UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS VINÍCIUS MENDES DE OLIVEIRA LIMA BARRETO: O TRISTE FIM DO UFANISMO BRASILEIRO CACHOEIRA-BA 2012 VINÍCIUS MENDES DE OLIVIERA LIMA BARRETO: TRISTE FIM DO UFANISMO BRASILEIRO Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, para obtenção do título de mestre em Ciências Sociais. Orientador: Antonio Liberac Cardoso Simões Pires CACHOEIRA-BA 2012 OLIVEIRA, Vinícius Mendes de. Título: LIMA BARRETO: O TRISTE FIM DO UFANISMO BRASILEIRO. Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, para obtenção do título de mestre em Ciências Sociais. Aprovado em: 10 de dezembro de 2012 Banca Examinadora Professor Doutor Antonio Liberac Cardoso Simões Pires – UFRB (ORIENTADOR) Julgamento __________________________ Assinatura __________________________ Professora Doutora Rosy de Oliveira - UFRB Julgamento ___________________________ Assinatura ____________________________ Professora Doutora Maria Salete de Souza Neri - UFRB Julgamento ____________________________ Assinatura ____________________________ Professor Doutor Walter da Silva Fraga Filho –UFRB (SUPLENTE) Julgamento ____________________________ Assinatura ____________________________ DEDICATÓRIA Dedico este trabalho às três mulheres mais importantes da minha vida: minha mãe Ângela, minha querida esposa Ariane e a minha filha Ana Clara, que é a maior e melhor riqueza concedeu. que Deus me AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar, agradeço a Deus. Ele é a fonte de toda a sabedoria humana. A Ele rendo todo o meu louvor e gratidão. Agradeço à minha querida esposa que, desde o início e, sempre, foi a minha grande incentivadora, não me permitindo desistir. Amo você do fundo do meu coração. Agradeço aos professores do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRB que, de uma forma ou de outra, contribuíram para a minha formação intelectual. Agradeço também aos colegas de curso que tiveram também participação decisiva no processo de construção do conhecimento que resultou neste trabalho. Minha gratidão ao professor Marcelo Lacombe (in memorian) pela importante ajuda para a construção do conhecimento que levou à execução deste texto. Sem dúvida, muito de suas inteligentes ideias estão sub-repticiamente presentes nesta dissertação. Finalmente, quero agradecer, de forma especial e enfática, ao professor Antonio Liberac. Minha genuína gratidão por acreditar que a execução deste trabalho fosse possível mesmo em face de sérios desafios. A orientação do professor Liberac foi determinante para que esta dissertação fosse escrita e apresentada dentro das expectativas do programa. Reitero a minha genuína gratidão. RESUMO OLIVEIRA, Vinícius Mendes de. Lima Barreto: O Triste Fim do Ufanismo Brasileiro. 2012, 107 f. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Cachoeira, 2012. Este trabalho examina o quadro social e intelectual brasileiro que o texto literário de Barreto em Triste Fim de Policarpo Quaresma permite-nos enxergar. Dessa maneira, esta pesquisa classifica-se como uma análise sociológica da realidade brasileira, com foco especial sobre a intelectualidade que, na República Velha, participava ativamente do processo de interpretação do Brasil e que interagiu com a obra de Lima Barreto nesse processo. Toda essa análise foi mediada pelo livro Triste Fim de Policarpo Quaresma, de onde provieram todos os signos e códigos analisados nesta pesquisa sociológica. Palavras-chaves: Literatura. Sociologia. Nacionalismo ABSTRACT OLIVEIRA, Vinícius Mendes de. Lima Barreto: O Triste Fim do Ufanismo Brasileiro. 2012, 107 f. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Cachoeira, 2012. This paper examines the social and intellectual framework that the Brazilian literary text Barreto Sad End of Polycarp Quaresma allows us to see. Thus, this research classifies itself as a sociological analysis of the Brazilian reality, with special focus on the intelligentsia who, in the Old Republic, participated actively in the process of interpretation of Brazil and interacted with the work of Lima Barreto in this process. All this analysis was mediated by the book Sad End of Policarp Quaresma, whence came all the signs and codes analyzed in this sociological research. Keywords: Literature. Sociology. nationalism SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 2 LIMA BARRETO, RACISMO E TRISTE FIM 16 2.1 RESUMO BIOGRÁFICO 21 2.2 LIMA BARRETO E O PRECONCEITO RACIAL 26 2.3 PANORAMA AUTOBIOGRÁFICO EM TRISTE FIM 36 3 TRISTE FIM, ROMANTISMO E BOVARISMO 41 3.1 ROMANTISMO: UMA CONTEXTUALIZAÇÃO 44 3.2 O BOVARISMO 57 4 TRISTE FIM, TEXTO E CONTEXTO 59 4.1 A QUESTÃO CULTURAL 64 4.2 A QUESTÃO ECONÔMICA 73 4.3 A QUESTÃO POLÍTICA 79 5 CONCLUSÃO 88 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 93 ANEXOS 8 100 8 1 INTRODUÇÃO Este trabalho examina o quadro social e intelectual brasileiro que o texto literário de Barreto em Triste Fim de Policarpo Quaresma permite-nos enxergar. Dessa maneira, esta pesquisa classifica-se como uma análise sociológica da realidade brasileira, com foco especial sobre a intelectualidade que, na República Velha, participava ativamente do processo de interpretação do Brasil e que interagiu com a obra de Lima Barreto nesse processo. Toda essa análise foi mediada pelo livro Triste Fim de Policarpo Quaresma, de onde provieram todos os signos e códigos analisados nesta pesquisa sociológica. Nesse sentido, este trabalho pretendeu ir além da fruição estritamente estética do texto artístico de Lima Barreto. A pretensão, na verdade, foi enxergar a crítica social contida no bojo da obra, que sem dúvida, foi sua grande progenitora. Sem os motivos que levaram Barreto a criticar a sociedade brasileira de seu tempo, certamente não haveria Triste Fim. Embora o livro tenha seu lugar como obra literária de qualidade, a percepção de sua base crítica dá ao texto ainda mais valor, porque além de seu valor estético consolidado, o livro presta-se a uma função pragmática, conectando a literatura ao engajamento social e revelando a argúcia de Barreto em analisar a realidade nacional de sua época. A respeito do papel da ciência em se debruçar sobre a arte em busca de sua motivação, entremeadas em seus muitos códigos e linguagens, Bordieu comenta, justificando uma pesquisa como esta que empreendemos: 9 É por isso que a análise científica, quando é capaz de trazer à luz o que torna a obra de arte necessária, ou seja, a fórmula formadora, o princípio gerador, a razão de ser, fornece à experiência artística, e ao prazer que a acompanha, sua melhor justificação, seu mais rico alimento (BORDIEU, 1996, p. 15). Essa pesquisa, então, não se limitou ao texto literário, embora se saiba que os principais códigos provirão dele. O fato é que o texto literário foi olhado de forma desconfiada, por assim dizer. Seu caráter estilístico-artístico, embora considerado, não foi o objeto deste trabalho, tampouco este se deixará seduzir por esses encantos. Bourdieu diz a respeito de se analisar um texto literário para se achar algo além da forma e da estética: Procurar na lógica do campo literário ou do campo artístico, mundos paradoxais capazes de inspirar ou impor “interesse” mais desinteressados, o princípio da existência da obra de arte naquilo que ela tem de histórico, mas também de trans-histórico, é tratar essa obra como um signo intencional habitado e regulado por alguma outra coisa, da qual ela é também sintoma. É supor que aí se enuncie um impulso expressivo que a formalização imposta pela necessidade social do campo tende a tornar irreconhecível. A renúncia ao angelismo do interesse puro pela forma é o preço que é preciso pagar para compreender a lógica desses universos sociais que, através da alquimia social de suas leis históricas de funcionamento, chegam a extrair da defrontação muitas vezes implacável das paixões e dos interesses particulares a essência sublimada do universal; e oferecer uma visão mais verdadeira e, em definitivo, mais tranquilizadora, porque menos, sobrehumana, das conquistas mais altas da ação humana. (BORDIEU, 1996, p. 15-16). Naturalmente, o simbolismo que caracteriza o campo literário pode limitar, em princípio (se a sedução estética não for superada), a compreensão profunda dos temas sociais abordados no bojo da obra. É por isso que é preciso renunciar o angelismo, como diz Bourdieu, ir além do puramente estético, transpor a barreira imposta pela mera fruição artística e olhar, não nas entrelinhas, mas no que está escrito, através de uma hermenêutica lúcida, a motivação sociológica e filosófica 10 atinente ao texto literário. O próprio Lima Barreto entendia a literatura dessa maneira. Diz-nos Sevecenko: Sua concepção cruamente utilitária da arte o fazia concebê-la como uma força de libertação e de ligação entre os homens. Permitia-lhe escapar das injunções particulares e cotidianas para o próprio centro das decisões sobre o destino da humanidade. Ensejava a cada indivíduo isolado que se sentisse incorporado profundamente no seio da natureza e do universo. Por isso mesmo, ele chegava a supor a literatura como um complemento ou um sucedâneo da religião (SEVECENKO, 2003, p. 200). O próprio Barreto acrescenta: [...] o homem, por intermédio da Arte, não fica adstrito aos preceitos e preconceitos de seu tempo, de seu nascimento, de sua pátria, de sua raça; ele vai além disso, mais longe que pode, para alcançar a vida total do Universo e incorporar a sua vida na do Mundo (SEVECENKO, 2003, p. 200). Ele diz mais a respeito disso: [...] a importância da obra literária que se quer bela sem desprezar os atributos externos de perfeição de forma, de estilo, de correção gramatical, de ritmo vocabular, de jogo e equilíbrio das partes em vista de um fim, de obter unidade na variedade; uma tal importância, dizia eu, deve residir na exteriorização de uma certo e determinado pensamento de interesse humano, que fale do Infinito e do Mistério que nos cerca, e alude às questões de nossa conduta na vida (BARRETO, 1961, p. 56). Vê-se, portanto, a clara intenção do autor em produzir uma literatura engajada, em que os problemas sociais são abordados, analisados e, de alguma forma, propõem-se soluções. Dessa forma, o texto literário de um autor como Lima Barreto dá-nos hoje uma visão a mais a respeito da sociedade em que surgiu. Assim sua literatura é uma fonte de compreensão do Brasil, à luz da compreensão desse autor e tecida nos meandros de metáforas literárias. Corroborando a ideia de que Triste Fim é mais do que um texto meramente literário, Germano diz: Percebe-se no romance de Lima Barreto uma intenção de não fugir ao Brasil histórico, um propósito de satirizar o ethos brasileiro, adotando a forma romanesca. O Triste Fim...faria parte de um programa mais amplo de retratar criticamente o Brasil e seus costumes por meio de crônicas, sátiras, 11 romances e contos. Para o leitor, não há exatamente a fuga da realidade brasileira, mas um vínculo estreito com ela, ajudado pelo recurso aos fatos históricos e apoiados nos comentários quase etnográficos do narrador. O leitor deve estar apto a decodificar situações e episódios que o texto esconde sob as alegorias, metáforas, paródias. O trabalho resulta, de certa forma, numa leitura socioantropológica do Brasil e do povo brasileiro (GERMANO, 2000, p.28). Para uma análise da sociedade a partir de um texto literário como o de Lima Barreto, no entanto, é necessária, uma dupla exegese: uma para interpretar o texto e outra para reler a sociedade à luz dos códigos que o texto fornece. Além disso, o exegeta, por assim dizer, carece de atenção especial a fatores outros que interagem entre o autor literário, a sociedade e a obra. Essa interação, na verdade, permite ao exegeta social a ter uma visão da sociedade não como ela exatamente foi, mas a percepção social do autor, presente nos códigos do texto, o que, sem dúvida, agrega muito para a compreensão de uma determinada sociedade. Entretanto, não se pretende aqui o reducionismo inocente, que submete o texto artístico a uma funcionalidade prática unicamente, descartando-se a subjetividade artística do autor. Na verdade, o propósito deste estudo é observar como temáticas sociais interagiram com a capacidade literária de Lima Barreto dando corpo a um texto ricamente ornado do ponto de vista literário e sociológico. O resultado deste estudo, portanto, é uma imagem sociológica do Brasil, de acordo com a percepção de Lima Barreto em Triste Fim de Policarpo Quaresma.1 É na posição desse leitor “que deve estar apto a decodificar situações e episódios que o texto esconde sob as alegorias, metáforas, paródias” que a proposta desta dissertação se situa. Assim, pretende-se como resultado uma “leitura socioantropológica do Brasil e do povo brasileiro” (GERMANO, 2000). 1 Ver sobre a experiência humana enquanto conceito fundamental das análises em: THOMPSON, E.P. A miséria da teoria ou um planetário de erros. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 1981. 12 Uma interpretação como essa, no entanto, deve levar em consideração toda a subjetividade presente em um texto literário, a decodificação correta dos signos literários e a própria mediação subjetiva de que se propõe a investigar a realidade social de um povo. Isso não deixa de ser uma realidade no que diz respeito à natureza deste trabalho na medida em que seu objetivo é ter um vislumbre da sociedade brasileira (especialmente de sua intelectualidade) do início do XX. No entanto, adequadamente discernidas, as metáforas literárias podem fazer saltar importantes realidades de uma determinada sociedade, como aponta Germano (2000). Um importante desafio, quando se faz análise sociológica a partir de um texto literário como Triste Fim é o fato de que as realidades sociais presentes no texto estão mediadas pela biografia do autor e sua subjetiva interpretação do real.2 Ter um vislumbre da sociedade brasileira da primeira república à luz de um livro como Triste Fim de Policarpo Quaresma requer muita atenção e discernimento na análise do texto, porque Lima Barreto construiu sua obra tecendo nela elementos variados, sobretudo com forte dose autobiográfica, como mencionado acima. Por isso, ter, em mente, bem clara a temática que o autor propõe e a relação feita entre esta e os exemplos autobiográficos e históricos que compõem o texto é imprescindível para que se tenha algum êxito em tal empreitada. O desafio é discernir o propósito do autor em usar exemplos pessoais como também situações reais da sociedade de seu tempo em relação ao tema sobre o qual está discorrendo em sua ficção. Para o leitor atento de Lima Barreto, está bem 2 Ver sobre os métodos biográficos em: MORAIS. Marieta Ferreira de. Usos e Abusos da História Oral. E sobre o método indiciário ver: GINZBURG, Carlo Mitos. Emblemas. Sinais. Morfologia e História. São Paulo, Cia das Letras, 1999. 13 estabelecido que sua literatura não era meramente estética. Ele via na arte um meio de disseminação de ideias, quase como um doutrinamento. Nesse sentido, portanto, é preciso entender como os fatos reais a que ele alude interagem com sua temática, dando mais força à sua argumentação. Triste Fim é um tecido cujos fios são de natureza autobiográfica, histórica, sociológica, literária e ficcional. O produto dessa tessitura multifacetada releva uma imagem da realidade sociológica e intelectual do início do século XX no Brasil sob a perspectiva subjetiva de Lima Barreto. O livro é uma interpretação da realidade brasileira com foco na crítica a uma intelectualidade, que na visão do autor, estava cega por uma falsa representação do que seria o Brasil, especialmente no que dizia respeito aos aspectos culturais, econômicos e políticos. A propósito, esses três elementos compõem a espinha dorsal do livro e são elementos geradores de sub-temáticas que a eles se relacionam. O corpo da dissertação está dividido em três capítulos, que abordam especificamente aspectos que compõem os objetivos da pesquisa, isto é, analisar o tema da crise de identidade nacional brasileira através de Triste Fim de Policarpo Quaresma. No primeiro capítulo, é feita uma introdução biográfica geral do autor, enfatizando os aspectos biográficos e sociológicos que interagem com a sua obra. O objetivo é apresentar um resumo da vida do autor no sentido de se fazer perceber o diálogo constante de fatos e circunstâncias biográficas com o livro, mas, sobretudo, com a temática central de Triste Fim, a saber, a crise de identidade nacional brasileira, percebida por Lima Barreto. 14 O capítulo focaliza Lima Barreto em sua tentativa em pertencer ao grupo de intelectuais estabelecidos do Brasil de seu tempo e sua paradoxal e constante crítica ao establishment intelectual nacional. A teoria do campo em aplicação à literatura de Bordieu (devidamente mediada por Sérgio Miceli) como também os pressupostos teóricos de Norbert Elias sobre outsiders e estabelecidos basearam teoricamente essa seção do capítulo. No capítulo, recai especial ênfase no aspecto racial desenvolvido na obra de Lima Barreto a partir de referências extraídas de sua própria experiência, como uma das causas que compuseram a sua formação outsider. Nesse sentido, a participação de seu biógrafo oficial, Francisco de Assis Barbosa, foi muito importante, acrescentando fatos descritos de forma detalhada que elucidam aspectos da obra de Barreto que não seriam plenamente compreendidos sem essas referências. Recortes do livro cheio de referências autobiográficas de Lima Barreto– Recordações do Escrivão Isaías Caminha- também foram importantes nessa seção. A questão racial muito presente na obra de Barreto, inclusive em Triste Fim, além de ser produto de uma reflexão baseada em sua própria experiência de exclusão, nasce também de sua leitura arguta dos argumentos cientificizantes do evolucionismo social, que estavam na vanguarda do pensamento intelectual brasileiro do início do século XIX. Esse pensamento justificava-se no projeto de criar uma identidade nacional brasileira, especialmente no que diz respeito à raça. O artigo Loucura e Racismo em Lima Barreto de Marco Antonio Arantes contribui para se dar uma visão mais clara dos pressupostos racistas que compunham o ideário de intelectuais contra os quais Lima Barreto escrevia. 15 O capítulo ressalta também os aspectos autobiográficos de Triste Fim especialmente no que se refere à questão racial e à loucura familiar e pessoal de Lima Barreto. O capítulo, portanto, objetivou criar um pano de fundo biográfico para a crítica social e, sobretudo intelectual que Lima Barreto desenvolveu em Triste Fim. No segundo capítulo, a proposta é uma apresentação do contexto literário em que surge a obra crítica de Lima Barreto, especialmente focando o romantismo, que foi objeto de contundente crítica do autor em Triste Fim. O objetivo é contextualizar a sua crítica, de forma a fazer perceber sua relevância, mostrando que a caricatura Policarpo Quaresma provém do real e tem nos intelectuais românticos sua genuína origem. O terceiro capítulo tem como objetivo uma exegese do livro Triste Fim de Policarpo Quaresma, selecionando seções da obra que dialogam diretamente com a temática abordada na pesquisa. São analisados excertos do livro e aspectos contidos na obra que versam principalmente sobre a crítica ao nacionalismo brasileiro e as forças que interagem com este fenômeno, dando-lhe força ou fraqueza, de acordo com a visão de Barreto, presente no texto. O trabalho é finalizado com uma conclusão em que são mencionados de passagem os temas abordados ao longo de toda a dissertação à luz do fato de que Triste Fim é considerado o marco inaugural do chamado pré-modernismo no Brasil. 16 2 LIMA BARRETO, RACISMO E TRISTE FIM Afonso Hernriques de Lima Barreto foi o que podemos chamar de um escritor outsider. A história da literatura evidencia a sua inadaptação ao estabelecimento cultural de seu tempo, tendo sua obra recebido o reconhecimento devido apenas após sua morte. Sua biografia revela-o como marginalizado socialmente, alcoólatra e com casos de surtos psiquátricos. Todo esse dramático quadro, de alguma maneira, compõe sua literatura, dando ao escritor matéria-prima em seu ofício de narrar, descrever e, sobretudo, criticar a sociedade brasileira de seu tempo, através de sua obra ficcional, com foco especial na intelectualidade de seus dias. A trajetória conturbada da vida de Lima Barreto foi o fundamento sobre o qual sua personalidade artística emergiu. Toda a história de Barreto é marcada pela tentativa de se inserir no campo literário de seu tempo, cuja existência estava subordinada ao campo político, e a suas demandas e influências.3 Essas tentativas frustradas de Lima Barreto, pelo menos no que se refere ao fato de ser ele reconhecido como canônico em vida e recebido como membro da Academia Brasileira de Letras, em termos práticos, dependeu grandemente de que, segundo Miceli (2001), o incipiente campo intelectual brasileiro estava subordinado ao campo político de onde recebia incentivos, em termos de temas e estilo, e as devidas gratificações se as expectativas fossem alcançadas. 3 “Não havendo, na República Velha, posições intelectuais autônomas em relação ao poder político, o recrutamento, as trajetórias possíveis, os mecanismos de consagração, bem como as demais condições necessárias à produção intelectual sob suas diferentes modalidades, vão depender quase que por completo das instituições e dos grupos que exercem o trabalho de dominação. Em termos concretos, toda a vida intelectual era dominada pela grande imprensa, que consistia a principal instância de produção cultural da época e que fornecia a maior das gratificações e posições intelectuais” (MICELI 2001, p. 17). 17 Assim, pelo menos em parte, tem-se a explicação do motivo porque uma obra do nível da de Barreto não ter recebido em seu tempo a devida consideração e o devido reconhecimento. Naturalmente, essa situação como todas as características pessoais do autor e sociais da República Velha produziram em Barreto frustração e rancor, influenciando grandemente sua obra, tornando sua crítica ainda mais contundente. É possível inferir, por conseguinte, que a verve de sua obra, além de sua visão arguta da realidade brasileira, foi peremptoriamente o fato de ele ter sido vítima direta daquilo que criticava. Neste capítulo, a ênfase recai sobre as características biográficas de Lima Barreto, que fizeram dele um outsider e como essas características interagiram com sua obra, especialmente Triste Fim. A biografia de Lima Barreto, como também sua obra, evidencia a luta deste autor em se inserir no campo literário de seu tempo e as constantes negativas que a intelectualidade brasileira impunha a ele em sua tentativa de acesso. Há na biografia de Lima Barreto características pessoais e sociais, que obstaculizaram sua recepção nos meandros literários de seu tempo como um estabelecido. Não se deve atribuir isso apenas à critica que ele fez à sociedade, tampouco a questão racial, tomadas isoladamente, como motivo para tal exclusão. Machado de Assis4 compartilhava com Barreto dessas mesmas características, no entanto, não só 4 A propósito Lima Barreto manifestou grande aversão à obra de Machado de Assis, acusando-o de produzir uma literatura esteticista desvinculadas das demanda sociais da realidade brasileira. “Toda a divergência reside efetivamente numa questão de princípios, ou se quiserem, no ângulo como que ambos encaravam de modo tão diverso o fenômeno literário. Podia admirar Machado de Assis, não há como duvidar. Insurgia-se, porém, contra a sua omissão, através de uma atitude reticenciosa, de quem prefere deixar as coisas apenas subentendidas como que também escrevendo nas entrelinhas. Aí que é que se levanta o muro que separa os dois escritores” (BARBOSA, 2004, p. 260). 18 foi o fundador da Academia Brasileira de Letras como se tornou o decano da literatura brasileira ainda em vida.5 A formação outsider de Lima Barreto é uma composição de elementos associados, principalmente, às características pessoais do autor, em associação direta a uma série de circunstâncias sociais do país no período em que sua obra surgiu, que lhe impuseram o peso da exclusão intelectual em seus dias e a amargura de não conseguir transpor os preconceitos raciais e sociais que impunham a marginalização à raça negra como um todo. O testemunho autobiográfico presente em suas obras, por sua vez, revela a falta de domínio, por parte de Barreto, de certas habilidades relacionais que, quando bem usadas, potencializam a mobilidade social em sociedades de classes, marcadamente racistas, como era o caso do Brasil da República Velha.6 A acidez de sua crítica, despreocupada em adequar-se ao estilo vigente, colocou sua obra em rota de colisão ao establishment cultural de seu tempo. Era como se Barreto quisesse se inserir entre os estabelecidos, “furando” o campo violentamente, alcançando, assim, o espaço desejado. Barreto era um crítico social, mas acima de tudo, um crítico da intelectualidade, da qual, paradoxalmente, desejou participar.7 5 “Apesar de provirem de camadas semelhantes, Machado de Assis e Lima Barreto seguiram caminhos diferentes”. A façanha do primeiro – inscrever-se na elite de seu país, denunciando seus egoísmos, dissimulações e imposturas, combinando magistralmente um tom cortês e clássico com teor impiedoso de sua crítica sarcástica e mordaz – não foi o caminho de Lima Barreto, que sempre manteve uma atitude plebeia e pequeno-burguesa. Sua ambição não era pertencer à nata da sociedade, mas sim ao círculo dos autores formadores da opinião pública e do estilo literário. Entretanto essa dissociação se mostrou praticamente inviável, considerando-se a estreita interdependência entre as elites social e cultural (ZILLY, 2004, p. 49-50). 6 Ver CHALHOUB. Sidney. Trabalho, Lar e Botequim. O cotidiano dos trabalhadores no Rio de janeiro da Belle Époque, São Paulo, Brasiliense, 1984. 7 Comentando a respeito do outsider Mozart, Norbert Elias lança luz sobre algo que pode ser aplicado à condição de Lima Barreto, guardadas as devidas proporções, obviamente: “Pessoas com posição de outsiders em relação a certos grupos estabelecidos, mas que se sentem seus iguais ou superiores, por suas realizações pessoais ou mesmo por sua riqueza, às vezes reagem rancorosamente às humilhações a que são expostas; podem também estar plenamente conscientes dos defeitos do grupo estabelecido” (ELIAS, 1995, p. 39). 19 É importante observar que as tentativas frustradas de Lima Barreto de chegar à Academia representam, na prática, sua tentativa de ser reconhecido como um intelectual estabelecido e de como sua obra foi rejeitada pelo estabelecimento intelectual como uma espécie de vingança à sua crítica e uma punição a sua subversão temática e estilística. Tanto a candidatura quanto seu indeferimento rementem à posição ambígua do escritor com respeito ao establishment, ao qual ele pertencia estando ao mesmo tempo à margem. Apesar de lhe concederem uma certa projeção como jornalista e escritor, as instituições culturais o mantinham à distância, ao passo que ele, mesmo parodiando e ridicularizando-as, nunca deixou de esperar um reconhecimento oficial (Zilly, 2004, p.45-46). Essa postura de Lima Barreto coaduna-se com certa ingenuidade, em termos de relacionamentos humanos, que o autor demonstrou em algumas passagens de sua vida. Trata-se de um intelectual muito sincero e honesto, fiel às suas posições ideológicas. Acreditava que seria reconhecido por seu valor artístico e que a avaliação disso seria isenta de pressupostos pessoais ou idiossincrasias afetadas. Cria na impessoalidade técnica que promoveria sua obra a despeito de se alguém importante estivesse sendo afetado por ela. Zilly destaca a ingenuidade de Barreto da seguinte forma: Tomava os estatutos, os regulamentos e princípios de entidades culturais ao pé da letra, levando-os por vezes mais a sério que seus próprios membros. Combinando apesar das desilusões uma boa dose de otimismo com sua típica falta de cinismo, e talvez, uma certa ingenuidade , ele acreditava que uma academia de letras tivesse que incentivar a vida literária e intelectual, integrando homens de letras, a serem selecionados de acordo com méritos literários. Avaliava instituições e pessoas nas áreas cultural, política e jurídica segundo os critérios estabelecidos por elas mesmas – uma postura típica de moralistas e autores satíricos. O papel representativo, oficial e quase estatal que ele criticava na Academia foi justamente o que levou seus membros a rejeitar um colega relativamente jovem, tido como boêmio e inadaptado, cuja conduta, modo de pensar, estilo de vida e de escrita não correspondia à imagem do escritor commeilfaut, respeitador das conveniências, digno do prestígio da categoria e merecedor de consagração (Zilly, 2004, p.46). 20 O establishment intelectual do tempo de Lima Barreto jamais concedeu a ele as honras que sua obra mereceu. No entanto, a geração posterior, modernista, não pôde deixar de validar a obra desse escritor outsider, que se insurgiu contra o estabelecimento e inaugurou uma nova postura na literatura brasileira. Quem entrar numa livraria hoje em dia e pedir alguma obra de algum antigo membro da Academia provavelmente deixará o vendedor perplexo. Afinal muitos dos escritores que consideraram Lima Barreto indigno de ingressar em 1919, em seu ilustre círculo já caíram em absoluto esquecimento há décadas – isso sem falar de outros acadêmicos que nem eram literatos, mas figurões com veleidades beletristas: políticos, donos e vedetes de jornais, ou generais. Os livros e antologias de contos do antigo subversor podem ser encontrados, por sua vez, em qualquer livraria e biblioteca, principalmente Triste Fim de Policarpo Quaresma. Este romance, transcendendo o âmbito estritamente literário ingressou, desde a edição organizada por Francisco Assis Barbosa nos anos 50, no cânone daquelas obras básicas, quase fundacionais, que são consideradas indispensáveis para o Brasil compreender a si mesmo (Zilly, 2004, p 46-47). Dito isso, passemos a um breve resumo da vida de Lima Barreto, refletindo sobre alguns pontos importantes de sua trajetória intelectual, sobretudo focando a questão racial, tão recorrente em sua obra e a relação autobiográfica presente em Triste Fim de Policarpo Quaresma. 21 2.1 RESUMO BIOGRÁFICO Lima Barreto nasceu no dia 13 de maio 1881. Era filho de João Henriques de Lima Barreto (negro nascido escravo) e de Amália Augusta (filha de escrava agregada da família Pereira Carvalho). João Henriques era monarquista. É bem provável que essa influência paterna bem como o fato de a demissão do pai do emprego na Imprensa Oficial por pressão dos republicanos em 1889, em virtude de sua proximidade com os políticos do Império8, tenha influenciado Lima Barreto a ser um ácido crítico da república. Não obstante a todos os reveses da infância, sobretudo a perda da mãe9, que era professora, Barreto, graças à ajuda de seu protetor, o visconde de Ouro Preto, teve a chance de ter uma educação de qualidade o que lhe possibilitou acesso à Escola Politécnica, onde iniciou o curso de Engenharia. Embora tenha feito algumas amizades na faculdade, Lima Barreto sentia-se não inserido no ambiente acadêmico, em virtude de sua origem pobre e, sobretudo, pela sua condição de mulato. Seu fascínio pela literatura o fez dedicar-se a ela, colocando em segundo plano o ensino formal, que associado ao seu mal–estar, 8 “Em certas repartições, como na Imprensa nacional, a pressão contra os monarquistas foi tremenda. João Henriques era visado, dada a sua condição de compadre do visconde de Ouro Preto. Dizia-se, à boca pequena que a reforma da Imprensa fora feita sob medida, para recompensar os que haviam prestado serviços à Tribuna Liberal. João Henriques era um deles. Fora promovido, aumentando em seus rendimentos” (BARBOSA, 2003, p. 56). Nesta mesma página, Barbosa faz referência a um curioso documento enviado a Rui Barbosa, no qual a um suposto funcionário da Imprensa Oficial denuncia a vinculação entre João Henriques e o Visconde de Ouro Preto. 9 “A pobre Amália morreu poucos meses depois (dezembro de 1887), vítima de uma tuberculose galopante. Aos 35 anos de idade, o tipógrafo João Henriques de Lima Barreto, não havia completado 7 anos. E o menos, Eliéser, nem fizera 2. A morte de Amália há de descer como uma sombra no coração do filho mais velho. Sombra que nunca mais se dissipará (BARBOSA, 2003, p. 50). Sobre o próprio pedido de demissão ver BARBOSA, p. 57. 22 produto de sua pobreza e cor, fez que se desgostasse do ensino superior. 10A partir daí consolidava-se em seu espírito o desejo de ser um escritor. No entanto, seu pai começa a protagonizar situações que marcariam toda a sua vida e que vão aparecer em sua obra. Em 1902, ano em que ele ingressava no mundo literário, seu pai torna-se um inválido por conta de problemas psiquiátricos. Desde então, o tema da loucura vai ser uma sombria companhia para Lima Barreto e será assunto importante em sua obra.11 Essa é, sem dúvida, uma importante característica componente na formação de sua condição de outsider. A loucura do pai, com todas as implicações pragmáticas que isso acarretou a Barreto, coopera virulentamente para que ele descesse ainda mais longe do padrão que a sociedade caracterizava como um intelectual estabelecido.12 Por conta da invalidez do pai, Barreto passou a ser o chefe de sua família, aos 21 anos, tendo a reponsabilidade de cuidar de seus três irmãos mais novos. Tal situação o levou a trabalhar como funcionário no Ministério da Guerra, posto de onde tiraria inspiração para compor o ambiente de trabalho de seus personagens, sobretudo Policarpo Quaresma. A burocracia governamental que atrasou a aposentadoria de seu pai fez como que Lima Barreto abandonasse a Escola Politécnica.13 A necessidade de trabalhar para sustentar a família, associada ao fato de que não pôde dar continuidade aos estudos na Escola Politécnica são importantes motivos para que a intelectualidade de Barreto fosse produzida fora dos muros do 10 Ver BARBOSA (2003), p. 116-120. A loucura do pai é matéria-prima significativa na obra de Barreto. Em Triste Fim, aparece compondo as características do personagem principal, quase como uma transposição fiel do quadro do pai para Quaresma. A respeito disso, ver BARBOSA, p. 129-130. 12 A respeito disso, ver Miceli (2001), p. 22 a 25. 13 Ver BARBOSA (2003), p. 134. 11 23 establishment e, por conseguinte, sem as características presentes nos intelectuais estabelecidos de seu tempo. Lima Barreto, por conta dos infortúnios de sua vida familiar,14 acompanhados de sua condição racial, sofreu na pele a exclusão social, o que o colocou, naturalmente, fora do grupo de intelectuais estabelecidos, mas principalmente em posição antitética à deles. Os pressupostos científicos que estavam na base do pensamento predominante entre a intelectualidade brasileira da época15 não podiam ser compartilhados por Barreto, que os renunciava por convicção intelectual, motivada, principalmente, por ser ele uma das vítimas de tais pressupostos. De forma que toda a carreira desse escritor militante foi caracterizada pela crítica social e intelectual. Lima Barreto deu início à sua colaboração na imprensa ainda em sua fase estudantil, em 1902, no A Quinzena Alegre, depois no Tagarela, O Diabo. Em jornais de maior circulação, começou em 1905, escrevendo no Correio da Manhã. A partir daí, colaborou em vários jornais e revistas, Fon-Fon, Floreal, Gazeta da Tarde, Jornal do Commercio, Correio da Noite, A Noite, A Lanterna (vespertino), Brás Cubas, Hoje, Revista Souza Cruz e O Mundo Literário. 14 “Dolorosa vida a minha! Empreguei-me há 6 meses e vou exercendo as minhas funções. Minha casa ainda é aquela dolorosa geena pra minh’alma. É um mosaico tétrico de dor e de tolice. Meu pai, ambulante, leva a vida imerso na sua insânia. Meu irmão, C..., furta livros e pequenos objetos para vender. Oh! Meu Deus! Que fatal inclinação desse menino! Como me tem sido difícil reprimir a explosão. Seja tudo que Deus quiser! A Prisciliana e filhos, aquilo de sempre. Sem a distinção da cultura nossa, sem o refinamento que já conhecíamos, veio em parte talvez prender o desenvolvimento superior dos meus. Só eu escapo!” (BARRETO, 1961, p.41). 15 “A intelectualidade brasileira do final do século XIX, atualizada com o mundo europeu e que acompanhou a mudança do regime, compartilhava de um outro pessimismo mais forte, que deixou marcas profundas no pensamento brasileiro. Era o questionamento sobre o destino do país, construído sobre uma doutrina que postulas as diferenças raciais. Era o evolucionismo, que se assentava sobre a desigualdade das raças, a mal da miscigenação e a superioridade do branco” (OLIVEIRA,1990, p.191). 24 O ano 1909 foi o de sua estreia como escritor de ficção, ao publicar em Portugal, o romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Esse livro é caracterizado pela clara referência à sua biografia. Nessa obra, o autor destaca de forma assintosa os problemas que enxergava na sociedade brasileira de seu tempo, a qual ele considerava preconceituosa e hipócrita, caracterísiticas estas que ele sentiu na pele. É objeto de sua crítica contundente também os meandros da imprensa, da qual participava. Em 1911, Barreto participou da edição, juntamente com amigos, da revista Floreal, que despertou a atenção de alguns poucos críticos, embora não tenha sobrevivido dois anos. Nesse mesmo ano, ele lança, em forma de folhetins periódicos, sua mais importante obra, a qual é objeto central deste trabalho: Triste Fim de Policarpo Quaresma, que foi editado por completo em 1915, sendo considerado o marco inaugural do Pré-Modernismo. Após escrever em 1917, seu romance Buzundangas, o qual só seria publicabo postumamente, Barreto candidata-se pela primeira vez a uma vaga na Academia Brasileira de Lertas e tem seu pedido indeferido.16Em 1918, Lima Barreto internase no Hospital Central do Exército, onde fica recolhido por dois meses, de 4 de 16 “Na primeira década do século XX, o mundo intelectual brasileiro perdeu figuras das mais eminentes. Machado de Assis morreu em 1903, Euclides da Cunha em 1909, e Joaquim Nabuco em 1910. Em 1914, morreu Sílvio Romero e, em 1916, José Veríssimo, duas grandes figuras de intelectuais que vinham produzindo desde o final do século XIX. Além de Olavo Bilac e Coelho Neto, figuras já consagradas, outros intelectuais passaram a ocupar o primeiro plano da vida cultural. Afrânio de Peixoto elegeu-se para a cadeira de Euclides na Academia Brasileira de Letras em 1910; João Ribeiro foi recebido por José Veríssimo na Academia em 1911; João do Rio (Paulo Barreto) ingressou na Academia em 1910 pelas mãos de Coelho Neto” (OLIVEIRA, 1990, p.115). É importante observar que todos esses autores (com exceção eventual de Olavo Bilac) institucionalmente reconhecidos como participantes do grupo dos intelectuais estabelecidos são de uma vertente literária que foi objeto da crítica de Lima Barreto. Eles produziram obras com ênfase apenas no estético, desconsiderando o caráter ideológico atinente ao fazer literário. Reproduziam um momento cultural nacional efervescência cosmopolistista, própria da Belle Époque brasileira. 25 novembro de 1918 a 5 de janeiro de 1919, após o que é aposentado por invalidez do cargo no Ministério da Guerra. Em 1919, lança o livro Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, que recebe elogio da crítica. Candidata-se, então, novamente, à Academia Brasileira de Letras, mas não é eleito. Mais uma vez é internado no Hospício Nacional. Durante essa internação, escreve os primeiros capítulos de O Cemitério dos Vivos. Em 1920, recebe uma menção honrosa por seu livro Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, da Academia Brasileira de Letras. Em 1921, pela terceira vez, candidata-se a uma vaga na Academia, mas retira sua candidatura antes da eleição. No dia 1° de novembro, falece, no Rio de Janeiro, de um colapso cardíaco, decorrente de problemas hepáticos adquiridos em virtude do alcolismo. 26 2.2 LIMA BARRETO E PRECONCEITO RACIAL A questão racial foi um importante aspecto na formação do caráter outsider de Lima Barreto. Sua cor mulata interagiu diretamente com suas outras características, acarretando a ele as dificuldades naturais que se esperam em uma sociedade preconceituosa e racista, como a sociedade de classes da época da República Velha.17Toda a vida de Lima Barreto é marcada pelo obstáculo que a cor lhe impusera. No entanto, só viria a sentir de forma mais significativa a dureza social de ser diferente daquilo que se pretendia em termos de raça para o Brasil, quando, na juventude, passou a tentar espaço na sociedade como estudante e escritor. Seu biógrafo oficial, Francisco de Assis Barbosa, relata um incidente em que a questão racial vem à tona na vida estudantil de Barreto na Escola Politécnica. Quanto ao preconceito de raça, na Escola Politécnica daquele tempo, contase um episódio significativo, em que justamente Lima Barreto aparece como uma das personagens. Ao ser verdadeiro, bastaria para justificar o mal estar em que vivia o aluno modesto e tímido, desde o momento da sua inscrição no primeiro ano do Curso Geral. O fato é que, ao tomar conhecimento do nome bonito do novo colega – Afonso Henriques de Lima Barreto -, um veterano mal-humorado fizera para o secretário da escola, Sousa Ferreira, o seguinte comentário: “-Vejam só! Uma mulato ter a audácia de usar o nome do rei de Portugal!” Certamente, Lima Barreto não ouviu a observação cheia de maldade. Só mais tarde dela tomaria conhecimento. Se tivesse ouvido, sofreria ainda mais a repulsa estúpida que despertava a simples leitura do seu nome ao colega de tão explosivos sentimentos arianos. Lima Barreto era, de fato, pronunciadamente mulato, sem disfarces, cabelo ruim, pele azeitonada (BARBOSA, 2003, p. 112). 17 “Naquela época, poucos anos após a abolição tardia, a cor negra significava proximidade dos antigos párias, indicando um status social humilde. Sobretudo para as pessoas sem posse, todo esforço era pouco para se distanciar dessa origem: vestir-se e comportar-se de acordo com a etiqueta, silenciar obstinadamente o preconceito racial e, se possível, casar com uma mulher branca, como fizeram Machado de Assis ou, no século XX, o jogador de futebol e posterior ministro dos esportes Pelé. Como muitas pessoas não brancas no Brasil até hoje, Lima Barreto reclamava de ter tido às vezes por servidor subalterno, como porteiro ou contínuo, confessando certa vez em seu diário: ‘É triste não ser branco. ’(Barbosa, 1952; 1964: 136)” (ZILLY, 2003, p.50). 27 O episódio acima deixa claro o preconceito racial do qual eram vítimas os negros no tempo da República Velha e que alcançou Lima Barreto. A condição de exclusão social provocou-lhe sofrimento e, de alguma maneira, ele teve dificuldades, além das normais, em lidar com essa situação. Embora Barreto supervalorizasse essa dificuldade, a questão da raça, de fato, sempre foi determinante, na relação entre outsiders e estabelecidos em qualquer contexto,18 (obviamente não foi diferente no Brasil) sendo uma barreira terrível para os negros, exceto para aqueles cujo talento e habilidade social foram reconhecidos, como Machado de Assis, por exemplo. O sofrimento de Barreto com a questão de sua cor pode ser percebido em um incidente na Escola Politécnica. Ele havia sido convidado para um passeio com os outros estudantes em que seria necessário pular um muro e justifica a sua não ida com base em pressupostos raciais. Não há dúvidas de que Lima Barreto sofria por ser mulato e pobre. “É triste não ser branco”, segredava numa das páginas do seu Diário Íntimo. Um dia, porém desabafou-se em confidência ao companheiro de quarto, o bom Nicolao Ciancio. [...] O diálogo que se segui e vai adiante transcrito foi reconstituído pelo próprio Nicolao Ciancio. Ei-lo sem alteração de uma só vírgula: “- Por que não veio?” “- Para não ser preso como ladrão de galinhas!” “-?!” “- Sim, preto que salta muros de noite só pode ser ladrão de galinhas!” “- E nós não saltamos?” “-Ah! Vocês, brancos, eram ‘rapazes da politécnica’ Eram ‘acadêmicos’. Fizeram uma estudantada’... Mas eu? Pobre de mim. Um pretinho. Era seguro logo pela polícia. Seria o único a ser preso” (BARBOSA, 2003, p. 114). A citação acima é clara em mostrar o mal-estar que a questão racial promovia em Barreto. Mesmo que sua personalidade intensificasse os efeitos do preconceito 18 “As chamadas ‘relações raciais’, em outras palavras, simplesmente constituem relações estabelecidosoutsiders de um tipo particular. O fato de os membros dos dois grupos diferirem em sua aparência física (...) torna os membros do grupo estigmatizado mais fáceis de reconhecer em sua condição” (ELIAS e SCOTSON, p. 31-32). 28 racial, é fato que este existia e que limitou acentuadamente o desenvolvimento social da das populações negras no Brasil após a abolição da escravatura. Como se sabe, a abolição não previu inserção do negro na sociedade brasileira, mas foi seguida por políticas públicas no sentido de branquear a população. O país saía de um regime patriarcalista, por assim dizer, e migrava para um sistema de classes no regime capitalista, segundo o qual cada indivíduo, na teoria, teria direitos e deveres iguais. Esse modelo, no Brasil, foi acompanhado de racismo contra os negros, justificado pelas teorias evolucionistas que pululavam no início do século XX. Todo esse pano de fundo ajuda a entender a autocomiseração de Barreto frente ao problema do racismo.19 Toda essa conjuntura de vida de Lima Barreto compôs sua vida intelectual. Já no início de sua trajetória como escritor, ele manifestou o desejo, cheio de ilusão, de escrever sobre sua raça: “Eu sou Afonso Henriques de Lima Barreto. Tenho vinte e dois anos. Sou filho legítimo de João Henriques de Lima Barreto. Fui aluno da Escola Politécnica. No futuro, escreverei a História da Escravidão Negra no Brasil e sua influência na nossa nacionalidade” (BARRETO, 1961, p. 33). Esse desejo da juventude do autor revela a força que esse tema desempenharia em toda a sua trajetória intelectual. Em seu Diário Íntimo é recorrente o tema do racismo e de como isso o afetava pessoalmente. A passagem abaixo é emblemática: 19 “Dentro de semelhante contexto econômico, psicossocial e sociocultural, as humilhações, os ressentimentos, os ódios, acumulados pelo escravo e pelo liberto sob a escravidão e exacerbados de forma terrível pelas desilusões recentes, lavraram destrutivamente o ânimo de negros e mulatos. Tudo contribuía para aumentar sua insegurança, natural numa fase de mudanças tão bruscas, e para agravar ansiedades e frustações que não podiam ser ‘canalizadas’ para fora nem corrigidas construtivamente, através de mecanismos psicossociais de interação com os ‘outros’ e de integração à ordem social vigente. As alternativas de escolha, valorizadas social e moralmente desde o passado remoto, conduziam as aspirações e as identificações predominantes na direção da equiparação com os brancos das camadas superiores” (FERNANDES, 2008 p.64). 29 Hoje, comigo, deu-se um caso que, por repetido, mereceu-me reparo. Ia eu pelo corredor afora, daqui do Ministério, e um soldado dirigiu-se a mim, inquirindo-me se era contínuo. Ora, sendo a terceira vez, a coisa feriu-me um tanto a vaidade, e foi preciso tomar-me de muito sangue frio para que não desmentisse com azedume. Eles, variada gente simples, insistem em tomarme como tal, e nisso creio ver um formal desmentido ao professor Broca (de memória). Parece-me que esse homem afirma que a educação embeleza, dá, enfim, outro ar à fisionomia. Porque então essa gente continua a me querer contínuo, por quê? Porque... o que é verdade na raça branca, não é extensivo ao resto; eu, mulato ou negro, como queiram, estou condenado a ser sempre tomado por contínuo. Entretanto, não me agasto, minha vida será sempre cheia desse desgosto e ele far-me-á grande. Era de perguntar se o Argolo, vestido assim como eu ando, não seria tomado por contínuo; seria, mas quem o tomasse teria razão, mesmo porque ele é branco. Quando me julgo — nada valho; quando me comparo, sou grande. Enorme consolo (BARRETO, 1961, p. 51). A vivência de Lima Barreto com tais situações foi combustível para que sua obra pudesse repercutir de maneira muito pertinaz o tema do racismo, uma vez que ele sabia do que estava falando e sabia da dor consequente da exclusão. A citação acima indica claramente que ele tinha consciência de que o preconceito racial do qual era vítima seria uma espécie de mola propulsora para sua obra e a projetaria, fazendo dele um escritor reconhecido um dia. Em outra passagem, ele diz: Hoje, à noite, recebi um cartão-postal. Há nele um macaco com uma alusão a mim e, embaixo, com falta de sintaxe, há o seguinte: “Néscios e burlescos serão aqueles que procuram acercar-se de prerrogativas que não têm. M”. O curioso é que o cartão postal em si mesmo não me aborrece; o que me aborrece; o que me aborrece é lobrigar se, de qualquer maneira, o imbecil que tal escreveu tem razão. “Prerrogativas que não tenho”... Ah! Afonso! Não te dizia... Desgosto! Desgosto que me fará grande (BARRETO, 1961, p. 88). Ao analisar os trechos acima, salta aos olhos a ironia marcada que Barreto utiliza. O uso desse recurso é justificado pelo fato de que permite que temas difíceis de ser abordados como os em questão se tornam mais palatáveis para as vítimas, quando mediados pelo humor. A ironia também provoca melhor apreensão das 30 realidades trabalhadas, ressaltando o tom crítico que o autor quer transmitir. Sevecenko, assim, analisa o uso da ironia em Lima Barreto: A ironia, a “suculenta ironia”, Lima Barreto a concebia numa envergadura bastante ampla, “que vai da simples malícia ao mais profundo humour”, abrangendo praticamente a inteireza da sua obra. Era o artifício através do qual se sobrepunha aos infinitos percalços que lhe entravam o desenvolvimento da personalidade e da carreira (SEVECENKO, 2003, p. 197). Esse recurso, portanto, permitia ao autor, tendo em vista todos os percalços sociais contra os quais lutava e também sua própria personalidade difícil, dar voz e forma à sua literatura. “Para confirmar a justeza do retrato, Lima Barreto afirmaria lapidarmente em outra oportunidade: ‘A ironia vem da dor’” (SEVECENKO, 2003, p. 197). A dor proveniente da situação que vivia o autor muniu sua literatura de uma característica que a engrandeceu ricamente: a ironia. O autor testemunha como suas angústias e decepções em virtude da exclusão social decorrente da raça são-lhe na verdade estímulo e motor na sua produção. O “desgosto” de ser excluído o fez um “grande” crítico da exclusão, fazendo-o postumamente um “grande” escritor; inclusive pelo bom uso que faz dos recursos literários, entre os quais a ironia que enriqueceram seu texto, tornando-o mais vívido e contundente. Tudo isso, em conexão com a crítica que Lima Barreto fez ao ufanismo nacionalista, que exaltava um tipo brasileiro e excluía outros que possuíam as características raciais diferentes daquelas que a intelectualidade brasileira considerasse nacionais, colocou Lima Barreto em destaque na perspectiva antenada do Modernismo. 31 Embora não tenha tido o reconhecimento devido em seus dias - e talvez nem pudesse ter, por conta de seus temas, estilo e condição pessoal – a intelectualidade moderna o distinguiu da frivolidade intelectual, que marcou os intelectuais do início da república. Sua obra, dessa maneira, diferencia-se dos ícones intelectuais de seu tempo que, excluíram de sua agenda as temáticas sociais, como o racismo, por exemplo, e reduziram a literatura apenas ao caráter estético e de fruição. A respeito disso, elogia-o Sérgio Milliet, destacando a temática racial, presente na obra do autor, elogiado pelos revolucionários de 22: Lima Barreto foi o grande romancista da geração pós-machadiana e o pioneiro do romance moderno brasileiro. Admiraram-no os revolucionários de 22 pelo seu estilo direto e limpo em contraste com o alambicado Coelho Neto ou com o doce e mole Afrânio Peixoto, como o admiravam pela verdade algo caricatural de seus heróis e pela mordacidade de sua crítica social. Por outro lado, viam nele a primeira revolta declarada contra o preconceito de cor, até então considerado, por necessidade de reconforto moral dos brancos, como não existente entre nós. Lima Barreto transcende o realismo muito convencional que dominava as letras nacionais desde os naturalistas (com exceção de Aluísio de Azevedo), pois abandonando a preocupação de descrever com minúcias as exterioridades da vida carioca ou de pintar com cores vivas a paisagem regionalista, procura penetrar no âmago dos personagens e fazê-los viver uma vida verdadeira. Daí, aquela frase tão significativa com que respondeu de uma feita a João Ribeiro, a propósito de "Numa e a Ninfa" (citada pelo biógrafo Francisco de Assis Barbosa): "como todo romancista que se preza, eu tenho amor e ódio pelos meus personagens". É que a literatura de Lima Barreto não era "o sorriso da sociedade", brotava como uma imposição insopitável do ambiente, da raça e do momento. Anote-se de passagem a palavra raça a que se junta por vezes, a outra igualmente reveladora: classes. E ter-se-á explicada a psicologia do romancista, assentando toda ela numa reivindicação e num complexo (MILLIET, 17 de setembro, 1952). Nessa citação, Milliet destaca Barreto como o sucessor de Machado de Assis na literatura brasileira e o contrasta com certos autores de seu tempo que, na opinião de Milliet, eram “alambicados” ou “moles” no sentido de não terem uma literatura 32 relevante para o Brasil, limitando seus escritos ou a um cientificismo sem lugar para a realidade brasileira ou a uma superênfase no aspecto estético da literatura em detrimento de temáticas sociais pertinentes. Dessa maneira, a atividade artístico-intelectual de Barreto, entre outros temas, era composta de uma crítica severa ao posicionamento racial que foi característico de parte significativa do estabelecimento intelectual de seu tempo, que retirava do evolucionismo social a base de seu posicionamento.20 O retrato autobiográfico que Recordações do Escrivão Isaías Caminha revela a militância de Barreto a respeito do tema do racismo. O livro, dentre outros temas, destaca a denúncia que o autor deseja fazer do racismo que lhe limitou a ascensão intelectual, a despeito de seu talento e inteligência, por conta de sua condição racial. “No Recordações do Escrivão Isaías Caminha, conta-se a história de um rapaz inteligente, bom, honesto, ambicioso, possuindo todos os requisitos para vencer na vida, menos um- a cor. Era mulato e, além de mestiço, pobre” (BARBOSA, 2003 p. 182). Em Recordações, no início, encontramos Isaías Caminha (alter-ego de Lima Barreto) sonhando em ser doutor com a ideia de que isso suplantaria o fato de ser negro. “Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do meu nascimento 20 “Assim, por exemplo, veríamos Euclides da Cunha deslumbrar-se com ‘as magias da ciência, tão poderosas que espiritualizam a matéria’, enquanto Lima Barreto nela via somente uma fonte de preconceitos e superstições. Euclides da Cunha exultava com ‘o esplendor da civilização vitoriosa’, ao passo que Lima Barreto concluía amargurado: ‘Engraçado! É como se a civilização tivesse sido boa e nos tivesse dado a felicidade! ’. A elucidação desse embate de posturas polarizou-se em torno do conceito de raça. Este foi uma criação da ciência oficial das metrópoles europeias e atuou como suporte principal para a legitimação de suas políticas de nacionalismo interior e expansionismo externo. A corrida imperialista para a conquista de amplos mercados capazes de alimentar a Europa da Segunda Revolução Industrial encontrou na teoria das raças uma justificação digna e suficiente para o seu vandalismo na regiões ‘bárbaras’ do globo (SEVECENKO, 2003 p. 146). 33 humilde, amaciaria o suplício premente, cruciante e onímodo de minha cor” (BARRETO, 1996, p.31). A intenção do autor, ao colocar tal ilusão no início da obra, é criar um ambiente literário em que o leitor tenha empatia com a situação do protagonista e, de alguma maneira, tome conhecimento da exclusão da raça negra. Como na passagem que segue: Tive fome e dirigi-me ao pequeno balcão onde havia café e bolos. Encontravam-se lá muitos passageiros. Servi-me de uma pequena nota para pagar. Como se demorassem em trazer-me o troco, reclamei: “Oh! fez o caixeiro indignado e em tom desabrido. Que pressa tem você?! Aqui não se rouba fique sabendo?” Ao mesmo tempo ao meu lado um rapazola, alourado, reclamava o dele que lhe foi prazenteiramente entregue. O contraste feriume, e com os olhares que os presentes me lançaram, mais cresceu a minha indignação. Curti durante segundos a minha raiva muda, e por pouco ela não rebentou em pranto (BARRETO, 1996, p. 33). A citação acima retrata o tom quase que panfletário que Lima Barreto quer dar ao tema do racismo, ao apresentar de forma autobiográfica, os primeiros desencontros com a sociedade que o jovem mestiço teve em razão de ter uma cor de pele diferente do que a sociedade valorizava. A posição de Lima Barreto frente ao discurso racista coloca-se como uma crítica aos intelectuais que visualizavam a sociedade numa grande guerra entre as espécies, como se através de uma seleção biológica fosse possível selecionar os mais fortes em detrimento dos mais fracos. Do mesmo modo, ele não encara o problema racial em termos biológicos ou de pureza racial, mas como instrumentalização no sentido de proteção da raça e conservação de privilégios (ARANTES, 2010, p.46). Arantes destaca o fato de que o intelectual Lima Barreto estava atento às reais motivações presentes na política racial brasileira. Para além de uma questão estritamente científica, estavam os interesses econômicos e políticos das nações, o que não era diferente no Brasil. 34 Aqui se buscava o estabelecimento de uma identidade cultural distinta e que tivesse características de superioridade étnica, de acordo com os pressupostos europeus. O povo brasileiro, de acordo com essa perspectiva, deveria passar por um processo de branqueamento a fim de se estabelecer uma identidade racial considerada superior. 21 Nesse contexto, a substituição da mão de obra negra pela europeia foi um importante recurso, justificados no argumento de que os negros não seriam propensos ao trabalho e ao progresso. Ao que concerne à estigmatização do negro na sociedade brasileira do início do século, cabe assinalar que Lima Barreto sempre esteve atento à formação específica de um pensamento racista no país, cujas fontes inspiradoras advinham de importantes doutrinas europeias, entre as quais a do aristocrata francês Arthur Goblineau (1816-1882), que defendeu em [...] a “superioridade incontestável” da raça ariana, ao seu ver, a única capaz de edificar uma vida cultural (ARANTES, 2010, p. 46). O trabalho intelectual de Lima Barreto voltou-se diretamente contra esse tipo de pensamento e, através de crônicas jornalísticas, mas, sobretudo pela ficção, o autor alvejou diretamente a noção de que a raça brasileira deveria excluir o negro de seu bojo identitário. A marca pejorativa das etnias não brancas era identificada por grande parte dos intelectuais e políticos que defendiam uma política imigrantista como grupos minoritários tendencialmente voltados para a baderna e a desordem social, e como maiores responsáveis pela “degeneração nacional”. Os impedimentos para a autoafirmação do negro na sociedade baseavam-se na “A miscigenação tornou-se um ponto central nessa questão. Silvio Romero foi um personagem que se destacou nessa discussão tanto pela forma como discutiu esse assunto com seus contemporâneos quanto pelo modo como assimilou as teorias raciais. Apegado ao naturalismo evolucionista, Romero trouxe para a crítica literária o racismo científico como base norteadora, travando polêmicas, iniciadas em fins do século XIX, com Araripe Júnior e Manoel Bonfim que apresentavam muitas vezes caráter personalista, chegando ao ponto de por em xeque a honra e a capacidade intelectual dos envolvidos. Ou seja, um tipo de discussão que não era considerado adequado por Lima Barreto para se atingir a compreensão da realidade, pois, como argumentava, ‘verrinas nada adiantam’. Romero via na miscigenação a possibilidade de extinção dos grupos africanos e indígenas pela sua incorporação à raça branca e a uma cultura brasileira de base europeia”(NORONHA, 2009, p. 48). 21 35 crença de sua disposição natural para a ociosidade, a vagabundagem, o alcoolismo e desordem, o que não escapou a Lima Barreto nesta passagem do autobiográfico romance Cemitério dos Vivos, logo após a internação do personagem protagonista Vivente Mascarenhas: “Todo cidadão de cor há de ser por força um malandro, e todos os loucos hão de ser por força furiosos e só transportáveis em carros blindados (ARANTES, 2010, p. 46). A subversão de Barreto a tal pensamento, entre outros motivos, custou-lhe não compor a elite da intelectualidade brasileira do início do século XX uma vez que esta preconizava, em sua maioria, ideais que eram objeto da crítica limabarreteana. 36 2.3 PANORAMA AUTOBIOGRÁFICO EM TRISTE FIM O debate sobre a questão do racismo está presente em Triste Fim de Policarpo Quaresma de forma esparsa, pincelada em situações pontuais, através das quais Barreto, além de criticar o preconceito racial, quer acima de tudo, ir de encontro à inércia dos literatos da belle époque em relação aos temas sociais mais pungentes da sociedade brasileira daquele tempo, especialmente a respeito do racismo. Nesse aspecto, destaca-se na obra o papel tipológico e representativo do personagem Ricardo Coração dos Outros. Através dele, Barreto pretende tornar evidente uma crítica especialmente ao Parnasianismo, que preconizava o ideal de que a arte literária se justifica apenas pelo aspecto estético, sem levar em consideração questões mais pragmáticas, envolvendo dilemas sociais. Barreto, ao contrário do pensamento parnasiano, via na literatura a missão pedagógica e transformadora de questionar os valores da sociedade e enfatizar aspectos diferentes daqueles que a tradição preconizava. Na passagem abaixo, a questão aparentemente ingênua que envolvia um rival negro de Ricardo, vê-se o ponto de vista do autor em função de a arte de ser usada de forma pragmática. Aborrecia-se com o rival, por dois fatos: primeiro, por ser preto; e segundo, por causa das suas teorias. Não é que ele tivesse ojeriza particular aos pretos. O que ele via no fato de haver um preto famoso tocar violão, era que tal coisa ia diminuir ainda mais o prestígio do instrumento. Se o seu rival tocasse piano e por isso ficasse célebre, não havia mal algum; ao contrário, o talento do rapaz levantava a sua pessoa, por intermédio do instrumento considerado; mas tocando violão, era o inverso, o preconceito que lhe cercava a pessoa desvalorizava o misterioso violão que ele tanto estimava. E além disso com aquelas teorias! Ora! querer que a modinha diga alguma coisa e tenha versos certos! Que tolice! (BARRETO, 1997, p. 85). 37 Além do aspecto literário, a crítica de Barreto alcança temática do racismo. Ao associar a cor negra de seu rival com a dificuldade em se popularizar o violão, Ricardo fala de um lugar ideológico preconceituoso, refletindo o pensamento da intelectualidade predominante no tempo de Barreto e, por que não dizer, ainda nos dias de hoje. Ainda usando Ricardo, Barreto, em outra passagem aparentemente ingênua, trabalha o tema do racismo, de forma quase que autobiográfica, mas usando uma personagem feminina. Com a lembrança, ele baixou um pouco o olhar à terra e viu que, no tanque da casa, um tanto escondida dele, uma rapariga preta lavava. Ela baixava o corpo sobre a roupa, carregava todo o seu peso, ensaboava-a ligeira, batia-a de encontro à pedra, e recomeçava. Teve pena daquela pobre mulher, duas vezes triste na sua condição e na cor (BARRETO, 1997, p. 112). A mulher em questão era pobre (como Lima Barreto) e negra. Em Triste Fim, o tema central é a crítica ao ufanismo nacionalista. Barreto utiliza-se de situações aparentemente despretensiosas, nas quais dá vez e voz a gente das classes excluídas, com o propósito de, nos meandros de um texto narrativo, argumentar vividamente em favor de temas sociais excluídos da agenda intelectual de seu tempo. Com isso, pretendia também mostrar que a visão ufanista brasileira que exaltava um povo, uma geografia e um governo excluía parte significativa desse povo. Dessa forma, a questão racial assume um importante papel discursivo no livro no sentido que dialoga com seu tema central, dando força à conclusão de que o ufanismo brasileiro além de ser uma utopia foi uma ideologia usada para sustentar, entre outras coisas, a discriminação racial. 38 O tema do racismo advém para a obra de Lima Barreto através de sua análise da sociedade brasileira em que vivia, mas, sobretudo da influência de sua própria condição como excluído por ser mulato. A questão racial, portanto, no entendimento de Lima Barreto, produzia uma visão distorcida do que era o Brasil, gerando, assim, uma crise de identidade nacional. Perguntas como: o que é o Brasil?,ou o que era ser brasileiro?; estão implicitamente presentes na obra de Lima Barreto, especialmente em Triste Fim. Triste Fim de Policarpo Quaresma contém elementos autobiográficos indiretos de Lima Barreto além dos aspectos raciais abordados até aqui. A associação da loucura do personagem principal com a situação de seu pai é impossível de não ser vista. Diz Barbosa sobre isso: Era o delírio do almoxarife, segundo o depoimento do seu próprio filho, Carlindo. Nas suas manifestações psíquicas é quase idêntico ao de Policarpo Quaresma. Mais de uma vez, o pai servirá de modelo ao filho escritor, que pensava em João Henriques ao traçar a página do delírio do Major Quaresma: ‘Como fora doloroso aquilo! A primeira fase do seu delírio, aquela agitação desordenada, aquele falar sem nexo, sem acordo com que se realizava fora dele e com os atos passados, um falar que não se sabia donde vinha, donde saía, de um que ponto do seu ser tomava nascimento! E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu um cataclismo, que o fazia tremer todo, desde os pés à cabeça, e enchia-o de indiferença para tudo mais que não fosse o seu próprio delírio. ’ A descrição se aplica como uma luva ao depoimento. A coincidência é quase absoluta. Mas ainda há mais, em outro pequeno trecho de Policarpo Quaresma: ‘A casa, os livros e os seus interesse de dinheiro andavam à matroca. Para ele, nada disso valia, nada disso tinha existência e importância. Eram sombras, aparências; o real eram os inimigos terríveis cujos nomes o seu delírio não chegava a criar.’ Assim também João Henriques falava em inimigos, que o perseguiam sem contudo declinar nomes (BARBOSA, 2003, p. 129-130). A loucura do pai levou-o à aposentadoria. Mas a demora em efetivá-la em virtude da burocracia foi retratada em Policarpo Quaresma numa alusão clara, de acordo com Barbosa: 39 João Henriques teve de requerer a sua aposentadoria, que só lhe foi concedia por decreto de 2 de março de 1903. E aqui começa nova odisseia, tais são as dificuldades e complicações da burocracia [...]. “É um trabalho árduo, esse de liquidar uma aposentadoria – escreveu Lima Barreto, no Policarpo Quaresma, baseando-se na experiência tão amargamente vivida – como se dizia na gíria burocrática. Aposentado o sujeito, solenemente por um decreto, a cousa corre uma dezena de repartições e funcionários para ser ultimada. Nada há mais grave do que a gravidade com que o empregado nos diz: ainda estou fazendo o cálculo; e a cousa demora um mês, mais até, como se se tratasse de mecânica celeste.” Foi o que aconteceu com a aposentadoria de João Henriques. Custou a ser liquidada (BARBOSA, 2004, p. 132). A vida pessoal mais íntima do escritor parece também retratada em Triste Fim. Diz Zilly: Lima Barreto não seria privado apenas de projeção social, mas também de alegrias na vida particular. As pesquisas de seu biógrafo Francisco de Assis Barbosa não revelaram indícios de qualquer felicidade amorosa. Assim como o herói Policarpo Quaresma, o escritor não dirigia seu erotismo para as mulheres, mas sim para seus valores e metas. Ele mesmo chegou a admitir que tinha se casado com a literatura (ZILLY, 2003, p.55). Triste Fim dialoga tanto com a vida de Lima Barreto que parece ser uma espécie de profecia do autor a respeito de seu final: Lima Barreto era um sofredor diplomado: sofria com sua própria situação e com o país que ele, crítico do patriotismo, amava mais do que os patriotas autonomeados. Mal atingira a idade madura, este homem de vulto, bem apessoado, já estava exausto e acabado. Teve que se aposentar como funcionário público aos 38 anos, sem nunca ter sido promovido, morrendo três anos depois. Assim como o herói Policarpo Quaresma, teve um triste fim, sendo morto pela pátria, não a tiros, mas por uma longa série de desgostos e mágoas (ZILLY, 2003, p. 55). É impressionante a habilidade que Lima Barreto possuía de mesclar sua biografia com a ficção, ao mesmo tempo engendrando tudo isso à temática social de caráter crítico que caracterizou sua obra. Todo esse conjunto compõe uma obra rica e múltipla, sendo considerada literatura de qualidade, no aspecto meramente estético, mas também um texto rico, sob o ponto de vista das temáticas sociais abordadas, dando-nos hoje uma 40 oportunidade singular de enxergar o Brasil de seu tempo sob uma perspectiva multifacetada e abrangente. Isso só foi possível pelo tremendo talento literário desse autor, que embora todas as mazelas sociais que sua biografia revela e o fato consequente de não ter sido reconhecido em vida, conseguiu produzir uma obra vigorosa, (sem o estímulo do reconhecimento, diga-se de passagem), reconhecida em nossos dias como canônica e indispensável para a literatura nacional e para se compreender o Brasil. O outsider de ontem tornou-se o estabelecido de hoje. 41 3TRITE FIM, ROMANTISMO E BOVARISMO Triste Fim de Policarpo Quaresma é um livro sobre identidade nacional brasileira. Lima Barreto, nessa obra, está discutindo o Brasil e tentando interpretálo. Acima de tudo, no entanto, está criticando as interpretações do Brasil que a intelectualidade de seu tempo estava produzindo e sobre como estas estavam influenciando o modus operandi da nação. Barreto sentia um mal-estar com as definições sobre o que seria o sentido de nacionalidade brasileira, uma vez que estas formulações promoviam a exclusão daqueles que não estavam adequados aos padrões culturais que se postulavam como estritamente nacionais. Ele percebia como as interpretações nacionalistas justificavam decisões políticas que satisfaziam a uma parcela restrita da sociedade e faziam com que esta se subordinasse docilmente aos desmandos políticos que se cometiam. O autor entendia que as arbitrárias escolhas de ícones nacionais no sentido de se definir o que era Brasil e o que era ser brasileiro deixavam de fora uma parcela significativa da sociedade.22 Na verdade, ele mesmo se sentia excluído. Sua obra, portanto, é uma espécie de grito de socorro, por assim dizer, em favor de si mesmo e de seus pares, mas também um grito para fazer acordar a intelectualidade do país do sonho ilusório 22 A respeito disso, Tomaz Tadeu da Silva diz textualmente: A afirmação “sou brasileiro”, na verdade, é parte de uma extensa cadeia de “negações”, de expressões negativas de identidade, de diferenças. Por trás da afirmação “sou brasileiro” deve-se ler: “não sou argentino”, “não sou chinês”, “não sou japonês” e assim por diante, numa cadeia, neste caso, quase interminável. Admitamos: ficaria muito complicado pronunciar todas essas frases negativas cada vez que eu quisesse fazer uma declaração sobre minha identidade. A gramática nos permite a simplificação de simplesmente dizer “sou brasileiro”. Como ocorre em outros casos, a gramática ajuda, mas também esconde (SILVA, 2009, p. 75.). 42 em que estava presa. A crítica de Lima Barreto tem como alvo mais direto o círculo de intelectuais estabelecidos na sua época, que, em sua visão, ou escreviam sem levar em conta as reais demandas sociais da nação, embebendo-se da tradição científica europeia e tentando transplantá-la para nossa realidade sem ponderação e adequação pertinente ou, no caso dos literatos, imergiam no esteticismo literário, produzindo literatura sem viés sociológico.23 Para Lima Barreto, ambas as atitudes deveriam ser rechaçadas, visto que os intelectuais, na visão do autor, deveriam estar atentos às necessidades sociológicas da nação e usar seus escritos para um propósito argumentativo. Parte significativa dos estabelecidos do tempo de Lima Barreto estava engajada no processo de interpretação do que seria o verdadeiro sentido de brasilidade com o propósito de engendrar um tecido cultural para a nação que pudesse ser usado como lastro para a identificação do Brasil como um estado nacional composto por características culturais específicas. Lima Barreto via no grupo dos estabelecidos um ranço do romantismo e vinculava, em certa medida, o trabalho intelectual desses autores a essa estética literária, que, embora não tivesse desaparecido completamente da literatura brasileira na época de Lima Barreto, tivera seu apogeu na geração anterior. 23 “No interior desta sociedade surgiram autores para os quais a literatura era concebida como o ‘sorriso da sociedade’, nas palavras de Afrânio Peixoto. Eles escreviam obras que expressavam o cotidiano sem apresentar grandes dúvidas, obras feitas para divertir. [...] Esses escritores viam a literatura não como ‘arte perturbadora e inquisitória por excelência, mas como manifestação do bem-estar social, numa época de paz, eles próprios contentes com sua sorte, pertencentes à classe dominante, escreveram para distrairse e distrair os leitores. Uma palavra os explica: diletantismo” (OLIVEIRA, 1990, p. 113). São enquadrados nessa classificação: Coelho Neto, Artur Azevedo, Afrânio Peixoto, Mario de Alencar e Medeiros e Albuquerque entre outros. 43 No entanto, sob o ponto de vista de Barreto, havia uma ligação de propósitos e temas da intelectualidade de seu tempo com o romantismo, no sentido de que ambos estavam engajados no processo de estabelecer uma identidade nacional para o Brasil, levando em consideração pressuposto europocêntrincos. 44 3.1 ROMANTISMO: UMA CONTEXTUALIZAÇÃO No Brasil, o movimento cultural de maior importância no sentido de incentivar o estabelecimento de uma identidade nacional ufanista foi o romantismo. Por conta disso, essa escola literária foi um dos objetos da crítica de Barreto. Os autores românticos participaram ativamente do processo de interpretação do país, tornando sua literatura, além do aspecto estético, um importante veículo de disseminação de uma imagem nacional para o Brasil. A busca de temas específicos, a caracterização regionalista dos personagens e a descrição das coisas da pátria foram elementos recorrentes no estilo romântico de tal modo que, em algum momento, o tema emergiu por sobre a estética, tornando-a apenas um mero veículo de disseminação do ufanismo nacionalista brasileiro, quase que de forma cansativa, dada a repetição. Nas palavras de Antonio Candido: Manteve-se durante todo o Romantismo este senso de dever patriótico, que levava os escritores não apenas a cantar a sua terra, mas a considerar as suas obras como contribuição ao progresso. Construir uma “literatura nacional” é afã, quase divisa, proclamada nos documentos do tempo até se tornar enfadonha(CANDIDO, 1997, p.12). Candido destaca o caráter panfletário do romantismo brasileiro em se consolidar na memória social do país uma imagem ufanista e nacionalista. Para os românticos tratava-se de um dever cantar o país, distinguindo-o de todas as outras nações, elegendo para isso, categorias culturais que serviriam como base para identificação nacional brasileira. Os autores românticos lançaram mão de imagens características da vida do país, contextualizadas no cotidiano do povo e presentes, de alguma maneira, na memória social brasileira como matéria-prima de sua literatura, para pintar um quadro 45 nacionalista do Brasil. Cândido divide em três a gradação narrativa do romantismo em relação ao tema do nacionalismo: São três graus, principalmente, em que se desenvolve a narrativa romântica: Cidade, campo, selva ou vida urbana, vida rural ou vida primitiva, a partir desses três elementos acontece a verdadeira tomada de consciência da realidade brasileira no plano artístico, o verdadeiro ideal do nacionalismo brasileiro (CÂNDIDO, 2000, p. 70-74). Nesse sentido, o romantismo pretendeu envolver todo o cenário presente no imaginário social brasileiro para, através de narrativa ambientada neste, poder divulgar a ideologia do nacionalismo de forma eficaz. Cândido usa a expressão “tomada de consciência” para ratificar a ideia de que os intelectuais românticos entendiam sua literatura de uma forma pedagógica e missionária, por assim dizer. Não se tratava de um texto literário apenas para fruição literária. Eles usaram a estética em favor da ideologia. Assim o romantismo, além de ter sido uma escola literária, foi uma importante corrente de interpretação do Brasil. Surgindo quando o país tornava-se independente de Portugal, foi determinante para uma definição mais específica da nação que surgia, embora sua performance tenha sido contaminada, paradoxalmente, pela influência europeia, levando sua visão às raias da xenofobia, muitas vezes. A respeito disso, Roncari afirma: Seus escritos já não são apenas “documentos” sobre aspectos da vida brasileira, dos povos indígenas às instituições políticas e religiosas, mas constituem as primeiras tentativas de pensar e representar o país como um todo, como um organismo social e cultural específico, fruto de tradições e lutas. Hoje sabemos quantas deformações algumas das teorias românticas deram margem, principalmente as que descambaram para um nacionalismo xenófobo. (RONCARI, 2002, p.295). Havia nesse processo nacionalista romântico uma proposta que pretendia alcançar duplo objetivo: em primeiro lugar, alinhar o Brasil ao cenário mundial em 46 que se estabeleciam nações com identidades distintas; em segundo lugar, estabelecer uma literatura de cunho estritamente nacional, que se veria pela especificidade dos temas abordados e por uma suposta maneira diferente de emoldurar essas temáticas.24 Nesse sentido, a literatura romântica ocupa um importante espaço na formação ideológica do país, dialogando com os poderes políticos25, ora influenciando-os, ora recebendo deles influência.26 A influência do romantismo foi sentida muito tempo depois de seu apogeu, de forma que a visão de Brasil projetada pelo movimento foi reverberada por intelectuais de gerações posteriores. Esse parece o caso da geração de Barreto, que está recebendo dele a crítica em virtude exatamente de que está embebida de pressupostos românticos. Sobre o papel protagonizado pelo romantismo, Leite acrescenta: A perspectiva de mais de um século permite ver a fecundidade do movimento romântico para a definição das normas estéticas que traduziriam a realidade brasileira, para o estabelecimento de símbolos – que sabe se mitos – capazes de definir o nacionalismo brasileiro. [...] os românticos brasileiros tiveram nítida consciência de seu papel nessa definição e tentaram explorar os elementos constitutivos do nacionalismo (LEITE, 2007, p. 219). 24 A respeito disso, Leite acrescenta: “Foi a coincidência entre o movimento da independência e a importação da estética romântica que permitiu a reunião dos dois movimentos – o político e o literário (LEITE, 2007, p. 225). 25 Sérgio Buarque de Holanda alerta para o fato de que a intelectualidade brasileira do tempo do império servia a aristocracia nacional no sentido de legitimar suas posturas: “Porque com o declínio do velho mundo rural e de seus representantes mais conspícuos essas novas elites, a aristocracia do “espírito”, estariam naturalmente indicadas para o lugar vago. Nenhuma congregação achava-se tão aparelhada com o mister de preservar, na medida do possível, o teor essencialmente aristocrático de nossa sociedade tradicional como as das pessoas de imaginação cultivada e de leituras francesa”.(HOLANDA, 1995, p. 164). 26 “A literatura do período romântico participará ativamente dessas inquietações, que não eram apenas dos escritores, mas se disseminavam por toda a sociedade dos homens livres. Ela debaterá, procurará soluções e tentará influir numa direção ou noutra, dependendo do autor. Isso tornará a literatura e a política atividades muito próximas, pois tanto as discussões políticas mais gerais se refletirão na representação literária como esta tenderá influir naquela, através de suas afirmações, dúvidas e oposições” (RONCARI, 1995, p.291). 47 A fácil assimilação do nacionalismo pelo romantismo é possível pelo caráter altamente emocional e onírico que predominou nessa escola literária. A ideologia nacional carecia de uma estética que, em seu bojo, pudesse conter todas as características, muitas vezes, irreais de sua proposta e ao mesmo tempo parecer coerente e verossimilhante. O romantismo se encaixou como uma luva nessa perspectiva. O cunho emocional predominante no romantismo, negando o racionalismo produto das revoluções burguesas, e a forte vinculação humana com a natureza presentes nessa estética literária, possibilitou aos autores românticos fazer emergir a imagem idealizada de nação que aparece em seus escritos. Só assim, pôde surgir a figura arquetípica de um herói nacional altamente identificado com a terra (o índio) da qual é um componente numa relação perfeitamente harmônica. O romantismo viabilizou a tentativa de um projeto da construção de uma identidade nacional, que precisava de imagens míticas, apresentadas de forma mais real possível, valorizando aspectos emocionais em oposição ao racional27. Esse emocionalismo28, associado ao nacionalismo fez surgir uma imagem 27 “O Romantismo, enquanto visão de mundo, foi uma reação aos valores éticos e intelectuais ilustrados e clássicos, assim como os fatos históricos mais marcantes da virada do século XVIII para o XIX: a Revolução Francesa, a Revolução Industrial e a política napoleônica. Nesse sentido, a visão de mundo romântica surge mais como uma reação ao novo do que como a proposição de algo novo. Todo valor que ela elege é sempre em oposição a outro que pretende negar. À razão, o Romantismo opôs o sentimento, à mente o coração, à ciência a arte e a poesia, ao materialismo o espiritualismo, à objetividade a subjetividade, à filosofia ilustrada o cristianismo, ao corpo e à matéria o espírito, ao dia a noite, ao preciso impreciso, ao equilíbrio a expansão e o entusiasmo, à vida social ampla a comunhão restrita de gênios eleitos, aos valores universais os particulares e exóticos, ao estático e permanente o movimento, ao estável o instável etc” (RONCARI, 2002, p. 297). 28 “É curioso notar-se que os movimentos aparentemente reformadores, no Brasil, partiram quase sempre de cima para baixo: foram de inspiração intelectual, se assim se pode dizer, tanto quanto sentimental. Nossa independência, as conquistas liberais que fizemos durante o decurso de nossa evolução política vieram quase de surpresa; a grande massa do povo recebeu-as com displicência, ou hostilidade. Não 48 distorcida do país altamente triunfalista em que se vendeu a imagem de um povo revolucionário (prefigurado pelos guerreiros indígenas) que conquista sua independência com muita luta. Contra essa visão está a crítica de Lima Barreto, que enxerga nisso não apenas ilusão, mas um produto de determinações políticas. Os românticos colocaram forte ênfase no estilo narrativo, que possibilitava ao leitor melhor assimilação dos conteúdos, uma vez que na referida estética viu-se uma descrição mais verossimilhante do que se narrava, aproximando, assim, o leitor dos temas abordados por meio de uma construção mais concreta da realidade, evitando abstracionismos29. O propósito da literatura romântica era criar um ambiente nacional em que fosse percebida uma unidade interna na pátria e uma diferenciação externa, tanto no que se refere ao que se definia como Brasil como para a própria literatura brasileira em si. Nesse aspecto, caminhava juntamente com o projeto de nação o projeto de uma literatura nacional. Assim, concomitantemente, surgia um suposto Brasil e uma suposta literatura nacional. A esse respeito, Machado de Assis questiona: “O instinto de nacionalidade que se manifesta nas obras desses últimos tempos, conviria examinar se possuímos todas as condições e motivos históricos de uma nacionalidade literária” (ASSIS, 1959, p. 30). emanavam de uma predisposição espiritual e emotiva particular, de uma concepção de vida bem definida e específica, que tivesse chegado à maturidade plena. Os campeões das novas ideias esqueceram-se, com frequência, de que as formas de vida nem sempre são expressões do arbítrio pessoal, não se ‘fazem’ ou ‘desfazem’ por decreto. (...) A fermentação liberalista que precedeu à proclamação da independência constitui obra de minorias exaltadas, sua repercussão foi bem limitada entre o povo, bem mais limitada, sem dúvida, do que quer fazer crer os compêndios de história pátria” (HOLANDA, 1995 p. 160 e 161). 29 “Portanto o Romantismo Brasileiro foi inicialmente (e continuou sendo em parte até o fim) sobretudo do nacionalismo. E nacionalismo é antes de mais nada escrever sobre coisas locais. Daí a importância da narrativa ficcional em prosa, maneira mais acessível e atual de apresentar a realidade, oferecendo ao leitor maior dose de verossimilhança, e com isso, aproximando o texto da sua experiência pessoal (CANDIDO,2004, p. 36-37). 49 Alfredo Bosi alerta que, ao contrário do que pensavam os românticos, “nosso processo de independência política, visto na sua linha vitoriosa, que permitiu a constituição de um longo período imperial, acabou por gerar uma vasta cultura de conciliação” (BOSI, 1983, p 37). No entanto, a proposta romântica não soa conciliatória. A impressão que os românticos quiseram passar era de ruptura. Mas o que houve não foi isso. Houve uma adequação dos temas europeus sob uma maquiagem tupiniquim. Uma análise simples do corpus literário do romantismo no Brasil denuncia a inadequação de seu texto com o que essa estética se propôs ser. Bosi acrescenta, de forma elucidativa como a incoerência indianista deu-se na prática. Quando nosso José de Alencar, animado do projeto de inventar o romance brasileiro autônomo, e até hostil ao jeito de escrever português, pôs mãos à obra e fez O Guarani, que saiu foi, não a história de um conflito insuperável entre o índio Peri e o colonizador d. Antonio de Mariz, mas a sujeição (voluntária, não é estranho?) do primeiro ao segundo. E, no fim, a perspectiva da união das raças figura-se no par Ceci e Peri (BOSI, 1983 p. 37). Bosi é assertivo ao analisar a realidade romântica, em O Guarani, na medida em escancara a subserviência brasileira à Europa, sub-repticiamente, presente no próprio texto de José de Alencar. Ou seja, o idealizado índio “brasileiro” (na verdade, ele é mais europeu do que brasileiro) está rendido ao colonizador e disposto a se amalgamar com este no propósito de fazer surgir a raça brasileira.30 Isso é uma flagrante incoerência com a proposta romântica. Como os intelectuais românticos poderiam estar cantando uma raça e uma nação distinta, 30 “Na tentativa feita por Alencar, de conciliar o elemento branco, colonizador, com o elemento nativo, ostensivamente dominado, há sempre a predominância do estatuto da cultura dominante, sobre o nativo. Até mesmo a representação do mundo indígena, quando ainda em estado ‘natural’ e sem interferência dos colonizadores (Ubirajara), já reproduz valores e modelos da sociedade do homem branco e ‘civilizado’. Da miscigenação branco/índio resulta sempre a aculturação dos valores deste em benefício daquele” (PEREIRA, 1996, p.105). 50 quando, paradoxalmente, estão louvando a amalgamação de um índio (de DNA europeu) com o colonizador europeu.31 Do ponto de vista literário, o romantismo era uma assimilação completa daquele que surgiu na Europa, como não podia ser diferente. Desse modo, fica evidente que os românticos não podiam reivindicar o “grito” de independência para a literatura nacional32, pois o próprio romantismo, em essência era uma importação. Além disso, tanto os temas, mas, sobretudo, as imagens nacionais que evocam estão contaminadas pela visão europeia. A essa incoerência, Lima Barreto parece aludir criticamente em Triste Fim quando introduz o tema da troca língua portuguesa pelo Tupi. Nessa caricatura, Barreto quer rir de uma pretensão nacional baseada em decisões abruptas e sem lastros. O louco requerimento de Quaresma, nesta equação, equivale à ilusão dos intelectuais românticos de que eles estavam produzindo uma literatura estritamente nacional e fundamentando as tradições nacionais brasileiras. Os índios que eles cantaram nunca existiram e se fossem vocacionados, na prática, para a realidade brasileira, isso seria uma aberração louca, tal como foi o 31 Silvano Santiago “perdoa” Alencar dessa incoerência, reconhecendo que o romântico recai “ em perdoável europocentrismo romântico, pois o fim óbvio do texto (O Guarani) é o de comprovar, pela analogia, o valor nobre do selvagem (SANTIAGO, 1982, p, 102). 32 Diz Machado de Assis: “Esta outra independência não tem Sete de Setembro nem campo de Ipiranga, mas pausadamente, para sair mais duradoura; não será de uma geração nem duas; mas trabalharão para ela até perfazê-la e todo” (ASSIS, 1954, p.29). Na verdade foram necessários pelo menos cem anos de independência política para que no Brasil surgisse certa maturidade no campo literário. O indianismo romântico, por exemplo, não representa um olhar nacional sobre as coisas do Brasil. É, contudo, uma simbiose de primitivismo brasileiro com um perfil europeu de humanidade. Assim, uma literatura que pretendia o estritamente nacional tornou-se naquilo que não queria ser, ou seja, contaminada pela visão externa. A obra de Lima Barreto, por sua vez, inaugura uma fase mais madura da literatura nacional em que temas brasileiros são abordados de forma mais apropriada e, começa-se a fazer, o que os modernistas chamaram de antropofaguíssimo, ou seja, uma apropriação adequada do conhecimento europeu, relacionando ao estilo brasileiro. 51 impertinente requerimento de troca linguística de Quaresma. Os românticos, sobretudo, estavam engajados no projeto de uma narrativa identitária para a nação brasileira, através da qual, ícones culturais brasileiros, eleitos por eles, eram cantados e disseminados na memória social como representantes da verdadeira brasilidade e das origens da nação. Nesse sentido, o indianismo foi a principal faceta do romantismo em se estabelecer uma imagem bem específica do caráter nacional brasileiro no que se refere ao povo. Na base de todo o nacionalismo estava uma origem antiga, da qual cada povo herdaria sua especificidade e singularidade. O caráter nacional brasileiro, no entanto, para estabelecer-se efetivamente tinha como desafio desvincular, ao menos em parte, do colonialismo português. Assim, o índio, como habitante mais antigo dessas terras, foi eleito como ícone cultural do Brasil pelo romantismo. Se todo o nacionalismo necessita de história ou de passado, o nacionalismo brasileiro logo depois da independência precisava encontrar um passado independente da história colonial, pois este era comum com Portugal. E Portugal era, na época, o inimigo, a nacionalidade de que a brasileira precisava distinguir-se (LEITE, 2007, p.225). O indianismo foi acima de tudo uma proposta ideológica. A eleição do índio como ícone nacional passa pela exclusão do negro para compor a raça brasileira. Escolhendo-se o índio, justificava-se a escravidão negra e rejeitava-se, paradoxalmente, a figura real do índio uma vez que o indianismo louva a imagem idealizada do índio cujas virtudes provêm de um padrão europeu. O índio foi, no romantismo, uma imagem do passado e, portanto, não apresentava nenhuma ameaça à ordem vigente, sobretudo à escravatura. Os escritores, políticos e leitores identificavam-se com esse índio do passado, ao qual atribuíam virtudes e grandezas; o índio contemporâneo que, no 52 século XIX como agora, se arrastava na miséria e na semiescravidão não constituía um tema literário. Finalmente a ideia de que o índio não se adapta à escravidão servia também para justificar a escravidão do negro, como se este estivesse feliz como escravo. [...] A desadaptação do índio teve duas explicações: uma, o seu espírito de liberdade e sua coragem; outra a sua preguiça. No romantismo predominou a primeira (LEITE, 2007, p.226). É nesse contexto que surge a poesia de um Gonçalves Dias e a prosa de um José de Alencar, por exemplo. Na obra desses autores destaca-se a imagem nobre de um índio incontaminado com os vícios dos quais era vítima a sociedade europeia. Assim pinta-se a imagem de um “bom selvagem” para caracterizar, no mito, a origem do povo brasileiro. Associada às virtudes morais desse índio idealizado, conjugava-se a força física, que fazia dele um tipo quase invencível, uma espécie de super-homem do suposto medievo brasileiro. Os autores românticos, portanto, pretendiam criar uma entidade humana superior ao homem europeu.33 Mas estavam criando uma aberração. Uma espécie de Frankstein34 indígena e europeu.35 Barreto critica o indianismo romântico em Triste Fim também através do requerimento de Quaresma a respeito da troca do Português pelo Tupi. A eleição 33 Roncari afirma sobre o indianismo: Tal realização implicava também e principalmente a construção de um novo ponto de vista e de uma nova visão do indígena, apreciado agora menos como uma realidade racial que como outra realidade ética e cultural, distinta da europeia. A partir daí, o indígena surgiria não como um ser humano abaixo do europeu (como “bárbaro” ou “selvagem”) nem na mesma altura como aparece em Basílio ou, como vimos,na carta de Caminha, mas acima, já que não fora contaminado pelos males da civilização. A nova poesia deveria ser feita a partir da perspectiva dos índios, já que ética e culturalmente estariam mais aptos a julgar o branco europeu que estes a eles (RONCARI, 2002, p. 365). 34 Alencar usa o terrível exemplo a seguir, defendo o papel do índio idealizado que ele criou como símbolo da identidade nacional brasileira, sob a crítica de que essa alegoria é insustentável: “Chateaubriand no Gênio do cristianismo achou uma fonte na poesia inesgotável descrevendo a delicadeza da maternidade no jacaré em um réptil monstruoso e disforme” (COUTINHO, 1980, p. 18858). 35 A observação de Meyer é conciliatória, mas não deixa denunciar a incoerência alencariana e romântica no que diz respeito ao indianismo: “Eu, por mim confesso humildemente que não vejo indígenas na obra de Alencar, nem personagens históricos, nem romances históricos; vejo uma poderosa imaginação que transfigura tudo, a tudo atribui sentido fabuloso e não sabe criar senão dentro de um clima de intemperança fantasista” (ALENCAR, 1979, 185-80). 53 do índio pelo romantismo, como Leite ensina acima, não representa um louvor ao índio real. Trata-se de uma criação ficcional romântica toda embebida de pressupostos europeus. Com o caso do requerimento, Barreto quer mostrar que a inadequação do índio idealizado como ícone nacional equivale, guardadas as devidas proporções que a caricatura comporta, a alguém propor a troca do Português pelo Tupi. Seria ingenuidade e loucura. Era disso que Lima Barreto estava acusando os intelectuais românticos brasileiros. O romantismo propôs-se a consolidar uma memória social distintivamente nacional, mas não se apercebeu que esse nacionalismo não era verdadeiro. O país não estava maduro para isso, tampouco a literatura brasileira estava. É importante observar o paradoxo instalado na estética romântica: o estilo de narrar os fatos e descrever as coisas buscava a verossimilhança, mas o que se narrava e, sobretudo, a base temática sobre a qual se fundamentava a narrativa, a saber, o nacionalismo, não encontrava lastro na realidade. Imaginação: esse era o ponto de partida. Os autores românticos não tinham uma idade média brasileira36 na qual poderiam buscar uma tradição nacional. Nesse sentido, foi necessário imaginar, readequando a imagem do índio, e outros elementos de cunho regionalista, aos padrões de uma identidade nacional, que pudesse ser reconhecida como especificamente brasileira e, ao mesmo tempo, 36 “Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.” Assim Alencar refere-se ao nascimento de Iracema. A repetição do além, embora utilizado num contexto, espacial parece sugerir uma ideia de atemporalidade, como se autor, quisesse reportar a mente do leitor a um passado muito longínquo, a saber, a suposta idade média brasileira, interrompida pela civilização europeia, prefigura pelo estrangeiro que penetra a floresta em que Iracema está. 54 digna de ser exaltada.37 O recurso da imaginação adapta-se bem ao caráter emocionalista do romantismo e, principalmente, com a necessidade de se criar uma identidade nacional tendo como base a ilusão. Esse recurso, na visão romântica, além de ajudar a fundar o mito de nacionalidade brasileira, ajudaria, em alguma medida, a minorar o choque com a realidade difícil da nação brasileira, funcionando como uma espécie de fuga da realidade. Sobre isso, Teves afirma: “O imaginário, ao contrário, por sua lógica própria, tudo justifica e suporta, e serve como alívio à tirania do real” (TEVES, 2002, p. 65). De fato, prevaleceu na formulação brasileira de nacionalismo um forte fator imaginário. O nacionalismo europeu38, também foi produzido pela imaginação, de acordo com Anderson (ANDERSON, 2008), no entanto buscou suas raízes culturais em um passado mais concreto do que aquele a que se refere o 37 Como não havia uma história prévia, como na Europa, por exemplo, nem lendas e tradições que soassem como originais, a intelectualidade romântica precisou se valer da imaginação. Daí o indianismo pode enxertar valores morais europeus no índio brasileiro, fazendo dele um herói nacional e pai dessa nação. Daí, os poetas românticos puderem enxergar qualidades na fauna e na flora brasileira, que sob a visão deles, não seriam igualadas em lugar nenhum fora daqui. Imaginação foi a mola propulsora para se formar a base sobre a qual foi estabelecido o mito de nacionalidade brasileiro. Figueiredo a respeito disso, disserta: “Pela imaginação, o homem liberta-se do seu presente imediato, explorando todas as possibilidades que virtualmente existem. Nesta perspectiva, o futuro pode se configurar como uma nova dimensão acrescentada à realidade de uma vida melhor, de liberdade e superação, enfim” (FIGUEIREDO, 1998, p 22). 38 “Ignorando despreocupadamente alguns fatos-extra europeus evidentes, o grande Johann Johann Gottfried von Heder (1744-1803) declarou no final do século XVII: “Denn jedes Volk ist volk; es hat seine National Bildung wie seine Sprache” [assim cada povo é um povo; tem a sua formação nacional como a sua língua]. Essa concepção esplendidamente europeizada da condição nacional [nation-ness] vinculada à propriedade privada da língua teve enorme influência na Europa oitocentista e, mais estritamente, na teorização posterior da natureza do nacionalismo. Quais foram as origens desse sonho? Muito provavelmente elas residem na profunda retração temporal e espacial do mundo europeu que se iniciou no século XIV, provocada a princípio pelas investigações dos humanistas e depois, paradoxalmente, pela expansão mundial da Europa” (ANDERSON, 2008, p. 108). 55 nacionalismo brasileiro.39 Até porque a Europa tem uma pré-história a que se reportar, diferentemente do caso brasileiro. A aplicação desse modelo nacionalista europeu à realidade brasileira gerou muitas contradições e incoerências no cotidiano nacional. Assim a “cara” do Brasil projetada pela ideologia nacionalista de nossos intelectuais do século XIX maquiava as discrepâncias da realidade do Brasil em face da proposta de uma nação culturalmente distinta. Para se fundamentar pertinentemente o mito do estado nacional brasileiro 40,não havia um passado imemorial onde se buscar lendas e tradições específicas, não havia uma raça homogênea nem mesmo uma língua estritamente brasileira. Essas contradições estão na base do desconforto de Lima Barreto em relação ao Brasil que seus olhos enxergavam, pois permitiam toda a sorte de desmandos, 39 Sem contar que o fator- língua por aqui já, por si só, poderia causar certo mal-estar ao nosso nacionalismo pelo motivo de esta ser “importada” do colonizador, o que evidencia a natureza surreal do sonho da especificidade cultural brasileira. 40 Hall aponta como presentes na narrativa dos estados nacionais cinco elementos inerentes. São eles: 1- A narrativa da nação. São as histórias, estórias, folclores e demais elementos simbólicos que dão coesão ao tecido nacional, unindo-o, e enchendo-o de significado. 2- Ênfase nas origens, na continuidade, tradição e na intemporalidade. Aqui se aponta a imemorial origem da nação, o fato de ele ser em si mesma independentemente de intempéries e o fato de que a nação continuará sendo com o passar dos anos. 3- A invenção da tradição. Inventam-se tradições que aparentam antiguidade, mas que são recentemente produzidas com propósito político. 4- Mito fundacional: “uma estória que localiza a origem da nação, do povo e de seu caráter nacional num passado tão distante que eles se perdem nas brumas do tempo, não do tempo ‘real’, mas de um tempo mítico.” (HALL, 2006, p. 55) 5- Pureza étnica. Ênfase na singularidade biológica do povo, estabelecendo-se miticamente um elo congênito entre as pessoas, como se fizessem parte de uma grande e numerosa família. O conceito de nação é moderno. Foi produzido para acomodar os ideais da modernidade. Benedict Anderson apresenta a identidade nacional como “comunidade imaginada”. Essa definição remete ao caráter simbólico que permeia esse conceito “A lealdade e a identificação que, numa era pré-moderna ou em sociedades mais tradicionais, eram dadas à tribo, ao povo, à religião e à região, foram transferidas, gradualmente, nas sociedades ocidentais, à cultura nacional. As diferenças regionais e étnicas foram gradualmente sendo colocadas, de forma subordinada, sob aquilo que Gellner chama de ‘teto político’ de estado-nação, que se tornou, assim, uma fonte poderosa de significados para as identidades culturais modernas” (HALL, 2006, p 49). 56 discriminações e exclusões na busca de uma determinação cultural do Brasil.41 A análise das incoerências entre o mito e realidade leva Lima Barreto a questionar o que se postulava como verdade no que diz respeito ao Brasil como uma pátria. A partir desses questionamentos, Barreto faz uso da ficção; para da ilusão de ser fruto de uma nação nascida imemorialmente, nação esta que no mito se consolida através de uma heroica independência, descortinar trágica e paradoxalmente caricaturada a realidade de incertezas e fracassos que gestam o Brasil. Isso explica a estratégia literária de Lima Barreto em Triste Fim. O autor parte da ilusão ufanista, através de um personagem caricaturadamente embebido com a ideologia nacionalista, para descortinar paulatinamente a realidade nacional, por meio do desencantamento que o quixotesco personagem tem à medida que, na tentativa de comprovar na prática sua ideologia, verifica o contrário. O trajeto crítico de Lima Barreto se constrói da ilusão à realidade em Triste Fim de Policarpo Quaresma. Essa abordagem de Barreto pretende criticar a postura ufanista da intelectualidade brasileira de seu tempo, especialmente os românticos, (cuja influência ainda permanecia de alguma forma entre os intelectuais da geração de Barreto) que são prefigurados no burlesco personagem. 41 A relevância sociológica de Triste Fim reside exatamente no fato de que seu autor, Lima Barreto, rompe bruscamente com a imaginação e verifica a realidade nacional nua e crua sem a mediação do mito. Além disso, ele é capaz de traduzir isso em forma de uma caricatura quixotesca, que pela ingenuidade descortina a realidade nacional, tal como enxergava Lima Barreto. 57 3.2 O BOVARISMO Um dos objetivos críticos de Lima Barreto em Triste Fim é vincular o ufanismo romântico reminiscente ente os intelectuais de seu tempo ao espírito ufanista presente na primeira república. Assim o autor relaciona dois importantes campos de atuação humana (literatura e política), fazendo visualizar o diálogo entre ambos. Nesse sentido, em Triste Fim, na tentativa de traduzir o ufanismo da república, Barreto vai se utilizar de um conceito chamado de bovarismo. Esse termo é derivado de uma análise presente na obra de Jules Gaultier, que tomando por base o princípio fantasioso presente na vida da personagem de Flaubert, Ema Bovary, cria uma categoria de interpretação do comportamento humano, que é readequado socialmente por Lima Barreto em relação à república.42 Lima Barreto vê, no espírito presente na república, o princípio do bovarismo. Esse conceito é expresso largamente em Triste Fim, mimetizado em Policarpo Quaresma, o qual representa uma intelectualidade que paulatinamente vai acordando de seu bovarismo, pondo-se em choque com a república, a quem, na visão de Barreto, interessava uma intelectualidade “embriagada” com um nacionalismo descabido43. 42 “O bovarismo, diz seu autor, é um livro que não visa instituir nenhuma reforma, se aplica à matéria que os homens, mais que nenhuma outra espécie, acreditam marcar, eles mesmos, uma forma; trata da evolução da humanidade, isto é, dos modos de mudança nesta parte do espetáculo fenomenal em que o fato da consciência parece atribuir ao ser que sofre a modificação, como o poder de dar causa, o dever de dirigir. Sob essa ilusão, a vontade humana acredita intervir no turbilhão de causas e efeitos que a envolvem. A constatação, a verificação do fato, tende na linguagem a se formular em regra geral, porque a ilusão do fato, engendrada pelo reflexo da atividade na consciência, é tão forte que domina as formas da linguagem. [...] O Bovarismo é o poder partilhado no homem de se conceber outro que não é” (BARRETO, 1956, p. 93). 43 “Conforme a própria natureza do seu modo de pensar e criar, Lima Barreto faz uma aplicação social desse conceito. A jovem república estava toda imersa em atitudes bovaristas. Aliás, a sua própria fundação fora decorrência de uma atitude bovarística: a fé incondicional na fórmula republicana mais que isso, na palavra república, tomada como panaceia que resolveria todos os males do país. [...] Mas, considerando os próprios grupos intelectuais, tidos como dotados de maior capacidade crítica, a 58 Dessa maneira, Barreto está, com o livro, expressando uma advertência aos intelectuais de seu tempo, no sentido de fazê-los acordar para os desmandos políticos que se cometiam na república, que estavam sendo legitimados por uma postura intelectual descomprometida com os reais temas sociais que interessam o país. O bovarismo, de alguma maneira, contaminou a política nacional ou foi usado por esta para justificar suas posturas. Assim, percebe-se que a “metralhadora” crítica de Barreto, além de atingir os intelectuais com a caricatura de Quaresma, pretende também “detonar” o bovarismo político instalado no país, que vendia uma imagem triunfalista da república como solucionadora definitiva de todos os problemas da sociedade brasileira. Isso faz perceber uma adequação do tema ufanista da literatura romântica para os âmbitos da política nacional. Desse modo, fica evidente o papel de crítico social desempenhado por Lima Barreto. Não se tratava apenas de uma abordagem estética e uma insatisfação com um modo ingênuo de literatura. O autor está relacionando a literatura a uma estrutura concreta e fazendo perceber o diálogo pragmático que há entre o campo artístico (especificamente a literatura) e a política. emergência do novo regime arrojou-os numa militância nacionalista destemperada, de teor louvaminheiro e ufanista, embebido do mesmo otimismo ingênuo dos escritores gongóricos e dos poetas românticos. É a figura que vem admiravelmente caricaturada na cândida personagem do major Policarpo Quaresma. Ora, esse ufanista bovarista, assim como o cosmopolitismo, era outra forma de se alienar do país, só que parecendo que se estava fazendo exatamente o contrário. Era um efeito de fachada ou o cosmopolitismo às avessas. O único modo de vencer ambos era pelo desenvolvimento da consciência crítica e da inteligência capaz de imaginar alternativas. De fato, essa passagem do ufanismo à lucidez crítica resume a própria trajetória do major Quaresma, símbolo de uma intelectualidade que reformula suas posturas. Ela implicava sobretudo uma mudança na forma de olhar, exigindo que se saísse das páginas dos livros e da cultura letrada, das tribunas, das bibliotecas e dos gabinetes, para um contato direto com a realidade do país, sua natureza, sua gente, seus campos, suas cidades”(SEVCENKO, 2003, p. 212). 59 4TRISTE FIM, TEXTO E CONTEXTO A proposta deste capítulo é tomar o livro Triste Fim de Policarpo Quaresma de perto e visualizar nele a percepção da crise paradoxal da identidade nacional brasileira percebida por Lima Barreto, expressa no texto dessa obra. Parte-se do pressuposto que o livro em questão fornece um vislumbre diferenciado da realidade nacional que retrata, apresentando-a de uma maneira que só a literatura produzida por um intelectual atento como Lima Barreto pode traduzir.44 Triste Fim de Policarpo Quarema revela, de maneira muito vívida, a ambiguidade em que estava imersa a sociedade brasileira do início do século XX, sobretudo sob a interpretação do que seria o Brasil por parte de seus mais influentes intelectuais em face do que a realidade nacional apresentava. O personagem principal, major Policarpo Quaresma, é um indivíduo quixotescamente patriótico. Trata-se de um ufano nacionalista, que foi forjado pela criatividade de Lima Barreto para ser uma caricatura de uma vertente da intelectualidade estabelecida no final do século XIX e início do século XX, cujas obras legitimavam a república ou, então, não a criticavam. No final do livro, refletindo sobre a origem do patriotismo do personagem, e ao mesmo tempo, criticando essa intelectualidade com a alusão ao “silêncio de se gabinete”, o narrador diz-nos: A pátria que quisera ter era um mito, era um fantasma criado por ele no silêncio de seu gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava existir, havia (BARRETO, 2004, p. 225). A passagem acima é direta em resumir todo o pensamento de Lima Barreto a respeito de como foi formada a visão ufanista que Policarpo Quaresma teve sobre o Brasil, como também, de alguma forma, menciona as partes principais em que o amor à pátria do personagem principal concentrou-se e sua consequente desilusão com essa mitológica ideia de nação. 44 “A literatura oferece uma imagem simbólica ou metafórica privilegiada de situações e vivências que raramente estão presentes nos textos de análise política e sociológica” (OLIVEIRA, 1990, p.95). 60 O personagem foca-se em três áreas ou esferas da vida brasileira: cultural, econômica e política, às quais o narrador refere-se na passagem acima, quando apresenta a desilusão do protagonista frente ao fracasso em verificar seu ufanismo patriótico na prática, fora de sua biblioteca. A pretensão deste capítulo é apresentar, à luz de selecionadas passagens do livro, a crítica à intelectualidade nacionalista e ufanista estabelecida nos dias de Barreto. Essa crítica foi construída através de uma ficção satírica e burlesca, a qual tem como alvo concreto os intelectuais estabelecidos como também o regime republicano, legitimado pelo tom nacionalista impregnado na intelectualidade brasileira do início do século XX, que se baseava em reminiscências nacionalistas, provindas do romantismo. Para isso, será feita uma espécie de exegese do texto selecionado, relacionando-o a seu ambiente social e literário. A metodologia seguida foi examinar o livro Triste Fim de Policarpo Quaresma à luz das palavras-chave da citação acima, (referentes aos três projetos nacionais de Quaresma), sobretudo aquelas que se referem à formação do mito de nacionalidade na mente do personagem central (relação disso com a formação do mito de nacionalidade brasileira), a saber, física, moral, intelectual e política. Tais aspectos encontram forte eco no pensamento de Quaresma, quando no auge de sua empolgação, formulava algumas intervenções para tornar o Brasil a nação mais poderosa da Terra. Diz o narrador onisciente sobre o pensamento do Major em relação à pátria: “Tinha todos os climas, todos os frutos, todos os minerais e animais úteis, as melhores terras de cultura, a gente mais valente, mais hospitaleira, mais inteligente e mais doce do mundo – o que precisava mais?” (BARRETO, 2004, p. 34). O patriotismo de Quaresma era sincero e ingênuo. Tudo o que ele desejava era conhecer profundamente o Brasil que amava para propor melhorias em sua administração, levando-o a ser aquilo que deveria, de acordo com o mito inconsciente que acalentava em relação à pátria. A citação que escolhemos para ser a base para este capítulo menciona o fato de Policarpo Quaresma viver uma ideia de Brasil que não se verificava na realidade. 61 Essa sua visão foi baseada em seu ingênuo patriotismo e previamente verificada por ele em sua biblioteca. Na verdade, o critério que Quaresma utilizou para montar sua biblioteca foi o tema brasilidade. Todos os autores que mencionassem o Brasil e elogiassem-no de alguma maneira estariam em sua coleção. O que ele pretendia com isso era conhecer ainda mais o seu país para assim poder “apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa” (BARRETO, 2004, p. 22).45 Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: o Bento Teixeira, da Prosopopeia; o Gregório de Matos, o Basílio da Gama, o Santa Rita Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionais ou nacionalizados de oitenta pra lá faltava nas estantes do Major. De história do Brasil, era farta a messe: os cronistas, Gabriel Soares, Gandavo; e Rocha Pita, Frei Vicente do Salvador, Armitage, Aires do Casal, Pereira da Silva, Handelmann (Genchte von Brasilien), Melo de Morais, Capistrano de Abreu, Southey, Varnhagem, além de outros raros ou menos famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riquezas! Lá estavam Hans Staden, o Jean de Léry, O Saint-Hilaire, O Martius, o Príncipe de Neuwied, O John Mawe, o von Eschwege, o Agassiz, Couto de Magalhães e se encontravam Darwin, Freycinet, Cook, Bougainville e até o famoso Pigafetta, cronista de viagem de Magalhães, é porque todos esses últimos viajantes tocavam no Brasil, resumida ou amplamente. (BARRETO, 2004, p. 21) As obras presentes na biblioteca de Quaresma podem ser divididas nas seguintes seções: Literatura, História e Ciências, relacionadas à formação do imaginário nacionalista, romântico e idealizado. Essas áreas do conhecimento, de alguma maneira, fazem eco às partes da nacionalidade brasileira que Policarpo foca em sua pesquisa, isto é, física moral, intelectual e política, relacionando-se com os três projetos intervencionistas que ele protagonizou. 45 “Silvano Santiago estabelece uma relação entre a base – a biblioteca – e a motivação do personagem – o patriotismo. O estudo e a reflexão de Policarpo se fazem em torno de uma ‘brasiliana’ convencional organizada segundo o espírito patriótico. ‘O espírito do jovem patriótico se casa com o espírito da biblioteca patriótica, armando um sistema tautológico cuja única função é o amor à pátria. Este amor exclusivo e tirânico, xenófobo, é o que legitima a ânsia de reformas (...). Este aspecto reformista, autoritário e conservador do seu pensamento, baseado que estava nos valores tradicionais perpetuados pela brasiliana, já vinha anunciado no nome do autor da epígrafe, o historiador francês Renan, responsável por idêntica campanha na Terceira República francesa” (OLIVEIRA, 1990, p.97). 62 O narrador dá algumas ênfases interessantes na descrição da biblioteca de Quaresma. Quando menciona José de Alencar, coloca, entre parêntesis ,a palavra todo. O mesmo se verifica em relação a Gonçalves Dias. Esses dois autores são notadamente reconhecidos como cantadores do patriotismo brasileiro e grandes nomes do nosso romantismo, que foi o principal responsável por divulgar a noção de uma pátria singular brasileira. De passagem, o narrador também cita nomes da literatura brasileira como Porto Alegre e Gonçalves Magalhães. O segundo escreveu Saudades, livro com o qual introduziu o romantismo no Brasil. Alguns dos autores mencionados também compuseram o quadro de intelectuais do Instituto de Histórico e Geográfico Brasileiro, órgão do império criado para explicar a nacionalidade brasileira. Fica evidente, portanto, que a crítica ao nacionalismo que Barreto pretendeu em sua obra focaliza-se na base intelectual que o gestou, ou seja, no romantismo e nos outros saberes que interagiram no sentido de legitimar uma visão ufanista do nacionalismo brasileiro. Barreto quer deixar claro que esses intelectuais fecharam os olhos para a realidade e pintaram um Brasil irreal e mítico. Lucia Lippi Oliveira explica o processo de construção do mito de nacionalidade brasileira na mente de Policarpo Quaresma, com o propósito de lançar luz a respeito da crítica que Lima Barreto faz a uma intelectualidade cientificista, que escreve presa em uma “torre de marfim” sem considerar a realidade nacional efetivamente: Policarpo constrói seus sonhos de forma semelhante. Para chegar a sugerir as reformas constitucionais, para começar a cultivar a terra, para tentar as novas formas de cultivo, sua ação é antecedida de criterioso estudo. O conhecimento das teorias, das técnicas, da maquinaria informa cada esforço de Policarpo. Este procedimento corresponde àquela visão ilustrada e cientificista, marcante desde o final do século XIX, na qual predominava a ideia de que o saber e o conhecimento podem mudar o mundo. Por outro lado, há o insucesso de cada empreendimento. O que Lima Barreto no diz é que a vida cotidiana é muito mais complexa e difícil do que a que aparece nos compêndios. O autor mostra o personagem iludido pelo conhecimento abstrato e de “gabinete”. O caso de Policarpo Quaresma é exemplar do insucesso cientificista. Lima Barreto, a partir de sua história pessoal, e escrevendo em um tempo distinto, revela as insuficiências deste saber e constrói seu personagem como uma figura quixotesca, cheia de propósitos e sonhos irreais (OLIVEIRA, 1990, p. 100). 63 Assim, a caricatura de Barreto, Quaresma, é um arquétipo da intelectualidade que propôs uma mitologia nacionalista incoerente com verdadeira realidade do que seria o Brasil, baseando-se em pressupostos cientificistas e descolados da realidade prática. Toda essa crítica de Barreto pretende tornar clara a realidade excludente que reinava em seu tempo. Seu livro é um grito ao país, tentando fazê-lo acordar de um sonho sem lugar, que invertia a ordem das coisas, anuviando a percepção do real e permitindo que os desmandos de uma elite ficassem sem paga, pois estavam escondidos por detrás de uma esperança sem lastro. O mito nacional elogiava o país sob muitos aspectos. No entanto, Barreto pinça três nuances exaltadas no imaginário social brasileiro, preconizadas pelo romantismo, para desconstruir o patriotismo ufanista, de que se prevalecia, de acordo com seu ponto de vista, a elite dominante nacional: a questão cultural, a questão física e a questão política. Como exemplo para a questão cultural, o autor cria o caso da famigerada proposta de mudança da língua nacional; para a questão econômica, temos o caso da empreitada agrícola de Quaresma e para a questão política, o envolvimento do personagem com o exército com o propósito de combater em favor da república. Esses três empreendimentos intervencionistas de Quaresma serão analisados aqui em diálogo com o contexto que o gerou, evidenciando a crítica social e intelectual que Barreto pretendeu. 64 4.1 A QUESTÃO CULTURAL Havia um ano a esta parte que se dedicava ao tupi-guarani. Todas as manhãs, antes que a “Aurora, com seus dedos rosados abrisse caminho ao louro Febo”, ele se atracava até o almoço com o Montoya, Arte y dicionario de la lengua guaraní ó más bien tupí, e estudava o jargão caboclo afinco e paixão (BARRETO, 2004, p. 23-24). Dentre os aspectos culturais trabalhados por Barreto em Triste Fim, destacamos a questão do requerimento para a troca da língua nacional. Esse episódio dá base para uma crítica mordaz e satírica do autor tendo como alvo direto a intelectualidade romântica que pretendeu uma exaltação exagerada do índio, como o propósito de torná-lo o ícone da cultura brasileira, tornando, também, independente a literatura nacional, por meio de um suposto tema e metáforas exclusivamente brasileiras. O capítulo Desastrosas consequências de um requerimento apresenta um episódio que dá um rumo determinante para a narrativa, pois começa a demonstrar à personagem principal a loucura de suas proposições, deixando clara a sátira caricata que o autor pretendeu contra os intelectuais nacionalistas de sua época. No período posterior à proclamação da independência do Brasil, firmou-se grande interesse na legitimação de uma cultura genuinamente brasileira. Nesse sentido, o império financiou pesquisas culturais com o propósito de se produzir material que pudesse dar impressão de singularidade nacional. O IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) foi uma instituição fundada e financiada pelo império com o propósito de fomentar estudos que interpretassem o Brasil e dessem um aspecto específico e nacional para o país que estava em sua infância. O que se pretendia, na verdade, era legitimar o poder imperial estabelecendo uma história nacional que encadeasse eventos cuja culminância seria o império. Logo, fica evidente que todas essas pesquisas estavam fortemente contaminadas com um viés político, que visava favorecer o império como modelo político adequado à cultura brasileira. Nesse sentido, os estudos sobre os índios protagonizaram no cenário romântico, uma vez que estes foram considerados como pais da nação. A preocupação, no entanto, não era produzir uma história indígena, mas sim formular uma história 65 oficial para o país, que remontasse a uma origem antiga, tendo a figura do índio como germe original da cultural brasileira. O índio que foi considerado como base da cultura brasileira nunca existiu. Essas pesquisas, no entanto, queriam evidenciar que num passado distante os índios viveram no Brasil longe da corrupção e que, por isso, os vícios que foram vistos no indígena por ocasião da chegada do colonizador europeu refletiam um estado de degeneração da cultural indígena. O propósito era justificar a eleição do indígena como ícone da cultura nacional, frente à contra argumentação de que o índio era muito discrepante do modelo virtuoso que se queria para a raça brasileira. As pesquisas do IHGB que se focaram na questão linguística do índio foram na mesma direção.46 Estas apontavam o estado de corrupção da linguagem indígena ao longo do tempo em relação ao seu estado primitivo de pureza. Portanto, as pesquisas apontavam para o fato de que a “verdadeira” língua indígena deveria, de alguma forma, ser resgatada visto que era perfeitamente adequada ao tipo humano brasileiro e para a descrição natural. Com esse objetivo em vista, o IHGB financiou uma série de pesquisas cujo foco central esteve na questão linguística do indígena. Essas pesquisas influenciaram grandemente a literatura dos dois grandes ícones do indianismo Gonçalves Dias (membro e pesquisador do IHGB) e José de Alencar.47 46 A posição romântica, defendida pelo IHGB partia do princípio de que: “No Brasil, o idioma nacional de hoje veio do estrangeiro, imposto pelo conquistador de ontem, para desgraça de todo e qualquer vernáculo indígena” (VANNUCCHI, 1999, p. 38). 47 Leite, comentando e ecoando o argumento de Gonçalves Dias a respeito da inserção de brasileirismos na literatura, diz: “É absurdo que a linguagem se imobilize, e o povo é o juiz daquilo que é correto ou merece ser preservado. Se os brasileiros vivem em outro ambiente geográfico e social, se enfrentam outra realidade, precisam de outras palavras para exprimi-la. Além disso, observa a influência da língua tupi no português do Brasil e sugere que, embora Gregório de Matos tenha utilizado brasileirismos, só os fez com intenção satírica” (LEITE, 2007, p. 229). Sobre Alencar, ele acrescenta: “As observações de Alencar são um pouco mais amplas, embora se liguem aos estereótipos românticos já mencionados. Muito a propósito, essas observações acompanham Iracema, onde Alencar tentou algumas inovações: ‘Verá realizadas nele minhas ideias a respeito da literatura nacional; e achará aí poesia inteiramente brasileira, haurida na língua dos selvagens’. Alencar confessa que desejava fazer poesia com a transposição de imagens da língua indígena, e que Iracema seria uma experiência em prosa. No segundo artigo, Alencar discute não apenas o processo de composição, mas também a transformação da língua portuguesa no Brasil. Inicialmente, observa, como Gonçalves Dias, as interferências do ambiente e das raças que se cruzavam no Brasil. Mas além do vocabulário, nota que também o ‘mecanismo da língua’ já se modificou e continuará a modificar-se” (LEITE, 2007, p. 229). 66 Basicamente, a literatura incorporou uma leitura dos documentos imperiais sobre os índios da costa e suas línguas e ainda as fontes sobre a língua geral do fim do século XVIII e início do século XIX, na qual se desenvolveu uma nova interpretação baseada na inter-relação entre raça, história e língua. Isto é particularmente importante na obra dos dois maiores escritores românticos, Gonçalves Dias e José de Alencar (RODRIGUES, 2002, p. 38). Gonçalves Dias48 já era considerado um importante escritor indianista quando em, 1858, publicou alinhado com essa perspectiva, o Dicionário de língua tupi chamada língua geral dos indígenas do Brasil. Nesse livro, Dias apresenta um retrato de uma suposta língua tupi que teria existido num passado remoto, mas que não se verificava mais em seus dias. A proposta do dicionário vai na mesma direção de sua obra poética, isto é, apresentar uma imagem exaltada da raça indígena (no caso do dicionário, a linguagem), com o propósito de tecer uma história brasileira, cuja origem baseia-se em um indígena puro e de altos ideias. O dicionário pretendeu, portanto, retratar uma língua tupi em estado puro, determinada por uma civilização pura e digna de estar na base histórica de uma nação que pretendia a singularidade e a superioridade, como era o caso do Brasil. O dicionário de Gonçalves Dias tem como objetivo retratar uma língua que não existia mais para dar base para uma espécie de ressurreição dessa linguagem, que funcionaria como uma espécie de museu linguístico das origens imemoriais do Brasil. Nesse aspecto, o dicionário segue uma lógica já presente nos poemas de Dias, cuja finalidade era louvar um utópico indígena e sua linguagem para compor a história da origem da nação brasileira. 48 Falando de Gonçalves Dias como autor do Dicionário, Rodrigues explica a trajetória da obra do indianista, dividindo-a em duas partes que não se excluem: “O seu autor já era um literato laureado quando publicou o dicionário. Enquanto a maior parte da sua produção poética fora escrita entre 1843 e 1851, as décadas seguintes foram mais dedicadas a outras atividades. Em 1851 foi ao Ceará, Maranhão e Pará encarregado pelo governo de inspecionar a educação pública e inspecionar e recolher documentos nos arquivos provinciais. Em 1852 escreve o estudo antropológico e histórico Brasil e Oceania. Entre 1854 e 58 viaja para a Europa, mais uma vez encarregado pelo governo de coletar material referente ao Brasil em arquivos das principais capitais do continente, aproveitando a estadia na Alemanha para reeditar parte de sua obra e o próprio Dicionário. Apesar dessa divisão cronológica de sua carreira, não há contradição entre seus interesses. As duas facetas são complementares. Seus poemas, base de sua posição no pequeno mundo literário da época, revelam um alto grau de interesse pela história colonial e leitura das fontes dos séculos XVI, XVII e XVII” (RODRIGUES, 2002, p. 39). 67 Dessa forma, tanto por seus muitos poemas indianistas, como pelo dicionário, Dias pretendeu ser a voz de uma cultura indígena extinta. Já que o indígena que o indianismo retrata não existia mais, a literatura romântico-indianista seria o corpus em que essa linguagem teria vida. Assim, o personagem central do indianismo de Dias não é o índio em si, mas o Tupi. Este sim é largamente retratado e louvado. Os indígenas, que aparecem nos poemas, são apenas o meio através do qual o Tupi pode ser expresso. Nesse sentido, portanto, a característica cultual que o indianismo de Gonçalves Dias destaca no índio brasileiro é a linguagem, a qual ele vai relacionar com a ideologia nacional que o romantismo está preconizando. Daí a forte ênfase em termos e expressões indígenas presentes em sua obra, os quais vão infiltrar-se largamente na língua portuguesa do Brasil, como nomes de lugares, mas, sobretudo para nomear a natureza. Os romances indianistas de José de Alencar foram acusados de propor uma nova língua para o Brasil49. Alencar alinha-se ao projeto nacionalista brasileiro promovendo uma readequação linguística do Português às características linguísticas regionais, sobretudo com foco em termos, expressões e alguma diferença sintática, que soasse estritamente nacional por associação à língua indígena. Alencar baseava-se na premissa de que “a língua é a nacionalidade do pensamento como a pátria é a nacionalidade do povo. (ALENCAR, s.d, p. 327).” O propósito de Alencar era o de estabelecer uma literatura que influenciaria a língua nacional, separando-a de sua matriz portuguesa. A respeito disso ele diz, aludindo a sua própria obra e respondendo a críticas: O gênio por isso mesmo que paira em uma esfera superior, pode atravessar uma época sem que ela o compreenda, nem mesmo o conheça; mais adiante está a posteridade que o vinga. Ora se em vez de avançar para o futuro, ele retrai-se ao passado, que há de o ler e apreciar? Os túmulos das gerações 49 “Devido sobretudo aos ataques recebidos do historiador português Manoel Pinheiro Chagas, do filósofo Antônio Henrique Leal, e do escritor Franklin da Távora, o romancista acabou por expressar uma série de opiniões sobre a realidade linguística brasileira e sua relação com a literatura. Ao fazer isso, Alencar repetiu o modelo de um tupi morto para dar lugar a um português adaptado ao meio americano” (RODRIGUES, 2002, p. 110). 68 transidas? Eis porque o gênio pode criar uma língua, uma arte, mas não fazêla retroceder (ALENCAR, s.d, p. 327). O texto acima mostra claramente a consciência que Alencar tinha do propósito de sua obra e responde a crítica de sua inadequação ao estilo clássico português com a presunção de originalidade. O autor salienta (o que é mais importante nessa citação) sua finalidade de criar uma língua nova, que fosse adequada às novas gerações, e adaptada ao verdadeiro espírito do brasileiro. Ele acrescenta: E como podia ser de outra forma, quando o americano se acha no seio de uma natureza virgem e opulenta, sujeito a impressões novas ainda não traduzidas para as quais ainda não há verbo humano? Cumpre não esquecer que o filho do Novo Mundo recebe as tradições da raça indígena e vive ao contato de quase todas as raças civilizadas que aportam as suas plagas trazidas pela imigração (PINTO, 1978 p. 75). Os críticos atacaram veementemente essa pretensão de José de Alencar, acusando-o de desconhecer as regras gramaticais e engendrar na língua portuguesa, de forma forçada, aspectos nacionalizantes, criando uma aberração linguística. Joaquim Nabuco, um dos mais ácidos, diz, literalmente: Esta literatura indígena tem certa pretensão a tornar-se a literatura brasileira. Sem dúvida quem estuda os dialetos selvagens, a religião grosseira, os mitos confusos de nossos indígenas, presta um serviço à ciência e, mesmo à arte. O que porém é impossível, é querer-se fazer do selvagens a raça de cuja civilização a nossa literatura deve ser o monumento. Nós somos brasileiros, não somos guaranis; a língua que falamos, ainda é o Português. Com o tempo, com a influência lenta, mas poderosa do meio exterior, há de se tornar cada vez mais sensível a divergência que começa de manifestar-se entre a nossa literatura e a de Portugal. São precisos porém séculos para que se venha falar no Brasil uma língua diversa da portuguesa; o Sr. J. Alencar deseja encurtar esse prazo, e quer por si só criar uma língua nacional que se possa adaptar os órgãos da fala (COUTINHO,1965, p. 210). Nabuco fala contra a obra de José de Alencar, mas toda essa crítica pode ser aplicada perfeitamente a Policarpo Quaresma no caso do requerimento em que propôs a troca do Português pelo Tupi. Na caricatura de Barreto, vemos o desejo do protagonista de abruptamente, por meio de um requerimento ao congresso, trocar a Língua portuguesa pelo Tupi sob o argumento de que esta é mais adequada aos órgãos da fala do brasileiro. 69 A partir dessa compreensão fica clara a crítica de Lima Barreto ao inserir no início do romance o evento do requerimento de Quaresma, que focalizou diretamente os dois mais importantes autores românticos brasileiros. Gonçalves Dias, um elegíaco do Tupi, e Alencar, proponente de uma nova língua para o Brasil aproximada do Tupi, enquadram-se como a substância real de onde a caricatura Policarpo Quaresma recebe a inspiração, no que tange ao nacionalismo romântico50, relacionado a questões linguísticas.51 A discussão sobre a língua nacional ocupou lugar de destaque na crítica que Lima Barreto fez ao ufanismo brasileiro.52 Policarpo Quaresma estava plenamente convencido da singularidade nacional, no entanto o aspecto da língua causava desconforto em sua mente nacionalista.53 Não conseguia conceber a ideia de uma nação que toma emprestada a língua de outra, especialmente, porque, segundo seu ponto de vista, havia nuances da natureza nacional que não podiam ser perfeitamente 50 Nesse sentido, a linguagem assumiu um papel fundamental, porque esta, de acordo com uma premissa romântica, é um atributo natural de um povo. Sendo assim, precisa ser exaltada como ícone de uma suposta identidade nacional. “O nacionalismo expandiu-se no espírito da literatura nacional e nas tradições populares como se eles tivessem surgido sem definições políticas, lealdades ou comoções. O nacionalismo interpretou a linguagem como um dom da nação” (ROSSENSTOCK, 2002, p. 180). 51 Dheher pondera sobre o tipo de nacionalismo que se formou no Brasil: “O nacionalismo brasileiro era totalmente distinto do europeu. Na Europa, o nacionalismo se fundamentava nos valores do passado, na América do Sul, porém, tomava sua substância da esperança do futuro. Nesse tipo de nacionalismo orientado no futuro a língua passa a ter significado todo especial. Ela é elemento de ligação em uma nação em formação, na qual os diversos grupos étnicos não têm passado comum" (DREHER, 2001, p. 31). Essa citação tem uma relação estreita com o caso da proposição de um novo idioma para o país, como também com as outras intervenções de Quaresma. O livro deixa claro que o ufanismo da personagem central baseia-se nas potencialidades da nação. Policarpo não está com os olhos no passado brasileiro, até porque não havia um passado glorioso para ser o lastro dessa nação. Ele olhava para o futuro, crendo que as potencialidades nacionais adormecidas e entravadas por algumas questões como a língua, por exemplo, se tornariam em uma realidade gloriosa no futuro. Isso é que alimentava o ufanismo de Quaresma. Depreende-se, portanto, que é a respeito disso que Barreto quer alertar o povo brasileiro através de sua ironia. 52 “No caso do requerimento, a ironia se une ao pessimismo uma vez que esse exemplo ridículo a respeito de algo completamente improvável evidencia que a esperança em um futuro promissor para este país é falsa. “Lima Barreto não deixa de fazer uma reflexão sobre as ideias de povo e pátria que fundamentavam as correntes políticas de sua época." Essa reflexão é central no romance e surge também na sua crônica, na sátira e no seu diário íntimo. Toda a agonia do herói Quaresma centra-se na falsidade de uma noção de pátria e na conscientização de uma outra noção, agora ancorada na vivência dos entraves, necessidades, limitações e inferioridades do Brasil real. Quaresma se deixa velar pelo discurso ufanista de raízes românticas e pela doutrinação republicana, progressista e positivista do seu momento” (GERMANO, 2000, p. 32). 53 “Ao procurar as tradições, Policarpo se defronta com muitos elementos de origem estrangeira, sendo necessário, portanto, descobrir uma criação genuína de nossa terra. É nessa busca que ele se volta para o estudo dos tupinambás, dos códigos tupis. Este movimento culmina com a petição do major solicitando que o Congresso que o tupi-guarani seja declarado a ‘língua oficial e nacional do povo brasileiro’’ (OLIVEIRA, 1990, p. 98). 70 descritas por outra língua que não fosse puramente nacional. No requerimento ao congresso, Policarpo diz literalmente: O suplicante, deixando de parte os argumentos históricos que militam em favor de sua ideia, pede vênia para lembrar que a língua é a mais alta manifestação da Inteligência de um povo, é a sua criação mais viva e mais original; e portanto, a emancipação política do país requer como complemento e consequência sua emancipação idiomática. Demais, senhores Congressistas, o tupi-gurani, língua originalíssima, aglutinante, é verdade, mas a que o polissintetismo das múltiplas feições de riqueza, é a única capaz de traduzir as nossas belezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se aos nossos órgãos vocais e cerebrais, por sua criação de povos que aqui viveram e ainda vivem, portanto possuidores da organização fisiológica e psicológica para que tendemos, evitando-se dessa forma as estéreis controvérsias gramaticais, oriundas de uma difícil adaptação de uma difícil adaptação de uma língua de outra região à nossa organização cerebral e ao nosso aparelho vocal- controvérsias que tanto impedem o progresso da nossa cultura literária científica e filosófica (BARRETO, 2004, p. 62-63). Quaresma pondera sobre adequação ao aparelho vocálico, organização cerebral e capacidade de traduzir em texto a natureza local. Essas situações referem-se à crença de que a linguagem é algo distintivo de um povo e que faz parte de sua natureza peculiar, crença que foi amplamente difundida nos círculos românticos e nas pesquisas linguísticas do IHGB. Na realidade, a mente ufanista de Quaresma não conseguia compreender como o índio seria um ícone nacional e o país não utilizasse o Tupi. Para ele, algo estava errado em relação a isso. Ele, portanto, pretendeu corrigir esse equívoco, que poderia ser o entrave para o sucesso nacional, sob sua perspectiva. E, por isso, com base em uma pesquisa no Tupi, propõe a mudança de língua no Brasil. A tentativa romântica de inserir na literatura os chamados brasileirismos como também o louvor à língua tupi são objeto da sátira de Barreto ao criar uma trágicocômica situação em que Quaresma produz um requerimento em que pede a troca de idiomas. Logicamente, trata-se de uma caricatura que Barreto faz em relação à postura do romantismo que exaltou a língua indígena com propósitos nacionalistas. Assim, o que ele quer é mostrar a incoerência de acreditar na singularidade nacional brasileira. Era como se dissesse: não é dessa maneira que se constrói um país. Não é dando jeitinhos em símbolos que não fazem sentido. O país precisa acordar e enxergar sua realidade de frente sem a mediação de códigos culturais inapropriados. 71 O desenrolar desse episódio evidencia a loucura de tal empreendimento, gerando transtornos para Quaresma e muitas piadas em relação àquilo que foi considerado crassa loucura: A suspeita de que Quaresma estivesse doido foi tomando foros de certeza. Em princípio o subsecretário suportou bem a tempestade; mas tendo adivinhado que o supunham insciente no tupi, irritou-se, encheu-se de uma raiva surda, que se continha dificilmente. Como eram cegos! Ele há trinta anos estudava o Brasil minunciosamente, ele que em virtude desses estudos, fora obrigado a aprender o reverbativo alemão, não saber tupi, a língua brasileira, a única que o era – que suspeita miserável! Que o julgassem doido- vá! Mas que desconfiassem da sinceridade de suas afirmações, não! E ele pensava, procurava meios de se reabilitar, caía em distrações, mesmo escrevendo e fazendo a tarefa quotidiana. Vivia dividido em dois: uma parte nas obrigações de todo o dia, e a outra, na preocupação de provar que sabia o tupi. (BARRETO, 2004, p. 70). É interessante observar que a causa da ira de Quaresma não foram as pilhérias nem a acusação de loucura. O que o indignou foi a insinuação de que não soubesse o Tupi. Seu nacionalismo foi ferido e isso ele não podia suportar. A situação do personagem até então já era um prenúncio de sua loucura, mas esta ainda não havia se consolidado. A consolidação de seu surto veio, mediante a tradução de um ofício, em seu trabalho na burocracia do governo federal, para o Tupi, complemente, o qual foi encaminhado a um ministério. O secretário veio a faltar um dia e o major lhe ficou fazendo as vezes. O expediente fora grande e ele mesmo redigira e copiara uma parte. Tinha começado a passar a limpo um ofício sobre as coisas de Mato Grosso, onde se falava em Aquidauana e Ponta Porã, que o Carmo disse lá do fundo da sala, com acento escarninho: - Homero, isto de saber é uma coisa, dizer é outra. Quaresma nem levantou os olhos do papel. Fosse pelas palavras em tupi que se encontravam na minuta, fosse pela alusão do funcionário Carmo, o certo é que ele insensivelmente foi traduzindo a peça oficial para o idioma indígena. [...] O diretor não reparou, assinou e o tupinambá foi dar ao ministério (BARRETO, 2004, p. 70-71). 72 Obviamente esse documento redigido em Tupi causou sérios problemas para Quaresma uma vez que “o ministro [...] devolveu o ofício e censurou o arsenal” (BARRETO, 2004, p. 71), local onde Policarpo trabalhava. Assim, a loucura de Quaresma estava consolidada tanto por suas atitudes como pela avaliação das pessoas à sua volta. O hospício foi seu destino, onde ficou por quase um ano. Assim fica evidente que a crítica de Barreto à questão linguística do indianismo é contundente. O autor que deixar clara a ideia de que a singularidade nacional brasileira, defendida pelos intelectuais românticos a partir da idealização do índio, só pode ser considerada loucura. Gozação deveria ser a reação crítica e esses intelectuais que deveriam ser encaminhados para um “hospício intelectual”. 73 4.2 A QUESTÃO ECONÔMICA Faz parte do imaginário nacionalista a suposta superioridade brasileira no que diz respeito à sua multifacetada agricultura e fertilidade singular do solo. Remonta à carta de Pero Vaz de Caminha, em sua descrição minuciosa da visão do paraíso que tivera aqui, a exaltação da fertilidade da terra brasileira. “E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”.54 Quaresma, depois de um período de reclusão no hospício, devido às consequências nefastas de seu primeiro projeto, parte para a sua segunda empreitada nacionalista: provar que no solo brasileiro, conforme Caminha já havia escrito, tudo dá. Para isso, adquire um sítio, cujo nome – “Sossego” – será uma clara antítese com as consequências dessa nova empreitada nacionalista. Quaresma, em sua ingenuidade nacionalista, estava convencido de que a terra brasileira era a melhor do mundo e que, através dela, o país poderia definitivamente tornar-se uma poderosa potência econômica, independente de qualquer outra nação. E foi obedecendo a essa ordem de ideias que comprou aquele sítio, cujo nome – “Sossego” – cabia tão bem à nova vida que adotara, após a tempestade que o sacudira durante quase um ano. Não ficava longe do Rio e ele o escolhera assim mesmo maltratado, abandonado, para demonstrar a força e o poder da tenacidade, do carinho, no trabalho agrícola. Esperava grandes colheitas de frutas de grãos, de legumes; e do seu exemplo nasceriam mil outros cultivadores, estando em breve a grande capital cercada de um verdadeiro celeiro, virente e abundante a dispensar os argentinos e europeus (BARRETO, 2004, p. 91). Quaresma, embebido por seu nacionalismo, aventurou-se pela agricultura com o propósito de louvar o Brasil, dando assim um exemplo que, em sua visão, seria seguido por outros, no sentido de tornar o país um potência econômica. 54 Carta de Pero Vaz de Caminha, disponível em www.biblio.com.br, acessado em 15 de novembro de 2012. 74 Seguindo seus pressupostos, ele parte para essa empreitada, baseando-se em uma pesquisa bibliográfica específica, e de uma taxionomia da fauna e flora em que estava trabalhando. Os azares de leituras tinham-no levado a estudar as ciências naturais e o furor autodidata dera a Quaresma sólidas noções de Botânica, Zoologia, Mineralogia e Geologia. Não foram só os vegetais que mereceram as honras de um inventário; os animais também, mas como ele não tinha espaço suficiente e a conservação dos exemplares exigia mais cuidado, Quaresma limitou-se a fazer o seu museu no papel, por onde sabia que as terras eram povoadas de tatus, cutias, preás, cobras variadas, saracuras, sanãs, avinhados, coleiros, tiês, etc. A parte mineral era pobre, argilas, areia e, aqui e ali, um blocos de granito esfoliando-se. Acabado esse inventário, passou duas semanas a organizar a sua biblioteca agrícola e uma relação de instrumentos meteorológicos para auxiliar os trabalhos da lavoura. Encomendou livros nacionais, franceses e portugueses, comprou termômetros, barômetros, pluviômetros, higrômetros, anemômetros (BARRETO, 2004, p. 93). A partir dessa citação, percebe-se que o viés da crítica de Barreto na segunda empreitada nacionalista de Quaresma é a mesma da empreitada anterior, isto é, os intelectuais nacionais, que embebidos do ufanismo nacionalista brasileiro, fecham os olhos para os reais problemas do país. Nesta parte, entretanto, ele tem em mente intelectuais de outros saberes e não apenas os literatos do romantismo. Certamente, um dos intelectuais mais diretamente alcançados por esta crítica foi Afonso Celso, que escreveu Por que me ufano do meu país, livro todo dedicado a ser uma portentosa elegia ao Brasil, no sentido de fazê-lo parecer a nação mais poderosa da terra. Nesse livro, Celso apresenta uma série de razões pelas quais o povo Brasileiro deve se ufanar do país, sobretudo, o autor foca-se nas riquezas que a terra brasileira pode oferecer aos seus filhos. Com relação, às riquezas nacionais, produzidas pelo cultivo do solo, Celso diz: 75 É exato. As facilidades naturais do Brasil, porém, já estão sendo exploradas e sê-lo-ão fatalmente, em grau condigno da sua importância, sob a pressão inevitável da necessidade e da concorrência. A luta pela vida cada dia se torna mais áspera no velho mundo. O Brasil é imenso repositório de recursos, inexaurível arsenal para os industriosos, refúgio sem igual aberto aos necessitados.55 Quaresma parece uma crassa caricatura de Celso. A citação acima poderia facilmente compor os devaneios nacionalistas de Policarpo. No entanto, são produto da pena de um escritor engajado na construção do mito de nacionalidade brasileira, através do louvor, irrestrito, a essa pátria. Celso segue, de forma mais contundente ainda: Por conseguinte é incontestável a superioridade econômica do Brasil, material e moralmente aquilatada. Tudo nele tende a crescer, a subir. Nenhum perigo sério lhe ameaça o desenvolvimento, nenhuma chaga o corrói, como acontece à Europa, sob o receio permanente de uma guerra, e minada, como também os Estados Unidos, pela extrema riqueza e pela extrema indigência, fontes de invejas e desprezos. No balanço geral do Brasil, figura esta verba compensadora de quaisquer desfalecimentos: Futuro!56 Os intelectuais ligados ao IHGB, como parece óbvio devido à sua proposta, não se excluem de louvar a terra brasileira no que respeita a agricultura. A citação abaixo é peremptória em relação a isso: A natureza sábia e provida concebeu a estes terrenos pouco capazes de criar as melhores proporções para a agricultura. Tudo isso quanto neles se planta produz com fertilidade e abundância; tem imensas matas, e nesta paus para a construção de casas e serrarias e tabuados; produzem quase todas as frutas da Europa, e isto sem arte pois que as terras apenas são aradas com arado de pau se ferro, de onde se colige qual seria a sua produção se fossem beneficiadas e preparadas como na Europa (SILVA, p. 1840, p. 156). O texto acima é uma produção de nossa geografia incipiente, financiada pelo IHGB, no sentido de estabelecer uma identidade nacional brasileira com foco na superioridade geográfica do Brasil. 55 56 Afonso Celso, versão ebook, disponível em www.ebooksbrasil.org/eLibris/ufando.html Idem citação anterior. 76 Gonçalves Dias, membro do IHGB, não deixa de aludir à geografia nacional em seu célebre poema A Canção do Exílio. Ao longo de todo o poema, tem-se a repetição do ufanista “Minha terra tem”, através de que o autor louva o Brasil e sua superioridade. Nas duas primeiras estrofes, fica clara a referência ao aspecto geográfico: Minha terra tem palmeiras Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores.57 Para essa louvada terra pelos românticos, Barreto reservou uma dura decepção de Quaresma. A vivência de Policarpo com a agricultura revelou-se incoerente com a sua biblioteca. Havia muita coisa entre o sonho ufanista de independência econômica pela agricultura e a realidade; desde políticas públicas e fiscais emperradas pela burocracia e vontade política a elementos naturais reais como enormes saúvas, que acabaram com a colheita do personagem principal do romance. Quaresma ouviu uma bulha esquisita, como se alguém esmagasse as folhas mortas das árvores.... Um estalido... E era perto... Acendeu um fósforo e o que viu, meu Deus! Quase todas as laranjeiras estavam negras de imensas saúvas. Havia delas às centenas, pelos troncos e pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se andavam como em ruas transitadas e vigiadas a população de uma grande cidade; umas subiam, outras desciam, nada de atropelos, de confusão, de desordem. [...] Agora via que era a uma sociedade inteligente, organizada, ousada e tenaz com que se tinha de haver. Veio lhe 57 Duas primeiras estrofes de A Canção do Exílio de Gonçalves Dias. Acessado em www.horizonte.una,.mx/brasil/gdias.html 77 então a lembrança aquela frase de Saint-Hilaire: se não expulsássemos as formigas, elas nos expulsariam (BARRETO, 2004, p. 137). A crítica de Barreto, portanto, mais uma vez contundentemente, bate na perspectiva ufanista e ilusória da intelectualidade brasileira que pretendeu louvar a nação brasileira a partir de suas supostas características superiores, sem levar em conta aspectos da vida prática da nação, que faziam esbarrar o desejado progresso. Nesse episódio Barreto alude também à pesada carga fiscal que repousava sobre o produtor rural e à corrupção política que emperrava o progresso. Por rejeitar apoiar veementemente o partido de um político na campanha local, Quaresma recebeu uma intimação grotesca: Em virtude das posturas e leis municipais, rezava o papel, o Senhor Policarpo Quaresma, proprietário do sítio “Sossego” era intimado sob as penas das mesmas posturas e leis a roçar e campinar as testadas do referido sítio que confrontavam com as vias públicas (BARRETO, 2004, p. 141). Quaresma não podia acreditar no que estava lendo. Essa intimação tornava ainda mais difícil sua empreitada agrícola, porque, além de esbarrar nas dificuldades naturais, como as formigas, por exemplo, Quaresma agora se confrontava com um problema mais sério: a corrução política, que agora vitimava a sua ingenuidade. Acrescido a isso, estava a pesada carga fiscal, que onerava violentamente o bolso do produtor, tirando todo o incentivo para a economia agrícola. Em relação a isso, o narrador observa, ecoando um incipiente despertar da consciência crítica de Quaresma em relação ao ufanismo nacional, que tudo justificava no Brasil: A quarenta quilômetros do Rio, pagavam-se impostos para se mandar ao mercado umas batatas? Depois de Turgot, da Revolução, ainda havia alfândegas interiores? Como era possível fazer prosperar a agricultura, com tantas barreiras e impostos? Se ao monopólio dos atravessadores do Rio se juntavam as exações do Estado, como era possível tirar da terra a remuneração consoladora? E o quadro que já lhe passara pelos olhos, quando recebeu a intimação da municipalidade, voltou-lhe de novo, mais tétrico, mais sombrio, mais lúgubres; e anteviu a época em que aquela gente teria de comer sapo, cobras, animais mortos, como na França os camponeses, em tempos de grandes reis (BARRETO, 2004, p. 143-144). A efetivação da crítica dá-se no insucesso óbvio da empreitada agrícola por motivos políticos, fiscais e naturais – as formigas. Essa composição bate fortemente na pressuposição romântica de magnificência da geografia nacional, e do homem 78 que nela trabalha, mostrando que a terra não é tudo o que o imaginário romântico propagou e nem havia vontade política para sustentar algum progresso da economia nacional através da agricultura. Esse episódio, portanto, cria o pano de fundo para a última empreitada ufanista de Quaresma: seu envolvimento direto com questões políticas. 79 4.3 A QUESTÃO POLÍTICA Quaresma veio a recordar-se do seu tupi, do seu folklore, das modinhas, das suas tentativas agrícolas – tudo isso lhe pareceu insignificante, pueril, infantil. Era preciso trabalhos maiores, mais profundos; tornava-se necessário refazer a administração. Imaginava um governo forte, respeitado, inteligente, removendo todos esses óbices, esses entraves, Sully e Henrique IV, espalhando sábias leis agrárias, levando o cultivador... Então sim! O celeiro surgiria e a pátria seria feliz. A desilusão de Quaresma com a economia, associada com as desilusões anteriores o fizeram, num gradual processo de tomada de consciência, a se engajar num projeto maior, de consequências mais amplas que, ainda em sua perspectiva utópica, daria lastro real para os outros empreendimentos nacionalistas. Percebe-se o personagem caminhando para a plena desilusão com o nacionalismo, quando se propõe engajar num projeto intervencionista em relação à política nacional. Imediatamente após sua desilusão com a economia agrícola, Quaresma toma conhecimento da Revolta Armada58, promovida pela marinha contra Floriano e a república: Abriu o jornal e logo deu com a notícia de que os navios da esquadra se haviam insurgido e intimado o presidente a sair do poder. Lembrou-se das suas reflexões de instantes atrás; um governo forte, até à tirania... Medidas agrárias... Sully e Henrique IV... Os seus olhos brilhavam de esperança. Despediu o empregado. Foi ao interior da casa, nada disse à irmã, tomou o chapéu, e dirigiu-se à estação. Chegou ao telégrafo e escreveu: “Marechal Floriano, Rio. Peço energia. Sigo já. – Quaresma” (BARRETO, 2004, p. 144). Assim o personagem desiste do empreendimento agrícola e parte para uma missão mais nobre: defender a república brasileira e legitimar o governo de 58 “A Revolta Armada iniciou-se em setembro de 1893 e findou em março de 1894. Começou o conflito o almirante Custódio de Melo, derrubador de Deodoro, no dia 23 de novembro de 1891, e, portanto, o principal instrumento da subida de Floriano Peixoto à chefia do Governo. O almirante teria tentado repetir o primeiro gesto, não encontrando, no entanto, as mesmas condições de sucesso. [...] Segundo Francisco de Assis Barbosa (1981), Lima Barreto tinha doze anos nessa época e estudava como interno no Liceu Popular Niteroiense. Todos os sábados, um empregado das Colônias dos Alienados, Zé da Costa, ia buscá-lo para passar o final de semana com a família na Ilha do Governador. Durante o período em que a família estava lá domiciliada, a ilha foi ocupada por marinheiros rebelados. Sabendo da ocupação, o menino escrevia ao pai cartas apreensivas, onde descrevia a influência da guerra sobre as atividades escolares e lamentava a interrupção prolongada de suas viagens à ilha” (GERMANO, 2000,p. 33). 80 Floriano Peixoto, no sentido de que este tivesse autonomia e autoridade para consolidar no Brasil, na prática, a sua identidade gloriosa. Mais uma vez a verve crítica de Lima Barreto está dirigida aos intelectuais brasileiros que legitimavam a república e à própria república que, na visão de Barreto, não foi um regime adaptado à cultura brasileira e marcado acentuadamente pela corrupção. A respeito disso, diz Nicolau Sevecenko: Se buscarmos compreender agora a visão de mundo transmitida pela produção intelectual do autor de Policarpo Quaresma, encontraremos como dado primordial a mesma concepção de inversão da realidade já apontada alhures. Também para ele o advento da República promoveu uma insólita elevação da incapacidade e da imoralidade, à custa da marginalização dos verdadeiros homens de valor. [...] Essa era, pois, a concepção mais ampla que o escritor tinha do seu tempo: o país estava entregue “à desmoralização nas mãos dos medíocres”, enquanto “os expoentes da intelectualidade eram considerados como mediocridades”. O Brasil constituía portanto a própria “República dos Buzundangas” ou “Reino de Jambom, espécies de sociedades bizarras, onde os valores e as referências operavam às avessas (SEVECENKO, 2003, p. 224). Sevecenko resume o pensamento de Barreto em relação à sua postura política. O autor era definitivamente contra a república e usou a sua literatura em oposição ao regime. Em relação à república, Barreto diz: Nunca houve tempo, em que se inventassem com tanta perfeição tantas ladroeiras legais. A fortuna particular de alguns, em menos de dez anos, quase que quintuplicou; mas o estado, os pequenos burgueses e o povo, pouco a pouco, foram caindo na miséria mais atroz (BARRETO, 2005, p.297). Embora fosse um intelectual altamente atento às questões políticas, Barreto não engajava-se diretamente nesta, fazendo da literatura sua arma política combativa. Nesse sentido, pode-se entender sua crítica ao envolvimento descabido do ilusório 81 intelectual Quaresma nos meandros da política. Para ele, portanto, era por meio da militância artístico-intelectual que o país alcançaria seus melhores dias: Destaca-se neste contexto o papel excepcional reservado às autênticas capacidades intelectuais no seio da sociedade e no organismo do Estado. De fato, o autor demonstra uma reverência singular pelas aptidões do espírito. “A humanidade vive da inteligência, pela inteligência e para a inteligência”. Assim sendo, da consonância entre o talento genuíno, a probidade moral e o senso prático e utilitário é que deveram despontar as lideranças capazes de recuperar a vitalidade do país e recolocá-lo na senda do seu destino (SEVECENKO, 2003, p. 231). Para Barreto, toda essa inteligência que deveria ser preconizada pelos intelectuais, se fosse usada militantemente seria uma importante via de superação nacional. Essa compreensão, na visão de Barreto, entretanto, encontrava resistência no regime republicano, especialmente durante o governo de Floriano Peixoto, em que, na visão do autor, predominou o autoritarismo e o despotismo. Ele, diz, como narrador de Policarpo Quaresma: Em nome do Marechal Floriano, qualquer oficial, ou mesmo cidadão, sem função pública alguma prendia e ai de que caía na prisão, lá ficava esquecido, sofrendo angustiosos suplícios de uma imaginação dominicana. Os funcionários disputavam-se em bajulação, em servilismo... Era um terror, um terror baço, sem coragem, sangrento, às ocultas, sem grandeza, sem desculpa, sem razão e sem reponsabilidades (BARRETO, 2004, p. 150). Barreto lia toda essa onda de autoritarismo que envolveu a primeira república sob o governo militar, como influência positivista. O autor não via problemas no positivismo filosófico, mas sim à sua aplicação à politica. Sobre os militares e sua influência positivista, Barreto diz, através do narrador de Policarpo Quaresma: Eram os adeptos desse nefasto e hipócrita positivismo, um pedantismo tirânico, limitado e estreito, que justificava todas as violências, todos os assassínios, todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição necessária, lá diz ele, ao progresso e também ao advento do regímen normal, a religião da humanidade, a adoração do grão-fetiche, com fanhosas músicas de cornetins e versos detestáveis, o paraíso enfim, com inscrições em escritura fonética e eleitos calçados com sapatos de sola de borracha!.(BARRETO, 2004, p. 151). 82 É com base neste pano de fundo que surge a crítica política que Barreto faz mediante ao terceiro e último projeto nacionalista intervencionista de Quaresma. O narrador salienta que Quaresma não pode ser tão rápido em se dirigir ao encontro do presidente da república, como havia prometido no telegrama, por motivos de ordem pessoal. Sua irmã, uma espécie de consciência do personagem, o advertira contra a empreitada: Fizera Dona Adelaide mil objeções à sua partida; mostrara-lhe os riscos da luta, da guerra, incompatíveis com a sua idade e superiores à sua força; ele, porém não se deixava abater, fizera pé firme, pois sentia, indispensável, necessário que toda a sua vontade, que toda a sua inteligência, que tudo o que ele tinha de vida e atividade fosse posto à disposição do governo, para então!... oh! (BARRETO, 2004, p.160). O ingênuo intelectual Policarpo Quaresma, nesse contexto, é símbolo de uma intelectualidade que não consegue ler a sociedade de forma plena e está cega para os desmandos que se comentem e, por sua negligência, acaba legitimando um regime autoritário como foi o de Floriano. Com essa situação, Barreto quer criticar essa intelectualidade e justificar sua subversão ao governo estabelecido. Corroborando com esse pensamento, Sevecenko diz a respeito dos intelectuais e dos saberes que estavam interpretando o Brasil na época de Lima Barreto: Daí o desenvolvimento de formas de conhecimento como a história, a filologia, a antropologia, a geografia, a arqueologia, dentre outras, financiadas pelo estado, para justificar a organização uniforme de uma ampla área geográfica com seu respectivo agrupamento humano, legitimado por suas características específicas (raça, história, tradição, meio físico, língua, religião, cultura, caráter psicológico geral); afirmadas, aliás, como superiores às de outros grupos concorrentes. Essa agitação nacionalista consistiria a base ideológica da formação dos Estados-nação. Ela buscaria nas teorias raciais, que passaram então a dominar a área cultural, a sua justificação, e encontraria no militarismo o seu meio de autoafirmação (SEVECENKO. 2003, p. 101). A citação acima evidencia a ligação ideológica entre os pressupostos intelectuais que predominavam na época de Barreto (que estão sendo criticados por ele) e o governo militar. Assim o episódio do encontro de Quaresma com Floriano Peixoto 83 contém uma crítica tanto a essa intelectualidade que legitima o governo militar quanto, mais diretamente, ao presidente da república. Para o encontro com o presidente, Policarpo redigiu “um memorial que ia entregar a Floriano. Nele expunham-se as medidas necessárias para o levantamento da agricultura e mostravam-se todos os entraves, oriundos da grande propriedade, das exações fiscais, da carestia de fretes, da estreiteza dos mercados e das violências políticas" (BARRETO, 2004, p. 161). O memorial de Quaresma revela um quadro interessante da leitura que Lima Barreto fazia dos problemas sociais que interagiam com a economia nacional. Nessa altura da obra encontramos um Quaresma já consciente das limitações brasileiras no âmbito da cultural e da natureza. Ele percebera também a ineficiência do modelo de gestão pública de seus dias e depositava agora todas as suas esperanças nacionalistas na república e em seu presidente, Floriano Peixoto. Quaresma entendera que nas mãos desse homem estava o futuro do Brasil e se dispôs a ajudá-lo nessa tarefa. Percebe-se, portanto, que o nacionalismo de Quaresma estava preso por um fio, mesmo que ele não tivesse consciência disso. A descrição física que o narrador dá do presidente revela uma crítica mordaz e direta ao presidente, carregada de muita ironia e sarcasmo. Todas as características negativas que aparecem na descrição, o narrador, adverte, foram percebidas por Quaresma, mas este resolveu desconsiderá-las, não as relacionando com aspectos de caráter, intelecto e comportamento. Assim o narrador descreve a imagem do general fisicamente: Era vulgar e desoladora. O bigode caído; o lábio inferior pendente e mole a que se agarrava uma grande “mosca”, os traços flácidos e grosseiros, não havia nem o desenho do queixo ou olhar que fosse próprio, que revelasse 84 algum dote superior. Era um olhar mortiço, redondo, pobre de expressões, a não ser de tristeza que não lhe era individual, mas nativa, de raça; e de todo ele era gelatinoso – parecia não ter nervos. Não quis o major ver em tais sinais nada que lhes denotasse o caráter, a inteligência e o temperamento. Essas coisas não vogam, disse ele de si para si (BARRETO, 2004, p. 163). O entusiasmo de Quaresma por aquela figura só podia, portanto, ser justificado pelo seu ingênuo nacionalismo ufanista. Essa sua falta de discernimento, baseada no entorpecimento que a sua ideologia lhe impunha, limitava sua visão de perceber o que o narrador nos diz sobre Floriano: Com ausência total de qualidades intelectuais, havia no caráter do Marechal Floriano Peixoto uma qualidade predominante: tibieza, de ânimo, e no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça comum, essa preguiça de nós todos; era uma preguiça mórbida, como que uma pobreza de irrigação nervosa, provinda de uma insuficiente quantidade de fluido no seu organismo. Pelos lugares que passou, tornou-se notável pela indolência e desamor às obrigações dos seus cargos (BARRETO, 2004, p. 163-164). O narrador continuou a descrever negativamente o presidente, passando para a sua concepção de governo baseado no autoritarismo e na violência como reprimenda àqueles que se lhe opunham. O narrador faz uma observação importante a respeito da percepção de Quaresma que, se lida à luz da representação que Policarpo Quaresma faz dos intelectuais estabelecidos, soa como uma severa crítica a esse grupo: “Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; ele como muitos homens honestos e sinceros do tempo, que foram tomados pelo entusiasmo contagioso que Floriano conseguira despertar” (BARRETO, 2004, p. 166). Após esse encontro com o presidente, Quaresma engajou-se ativamente na guerra e lutou para defender a república dos insurgentes que pretendiam a renúncia de Floriano. Um encontro posterior com o presidente, no entanto, adiantou o processo desilusão que processualmente se dava no interior de Quaresma. Policarpo teve a coragem de perguntar ao presidente se ele havia lido o documento memorial 85 que ele havia escrito. Com a resposta afirmativa, Quaresma empolgou-se em defender as ideias contidas no documento, o que irritou fortemente o presidente, que lhe respondeu o seguinte: “Mas pensa você, Quaresma, que eu hei de pôr a enxada na mão de cada um desses vadios? Não havia exército que chegasse” (BARRETO, 2004, p. 190). Quaresma tentou argumentar, mas enfadou ainda mais o presidente, que na despedida, falou-lhe a frase que definiria muito bem o quixotesco personagem: “Você, Quaresma, é um visionário” (BARRETO, 2004, p. 190). Quaresma permaneceu na guerra, mas esta contribui para consolidar no pensamento do personagem a desilusão com a pátria, sobretudo com a visão ufanista que ele nutriu em relação ao Brasil. Em carta endereçada à sua irmã Adelaide, Quarema diz, a respeito disso, após descrever os horrores da guerra: Além do que, penso que todo este meu sacrifício tem sido inútil. Tudo o que nele pus de pensamento não foi atingido, e o sangue que derramei, e o sofrimento que vou sofrer toda a vida, foram empregados, foram gastos, foram estragados, foram vilipendiados e desmoralizados em prol de uma tolice política qualquer... Ninguém compreende o que quero, ninguém deseja penetrar e sentir; passo por doido, tolo, maníaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com sua brutalidade e fealdade (BARRETO, 2004, p. 214). Finda a guerra e abafada a revolta, Quaresma foi designado como carcereiro na ilha das enxadas onde foram encarcerados os marinheiros insurgentes. Essa função acabou por consolidar definitivamente em seu espírito a plena desilusão com a pátria que se instalara nele. O tratamento miserável dado aos prisioneiros patrícios era demais para aquela alma ingênua e ufanista. Tal situação leva o narrador a descrever o estado de espírito de Quaresma, refletindo sobre sua vida: De resto, todo o sistema de ideias que o fizera meter-se na guerra civil se tinha desmoronado. Não encontrava o Sully e muito menos o Henrique IV. Sentia também que o seu pensamento motriz não residia em nenhuma das 86 pessoas que encontrara. Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos políticos, ou por interesse; nada de superior os animava. Mesmo entre os moços, que eram muitos, se não havia baixo interesse, existia uma adoração fetíchica pela forma republicana, um exagero das virtudes dela, um pendor para o despotismo que os seus estudos e meditações não podiam achar justos. Era grande a desilusão (BARRETO, 2004, p. 219). Como carcereiro, Quaresma testemunhou uma cena horrenda: a escolha aleatória de prisioneiros para a execução, sem julgamento e direito de defesa. Em resposta a isso, Quaresma escreveu uma longa carta ao presidente relatando o ocorrido e exigindo providências. A resposta do presidente veio em forma de prisão, uma vez que o gesto de Quaresma foi interpretado como traição. Preso em seu destino final, Quaresma reflete sobre suas empreitadas intervencionistas nos seguintes termos: O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros. Outra decepção. E quando seu patriotismo se fizera combatente o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a viu matar prisioneiros inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor um encadeamento de decepções (BARRETO, 2004, p. 225). O parágrafo acima antecede o que foi usado como base para este capítulo. Nestes dois parágrafos, observa-se a efetivação da desilusão final e definitiva de Policarpo Quaresma. Toda a construção de Barreto em relação a esse personagem deuse no sentido de compor uma trajetória partindo da ilusão e caminhando progressivamente para a decepção. A caricatura Quaresma é um grito para fazer acordar esse intelectual que ele representa e fazê-lo enxergar a realidade e profetizar um triste fim para aqueles que iludidos com o ufanismo não conseguiriam interpretar corretamente o Brasil. Para esses intelectuais, o narrador, diz: A pátria que quisera ter era um mito, era um fantasma criado por ele no silêncio de seu gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a 87 política que julgava existir, havia. A que existia de fato, era a do tenente Campos, era a do Tenente Antonio, a do homem do Itamarati (BARRETO, 2004, p. 225). Essa declaração sintetiza o pensamento desiludido de Quaresma, pois para ele, em sua desilusão definitiva, o Brasil não podia mais compor o sonho nacionalista que tivera, mas sobrava apenas a corrupção política dos dois tenentes citados e a desatinada violência, que o homem do Itamarati protagonizou na execução dos prisioneiros insurgentes. Fora do seu gabinete e longe de sua biblioteca romântica, Policarpo Quaresma encontrou a dura realidade do que, de fato, era a pátria brasileira e não viu sentido nenhum com os nobres ideais que defendia. Percebeu que, na verdade, tais ideais acabavam por legitimar os desmandos que se cometiam no país, inclusive aqueles dos quais ele estava sendo feito vítima. Fora de seu gabinete, mas movido pelas ilusões obtidas nele, Policarpo Quaresma encontrou o seu triste fim. 88 5 CONCLUSÃO O livro Triste Fim de Policarpo Quaresma é considerado a obra inauguradora do pré-modernismo no Brasil. Sendo lançado em 1915, em forma de folhetins, seu conteúdo inovador e estilo bem diferente daquele que era praticado pelos literatos de até então, fez dele um marco inaugural de uma nova era na literatura brasileira, que se consolidaria definitivamente no movimento modernista de 1922. Nesse sentido, percebemos que Lima Barreto foi bem-sucedido em sua proposta beligerante contra a intelectualidade estabelecida de seus dias, inaugurando uma nova proposta literária no Brasil, fazendo frente à visão romântica e também parnasiana de enxergar a nacionalidade brasileira e antagonizando-se com essas estéticas no que respeita ao estilo de escrever como também sobre os propósitos da obra literária. Cabe perguntar, então: o que fez de Triste Fim esse marco inaugural de uma nova era na literatura nacional? Que aspectos e características dessa obra foram determinantes para que uma nova maneira de se fazer literatura se estabelecesse no Brasil em oposição aos estilos antigos? Em primeiro lugar, é importante destacar o autor de Triste Fim, Lima Barreto. Como foi apresentado no primeiro capítulo, a trajetória de vida de Lima Barreto foi determinante em seu desenvolvimento intelectual. Sua formação outsider, fora dos muros da intelectualidade estabelecida de seus dias, forjou nele os temas e estilos contrários àquilo que se praticava nos círculos intelectuais oficiais. 89 Barreto inaugura uma maneira diferente de retratar a sociedade brasileira. Esse autor subversivo, invertendo a formas e usos correntes, parte da marginalidade social (seus personagens, inclusive Quaresma não fazem parte da nata da sociedade) em direção ao centro, com o propósito de criticar as elites. No caso de Triste Fim, essa crítica às elites está focada nos intelectuais estabelecidos. Essa característica particulariza sua obra literária. A habilidade literária de Barreto em engendrar em sua obra aspectos e cenas do real e do cotidiano e, principalmente, alusões à sua própria vida dão sabor especial aos seus livros. Seu estilo caricatural e irônico, mesclados com sua biografia e com o cotidiano marcam sua obra e permitem que se ressalte sua particularidade. Triste Fim de Policarpo Quaresma é um vigoroso exemplo dessas características autorais de Barreto. Nesse livro, que é considerado sua obra-prima, Barreto, habilmente, tece um panorama satírico da intelectualidade nacional, mimetizada no quixotesco Quaresma, entremeado com situações de sua biografia como a loucura, por exemplo. Todo o texto é carregado com muita ironia e metáforas ácidas as quais tem como alvo direto os figurões da intelectualidade e da política, que estão posicionados na oposição do pensamento de Barreto. Sem dúvida, outro aspecto importante do autor de Triste Fim é sua visão engajada no que diz respeito à literatura. Barreto não via a literatura como apenas fonte de entretenimento e fruição. Para ele, o texto literário é uma importante ferramenta de confrontação social. Na sua visão, o escritor de literatura não deve se eximir de seu papel de interpretativo do real, dando ao leitor uma visão diferente da estabelecida. 90 O contexto social da intelectualidade brasileira em que surgiu Triste Fim ajuda a explicar sua condição precursora e fundadora, por assim, dizer, de uma nova era literária nacional. Miceli (2001) ensina que até o advento do chamado pré-modernismo, no Brasil, não havia um campo intelectual autônomo. Toda a produção intelectual até esse momento era produto de algum engajamento político alinhado com as demandas governamentais estabelecidas. Os intelectuais ditos anatolianos, entre os quais se posiciona Lima Barreto, não produziram sua obra sob a influência de nenhuma ruptura social como a independência, proclamação da república, etc. Desse modo, sua obra produziu-se à margem das demandas governamentais, e, por isso, eles estavam, de certa forma, livres para escrever e criticar com certa autonomia, embora desejassem participar do círculo canônico, como foi o caso de Lima Barreto. É a partir desse contexto que Triste Fim surge. Carregado de todos esses traços, essa obra inaugura uma nova geração em que tanto a forma de escrever como as temáticas abordadas eram diferentes daquelas que até então circulavam no Brasil. A importância dessa obra, portanto, vai além daquilo que lhe é apenas inerente, em termos literários. Ela ajuda a estabelecer o campo intelectual brasileiro, abrindo caminho para uma produção de cultura com certa autonomia em relação a outros campos, especialmente o político. Como se sabe Lima Barreto não viu a consolidação disso, mas lutou conscientemente por isso. Nesse sentido, sua produção intelectual é inaugural à custa de seu martírio intelectual, por assim dizer. 91 A crítica contundente que a obra de Lima Barreto engloba é no sentido de militar contra o diletantismo de alguns literatos da época como Coelho Neto e Afrânio Peixoto, que, de forma infeliz, alcunhou a literatura como “sorriso da sociedade”. O estilo, considerado desleixado, de Lima Barreto em sua obra, inclusive em Triste Fim também é um importante motivo para que sua obra insira-se no prémodernismo, e porque não Triste Fim como obra inaugural desse movimento. O modernismo caracterizou-se, entre outras coisas, pelo desapego à tradição clássica de escrita, preocupada unicamente com valores estéticos e gramaticais sem levar em consideração à temática abordada ou uma melhor contextualização do que se escreve com a maneira como o público leitor assimilaria as obras. O modernismo surge, em 1922, exatamente sob a bandeira de um estilo diferente e contextualizado ao Brasil, rompendo bruscamente com o parnasianismo e satirizando seus principais expoentes como Olavo Bilac, por exemplo. Triste Fim pode ser considerado marco inaugural do Pré-modernismo porque adianta esse estilo modernista. A sátira, a caricatura e a ironia também são elementos altamente explorados pela vanguarda modernistas que estão presentes na obra de Barreto, especialmente Triste Fim. Toda essa ruptura de Lima Barreto como o modus operandi da intelectualidade de seu tempo o permitiu produzir uma obra inaugural altamente contrastante como o que se fazia tradicionalmente em seu tempo. Isso teve um preço para ele, na medida em que além de ser um dos principais protagonistas dessa ruptura, suas condições sociais, econômicas e de saúde, como também a sua boemia associaram-se fortemente ao seu modo subversivo de escrever, legando a ele o não reconhecimento em vida. 92 Ele não viveu para ver sua obra ser considerada precursora de um movimento que alcançou para o campo intelectual brasileiro uma relativa autonomia, dando aos intelectuais certa liberdade para produzir uma obra que não estivesse subordinada a interesses outros, que não fossem literários e sociológicos, ajudando a fundar uma nova tradição para a literatura brasileira.59 É interessante perceber que esse era o desejo precipitado de intelectuais românticos como Gonçalves Dias e José de Alencar, os quais propuseram uma independência da literatura e da cultura brasileira sem que houvesse lastro real para isso. O “escritor maldito”60, no entanto, não acolhido ao cânone intelectual de seu tempo, foi um dos principais responsáveis para uma verdadeira reinvenção da literatura brasileira. 59 Sobre o conceito de invenções de tradições novas ver: HOBSBAWM. Eric e Ranger Terence. A invenção das tradições. São Paulo, 1997. 60 Epíteto atribuído a Lima Barreto. 93 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALENCAR, José de. Iracema –edição crítica. São Paulo: EDUSP, 1979. _______________. Senhora Diva. São Paulo: Dicopel, sd. ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. ARANTES, Marco Antonio. “Loucura e Racismo em Lima Barreto”. Espaço Plural, 22 (2010), p.64. ASSIS, Machado de. Machado de Assis: crítica, notícia da atual literatura brasileira. São Paulo: Agir, 1959. BARRETO, Afonso Henrique de Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Ed. 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ANEXO O Hospício Nacional, onde Lima Barreto foi internado.