Evento em 08/08/2013 – SEDES Sapientiae e GVive
Educação: Que Movimento Queremos?
Mesa redonda: A Escola como Desejo e Movimento
Esmeria Rovai
DESDOBRAMENTOS PARA REPENSAR A EDUCAÇAO
Entramos há vários séculos na era planetária; o século XX é a idade da
grande agonia planetária. É um momento histórico que se impõe a exigência
fundamental de uma unidade da espécie humana, de uma unidade que
respeite todas as diferenças culturais e assuma a forma de uma confederação
planetária. Se a humanidade não conseguir realizar esta unidade, correrá com
certeza o risco de se autodestruir em todos os planos: político, biológico e,
ouso mesmo dizer, vital (Grifos meus).
Edgar Morin
Com essa abertura, queremos chamar a atenção para o alerta que Morin nos
faz para a agonia do homem. Em outras palavras, para a crise da sociedade
moderna.
Esta crise é o resultado de mais de 300 anos do pensamento racional/técnico
baseado modelo cartesiano/newtoniano que , na busca de uma verdadeira
ciência do conhecimento do Universo,transformou-o numa máquina , cujas
partes podem ser tratadas como peças isoladas. Assim também é pensado o
estudo do homem.
Ao fazer apelo para a agonia do planeta Morin está, na verdade, fazendo um
apelo para nos vermos não mais como parte separada da natureza, mas como
parte integrante de um organismo vivo. Somos um subsistema do sistema
planetário. É a visão ecossistêmica.
A Ecologia nasce no inicio do século 20, mas se formaliza como ciência na
década de 1960. Nessa visão o padrão de organização é em rede. Nada
existe de modo isolado, tudo está interconectado. É a redescoberta do
Universo como sistema integrado, em virtude das descobertas do domínio
subatômico. Com elas, a nova física revela a limitação dos princípios da física
newtoniana sobre a natureza do átomo composto apenas de matéria. Pela lei
da nova física a realidade é dual: matéria e energia.
Ao falarmos da crise da educação é preciso vê-la como decorrência da crise na
qual esta inserida a nossa sociedade chamada ainda de moderna, portanto, da
crise do modelo racional cartesiano/newtoniano, hoje abalado pelas seguidas
pesquisas cientificas que tiveram seu ponto de partida em físicos do inicio do
século 20, com destaque para Albert Einstein.
São mais de100 anos de pesquisas que anunciam um novo paradigma
cientifico. Já nos anos 1960, quando foi gestada a pedagogia do Ensino
Vocacional, o debate em torno de uma nova visão de conhecimento da
natureza do mundo e de homem já estavam acontecendo. O sistema de
Ensino Vocacional engajou-se nessa nova frente, até hoje pouco conhecida e
reconhecida. No entanto, os avanços científicos, não só na área da Física,
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como também da Biologia, atestam a irreversibilidade dos novos princípios
paradigmáticos.
Nesse sentido, apontamos a Pedagogia do Ensino Vocacional como
sintonizada com o debate da época que prenunciava as transformações no
campo do conhecimento científico e tecnológico que assistimos hoje. Não dá
mais para ignorá-las, nem mesmo rejeitá-las. As conseqüências do desgaste
do paradigma racional clássico já estão se tornando cada vez mais graves
(irracionais?), aumentando o risco do qual nos fala Morin.
Ajustar-se a esse novo modo de ver o Universo requer revisão de conceitos,
mudança de valores, de crenças e de atitudes. A educação não pode ficar fora
desse novo contexto.
De um universo estático, pautado pelos pilares da separabilidade, da razão e
da ordem, nos vemos agora diante de revelações que nos mostram um
universo em intenso movimento. É de Albert Einstein a frase:
A vida é como andar de bicicleta. Para manter o equilíbrio é preciso se manter
em movimento.
Da visão mecânica e previsível do funcionamento das leis do Universo, somos
tomados pela de idéia de que a certeza absoluta não existe. Em seu lugar nos
revelam que o Universo caminha na base da incerteza. Não há mais
previsibilidade certa, mas o conhecimento opera com base em probabilidades.
De um conhecimento simples e redutor, somos tomados pela idéia da
complexidade sistêmica. Do principio de ordem imutável, somos tomados pela
descoberta que a ordem está sempre em transformação, caminhando para a
desordem a qual, em seus desdobramentos, revela a conformação de outra
ordem – é o principio da auto-organização ou autocriação a reger a evolução
do planeta. A Teoria do Caos explica bem isso; por traz do caos uma nova
ordem está emergindo. Qual a ordem sendo prenunciada pelos movimentos de
rua recentemente eclodidos? Que rumos tomar?
Para entendimento do Universo e construção de suas leis ordenadoras
absolutas o paradigma clássico precisou fragmentar o todo, perdendo-se o
significado dinâmico das interrelações entre as partes e entre partes/todo. Por
esta razão o planeta está em agonia. E a sociedade humana também. Morin
faz o apelo à reintegração homem-natureza; à reintegração do todo sistêmico,
na sua dimensão de complexidade. Enfim, faz apelo à reintegração do
conhecimento e à transdisciplinaridade dos saberes.
Significativa é também a descoberta do erro fundamental de Descartes em
fazer da razão o sustentáculo de seu modelo cientifico, separando os domínios
do corpo e da mente, com isso separando razão e emoção, hoje sabidamente
com papel importante na função cognitiva, como nos alerta o neurobiólogo
Damásio em seu livro O erro de Descartes- emoção, razão e o cérebro
humano.
Estes são apenas alguns dos tópicos a serem tomados como ponto de
reflexão para responder à questão:
Como educar num mundo de incerteza, de complexidade, que pede a
integração do conhecimento a fim de fazer face à agonia do planeta, à crise da
sociedade atual e à crise da educação?
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Para nós a esperança está no tomar a escola como sistema social complexo,
assim como foi o projeto pedagógico do Ensino Vocacional, a fim de poder
responder à crise que a educação atravessa. Todas as transformações na área
do conhecimento atestam a atualidade desse modelo pedagógico pensado
para a educação, já nos anos 1960. Nada melhor foi pensado e articulado, na
pratica, até hoje, capaz de acompanhar as transformações paradigmáticas que
vem se confirmando ao longo das ultimas décadas. O arranjo hoje pode
desdobrar-se em novas organizações, mas os princípios precisam ser
devidamente metabolizados e articulados.
A nosso ver a pedagogia do Ensino Vocacional desponta como a crisálida de
uma nova borboleta, que pode ter agora como núcleo de integração
organizadora do currículo “a agonia do planeta”.
Este é tema de nosso debate. Que movimentos precisam ser provocados para
uma “escola como desejo e movimento”?
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Desdobramentos para Repensar a Educação