.
.
.�.�••
--------...
_---..
........
..
------------------- ,..._
r
�
I
i
,
i!
!
RAQUEL BELLO VÁZQUEZ
Ullíl'ersidad dI.:' Santiago de COII/poste/a, Gmpo Ca/abra
Ifu
A CORRESPONDÊNCIA NA SEGUNDA METADE DO
SÉCULO XVIII COMO ESPAÇO DE SOCIABILIDADE
I
OFFPRINT or ROMANCE NOTES, VOLUME XLVIII, NUMBER I
fi
2007
A CORRESPONDÊNCIA NA SEGUNDA METADE DO
SÉCULO XVIII COMO ESPAÇO DE SOCIABILIDADE!
RAQUEL BELLO VÁZQUEZ
o
trabalho que aqui apresentamos foi efectuado a partir de estudos
anteriores de um corpus concreto que responde a umhas condiçons de
produçom particulares (referimo-nos ao epistolário conservado e até
agora localizado da Condessa de Vimieiro e da futura Marquesa de Alor­
na, que tem sido objecto de vários trabalhos já publicados e outros em
fase de preparaçom, cartas trocadas entre duas mulheres, aristocratas
durante o último terço do século XVIII).' Mas, para além destas especifi­
cidades, tentaremos abstrair conclusons aplicáveis à correspondência
trocada entre agentes do campo das letras de maneira geral para o perío­
do em foco, e nom só, porque a troca epistolar tem subsistido a pesar do
desenvolvimento de outros meios de cOIDlmicaçom à distáncia e tem-se
transformado nos últimos anos no que se refere ao seu suporte, mas fiom
no que diz respeito à sua funçom.
Antes de mais queremos explicitar e matizar alguns conceitos teóri­
co-metodológicos que nos parecem essenciais para a compreensom da
nossa proposta:
-Começamos pala expressam «campo letras,» etiqueta que utiliza­
mos a falta de um termo melhor para designar, servindo-nos para esta
definiçom da que Bluteau (1712-1728) dá no seu dicionário para a pala­
vra letras, o campo da produçom de textos referidos às «Sciencias, [e à1
I Umha primeira versam deste trabalho foi apresentada ao Colóquio «Formas e Espa­
ços de Sociabilidade. Contributos para uma História da Cultura em Portugal,» organizado
pola Universidade Aberta e celebrado em Lisboa entre os dias 24 e 26 de Maio de 2006.
2 Sobre este assunto, vejam-se os trabalhos de Teresa Almeida 2005 e 2007, Vanda
Anastácio 2004, 2005 e 2007 e Raquel Bello Vázquez 2005 (a, b, c) e 2007.
79
80
ROMANCE NOTES
Erudição, assim nas humanidades, corno nas sciencias especulativas.»3
Como é bem sabido, o sociólogo francês PielTe Bourdieu (1992), no seu
trabalho As Regras da Arte, coloca a emergência do campo literário na
segunda metade do século XlX, momento a partir do qual se regista a
existência de condiçons de independência deste campo. Concordando
fundamentalmente com esta análise, encontramos o problema de identi­
fieaçam de um cmnpo de lutas em épocas mais recuadas e concretamente,
palo que à nossa pesquisa diz respeito, na segunda metade do século
XVIII. Tendo constatado que o próprio vocábulo literatura se encontra em
reformulaçom nesta altura (Bello Vázquez, 2005a: 21-33), e que, regra
geral, as produçons escritas (tanto ficcionais como doutrinais, científi­
cas, históricas, etc.) som percebidas palas contemporáneos como fazen­
do parte do mesmo tudo, inclinamo-nos palo termo letras, mais geral na
produçom setecentista. Entendemos que, faltando novas revisons, este
termo serve para englobar o que em ocasions é designado por «belas
letras,» «boas letras» ou «letras humanas,» assim con10 também a pro­
duçom científica, lnantendo-se diferenciado do mais específico «campo
literário» que, como foi indicado, se refere a um cmnpo concreto que
surge numha época mais moderna e que está caracterizado pala sua pró­
pria independência a respeito do campo do poder, condiçom que, como
é sabido, flom se verifica no século XVIII, e por Uluha definiçom que
exclui as produçons científicas e doutrinais.
-Por outro lado, encontramos a dificuldade de definir a correspon­
dência ou a produçom epistolar objecto do nosso estudo, dada a abran­
gência do conceito. Nom nos referiremos neste trabalho a toda a corres­
pondência, entendida esta como todas as cartas escritas por todas as
pessoas ou instituiçons com todas as finalidades possíveis, mas de maneira
particular a aquelas escritas palas agentes do campo das letras e, em
3 Reformulamos assim a nossa própria proposta de 2005a (21-33), em que nos incli­
návamos palo termo «campo intelectual.» Achamos agora que «campo das letras,�� ao
recolher umha denominaçom própria do período em foco exprime melhor do quc «inte­
lcctuab� as particularidades do campo, evitando a identificaçom das funçons dos seus
agentes com as do intelectual que emerge a partir da segunda metade do século XIX, tal e
como é definido por Pierre Bourdieu em As Regras da Arte. Sobre a apariçom da figura
do intelectual e sobre as suas funçons na segunda metade do século XIX em Portugal,
veja-se o estudo introdutório, da responsabilidade de Alberto Ferreira, ao segundo volu­
me da compilaçom de textos da chamada «Questão Coimbrã�� (Ferreira e Marinho, 19661979: Bom Senso e Bom Gosto (11 Questão Coimbrã); Lisboa: Portugália. 2.a Bd. (19851989); Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 4 vols.).
A CORRESPOND
81
ciírta medida também, do campo do poder. Por aqueles que som desig­
nados por Itamar Even-Zohar, em substituiçom do conceito mais
... . . c:on oUlu de intelectuais, como «idea-makers.»4 Nom nos interessarám
por isso, aqui, aqueles estudos que se referem aos usos da carta por par�
te de o1:ltros sectores sociais, mas só a definiçom de um espaço epistolar
em que os já referidos «fabricadores de ideias,» intervenhem desenhando
ou fortalecendo redes de relacionamento e promovendo repertórios de
carácter diverso. Excluiremos também da nossa análise outro tipo de pro­
duçom epistolar que parece mais evidentemente destinada para o público,
como as cartas abertas ou as cartas apologéticas (sobre as funçons deste
modelo epistolar concreto, remetemos para o estudo feito por Elias
Torres Feijó [2005] sobre as Cartas Apologéticas de Margarida Gertrudes
de Jesus e a sua polémica com o Padre Amador do Desengano).
Como indicámos, o campo das letras do século XVIII tenl umhas
especiais que condicionam o seu estudo e o corpus que
aracterísticas
�
geve ser recolhido e analisado para a sua compreensom. Assim, como
foi posto em evidência para o caso francês palo investigador norte-ame­
ricano Robert Darnton, o estudo dos circuitos de ediçom clandestina
som fundamentais para perceber a aparente incoerência entre os livros de­
el"ra,los nos catálogos bibliográficos privados e os conhecimentos COllS­
.taláveis por outras vias em relaçom com a difusom de determinados tex­
tOB fundamentais na conformaçom do pensamento literário e político da
Ilustraçom (para a justificaçom da nossa escolha do termo Ilustraçom
frente ao mais comum Iluminismo, remetemos para Raquel Bello Váz­
quez [2005bD. Igualmente, tem sido assinalada a necessidade de estudar
prlllanuscríto nom apenas conlO rareza do passado supervivente na Galá­
xia Gutemberg, mas como meio consciente e eficaz de difusom de
ideias e também de textos ficcionais (veja-se, por exemplo, neste mes­
mo sentido, Roger Chartier 1984 c 1991). A correspondência para este
periodo, portanto, e faltando ainda um maior apuramento metodológico,
�Il�j��
... .
<,
É
Ê
NCIA NA SEGUNDA METADE DO S CULO XVIII
",»,;;"'llta[nar Even-Zoha� (20?5: 210), na sua última compilaçom de artigos acessível
no
..
prc,fescsor da Umvel:sldade de}elavive afirma «at various stagcs of my work, it
.
·.·;;;.;.sér:m,:d me that the famlhar term mtellectuals" could be used. with some modifica��� :�::;�de n�o te tha t particular brand ofpeople who are capable of designing new options
,
.
, �
r
aeescentan
do a scgmr (p. 211): «it is therefore that I suggest leaving the
� ;;� �
�,
to 1he market use, and henceforth refer to the type of actars I am dis­
the hardly elegant yet clcar tenn "idea-makers-as-options-devisers," ar
shorb�
�;• •.•• ••
82
ROMANCE NOTES
julgamos que deve ser posta em relaçom com a utilizaçom do manuscri­
to e da produçom clandestina, pois tanto umha como o outro devem ser
estudados como um dos principais espaços para o desenvolvimento da
opiniom pública, que, andados os anos, terá o seu lugar na imprensa
periódica. Sobre a conformaçom da opiniom pública em Portugal neste
mesmo período, remetemos para o trabalho de José Augusto dos Santos
Alves (2000): A Opinião Pública em Portugal (1780-1820); Lisboa:
Universidade Autónoma.
O estudo da correspondência, tem-se centrado em duas vertentes
fundamentais: por um lado, na sua dimensom de documento única ou
prioritariamente informativo - isto sobretudo no ámbito dos estudos his­
toriográficos, mas também sociológicos ou antropológicos (por exemplo
em Arletle Farge e Michel Foucault (1982) ou em Ana Lnisa Rodrigues
(2005) -, ou bem, por outro, na sua dimensom alegadamente literária­
caso disto para o espaço português é o trabalho referencial de Andrée
Rocha (1985). Para umha crítica a esta focagem literária veja-se Nuno
Monteiro (2000), que no prólogo à sua ediçom das cartas do conde de.
Assumar a seu pai o marquês de Aloma afirma que «algumas vezes se
tem debatido a escassez, não só de livros de memórias, mas também de
epistolários, como uma marca peculiar da cultura portuguesa. Para além
de outras considerações, parece que tal discussão decorre, em larga
medida, da aplicação de critérios prevalecentemente literários à identifi­
cação das existências. De facto, apesar das conhecidas destruições de
manuscritos, designadamente as que decorreram do Terramoto de 1755,
a relação dos textos já impressos e a pesquisa dos fundos disponiveis,
mesmo se incidindo apenas sobre os que se encontram depositados em
instituições públicas, revela sem excessivo esforço a relativa abundância
de tais registos, designadamente de Seiscentos e o primeiro de Setecen­
tos, palo menos se nos ativermos a critérios historiográficos e não pro­
priamente literários» (pp. 9-10).
Propomos urnha abordagem da correspondência na segnnda metade
do século xvrn que, sem deixar de parte o seu valor informativo, tenha
também em conta a sua dimensom como lugar de encontro e intcrcámbio
social. A carta, além de um meio de comunicaçom ou de transmissom de
noticias, é também um espaço de encontro para determinados elementos
ou grupos sociais em funçom da sua pouca acessibilidade fisica mútua,
mas nom só, porque as ligaçons epistolares poderám servir para identifi­
car grupos (embora nom seja um critério único nem exclusivo) e para
Ê
A CORRESPOND
É
NCIA NA SEGUNDA METADE DO S CULO XVIII
83
:,;'evidenciar publicamente, no momento da sua produçom, relaçons entre
:indiví
i <!uCIS ou grupos, com a sua conseqüente utilizaçom nas di ferentes
'(t!)mad,\s<!e posiçom tanto no campo das letras como do poder.
A utilizaçom da correspondência como corpus e fonte tanto para o
';',;tuldodasociabilidade como para os estudos culturais e de história das
lldeias, assim como a definiçom de um espaço epistolar coloca alguns
;pJ'Oblenlas metodológicos importantes que tentaremos expor aqui como
·.;�'''.ljlrirr,eÍl·o passo para avançar nas suas possíveis soluçons. Como é fácil
;: pre,rer, dado o fraco suporte físico da correspondência, a documentaçom
cpnservadarelativa a qualquer agente do campo individualmente, assim
'.c,)mOa um grupo nunca será completa e, portanto, o seu estudo dificil;{imente será sistemático. Para os casos individuais, determinados perio­
podem estar mui bem documentados enquanto para outros podemos
i;l)o,;suir poucos ou nengum documento. Igualmente, as circunstáncias
;l:íodl'm ter sido benéficas para a conservaçom da comunicaçom com
<álgufuIla,das pessoas suas correspondentes, enquanto as missivas envia­
outra ou outras pode ter desaparecido completa ou parcelannente.
obriga-nos a ter cautela na avaliaçom do número de cartas, das
;l!'d'lJrmaç'Dns nelas contidas e das pessoas representadas na documenta­
existente, utilizando, sempre que possível, outros elementos (como,
'!'f'.Orc e,:enlplo, outras correspondências, memórias, diários, etc.) para deSel\!u'r.<;orre,;tam,mte os grupos existentes no campo das letras, as rela­
entre os elementos de cada grupo, entre grupos diferentes, os
Ql11e,cti'vos de cada um deles, assim como o seu grau de sucesso.
"iii;P'or.oultro lado, mesmo quando ultrapassados estes problemas, deve­
wij :f có'DsideJrar que o espaço epistolar tem algumhas características pró­
(ainda que provavelmente nom exclusivas) que condicionam a utii�;li:iaçID111 das illformaçons contidas nas cartas preservadas. Para o periodo
;i'",mtOICO, as cartas som manuscritas, o que nos coloca perante
os proble­
gerais da interpretaçom e/ou transcriçom e, portanto, da Ínterven­
da conseqüente manipulaçom por parte do investigador. 19ual­
,me, 'SOIll textos nom sujeitos a correcçom editorial e susceptív
eis por
isso:rlle:smo de conter incoerências e inexactidons involuntárias ao lado
procuradas palo autor o antora (pense-se, por exemplo, para
f<;l,se��UlJ,do caso, na típica utilizaçom de miciais substituindo os nomes
l�híÍe"soas. além de, como como é lembrado freqüentemente polos
edi­
epistolários, mensagens cifradas e códigos só conhecidos palas
t!í,rlo<:ut,on>s). Fmalmente, encontramos um outro problema que nom
84
ROMANCE NOTES
achamos menor, e é que a carta é um testemunho subjectivo e interessado
que visa a elaboraçom de umha determinada imagem das pessoas impli­
cadas na troca, e, simultaneamente, a promoçom de repertórios.
Este último parece-nos um dos elementos fulcrais na cornunicaçom
epistolar e na definiçom do que chamamos espaço epistolar. Num tra­
balho anterior (Bello V ázquez, 2005c) tivemos ocasiom de comprovar
através de um epistolário concreto que as cartas trocadas entre agentes
do campo das letras raramente tinbam umha funçom exclusivamente pri­
vada. Em ocasions a dupla dimensom (semi)público/privado vem dada
palas condiçons do campo do poder (pensemos, por exemplo, em situa­
çons políticas de restriçom ou inexistência de direitos individuais, em
que as cartas som abertas sistematicamente ou flom por agentes do cam­
po do poder), mas em muitas outras som as próprias condiçons do espa­
ço epistolar, impostas palas pessoas que se correspondem as que confe­
rem à carta umha dimensom pública procurada. Com «públicO» nom
nos referimos, obvialnente, a um público alargado como aquele que
pode ser visado por um texto impresso ou por um manuscrito que é feito
correr de forma aberta ou clandestina, mas à transcendência do próprio
objecto fisico da carta e dos seus conteúdos para além das pessoas estri­
tamente envolvidas na correspondência e do seu espaço privado.
Isto faz-nos mudar a maneira de estudar a carta como documento do
corpus de um estudo. Palas características apontadas tanto em negativo
como em positivo (carências da carta como documento histórico mais
ou menos objectivo, por um lado, utilizaçom estratégica por parte dos
seus autores ou autoras, por outro), entendemos que a leitura da carta
(ou o estudo do espaço epistolar) deve centrar-se menos na procura de
infonnaçons objectivas sobre acontecimentos e mais na procura de in­
formaçons sobre as lutas e as relaçons produzidas no campo. Se bem as
informaçons nem sempre podem ser admitidas como verazes, os ele­
mentos ideológicos e estéticos contidos, os indícios referentes ao rela­
cionamento com outros agentes do campo, e a própria lógica interna de
um dado conjunto de cartas dentro do espaço epistolar e do campo das
letras, podem ser sempre estudados com resultados úteis e benéficos.
O/A agente do campo, consciente e promotor da dimensom pública
da carta, utiliza este espaço em vários sentidos. Um deles, é efectiva­
mente, como espaço de sociabilidade, em que se produzem trocas galan­
tes ou se reforçam laços de família e amizade. Mas, como em outros
espaços de sociabilidade (a assembleia, a academia, o café, etc.) também
Ê
Ê
A CORRESPOND NCIA NA SEGUNDA METADE DO S CULO XVIII
85
no espaço epistolar se produzem outro tipo de trocas. O/A <ddea-makem
coloca na carta, ao dispor do seu grupo, novos elementos repertoriais
que pretende promover e divulgar, enquanto outros agentes do campo
seus associados ou aliados, também através das suas correspondências,
fazem chegar esses elementos de repertório a lugares/pessoas estratégi­
cos para a sua possível aplicaçom. Com isto queremos assinalar que,
obviamente, nom todas as pessoas com participaçom no campo de pro­
duçom de produtos intelectuais podem entrar na categoria definida por
Even-Zohar no conceito «idea-maker,» mas os outros agentes também
participam na promoçom dos novos repertórios, e nesta promoçom, o
espaço epistolar desenvolve umba funçom fundamental.
Pode-se argumentar que o limitado alcance que tem o espaço episto­
lar em termos quantitativos reduziria ao anedótico a importáncia desta
circulaçom de ideias, já que se o objectivo perseguido é a difusom, a
carta nom parece o lngar mais apropriado (neste sentido, a funçom dos
produtos culturais como os literários ficcionais, musicais, etc. é, com
certeza, mais evidente). Em contra deste argumento, podemos esgrimir,
novamente, as investigaçons de Itamar Even-Zohar (2005: 207), que tem
demonstrado que a imposiçom sucedida de novos repertórios a grupos
humanos depende a final de um grupo pequeno de indivíduos (entre
«idea-makers» e os seus aliados), estrategicamente colocados no campo
da produçom cultural e no campo do poder:
Against the background of this, when in need of new options, along the variables
described in the previous passages, most people are not equipped with lhe necessary
capabUities lo provide them. It has always been the task of a "small dedicated group of
thoughtful" people (to use Margaret Mead's famous expression) to get engaged in the
busincss of thinking, generating ar providing alternative or unprcccdentcd new options.
These had to do with such disparate elements as family relations, gender roles, social
hierarchies, principIes of government and social management and organization, methods
of writing and the making of texts, as well as thc dorncstication of animaIs and crops.
E ainda (Even-Zohar, 2005: 207-208):
More oftcn than not, thesc are peoplc who, by assuming powcr - normally as part of a
group, even when power eventual1y concentrated in their own hands - have been able lo
carry out their ideas. These ideas often touched upon many aspects of life, and if they
were involved not only in exercising power, but aIso in designing unpreccdcntcd ar altcr­
native options, they surcly can be viewed as dedicated makers of future practices, thereby
proliferating the stock of options made available to their group and contributing to its
86
Ê
Ê
A CORRESPOND NCIA NA SEGUNDA METADE DO S CULO XVIII
ROMANCE NOTES
succcss. As sueh, thcy certainly contributed to the making af the cultures lhat shaped tife
for the groups under their contraI. They also made it their business to laud themselves for
these acts, even when the ideas did not necessarily originate from their own heads. Inter­
estingly, these cfforls have often beco successful, as wc can dctcct acccpted idcas in the
cammon lore ofmany groups around the globe abolit the contributions ofthesc outstand­
ing sometimes legendary - individuaIs. It is anIy dirnly scnsed sometimes behind the
available explicit records that thesc individuais had in their group people with the privi­
lege afcriticizing thero and suggesting new aptions to them.
_
Qual é um dos problemas que encontramos para realizar este estudo?
Fundamentalmente o desconhecimento dos
para que poderárn ser uti­
cor
lizados. A historiografia tem dado prioridade no seu estudo às cartas
escritas por agentes da primeira ordem no campo do poder, e os estudos
literários tenhem-se ocupado quase em exclusiva das correspondências
trocadas entre pessoas que ocupam um lugar destacado no cánone5 Mas
temos que dizer que em muitas ocasions, as pessoas que desenvolvem um
papel mais importante como <ddea-makers»
ou corno promotoras de
ideias nom estárn enquadradas em nengurnha destas duas categorias.
As nossas propostas, a modo de conclusom, som:
I)
considerar o espaço epistolar como mais um dos espaços sociais
que devem ser tidos em conta no estudo nom apenas da história literária,
mas também da história da cultura e das ideias. Deveremos considerar o
87
espaço epistolar como um dos lugares de encontro (como as academias,
os cafés, etc.) que possibilitam o convivio e a troca de ideias, assim
corno o estabelecimento de vínculos estratégicos de cooperaçom entre
os elementos dos diferentes campos da cultura e do poder. Embora as
nossas conc1usons emanem de um trabalho de pesquisa concreto realiza­
do no quadro temporal do século XVIII (com umhas condiçons particula­
res que determinam a funçom da correspondência) entendemos que a
consideraçom da correspondência como um espaço de sociabilidade
pode ser extendido a outros períodos históricos, incluído o presente.
2) O espaço
epistolar, igual que a assembleia, a tertúlia, a academia,
etc. tem umha importante funçom nom apenas no estabelecimento ou
fomento de alianças mas também no ensaio, promoçom e divulgaçom de
ideias. Embora se costume entender a carta como ° meio de comunica­
çom entre dois indivíduos, é óbvio que isto nem sempre é assim. Conhe­
cemos cartas endereçadas a grupos de várias pessoas, cartas que se colo­
cam no correio sabendo que serám abertas (em tempos de vigiláncia
policial apertada) ou lidas por pessoas a quem supostamente nom este­
jam destinadas (nos epistolários que conhecemos som freqüentes as refe­
rências à leitura das cartas a outras pessoas, à leitura em voz alta, e som
conhecidos casos de cópia e difusom de cartasfarmalmente pessoais).
Ainda naqueles casos em que o conteúdo da carta é endereçado a umha
pessoa individual por um meio seguro que garante a sua confidencialida­
S Por citarmos só alguns exemplos do dito, indicamos as seguintes ediçons ou estudos
de epistolários: Filipe Ribeiro de Meneses (2005): Corresp'ondênci� �ipl�mática irl�n�e­
,
sa sobre Portugal, o Estado Novo e Salazar: 1941-1970; LIsboa: Mllllsteno
dos NegoclOs
Estrangeiros: Instituto Diplomático; Adelino Cardoso, Maria Luísa Ribeiro Ferreira
(2001, orgs.): Medicina dos afectos: corre!.pondência entre Descartes e a Princesa E�isa­
beth da Boémia; Oeiras: Celta; traduçom de Inês Cardoso, Paulo de Jesus; Aude VIaud
(2001, cd.): Correspondance d'un Ambassadeur Castillan au Portugal dans tes an�ées
1530; [Lisboa]: Fundação Calouste Gulbenkian: Centre Culturel Calouste Gulbenkmn;
Maria Filomena Mónica (2000, ed.): Correspondência entre D. Pedro V e seu tio, o Prín­
cipe Alberto; Lisboa: ICS: Quetzal; transcriçom, trad. e notas das cartas do príncipe
Alberto de Dagmar Steinlein da Mata Reis; trad. das cartas do rei D. Pedro V de Ruben
Andresen Leitão; Fernando Moreira (1998, ed.): Correspondência política de José Lucia­
no de Castro (1858-1911); Lisboa: Quetzal, 1998; Duarte Ivo Cruz (1995, cd.): Almeida
Garrett. Correspondência inédita do arquivo do Conservatório: 1836-1841 [Lisboa]:
Impr. Nac.-Casa da Moeda; Ana Vicente (1992): Portugal visto pela Espanha: correspon­
dência diplomática 1939-1960; Lisboa: Assírio e Alvim; Luís de Albuquerque (1989,
ed.): Cartas de D. João de Castro a D. João III [Lisboa]: Alfa.
Como excepçom ao indicado, assinalamos ainda a ediçorn da correspondência da
Condessa de Rio Maior realizada por Maria Filomena Mónica (2004): Isabel. Condessa
de Rio Maior correspondência para seusfilhos, 1852-1865; Lisboa: Quetzal.
de, e que nom é lida a nengurnha outra pessoa, o espaço epistolar pode e
é com freqüência utilizado para dar a conhecer ideias (repertórios) que
serám posteriormente divulgadas pala pessoa destinatária através do
mesmo espaço epistolar ou bem através de outros espaços de sociabilida­
de bem conhecidos ou através da produçom de produtos culturais.
3)
Por último, embora poda ser argumentado que a correspondên­
cia é um meio de comunicaçom estritamente íntimo, e que só com pos­
terioridade à morte das pessoas implicadas é que as cartas transcendem
para um público mais geral, o que negaria até certo ponto a existência de
um verdadeiro controlo dos conteúdos por parte do autoria no que deno­
minamos espaço epistolar, julgamos essencial o controlo que os agentes
do campo das letras exercem sobre a correspondência antes e depois da
sua morte. Conhecemos abundantes casos em que os herdeiros recebem
ordens estritas em relaçom com o epistolário legado (incluindo a queima
de todos ou de umha parte dos documentos que o componhem), em que
as cartas som arquivadas e ordenadas em vida do seu autor ou da sua
r
•
I
88
I
ROMANCE NOTES
autora, em que som reclamadas ao(s) seu(s) destinatário(s) ou destinatá­
ria(s), em que os rascunhos em poder da pessoa que os escreveu som
corrigidos e emendados depois de terem sido enviados, etc. (remetemos
tas da Condessa de Vimieiro ao espólio da Casa da Fronteira). Propo­
mos, portanto, que o espaço epistolar é utilizado palas autores e autoras
de cartas para o desenho autoconsciente da imagem pública do agente
XIX,
será considerado o
intelectual, imagem desenhada através da participaçom e das tomadas
de posiçom realizadas em todos os ámbitos públicos, e nos quais lenhem
umha especial releváncia os espaços de sociabilidade.
UNIVERSIDAD DE SANTIAGO DE COMPOSTELA,
GRUP O GALABRA
BIBLiOGRAFIA CITADA
Almeida, Teresa. «Tratados epistolares do século XVIII. Teoria e prática na correspondên­
cia de Cheias.» Correspondências (Usos da Carta no século xvm). Ed. Vanda Anastá­
cio. Lisboa: Colibri, 2005: 25-32.
Almeida, Teresa. «Lília e Tirse.» Cartas de Lília e Tirse. Ed. Vanda Anastácio. Lisboa:
Colibri, 2007: XXV-XL.
Anastácio, Vanda. «Perigos do livro: (apontamentos acerca do papel atribuído ao livro e à
leitura na correspondência da Marquesa de Alorna durante o período de encerramento
cm CheIas,» Românica: Revista de Literatura, n.o 13 (2004): 125-141.
. «D. Leonor de Almeida Portugal: as cartas de CheIas.» Correspondências (Usos
da Carta no século XVIII). Ed.Vanda Anastácio. Lisboa: Colibri, 2005: 45-54.
--- (ed.). Cartas de Lília e Tirse. Lisboa: Colibri, 2007.
Bello Vázquez, Raquel. «Uma certa ambiçaõ de gloria.» Trajectória, Redes e Estratégias
---
de Teresa de Mel/o Breyner nos Campos Intelectual e do Poder em Portugal (17701798). Santiago de Compostela: Universidade, 2005a.CD-Rom.
Mulhel; Nobre, Ilustrada, Dramaturga. Teresa de Mello Breyner no Sistema Lite­
rário Português (1788-1795). Bertamiráns: Laiovento, 2005b.
---o
«Privacidadc c publicidade: a correspondência pessoal como forma de interven­
çom nos campos intelectual e do poder.}} Correspondências (Usos da Carla no século
XVIII). Ed. Vanda Anastácio. Lisboa: Colibri, 2005c: 71-83.
«Quem é Teresa de Mello Breyncr.}} Cartas de Lília e Tirse. Ed. Vanda Anastá­
cio. Lisboa: Colibri, 2007: XLI-LV.
Bluteau, Raphael: Vocabulário Portuguez & Latino; Autorizado com Exemplos dos Mel­
hores Escritores Portuguezes e Laanos. Coimbra: Collegio das At1es da Companhia
de Jcsus, 1712-1728: 8 volumes e 2 suplementos.
Bourdieu, Pierre. Les regles de ['art. Genêse ef struclure du champ littéraire. Paris: Seuil,
1992.
---o
---o
!
I
I
I
!
I
I
I
89
Chartier, Roger. Les usages de l'imprimé. Librairie Artheme Fayard. 1984. Trad. POltu­
gucsa Ida Boavida. As Utilizações do Objecto 1mpresso (Séculos xV-XL\). Algés: Difel,
1998.
Correspondance. Les lIsages de la lettre au XIX' siêcle. Librairic Anthême Fayard,
1991.
Darton, Robert. Bohême littéraire el révolution. Le monde des livres au XVlfle siêcle.
Paris: Gallimard/ Le Seuil, 1983.
Evcn-Zohar, Itamar. Papers on cultural research. http://www.tau.ac.iJ/-itamarczl worksl
booksIEZ-CR-2005.pdf,2005.
Fargc, Arlctte e Michel Foucault. Le désordre des familles: leUres des archives de la bas­
filie au XVllf s;ec/e. Paris: Gallimard, 1982.
Monteiro, Nuno G. Meu Pai e Meu Senhor Muito do Meu Coração: Correspondência do
Conde de Assumar, para Seu Pai, o Marquês de A/orna. Lisboa: Instituto de Ciências
Sociais: Quetzal, 2000.
Rocha, Andrée. A Epistolograi
f a em Portugal. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moe­
da, 1985. 2.a Edição.
Rodrigues, Ana Luísa. Aos Olhos do Mundo Inteiro: Portugal e os Portugueses Retrata­
dos por Correspondência. Lisboa: [s. n.], 2005, Tese de Mestrado cm Ciências
Sociais apresentada à Universidade de Lisboa através do Instituto de Ciências So­
ciais. Texto policopiado.
Torres Fcijó, Elias. «Cartas apologéticas, cartas polemistas. As Cartas Apologéticas de
Gertrudes Margarida de Jesus. Argumentaçom e inovaçom.}} Correspondência (Usos
da Carta no século XVlll). Bd. Vanda Anastácio. Lisboa: Colibri, 2005: 223-254.
�._-.
para Vanda Anastácio [2006] para umha explicaçom da chegada das car­
do campo das letras, do que, a partir do século
Ê
Ê
A CORRESPOND NCIA NA SEGUNDA METADE DO S CULO XVIII
Download

A correspondência na segunda metade do século XVIII como