A LITERATURA BRASILEIRA E O SURGIMENTO DA PROPAGANDA* Juliana Costa Nahool1 Orientador: Adolfo Carlos F. Queiroz** RESUMO Este trabalho tem o objetivo de abordar a história da Publicidade no Brasil, tratando sobre a importância que escritores e poetas da Literatura tiveram na nossa propaganda e em seu desenvolvimento. Também será discutido sobre a contribuição que eles deram no estilo de nossa redação publicitária, refletindo sobre a modificação da mensagem seca de vendas por uma mensagem que tivesse envolvimento com a cultura brasileira. PALAVRAS-CHAVE Propaganda; Literatura; Redação Publicitária. 1 Graduando no curso de Bacharelado em Publicidade e Propaganda pela Faculdade Integrada Alcântara Machado, Faculdade Metropolitanas Unidas (FMU). E-mail: [email protected] * Trabalho elaborado a partir do Livro Redação Publicitária de João Anzanello Carrascoza. ** Professor do Curso de Publicidade e Propaganda na Matéria de História da Comunicação. 2 1. INTRODUÇÃO No século XIX, a redação publicitária foi feita por contribuição dos poetas e escritores brasileiros e foi algo fundamental e definitivo para transformar a nossa publicidade no que ela é hoje. Segundo João Anzanello Carrascoza, em seu livro Redação Publicitária: Estudos sobre a retórica de consumo (2003, p. 65), “Não são poucos os escritores e poetas no Brasil que eventual ou regularmente colocaram seu talento a serviço da publicidade. Desde os primeiros versos criados para divulgar produtos e serviços nos meados do século XIX até os dias de hoje, é marcante a participação de nossos literatos na galeria daqueles que redigiram anúncios, folhetos, spots, jingles, comerciais e todo tipo de peças publicitárias." Os literatos contribuíram para a formação da nossa linguagem publicitária, empregando a Literatura para fins publicitários, produzindo peças literárias, dentre elas, inúmeros poemas, em uma relação em que a Literatura colocou-se a serviço da Publicidade. Cada trecho que um poeta escreveu para um anúncio representa muito na história de nossa Propaganda e acabou tornando-se peça fundamental para que ela evoluísse de maneira que conquistasse o mundo inteiro, através de peças premiadas nos principais festivais do setor. O termo Propaganda utilizado neste artigo vai exerce o papel de sinônimo de Publicidade, definido pelo Aurélio como “técnica de exercer ação psicológica sobre o público com fins comerciais ou políticos; propaganda”. Este artigo visa discutir e informar claramente a importância que escritores e poetas tiveram na história da Propaganda, refletindo sobre a atuação desses, e verificando a contribuição dos literatos na forma de escrever para redação publicitária no Brasil. A escolha desse tema se deve ao fato de que, apesar da enorme importância que os literatos tiveram na publicidade brasileira, este é um campo de estudos ainda a ser explorado e com um crescimento contínuo. Constam apenas rápidas passagens em capítulos de livros que narram à história da nossa Propaganda. Neste artigo será feito um trabalho de revisão, pesquisando bibliografias que falem a respeito da História da Propaganda Brasileira, redação publicitária e livros de Gramática e Literatura. Além de bibliografias que tragam a história de autores que foram marcantes para a publicidade como Monteiro Lobato, e o livreto Jeca Tatuzinho, Olavo Bilac, Bastos Tigre e outros. 3 2. COMEÇO DA CONSTRUÇÃO DA PROPAGANDA BRASILEIRA Com o avanço atualmente da profissionalização da Publicidade, temos redatores renomados na criação de uma peça, e já os literatos não são tão cogitados quanto antigamente. Mas torna-se indispensável saber trabalhar a linguagem assim como faziam os escritores e poetas que redigiram anúncios importantes da história da propaganda brasileira ao lado de artistas plásticos e pintores. “Aviso a quem é fumante Tanto o Príncipe de Gales Como o Dr. Campos Salles Usam Fósforo Brilhante” (CARRASCOZA, 2003, p. 67). Embora visando à venda de um produto este texto “Fósforo Brilhante”, não foi escrito por nenhum de nossos renomados redatores publicitários. Foi escrito por Olavo Bilac2, um dos poetas mais requisitados na época pelos anunciantes. Apesar de quase sempre o tom daquela época ser exagerado, características marcantes de nossa Publicidade, como a rima, que pode ser observada facilmente na propaganda dos fósforos acima descrita, figuras de linguagem e o humor, foram dentre outras, contribuições nos dadas por nossos escritores e poetas. Nos séculos XIX e início do século XX, em comparação aos dias de hoje o contato das pessoas com a mídia era muito restrito, hoje as pessoas passam um tempo enorme, segundo Kellner (2001, p.11) “ouvindo rádio, assistindo à televisão, freqüentando cinemas, convivendo com música, fazendo compras, lendo revistas e jornais, participando dessas e de outras formas de cultura veiculada pelos meios de comunicação”. Já naquele tempo limitava-se, a anúncios em revistas, jornais e placas de bondes, além de merchandising nos teatros públicos. Porém, por parte das empresas já havia uma grande demanda para conquistar os clientes e mostrar seus produtos, e não havia pessoas específicas para tal fim. No Brasil a primeira agência a funcionar só foi surgir, por volta de 1913 ou 1914, em São Paulo, e era denominada Eclética. Ocorreu a implantação do escritório de propaganda da GM no Brasil em 1926. E somente em 1929 veio a N.W. Ayer, a primeira agência americana a se instalar no país. 2 Olavo Bilac (1865 – 1918) nasceu no Rio de Janeiro, estudou Medicina e Direito, mas não concluiu nenhum dos cursos. Exerceu as atividades de jornalista e inspetor escolar, tendo devotado boa parte de seu trabalho e de seus escritos à educação. Foi defensor da instrução primária, da educação física e do serviço militar obrigatório. Patriota, escreveu a letra do Hino à Bandeira e dedicou-se a temas de caráter históriconacionalista. (CEREJA, 2000, p. 277) 4 Eram contratados escritores que tinham renome na literatura brasileira para compensar essa falta de profissionais na área. Segundo Maurício Silva em seu artigo Literatura e Publicidade no Pré-Modernismo Brasileiro: uma Introdução (2006), os “poemas-reclame” se espalhavam em periódicos e jornais da época invadindo “os limites até então invioláveis da arte, como que profanando, aos olhos dos mais conservadores e puristas, a aura sagrada da literatura”. O fato de que a propaganda envolveu-se em praticamente todos os gêneros também chama atenção, “da poesia ao romance, do teatro à crônica, da novela ao conto” reflete o autor. De acordo com Silva, os literatos eram vistos como “detentores de um discurso portador de credibilidade” e utilizavam dessa imagem para benefícios profissionais oferecidos pela publicidade, pois ela dava visibilidade ao autor, expandindo até mesmo a divulgação de seus livros. Para os escritores era muito vantajoso escreverem textos com fins publicitários. Sendo assim, ganhavam as empresas e ganhavam os poetas que, além de dinheiro, ganhavam mais visibilidade e prestígio. O clima de guerra é outro fato que é muito importante comentar - causado pela Primeira Guerra Mundial que durou de 1914 até 1918 - instaurado no mundo, que pedia um tom nacionalista aos nossos anúncios, influenciou a publicidade brasileira. Então, era importante que fossem escritos por pessoas inseridas totalmente em nossa cultura. Entre a guerra e a publicidade brasileira, um exemplo da relação pode ser observado no Governo de Wenceslau Braz (1914 – 1918), onde Olavo Bilac, filho de militar e plenamente aceito nos meios civis, dirigiu uma campanha aos locais de concentração de filhos das elites civis e às faculdades de direito e medicina, e pregou o fim do “divórcio monstruoso” entre Exército e povo. Argumentava “O Exército seja o povo e o povo seja o Exército, de modo que cada brasileiro se ufane do título de cidadão-soldado”. (CARVALHO, 2005, p. 23). Na seção seguinte sobre a História da Propaganda será articulado de que forma ela foi se firmando no mercado brasileiro, a fim de mostrar em que momento poetas como o Olavo Bilac começou a participar dessa história. 5 2.1. A HISTÓRIA A história da propaganda remonta a tempos antigos. Gilmar Santos em Princípios da Publicidade (2005) comenta a respeito da existência de formas promocionais desde a préhistória. Os trogloditas ao querer comunicar que dispunham de peles de animais para trocar por outros utensílios, colocavam as peles nas entradas das cavernas, o que era uma forma de chamar atenção dos que passavam. Já Everardo P. Guimarães Rocha, em Magia e Capitalismo: um estudo antropológico da publicidade (1995, p. 48) cita que existiam elementos de publicidade já no século XVI, ao criarem os símbolos das casas comerciais na Inglaterra, “como a peruca para barbearia e cabeça de boi para um açougue”. Rocha completa com informações a respeito de um papiro sobre a fuga de um escravo, que data do ano 1000 a.C que parece ter sido o primeiro escrito e que “quem redigiu aquela mensagem parece ter sido o primeiro redator de publicidade no mundo”. No Brasil essa história vem surgir há cerca de 200 anos. O primeiro anúncio “surgiu em 1808, com o aparecimento da Gazeta do Rio de Janeiro: „Quem quiser comprar uma morada de casas de sobrado com frente para Santa Rita, fale com Joaquina da Silva, que mora nas mesmas casas... ‟” (CARRASCOZA, 1999, p.65). Nas mídias impressas foi a partir de 1900 que ele se tornou algo constante. Importante ressaltar que na época, grande parte da população se encontrava com problemas de saúde, e o país tinha condições sanitárias extremamente precárias. Junto a isso o tipo de propaganda mais forte no Brasil, nesse começo de século, era sobre remédios para combater a sífilis e outras doenças. Daí a frase que diz: “Brasil: um vasto hospital”.3 Se em outros países, como nos Estados Unidos, a redação começou com os vendedores, aqui os escritores já começaram por cima, se distanciando das mensagens secas de vendas, o que tornou os anúncios extremamente populares. Passamos por muitas etapas até chegarmos à definição de publicitários que Rocha cita como “um grupo de homens com um conhecimento „científico‟ do que vão fazer e com capacidade „artística‟ para expressar as conclusões dos „estudos‟ e „pesquisas‟ parece ser a imagem que o mundo exterior deveria, idealmente, possuir do publicitário” (1995, p. 51). 3 Referência disponível em: http://www.acontecendoaqui.com.br/pp_hist.php. Acesso em: 02 Junho 2007. 6 2.2. A INFLUÊNCIA DA LITERATURA DOS POETAS NA HISTÓRIA DA PROPAGANDA BRASILEIRA Nos primeiros passos dessas etapas, no Brasil, os poetas foram o que chamamos hoje de free lancers4 da redação publicitária. O poeta latino, Virgílio, sob a encomenda de um imperador de Roma, foi o primeiro escritor que se colocou a serviço da propaganda. O fim era convencer as pessoas a voltarem a trabalhar no campo, já que estava acontecendo uma superlotação nas cidades. Por volta de 1850, no Brasil, Casemiro de Abreu, foi quem deu início à utilização dos literatos pelos anunciantes, criando a publicidade para o Café Fama. Ah! Venham fregueses! E venham depressa! Que aqui não se prega Nem logro nem peça.5 A ele se seguiram muitos outros como, Emílio de Menezes, Hermes Fontes, Guimarães Passos, Basílio Viana, Lopes Trovão. Até mesmo Augusto dos Anjos fez inúmeras propagandas em versinhos, com muita repercussão. Uma delas foi esta, para uma loja de roupas: Nesta cidade onde o atraso Lembra uma cara morfética Fez monopólio da estética A Loja do Rattacaso6 Olavo Bilac foi o que de todos, mais participou dos textos publicitários de sua época, chegando a participar, dentre outros poetas, em 1908, de um concurso de cartazes publicitários, com a utilização de poesia para o xarope contra tosse, Bromil. O xarope, cujo slogan garantia a “cura da tosse em 24 horas”, lançou propagandas em versos redigidos. Além de Bilac, que através de testemunhos em jornais e revistas afirmava ter se curado de problemas no pulmão graças ao uso do xarope, encontra-se também Bastos Tigre, outra grande influência literária em nossa propaganda. Como poeta, Bastos Tigre criou há 85 anos, na Semana de Arte Moderna de 1922, um dos mais famosos slogans da propaganda brasileira, “Se é Bayer, é bom”, que é reconhecido pelo consumidor até os dias atuais. 4 Profissional autônomo, que se emprega em diferentes empresas, atuando de forma independente. 5 O FARINHA dagua Disponível em: <http://ofarinhadagua.blogspot.com/>. 6 O FARINHA dagua Disponível em: <http://ofarinhadagua.blogspot.com/>. 7 Em Campanhas Inesquecíveis: propaganda que fez história no Brasil (2007), da editora Meio e Mensagem, temos um retrato da história do slogan da Bayer no Brasil, onde cita que os primeiros registros de anúncios com o slogan são da década de 30, publicados em revistas como O Cruzeiro. Já a primeira produção audiovisual data de 1958 e foi transmitida no cinema – colorido e em animação – mostrando uma família na praia que era engolida por uma baleia e lançados de volta pelo jato d‟água característico do animal. Nesse momento toda a família começa a sofrer de fortes dores renais e entra a locução indicando o remédio Hermitol. O comercial era finalizado por vozes em coro citando o slogan “Se é Bayer, é bom”. Segundo Nelson Cadena, em seu artigo Uma epopéia na propaganda (2006), Bastos Tigre chegou a escrever, numa de suas campanhas, uma paródia do poema épico Os Lusíadas de Luís de Camões. A campanha foi intitulada de Bromilíadas e constava de 1102 estrofes contendo 8816 versos decassílabos, com estrofação sempre na oitava rima. Outra grande participação dos literatos no Brasil em 1934 foi o lançamento da cerveja em garrafa no Brasil, que fez com que Bastos Tigre e Ary Barroso, também marcassem presença na história da nossa propaganda através da cerveja Brahma em garrafa, já que antes, cerveja só era vendida em Barril. A propaganda, musicada por Ary Barroso e interpretada por Orlando Silva, tinha como refrão: O Brahma Chopp em garrafa, Querido em todo o Brasil, Corre longe, a banca abafa, Igualzinho ao de barril. 7 “Os „publicitários‟ dessa época eram artistas, Segundo Santos, (2005, p. 36), escritores renomados e poetas, que criavam „quadrinhas‟ para os produtos, cheias de rimas e graças. Esse foi o início do tom irreverente que até hoje marca a publicidade brasileira”. Esse tom irreverente pode ser notado no seguinte anúncio da época: Veja ilustre passageiro, O belo tipo faceiro Que o senhor tem ao seu lado. Entretanto, acredite, Quase morreu de bronquite. Salvou-o o Rhum Creosotado.8 Esse anúncio, foi escrito por Ernesto de Souza em 1918, e veiculado nos bondes, para o Remédio Rhum Creosotado. 7 8 O FARINHA dagua Disponível em: <http://ofarinhadagua.blogspot.com/>. O FARINHA dagua Disponível em: <http://ofarinhadagua.blogspot.com/>. 8 Monteiro Lobato9, foi mais além, na década de 40, criou um livro inteiro, o Jeca Tatuzinho. Para Carrascoza (2003, p. 69) “a peça é uma obra-prima de comunicação que mistura as técnicas narrativas e os expedientes persuasivos da propaganda: conta a vida de um caboclo no consagrado estilo do eu-era-assim-e-fiquei-assim, graças a um produto: o Biotônico Fontoura”. O livreto, inspirado no personagem Jeca tatu, um típico caipira acomodado e miserável do interior paulista, que tinha uma doença conhecida como amarelão, foi um sucesso total de vendas, tendo concedido às marcas Biotônico Fontoura, Maleitosan e Ankilostomina, enorme retorno e credibilidade junto ao consumidor. O livreto chegou aos 10 milhões de exemplares e em 1924, foi criado o personagem radiofônico Jeca Tatuzinho, que ensinava noções de higiene e saneamento básico para as crianças. Além do livreto para o Biotônico Fontoura, Monteiro Lobato também deu outra importante contribuição para a história da comunicação no Brasil. Sem recursos para custear a publicação de seu livro O sacy Pererê, o escritor recorre a patrocinadores, e a obra passa a ter na sua abertura quatro anúncios ilustrados por Voltolino que vendem mercadorias – máquinas de escrever Remimgton, chocolates Lacta, cigarros Castelões, Caza Stolze, de artigos fotográficos – e mais três no fechamento – Casa Freire, louças e objetos de arte, Chocolate Falchi e Bráulio & Cia, drogaria e perfumaria -, num dos primeiros merchandising da nossa publicidade, pois em todos eles os produtos são oferecidos pelo Sacy, que surge em situações irreverentes e assustadoras, como nos próprios relatos do livro. (CARRASCOZA, 1999, p. 65). Segundo Renato Castelo Branco em História da Propaganda no Brasil (1990, p.51), Monteiro Lobato “abriu caminho para que outros escritores de envergadura e com a mesma representatividade nos meios literários viessem para a propaganda – sem medo de ver comprometido ou diminuído seu prestígio como escritores ou poetas”. Com a inserção no meio publicitário, esses escritores inseriram nos anúncios formas de expressão comumente vistas na Literatura. 9 Monteiro Lobato (1882 – 1948), paulista de Taubaté, foi um dos escritores brasileiros de maior prestígio, em conseqüência de sua atuação como intelectual polêmico e autor de histórias infantis.”(CEREJA, 2000, p. 328)”. 9 3. A CONTRIBUIÇÃO Afim de que a mensagem passada seja interpretada de forma favorável ao produto ou a empresa, tudo isso é feito cuidadosamente. A Publicidade constrói imagens em torno de seus produtos, cria utilidades e desejos, procura induzir à ação. Rocha (1995, p. 25) diz que a publicidade é um: (...) mundo onde produtos são sentimentos e a morte não existe. Que é parecido com a vida e, no entanto, completamente diferente, posto que sempre bem sucedido. Onde o cotidiano se forma em pequenos quadros de felicidade absoluta e impossível. Onde não habitam a dor, a miséria, a angústia, a questão. Mundo onde existem seres vivos e, paradoxalmente, dele se ausenta a fragilidade humana. Lá, no mundo do anúncio, a criança é sempre sorriso, a mulher desejo, o homem plenitude, a velhice beatificação. Sempre a mesa farta, a sagrada família, a sedução. Mundo nem enganoso nem verdadeiro, simplesmente porque seu registro é o da mágica. Percebemos através desse trecho de Rocha que a publicidade tem características próprias. Bem se sabe que os escritores e poetas foram os precursores do texto publicitário no Brasil, mas em que isso modificou a forma de escrever anúncios do resto do mundo? Os escritores, que ele chama de “primeiros free lancers da publicidade brasileira”, Segundo Ramos (1985, p. 25), inseriam nos anúncios figuras retóricas que “facilitava a memorização do público, na maioria semi-alfabetizado ou analfabeto”. O público (...) encontrava nas rimas a indispensável ajuda mnemônica para guardar temas e anúncios (era o que os anunciantes desejavam, por isso buscavam os poetas). Enfim, eles dessacralizaram o produto. Inteligentes, descontraídos, de certo modo anteciparam o ângulo do consumidor. Casemiro de Abreu fez graça, Lopes Trovão fez paródia, Olavo Bilac fez sátira. Batendo na tecla alegre, divertida, lançaram a semente do que talvez mais distinga a propaganda brasileira: o seu tom irreverente. (BRANCO, 1990, p. 3). Por esse motivo, o anúncio em formato de verso era tão utilizado nessa época da propaganda brasileira. “(...) esse tipo de procedimento aciona o repertório lingüístico do consumidor, Segundo Cereja (2000, p. 12), fazendo-o participar mais ativamente da construção dos sentidos do texto. Conseqüentemente, há maior probabilidade de o consumidor lembrar-se daquela marca no momento em que for comprar aquele tipo de produto”. Todo anúncio tem a finalidade de persuadir o interlocutor seja para consumir determinado produto, seja para motivá-lo a participar de uma campanha ou alertá-lo. Utilizando esses recursos, o anunciante torna sua mensagem mais atraente aos olhos do consumidor, por inúmeras vezes divertida e inteligente. 10 Observando a linguagem publicitária atual, notamos com freqüência o emprego de recursos da linguagem própria da literatura, como a função poética10; a conotação11, utilizada, por exemplo, em “Você não ouve. Você sente”, da Rádio Globo ou em “Fala por você”, da Nokia; a ambigüidade12, como em “A gente se vê por aqui” da Rede Globo ou “O mundo todo só fala nele” também da Nokia; a aliteração13, como no caso “Pick up FORD, raça FORTE”, e principalmente a rima, como pode ser vista nos seguintes slogans da Rede Globo: “Globo 2000, no coração do Brasil” e “Globo e você, tudo a ver" e até mesmo no conhecido slogan “Dura lex, sed lex, nos cabelos só Gumex". Chegamos a notar até mesmo o uso de onomatopéias como em “Você imagina, clic, a Arno faz”. Além do uso de recursos da linguagem, notamos falas menos, ou nada, formais com o uso da conhecida “licença poética” e emprego de gírias, como em “É bacana”, slogan do Gradiente e “Manda bala nesse beijo” das balas Ice Kiss. Segundo Campanhas Inesquecíveis: propaganda que fez história no Brasil (2007, p. 171), foi realizada uma pesquisa, pelo Grupo Bayer do Brasil, para avaliar a opinião do público sobre o uso de uma nova assinatura. Na pesquisa, 89% das pessoas escolheram pela continuação do slogan “Se é Bayer, é bom”. Isso mostra que o slogan continua forte na cabeça do consumidor, e talvez até mesmo atual, há mais de oito décadas de uso. 10 Função Poética, centralizada na mensagem, revelando recursos imaginativos criados pelo emissor. Afetiva, sugestiva, conotativa, ela é metafórica. Valorizam-se as palavras, suas combinações. É a linguagem figurada apresentada em obras literárias, letras de música, em algumas propagandas, etc. 11 “Quando acrescentamos aspectos subjetivos, se envolvemos a palavra de emocionalidade, temos conotação ou palavra conotativa: grande homem, bonita casa”. (SANDMANN, 1999, p.77) 12 “Ambigüidade é a falta de clareza que acarreta duplo sentido na frase. Luciana e Carlos foram à festa e levaram sua irmã (Irmã de Luciana ou Carlos?)” (SARMENTO, p.562) 13 Quando o Aurélio define a rima, ele fala em repetição de sons, e quando define a aliteração, ele fala em “repetição de fonemas no início meio e fim de vocábulos próximos”. 11 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS A importância dos escritores na propaganda brasileira é totalmente relevante para se entender o estilo de nossa comunicação. Eles plantaram a sementinha, que fez dar grandes frutos para a nossa história. O tom irreverente, o humor e a utilização de figuras da linguagem foram algumas das várias contribuições que eles nos deram e fizeram com que a Publicidade brasileira fosse e seja, hoje, respeitada e aplaudida no mundo inteiro. Foram eles que fugiram do molde americano e das mensagens secas de vendas e transformaram a propaganda brasileira em algo que tivesse a cara do povo brasileiro. Adaptando as mensagens para seduzir melhor o consumidor, uma vez que a Publicidade entendia as dificuldades e desejos do brasileiro. O motivo para tanto sucesso dos literatos no meio publicitário, segundo Carrascoza, (2003, p. 65), se deve ao fato de que: “quem sabe escrever pode, com facilidade, redigir, embora a recíproca não seja verdadeira. A utilização de versos sempre foi uma das características de nossa propaganda, e coube àqueles que conheciam as técnicas poéticas criar as primeiras mensagens publicitárias”. Através desse artigo, espera-se que possamos contribuir para esclarecer a atuação dos literatos nos séculos XIX e XX no Brasil e o quanto eles contribuíram. Se observar as propagandas atuais que circulam no nosso mercado, e livros que ensinem redação publicitária, nota-se o quanto ainda são utilizados e valorizados muitos dos elementos plantados por eles. 12 BRAZILIAN LITERATURE AND THE RISE OF PROPAGANDA ABSTRACT This work aims to address the history of advertising in Brazil, dealing about the importance of writers and poets have in our advertising literature and its development. It will also be discussed on the contribution that they made in the style of our copywriting, reflecting on the change of dry sales message for a message that had involvement with the Brazilian culture. KEYWORDS Propaganda, Literature, Writing Advertising. 13 REFERÊNCIAS Artigos SILVA, Maurício. Literatura e Publicidade no Pré-Modernismo Brasileiro: uma Introdução. Revista Crítica Cultural, Vol. 1, nº. 1, 2006. Disponível em: http://www3.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/critica/0101/03.htm. Acesso em 05 de abril de 2007. CADENA, Nelson. 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