A LITERATURA BRASILEIRA E O SURGIMENTO DA PROPAGANDA*
Juliana Costa Nahool1
Orientador: Adolfo Carlos F. Queiroz**
RESUMO
Este trabalho tem o objetivo de abordar a história da Publicidade no Brasil, tratando sobre
a importância que escritores e poetas da Literatura tiveram na nossa propaganda e em seu
desenvolvimento. Também será discutido sobre a contribuição que eles deram no estilo de
nossa redação publicitária, refletindo sobre a modificação da mensagem seca de vendas por
uma mensagem que tivesse envolvimento com a cultura brasileira.
PALAVRAS-CHAVE
Propaganda; Literatura; Redação Publicitária.
1
Graduando no curso de Bacharelado em Publicidade e Propaganda pela Faculdade Integrada Alcântara
Machado, Faculdade Metropolitanas Unidas (FMU). E-mail: [email protected]
* Trabalho elaborado a partir do Livro Redação Publicitária de João Anzanello Carrascoza.
** Professor do Curso de Publicidade e Propaganda na Matéria de História da Comunicação.
2
1. INTRODUÇÃO
No século XIX, a redação publicitária foi feita por contribuição dos poetas e
escritores brasileiros e foi algo fundamental e definitivo para transformar a nossa
publicidade no que ela é hoje. Segundo João Anzanello Carrascoza, em seu livro Redação
Publicitária: Estudos sobre a retórica de consumo (2003, p. 65),
“Não são poucos os escritores e poetas no Brasil que eventual ou regularmente
colocaram seu talento a serviço da publicidade. Desde os primeiros versos
criados para divulgar produtos e serviços nos meados do século XIX até os dias
de hoje, é marcante a participação de nossos literatos na galeria daqueles que
redigiram anúncios, folhetos, spots, jingles, comerciais e todo tipo de peças
publicitárias."
Os literatos contribuíram para a formação da nossa linguagem publicitária,
empregando a Literatura para fins publicitários, produzindo peças literárias, dentre elas,
inúmeros poemas, em uma relação em que a Literatura colocou-se a serviço da
Publicidade. Cada trecho que um poeta escreveu para um anúncio representa muito na
história de nossa Propaganda e acabou tornando-se peça fundamental para que ela
evoluísse de maneira que conquistasse o mundo inteiro, através de peças premiadas nos
principais festivais do setor.
O termo Propaganda utilizado neste artigo vai exerce o papel de sinônimo de
Publicidade, definido pelo Aurélio como “técnica de exercer ação psicológica sobre o
público com fins comerciais ou políticos; propaganda”.
Este artigo visa discutir e informar claramente a importância que escritores e poetas
tiveram na história da Propaganda, refletindo sobre a atuação desses, e verificando a
contribuição dos literatos na forma de escrever para redação publicitária no Brasil.
A escolha desse tema se deve ao fato de que, apesar da enorme importância que os
literatos tiveram na publicidade brasileira, este é um campo de estudos ainda a ser
explorado e com um crescimento contínuo. Constam apenas rápidas passagens em
capítulos de livros que narram à história da nossa Propaganda.
Neste artigo será feito um trabalho de revisão, pesquisando bibliografias que falem a
respeito da História da Propaganda Brasileira, redação publicitária e livros de Gramática e
Literatura. Além de bibliografias que tragam a história de autores que foram marcantes
para a publicidade como Monteiro Lobato, e o livreto Jeca Tatuzinho, Olavo Bilac, Bastos
Tigre e outros.
3
2. COMEÇO DA CONSTRUÇÃO DA PROPAGANDA BRASILEIRA
Com o avanço atualmente da profissionalização da Publicidade, temos redatores
renomados na criação de uma peça, e já os literatos não são tão cogitados quanto
antigamente. Mas torna-se indispensável saber trabalhar a linguagem assim como faziam
os escritores e poetas que redigiram anúncios importantes da história da propaganda
brasileira ao lado de artistas plásticos e pintores.
“Aviso a quem é fumante
Tanto o Príncipe de Gales
Como o Dr. Campos Salles
Usam Fósforo Brilhante”
(CARRASCOZA, 2003, p. 67).
Embora visando à venda de um produto este texto “Fósforo Brilhante”, não foi
escrito por nenhum de nossos renomados redatores publicitários. Foi escrito por Olavo
Bilac2, um dos poetas mais requisitados na época pelos anunciantes.
Apesar de quase sempre o tom daquela época ser exagerado, características
marcantes de nossa Publicidade, como a rima, que pode ser observada facilmente na
propaganda dos fósforos acima descrita, figuras de linguagem e o humor, foram dentre
outras, contribuições nos dadas por nossos escritores e poetas.
Nos séculos XIX e início do século XX, em comparação aos dias de hoje o contato
das pessoas com a mídia era muito restrito, hoje as pessoas passam um tempo enorme,
segundo Kellner (2001, p.11) “ouvindo rádio, assistindo à televisão, freqüentando cinemas,
convivendo com música, fazendo compras, lendo revistas e jornais, participando dessas e
de outras formas de cultura veiculada pelos meios de comunicação”. Já naquele tempo
limitava-se, a anúncios em revistas, jornais e placas de bondes, além de merchandising nos
teatros públicos. Porém, por parte das empresas já havia uma grande demanda para
conquistar os clientes e mostrar seus produtos, e não havia pessoas específicas para tal fim.
No Brasil a primeira agência a funcionar só foi surgir, por volta de 1913 ou 1914, em
São Paulo, e era denominada Eclética. Ocorreu a implantação do escritório de propaganda
da GM no Brasil em 1926. E somente em 1929 veio a N.W. Ayer, a primeira agência
americana a se instalar no país.
2
Olavo Bilac (1865 – 1918) nasceu no Rio de Janeiro, estudou Medicina e Direito, mas não concluiu nenhum
dos cursos. Exerceu as atividades de jornalista e inspetor escolar, tendo devotado boa parte de seu trabalho e
de seus escritos à educação. Foi defensor da instrução primária, da educação física e do serviço militar
obrigatório. Patriota, escreveu a letra do Hino à Bandeira e dedicou-se a temas de caráter históriconacionalista. (CEREJA, 2000, p. 277)
4
Eram contratados escritores que tinham renome na literatura brasileira para
compensar essa falta de profissionais na área. Segundo Maurício Silva em seu artigo
Literatura e Publicidade no Pré-Modernismo Brasileiro: uma Introdução (2006), os
“poemas-reclame” se espalhavam em periódicos e jornais da época invadindo “os limites
até então invioláveis da arte, como que profanando, aos olhos dos mais conservadores e
puristas, a aura sagrada da literatura”. O fato de que a propaganda envolveu-se em
praticamente todos os gêneros também chama atenção, “da poesia ao romance, do teatro à
crônica, da novela ao conto” reflete o autor.
De acordo com Silva, os literatos eram vistos como “detentores de um discurso
portador de credibilidade” e utilizavam dessa imagem para benefícios profissionais
oferecidos pela publicidade, pois ela dava visibilidade ao autor, expandindo até mesmo a
divulgação de seus livros.
Para os escritores era muito vantajoso escreverem textos com fins publicitários.
Sendo assim, ganhavam as empresas e ganhavam os poetas que, além de dinheiro,
ganhavam mais visibilidade e prestígio.
O clima de guerra é outro fato que é muito importante comentar - causado pela
Primeira Guerra Mundial que durou de 1914 até 1918 - instaurado no mundo, que pedia
um tom nacionalista aos nossos anúncios, influenciou a publicidade brasileira. Então, era
importante que fossem escritos por pessoas inseridas totalmente em nossa cultura.
Entre a guerra e a publicidade brasileira, um exemplo da relação pode ser observado
no Governo de Wenceslau Braz (1914 – 1918), onde Olavo Bilac, filho de militar e
plenamente aceito nos meios civis, dirigiu uma campanha aos locais de concentração de
filhos das elites civis e às faculdades de direito e medicina, e pregou o fim do “divórcio
monstruoso” entre Exército e povo. Argumentava “O Exército seja o povo e o povo seja o
Exército, de modo que cada brasileiro se ufane do título de cidadão-soldado”.
(CARVALHO, 2005, p. 23).
Na seção seguinte sobre a História da Propaganda será articulado de que forma ela
foi se firmando no mercado brasileiro, a fim de mostrar em que momento poetas como o
Olavo Bilac começou a participar dessa história.
5
2.1. A HISTÓRIA
A história da propaganda remonta a tempos antigos. Gilmar Santos em Princípios da
Publicidade (2005) comenta a respeito da existência de formas promocionais desde a préhistória. Os trogloditas ao querer comunicar que dispunham de peles de animais para trocar
por outros utensílios, colocavam as peles nas entradas das cavernas, o que era uma forma
de chamar atenção dos que passavam.
Já Everardo P. Guimarães Rocha, em Magia e Capitalismo: um estudo
antropológico da publicidade (1995, p. 48) cita que existiam elementos de publicidade já
no século XVI, ao criarem os símbolos das casas comerciais na Inglaterra, “como a peruca
para barbearia e cabeça de boi para um açougue”. Rocha completa com informações a
respeito de um papiro sobre a fuga de um escravo, que data do ano 1000 a.C que parece ter
sido o primeiro escrito e que “quem redigiu aquela mensagem parece ter sido o primeiro
redator de publicidade no mundo”.
No Brasil essa história vem surgir há cerca de 200 anos. O primeiro anúncio “surgiu
em 1808, com o aparecimento da Gazeta do Rio de Janeiro: „Quem quiser comprar uma
morada de casas de sobrado com frente para Santa Rita, fale com Joaquina da Silva, que
mora nas mesmas casas... ‟” (CARRASCOZA, 1999, p.65).
Nas mídias impressas foi a partir de 1900 que ele se tornou algo constante.
Importante ressaltar que na época, grande parte da população se encontrava com problemas
de saúde, e o país tinha condições sanitárias extremamente precárias. Junto a isso o tipo de
propaganda mais forte no Brasil, nesse começo de século, era sobre remédios para
combater a sífilis e outras doenças. Daí a frase que diz: “Brasil: um vasto hospital”.3
Se em outros países, como nos Estados Unidos, a redação começou com os
vendedores, aqui os escritores já começaram por cima, se distanciando das mensagens
secas de vendas, o que tornou os anúncios extremamente populares.
Passamos por muitas etapas até chegarmos à definição de publicitários que Rocha
cita como “um grupo de homens com um conhecimento „científico‟ do que vão fazer e
com capacidade „artística‟ para expressar as conclusões dos „estudos‟ e „pesquisas‟ parece
ser a imagem que o mundo exterior deveria, idealmente, possuir do publicitário” (1995, p.
51).
3
Referência disponível em: http://www.acontecendoaqui.com.br/pp_hist.php. Acesso em: 02 Junho 2007.
6
2.2. A INFLUÊNCIA DA LITERATURA DOS POETAS NA HISTÓRIA
DA PROPAGANDA BRASILEIRA
Nos primeiros passos dessas etapas, no Brasil, os poetas foram o que chamamos hoje
de free lancers4 da redação publicitária.
O poeta latino, Virgílio, sob a encomenda de um imperador de Roma, foi o primeiro
escritor que se colocou a serviço da propaganda. O fim era convencer as pessoas a
voltarem a trabalhar no campo, já que estava acontecendo uma superlotação nas cidades.
Por volta de 1850, no Brasil, Casemiro de Abreu, foi quem deu início à utilização
dos literatos pelos anunciantes, criando a publicidade para o Café Fama.
Ah! Venham fregueses!
E venham depressa!
Que aqui não se prega
Nem logro nem peça.5
A ele se seguiram muitos outros como, Emílio de Menezes, Hermes Fontes,
Guimarães Passos, Basílio Viana, Lopes Trovão. Até mesmo Augusto dos Anjos fez
inúmeras propagandas em versinhos, com muita repercussão. Uma delas foi esta, para uma
loja de roupas:
Nesta cidade onde o atraso
Lembra uma cara morfética
Fez monopólio da estética
A Loja do Rattacaso6
Olavo Bilac foi o que de todos, mais participou dos textos publicitários de sua época,
chegando a participar, dentre outros poetas, em 1908, de um concurso de cartazes
publicitários, com a utilização de poesia para o xarope contra tosse, Bromil.
O xarope, cujo slogan garantia a “cura da tosse em 24 horas”, lançou propagandas
em versos redigidos. Além de Bilac, que através de testemunhos em jornais e revistas
afirmava ter se curado de problemas no pulmão graças ao uso do xarope, encontra-se
também Bastos Tigre, outra grande influência literária em nossa propaganda.
Como poeta, Bastos Tigre criou há 85 anos, na Semana de Arte Moderna de 1922,
um dos mais famosos slogans da propaganda brasileira, “Se é Bayer, é bom”, que é
reconhecido pelo consumidor até os dias atuais.
4
Profissional autônomo, que se emprega em diferentes empresas, atuando de forma independente.
5 O FARINHA dagua Disponível em: <http://ofarinhadagua.blogspot.com/>.
6
O FARINHA dagua Disponível em: <http://ofarinhadagua.blogspot.com/>.
7
Em Campanhas Inesquecíveis: propaganda que fez história no Brasil (2007), da
editora Meio e Mensagem, temos um retrato da história do slogan da Bayer no Brasil, onde
cita que os primeiros registros de anúncios com o slogan são da década de 30, publicados
em revistas como O Cruzeiro. Já a primeira produção audiovisual data de 1958 e foi
transmitida no cinema – colorido e em animação – mostrando uma família na praia que era
engolida por uma baleia e lançados de volta pelo jato d‟água característico do animal.
Nesse momento toda a família começa a sofrer de fortes dores renais e entra a locução
indicando o remédio Hermitol. O comercial era finalizado por vozes em coro citando o
slogan “Se é Bayer, é bom”.
Segundo Nelson Cadena, em seu artigo Uma epopéia na propaganda (2006), Bastos
Tigre chegou a escrever, numa de suas campanhas, uma paródia do poema épico Os
Lusíadas de Luís de Camões. A campanha foi intitulada de Bromilíadas e constava de
1102 estrofes contendo 8816 versos decassílabos, com estrofação sempre na oitava rima.
Outra grande participação dos literatos no Brasil em 1934 foi o lançamento da
cerveja em garrafa no Brasil, que fez com que Bastos Tigre e Ary Barroso, também
marcassem presença na história da nossa propaganda através da cerveja Brahma em
garrafa, já que antes, cerveja só era vendida em Barril. A propaganda, musicada por Ary
Barroso e interpretada por Orlando Silva, tinha como refrão:
O Brahma Chopp em garrafa,
Querido em todo o Brasil,
Corre longe, a banca abafa,
Igualzinho ao de barril. 7
“Os „publicitários‟ dessa época eram artistas, Segundo Santos, (2005, p. 36),
escritores renomados e poetas, que criavam „quadrinhas‟ para os produtos, cheias de rimas
e graças. Esse foi o início do tom irreverente que até hoje marca a publicidade brasileira”.
Esse tom irreverente pode ser notado no seguinte anúncio da época:
Veja ilustre passageiro,
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem ao seu lado.
Entretanto, acredite,
Quase morreu de bronquite.
Salvou-o o Rhum Creosotado.8
Esse anúncio, foi escrito por Ernesto de Souza em 1918, e veiculado nos bondes,
para o Remédio Rhum Creosotado.
7
8
O FARINHA dagua Disponível em: <http://ofarinhadagua.blogspot.com/>.
O FARINHA dagua Disponível em: <http://ofarinhadagua.blogspot.com/>.
8
Monteiro Lobato9, foi mais além, na década de 40, criou um livro inteiro, o Jeca
Tatuzinho. Para Carrascoza (2003, p. 69) “a peça é uma obra-prima de comunicação que
mistura as técnicas narrativas e os expedientes persuasivos da propaganda: conta a vida de
um caboclo no consagrado estilo do eu-era-assim-e-fiquei-assim, graças a um produto: o
Biotônico Fontoura”.
O livreto, inspirado no personagem Jeca tatu, um típico caipira acomodado e
miserável do interior paulista, que tinha uma doença conhecida como amarelão, foi um
sucesso total de vendas, tendo concedido às marcas Biotônico Fontoura, Maleitosan e
Ankilostomina, enorme retorno e credibilidade junto ao consumidor. O livreto chegou aos
10 milhões de exemplares e em 1924, foi criado o personagem radiofônico Jeca Tatuzinho,
que ensinava noções de higiene e saneamento básico para as crianças.
Além do livreto para o Biotônico Fontoura, Monteiro Lobato também deu outra
importante contribuição para a história da comunicação no Brasil.
Sem recursos para custear a publicação de seu livro O sacy Pererê, o escritor
recorre a patrocinadores, e a obra passa a ter na sua abertura quatro anúncios
ilustrados por Voltolino que vendem mercadorias – máquinas de escrever
Remimgton, chocolates Lacta, cigarros Castelões, Caza Stolze, de artigos
fotográficos – e mais três no fechamento – Casa Freire, louças e objetos de arte,
Chocolate Falchi e Bráulio & Cia, drogaria e perfumaria -, num dos primeiros
merchandising da nossa publicidade, pois em todos eles os produtos são
oferecidos pelo Sacy, que surge em situações irreverentes e assustadoras, como
nos próprios relatos do livro. (CARRASCOZA, 1999, p. 65).
Segundo Renato Castelo Branco em História da Propaganda no Brasil (1990, p.51),
Monteiro Lobato “abriu caminho para que outros escritores de envergadura e com a mesma
representatividade nos meios literários viessem para a propaganda – sem medo de ver
comprometido ou diminuído seu prestígio como escritores ou poetas”.
Com a inserção no meio publicitário, esses escritores inseriram nos anúncios formas
de expressão comumente vistas na Literatura.
9
Monteiro Lobato (1882 – 1948), paulista de Taubaté, foi um dos escritores brasileiros de maior prestígio,
em conseqüência de sua atuação como intelectual polêmico e autor de histórias infantis.”(CEREJA, 2000, p.
328)”.
9
3. A CONTRIBUIÇÃO
Afim de que a mensagem passada seja interpretada de forma favorável ao produto ou
a empresa, tudo isso é feito cuidadosamente. A Publicidade constrói imagens em torno de
seus produtos, cria utilidades e desejos, procura induzir à ação. Rocha (1995, p. 25) diz que
a publicidade é um:
(...) mundo onde produtos são sentimentos e a morte não existe. Que é parecido
com a vida e, no entanto, completamente diferente, posto que sempre bem
sucedido. Onde o cotidiano se forma em pequenos quadros de felicidade
absoluta e impossível. Onde não habitam a dor, a miséria, a angústia, a questão.
Mundo onde existem seres vivos e, paradoxalmente, dele se ausenta a fragilidade
humana. Lá, no mundo do anúncio, a criança é sempre sorriso, a mulher desejo,
o homem plenitude, a velhice beatificação. Sempre a mesa farta, a sagrada
família, a sedução. Mundo nem enganoso nem verdadeiro, simplesmente porque
seu registro é o da mágica.
Percebemos através desse trecho de Rocha que a publicidade tem características
próprias. Bem se sabe que os escritores e poetas foram os precursores do texto publicitário
no Brasil, mas em que isso modificou a forma de escrever anúncios do resto do mundo?
Os escritores, que ele chama de “primeiros free lancers da publicidade brasileira”, Segundo
Ramos (1985, p. 25), inseriam nos anúncios figuras retóricas que “facilitava a
memorização do público, na maioria semi-alfabetizado ou analfabeto”.
O público (...) encontrava nas rimas a indispensável ajuda mnemônica para
guardar temas e anúncios (era o que os anunciantes desejavam, por isso
buscavam os poetas). Enfim, eles dessacralizaram o produto. Inteligentes,
descontraídos, de certo modo anteciparam o ângulo do consumidor. Casemiro de
Abreu fez graça, Lopes Trovão fez paródia, Olavo Bilac fez sátira. Batendo na
tecla alegre, divertida, lançaram a semente do que talvez mais distinga a
propaganda brasileira: o seu tom irreverente. (BRANCO, 1990, p. 3).
Por esse motivo, o anúncio em formato de verso era tão utilizado nessa época da
propaganda brasileira. “(...) esse tipo de procedimento aciona o repertório lingüístico do
consumidor, Segundo Cereja (2000, p. 12), fazendo-o participar mais ativamente da
construção dos sentidos do texto. Conseqüentemente, há maior probabilidade de o
consumidor lembrar-se daquela marca no momento em que for comprar aquele tipo de
produto”.
Todo anúncio tem a finalidade de persuadir o interlocutor seja para consumir
determinado produto, seja para motivá-lo a participar de uma campanha ou alertá-lo.
Utilizando esses recursos, o anunciante torna sua mensagem mais atraente aos olhos do
consumidor, por inúmeras vezes divertida e inteligente.
10
Observando a linguagem publicitária atual, notamos com freqüência o emprego de
recursos da linguagem própria da literatura, como a função poética10; a conotação11,
utilizada, por exemplo, em “Você não ouve. Você sente”, da Rádio Globo ou em “Fala por
você”, da Nokia; a ambigüidade12, como em “A gente se vê por aqui” da Rede Globo ou
“O mundo todo só fala nele” também da Nokia; a aliteração13, como no caso “Pick up
FORD, raça FORTE”, e principalmente a rima, como pode ser vista nos seguintes slogans
da Rede Globo: “Globo 2000, no coração do Brasil” e “Globo e você, tudo a ver" e até
mesmo no conhecido slogan “Dura lex, sed lex, nos cabelos só Gumex". Chegamos a notar
até mesmo o uso de onomatopéias como em “Você imagina, clic, a Arno faz”.
Além do uso de recursos da linguagem, notamos falas menos, ou nada, formais com
o uso da conhecida “licença poética” e emprego de gírias, como em “É bacana”, slogan do
Gradiente e “Manda bala nesse beijo” das balas Ice Kiss.
Segundo Campanhas Inesquecíveis: propaganda que fez história no Brasil (2007, p.
171), foi realizada uma pesquisa, pelo Grupo Bayer do Brasil, para avaliar a opinião do
público sobre o uso de uma nova assinatura. Na pesquisa, 89% das pessoas escolheram
pela continuação do slogan “Se é Bayer, é bom”. Isso mostra que o slogan continua forte
na cabeça do consumidor, e talvez até mesmo atual, há mais de oito décadas de uso.
10
Função Poética, centralizada na mensagem, revelando recursos imaginativos criados pelo emissor. Afetiva,
sugestiva, conotativa, ela é metafórica. Valorizam-se as palavras, suas combinações. É a linguagem figurada
apresentada em obras literárias, letras de música, em algumas propagandas, etc.
11
“Quando acrescentamos aspectos subjetivos, se envolvemos a palavra de emocionalidade, temos conotação
ou palavra conotativa: grande homem, bonita casa”. (SANDMANN, 1999, p.77)
12
“Ambigüidade é a falta de clareza que acarreta duplo sentido na frase. Luciana e Carlos foram à festa e
levaram sua irmã (Irmã de Luciana ou Carlos?)” (SARMENTO, p.562)
13
Quando o Aurélio define a rima, ele fala em repetição de sons, e quando define a aliteração, ele fala em
“repetição de fonemas no início meio e fim de vocábulos próximos”.
11
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A importância dos escritores na propaganda brasileira é totalmente relevante para se
entender o estilo de nossa comunicação. Eles plantaram a sementinha, que fez dar grandes
frutos para a nossa história. O tom irreverente, o humor e a utilização de figuras da
linguagem foram algumas das várias contribuições que eles nos deram e fizeram com que a
Publicidade brasileira fosse e seja, hoje, respeitada e aplaudida no mundo inteiro.
Foram eles que fugiram do molde americano e das mensagens secas de vendas e
transformaram a propaganda brasileira em algo que tivesse a cara do povo brasileiro.
Adaptando as mensagens para seduzir melhor o consumidor, uma vez que a Publicidade
entendia as dificuldades e desejos do brasileiro.
O motivo para tanto sucesso dos literatos no meio publicitário, segundo Carrascoza,
(2003, p. 65), se deve ao fato de que: “quem sabe escrever pode, com facilidade, redigir,
embora a recíproca não seja verdadeira. A utilização de versos sempre foi uma das
características de nossa propaganda, e coube àqueles que conheciam as técnicas poéticas
criar as primeiras mensagens publicitárias”.
Através desse artigo, espera-se que possamos contribuir para esclarecer a atuação
dos literatos nos séculos XIX e XX no Brasil e o quanto eles contribuíram. Se observar as
propagandas atuais que circulam no nosso mercado, e livros que ensinem redação
publicitária, nota-se o quanto ainda são utilizados e valorizados muitos dos elementos
plantados por eles.
12
BRAZILIAN
LITERATURE
AND
THE
RISE
OF
PROPAGANDA
ABSTRACT
This work aims to address the history of advertising in Brazil, dealing about the
importance of writers and poets have in our advertising literature and its development. It
will also be discussed on the contribution that they made in the style of our copywriting,
reflecting on the change of dry sales message for a message that had involvement with the
Brazilian culture.
KEYWORDS
Propaganda, Literature, Writing Advertising.
13
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