabundos e Lanterna Mágica, outros inéditos
que produzi nos últimos tempos, neste voluntário
recolhimento do Morro do Assopro. O primeiro deles
representa minha adesão ao campo lírico, ao drama
– pois trata (por vezes) do excesso, dos movimentos
violentos ou dolorosos do espírito, mas com humor.
Já Folias do Ornitorrinco obedece a um caráter sintético. São dois livros diferentes, mas compostos pelo
mesmo homem. Estão próximos.
- Como é sua rotina e o que o move ao trabalho artístico? Você se sente tomado por um
sentimento de urgência de criação?
Trabalho artístico ou simplesmente trabalho…
Com o tempo, estabelecida a rotina, torna-se impossível fugir a ela. O trabalho de um atelier-escritório é
riquíssimo. É tudo a fazer o tempo todo. Os quadros
te arrastam para o cavalete, os cadernos sussurram
nos ouvidos. Impossível aproximar-se do material
sem ser de novo absorvido pelo visgo da invenção,
do retoque, de alguma nova sugestão.
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N 423 - Agência de Comunicação da UFSC