Núcleo de Estudantes de Economia da AAC
Agradecimentos
Os organizadores agradecem a contribuição de Georges Courade, de Paris IV (Sorbonne) na
elaboração deste caderno.
Mais adiantamos que o professor Georges Courade estará em Coimbra, a 9 de Março, na
Faculdade de Economia onde participará no Colóquio Globalização, Pobreza e Migrações e falará
sobre "Le malentendu postcolonial eurafricain autour des migrations des subsahariens".
Agradecemos ainda aos seguintes canais de televisão:
- WDR (Alemanha) pela autorização para a difusão gratuita do filme l’Enfant du Diable, no ciclo
“África começou mal, África está mal”;
- Arte (Alemanha) pelos seus esforços para a cedência da versão legendada em francês;
- Arte (França) pela concessão da versão legendada em francês e pelo cuidado havido para que este
filme chegasse a tempo da sua projecção neste ciclo.
Agradecemos também à ONG WITNESS & AJEDI-Ka/Projects Enfants Soldats, no Burundi, e ao
seu Director Executivo Bukeni T. Waruzi Beck a disponibilização do filme On the Frontlines: Child
Soldiers in the D.R.C. e a autorização para a sua difusão gratuita neste ciclo.
Desenho artístico na capa da autoria do Professor Doutor Jaime Ferreira.
O Núcleo de Estudantes gostaria de frisar que este caderno e respectivo ciclo de filmes em que se
insere, não teriam sido possíveis sem o apoio da instituição bancária Caixa Geral de Depósitos e da
Fundação Calouste Gulbenkian.
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Índice
1. O Horror em Imagens: Análise de um Filme… … … … … … … . … … … … … … … … . … … .3
2. As Igrejas do despertar e o horror sobre as mentalidades, de
Washington a Kinshasa, passando por Kigali… … … … … … … … … … … … … .. … … … … . 8
3. Os Cientistas Sociais e os Mecanismos Explicativos da Produção do
Horror … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … ...26
4. Três Pontos diferentes de leitura, Inglaterra, França, Bélgica, a
mesma preocupação: As Igrejas do Despertar…… … … … … … … … … … … … … … . …41
5. O Horror sem Limites: Dois Pequenos Relatos… … … … … … … … … … . … … … …48
Textos traduzidos, montados e compilados por:
Professor Doutor Júlio Mota;
Professor Doutor Luís Peres Lopes;
Professora Doutora Margarida Antunes.
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De Kisangani a Kinshasa, de Kabila (pai) a Kabila (filho), dos Estados
Unidos ao Congo: Não há limites para o horror
1. O HORROR EM IMAGENS: ANÁLISE DE UM FILME
1.1. Uma recensão crítica
2005
CongoForum
Bélgica
Sinopse
Que se pode esperar da vida num país fantasma, devastado pela guerra, pela doença, pela
corrupção e por um enormíssimo egoísmo?
Um milagre!
Este país, é a República Democrática do Congo e, aí, os milagres são propostos diariamente
nas igrejas de curandeiros, também chamadas as igrejas do despertar. Estas novas igrejas são o fruto
do cruzamento híbrido entre o pentecostaltismo “born again” à americana e as crenças tradicionais
africanas. À sua cabeça, estão os “pastores”, “profetas” ou “apóstolos” messiânicos que destilam
promessas de cura de doenças incuráveis, de obtenção de vistos para o Eldorado europeu, ou ainda
de prosperidade imediata. Para o efeito, alguns criam mesmo a sua própria cadeia de televisão, com
sucesso sucessivamente crescente. Assim, as igrejas do despertar seduzem hoje a maioria dos
congoleses.
Vendedores de Milagres é um périplo ao coração de Kinshasa, à descoberta deste universo
confuso, onde a violência dos cultos reflecte a violência da miséria; onde o discurso tragicómico dos
tele-evangelistas ⎯ entre cinismo obsceno, megalomaníaco e surrealista ⎯ responde à ingenuidade
desesperada dos fiéis. Com, pano de fundo, Kinshasa como um Tribunal dos Milagres
contemporâneo.
As igrejas evangélicas
Vendedores de Milagres trata do fenómeno das igrejas do despertar, ditas também igrejas de
cura, na República Democrática do Congo e particularmente em Kinshasa. Estas igrejas
independentes reivindicam o pentecostaltismo e inspiram-se nos tele-evangelistas americanos “born
again”. Esta tendência fundamentalista e puritana do protestantismo está muito bem difundida no
famoso “Bible Belt” americano. Os conservadores próximos do clã Bush, por exemplo, reclamam-se
como seus ardentes praticantes.
Nos anos 80, o tele-evangelismo americano esteve em pleno desenvolvimento e os seus líderes
(Jimmy Swaggart, Bill Graham,...) exportaram-no para os países do Terceiro Mundo (América do
Sul, África, Ásia...). Os seus discursos de salvação e de prosperidade imediata, marcados pelo
misticismo encontram na pobreza e nos sincretismos religiosos locais um terreno favorável. Para
além disso, o pentecostaltismo propõe um contacto directo com o divino, sem dúvida mais adaptado
às concepções locais que o culto católico, frequentemente sentido como rígido e impenetrável pelos
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autóctones. Também, actualmente, o pentecostaltismo é a religião que tem tido maior
desenvolvimento a nível planetário (por exemplo, fala-se de 10 000 convertidos por dia na China).
Este desenvolvimento pode igualmente explicar-se por uma leitura “económica”. Certos
valores fundadores do neoliberalismo reencontram-se, de facto, no ecuménico pentecostal, que
coloca a tónica no indivíduo e na sua relação pessoal e directa com Deus, bem como sobre a noção
de “colocação”: os fiéis financiam “a obra de Deus” (leiam a igreja e sobretudo o pastor) a fim de
obterem, como contrapartida, milagres directamente proporcionais às ofertas dadas. Deste ponto de
vista, em os Vendedores de Milagres, uma jovem prostituta de Kinshasa de nome Olga explica que
dá 10 USD à igreja para que Deus lhe dê, a noite, um cliente que pagará os seus serviços por 50
USD. Contrariamente ao discurso católico, o pentecostaltismo valoriza a riqueza e os seus sinais
externos, considerados como bênção de Deus. Imagina-se facilmente, por exemplo, o sucesso que
este tipo de discurso pode encontrar em países onde as populações vivem na pobreza total e são
fascinadas pelas imagens de prosperidade enviadas pelo Ocidente. Uma prosperidade que lhes
parece frequentemente inacessível. A não ser que haja um milagre...
O caso do Congo
Nos anos 80, no Zaire, o regime de Mobutu começa a decompor-se, atingido pela corrupção
que o destrói, por dentro. A contestação, apoiada pela igreja católica e favorecida pelo fim da
guerra-fria, começa a manifestar-se claramente e dá azo a manifestações e pilhagens no início dos
anos 90. Para enfraquecer a instituição católica que o incomoda e se lhe opõe, mas também para
acalmar a revolta social, Mobutu vai aceitar as igrejas de cura, distribuindo as autorizações
necessárias e, de acordo com certas fontes, apoiando-as mesmo financeiramente.
Os tele-evangelistas americanos, bem como numerosos evangelistas suíços, alemães e suecos
financiarão inicialmente o desenvolvimento dos seus colegas congoleses. Estes patrocinadores
estrangeiros foram-se sucessivamente retirando, desiludidos pelo facto dos pastores congoleses
serem mais propensos a utilizar os seus subsídios para fins pessoais do que para fins religiosos. Mas,
a máquina estava lançada, e o negócio lucrativo dos milagres não parou de prosperar no Congo.
Hoje, estão recenseadas mais de 8.000 destas igrejas em Kinshasa, metrópole de 7,5 milhões
de pessoas onde o rendimento anual médio per capita não chega a atingir os 500 USD. Se a maioria
destas igrejas tem um impacto local, algumas delas têm as suas próprias cadeias de rádio e de
televisão que emitem sobre todo o território congolês, registando audiências cada vez mais
importantes. Os pastores mais conhecidos estão consequentemente à frente de verdadeiras empresas
e gozam, pela sua popularidade, de um real poder no Congo. O mundo político, desejoso em atrair os
favores dos eleitores, “namora”estes pastores pois, o seu apoio constitui uma garantia eleitoral.
Além do mais, esta visão mística do mundo desvia muitos congoleses da realidade em que
estão a viver, o que lhe vai permitir aguentar a situação. Os líderes, eles, podem continuar a pilhar os
recursos do estado em toda a calmaria…
Se estas igrejas são financiadas à partida pelos donativos dos fiéis, não nos podemos senão
surpreender com o nível de vida de certos pastores. Os fiéis estão certamente prontos para darem
tudo o que têm à igreja, mas são frequentemente muito pobres e os seus donativos não poderiam
cobrir certas despesas sumptuárias a que os pastores estão habituados. Rebentaram numerosos
escândalos por: tráfico de medicamentos, de seres humanos, de armas (o Arcebispo Fernando
Kutino, um dos pioneiros deste movimento no Congo, acaba de ser condenado a vinte anos de
prisão), etc. A mediatização destas ilegalidades não parece no entanto ter atingido a reputação dos
“Homens de Deus” na população.
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As igrejas do despertar são caracterizadas igualmente pelas curas milagrosas de todas as
espécies de doenças, pela expulsão dos demónios (de pobreza ou de “bloqueio”, ou seja, os
demónios que impedem que se obtenha um visto para o Ocidente), pelos transes com virtude
catársicas. Outros temas favoritos destas igrejas: os testemunhos (confissões públicas dos pecados), a
promessa duma “blindagem” contra os sortilégios tão temidos do mundo ancestral, dízimas e ofertas,
e a liderança incontestada dos pastores que as dirigem de forma absoluta, incontestada.
Estas igrejas propõem, pois, para além de uma grelha de leitura simplista para vidas
normalmente muito complicadas, uma esperança de melhoria súbita das condições de vida. Ora, de
acordo com todas as análises racionais, é irrealista esperar uma tal melhoria.
Estas igrejas são igualmente uma alternativa à falência do Estado, que todas elas diabolizam,
no verdadeiro sentido da palavra, associando-o à bruxaria, este “segundo mundo”, mundo da noite e
dos espíritos maléficos que aterroriza a maior parte dos Congoleses. Dado que não se pode confiar
mais no Estado, confiemos então em Deus. “Dado que já não temos mais hospitais nem de médicos,
é Deus que irá curar”.
É surpreendente constatar que no Congo, a contestação das práticas destas igrejas é mais ou
menos inexistente. Limita-se frequentemente a alguns intelectuais, minoritários mesmo no seio do
seu próprio grupo social, cujas tomadas de posição têm apenas um impacto muito limitado. Para a
maior parte dos congoleses, criticar “as coisas de Deus”, assimila-se a um acto satânico. Além do
mais, estas crenças estão extremamente difundidas na população. Esta situação permite, viu-se, ao
mundo político congolês manter certas práticas de mal governança (corrupção endémica e
generalizada, pilhagem dos recursos do Estado...) sem que a população se comova grandemente. É
porque esta contestação é quase inexistente que ela não se vê em Vendedores de Milagres.
O filme Vendedores de Milagres trata pois deste fenómeno em Kinshasa, onde as igrejas de
cura conhecem um sucesso crescente, reunindo a maioria dos congoleses nas suas assembleias.
Estilo e estrutura do filme
Vendedores de Milagres não é, propriamente, uma reportagem de investigação. Trata-se antes
de um filme virado para o quotidiano dos seus protagonistas (tele-evangelistas confirmados ou
principiantes e os seu fiéis). Assim, é através das palavras, expectativas, esperanças e situações
vividas por uns e outros que se revela a realidade das igrejas do despertar, a sua brutalidade e a sua
complexidade.
As sequências “de actividade”, frequentemente espectaculares e eficazes, onde se vêem os
protagonistas no seu dia a dia respondendo a entrevistas mais clássicas, frequentemente comoventes,
às vezes quase que engraçadas mas sempre sinceras. A simultaneidade destes dois tipos de escrita
documental permite a cada sequência “ser iluminada” pela outra, de criar choques, contradições
entre os discursos dos diferentes protagonistas. Elas conferem ao filme uma narrativa dinâmica e
progressiva.
O filme Vendedores de Milagres não recorre a nenhuma voz-off, a nenhum comentário. É pelo
conteúdo e pela disposição das sequências entre elas que se revela o tema. O espectador segue o
destino e a evolução de alguns personagens tipo, descobrindo assim a realidade que o filme tenta
delimitar.
A incrível deterioração socioeconómica e institucional do Congo não é nele explicitamente
evocada. Aparece apenas em filigrana, ao contornar de uma rua, de um mercado, de uma entrevista
ou ainda de uma sequência filmada num hospital. Mas, não deixa de estar evidente, ou mesmo de
incomodar. E isto ao evitar-se, ao longo de todo o filme, o tom miserabilista e paternalista
demasiadas vezes utilizado quando se trata de problemáticas africanas.
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O contraste entre a riqueza dos pastores e a pobreza dos seus fiéis é abordado da mesma
maneira. São as opções de montagem que fazem aparecer estes contrastes, estes fossos entre os raros
ricos e a multidão dos muito pobres. E isto justapondo a habitação precária de uns com a vivenda de
luxo dos outros, associando a auto-satisfação do pastor rico às esperanças dos seu fiéis, utilizando as
imagens do automóvel de um pastor nas ruas desventradas de Kinshasa.
Vendedores de Milagres não quer ser, por conseguinte, um filme didáctico, mas antes um
testemunho, uma vista de interiores. O filme parte do particular para levar o espectador ao general,
sem, no entanto, o estar a levar pela mão. Vendedores de Milagres constitui uma sucessão de
pedaços de vidas que se cruzam, elaborando assim o retrato de um fenómeno de sociedade e, por
conseguinte, o esboço de uma cidade, de um país e da maneira como os seus habitantes se arranjam
com uma realidade demasiado dura de suportar.
O filme entra directamente no centro da sua temática. O ritmo dinâmico convida o espectador
à descoberta do fenómeno das igrejas do despertar, através das quais ele encontrará um pouco de
si-próprio. Porque o que mostra Vendedores de Milagres, são sobretudo pessoas desesperadas que
procuram uma saída de salvação ⎯ esperança, desmedida, ingénua, como meio sobrevivência.
Face aos fiéis, os pastores. Vendedores de Milagres recusa cair no maniqueísmo simplista
entre, por um lado, os maldosos mentirosos e manipuladores e, pelo outro, o desespero e a
ignorância dos seus compatriotas. Denis Lessie, por exemplo, principal tele-evangelista do filme, faz
sobretudo figura de escroque, simpático e de brincalhão. E não se pode, senão estar de acordo com
ele quando diz que “sem nós, seria a guerra”.
Com efeito, ainda que estas igrejas de cura sejam inegavelmente seitas que visam despojar os
seus fiéis dos seus magros haveres em troca de milagres quiméricos, elas têm igualmente certa
utilidade social. Que seria o Congo sem elas? Que seria o mundo sem religião? Que ser humano
pode viver sem esperança? Não é falso dizer que estas seitas permitem a numerosos congoleses
continuarem a viver no impasse que é a sua vida e retardam a explosão da bomba, ao retardador,
socioeconómica da República Democrática do Congo. A questão é: por quanto tempo ainda?
É do lado desta complexidade, porque a realidade é sempre complexa, que se situa Vendedores
de Milagres.
Traduzido de: http://www.congoforum.be/upldocs/dossier%20presse%20Marchands%20Miracles.pdf.
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1.2. Vendedores de Milagres
Sébastien Fournier
6 de Março de 2006
Cinergie.be: Cinéma Belge
Bélgica
Gilles Remiche realiza o seu primeiro documentário. Um filme seleccionado para o Festival do
filme de língua francesa de Namur, e que irá indubitavelmente dar que falar. Um mergulho com os
megalómanos ao país de todas as misérias.
Gilles Remiche vem colocar a sua câmara de filmar em Kinshasa junto dos vendedores de
milagres, pregadores religiosos que prometem a riqueza e a cura pela oração. De imediato, o director
avisa-nos lembrando que em Kinshasa, a esperança de vida é de quarenta e dois anos, que, no
essencial, uma grande parte da população é analfabeta e que a fome e a doença ameaçam quase toda
a gente. Aí está o ponto de partida do filme. Pregadores evangelistas são um sintoma, um drama
económico e social conjugado com a natureza por mais universal que ela seja: a esperança é sempre
a última coisa a morrer. A partir daí, Vendedores de Milagres é uma constatação, uma constatação
brutal. Uma brutalidade assente numa representação não habitual de África.
Se o filme se parece dirigir, primeiro que tudo, ao espectador ocidental, não é, apesar de tudo,
com a vontade nem de o convencer nem de o incitar à caridade. O filme é centrado no humano. Não
há uma proeza estética, mas uma linguagem do cinema-verdade sem qualquer compromisso.
A medida da desgraça determina a força da esperança, necessária a cada um e, isto, até ao
limite do absurdo. A esperança de quem morre é universal e o seu único infortúnio é a realidade.
Como reagir em frente de uma seropositiva que recusa acreditar que continua doente após ter sido
tocada pelo grande profeta? A imagem é odiosa, até porque a credulidade se apaga com violência e o
desespero aparece, trazendo com ele a constatação da sua miséria, do carácter repugnante da sua
situação. Naturalmente, o profeta rico, que ultrapassará Matusalém em longevidade e se diz capaz de
reanimar os mortos (textualmente no filme) faz lembrar a imagem deplorável do charlatão sem
escrúpulos. Filmado a nu, o escroque descobre-se com um à vontade pornográfico, declama uma
série de inépcias que põem em transe as multidões e esvazia os seus bolsos.
No contexto que assim é assim mostrado, colocam-se uma série de questões: será que estas
pessoas acreditam realmente naquilo que dizem? Será que vender esperança não é, no fundo, um
fenómeno necessário numa sociedade violenta e moribunda? Perguntas imorais, é certo, mas não se
pode legitimar a infantilização de uma população.
A cada um a sua cenoura na ponta do bastão. A do terceiro mundo seria exactamente muito
grande. Há, em todo o caso, aqui, uma complacência a mostrá-lo. Continua às vezes cómico,
frequentemente trágico, mas incisivo. As pequenas inépcias de forma são esmagadas pela força das
imagens. A gravidade das situações alertará, sem qualquer dúvida, todos os espectadores, por mais
insensíveis que sejam. O fim de filme que revela sem ambiguidade a tragédia de SIDA, da doença,
da miséria no que tem de mais tremendo, proíbe-nos toda e qualquer condescendência no que diz
respeito a estas pessoas a quem até a lua se poderia vender. É aí que está toda a força do filme. Os
bons filmes são os que não nos deixam indiferentes.
Traduzido de http://www.cinergie.be/critique.php?action=display&id=802
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2. AS IGREJAS DO DESPERTAR E O HORROR SOBRE AS MENTALIDADES, DE
WASHINGTON A KINSHASA, PASSANDO POR KIGALI
2.1. As seitas, o salve-se quem puder no Congo-Kinshasa
Christophe Ayad
31 de Janeiro de 2001
Libération
Muito ligadas à vida diária, as Igrejas do despertar prosperam na RDC a partir da miséria e da
guerra. E com a bênção do regime
“Repitam depois de mim”, urra um pastor quase a rebentar com as suas cordas vocais. “Este
ano, não tenho necessidade de ginástica!” E a multidão a repetir três vezes a enigmática fórmula,
mexendo também com a cabeça. Outros dizem a seguir: “Tu és a propriedade privada de Jesus
Cristo”, etc. É domingo e a igreja de Vitória está apinhada. Três cultos ao longo do dia dificilmente
chegam para satisfazer a onda de fiéis que se reúnem no grande hangar fechado por uma porta preta
onde se pintou, à mão, com a intenção de impressionar os crédulos: “Miracle Center”. Um pastor em
camisa às riscas e gravata cheia de desenhos debita o seu sermão urrando num micro sem fios, à
maneira de um mau cantor de rap. Um assistente traduz do francês para o lingala, língua usual em
Kinshasa, quase em simultâneo. O sentido do sermão é horrivelmente confuso mas pouco importa, a
multidão está já em transe: ocasionalmente, uma mulher lança-se aos pés do pastor que a atira para o
chão, com a cara virada para o chão, e urrando diz “retira-te demónio, e não voltes!” A decoração
está feita e é imponente: duas poltronas Luís XV tropicalizadas fazem a vez de trono. No muro, uma
inscrição: “eu sou o que Deus diz que sou e não o que diz o mundo que sou. “Assinado, Fernando
Kutino, fundador da Igreja de Vitória.
Ouro e crocodilo
Ao fundo do edifício, uma construção protege os estúdios da televisão da Igreja bem como os
seus escritórios. Em cima, Fernando Kutino, o fundador, descansa enquanto a multidão inicia
cânticos, dançando. Aos 38 anos, está à frente de uma das mais famosas e mais ricas Igrejas do
Despertar, um termo genérico que serve para designar os movimentos carismáticos de obediência
protestante americana que prosperaram a partir da miséria e da guerra no Congo, destes últimos
anos. O homem, que se faz chamar “Arcebispo”, tem mais o ar de gangster de Los Angeles do que
pastor: braceletes em ouro, sapatos em pele de crocodilo e telefone portátil cromado. Este faria rir se
não estivesse à frente de um império financeiro: “Não vos direi qual é o nosso orçamento. Mas
saibam que isto representa muito dinheiro. Não há que ter vergonha nisso. Gosto do dinheiro. Isto
ajuda a viver bem “.
A 31 de Dezembro passado, reuniu aproximadamente 100.000 pessoas no estádio dos Mártires
em Kinshasa. Outras tantas pessoas ficaram do lado de fora. Fernando Kutino acaba de passar seis
meses na prisão por ter queimado uma página do Corão em público. “Não era o Corão, era uma
fórmula de magia escrita em árabe.” É necessário combater a magia porque ela é contrária à
mensagem de Jesus Cristo.
Qual é a mensagem de Jesus Cristo?
“Eu preconizo a felicidade, a libertação, o desenvolvimento e o progresso.”
Mais ainda?
De facto, a Igreja de Vitória, tal como as outras Igrejas do Despertar, tem um discurso linear
do tipo: “se tens fé (e se dás para a caixa dos donativos), Deus ajudar-te-á.”
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Os pastores extraem os seus exemplos da vida diária: fala-se da escassez de gasolina, dos
cortes de electricidade, de políticos corruptos, de polícias ladrões, dos autocarros mais que apinhados
e dos jovens que apanham SIDA. Um catálogo dos males que atingem o Congo. A solução?
A fé, ainda e sempre, sobretudo nada mudar, não se revoltar, é Deus que dá a felicidade.
Kutino, com o seu fato “de tipo bombeiro”, é o mais caricatural dos tele-evangelistas, à
maneira de Kinshasa. Este teria tido conluios com o regime de Mobutu: com efeito, naquela época,
passeava-se sempre armado. Seria um feiticeiro e teria querido branquear a sua pele. “E, na noite da
morte de Kabila, correu para o hotel Intercontinental, goza Jean-Louis, um jovem diplomado que
não tem nenhuma simpatia por estes pastores. “Se calhar, tinha medo de ficar sem nada.” O que
choca mais Jean-Louis, são “estes intelectuais que se precipitam para estes charlatães.” Há homens
de negócios, directores de gabinete, mesmo professores de Universidade”. Mesmo o ministro da
Comunicação, Dominique Sacombi, um antigo mobutista convertido ao kabilismo, é um entusiasta
defensor destas Igrejas do Despertar.
“Criminosos económicos”
Sony Kafuta “Rock-man”, o grande rival de Kutino, oficia a cerca de uma centena de metros
dali, no bairro de Matongué. Dirige a Igreja do Exército do Eterno. O folclore é menos agressivo
mas, tal como no outro lugar, canta-se, dança-se, chora-se... e paga-se: no fim da homília, Sony
Kafuta, com trinta e oito anos, explica longamente que é necessário aumentar a sala da Igreja:
“temos necessidade de 510 sacos de cimento a 10 dólares a unidade e três camiões de cascalho a
1500 dólares.” Mais tarde, explica cruamente: “vocês são o meu investimento: se falho, perco. E
tornam-se, então, criminosos económicos para a Igreja.” Depois de uma última oração contra a
doença, a morte, as epidemias e a escassez, inicia-se o peditório. A multidão, endomingada,
coloca-se em fila para pôr o ôbolo num grande cesto em vime. Os donativos não são grandes, mas os
pequenos donativos acabam por formar uma soma razoável. Sony Kafuta, ele também, exorciza e faz
“milagres”. Este Domingo, reanima o fervor dos fiéis chamando “uma mamã” à tribuna: na véspera,
a paralítica ter-se-ia levantado após um simples colocar de mãos. “Fui durante trinta e oito anos aos
católicos”, explica Ilugan, quadro numa companhia de navegação, vindo em família. “Mas
desiludiram-me: saíamos sem ter compreendido a mensagem. Aqui, é tudo directo, é tudo claro.
Sente-se realmente o contacto com o Eterno.”
Capelão dos exércitos
A Igreja católica não vê com bons olhos esta concorrência. “Até agora as nossas relações são
de guerra-fria”, constata Sony Kafuta. O padre Robert Abelawa, que dirige a paróquia católica de
Saint-Kibuka, reconhece: “Estes movimentos respondem à crise actual.” As pessoas têm necessidade
de milagres, do sobrenatural. Com efeito, isto adormece-as. Fazem-lhes crer que cada um de nós
poderá ficar curado tocando na televisão. Mas, esta concorrência forçou-nos a evoluir. Adoptámos a
oração carismática que é mais viva. Preocupamo-nos também em situar os nossos sermões na vida
diária.” Contrariamente a alguns dos seus colegas que dizem ainda a missa em latim, o padre Robert
passou a dizê-la em lingala. “Além disso, nós temos um discurso político que as seitas não têm.”
Aquando do enterro de Kabila, o bispo de Kinshasa apelou de novo o poder ao “diálogo político”.
Também condenou aqueles “que tomam o poder pelas armas e o guardam pelas armas”.
O regime, este prefere incontestavelmente Sony Kafuta, que lhe é efectivamente útil. “Sob
Mobutu, impediam-nos de nos desenvolvermos porque o poder tinha medo que revelássemos a sua
verdadeira face.” Em agradecimento, Laurent-Désiré Kabila nomeou, em Dezembro, Kafuta capelão
geral dos exércitos. “Escolheu-o porque é originário do Katanga, como Kabila”, dizem as
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más-línguas. Kafuta, está convencido que “se o exército e a rua continuarem a estar calmos após a
morte do Presidente, é graças a nós, os mensageiros de Deus.” Se o Estado ouvir os homens de
Igreja, a solução para os problemas do país aparecerão.
Joseph Kabila em Washington
O presidente Joseph Kabila recebeu em Kinshasa o seu homólogo sul-africano, Thabo Mbeki,
para discutir a guerra regional que destrói o seu país, antes de se iniciar, na cena internacional, em
Washington. O pretexto é “um pequeno-almoço de oração”, organizado pelo Congresso. O
presidente do Ruanda, Paul Kagamé, deve também estar presente. Trata-se de uma manifestação
anual na qual o presidente dos Estados Unidos da América geralmente participa. Kabila intervirá
sexta-feira na frente do Conselho de segurança da O.N.U, em Nova Iorque.
Traduzido de Christophe Ayad, “Les sectes, sauve-qui-peut au Congo-Kinshasa”, Libération, 31 de
Janeiro, 2001 e disponível em: http://www.antisectes.net/libe-congo.htm.
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2.2. Jesus Business: Expansão, Complexidade, Problemática e Espiritualidade
Daniel Lobé Diboto
19 de Fevereiro de 2006
Congopage
O negócio espiritual é uma das componentes da realidade contemporânea africana. É apoiada
pelo uso dos mais modernos métodos de marketing como o provam a proliferação das rádios e das
televisões cristãs, com emissores e retransmissores potentes, que insistem diariamente e até à
exaustão com anúncios e mensagens que elogiam curas milagrosas, ascensões sociais fulgurantes,
fecundidades reencontradas... A religião torna-se doravante uma base de comércio.
Subtil, insidiosa, manhosa, não há nenhuma dúvida quanto à sua eficácia. Nestes grupos de
iluminados e candidatos ao paraíso encontram-se, mulheres e homens provenientes de todas as
camadas sociais. Contudo, o dom de Deus não surge ex-nihilo, os cultos e as campanhas,
verdadeiros shows à americana (com sonorizações tonitruantes, animadores, orquestras, guardas
costas...) preparam psicologicamente os fiéis e predispõem-nos para a sua dependência. “É de acordo
com o peso do teu porta-moedas que receberás”, afirmação que é apresentada como uma
reivindicação de Deus, uma fraude sabiamente organizada, e que é a condição sine qua non para
obter a graça divina. Prova da rentabilidade do negócio: na República Democrática do Congo e na
república irmã do Congo-Brazzaville, as igrejas, aqui e olá, nascem como cogumelos.
O nosso inquérito na cidade de Pointe-Noire recenseou: 289 destas igrejas no único bairro 4 de
Loandjiti, cerca de 300 no bairro 3 Tié-Tié. Recentemente, o secretário-geral do bairro 2 Mvoumvou
denunciou a implantação de mais de 159 destes igrejas, várias das quais não estão sequer registadas
nos serviços administrativos. No bairro 1 Lumumba haverá mais de 300 igrejas. São por conseguinte
mais de mil estabelecimentos que comercializam o Evangelho de acordo com um Santo qualquer,
que partilham os subsídios das almas de cerca de 800.000 habitantes.
Ridículo, estes homens que vêm de parte nenhuma, iluminados e depois profetas, prontos a
guerras entre si, com o objectivo de conquistarem os fieis. Enganam sem vergonha os candidatos ao
Paraíso. O bicho está no interior da fruta...
A palavra, pela qual, com a qual, e na qual, todas as coisas são feitas de acordo com a Bíblia
faz milhares de vítimas, desintegra as famílias. Estas não hesitam em desbaratar os seus raros bens
para satisfazerem as exigências dos seus pastores ou profetas. Assim em Brazzaville milhares de
congoleses encontraram-se abandonados no aeroporto Maya Maya, sem bilhete de viagem para uma
peregrinação preparada pelo seu guru.
Recentemente na Pointe-Noire no bairro OCH: um casal de boa fé alojou um pastor em
dificuldade. Como balanço dessa ajuda, a mulher fugiu com o intruso não sem antes ter vendido os
bens e ter esvaziado as contas bancárias do casal. No final, o marido suicidou-se.
Oferecendo aos “fiéis” o que estes têm desejo de ouvir, mesmo que para isso seja necessário
exceder os limites do absurdo, do ridículo e da heresia, os falsos profetas asseguram-se da
rentabilidade das suas “ovelhas”. Uma certa seita não afirma ela, esquecendo a imaterialidade do
Divino, que “Deus é negro, Jesus é africano” e, no entanto, continua a fazer boa receita com isso.
A espiritualidade contemporânea dirige-nos uma tripla interrogação: interroga primeiramente a
inteligência, desejosa de compreender as causas de todos os fenómenos que afectam a humanidade.
Interroga, depois, a consciência moral, insegura dos seus juízos e dos comportamentos a adoptar.
Interroga por último a consciência religiosa obrigada a conciliar o show-business e o serviço
religioso.
A espiritualidade africana é complexa. A este respeito um provérbio popular diz que: “o cristão
e o muçulmano rezam na igreja ou na mesquita com um fetiche no bolso”. É evidente, as religiões
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monoteístas importadas, Islão (s) e cristianismo (s), nunca quebraram as ligações com o animismo, o
paganismo, o feiticismo e a bruxaria.
Numa sociedade social e psicologicamente arrasada e desnorteada pela precariedade, pela
pobreza, pelo desemprego... as igrejas reveladas tocam a fibra sensível dos fiéis numa alquimia do
racional e do irracional: a esperança e a ilusão do milagre.
Traduzido de Daniel Lobé Diboto, “Le Jésus business: Foisonnement, Complexité, Problématique et
Spiritualité”,
Congopage,
19
de
Fevereiro
de
2006,
disponível
em
http://www.congopage.com/article.php3?id_article=3323.
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2.3. Febre religiosa em Kinshasa? “Jesus está na tua cabeça!”
Joshua Massarenti
20 de Julho de 2006
Courrier International
Misturando espiritualidade e populismo, as Igrejas do despertar seduzem milhões de fiéis,
desiludidos pela religião católica. Nas vésperas das eleições na República Democrática do Congo, o
seu papel político é determinante.
Bênção com a ajuda de um biberão
Grazia Neri
Alexandre Mambu tem um olhar desconfiado. “Cá para nós, não tenho nada contra os
jornalistas”, diz-nos ele, de imediato. “Bem pelo contrário, sois bem-vindos. Mas, eu conheço-vos.
Vêm ver-nos cheios de ideias pré-concebidas, fazem-nos muitas perguntas, e depois voltam para
casa e só Deus sabe o que vão escrever sobre nós.” Sabe bem do que está a falar. Representante
influente da Igreja kimbanguista, Mambu dirige o escritório das relações com os meios de
comunicação social. Depois dos cultos católico e protestante, esta Igreja é a mais difundida na
República Democrática do Congo (RDC). Fundada ao século passado pelo profeta Simon
Kimbangu, é apresentada pelos seus detractores como uma seita perigosa.
Em Kinshasa, as Igrejas do despertar, chamadas igualmente Igrejas “independentes”, ou
“vivas”, porque se considera que estão mais próximas do povo, são movimentos sincréticos de
inspiração cristã que florescem em cada canto de rua, como na maior parte das cidades africanas.
Não é por acaso que elas chamam à atenção exactamente neste momento, nas vésperas das primeiras
eleições democráticas do país, previstas para o dia 31 de Julho de 2006. A base de dados da African
Independent Churches and Leaders enumerou mais de 10.000 igrejas na África Subsahariana.
Limete, um dos bairros mais populares da capital congolesa, já conta, só por si, 400 destas igrejas.
Eis-nos no centro kimbanguista de acolhimento e de conferências de Kinshasa, um vasto
complexo construído no centro da capital. No meio de uma multidão em êxtase, um homem
estendido sobre uma poltrona de veludo distribui milagres a toda a gente. Sob os olhos de guardas
impassíveis, os fiéis prosternam-se, uns após outros, aos seus pés, prontos a receberem algumas
gotas de água benta que o decano lhes lança para a cara com a ajuda de um biberão. “Têm à vossa
frente Simon Kimbango Kiangani, bisneto do nosso fundador, chefe espiritual e representante oficial
da Igreja kimbanguista”, anuncia orgulhosamente Alexandre, antes de se prosternar por sua vez para
lhe prestar homenagem. Uma cena extremamente surpreendente, mas que nos permite trocar
algumas palavras com o chefe do movimento: ficamos a saber que este movimento conta mais de 17
milhões de adeptos no mundo (do qual 5 milhões no Congo; de acordo com as estatísticas do portal
oficial, o resto dos discípulos repartir-se-iam entre a Europa e os Estados Unidos). Como se pode
explicar tal fenómeno? “É a manifestação de uma vontade divina, porque só Deus é capaz de
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decidir”, responde Simon Kimbango. “Para compreender o sucesso extraordinário destas seitas, para
além do folclore, é necessário estudar, em primeiro lugar, a história da luta anti-colonialista de
Kimbangu”, explica Jean Bwatshia Kambayi, professor de História na Universidade de Kinshasa.
Hostil às Igrejas independentes, este universitário admite que “através deste movimento religioso
indígena, Kimbangu lutou contra a dominação dos colonos belgas e dos missionários católicos e
protestantes, e teve que passar cerca de trinta de anos na prisão. Bem antes de Lumumba, o líder da
luta independentista, soube inculcar nos congoleses a consciência de existirem enquanto homens e
enquanto negros. Este sentimento de identidade muito forte sobressai sempre que os representantes
políticos e religiosos são acusados de estarem a soldo dos estrangeiros.” “Infelizmente, os trinta anos
de ditadura e estes dez últimos anos, marcados por uma guerra civil sangrenta, necessariamente
deixaram vestígios, explica Kambayi.” Milhões destes discípulos são pobres e ignorantes: uma
reserva humana de um valor inestimável para estes pregadores sem escrúpulos e sedentos de
dinheiro.” A explicação é inegável, mas não é suficiente para explicar as razões da divulgação
extraordinária deste tipo de movimento e a sedução afectiva que exerce.
Choupette, de 25 anos, noiva e mãe de duas crianças, vive no bairro popular de Lemba. Como
todas as quintas-feiras, vai à “Cidade da oração” do Exército do Eterno — o Exército do Eterno é
uma outra Igreja do despertar, muito popular em Kinshasa — para ouvir os sermões do pastor Guy
Kankunanda. “Gosto muito das cerimónias da quinta-feira porque são reservadas às mulheres.
Oramos, cantamos e dançamos”, conta-nos.” Esta noite, não são mais de uma vintena, sentadas em
bancos e instaladas no meio de uma sala que se assemelha a um cabaret. Em menos de duas horas, o
pastor Kankunanda recita os preceitos bíblicos em língua lingala [falada em Kinshasa com o
francês], que adapta assim, como é necessário, para um público arrasado pelos aborrecimentos
diários.
Há preceitos para toda a gente: para maridos infiéis e para os que afogam os seus problemas no
álcool, para as crianças irreverentes e para as mulheres espancadas, para os políticos corrompidos e
para os polícias pagos pelos frutos dos assaltos. Toda a assistência bebe as suas palavras, até à última
citação bíblica. Com um tom que tranquiliza, o pastor retoma uma passagem do Evangelho segundo
S. João. “Não estejam inquietos”, recita citando Jesus. “Creiam em Deus e creiam em mim. Há
muitos lugares disponíveis para habitar na casa do meu Pai. E eu preparar-vos-ei um lugar.” Um
lugar para todos, por conseguinte, e um refúgio espiritual para Choupette, que define o Exército do
Eterno como “uma passagem obrigatória para chegar até a Jesus”.
Como tantas outras jovens mulheres, primeiro seguiu a Igreja católica. “Eu estava bastante
bem preparada para me defender das pessoas desonestas”, reconheceu. Mas, depois, isto já não era
suficiente. “Não rezava correctamente e nem mesmo lia a Bíblia.” Porquê? “Isso depende da maneira
de rezar dos nossos padres. Rezam sem mostrar nenhuma emoção; com eles, não sentia a presença
de Deus.” E, depois, houve o álcool. “Mesmo com os nossos dois salários, já não chegávamos a
juntar as duas pontas, o fim e o princípio do pagamento dos salários. Certos meses, não tínhamos
mesmo com que viver. Era muito deprimente, e acabei por afogar as minhas desgraças na cerveja.”
Temos dificuldade em imaginá-lo quando estamos com alguns copos a mais, porque a Sua beleza
parece imaculada. “O meu marido frequentava uma Igreja do despertar, prossegue. E, tendo em
conta que, de acordo com a Bíblia, a mulher deve sempre seguir o seu marido, há sete anos senti em
mim também a necessidade de a frequentar.” Pelo menos três vezes por semana. “Graças às palavras
do meu chefe espiritual, disse não ao álcool. E hoje estou feliz.” Numa rua anónima do bairro de
Kasavubu, um grande portão preto separa o reino do comum dos mortais de um mundo onde “tudo é
possível”, como o afirma uma inscrição. Do outro lado do muro, sob um hangar de acaso, uma
multidão de fiéis mantem-se, apertada, em torno de um estrado onde se realiza um verdadeiro
one-man-show. Equipado com um micro, o pastor Bompère espanca o seu fiel dizendo: “Jesus está
na tua cabeça!”, “Jesus está na tua cabeça!” Como ruído de fundo, uma orquestra toca o melhor do
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seu reportório, tornando quase inaudível um sermão já incoerente enquanto tal. Literalmente
transcendida, a multidão não parece dar-lhe a mínima atenção. A confusão atinge o seu zénite
quando uma mulher — persuadida de ser possuída pelo demónio — se lança por terra como um peso
morto. “Jesus, liberta-me! Liberta-me!”“ berra, em transe. Tem os punhos apertados e as lágrimas
nos olhos, o seu corpo endurece como pedra e parece estar à beira de se quebrar. Serão necessários
cinco longos minutos, antes que os seus condiscípulos, totalmente dedicados à sua causa, consigam
trazê-la “à razão”. No fim da oração, a multidão retira-se lentamente, no limite das suas forças.
“Tudo se passou muito bem”, declara o pastor com satisfação. Mas as apreensões permanecem. Os
detractores dos kimbanguistes acusam-nos de estarem mais interessados nos bens materiais do que
nas questões de Deus e de manterem relações pouco claras com o mundo político. Com o aproximar
das eleições de Julho, o debate endurece. Mas os kimbanguistas saiem já vitoriosos desta partida. Em
Fevereiro passado, a sua conferência internacional foi honrada pela presença dos principais
representantes políticos do país, entre os quais o chefe da missão da ONU no Congo, o presidente
actual da União Africana e o presidente em exercício, Joseph Kabila, grande favorito das sondagens
eleitorais.
Traduzido de Joshua Massarenti, “Fièvre religieuse à Kinshasa. “Jésus est dans ma tête!”, Courrier
International, 20 de Julho, 2006 e disponível em http://www.burundibwacu.org/spip.php?article690.
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2.4. Entrevista ao Almirante Pierre Lacoste
Construam o vosso continente, mas com os modos de pensamento dos Africanos
Almirante Pierre Lacoste
27 de Março de 2006
Les Dépêches de Brazzaville
Num estudo recente intitulado “A Emergência do Golfo da Guiné na Economia Global:
Perspectivas e Desafios”, Damian Ondo Mana, director executivo responsável por África no Fundo
Monetário Internacional (FMI), considera que as perspectivas económicas da região são boas e que
terão uma boa posição na economia mundial graças aos seus recursos naturais, nomeadamente o gás
e o petróleo. O estudo precisa que um quarto das reservas africanas de gás (8% das reservas
mundiais) encontra-se no Golfo da Guiné. Os países que detêm estas reservas são Angola, Camarões
Congo-Brazzaville, Guiné-Equatorial, Nigéria e República Democrática do Congo (RDC).
Devido a estes recursos petrolíferos e de gás, o interesse geo-estratégico da região irá
necessariamente aumentar. O Golfo da Guiné desempenhará rapidamente um papel essencial na
estratégia energética da Europa, dos Estados Unidos e da Ásia. Este interesse adicional resulta
também do desejo da Europa e dos Estados Unidos (assim como da Ásia, a exemplo da China à
procura de novas fontes de abastecimento) diversificarem as suas fontes de abastecimento e
reduzirem a sua dependência em relação ao Golfo Pérsico que é uma zona de forte instabilidade.
Uma opção ligada, por um lado, à boa qualidade de petróleo do Golfo da Guiné e, por outro lado, à
exploração no mar, longe dos campos de instabilidade política e das guerras civis, assim como, por
último, pelo fraco custo de transporte para a Europa e para a América do Norte.
Para além destas duas riquezas, o Golfo da Guiné dispõe ainda de outros recursos como o
ouro, o diamante, o urânio, a columbam-tantalite (matéria utilizada nos telemóveis, nos satélites e
nos equipamentos de telecomunicações). E, no entanto, apesar dos seus recursos, os países do Golfo
da Guiné enfrentam um fraco nível de crescimento e este é endémico. Para resolver estes desafios,
Lacoste preconiza a resolução dos conflitos, a segurança e a estabilidade, a integração regional, a
boa governança e a diversificação das economias.
Nas suas relações com a Europa, os Estados Unidos e a Ásia, os países do Golfo da Guiné são
confrontados com três modos de pensamento, três ideologias, três culturas estratégicas, três
rivalidades bem vivas que lhes é necessário terem em conta. Efectivamente, apreender bem a cultura
do outro é uma arma que se chama a inteligência económica. Os actores económicos da África
central, como no resto de África, devem integrar a inteligência económica na tomada de decisão e
adaptarem-na às suas práticas de cooperação. A eficácia das suas acções futuras, dos dispositivos
que porão em prática, assenta sobre verdadeiros dispositivos de inteligência económica ao serviço do
desenvolvimento e do emprego. Aqui está um outro desafio sem o qual será difícil à África Central
fazer parte do jogo da mundialização.
O Golfo da Guiné é um mercado de 300 milhões de consumidores e agrupa os países da África
do Oeste (Benin, Costa de Marfim, Gambia, Gana, Guiné-Bissau, Nigéria, Senegal, Serra Leoa e o
Togo) e a África Central (Angola, Camarões, Congo, República Centro Africana, RDC, Gabão,
Guiné-Equatorial e São Tomé).
P. “A posição da França e as suas empresas parece estar em retrocesso na África. Porquê?
R. Lacoste. Como muita gente da minha geração, lamento ver o retrocesso político e económico da
França em África. Contudo, apesar das posições perdidas, mantenho muita esperança porque dou
mais importância aos fenómenos culturais e porque creio que a muito longa aventura compartilhada
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entre os Franceses e os Africanos é portadora de grandes esperanças. Contudo, no período de
transição que vivemos, é necessário saber que diversos procedimentos estão ultrapassados. Chegou a
altura para os Africanos tomar em mão o seu destino. As velhas gerações, tanto para vocês como
para nós, devem deixar o lugar às novas gerações. Mas, isto nem sempre se fará de modo calmo. A
minha esperança é que os Africanos que viveram e estudaram em França sejam completamente
capazes de se apropriarem das alavancas da modernidade.
P. No entanto, as riquezas existem e estas são pretendidas por outros países, os Estados Unidos e a
China por exemplo. Onde está a França? Onde está o desenvolvimento tão prometido?
R. Deste ponto de vista, penso que a África Central tem uma vantagem considerável devido às suas
riquezas naturais e humanas. Contudo, é necessário que, como para o resto da África, a comunidade
internacional contribua com a sua ajuda económica. No que diz respeito ao comportamento chinês e
americano actual – não gosto dos fala-barato – é claro que se aprestam a estarem disponíveis por
causa das vossas riquezas naturais, não por vocês... Sem ser um perito de África, mas vendo as
coisas com alguma distância, observei que os dramas que tiveram lugar no Burundi, no Ruanda e na
República Democrática do Congo tiveram para principal motivação as riquezas mineiras do
ex-Zaire. Deste ponto de vista, há um falhanço.
P. Que fazer, como e com quem?
R. Espero que vocês, os Africanos, consigam convencer a comunidade internacional, em especial a
opinião pública ocidental, a ajudar-vos a beneficiarem das vossas possibilidades e das vossas
vantagens. Mas, evidentemente, o realismo político é frequentemente mais forte que esta visão ideal
da qual os Acordos de Lomé eram portadores: penso em especial no desenvolvimento do
microcrédito. Além disso, para além da nostalgia, creio na mensagem de Pierre Savorgnan de
Brazza...
DB. Poderia explicar a vossa ideia sobre Savorgnan de Brazza?
R. Não esqueço que Savorgnan Brazza foi objecto da oposição feroz das potências do dinheiro do
seu tempo. Este homem que veio ao Congo perturbou o mercado da escravatura. Ao mesmo tempo,
ele homenageou as populações que descobria. Acredito muito nesta mensagem de humanismo
mesmo se não compete aos Europeus imporem-na aos Africanos. É antes aos Africanos que cabe
imporem-na a si-mesmos.
P. A África não é nunca ganhadora nas negociações nem com os países ocidentais nem com as
organizações internacionais. Como construir a África, como dominar a informação em proveito do
nosso desenvolvimento?
R. A primeira etapa é a educação. Mas, não se pode começar pela educação se não há um mínimo de
nível de vida. É necessário erradicar a pobreza primeiro e ter programas educativos que não sejam a
cópia dos programas dos países ricos. É aqui que está a grande dificuldade. A África Central é uma
oportunidade para o continente africano, mas tem ainda muito caminho a percorrer. Se os Africanos
puderem recuperar uma boa parte dos seus produtos naturais e consagrá-la ao seu próprio
desenvolvimento evitando as devastações das ideologias, será uma boa coisa porque é pelas
ideologias que se enganam as pessoas. Construam o vosso continente, mas com os modos de
pensamento dos Africanos.
P.O que é que isso significa concretamente?
R. Pois bem, será que sabem que é a ideologia do ultraliberalismo americano que faz com que o
trigo vendido na Costa de Marfim custe muito mais barato que o sorgo produzido no país? Não
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esqueçam nunca que por detrás da ideologia ultraliberal, por detrás dos pastores evangelistas, se
escondem os principais interesses económicos. O negócio dos “fundos altamente especulativos”
anglo-saxónicos que se desenrola neste momento no Congo-Brazzaville é um escândalo, uma
espoliação das vossas sociedades. Compete-vos a vocês, Africanos, oporem-se a estas práticas. Para
que a população possa sair da pobreza, todas as iniciativas são necessárias, nomeadamente o
microcrédito. É a etapa que permitirá colocar-se no mercado internacional. Mas é necessário que os
Africanos comecem, primeiro, por conquistar o seu mercado nacional. A esse nível, o exemplo da
revolução chinesa merece ser estudado. Pensem em Deng Xiao Ping e na sua maneira de se livrar da
ideologia maoista. Devem começar pela libertação nas aldeias, por ajudar os ofícios básicos como o
artesanato...
P. Os Americanos e os Chineses enfrentam-se para explorar as matérias-primas da África central.
Para ganhar esta batalha, os Americanos utilizam a arma das igrejas do despertar e com isso é a
nossa cultura que se desagrega. Que pensa disto?
R. Não são igrejas, são seitas! Adormecem as populações e só têm um único interesse, o dinheiro. O
exemplo do Brasil em matéria da ligação seitas-dinheiro é muito elucidativo. Contudo, existem
verdadeiras igrejas cuja missão não é ligada ao dinheiro.
P. Como combater estas seitas em países onde o Estado é fraco, onde às populações falta o mínimo?
R. Dizê-lo alto e o bom som. Mas, neste caso, corre-se o risco de sofrer todos os golpes perpetrados
pelos Americanos.
Almirante Pierre Lacoste: Diplomado da Escola Superior de Guerra Naval, Comandante do
Esquadrão de Mar Mediterrâneo, depois director do DGSE ― os serviços de informação militar
franceses ― preside hoje o Centro de Estudos Científicos de Defesa, um instituto dedicado à
geo-estratégico e à inteligência económica.
Entrevista conduzida por Noël Ndong
Traduzido de http://www.africatime.com/afrique/nouv_pana.asp?no_nouvelle=247220&no_categori
e=3.
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2.5. O calvário das “crianças-feiticeiro” de Kinshasa, rejeitadas pelas novas igrejas
carismáticas
David Blair
6 de Outubro de 2005
Daily Telegraph/Courrier International
Em Kinshasa, são cada vez mais as crianças que, acusadas de bruxaria pelos seus pais, são
abandonadas. Estas perseguições são incentivadas pelas novas Igrejas que proliferam na capital
congolesa.
De uma parte e de outra do rio Congo, os pregadores afirmam: o diabo esconde-se nos olhos
desesperados das crianças abandonadas. De acordo com eles, as crianças de rosto e de membros
magros, que vagueiam nas ruas de Kinshasa, a capital nauseabunda da República Democrática do
Congo, trazem com eles o mal e o pecado. A maior parte foi expulsa dos seus lares após ter sido
acusada de bruxaria e de atrair todas as espécies de desgraças sobre as suas famílias.
Espalhou-se pelas cidades do Congo um medo visceral das crianças possuídas pelo mal. Por
causa disso, dezenas de milhares de rapazes e raparigas são vítimas de violência e abandonadas.
Muitas são espancadas, privadas de alimentos e torturadas aquando de cerimónias dos exorcismos
realizadas nas igrejas dos bairros pobres pelos pastores evangélicos, padres sem escrúpulos que
exploram a crença profundamente ancorada na população que o mundo é povoado de espíritos
malignos.
Em toda a África, as congregações cristãs proliferam a um ritmo nunca visto. As Igrejas
africanas contam 390 milhões de fiéis, ou seja mais do triplo de há trinta e cinco anos. Mas, estes
templos estão, frequentemente, instalados em casas degradadas, onde os pastores oficiam e estes
sabem mais sobre cupidez e sobre o sadismo do que sobre a teologia.
“Devem sofrer para ser libertos do mal”
No Congo e na vizinha Angola, são aos milhares as crianças que diariamente são acusadas de
bruxaria. Só na cidade de Kinshasa, 70% das crianças das ruas foram abandonadas por esta razão.
Estes dois países sofreram vários anos de guerra civil, em que foram cometidas inúmeras atrocidades
por crianças-soldado. De acordo com as organizações humanitárias, esta seria uma das razões para as
quais numerosos congoleses e angolanos têm medo dos mais jovens. Jean, 12 anos, é uma destas
“crianças-feiticeiro”. Veste uma t-shirt rasgada, uns calções vermelhos e umas sandálias usadas. É a
sua única riqueza. As ruas sórdidas de Matonge são a sua casa desde que foi expulso de casa. O seu
crime: ter “dado” um destino mortal à sua avó. Mas, antes de esta falecer, o tio e a tia de Jean já
tinham começado a persegui-lo, acusando-o de bruxaria, ou kindoki. “Batiam-me, contava a criança.
As minhas irmãs e o meu irmão iam à escola, mas a mim impediam-me de ir porque diziam que era
um kindoki. Deixaram de me pagar a escola. Quando algum deles ficava doente, diziam: é devido ao
kindoki.”
Após a morte da sua avó, a vida de Jean tornou-se insuportável. “Um dia, ela não se sentiu
bem depois de ter comido. Morreu de noite, prossegue. O meu tio e a minha tia disseram que eu
tinha lançado um mau-olhado à comida e que a matei. Eu nem sequer lá estava quando ela comeu.
Estava a jogar futebol com os meus amigos, mas continuaram a acusar-me. Um dia, o meu tio pôs-se
a bater-me com uma vara que tinha pregos. Escondi-me debaixo da cadeira. Tirou-me de lá e
continuou a espancar-me. Pensei que me ia matar. Tive sorte em escapar-lhe e fugi de casa.”
A última vez que foi espancado, Jaez tinha 10 anos. A sua mãe, Christine, não estava lá
quando se refugiou na rua para não ser mais mal maltratado. Se lá tivesse, pensa, tê-lo-ia salvo.
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A capital do Congo abunda em pastores que afirmam que podem expulsar os demónios do
corpo dos jovens “possuídos”. Mama Louise Mujinga, 55 anos, partilha um alojamento nojento com
quinze “crianças feiticeiras”. Os seus métodos de exorcismo são relativamente suaves: não recorre
nem à pancada nem à tortura, submete as crianças a um jejum de nove dias, e dá-lhes apenas um
bocado de pão e um copo de água ao pôr-do-sol. “Devem sofrer para se entregarem inteiramente a
Deus e serem libertas do mal”, explica. Segundo ela, as crianças transformam-se frequentemente em
animais durante a noite. “Tu, em que é que te transformaste?”, pergunta a uma criança aterrorizada.
“Em rato”, respondeu. “E tu?” pergunta a outro. “Em gato.” Outro rapaz afirma que se transforma
regularmente em porco, outro, em cabra.
“São muito perigosos”, continua Mama Mujinga. “Vejam esta criança. A sua mãe teve uma
gravidez de onze meses. E apenas quando expulsei o demónio que estava nele é que ele pôde vir ao
mundo. Aquele, além, paralisou o seu pai. O homem já não se podia mover. Então tive que expulsar
o espírito maligno. Felizmente, tenho as minhas orações para me proteger.”
A ONG Save the Children tenta tirar as crianças das garras dos pastores indignos. “Vi crianças
acorrentadas, umas em cima das outras, num estado miserável durante vários dias com o pretexto de
as estarem a preparar para a sua libertação”, relata Stephen Blight, o responsável da organização em
Kinshasa. “Frequentemente são privados de alimentos, e falamos de jovens crianças de 5, 6 ou 7
anos. Proíbem que bebam água, batem-lhes, submetem-nos a purgas por via anal ou vertem-lhes óleo
quente sobre eles.” Durante os dois últimos anos, a organização Save the Children teve êxito e
salvou cerca de 2.000 crianças que viviam na rua ou eram prisioneiros dos pastores e voltaram para
as suas famílias. Todo o que quer Jean, é ver a sua mãe e ir para a escola. “Quando vejo outras
crianças a ir para a escola, penso que se a minha mãe estivesse comigo, eu também iria”, confia.
Traduzido de http://www.congovision.com/forum/kindoki_calvaire1.html
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2.6. O calvário das crianças ditas feiticeiras na República Democrática do Congo
Christophe Boulierac
18 de Novembro de 2003
MONUC, Missão da Nações Unidas na República Democrática do Congo
Em ruptura radical tanto com o modelo tradicional congolês de bruxaria de linhagem como
com os fundamentos dum Estado de direito que deve assegurar a protecção da infância, o fenómeno
das crianças ditas feiticeiras é uma das variantes mais complexas e perniciosas da problemática da
infância em dificuldade na RDC. Esta não se inscreve numa lógica conjuntural de conflito, como é o
caso das crianças-soldado, mas enraíza-se mais profundamente na desestruturação do campo familiar
e dos princípios que o governam. Uma campanha de sensibilização recentemente lançada pelo
ministério congolês dos Assuntos Sociais e apoiada por países financiadores, parece testemunhar
uma tomada de consciência da urgência em melhor compreender e melhorar o destino destas
crianças.
Estávamos num seminário, em Kinshasa, em Dezembro de 2002. À frente dos jornalistas, dos
responsáveis das igrejas do despertar, dos trabalhadores sociais, um membro eminente da igreja
católica do Congo tentava analisar as causas profundas do fenómeno das crianças-feiticeiro: ruptura
em relação ao modelo tradicional de bruxaria que valoriza a criança, pobreza, poligamia,
desresponsabilização individual e institucional, quebra da solidariedade familiar, antes de concluir o
seguinte: “certamente, existem igualmente verdadeiras crianças feiticeiras, mas são, manifestamente,
em pequeno número”.
Esta posição ambígua dum membro da igreja católica do Congo ilustra a complexidade do
fenómeno e as dificuldades a evitar para dar respostas adaptadas. Porque, mesmo que ainda alguns
considerem que “a caça às bruxas cessou na Inglaterra quando os intelectuais cessaram de acreditar
nisso”, a resolução do problema das crianças ditas feiticeiras na RDC parece estar a milhas de
distâncias dum debate tão fácil como estéril sobre a justificação ou não da noção de bruxaria, se é
que pode haver alguém que possa estar de acordo com a sua definição pois cada um pode-se
reencontrar em redor da sua própria definição. O debate situa-se noutro lugar.
Um fenómeno novo pela sua amplitude, não pela sua natureza
O fenómeno da bruxaria infantil na RDC é sobretudo impressionante pela sua amplitude, não
pela sua natureza. Este reencontra-se por exemplo nos Camarões no início dos anos 1970, no sudeste
do país, na República Centro-Africana, no Benim, mas numa escala muitíssimo menor. São com
efeito aos milhares, em Kinshasa, Mbuji-Mayi, Kisangani, Lubumbashi, Bukavu, os acusados de
estarem na origem de desgraças, de acidentes, de zangas ocorridas na família ou mesmo no bairro e a
reencontrarem-se, na melhor das hipóteses, rejeitadas, na rua, espancadas, torturadas ou mortas no
pior dos cenários. Acusam-nos frequentemente da mesma coisa: estas pequenas crianças do mundo
visível podem metamorfosear-se num outro mundo, o mundo invisível, efectuando visitas nocturnas,
que “comem a carne e bebem o sangue” das suas “presas”, quer se trate do seu pequeno irmão que
acaba de morrer ou dum vizinho gravemente doente. “Aliás, confessam-no de boa vontade”,
reconhecem psicólogos, que sublinham que estas crianças, muitas delas numa situação familiar
vulnerável (órfãos de pais mortos de SIDA, crianças nascidas de membros afastados da “família”) e
já traumatizadas pelas pressões que suportam na sua família, estão numa fase de desenvolvimento
psicológico favorável às fabulações em público, interpretadas pelos seus acusadores como sendo
uma confissão.
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Para Filip de Boek, professor em antropologia da Universidade de Louvaina, na Bélgica, e que
efectuou vários estudos em cidades de RDC, a amplitude deste fenómeno complexo está ligada a
vários elementos duma mutação social, que inclui nomeadamente o conflito entre as gerações e a
vontade de aceder à “modernidade”. Segundo este cientista, com efeito, a criança na RDC não é
somente uma vítima, é igualmente um “actor social” que ocupa um lugar cada vez mais central na
esfera pública, quer seja Kadogo (criança-soldado) detentor da força ou quando encontra um
diamante e acede a uma vida moderna da qual os seus familiares mais velhos estão excluídos. “Este
poder completamente novo também provocou, inevitavelmente a emergência de acusações de
bruxaria entre as gerações”, considera, e a tal ponto que se fala de bruxaria “diamantífera”. De modo
mais geral, “parece que este estatuto social central das crianças se cristalizou claramente, e
sobretudo, em redor da figura do feiticeiro, que é a própria incarnação dum imaginário cultural de
crise”.
Igrejas do despertar: primeiros acusados, verdadeiro ou falso remédio?
A divulgação em Kinshasa das séries televisivas da Nigéria e do Gana, muito centradas na
noção de “crianças espíritos” não são, certamente, desfavoráveis, mas são sobretudo as igrejas do
despertar (frequentemente ligadas ao pentecostaltismo ou a outros cultos “fundamentalistas”) e os
seus pastores frequentemente mercantilistas que contribuem amplamente para produzir esta figura de
crianças-feiticeiro e para as “identificar” como tal. Uma vez “identificadas”, as crianças ditas
feiticeiras, estas sofrem um período de reclusão, no decorrer do qual as obrigam a jejuar ou lhes
administram laxativos e vomitivos para as “limpar da carne que elas comeram”. Práticas
desacreditadas e consideradas como traumatizantes ou mesmo inumanas pelas associações e
organismos pouco dispostos a justifica-las pela consideração das implicações culturais da bruxaria.
Casos de mortes devidas a estas práticas já têm sido, com efeito, constatados e, às vezes, punidos. O
ministério dos Assuntos Sociais acaba de interditar o albergar destas crianças pelas igrejas do
despertar, enviando investigadores para o local de modo a verificarem a aplicação desta proibição.
Nem todo a gente está de acordo. Para um psiquiatra de Kinshasa, que estuda o fenómeno, a
designação da criança-feiticeiro é feita ao nível da família, e a igreja nada mais faz do que
confirmá-la. Pelo contrário, afirma, “é necessário trabalhar com estas igrejas, é necessário
enquadrá-las porque constituem a solução fornecendo um espaço social, através, nomeadamente, das
sessões de libertação, que traz uma solução local que permite reintegrar a criança e poupar-lhe assim
muitos sofrimentos”. Para o director duma associação em Kinshasa, em contrapartida, “estas igrejas
reintegram em 20% e destroem em 80%, e a reintegração obtida é frequentemente bem frágil, após
todas as suspeitas que pesaram sobre a criança e da sua situação familiar sempre marginalizada que o
fará sentir sempre como uma boca suplementar a alimentar”.
Os meios de comunicação social nacionais, quanto a eles, frequentemente relatam os
assassinatos de crianças ditas feiticeiras como um simples facto banal, escondendo perigosamente o
alcance social do fenómeno e privilegiando o sensacionalismo. Em certos artigos, a noção de
crianças ditas feiticeiras é mesmo abandonada pela de criança-feiticeiro, no fim do artigo, e o
jornalista, pura e simplesmente, toma o partido daqueles que reconhecem implicitamente a
veracidade das acusações que pesam sobre cada uma das crianças assassinadas.
Que soluções?
Em Kinshasa, perto de uma dezena de organizações, aprovadas pelo governo, acolhem
crianças da rua acusadas de bruxaria. Paralelamente, vários centros “religiosos” informais
preenchem o vazio, como no bairro Masina-Matadouro, onde crianças habitam em condições
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materiais deploráveis, na companhia, às vezes, de pacientes psiquiátricos, acorrentados, mais ou
menos simbolicamente a blocos de motor. O ministério dos Assuntos Sociais, apoiado por
organizações como a UNICEF, a USAID ou organizações como a Save the children lançaram uma
campanha de sensibilização em Kinshasa a 10 de Outubro passado, e que prosseguiu, duas semanas
mais tarde, em Mbuji-Mayi junto dos pais, mas também dos pastores destas igrejas: para que os pais
não dirijam mais as crianças para as igrejas e que as igrejas não se apropriem do “tratamento” destas
crianças. Outro objectivo: que estes dois actores-chave do problema respondam igualmente perante a
justiça por qualquer mau trato cometido sobre as crianças.
Em Kisangani, num registo bem diferente, o padre Giovanni alimenta e fornece a escolarização
a cerca de 90 crianças de rua, das quais muitas foram acusadas de bruxaria. No fim-de-semana, vão
para casa de famílias de acolhimento. “Ninguém lhes fala de feiticeiros, sobretudo nós, eles
destraumatizam e esquecem que são feiticeiros ou considerados como tal, e nós tentamos evitar o
psicologismo”, explica-nos um dos seus colaboradores. Uma posição próxima do programa da
UNICEF que, deliberadamente, não categoriza as “crianças ditas feiticeiras”, mas engloba-as nos
programas destinados às “crianças de ruas”. O Centro de Intervenção Psico-social (CIP), por seu
lado, efectuou um estudo procurando quantificar a dimensão fenómeno na cidade.
Durante este mesmo seminário, em Dezembro de 2002 em Kinshasa, foram propostos
soluções, reflexo duma escolha muito clara relativa à consideração das implicações culturais da
bruxaria e da necessidade de tratar o problema na sua especificidade ou de a incluir na problemática
mais geral das crianças de rua: necessidade de legislar sobre a protecção destas crianças, lançar uma
campanha de cartazes que valorizem aqueles que não acreditam que há crianças feiticeiras, que
interditem formalmente aos pastores das igrejas de se servirem das crianças ditas feiticeiras para fins
de evangelização, que sensibilizem os meios de comunicação social e todas as instâncias de
regulação: célula familiar, escolas, igrejas, associações.
A melhoria do destino das crianças acusadas de bruxaria não deve depender somente da
colocação em funcionamento, certamente prometedor mas, por ora, balbuciante, do sistema judicial
do Congo. A solução exige uma abordagem integrada e meios suficientes que protejam a criança
que, desde já, é a vítima e permitam estudar verdadeiramente o fenómeno para melhor o resolver.
Traduzido de Christophe Boulierac, “Le mauvais sort des enfants dits sorciers en RDC”, MONUC,
Missão da Nações Unidas na República Democrática do Congo, 18 de Novembro de 2003 e
disponível em http://www.monuc.org/News.aspx?newsID=60.
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2.7. O calvário das crianças-feiticeiro
Karine Ancellin Saleck
1 de Março de 2002
Amnistia Internacional
A República democrática do Congo, que já tinha a calamidade das “crianças-soldado”, é,
desde há alguns anos, vítima do fenómeno igualmente inquietante das “crianças-feiticeiro”. As
crianças são acusadas por vizinhos, quando não o são pelos seus próprios pais, de terem o
mau-olhado. A atribuição a uma criança de poderes maléficos aparece geralmente em famílias
atingidas por uma desgraça: morte, doenças, perda de trabalho, etc. Acusada de bruxaria, é expulsa
da sua família e desterrada da comunidade.
Aparecido há uma dezena de anos, sobretudo na cidade, o fenómeno das “crianças feiticeiros”
acentuou-se com a desintegração do país. Tomou proporções dramáticas nestes últimos meses. No
passado mês de Junho, crianças de 5 ou 6 anos presumidas feiticeiros foram literalmente
massacrados na região de Aru, no nordeste do país, na fronteira com o Uganda. Em Kinshasa, a
meados de Setembro, um adolescente de 14 anos acusado por rumores que tinha embruxado uma
mulher foi torturado até à morte.
Sociologicamente, a criança acusada de bruxaria ocupa frequentemente uma posição marginal,
quer seja filha de um casamento anterior quer seja filha de um membro da família ausente. As
famílias modestas ou pobres são as mais vulneráveis ao fenómeno, quer no plano da crença na
bruxaria, quer no plano das desgraças que as arrasam. A propagação do fenómeno é transversal às
classes sociais, mas quando são famílias de maiores rendimentos a serem atingidas estas recorrem
aos pastores que, na maioria dos casos, consegue a sua reintegração.
As causas de tal fenómeno são muito difíceis de precisar. É certo que a crise económica, que
quebrou o modo de funcionamento tradicional da autoridade familiar, tem muito a ver com isto.
Neste contexto, instauraram-se progressivamente novos mecanismos de poder e estes acabaram por
suplantar a “sabedoria tradicional”. As crianças retornavam das minas de diamante mais ricas que os
seus pais. A guerra e o recrutamento das crianças contribuíram igualmente para a desestabilização da
ordem familiar. Mas, é a multiplicação de factores, de que alguns não são acessíveis através da
análise sociológica e são mais do domínio do afectivo e do inconsciente, que garantiram a
propagação do fenómeno. De acordo com o professor de Boeck, perante os traumatismos nascidos
da guerra, da fome e de SIDA, a sociedade congolesa tem tendência a ligar-se cada vez mais ao
mundo do imaginário, ao “mundo pandemonium” o que significa “mundo da noite” ou “mundo
invisível”. A linha de demarcação entre o sonho e o real acaba por esbater-se.
No entanto, estas crianças, errantes nas ruas sob pretexto que estão embruxadas, são bem vivas
e sofrem, moral e fisicamente. “O fenómeno toma grande amplitude nos bairros pobres da capital”,
comenta o padre evangelista, Lobela Mati, regularmente chamado por famílias para “exorcizar as
crianças feiticeiros”. “Crianças que mal sabem falar são suspeitas de serem feiticeiros” revela, e
indigna-se por “os estúpidos continuarem prontos para lhes aplicar o suplício do colar”, que consiste
a colocar um pneu inflamado em volta do peito da criança.
Hoje estudando na Bélgica, o enfermeiro neuropsiquiatra Célestin Lokonde conta a história do
pequeno Nganputu, de 11 anos. A equipa médica tinha sido siderada pela lógica e pela clareza da
história por si contada (delírio, em termos médicos), para uma criança com esta idade: “Todas as
noites a minha avó vinha buscar-me e partíamos para a assembleia dos outros e ali decidiam em
conjunto o que íamos fazer nessa noite”.
Para se ser aceite no grupo, Nganputu “tinha oferecido” o seu tio defunto como sacrifício. No
seu primeiro “encontro nocturno” a sua avó deu-lhe carne a sangrar e este gesto abriu-lhe o espírito.
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Assim, podia ver através das portas, adivinhar os pensamentos das pessoas, predizer as chuvas, os
raios, etc. Nganputu é o filho mais velho de uma família de agricultores originária de Bandundu
onde vivia com a sua avó. Quando morreu, regressou para os seus pais. Foi a partir da morte do seu
tio, que a sua “condição” de criança feiticeiro foi diagnosticada pela família. A indiferença e o pouco
respeito pelas práticas do luto que apresentava Nganputu, enquanto criança mais velha, convenceu a
sua família que um “espírito maligno” o habitava.
A história de Nganputu é a de todas as “crianças feiticeiros”, que “assombram” as ruas de
Kinshasa, abandonada por famílias destruídas pela crise. Os pequenos feiticeiros organizam-se em
grupos, de maneira quase militar, com distribuição de tarefas e atribuição de graus. Perante este
problema, duas respostas são possíveis: as igrejas e as associações. As igrejas estão melhor
“habilitadas” para tratarem as crianças feiticeiros, mas, no entanto, elas mantêm e desenvolvem
mesmo, paradoxalmente, este imaginário ligado ao “mundo das forças do mal”. As cadeias
evangélicas difundem aventuras destas “crianças-espírito”.
Em contrapartida, as associações, mais neutras, ocupam-se de todas as crianças das ruas. O
Doutor Malele, do projecto “crianças da rua” de MSF em Kinshasa, constata que “perante a
agressividade da rua e a repressão da polícia, estas crianças, animadas por um sentimento de revolta
e de injustiça, deixam-se tentar pela droga e pelo álcool ou encarnam-se em feiticeiros.” Pelo temor
que inspira, a criança feiticeiro sente-se um pouco mais protegida, ou melhor ainda, sente-se capaz
de se poder vingar de tudo o que lhes fizeram e das injustiças que suporta.
Traduzido de Karine Ancellin Saleck, “Le calvaire des enfants sorciers”, Amnistia Internacional, 1
de Março de 2002 e disponível em http://www.amnestyinternational.be/doc/article205.html.
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3. OS CIENTISTAS SOCIAIS E OS MECANISMOS EXPLICATIVOS DA PRODUÇÃO DO
HORROR.
3.1. Representações e recomposições locais em Kinshasa: as Igrejas do despertar e os clubes de
fans como respostas sociais à crise urbana
Raquin Emilie
4 – 5 de Outubro de 2003
CODESRIA, Conselho para o Desenvolvimento da Pesquisa em Ciências Sociais na África
CODESRIA Anniversary Conference
Sub-região da África Central
Douala
Camarões
Desde o início dos anos 90, diferentes factores conduziram a profundas transformações das
representações sociais do poder e da elite no Congo-Zaire. Com efeito, desde o agravamento
crescente da crise económica e o desmoronamento das condições de vida em Kinshasa, desde o
malogro da Conferência nacional e, por último, do golpe de Estado de 1997 e da chegada ao poder
de Laurent-Desiré Kabila, o fosso entre o Estado e os cidadãos congoleses não cessou de aumentar.
Por conseguinte, a população de Kinshasa afastou-se das questões políticas e as elites do poder
foram largamente deslegitimadas. A pirâmide de clientelas que permitiu ao sistema mobutista
manter-se graças ao esquema acumulação - remuneração - redistribuição, desmoronou-se e o Estado
está em crise.
Os desencantados de Kinshasa tentam ultrapassar esta crise política, económica e urbana,
agrupando-se em lugares inéditos: as Igrejas do despertar e os clubes de fans, nos quais se criam
novas relações, novas identidades e novas representações do poder e da elite.
As Igrejas do despertar difundem um discurso largamente adaptado ao meio urbano em crise: a
perda das referências familiares, o desaparecimento dos valores e a organização tradicional, a
proliferação de SIDA e o temor das doenças, mas igualmente a miséria crescente estão no centro das
preocupações, encontram uma parte das suas respostas nestes centros de oração que são antes de
tudo comunidades de pessoas, fornecedoras de identidade, criadoras de uma nova relação social. As
solidariedades encontram-se aí reforçadas e as individualidades nelas são valorizadas graças à
participação e ao uso da palavra por cada um dos seus membros. É por isso que, além de se
apresentarem como lugares de milagre e de cura física pela oração, as Igrejas independentes são
igualmente lugares de “cura social”, onde a solidariedade funciona em cheio e onde os indivíduos
reencontram um direito à palavra e um reconhecimento dos seus actos.
Os clubes de fans são, eles, lugares muito estruturados e estruturantes, nos quais se agrupam
jovens frequentemente desempregados, à procura de uma actividade ou, mais ainda, de um
empenhamento sobre a sua situação. Nestes lugares, a juventude reúne-se em redor de um objectivo
comum e de uma identidade comum (“fanático” de dado cantor), criam projectos, têm actividades e
objectivos, e uma causa a defender. Mas, também, cada um pode ter a sua voz e mesmo votar, a fim
de eleger os presidentes e outros membros de Comité.
Estes lugares, que aparecem, no entender de certos observadores, como “perigosos”, como
“opiums do povo”, ou palco de fraudes, souberam, no entanto, dar respostas aos problemas que a
crise urbana e a miséria em Kinshasa colocam, e aliviar as populações que desmoronam sob as
dificuldades e desde há muito tempo amordaçadas. Fenómenos de massa, eles dão hoje a inúmeros
habitantes de Kinshasa um pouco da dignidade perdida, uma identidade, uma certa liberdade de
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expressão, uma certa valorização das suas acções, um sentimento comunitário, um espaço de
solidariedade e, evidentemente, permitem aos fiéis pentecostais e aos fanáticos crerem de novo em
qualquer coisa ou em alguém. Assentam nas novas elites, pastores e músicos, que detêm hoje um
poder considerável na República Democrática do Congo: o monopólio da palavra.
Aquando de um inquérito quantitativo realizado em Kinshasa (1.800 pessoas interrogadas,
distribuição por meio social, 10 perguntas relativas às elites e aos imaginários populares da ascensão
social e do sucesso), verificou-se claramente que os músicos e os pastores gozam de um estatuto
específico, invejável. Hoje, estas personagens suscitam a admiração e são considerados como elites
graças ao papel primordial que desempenham na sociedade congolesa.
Aproveitando a sua posição de força, pastores e músicos aproximam-se das elites políticas a
fim de obter vantagens em natureza e regalias, enquanto os políticos recorrem aos pastores e aos
músicos, que gozam de um verdadeiro monopólio do acesso à palavra e aos meios de comunicação
social, para se fazerem ouvir e fazerem passar as suas mensagens. Esta aliança anuncia-se
particularmente poderosa na perspectiva das próximas eleições em República Democrática do
Congo.
Traduzido de Raquin Emilie, “Représentations et recompositions locales à Kinshasa: les Eglises de
réveil et les fan-clubs comme réponses sociales à la crise urbaine”, Comunicação apresentada
“CODESRIA’s 30th Anniversary Celebrations: Central Africa Sub-Regional Conference”, 4 – 5
Outubro,
Douala,
Camarões,
2003.
e
disponível
em
http://www.codesria.org/Links/conferences/central/abstracts_central.htm.
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3.2. O “segundo mundo” e as crianças-feiticeiro” na República Democrática do Congo
Filip De Boeck, Universidade de Louvain.
Dezembro de 2000
Politique africaine
Hoje, nestes mundos urbanos do Congo, a construção frenética de modernidades locais é feita
em paralelo com as expectativas e as promessas do capitalismo que encontra a sua expressão, às
vezes de maneira fanática e externa, nas milhares de Igrejas independentes que proliferam e operam
no contexto urbano do Congo e da África Subsahariana em geral. É nestes meios, com efeito, que o
imaginário social e cultural é, o mais fortemente possível, activo. Ora, nestas mudanças rápidas e
desordenadas dos imaginários contemporâneos da África Central, as crianças e os adolescentes
ocupam um lugar central. A infância, como opus operatum et modus operandi de crise e renovação,
torna-se, com efeito, o lugar de identificação onde se manifestam claramente as rupturas da África
em transição. Como parte integrante de uma transformação mais larga, a da arquitectura
sócio-cultural, política e económica da paisagem urbana, as crianças e adolescentes situam-se por
conseguinte na fronteira da reconfiguração de geografias de integração e de exclusão, sejam elas
privadas ou públicas.
A reinvenção constante da vivência urbana da África Central não é, de forma alguma, marcada
pela noção weberiana de “Entzauberung” 1 . Pelo contrário, esta reinvenção é posta em prática, de
forma muito vigorosa, não somente nos espaços “que encantam” do fundamentalismo católico, mas
também num contexto delirante, digamos mesmo obsessivo, de produção do discurso e de práticas
relativas à feitiçaria (e os dois quadros, estão, seguramente, ligados). Por toda a parte, no Congo, no
decorrer das últimas décadas, os observadores sublinham o crescimento das acusações de feitiçaria.
Um dos fenómenos mais desconcertantes que ilustram esta evolução é dado pelo papel central
recentemente adquirido pelas crianças nos discursos e nas práticas que se referem à feitiçaria. Em
Kinshasa actualmente são milhares as crianças que estão implicadas nas acusações de feitiçaria. É
por esta situação que elas se encontram no centro do que se considera como uma das mais
preocupantes mutações da “multi-crise” social congolesa, isto é, a relação movediça entre o mundo
do visível e do invisível, do real e do seu duplo. No Congo, como aliás em toda a África, uma outra
realidade está sempre dissimulada, sem que, geralmente, isto constitua qualquer problema, debaixo
da superfície da realidade visível. Hoje, todavia, este outro universo, chamado, “segundo mundo”,
“segunda cidade” “mundo pandemónio” parece, de forma crescente, afastar e suplantar o “primeiro
mundo”, o da realidade quotidiana.
As acusações de feitiçaria feitas contra as crianças no seio das suas próprias famílias
tornaram-se um facto banal, ultrapassando todas as divisões e diferenças de nível, classe ou etnia que
caracterizam o contexto urbano de Kinshasa. São cada vez mais frequentes as crianças com idades
entre os 4 e os 18 anos que são acusadas de estarem na origem dos problemas e acidentes que se
passam no interior das famílias, assim como das doenças e mortes que atingem outras crianças ou
adultos da família ou mesmo apenas vizinhos.
Presume-se igualmente que as crianças estão na origem, ou de serem a causa, de casos de
loucura, de cancros ou de ataques cardíacos dos seus pais ou de outros familiares, ilustrando assim o
facto da actual crise social do Congo ser também, sob vários aspectos, uma crise etiológica.
1
Desencantamento do mundo.
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Verifica-se que muitas das crianças que, acusadas de terem o diabo no corpo, são expulsas de
casa e passam a viver na rua na sequência da acusação de bruxaria, em muitos casos, ocupavam,
previamente, uma posição já estruturalmente marginal no seu próprio ambiente familiar. Dada a
epidemia de SIDA e de outras causas relativas à extrema pobreza das condições de vida no Congo
actual, muito delas são órfãs desde muito tenra idade. Outras foram abandonadas pelas suas mães,
muitas delas também adolescentes quando os seus filhos nasceram, cresceram com diversos
membros familiares, por vezes afastados, e o termo família que aqui está a ser tomado é em sentido
restrito: avós, tios, tias, primos ou ainda co-esposas do pai. E se um dos dois pais ou mesmo os dois,
estão vivos, eles estão frequentemente ausentes. E esta ausência tende crescentemente a agravar-se
por razões de deslocações de populações, de emigração, da diáspora, sob a pressão de factores
económicos, da instabilidade política e da guerra.
Igrejas e crianças – feiticeiros
A espiral de violência que actualmente aparece no grupo familiar na sequência das acusações
de bruxaria lançadas contra as crianças, é moderada parcialmente pela Igreja e os grupos de oração
que florescem ligeiramente por toda a parte. Por outro lado, e como já foi demonstrado para diversos
contextos africanos, as Igrejas fundamentalistas - e particularmente, entre elas, as Igrejas
pentecostais e os movimentos apocalípticos que se encontram hoje na África Subsahariana consagram uma grande atenção à figura de Satanás, aos demónios e ao combate entre o Bem e o
Mal. Também, hoje, não há nenhuma dúvida de que a contribuição destas Igrejas desempenha um
papel crucial e incessante na produção e no realce crescente da figura do feiticeiro imaginário no
colectivo da sociedade congolesa, que está a reestruturar-se ela própria sob forma dum
“Armagedon”, um “segundo mundo” no qual os demónios se combinaram entre eles numa guerra
total contra Deus.
Paradoxalmente, pois, a diabolização da figura do feiticeiro no discurso destas Igrejas torna o
feiticeiro ele mesmo ainda mais omnipresente no campo social. Por conseguinte, a posição das
Igrejas no que diz respeito ao Mal, por muito sincera que possa parecer à primeira vista, produz
tensões contraditórias no seio mesmo do campo social. No que diz respeito ao fenómeno das
crianças feiticeiros, o papel destas Igrejas é ambivalente, porque estas estão ao mesmo tempo na
base do problema da bruxaria e fornecem a solução local. Por um lado, o espaço destas igrejas é um
dos lugares mais importantes onde se faz o encontro entre a infância e a bruxaria. No decorrer das
orações colectivas e as missas, as crianças são incitadas a fazerem uma confissão pública afim de
revelarem a sua verdadeira natureza de feiticeiros e confessarem o número das suas vítimas. Por
outro lado, a designação do feiticeiro representa uma abertura para resolver a crise, quando isto é
feito nos quadros mais tradicionais. Mas antes desta confissão pública, as crianças habitualmente são
detectadas ou identificadas como feiticeiros pelos líderes da Igreja e pastores, aquando de consultas
privadas. Na altura destas entrevistas, os métodos de divinação de tipo “tradicional” misturam-se
frequentemente com o discurso específico da Igreja, criando assim um clima ritual próprio para a
despistagem dos feiticeiros.
Seja como for, face à multiplicação das denúncias, a ajuda internacional e as ONG como Save
the Children mobilizam-se contra a marginalização das crianças, acusando os líderes das Igrejas e os
pastores de maus-tratos. Geralmente, estas organizações abordam o problema dos feiticeiros em
Kinshasa como um dos elementos do problema humanitário das crianças da rua e preferem
negligenciar totalmente as implicações culturais da questão da bruxaria. Ora, poder-se-ia sublinhar
que as Igrejas, fornecendo e autorizando estas formas de diagnósticos, oferecem uma alternativa aos
conflitos violentos que ocorrem na família em consequência das acusações de bruxaria. Não são os
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líderes das Igrejas que produzem eles mesmos estas acusações: limitam-se a confirmá-las e, por essa
razão, a legitimá-las. Desta maneira, o espaço das “igrejas de cura” permitem re-situar e reformular a
violência física e psicológica, por vezes extrema, que sofrem as crianças quando acusadas dentro do
seu grupo familiar. Com efeito, a criança é retirada do contexto familiar que é suposto estar a
ameaçar, no qual o seu lugar se tornou muito problemático, para ser confiada ao pastor. Com ele, o
tratamento, frequentemente muito rigoroso, começa por um primeiro período de reclusão ou de
quarentena, que pode ser individual ou colectivo com outros crianças-feiticeiro.
Tal como o pude observar pessoalmente, certas Igrejas encarregam-se até de uma centena de
crianças por semana. O período de reclusão, durante o qual estas crianças vivem, o mais
frequentemente em condições basicamente lamentáveis em termos de alimento e de higiene, pode
estender-se de alguns dias a várias semanas, ou mesmo até meses, em função da gravidade dos casos
em questão. Durante a sua reclusão, as crianças são sujeitas a um período de jejum e de purificação
ritual. A administração em grandes quantidades de laxativos e de vomitivos visa limpar os corpos
dos feiticeiros da carne das vítimas que é suposto terem comido. Pedaços de carne ou de ossos não
digeridos bem como de objectos de todas as espécies, encontrados nos produtos vomitados, serão
utilizados para corroborar a sua confissão pública na frente da assembleia dos membros da Igreja.
Durante o período de reclusão, as crianças regularmente sujeitas a interrogatórios, às vezes sozinhas,
às vezes na presença dos seus pais ou outros adultos do seu meio familiar, se estes últimos quiserem
cooperar. Muitos adultos, no entanto, têm demasiado medo das suas crianças para manterem um
contacto próximo. Durante estas sessões mais “privadas” que se realizam entre a criança e pregador
ou um dos seus assistentes, emerge lentamente uma confissão de ruptura e de descida para o mal que
ajudará também a estruturar o “ritual de confissão” ou de confissão que se fará mais tarde no espaço
público da igreja. Este período constitui por conseguinte um momento crucial em todo um processo
de encenação que ajuda a modelar uma experiência de crise e a desenhar, de maneira mais
estandardizada, uma configuração narrativa, a partir de uma simples sucessão de doenças e de
mortes. Como elemento de um processo narrativo terapêutico, que conduz as crianças a uma
experiência sobretudo estereotipada, esta encenação da confissão dá uma direcção à experiência de
crise, ela mediatiza a ruptura e favorece a auto-cura ainda que as próprias crianças não sejam, ou
apenas o são de uma certa maneira, “livres” de escolher a encenação das suas histórias, das suas
confissões.
Alguns dias depois deste momento crucial da confissão pública, o pastor procede à
organização de um certo número de sessões de exorcismo, chamadas “de libertação” ou de “limpeza
da alma”. Este exorcismo ritualizado é praticado frequentemente nos grupos de oração dirigidos
pelos membros femininos da igreja. A criança, transformada em ponto focal deste poderoso ritual, é
submetida, por várias vezes, a várias sessões de diversos exorcismos. Segundo a regra de diversas
igrejas, estas sessões de orações realizam-se com acompanhamento de familiares, na esperança de
facilitar a reintegração no seio da família da criança-feiticeiro, depois de já estar purificado. Em
muitos casos todavia, os pais não são cooperativos e este tipo de reintegração é problemático pois os
pais e restantes familiares estão demasiado assustados para aceitarem de novo uma tal criança. É
pois muito frequente, neste género de situação que as crianças sejam abandonadas e obrigadas a
viverem na rua.
No entanto, as crianças, em especial nas condições de vida extremas nas quais crescem
frequentemente hoje em África, não são simplesmente vítimas vulneráveis e passivas, sujeitas às
realidades políticas e socioeconómicas africanas, ou, por outras palavras, “construídas e quebradas”
por elas. São também sujeitos activos, “construtores e destruidores” destas realidades. As crianças
destas sociedades têm frequentemente, como tais, a capacidade de influenciar fortemente o mundo
no qual vivem, de forma positiva assim como negativa. Em função de concepções mais locais do que
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é operacional, as crianças e os adolescentes, nestes contextos africanos, não são frequentemente
considerados nem se consideram eles próprios como proto-adultos, mas sim como actores sociais a
parte inteira, com um papel e uma presença marcados no próprio coração do contexto social actual.
É assim, enquanto tal, que as crianças e os adolescentes aparecem como figuras de Janus e
encarnam, isso mesmo, a “fronteira” das dinâmicas da mutação que se tornou uma das características
mais essenciais do espaço pós-colonial da África Central.
Por um lado, devemos constatar que as crianças de Kinshasa, de modo crescente, são relegadas
para lugares de exclusão (lançadas à rua, expulsas do grupo familiar, reclusas nas Igrejas). Mas, por
outro lado, nunca até agora as crianças tiveram uma presença tão importante no espaço público
urbano. Primeiramente, há o poder, bem real e violento, obtido “na ponta da espingarda” e que
crianças-soldados, os kadogo, vieram assumir. Em 1997, quando Kabila tomou o poder e quando
estas crianças-soldados (algumas delas não tinham mais de dez anos) fizeram a sua entrada em
Kinshasa, isto foi um acontecimento totalmente novo e, sobretudo, chocante para a maior parte dos
habitantes da capital.
Em segundo lugar, no plano económico também, jovens adolescentes ocupam uma posição
mais central que nunca. Durante os anos 90, muitos jovens de Kinshasa tornaram-se bana Lunda, ou
seja crianças de Lunda: emigraram maciçamente para a província angolana de Lunda Norte para ter
acesso aos diamantes e aos dólares. No seu regresso, estes jovens detêm frequentemente um poder
financeiro superior aos seus pais, o que lhes permite aceder a versões de um estilo de vida
“moderno” do qual os seus pais e avós tinham sido excluídos. Em Kinshasa, hoje, diz-se que quem
possui “lard”, o dinheiro, é um “patrão” ou um mwana ya quilo, uma “criança de peso”, sem se ter
em conta a sua idade. A esta independência financeira e a esta responsabilidade dos jovens
acrescenta-se o poder social. Este poder completamente novo manifestou-se, sobretudo, de maneira
tangível no contexto da família, restrita ou alargada, e também provocou, inevitavelmente, a
emergência de acusações de bruxaria entre as gerações (frequentemente em relação ao diamante),
acusações desencadeadas por disputas a propósito da redistribuição da nova prosperidade.
De modo semelhante, as crianças tornaram-se actores principais nos meios de comunicação
social: cadeias de televisão privadas, frequentemente religiosas, produzem regularmente shows nos
quais as crianças-feiticeiro são exibidas e denunciadas publicamente. Mas, a nova constelação de
sentidos que se forjou em redor das crianças e da bruxaria também é mantida por meios de
comunicação social de carácter mais global. É necessário a esse respeito sublinhar a influência das
séries televisivas produzidas na Nigéria e no Gana, cujas cópias vídeo e áudio circulam em
Kinshasa. Estas séries emitidas por televisão, constroem frequentemente as suas intrigas em redor
das aventuras “de crianças-espírito “ e são frequentemente difundidas por estações de televisão e de
rádio religiosas, como, por exemplo, RTMV (Rádio e Televisão Mensagem de Vida), que pertence a
um dos mais famosos pregadores de Kinshasa, Fernando Kutino, fundador de uma Igreja chamada
Exército de Vitória
Mas em nenhum lado as crianças ocupam um lugar mais central na cena pública como no
espaço das próprias Igrejas, e mais precisamente durante o momento da confissão pública e do
“testemunho”. Como se pode observar nos relatos de muitas destes acontecimentos, é em tais
momentos que as crianças são postas em posição de demonstrar o poder real que possuem, dado que,
graça aos seus testemunhos, podem implicar os adultos que supostamente os iniciaram no mundo da
bruxaria.
Em numerosos casos, estas acusações públicas têm graves consequências para os adultos que
são mencionados nos testemunhos das crianças. Não é raro que desencadeiem uma violenta reacção
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por parte dos vizinhos ou dos parentes e que os adultos acusados sejam espancados, ou mesmo
linchados ou queimados vivos. E, desta maneira, as crianças também se podem servir dos seus
relatos e confissões assim como do seu estatuto de “feiticeiro” para “acertarem” contas com os
membros do seu ambiente familiar ou, de uma maneira mais geral, para escapar ao controlo familiar
e fabricar assim a sua própria “liberdade”. Como sublinhou Barry, num interessante artigo que
consagrou ao fenómeno das crianças da rua em Ouagadougou, uma das razões importantes, mas
raramente mencionada, que as crianças têm para viver nas ruas é também a sua aspiração à
liberdade.
Uma crise dos modelos familiares e da economia do dom?
Todo o que precede é evidentemente possível apenas num contexto de perturbação comunitária
e de mudanças sociais complexas. Estas operam-se em parte e através da crise e da reestruturação
profunda que conhecem os modelos clássicos da família.
Estas novas representações e atitudes encontram claramente a sua ilustração na transformação
actual da divisão do trabalho. Enquanto certos jovens conquistaram um poder financeiro e um
estatuto social graças aos rendimentos ganhos com o comércio de diamantes, a maior parte dos
chefes de família estão social e economicamente reduzidos, na Kinshasa de hoje, ao estatuto de
desempregados e de pessoas inactivas. Além disso, como também se passa noutros lugares do
continente, os homens de Kinshasa fazem frequentemente circuitos de trabalho migratório e de
viagens, quer seja para as necessidades do tráfego de diamante quer seja por razões que têm a ver
com a guerra. Acontece também muito frequentemente terem criado outras unidades familiares em
diferentes bairros da grande cidade. Estes pais estão, por conseguinte, frequentemente ausentes.
Afirmar que isto se acompanha de uma certa erosão da autoridade masculina é afirmar uma
evidência, mas trata-se, também, de um factor que pode ajudar a explicar porque é que as
crianças-feiticeiro parecem denunciar mais frequentemente mulheres e figuras maternas que homens
e velhotes.
As realidades da poligamia urbana, por exemplo, geraram uma categoria de co-esposas
conhecidas sob o nome de “rivais” (mbanda). Contrariamente ao que se passa nos lares rurais, estas
co-esposas, habitualmente, não vivem na mesma casa, nem no mesmo bairro e, frequentemente,
ignoram-se mutuamente. E em muitos casos as relações entre estas mulheres são extremamente
tensas. Quando uma “rival” morre ou quando se ausenta por um longo período à procura de uma
vida melhor na diáspora ou no comércio do diamante, as suas crianças acabam, geralmente, por
serem confiadas aos cuidados pouco entusiastas de uma das co-esposas do marido.
Se, por sua vez, também morre o pai, então estas crianças ficam, por seu lado, numa posição
ainda mais vulnerável e precária. Estas crianças sofrem uma forte marginalização num contexto
familiar onde elas serão aceites como um fardo, como mais uma boca a alimentar, enquanto a
alimentação já é demasiado rara. Hoje, em numerosos lares de Kinshasa, come-se apenas uma só vez
em cada dois dias: um dia a refeição é feita para as crianças e no dia seguinte é feita para os adultos.
Num contexto deste tipo, as crianças, ocupando um lugar estruturalmente fraco no seu grupo familiar
ou, muitas vezes, não tendo sequer quaisquer laços familiares, ficam mais sujeitas a serem apontadas
como crianças-feiticeiro.
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Neste contexto de mudança intensa e caótica e no que se refere às novas ligações entre as
mulheres e a feitiçaria, seria interessante inquirir para se saber se esta emergência se liga, e em que
forma, às mudanças nos domínios estruturantes do dom, da reciprocidade e da troca. Nestes, sempre
foram subentendidos as transacções sociais especialmente aquelas que se relacionam com o
casamento e as alianças. Mas, no Congo actual, muitos homens ainda jovens e as suas famílias estão
na impossibilidade material de observar e respeitar as obrigações de dom assim como as outras
transacções que tornam o casamento possível. Um jovem vendedor do mercado central de Kinshasa
exprime-o efectivamente, em termos concisos: “Tosalaka te, tobalaka te!” (Quem não tem trabalho
não se casa). É por isso que a juventude de Kinshasa inventou um novo sistema de casamento, o
“casamento em sentido reduzido”, uma versão resumida na qual os jovens começam de facto a viver
juntos, têm uma criança e colocam as suas famílias perante a situação de facto, curto-circuitando por
essa via o ciclo dos dons ligados às transacções do casamento e ao dote. É inútil afirmar que este
fenómeno, como reacção, só vem reforçar as causas potenciais de conflitos e acusações de bruxaria
que se produzem no contexto familiar urbano.
Em todo este contexto, as crianças aparecem assim ao mesmo tempo como médiuns e como
actores na criação e no desenvolvimento de relações familiares e de alianças: sem crianças, não há
dons; e sem dons, não há parentesco, não há aliados nem há corpo social. A divinização de crianças
por adultos pode, consequentemente, ser compreendida como uma sombria alegoria que nos ensina
algo sobre as raízes profundas da angústia que acompanha uma transformação social mais ampla. A
África, deste ponto de vista, não difere doutras partes do mundo onde a relação, explícita ou
implícita, entre infância e bruxaria (quer se trate de maus tratos, sacrifícios satânicos, pedofilia ou
ainda de tráfico de órgãos ou de esquadrões da morte que perseguem as crianças da rua) exprime de
maneira análoga um sentimento de crise e de mutação social.
Excertos traduzidos de Filip De Boeck, “Le ‘deuxième monde’ et les ‘enfants-sorciers’ en
République Démocratique du Congo”, Politique africaine, n. 80, Dezembro, 32-57, 2000, e
disponível em http://www.politique-africaine.com/numeros/080_SOM.HTM.
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3.3. As igrejas do despertar e a globalização
As “igrejas do despertar” de Kinshasa à sombra do movimento neopentecostal mundial: entre
nivelamento e des-construção cultural.
José Mvuezolo Bazonzi
Centro de Estudos Políticos (CEPA)
Universidade de Kinshasa
República Democrática do Congo
Introdução
A vitalidade cultural numa dada sociedade tem, essencialmente, a ver com a interacção entre
os diferentes actores sociais e os elementos culturais que a compõem. Esta interacção resulta de uma
dupla dinâmica, interno e externa. Com efeito, os diferentes agentes envolvidos nesta espécie de
entropia social não evoluem num todo fechado: sofrem igualmente a influência do ambiente externo,
cujos actores e elementos catalisam por vezes profundas mudanças na sociedade de acolhimento.
Esta sociologia das trocas culturais entre diferentes áreas empresariais é visível, sobretudo no
que diz respeito à esfera musical e religiosa. Consequentemente, um exame antropológico exaustivo
deve centrar-se nas configurações culturais complexas que se modelam e se remodelam na
interacção entre o local, o nacional e o global.
Dada a proliferação dos movimentos religiosos e das “igrejas do despertar” em Kinshasa, é
hoje interessante interrogarmo-nos sobre este fenómeno não para pronunciar qualquer juízo de valor
sobre esta “hiper-religiosidade conjuntural”, mas sim para examinar os seus contornos e assim
melhor o apreender, o analisar e o procurar explicar.
O vento neopentecostal que sopra sobre o mundo actual desde o final do século XX não
poupou a República Democrática do Congo e em Kinshasa, a capital, abunda até agora uma mistura
destas igrejas ditas “igrejas do despertar”. Este qualificativo está relacionado com o despertar trazida
por estas igrejas para o meio do “povo de Deus” e marca verdadeiramente uma interrupção
ideológica e doutrinal relativamente às igrejas ditas “tradicionais”, a igreja católica, a protestante, a
kimbanguista e a muçulmana. Com efeito, durante a última década, as igrejas do despertar
adquiriram uma visibilidade social importante graças à ocupação regular e publicitada do espaço
público físico e duma penetração mediática a favor das campanhas de evangelização e das grandes
manifestações públicas, assim como graças também a uma vontade de estar mais presente no campo
musical, lugar de intimidade espiritual por excelência.
A proliferação destas novas igrejas parece ser a resposta ― mesmo se não é, de forma
nenhuma, a mais indicada ― à espinhosa interrogação ligada à procura de identidade, à
sobrevivência de milhares de almas desesperadas perante a adversidade e a precariedade social,
económica e política e face ao vazio espiritual deixado pelas igrejas tradicionais, comparável a um
nicho de um mercado aberto à feroz concorrência. Estas igrejas, dirigidas por pastores tenazes,
audazes, são frequentemente cobertas de um corpo doutrinal fundado sobre a teologia da
prosperidade, a ideologia do combate espiritual, a filosofia da luta contra as relações do costume e a
servidão familiar, na prática da libertação, a técnica da semente, etc. E algumas, para melhor
comunicarem, dotaram-se seguidamente de instrumentos modernos: várias estações de rádio e
cadeias de televisão confessionais vieram enriquecer, nestes dez últimos anos, o espaço mediático
congolês.
O nivelamento cultural segregado pela prática destas igrejas é muito perceptível na sociedade
de Kinshasa. Com efeito, hoje, em Kinshasa, pertencer a uma “igreja do despertar” é um motivo de
orgulho que se apresenta como, por exemplo, um artigo da moda “último grito”. À pergunta onde é
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que rezas? O habitante de Kinshasa responde de maneira orgulhosa e apressa-se a apresentar a sua
“igreja” para seguidamente elogiar os seus méritos, tão eficazmente como o faria um verdadeiro
agente de marketing. Esta “filiação” religiosa tem tendência a resultar de um conformismo social.
Além disso, toda a população de Kinshasa procura forjar uma identidade em relação à sua
pertença religiosa. E esta identidade tem necessidade de ser mostrada, se necessário, e de tal modo
que o indivíduo que não ousa apresentar a sua pertença (identidade) religiosa rapidamente é
indexado e taxado de “não crente”. Isto constitui para o indivíduo uma terrível sentença popular.
Da mesma forma, a “nova religião” traz consigo a des-construção da noção tradicional da
família africana. Uma nova ideia é subtilmente colada aos conceitos irmão, irmã, fraternidade e
família. O ensino doutrinal de certas “igrejas do despertar” vai até ao ponto de diminuir ou mesmo
quebrar as relações familiares entre indivíduos, sob pretexto de lutar contra os espíritos ou o
costume, argumentando que a verdadeira fraternidade existe apenas no seio da própria igreja.
Ao casamento dão um novo conteúdo, quanto à sua essência, à sua organização, à sua
celebração e ao seu sentido. É assim que nos meios cristãos, certo fiéis convertidos à “nova religião”
passam do casamento usual, que é, no entanto, uma instituição legal e o fundamento mesmo da
instituição do casamento nas práticas culturais congolesas, para o único casamento “religioso”
organizado e celebrado exclusivamente na sua nova igreja. E nesse caminho, estas “igrejas “
lançaram-se numa espécie de cruzada contra a maior parte dos lugares culturais (salas de teatro,
bares, etc...) e mesmo dos espaços residenciais, que se tinham tornado lugares culturais.
Finalmente, em vez unir as pessoas, a acção destas “igrejas” salda-se, de facto, num campo de
perpétua divisão entre os indivíduos (exemplo: pais contra correligionários, fiéis contra vizinhos
próximos, etc.): elas tornaram-se, assim, num lugar de verdadeira entropia social. Muitas outras
actividades ligadas à condição humana como as cerimónias funerárias ou festivas, são acusadas de
des-construção sob a influência da nova religiosidade. O mesmo se pode dizer igualmente da atitude
face à doença, à música cultural e extra-cultural, à dança...
As “igrejas do despertar” de Kinshasa
Hoje, Kinshasa, capital da República Democrática do Congo (RDC), dá-nos uma ideia de uma
cidade “sobre-cristianizada” devido, nomeadamente, às suas numerosas assembleias de oração. A
leitura deste fenómeno do Congo pós-colonial requer uma abordagem pela base, ao nível popular, já
que várias práticas observadas nestas igrejas escapam a qualquer racionalidade e, por conseguinte,
escapam a qualquer abordagem feita “por cima”, ao nível das elites.
As “igrejas do despertar” hoje
Chamadas e consideradas originalmente como igrejas independentes, estes agrupamentos
religiosos “neopentecostais” são a consagração da mundialização religiosa. Dois momentos fortes
marcam a sua existência: a chegada dos missionários americanos nos anos 1980 e a abertura política
decretada em 1990, ano charneira para a RDC.
A chegada a Kinshasa do evangelista americano Tommy Lee Osborn, em 1980, ano charneira,
vai profundamente transformar a paisagem religiosa da RDC, então República do Zaire, após uma
grande campanha de evangelização e de curas miraculosas feitas na praça da ponte KasaVubu e na
feira internacional de Kinshasa.
Os líderes da corrente de despertar confessam terem ficado desiludidos com as Igrejas
tradicionais. Acusam, por um lado, a Igreja católica de ter, durante muito tempo, escondido as
verdades bíblicas, e a Igreja protestante do facto de ser desorganizada, e por outro lado, acusam as
duas, pela falta de expressão dos carismas (dons espirituais) no seu seio. No entanto, tanto admiram
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o grau de organização que apresenta a Igreja católica, como também respeitam a vontade dos
protestantes em mostrarem as santas escrituras aos fiéis. Guiados pelos missionários americanos,
alguns “pastores” tenazes criam “igrejas”. No início, eram apenas agrupamentos de fiéis ―
chamados “grupos de oração” ― em redor de um pastor. Estes pastores pretendem dirigir a igreja
com a ajuda dos dons espirituais e não com a formação religiosa: atribuem, de resto, pouco
importância à formação teológica clássica para aceder ao lugar de “homem de Deus”.
Em 1990, com a falência da economia nacional e sobretudo do regime de Mobutu, a população
congolesa encontra-se desamparada e procura onde refugiar-se, procura referências de identificação
e seus sucedâneos para os seus múltiplos problemas. Pode-se sintetizar a questão nos termos
seguintes: “Os desencantados de Kinshasa tentam sair desta crise política, económica e urbana
agrupando-se em lugares inéditos: nas Igrejas do despertar e nos clubes de fans (...). É neste contexto
e nestes lugares que aparecem e se fazem personagens, monopolizando a paisagem mediática de
Kinshasa e fazendo ouvir a sua palavra em toda a capital.”
É necessário sublinhar que o papel desempenhado pelos meios de comunicação social de
Kinshasa durante este período foi muito determinante para a emergência dos líderes das “igrejas de
despertar”. Com efeito, a abertura democrática começada em 1990 conheceu uma expansão e uma
profusão de iniciativas na maior parte dos domínios: partidos políticos, imprensa escrita e
audiovisual, sindicatos, associações musicais cristãs e profanas, expressão religiosa ostensiva,
movimentos estudantis.
As “igrejas do despertar” e o espaço mediático de Kinshasa
Progressivamente, a partir dos anos 1995, as “igrejas de despertar” dotaram-se de instrumentos
modernos para a evangelização, tanto e tão bem que, hoje, muitas igrejas são proprietárias das
instalações radiofónicos e/ou emissores de televisão e controlam, desta forma, uma grande parte da
opinião pública de Kinshasa e, por conseguinte, da opinião pública do Congo. Na RDC em geral e
em Kinshasa em especial, o factor religioso é primordial, nomeadamente por causa da falência
generalizada das estruturas estatais à qual se acresce uma crise económica aguda.
Aliás, a situação actual é a seguinte: das 22 estações de rádio, em Kinshasa, 13 são
confessionais entre as quais 8 pertencem às igrejas do despertar e dos 27 canais de televisão, 11 são
confessionais e destes 9 pertencem às igrejas do despertar.
O movimento neopentecostal mundial
A corrente pentecostal, como movimento religioso, tem as suas origens aos Estados Unidos da
América. Vai rapidamente espalhar-se nos outros continentes, nomeadamente na África. Cédric
Mayrargue refere que a presença do pentecostaltismo na África reenvia a uma história já muito
antiga e que as primeiras implantações de missionários tiveram lugar alguns anos apenas após a
emergência desta corrente cristã nos Estados Unidos, logo no início do século XX.
O pentecostaltismo como corrente cristã é caracterizado pelo facto do Espírito Santo ocupar
um lugar preponderante na prática religiosa. Assim graças à acção todo poderosa do Santo Espírito,
vários dons ou carismas são susceptíveis de se manifestarem através do indivíduo, nomeadamente o
dom de cura, de profecia, de falar línguas, etc..
Contudo, vários anos após as independências africanas, este pentecostaltismo será confrontado
com uma contracorrente carismática, audaciosa e autoritária, uma outra forma de religiosidade
enriquecida pelo encontro dos contributos culturais endógenos e exógenos. Esta contracorrente,
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qualificada, correctamente chamada de neopentecostal, floresceu através de todo o planeta e
constitui, não se tenham dúvidas, um dos estigmas da globalização religiosa.
O que é o movimento neopentecostal?
O movimento neopentecostal é caracterizado pelo recurso a técnicas modernas de
evangelização: para atingir a população alvo, fazem-se enormes campanhas de evangelização no
decorrer das quais se organizam sessões de testemunho, de elogio e de curas miraculosas. Além
disso, este movimento põe o acento tónico na exaltação dos dons espirituais, na dimensão
carismática, na libertação dos fiéis sobre os demónios e maus espíritos, na semente e na
prosperidade. Os nomes que têm estes agrupamentos religiosos são bem esclarecedores: “Ministério
da Fé Audaciosa”, “Ministério da Fé Abundante”, “Ministério do Combate Espiritual”, “Exército do
Eterno”, “Exército da Vitória”, “Ministério do Poder”, “Igreja de Deus Vivo”, “a Arca Noé”, para
não se estar a citar mais nomes.
A outra característica deste movimento é a sua independência feroz no que diz respeito aos
outros agrupamentos religiosos tradicionais, e particularmente no que diz respeito ao protestantismo
clássico, e relativamente ao qual se acreditaria que influenciaria esta corrente. Não é nada assim, na
realidade. É, de resto, a razão pela qual muitos investigadores não utilizam o termo “seita” para
designar estas “igrejas do despertar”. Com efeito, dado a globalização religiosa, não existe um centro
único de produção e emissão do pensamento teológico.
Esta corrente ganhou dimensão nas várias regiões através do mundo (Brasil, Cabo Verde,
Coreia do Sul...), com um vigor e uma especificidade própria devido principalmente ao facto do
pentecostaltismo americano original se “indigeneizar” facilmente, sob a influência do meio e da
capacidade empresarial dos operadores religiosos locais. A observação da realidade mostra que a
prática religiosa emocional gerada por esta corrente tem tendência a melhor se expandir nas zonas
urbanas do que nas zonas rurais, e preferencialmente em espaços já cristianizados. Mas, em que
contexto teve lugar a eclosão e o desenvolvimento deste “pentecostaltismo moderno” na RDC?
Contexto de eclosão e desenvolvimento do movimento neopentecostal na RDC
Exceptuando os factos assinalados acima, é necessário notar que na sequência do despertar
político, começado em 1980 e acentuado em 1990 com a democratização e com o multipartidarismo
integral, o movimento neopentecostal vai rapidamente aumentar, desenvolver-se e atingir a sua idade
de ouro com a libertação em 1997 após a chegada de Laurent-Desiré Kabila à Presidência da
República.
Para a maior parte dos habitantes de Kinshasa, a libertação trazida pelo novo regime deveria
ser total. Contudo, uma outra guerra ― iniciada a 2 de Agosto de 1998 ― vai rebentar e volta a
afundar esta população numa psicose de desencanto. Foi esta psicose do desencanto que permitiu
colmatar as brechas entre adeptos e fiéis de movimentos religiosos diversos. E isto sem se estar a
contar com o dinamismo dos líderes religiosos locais, formados quer seja na base do
pentecostaltismo original americano, quer seja sob a obediência dos “mais velhos” (pastores e
evangelistas perspicazes), que vai favorecer o nascimento das várias Igrejas locais dentro do país e
nos países vizinhos (Congo-Brazzaville, Angola, etc.).
O nivelamento cultural
A cultura entendida no sentido de um conjunto de formas adquiridas de comportamento nas
sociedades humanas comporta uma dinâmica constante. De facto ela é frequentemente submetida a
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solicitações internas e externas às quais lhe é difícil resistir. Num contexto de mundialização
religiosa, a catequese e a prática religiosa sofrem igualmente as influências do local e do global.
O nivelamento pelo povo
Em Kinshasa, a filiação religiosa procede de um conformismo sócio-cultural: rezar ou
proclamar que se reza numa dada igreja, qualquer que ela seja, é um sinal de boa civilidade, um acto
de bons costumes. É quase comparável ao efeito da moda. O que é paradoxal, é que um indivíduo
que pertence a uma igreja tradicional (católica, protestante, animista ou islamita) parece pouco
espiritual.
Aliás, o livre pensamento parece estar a ser silenciado pela população. De facto, o indivíduo
tributário de um certa base cultural e alimentado pela seiva da tradição africana, deve, por
conformismo social, evitar afastar-se do comportamento popular, com o medo de ser marcado e mal
visto. Nestas condições, o livre-pensador é encarado não como um ateu, mas como um bruxo, um
ocultista, ou um feiticeiro. Dai a necessidade sentida pelo comum dos habitantes de Kinshasa de
patentear uma identidade religiosa, com o medo da sentença popular. Esta identificação pode ser um
grupo de oração protestante, uma igreja do despertar ou um grupo carismático (católico).
Nivelamento pelas elites
Nesta procura para alinhar as suas convicções sobre a religiosidade popular, a elite de
Kinshasa, sem distinção de obediência religiosa (católica, protestante, pentecostal, evangélica ou de
despertar) exalta a corrente carismática, o canto popular, o “despertar” espiritual, etc., e de tal modo
que se torna, por vezes, difícil de identificar, à primeira vista, qual o grupo religioso em oração,
porque a música cultural é a mesma por todo o lado, idem para a dança, para o transe e, no limite,
para o mesmo tipo de pregação.
A desconstrução cultural
A desconstrução cultural ligada à prática e à catequese da “nova religião” professada pelas
“igrejas do despertar” é perceptível na vivência quotidiana dos habitantes de Kinshasa. O evangelho
que os chefes destas igrejas inoculam aos fiéis coloca estes últimos face a uma perspectiva
problemática. Com efeito, os praticantes destes movimentos religiosos estão emparedados entre, por
um lado, a vontade de Deus, não realizada a tempo e a ser procurada custe o que custar, graças à
intervenção musculada do pastor, e, por outro lado, a maldade de Satã, o único responsável das
desgraças que se abatem sobre eles (fome, falta de dinheiro, desemprego, doença, conflitos diversos,
indisposições, em suma, as preocupações da vida diária). Nesta dialéctica, o indivíduo vitimado é
tornado pura e simplesmente irresponsável e inconsciente. Com efeito, para se atraírem os favores
divinos ou se ver realizada a vontade divina na sua vida (vontade frequentemente confundida com o
aparecimento de acontecimentos felizes na sua vida), é suposto que o fiel se agarre à prescrição do
líder religioso. A prescrição do líder pode ser o jejum, a obrigação da dádiva, o donativo, a oferta
especial, a vigília de oração, o divórcio, a separação, um pedido específico, etc..
A teologia da luta contra os laços do costume e da dependência familiar
O adepto do Ministério do Combate espiritual é caracterizado pela sua renúncia, pela rejeição
do grupo e, sobretudo, da família, e pelo fechar-se sobre si-mesmo e sobre o novo pequeno círculo
de correligionários. Esta atitude, característica das seitas, é o principal índice perceptível no
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indivíduo que se converteu. Com efeito, para este último, tudo o que está fora do Ministério do
Combate espiritual aparece-lhe como impuro. A primeira machadada desta doutrina na cultura é a
sua deslocação da família. Com efeito, a luta desenfreada que efectuam os “combatentes” (os
adeptos deste ministério) contra as relações da família, salda-se frequentemente por uma ruptura do
núcleo familiar: tanto pode ser a mulher que declara que o seu cônjuge actual não é o “verdadeiro” e
que devem por conseguinte separar-se, como pode ser o marido que repudia a sua mulher porque ela
não é a que “Senhor” previu para ele. Ou então são as crianças do anterior casamento que são
declaradas “feiticeiros” e acabam por serem lançadas na rua porque impedem a felicidade do lar, etc.
Verifica-se que este “Ministério” é maioritariamente frequentado por mulheres, porque que aí
se prega que cada mulher deve procurar o seu “verdadeiro” marido, o que desagrada ao marido
actual. Nesta lógica, várias mulheres lançam-se numa espécie de cruzada sagrada e tentam enfrentar
os seus cônjuges. Entre estes, os mais visados parecem ser os “polígamos urbanos”. Para esse efeito,
as mulheres “vítimas” de poligamia são convidadas a rezar e a jejuar intensamente ― o jejum pode
durar mais de uma dezena de dias ― para reencontrarem a sua verdadeira alma irmã. Neste contexto,
a cultura africana e, por conseguinte, congolesa, favorável à poligamia tradicional, é fortemente
questionada com vivacidade. Acontece o mesmo com a solidariedade familiar. Com efeito, para o
africano, a noção de família restrita (pai, mãe, crianças) é um elemento da cultura ocidental
incorporado nos seus costumes e tolerado como tal. A verdadeira família é a “família alargada” onde
se reencontram, para além do núcleo familiar clássico, os primos e as primas, os tios e as tias, etc.
Assim, de acordo com a tradição africana, uma mulher não tem o direito de se opor a que um primo
ou uma prima faça parte integrante da sua família. Fazê-lo seria expor-se às vivas críticas e a uma
má apreciação pela família (alargada).
Ora o Ministério do Combate espiritual prega precisamente o contrário: libertar-se das relações
da família, e mesmo desembaraçar-se das relações determinadas pelo costume incómodo, diabólico e
sujeitando a mulher. “Quando se acolhe um membro da família em casa, abre-se uma porta de
entrada para os demónios, e estes vão perturbar o vosso lar”, dixit Mama Olangi. É assim que, na
prática, os adeptos deste movimento têm um comportamento sectário acentuado: fecho sobre
si-mesmos, contactos limitados aos correligionários, etc.. O costume ancestral é um travão ao bem
estar espiritual. Por conseguinte é recomendado ao fiel bani-lo e substituí-lo pelo que Mama Olangi
chama “o costume de Jesus”. Contudo, é necessário efectivamente notar que o costume de Jesus não
remete necessariamente à cultura judaico-cristã ocidental. È, muito simplesmente, na maioria dos
casos, um subterfúgio proposto aos adeptos para evitarem o peso do tradição. Podemos pois afirmar
com Gauthier Musenge e Patrick Matadiwamba que “a coesão social destes cristãos
desinstituicionaliza a família e enfraquece as solidariedades familiares. Assim a precarização da
família consagra o enfraquecimento do seu papel integrador e protector”. Finalmente, o adepto dá a
imagem de um indivíduo isolado e atomizado, característica da deriva sectária e da auto-exclusão
social.
O papel estratégico das “igrejas do despertar”
É evidente que as “igrejas do despertar” preenchem uma tripla função social, económica e
política. Os seus líderes são referências sociais face à população de Kinshasa que, pelo contrário,
encontra nestas estruturas um lugar de cura social face à sua procura interior permanente e face à
crise urbana.
A catequese e a prática destas igrejas são caracterizadas designadamente por curas miraculosas
e conversões espectaculares. Mas, a reconversão das antigas elites políticas desiludidas tem uma
dupla finalidade: beneficiar do perdão do povo ingénuo mudando os discursos, e, reconquistar, por
um cálculo político subtil, o poder perdido. Estas elites compreenderam que estas igrejas constituem,
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no fim de contas, um interessante espaço de socialização política, favorável a qualquer mobilização e
propaganda política. Do mesmo modo, a manipulação psicológica dos fiéis pelos pastores provoca
importantes estragos na sociedade: fenómeno “criança-feiticeiro”, fraude espiritual ou material,
homicídio, sexo sagrado, deslocações familiares, exclusão social e alienação mental..., estragos, de
resto, impunes até agora.
Além disso, alguns consideram hoje estas igrejas como verdadeiras oficinas de captação de
recursos, ou “caixas negras” não apanháveis pelo fisco. Com efeito, por meio das dízimas,
donativos, oferendas e recolhas diversas, estas estruturas captam importantes rendimentos que não
são, sequer, sujeitos ao imposto. E o emburguesamento insolente de certos líderes religiosos que
frisam o enriquecimento ilícito não parece comover ninguém. Certamente, alguns organizam acções
sociais (hospitais, escolas...) financiadas pela igreja, mas com fundos desviados conscientemente ou
camuflados sob razões sociais diversas como uma “fundação” ou um particular, mas diferentemente
identificado. Em qualquer caso, o balanço económico destas igrejas mostra que as linhas da acção
concretas estão longe de estarem de acordo com os discursos dos pregadores. Por último, é claro que
estas igrejas desempenham, certamente, um papel político. Vários autores pensam que a acção dos
Estados Unidos consistiria em controlar a opinião pública dos países onde espalham estas igrejas,
insuflando ao mesmo tempo a ideologia, e também em bloquear a expansão do Islão e em asfixiar à
nascença os sentimentos de nacionalismo e anti-americanismo.
Conclusão
As “igrejas do despertar” no Congo são um fenómeno recorrente e impressionante, e uma
realidade fortemente ligada à mundialização através do movimento neopentecostal. A meio caminho
entre a Igreja tradicional protestante e a corrente pentecostal original, estas igrejas, sob a direcção
exemplar de líderes locais tenazes e empreendedores ― na acepção do entrepreneurship americano
– forjaram o seu próprio credo, credo às vezes inqualificável, nebuloso, e próximo da deriva
mercantilista e fundamentalista. A sua presença no espaço público congolês, com a implicação dos
seus meios de comunicação social respectivos, resulta de um nivelamento e de uma des-construção
culturais inéditos na história religiosa do país. Por fim, o espírito de lucro e do ganho instantâneo
que caracteriza os líderes destas igrejas bem como os seus adeptos, tem uma tendência para a deriva
no sentido da intolerância e da lei do menor esforço, e a propensão para uma cultura feitichista da
vida cristã, deveriam levar a que se questionassem a si-mesmas a autoridade e toda a sociedade
congolesa.
Excertos de José Mvuezolo Bazonzi, “Les “églises de réveil” de Kinshasa à l’ombre du mouvement
néopentecôtiste mondial: entre nivellement et déconstruction culturels”, Centro de Estudos Políticos
(CEP), Universidade de Kinshasa, República Democrático do Congo. Traduzido de
http://www.unibas-ethno.ch/veranstaltungen/dokumente/Papers/Bazonzi.pdf
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Núcleo de Estudantes de Economia da AAC
4. TRÊS PONTOS DIFERENTES DE LEITURA, INGLATERRA, FRANÇA, BÉLGICA, A
MESMA PREOCUPAÇÃO: AS IGREJAS DO DESPERTAR
4.1. Igrejas de Despertar ou de Adormecer
Muriel Devey 2
23 Outubro de 2004
Afrique - Enjeux !
O fenómeno assumiu realmente uma grande dimensão no final dos anos 1980. É nessa época
que em África apareceram, e em massa, as Igrejas ditas do despertar. É certo, esta corrente
“religiosa”, largamente impulsionada pelas igrejas pentecostais anglo-saxónicas, em especial
americanas e escandinavas, já existia, mas “discretamente” sob forma de células ou irmandades de
oração.
A transformação destes grupos informais em Igrejas estruturadas será favorecida, no início dos
anos 1990, pela “democratização”, que, em muitos países, passou a permitir a liberdade de
associação, ou mesmo de culto, como no Congo-Brazzaville onde o regime marxista de partido
único tinha, durante muito tempo, criado e mantido um controlo rigoroso da vida religiosa. Assim,
excluindo as Igrejas tradicionais (católica, protestante) ou as proféticas autóctones (Kimbanguismo,
Cristianismo profético), todos os outros pedidos de criação de associação religiosa se defrontavam
com a recusa dos poderes públicos.
Hoje, as Igrejas do despertar contam-se por centenas, se não mesmo, por milhares. Nos países
dominantemente cristãos, nenhuma grande cidade escapa ao fenómeno, a apetência por esta nova fé
foi crescendo. Por exemplo, Brazzaville conta com algumas cinco centenas de igrejas do despertar,
agrupando entre 15.000 e 20.000 adeptos. Em Kinshasa, a capital do Congo democrático que tem
entre 6 a 7 milhões de habitantes, calcula-se o seu número em vários milhares. A listagem é,
contudo, difícil de estabelecer, até porque certas igrejas nunca apresentaram sequer o seu pedido de
autorização, e as suas mudanças de local, os desaparecimentos, as mudanças de denominação e as
cisões são frequentes. O que torna a paisagem religiosa “evangélica” extremamente movediça.
Todas estas micro–igrejas funcionam sobre a mesma base. Têm as suas estruturas hierárquicas,
a sua liturgia e os seus rituais religiosos, constituídos de jejuns, curas da alma e vigílias de oração.
Às vezes têm a sua própria televisão e rádio. Em Kinshasa, a capital do Congo democrático, estes
meios de comunicação social audiovisuais pululam, inundando, de passagem, Brazzaville, a capital
do Congo vizinho. Um dos traços comuns destes novos ministérios é que foram fundados e
desenvolvidos nas cidades por iniciativa de indivíduos sobretudo jovens e pertencendo a meios
sociais relativamente favorecidos. Os seus líderes — pastores, profetas, apóstolos, evangelistas e
outros — com bons talentos oratórios, é certo, são frequentemente saídos das elites urbanas
instruídas (estudantes, professores do ensino superior, de funcionários, de quadros). Na sua maior
parte pertencem à geração dos “desiludidos” do após-independência, a quem foram feitas promessas
de desenvolvimento não cumpridas e sujeitas à falência das estratégias clássicas de acumulação e de
ascensão social. Para esta geração, mal situada entre dois mundos, o ocidental e o tradicional, a sua
filiação nestes movimentos permite-lhes atenuar em parte o seu “malogro social”. Ao passarem a ser
pastores, tornam-se “alguém”.
Quanto aos adeptos, estes “cristãos nascidos de novo” pelo baptismo do espírito, aderem a
estas Igrejas por diversas razões. Para reencontrar novas formas de solidariedade e de sociabilidade
2
Muriel Devey, repórter, colaboradora de Afrique Magazine. Alem da imprensa é consultora de diversas organizações internacionais e
de sociedades privadas.
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Núcleo de Estudantes de Economia da AAC
num mundo urbano difícil e num ambiente socioeconómico em completa falência. Ou, até mesmo
para refazerem uma “nova virgindade”, após anos de vida “desregrada”. “Num contexto de crise,
estas igrejas apresentam-se como os garantes da segurança e da moral perdida. Pretendem oferecer
aos seus fiéis os meios para se reconstruírem, viver uma vida melhor, resolverem os seus problemas
materiais e para irem para o paraíso”, explica Zéphirin Muyika, assistente social do “Projecto
crianças nas ruas” da Cruz Vermelha da Bélgica em Kinshasa. Para indivíduos mal urbanizados,
largamente destabilizados pela miséria e/ou pelas guerras, que há de melhor, com efeito, que estas
Assembleias que os acolhem de braços abertos nas suas comunidades de “irmãos e de irmãs em
Cristo”!
O desejo de encontrarem uma nova “família” não é, contudo a única motivação. Entra-se, com
efeito, nestas Igrejas para procurar a solução para os seus problemas materiais: dinheiro, saúde,
trabalho amor, crianças, etc. Esta solução passa pela procura de novas maneiras de ser e viver, que,
deveriam permitir resolver estes problemas, dixit pastor!
São por conseguinte valores morais e uma nova visão do mundo que os “convertidos” vêm
procurar nestas Igrejas. O que os conduz a adoptarem outro estilo de vida, que tem os seus códigos,
incluindo vestuários, as suas regras, os seus rituais e as suas práticas “espirituais”. É pelo menos o
que lhes é proposto. Falta saber se os que administram estas poções mágicas são bem intencionados.
Porque somos obrigados a reconhecer que certos pastores são pequenos escroques que enriquecem, e
em grande, sobre as costas das suas “ovelhas” crédulas, chegando mesmo até a ficarem com
senhoras casadas em “injustos” casamentos que depois só juram por eles.
Fica-se espantado, de resto, pela facilidade com a qual os animadores destes ministérios se
declaram “pastores”. Uma simples “revelação” e tudo se declara ! Não é verdadeiramente assim,
afirma o Apóstolo Francis Gadenga, líder da Comunidade cristã de Brazzaville, uma das mais
importantes destas igrejas no Congo. De acordo com este, é, primeiro, necessário ser formado por
um Pai espiritual durante dois a três anos, antes de fundar um Ministério. A tendência deveria ser, de
resto, a de regulamentar tudo isto criando, nomeadamente, um órgão de direcção que teria como
função gerir a entronização pastoral. Enquanto nada disto existe, é a auto-proclamação que
prevalece. É de espantar igualmente o papel importante que ocupa a bruxaria nestas correntes
religiosas. Estas Igrejas funcionam com efeito — e alargam a sua base popular — “exorcizando,
libertando do mal ou curando” pela oração. É o aspecto mais conhecido da sua acção. Assim fala-se
permanentemente de maus espíritos e de feiticeiros e pratica-se de forma não ordenada, curas de
almas e cerimónias de “libertação dos espíritos do mal”. Incontestavelmente, a fronteira entre as
figuras de Deus, do Diabo e do Feiticeiro é sobretudo muito ténue. De repente, qualquer fiel pode ser
suspeito de bruxaria. Se tal for o caso, será liberto, certamente, pelo seu pastor. Porque, em geral, é
ele que está habilitado a detectar o “mal” e de libertar quem pelo mal é atingido! No Congo
democrático, são, cada vez mais, as crianças que são acusadas de bruxaria e por conseguinte
maltratadas.
Um delírio colectivo que toma proporções tão inquietantes que os poderes públicos tiveram
que reagir, efectuando campanhas para proteger estas crianças. Em Brazzaville, as autoridades, por
seu lado, foram recentemente forçadas a emitirem sinais de alarme e prometeram pôr na ordem o que
qualificam de seitas religiosas, acusadas de fraude, perturbações da ordem pública e de fragmentação
das famílias. Acontece que em numerosos países, estas igrejas são sobretudo “bem toleradas” pelos
poderes públicos. Isto, quando não são as próprias elites políticas que as criam e incentivam. Para
que fins? Em todo o caso, se estas Igrejas “despertam” os seus adeptos para uma nova
espiritualidade — o que se continua por provar — o que é certo é que mantêm as suas ovelhas numa
espécie de fatalidade. Desviando-as nomeadamente de todas as formas de luta social e política e
mantendo-as nas crenças da bruxaria. Com a inevitável caça aos feiticeiros ou às bruxas que se lhe
segue. São então Igrejas de despertar ou de adormecer? Sonhos ou pesadelos? Pode-se pôr a questão.
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Núcleo de Estudantes de Economia da AAC
Traduzido de Muriel Devey, “Eglises de réveil ou d’endormissement?”, Afrique-Enjeux, 23 Outubro
de 2004 e disponível em http://www.blackmap.com/spip/spip.php?article39.
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4.2. As igrejas “africanas” prosperam
15 de Dezembro de 2006
Le Vif /L’Express
As Igrejas do despertar também existem na Bélgica, ainda que menos implantadas que em
Kinshasa, sobre as quais o canal televisivo RTBF, recentemente, fez uma reportagem. Encontram-se
os seus fiéis entre as comunidades africanas, pretendendo responder às suas necessidades espirituais
e às suas preocupações materiais. Não sem perigo.
Com o emblema orgulhosamente pregado com alfinetes sobre uma túnica justa, uma
hospedeira acolhe-nos e guia-nos até uma das últimas cadeiras livres numa sala que conta quase
2.000 lugares. Estamos num Domingo de manhã... Sejam bem-vindos à Igreja pentecostal da Nova
Jerusalém (NJ), a mais importante das Igrejas do despertar 3 A Bélgica, tem 23 estabelecimentos e
conta com milhares de fiéis. São aí feitas sessões de culto em 5 línguas: francês, inglês, português,
lingala e swahili. O público é na sua quase totalidade africano (95%) e maioritariamente originário
da República Democrática do Congo (RDC). Existem centenas de organizações deste tipo na Bélgica
(sobretudo em Bruxelas), de dimensões extremamente variáveis: certos grupos de orações reúnem,
com efeito, apenas uma quinzena de fiéis.
A NJ foi criada por missionários americanos, e assim as numerosas Igrejas pentecostais
mantêm relações regulares com os Estados Unidos (formação de pastores, de convenções, de
congressos...), e este movimento reencontra-se também sobre o continente africano. “Estas Igrejas,
de resto, acompanharam a mudança religiosa que aí se desenrolava”, diz-nos Joël Noret, investigador
na Universidade Livre de Bruxelas. Os cultos pentecostais expandem-se fortemente em África nos
anos 1980, enquanto as realidades socioeconómicas se fazem sentir cada vez mais duras. “Oferecem
às pessoas recursos religiosos imediatos e mais interessantes, o que explica que tenham crescido a
esta velocidade por toda a parte no mundo, acrescenta o investigador.” As pessoas encontram nelas
dispositivos rituais que lhes permitem fazer face às situações de crise. “Estas Igrejas respondem a
diversas necessidades expressas pelas comunidades africanas.” Em primeiro lugar é uma certa
maneira, diferente, de pregar o Evangelho, uma cultura, uma expressão da vida espiritual mais
animada do que nas Igrejas tradicionais. “Os Brancos levaram a palavra de Deus a África, mas
quando vejo as igrejas vazias na Bélgica, aquilo faz-me chorar.” Aí, já não se sente que Deus está
vivo, testemunha Germain Katako Kadisha, um engenheiro das minas membro da Nova Jerusalém.
No pentecostaltismo, o culto é vibrante, motivante, é como uma droga. Noutros lugares, o culto é
frio.” São também, inegavelmente, lugares de socialização para as comunidades africanas que aí
podem partilhar os seus problemas com os outros que também os vivem. “Como Africanos, somos
excluídos de certos postos quando chegamos à Bélgica, testemunha-nos Jojo Isawu, pastor da Igreja
Canã, o Centro apostólico Nova Aliança, em Anderlecht. O nosso papel é provar ao homem que ele
não é o que as pessoas dizem que ele é ou que o que ele chega a pensar de si mesmo depois de
vividas todas as discriminações. Face a Deus, tens valor.” Para Sylvain Kalamba, teólogo católico e
padre diocesano, “estas Igrejas levam uma mensagem de esperança perante problemas essenciais,
para as comunidades africanas, como a obtenção de uma licença de estadia, por exemplo, pondo-os
em contacto com um advogado após a celebração. Nas Igrejas tradicionais, os responsáveis estão no
presbítero enquanto nestas, o pastor vai ter com as pessoas, compartilha as suas preocupações. Para
muito fiéis, é um amigo da família.”
3
Termo genérico que tende a designar os movimentos carismáticos de obediência protestante americana, os movimentos
pentecostais, as Igrejas evangélica
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Conservadora, a teologia pentecostal preconiza uma leitura literal, à letra, da Bíblia. O mundo
actual, a sexualidade fora de casamento e a homossexualidade são diabolizados, o homem tem o
lugar central, na esfera pública e familiar. O pentecostaltismo oferece uma nova vida aos pecadores,
uma “transformação”, e apoia-se sobre uma pletora de milagres. A cura passa pela oração, enquanto
a doença é encarada numa acepção muito larga: desemprego, problemas do casal, solidão,
esterilidade, alcoolismo, SIDA, cancro, etc. Em geral, as preces não dissuadem os fiéis a irem ao
médico, “cuja inteligência foi dada por Deus”, sublinha Jojo Isawu, com o seu cartão de saúde na
mão. Contudo, a medicina é frequentemente entendida como ineficaz para lutar contra a doença,
consequência de um mau comportamento ou de se estar possesso o que só a oração pode curar. Esta
visão pode certamente desviar o paciente do tratamento. Os numerosos testemunhos miraculosos
contados em catadupa aquando dos cultos, acabam por persuadir os fiéis que orar é o melhor meio
para curar. “Pela expulsão do mal, pelo jejum ou pela oração, os demónios são expulsos.” A SIDA
não é nada face a Deus”, afirma Dorca, irmã de Cristo do Ministério do combate espiritual de
Molenbeek.
O sucesso material é valorizado nas orações e nos testemunhos. “É uma teologia da
prosperidade, precisa Sylvain Kalamba. Deus não gosta da pobreza, e ser rico não é pecado. Este
culto da riqueza vem dos Estados Unidos. É muito individualista, influenciado pela ideologia
capitalista.” Os Americanos, de resto, são frequentemente citados como exemplo aquando da
colheita da dízima: se eles são prósperos e abençoados, é porque dão muito, dão até 40% do seu
salário. A dízima é o imposto de Deus, que equivale a 10% dos rendimentos ou do tempo dos fiéis.
Não é obrigatória, mas é vivamente aconselhada por pregadores culpabilizadores. Deus fá-lo-á
frutificar e recompensará os fiéis ao cêntuplo. Em África, como se vê na reportagem de Gilles
Remiche, Vendedores de Milagres, criar uma Igreja é um meio utilizado por muitos para se
enriquecerem. “50 euros, é o preço duma bênção especial para a obtenção de uma autorização de
estadia, para encontrar um marido, admite Sylvain Kalamba.” Mas, na Bélgica, as pessoas são
cuidadosas e temem ser presas. O que não impede a colecta (de modo que a Igreja possa comprar
uma casa por exemplo) ou a manipulação.” Para o pastor Jojo Isawu, “na Europa é difícil viver da
Igreja ou das ofertas, quanto mais ainda enriquecer-se. Aqui, os alugueres dos espaços são elevados,
o nosso é de 1.700 euros por mês. Muitos pastores têm um trabalho.” (…) A imagem destes pastores
das Igrejas do despertar continua a ser muito ambígua, e separar o trigo do joio aparece como uma
tarefa colossal, mas necessária. “Alguns crentes são aventureiros. Criam Igrejas que são
verdadeiramente empresas comerciais, recorda Germain Katako. São falsos pastores, mas enganam o
povo enriquecendo à sua custa. Ou tentando cometer o adultério com as mulheres que vêm ao culto
“(sic).” Como em Kinshasa...
Traduzido de Le Vif/L’Express, “Les Eglises «africaines» prospèrent”, 15 de
Dezembro de 2006 e disponível em http://www.congoforum.be/fr/nieuwsdetail.asp?subitem=3&new
sid=20676&Actualiteit.
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4.3 As igrejas do despertar na RDC: um ópio para o nosso povo
Israel Ndongala
Investigador na Buckinghamshire University, Inglasterra.
22 de Julho de 2006
Eglise de maison
Bélgica
Simon Kimbangu 4 disse um dia: “Quando chegaram até nós, os europeus tinham a Bíblia e nós
as terras. Hoje, somos nós que temos a Bíblia e eles as terras “
Não é segredo para ninguém saber que as igrejas ditas de despertar na RDC fazem muito mais
mal do que bem à população. O que não deixo de denunciar é o mal que causam as igrejas de
despertar a esta pobre população.
Primeiro, o fenómeno criança – bruxo é um produto das igrejas de despertar que diabolizam
crianças inocentes na sequência das falsas profecias declaradas pelos falsos pastores e falsos
profetas, marcadas a ferro quente, ao rubro. Por conseguinte, estas crianças encontram-se nas ruas de
Kinshasa e prostituem-se com o enorme risco de contaminação das doenças virais ou sexualmente
transmissível, SIDA/VIH e DST.
Segundo, os pastores congoleses adormecem os crentes através de mensagens que funcionam
como ópio. Como consequência, os crentes, em vez de se juntarem às nossas forças armadas na
frente da guerra e combater a ocupação do nosso país por forças armadas estrangeiras, preferem
passar longas jornadas a fazerem jejuns e rezarem para que Deus envie legiões de anjos para o Kivu
e assim expulsarem os exércitos de Kagame e Museveni para fora do nosso território nacional. Os
católicos na RDC já não conseguem sequer identificarem-se, de tal modo eles estão adormecidos por
sermões mortos pregados por pastores mortos em igrejas mortas. Já não sabem sequer o que é que
são, onde é que estão e para onde vão. Por conseguinte, continuam a ser ingénuos, mudos e passivos
aceitando ao mesmo tempo e com resignação a impostura de Washington e de Bruxelas via Kigali.
“Quando já não sabes para onde vais, volta-te, olha para onde vens” (provérbio etíope).
Aos homens inteligentes e que têm um espírito aberto, Jesus dizia sempre: “Vós não estais
distante do reino de Deus”. O Reino de Deus é a alegria, a paz, a tranquilidade, a justiça, em suma, a
felicidade. É tudo isto que falta ao povo do Congo.
Os pastores congoleses sabem muito bem que nada mais fazem do que explorar a população e
que não possuem o poder divino para realizarem os milagres pois Deus não escuta estes pecadores.
Os pastores congoleses são mentirosos. Kiziamina e Sonny Kafuta têm mentido durante muito tempo
aos congoleses, dizendo que possuem companhias de aviação na Europa. Vivo na Europa desde há
20 anos e nunca vi um simples veado voador (Litaka) pertencendo a um pastor congolês. E se
realmente fossem milionários como o garantem publicamente porque não construir então ou
sumptuosos edifícios para neles terem as igrejas ou centros hospitalares, orfanatos ou ainda centros
da formação profissional para jovens desempregados como de facto o fez o basquetebolista
Mutombo Dikembe em Masina-Bitabe.
Além disso, os pastores tornaram-se professores de sexologia. Aquando das suas lições às
“filhas de Sara”, Sonny Kafuta explica sem nenhum pudor e em termos indecentes, provocantes e
chocantes a maneira como “as raparigas de Sara” se deveriam servir da sua sexualidade para
“conquistarem” os homens. É uma vergonha!
4
Antigo catequista que forjou uma forma particular de religiosidade baseada num novo catecismo à africana, com canto,
dança, sobre um fundo de reivindicação sócio-política.
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Núcleo de Estudantes de Economia da AAC
As igrejas do despertar destroem a nossa pátria e a fé do nosso povo. A maior parte dos
pastores são grandes desavergonhados e comportam-se com muita “ligeireza” para com as mulheres
das suas igrejas sobretudo aquando das curas da alma ou nas sessões privadas com estes falsos
profetas. Os pastores preferem habitar nos bairros luxuosos da capital como Binza, rodam em
Mercedes-Benz, Jaguar classe S, Jeep Grande Cherokee etc. enquanto os seus crentes morrem de
fome. É por isso que Deus está muito afastado do Congo e deixa o Nabucadnestar 5 moderno (Paul
Kagame) levar as nossas raparigas e rapazes do Kivu como cativos até que haverá alguém como
Simon Kimbangu ou Lumumba a passar por esta brecha e sacrificar-se pela felicidade do seu povo.
O povo congolês é o mais destruído, direi mesmo o mais bestializado, por estes pastores
ganhadores que se dizem ao serviço de Deus, este povo é o que vive maiores sofrimentos devido aos
comportamentos miseráveis dos seus governantes. Embora eu seja profundamente crente, sou a favor
de uma erradicação brutal e definitiva dos pastores que não tiveram nenhuma formação teológica.
Quando se me põe a questão de saber o que fazer para solucionar o problema espinhoso que
colocam estes falsos pastores preconizo uma solução radical. Radical porque o mal é tão profundo
que não vejo como fazer diferentemente para que este povo saia deste transe hipnótico que destrói
famílias inteiras e, por extensão, a própria sociedade Abatam-se, proíbam-se estes falsos profetas,
tele-evangelistas e outros falaciosos auto-proclamados pastores que, usando o Santo Nome de Deus,
martirizam e escravizam os pobres irmãos que vivem um pesadelo, acordados. Levanta-te, Congo
porque as tuas igrejas ainda se estão a adormecer.
Excertos traduzidos de Israel Ndongala, “Les Eglises de Reveil en RDC: Un opium pour notre
peuple”,
Julho
de
2006
e
disponível
em
http://www.eglisedemaison.be/news/index.php?id_news=214
5
Rei da Babilónia, no tempo de Jesus Cristo.
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Núcleo de Estudantes de Economia da AAC
5. O HORROR SEM LIMITES: DOIS PEQUENOS RELATOS
O “segundo mundo” e as crianças-feiticeiro” na República Democrática do Congo
Filip De Boeck
Dezembro de 2000
Politique africaine
5.1. O horror na vida de Nuclette e da sua mãe
Esta é a história duma mulher de 30 anos, mãe de três filhos e atingida de SIDA. Na altura da
entrevista, recebia os cuidados de uma igreja de cura, ao mesmo tempo que a sua menina de quatro
anos, Nuclette, acusada de ser uma bruxa.
Sofri muito na minha vida. Vendia legumes no mercado. O pai de Nuclette viveu
de forma muito apaixonada comigo mas actualmente deixou-me. Sou eu a responsável
desta separação: repentinamente não fui mais capaz de o amar. Certo dia verifiquei que o
meu dinheiro das vendas do mercado tinha desaparecido. As pessoas disseram-me que
era Nuclette que o tinha roubado, mas não queria acreditar nisso. Mas, foi nesse
momento que os nossos vizinhos começaram a suspeitar que Nuclette era uma bruxa. Ao
que diziam teria tentado embruxar uma mulher que vive no nosso bairro. Quando ia fazer
mal a esta vizinha, Nuclette transformava-se e assemelhava-se a uma mulher adulta. Um
dia em que eu tinha saído, a vizinha em questão veio a nossa casa e começou a
queixar-se à minha mãe: “Como podem aceitar partilhar o mesmo tecto com essa
criança-bruxa que tentou lançar-nos a má sorte e quis matar-nos na nossa própria casa?”
Não somos da vossa família, não sabíamos que esta criança era uma bruxa. Porque é que
ela tenta prejudicar-nos?
A minha mãe e eu decidimos levar a criança a uma sessão de oração com o pastor Norbert.
Nessa noite dei banho às minhas duas outras crianças e fomos todos juntos ao “controlo de oração”.
O pregador começou a profetizar e disse que Nuclette era uma bruxa, mas que as outras duas
crianças não estavam atingidas por este mal. Então o pastor perguntou-me pelo meu marido.
Disse-lhe que tinha deixado o nosso bairro e que vivia agora num outro canto da cidade. Não lhe
disse o nome do meu marido, mas disse-me o seguinte: “É Nuclette que é responsável pelo malogro
do vosso casamento.” Foi ela que fez com que o seu marido fugisse. E quando dormia, de noite, na
vossa cama, veio com outras criança-feiticeiros e injectou-os com o sangue contaminado através de
uma agulha diabólica.” Foi assim que comecei a ter SIDA.” Tornei-me muito, muito magra. As
pessoas começaram a dizer que tinha SIDA. E foi graças ao pregador desta igreja que agora sabemos
que a SIDA é de origem diabólica Permaneci na igreja durante mais ou menos um mês e o pastor
purificou-me. Eu estava a morrer quando cheguei aqui mas agora mim estou curada de SIDA.
5.2. O horror na vida de Esther
Quando em 1999 encontrei Esther, esta vivia com os seus avós maternos. Esther,
anteriormente chamada Falone, tinha seis anos de idade, mas não parecia ter mais do que três, facto
que era compreendido como um sinal evidente do seu carácter “místico”. Tal como a sua avó me
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Núcleo de Estudantes de Economia da AAC
explicou então, a mãe de Esther tinha ido até Angola para tentar a sua sorte no tráfico de diamantes.
O seu pai tinha sido soldado no exército de Mobutu. Com a tomada de poder de Kabila em 1997, foi
preso e enviado para a prisão de Kitona, um campo de reeducação situado no Baixo-Congo. Nunca
não voltou a Kinshasa. Um dia a avó encontrou Esther na rua, onde vizinhos lhe tinham batido
porque, contava-se, era uma bruxa. Contudo, a avó continuou a ocupar-se de Esther e levou-a
posteriormente a diversos hospitais quando ela ficou doente. Nenhum médico conseguiu fazer um
diagnóstico preciso sobre a sua doença, mas Esther tinha começado a parecer-se com “uma velha
mulher de 70 anos” e tinha completamente deixado de falar. Graças à ajuda à financeira de algumas
religiosas europeias, esteve internada durante nove meses, sempre acompanhada da sua avó, num
dos hospitais da cidade e aí recebeu um tratamento prolongado, mas sem qualquer resultado: Esther
não tinha melhorado. Para complicar, a avó tinha-se voltado para a oração. Durante uma sessão
intensiva de oração que se realizou na sua casa, Jesus revelou-lhe a existência da “coisa”, dentro do
corpo de Esther. E nessa mesma altura, a avó tinha começado a sonhar que Esther e os seus amigos
feiticeiros a tentavam matar. Foi nessa altura que decidiu confiar a criança a um pastor para um
apoio de oração mais profissional.
Com o acompanhamento desse pastor, toda a terrível verdade sobre Esther começou a
“aparecer” à superfície. E muito das desgraças que tinham recentemente caído sobre a família
encontrou de repente a sua explicação. Revelou-se que no “segundo mundo” onde Esther vivia
durante a noite, ela era uma mulher adulta, casada com um certo Papa Bukafu, do qual tinha 11
crianças, 6 “à direita” (dos rapazes) e 5 “à esquerda” (das raparigas). Esther e a sua família de
feiticeiros viviam nas profundidades de um rio. A rapariga tinha-se tornado bruxa depois de ter
recebido no mercado um pedaço de peixe seco das mãos de uma vizinha, Mama Losiya.
Seguidamente, esta tinha começado a fazer-lhe visitas nocturnas. Tinham-se posto “a caçar” em
conjunto, em Kinshasa depois, mais longe, na Europa. Durante estas viagens, Esther andava com
uma vara que empregava também para matar as pessoas. Descobriu-se igualmente que Esther,
obviamente, “tinha fechado a via” (kangisa nzela) à sua mãe e aos seus dois tios maternos que
“procuravam” diamantes em Angola, até aí sem nenhum sucesso. Quando a notícia ocorreu em
Kinshasa que um dos seus tios tinha sido morto por um soldado da UNITA, esta morte
imediatamente foi atribuída a Esther. Da mesma maneira, acreditava-se que “tinha bloqueado” outro
tio materno que tinha um diploma universitário em economia, mas que estava desempregado há dois
anos. É neste mesmo período que o avô de Esther, que tinha trabalhado como empregado de balcão
no aeroporto nacional, foi despedido. Finalmente, quando a mãe da criança voltou de Angola com as
mãos vazias e soube que a sua rapariga era a razão de ser do seu infortúnio, espancou-a quase até à
morte.
Em Setembro de 1999, quando conheci Esther e a sua avó, estas participavam sempre, e muito
activamente, em sessões de libertação. Graças a esta “cura de alma”, durante a qual também recebeu
o seu novo nome, Esther tinha reencontrado alguns dos seus antigos traços, embora o seu
crescimento tenha parado. Também continuava a ser rigorosamente vigiada pela comunidade
religiosa que temia uma eventual recaída no “mundo das sombras”. Todas as semanas iam com a avó
à igreja para participar numa sessão de libertação.
Excertos traduzidos de Filip De Boeck, “Le ‘deuxième monde’ et les ‘enfants-sorciers’ en
République Démocratique du Congo”, Politique africaine, n. 80, Dezembro, 32-57, 2000, e
disponível em http://www.politique-africaine.com/numeros/080_SOM.HTM.
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Agradecimentos - Universidade de Coimbra