Pesquisa e extensão voltadas a incitar a vontade de ler: esse é um dos objetivos do Núcleo de Biblioterapia, Bibliotecas Escolares e Leitura (Nubbel), que vem acumulando experiências exitosas no caminho do encantamento de crianças, jovens e adultos pela leitura Foto: Cláudia Reis Para gostar de ler Impresso Especial 991295/2006-DR/SC UFSC CORREIOS p. 10 Jornal Universitário Universidade Federal de Santa Catarina - Março de 2012 - Nº 423 Campus de Joinville terá o maior prédio da UFSC Localizado na Curva do Arroz, o genharia da Mobilidade. Os quatro Campus de Joinville começou, final- blocos somam mais de 15 mil m² mente, as obras do Centro de Enp. 5 Poder Tempos de transição p. 6 e 7 Contas A comunidade vê o que a Universidade faz Universidade do cidadão p. 2 Foto: Joi Cletison Ciência Corais no Arvoredo p. 4 Pesquisa UFSC é a 4ª no País p. 9 Maquete eletrônica mostra projeto de área geral do Campus de Joinville Trânsito Folias e melodramas de Rodrigo de Haro O multiartista catarinense lança o livro-embalagem Poemas, que contém as obras Folias do Ornitorrinco e Espelho dos Melodramas, em uma única edição pela Editora da UFSC p. 12 Carona da mobilidade p. 8 Caiu na cesta Do Editor Há 51 anos mudando a favor da sociedade A comunicação cuida da saúde da instituição “A história é mais rica que a razão humana” (Celso Furtado) Sem nada a temer e dever às grandes universidades do Brasil e do mundo, a UFSC oferece à sociedade o conhecimento capaz de mudar e melhorar a vida das pessoas. É a qualidade do ensino, da pesquisa, da extensão e da cultura que vem, ao longo de 51 anos de atuação, agregando valor à comunidade, ao Estado e ao país. Modernizada, a Universidade não perdeu a ternura e a solidariedade. Internacionalizada, ficou mais perto do mundo. Interiorizada, aproximou-se do cidadão; e online, não abriu mão do seu papel e da missão estratégica para o desenvolvimento sustentável. A Universidade é uma aventura sem volta. Instituição crítica, democrática e plural, confunde-se com a própria sociedade. A UFSC não é mais uma ilha. Definitivamente atravessou as pontes e irradiou mundo afora o saber produzido a partir do investimento público. Ilha de excelência, ponte do saber, a UFSC presta contas à sociedade e reafirma diuturnamente os seus compromissos com a transformação social, política e cultural. O Relatório de Responsabilidade Social, ora lançado pela instituição, surpreende, porque, ao contrário do que se diz, aqui a Universidade se entrelaça concretamente com a vida das pessoas. Mosaico do conhecimento e prova irrefutável da indissociabilidade do ensino, da pesquisa e da extensão, o documento apresenta um leque de ações de 360 graus, abarcando atividades importantes na cultura, na educação, na ciência, na cidadania, no meio ambiente, na saúde, na pesquisa e na terceira idade, sempre na ótica das ações afirmativas e da inclusão social. Os projetos, programas e trabalhos desenvolvidos por professores, servidores técnico-administrativos e alunos não deixam dúvidas sobre o papel vital da Universidade Pública no século 21. O relato das ações, pesquisas e projetos, ao mesmo tempo em que legitima a instituição junto à população, aumenta a responsabilidade social da Universidade. Agora, após mais um processo bem sucedido no Vestibular 2012, a UFSC experimenta a transição entre a atual administração, comandada pelos professores Alvaro Toubes Prata e Carlos Alberto Justo da Silva, e a futura gestão, a ser empossada em maio, a cargo das professoras Roselane Neckel e Lúcia Helena Martins Pacheco. Será um período de diálogo, visando a uma continuidade de ações e projetos, mesmo com a marca forte que caracteriza – como seu viu na própria campanha – a chapa vencedora do pleito de 30 de novembro. A esperar, agora, que a Educação e CT&I mereçam a devida atenção da presidente Dilma Rousseff, que empossou ministros de sua inteira confiança e pode dar novos rumos a áreas essenciais para o desenvolvimento do país. A nomeação do reitor Alvaro Toubes Prata para a Secretaria de Desenvolvimento Científico, Tecnológico e de Inovação define a nova face do atual governo. Moacir Loth Artigos Gosto pelas palavras Jair Francisco Hamms Foto: Joi Cletison Cultura mais pobre. Quando editávamos o Caderno C, do Jornal de Santa Catarina, o escritor Jair Hamms também atuou como crítico literário. Ex-chefe de Gabinete do primeiro reitor da UFSC, matou a saudade da Universidade resenhando o livro Educação, Ideologia e Constituição, da Coleção Pós-Grado. Hamms faleceu dia 11 de janeiro. Exilado na Armação, sua última ação política foi a eleição de Olsen Jr. para a Academia Catarinense de Letras. David, o fundador, avalia os pedidos dos Reis Magos em época de transição na UFSC Pernas próprias. Com a posse de Aloísio Mercadante no MEC, Dilma Roussef deve imprimir a sua marca numa área estratégica dominada, com sucesso, por Lula. Férias com crônica. Jornalista Paulo Clóvis, embora passeando na Europa, não deixou leitores a pé em janeiro. A sua crônica semanal continuou saindo todas às terças no Notícias do Dia. Parceiro I. O novo ministro da Ciência e Tecnologia (MCT) é amigo da UFSC e da comunidade científica catarinense. Marco Antônio Raupp, quando presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), abriu, em 2009, a 3ª Conferência Estadual de Ciência e Tecnologia, realizada em Joaçaba pela Fapesc. Raupp fez um raio-x preciso do sistema de C&TI do País, o que demonstra que o setor está em mãos de quem conhece. Parceiro II. Na Reunião Anual da SBPC em Manaus (AM), em 2009, a direção da Agecom redigiu documento em defesa do Currículo Lattes, assinado pelos presidentes da SBPC e da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Parceiro III. Marco Antônio Raupp foi apoiado pela direção da Agecom na divulgação das reuniões anuais da SBPC de Manaus (2009) e Natal (2010). Memória Com mais de trinta anos de serviços prestados à memória da UFSC, a equipe da Agência de Comunicação (Agecom) perdeu um amigo e um colega de lida. Internado no Hospital Universitário (HU), morreu, no dia 10 de fevereiro, o fotógrafo Paulo Roberto de Freitas Noronha (Choco). O velório e o sepultamento no Cemitério do Itacorubi, em Florianópolis, foram acompanhados por pais, irmãos e amigos emocionados. Aos 50 anos, deixa uma filha e dois netos. Filho de um motorista aposentado pela UFSC, antes de ser promovido a fotógrafo, atuou no Cavalos de Troia. No 5º Fórum Internacional de Universidades, ironicamente realizado na Grécia, foi diagnosticada uma profunda crise política de identidade do ensino superior. Enquanto as instituições dos países emergentes brigam para aparecer nos rankings, as universidades seculares enfrentam dilemas éticos e se enroscam em fraudes. Papo plural. A Rádio Udesc, após debater os problemas das universidades com os professores Nildo Ouriques e Waldir Rampinelli, entrevistou o reitor Alvaro Tobes Prata. O resultado foi um quadro plural sobre o papel exercido pelas instituições. Os autores de Crítica à Razão Acadêmica foram extremamente duros com a UFSC. Prata rebateu as críticas mais ferozes. O entrevistador Salvador dos Santos ficou sem saber se estavam falando da mesma universidade. Pelo menos, não sobrou para a Udesc, deve ter pensado. Parceiro sensível. A morte do secretário Nacional de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento, Duvanier Ferreira, denunciou o caos da saúde no Brasil. Seu plano de saúde, por exemplo, não garantiu o seu atendimento de emergência em hospitais particulares de Brasília. Mesmo criticado pela sua postura nas greves, as universidades lamentaram a perda de um aliado sensível às mazelas que assombram o cotidiano do campus. Nas palestras defendia políticas semelhantes às adotadas na UFSC. Salim. A comunidade universitária torce pelo pronto restabelecimento do seu Doutor Honoris Causa, escritor Salim Miguel, ex-diretor da EdUFSC e autor de mais de 30 livros. Projeto Larus e no laboratório fotográfico da Agecom. Adotado pelos colegas, compartilhava publicamente suas amarguras e alegrias. Ingênuo e puro, não sobreviveu a um mundo cada vez mais canalha e individualista. A Agecom foi, com certeza, a sua segunda casa. A direção da Agecom, além de se solidarizar com familiares e amigos, agradece a compreensão e o apoio incondicional oferecidos ao companheiro. Frequentador assíduo dos Volantes e xerife trovador aplicado nos campeonatos da universidade, Noronha era torcedor fanático: Avaí, Botafogo e Inter (pela ordem). O caixão desceu ao som do hino avaiano, com soluços fazendo a trilha sonora. Sim, passamos, a instituição fica. Mas para nós, o que importa é só a vida, nada mais...Noronha, como muitos de nós, esqueceu de viver. Expediente Elaborado pela Agecom - Agência de Comunicação da UFSC . Campus Universitário - Trindade - Caixa Postal 476 . CEP 88040-970, Florianópolis - SC. www.agecom.ufsc.br, [email protected] Fones: (48) 3721-9233 e 3721-9323. Fax: 3721-9684 Diretor e Editor Responsável: Moacir Loth - SC 00397 JP . Coord. de Divulgação e Marketing/Redação: Alita Diana (Jornalista), Arley Reis (Jornalista), Artemio R. de Souza (Jornalista), Carla Isa Costa, Carolina Lisboa (Bolsista), Dayane Ros (Bolsista), Gabriele Duarte (Bolsista), José Wilson Fontenele (Bolsista), Laura Tuyama (Jornalista), Margareth Rossi (Jornalista), Nayara Oliveira (Bolsista), Paulo Clóvis Schmitz (Jornalista), Paulo Fernando Liedtke, Rafaela Blacutt (Bolsista), Ricardo Pessetti (Bolsista) . Fotografia: Brenda Thomé (Bolsista), Camila Peixer (Bolsista), Jorge Luiz Wagner Behr . Arquivo Fotográfico: Aldy Maingué, Ledair Petry . Editoração e Projeto Gráfico: Cláudia Schaun Reis (Jornalista) . Divisão de Gestão e Expediente: João Pedro Tavares Filho (Coord.), Beatriz S. Prado (Expediente), Rogéria D´El Rei S. S. Martins, Romilda de Assis (Apoio) . Impressão: Arte Brasilis UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 2 Foto: Divulgação/Notícias do Dia A literatura catarinense perdeu no dia 11 de janeiro o escritor Jair Francisco Hamms, autor de vários livros de contos e crônicas, jornalista, publicitário e administrador. Na UFSC, atuou como professor, chefe de gabinete do reitor, secretário-geral e diretor de Extensão nos anos de consolidação da instituição. Um de seus contos, A sobrinha da senhora Dodsworth, serviu de base para a cineasta Laine Milan fazer o curta-metragem Alumbramentos (20 min, 2002). Uma das últimas contribuições do escritor foi a participação no volume 13 Cascaes, de 2008, onde 13 autores escreveram contos inspirados na figura do artista Franklin Cascaes, pesquisador dos hábitos, crenças e costumes dos moradores do interior da Ilha de Santa Catarina. Filho de um combatente na revolução de 30 e bisneto de imigrantes alemães que se fixaram na colônia de Santa Izabel, hoje pertencente ao município de Água Mornas, Jair Hamms nasceu em Florianópolis, em 1935, e durante muitos anos trabalhou no governo estadual, como presidente da Companhia de Desenvolvimento do Estado (Codesc) e subchefe da Secretaria da Casa Civil. Ocupava a cadeira 25 da Academia Catarinense de Letras. Os livros publicados pelo escritor foram Estórias de gente e outras estórias (1971), O vendedor de maravilhas (1973), O detetive de Florianópolis (1984), A cabra azul (1985), Santa Catarina, um caleidoscópio étnico (1995), Samba no céu (2002) e Batuque bem temperado (2009, com Flávio José Cardozo). Atraído pelas palavras, conhecedor e interessado pelos regionalismos catarinenses, Jair Hamms colaborou com Aurélio Buarque de Holanda Ferreira na elaboração do Grande Dicionário da Língua Portuguesa. Paulo Clóvis Schmitz Jornalista na Agecom Para ler com vagar... De fato, desde o título da coletânea – Crítica à Razão Acadêmica –, temos uma tese indicada e que traz suas provas. O importante na Crítica da Razão Pura, de I. Kant, dizem os comentadores, reside no genitivo. A crítica é da razão pura pela razão pura. Ou seja, o procedimento é de plena autonomia, sendo o sujeito passível de se encontrar consigo mesmo, num movimento livre. A razão deixa de ser criticada pela religião ou pela jurisprudência (o célebre enunciado do Prefácio) e arranca de si mesma a critica de si mesma. A razão, na atual universidade (mas já no tempo de Kant, basta ler O Conflito das Faculdades) não é livre: ela é cativa ou alienada. Não seria possível, pois, escrever uma crítica da razão acadêmica. Apenas, como vocês bem definiram, uma crítica à razão acadêmica. Parabéns pela iniciativa! Desde que recebi a coletânea – Crítica à Razão Acadêmica: reflexão sobre a universidade contemporânea, Editora Insular, Florianópolis, 2011 –, a leio com vagar. Gostei muito do que segui com os olhos e a mente. Fiquei muito impressionado com a similaridade do processo de puro descarte da educação pública nos Estados Unidos e no Brasil (Frank Donoghue). Entre nós, as universidades que visam o lucro conseguem seu alvo, com pleno apoio oficial. É espantoso notar como “universidades” compram outras, ampliando seus dividendos e levando estudantes pobres ou de classe média ao endividamento, no mesmo passo em que recebem polpudos recursos governamentais. Nada temos nas agências de “fomento à pesquisa” contra o esbulho. Pelo contrário, temos o pleno apoio ao saque das verbas públicas. E o Conselho Nacional de Educação? Silêncio tenebroso...e cumplicidade também silente. É preocupante notar o quanto as oligarquias regionais (as responsáveis pelo esquema de dominação) subjugam as estruturas “acadêmicas”. Tudo o que vocês indicam ao longo do Crítica à Razão Acadêmica, eu vi diretamente em minhas andanças pelo Brasil. Um amesquinhamento das eleições universitárias, como se cada reitoria fosse cópia degradada de prefeituras dominadas com mão de ferro por prepostos das oligarquias regionais. Mas o que julgo mais grave mesmo, em todo o processo, não é o instante das eleições, lamentáveis que sejam. O pior é o modo de funcionamento dos Conselhos Universitários. Basta olhar a pauta dos referidos Conselhos. Imensas, com indefinido número de processos que implicam em convênios com a “iniciativa privada, firmas estatais”, etc. Normalmente a pauta é distribuída aos conselheiros com pouco tempo para análise. Na reunião, o reitor pede que os presentes apresentem destaques. Eles são debatidos e, grande parte, talvez a maioria dos itens, são aprovados sem discussão ou exame prudente. É por tal ralo que passam, quase sempre, os convênios marotos, os tratos espúrios, as fundações esponja, etc. Bem, gostei do que li no Crítica à Razão Acadêmica – reflexão sobre a universidade contemporânea. Tenho certeza de que o trabalho será útil para os (poucos) pensantes que ainda restam na universidade. Roberto Romano Professor de Ética e Filosofia Política na Unicamp (SP) UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 3 Jair Francisco Hamms foi uma das primeiras pessoas que conheci, ao chegar a Florianópolis, em fevereiro de 1964, para lecionar na antiga Escola de Engenharia Industrial que então se implantava na UFSC. Passei a encontrá-lo com frequência nos três anos seguintes, mercê da proximidade física, na velha Chácara da Molenda, entre a EEI e a Reitoria, onde ele era o chefe de gabinete do Reitor Ferreira Lima. Mas confesso que embora informais no trato mútuo, nosso conhecimento nunca realmente evoluiu para o que se poderia chamar de uma amizade. Em 1967 saí para fazer o Mestrado e, ao retornar, a EEI havia se transferido para o campus da Trindade, permanecendo a Reitoria na Bocaiúva. Mais tarde, saí para o Doutorado e fiquei na Inglaterra por um lustro. Jair, entrementes, foi tratar da vida na iniciativa privada. Passei umas três décadas sem tornar a vê-lo. Só tornei a me deparar com seu nome quando minha esposa, que iniciava o curso de Letras na UFSC, começou a adquirir e a trazer para casa livros de autores catarinenses, entre os quais O Vendedor de Maravilhas dele, Jair. E outros, anos depois. Mas foi muito mais tarde, creio que já em meados da década de 90, que tornei a reencontrá-lo. Foi em algum lançamento de livros, quando, de repente, fui surpreendido com um efusivo abraço e um emocionado “Arno, amigo! Há quanto tempo...“, seguido de um papo breve, mas que denotava curiosidade e satisfação sinceras. A partir de então os reencontros passaram a ser relativamente frequentes, sempre caracterizados por renovadas manifestações de alegria e emoção da parte dele, Jair, que aos poucos me foram contagiando também. Só aos poucos fui começando a me dar conta de que Jair me via como membro, assim como ele, de um clube não oficial, respeitável, mas em processo de encolhimento: o dos fundadores da UFSC, daqueles que militaram simultaneamente, cada um em sua própria trincheira, nos primeiros tempos, no processo de criação de nossa universidade federal, de sua afirmação como instituição digna de admiração e respeito. Éramos, todos, “meninos do Ferreira Lima”, Jair e tantos outros porque haviam sido seus discípulos e o conheciam há mais tempo, eu e outros porque construíamos a Escola de Engenharia Industrial, menina dos olhos do reitor, por ser a unidade que não existia anteriormente, que não estava pronta, que ele teve de criar, de tirar do nada. E passei a compreender suas efusões de simpatia. Com o tempo, sem dúvida influenciado por seu exemplo, passei a incorporar este mesmo esprit de corps, especialmente ao observar como vem se acelerando o encolhimento deste nosso grupo pioneiro. Creio que Jair se antecipou a mim e a tantos outros, por causa sensibilidade que lhe era característica, e com que ele nos encantava em seus escritos e nos papos. Ou talvez sua observação tenha sido agudizada pela experiência pessoal de sua quase passagem para o outro lado, com cuja descrição nos deleitava tantas vezes, como o fez em seu discurso de posse na Academia Catarinense de Letras. E agora, aconteceu... Jair se foi. O literato, o causeur, o dicionarista, o perfeccionista no uso das palavras, foram-se todos. Ficam a lembrança, os escritos, os exemplos. Mas é pouco para aqueles que o conheceram. Vai fazer falta! Arno Blass Professor aposentado da Engenharia Mecânica da UFSC Arvoredo revela bancos de corais Resultados parciais dessa pesquisa acabam de ser publicados em um artigo na revista Coral Reefs Rafaela Blacutt Bolsista de Jornalismo na Agecom e Arley Reis Jornalista na Agecom Em conjunto com pesquisadores da UFSC que já desenvolviam projetos junto à Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, em 2009, o biólogo e mergulhador Paulo Bertuol convidou o professor do Departamento de Ecologia e Zoologia Alberto Lindner para observar corais recifais na região. O fato despertou novos interesses acadêmicos e se tornou tema de uma dissertação de mestrado que está sendo desenvolvida junto ao Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFSC. Resultados parciais dessa pesquisa foram este ano publicados em um artigo na revista Coral Reefs. “Nesse artigo reportamos a formação de corais recifais mais ao sul em todo o Oceano Atlântico, localizada na Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, ao norte de Florianópolis e a mil e quinhentos quilômetros ao sul dos recifes de Abrolhos”, destaca Lindner, que desde 1996 estuda os cnidários, conjunto de animais que inclui corais, anêmonas e águas-vivas e orienta a pesquisa de mestrado da bióloga Kátia Capel. “Os resultados apresentados no artigo são importantes pois mostram que é possível a formação de bancos de corais recifais mesmo no sul do Brasil, em Santa Catarina”, complementa Lindner, também coordenador o projeto Biodiversidade Marinha de Santa Catarina. Monitorando o fundo do mar Desde dezembro de 2010, Kátia vai a cada três meses visitar a reserva para monitorar a população dos corais, que são da espécie Madracis decactis. A região ocupada mede 3.400m² e está entre seis e 15 metros de profundidade. A maior densidade (maior número de colônias de corais por metro quadrado) concentra-se em regiões com cerca de nove metros de profundidade, e um dos aspectos já observados é que conforme a profundidade aumenta, aumenta também o tamanho das colônias. “Para nós foi uma grande surpresa encontrar esse tipo de formação aqui no sul do Brasil. A espécie Madracis decactis havia sido registrada para Santa Catarina, mas não esperávamos observar o desenvolvimento de um banco de corais recifais no estado”, reforça Lindner. Ao contrário do que acontece Maquete eletrônica mostra projeto de área geral do campus de Joinville em Abrolhos, a espécie de coral encontrada em Santa Catarina não forma recifes, mas um banco de colônias livres sobre o fundo do mar. São duas hipóteses que podem explicar o desenvolvimento desses corais em forma livre. A primeira é a de que esses animais marinhos estavam em formação rochosa e por algum motivo, como hidrodinâmica (movimento da água), se sol- taram e continuaram se desenvolvendo de forma livre. A outra teoria é a de que a larva do coral pode ter se fixado em algum local móvel, como conchas, e se movimentou através das ondas, marés, ou movimento de outros animais. “Esse sítio de corais tem grande potencial para estudos e poderemos desenvolver outros projetos na região”, comemora Kátia Capel. Saiba Mais: Vulnerabilidade De acordo com Lindner, a formação deve ser melhor estudada e protegida, pois representa o limite sul de distribuição de corais recifais em todo o Oceano Atlântico. No Portal Biodiversidade de Santa Catarina, colorido com imagens de esponjas, medusas, corais e peixes, a equipe coordenada pelo professor alerta para a importância do conhecimento e monitoramento da fauna e flora marinha de Santa Catarina. Logo na página de abertura o grupo destaca que modelos climáticos projetam um acréscimo na temperatura dos oceanos até 2100. Como no Brasil o litoral do estado de Santa Catarina representa o limite sul de distribuição da fauna e flora marinha tropical do Oceano Atlântico, pode ser uma das primeiras áreas no Atlântico onde os potenciais impactos deste aquecimento poderão ser detectados em organismos marinhos. “Isso faz de Santa Catarina um laboratório natural para se monitorar e descrever respostas ecológicas aos impactos antrópicos”, ressalta Lindner. Independentemente das projeções para os próximos 100 anos, complementa o grupo formado por professores, estudantes de graduação e pós-graduação, é fundamental descrever em detalhe a biodiversidade de organismos marinhos recifais em Santa Catarina, o que pode proporcionar condições mínimas para previsões e modelos estruturados de cenários futuros. “O levantamento taxonômico e o monitoramento da costa é muito importante e se tornou um assunto de interesse da comunidade científica internacional”, destaca o professor. A Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc) financia as pesquisas por meio dos projetos Jovens Pesquisadores e Biodiversidade Marinha de Santa Catarina, enquanto o Instituto Chico Mendes (ICMBIO) auxilia com a logística e trabalhos de campo por meio da Reserva Biológica Marinha do Arvoredo. A defesa da dissertação de mestrado de Kátia, que trará resultados obtidos nos estudos sobre a espécie de coral recifal Madracis decactis em Santa Catarina, está programada para o próximo ano. A pós-graduanda é coorientada pela professora Bárbara Segal Ramos, do Departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC. UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 4 O Projeto Biodiversidade Marinha do Estado de Santa Catarina é desenvolvido por uma equipe de professores e estudantes da UFSC. Sintetizar o conhecimento sobre a biodiversidade marinha de Santa Catarina e obter novos dados estão entre os objetivos. Dados sobre espécies de esponjas já estão disponibilizados no site www. biodiversidade.ufsc.br. A iniciativa tem apoio da Reserva Biológica Marinha do Arvoredo e recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc). O trabalho integra a Rede Sisbiota-Mar (Rede Nacional de Pesquisa em Biodiversidade Marinha), direcionada a ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade brasileira. O Sisbiota-Brasil é uma iniciativa conjunta entre os ministérios da Ciência e Tecnologia, da Educação e do Meio Ambiente, do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e de 18 fundações estaduais de amparo à pesquisa, incluindo a Fapesc. Na UFSC é coordenado pelo professor Sérgio R. Floeter, também do Departamento de Ecologia e Zoologia, e integra pesquisadores de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Pernambuco e Ceará. Mais informações com o professor Alberto Lindner (48) 3721-4744. Campus da UFSC em Joinville vira canteiro de obras Os quatro blocos projetados para a Curva do Arroz somam 15 mil m² Laura Tuyama Jornalista na Agecom O começo de 2012 ficará marcado com o início das primeiras obras do Centro de Engenharia da Mobilidade (CEM) no campus da UFSC em Joinville. O Bloco Acadêmico 1 já está em fase de preparação do canteiro de obras, enquanto a construção de dois prédios de laboratórios depende apenas da emissão da ordem de serviço. Além disso, um novo edifício para salas dos professores está em processo de licitação. Os quatro blocos somam mais de 15 mil m² de área projetada. O Bloco Acadêmico 1 será um edifício de quatro pavimentos destinados a salas de aula, laboratórios, gabinetes de professores e auditório. Com 40 metros de largura por 80 metros de extensão, o prédio terá uma área de 9.850 m². Esta etapa envolve a execução de fundações e estrutura de concreto pré-fabricado, com custo de R$ 4.198.042,39, e conclusão está prevista para julho deste ano. A construtora é a empresa Proaço Metalúr- gica Ltda. A etapa de acabamento, estimada em mais seis meses, vai requerer uma nova licitação. Outros dois prédios de laboratórios foram licitados e aguardam a emissão da ordem de serviço para o início das obras: os blocos 2 e 3, cada um com área de 1.211,22 m². No Bloco 2 estarão os laboratórios de fabricação, projetos e maquetaria, o de protótipos, solda, marcenaria, materiais, sistemas motrizes elétricos e metrologia. O Bloco 3 abrigará os laboratórios de hidráulica e solos, além do setor de manutenção e garagem. A empresa Proaço Metalúrgica Ltda também venceu a licitação da parte estrutural das duas obras, com o valor de R$ 1.160.506,34. Esta etapa envolve as fundações com estacas, pilares e coberturas. O Bloco 4 está em fase de licitação da parte estrutural. Trata-se de um prédio de quatro pavimentos, com área de 2.815,60 m². No edifício ficarão os gabinetes dos professores, gabinetes administrativos, áreas de apoio, um pequeno auditório de 50 lugares e também a administração do campus. Os blocos 2 e 3 abrigarão laboratórios, como os de protótipos, solda e solos O bloco 1 terá salas de aula, de professores, auditório e também laboratórios Projeto para 15 mil alunos “Levamos cerca de um ano estudando as condições ambientais do terreno e elaborando o projeto para o novo campus”, explica o diretor administrativo do CEM, o arquiteto Francisco Alexandre Sommer Martins. O projeto do novo campus concentra as edificações em 30% do terreno, que tem uma área de mais de um milhão de m². Essa fração terá capacidade de abrigar 110 mil m² de construções, para atender a até 15 mil alunos. No centro deste espaço haverá uma grande praça, com um amplo gramado e um bosque de mata nativa. Os prédios ficarão localizados ao redor da praça e serão conectados por corredores cobertos, por causa da grande incidência de chuvas na região. O projeto inclui também uma pista de testes com aproximadamente 1.600 metros, que servirá como laboratório para o Curso de Engenharia da Mobilidade. O objetivo é utilizar a pista para desenvolver pesquisas sobre a movimentação de veículos e a infraestrutura necessária para o seu deslocamento. O restante do terreno será destinado a reservas ambientais, a uma área para alagamento e a uma linha de trem, que já estava projetada para atravessar o terreno. Há mais de um ano o campus em Joinville está passando por terraplenagem, processo que deve continuar até julho de 2012. De acordo com Martins, para que seja possível utilizar o novo campus ainda será necessário licitar e executar várias obras em paralelo: o acesso ao campus, a infraestrutura elétrica, a infraestrutura de água, estação de tratamento de esgoto e paisagismo. Em relação ao acesso, já foi autorizada pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) a construção de duas estradas paralelas à BR-101, que será projetada e executada pela concessionária Autopista Litoral Sul. O campus localiza-se a 12 km do centro da cidade. Hoje a UFSC de Joinville está localizada no bairro Santo Antônio, em um prédio alugado. Fazem parte da comunidade UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 5 do campus 1.156 pessoas, dentre as quais 1.100 estudantes, 36 professores efetivos, 5 substitutos e 15 servidores técnico administrativos. Por ano são oferecidas 400 vagas para a graduação. Os alunos podem optar pelo Bacharelado em Tecnologia, que é um curso de três anos. Passado esse período, os alunos podem continuar os estudos por mais dois anos, escolhendo aprofundar-se em uma das sete Engenharias: Aeronáutica, Automobilística, Ferroviária e Metroviária, Mecatrônica, Naval e Oceânica, Infraestrutura ou Tráfego e Logística. Está prevista para julho deste ano a formatura da primeira turma de Bacharelado. Bons ares que vêm de Brasília Alvaro Prata será homem forte da CT&I do País Mudanças ministeriais não alteram o humor nos campi da UFSC Posse em Brasília ainda não tem data certa. Vice-reitor assumirá até a posse do reitor eleito, em 10 de maio Paulo Clóvis Schmitz Jornalista na Agecom O ano é de mudanças na UFSC, mas também começou com novidades em Brasília. Tomaram posse, no final de janeiro, os ministros Aloizio Mercadante, no MEC, e Marco Antônio Raupp, na pasta da Ciência, Tecnologia e Inovação. Em Santa Catarina, o reitor Alvaro Toubes Prata foi convidado para assumir a Secretaria Nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação, vinculada ao MTCI, e levará para a capital federal a sua grande experiência na área da pesquisa e o prestígio adquirido no trabalho que realizou na Andifes e junto a outras instâncias como a Capes e o CNPq. Enquanto isso, a futura reitora da UFSC, Roselane Neckel, monta a equipe e define estratégias com a expectativa de imprimir sua marca na gestão da instituição, sempre a partir do diálogo e da discussão conjunta das melhores soluções para a comunidade acadêmica. Tanto ela quanto o reitor que deixará o cargo em breve são otimistas em relação aos nomes que assumiram os ministérios da Educação e da Ciência, Tecnologia e Inovação. “Aloizio Mercadante tem uma trajetória muito próxima às diretrizes do PT, partido do qual foi um dos fundadores e que também foi construído pelos presidentes Lula e Dilma Rousseff”, afirma Roselane. Professora do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH), ela aposta que o ministério continuará fortalecendo as universidades públicas e recorda que na posse Mercadante deixou clara sua preocupação com a melhoria das licenciaturas e a formação de professores para os ensinos fundamental e médio. Para Alvaro Prata, o fato de ser professor universitário é uma credencial importante do novo ministro, que reconheceu a excelência da UFSC em visita que fez ao Estado quando ainda estava no MCTI. “Ele elogiou o modelo de parcerias da Universidade com incubadoras, empresas e a sociedade, dizendo que Florianópolis é a cidade do futuro”, destacou. Foto: José Cruz/Agência Brasil Roselane e Prata confiam nas mudanças de Dilma Visão holística e sustentabilidade Dilma é uma entusiasta do setor, tanto que lançou o programa Ciência sem Fronteiras”, ressalta o reitor. Para Roselane Neckel, sem descuidar da pesquisa e da criação de novos cursos na área tecnológica, é preciso investir nas licenciaturas e em opções de graduação e especialização em campos como os Direitos Humanos e as Relações de Gênero. “É importante ter uma visão holística, abertura para a sustentabilidade e as questões ecológicas, além de reforçar a educação afirmativa”, diz. E pergunta: “Devemos nos preocupar com a produção, mas como ficam as relações humanas?” Papel das universidades A futura reitora está agendando uma viagem a Brasília para clarear as relações e as medidas que podem ser tomadas sobre questões cruciais para a Universidade, como a estruturação dos novos campi e a reposição de professores e servidores. Ela também deverá se reunir com setores técnicos dos ministérios da Educação e da Ciência, Tecnologia e Inovação, além de se encontrar com membros da bancada catarinense no Congresso Nacional. “Vivemos uma situação social grave no país, e as universidades precisam discutir assuntos como a segurança pública, as leis e os movimentos populares”, enfatizou. No que depender dos ministros empossados em janeiro, haverá abertura para o diálogo e a busca de soluções para os problemas da educação e da pesquisa. “Pela primeira vez [o MCTI] está no Plano Plurianual como um dos marcos e objetivos estratégicos do país”, disse Aloizio Mercante ao transmitir o cargo a Marco Antônio Raupp. “E é um ministério que está pensando a nova economia brasileira”. Quanto à educação, ele ressaltou que ela “precisa se transformar numa espécie de saudável obsessão nacional, que mobilize a todos”. De sua parte, Raupp destacou a importância da tecnologia e da inovação para o futuro do país. “O Brasil tem que olhar para uma economia verde sustentável e aprofundar ainda mais o processo de distribuição de renda e riqueza”, afirmou. “Para isso, a participação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação é decisiva”. Foto: Wagner Behr Administração recebe nominata da equipe de transição Em audiência realizada em 10/02, a reitora eleita da UFSC, Roselane Neckel, entregou ao reitor Alvaro Prata a nominata da equipe encarregada de iniciar a transição na reitoria e preparar um diagnóstico técnico da instituição. As informações serão levantadas nas unidades e nos documentos oficiais, para que as equipes setoriais possam apresentar seus relatórios até o dia 15/03. A partir deste diagnóstico, serão organizados os fóruns de planejamento da gestão, em sessões públicas a serem agendadas no Centro de Eventos da Universidade. No documento, a futura reitora informa que o Paulo Clóvis Schmitz Jornalista na Agecom (da esq p/ dir) Haddad abre espaço para Raupp e Mercadante Foto: Wagner Behr Sobre a situação e as perspectivas da ciência, tecnologia e inovação, Alvaro Prata afirma que o país está no caminho certo, embora entenda que o orçamento da pasta ainda é insuficiente para dar conta das demandas do setor. São R$ 8 bilhões ao ano, contra R$ R$ 80 bilhões da educação – que atingiu, em 2011, o recorde de investimentos na história do país. Entre as metas do ministério em que vai atuar estão a aproximação com os setores produtivos, a expansão da pesquisa técnica e das incubadoras industriais e a implantação de novas políticas para favorecer a inovação nas empresas. “A presidente Foto: Cláudia Reis objetivo da equipe é conhecer o funcionamento de cada pró-reitoria e/ou setor, por meio de visitas e consultas a documentos institucionais, “com a finalidade de evitar descontinuidades nos processos administrativos”. Ela também solicitou a cessão de espaço físico para que a equipe de transição possa desenvolver seu trabalho. Além da coordenação geral da equipe, há várias comissões compondo o grupo, coordenadas por Joana Maria Pedro, Elias Machado Gonçalves, Roselane Campos, Antônio Carlos Montezuma, Edite Krawulski, Luiz Fernando Scheibe e Irineu Manoel de Souza. Transição com diálogo para uma UFSC forte UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 6 Para o reitor, também pesam a favor da UFSC as relações com as empresas e a população catarinense Sétimo na Academia de Ciências Arley Reis Jornalista na Agecom O professor Alvaro Prata está entre 25 novos membros titulares da Academia Brasileira de Ciências. A cerimônia de posse será realizada no dia 8 de maio de 2012, durante Reunião Magna da ABC. Fundada em 1916, a entidade congrega eminentes cientistas das áreas de Ciências Matemáticas, Físicas, Químicas, da Terra, Biológicas, Biomédicas, da Saúde, Agrárias, da Engenharia e Sociais. São 449 membros titulares, em um total de 784, somados os titulares às categorias de associados, afiliados (jovens vinculados por apenas cinco anos) e correspondentes (estrangeiros). Com a indicação de Alvaro Prata para a área de Ciências da Engenharia, a UFSC passa a contar com sete representantes na Academia. São membros os professores do Departamento de Química Adilson José Curtius, Faruk José Nome Aguilera e Ademir Neves (todos membros titulares na área de Ciências Químicas), João Batista Calixto, do Departamento de Farmacologia, membro titular na área de Ciências Biomédicas, e os professores do Departamento de Matemática Ruy Exel Filho e Clovis Caesar Gonzaga, do Departamento de Matemática (área de Ciências Matemáticas). A Academia Brasileira de Ciências é uma entidade independente, não governamental e sem fins lucrativos, que atua como sociedade científica e contribui para o estudo de temas de primeira importância para a sociedade e a proposição de políticas públicas. Seu foco é o desenvolvimento científico do País, a interação entre os cientistas brasileiros e destes com pesquisadores de outras nações. tério da Ciência, Tecnologia e Inovação e hoje está no MEC, elogia o modelo de parcerias da Universidade com incubadoras, empresas e a sociedade, dizendo que Florianópolis é a cidade do futuro”, destacou. Sobre a situação e as perspectivas da ciência e tecnologia no Brasil, Alvaro Prata entende que o país está no caminho certo, embora o orçamento do MCTI seja de apenas R$ 8 bilhões, contra mais de R$ 80 bilhões do MEC. Entre as metas do ministério em que vai atuar estão a aproximação com os setores produtivos, a expansão da pesquisa técnica e das incubadoras industriais e a implantação de novas políticas para favorecer Convidado pelo ministro Marco Antonio Raupp, o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Alvaro Toubes Prata, assumirá a Secretaria Nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em substituição a Ronaldo Mota. Quando isso ocorrer, Prata estará interrompendo uma trajetória de 33 anos como professor do Departamento de Engenharia Mecânica da UFSC, instituição onde também foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação. As datas da nomeação e da posse, em Brasília, ainda não estão confirmadas. “Aloízio Mercadante, que hoje está no No ano passado, Alvaro MEC, elogia o modelo de parcerias da Prata chegou a ser convidado para assumir o Secretaria de Universidade com incubadoras, empresas Educação Superior do MEC e a sociedade, dizendo que Florianópolis (Sesu), do Ministério da Edué a cidade do futuro” - Alvaro Prata cação. Com trânsito fácil em Brasília, o reitor tem atuado em comissões e junto a órgãos como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) a inovação nas empresas. e o Conselho Nacional de Desenvolvimento CienOutra prioridade é reforçar a interlocução com tífico e Tecnológico (CNPq). Também é membro os secretários estaduais e as fundações de amparo da Associação Nacional dos Dirigentes das Insà pesquisa. “A presidente Dilma Rousseff é uma tituições Federais de Ensino Superior (Andifes). entusiasta do setor, tanto que lançou o programa “Atribuo o convite do ministro à experiência que Ciência sem Fronteiras”, afirma o reitor. Prata acumulei como professor, pesquisador, pró-reitor integrou o conselho que elaborou o documento e reitor da UFSC”, diz ele. Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e InoPara o reitor, também pesam a favor da UFSC vação – 2012-2015, lançado no final de 2011 e as relações que a instituição mantém com as que projeta ações estruturantes para o segmento empresas e a população catarinense. “O próprio visando ao desenvolvimento do país. Prata já inministro Aloízio Mercadante, que saiu do Ministeirou a reitora eleita do convite recebido. Prêmio internacional para professor da UFSC Pesquisa de André Báfica investiga como bacilo da tuberculose se esconde do corpo Alita Diana e Laura Tuyama Jornalistas na Agecom O professor André Luiz Barbosa Báfica, 36 anos, do Departamento de Microbiologia, Imunologia & Parasitologia (MIP) do Centro de Ciências Biológicas (CCB) da Universidade Federal de Santa Catarina, foi um dos 28 cientistas selecionados para receber o prêmio International Early Career Scientist (IECS), do Howard Hughes Medical Institute. O HHMI é uma das mais importantes instituições que apóiam pesquisas na área de saúde e biologia dos Estados Unidos. O prêmio foi divulgado em 24 de janeiro. A seleção foi feita dentre 760 jovens pesquisadores do mundo inteiro. André foi o único brasileiro a receber o prêmio de 650 mil dólares ao longo de cinco anos para desenvolver uma vacina mais eficaz para tu- berculose. Para ser escolhido pelo HHMI, André passou por um amplo e rigoroso processo de seleção, sendo seu projeto avaliado por 50 cientistas. O principal critério para a escolha foi a excelência científica: as conquistas de cada jovem pesquisador em sua carreira, seu potencial e a clareza para explicar suas pesquisas. Os pesquisadores – que coordenam seu próprio laboratório há menos de sete anos – serão integrados à comunidade científica do Instituto, participando de encontros e fazendo palestras a outros pesquisadores e cientistas em começo de carreira do HHMI. Dentre os 375 pesquisadores patrocinados pelo HHMI, 13 são ganhadores do Prêmio Nobel e 147 membros da Academia de Ciências dos EUA. O financiamento de André começou já em fevereiro. UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 7 Foto: Wagner Behr André foi o único brasileiro a receber o prêmio; objetivo é desenvolver vacina mais eficaz para a tuberculose Carona facilita mobilidade dos estudantes UFSC conquista 129ª posição no Webometrics Alunos do Centro de Ciências Agrárias criaram sistema que facilita deslocamento para diferentes bairros de Florianópolis José Wilson Fontenele Bolsista de Jornalismo na Agecom Desde meados de 2009 funciona no Centro de Ciências Agrárias (CCA) um setor especialmente utilizado para as pessoas solicitarem carona. O ponto de carona surgiu da idéia de um aluno do Centro Acadêmico de Agronomia, e logo foi incorporada pelos outros CA’s. O objetivo é facilitar a mobilidade dos alunos que moram perto do centro e ajudar também a diminuir a quantidade de carros que circulam por lá. A partir do momento em que foi institucionalizado, o ponto de carona funciona na saída do centro, indicado por uma placa semelhante à sinalização de uma parada de ônibus. Como informa Gabriel Gonçalves de Souza (atual presidente do CA de Agronomia), o ponto é bastante utilizado em função da grande quantidade de alunos que moram nas regiões da Lagoa, Rio Tavares, Barra da Lagoa e Joaquina, bem como aqueles que se deslocam do CCA para o campus central. “No início nós combinávamos de vir juntos de casa, sem ser um ponto de carona oficial. A gente começou a reunir grupos para a vinda até a UFSC, e o pessoal acabava marcando a volta também. Depois pedimos a placa para a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE)”. O aluno da nona fase diz que o ponto nasceu como uma alternativa ao uso de carro no CCA. “A gente tinha um problema aqui no centro que era a grande quantidade de carros e poucas vagas para estacionamento. Mas em vez de arrumar vaga só para carros pensamos numa alternativa para evitar o automóvel. Com uma iniciativa dos estudantes e apoio dos professores, a gente pediu a placa”. Novo ranking garante a UFSC como a 4ª melhor universidade brasileira Fotos: José Wilson Gabriel afirma que o ponto é bastante utilizado, e nasceu como alternativa ao uso de carros Tempo de espera depende do dia Bruna, Patrícia e Angélica: espera dura, em média, de 20 a 30 minutos Bruna Bonaldo Genoário, aluna de Ciência e Tecnologia de Alimentos, Patrícia Rodrigues e Angélica Ferreira da Rosa, de Engenharia de Alimentos, contam que utilizam frequentemente o ponto de carona e falam que o tempo de espera depende muito do dia. Elas comentam que a demora fica entre vinte e trinta minutos, e que os professores sempre ajudam. “A gente pega carona para a Lagoa, pois moramos lá. Às vezes temos aula bem cedo, daí não dá tempo de esperar pela carona, mas quando temos aula depois das oito horas, acordamos às sete e conseguimos vir com amigos. Mas a volta para a casa normalmente é de carona”, explica Bruna. Edemar Roberto Andreatta, diretor do CCA, afirma que do ponto de vista da administração do Centro o ponto de carona cumpre sua função. “Foi uma iniciativa dos estudantes que agora funciona perfeitamente, inclusive com as caronas dadas pelos professores”. Da parte dos estudantes, Souza conta que todos ajudam, e explica como ele também passou a dar carona: “Estou há quatro anos e meio aqui; nos dois primeiros anos eu não tinha carro, e fiquei todo esse tempo indo e vindo todos os dias de carona. Depois eu comprei carro, mas eu não gosto de fazer esse percurso sozinho porque é perda de tempo. Hoje em dia eu dou carona. Tenho uma lista na última folha do caderno com uma divisão de caronas para a Lagoa e para o Rio Tavares”, finaliza. Vestibular 2012: divulgação dos aprovados traz risos e choro ao campus Alita Diana Jornalista na Agecom Em tempos de internet, um número grande de pessoas preferiu conferir as listas dos classificados do Vestibular 2012 diretamente do Ginásio de Desportos da UFSC Pais e filhos, professores, irmãos, namorados, amigos e até avós estavam lá para celebrar, abraçar, chorar junto, pular de alegria, receber um banho de farinha e os tradicionais ovos. O professor Julio Szeremeta, presidente da Coperve, disse que o concurso 2012 foi excelente, transcorreu tranquilamente sem nenhum tipo de problema. Os irmãos Whuiny Kallan de Almeida e João Carlos de Almeida Filho comemoraram a classificação para o curso de Engenharia Mecânica. Whuiny cursava Engenharia Sanitária e Ambiental na UFSC e João Carlos cursava o ESAI. Os dois são da Costeira do Pirajubaé, em Florianópolis, autênticos manezinhos da ilha. Luiza Harger da Silva comemorou com a mãe sua classificação para o curso de Arquitetura, e Lucas de Faria, classificado para o curso de Engenharia Civil, e o pai se abraçavam muito emocionados, assim como Shayane Resende Custódio, que dividiu a emoção e a alegria de passar para Enfermagem com sua mãe. Rita de Cássia da Silva, avó de Rafale Nicolazzi Silveira, veio ver o resultado para o neto que foi aprovado para o curso de Engenharia Sanitária e Ambiental. Ela transbordava de alegria, toda coberta de farinha de trigo. O professor Aureo Moraes, do curso de jornalismo da UFSC, foi às lágrimas com a classificação de seu filho Arthur Bobsin de Moraes para o curso de Direito. Foto: Cláudia Reis Arley Reis Jornalista da Agecom Fotos: Cláudia Reis A Universidade Federal de Santa Catarina passou à quarta instituição brasileira melhor qualificada na nova edição do Ranking Web of World Universities, o Webometrics. No levantamento publicado em janeiro é a segunda federal (veja tabela). Na classificação para a América Latina, em que figurava como sexta universidade, passou a quinta, e no posicionamento mundial também subiu, conquistando o 129ª lugar (na edição de julho de 2011 era a 240ª). Harvard University, Massachusetts Institute of Technology e Stanford University estão no topo do ranking. Entre as brasileiras, permanecem liderando a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O terceiro lugar passou da Universidade Estadual de Campinas para a Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). Disseminando o saber com excelência Webometrics é uma pesquisa realizada desde 2004 pelo Cybermetrics Lab, grupo de pesquisa do Conselho Superior de Investigações Científicas, ligado ao Ministério da Educação da Espanha. É publicado duas vezes por ano, nos meses de janeiro e julho. O instituto monta o ranking a partir da análise do material disponibilizado nos sites das universidades. Para os organizadores, a presença de uma instituição de ensino e pesquisa na internet é um indicativo de sua excelência e de seu comprometimento com a disseminação do saber. Na visão da pró-reitora de Pesquisa e Extensão da UFSC, professora Débora Peres Menezes, ainda que flutuações sejam constantes, rankings gerem polêmicas e devam ser vistos com cuidado, são importantes mecanismos de visibilidade das universidades. “O êxito neste novo ranking é significativo porque a UFSC está à frente de instituições importantes nacional e internacionalmente, como Unicamp, UFRJ, Unifesp, UFMG, UFV e UFLA”, considera o professor Adilson Luiz Pinto, do Departamento de Ciência da Informação, diretor do Núcleo de Apoio e Acompanhamento da Pró-Reitoria de Pesquisa e Extensão. Visibilidade dos portais da UFSC, especialmente dos repositórios institucionais e de periódicos científicos, administrados pela Biblioteca Universitária, influencia na colocação 10 primeiras universidades no ranking mundial 10 universidades brasileiras mais bem colocadas no ranking 1 - Harvard University 20 - Universidade de São Paulo (USP) 2 - Massachusetts Institute of Technology 71 - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) 3 - Stanford University 122 - Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) 4 - University of Michigan 129 - Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) 5 - University of California Berkeley 171 - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) 6 - Cornell University 184 - Universidade de Brasília (UnB) 7 - Michigan State University 193 - Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) 8 - University of Wisconsin Madison 206 - Universidade Federal do Paraná (UFPR) 9 - University of Pittsburgh 253 - Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) 10 - Carnegie Mellon University 358 - Universidade Federal da Bahia (UFBA) Influência dos portais Muitos candidatos conferiram as listas ao vivo Shayanne e a mãe comemoraram a vaga em Enfermagem UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 8 Rita de Cássia levou farinha pelo neto Whuiny e João Carlos comemoraram a classificação para Engenharia Mecânica Em sua avaliação, um dos principais motivos do posicionamento atual é a visibilidade dos portais da UFSC, especialmente dos repositórios institucionais (com informações gerais) e de periódicos científicos (administrados pela Biblioteca Universitária). Outro ponto importante é o papel que a web tem para a UFSC, universidade que adotou modelos de aulas a distância e semipresenciais, com conteúdos e programas atualizados. “Desde 2009, as instituições brasileiras ocupam destaque no cenário ibero-americano, representando aproximadamente 25% das mais importantes neste meio de divulgação de conteúdos informacionais”, complementa o professor, especialista em estudos métricos da informação (bibliometria, cienciometria, informetria e webometria). Posição na América Latina Posição no ranking mundial N° de instituições avaliadas Data Posição UFSC no Brasil 1/2012 (USP, UFRGS, Unesp, UFSC) 5 129 20.300 7/2011 (USP, UFRGS, Unicamp, UFRJ, UFSC) 6 206 20.000 1/2011 (USP, Unicamp, UFRGS, UFRJ, Unesp, UFSC) 7 240 12.000 8/2010 (USP, Unicamp, UFSC) 6 377 12.000 12/2009 (USP, Unicamp, UFSC) 4 134 6.000 11/2008 (USP, Unicamp, UFRJ, UFSC) 4 381 6.000 UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 9 Pelos direitos de ler Foto: Cláudia Reis Nubbel tem foco nas bibliotecas, mas prioriza principalmente os futuros leitores Cláudia Schaun Reis Jornalista na Agecom Para estimular a leitura desde a infância, o adulto deve propiciar às crianças bons momentos relacionados aos livros “Ois” e beijos estalados A Biblioteca Livre do Campeche (bairro de Florianópolis), chamada carinhosamente de Bilica, já foi tema de estudos do Nubbel em 2008. Naquele ano, contabilizava cerca de 850 usuários e aproximadamente 10 mil obras, a maioria adquirida por doação, e funcionava por meio do trabalho de voluntários. A acadêmica Aline Deschamps atuou junto à Bilica, no projeto de extensão “Organização do Acervo da Biblioteca Livre do Campeche”, com os objetivos de sistematizar a disposição e a procura do acervo e capacitar voluntários que já se dedicavam ao ambiente. “É fundamental a organização de bibliotecas comunitárias para a continuidade da educação escolar. Além disso, essa disposição também serve como estímulo para que a criança explore, sem receio, o acervo de outras bibliotecas”, defende Aline. Depois das obras catalogadas, os voluntários puseram em prática outras atividades, como a recitação de poesias, o Dia do Conto, as oficinas de mandala e origami e as aulas de espanhol. Outra biblioteca que mereceu a atenção do Nubbel foi a Monteiro Lobato. Localizada na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Florianópolis, o ambiente – que também se constitui numa brinquedoteca - passou por um processo de sistematização de seu acervo, contando inclusive com a colaboração do Núcleo de Processamento de Dados (NPD) da UFSC, que desenvolveu base de dados estruturada pelas professoras do CIN. Com a organização do acervo, surgiu a possibilidade de realizar as atividades de leitura para os alunos de algumas turmas da Associação. O início foi difícil: os estudantes se mostravam arredios, mas depois de duas semanas as bolsistas do projeto já recebiam beijos e abraços em retribuição. Ao fim do estágio as acadêmicas eram requisitadas também por outros docentes da Apae para que contassem as histórias às suas turmas. Débora Russiano Pereira e Marchelly Pereira Porto relembram a experiência. “Além dos conhecimentos adquiridos no Curso de Biblioteconomia - organizar, disponibilizar e atender o usuário -, o tempo passado na Apae nos proporcionou a riqueza de receber um muito obrigado, um sorriso, um abraço, o beijo estalado, a risada e os ´ois` na chegada ao Instituto”. Há uns 70 anos, a fotografia não era tão fácil de ser tirada como hoje. Os filmes eram caros e só as famílias abastadas possuíam uma máquina. Quem teve registros da década de 1930 ou 1940 possivelmente foi visitado por um fotógrafo que batia de porta em porta oferecendo seus serviços. Quando o “homem da máquina” chegava, as pessoas colocavam suas roupas mais bonitas – geralmente aquelas reservadas para a missa de domingo – e incorporavam uma postura solene, como se posassem para um pintor. Nessa mesma época, em Caratinga, Minas Gerais, o menino se aprontava para o raro ritual. Ao vê-lo pronto para o click, a mãe pediu que o companheiro do filho também aparecesse no retrato: mandou buscar seu livro de ilustrações, impresso em duas cores. O menino, conhecido como Ziraldo, completa 80 anos em 2012, já escreveu mais de 130 obras – a maioria para crianças, dentre elas o famoso O Menino Maluquinho – e conta que essa é a lembrança mais antiga que tem dos livros. A relação com a leitura, para a maioria das pessoas que gosta de ler, é um caso de paixão desde a infância. E para que esse sentimento aflore, os livros devem ser relacionados a bons momentos. “Muitas crianças ainda veem a biblioteca escolar como um ambiente enfadonho; se deixam de fazer a lição, a professora manda que fiquem de castigo na biblioteca, à procura de materiais para pesquisa; se decidem pegar um livro e atrasam a entrega, devem pagar multas. São poucas as associações positivas que valorizam a leitura”, explica a professora Magda Chagas, coordenadora do Núcleo de Biblioterapia, Bibliotecas Escolares e Leitura, o Nubbel. O Núcleo, criado pelas professoras Magda, Clarice Fortkamp Caldin e Araci de Andrade Hillesheim, todas do Departamento de Ciência da Informação (CIN), desenvolve suas atividades de pesquisa e extensão desde o ano 2000, e tem como foco não só as bibliotecas, mas principalmente os leitores, ou ainda, os futuros leitores. “Há um movimento nacional para que as bibliotecas sejam vistas como um corpo vivo dentro da escola, que tomem parte ativa no processo de aprendizado dos alunos”, completa Magda. Leitura fortalece espírito de equipe A Biblioterapia – que significa o cuidado com o ser, mediante a leitura de histórias - oferece disciplina específica optativa no Curso de Biblioteconomia desde 2003. Durante o semestre, são vistos conceitos, histórico, fundamento filosófico, objetivos, método biblioterapêutico e aplicações. “Os alunos, após o domínio do referencial teórico, elaboram um projeto e executam atividades de Biblioterapia em instituições - que atendem crianças, jovens, adultos e idosos - previamente selecionadas da comunidade”, explica a professora Clarice, que ministra a disciplina. Um dos projetos foi aplicado na ala pediátrica do Hospital Universitário. Várias eram as técnicas utilizadas: leitura de livros, contação de histórias com encenação, dedoches – fantoches animados por um só dedo - música, gravuras em cartolina ou em isopor, figuras fixadas em palitos, desenhos, máscaras, balões coloridos, bonecos e bichinhos de pelúcia. A professora ressalta que “existe de fato uma terapia por meio da leitura” e que as atividades realizadas “destacam o papel do bibliotecário como parceiro da equipe médica no processo saúde-doença em pacientes hospitalizados”. O relato do projeto, denominado “Biblioterapia para crianças internadas no Hospital Universitário da UFSC”, comprova a função da prática. “A hora da história era mágica: proporcionava uma viagem ao mundo do imaginário, onde bichos e fadas saltavam das páginas impressas e se misturavam aos meninos e meninas em um corredor de hospital. O desconforto e a dor cediam lugar às risadas ante as passagens divertidas da história, em que personagens inquietas transformavam o impossível em verossímel. O universo ficcional com princesas, palácios, dragões e animais falantes estabelecia um contraponto à realidade da criança. Naquele instante, abandonava-se a asséptica Sala de Recreação e embrenhava-se na floresta encantada cheia de perigos - e garantia-se, dessa maneira, a identificação com as personagens e o alívio das pressões emocionais”. O projeto alcançou resultados inesperados. “Com as sessões de Biblioterapia, as crianças foram estimuladas para a leitura. As alfabetizadas emprestavam livros e as menores pediam para que os acompanhantes lhes contassem histórias. Algumas chegavam a exigir um livro como presente, tanto dos pais quanto da equipe do projeto”. A professora Clarice também registrou outra experiência no artigo “Biblioterapia para a classe matutina de aceleração da E.E.B. Dom Jaime de Barros Câmara”, localizada na capital. A turma de aceleração dessa escola era composta por jovens de 14 a 24 anos, com dificuldades de aprendizado, histórico de repetência e evasão escolar. Por meio da Biblioterapia, foram propostas atividades paralelas: a escrita de uma história maluca, em que todos os alunos participaram, juntando pedaços de contos lidos e textos criados; a confecção de maquete com o tema da história O aguilhão do rei, e a encenação de uma peça teatral, O mágico de Oz. “A maquete fez sucesso e foi apresentada a todas as salas do Ensino Fundamental, servindo como pano UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 10 Em lugar do hábito , o prazer (Fragmento de ilustração do livro The Curious Gard en, de Peter Brown) de fundo para que os alunos da classe, que se revezavam, contassem a história. Foi uma situação atípica. Até os mais tímidos ingressaram na atividade e todos se sentiram valorizados perante as outras turmas”. A encenação trouxe resultado semelhante. “A peça foi apresentada no pátio da escola aos alunos de todas as turmas, professores e servidores. Foi um trabalho bastante elogiado. Durante os ensaios, procurou-se melhorar as atitudes, diminuir os ressentimentos e fortalecer o espírito de equipe”, relata a professora. A tônica do Nubbel é promover a leitura pela leitura, como ainda explica Clarice. “O ato de ler deve ser praticado de maneira prazerosa, desvinculado das abomináveis fichas de leitura. Procuramos atender aos ‘Dez direitos imprescritíveis do leitor’, estipulados pelo escritor francês Daniel Pennac: o de não ler, o de pular páginas, o de não terminar um livro, o de reler, o de ler qualquer coisa, o direito a se sentir o próprio personagem, o de ler em qualquer lugar, o de ler uma frase aqui e outra ali, o de ler em voz alta, e o de calar’”. A professora Magda completa: “leitura não é hábito, é prazer”. Foto: Cláudia Reis Ombudsman Imagem Vínculo com o leitor Ainda nos anos 60, o The Washington Post criou a figura do Ombudsman (termo emprestado do dicionário sueco, que remete a ouvidor ou representante da população). O diário espanhol El País foi pioneiro na Europa. No Brasil, o primeiro “jornalão” a ter um profissional pago – e com mandato - para fazer a crítica editorial, na função de representante do leitor, foi a Folha de S.Paulo, em 1989. O jornalista Caio Túlio Costa ficou um ano no cargo, que existe até hoje. Quase 23 anos depois da primeira experiência brasileira, o “defensor dos interesses dos leitores” ainda busca o seu espaço na imprensa. Por aqui, nos veículos catarinenses – com exceção da iniciativa do extinto AN Capital, com a coluna do jornalista Mário Xavier – a “participação” do público se resume à seção de cartas ou a esporádicos encontros com hora marcada. Acredito que a democratização da comunicação passa necessariamente pela ampliação deste espaço, que não pode ficar restrito a uma página no meio do caderno ou a uma breve interferência na programação. É preciso que a população tenha um papel ativo na definição das políticas públicas de comunicação, que encontre um fórum para dizer o que quer e possa ser ouvida e atendida nas suas reais necessidades de cultura, educação e entretenimento. Por si só já é louvável que a UFSC mantenha um mensário – já são 423 números! – que traduza e reflita o conjunto de posições, muitas vezes conflitantes, que interagem e habitam na universidade – como se viu na correta cobertura das eleições para a Reitoria, por exemplo. Melhor ainda que preserve uma coluna de Ombu- Fotos: Wagner Behr dsman, que permita a análise do conteúdo. Curioso é, no entanto, que os ocupantes do espaço se revezem a cada edição, por mais democrático que pareça, quando o ideal seria ter um titular que construísse um vínculo com o leitor e dele fosse o cúmplice e confidente. Da edição que me coube comentar, fazendo às vezes de Ombudsman, ressalto o bom trabalho da equipe da Agecom, que ganhou o reforço da jornalista Laura Tuyama. Nas principais matérias, aparece a tarimba do jornalista Paulo Clóvis Schmitz mesclada com o sangue novo injetado pelos bolsistas do Curso de Jornalismo. Como porta-voz dos leitores do JU faço eco à posição de alguns jornalistas que ocuparam este mesmo espaço: é necessário inovar o formato da publicação, tanto do ponto de vista gráfico quanto editorial, sem abrir mão desta mídia, fundamental no registro, expressão e divulgação do conhecimento e do debate produzido no âmbito da UFSC. Resta ainda ao JU avançar na oferta de uma edição online – muito além da simples conversão do arquivo impresso em PDF, missão da qual o atinado editor Moacir Loth já deve ter se incumbido. Valmor Fritsche Jornalista formado na UFSC em 1986 Crianças do Núcleo de Desenvolvimento Infantil (NDI) presentearam o reitor Alvaro Prata com autorretratos pintados em tela Livros do Vestibular 2013 falam do Contestado e do Modernismo no Brasil Paulo Clóvis Schmitz Jornalista na Agecom A passagem, em 2012, dos 90 anos da Semana de Arte Moderna influenciou a escolha das obras literárias para o Vestibular UFSC 2013. Entre os oito livros eleitos pela Comissão Permanente do Vestibular (Coperve) estão dois que marcaram o modernismo brasileiro na área da literatura: Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade (editora Agir), e Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade (Globo). Também a guerra do Contestado, conflito armado entre a população cabocla e os representantes do poder estadual e federal travado entre 1912 e 1916 em Santa Catarina, foi lembrada por meio da indicação do romance Geração do deserto, de Guido Wilmar Sassi (Movimento). Em 2012 este evento histórico completa 100 anos. O segundo autor catarinense incluído na lista é Silveira de Souza, com o livro de contos Ecos no porão, volume 2 (EdUFSC). Completam a listagem de livros indicados para o Vestibular 2013 a peça teatral Beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues (Nova Fronteira), o volume Poesia marginal (Ática), com poemas de Floripa, Buenos Aires e os cães Entremeando ícones do Brasil - mais especificamente da Ilha de SC - e da Argentina, a partir da mistura da bernunça, do mar, da capirinha e das ostras, e do tango e vinho tinto ao som de Gardel, os artistas plásticos Digo Tertschitsch (BR) e Patrícia Di Loreto (AR) trouxeram mais cor e alegria a uma das paredes do Departamento de Administração Escolar (DAE). A proposta da obra de 5m X 6m é integrar Florianópolis e Buenos Aires no circuito cultural do Mercosul em 2012, e trouxe também, no cantinho inferior esquerdo, uma homenagem à companheira Helga: nascida em 2003, ela se despediu da família de Digo na época em que o painel foi concebido. UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 11 Cacaso, Ana Cristina César, Paulo Leminski, Chacal e Francisco Alvim, e os romances Capitães da areia, de Jorge Amado (Companhia das Letras), e Memórias de um sargento de milícias, Manoel Antônio de Almeida. Este último é constantemente republicado por diversas editoras e está disponível no site do Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Linguística/Nupill/ UFSC (Literatura Digital/UFSC e Biblioteca Nacional Digital). Mais informações podem ser obtidas em http://coperve.ufsc.br/proximos-vestibulares/ e no telefone da Coperve: 48-3721-9200. Fusão para melhorar diálogo Resultado da fusão das Secretarias de Gestão e de Recursos Humanos, que deixam de existir, a nova Secretaria de Gestão Pública (Segep), do Ministério do Planejamento, vai ficar responsável pela gestão de pessoal na Administração Pública Federal e será conduzida por Ana Lúcia Amorim de Brito. Em linhas gerais, a Segep tratará, entre outras coisas, de formulação de políticas e diretrizes para a gestão pública, compreendendo as carreiras, remuneração, concursos, cargos em comissão e funções de confiança. Para Luiz Henrique Vieira Silva, pró-reitor de Desenvolvimento Humano e Social da UFSC, a mudança deverá promover uma relação “mais direta com os trabalhadores do serviço público federal. “Penso que vai ampliar e melhorar as condições de diálogo do Ministério com os vários órgãos do Governo”, resumiu. Foto: Jones Bastos A urgência poética de Rodrigo de Haro: multiartista lança livros de poesias Raquel Wandelli Jornalista na SeCArte Aos 72 anos, Rodrigo Antônio de Haro trabalha com paixão e afinco entre a palavra e a imagem. Empoleirado desde cedo em um andaime de alumínio no atelier de sua casa na Lagoa da Conceição, o multiartista executa uma grande tela de quatro metros quadrados para o altar-mor de uma Igreja em Curitiba depois de ter entrado a madrugada revisando os originais de seus dois novos livros de poesia. E assim o artista sai do cavalete e volta para a escrivaninha, criando, criando… “Dizem que nunca o artista é inteiramente humano”, bem fala o próprio Rodrigo no poema Invenção do olfato. O verso integra os dois volumes inéditos de poemas que o artista lançou pela Editora UFSC no dia 20 de dezembro, na Fundação Cultural Badesc, em uma noite de festa para a arte e a literatura. Espelho dos Melodramas e Folias do Ornitorrinco integram uma única e primorosa edição, embalados como um presente para o público desta fase de jorro criativo de Rodrigo, que tem mais cinco livros na gaveta. São obras manuscritas em folhas de papel amarelo onde o autor desenha e lapida poemas, contos, novelas, ensaios, que vão compor cadernos ilustrados com desenhos, envoltos na beleza e raridade de um pergaminho. Além da compreensão cada vez mais plural e aberta da vida e da arte, o peso dos anos só deu mais urgência a esse monge da arte, consagrado além das fronteiras do Estado e do País pela palavra, pela pintura e pela erudição. Com o “álbum duplo” de poesia, a Editora da UFSC encerrou um ano de grandes lançamentos e comemorou o aniversário de 51 anos da universidade. O menino artista de São Joaquim deixou a escola aos 16 anos para formar-se por conta própria aproveitando os estímulos dos pais, sempre mergulhados no mundo da sensibilidade e do conhecimento. Difícil encontrar uma expressão artística que ele não tenha experimentado: roteiro para cinema, novela, conto, poesia, aquarela, mosaico, pintura — até adaptações de literatura para rádio-novela ele fez. Foi integrante transgressor do grupo Litoral, que atuou em Santa Catarina no final dos anos 50, e do grupo de poetas (Roberto Piva, Cláudio Viller, Antônio Fernandes Franceschi) que consolidou o surrealismo no Brasil a partir dos anos 60 e se confrontou com a Ditadura Militar. Como uma das maiores expressões contemporâneas da arte brasileira, na avaliação do editor Sérgio Medeiros, seus poemas guardam uma musicalidade poética serena e trágica ao mesmo tempo: “Primeiro amar os dados,/tutores das moradas. Sempre/com malícia atirá-los/ sobre a mesa sem ocupar-se/de outras faces – Onde vais?/ Agito o copo,/atiro as pedras./Tantos tactos sono- /rosos trato – dados por/vertigem lado a lado./Furtar sem felonia,/ abrir última porta.” (Folias do Ornitorrinco) Retornando eternamente ao lar e ao mistério sagrado da vida, o filho do pintor Martinho de Haro e de Maria Palma produz sua arte de uma concepção sempre transversal sobre os seres e as coisas. O maldito e o sublime, o sagrado e o profano compõem uma única dimensão do presente, que busca sua força ontológica na tradição. Nesse tempo anacrônico do poeta, a ousadia estética se alicerça no legado clássico. “Sim, abre as janelas, as janelas cegas./Deixa cair a chuva misturada ao vinho/sabático da Beladona. Espia. Ouve/ os fatigados rios do mundo e saúda/Dona Urraca, a intrépida, girando/a chave do abismo”. (Espelhos do Melodrama). A palavra começa na alma Conforme rezam as escrituras sobre a cena bíblica, onde o apóstolo S. Pedro recebe de Cristo as chaves da Igreja, a mesma cena que inspirou artistas célebres como Velásquez: “…com estas chaves aquilo que ligares na Terra, será ligado nos céus; aquilo que desligares na Terra será desligado nos céus…”. Enquanto dá ao ramo de oliveira a última pincelada, Rodrigo fala sobre sua obra poética: - Que motivações éticas e estéticas têm movido a sua poesia? Todo poeta almeja cativar a matéria, dominar, fazer cantar a energia adormecida nas coisas. Precipitar a metamorfose das coisas é missão do poeta, conferir asas ao inanimado. A poesia, disse Balthazar Gracian, consiste em preservar o espanto: – o caderno alado que voa… - Como um multiartista, você desafia a manifestação mais recorrente entre os criadores, que é dominar bem apenas uma ou no máximo duas modalidades literárias e mesmo artísticas. E você transita pela poesia, conto, ensaio, novela e também por várias expressões das artes plásticas. Como é esse trânsito da literatura para as artes plásticas? Não acho que desafie. Acontece simplesmente que o mundo é um laboratório mágico, uma gruta de ressonâncias e apelos, onde se entremostram tentações e miragens. Nada é impossível para esta arte combinatória – a poesia – capaz de acordar (sim…) os mortos. Literatura, conto, ensaio e novela? É tudo poesia, se for de – fato coisa real. Sim, sou também pintor – logo desenhista. Apenas pintor e desenhista. Às vezes me aventuro no conto, é verdade. Tenho mesmo participado de algumas antologias até fora do país. O som, a palavra, começa na alma. Pois só a poesia é familiar do sagrado. - O mito, o sagrado, o inumano, a tradição, a memória… Esses elementos estão sempre gerando sua poesia e sendo gerados por ela… Você acredita que essas dimensões clássicas ainda ajudam a compreender a vida no mundo em que vivemos? Sim, uma certa tradição hermética me fecunda. Acredito que os valores do sagrado e só eles poderão salvar o mundo. Este mundo em que vivemos. É preciso reencantar o mundo através do apelo ao silêncio e também a outros ritmos compatíveis com a expansão do ser. O ético e o social devem expandir-se sem coerção, sem decretos, mas segundo o desabrochar da consciência de cada homem: pois todos sabemos de nossos deveres, todos podemos comunicar da mesma alegria. Basta abrir a porta. - Espelho dos Melodramas e Folias do ornitorrinco: como se pode falar dessas obras que você UFSC - Jornal Universitário - Nº 423 - Março de 2012 - PÁG 12 lança pela Editora da UFSC? E esses dois volumes de poesia acompanham Voz, Idílios Vagabundos e Lanterna Mágica, outros inéditos que produzi nos últimos tempos, neste voluntário recolhimento do Morro do Assopro. O primeiro deles representa minha adesão ao campo lírico, ao drama – pois trata (por vezes) do excesso, dos movimentos violentos ou dolorosos do espírito, mas com humor. Já Folias do Ornitorrinco obedece a um caráter sintético. São dois livros diferentes, mas compostos pelo mesmo homem. Estão próximos. - Como é sua rotina e o que o move ao trabalho artístico? Você se sente tomado por um sentimento de urgência de criação? Trabalho artístico ou simplesmente trabalho… Com o tempo, estabelecida a rotina, torna-se impossível fugir a ela. O trabalho de um atelier-escritório é riquíssimo. É tudo a fazer o tempo todo. Os quadros te arrastam para o cavalete, os cadernos sussurram nos ouvidos. Impossível aproximar-se do material sem ser de novo absorvido pelo visgo da invenção, do retoque, de alguma nova sugestão.