Silva LA et al. Artigo de Revisão Review Article Artículo de Revisión ENFERMAGEM DO TRABALHO E ERGONOMIA: PREVENÇÃO DE AGRAVOS À SAÚDE ERGONOMICS AND OCCUPATIONAL HEALTH NURSING: PREVENTION OF HEALTH DISORDERS ENFERMERÍA DEL TRABAJO Y ERGONOMÍA: PREVENCIÓN DE LOS PROBLEMAS DE SALUD Luiz Almeida da SilvaI Iara Aparecida de Oliveira SeccoII Rita de Cássia de Marchi Barcellos DalriIII Suely Amorim de AraújoIV Cristiane da Conceição RomanoV Sebastião Elias da SilveiraVI RESUMO: A adequação dos ambientes de trabalho relacionados à ergonomia é de fundamental importância para a saúde dos trabalhadores. Este estudo de revisão da literatura buscou caracterizar a produção científica sobre o tema e identificar os agravos à saúde dos trabalhadores relacionados à adaptação ao trabalho. Foram selecionados 23 artigos científicos, indexados na Scientific Electronic Library Online, Brasil, publicados entre os anos 2000 e 2008, a partir dos descritores: enfermagem do trabalho, engenharia humana, prevenção primária e saúde do trabalhador. Identificou-se como agravos à saúde decorrentes das situações ergonômicas: contusões, acidentes envolvendo exposição a materiais biológicos, lacerações, alterações posturais, desgaste físico das articulações, músculos e ligamentos, dores generalizadas, deformações ósseas, entre outras. A maioria desses agravos são passíveis de redução mediante ações preventivas, implementadas por empregados e empregadores, de forma a contribuir para a melhoria das condições laborais e de saúde dos trabalhadores. Palavras-chave: Enfermagem do trabalho; engenharia humana; prevenção primária; saúde do trabalhador. ABSTRACT ABSTRACT:: The ergonomic suitability of work environments is of fundamental importance to workers’ health. This literature review study aimed to characterize the scientific literature on the subject and identify the health hazards related to workers’ adaptation to work. A total of 23 scientific articles, published between 2000 and 2008 and indexed in Brazil’s Scientific Electronic Library Online, were selected on the basis of the main descriptors: occupational health nursing, human engineering, primary prevention, occupational health. The ergonomic-related health disorders identified included bruises, accidents involving exposure to biological material, lacerations, postural changes, physical wear on joints, muscles and ligaments, generalized pains, and bone deformations. Most of these disorders can be reduced through preventive action by employers and employees to contribute to improving working conditions and workers’ health. Keywords: Occupational health nursing; human engineering; primary prevention; occupational health. RESUMEN: La adecuación de los ambientes de trabajo relacionados a la ergonomía es de fundamental importancia para la salud de los trabajadores. Este estudio de revisión de la literatura buscó caracterizar la producción científica sobre el tema e identificar los problemas de salud de los trabajadores relacionados a la adaptación al trabajo. Fueron seleccionados 23 artículos científicos indeseados en la Scientific Eletronic Library Online, Brasil, publicados entre 2000 y 2008, a partir de los descriptores: enfermería del trabajo, ingeniería humana, prevención primaria y salud del trabajador. Se identificó como problemas de salud oriundos de las situaciones ergonómicas: contusiones, accidentes advenidos de exposición a materiales biológicos, laceraciones, alteraciones posturales, desgate físico de las articulaciones, músculos y ligamentos, dolores generalizados, deformaciones óseas, entre otras. La mayoría de esos problemas pueden ser reducidos mediante acciones preventivas implementados por empleados y empleadores, de manera a contribuir para la mejoría de las condiciones laborales y de salud de los trabajadores. Palabras clave: Enfermería del trabajo; ingeniería humana; prevención primaria; salud del trabajador. I Enfermeiro do Trabalho. Doutorando do Programa Enfermagem Fundamental, Saúde do Trabalhador, pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected]. II Pós -Doutorado em Enfermagem pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Professora da Universidade do Norte do Paraná. Enfermeira da Universidade Estadual de Londrina. Paraná, Brasil. E-mail: [email protected]. III Enfermeira do Trabalho. Doutoranda do programa Enfermagem Fundamental da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected]. IV Enfermeira. Mestre em Educação. Professora Titular da Universidade Federal de Uberlândia. Minas Gerais, Brasil. E-mail: [email protected]. V Doutoranda do Programa Enfermagem Fundamental da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected]. VI Enfermeiro. Especialista em Gestão Hospitalar. Mestrando pelo Programa de Geografia da Saúde da Universidade Federal de Uberlândia, Minas Gerais. Brasil. E-mail: [email protected] Recebido em: 17.08.2010 09/02/2010 – Aprovado em: 15.01.2011 27/08/2010 Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2011 abr/jun; 19(2):317-23. • p.317 Enfermagem do trabalho e ergonomia INTRODUÇÃO Trabalho refere-se ao empreendimento das for- ças e potencialidades humanas para alcançar um determinado fim e estabelecer certo domínio sobre a natureza1. É dotado de duas principais vertentes das quais os indivíduos proveem o seu sustento e o de seus semelhantes, produzem matéria prima para a sobrevivência da humanidade e criam tecnologias propiciando melhorias às condições de vida e saúde das populações, mas pode, também, causar agravos à saúde dos trabalhadores por meio de desgaste físico e/ou mental, expondo-os à perda da capacidade vital e, consequentemente, à perda ou diminuição da capacidade laboral com expressivas alterações pessoais e sociais. O processo de trabalho é realizado no campo do conflito entre capital e trabalho, com capacidade para gerar estratégias de valorização e resistência. Sendo a sociedade capitalista pautada pela lógica do lucro que se converte em principal motor da produção, há um processo de valorização, denominado mais-valia, que só pode ser realizado sob condições regulares, cujo significado é a produção de bens2. Tal processo possui o caráter de valorização e de acúmulo de capital3. Estudos que abordam condições de trabalho, maneiras de aumentar a produção de forma econômica, substituição de trabalhadores por máquinas sofisticadas e a diminuição de doenças entre eles têm sido realizados por vários estudiosos ao longo dos tempos; entre eles destacam-se aqueles realizados por Hipócrates (400 aC) sobre a origem de enfermidades que acometiam os trabalhadores de minas4. As condições de trabalho são representadas por um conjunto de fatores interdependentes, que atuam, direta ou indiretamente, na qualidade de vida de quem trabalha e nos resultados obtidos por eles. O homem, a atividade e o ambiente laboral são os elementos componentes da situação de trabalho5 e a ergonomia é o estudo científico da relação entre o homem e seus meios, métodos e locais onde realizam as atividades profissionais com o objetivo de elaborar um arsenal de conhecimentos multidisciplinares que, sob a perspectiva de aplicação, deve resultar em melhor adaptação dos meios tecnológicos e do ambiente de trabalho ao homem e à sua vida6. A realização desta pesquisa justifica-se por observar uma constante necessidade de alterações estruturais e administrativas nos locais de trabalho decorrentes de agravos à saúde dos trabalhadores, acidentes de trabalho, elevado número de absenteísmo e pedidos precoces de aposentadorias. Salienta-se que tais ocorrências, na maioria das vezes, podem ser evitadas por meio de propostas educativas e conscientizadoras elaboradas pelos enfermeiros do trabalho, visando à adaptação do trabalhador ao seu ambiente laboral. p.318 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2011 abr/jun; 19(2):317-23. Artigo de Revisão Review Article Artículo de Revisión É de suma importância que os profissionais conheçam os recintos onde desempenharão suas funções e os principais riscos inerentes a elas para se preservarem de possíveis riscos à saúde, bem como a busca, pelo enfermeiro laboral, de subsídios que os orientem e conscientizem das necessidades de prevenção. A possibilidade do surgimento de problemas de saúde decorrentes da inadequação ao trabalho é que determinou a realização deste estudo para caracterizar a produção científica sobre o tema e identificar os agravos à saúde dos trabalhadores relacionados à adaptação ao trabalho. REVISÃO DA LITERATURA Norma regulamentadora 17 O trabalho manual depende da força braçal que, às vezes, é exercida sem conhecimento de princípios ergonômicos, tais como postura e força a ser despendida além das alterações e danos à saúde inerentes ao trabalho. Em 1978, foi aprovada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) a Norma Regulamentadora 17 (NR-17) referente ao Capítulo V, Título II, da Consolidação das Leis do Trabalho relativa à Segurança e Medicina do Trabalho que, além de regulamentar as questões pertinentes à ergonomia, visa estabelecer parâmetros para a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, propiciando o máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente4. Especifica ainda as variadas modalidades de adequações do ambiente laboral ao trabalhador, como por exemplo, o transporte manual de cargas, adequação de mobiliários condizentes com a anatomia corporal e condições do ambiente de trabalho. Em seus anexos, traz considerações sobre trabalhadores de checkout, telemarketing e outros, bem como a necessidade de educação e conscientização dos princípios ergonômicos que precisam contar com o incentivo do empregador e o intenso comprometimento e conscientização dos profissioanis4. Portanto, esta norma deve ser conhecida e compreendida para facilitação da realização de atividades com saúde e segurança. O enfermeiro do trabalho É o profissional que possui especialização em enfermagem do trabalho7 e é incumbido de assistir os trabalhadores, promovendo e zelando pela sua saúde, incentivando a prevenção de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho e/ou prestando cuidados aos doentes e acidentados. Conforme denominado pelo MTE, o enfermeiro do trabalho executa atividades relacionadas ao serviço de higiene, medicina e segurança, integrando Recebido em: 09/02/2010 – Aprovado em: 27/08/2010 Silva LA et al. Artigo de Revisão Review Article Artículo de Revisión equipes de estudos com vistas à preservação da saúde e valorização do trabalhador. Compete a este profissional estudar as condições de segurança e periculosidade da empresa, efetuando observações nos ambientes laborais, discutindo-as com a equipe multidisciplinar do Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT) e identificando necessidades de melhorias em Segurança e Higiene do Trabalho. Deve elaborar e executar planos e programas de proteção à saúde dos trabalhadores, participar de grupos que realizam inquéritos sanitários, realizar levantamentos de doenças profissionais e lesões traumáticas, executar e avaliar programas de prevenção de acidentes e de doenças profissionais ou não profissionais entre outras atividades8. Na evolução da enfermagem do trabalho, o registro mais antigo é a contratação de Phillipa Flowerday, na Inglaterra, em 1878, para realizar visitas domiciliares aos trabalhadores e seus familiares desenvolvendo atividades preventivas9. No Brasil, o primeiro curso de especialização para enfermeiros do trabalho aconteceu em 1974, no Rio de Janeiro, quando ocorreu a inclusão do profissional na equipe de saúde ocupacional, através da portaria no 3.470/75, do Ministério da Saúde7. É, então, quando a enfermagem do trabalho começa a ser assumida como função específica dentro das empresas, exigindo deste profissional conhecimento clínico das alterações relativas à saúde provocadas pelo trabalho. É ele que identifica, elabora propostas e desenvolve ações preventivas no âmbito da atenção primária, por isso, está inserido nos mais diversos campos de atuação9. Estudos têm relatado melhorias nos ambientes de trabalho por meios preventivos, provenientes da ciência ergonômica. Tais evoluções podem ser visualizadas pelo adequado planejamento na distribuição de dispositivos e materiais, organização de mobiliários, iluminação adaptada, controle das condições de ruído, estruturação das atividades, inclusão de novos dispositivos de trabalho e/ou modificações naqueles já existentes. Todas estas ações são atribuições do enfermeiro do trabalho na atenção primária10. METODOLOGIA Para este estudo realizou-se revisão da literatura a partir de busca eletrônica por artigos científicos indexados na Scientific Electronic Library Online (SciELO) Brasil, publicados entre os anos 2000 e 2008. Utilizou-se como estratégia de busca os vocábulos constantes nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): enfermagem do trabalho, engenharia humana, prevenção primária e saúde do trabalhador. A busca ocorreu com palavras isoladas e não foi realizado cruzamento dos descritores. Foram encontrados 246 artigos que, após lidos seus resumos, foram Recebido em: 09/02/2010 – Aprovado em: 27/08/2010 selecionados 23 artigos para amostra final, os quais foram transcritos em fichas eletrônicas elaboradas de acordo com os objetivos propostos. Utilizou-se como critérios de seleção a disponibilidade na íntegra, a publicação nos idiomas Português e Espanhol, a relação direta com a enfermagem do trabalho e o uso de descritores referentes à ergonomia e saúde do trabalhador. Os dados de caracterização dos artigos foram submetidos à análise estatística e examinados de acordo com literatura específica. RESULTADOS E DISCUSSÃO Obedecidos os critérios de seleção e análise, os artigos demonstraram relação com a ergonomia, a enfermagem do trabalho e as medidas de prevenção primária desenvolvidas nos ambientes laborais, enfocando a promoção da saúde dos trabalhadores, conforme será discutido. Ver Figura 1. Caracterização dos artigos Verificou-se que os maiores números de publicações, isto é, 6(25%), ocorreram em 2007 e 5(20,8%) em 2002. Os anos 2000 e 2005 apresentaram igualmente 3(12,5%) publicações. Quanto ao sexo dos autores, 55(83,3%) eram mulheres, possivelmente em razão de o maior número de publicações se encontrar na área de enfermagem e sua categoria ser predominantemente feminina11. Apesar de os avanços na área da ergonomia representarem conhecimentos necessários e aplicáveis à saúde do trabalhador e os efeitos da sua não observância nos ambientes de trabalho acarretarem agravos físicos e mentais aos trabalhadores, ainda não se verificam muitos estudos nessa área da enfermagem do trabalho. Sabese, no entanto, que a globalização tem exigido da enfermagem a busca constantemente de meios de qualificação, comprovados pela abertura de cursos de pós-graduação em diversos Estados do Brasil, aumentando o nível e quantidade da produção científica. Na análise da formação profissional, verificouse que a maior parte dos autores é da área de enfermagem. Dos 66 autores identificados, 43(65,3%) são enfermeiros, 2(3%) estudantes de graduação em enfermagem, 13(19,7%) estão divididos entre engenharia, psicologia e medicina e não foi possível identificar a formação de 8(12%) autores. Quanto ao nível de formação, constatou-se maior número de publicações entre aqueles que possuem doutorado em enfermagem, totalizando 13(19,7%) dos autores. As publicações, cujos autores possuíam graduação e pós-doutorado, apresentaram resultados iguais, ou seja, 10(15,2%) cada um, fato possivelmente explicado pelo estímulo às iniciações científicas durante a graduação. Entre os autores detentores do título de mestre, encontraram-se 4(6,1%) publicações, Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2011 abr/jun; 19(2):317-23. • p.319 Enfermagem do trabalho e ergonomia Autor Elenita Z, Marziale MHP Marziale MHP, Robazzi MLCC Costa ES, Morita I, Martinez AR Baggio MCF, Marziale MHP Royas ADV, Marziale MHP Sarquis LMM, Felli VEA Abrahão JI, Pinho DLM Martino MMF Parada EO, Alexandre NMC, Benatti MCC Fischer FM, Teixeira LR, Borges FNS , Gonçalves MBL, Ferreira RM Gurgueira GP. Alexandre NMC, Corrêa HRF Nishide VM, Benatti MCC, Alexandre NMC Robazzi MLCC, Marziale MHP Murofuse NT, Marziale MHP Guimarães RM, Mauro MYC, Mendes R, Melo AO, Costa TF Almeida VCF, Damasceno MMC, Araújo TL Silva BM, Lima FRF, Farias FSAB, Campos ACS Leite PC, Silva A, Merighi MAB Magnago TSBS, Lisboa MTL, Souza IEO, Moreira MC Pinho DLM, Rodrigues CM, Gomes Glaicy P Socorro M, Barbosa A, Santos RM, Cristina M, Trezza SF Bouyer GC, Aznelwar LI Villarouco V, Andreto LFM Artigo de Revisão Review Article Artículo de Revisión Periódico Revista da Escola de Enfermagem da USP (REE–USP) Revista Latino-Americana O trabalho de enfermagem e a ergonomia de Enfermagem (RLAE) Cadernos de Saúde Percepção dos efeitos do trabalho em turnos sobre a saúde Pública (CSP) e a vida social em funcionários da enfermagem em um hospital universitário do Estado de São Paulo RLAE A participação da enfermeira do trabalho no programa de conservação auditiva RLAE A situação de trabalho do pessoal de enfermagem no contexto de um hospital argentino: um estudo sob a ótica da ergonomia REE-USP Acidentes de trabalho com instrumentos perfurocortantes entre os trabalhadores de enfermagem As transformações do trabalho e desafios teórico- Estudos de psicologia metodológicos da ergonomia Estudo comparativo de padrões de sono em trabalhadores Revista Panamericana de Salud Pública de enfermagem dos turnos diurno e noturno RLAE Lesões ocupacionais afetando a coluna vertebral em trabalhadores de enfermagem CSP Percepção de sono: duração, qualidade e alerta em profissionais da área de enfermagem Título Avaliação da postura corporal dos trabalhadores de enfermagem na movimentação de pacientes acamados Prevalência de sintomas músculo-esqueléticos em trabalhadoras de enfermagem Ocorrência de acidente do trabalho em uma unidade de terapia intensiva A Norma Regulamentadora 32 e suas implicações sobre os trabalhadores de enfermagem Doenças do sistema osteomuscular em trabalhadores de enfermagem Fatores ergonômicos de risco e de proteção contra acidentes de trabalho: um estudo caso-controle Saúde do trabalhador de saúde: análise das pesquisas sobre o tema Jornada de trabalho: fator que interfere na qualidade da assistência de enfermagem A mulher trabalhadora de enfermagem e os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho Distúrbios músculo-esqueléticos em trabalhadores de enfermagem: associação com condições de trabalho Perfil dos acidentes de trabalho no hospital universitário de Brasília A vida do trabalhador antes e após a lesão por esforço repetitivo (LER) e doença osteomuscular relacionada ao trabalho (DORT) Enação e processo de trabalho: uma abordagem atuacionista da ação operatória Avaliando desempenho de espaços de trabalho sob o enfoque da ergonomia do ambiente construído Ano 2000 2000 2000 2001 2001 2002 2002 2002 2002 2002 RLAE 2003 RLAE 2004 RLAE 2004 RLAE 2005 Revista Brasileira de Epidemiologia Revista Brasileira de Enfermagem (REBEN) Texto e Contexto Enfermagem REE-USP 2005 REBEN 2007 REBEN 2007 REBEN 2007 Revista Gestão & Produção Revista Produção 2007 2005 2006 2007 2008 FIGURA 1: Artigos pesquisados, publicados entre os anos 2000 e 2008, Brasil. (N=23). mostrando, talvez, que estão na fase inicial de produção científica, conforme mostra a Tabela 1. Observou-se não haver identificação específica dos enfermeiros do trabalho nas publicações, o que dificulta a análise da quantidade e qualidade das publicações desses profissionais. p.320 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2011 abr/jun; 19(2):317-23. Agravos à saúde e adaptação ao trabalho A organização e a adequação do ambiente de trabalho constituem-se em medidas essenciais para a prevenção de agravos à saúde aos trabalhadores, por meio de adequações ergonômicas. Recebido em: 09/02/2010 – Aprovado em: 27/08/2010 Silva LA et al. Artigo de Revisão Review Article Artículo de Revisión TABELA 1: Distribuição do nível de formação profissional dos autores dos artigos publicados entre 2000 e 2008, Brasil. Nível de Formação f % Graduando em enfermagem Graduação em enfermagem Graduação em engenharia agrícola Graduação em engenharia de produção Especialista em enfermagem Mestrando em enfermagem Mestre em enfermagem Doutorando em enfermagem Doutorado em enfermagem Doutorado em psicologia Doutorado em medicina Pós-doutorado em enfermagem Não relatado 2 10 4 4 2 2 4 2 13 1 4 10 8 3,0 15,2 6,1 6,1 3,0 3,0 6,1 3,0 19,7 1,5 6,1 15,2 12,0 To t a l 6 6 100,0 A análise dos artigos e demais publicações evidenciaram que são várias as alterações da saúde dos sujeitos relacionadas à falta de adaptação ao trabalho. A falta de atenção às condições ambientais laborais causa sobrecarga, fatalidades e precariedade das condições de trabalho, ocasionando lesões e danos frequentes em variadas regiões do corpo, geram problemas osteomusculoarticulares, outros ferimentos perfurocortocontusos, lacerações, feridas, contusões, entre outros12, 13. Nos ambientes hospitalares, há vários fatores ergonômicos associados aos problemas ambientais e organizacionais que podem ter relação com a ocorrência de alterações osteomusculares, tais como recursos tecnológicos e mobiliários inadequados, falta de equipamentos especiais para movimentar pacientes, escassez de recursos humanos e a falta de treinamento. Neste contexto, os profissionais de enfermagem são os mais susceptíveis14,15. Em estudo realizado com trabalhadores de enfermagem, relacionando acidentes de trabalho e ergonomia, as autoras relataram que os acidentes ocorridos durante a deambulação eram consequentes de piso escorregadio e em alguns casos, também, do uso de propés. Ao amparar pacientes em queda, os profissionais, além de segurá-los para não sofrerem queda, precisam suspendê-los e colocá-los novamente no leito, forçando excessivamente a coluna, devido ao peso do paciente e à postura inadequada. Essa situação demonstra a falta de adaptação ao exercício profissional que aumentam os riscos dos acidentes16. Queixas de problemas de saúde, relacionadas ao aparelho osteomuscular, representam uma das maiores causas de sofrimento nos profissionais de enfermagem, conforme relatado nos estudos, sendo que esses valores assumem proporções maiores entre as mulheres. Fator que se justifica não somente pela fragilidade biológica Recebido em: 09/02/2010 – Aprovado em: 27/08/2010 inerente ao gênero feminino, mas, em especial, pela sua inserção social no mundo do trabalho e por exercer dupla ou até tripla jornada de trabalho15,17. Entre as variadas alterações referidas, as principais são relacionadas a movimentos violentos e irregulares e a posturas forçadas do corpo, razões suficientes para que a estrutura física da máquina vital fique tão comprometida que, progressivamente, são desenvolvidas doenças graves8. Na falta de adaptação ao trabalho, os sintomas resultantes nos trabalhadores podem ser os mais diversos possíveis, tais como dores musculares, lombares, no ombro, punho, região cervical, entre outros10. Estudo realizado na cidade de Rifaina, interior do Estado de São Paulo, avaliou 34 costureiros que informaram dor e desconforto musculoesquelético. Destes, 32(94%) apresentavam-se sintomáticos e a maior parte deles, no desenvolvimento de atividades diárias, se via obrigada a procurar ajuda de profissionais de saúde para atendimento e uso de analgésicos, causando, com isso, limitações e possível absenteísmo18. Destaca-se que as alterações osteomusculares não são provenientes apenas das más condições de trabalho; sofrem influências características individuais dos trabalhadores, como posturas inadequadas, predisposição genética, obesidade, relação com a atividade, que podem levar a alterações na saúde 10. Citam-se, nesse contexto, as doenças osteomusculares relacionadas ao trabalho (DORTs) e lesões por esforços repetitivos (LER)14. Estudos sobre as LER/DORT evidenciam que os fatores de risco decorrentes do trabalho, mais comumente citados, como determinantes do aparecimento da doença, são biomecânicos, nos quais há movimentos e posturas de risco que caracterizam a carga fisiológica, podendo estar presentes nos mais variados momentos da atividade laboral, e psicossociais, nos quais há pressão emocional no trabalho, baixa autonomia, competitividade, entre outros14. A carga de estressores mentais possui importante influência no desenvolvimento de dores musculares anteriormente atribuídas apenas ao levantamento de peso, adoção de posturas inapropriadas e trabalho repetitivo19. Embora não sejam doenças recentes, as LER/DORT vêm assumindo caráter epidêmico, sendo patologias crônicas e recorrentes, de terapia difícil, gerando incapacidade para a vida que não se resume apenas ao ambiente de trabalho20. Em estudo realizado com 53 trabalhadores de enfermagem, de uma clínica materno-infantil, quando questionados sobre dores lombares, 43(81%) apontaram esse item como problema de saúde, dos quais 23(43%) provocados pelas condições ocupacionais e 17(32,1%) informaram que os sintomas foram agravados pelas condições de trabalho21. Estudo realizado com trabalhadores do Supremo Tribunal de Justiça de Alagoas mostrou que são muitas Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2011 abr/jun; 19(2):317-23. • p.321 Enfermagem do trabalho e ergonomia as alterações dessa natureza sofridas pelo referido grupo. Além disso, soma-se a penosidade de se submeter a tratamentos longos, resultados lentos e incertos, além de submissão às perícias médicas, encarregadas de realizar os questionamentos sobre a real gravidade do quadro clínico apresentado. Esses aspectos levam ao aumento do absenteísmo e consequentes afastamentos, que poderiam ser reduzidos através de meios preventivos10. Quanto à temperatura ambiente, quando não confortável, provoca indisposição e fadiga, diminuindo a eficiência, aumentando os riscos de acidentes em virtude do calor ou frio e mesmo da insolação excessiva em extensas jornadas de trabalho. Sabe-se, também, que na área hospitalar, onde existem temperaturas extremas, quente ou fria, podem prejudicar o desempenho dos trabalhadores e desenvolver agravos8. Neste estudo não foi possível identificar publicações específicas dos enfermeiros do trabalho, havendo apenas a identificação de enfermeiros, o que dificulta inferir os avanços da categoria na pesquisa e publicação sobre a saúde dos trabalhadores. Ressalta-se que uma das limitações do estudo foi a consulta a uma única base de dados, havendo com isto a restrição de periódicos de enfermagem e, consequentemente a produção da área, o que estimula a realização de estudos mais abrangentes para dar seguimento à temática. CONCLUSÃO Por esta pesquisa pôde-se demonstrar a preocu- pação com a temática da saúde do trabalhador intensificada atualmente, haja vista a realização de diversos estudos por profissionais de diferentes níveis de formação e qualificação. Verificou-se maior número de publicações nos anos de 2007 e 2002, sendo produzida por autoras enfermeiras, com nível de doutorado. A partir dos 23 artigos selecionados, identificou-se como sendo agravos à saúde decorrentes das situações ergonômicas: as contusões, acidentes envolvendo exposição a materiais biológicos, lacerações, alterações posturais, desgaste físico das articulações, músculos e ligamentos, dores generalizadas, deformações ósseas, entre outras. A maioria dos quais tem possibilidade de redução e controle mediante ações preventivas implementadas por empregados e empregadores, de forma a contribuir para a melhoria das condições laborais e de saúde, com a conscientização e conhecimento do ambiente laboral. A prevenção primária é função principal da enfermagem do trabalho, pois, através dela, é possível evitar danos à saúde que podem ocorrer entre os trabalhadores. A inserção do enfermeiro do trabalho na equipe de provedores da saúde do trabalhador é, certamente, grande conquista tanto para os empregados quanto para os profissionais da enfermagem que têm a responsabili- p.322 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2011 abr/jun; 19(2):317-23. Artigo de Revisão Review Article Artículo de Revisión dade de zelar pelo bem-estar das pessoas, independente de condições sociais ou posições no mercado de trabalho, contribuindo, assim, para a melhoria das condições laborais no seu ambiente de trabalho. REFERÊNCIAS 1. Ferreira ABH. Mini Aurélio. Dicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: Positivo; 2008. 2. Laurell AC. La construcción teórico-metodológica de la investigación sobre la salud de los trabajadores. In: Laurell AC, organizadores. Para la investigación sobre la salud de los trabajadores. Washington (DC): OPAS; 1993. 3. Laurell AC, Noriega M. Processo de produção e saúde: trabalho e desgaste operário. São Paulo: Hucitec; 1989. 4. Reis RS. Segurança e medicina do trabalho: normas regulamentadoras. São Caetano do Sul (SP): Yendis; 2008. 5. Marziale MHP, Carvalho EC. Condições ergonômicas do trabalho da equipe de enfermagem em unidade de internação de cardiologia. 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