História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
Militância política do padre Joaquim Antunes de Almeida na voz do “O
Sim Sim” (1964-1967)
Patrícia Ferreira dos Reis
Graduada e Licenciada em História (FJAV) - Lagarto/SE.
patrí[email protected]
Resumo: este artigo tem o propósito de estudar os conceitos ideológicos do padre Joaquim Antunes de Almeida
no período de implantação da ditadura militar de 1964. O objetivo desse estudo é analisar os discursos
assinalados pelo padre Almeida nas páginas do jornal O Sim Sim, entre os anos de 1964 a 1967. Para tanto se fez
necessário averiguar as histórias e concepções do padre Almeida e do jornal O Sim Sim. A corrente teóricometodológica adotada foi a História Social. A pesquisa foi fundamentada em análises bibliográficas, entrevistas
e análises do ideário embutido no jornal O Sim Sim. Registrar as contribuições do padre Almeida é uma forma
de reconhecimento pela sua história de vida e passa a ter um valor inestimável para a memória daqueles que
fazem parte das comunidades pelas quais ele batalhou por melhores condições.
Palavras-chave: Ditadura Militar. Militância Política. Jornal O Sim Sim. Padre Almeida. Sergipe.
1
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
1. INTRODUÇÃO
Diante da nova ordem política implantada no Brasil com o golpe militar de 1964,
vários movimentos esquerdistas protestaram contra o regime, sobressaindo-se as organizações
estudantis, os sindicatos trabalhistas, as ações da Igreja Católica, onde alguns sacerdotes
discursavam publicamente suas opiniões, dentre eles destacou-se no interior sergipano, no
município de Estância, as idéias do padre Joaquim Antunes de Almeida. Com isso essa
pesquisa objetiva analisar os discursos assinalados pelo padre Almeida nas páginas do jornal
O Sim Sim, entre os anos de 1964 a 1967. Sendo também desígnio da pesquisa identificar a
história do jornal O Sim Sim e as concepções nele expostas, e verificar o papel que o padre
Almeida representou para o desenvolvimento das comunidades em que esteve inserido.
Registrar as contribuições do Pe. Almeida é uma forma de reconhecimento da sua
trajetória de vida e passa a ter um valor inestimável para a memória daqueles que fazem parte
das comunidades pelas quais ele lutou por melhores condições. Refletir a produção da história
“é fazer retornar homens e mulheres não como sujeitos passivos e individualizados, mas como
pessoas que vivem situações e relações sociais determinadas, com antagonismos”.1
O tema mostrou-se qualificado para ser estudado por ter sido um dos poucos jornais
sergipanos que não estava apoiando o regime militar em suas medidas arbitrárias. Fato raro no
período, já que os meios de comunicação foram censurados. Desprezando a opinião pública,
os militares foram “capazes de reenquadrar os meios de comunicação na dócil linha mestra
traçada pelo governo”.2
Nos últimos anos o território da pesquisa histórica foi estendido a tudo que pode ser
perceptível pelo observador social. Esse novo conceito advindo da Escola dos Annales
alargou o campo do documento histórico, sendo aceitos uma multiplicidade diversificada de
documentos.3 Dentro dessa concepção estudar-se-á o tema proposto, contribuindo, assim, para
o universo acadêmico, que terá acesso a esse material sobre as ideias e ações sociais do padre
Almeida. Portanto, a corrente teórico-metodológica adotada foi a História Social,
compreendida como uma linha que busca “formular problemas históricos específicos quanto
ao comportamento e as relações entre os diversos grupos sociais”.4 O estudo tem a finalidade
de analisar discursos, compreender conceitos e ideias. A partir de uma investigação
1
Cf. YARA, 1998, p.18.
Cf. MARCONI, 1980, p.127.
3
Cf. LE GOFF, 2001, p. 28.
4
Cf. CASTO, 1997, p. 48.
2
2
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
exploratória, explicativa e analítica, com abordagem qualitativa. Trata-se de uma pesquisa
histórica que tem base político-sociológica.
2. Padre Almeida: Uma Trajetória Religiosa e Social
FIGURA 1. Padre Almeida. (Acervo pessoal da autora)
Joaquim Antunes de Almeida, conhecido popularmente por Pe. Almeida, nasceu no
dia 13 de março de 1931 na cidade de Sobral, Estado do Ceará, sendo filho de Antonio
Joaquim de Almeida, tabelião oficial do registro civil, e Francisca Alda Rodrigues de
Almeida, uma camponesa. Estudou o Fundamental Menor em Sobral, na Escola de Dona
Mocinha. A partir de então foi para o Colégio Sobralense, onde estudou o primeiro ano
ginasial. No ano seguinte, em 1944, entrou para o Seminário em Sobral, terminando o curso
de Humanidades em 1949. Iniciou o Seminário Maior em Fortaleza, no famoso Seminário da
Prainha, onde fez o curso de Filosofia e iniciou o curso de Teologia. Almeida apresentava
uma personalidade forte, e realizou duas ações não aceitas pelos padres Lazaristas, que
3
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
dirigiam o Seminário – um sermão sobre a caridade e uma conferência sobre o Marxismo, o
Bispo de Sobral, Dom Tupinambá da Frota, enviou-os a Roma, para serem analisados pela
Congregação da Fé –, ele então foi transferido para a PUC (Pontifícia Universidade Católica),
em São Paulo. Retorna a sua terra natal e ordena-se sacerdote em 17 de dezembro de 1955,
sendo Dom José Tupinambá da Frota o bispo que dirigiu a solenidade. Mas Almeida afirma
categoricamente: “Não sei mesmo como surgiu minha vocação para o Sacerdócio. Nunca fui
coroinha, como vi acontecer com os vocacionados”. 5
FIGURA 2. Capa do livreto de comemoração aos 50 anos de vida sacerdotal do padre Almeida. (Acervo pessoal
da autora)
No decorrer de sua trajetória, inúmeras foram as contribuições. No Ceará foi professor
de Português, Francês e Grego no Seminário de Sobral, de 1956 a 1958, fundou a livraria
SPES e foi um dos fundadores da Rádio Educadora do Nordeste, fazendo campanha em toda a
Diocese.
Foi assistente eclesiástico da JECF (Juventude Estudantil Católica Feminina),
capelão do Abrigo Sagrado Coração de Jesus e dava assistência ao povo pobre do bairro
Pedrinhas. Em 1959 mudou-me para Parnaíba (PI), a convite do Bispo Dom Felipe Condurú
5
No dia 17 de dezembro de 2005 foi realizada uma missa em louvor aos 50 anos de vida sacerdotal do padre
Almeida. Nessa ocasião ele escreveu um livreto narrando a sua história de vida. Ver ALMEIDA, 2005, p. 17-18.
4
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
Pacheco, onde foi professor no Instituto São Luiz e no Colégio Nossa Senhora das Graças,
ensinando Português, Francês e Filosofia da Educação. Fundou na cidade a livraria Esperança
e o jornal “Animemoto”, um neologismo, que significaria abalo da alma. Juntamente com
alguns jovens criou a JIP (Juventude Independente de Parnaíba). 6
Em 16 de abril de 1961 veio para Sergipe, atuando na Diocese de Estância, que
acabara de receber seu primeiro Bispo, Dom José Bezerra Coutinho. Ainda em 1961 foi
secretário do Bispado e professor. Em 1962 tornou-se diretor da Escola Técnica de Comércio,
e também capelão do Colégio das Freiras e do bairro Santa Cruz.7 Em 1963 o dono da Fábrica
Santa Cruz fecha temporariamente as portas da Igreja onde o padre Almeida era o capelão,
pois em seus sermões manifestava seu apoio ao operariado, que sofria com as explorações dos
patrões.8 Em pleno regime militar dedicou-se a formar e conscientizar a juventude e organizar
os trabalhadores rurais da região para a criação dos sindicatos e da cooperativa. Por causa dos
seus discursos, Pe. Almeida foi convocado várias vezes a depor, mas não chegou a ser preso.9
No dia 19 de dezembro de 1968, juntamente com lideranças rurais da região, fundou a
COOPAME (Cooperativa Agrícola Mista de Estância Ltda.), que atuava em Estância,
Arapiraca, Boquim, Belém, Fortaleza e São Paulo, e em treze municípios, nos quais foram
criados doze Colônias Agrícolas: em Arauá (Sucupira e Limoeiro), em Umbaúba
(Guararema), em Indiaroba (Sergipe e Retiro), em Estância (Estancinha, Rio Fundo, EntreRios e Vertente), em Itaporanga (Sapé e Tijupeba) e em Cristinápolis (Cristinápolis). Além da
assistência especial que dava aos povoados Taboca e Miguel dos Anjos (Boquim), Alto do
Cheiro e Vivaldo (Riachão do Dantas), Imbé, Matinha e Palmeirinha (Umbaúba), Pimenteira,
Progresso (Arauá), Abóboras (Salgado). Almeida em união com um grupo de jovens fundou a
URJE (União Redentora da Juventude Estanciana), e o Jornal O Sim Sim. Nessa mesma
época introduziu na cidade de Lagarto a URJIL (União Renovadora da Juventude Lagartense)
e em Simão Dias fundou a AJIS (Associação da Juventude Idealista). Também na década de
60, criou o IDE (Instituto Diocesano da Estância) com o Colégio Diocesano e núcleos desse
Colégio nas cidades de Arauá, Pedrinhas, Umbaúba e Cristinápolis. Nas eleições de 15 de
novembro de 1966 foi eleito 1º Suplente de Deputado Federal pelo MDB. 10
6
Cf. ALMEIDA, 2005, p. 18.
Cf. Idem, p. 19.
8
Cf. FIGUEIREDO, [19--], p. 12.
9
Depoimento do padre Joaquim Antunes de Almeida, em 03/02/2010.
10
Cf. ALMEIDA, 2005, p. 19-20.
7
5
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
Em Riachão do Dantas dirigiu o Ginásio Francisco Dantas. Em Tobias Barreto foi
coordenador e um dos professores do curso técnico de Comércio no Colégio Monsenhor
Basilíscio Raposo. Na ilha de São Pedro, em Porto da Folha, participou da luta dos índios
Xokó, pela recuperação de suas terras. Em Pacatuba lutou junto aos posseiros de Santana dos
Frades pela conservação de suas posses. Restaurou e dirigiu os hospitais de Boquim e Tobias
Barreto.11
Em 1983 assume a paróquia de Lagarto. Quando juntamente com a equipe paroquial
resolvem fazer o novenário da Padroeira baseado no documento de Puebla. A partir de 31 de
maio de 1984 assume a recém-criada Paróquia de Santa Luzia do Treze12, com sede no
povoado Colônia Agrícola do Treze, localizado no município de lagarto/SE. Ao lado do povo
construiu as igrejas das comunidades Forges, Mangabeira, Luiz Freire, Nova Descoberta, Pau
Grande, Piçarreira, Estancinha, Açu, Rio das Vacas e Quirino. É edificado também o Centro
de Formação, Pesquisa e Produção Joaquim Antunes de Almeida, conhecimento
popularmente como Casa do Emanuel. Incentivou no desenvolvimento da COOPERTREZE
(Cooperativa Mista dos Agricultores do Treze Ltda). Participou da manifestação para a vinda
de um Posto da Policia Militar para a comunidade, este recebeu o nome de CPMI 1ª CIA do
7º BPM Sub-destacamento Policial Militar do Povoado Colônia Treze “Posto Comunitário Pe.
Almeida”. Esteve sempre apoiando a CERCOS (Cooperativa de Eletrificação e
Desenvolvimento Rural Centro Sul de Sergipe Ltda.), sediada na Colônia Treze.13 Lutou pela
reforma dos Clube de Mães, e deu seu apoio ao movimento feminino para a fundação da feiralivre na Colônia Treze.14
Em 1999 o padre Almeida é processado pelo juiz José Pereira Neto, que se sente
ofendido pelo fato do padre ter lançado manifestos criticando o poder judiciário de Lagarto.
Um dos manifestos foi em entrevista ao jornal CINFORM, em que houve referência ao juiz,
em virtude de um abaixo-assinado com assinaturas fraudadas promovido pelo Poder Público
Municipal de Lagarto. Neste documento o grupo político Saramandaia – com a prefeitura em
suas mãos – objetivava tomar a administração da CERCOS, tornando-a um instrumento
político. Baseado no abaixo-assinado a decisão do juiz é favorável para a prefeitura. Pe.
Almeida afirma que se tratava de “um documento com assinaturas de pessoas analfabetas, de
11
Cf. ALMEIDA, 2005, p. 20.
Onde permaneceu residindo mesmo quando deixou de ser o pároco da comunidade.
13
Cf. ALMEIDA, 2005, p. 20-21.
14
Discurso proferido por Edvanio de Jesus Nascimento em ocasião da Missa de Sétimo Dia do Pe. Almeida,
realizada em 22/08/2010.
12
6
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
pessoas que não são sócios, assinaturas falsificadas”. Sendo assim, a comunidade da Colônia
Treze revolta-se. E o padre lança uma manifestação, escreve e divulga entre amigos, um
artigo intitulado “O mal cheiro do fórum de Lagarto”, tudo o que o sacerdote queria com esse
ato era provocar uma ação da justiça, mas o juiz sentiu-se ofendido com as críticas e entrou
então com um processo contra o padre.15
Em discurso ao povo, Pe. Almeida alegou:
(...) eu acho que esse processo agora foi muito interessante em vários sentidos,
(...) provoca uma reação na comunidade, faz a comunidade refletir. (...) É uma
medida exemplar para que pelo menos aqui na Colônia Treze (...) sinta que há
uma vigilância sobre a aplicação dos recursos públicos, vigilância sobre o
exercício da justiça e o ato de criar a cidadania.16
E a população não assistiu o desenrolar do processo de braços cruzados, foi
mobilizado protesto em favor do padre, onde houve faixas, multidão em frente ao fórum e
passeata pelas principais avenidas de Lagarto. Reuniram-se a comunidade do Povoado
Colônia Treze, religiosos de Estância, Tobias Barreto, vieram representantes do MST
(Movimento dos Trabalhadores sem Terra) e da Colônia Sucupira.17
FIGURA 3. Passeata em protesto pelas ruas de Lagarto. (imagem retirada do DVD Ato público em
Solidariedade a Pe. Almeida: Passeata nas Principais Avenidas de Lagarto. Lagarto/SE,1999.)
15
Cf. Ato público em Solidariedade a Pe. Almeida: Passeata nas Principais Avenidas de Lagarto.
Lagarto/SE,1999. DVD.
16
Cf. Idem.
17
Cf. Idem.
7
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
Em 2000 candidatou-se a Prefeito pela cidade de Lagarto, sendo o terceiro colocado.
A vitória ficou com Jerônimo de Oliveira Reis, pertencente ao grupo Saramandaia, e em
segundo lugar fica José Raimundo Ribeiro, do grupo Bole-Bole.18 Em 2002 lançou
candidatura a Deputado Estadual, pelo PT, obtendo 5.639 votos.19 Essas eleições
demonstraram que a população lagartense não escapou do bipartidarismo, e não consegue se
desvincular da idolatria pelos grupos Bole-Bole ou Saramandaia. Independente de quem seja
o político que os represente, o importante para esse povo movido por paixões herdadas da
família a qual pertence, é não trair o grupo. Sobre essa política, o historiador Claudefranklim
Monteiro alega:
O que se pode dizer de algo que se originou de uma novela brasileira de
televisão (Saramandaia , rede Globo, 1976 – Dias Gomes, Walter Avancini,
Roberto Talma e Gonzaga Blota)? Que respeitabilidade e base ideológica se
podem identificar em algo que é motivado única e exclusivamente pela
paixão?20
Durante as campanhas Almeida pediu afastamento da Paróquia de Santa Luzia do
Treze, onde foi pároco por dezesseis anos. Em 12 de outubro de 2004 inaugurou a Biblioteca
Comunitária do Centro de Formação, Pesquisa e Produção Joaquim Antunes de Almeida.
Logo após o término da última campanha política foi atingido por um Acidente Vascular
Cerebral, aos poucos se recuperou, perdendo apenas parte dos movimentos do braço e perna
esquerdos. A Almeida foram atribuídos quatro títulos de cidadania: Cidadão Umbaubense, em
1991, Lagartense, em 1995, Sergipano, em 1996 e Estanciano, em 2002.21
No dia 1º de agosto de 2010, Pe. Almeida acompanhado por sua dama de companhia,
Josefa Do Carmo de Jesus (popular Carminha), vai visitar sua terra natal, a cidade de Sobral
(CE). Aproximadamente as 22:00h do dia 15 de agosto, o sacerdote – que a tempos lutava
para melhorar seu quadro de saúde – apresenta-se mais debilitado, é levado ao hospital, e as
4:00h do dia 16 de agosto vem a falecer de infarto súbito.22 Foi enterrado em Sobral, mas a
comunidade da Colônia Treze fez uma missa de corpo presente, onde ele foi homenageado
18
Cf. Site oficial do Tribunal Superior Eleitoral: eleições 2000. Disponível
http://www.tse.jus.br/internet/eleicoes/2000/result_zona_blank.htm > acesso em 14, jul, 2010.
19
Cf. Site oficial do Tribunal Superior Eleitoral: eleições 2002. Disponível
http://www.tse.jus.br/internet/eleicoes/2002/result_blank.htm > acesso em 15, jul, 2010.
20
Cf. SANTOS, 2008, p.14.
21
Cf. ALMEIDA, 2005, p. 21.
22
Depoimento de Jucilene Franco Alves, sobrinha de Josefa Do Carmo de Jesus, 24/08/2010.
em
<
em
<
8
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
com uma música sobre sua vida. Música essa que havia sido criada em 2005, em
comemoração aos seus 50 anos de vida sacerdotal, e que diante de sua morte sofreu alguns
acréscimos. São trechos da composição:
(...)
É exemplo de vida de quem não descansa
Como o Emanuel diz sempre a verdade
Vive por justiça, segurança e saúde
Sempre voltado pra comunidade.
(...)
Com a sua vida escreve sua história
Tendo como lema a cooperação,
Justiça, trabalho e fraternidade
Igualdade e verdade e também união.
(...)23
Em seus momentos finais de vida, sua última frase foi “Que permaneça firme tudo o
que foi construído e não seja abalado!”24
3. Jornal “O Sim Sim”
O jornal O Sim Sim foi criado para motivar a juventude. Esse nome se deu em alusão
as palavras bíblicas “Seja o vosso falar: Sim, sim; Não, não” (Mateus 5:37). Que significa que
uma pessoa não pode ter duas palavras, deve ser sempre decidido.25 O jornal O Sim Sim é
embutido da defesa de uma causa social, assim como “todo jornal se mostra orientado por
finalidades políticas e polêmicas, didáticas e de caráter apologético, o que o torna, signo
transparente do mundo em diversos momentos históricos.”26 Com o slogan “Tudo pelo
Progresso Material e Intelectual da Estância – O Sim Sim: Pequeno no Tamanho, Grande na
Missão”, o jornal foi fundado em 08 de julho de 1962, tendo o intuito de propagar ideias do
campo religioso (o catolicismo), e extremamente crítico procura agir em prol da
conscientização de seus leitores sobre assuntos referentes ao social, a economia e a política,
em âmbitos local, nacional e internacional. Noticiava também sobre eventos religiosos,
curiosidades, culinária, esporte, mensagens e datas comemorativas. Suas edições continham
entre quatro e oito páginas, sendo geralmente composto por seis páginas. Um fato bastante
salutar nesse jornal é não aceitar fazer propagandas publicitárias, sendo sustentado somente
pelas assinaturas. Era dirigido pelo padre Joaquim Antunes de Almeida e pelos jovens da
23
Composição de Eliene Pereira Rosa, Terezinha da Costa, Rita Lisboa da Costa, e Josefa Do Carmo de Jesus.
Depoimento da professora Eliene Pereira Rosa, em 18/08/2010.
25
Depoimento do padre Joaquim Antunes de Almeida, em 03/02/2010.
26
Cf. SOUZA, 2003, p. 50.
24
9
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
URJE. Sua circulação ocorria de forma esporádica, podendo ser duas vezes ao mês, uma vez
ou a cada dois meses. O jornal foi publicado em 74 edições e circulou até setembro de 1967.
Deixando de existir por dificuldades financeiras.27 A história do O Sim Sim é similar a de
outros jornais de pequeno porte, como pode ser analisado nas palavras de Sodré:
A liberdade de imprensa, na sociedade capitalista, é condicionada pelo capital,
depende do vulto dos recursos de que a empresa dispõe, do grau de sua
dependência em relação às agencias de publicidade.(...) as correntes de opinião
divergentes das forças dominantes tiveram a capacidade reduzida apenas a
possibilidade de manter semanários, - jornal diário já colocado fora de seu
alcance.28
A equipe de redação aceitava colaboração de qualquer pessoa, desde que estivesse
dentro da linha que o jornal escolheu seguir. Sendo assim eram publicados artigos de pessoas
diversificadas: estudantes, sacerdotes, professores, operários, entre outros.
FIGURAS 4 e 5. Jornal O Sim Sim, edições nº 33 e 67.
Em um dos artigos de apresentação do jornal, o jovem José Fernando de Oliveira dizia
que padre Almeida e Dom Coutinho os estimulou “a ter uma atuação cristã e transformadora
27
28
Depoimento do padre Joaquim Antunes de Almeida, em 03/02/2010.
Cf. SODRÉ, 1977, p. 469.
10
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
no meio” social, fala que o jornal buscava proporcionar uma “mentalidade nova” ao povo
estanciano. E “independentemente de qualquer fator político-partidário” o jornal falaria a
verdade.29
Em coluna intitulada “Política e Políticos”, João Freire Amado afirma:
Nós da URJE (União Redentora da Juventude Estanciana), por esse jornal,
faremos o que estiver ao nosso alcance para sempre alertar o povo,
especialmente os humildes, porque esses, encerrados em seu trabalho, não
vêem os enganos das falaciosas promessas. Tudo faremos para também mudar
a mentalidade dos nossos políticos (...). Lutaremos! Lutaremos, porque nossa
missão é essa: esclarecer o povo, para que êle escolha o mais conscientemente
possível aqueles que realmente podem fazer alguma coisa por nossa terra, por
nosso Estado, pelo nosso país, pela humanidade.30
O jornal procurava aliar a fé católica com as ideias sociais, sendo assim, alguns padres
tiveram artigos publicados, como o Pe. Silveira e o Pe. Almeida. A guisa de exemplo, no
artigo “Realidade Brasileira”, o padre Silveira alegou que o povo deveria se tornar brasileiro
mais brasileiro “pela fé no Cristo e na sua Igreja, pela justiça social, pela honestidade, pela
caridade não filantrópica, mas esclarecida e autentica.31
O senhor Epifânio Dória, diretor do IHGSE (Instituto Histórico e Geográfico de
Sergipe), envia uma carta ao diretor do jornal, o padre Almeida, solicitando-lhe todas as
edições, pois segundo ele os editoriais “não desmentem a realidade do que se” passava
naquele “grave momento da vida do Brasil”.32
Jovens estudantes também tinham a oportunidade de expressar suas opiniões nas
folhas do O Sim Sim. Assim, Denise Costa, escreveu um artigo abrangendo os principais
problemas econômico-sociais do país.
A grande necessidade da hora presente é a do pão para saciar a fome, fome de
paz, de equilíbrio, fome de gêneros alimentícios e de educação. (...) A
deficiência da produção agrícola, a inflação a carestia, o predomínio
econômico, os preconceitos sociais, as ideologias políticas, são os fatores
responsáveis, que penetram nas mentes e deixam os seus frutos: o
desassossego, a ansiedade, a angústia.33
29
Cf. O Sim Sim, 08 jul. 1962, p. 1.
Cf. Idem, p. 6.
31
Cf. O Sim Sim, abr. 1963, p. 3.
32
Cf. Idem, p. 1 e 3.
33
Cf. O Sim Sim, mai.1963, p. 3.
30
11
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
A professora Marly Augusta Morais afirmou que este jornal fazia “parte de um
movimento renovador, liderado por uma juventude progressista e bem formada”.34
As páginas do O Sim Sim era lugar também para homenagens. Este é o caso, por
exemplo, do artigo “Davi Contra Golias: Padre Almeida enfrenta os grandes”, onde Carlos
Tadeu ressaltou que nada intimidava o padre. Ele “é forte e corajoso, disciplinado e resoluto,
inteligente e audaz. A Estância precisa dele tanto como carecemos de um governo mais forte e
capaz em Brasília”.35
Em um momento de tremenda euforia ideológica, com disputas entre comunistas,
capitalistas, nacionalistas e socialistas, João Amado traçou o lado negativo de se instaurar um
regime comunista no país, falando que as roupas e comida oferecidas em igualdade para
todos, era uma espécie de “ração a animais”, nesse regime “o homem passa a não ter direito a
liberdade de falar”, e “passa a ser uma bêsta do Estado”.36
Em março de 1964, o padre Silveira fala sobre a situação do país, a má administração
do governo João Goulart.
Suas estruturas sentem o abalo da tempestade. (...) Não sabemos para onde
vamos, o nosso País parece um sol sem rota (...). A inflação continua
galopante, salário mínimo não resolve nada (...). é greve, é comício, é
desordem. (...) Não são homens políticos autênticos (...) pensam no bôlso e em
si mesmos (...). Acorda Brasil. Não permaneças deitado em berço esplendido.
Acorda para luta, reivindica os teus direitos, te liberta, enquanto há tempo.37
Ao assumir a presidência do Brasil o marechal Castello Branco discursa seu anseio de
ser leal a Constituição brasileira, ser um governo voltado ao progresso, lutar pela
independência do país da política econômica internacional. Afirma ter havido uma Revolução
em nome da democracia e da liberdade, uma revolução apoiada pelo povo, instituições e
Forças Armadas. Promete desenvolver a economia, a política, a educação e estabelecer uma
política social em benefício do trabalhador. Devido a essa retórica de Castello o O Sim Sim
sob o título “Um Homem e Uma Esperança: discurso de posse do presidente Castello
34
Cf. O Sim Sim, dez. 1963, p. 3.
Cf. O Sim Sim, fev.1964, p. 1.
36
Cf. O Sim Sim, dez.1963, p. 2.
37
Cf. O Sim Sim, mar. 1964, p. 3.
35
12
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
Branco”, transcreve na integra o discurso do novo presidente e deposita suas esperanças de
mudanças positivas com esse novo governo.38
Em artigo intitulado “Algo Parecido Com Revolução”, foi expressa a vontade de
mudanças positivas que solucionassem os problemas do Brasil.
Que esta revolução não fique apenas num movimento, que derrubou um
governo desgovernado e depois fez um expurgo nos altos postos do governo e
da administração pública. Que ela não sirva para garantir ou perpetuar
privilégios insustentáveis, injustiças insuportáveis e clamorosos abusos do
poder e da liberdade.39
O jovem Carlos Tadeu ressaltou: “é preciso que a imprensa colabore com o governo,
aplaudindo o que faz bem, e criticando o que faz mal ao povo”.40
O Pe. Silveira encontra na posse do presidente Humberto de Alencar Castello Branco,
a oportunidade da tão almejada liberdade.
De repente, um grito de esperança e liberdade: A Revolução de 31 de março.
Toma as rédeas do país o Marechal Castello Branco (...). Começa a Operação
limpeza. Guerra aos comunistas e simpatizantes, guerra aos corruptos junto às
Administrações Públicas (...).41
E prossegue falando sobre a revolução que alcança a cidade de Estância.
Quando menos se espera uma bomba: dois pais de família e um jovem são
injustamente denunciados e, depois detidos na Prefeitura Municipal,
denunciados como comunistas. E mais, o que é gravíssimo (...), incluindo
como comunista um sacerdote da Igreja.42
Mediante tais acontecimentos Pe. Silveira que até então era completamente contra o
comunismo e a favor da “Revolução Democrática”, deixa de escrever artigos glorificando a
revolução, e passa a omitir sua opinião a respeito da situação política brasileira.
Com as medidas arbitrárias dos militares, o jornal – que havia recebido a “Revolução”
de braços abertos – passa a demonstrar insatisfação com o novo regime, sendo a partir de
38
Cf.. O Sim Sim, abr. 1964, p. 3.
Cf. O Sim Sim, abr.1964, p. 5.
40
Cf. Idem, p. 2.
41
Cf. O Sim Sim, mai. 1964, p. 3.
42
Cf. Idem, p. 3.
39
13
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
então caracterizado como “uma política antagônica e forte que apregoa uma face e mostra
outra”, fornecendo “fecundas aulas de vil mentira e falsidade” e todos sendo “convidados a
abafar a voz, por vândalos e brutais militares”.43
O jovem Ailton Duran, ex-integrante da URJE, viajou para São Paulo e lá foi
perseguido por militares, resolveu escrever um poema: “Um Tu Minúsculo”, e este desabafo
foi transcrito nas páginas do jornal.
Tú roubaste minha liberdade!
E me escravizaste com tua maldade,
Mas... tú não conseguiste com todo teu poder
comprar minha dignidade!
Tú inventaste e tramaste contra inocentes,
Mas, um dia... tua alma ainda sente!
Tú enganaste a justiça dos homens sem nenhum receio.
Pensas tú, que para enganar a Justiça de Deus
encontrarás meio?
- Não creio!44
Sobre a política econômica de Castello Branco o jovem João Batista menciona o seu
descontentamento com a ação do governo que aumentou o salário dos civis e militares da
União em 25%, enquanto que os operários lutavam por um aumento no salário mínimo para
arcar com as necessidades básicas, e o governo simplesmente não se pronunciava a esse
respeito. Quando resolvesse dar o reajuste solicitado já não serviria para o custo de vida, pois
este já estaria mais elevado.45
Se aproximando das eleições, o assunto mais discutido na redação do O Sim Sim era a
forma como o povo votava, querendo eles que o povo aprendesse a votar no melhor
candidato, no mais capacitado e com melhores propostas. Queriam que a população não
vendesse mais seus votos, se tornassem eleitores conscientes. No artigo “Dever de Votar”, é
dito que “já devia ter acabado o tempo de se conseguir votos por intermédio de ingressos de
‘show’, de se iludir o eleitorado, de se eleger alguém por conta mais de dinheiro do que de
méritos pessoais”.46
Nas eleições municipais em Estância vence o candidato apoiado pela equipe do O Sim
Sim, Raimundo Silveira Souza, do MDB (Movimento Democrático Brasileiro). A satisfação
43
Cf. O Sim Sim, jul/ago.1966, p. 1 e 3.
Cf. Idem, p. 4.
45
Cf. O Sim Sim, dez.1966, p. 4.
46
Cf. O Sim Sim, set.1966, p. 4.
44
14
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
pode ser sentida quando afirmam que “as eleições serviram para mostrar os primeiros brotos
de uma floração nova”.47
O O Sim Sim conseguiu circular durante certo tempo, sem intervenção militar por que
não tinha muito recurso financeiro, era pequeno e local. Segundo Sodré, “O jornal é menos
livre quanto maior como empresa”.48
4. Palavras do Padre Almeida
A linguagem representa um dos aspectos mais importantes da vida social. Nas folhas
do O Sim Sim o padre Almeida esboçou suas percepções acerca da conjuntura em que o país
se encontrava. E nos dizeres de Foucault o discurso “é o que deve ser desvendado como
forma de se chegar as práticas sociais”.49
Na primeira edição de 1964 o padre Almeida elencou os objetivos do jornal:
Lutar pela politização e conscientização do pôvo. Lutar pelas reformas de
estrutura, e para que elas se processem num clima bem cristão, e tragam uma
superação progressiva dos males sociais. Lutar pela educação de base, pelas
escolas radiofônicas, pelo sindicalismo rural e pela educação de grupo ou de
comunidade, para que nossa arcaica e humilhante estrutura agrária seja
superada, (...). Lutar por que os operários sejam tratados com respeito e
dignidade (...). Lutar por que aqui se façam mais respeitados os três poderes: o
legislativo, o executivo e o judiciário. (...) Lutar pela elevação cultural,
espiritual e moral da sociedade (...)50
Em outro artigo o padre afirmou desejar a paz e a prudência, porém, a paz não deveria
ser confundida com “a quietude dos cemitérios”, e a prudência também não poderia ser
confundida com “a covardia, o calculismo, o apego ao comodismo ou o medo do risco”.51
Diante das primeiras ações dos militares em território estânciano, mostrou-se
favorável ao novo regime, no entanto, receoso que mesmo com as constantes deposições de
políticos esquerdistas tudo continuasse igual, só mudassem os nomes, mas as personalidades
fossem idênticas as dos administradores públicos anteriores.
47
Cf. O Sim Sim, jan/fev/mar.1966, p. 6.
Cf. SODRÉ, 1977, p. 515.
49
Cf. FOUCAULT, 1987, p. 159.
50
Cf. O Sim Sim, jan. 1964, p. 1.
51
Cf. Idem, p. 5.
48
15
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
O exército veio a Estância e fez cassar o mandato do Prefeito Pascoal Nabuco,
um oportunista, que como Seixas Dória, pelo desejo de publicidade e ascensão
política, estava sendo ótimo instrumento dos comunistas. Nós porém
perguntamos agora: Que veio fazer essa revolução?Apenas depor os
esquerdista ou firmar o regime democrático?! Mas como se há de firmar o
regime depondo-se os subversivos de esquerda, pondo ou deixando em seu
lugar gente pior, menos capaz, sem personalidade e sem ideal, gente que se põe
subservientemente a serviço de senhores do poder econômico em prejuízo do
povo?! (...) nós queremos uma democracia, onde a lei esteja a serviço do povo
e seja cumprida a partir dos maiores. (...) Vamos, senhores da revolução,
consolidem a democracia, fazendo-a respeitada, para ser querida!52
Ao analisar o discurso de posse de Castello Branco, caracteriza-o como democrático,
pois “logo pelos seus primeiros atos criou em torno de si um clima de grande simpatia e
confiança. Seu discurso de posse foi claro, inteligente, incisivo e bem equilibrado”, dizendo
que “seria o presidente de todos os brasileiros, e não de uma facção”.53 Todavia, poucos
meses após esse ocorrido, Pe. Almeida vê seus companheiros de caminhada54 sendo
aprisionados pelo 28º BC e resolve lutar pela soltura deles, depois de algumas conversações,
escreveu alguns subsídios para a análise dos fatos e julgamentos de pessoas e grupos e os
envia ao Exército. A fim de contribuir para que a Revolução Democrática não fosse
“distorcida”, escreveu os seguintes subsídios: o perigo de sua distorção; processo de
radicalização; o golpe de 31 de março e o desenrolar dos acontecimentos; e um grande perigo
e uma advertência.55
Sobre o seu envolvimento em organizações sindicais, afirmou decididamente:
Dei, dou e darei sempre o mais irrestrito apoio a todo movimento
verdadeiramente promocional das classes mais humildes e desprotegidas,
especialmente a rural. E o faço como um imperativo de minha consciência e
uma exigência da missão, de que me investe.56
Mostrou-se um defensor ardente da justiça e da verdade, e mesmo que não o
seguissem, que o aconselhassem a desistir, ele não cessaria. Como pode ser observado nas
52
Cf. O Sim Sim, abril. 1964, p. 4.
Cf. Idem, p. 4.
54
Pedro Oliveira (presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Estância), José Leopoldo (operário) e o
jovem idealista Ailton Duran, também membro do sindicato.
55
Cf. O Sim Sim, jun/jul. 1964, p. 4 e 5.
56
Cf. Idem, p. 6.
53
16
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
palavras dele: “Nasci como todo homem, ser inteligente, com sêde de verdade”, e acrescenta
“mas como é duro caminhar assim, para a fonte, quase só!57
Decorridos alguns meses da implantação da nova ordem política, o Pe. Almeida,
embora fosse um homem otimista e quisesse ver mudanças significativas, passou a
desacreditar da boa intenção da “Revolução Democrática”, e encará-la como um golpe de
Estado.
Aí está o país, caminhando... para onde?! Não sabemos bem, nem podemos
acreditar nas palavras ou nas promessas dos que governam. (...) queremos
reformas de base, reformas nas estruturas. (...) Graças a Deus todo aquele
processo confuso, que estava levando a um caos, caos evitado pelo golpe
deferido a 31 de março contra a corrupção (já começo a duvidar se era mesmo
contra a corrupção, embora ainda acredite um pouco) do govêrno deixou algo
de bom; um povo despertado (...). A revolução não é o exército que está
fazendo. O exército presume estar fazendo revolução. Não tem, porém
competência para fazer autentica revolução no sentido sociológico. (...)
exército, quando não mantém a ordem estabelecida, dá golpe. (...) Os militares
não se formam pra mudar a ordem, transformando as estruturas, eles se
formam para manter a ordem. Brasil precisa de uma revolução. Diríamos
melhor: O Brasil precisa de líderes capazes, para dirigir ou conduzir sua
revolução. (...) Revolução autêntica se faz com idéias, e não com força.58
Explanou sua insatisfação com o poder militar “no meio de tudo, até onde não lhe
59
cabe”. Ao posicionar-se sobre o regime político vigente no país disse que “embora vivendo
um momento político, biforme, isto é, um corpo de democracia com uma cabeça de ditadura”,
persistia em preferir a democracia. O grupo que ascendeu com o golpe foi “composto de
poucos homens retos e muitos viciados e aproveitadores, não identificados com a massa”.
Prossegue destacando os erros e acertos efetuados pelos militares. Tendo estes acertado
quando destituem João Goulart do poder, “um presidente incompetente e sem escrúpulo”.
Erram quando investem em uma política de “enxurrada” de cassados, levando às vezes
“homens de grande valor e alta competência”. E possibilitando “as mais gritantes injustiças
em perseguições”.60
Em artigo intitulado “Claro e Escuro”, alegou que “a maior doença do país” no
momento de ditadura era a “dissociação govêrno-povo, governo de um lado e povo do outro”.
Ele denominou como claro a deposição de Jango, ocasionando o fim “da baderna
57
Cf. O Sim Sim, jun/jul.1964, p. 1.
Cf. O Sim Sim, set/out. 1964, p. 1 e 3.
59
Cf. O Sim Sim, jul. 1965, p. 6.
60
Cf. O Sim Sim, nov.1965, p. 1.
58
17
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
generalizada”, e no campo econômico Castello obteve crédito internacional, e “controlou um
pouco a inflação”. O lado escuro do poder nas mãos dos militares era a distância “entre o
govêrno e o povo”. 61
O padre Almeida defendia a “liberdade”, não podendo se encaixar nem na linha
comunista, nem na ditatorial capitalista que foi implantada no Brasil, pois nessas havia uma
forte obediência imposta à população pelas autoridades. Tudo o que o padre almejava era a
concretização das reformas de base e cidadãos conscientes e ativos. Como pode ser analisado
em suas palavras: “Assim como repelimos os abusos do poder na Rússia ou em qualquer
regime discricionário, os repelimos também, e com mais profundidade de sentimento, aqui em
nosso país”. Passados dois anos da implantação do golpe, a confiança que havia depositado
em Castello Branco “perde seu apoio e sua substância”. E acrescenta que “é mais
insustentável um regime de extrema-direita do que o oposto”, o de extrema esquerda.62
Diante da intensificação do autoritarismo militar era assim que o Pe. Almeida
descrevia a situação do Brasil: “Que espetáculo triste estamos presenciando no Brasil: o povo
marginalizado, a imprensa amordaçada, o Congresso subornado (...), a justiça desprezada, a
democracia definhando ou agonizando!” 63
No Artigo “Política Sórdida”, falava que nem todo político deveria ser assim
caracterizado, mas a grande maioria sim, e a política nacional andava bem sórdida. Ele
protestou “contra um governo, que” continuava “falando em democracia após as mais
absurdas e injustificáveis violências”.64
Sobre o AI-2 (Ato Institucional nº 2), que instituiu o bipartidarismo65 no Brasil,
Almeida afirmou que “MDB e ARENA não são partidos verdadeiros, mas componentes de
uma farsa criada pelo governo para mais facilmente conseguir seus intentos”, porém, desde o
início a ARENA estabeleceu-se como o partido apoiado pelo governo, sendo assim “votar no
MDB é ajudar a carregar e a levantar mais alto a bandeira do povo”.66
Mostrou
a
insatisfação quase generalizada com o regime instaurado em 1964, onde inclusive pessoas que
haviam ajudado a implantá-lo estavam decepcionadas.
61
Cf. O Sim Sim, jan.1966. p. 1.
Cf. O Sim Sim, abril.1966, p. 1 e 3.
63
Cf. O Sim Sim, mai.1966, p. 1 e 3.
64
Cf. O Sim Sim, set.1966, p. 1 e 3.
65
Com o bipartidarismo determinado pelo AI-2 foram permitidos somente a existência da ARENA (Aliança
Renovadora Nacional) e do MDB (Movimento Democrático Brasileiro).
66
Cf. O Sim Sim, out/nov.1966, p. 3.
62
18
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
(...) os considerados grandes líderes da Contra-Revolução de março de 64, tão
logo viram suas pretensões preteridas, foram se apartando do grupo de
‘mandatários’ do golpe ou forçaram seu ‘expurgo’. Dá uma grande fila de
grandes: Justino Alves Bastos, Carlos Lacerda, Amaury kruel, Mourão Filho,
Adhemar de Barros, e outros de menor destaque (...).67
Em uma nítida demonstração de coragem e ousadia escreveu um artigo em que dizia:
“aceito por isso o desagrado de quem quer que seja se isto é o preço de um serviço prestado
ao povo68. O importante para ele era viver conscientemente, pois “vale a pena morrer ou
sofrer agarrado à bandeira da própria consciência, mesmo que ninguém nos entenda e até
todos nos condenem”.69
5. Considerações Finais
Em 1962 por ver a sociedade vivenciar momentos de tensões e conflitos sociais, o Pe.
Almeida juntamente com outros idealistas da comunidade estanciana, decidem expor suas
ideias através da imprensa, objetivando defender uma posição em prol dos menos favorecidos.
O “O Sim Sim” foi um jornal criado para levar o conhecimento da realidade à população
local, conscientizando-os sobre os aspectos político-econômico-sociais ocorridos. Noticiando
fatos desde o âmbito municipal até o internacional. É importante salientar que esse jornal
também apresentava seu lado descontraído, com matérias sobre eventos religiosos,
curiosidades, culinária, esporte, mensagens e datas comemorativas. No entanto essa pesquisa
se atentou apenas a analisar os artigos ligados a situação político-econômico-social do
momento.
A circulação do “O Sim Sim”, de 1962 a 1967, sempre expondo os fatos reais,
criticando quando pertinente fosse, solicitando melhorias, foi possível por não haver durante
esse período uma política rigorosa e repressiva contra jornais de pequeno porte no interior
sergipano. Pois durante a ditadura militar O Sim Sim mostrou-se ousado, crítico, sem medo
de repressões e censuras, uma vez que era composto por uma equipe de redação formada por
jovens conscientes e idealistas. E o padre Almeida sendo o organizador e diretor do jornal,
tinha em quase todas as edições um espaço reservado na primeira página.
67
Cf. O Sim Sim, ago.1967, p. 1.
Cf. O Sim Sim, jun.1966, p. 1.
69
Cf. O Sim Sim, jul/ago.1966, p. 5.
68
19
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
A princípio o jornal O Sim Sim e o padre Almeida encontraram na “Revolução
Democrática” a solução para os problemas sociais da população carente, no entanto, mediante
as medidas arbitrárias dos novos donos do poder, percebeu-se o engano cometido e passou-se
a tecer severas críticas ao autoritarismo militar.
O padre Almeida não se encaixava na linha de pensamento dos comunistas, nem na
dos defensores da ditadura militar, pois em ambas as autoridades exigiam do povo uma forte
obediência e alienação. Ele almejava a concretização de reformas de base e cidadãos
conscientes e ativos, livres para batalharem pelos seus direitos.
No decorrer de toda a sua vida, Pe. Almeida lutou constantemente em benefício das
comunidades em que esteve inserido, na ânsia de alcançar seus objetivos enfrentava as
autoridades que preciso fosse, sendo por isso alvo de perseguições.
Espera-se ter atingido a pretensão dessa pesquisa, de analisar as críticas que o jornal O
Sim Sim fazia ao regime militar. Tendo como foco investigar sobre a trajetória do padre a
frente do jornal, voz incansável contra o autoritarismo.
REFERÊNCIAS
Jornal
Algo Parecido com Revolução. O Sim Sim, Estância, nº 37, p. 5, abr.1964.
ALMEIDA, Joaquim Antunes. Acertos, Desacertos e Concertos. O Sim Sim, Estância, nº 57,
p. 1, nov.1965
ALMEIDA, Joaquim Antunes. Agoniza a Democracia. O Sim Sim, Estância, nº 65, p. 1 e 3,
mai.1966.
ALMEIDA, Joaquim Antunes. A Outra Revolução. O Sim Sim, Estância, nº 73, p. 1,
ago.1967.
ALMEIDA, Joaquim Antunes. A Revolução Chega a Estância. O Sim Sim, Estância, nº 36, p.
4, abril. 1964.
ALMEIDA, Joaquim Antunes. Cedo a Palavra. O Sim Sim, Estância, nº 67, p. 1 e 3,
jul/ago.1966.
ALMEIDA, Joaquim Antunes. Claro e Escuro. O Sim Sim, Estância, nº 60, p. 1, jan.1966.
ALMEIDA, Joaquim Antunes. É a Vez do Povo. O Sim Sim, Estância, nº 69, p. 3,
out/nov.1966.
20
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
ALMEIDA, Joaquim Antunes. Luta e Discórdia Pela Paz e Concórdia. O Sim Sim, Estância,
nº 33, p. 5, jan. 1964.
ALMEIDA, Joaquim Antunes. Minhas Poucas Palavras. O Sim Sim, Estância, nº 67, p. 5,
jul/ago.1966.
ALMEIDA, Joaquim Antunes. MEB e Sindicalismo Rural. O Sim Sim, Estância, nº 40, p. 6,
jun/jul. 1964.
ALMEIDA, Joaquim Antunes. Nem Extrema-Esquerda Nem Extrema-Direita no Governo
Castello Branco. O Sim Sim, Estância, nº 40, p. 4 e 5, jun/jul. 1964.
ALMEIDA, Joaquim Antunes. Nossa Disposição. O Sim Sim, Estância, nº 33, p. 1, jan. 1964.
ALMEIDA, Joaquim Antunes. Política Sórdida. O Sim Sim, Estância, nº 68, p. 1 e 3,
set.1966.
ALMEIDA, Joaquim Antunes. O Meu Drama. O Sim Sim, Estância, nº 66, p. 1, jun.1966.
ALMEIDA, Joaquim Antunes. Reformas de Base. O Sim Sim, Estância, nº 43, p. 1 e 3,
set/out. 1964.
ALMEIDA, Joaquim Antunes. Revolução Sem Palavras. O Sim Sim, Estância, nº 64, p. 1 e 3,
abril.1966.
ALMEIDA, Joaquim Antunes. Uma Sugestão. O Sim Sim, Estância, nº 53, p. 6, jul. 1965.
ALMEIDA, Joaquim Antunes. Verdade Amiga. O Sim Sim, Estância, nº 40, p. 1,
jun/jul.1964.
AMADO, João Freire. Política e Políticos. O Sim Sim. Estância, nº 1, p. 6, 08 jul. 1962.
AMADO, João Freire. Política e Políticos. O Sim Sim, Estância, nº 32, p. 2, dez.1963.
BATISTA, João. Aumento Sem Validade. O Sim Sim, Estância, nº 70, p. 4, dez.1966.
COSTA, Denise. Necessidade da Hora Presente. O Sim Sim, Estância, nº 18, p. 3, mai.1963.
DURAN, Ailton. Um Tú Minúsculo. O Sim Sim, Estância, nº 67, p. 4, jul/ago.1966.
GUIMARÃES, José Lima. Dever de Votar. O Sim Sim, Estância, nº 68, p. 4, set.1966.
Eleições e Administração em Estância. O Sim Sim, Estância, nº 71, p. 6, jan/fev/mar.1966.
MORAIS, Marly Augusta. Palavras de Estímulos da Professora Marly Augusta Morais do
Estado da Guanabara. O Sim Sim, Estância, nº 32, p. 3, dez. 1963.
21
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
OLIVEIRA José Fernando de. E assim Caminhamos. O Sim Sim. Estância, nº 1, p. 2, 08 jul.
1962.
O “O Sim Sim” no Instituto Histórico. O Sim Sim, Estância, nº 17, p. 1 e 3, abr. 1963.
TADEU, Carlos. Davi Contra Golias: Padre Almeida enfrenta os grandes. O Sim Sim,
Estância, nº 34, p. 1, fev.1964.
TADEU, Carlos. Moralizar Para Construir. O Sim Sim, Estância, nº 37, p. 2, abr.1964.
SILVEIRA, Aureliano Diamantino. A Igreja de Cristo. O Sim Sim, Estância, nº 39, p. 3, mai.
1964.
SILVEIRA, Aureliano Diamantino. Acorda Brasil. O Sim Sim, Estância, nº 35, p. 3, mar.
1964.
SILVEIRA, Aureliano Diamantino. Realidade Brasileira. O Sim Sim. Estância, nº 16, p. 3,
abr. 1963.
Um Homem e Uma Esperança: Discurso de Posse do Presidente Castello Branco. O Sim Sim,
Estância, nº 36, p. 3, abr. 1964.
Depoimentos
ALMEIDA, Joaquim Antunes de. Militância Política Durante a Ditadura Militar. Lagarto:
03/02/2010.
ALVES, Jucilene Franco. Morte do Padre Almeida. Lagarto: 24/08/2010.
ROSA, Eliene Pereira. Morte do Padre Almeida. Lagarto: em 18/08/2010.
Discurso
NASCIMENTO, Edvanio de Jesus. Discurso Proferido em Ocasião da Missa de Sétimo
Dia do Pe. Almeida. Lagarto: 22/08/2010.
Outros
ALMEIDA, Joaquim Antunes de. Livreto de Comemoração aos 50 Anos de Vida
Sacerdotal do Padre Almeida. Lagarto, 2005.
Ato público em Solidariedade a Pe. Almeida: Passeata nas Principais Avenidas de Lagarto.
Lagarto/SE,1999. DVD.
Livros
CASTRO, Hebe. História Social. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo
(orgs.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de janeiro: Elsever,
1997.
22
História, imagem e narrativas
No 13, outubro/2011 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
FIGUEIREDO, Ariosvaldo. História Política de Sergipe: Vol.V, 1962/1975. Aracaju:
s/editora, [19--].
FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. Tradução: Laura Fraga de Almeida Sampaio.
2. Ed. São Paulo: Loyola, 1996.
LE GOFF, Jacques. A História Nova.In: LE GOFF, Jacques Et All. A História Nova. São
Paulo: Martins Fontes, 2001.
MARCONI, Paulo. A Censura Política na Imprensa Brasileira (1968 – 1978). São
Paulo:global,1980.
SANTOS, Claudefranklim Monteiro (org.). Uma Cidade Em Pé de Guerra: Saramandaia X
Bole-Bole. Aracaju: Gráfica J. Andrade, 2008.
SODRÉ, Nelson Verneck. História da Imprensa no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Edições do
Graal, 1977.
YARA, Maria Sun Khoury, et al. A Pesquisa em História. São Paulo: Ática, 1998.
Monografia
SOUZA, Marcos Santana de. Do Medo à Esperança: ditadura e propaganda política nos
jornais sergipanos (1964-1974). 2003.89f. Monografia de Conclusão de Curso. Universidade
Federal de Sergipe, São Cristovão, 2003.
Fontes Virtuais
Site oficial do Tribunal Superior Eleitoral: eleições 2000. Disponível em <
http://www.tse.jus.br/internet/eleicoes/2000/result_zona_blank.htm > acesso em 14, jul,
2010.
Site oficial do Tribunal Superior Eleitoral: eleições 2002. Disponível em
http://www.tse.jus.br/internet/eleicoes/2002/result_blank.htm > acesso em 15, jul, 2010.
<
23
Download

Militância política do padre Joaquim Antunes de Almeida na voz do