OPOVOEMPÉ
apresenta
A Máquina do Tempo
(ou Longo Agora)
patrocínio
apoio institucional
apoio cultural
NOTA DA ORGANIZAÇÃO
1 - ANTES DO TEMPO: ORIGENS
OPOVOEMPÉ
Inquietações Originais
2 - INCORPORANDO O TEMPO
Objetivo do Projeto
Composições
Consígnias
Descrições de Composições
3 - DOS CAMINHOS DA CRIAÇÃO
Por que três? por Cristiane Esteves, direção e dramaturgia
4 - UMA CONTEMPLAÇÃO DA VELOCIDADE
Primeiro Experimento - O Farol
Relato de um espectador
Entre breves, semi-breves e silêncios: aulas de música
Entrevista com João Ildes Piraí, morador de Pinheiros há 63 anos
Entrevista com o historiador Eduardo José Afonso
5 - UMA CONTEMPLAÇÃO DA VIDA E DA FINITUDE
Segundo Experimento - O Espelho
Perguntas do Público
Impressões, memórias e esperanças
6 - COMPARTILHAR UM AGORA
Terceiro Experimento - A Festa
Depoimento de uma espectadora
Habitar o presente: entrevista com Midori Takada
O tempo obrando sua arte: sobre treinamento e invisibilidades
Entrevista com Valdir Afonso
7 - DEVORANDO O TEMPO
Relato participante do Grupo de Estudos - Débora Pinto
Transcrições palestras e grupos de estudo
FICHA TÉCNICA
AGRADECIMENTOS
NOTA DA ORGANIZAÇÃO
O Projeto A Máquina do Tempo (ou longo agora) foi contemplado
pelo Programa de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo, e foi
realizado de junho/2011 a agosto/2012.
Nesse período aconteceram mais ou menos 8 hrs de palestras,
25 hrs de entrevistas, 28 hrs de aulas de música, 30 hrs de treinamentos
abertos, 36 hrs de grupos de estudos orientados, 70 hrs de apresentações,
160 hrs de edição e montagem da trilha, pelo menos 900 hrs de ensaios,
além de inúmeras leituras e incontáveis reuniões!
Ufa!...
Convidamos nesse momento, você, leitor, a compartilhar um
tanto de tudo que foi vivido no breve tempo da leitura das páginas que
seguem.
Como trazer para esse texto a intensidade da experiência vivida e
compartilhada?
Como compartilhar a sensação das tempestades e trovoadas que
faziam o chão da sala de trabalho tremer, deixando as tardes misteriosas
e cheias de uma possibilidade de vida a mais?
Como descrever os momentos em que, durante um treinamento,
o grupo alcançava uma conexão sensível e apurada? Como se os sete
anos de história coletiva adquirissem, naquele instante, uma dimensão
inimaginável e surpreendente?
Como transformar em palavras a experiência das atrizes em revisitar
sua história através da voz de familiares queridos? Como reproduzir a
sensação do público que, por sua vez, era convidado a resignificar sua
própria trajetória a partir da delicada condução das cenas?
Foram muitas as experiências, agrupadas nessa compilação mais
por critérios subjetivos do que em sequência cronológica. Afinal, já
disse o mestre Guimarães, através do sábio Riobaldo: “contar seguido,
alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância (...) Tem horas
antigas que ficaram muito mais perto da gente que outras, de recente
data”...
Nosso convite é para que você entre conosco nessa máquina do
tempo, no desejo de que possa vislumbrar parte desse intenso processo
de pesquisa e criação, e, quem sabe, viajar um pouco pelo tempo, no
tempo, com o tempo...
Vamos lá!
Cinco
onde você está enquanto lê esse texto?
Quatro
enxerga pessoas à sua volta?
Três
a partir de agora, observe se o tempo do outro é o mesmo que o seu.
Dois
seus pés tocam o chão?
Um
uma respiração profunda antes do mergulho.
Tudo viaja no tempo.
Quando terminar de ler esta frase,
você terá viajado no tempo alguns segundos.
1 - ANTES DO TEMPO: ORIGENS
OPOVOEMPÉ. As pessoas em pé nos pontos de ônibus. As pessoas em pé
nas filas. As pessoas em pé, caminhando, em existência ativa, coletiva,
anônima. Nosso OPOVOEMPÉ está sediado no imenso conglomerado
urbano que é a cidade de São Paulo. Para brincar de ser-cidade. Para
brincar de cor, de olho no olho do olho do outro.
O grupo surgiu em 2004 com um trabalho baseado na fisicalidade e
no desenvolvimento do ator-criador no contexto contemporâneo.
A diretora Cristiane Zuan Esteves e as atrizes Ana Luiza Leão, Graziela
Mantoanelli, Manuela Afonso, Paula Possani e Paula Lopez formam o
núcleo permanente de criação.
Desde 2005, OPOVOEMPÉ realiza a Guerrilha Magnética, uma série de
intervenções na rua e em espaços públicos, visando, sobretudo, propiciar
relações mais vivas entre as pessoas e a apropriação do espaço da
cidade. Da Praça da Sé à esquina da Avenida Paulista com Consolação,
foram alvo das intervenções do grupo: supermercados, feiras-livres,
viadutos, estações de trem e janelas de edifício.
O grupo já encheu as ruas com trouxas coloridas, flanelas alaranjadas,
desenhou percursos com giz no chão, ou simplesmente transitou entre
invisibilidade e evento, entre gesto banal e dança do cotidiano. A
Guerrilha Magnética nasceu do desejo de interagir com o potencial
dramático e coreográfico das situações cotidianas. Fazer a “dança do
cotidiano” no cotidiano, falar do homem contemporâneo no contexto da
urbanidade. Baseadas nas dinâmicas da cidade e em sua arquitetura, as
intervenções acontecem em situações de trânsito, consumo e trabalho.
Em 2007, o grupo realiza a montagem de 9:50 Qualquer Sofá, espetáculo
para espaços alternativos e públicos.
Já em 2008, OPOVOEMPÉ participou do UrbanFestival, na cidade de
Zagreb, Croácia, sendo o primeiro grupo latino-americano a participar
desse festival de arte pública, e da Mostra SESC de Artes.
Em julho de 2009, o grupo se apresentou em Munique, Alemanha, onde
apresentou um “work in progress” do espetáculo AquiDentro, além da
intervenção Out Of Key(s). No mesmo ano estreia o espetáculo AquiDentro
AquiFora em São Paulo, sendo contemplado com o Prêmio de Melhor
Ocupação de Espaço da Cooperativa Paulista de Teatro. O espetáculo
faz apresentações em algumas cidades e no Festival Internacional de
Teatro de São José do Rio Preto e entra na lista da Revista Cult como
um dos melhores espetáculos teatrais da década. Em 2010 o grupo é
selecionado no Prêmio Rumos Teatro do Itaú Cultural e desenvolve
pesquisa com o Lume Teatro, de Campinas.
Quantas horas por dia você trabalha?
Quantas horas por dia você fica em deslocamento?
Quantas horas por dia você utiliza algum dispositivo eletrônico? (celular,
computador, internet, telefone, jogos eletrônicos, televisão)
Quantas horas por dia você dorme?
Que atividades você realiza simultaneamente:
- comer e usar o celular?
- dirigir e usar o celular?
- caminhar e usar o celular?
- conversar e usar o celular?
- usar o toalete e usar o celular?
Falta tempo pra quê?
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O tempo voa quando....
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O tempo demora quando....
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Inquietações Originais
O Tempo
O tempo é um aspecto básico da existência humana. O tempo
tem sido matéria da filosofia, da física, da religião, psicologia e da
história. Discutimos a natureza do tempo, nossa percepção do tempo.
Reconhecemos a nós mesmos como seres temporais, através da
consciência do fluxo da vida, de seu início e de sua finitude. Registramos
a passagem do tempo em segundos minutos, horas, dias, meses,
anos, décadas, séculos, eras, como se tudo tivesse lugar numa escala
temporal objetiva. Reconhecemos que nossos processos e percepções
mentais fazem segundos passarem como anos, ou horas agradáveis
passarem com imensa rapidez. Percebemos a relação temporal entre
os eventos, um evento após o outro. Vivenciamos o tempo através das
suas dimensões: a lembrança do passado, a atenção ao presente e a
expectativa de futuro. Em torno do nosso sentido comum de tempo,
organizamos nossas vidas diárias.
Mas recentemente, sentimo-nos na crista de grandes mudanças, num
mundo em que o impulso geral parece ser para frente numa aceleração
vertiginosa do tempo.
Das inquietações diante dessas mudanças, nasce o desejo de questionar
o tempo e nossa relação com ele através deste projeto.
Globalização, Aceleração e Velocidade
“O capitalismo é o senhor do tempo, mas tempo
não é dinheiro.
Isso é uma monstruosidade.
O tempo é o tecido da vida.”
Antonio Cândido
A modernização capitalista buscou acelerar o tempo de produção e
o tempo de circulação de mercadorias. Na análise de David Harvey,
a estrada de ferro e o telégrafo, o automóvel, o rádio e o telefone, o
avião a jato e a televisão e a recente revolução nas telecomunicações
serviram para fazer do mundo um local menor. Assim, passamos a
viver a compressão do espaço (tudo se passa aqui sem distância, sem
diferença, nem fronteiras) e a compressão do tempo (tudo se passa
agora, sem passado nem futuro). A partir do último quarto do século XX,
a velocidade conectou mercados díspares em um chamado mercado
mundial com produtores globais e consumidores globais, regidos pela
descartabilidade e por mudanças rápidas.
Os efeitos dessa velocidade têm se refletido na organização da vida
social e da vida subjetiva. Segundo Franklin Leopoldo e Silva, vivemos
aquilo que é chamado de aceleração do tempo histórico, numa era de
mudanças de caráter abrupto. Ao experimentar a velocidade, sentimos
que tudo depende de acontecimentos que dominamos cada vez menos.
Haveria um comprometimento da “consciência íntima do tempo”. No
próprio ato de representar o tempo, ele nos escaparia pelo acúmulo de
transformações que mal podemos compreender ou controlar.
Era da Informação e o “Tempo Real”
“E quem são os atores do tempo real? Somos todos nós?... A história
é comandada pelos grandes atores deste tempo real, que são, ao
mesmo tempo, os donos da velocidade e os autores do discurso
ideológico. Os homens não são igualmente atores desse tempo real.”
Milton Santos
O que hoje aceitamos como “tempo-real” dos acontecimentos é
um reflexo das telecomunicações instantâneas e das tecnologias de
informação. Essas dissolveram o fluir tradicional de passado, presente
e futuro, e permitiram um mundo definido em termos de contínua “telepresença”. Ironicamente, a antiga idéia filosófica de “viver no presente” é
realizada de fato e em massa por meio de tecnologias comunicacionais.
Mas cabe lembrar que, para Milton Santos, “Na família dos imaginários
da globalização e das técnicas, encontra-se a ideia difundida com
exuberância de que a velocidade constitui um dado irreversível na
produção da história. Na verdade, porém, somente algumas pessoas,
firmas e instituições são altamente velozes.”
Ainda assim, para Marilena Chauí, “é preciso levar em conta como o
poder econômico se apropria desta velocidade. Nosso presente é um
instante de mutação - e mutação drástica, profunda. Sob efeito das
tecnologias eletrônicas de informação, a experiência desconhece
sentido de continuidade e se esgota num presente reduzido a um instante
fugaz - um mundo sem tempo, onde nada passa e nada fica, onde tudo
coexiste sem passado, nem porvir, num presente interminável”.
Para Maria Rita Kehl, paradoxalmente, as mesmas inovações tecnológicas
destinadas a nos poupar tempo de certas tarefas e aumentar o tempo
ocioso, vem produzindo um sentimento crescente de encurtamento
do tempo: “O mandato aproveite bem sua vida, que poderia produzir
alguns efeitos interessantes e criativos, torna-se estéril quando a ideia
de aproveitamento alia-se à lógica da produção, da acumulação e
do consumo. A obsolência do passado e da memória produz um sujeito
permanentemente disponível, pronto a se desfazer de suas referências
em troca das novidades em oferta. Desligado do frágil fio que ata o
presente à experiência passada, voltado sofregamente para o futuro
com medo de ser deixado para trás, o dito “consumidor” sofre com o
encurtamento da duração. Assim se desvalorizam o tempo vivido e os
atos significativos da existência.”
A Questão do Futuro e do Esquecimento
« Que horas são?
-A mesma de sempre. »
Beckett, Fim de Jogo
Frente à sensação de presente absoluto, fica a questão de como vemos
o futuro, lidamos com o passado e vivemos os ciclos. A ausência de
perspectiva de longa duração e de longo prazo causa inquietude.
Segundo Stewart Brand, “A civilização está vivendo em um patológico
estado de atenção curta. A tendência talvez venha da aceleração da
tecnologia, da perspectiva de curto alcance de uma economia voltada
para o mercado, das expectativas das democracias voltadas para as
próximas eleições, ou das distrações das multi-tarefas pessoais. Algum tipo
de mecanismo capaz de contrapor esta visão, a curto prazo, é necessário
- algum mecanismo de longa perspectiva e de responsabilidade a longo
prazo- onde “longo prazo” seja medido no mínimo em séculos.”
O filósofo e arquiteto Paul Virilio analisa: “Quando se trabalha com a
velocidade, trabalha-se com o esquecimento. As tecnologias de tempo
real, as tecnologias da globalização do tempo, trazem nelas mesmas
uma potência de esquecimento, de evasão da realidade, de todas
as realidades. É uma das ameaças do futuro. A perda dos vestígios e a
perda da memória.”
Cinco segundos para lembrar- O que você fez na última quinta-feira?
5
4
3
2
1
Cinco segundos para lembrar- Em quem você votou na última eleição?
5
4
3
…
1
Cinco segundos para lembrar- Como eram as manhãs da sua infância?
5
...
3
2
...
Cinco segundos para lembrar- Qual o nome dos seus avós?
...
4
...
2
...
Cinco segundos para lembrar - Qual o nome dos seus bisavós?
…
…
…
…
...
O Tempo é uma pessoa...
2 - INCORPORANDO O TEMPO
Um dos objetivos do projeto era a criação de um experimento cênico
em três partes. Para isso, o grupo se propôs a desenvolver o mesmo tema
em três experiências temporais distintas, sendo que cada uma das partes
deveria:
- propor uma vivência temporal diferente ao espectador.
- propor uma relação específica com o espectador no que se refere ao
espaço, à função do público e à duração da experiência.
- desenvolver as mesmas questões dramatúrgicas.
As partes da experiência deveriam ser independentes, mas
complementares umas às outras. Poderiam acontecer na cidade, no
espaço público ou em sala fechada. Poderiam ser apresentadas em
conjunto e também de forma independente. Utilizariam os espaços
físicos e recursos que se fizessem necessários no decorrer da pesquisa e
iriam incorporar o espectador como co-criador.
Isso implicou na criação de uma dramaturgia pós-dramática, não
ficcional, com incorporação de elementos da narrativa e do documental
e na criação de formatos de espetáculos porosos à interferência da vida
- real e cotidiana.
Composições
A Composição é um método para criar material cênico original, articular
ideias, momentos e imagens. É um processo de “escritura” colaborativa,
que se faz em ação a partir de demandas específicas da direção.
Apoiado pela pesquisa prévia, o elenco cria cenas curtas, específicas,
referentes a um aspecto particular do trabalho.
Desta forma, estabelece-se o material bruto, o “rascunho” da linguagem
que fará parte do trabalho, levanta-se princípios de encenação e
elementos específicos com que se irá trabalhar.
Ao longo dessa publicação iremos descrever algumas das composições
realizadas pelo núcleo artístico do POVOEMPÉ. Não são descrições
de cenas dos espetáculos, tampouco devem ser entendidas, como a
semente desta ou daquela determinada cena.
As composições são exercícios de criação que sim, podem ser utilizados
posteriormente nos experimentos, mas que, independentemente de sua
“aplicação” direta, tiveram a função de criar possibilidades de utilização
do Tempo em cena, como janelas que nos mostraram paisagens e
combinações possíveis. Como territórios em que pudemos inspirar o
Tempo - no sentido literal da palavra, tornar o Tempo parte dos nossos
corpos, torná-lo espaço e relação, povoar de Tempo nosso imaginário,
dobrá-lo em criação estética.
Essas descrições têm o intuito de compartilhar parte dos tortuosos
caminhos da criação, em que, geralmente, o melhor trajeto entre dois
pontos não é - definitivamente - uma reta.
“O Mistério da Consígnia”
por Cristiane Zuan Esteves, direção.
Depois de anos utilizando a palavra CONSÍGNIA dia após dia de trabalho,
dei um Google. Consígnia não parece fazer parte da língua portuguesa.
Se ela veio comigo, herança da França, sua justeza não me faz desejar
substituí-la por nenhuma outra de meu modesto vocabulário.
Talvez sua força viva em mim impregnada da memória do rigor por
vezes impiedoso dos professores da Ècole Jacques Lecoq, ou dos gritos
retumbantes da mestra Ariane Mnouchkine: “Ecoutez la consigne!”
(Ouça a consígnia). Mesmo se a despirmos de uma suposta autoridade
sábia que a acompanha, é mister respeitar a consígnia. E aí vive todo o
seu mistério.
A tradução da palavra francesa consigne aparece nas páginas de
dicionários como “ordens”, “instruções” ou até mesmo no sentido de
“guarda-volumes”. Há uma tradução com que simpatizo “orientações
ou pressupostos sobre determinado assunto ou atividade que devem ser
seguidos para sua correta execução”. Se bem que a palavra “correta”
não se aplica à criação artística, que é nosso motivo para utilizar
incessantemente esta palavra.
Utilizamos as consígnias para propor dinâmicas, estruturas de improvisação
e, sobretudo, como itens a serem observados na criação de composições.
Uma consígnia é o ponto de apoio de onde se pode dar o salto criativo.
É a regra do jogo e a proposição que possibilita o jogo.
Um regulador e um provocador de ações.
Segundo guias de pedagogia, as consígnias pertencem a duas grandes
categorias:
- as que precedem um exercício e uma atividade, chamadas de
enunciado ou diretiva.
- as que constituem o assunto de um discurso (guiado ou semi-guiado).
Quando as consígnias designam os itens que devem fazer parte de uma
composição teatral, sua função é exercer uma diretiva livre, sobretudo
se elas servem à articulação de um discurso cênico. A prioridade que se
dá a uma consígnia pode fazer dela o eixo de tensão de uma cena. A
articulação entre as várias consígnias acaba configurando a forma e o
discurso da cena.
Uma consígnia desbaratada, inusitada, difícil (mas com sua relativa
pertinência) pode provocar grandes saltos não imaginados anteriormente
pelo criador que se vê obrigado a resolvê-la.
A restrição se apresenta como o caminho da liberdade. (Cada vez mais
acredito na arte que lida e libera as impossibilidades).
Descrições de Composições
Seguem exemplos de algumas composições, selecionadas dentre um
repertório vasto e variado. A partir das consígnias propostas pela direção,
as atrizes sozinhas, em duplas ou em trios tinham um período restrito de
tempo para realizar suas propostas cênicas. Os títulos, propostos pela
direção, constituem uma pista das inquietações que devem mover a
proposição. Constituem, portanto, o foco temático a ser desenvolvido
através das consígnias. Experiências como essas aconteceram durante
todo o processo de pesquisa e criação dos três experimentos abertos ao
público.
COMPOSIÇÃO 1 - “Onde está o Agora?”
Consígnias:
1. escolher um local no espaço
2. definir uma função para o público
3. trabalhar com um trecho do diário
4. trabalhar com trechos das entrevistas
5. “re-encenação” de uma história ouvida na entrevista
6. trecho de literatura que aborde o tema TEMPO
7. uma ação que permeie toda a cena
8. uma música de fonte inesperada
9. um objeto que proponha ritmo
10. ações que se repitam
11. duração de 5 minutos.
Por Ana Leão
O local debaixo de (isto veio da entrevista com minha mãe que se
enfiava debaixo do banco no jardim a noite quando a irmã tinha, ou
teve, um ataque de bronquite)
O público observa
Trecho do diário:
17:35 Escurecendo. Estou desconcentrada.
17:40 Me perguntaram a hora, escurece mais.
17:50 Mais escuro. As testas estão um pouco enrugadas.
18:30 Escureceu e soltou um rojão.
Trecho livro ‘CONTOS’ de Katherine Mansfield onde a personagem queria
chorar, mas não tinha onde. Ela se dá conta de um modo de viver e
percebe o tempo, uma vida, vivendo daquela maneira. E o tempo e a
falta de lugar para chorar trazem o aprisionamento em ação. E na rua
sem onde, começa a chover e seu avental infla.
Ação que permeia: bolinha que rola como reticências no espaço
enquanto estou fora de cena.
A música vem de dentro de uma TARTARUGA dourada que com uma fita
passeio com ela com passos longos, lentos.
Música do trailer do filme de Winwenders sobre a Pina Bausch.
Objeto que propõe ritmo: garrafa d’água furada pingando ritmicamente.
Fora da sala, na recepção, um trecho da entrevista com meu pai:
“aconteciam outras coisas lá em jaçanã:
Os cavaleiros tocando cem bois. Pelas ruas. Bhehhhh.(som de vento e
ação em quase sussuro)
Pra levar pro matadoiro. Então quando vinha a boiada sai da frente.
Então, as vezes você ia pra escola daí: olha a boiada!
E a Zuleika uma vez teve que correr pra chegar no portão do grupo. Ele
tinha fechado por causa da boiada,
Claro ela chegou la ele abriu! Mas ela passou a vida inteira traumatizada”.
*(proponho para mim mesma, um ‘entre’ personagem e narrador. Uso a
dinâmica da voz que ouvi, procuro reproduzi-la. Em volume, em tempo,
em pontuação)
COMPOSIÇÃO 5 - “Temporando”
Consígnias:
1. sequência de ações com gestos e deslocamentos se repetindo
uniformemente do início ao fim
2. outras sequências de ações que se relacionam com essa sequência
principal (tema) e que ajustam a ela seu início, meio e fim. Imagem
de uma engrenagem. As ações desta segunda sequência acontecem
marcadas em relação às ações da primeira
3. um texto que dê instruções para uma volta ao passado
4. 10 min. de duração
Por Paula Possani
Minha sequência de ações era entrar na sala com uma fronha na
mão, sentar num banquinho de frente pra elas, olhar nos olhos de cada
uma, arrastar o banco para trás de uma mesa, pegar a caneta, abrila, começar a escrever, parar algumas vezes pra pensar, escrever mais,
parar de escrever, dobrar o papel escrito, guardá-lo dentro da fronha,
levantar e sair da sala.
Durante as repetições dessa sequência outras duas atrizes entravam
na cena e repetiam as minhas ações de pegar a caneta, escrever no
papel e dobrá-lo.
Na primeira vez que sentei diante delas falei:
“Minha mãe sempre escreveu diários. Desde pequena. Acredito que
ela não escreva todo santo dia, mas cuida de registrar os principais
acontecimentos. E ela guarda esses diários todos.
Uma vez ela me disse que escreve pra tentar guardar o tempo.
Ela tem hoje 57 anos. E eu fico pensando em quanta coisa deve ter
guardada naqueles caderninhos...”
Quando já estava sentada atrás da mesa falei: “Então hoje, eu vou
guardar a minha mãe.
A casa da minha mãe.
As bromélias da casa da minha mãe.
O brilho especial dos olhos dela desde que ela soube que vai ser avó.
O jeito dela sorrir transbordante sempre que eu faço alguma coisa
engraçada. Nossas conversas ao telefone compartilhando a vida... E
rindo juntas!”
Na segunda vez que sentei atrás da mesa falei: “Eu vou guardar o meu
avô.
Vou guardar ele baixinho, de suspensório.
O fusca do meu avô.
O cheiro de gasolina do fusca do meu avô.
Meu avô acenando do portão pra mim na última vez que a gente se viu.
Ele andando sozinho pelo quintal procurando o que fazer.
A cara que ele faz quando vê os netos, de tão feliz!”
Na terceira vez que sentei atrás da mesa falei: “Quero guardar os meus
30 anos.
A expectativa de ser tia pela primeira vez. Tudo que sonho fazer com o
meu sobrinho.
Quero guardar o desejo de cantar muito pra ele.
Quero guardar minha saúde, meu corpo que me acompanha onde eu
quero ir. Quero guardar a filha da minha prima molhando a cabeça na
bacia.
O suor frio da minha madrinha quando me abraça. Meu pai dizendo que
estava com saudades”.
E na quarta vez falei:
“Quero guardar esse sentimento de fé na vida. A saudade do meu
afilhado.
A minha beleza.
O colo da minha mãe.
O meu cachorro e o jeitinho dele pisar em cima de mim na cama de
manhã. A sensação de que meus pais serão eternos”.
Então continuando a sequência que se repetia todas as vezes, saí, mas
dessa vez não voltei mais.
COMPOSIÇÃO 6 - “Como construí meu próprio relógio?”
Consígnias:
1. utilizar elementos / objetos que regulam meu tempo
2. convidar mais alguém
3. trabalhar a possibilidade de aceleração e desaceleração
4. restrição espacial
5. lista de mecanismos reguladores de tempo em forma de palavras
(lido, falado, cantado, etc.)
Por Paula Lopez
Que mecanismos você usa para se orientar no tempo?
“Se cada um construísse seu próprio relógio, os relógios não teriam mais
função” Norbert Elias
- Mesinha Verde com banquinhos em volta
- 2 barquinhos vazios (cascas de árvores em forma de barco) estão vazios
sobre a mesinha verde
- Performer está atrás da mesinha verde e manipula objetos
- Sino - um elemento real e se localiza pendurado num caibro do telhado
atrás das pessoas que assistem a ação
AÇÃO - Ao escutar o som do sino, performer coloca uma bonequinha
Mulher encima do barquinho
- Som de sino
- Performer adiciona o bonequinho Homem
- Som de sino
- Performer adiciona 01 semente
- Sino - performer adiciona outra semente, e em resposta às badaladas
as sementes vão sendo adicionadas, sino, semente, sino, semente, sino,
semente… até que sai o homem, a mulher e ficam as sementes…
Lê-se as seguintes frases retiradas de eclesiastes:
Tempo para plantar e tempo para arrancar o que foi plantado; Tempo
para destruir (demolir) e tempo para construir;
Tempo para chorar e tempo para rir;
Tempo para procurar e tempo para perder; Tempo para guardar e tempo
para jogar fora; Tempo para calar e tempo para falar;
Tempo para amar e tempo para odiar;
LISTA DE ELEMENTOS REGULADORES DO TEMPO:
Crescimento dos dentes do cavalo
Anéis de uma árvore
Cilindros de gelo na Antártica
Conchas dos moluscos
Carvão
Elementos que regulam MEU tempo: Sino da Igreja São Domingos
Ciclo menstrual
Corrida de Formula 1 aos domingos quando eu morava com meus pais
Tempo de vida de um Incenso ou uma Vela
As marés
Tempo das mamadas do David quando era bebê
Fraldas
Helicóptero aos domingos quando eu morava perto da Avenida Paulista
Fim de tarde: cigarras, grilos e luz mudando
Quando escutava vinil, ao fim de um lado eu sabia que mais ou menos
meia hora havia se passado
Ouvíamos a Rádio Jovem Pan e ao escutar o Show da Manhã já sabíamos
que estava quase na hora de bater o sinal da entrada na escola
Posição da Lua ou do Sol no céu
Tipos de passarinhos cantando me indicam que horas são
COMPOSIÇÃO 10 (DUPLAS) - “O Tempo nas mãos”
Consígnias:
1. ação cronometrada
2. espaço determinado restrito
3. determinar alguma relação espacial entre os integrantes do público
4. criar para o público alguma situação onde ele tenha que cuidar de
uma certa duração
5. um momento de contemplação silenciosa
6. estabelecer um ritmo inicial que se interrompe
7. vinte respirações em uníssono a qualquer momento
8. utilizar como quiser alguma ação da lista de reguladores temporais
9. algum objeto usado de forma inusitada
Por Paula Possani e Manuela Afonso
O público saía da porta do Gag (nosso local de ensaio) uma pessoa de
cada vez. Recebiam a instrução de criar uma marcação de um pulso
qualquer e caminhar até a esquina andando no ritmo daquele pulso e
contando o número de passos que levariam pra chegar lá.
Quando chegavam na esquina eram recebidos por outra atriz que
perguntava quantos passos haviam sido necessários para chegar até
ali, quantos cafezinhos a pessoa já tinha tomado naquele dia, pedia
pra que subissem numa balança que havia na porta de uma farmácia
e cronometrava o tempo que o ponteiro da balança levava para
estabilizar na marcação do peso. Com esses quatro números (peso,
tempo de oscilação do ponteiro da balança, número de passos e
número de cafés) fazia um cálculo maluco que chegava num valor que
representava a capacidade de contemplação de cada um.
Então todos eram convidados a contemplar a velocidade que um
determinado botão de flor que havia numa árvore dalí levava para abrir.
Cada um deveria contemplar por um determinado tempo: O número
resultante da conta maluca era o número de respirações que cada um
levaria em sua contemplação do botão.
Depois disso cada um podia voltar tranquilamente observando o
caminho. Na chegada recebiam um copo d’água.
COMPOSIÇÃO 11 (DUPLAS) - “Cronofotografias Picnolépticas 1”
Consígnias
1. sete quadros da mesma situação em diferentes momentos temporais
2. espaço de ação reduzido
3. ângulo de visão do público reduzido
4. uso de objetos para compor os quadros
5. não usar atores, exceto se for essencial
6. usar sons
7. objetivo de criar uma mecânica de condução do olhar do público
Graziela Mantoanelli
1- Primeiro quadro é a vela completamente derretida. Segundo quadro
é a vela pela metade. Terceiro quadro vela inteira, apagada.
2- Primeiro quadro é um relógio feito por uma criança. O segundo quadro
é um relógio de adulto. O terceiro é um relógio feito por uma criança x.
3- Primeiro quadro uma pilha de remédios. Segundo quadro um remédio.
O terceiro é um médico olhando um exame.
4- Primeiro quadro: 3 escovas de dentes (2 adultas e uma de criança)
em cima da pia. Segundo quadro: 2 escovas de dentes em cima da pia.
Terceiro quadro: 1 escova de dentes em cima da pia.
A matéria prima seria o silêncio. Um estado de silêncio onde até os
ruídos possam se tornar material de criação...
3 - DOS CAMINHOS DA CRIAÇÃO
Por que três?
Por Cristiane Zuan Esteves, direção e dramaturgia
Passado presente futuro.
Ontem hoje amanhã.
O tempo que escapa.
O tempo que fica.
O tempo que espera.
Parecia importante repartir o tempo em três. Foi a proposta inicial do
projeto: criar três experimentos.
No meu computador, 90 pdfs de livros e pesquisas. Na estante, mais
de 40 livros. Grupos de estudos que mobilizaram aproximadamente
50 pessoas. O mergulho no tema foi desorientador, avassalador,
um tsunami levantando oceanos de conceitos. Visões do tempo
construídas durante milênios. Urgências velozes do mundo em
construção da era da informação. Como cercar um território,
dimensionar um material a ser tratado dentro de questões tão
gigantescas, profundas e que permeiam todos os aspectos de nossas
existências- consciências. O que antes era um enfoque específico
do tema parecia se perder frente a todas as sutilezas, abordagens,
diferenças. O que poderiam ser estes três experimentos? Em dezembro,
um imenso vazio e ao mesmo tempo um frenesi de levantamento de
material documental, de referências, de material cênico. Um oceano
de virtualidades. O que atualizar?
Disto tudo, veio uma certeza: nenhuma resposta será definitiva, nada
será capaz de definir. Tudo será parcial. Qualquer resposta está na vida
e na sua incompletude.
Tratamentos do TEMPO - Pontos de partida das concepções
Das visões da intuição
Cena 01 - O alto de um edifício. Janelas para a cidade. Helicópteros lá
fora. Dentro, silêncio. Velocidades desiguais.
Cena 02 - O jardim da casa da minha mãe. A luz do fim do dia. Pássaros
voam. A possibilidade de não fazer. Ser somente.
Cena 03 - Vela de aniversário. Bolo de aniversário. Todos os aniversários.
Todos os dias. Dia. Noite. Dia. Noite. Parabéns pra você. Esta é data
querida!
Das anotações do caderno
O que olhamos: O presente.
O “eu-máquina do tempo”
O “coletivo-máquina do tempo”
O “agora-máquina do tempo”
Todos entrelaçando “memória”, “porvir”, “presente-duração”.
O LONGO AGORA
1 - O EU - Máquina do Tempo
Foco :
O corpo e sua finitude.
A brevidade da vida.
A memória da Infância.
A perspectiva da velhice.
O que vejo nesta máquina do tempo:
Minha infância.
Minha velhice.
O que não está X O que está.
A inevitabilidade do Fim-Morte.
Local:
Escola de Crianças. Asilo de Velhos.
Recurso:
A cabine do tempo.
Ver suas mãos de criança.
Ver suas mãos de velho.
Referências Teóricas/ Poéticas:
Sêneca - “Brevidade”
Heidegger – “Destino do ser”
Proust - “Memória”
Pesquisar:
Memórias de Objetos
Memória Topográfica
Memórias Íntimas Atrizes, Famílias.
Crianças e Velhos.
Momentos em que se recorda.
Olhar religioso sobre a morte.
Sons da Infância, da Velhice
Imagens, cheiros da Infância.
O que olho: Meu corpo que um dia irá morrer.
De onde:
Dele mesmo.
Aqui estava O ESPELHO.
2- O COLETIVO - Máquina do Tempo
Foco:
A velocidade.
A cultura anulando espaço-tempo.
A cidade e seus fluxos.
O que vejo nesta máquina do tempo:
A cidade revelando a concepção contemporânea do
tempo.
O Império da Velocidade.
Movimento X Imobilidade.
O Trabalho e seu “ocupar do tempo” - Produção x Ócio
Local:
Cabine de Visão + Trânsito Veloz (02 momentos).
Onde fica a Máquina do Tempo hoje?
Recursos:
Somos viajantes do tempo, observamos nossa civilização de
hoje.
Elemento Ficcional (simulação)
Elemento Documental (depoimentos dos habitantes desta
velocidade)
Referências Teóricas:
Paul Virilio
David Harvey
Baudrillard
Peter Pál Pelbart
Pesquisar:
Depoimentos em áudio.
Locais onde Velocidade encontra Imobilidade.
O que olho:
O presente como se ele não existisse mais.
Aqui estava O FAROL.
3- O AGORA- Máquina do Tempo
Foco :
Experiência Coletiva do Momento presente compartilhada.
O que vejo nesta máquina do tempo:
O AGORA em si - “a troca”.
O tempo passar, repetir, devenir.
O rito - bee hive.
Local:
Sala escura (?)
Recursos:
A caverna de Platão é caverna do espeleólogo.
Paramnésia- O deja vu
Referências Teóricas/ Poéticas:
Deleuze- Cristais do Tempo
Bergson – Image - souvenir
Present q tombe dans le Passé q contiene son passé.
Pesquisar:
Estados de alteração de percepção temporal.
Repetição.
Resposta.
Territórios Modais.
Medições-Intervalos.
Condução do Espectador- Imaginação.
O que olho:
Este instante e seu desdobramento.
Aqui estava A FESTA.
Construções dramatúrgicas
Em janeiro, havia 145 páginas de uma dramaturgia geral.
Textos onde havia tudo de tudo - física, filosofia, medicina, antropologia,
sociologia, religião, manifesto, poesia. Trechos que interessavam: uma
imagem, um conceito, um dado, uma frase, uma ideia. Assuntos que
poderiam estar nos três, em dois, em um. A verdade é que esta enorme
massa de material foi mastigada, revirada, jogada fora, cortada,
reinventada, apagada, reescrita. A construção dramatúrgica de cada
experimento se deu de maneiras muito diferentes.
O FAROL foi de alguma forma o mais solitário. Uma visão
confusa que veio da leitura dedicada de muitos livros de Paul Virilio.
Uma imagem. Era fundamental estar em uma região economicamente
veloz, próxima às altas torres e aos helicópteros. A velocidade de
demolição e de construção de imóveis era algo que impressionava todo
o grupo: bairros e bairros em uma transformação que nos roubava as
referências e a memória. O antigo dando lugar às novas arquiteturas.
Pesquisamos janelas de hotéis na região da Nova Faria Lima e da
Berrini. Até que um dia, depois de uma reunião em um hotel perto da
Berrini, era dia de ensaio e tomei o trem atrasada. Não fiz a conexão
na Estação Pinheiros como de hábito. Pensando que por outro caminho
seria mais rápido, continuei até a Estação Presidente Altino para fazer a
conexão em direção à Lapa. A chegada em Altino parou tudo. Uma
prisão, uma ponte, uma favela, um espaço aberto de muitos trilhos e
trens, muitos trens parados. Um verdadeiro choque, quase euforia. O
contraste com o hotel luxuoso, a mudança da arquitetura da cidade,
a diferente sensação de tempo, a possibilidade poética despertada
pela tensão entre as paisagens causaram a certeza de que aquele
deveria ser o percurso. Era exatamente a imobilidade x velocidade
apontada meses antes, mais pequenas anotações do caderno. (Uma
sensação semelhante à da adaptação do trabalho anterior AquiDentro
AquiFora para São José do Rio Preto, onde a descoberta de um terreno
de construção de 2500 casas gerou o movimento da dramaturgia, e
a peça acabava ali em um pôr-do-sol vermelho entre escavadeiras e
fileiras de casas em construção depois de 10 minutos de deslocamento
real em ônibus escolar). O Farol seria o experimento focado na cidade.
A cidade determinou sua dramaturgia. O espaço constitui o primeiro
eixo dramatúrgico. Algum tempo depois, conseguimos a parceria
com o Sheraton WTC que possibilitou que utilizássemos, além do Hall
do Hotel, o Shopping D&D e o Centro de Convenções Golden Hall,
com seu foyer com janelas para o Rio Pinheiros e sua ampla nave. A
partir da observação e exploração da psicogeografia de cada ponto
deste trajeto, veio a articulação das cenas da trilha, sincronizada ao
deslocamento no espaço. Veio se somar o outro eixo dramatúrgico: a
trilha, cujo conteúdo é de origem documental: entrevistas, palestras e
textos sobre a velocidade contemporânea. Mas que em seu diálogo
com o espaço demandou trechos mais lúdicos, poéticos, dissoluções.
Apesar dos helicópteros, do musak de espera ou mesmo do oceano, o
possível elemento ficcional não acontece a partir da trilha, mas a partir
do terceiro eixo de dramaturgia: das ações dos performers com suas
malas vermelhas e das mínimas proposições feitas ao espectador. Este
eixo se articula mais como uma referência contingente, transversa, que
acompanha o percurso.
O ESPELHO veio devagar. A proposta de ouvir velhos e crianças
já estava lá no primeiro dia de ensaio, como uma obsessão da direção.
Mas O ESPELHO nasceu das pequenas coisas. Do jardim que a gente
via pela porta de vidro da sala de ensaio. Do pequeno Chico com seus
passos recém-aprendidos invadindo nossa sala com suas pedrinhas. De
um ensaio delicioso onde a tarefa era compartilhar histórias muito banais.
De Graziela jogando milho no jardim. De Manú vendo tevê com um
cigarro na boca como a sua avó. De Paula Possani se fazendo velha na
nossa frente com riscos de lápis no rosto. De Ana como o terrível som do
dentista. De Paula Lopez com jabuticabas no jardim. De Joana com suas
perguntas. De Pedro com seus discos. De um dia em que escrevendo
na casa da minha mãe, parei tudo e fiquei só olhando árvores, flores,
pássaros e pôr-do-sol. Coragem pra fazer um espetáculo que fosse só
contemplação e jardim. O ESPELHO se estrutura a partir da reunião de
conteúdo documental de entrevistas, das memórias pessoais das próprias
atrizes e da contribuição do público. Na primeira parte, ao redor da mesa,
são as memórias de infância das atrizes que desenham o percurso que
fazemos todos juntos sem nos movermos. Ao longo do processo, foram
vários exercícios desses contares e da evocação dessas memórias, que
só foram selecionadas e organizadas ao final de uma forma bastante
orgânica e improvisacional. Cada atriz tem um repertório de histórias/
memórias suas que são articuladas segundo um roteiro temático (quase
um canovaccio). Cada apresentação é diferente. Muda a ordem das
histórias, mudam histórias que não vêm, outras que chegam com outra
cor. As histórias se articulam entre si, mas de forma aberta e incluem as
interferências do público, que contribui com suas próprias lembranças
que são muito vivas e alimentam a mesa. Acontece, assim, uma
conversa coletiva entre atrizes e público, mas com um repertório claro e
uma condução precisa e suave. Em um segundo momento, espelhados
pelo parque, o público em duplas escuta o que chamamos de “outras
vozes” entrevistas de pessoas jovens e velhas sobre memórias, morte e
futuros gravadas em velhas fitas cassetes que as duplas escolhem por
seus títulos. O público escuta também algumas das perguntas que foram
feitas aos entrevistados, e que os trazem de volta ao tempo presente, ao
hoje.
A FESTA foi construída a partir daquele enorme texto inicial
proposto pela dramaturgia que foi sendo editado no decorrer dos
ensaios. Foi construída pela certeza de que cada pessoa presente na
sala deveria saber quantos dias teria vivido até aquele instante. Muito
material foi descartado, cortado, re-adaptado. Algumas cenas realizadas
em composições foram incorporadas à dramaturgia, com propostas de
ações e textos vindos das atrizes. Mas apesar de tudo, sentia falta da
festa. Em que medida poderíamos incluir mais as pessoas, coletivizar mais
a experiência. Considero que a finalização da dramaturgia se deu com
a incorporação de perguntas dirigidas ao público durante o espetáculo.
Este recurso foi usado para criar uma ponte entre o conteúdo poético ou
conceitual dos textos ditos pelas atrizes com possíveis interferências ou
sensações do público. Mais uma vez, a ficção se instaura mais na criação
de um “lugar” coletivo do que em qualquer conteúdo dramático.
Em cada um dos experimentos a relação proposta ao
espectador é determinante da experiência. A pesquisa tem buscado
formas de co-criação por parte do espectador, criar possibilidades
de que ele seja o articulador dos significados e também o elemento
compositor da cena, sob o ponto de vista da espacialidade, da situação
e da função. Há um discurso feito a partir de uma coralidade: crianças,
velhos, intelectuais, cidadãos comuns constituem o discurso polifônico
das obras como um todo.
Há vestígios que se fazem e refazem: as pulseirinhas com os
dias vividos e as marcas dos integrantes do público nas paredes da
FESTA, os formulários do FAROL e as perguntas nos papeizinhos coloridos
do ESPELHO.
Aspectos de experimentação
Esses três experimentos são, portanto, três. Pediram um
tratamento distinto de três eixos da pesquisa: do material documental,
da atuação e do público como co-criador. O que poderia ser excesso,
o que foi de fato muito trabalho, foi também uma possibilidade de
liberdade. “Este texto, esta ação não são pra este experimento, são para
o outro!”. “A gente não precisa tratar disso aqui, já estamos tratando ali”.
Não foi preciso contemplar todos os nossos desejos, porque havia muito
espaço em que caber e pouco tempo para realizar. Aconteceu assim.
1Um material documental em uma trilha sonora acelerada,
com excesso de mensagens somadas a muitas outras vindas das
vitrines, das telas, dos anúncios. Transita por territórios impressionistas,
depois metalingüísticos. Muitas vozes se misturam em simultaneidade
até chegar à quase dissolução do sentido.
Um espectador-atuador-sutil alterna entre movimento e
espera, guiado, mas criador de seu próprio olhar através de janelas,
recortes, fragmentos, até finalmente um horizonte.
Um condutor-performer, facilitador da experiência, quase
invisível.
2Um material documental pessoal compartilhado. (a)Colhido
em intimidade. Atualizado. Pais, avós, filhos, sobrinhos. O acúmulo
através da memória, sucessão: várias fitas cassetes com um (01)
depoimento somente. O futuro para o menino de 06 anos. O futuro
para a mulher de 82.
Um espectador livre pra escolher agir: tomar café ou não,
comer bolo ao não, contar algo seu ou não, ouvir isto ou aquilo,
contemplar. Um espectador autor de dramaturgia.
Um atuador sem teatro. Quanto menos teatro, melhor. Mais
vida. Ou o primeiro teatro: contar ao outro simplesmente. Qualquer sinal
de atuação esvazia o hoje.
3Um material documental colhido a fórceps com perguntas.
Um diálogo entre atuador e platéia. Vestígios materiais: a pulseirinha no
pulso, a marca da altura na parede, os pratos com respostas, os nomes
dos antepassados.
Um espectador coagido a esperar, lembrar, contar os dias de
sua vida. Perguntas respondidas em voz alta ou em silêncio. Escolhe o
que olhar. “Estou nesta encrenca. Faço parte desta encrenca”.
Um atuador em trânsito. Entre o teatro e o estar ali. Escuta fina
por afinar a cada instante. Coralidade pluri-focal.
4 - UMA CONTEMPLAÇÃO DA VELOCIDADE
A máquina roda, roda, e continua a sua carreira.
Livre de qualquer direção, roda, roda sempre.
A pressão sobe doidamente, a velocidade torna-se assustadora.
As pessoas, cuja embriaguez aumenta, subitamente alegram-se com
aquela corrida violenta, cantam mais alto ainda.
Atravessam a cidade como um raio.
A máquina roda, roda sem fim, como enlouquecida cada vez mais pelo
ruído estridente da própria respiração.
Aquele comboio doido, aquela máquina sem maquinista nem foguista,
vagões que uivam canções.
Vão Vão Vão
Agora todos os aparelhos tilintam, todos os corações batem. Ao longe
já se vê o rodar do ser fugidio com o seu galope furioso, com uma força
prodigiosa e irresistível, que nada pode deter.
Roda na noite negra, nem se sabe para onde.
Que importa o que a máquina esmaga no caminho! Não se dirige ela
também para o futuro, indiferente fera cega, surda, indômita, roda, roda,
atulhada da carne desses seres cheios de fadiga e embriagados, que
cantam.
Abrir os olhos totalmente.
Aqui outra vez.
Acordar.
(adaptação de A Besta Humana de Emile Zola, por Cristiane Zuan Esteves)
Primeiro Experimento: O FAROL
Relato de um espectador, por Décio Sanchis
Não sei como nomear o acontecimento “O FAROL”, criado e montado
pelo Grupo OPOVOEMPÉ, de São Paulo e em São Paulo. Na minha
cabeça teatro continua sendo algo representativo, a que assistimos e
onde algumas vezes somos chamados a ter uma ou outra participação
além dos respirados suspiros, do ajeitar do corpo, do riso e choro e dos
aplausos. Quando é exigida, acedemos geralmente a contragosto, por
constrangimento.
Teatro em que a platéia participa voluntária, ativa e alegremente, só
mesmo, creio eu, os espetáculos infantis. Nós adultos não nos permitimos
tais envolvimentos expositivos. Adulto quando quer dar-se a alguma
participação em público, vai a “shows” musicais, onde levanta e agita os
braços, berra, canta e se sacode. Ou aos estádios, de igual equivalência.
Parou aí.
No FAROL a concepção é outra. O público sabe de antemão que vai
ser conduzido a algo, digamos uma viagem, onde será o protagonista.
Não sabe é onde vai chegar. Percorreremos espaços do dia a dia, com
olhos de quase nunca. Caminharemos com fones no ouvido. Não, não
imaginem uma visita “guiada”, dessas de museus ou palácios. Tudo foi
pensado, criado, organizado minuciosamente pelo grupo ao longo de um
ano, num projeto a que deu o nome de A Máquina do Tempo (ou longo
agora). As trilhas gravadas foram inteligente e cuidadosamente criadas,
o gestual, os caminhos a percorrer, as paradas sugeridas, o panorama
a ser observado, estão rigorosamente cronometrados. Cada uma das
atrizes assume sua tarefa com seriedade e precisão. Difícil imaginar que
o público participante se sinta constrangido. Dados os primeiros passos,
cai-se na aventura proposta.
E o que tem tudo isto a nos mostrar? A mostrar, não sei, pois depende
do olhar de cada um. Mas a instigar, tudo. É certo que pensamos
diariamente na tecnologia crescente posta a nossa disposição, e a
usamos. Mas somos suscitados ali, no curso do passeio, a pensar no quanto
ela cresce exponencialmente, cercando e mudando nossas vidas. Um
simples exemplo, já que estou digitando em meu computador: como eu
escrevia quando era criança, um pedaço de vida atrás, como escrevo
agora, como escreverei um outro pedaço de vida adiante? Como estas
mudanças nos afetam? Lembro-me passageiro criança no Ford 1937,
preto, circulante na velocidade de então. Olho os carros que percorrem
a Marginal Pinheiros na velocidade de hoje. Lembro das ruas calçadas
de paralelepípedos. Quantos carros passavam simultaneamente então?
Olho por imensas janelas fechadas por vidros, do alto de um prédio
maior que o mais alto que dominava orgulhoso a cidade de então. E
ele não está sozinho. É apenas um entre as torres circundantes, recíproca
e distorcidamente espelhadas nas vidraças de todas elas. Chego
ao meu ponto de observação por elevadores velozes, silenciosos no
funcionamento, mas automaticamente falantes. Terceiro andar, cama,
mesa e banho, dizia aproximadamente isto o ascensorista do velho
Mappin. Não há mais cabineiros. Olho as avenidas, o rio no meio. O trânsito
é veloz, intenso, contínuo nas pistas. No céu cruza um helicóptero a cada
minuto. Bem mais em cima um avião ruma ao outro lado do mundo que
foi imenso e agora é uma bolinha. Há um zumbido que poderia lembrar
os oceanos que outrora nos separavam. Nos ouvidos a voz me pergunta
o porquê de tanta velocidade. É impossível não olhar a favela do outro
lado do rio e o próprio rio Pinheiros. Não. A tecnologia não chega a
todos com a mesma velocidade, concluo eu. Nem os confortos que
dela vêm. Nem os benefícios. Desgraçadamente o mundo desigual de
ontem continua desigual hoje. Doença não erradicada, malgrado todos
os aparelhos e medicamentos inventados para a nossa longevidade,
e apesar de todos os sonhos, utopias, lutas, sofrimentos. Mais adiante
verei o povo entrando nos trens modernos transitando velozmente, de
Osasco ao Grajaú. E nele se acotovelando, pois é preciso chegar a
tempo... Mas, por ora, olho o rio. Tudo corre, menos ele. Fico ali, pelo
menos por um minuto, mirando a mesma sujeira branca que flutua. Não
andará? Não anda. Talvez haja algum movimento abaixo da superfície.
Mas é imperceptível. Este rio não permitiria ao filósofo grego pensar
sobre a permanência da verdadeira substância das coisas, provocado
pela contínua mudança da água que corre. Este rio parece estático.
Já correu um dia. Hoje é firme, quase sólido, o rio Pinheiros no meio da
velocidade. O que será daqui a vinte, trinta anos? Mais do que isto,
adverte-me uma voz nos fones dos ouvidos, não nos podemos atrever na
previsão de como será o mundo do futuro. Sinto, mais do que concluo, o
peso deste vertiginoso amontoamento de conhecimentos e tecnologia
e intervenções do ser humano sobre ele, o mundo que agora me ocupa
a mente. Dizem meus olhos: há uns pássaros brancos voejando na
margem estreita do rio parado. Há círculos e bolhas, ininterruptamente
surgindo e sumindo na água gelatinosa. Apesar de tudo, a vida gulosa
não pára.
Saio de tais visões e vou para dentro. Imenso espaço vazio. Imensa
cúpula formada de tubulações. Sinto-me entrando em uma nave
espacial. Disco voador? Parado no centro, a música que os fones me
oferecem surpreende-me.
Não, não é uma Odisséia no Espaço. É
música indiana. Isto com certeza não é um templo. Mas o espaço que
me estão sugerindo também é vasto e interior. Dentro de mim mesmo.
Fico olhando minha gentil condutora e sua mala vermelha distanciaremse e caminharem ao longe, vagarosamente, a minha volta. Eu sozinho.
Volto ao grego filósofo. Com certeza continuadamente não sou o mesmo.
Nem em células e nem em conhecimentos, nem em pensamentos. Mas
sou o mesmo. E daí?
Dalí a pouco, o trem me leva ao subúrbio da metrópole. A um subúrbio
próximo, que outros muito mais distantes existem. Todos eles, quanto
mais longínquos mais desprovidos das torres gigantescas, dos vidros
espelhados, de condutos de ar condicionado, de elevadores falantes,
de confortos, de avenidas grandiosas, de carros velozes. Tão mais
parados... Mas cada um deles, com incessantes círculos e bolhas na
superfície gelatinosa. Apesar de tudo a vida não para. Fico mais uma
vez a me perguntar: o que justifica a continuidade dessa diferença na
distribuição das benesses vindas do conhecimento que se acumula? As
escadas aqui não se movimentam. A passarela de concreto por onde se
transita para cruzar o pátio da estação é incrivelmente longa. Sentado
nela, um mutilado de um braço, jamais visto por Saramago, resta por
isto mesmo, desprovido até do gancho do Baltazar Sete Sóis, e muito
mais de Blimunda, Sete Luas. Pede-me uma esmola. Dou-lha de bom
grado. É inevitável lembrar do pedinte da rua da Baixa, na ironia de
Fernando Pessoa. Apresso-me a despachar a lembrança pensando,
nem simpatizo com ele e nem sou lúcido.
A viagem de volta não traz respostas. Já me perguntaram como distribuo
o tempo na minha vida. Ou como distribuo minha vida no tempo fugaz
de minha existência. As formigas trabalhadoras se acotovelam ainda
mais no trem moderno. É preciso chegar no horário. Sigo de pé, entre
elas. Velho e novo ali.
Obrigado OPOVOEMPÉ.
Entre breves, semi-breves e silêncios: aulas de música
As aulas de teoria musical foram conduzidas por Natalia Mallo (musicista e
compositora), Ramiro Murillo (físico e músico), Emiliano Patarra (maestro),
Ratnabali (musicista indiana) e Benjamin Taubkin (pianista concertista).
Com Natalia Mallo tivemos encontros sobre Teoria básica de Música.
De modo prático e teórico, introduziu-nos sobre o que é compasso,
pulso, tempo, andamento. Figuras e seus valores: semibreve, colcheia,
semicolcheia, fusa, semifusa e suas respectivas pausas. Tom, semitom,
sustenido, bemol, escalas, acordes menores e maiores. Definiu harmonia,
melodia e ritmo.
Ramiro Murillo, por ser físico e músico, nos trouxe teórica e praticamente
conceitos de reflexão, transmissão, absorção, reverberação, acústica,
ondas e um pouco de fonografia. Esclareceu diferenças entre
propagação e intensidade do som, eco, vibração, timbre, amplitude,
altura e volume. Seguem algumas citações:
Quanto mais elástico um meio, menor propagação ele tem, e portanto
mais demora.
Elástico vem da propriedade da matéria.
Propagação sendo uma sucessão de variações de compressão e
rarefação do meio. Som sendo energia mecânica que a gente ouve.
O grave penetra mais nos sólidos, se propaga mais. E a propagação
precisa de um meio para se propagar.
Vácuo é ausência de matéria.
Intensidade - forte fraco- é VOLUME.
Benjamin Taubkin oferece a relação da música com a vida.
Seus exemplos práticos, seu auto-didatismo, seu ‘descompasso’ com o
padrão daquele momento que vivia, o querer tornar-se músico, época
em que os que estavam à sua volta exigiram dele uma garra que hoje
dá frutos.
Nas suas experiências, pudemos nos ver tendo experimentado algumas
restrições parecidas noutras áreas da nossa vida. Pudemos nos identificar
com sua trajetória notando que em diferentes áreas da vida vivemos
semelhantes sensações de aprendizado. Em meio à um ambiente de
certo modo estimulante criativamente, porém, ao mesmo tempo
opressivo. Pressões, impaciências e aparentes brutalidades - como pode
ele bem observar - foram um manancial rico e potente para que hoje
esteja livre. E sua arte, pelo seu modo de estar no mundo, esteja tão
receptiva quanto disponível.
E pela sua arte - piano, a escuta, o improviso - oferece lindamente
linguagem e comunicação num além verbo que o permite estar no
mundo - Coréia e África por exemplo - conversando a partir de um ‘lugar’
que realmente tem para ele valor. Direto ao ponto. Direto ao ser.
OUVIR JUNTO
Ouvimos e pudemos comentar o que sentimos a partir de músicas de
vários lugares do mundo. Observações de ritmos, sensações, sentimentos
que geram em nós algo, e que revelam também, segundo Taubkin,
como é também possível pontuar a tristeza da vida, pontuar a alegria,
pontuar a atual desconexão, cisão, como se vivêssemos áreas diferentes,
desconectadas, integrá-las traduzindo-as.
Maestro Emiliano Patarra
Com interesse e clareza fala de curiosidades em relação a épocas, estilos
e nos traz conhecimento sobre compositores e um pouco da história da
música.
Uma citação fica sobre o TEMPO que na própria escrita é expressivo, pois
a figura da BREVE passou a não ser usada devido à aceleração. As notas
sofreram alterações em função do aumento da velocidade na música
com o passar dos anos.
Tivemos um foco na dramaturgia musical clássica ocidental, a qual
pudemos ouvir, sentir aprender a discernir as diferenças, mudanças de
tonalidades e perceber as ‘curvas’ numa composição.
Aprendizado do ouvir.
Praticamos juntos, em exercícios, o tempo das figuras e das pausas.
Na escrita, as notas (figuras) mudaram por que a música acelerou.
A breve já não é mais usada, por exemplo.
A narrativa - dramaturgia contida numa Sonata por exemplo, ou numa
forma Sonata, ou Sinfonia, Concerto, Suíte e etc... um centro que se
mostra, se afirma e depois muda para outro e a tensão - de querermos
que volte ao referencial anterior - nos gera Drama. Gera tensão. (como
um ímã gerando forte atração)(este mesmo ímã, se colocado à uma
certa distância máxima perde seu poder, perde-se a tensão, ou ‘a linha’
ou até mesmo o ‘sentido’.
Antigamente, o centro se mantinha, ou em algumas formas de música
isto se mantém. Faz parte do propósito da música manter o centro sem
dele sair.
Propósitos diferentes.
Noutras épocas a proposta era não ter um centro.
E suas possíveis variações artísticas como todos os movimentos e escolas.
RatnaBali
Estrutura da música clássica oriental indiana.
Uma tela branca onde o som desenha, imprime, pinta.
O tempo é infinito. É cíclico, não há começo nem fim e sim ciclo.
Assim, no momento que se brinca com o tempo, com o ritmo, está se
despedaçando o tempo, e depois ele volta a ser infinito e eterno.
O conceito da música e sua melodia (Raga) e ritmo (Tala). Focamos
na primeira parte ou ‘movimento’ de Tala aprendendo e cantando a
apresentação das notas.
Brincamos com as palavras – Bols.
Ouvimos Ratna cantar - música clássica principalmente, pois este era
nosso foco. Nos apresentou a música religiosa através de alguns mantras.
Nos deixamos ser ‘telas’ pintadas por ela, ali, na sala de seu apartamento.
Através do canto pudemos experimentar a música ouvindo, cantando,
sentindo, brincando. Segundo Ratnabali, brincar com ritmo é ‘despedaçar
o tempo’ como disse, e depois deixá-lo ser como é, eterno.
Trechos da entrevista com João Ildes Piraí, Morador de Pinheiros
há 63 anos - trabalha na biblioteca Alceu Amoroso Lima
Sobre hoje em dia:
“Tudo muito instantâneo, escorrendo pelos dedos das mãos, tudo sem
significância (...) Não há mais narrativa, você tem todas as maneiras para
se expressar, mas não há narrativa pessoal (...) Não adianta ter máquina
fotográfica se você não sabe o que fotografar.”
Sobre a construção da Nova Faria Lima:
“Os quarteirões desapareciam (...) parecia que tinha sido bombardeado
tudo, as ruas desapareciam, uma casa desaparece, mas um quarteirão
é muito significativo, né? Um quarteirão são muitas casas, né? São muitas
faixadas, né? E de repente tudo aquilo só existe na sua lembrança. É
curioso isso, é uma coisa que mostra: Olha só, como é frágil tudo isso!”
Trechos de entrevista com o historiador Eduardo José Afonso
“Eles vão construir um prédio de 8 andares, são 48 apartamentos. As
pessoas que vão morar lá, nenhuma vai saber o que é, quem morou ali,
qual é a história da Vila Madalena, não tem relação afetiva com nada.
Às vezes nem com os próprios vizinhos. Então aí essa cidade vira uma
cidade terrível, sem alma, violenta. Você se acostuma com a violência
porque você não tem a relação de cuidado e de fraternidade com
nada. Tudo é descartável, cada dia mais. Qual é a razão da vida? Onde
a gente vai colocar a nossa sensibilidade, afinal de contas? Na lata do
lixo? Por isso as pessoas ficam neuróticas, né? Cada dia mais, porque
nós somos feitos de razão e sensibilidade. Só que o que acontece é que
a gente perde a razão porque entra na alienação do consumo e não
cultua a sensibilidade. Então isso vira uma neurose, né? Porque você fica
um ser sem essa mínima estrutura, né? E precisa resgatar isso.
Levi Strauss diz que os índios bororo tiveram arrancadas as suas relações
com a natureza. Sua aldeia foi desmembrada, eles foram levados de um
lado pro outro. E ele dizia assim: quando esse mapa afetivo é arrancado
daquele grupo humano, ele perde suas referências, e quando ele perde
suas referências, ele perde ele próprio, porque ele não entende mais a
sua essência e a sua alma. Ele fica sem nenhuma referência e ele passa
a não ter nenhuma relação de sensibilidade com nada e é isso que
interessa ao mundo do consumo, né? Você não ter a relação amorosa
e de sensibilidade com nada porque tudo é descartável e as relações
humanas passam a ser assim também. Então a sociedade atual é essa,
a gente tem que lutar contra isso.”
5 - UMA CONTEMPLAÇÃO DA VIDA
E DA FINITUDE
“Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para frente do que já vivi até agora.
Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas.
As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.” (Rubem Alves)
Segundo Experimento: O ESPELHO
Em um parque, o público é convidado a fazer parte de um
piquenique com café e bolo enquanto as atrizes compartilham, de
forma cotidiana, depoimentos sobre experiências de tempo. A seguir,
o público inicia a contemplação do jardim do parque onde crianças
brincam. Depoimentos sonoros de crianças e adultos com visões sobre
passado e futuro, resultados de entrevistas feitas pelos integrantes do
grupo ao longo do processo, são ouvidos pelo público.
Aos 3 anos - Isso é uma galinha?
Aos 4 anos - Como vão ser minhas férias?
Aos 16 anos - O que você vai fazer hoje mais tarde?
Aos 23 anos - Por quê?
Aos 24 anos - No que está pensando a galinha Laura?
Aos 27 anos - Quanto tempo dura a felicidade?
Ainda aos 27 anos - Qual o sentido do mundo?
Aos 28 anos - Que importa quem fala?
Aos 30 anos - Vai ter sol amanhã?
Aos 31 anos - Por que foi?
Aos 34 anos - Por que é tão difícil ser simples?
Aos 37 anos - Mudar tudo agora?
Aos 52 anos - O que fazemos?
Ainda aos 52 anos - E se chover?
Aos 54 - Por que estamos tão afastados da natureza?
Aos 61 - Como ser ator e espectador ao mesmo tempo?
Aos 72 anos - O que leva vocês a promover este evento?
Aos 80 anos - Como você tiraria leite de gato?
Perguntas feitas pelo público na apresentação do dia 07 de julho de 2012.
Impressões, memórias e esperanças
Claudio Possani – 55 anos
“Tem uma sensação de missão cumprida, de que uma parcela de
tempo se passou, de que algo que você estava esperando acontecer,
aconteceu, um evento que passado o tempo devido, ocorreu no tempo
devido, isso também leva a uma sensação de tempo, de pensar na vida
passando. Tem um que de paz nisso e um que de angústia, você vê as
pessoas crescendo e conseguindo realizar seus sonhos, então você vê
seus filhos realizando seus sonhos e ao mesmo tempo que isso dá uma
sensação de paz, de que a vida própria está se efetivando, ela está
passando de uma forma boa, você vê seus filhos conseguindo sucesso,
vê sua relação afetiva amadurecendo de uma forma bacana, daí você
fica tranqüilo, sua vida está tendo um rumo bacana, ao mesmo tempo é
muito angustiante, porque mostra a vida passando mesmo, né? Você vê
que sua vida está cumprindo seu papel, mas como dizem de brincadeira:
a fila anda, né? Quando todos os rituais, todos os grandes momentos da
sua vida vão se efetivando é porque sua vida está fluindo muito bem,
obrigada, mas está acabando também. Tem uma noção de tempo se
escoando, o que é uma noção angustiante.”
Lucila Acunha - 83 anos
Casada
- o tempo passava rápido quando ia ao baile.
- ficava durante horas brincando na chuva, vendo a chuva e os pingos
que pareciam soldadinhos.
Hoje em dia
- mudanças no mundo, o mundo mudou e os mais velhos tem que
mudar junto. Vê a internet como meio para criminalidade. Acha boa
a evolução da mulher que deixou de ser escrava do homem, antes as
mulheres tinham que obedecer...
- acha que o mundo mudou pra melhor por causa da liberdade.
“Hoje você vive a sua vida e ninguém tem nada a ver com isso.”
Futuro
- com a tecnologia falta mão de obra. Vai chegar um dia em que o
Homem não vai precisar fazer nada, só apertar botões.
Futuro por Bernardo, 6 anos
“Dois mil e trezentos? Dois mil e trezentos! Você entendeeeeeu? Hummm.
Tem naves espaciais e também tem um monstro (longo assobio). Só tem
coisas horríveis e tradordinárias e mais berros, entendeeeu? (assobio)
nhanhonhatchcio nhogostonhonhonhacio tchiloloque rloloqueri go
ratiri nho vateri ro nanari no fiteri e raiurari. ukari makura tchiru raiu biu
raijaracha (longo assobio). É muito estranho e feio. Só tem gosma preta e
gosma verde e gosma preta, gosmas pra tudo que é canto, entendeeeu?
(longo assobio)”.
Walter Possani - 94 anos
- Evolução do telefone: na época dele o telefone era de manivela e
ficava na parede.
“Hoje é tão nítido que nossa... O Cleber tava no deserto da Rússia, é
1000km da capital da Rússia, lá no fundo, lá longe, ele ligou o telefone
e parecia nós dois aqui, mas como? Um aparelhinho desse tamanhinho
com, como é que fala? Microondas... Esse telefoninho que... Celular!
Desse tamanho, fala do deserto da Rússia que é no fim do mundo, fala
igual nós dois aqui. Que perfeição de aparelho, né?”
- Evolução da medicina, tirou pedra do rim e foi almoçar em casa.
“Hoje passa rápido. Parece que passa mais ligeiro. Eu não sei, não vejo
passar e cada pouco é fim de ano. Num instante eu fiz 40 anos, depois
50, 60, parece que agora passa mais ligeiro, não sei...”
- Se pudesse viver tudo de novo, faria as coisas diferentes?
“Ia fazer as coisas melhor, ia. Porque embora eu não fosse ruim, tinha
alguma grosseria, alguma ignorância, alguma coisa que eu não faria,
trataria melhor parentes, vizinhos, qualquer coisa, porque a gente era
um pouco burro, um pouco orelhudo, talvez formação, vem de origem
já... Eu seria melhor, seria.
“Passou, eu não vi, passou, eu tenho 90 anos já e... 90 anos em um tempo
pouca gente chegava, hoje tem bastante gente com noventa anos. 93
eu tenho. E passou, eu não vi! Passou tão depressa que eu fiz ontem 90
anos agora já to com 93 e se continua com saúde eu ainda faço mais
um pouco e vai indo.”
“A juventude não volta mais, e eu percebo no subir uma escada, subir
um peso, pegar uma corridinha, começou garoar eu corro dali de baixo
até aqui, pertinho não é? Filha da mãe, eu chego aqui (ofegando). Digo,
acho que to ficando velho.
- Falando da vizinha doente:
“Ela fica assim: (ofegando) Pra mim ela ta morrendo devagarzinho, mas
os filhos dela, o maridos é bom, os filho é bom, eles são militar, um é
sargento, outro é tenente, bem graduado, ganha bem, e não sai da
casa dela, então tem uma proteção boa, mas a doença é maior do que
o carinho que eles tem.
- Sobre hoje em dia ser melhor que antes:
“Hoje a gente ganha mais, tem mais conforto, as crianças pequeninhas
já vão pra escola, é um sacrifício, né? A gente vê criança pequeninha
assim com uma bolsa pesada, mas se ele não for ele fica pra trás porque
começou mais cedo, né?”
- Conselho aos mais jovens:
“Eu aconselharia tratar bem as pessoa. (chora) A melhor coisa que eu
fiz, de bom mesmo foi tratar bem. Tem a retribuição depois. Nossa... E na
minha idade não precisa muito carinho, muito lambe lambe não, mas
precisa que me trate bem, né? E que me ajude, me de um palpite as
vezes, que as vezes não é dinheiro que ta faltando, é uma opinião de
uma coisa qualquer, quanto que vale pra mim... Eu na minha idade só
preciso saúde, que o resto eu tenho tudo aqui em casa.”
- Momentos engraçados:
“Eu como de tudo, bebo de tudo, agora eu chupei 16 laranja... é muito??
Era meia pequena. Chupei 16 laranja, eu contei! Porque eu gosto e
tava com sede, então... Esse salgadinho aí, eu vou buscar salgadinho,
e quando eu acabei de comer um pacote eu quero outro, né? Mas eu
não gosto de dizer que acabou, então eu pego, vou lá embaixo e digo:
Me da uns 20 pacote desse salgadinho aí, esse torresmo aí! (risos)”
“... Ele tem serviço pro ano que vem inteiro. Ainda não começou o ano
que vem, né? ...”
Julia, 10 anos
Como sente as manhãs
“Eu sempre tenho preguiça de acordar
sempre que eu acordo eu fico meio tonta.”
Quando o tempo demora para passar
“Você não faz nada fica lá parado tipo demora muito”
O que faria durante horas - dançar
O que faz todo dia igual
“Tomo leite, como pão no café,
passo spray no meu cabelo de manhã e penteio ele de manhã
só...
olho no espelho...”
Tem alguma coisa marcante?
“Nossa se tem. Tava correndo tropecei sangrou muito...
eu ficava pensando que nunca ia passar a dor
pensando que ia demorar. E demorou
cantei o parabéns dolorida (e ri)”
Como era o mundo há 10 anos atrás
“Era igual ao que tem hoje, mas algumas coisas não existiam tipo
o telefone; o Ipod touch essas coisas modernas,
não existia celular; ipod; computadores pró, assim, tipo Apple não
existia.
os carros não eram muito grandes ( $ )... só quem tinha muuuuito
dinheiro que tinha vídeo game...
a maioria dos carros era fusca, essas coisas...fiat...”
Como o mundo será daqui há 10 anos
“Minininho de 4 anos já sabe mexer em iphone, já sabe
criança de 2 anos vai ter uma habilidade maior
e vai existir coisa nova
10 anos atrás não existia ipod touch, esse ano existe. Aí tipo, daqui 10
anos vai existir um ipod que VOA por exemplo”
“Vão lançar uma coisa cara que só adulto pode ter, quer dizer, que a
maioria dos adultos têm.”
Na cidade
“Coisas novas na rua , carros big, carros pequenos, $
supondo, pode ter tudo, pode ter qualquer coisa
as pessoas usando roupas diferentes desses anos”
(compara bolsa da Hering com a Vitoria Secret)
“a maioria vai usar da Vitoria Secret.”
Daqui há 10 anos mude o valor do trabalho
Compara moça do shopping ganhando mais
“Se esforça mais, ganha mais dinheiro
só assina papel ganha só 500 reais por mês. Faxineira ganha mais do
que uma pessoa que só assina papel por exemplo.”
Futuro próximo:
“Eu vou sair da escola meio dia e quarenta... todas as aulas seguidas”
“Quando vc ta fazendo alguma coisa os segundos são pa pa pa pa pa
pa pa
Quando ce não ta fazendo nada eles são pé......pé......pé.....”
Dona Lídia, 86 anos
Infância.
Sitio, pobreza. As irmãs e as brincadeiras.
Aos 7 anos vai para escola. O cotidiano: escola, o almoço, as tarefas de
casa.. e as brincadeiras.
Aos 12 anos começa a trabalhar na roça ajudando os pais. Aos 15 passou
a carregar caixas (de banana, mamão, etc)
Aos 17 anos a família muda para a cidade e ela começa a trabalhar em
casa de famílias. Memória oscila, tipo “nesse meio tempo..é, foi. Não, foi
antes...” Conta que vai trabalhar em SP, em casa de família.
“Acho que o tempo para mim nunca voou. Custava pra passar. Custava
muito, eu não sei se era o peso da vida que a gente tinha, que a gente
sentia que queria... o tempo custava para passar. Custava muito.”
O hábito diário era a oração.
“O que marcou a infância era aquela ânsia que a gente tinha de querer
as coisas que a gente não tinha. A gente queria um sapato, não tinha.
Queria um vestido, não tinha. Isso é que... tinha mas era muito difícil e
quando eles podiam. E isso marca na gente porque a gente quando
quer, quer, né? Quando é criança a gente quer, mas não tem condições
então a gente tinha que esperar. Isso marca, marcou muito. Isso é pesado,
que marca muito na gente, né? Eu acho.”
O nascimento dos filhos. Tempo sofrido. Ela trabalhava. Desde a
gravidez foi sofrido. Sem conforto, sem carinho. Ela tinha que trabalhar
e amamentar. A tristeza dela de interromper as mamadas para atender
um freguês do comércio deles.
A vida era difícil. Ela tinha muita responsabilidade. “Era muito confuso,
parece que o tempo não passa nessa confusão”.
“Quando o tempo passava rápido. Eu nem me lembro quando o tempo
passava rápido. Foi tão difícil ali a minha vida. É. Eu nem sei. Nessa época
foi difícil a minha vida”
Os filhos eram lindo, bons. Ela gostaria de sair com os filhos, mas não tinha
tempo. Fez algumas viagens, mas o marido não acompanhava ela e os
filhos. “Eu nunca tive o prazer de ter o tê-lo junto comigo e com os filhos.
Passear, conversar com os filhos, comprar um doce, um sorvete. Nada.
Aquilo me entristecia muito.”
“Parece que a gente nunca chega num lugar bom, né? Feliz. Nunca
chega, né? Foi lento.”
Hoje em dia a vida é mais alegre! “Com todo os ossos doídos, com todos
os problemas, eu me sinto bem. Me sinto feliz. Levanto feliz, como o que
eu quero. Não posso andar porque não posso, mas os meus filhos tão
aí ao meu lado, meus netos. Eu me sinto alegre porque não tenho uma
coisa que me prende, entendeu? E eu tinha. Uma coisa que me prendia
que não me dava prazer, não me dava alegria.” Volta a falar do marido.
Da relação que ele tinha com a religião. Volta a falar que se sente melhor
hoje apesar de estar doente.
“A minha vida foi triste, foi. Não foi triste, não foi alegre. Foi meio, foi pelo
meio.”
Dona Maria José, 84 anos
“Só tem uma coisa no mundo que eu tenho muita antipatia, que eu acho
antipática demais é a tal da morte. Por favor não bata na minha porta
antes da hora não, pode esperar quietinha, vai bater na porta de outro
que ta louco pra ir porque eu não to nem afim, não to nem um pouco
querendo ir, ainda quero ficar aqui muito tempo, se Deus quiser e ele vai
querer, ô mortezinha chata, antipática, xô, vai, vai embora!”
Antonia, 5 anos
“Agora pergunta como as pessoas, como as pessoas se criaram... Foi
assim, ó. Elas, daí, elas nasceram, passaram três dias no hospital, depois
elas foram crescendo, crescendo, viraram crianças, foram crescendo,
crescendo, crescendo até virarem adultos. Algumas se casam, tevam
filhos e aí elas vão ficando velhinhas, velhinhas, velhinhas, até que...
morrem.”
6 - COMPARTILHAR UM AGORA
O fluxo do tempo não é como o fluxo de um rio. As águas do tempo
geram poças, senhoras de três nomes. Em uma, deixamos os pertences
e a infância. Em outra mora, em suma, a esperança e o fim. A irmã
do meio é onde nos banhamos agora, esquecendo-nos talvez que as
águas das três piscinas naturais são, em verdade, a mesma.
(Débora Pinto)
Terceiro Experimento: A FESTA
Público e atores compartilham o mesmo espaço, uma espécie de
repartição sem janelas, um “poupa-papa-tempo”, com seções de
atendimento, bancos de espera e relógios sem ponteiros. O público é
convidado a refletir sobre certos aspectos da sua vida. São construídos e
descontruídos quadros sobre aspectos coletivos e pessoais da memória,
do esquecimento, do futuro, do sonho e da finitude.
Depoimento de uma espectadora
Mas o que é que A Festa tem a ver com poupa-tempo? Foi isso que
pensei, enquanto sentada na cadeira, apenas observava as filas e as
atendentes. Até que uma delas gritou: Próximo! - Não era para mim, mas
não resisti e furei a fila - que pecado! Fui atendida por uma funcionária
muito eficiente e sorridente, que me parabenizou pelos 9.569 dias vividos.
Uau!! Quanto falta para chegar aos 10.000 dias vividos? Vou fazer uma
festa para comemorar! Ops! FESTA? Acho que entendi! Que bom! Fiz os
cálculos e vi que faltam mais ou menos dois anos e dois meses para os
dez mil, vai demorar? Então posso começar com uma festa pelos 9.600
dias vividos, será em uma segunda-feira! E assim a FESTA continuou, e mais
do que compartilhar, sinto que ali naquele espaço COMEMORAMOS o
AGORA. Obrigada Povo em pé!
Andrea Martins
Habitar o presente: entrevista com Midori Takada, percurssionista
japonesa, por Graziela Mantoanelli
O que é tempo para você?
“O tempo geralmente é pensado como algo que flui de forma linear.
Mas, mesmo dentro desse pensamento, de que é uma progressão linear,
se nós nos colocarmos em um ponto desse gráfico, ele não existirá de
maneira independente, ele incluirá o passado e o futuro. O passado e
o futuro, são de alguma forma parte desse ponto, tornando o tempo
em algo não apenas linear, mas cíclico também. Em outras palavras,
você não está somente aqui agora, esse aqui agora inclui tudo o que já
aconteceu com você e tudo o que está por vir.
Minha idéias de tempo vem de conceitos antigos da tradição japonesa,
baseada no budismo japonês e no conceito de animismo. A idéia de
que os seres humanos não estão separados do mundo natural, mas que
a condição humana é uma parte desse mundo, desse fluxo de tempo.
Não há uma separação entre o homem e a natureza, vista às vezes no
pensamento ocidental cristão.
Parte dessa idéia, do Budismo animista, quer dizer que você não está
aqui de forma independente. A sua presença aqui agora, inclui com
todos aqueles que viveram antes de você e todos aqueles que virão. De
alguma forma, todas as experiências, tudo que existiu no passado, existe
em você agora, tudo o que está por vir, existe em você agora. Você não
está isolado no tempo você é parte desse tempo continuum”.
6 - O TEMPO OBRANDO SUA ARTE: SOBRE TREINAMENTO
E INVISIBILIDADES
Alice Possani
Atualmente, faz parte do léxico teatral a expressão “treinamento
de ator”, compreendida de modo geral como um trabalho que acontece
regularmente, e com a finalidade de aprimorar os elementos necessários
para um bom fazer teatral, como a expressão corporal/vocal, a escuta,
a capacidade de jogo, e etc, utilizando-se para isso de um múltiplo
repertório de técnicas e tradições disseminadas de maneira global.
O Projeto A Máquina do Tempo, realizado pelo OPOVOEMPÉ,
trouxe à público três experimentos cênicos que tiveram o Tempo como
ponto de partida, e aconteceram em formatos, espaços e propostas de
relação com o público diferentes entre si.
Como pano de fundo, um treinamento de ator que caracterizase menos pela capacidade virtuosa de realizar ações/movimentos no
espaço, e mais pela capacidade de promover encontros potentes. Menos
pelo domínio e controle do corpo do ator, do que pela capacidade de
gerar afetos, de provocar experiências e provocar-se experiências.
Foram necessários sete anos de contínua pesquisa de linguagem
e verticalização nos elementos que compõe o treinamento do grupo,
para que, paradoxalmente, em O Espelho, as atrizes pudessem estar
da maneira mais cotidiana possível: um encontro sob as árvores de um
parque, em que qualquer teatralidade pode esvaziar a experiência.
Em O Farol, há a condução delicada e quase invisível de cada
atriz que guia os dois espectadores.
Em A Festa a atuação é mais evidente, e se aproxima do perigoso
lugar em que atores fazem e público observa, mas desvia-se dessa
armadilha na medida em que, visivelmente, as atrizes estão também
sendo tocadas pela experiência provocada.
Um olhar desatento pode ter a sensação de que, muitas vezes, os
atores não estão “fazendo nada”, ou quase nada. E, no entanto, há uma
refinada organização que sustenta essa leveza. Uma trilha elaborada
com precisão, uma dramaturgia minuciosa, e muita, muita técnica por
parte dos atores.
É necessária farta generosidade e uma boa porção de confiança
para que os atores possam permanecer nesse lugar neblinado, permitindo
que a experiência emerja e, esta sim, ganhe contorno e intensidade.
É fundamental que os atores resistam ao impulso de tomar a ação
nas mãos e protagonizar a cena. Movimento que o público, inclusive,
espera. É possível identificar nos trabalhos uma opção não só estética,
mas também ética, na relação com o público, com a cena, com a
cidade e com a própria profissão.
Estamos falando aqui de um treinamento que inclui as técnicas,
mas que não se fecha nelas. Um treinamento que extrapola as paredes
da sala de trabalho e pode ser entendido como um modo de existência
e resistência. Que inclui subjetividades e dilui as fronteiras entre trabalho e
vida, permitindo que os encontros entre espectador e público adquiram
dimensões incomensuráveis.
Obrigada, ator, atrizes, diretora e toda a equipe, pela oportunidade
de integrar esse projeto.
Revisitando o Treinamento Suzuki e Viewpoints
AS LINGUAGENS DE BASE
O treinamento e a pesquisa das técnicas Suzuki e Viewpoints, que
chamamos de Linguagens de Base, possibilitam desenvolver um
vocabulário próprio e tem instrumentalizado a pesquisa do grupo por
vários anos. Neste projeto, OPOVOEMPÉ teve oportunidades de refletir e
reavaliar o treinamento através de novas experiências e das sessões de
treinamento aberto.
O grupo realizou trocas com o grupo Lume, através do Rumos Teatro do
Itaú Cultural. Nesta fase, o grupo levou a técnica de Viewpoints para o
Lume e realizou o treinamento vibracional proposto pela pesquisa do
Lume, incorporando-o em alguns momentos ao treinamento de Suzuki.
Ao mesmo tempo, o grupo teve a oportunidade de realizar uma
oficina com Donnie Matter, ator-americano que anteriormente já havia
ministrado outras oficinas com participação do grupo.
Do outro lado do mundo, a atriz Graziela Mantoanelli teve a oportunidade
de treinar, no Japão, com a companhia de Tadashi Suzuki.
Realizamos também dez sessões de treinamento aberto com participantes
inscritos, com diferentes graus de familiaridade com esse tipo de trabalho.
Tais experiências levantaram questões e abriram novas perspectivas
para o treinamento do grupo.
Fica a certeza de que o encontro com o outro é fundamental para
rever a si mesmo: os hábitos, limites, vícios e também qualidades de seu
treinamento. Fica um grande desejo coletivo de dar continuidade a
este tipo de treinamento em futuros projetos, ou mesmo de continuar
as trocas de forma regular em um futuro próximo.
Questões do Treinamento do OPOVOEMPÉ
Concentração
por Graziela Mantoanelli
“Em Toga, um lugarejo no interior do Japão, dormindo ao lado de
um riacho, onde os olhos e os ouvidos são agraciados pelo silêncio
balbuciante da mata, nossa capacidade de concentração se multiplica
na mesma proporção da vastidão do horizonte. Um lugar onde o foco
é muito claro: o fazer artístico. Tudo gira em torno disso, desde as coisas
mais simples do cotidiano, como aquelas diretamente relacionadas à
prática. Treinar, ensaiar, falar, andar de bicicleta, caminhar, cuidar do
espaço, cozinhar, tudo é pela arte de fazer teatro.
Ao viver essa clareza no foco, a primeira coisa que me veio à mente
foi: como trazer essa concentração para uma cidade como São Paulo?
Uma cidade que te pede mil coisas ao mesmo tempo. Um país onde
temos que nos dividir em diversos para conseguir ser um. É possível ter
essa concentração aqui? É possível ter foco?
Não querendo jogar a toalha, mas também desiludida com os movimentos
de conquista, concluí que para ser um bom ator é preciso ser um bom
meditador.
Um meditador se utiliza de diversas ferramentas para abrir espaços
internos que o permita estar na vida do jeito que ela se apresenta e assim
deixar que ela siga seu fluxo.
Nesse sentido, uma das funções do ator é permitir que as pessoas vejam
a vida transbordando. Mas como realizar tal façanha se todos os espaços
estão fechados. Ou melhor, entupidos pelo excesso. Daí a necessidade
eterna de limpar, arejar, para que nossa tela realmente transborde a vida.
Cada um tenta achar à sua maneira aquela limpeza que lhe convém,
mas, diferente da meditação, no teatro esse espaço tem que ser criado
de forma coletiva.
É aqui que entra o treinamento criado por Tadashi Suzuki. Treinamento que
surgiu de uma necessidade muito individual e que, quando foi colocada
no coletivo, tomou a proporção do mundo. Nesse momento de digestão,
o que fica mais forte dessa ferramenta é a sua capacidade de abrir
espaços. É um mergulho interno para se chegar em algo monumental:
a vida.”
O Treinamento - breve reflexão
Por Manuela Afonso
O treinamento com artistas selecionados e convidados foi, na minha
opinião, de enorme riqueza para o grupo arejar e refrescar seu
treino. No caso do Suzuki training, a atriz Graziela Mantoanelli esteve no
Japão estudando a técnica com o criador da mesma, Tadashi Suzuki, e
durante o treinamento aberto ela conduziu os treinos e compartilhou com
todo o grupo suas reflexões e novas descobertas acerca da técnica. Foi
riquíssimo. Entendemos melhor alguns dos movimentos e seus motores, e
aprofundamos a técnica.
No treinamento do Viewpoints, a diretora Cristiane Zuan Esteves
conduziu o grupo ao foco da exploração nos Viewpoints de tempo
(repetição, andamento, resposta e duração). Foi bastante interessante
para, coletivamente, alargarmos a gama temporal das improvisações,
ampliarmos a palheta de velocidades, ritmos e durações, e multiplicarmos
as possibilidades de jogo nesta direção. Eu, particularmente, fiquei
bastante instigada por pesquisar a duração.
Durar, durar, durar... O que me move? Quando? Recebo um estímulo,
sigo durando? (onde quer que eu esteja) ou passo a uma nova ação?
Escolhas. Trabalhando duração explorei a escolha dentro da sessão de
Viewpoints. Mesmo buscando manter a abertura aos estímulos externos,
passo a compreender corporalmente que continuar em duração (ao
receber um estímulo) passa a ser uma questão de escolha! Consciente
de um estímulo, agora escolho seguir, parar, transformar, manter, durar,
etc... Para quem sempre buscou responder transformando ou parando
ou seguindo, ganhar a opção de ficar, manter, durar, se torna um novo
mundo no horizonte! Sinto possibilitar, assim, um jogo mais sincero com
colegas e público.
Depoimento de Carolina Leiderfab, participante do treinamento aberto
“As técnicas de Suzuki e Viewpoints tem funcionado pra mim como
organizadores da experiência de estar presente em cena e improvisar,
a partir do corpo, variável e concreta. Tem sido um desafio expandir o
jogo a partir das consígnias bastante precisas que ambas as abordagens
propõem. Em outras palavras, como ter uma fôrma sem forma. É
como uma fôrma de cozinha que contém, dá sustentação a diversos
ingredientes, estes que variam de receita pra receita. Inclusive, a própria
fôrma pode mudar, mas sempre estará lá, como base para o alimento a
ser cozinhado. Treinar com as meninas do OPOVOEMPÉ me fez reafirmar
a mesma pergunta que me surgiu quando conheci a técnica de
Viewpoints em 2009, ao fazer o curso da SITI Company, que é: como uma
técnica, cheia de variáveis, pode organizar ou dar diretrizes para uma
experiência que em si, não é organizada, sem direcionar ou bloquear a
mesma?”
Trechos de entrevista sobre tempo com Valdir Afonso
“Eu posso ter um tempo de não fazer nada. O tempo de não fazer nada,
para mim ele é muito útil porque aparentemente eu não estou fazendo
nada, mas alguma coisa ta sendo gestada.
Agora isso também é em função do que eu projeto para mim, né? Eu
não me projeto estar, fazer, acontecer... ser isso, ser aquilo... Eu projeto
para mim exatamente uma qualidade de vida num lugar que ao mesmo
tempo está nessa redoma. Porque eu estou, não estou fora, eu vivo em
São Paulo, eu tenho trabalho, mas eu toco isso de um jeito.. que isso não
determine o que é minha vida, mas que a minha vida se relacione com
isso.
A minha preocupação hoje é muito mais de entender o que acontece
do que intervir no que acontece.
Neguinho num bota uma coisa na internet e .. estouro a boca do balão.
O mundo inteiro viu, o mundo inteiro soube. Agora, a gente sabe também
que três dias depois vai ter uma outra.
O que é realmente importante nisso? Ou que isso é só ficar fazendo
borbulha? Fazendo borbulha, fazendo borbulha. As pessoas correndo
feito doidas, fazendo borbulha, fazendo borbulha.
E o tempo, ao fim ao cabo, é aquilo que a gente faz dele. Se eu acredito
que a felicidade está no mercado e que eu tenho que ser o ban ban
ban das calonga, que se eu não for o ban ban ban das calonga eu não
vou ser feliz. Se eu não tiver um apartamento de um milhão de reais,
um carro de duzentos contos, se eu não tiver meus filhos estudando não
sei aonde...evidentemente, se eu acredito que a felicidade é isso, aí eu
tenho que ir atrás do tempo que isso pede das pessoas. Agora, se eu
acredito que o barato é um outro, vai me exigir um outro tempo. Então,
o tempo é muito do mundo que você pertence. E você pode pertencer
a mais de um mundo ao mesmo tempo, também tem isso. Então, essa é
a complexidade.”
7 - DEVORANDO O TEMPO
Ao longo do projeto foram realizados grupos de estudos
coordenados por Ciro Marcondes, Laymert Garcia dos Santos, Peter Pál
Pelbart, Maria Rita Kehl e Cassiano Quilici. Esses grupos foram abertos à
inscrição de interessados, e trouxeram farto material para refletir, deglutir,
digerir, questionar, pensar e criar o Tempo.
Ainda com o intuito de investigar o tema de maneira compartilhada,
foram realizadas duas palestras abertas com o tema “Visões do Tempo”.
Os palestrantes foram José Miguel Wisnik e Jorge Albuquerque Vieira.
Segue texto produzido por uma das participantes dos grupos de
estudo, bem como transcrições das falas dos coordenadores e das
referidas palestras.
IMPRESSÕES GERAIS POR DÉBORA PINTO, PARTICIPANTE DO
GRUPO DE ESTUDOS 01, COORDENADO POR CIRO MARCONDES
SOBRE A ABERTURA DO PROCESSO ou contribuições do formato Grupo
de Estudos conforme proposto pelo OPOVOEMPÉ
Uma das principais peculiaridades do fazer artístico incide no fato de
que este, inflado de estratégias, abarca uma enorme quantidade de
riscos e, por isso mesmo, de potenciais de erro. Esta relação com o
risco e as escolhas utilizadas neste percurso podem criar linguagem,
especular estéticas, fazer emergir possibilidades. São escolhas dentro
de um processo e, ao mesmo tempo, aquelas que definem o próprio
processo em curso.
Desta maneira, a abertura de processo, segundo o meu olhar e
explicitando aqui também parte do meu interesse neste Grupo de
Estudos, aparece como uma oportunidade para observar uma parcela
da construção estratégica em prol do compartilhar de conhecimento
em uma de suas partículas - a do aprofundamento teórico acerca do
tema base da proposição artística.
Reunir pessoas de diferentes formações e pontos de perspectiva em
uma rodada de diálogos suscita claramente um desafio, uma angústia,
uma espera - e muitos riscos. Um Grupo de Estudos é também em si
uma articulação criativa, se assim ele for visto e tratado. Eis aí uma das
importâncias da gestação de espaços para este modo de compartilhar,
certamente um dos mais raros e também dos mais promissores quando
o objetivo é buscar e ultrapassar ideias, crenças e paradigmas. Além de
abrir portas para o enfrentamento do desafio da alteridade, mapear
pensares compartilhados
e divergentes e, certamente, expandir
fronteiras de pensamento e ação.
SOBRE O PROCESSO DE SELEÇÃO as motivações e a pesquisa
O processo de seleção para o Grupo de Estudos 01 obedeceu a
uma celebrada ordem de fatores em meu caso. Eu havia tido uma
experiência de viagem ao conhecer um vendedor de antigüidades que
comercializava e colecionava relógios antigos, com quem tive uma
troca sobre a passagem do tempo que havia aberto diversos espaços
de percepção em minha mente. O sabor da experiência se perpetuou
em mim por semanas até ser elaborado em uma síntese: o que eu
desejava fazer era refletir sobre o tempo. Restava-me, então, encontrar
um modo de realizar tal intento. Ao ver a proposta do OPOVOEMPÉ,
tive uma espécie de chamado poderoso. Eu estava desperta para
um tema e ele, ao que parecia, também queria revelar-se para mim.
Basicamente uma oportunidade genuína. Tipo da raridade que não
pode ser desperdiçada.
Com esta motivação, reservei um dia para buscar as minhas próprias
referências sobre o tema Tempo, um pequeno garimpo que se mostrou
produtivo com uma velocidade surpreendente. Foi simples encontrar
nas páginas dos livros os trechos que interessavam àquele intuito - e no
fim do dia, após finalizados os textos para a ficha de inscrição, desfrutar
o deleite de reler Alice no País das Maravilhas. As escolhas para o
processo de seleção, bem como a elaboração dos pequenos textos que
de que este era composto, ordenaram a pesquisa e me solicitaram a dar
alguma forma aos referenciais encontrados. Foi, além de um pequeno
mergulho, uma espécie de preparo para o processo que estava por vir.
O GRUPO, OS ENCONTROS
Como avançar em um grupo de estudos? Que tipos de dinâmica
fariam com que aquela junção de aproximadamente quinze pessoas
trouxesse pequenos ou grandes iluminares acerca do Tempo? Grande
parte dos presentes no Grupo tinham uma vivência artística, e mais
especificamente teatral. Mas também havia representantes de outras
formas de expressão, como as artes plásticas, a dança, a literatura.
Grande parte das trocas, porém, não tocava necessariamente estas
experiências. Após o primeiro encontro, que contou com proposições
mais dirigidas por parte do professor Cyro Marcondes, os debates
passaram a desnudar conceitos e sensações, sentimentos e percepções
de cada um daqueles indivíduos em sua relação diária com a temática
do tempo - com especial destaque para as fricções, os desencontros, as
assimetrias e fissuras provocadas por este relacionar-se. Assim, cada
qual - as atrizes, os componentes do grupo e o professor Ciro Marcondes foi tecendo encontro a encontro um modo de interação que possibilitou
a expressão de pensamentos e ideias que podiam se embeber de
afetividade livremente, além do deliberar mais conceitualmente científico
e formal. Esta abertura possibilitou trocas e momentos surpreendentes,
muitas vezes fruto de divergências que inflamavam potencialidades
ou de convergência que construíam caminhos de pensamento, frases
e partituras poéticas, pequenos despertares e alguns nós que iam
desatando-se de maneira progressiva no curso de cada encontro.
Não havia dúvidas, porém, de que os ouvidos e corações ali estavam
definitivamente presentes e claramente tocados pelas capilaridades
daquela temática.
O TEMPO ENQUANTO TEMA
Amplo, profundo e complexo, o tema Tempo conta com um aspecto
fugidio. As conclusões que suscita são tantas e levam a tantos caminhos
que parecem edificar verdadeiros labirintos. O meu interesse principal
inicial era o de discutir o tema a partir principalmente dos fenômenos da
memória, quer do aspecto individual quer do coletivo, um viés histórico
fortalecido pela minha devoção à museologia e às questões relativas
ao patrimônio histórico. Ou seja, o meu ponto de partida era a relação
com o tempo passado e com a experiência humana de suas
ações. Rapidamente esta se revelaria apenas uma das entradas no
imenso labirinto. Física, Sociologia, Psicologia, Arte, Antropologia, História,
Comunicação e outras ciências apresentam verdadeiros tratados sobre
e para o Tempo. A forma como cada um se sente tocado por seus
tentáculos e manifestações é ainda um campo mais vasto. Trata-se de
uma temática, no mínimo, profundamente desafiadora. E o Grupo de
Estudos que sobre ela se debruçou em diversos momentos experimentou,
creio eu, seu formato de esfinge a fazer mais perguntas do que oferecer
respostas e suas imagens, sólidas apenas enquanto miragens.
DESDOBRAMENTOS
Abaixo pontuo alguns dos caminhos mais percorridos ao longo dos
diálogos ocorridos no Grupo de Estudos 01, de acordo com a minha
percepção. O critério para a escolha desses desdobramentos foi,
basicamente, sua recorrência em diferentes encontros e o impacto
causado nos presentes (e, é claro, em mim).
Vida, morte, ritmo e compasso
O relógio, esta alegoria do tempo, marca também alegoricamente
nossa trajetória de vida. Não importa o quanto nossa existência seja
longeva, simplesmente carregamos a consciência de nossa finitude. E
também a de que as badaladas das horas continuarão seguindo após
nossa partida. Mesmo que filosoficamente ou artisticamente seja possível
desconstruir esta imagem, não acredito - e o senti fortemente durante o
Grupo de Estudos - que nossa existência possa se eximir de uma constante
conversa com as tradicionais medidas das horas e anos, em um
constante balanço entre o que fora percorrido e o que ainda está por
ser trilhado. Incrível como a morte e a finitude embrenham-se na reflexão
sobre o Tempo.
Especialmente impactante a confrontação com uma espécie de senso
de compasso de vida também me tocou profundamente. O que
seria estar em um compasso correto, em sintonia e amizade com o
Tempo? A que equivaleria à perfeita harmonia entre ritmo e compasso?
A temporalidade exercida pelos ciclos da natureza é a mais apta a
reger as nossas relações conosco e com o mundo? A
experiência contemporânea e urbana estaria nos deixando de alguma
maneira especialmente desnorteados? Nosso temor em relação à morte
influiria mesmo tão drasticamente nestas relações? Perguntas de esfinge,
respostas miragens - e ainda assim, respostas perseguidas como oásis.
Creio que não por acaso este desdobramento se repetiu tanto. Estar no
tempo, para nós humanos, é estar embebidos em finitude. Temos prazo
de validade. É necessário lidar com esta verdade, absoluta. De especial
beleza foi verificar o impacto do dueto Tempo-finitude em diferentes
membros do grupo de acordo com o momento de vida - a chegada aos
40, a partida da adolescência ou de um certo tipo de juventude. Olhares
compartilhados para começos, meios e fins.
Capitalismos
O choque entre a utilização que fazemos de nosso tempo e
o nosso desejo de liberdade encontraram um motivador comum em
muitos dos encontros: o sistema capitalista. Parece ser difícil livrarmo-nos
da sensação de nos encontrarmos impregnados de um sistema falido,
que nos absorve e de alguma forma condena, ao mesmo tempo que
nos possibilita o nosso estilo de vida e mesmo a nossa existência como a
conhecemos.
Como que por consequência, observamos que o consumo e sua
abrangência ampla nos toca não apenas do ponto de vista prático
mas também sob o aspecto subjetivo. Simplesmente não conseguimos
escapar, ao falarmos sobre o Tempo, do bom e velho ditame “tempo
é dinheiro”. Uma vez que a regulação de nossas vidas passa pela
nossa capacidade de consumir - e também de gerar recursos para o
consumo - nossos relógios sociais recebem a interferência capitalista nas
mais variadas camadas. As 24 horas de nossos dias, os dias da semana,
os meses, a organização dos anos. As aglomerações, movimentos,
celebrações, o ócio, o divertimento, o prazer. Temos no capitalismo
uma espécie de cartilha imperativa para a correta manobra em cada
um desses setores, uma fórmula matemática de emblemas simbólicos
pautando severamente nossos relógios. Não são afinal os patrões e
as corporações grandes compradores de tempo produtivo de vidas
humanas?
Buscar autonomia e sair da cartilha apresenta riscos e preços - como
qualquer escolha. E requer de nós capitalistas um modo especial de
preparo: a compulsão que liga produção e consumo acaba por nos
convencer de que tempo improdutivo é tempo perdido. E que tempo
é algo que se pode perder, como se podem perder notas de dinheiro.
No que indago: o que seria o equivalente contrário? O que seria ganhar
tempo? A imagem de um tempo que não se acumula, que não se
pode colocar em uma caderneta de poupança nem ser ampliado por
especulações surgiu em dado momento como que para novamente nos
trazer a consciência de que o tempo de uma vida humana conta com
um aspectos que saltam ao sistema. Ele existia quando ainda não existia
sistema. Tem fluxo em sociedades onde o capitalismo não é o sistema. E
mesmo em nós, ocidentais capitalistas, carrega impagáveis camadas
de sonho, belezas, sutilezas, significados, invisibilidades, sagrados.
Tempo-cidade em artefatos e artifícios
Vejo em São Paulo uma bomba relógio. A velocidade está nas entranhas
de suas vias e, para os que nela habitam, parece acelerar até o sangue
que corre pelas veias. E não apenas porque carros, ônibus, metrôs,
motoboys e pedestres são velozes. Mas pela sensação atmosférica de
que algo está programado para nos fugir completa e totalmente do
controle assim que micro ou macro ciclos temporais se fecharem sobre
nossas cabeças. Estará perdido se não dançarmos corretamente em seu
ritmo acelerado. Desfalecerá se formos lentos em meio a seus pedidos.
Desmantelará se não obtivermos todas as repostas e respondermos
a todas as perguntas. Esta certamente é uma característica de
qualquer grande cidade. Mas a peculiaridade aqui parece estar no
ríspido desencontro entre o relógio da bomba que nos põe em marcha
e fisicalidade concreta da urbes. Ela nos entrava. Torna complexa até a
mais simples das ações de deslocamento. Faz desmoronar referências
e nos desnorteia, como que viva e zombeteira. E cresce em população,
incha. Renova a cada dia suas estratégias para seguir nos acelerando e
nos debatendo, como que na certeza de que jamais teremos condições
de desarmá-la e retirá-la de sua condição de artefato explosivo armado
de uma intrínseca condição temporal.
E, pois que rememoro que cidades são, basicamente, artefatos
humanos. E a velocidade está em nós, em nossas escolhas, em nossas
demandas, em nossos anseios mais ou menos associados ao modo de viver
da cultura contemporânea e todos os seus afins. Sim, há os imperativos
capitalistas, bem como as exigências sociais que escolhemos acolher. As
regras do lugar e aquilo que acreditamos necessitar para sermos aceitos
e amados. A cidade somos nós. Mas também as construções, prédios,
avenidas, ruas e calçadas esburacadas. A expansão desordenada.
A desordem. O caos. A beleza. O tempo único que produz. Os múltiplos
que imbrica. Os multiversos que silencia. As variadas cadências. Os
solavancos que reverbera. Nas 24 horas dos dias. Nas tardes que vemos
cair no trânsito.
Se determinamos a cidade ou é a cidade que nos determina, se fazemos
o tempo da cidade ou o é tempo da cidade que nos faz. Nos diálogos
do grupo, mais uma vez mais esfinges do que resultantes fixas. E, por
fim, um fato: escolhemos estar no caos São Paulo, nos temporalizar
com ele. Talvez, e aqui me arrisco, porque sintamos que nesta terra
bomba relógio exista a possibilidade real de ciclos revelarem não
somente caos ou desalento, mas também brilho e cores intensas como
as de barulhentos e bem-vindos fogos de artifício.
Querer parar ou uma vida de índio
Neste exato momento em território brasileiro, milhares de seres humanos
dotados das mesmas faculdades que eu não estão preocupados com
o fato de amanhã ser segunda-feira, dia útil em que enfim os bancos
abrirão e as contas poderão ser pagas sem atraso. Para eles não
existem conceitos como “banco”, ou “contas” e, obviamente, nenhum
sentido na expressão “pagas sem atraso”. Eles acordarão amanhã
para um modo de vida que desconheço quase que completamente,
em total integração com a natureza que os cerca e com os ciclos que
esta produz. Não sei exatamente como determinam a hora de fazer isso
ou aquilo, mas é certo que se organizam, que vivem, que amam, que se
divertem, que trabalham. E que não usam relógios.
A verdade é que a vida dos índios sempre exerceu sobre mim uma
espécie de fascínio absoluto. Secretamente, confesso, os invejo desde
a infância e desde a infância torço para um dia, por algum motivo
inimaginável, transformar-me em membro alguma tribo ainda não
culturalmente sucateada. Ter uma existência com um grau completo de
intensidade, em contato direto com a realidade mais tátil e natural. E
nunca, nunca, nunca mais ser acordada por um despertador.
Eis que meu sonho de infância aparece agora compartilhado com
conterrâneos mais chegados, mesmo que sob disfarces. E suspeito que,
se não é por fama e glória do modo de vida das florestas, é em grande
parte pela desavença em relação aos despertadores, aos dias úteis,
às contas a serem pagas sem atraso. Muitos dos que encontro afirmam
que, em um ponto da vida ou em todos, está em “uma correria”. E não
são poucos os que mais intimamente deixam escapar: “sabe, eu queria
mesmo era poder parar um pouco”.
Durante o Grupo de Estudos, em diversos momentos senti, de forma mais
ou menos explícita, este clamor pela desaceleração. Aqui e ali uma certa
nostalgia de tempos históricos não experimentados, mas aparentemente
dotados de uma temporalidade mais alinhada com os nossos anseios
de felicidade. Podemos experimentar uma incrível velocidade na
comunicação, no acúmulo de informação, no deslocamento pelo
globo. Embora por vezes esse acelerado possa provocar cansaço,
também nos permeia de reais e verdadeiros prazeres. As velocidades
se sobrepõem e nos amparam.
E mais uma vez a questão parece ser a liberdade, ou uma certa
categoria de liberdade de escolha. Mergulhados em nossas realidades,
corremos o risco de nos esquecermos de nossa capacidade criativa
para ter experiências temporais distintas. E não falo apenas das que
vivenciam os índios. Mas do tempo em suspenso da paixão romântica,
que pode deixar marcas e estar presente por anos. O tempo da dor
profunda. O tempo das despedidas. O tempo dos recomeços.
O querer parar talvez esteja associado ao desejo de vivenciar cada uma
dessas experiências dentro de sua intensidade e cronologia específica.
Do sonho de organizar a existência levando em conta nossas sensações
e sentimentos, dos mais sutis aos mais contundentes. Se não uma vida
de índio, uma vida de pele, de nervos, de coração, de pensamento, de
contemplação. E de aceleração, quando assim nos parecer de justa
medida. A liberdade de transitar por distintas temporalidades é o nosso
querer parar. Em paradoxo, portanto, não uma estática forma, mas
uma vibração e um movimento.
APONTAMENTOS percepções e sugestões gerais
Em relação ao Grupo de Estudos 01, creio que poderiam ter dado lastro
ao processo trabalhos gerados pelos participantes - por exemplo, no
formato de texto. Da mesma forma, proposições temáticas, embora
apresentassem o risco da limitação,
também ocorreriam como balizas capazes de aprofundar as discussões.
Da mesma forma, creio que um fechamento de processo, com uma
avaliação do grupo sobre o encaminhamento e/ou algum produto
(texto ou qualquer outra modalidade de expressão) auxiliariam nesta
finalização com mais amarração.
No mais, coloco como altamente generosa a postura das criadoras
do OPOVOEMPÉ no andamento de todo o processo. Foi sem dúvida
uma aventura dessas capazes de despertar novas percepções e gerar
transformações dessas que só a poesia pode promover.
ENCONTRO COM PETER PÁL PELBART
DATA: 12 DE NOVEMBRO DE 2011
Cristiane – A gente também mandou um texto pra todos, espero que
tenham lido, que era bem lindo - Arnaldo tempo rei a gente mandou
- para as pessoas já começarem a entrar no espírito dessa discussão,
desse grupo de estudo que a gente fez uma primeira parte. Tem alguns
remanescentes dessa primeira parte que continuam com a gente, tem os
que estão chegando novos hoje, tem o pessoal que são os colaboradores
expandidos, aqueles... Marrie, Marcos, são as pessoas que tem trocado
com a gente em sala de ensaio também, como em outras dimensões,
assim. Então acho que é bem legal a gente reunir todo mundo. A gente
tá estudando o tempo. O nosso projeto chama A Máquina do Tempo (ou
longo agora) e a ideia é de pensar o que são essas máquinas do tempo
e como a gente lida com o nosso tempo, um monte de questões que a
gente já levantou mas que...eu não sei, assim, eu fico muito contente de
poder ter você hoje aqui por que, eu acho que quando a gente lê seu
texto, super poético, ele inspira muita coisa. Eu acho que esse grupo de
estudo mais do que chegar em alguma conclusão, são provocações
para criação. Então a gente tem a sorte de ter muita gente que trouxe
várias inquietações ou várias visões diferentes para gente e que isso
desperta possibilidades de criação. Então acho que essa é a brincadeira
de ter esse grupo de estudos hoje. A gente tá um pouco desfalcado hoje
até, por causa do feriado, mas ... pode ser que alguém chegue ainda e
não sei. Mas é isso.
Peter – Tá. Como é que vocês imaginam que a gente possa proceder?
Me ocorre duas possibilidades. Uma que, a partir da leitura que vocês
foram fazendo, das questões que os inquietam, que vocês me digam
um pouco assim no meu cargo o que vocês gostariam de ouvir e a partir
daí eu faço uma fala que retoma o que me coube. Outra possibilidade
é eu ir dobrando alguma coisa, depois vocês vão interferindo no meio,
e depois a gente conversa, num sei. Qual é a dinâmica que vocês
imaginam? Mais produtiva para vocês... lance.
Ana – Eu acho que tendo o tempo, que é o nosso motivo aqui do trabalho,
a alternativa B me parece boa, de você sugerir e dar uma...daí a gente
vai entrando.
Cristiane – E a gente também vai perguntando coisas.
Peter – Ta bom. Eu vou fazer assim oh, eu não vou fazer uma exposição
assim esquemática sobre a criação do tempo que é vastíssima, mas eu
posso abrir algumas, eu vou oferecer algumas imagens que nos ajudem
a pensar.
Eu vou começar com um ... eu tive com vocês aqui a 3, 4...
Cristiane – 2 anos e meio.
Peter – E sobre o que que eu falei aqui?
Cristiane - Era o Aqui Dentro Aqui Fora, e você falou uma coisa muito
linda que era do “outrar-se”, de encontrar o outro e ser modificado. É
bem lindo. Tá no site.
Peter – É só para eu não me repetir né, eu venho ao todo duas vezes e
digo mesma coisa...
Ana – É repetição.
Peter – Então, vamos começar com uma imagem do Bergson, que tá um
pouco naquele texto que você me enviou. Aquele texto circulou, não é?
Ou não?
Cristiane – Qual, o ...?
Peter – O do Deleuze?
Cristiane – Não por que era em Francês e eu acho que não é todo mundo
que fala francês....
Peter – Então ó, eu vou retomar um fragmento filosófico extraído do
Bergson, que viveu no final do século XIX, no começo do XX. São textos
que o Deleuze usou muito para escrever os livros dele sobre cinema, tem
o Cinema I e Cinema II. Então é ... nada disso importa. Eu vou contar uma
historinha: Era uma vez, era uma vez um monte de imagens. Apenas
imagens. Imaginem que nessa espécie de início de um universo não
houvesse nada além de pura imagens. Imagens que percutem umas nas
outras, ou seja, a cada movimento, cada movimento de uma imagem
provoca um movimento da imagem vizinha. Como se fosse um mar de
imagens, como se fossem gotas, cada movimento de uma gota produzisse
algum movimento na gota vizinha. A gente poderia comparar esse mar
de imagens a uma espécie assim de barulho cósmico. Então era uma
vez apenas imagens. É uma ficção que o Bergson sugere. Ora, uma
imagem ao receber um movimento ela imediatamente transmite esse
movimento a diante, ela não faz nada a mais do que transmitir o
movimento que ela recebe. Eu sei que tudo isso parece no limite da
alucinação, por que como é que a gente pode imaginar um mundo de
imagens onde sequer houvesse um sujeito ou um olho? É imagem para
quem? Imagem de quem? Mas é assim mesmo. Tomemos esse grau de
alucinação filosófica. Era uma vez um momento em que só havia imagens
e nenhum sujeito que as contemplasse e nenhum sujeito no qual essas
imagens estivessem. Aí, imaginemos que cada imagem, como se fosse
uma espécie de célula que recebe um movimento e retransmite esse
movimento. Imaginemos que no meio dessas infinitas imagens houvessem
algumas que ao invés de receber e transmitir o movimento, aquilo que
elas recebessem de movimento elas tardassem um átimo em retransmitir.
Seriam como que imagens um pouco mais lentas que as demais, que
elas não transmitissem automaticamente tudo aquilo que incide sobre
elas, que houvesse nessas imagens uma espécie de retardo, ou mais do
que isso, uma pequena hesitação. Essas imagens que o Bergson vai
chamar de imagens vivas, essas imagens singulares que não se satisfazem,
ou melhor, que não conseguem transmitir automaticamente o que elas
recebem, e elas são como que um centro de indeterminação. Elas são
lentas. Elas não reagem imediatamente. Elas hesitam. Elas produzem
uma espécie de hiato no automatismo dos movimentos e o Bergson vai
dizer: essas células imagens ... pera ai, deixa eu recuar um passo ainda,
vai ficar mais obscuro. As imagens não só transmitem o movimento de
umas para as outras, mas elas também são pura luz. Elas incidem
luminosamente umas sobre as outras. Elas percutem luminosamente
umas sobre as outras. Elas marcam luminosamente uma as outras. Tudo
aqui é enigmático. Essas imagens, que o Bergson chama de vivas, que
quando recebem um movimento não o transmite imediatamente tal
qual, mas elas como que impõe um retalho, uma hesitação, um hiato
temporal, uma espécie de intervalo, é um foco de indeterminação, por
que? Porque não dá para saber o que vai acontecer logo em seguida.
Elas receberam um movimento, por exemplo, um golpe, ao invés de
retransmitir esse golpe elas podem não reagir. Elas podem sofrer um
tremor, elas podem um leque de possibilidades que é indeterminado.
Para o Bergson o que caracteriza o vivo, em oposição ao inerte é
precisamente isso. O vivo é aquele que sofre ações de outros objetos ou
seres e que não as prolonga automaticamente, é como ele se reservasse
o direito de escolher entre múltiplas possibilidades como é que ele vai
reagir, se é que ele vai reagir. Então, esse foco de indeterminação é para
Bergson uma certa margem de liberdade. O ser vivo é isso, o ser vivo é
um foco de indeterminação com uma margem de liberdade. Tudo isso
por que? Justamente por que ele é uma espécie de intervalo temporal,
há um hiato, ele é um hiato, como se ele abrisse nesse retardo que o
caracteriza uma margem de manobra, possibilidades diversas. O ser vivo
é da ordem na hesitação, ao contrário ao inerte, não hesita nada. Se
você dar um golpe numa bola, ela vai. Imediatamente. A bola obedece
automaticamente ao movimento que lhe é imposto. O ser vivo não
obedece automaticamente. Ele se reserva, digamos assim, o direito de
escolher num leque de possibilidades a partir - eu insisto - de um retardo,
de uma hesitação, de uma indeterminação. Então é ai, para Bergson é
aí a gente poderia dizer, que nasce o Tempo. Nessa...nesse retardo, nesse
hiato, nessa indeterminação, nesse intervalo, nasce um possível e não
mais o necessário. Se a gente agora pensar ao invés do movimento, ao
invés de transmitir alguém me dá uma porrada, ao invés de eu devolver
eu tremo, ou eu choro, ou eu me lembro de todas as pancadas que eu
levei ao longo da minha vida, ou eu desfaleço, ou eu dou um golpe no
meu vizinho, ou eu desconto no meu filho, percebe? Ou nada disso. Eu
escrevo. Ou eu vou lá e piro no palco. Quantas possibilidades. Eu levei
um golpe. Ao invés de eu imediatamente retransmitir esse movimento
que eu recebi ... há ai um hiato, uma margem, de onde podem surgir “n”
possíveis e nenhum dele está determinado. Por isso que é um foco de
indeterminação, uma certa liberdade, não assim como a gente costuma
entender: “a consciência resolve entre 5 opções”. Não, a liberdade do
ser vivo é de outra ordem. Não é da ordem da consciência escolhendo,
mas é o vivo produzindo possíveis que antes não estavam inventariados
ou repertoriados nas reações admissíveis. Então é fenomenal porque
nesse... isso é do ponto de vista do tempo, eu queria falar um segundo
sobre a luz. Depois a gente retoma o tempo, aliás, eu falei do movimento,
eu queria falar umas coisas sobre a luz. No Bergson isso tudo é o início de
um livro extraordinário e dificílimo, que eu não aconselho para ninguém,
chamado Matéria e Memória. É o livro mais difícil do Bergson. O primeiro
capítulo é essa descrição do barulho cósmico feito de puras imagens,
movimento e luz. Então, as imagens se marcam umas as outras
luminosamente, mas como elas se imprimissem sobre um negativo
fotográfico nem todas revelam o que foi marcado luminosamente ali. Só
algumas revelam. Essas que não são propriamente luminosas, mas são
como que uma tela negra. Nelas a luz incide e elas funcionam como
uma espécie de revelador fotográfico. Então elas conseguem fazer
aparecer aquilo que luminosamente foi impresso sobre elas e esses
também, no universo, são seres vivos. Os seres vivos não é que eles tem
algo a mais do que os não vivos, ao contrário, eles tem algo a menos.
Eles tem uma lentidão que os outros não tem. Eles tem uma escuridão
que os outros não tem. Pelo fato deles terem um retardo, o leque de
possibilidades neles aumenta. Pelo fato de eles terem como que uma
escuridão, a marca luminosa que incide sobre eles, neles se revela e em
outros não se revela, tá na marcada, não se revela do mesmo jeito. Então
nós somos, nós somos seres... primeiro, se a gente estender isso do vivo
para o humano, se a gente generalizar um pouco - agora eu to saltando
para fora do texto do Bergson, mas a gente pensa, bom. O que nos
caracteriza com vivos, ainda mais como humanos não é que nós temos
mais, é que nós temos menos. Isto é, nós somos mais lentos, mais hesitantes,
mais retardados. Que bom, nós somos retardados. E segundo que ao
invés de nós sermos pura fonte luminosa, nós temos como que uma tela
negra que seria um pouco a consciência onde revela-se aquilo que nos
marcou luminosamente. Vamos deixar esse aspecto de luz, que é muito
importante e poderoso pensar o cinema, e vamos deixar também o
aspecto movimento, que é muito importante e poderoso também pensar
no cinema. Quer dizer, esses dois instrumentos, o que é o cinema senão
imagem, movimento e luz? ...... foi, pegou no poço da dissonância tudo
o que ele precisava para teorizar o cinema. Mas fiquemos só com esse
aspecto do tempo, por enquanto. Hiato: intervalo no automatismo da
ação-reação. Uma espécie de quebra. Nós somos aqueles, tô
exagerando no nós mas, essas imagens vivas são aquelas que quebram
a velocidade e o automatismo dos movimentos. Bom, daí se extrai toda
uma teorização sobre a subjetividade, ou seja, o que é o sujeito? É aquilo,
é aquilo que nasce nesse hiato, nesse intervalo, nessa, nesse retardo. O
sujeito é da ordem de uma lentidão. Pronto, primeira cena. Encerro essa.
Vou para uma segunda, a menos que vocês queiram interromper e
podem, à vontade. Se nessa ficou alguma dúvida, alguma questão que
querem associar vão em frente, sim? Tá mais ou menos, assim, 3% claro?
Mais que isso não precisa. Três.
Público: Risos
Peter - Três, três e meio?
Público - Não, acho que mais.
Peter - Mais, até?
Público - Aham.
Peter - Então, vamos para um segundo momento Bergson. O que é esse
retardo? Esse hiato? Essa indeterminação? O que tem aí dentro? Agora
to dando um salto, tá bom? Vamos supor que o que tem ai dentro, vamos
dar um nome pra isso, é ... vamos chamar isso de duração. Duração. É um
nome esquisito. Bergson pescou esse nome assim... na verdade Bergson
brigou com muita gente de toda a história do pensamento, porque ele
discordou de uma tradição longuíssima de filósofos muito eminentes que
sempre, segundo ele, ou melhor ... que nunca, segundo ele, conseguiram
pensar o tempo. Segundo Bergson a tradição filosófica, desde Sócrates,
é uma brutal negação do tempo. É uma ignorância do tempo ou é
uma desqualificação do tempo. Por que? Não é que esses pensadores
não eram inteligentes, não eram, não tinham...mas, um cacoete do
pensamento inteiro e que amarra história da filosofia em geral é que
esses pensadores sempre, quando pensaram sobre o tempo, traduziram
o tempo em espaço. A representação mais trivial do tempo é uma linha
do tempo, né? Você sempre põe uma flechinha na ponta. Olha só a
linha do tempo. Isso é uma linha do tempo. Taí o tempo. Bergson diz, aqui
eu não estou vendo o tempo, eu estou vendo o espaço, eu estou vendo
uma medida, eu estou vendo uma quantidade, eu estou vendo números
ou seguimentos do espaço. Mas o tempo não é isso com essa linha, com
essa quantidade, com essa representação cronológica. Tempo é outra
coisa. A tal ponto ele achou que tempo era outra coisa, que ele desistiu
da palavra tempo, deixou o tempo como palavra com esses que o
representam espacialmente, e pegou uma outra palavra que chamou
de duração. E a duração é nome que Bergson dá ao tempo pensado,
não a partir do espaço, não em contraposição da eternidade e um
monte de coisa que eu não vou falar agora, mas o tempo pensado na
sua dimensão, na sua espessura própria, na sua densidade própria e na
sua qualidade própria. Porque o tempo é uma qualidade não é uma
quantidade e pensar o tempo qualitativamente é uma tarefa difícil e ele,
para Bergson, a gente pode dizer que metade da obra do Bergson foi
tentar pensar a densidade qualitativa própria do tempo sem recorrer aos
parâmetros quantitativos, espaciais, causais, que o repertorio filosófico
nos oferece. Mas então a gente tem uma pequena dificuldade, porque
sim, duração, duração é uma coisa difícil de pensar. Vou tentar dar
dois ganchos. O primeiro tem a ver com uma características que para
nós talvez seja mais fácil inicialmente de imaginar, a duração ... se a
gente por um segundo se debruça sobre a nossa temporalidade interna,
digamos, o nosso fluxo de consciência. Nosso fluxo de pensamentos,
volições, sensações, a gente se dá conta de que há uma espécie de ...
eu tava numa defesa de tese ontem e antes de ontem. A de antes de
ontem que era sobre tango. E a moça fez uma tese sobre o tango, esteve
em Buenos Aires, fez uma pesquisa, assim, de campo muito intensa, né?
E foi perguntada ali - qual é afinal o segredo de conseguir desfrutar
do tango sem grudar num clichê de movimentação? - e ela deu uma
resposta estonteante. Ela diz - olha, o segredo é, conforme me ensinou
meu professor de tango, é fazer cada movimento como se ele fosse o
último da sua vida. Portanto você não sabe o que vem depois. Se ele é
o último você não tem como antecipar o que é que vai seguir-se a ele.
Eu achei essa resposta, assim, muito intrigante. E aí, eu não tive tempo
nem de ler direito, nem de preparar direito, nem de preparar as minhas
perguntas, quase ... era o dia que tava marcado para vir aqui inclusive.
Público - Risos.
Peter - Mas aí me veio assim eu disse - poxa - será que eu conseguiria
fazer a experiência de falar essa arguição aqui? Usar cada palavra
como se ela fosse a ultima? Eu não consegui. Eu não conseguiria viver
na linguagem com um precipício na minha frente. O Kafka conseguiu.
Mas é um gênio. Mas eu não conseguiria. Já pensou? Essa é a ultima
palavra que eu vou dizer na vida. Depois tem que ver que outra vem,
sempre vem, ou se é que eu desabo. Ora, para o Bergson é uma
experiência impossível, por que? Porque a duração é uma experiência
de continuidade, não de descontinuidade abrupta. A duração, essa...a
duração tem dois aspectos contraditórios. Primeiro é uma continuidade,
por isso você não pode recortá-la em segmento, por isso que a linha
não serve, por que a linha é um monte de pontinhos. Mas e como é
que passa de um ponto pro outro, pergunta o Bergson, ninguém sabe.
Como é que, se você imagina que o tempo é uma quantidade de
instantes, você com isso não consegue revelar o maior mistério. Como
é que se passa de um instante pro outro? Você pode dizer - não, a
minha vida é uma seqüência de muitos instantes - mas e a passagem?
E pro Bergson o que é essencial no tempo é a passagem, os estados
pelos quais se passa são quase secundários, ou melhor, os estados são
como que fotos instantâneas de um movimento que ele é continuo. O
movimento é continuo. A gente pode dizer - não, passei por tal estado,
depois por outro, por outro, mas a passagem é o que importa. Bom para
o Bergson a continuidade na duração lhe é intrínseca e essencial. Esse
é um aspecto. O segundo, que é um pouco mais difícil mas eu não
acho que é difícil, que é: a duração é uma multiplicidade. Como assim?
Como assim? É uma multiplicidade, vou dar um exemplo, o mais fácil,
a música. Pensemos na música. A música sem uma continuidade ela
não é nada. Sem a continuidade ela se, como diz, ela se fragmenta em
pedacinhos soltos. Mas na continuidade ela vai incorporando múltiplas
tonalidades, notas, melodias etc. É uma multiplicidade... então, tem uma
continuidade e uma variação. Se só tiver continuidade não é musica. Se
só tiver variação sem continuidade tão pouco é música. O tempo é a
mesma coisa. O tempo é continuidade, mas essa continuidade é uma
variação de múltiplos elementos que vão surgindo ou desaparecendo,
se agregando, se avolumando, se adensando, se incorporando. Então
continuidade e multiplicidade. É muito difícil pensar isso junto, mas o
exemplo musical nos salva. Então o que que é ... não dá ... Então ...
terceiro passo. Pensando que o primeiro - onde é que eu tava na minha
contagem? Não, eu dei dois elementos sobre a duração, a verdade é
isso. A continuidade e a multiplicidade - o terceiro elemento que eu vou
oferecer é aquele sem o qual nada disso seria pensado, que no fundo
é um sinônimo de tempo também, que é a memória. A memória. Ora,
vamos pensar assim: como é que poderia ter continuidade, se eu não
tivesse a memória dessa continuidade? Se não houvesse uma memória
que nem se....eu poderia ter este fragmento de segundo como se ele
fosse o último ou o primeiro da memória isolado o que o precede e o
que o sucede. A memória ... bom, a memória, não vou, nós não vamos
aprofundar, mas eu queria dizer assim. Então, esse é o segundo segmento,
posso pular para o terceiro? O segundo era sobre a duração. O primeiro
era sobre o intervalo, o hiato,o foco de indeterminação. O segundo era
sobre a duração. O terceiro vou falar um pouquinho da memória, não
queria mas vou.
41:30
Homem – Mas diga então uma coisa.
Peter – Fala.
Homem – Então a memória ela é também uma característica da
duração?
Peter – A memória ela é sinônimo da duração num certo sentido.
Homem – Ela não está em pé de igualdade com a continuidade, com a
multiplicidade, não são três componentes da duração?
Peter – Não, não. São os dois. A memória é porque ... eu vou então falar
da memória.
Público - Risos.
Por que o quê que... o que que é a memória em Bergson? Eu costumo
me representar a memória como ... eu teho uma memória! Eu tenho uma
espécie de disco rígido em mim, que registra tudo aquilo que eu vivi. Uma
espécie de... é um suporte físico que preserva o registro do tempo. Para
Bergson é uma representação tola, por que não tem suporte físico, não
tem registro, não é que eu tenho uma memória. Eu sou uma memória,
ou melhor, eu sou ... eu, nesse presente, eu sou o ponto mais contraído
de uma memória mundo que eu encarno. Se a gente tivesse uma lousa
eu faria aqui uma espécie de “v” gigante, cujo vértice seria a ponta
da minha cabeça. Então, digamos que cada um de nós andássemos,
não com um chapéu mas, com “v” virtual sobre a sua cabeça. Isso
quer dizer o quê? Cada um de nós é uma contração atual de uma
“memória mundo” virtual que cada um de nós necessita... é, que cada
um de nós carrega isso tudo. A gente poderia dizer - a memória, essa
espécie de massa virtual da qual eu sou uma atualização do presente.
Eu vou dar um exemplo assim um pouco mais fantasioso que está nos
livros do Deleuze de cinema: eu to aqui com o meu chapéu virtual, tá
bom? Que é o .... você quer me perguntar? Não ? Chapéu virtual é
assim, é a massa de “memória mundo” da qual eu sou uma atualização,
você é uma outra, cada um é uma atualização dessa memória mundo,
cada um segundo as suas singularidades. Ora, o quê acontece? Eu
aqui, solicitado por vocês, tô constrangido nesse presente a acessar da
minha, do meu cone virtual aquilo que interessa nesse momento para
mim e para vocês. Agora imagina que eu interrompesse isso aqui. Nós
resolvêssemos acabar com essa aula, fumar um baseado ... o meu
presente se liberaria para ao invés de responder às solicitações do meu
entorno e apenas puxar desse reservatório virtual aquilo que interessa
para o presente, me surgiam zonas desse cone invertido virtual. Zonas
inteiras, ou pedaços de focos luminosos, que me invadiriam o presente
e eu navegaria entre isso tudo. Essa massa virtual, nela, flutuam blocos
de passado, regiões, não necessariamente lembranças, mas regiões.
Quando eu solicito uma região dessas, ela se atualiza para mim como
uma lembrança - ah, quando eu era criança ... mamãe isso, mamãe
aquilo - mas a região infância flutua ali feito um bloco e nesse momento
eu não preciso desse bloco para dar essa aula de filosofia. Então, eu não
vou usar isso. Mas se eu me soltar um pouco pode ser que isso venha, se
eu assistir um filme pedaços disso venha, se eu escrever de um outro jeito
talvez eu precise disso como minha matéria prima, eu precise dessa ... é
um reservatório da memória. É a memória como um reservatório virtual
do qual ... então a memória não é assim - registro cronológico - mas é
essa espécie de flutuação de pontos luminosos que as vezes, nesse cone
virtual, estão vizinhos locus, que numa linha do tempo estariam muito
distantes uma da outra, mas ali eles coexistem. Ou uma vivência que
na linha do tempo está situada no ano de 1972, no cone virtual aquilo
ali tá meio estilhaçado. Tem um pedaço aqui, outro ali, outro acolá. É a
experiência do padeiro: Peguem uma massa de pão. (é uma experiência
da física hein, não olhem assim. É da física) E uma massa de pão assinale
em dois pontos negros, né? Depois corte a massa de pão em dois e faz
assim... pláft ! - Os dois pontos que estavam longe, de repente, podem
se aproximar. Você faz isso inúmeras vezes, o que é que aconteceu? Os
pontos que estavam distantes no início, pode ser que se misturaram, e um
ponto que no início era um ponto só, se fragmentou em vários outros. A
memória é isso, essa plasticidade toda. Então, você não pode recortá-la
segundo anos ou segundo planos cronológicos, mas ela ...ela como que
... ela toda coexiste. Não só ela coexiste, como eu não passo de uma
atualização singular dela toda. Mas então, não é só a memória desse ser
chamado Peter. É a memória também dos seres vivos, dos inertes, das
pedras, do céu, do cosmos. Tudo isso tá aqui como que condensado
nesse presente, que eu tenho a presunção de chamar pelo meu nome.
Então, esse é o bloco da...A questão da memória para Bergson, no fundo
a memória, ela tá inteira na minha duração. Ela tá virtualmente inteirinha
ali, mas não toda ela ativa, não toda ela atualizada, mas virtualmente
ela está integralmente ali.
52:08
Graziela – Peter.
Peter - Oi.
Graziela - Eu tenho uma pergunta
Peter- Sim.
Graziela - Por que que você fala ... quando você está falando do cone
da memória e falando a palavra, virtualmente, imediatamente eu remeti
as nuvens, né?
Peter – Sim. Por que?
Mulher – Hoje tecnologicamente ...
Peter - Ah, entendi! As nuvens ...
Graziela - ... as “nuvens tecnológicas” ...
Peter – Ah, sei.
Graziela - ... não as nuvens ...
Peter - Entendi.
Público - Claro.
Graziela - ... e daí agora ... e tava me ajudando essa associação. Aí
pensei assim - mas por quê que a memória é ... por que que você tá
usando essa palavra, “virtual”?
Peter – Eu vou te dizer por quê. Por que o Bergson usa. Muito antes de
terem inventado o computador o Bergson usou como um conceito
e, o conceito, ele é riquíssimo. O que é virtual? Olha só, pro Bergson...
eu vou te dar, eu vou tentar uma definição que não nos confunda.
Ela vai nos confundir um pouquinho, mas ela... o virtual é real. Ele é
totalmente real. Mas ele não está atualizado. Ele se atualiza de maneiras
as mais imprevisíveis. Então, se a gente imagina esse cone virtual, essa
é um atualização. Essa que você está vendo agora. Quantas outras
podem haver que eu desconheço? E você também ... como se essa
virtualidade pudesse se atualizar não só de múltiplas maneiras, mas de
maneira absolutamente indeterminável, imprevisível. Por que? Porque
uma atualização é uma invenção no presente a partir daquela matéria
virtual. Toda virtualidade quando se atualiza, ela se inventa. Diferente
disso seria: eu tenho 15 possíveis dentro de mim. Prontos. Eu vou realizar
o possível 1, depois o 2, depois de eu ter realizado os 15, acabou. Então
uma coisa é o possível, que tá só na mente e que quando se realiza,
a realização dele copia esse modelito que tá apenas mentalmente.
Então do, o Bergson diz - do possível ao real, é uma copia. O real copia
um possível já dado previamente e formatado. É apenas uma copia. A
única diferença de um para outro é que um não existe na materialidade
concreta, e outro só existe idealmente. É totalmente diferente a relação
entre virtual e o atual. O virtual é uma espécie de emaranhado sem uma
forma dada. Ele é uma espécie de potência, digamos assim. Quando
ele se atualiza, a atualização dele é uma invenção que não está ali
dentro como uma forma previa, entendeu? Então, por que pra Bergson
isso é importante? É importantíssimo, por que? Porque a vida funciona
como atualização de virtualidades e não como realização de possível.
Qual seria a grande diferença? Se a vida fosse realização do possível eu
teria todos os possíveis estocados no presente e o futuro seria apenas a
desova sucessiva de tudo o que já está dado. Liberdade não haveria
nenhuma e o tempo não serviria para nada a não ser para desovar os
possíveis ideais na realidade concreta. É uma certa ideia que se tem de
liberdade - qual é a liberdade? - a liberdade é de ir realizando possíveis.
E o Bergson diz: não, não, não, isso não é liberdade, isso é apenas pensar
o tempo como um conta gotas. Tá ali. Todo, tudo que vai ser ... que vai
passar pelo conta gotas, já tá pronto. Simplesmente o tempo evita que
tudo se dê de uma só vez, se não mataria o paciente. Mas pro Bergson o
tempo não... aá vem a definição do Bergson: ou o tempo é invenção ou
ele não é nada. O tempo é invenção. O Tempo não é um conta gotas
que vai desovando todos os possíveis estocados na mente de deus ou
no código genético, ou onde vocês quiserem. Não. O tempo, ele mesmo
tem que inventar, a partir da memória mundo, dessa matéria virtual. Ele,
em cada atualização, inventa algo antes inimaginável. Então um dia
chegaram pro Bergson e falaram: - como o Sr. vê o teatro de amanhã? E
ele responde pro jornalista: - se eu o visse, eu o faria. Não há como eu ver
o teatro de amanhã. Não é um possível que está dado hoje e que será
desovado amanhã. Ele será inventado amanhã. Então o Tempo pode
ser definido não só como invenção. O Tempo ou invenção ou ele não é
nada. E, outra coisa, o Tempo já que ele é invenção, e ele é invenção
de coisas que não existiam antes, ele não é mera desova de possíveis já
dados, a gente pode dar um passinho a mais ... o Tempo é invenção de
possíveis. Ele não é desova de um possível dado, ele é a invenção de
um possível que antes não tava em lugar algum. Não era imaginável,
não era detectável, não era repertoriável. Por isso quando eu era jovem
e tinha a ciência chamada “futurologia” ... vinha aqueles Hermma Kam
da vida. Escreveram um catatau desse tamanho prevendo o que seria
o futuro dentro de 100 anos a partir do que ele conhecia como presente
dele. Ele preveu tudo, ele só não previu que iam inventar o computador.
Público - Risos.
Peter - O livro dele caiu no lixo no dia em que inventaram o computador.
Por que? Porque inventaram alguma coisa que reconfigurou inteiramente
o campo do possível.
Público - Uhum.
Peter - Então, percebe como o Bergson nos libera de uma concepção
determinista, causalista, cronológica, e é um grande alívio esse tipo de
pensamento. Por isso é ... o Deleuze muito, quando o Bergson era um
pensador, assim, considerado um pouco empoeirado, por que tinha o
Sartre. Depois da guerra, o Sartre era aquele charme todo. Os rapazes
iam no café com O Ser e O Nada debaixo do braço, porque esse era
um jeito de seduzir as mocinhas ... ninguém lia mais Bergson, ele era um
velho, empoeirado e o Deleuze fez um livrinho. Em 56 fez um texto muito
forte sobre o Bergson e a concepção da diferença, de onde ele tirou
toda a teorização sobre a diferença dele. E depois ... e depois, em 62, ele
lançou um livro do Bergson mesmo. E ali tem muitas pistas interessantes,
que é assim, essa espécie de encontrar no Bergson, uma espécie de
frescor do pensamento sobre o tempo e nos serve em vários domínios.
Pronto, esse é o bloco Bergsoniano, que se encerra aqui. Então a gente
pode, a partir daí, fazer uma rodada ... nossa, quatro e quinze! É, melhor
fazer uma rodada, se não eu vou falar sozinho ...
ENCONTRO COM CASSIANO QUILICI
DATAS: 17 E 24 DE NOVEMBRO DE 2011
Cassiano falou sobre a importância de se criar vácuos, espaços de vazio,
de silêncio, para que possamos nos ocupar de nós mesmos e adentrar
questões mais profundas e pessoais de cada indivíduo. E da importância
do teatro (e da arte em geral) como lugar onde o Homem ganha
instrumentos para se refazer.
Falou também da importância de o artista sofrer seu próprio tempo para
poder falar dele, agir sobre ele e transformá-lo. E da busca para viver
cada experiência de forma inteira, sem a ansiedade em relação ao que
virá imediatamente depois. Um instante que não pretende inaugurar um
futuro.
Considerações sobre as discussões do primeiro encontro:
A idéia sobre a importância da arte como lugar onde o Homem se
refaz ultrapassa qualquer formato de espetáculos de entretenimento.
Mas dialoga com o potencial ritualístico de transformação da arte. Na
Grécia, as cidades paravam para assistir aos festivais de tragédias, pois
nessas ocasiões importantes conteúdos eram elaborados coletivamente.
Outro exemplo pode ser observado nos rituais de passagens dos índios
Xavantes, que promovem intensas transformações naqueles que
participam e onde aparecem elementos artísticos como mudanças
corporais, música, dança, mudança de nome, etc.
Como recuperar essa força de transformação dos ritos numa sociedade
laica como a nossa? Que transformações gerar? Que marcas deixar?
Na nossa sociedade, a mentalidade está voltada para a lógica da
produção. Até os tempos de descanso seguem essa lógica e
existem à medida que também potencializem a própria produção.
Dessa forma, descanso e produção se retroalimentam.
Os poucos vácuos que existem são ocupados de forma previsíveis,
com entretenimentos planejados. Ficamos sempre ocupados de algo
externo a nós, mesmo que sejam atividades de distração, mas ficamos
com pouco ou quase nenhum tempo para nos ocupar de nós mesmos.
Para deixar eclodirem nossas questões mais profundas e pessoais. É
preciso tempos vazios para isso. É preciso abandonar o comportamentomáquina que existe essencialmente para a produção.
É desse espaço que não está investido de ação que emergem coisas
novas, imagens, assim como nosso inconsciente, vêm à tona quando
dormimos e estamos assim com o metabolismo lento e os sentidos
recolhidos.
Para isso, precisamos aprender a se deparar com nosso próprio
vazio antes de preenchê-lo. E isso é difícil.
O horror ao vazio seria uma característica da humanidade e não
somente dessa sociedade consumista de produção. A diferença é que
algumas culturas parecem conseguir lidar melhor com isso, respeitar,
cuidar e até potencializar a vida a partir disso, enquanto outras culturas
apenas negam e tentam camuflar essa angústia.
O vazio interessante não se trata de uma atitude sonolenta, preguiçosa.
Mas de um estado de abertura, de tônus, de percepção aguçada. Não
se trata de torpor, de abandono de si, mas sim de um silêncio ativo para
receptividade de novos estados, pensamentos e experiências.
Fica o desejo de descobrir como criar essas rupturas, esses espaços de
vazio intensamente receptivos às novidades não só para o público,
através da linguagem de nossos trabalhos cênicos, mas também
para nós atores em nossa rotina de treinamento e também para
nós artistas em nossa relação com a vida cotidiana. Ver o treinamento
como a arte de atravessar a existência. Quanto mais experimentarmos
na prática aquilo que nos propomos a alcançar, mais elementos
teremos para provocar isso no público. Tem a ver com ter a experiência
verdadeira mais do que especular.
Considerações sobre as discussões do segundo encontro:
O que seria buscar viver as experiências de forma inteira?
Criar um Agora Inaugural: ruptura da linearidade, choque.
Condensamento do passado e de um porvir do futuro no mesmo
instante. Um instante que não pretende inaugurar um futuro, que não se
prende na expectativa de uma conquista, mas que considera o valor da
experiência em si. Isso não significa parar de planejar as coisas, pois isso
seria infantil, mas sim, procurar estar inteiro em cada experiência.
Para falar de nosso tempo, precisamos sofrer as mazelas desse tempo,
suspender os analgésicos. Mais do que tentar enxergá-lo, devemos
buscar senti-lo, dançar com ele. Experimentar suas dores na potência,
não no pessimismo, mas na coragem de quem quer saber, ver, viver o real
e ganhar assim a possibilidade de agir sobre ele, gerar transformação.
Ficam as questões: Quais são os analgésicos de meu tempo para
que eu possa suspendê-los? Como provocar a extemporaneidade em
mim? Devo me colocar à margem para poder enxergá-lo melhor ou
ao contrário devo mergulhar nele ainda mais? Será possível realmente
enxergar meu tempo estando tão imersa nele?
Fica o desejo de ampliar o horizonte histórico para gerar estranheza,
para ter referencial de comparação e não ser engolido por esta
possibilidade como se fosse a única.
O que ficou pra trás e vale a pena ser resgatado? O que existe agora
que vale a pena ser passado para os próximos?
ENCONTRO COM MARIA RITA KEHL
DATA: 25 DE NOVEMBRO DE 2011
Maria – Bom, ai hoje eu pensei em ir por um caminho que é mais
fácil para mim.
Eu não vou forçar a voz, mas se vocês não estiverem ouvindo
acho que o melhor seria aglutinar mais. Tá. Depois no dia 9, espero, vai
ter parado de doer, talvez eu consiga mais, até de coisas mais difíceis,
mas engraçado a gente fala de coisas mais difíceis gasta mais a voz, é
diferente de você falar de uma coisa que você está mais à vontade,
você fala conversando, se é um assunto que você tem que consultar
apontamento você força mais a voz, vocês são de teatro devem ter
percebido diferenças no uso da voz né.
Então hoje eu vou falar um pouco do que a psicanálise tem a dizer
sobre a incidência do tempo no psiquismo, o que que é, o que o tempo
faz conosco, acho que é por ai.
Assim, eu ia começar pela ideia de como é que nós nos tornamos
sujeitos. Acho que quem já leu um texto de psicanálise deve saber
que não basta uma criança nascer para que ela seja um sujeito. Uma
criança recém nascida, vamos supor, dependendo do ambiente em
que ela vive, ou se ela for abandonada, ou se ela for alimentada numa
creche em que ela só é alimentada maquinalmente, dá mamadeira,
o corpo dela se desenvolve, ela pode até não se tornar um neurótico
normal, como nós, que é o máximo de normalidade que a psicanálise
conhece, depois, dali para diante tudo é pior né, psicose, perversão,
então a neurose é a melhor das possibilidades, isso por que não existe
gente sem neurose... Deve existir, mas como só chega na psicanálise...
(rs) é o que podemos, é o que Freud pôde observar.
No mínimo você é neurótico, depois você pode ser pior do que isso,
porque são, sujeito são, totalmente são não existe. Mas eu posso justificar
isso, apesar da coisa engraçada, pela existência do inconsciente, ou
seja, para tirar essa ideia de saúde e de doença, porque a neurose não
necessariamente é uma doença, como uma parte...O sujeito humano
né, desconsiderando os animais, ele vem ao mundo desadaptado da
sua condição natural por que ele já é recebido por pais, seja em qualquer
lugar, seja em Nova York seja numa tribo perdida no meio da África, ele
já é recebido por adultos que pertencem a uma cultura, a linguagem,
a linguagem no sentido amplo, o sistema de valores, símbolos, códigos,
regras dessa cultura já vão determinar o lugar dessa criança. A diferença
se é homem ou mulher, dentro da cultura faz diferença. Se é o primeiro
filho ou se é o ultimo filho, que lugar que os pais ocupam na escala social
se for uma cultura com classes diferentes. Uma tribo é diferente né, o
que é que os pais esperavam dele, que tipo de futuro é valorizado em
cada cultura, o cara vai virar um ator, um político, um profissional liberal,
uma dona de casa, enfim, e que práticas essa cultura se estabelece no
trato das crianças. Não há cultura que não estabeleça alguma prática
de trato com as crianças, ou seja, a criança não é um ser de natureza. O
bezerrinho nasce e fica lá no chão, assim que sente força nas pernas ele
procura a teta da vaca, vocês sabem disso, não é a vaca que tem que
saber o que fazer, ela só dá a teta, ela sabe o que fazer também, mas ela
não tem como induzir o seu filho, ela pode ajudar, empurrar com focinho,
se o bezerro está muito fraco. Os animais em geral são adaptados às
suas necessidades físicas né, naturalmente adaptados, e o humano não,
no humano mesmo a satisfação da necessidade mais primária passa por
práticas culturais. Então, nisso que foge ao saber da criança, ao saber e
sentir - não to falando do saber intelectual- nisso que ela é desadaptada
se constitui imediatamente algo que a gente chama de inconsciente.
Não tem que ser uma coisa recalcada, porque é proibida, porque é
algo que ela não alcança, que faz parte da experiência dela mas ela
não alcança. Um exemplo banal, os nove meses de vida uterina, do
qual a criança não tem a menor consciência, porque aí sim ela é parte
daquele todo, não tem tensão, não tem...o alimento esta fluindo, através
do liquido placentário, através da placenta, então ali não tem sujeito,
mas tem um organismo vivo.
Os 9 meses que se interrompem bruscamente marcam naquele
organismo, não dá nem pra falar de psiquismo, naquele organismo,
uma experiência primordial de plenitude, de paz, de ausência de
necessidade, de ausência de tensão, que se torna imediatamente
inconsciente quando a criança nasce, porque imediatamente aquilo
é interrompido, de uma forma, para criança, muito violenta. Não tem
nenhuma violência, não aconteceu nada, ela nasceu bonitinha, parto
natural, mas de repente luz, temperatura, descontinuidade, ela sai do
mundo de continuidade pro mundo de descontinuidade, isso não dá
para evitar. Se a criança continua num mundo de continuidade ela pode
ser um autista por exemplo, mas eu não posso falar muito disso porque eu
conheço pouco, ela pode ser um psicótico grave, se ela não, por alguma
razão, o ambiente dela, não permita que ela sinta que algo se quebrou.
Mas vamos pensar nos neuróticos normais, que é o que nós temos. Porque
ao romper com essa experiência primordial, de satisfação, que não é a
satisfação que a gente chama de prazer, por que a gente só conhece
o prazer, nós, já nascidos, como alívio de uma tensão: fome, comer;
relação sexual, orgasmo; cansaço, repouso; tudo o que é prazer para
nós ta marcado pela descontinuidade da experiência, então nós não
podemos nem saber se o que a criança vive antes de entrar no mundo
da cultura é prazer, desse mesmo jeito que a gente...o Freud chamou
de plenitude, nirvana, com isso ele tem uma teoria de que é assim uma
pulsão de morte, que a tendência desse organismo vivo é voltar para
esse estado, ele se vale também da entropia, enfim, mas ai é um assunto
um pouco mais teórico. O fato é que essa interrupção anterior à criança
ter qualquer possibilidade de simbolizar o mundo, já produz uma marca
inconsciente de um vivido que ela perdeu acesso. Então se o humano,
algo da sua experiência se torna inconsciente desde o começo, que
Freud chama de inconsciente primário, que não é um inconsciente
recalcado( que não tem a ver com o processo de reprimir) que o conceito
mais correto é a palavra recalcar, a gente usa mais. Se algo já escapou,
esse inconsciente da experiência atrai outras representações que não
puderam ser elaboradas, ai se forma o inconsciente, se forma o sujeito
que ele chama de dividido, ele não ta inteiro em si mesmo, há algo que
escapa, e isso que escapa Freud percebeu... A ideia de inconsciente
não é freudiana, a ideia de inconsciente vem de várias psicologias
anteriores a Freud, toda palavra inconsciente no sentido de que eu não
tinha consciência disso é uma palavra que esta no vocabulário anterior a
psicanálise; mas quando Freud percebe, propõe que o inconsciente seja
uma parte da nossa experiência que está proibida de vir à consciência,
ele percebe justamente a partir dos efeitos que essa consciência fora
da consciência vai produzir, vão produzir, sonhos, lapsos, atos falhos,
esquecimentos, esquecimentos despropositais e todos os sintomas que
cada um tem.
O sintoma é uma espécie de jeito de falar sem palavras de alguma
coisa que está nos produzindo angustias. Então o obsessivo que lava a
mão 20 vezes antes de sair de casa, não consegue sair, se atrasa nos
compromissos, vai ver se o gás ta ligado, verifica de novo as janelas, com
esse sintoma ele ta falando alguma coisa, do medo dele, errar, do medo
dele fazer uma coisa má, do medo dele ser sujo, cada um cada um, a
gente não pode generalizar, embora os sintomas pareçam óbvios eles
não são óbvios. Mas de qualquer maneira foi ai que o Freud percebeu
essa divisão do sujeito, algo em mim, eu não sou dono da minha casa
como ele disse. A brincadeira era que a humanidade sofreu 3, com
Marx 4, 3 grandes decepções narcísicas: a primeira com a descoberta
de Copérnico, de que a terra não é o centro do sistema solar, ou seja,
deus não botou o homem no centro do universo, era o sol que era o
centro do sistema e a gente gira em torno dele; a segunda com Darwin
dizendo vocês não são filhos do sopro divino, vocês vieram do macaco e
a terceira com Freud, dizendo que você nem ao menos é senhor da sua
própria casa, tem uma parte muito íntima sua que você não manda nela,
ela que manda em você; a quarta seria com Marx quando ele diz que o
homem que faz a história mas não como ele quer, então nem ao menos
o processo histórico você domina, você só percebe que fez depois,
enfim. Então tudo isso, com a brincadeira de que no mínimo a gente é
neurótico, quer dizer, o neurótico é aquele que descobre soluções, não
descobre intelectualmente descobre vivencialmente, soluções para que
alguma coisa do recalcado possa de vez em quando se expressar, nos
sonhos, nos lapsos, nas fantasias, nos sintomas, nos atos falhos, etc. Então
isto somos nós basicamente.
Agora como é que entra ai a questão do tempo, a questão desse
núcleo, parece, este centro. O psiquismo, que pro Freud é o sistema que
inclui a consciência, todo o sistema da atenção, da percepção que é a
consciência, mais um sistema pré-consciente, que é essa memória que
nós somos capazes de acessar, ela não está recalcada, sei lá, eu não me
lembro da minha infância agora por que eu não to pensando nisso mas
se alguém me perguntar num ta inconsciente, estaria pré-consciente: ah,
você lembra em que casa que a sua família morou quando você tinha 7
anos? Ah, lembro, só que não ta na minha consciência, esse é chamado
de pré-consciência por Freud, e o inconsciente, o psiquismo é isso. né.
E a ideia que você pode deduzir a partir Freud é que o psiquismo não é
espacial, primeiro, ele não se confunde com o cérebro, os neurologistas
estão tentando tentando descobrir onde é que está o inconsciente no
cérebro, onde é que ta. A consciência tem a ver com o córtex cerebral,
então a consciência é mais fácil, mas as camadas, as camadas chamadas
mais profundas do psiquismo não dá para localizar no cérebro, pode
ser que algum dia cheguem a descobrir, Freud tinha esperança, ele era
neurologista, de que todo terreno teórico da psicanálise ele poderia ser
traduzido um dia em termo de química e de neurologia, pode ser, mas
por enquanto ninguém sabe onde está o inconsciente, não tem uma
parte do cérebro que é que posso denominar inconsciência. Então o
que dá para entender a partir de Freud é que o psiquismo não é uma
instancia espacial, que tem a ver com massa cinzenta, com os neurônios,
o psiquismo é uma instancia temporal, é claro que eu to dizendo isso,
não chega a ser metaforicamente, porque depois eu vou descrever o
processo e vocês vão perceber.Ele é consequência do que o tempo faz
em nós.
Vou tentar explicar, os 9 meses intra-uterinos, eles são 9 meses para
mãe, que ta esperando, que sabe que tá esperando, que já é uma
adulta. Pro bebê você não sabe, pode ser um tempo pleno, e um tempo
pleno é um tempo que não passa, é a ideia do paraíso, do céu no fim
da vida. Na eternidade. O que é a eternidade, por que é eternidade? É
eternidade porque você não sente o tempo passar. Então a gente não
sabe se para criança no útero são 9 meses, pode ser que seja simplesmente
um tempo sem tempo e a primeira, ...a criança nasce, ela ainda ta um
pouco alimentada pelo liquido placentário, então tem muita gente que
fala assim: ai, meu bebê é tão bonzinho, ele não chora! Ele não chora
porque ele ainda não sabe que ele nasceu. Um bebezinho pequeno ele,
a não ser que realmente tenha um fator patológico, dor, algum problema
de má formação, ou uma mãe que abandona muito, se ele estiver mais
ou menos confortável, vocês vão observar que ele não chora, ele ainda
tá alimentado, ele ta na continuidade daquela experiência, não tem
tempo para ele ainda, ele ainda não tá querendo nada, sentindo falta
de nada, e além do mais ele ainda está muito perto do corpo materno,
pensando numa mãe razoavelmente boa. Então o calor, aquilo substitui
um pouco aquela experiência de estar dentro daquele corpo, estar em
volta daquele corpo, ser envolvido por aquele corpo. Então, o modelo
freudiano supõe que a primeira experiência de descontinuidade seja
fome, a fome é bom pro modelo, poderia ser o frio, mas como a primeira
atividade da criança é oral, o frio, se ela sentir frio ela vai chorar, ela vai
ser agasalhada, não tem nela nenhuma atividade, alguém, ela não tem
como participar da atividade de se agasalhar. Pode ser...não importa,
o fato é que a fome é fundamental por que ela é a primeira forma de
desconforto, primeiro que vem dos órgãos internos, o que para criança
não existe, não é nada, mas cuja satisfação vai depender também de
uma atividade dela, que se a criança não suga vocês sabem que é um
problema, quando a criança nasce e não suga, então essa experiência,
quer dizer, nessa plenitude que a criança continua depois que nasceu,
tudo bem, ela chora, leva aquele susto...
Homem – Por que ela aprende a mamar não é isso? A criança
aprende a mamar ela não sabe mamar.
Maria – Exatamente. Ela aprende por que a mãe oferece, espirra
um pouquinho do leite, tem crianças que começam a sugar mais
rápido, outras mais devagar, mas tem aí já é um pouco da cultura, já
não é o bezerro. Agora, a hipótese que a gente pode fazer, por que
ninguém nunca conseguiu contar as suas memórias de um dia de vida
né, é que a fome é uma experiência para a criança recém-nascida
muito perturbadora, por que ela não tem nenhum registro, a criança em
primeiro lugar ainda não tem psiquismo, ela ainda é uma psicossoma
que a gente chama, o corpo e o psico é uma coisa só. Então do
corpo vem uma insatisfação, é o mínimo que a gente pode dizer, um
desprazer intenso, intenso por que? Porque tudo o que nós sentimos no
corpo, por mais desprazeiroso que seja nós temos um correspondente
representacional: a dor do parto, quebrou um braço, ta com muita fome,
levou uma surra, tem um componente capaz de representar, de desviar
neurologicamente, uma parte daquele desconforto pro pensamento,
uma representação mental. A criancinha não, é puro desconforto, então
a gente tem que imaginar um pouco um ser..Não dá nem para dizer que
ele se sente ameaçado de morte, mas ele não sabe o que é morte,
um ser que sai do estado de pura satisfação para um estado de puro
desconforto, por que o corpo do bebê ele ainda não é parcializado, ele
não sente no estomago, ou na ponta do dedão do pé, é tudo, o corpo
ainda não ta organizado de acordo com suas funções, por isso que a
acriança abandonada pode se tornar um autista psicótico, mesmo que
ela possa sobreviver, por que é o outro que vai organizar, é a mãe, ou
um substituto, que dando a mamadeira, acariciando a pele, lavando,
agasalhando, limpando as fezes, vai começar a desenhar nesse corpo
circuito de prazer, e aí o corpo se organiza, a boca começa a mamar,
e depois vai fazer mil substitutos desse prazer oral, os órgãos internos vão
começando a amadurecer suas funções, o anus se torna uma outra
fonte de estimulo, excitação, enfim, a pele se torna uma superfície de
prazer enorme, mas isso é no contato com o outro, não é sozinho, por
isso que a psicanálise Freudiana não pensa o sujeito como um individuo,
como uma célula isolada, separada, tudo bem, cada um dos nossos
corpos é um, todo mundo aqui ta separado, pode sair daqui cada um
pra um lado, somos indivíduos, temos independência, mas aquilo que
te formou o outro, já tá aqui, o outro, o que a gente chama de grande
outro na psicanálise, já participa, não tem um pensamento totalmente
independente, uma sensação que...
Bom, vamos ao tempo, chegar ao tempo.
Então a gente pode imaginar que essa criança no primeiro
momento sente um desconforto horroroso, que ela só consegue expressar
chorando e embora o choro do recém-nascido ainda seja fraquinho,
por que ela ainda não capacidade pulmonar, para ela, ela tá usando
toda a sua força, todo o seu recurso para expressar o seu desconforto.
O tempo que ela sente a fome, pode ser 5 minutos, 15, meia hora, e vai
depender também de cada cultura. Tem culturas por exemplo, nos anos
50 no Ocidente, todo pediatra instruía a mãe a amamentar a criança de
2 em 2 ou de 3 em 3 horas, 2 ou 3. Então, não quer dizer que a criança tem
fome durante 3 horas, por que uma hora ela vai estar bem alimentada,
mas na hora que começa a fome, se ela não é levada a sério fica lá
a criança olhando, dorme de exaustão, acorda e de novo, é um jeito
de experimentar o tempo, um outro jeito é uma mãe da cultura mais
‘hiponga’, que é da minha geração, não, não pode deixar a criança
sofrer nenhum pouquinho, dá logo o leite, amamenta logo...
Homem – Ela também já vem alimentada por um tempo né
Maria – Então, por isso que digo que ela não sabe que nasceu. A
criança fica boazinha no começo. Ainda está alimentada. É. A placenta
direto o sangue da mãe. Então não ta com falta de proteína.
Homem – Que é o tempo de aprender...
Maria – Ela vai aprender só no exercício da mãe. .., só com a fome
ela não aprende. Ela não tem recursos.
Mulher – Assim como esses circuitos que vai se estabelecer de
prazer. É isso?
Maria – Isso. Exatamente. Esse circuito que é satisfação, a satisfação
já depende de uma participação da criança, que ela ta aprendendo a
sugar, plenitude, tanto que as crianças chupando o peito, num sei se
vocês viram já, de repente ela pah, desmaia, parece que tomou um
porre, teve um orgasmo, daí tem um tempo de plenitude, acorda,
começa dar uma inquietação, acordar não é necessariamente
desconfortável, daí começa de novo. Então, Freud vai chamar esse
intervalo, não o intervalo entre uma mamada e outra, mas o intervalo
entre a volta da fome e a próxima mamada de tempo de espera da
satisfação. Para criança aquilo não é tempo, não é nada, aquilo é só
desprazer. No entanto se existe um mínimo de regularidade na mãe de
satisfazê-lo, satisfazê-la, começa, esse tempo começa a ser sentido com
menos angustia, não dá para dizer que dia que é, na primeira semana,
na segunda semana, enfim, também tem as particularidades de cada
organismo, mas o que o Freud vai propor é que tem uma marca, a
primeira satisfação deixa uma marca psiquica, também inconsciente,
inconsciente por que ainda não tem como simbolizar, é uma marca
quase que no corpo, de satisfação, e aos poucos esse choro da criança
já não é o choro do puro desespero, de que é puro desprazer, mas é um
choro que busca trazer de volta aquela experiência inicial. É como se
aos poucos o choro que é pura expressão de angustia e terror, e sei lá o
quê ele sente, se torna linguagem. A criança começa a perceber que
ela é potente para chamar a mãe de volta, vai ganhando autoconfiança,
ela continua a chorar, por que chorar não é só de sofrimento, chorar
também é a linguagem que a criança tem, ela não tem outra linguagem.
Então, chora, a mãe vem, amamenta, e ai se instaura um ritmo, que não
é necessariamente regular, como um ritmo como a gente fala, 3 por 4,
não, vai ser um ritmo mais, mas se instala nessa experiência de
descontinuidade, digamos assim, como é que a gente pode dizer, uma
outra continuidade, que não é a mesma continuidade da satisfação
plena, é uma continuidade assim: eu confio que a cada falta vai suceder
uma presença, a cada insatisfação vai suceder uma satisfação, isso é
um pouco parecido com a continuidade que nós conseguimos ter, por
quê que as vezes, vou dar um exemplo bem bobo, mas por quê que as
vezes a gente sai de viagem e num outro lugar, sem o trabalho, numa
praia, hoje em dia não tem mais praia deserta, mas na minha juventude
ainda tinha, você começa a estabelecer de novo um ritmo, mais ou
menos um horário de acordar, mais ou menos o horário de ir pra praia,
mais ou menos na hora do pôr do sol você pega o violão, por que a
rotina quando ela não é imposta, ela é uma forma de continuidade,
quer dizer, você cria num lugar que você nunca foi, ninguém manda no
seu tempo, você cria de novo, alguns hábitos que criam, você antecipa
o outro dia, mesmo que seja só em pensamento, mesmo que seja só uma
expectativa alegre, mais ou menos com aqueles rituaizinhos que
estabelecem uma continuidade. Talvez por isso quando a gente vai pra
férias muito, uma viagem internacional que cada dia você vai para um
lugar, você se cansa, você se cansa não só, talvez você tenha bastante
tempo para dormir, talvez não seja por que você corre muito, mas por
que você não relaxa nesse sentido de dizer: mais ou menos eu confio
que amanhã será como hoje. A cada dia, o que também é muito
gostoso, hoje como é que vai ser né? Você passa 2 dias em Paris, depois
4 dias em Madri, mas cansa, nesse sentido, você tem que construir os
seus dias e não eles vêem prontos pra você. Bom, isso é uma direção.
Voltando para essa criança, o que vai se formar ai, e por isso que eu digo
que o psiquismo é uma instancia temporal, esse tempo de espera de
satisfação é fundamental para criança, por que é a partir desse tempo
de espera de satisfação, primeiro, que ela começa a desenvolver um
contato com o outro, como sendo o outro exterior a ela, vamos supor
como modelo teórico, que se a mãe estivesse sempre disponível e
pudesse sempre até antecipar a fome, talvez a criança não se desse
conta de que ela é separada desse outro, claro que esse processo de
separação também não se dá de uma vez, até por que o próprio
investimento da mãe na criança permite essa ilusão em relação ao
tempo de que os dois que formam um, que tem o todo complexo e etc.
mas o desentendimento necessário entre o que a mãe acha que o filho
quer e o quê o filho quer né, tem que ter um pouco de desentendimento,
por que esse desentendimento que faz com que a criança se dê conta
da separação. Eu costumo dizer que a mãe psicótica, quando você vê
ela com o bebê pequeno, ela parece a melhor das mães, por que como
ela não se vê como ser separado, a psicótica, o filho é quase um pedaço
dela, ela tem uma capacidade muito maior do que a mãe neurótica,
normal como nós, de estar em comunicação e oferecer o que o filho
quer, por isso provavelmente ela vai ter um filho psicótico ou com
tendências a se tornar um psicótico, por que ele não vai se sentir como
um ser separado, ele vai se sentir sempre como um pedaço do outro.
Então por quê que o psiquismo é uma instancia temporal? Por que a
primeira forma como a criança registra que ela nasceu, mesmo que ela
não saiba o que é nascer, que ela está no mundo, é a partir desse tempo
de espera de satisfação, esse intervalo, entre uma satisfação e outra. O
tempo instaura uma tensão nesse psicossoma que não está mais o tempo
todo abastecido com o que estava na placenta não é, desta tensão, a
tensão mobiliza trabalho por que essa criança que eu chamo de
psicossoma ela não tem psiquismo ainda, tem neurônios e massa muscular
e órgãos, enfim, mas esses neurônios são capazes de trabalho no humano,
e a criança começa a quando vem a fome ela evoca a marca mnêmica
da experiência a satisfação, ou seja, da mamada, isso não é uma palavra
ainda hein, não tem palavra ainda, criança recém-nascida, não tem
palavra, tem uma confusa lembrança neurológica e corporal, de o quê
é que poderia acabar com aquele desconforto, o seio da mãe, é ai
então que o grito se torna linguagem, a mais primordial das linguagens,
não é mais apenas uma expressão de desconforto, é um chamado. Aí
tem um sujeito, o proto sujeito psíquico, ele já tem uma marca mnemica
e que o Freud supõe, por que ai é uma construção teórica, não dá para
dizer: ah, prova isso empiricamente; então estamos trabalhando com
uma construção teórica- é que quando a criança mesmo com fome já
não chora com tanto desespero ou demora para chorar ou fica meio
inquieta mas não fica desesperada como ela ficava no começo é por
que ela, essa marca da satisfação é tão forte, por que ela não tem outras
marcas psíquicas, não tem uma profusão de marcas, essa marca da
satisfação é tão forte que lhe permite durante alguns minutos ou segundos
alucinar, quando ela encontra a memória é como se ela estivesse
satisfeita, ela alucina o objeto, mais tarde isso que a gente chama de
alucinação da criança, é a nossa memória até visual, de vez em quando,
vocês devem saber, a gente tem a impressão de que a gente lembra de
alguma coisa com tanta veracidade que é como se ela tivesse presente
né, mas aquilo se perde em segundos, você vê alguém que se parece
com o namorado, aquele namorado se presentifica, o namorado que
você não vê a 20 anos, sei lá, mas isso é, nós, é totalmente fugaz, a
alucinação só é uma forma de satisfação de desejo como psicose, que
é justamente nesse sujeito que não se separa do outro, o funcionamento
mental ainda é muito próximo do infantil. Mas o que que nós adultos
colocamos no lugar da alucinação, fantasia. Fantasia não é uma
alucinação, qualquer pessoa é capaz de fantasiar, pode estar lá feliz da
vida pensando: ai amanhã eu vou encontrar aquele cara que eu vi na
festa, acho que vai dar certo...Ela não acha que aquilo está acontecendo,
ela pode estar com muito prazer nessa fantasia. A fantasia é tão poderosa
que se pode ter orgasmos com a fantasia, não é brincadeira, certo. Num
é um detalhe a fantasia para nós, ela não induz só prazer mental, ela
excita o corpo, a gente tem medo, terror de fantasiar, e começa a contar
uma historia e você perde o sono, então a fantasia é muito poderosa.
Não vamos fazer pouco da fantasia. Mas numa criança, essa fantasia é
evidentemente, como ela ainda não sabe o quê é que é fora, o quê é
que é dentro, o quê é que é o outro, o que é lembrança, o que é
experiência, esse psicossoma ainda é muito precário, então a marca,
encontrar a memória é quase como que encontrar o objeto, então o
Freud vai chamar isso do representante psíquico do objeto, a marca,
quase uma representação de coisa...
Mulher – O que as vezes é psíquico.
Maria – é , o representante é psíquico, mnêmico, psíquico do
objeto. No entanto não basta lembrar do ser para ele vir, não basta
dar o primeiro gritinho para mãe aparecer, então, algo tem que se
construir aí para suportar esse tempo vazio, que é o tempo de espera
da satisfação, algo tem que se construir para que esse tempo seja
suportado, mesmo quando ta suportável a criança chora, não quer
dizer que ta suportável que a criança vai ficar quietinha, mas para ela
não ter a sensação de que ela vai ser destruída por aquele mal estar, e
aos poucos, esse representante que é o representante psíquico, que a
gente também pode chamar de representação coisa, é a marca da
experiência real né, que para nós vai se tornando inconsciente, vai se
tornando inconsciente e a gente vai deixando de ter acesso as nossas
lembranças mais primordiais da vida, por sobre essa primeira marca vai
se construir um outro trabalho de representação, que é a representação
significante, quer dizer, que é ou palavra ou substituição de palavra né, o
grito, a voz da mãe que ta lá longe, a criança memoriza a voz da mãe,
então se você grita a mãe pode dizer to indo neném, já to indo, ou canta
uma musiquinha para te deixar distraído em quanto você ta lá ou outras
representações começam a ter e a palavra, e a criança ainda não sabe
nada da palavra, vai deixando uma marca auditiva que é uma marca
de expectativa de que aquela que trás conforto vai chegar. Então é
isso, é esse modelo freudiano que nos permite dizer que o psiquismo é
uma instancia temporal, que o psiquismo é trabalho de representação
para encobrir um tempo vazio, um tempo de espera, um tempo de
desconforto, quanto menos vazio for esse tempo mais suportável ele é,
quanto mais a criança puder ter algum tipo de atividade mental ao qual
nós não temos acesso no bebê, a gente só supõe, que tipo de caminhos,
de memórias, a mente dessa criança faz até que a mãe chegue, para
ela não se desesperar e não chorar, ela pode começar a chamar, das
uns agitos, não mais berrar desesperada, a atividade mental vai ser a
marca das lembranças em que ela vai tendo algum tipo de prazer, que
não vai substituir totalmente o outro, por que não mata a fome mas que
a permite esperar, então isso é psiquismo, é trabalho de representação
sobre o fundo de vazio, e esse fundo de vazio, esse trabalho, só são
possíveis por que há um tempo de espera, entre uma satisfação. Isso é o
básico ta.
Quando eu pensei na questão da depressão eu imaginei um
modelo, mas eu não queria tratar da depressão hoje, mas eu vou
dizer porque que achei isso importante: Que como nós vivemos numa
experiência temporal muito acelerada e essa experiência não é escolha
nossa, quer dizer, algo na própria economia, na própria dinâmica do
mundo em que a gente vive se acelera e isso nos acelera, precisa
você ter uma iniciação Zen para você continuar no tempo pessoal,
numa temporalidade vagarosa no meio desse mundo, se você não
tiver uma disciplina, não for um yogue, não tiver uma mística, não tiver
alguma coisa, você é chupado, não tem muito...independente se você
trabalha mais ou menos, você vai, você pode ser um aposentado que
vai ao supermercado, tem uma urgência, tem algo que te chama
para fazer logo, para ir logo, para encher o dia, etc.. Então o modelo
da depressão que eu imaginei é que essa aceleração que pega todos
nós, evidentemente pega as mães também, faz com que a mãe suporte
pouco que seu filho espere, por que ela também suporta pouco esperar,
por que a gente vive num mundo do tudo ao mesmo tempo, agora,
então ela talvez se antecipe muito, talvez não deixe a criança esperar
quase nada, isso não quer dizer que a criança vai ficar psicótica, vamos
supor que essa mãe é uma mãe normal, ela se vê separada da sua
criança, não é aquela mãe que quase não tem desconforto por que a
mãe e a criança estão completamente misturadas, mas exige pouco
desse trabalho psíquico, é como se fosse um ser que vai se tornando
muito dependente do outro e vai se tornando pouco confiante em si
mesmo. O Winnicott que foi um pediatra, e depois desenvolveu teorias
interessantes de psicanálise de criança, ele disse que quando a criança,
esse equilíbrio entre ter que esperar, mas saber que vem, que não é a
espera de uma criança abandonada, que ela nunca sabe se vem ou
não, sei lá, uma mãe alcoólatra que de vez em quando dorme e esquece
completamente a criança, até que a criança dorme por exaustão,
quando uma mãe é mais ou menos norma, esse equilíbrio entre saber
esperar, por que confia que vai vir, essa previsibilidade das experiências
de prazer, que não vão ser só a mamada, a mãe chega e depois brinca
com ela, põe no colo quando chega dá beijinho, tudo que é gostoso, faz
com que a criança desenvolva uma confiança básica de que o mundo
é bom, interessante né, por que nada nos autoriza dizer que o mundo é
bom, ele é bom e é ruim, e é aleatório e a gente nunca sabe se vai cair
um vaso na cabeça da gente e a gente desmaia na calçada , enfim,
não dá para dizer cientificamente que o mundo é bom, no entanto,
a maioria das pessoas, mais ou menos, regularmente normais acorda
todo dia com uma certa expectativa de que o dia não vai ser um horror,
essa confiança básica vem lá de trás. É evidente se a gente passa por
campo de concentração, por uma guerra, essa confiança fica abalada,
depende muito da sociedade, não é, ou em momentos de perda, de
luto, mas o que impede que a maioria das pessoas, inclusive se mate, em
situações reais de muita dor é que subjaz uma confiança que as vezes
a gente nem tem consciência dela, de que vai ficar tudo bem, mas
essa consciência vem do começo da vida. Você ta chorando de fome,
desesperado; vai ficar tudo bem, a mãe vai... e o seu choro é capaz de
chama-lo, então você também, não é que você é só uma coisa inerte
esperando o outro, você tem recursos para trazer e você também tem
recursos para esperar, para aguentar o sofrimento. Tudo isso vai trazendo
uma confiança de que o mundo é bom e você que andaram lendo o
Bergson com o Peter
Mulher – A gente leu antes, uma parte leu, que é o pessoal do
grupo de estudos anterior. E aí o Peter falou do Bergson – da concepção
do tempo.
Maria – Ta. Isso por que o tem uma expressão que é uma expressão
bonita, que entre esses vai e vens da mãe, ou do substituto, também pode
ser o pai, enfim, o tempo da criança ta sendo preenchido cada vez por
mais gente, mas que com isso ele cria um sentimento de continuidade da
existência, é muito bonita essa ideia de um sentimento de continuidade
da existência, por que é o que faz com que a gente sinta que nós somos a
mesma pessoa ao longo da nossa vida, o corpo muda completamente,
seus pensamentos mudam, as coisas que você queria mudam, as coisas
que te davam prazer não dão mais prazer, nós poderíamos dizer: eu não
me reconheço, aquela menina de 10 anos não era eu, eu, então aquela
de 30 anos não era eu, no entanto a não ser em crises de quebra de
identidade muito profundas, psicóticas, a gente sente que nós somos os
mesmos ao longo da vida e continuaremos ser os mesmos até morrer, e
cada dia é uma espécie de continuidade lisa né, uma estrada em que
você vai...embora a vida seja cheia de descontinuidade, não é aquela
continuidade uterina, que não tem altos e baixos, idas e vindas, mas
é uma continuidade, essa...eu disse isso por que no Bergson no “ Em
matéria e memória” eu não sei se vocês leram, tem uma hora que ele
faz um esqueminha dizendo que o presente não existe, o instante ele
é tão fugaz, que, o que que nós temos? Nós temos passado, que só se
concebe na memória, por isso que ele não é mais matéria, matéria é o
que ta no corpo, o passado se conserva na memória; e temos o futuro
que é, ele vai dizer, ele vem roendo o presente , por que sempre você
está, ao acabar de falar está, eu já estou em outro instante. Então se
o instante presente não existe, assim, você não consegue nem medilo temporalmente, ele é uma partícula tão frágil, você não sabe se o
presente dura o tempo de eu falar A, se dura metade do tempo de eu
falar A, se dura um milésimo de segundo do tempo de eu falar A, no
entanto nós nos sentimos no presente, quer dizer, faz uma hora que eu to
falando e durante essa uma hora nós estamos no tempo presente, embora
tantas, o começo dessa fala já está no passado e daqui a pouco vocês
já começam a antecipar o que vocês vão fazer daqui a pouco, então o
futuro já...e o futuro também é a minha próxima frase. Então, o Bergson
diz: essa partícula do presente ela não existe, ela existe por um razoável
sentimento de continuidade dos vários passados que vão avançando
na direção do futuro que não chega nunca e também o futuro assim
que ele chega, o futuro é uma fantasia, ele ta na nossa representação,
assim que ele chega ele vira presente e no segundo seguinte ele já é
passado, quase como se você pudesse dizer: só o passado existe e no
entanto é só o passado é que não existe mais, por que acabou, acabou
de acabar, eu falei acabou de acabar por que acabou de acabar de
novo. Então só o passado existe, o futuro existe na fantasia e o presente
só existe pro corpo, o corpo está presente, a sensação corporal de cada
partícula de segundo dessa, que não dá nem para medir é que me diz:
estou presente. Diga.
Mulher – É que eu estava pensando, isso é muito louco né, por que
tem, você fala do Yoga, ele fala né, que só existe o presente...
Maria – O que é verdade. O que é verdade a rigor. Se o corpo é
que está no presente, só existe o presente; o passado tá na memória.
Por isso que o Bergson chama: matéria e memória, matéria ta aqui no
presente, o futuro é a antecipação. Mas o quanto que a gente já não
vive no futuro e o quanto que o passado ele tá completamente em nós,
por que se não tiver a gente tem uma sensação de estranhamento.
Não sei se já aconteceu com vocês, talvez seja a idade, de vez em
quando você ter um negocio assim de: nossa, o quê que eu to fazendo
aqui. Você esta andando, você se distrai, você ta fazendo seu caminho
habitual, mas você se distrai e de repente tem 3 quarteirões que você
não percebeu que você andou por que você ta com a cabeça em
outro lugar né. E mesmo esse pequeno lampejo de noção do passado
muito recente já dá um frio na barriga, ai você reconstitui, não, claro, eu
virei ali na Apinagés, era eu.
Então vamos mais um pouquinho na questão do temporal para
gente começar a conversar.
Enquanto a criança ta nesse... que o Freud uma vez observou o
neto dele, vocês devem saber disso, da psicanálise, se alguns não
souberem já vale a pena. O neto dele tinha um, brincava num berço
com um carretel e ele jogava o carretel para fora do berço e falava Oh
e ai puxava pela linha e falava Ah, o Freud não entendia aquele, mas
ele mostrava um enorme jubilo quando ele puxava pela linha e falava
Ah, era uma alegria assim, como se ele tivesse descoberto a América.
Depois Freud descobriu que essa criança brincava também, sabe
quando a criança brinca de esconder a cara e acha que ela ta
escondida, de falar nenê Oh, nenê Ah, então ele entendeu que isso tinha
a ver com a brincadeira que ele fazia com as mãos do bebê que tem
duas palavras em alemão que era Ford, que era fora, e Da, aqui, então
é a brincadeira do Ford Da e o Freud então sacou que essa brincadeira
tem a ver com a criança perceber que a criança ta lidando com a
descontinuidade ; jogou fora, pegou de volta, jogou fora, pegou de
volta; a mãe vai, mas volta, vai, mas volta; com o começo da capacidade
de simbolização da criança, se ela pode simbolizar que a mãe que vai,
volta e se ela pode inclusive brincar de esconder uma coisa e achar, de
jogar e pegar, ela não é só quem sofre passivamente da falta da mãe e
depois recebe passivamente, ela também é capaz de sumir e aparecer,
ou de fazer sumir e trazer de volta os objetos, ela começa a poder lidar
com a falta, sabendo que o objeto vem e que se não vier a mãe ela
brinca de carretel, o objeto vem, isso é o sujeito psíquico, o sujeito é
capaz de simbolizar, e simbolizar para nós é simbolizar o ausente. Na
presença, tudo bem, eu sei que você chama Cristiane, mas na presença
eu não preciso me preocupar com isso, o símbolo, o nome vem para
evoca-la ou chama-la se ela não ta aqui, ou pelo menos se ela ta mas
não ta prestando atenção em mim, nesse sentido, a ausência não
precisa estar fora do ambiente, não ta grudado, não tá ligado, então o
psiquismo é isso. Agora, dessa capacidade da criança de lidar com o
desprazer, com a falta, com a necessidade, até ai nós estamos no terreno
das necessidades né, como é que se dá a passagem da necessidade
pro desejo? Que é diferente necessidade de desejo, é que o desejo da
criança, e quanto mais a mãe ganha autonomia, isso é normal, o bebê
vai ficando um pouquinho independente a mãe vai voltando as
atividades, volta até a trabalhar hoje em dia, antigamente não voltava
a trabalhar, ou a mãe reerotiza o seu corpo, durante algum tempo fica
um corpo completamente maternal, a mãe quer o pai também, ou se
não é o pai é um outro namorado, ou o trabalho dela, ela quer outras
coisas além da criança, então o que a criança perdeu ali não é só o
leite, o cuidado, a maternagem, por que isso vamos dizer que a mãe
garanta, porque tem a vó, tem a babá, enfim, pensando numa criança
numa situação razoável de vida, não precisa ser...a criança ta com as
necessidades satisfeitas. Então o quê que ela perdeu? Ela perdeu o lugar,
o lugar que era o único lugar que ela conhecia até então, que era um
lugar um pouco ilusório, mas em todo caso aquela ilusão muito forte, de
ser tudo para mãe, de ela me completa e eu completo ela, esse lugar
que na psicanálise chama-se O falo do outro, esse conceito, o falo, quer
dizer aquilo que completa, que tapa o buraco. Ela perde isso então ela
perde Ser, ela perde o seu ser por que a única experiência de ser pleno
que nós temos é a experiência primordial de ser aquilo que completa o
outro, o resto não é ser é falta de ser, nós somos sujeitos de falta a ser, por
isso que nós estamos sempre nos construindo, nunca estamos satisfeitos,
o que é muito bom né, nós somos falta de ser, nós sabemos qual o nosso
nome, qual o sexo a gente pertence, a família, nós sabemos muita coisa
que dão complemento de identificação para nós, você não perde a
noção de quem você é, se você tiver mais ou menos bem psiquicamente.
Você pode se definir de muitas maneiras, de muitos vetores, o seu estilo,
onde você mora, pais pertence, que língua você fala, quem são seus
amigos, com quem você é casado, quem não é, sua historia de vida
toda cria uma identificação comigo mesma, com minha imagem
corporal, que por mais que o corpo mude ao longo da vida você
continua se olhando no espelho e sabendo que é você, e se você ficar
10 anos numa ilha sem espelho você pode até levar um susto quando se
vir, mas é você, você tem um sentimento de permanência do seu eu,
mas o ser é incompleto. O Lacan costuma dizer: só os lírios do campo
são. Por isso que o Freud... A bíblia fala:’ olhai os lírios do campo eles que
estão na sua plenitude’ ..... Só na natureza os seres são. O humano é a
falta a ser. E a vida é uma continua busca do que que pode completar
este ser que nunca é completo.Só o morto É de novo, o morto esta pleno,
ele não tem mais devir, ele não tem mais falta, agora se fechou. É
interessante talvez , porque que nós sentimos tanta falta que colocar o
nosso nome na lapide. Eu penso nas pessoas que querem ser cremadas.
Meu pai quis ser cremado, foi cremado, muito tempo depois eu passei
pelo tumulo da Família Kehl , no cemitério da Consolação que eu nem
sabia que existia, eu fui lá e pus o nome dele, eu falei: ah, o nome ta ai,
o SER já se perdeu, mas como a morte para tudo, o nome ta ali, paradinho.
Por isso que a gente usa mármore, essas matérias estáveis pros mortos,
por que ali o ser se realizou, se concluiu. Mas vamos falar assim, o que é
que é o desejo? O desejo é um movimento que parte, primeiro Freud vai
tratar esse assunto como se fosse ainda do lado das necessidades. Ele
fala o seguinte, o desejo é um impulso, ele não é uma coisa, ele é um
impulso que parte da insatisfação em busca de um equivalente daquela
marca psíquica da experiencia de satisfação, então você tem a
referencia da marca da experiencia da satisfação, é ela que você vai
buscar de novo quando você sente a falta, por que o desejo é esse
impulso, ele não é uma coisa, ele é um movimento psíquico, que muitas
vezes você não acha a coisa, você acha a ideia, por isso que o sonho
realiza desejo. Por que que o Freu d dizia que o sonho realiza desejo? No
sonho você não come, não bebe, não viaja, não faz amor, não abraça,
não beija, não tem filho, no sonho você só representa aquilo que pode
te completar, nada acontece de fato, como satisfação corporal, no
entanto ele realiza desejo , porque o desejo não esta no plano corporal.
As necessidades estão no plano corporal, o primeiro modelo que o Freud
faz que é o da criança, é a satisfação de necessidades, leite. O desejo
já não está no plano corporal, ele está no plano simbólico, o desejo é o
movimento que busca o equivalente, busca conceber o equivalente da
satisfação perdida. Por isso ele não deixa de nos acompanhar durante a
vida, por isso o sujeito psíquico é um sujeito do desejo. Vamos supor, se
esse desejo que é um desejo de completar a falta a ser, ter de volta
aquilo que você perdeu lá, que tinha que perder para virar sujeito, sujeito
de desejo, se um dia eu encontrasse aquilo eu parava, por isso a ideia da
plenitude, da morte como plenitude, por isso a ideia aristotélica de que
a morte ecoa vida, o fim de uma vida, é ela que vai dar sentido para
aquela vida inteira, não é, não é que a morte seja boa, mas ela é o
único ponto de parada pra esse movimento, pra desse ato do desejo,
enfim, tudo isso vai depender da possibilidade de suportar o tempo,
como o transcorrer entre um ponto e outro, entre dois pontos digamos
de satisfação. Além do desejo tem um outro movimento que vai
amadurecendo principalmente na medida em que a criança tem
acesso a linguagem que é o movimento do pensamento. O movimento
do pensamento não precisa ser como o calculo, racional, pode ser a
fantasia também, pode ser: ai como eu gostaria de...E começar a
imaginar tudo o que a gente gostaria, mas o pensamento é aquilo que
suporta o rodeio maior. A criança que num primeiro momento sente a
falta, recorre a marca mnêmica do objeto e no primeiro momento quase
quando ela alucinou, parece até que ela achou, por que é um tempo
muito curto, esse tempo, na medida em que o tempo de insatisfação
pode ser suportado por um tempo mais longo a atividade psíquica vai se
enriquecendo, entre a primeira experiência, a insatisfação e o retorno
da experiência. A atividade psíquica vai se enriquecendo, então o
psiquismo é isso, é fazer ligações, fazer ligações, ligações sobre um fundo
de vazio, por que a gente não é nada, a gente é o trabalho psíquico
que a gente construiu, se não o corpo em si não é nada, se ele for um
corpo autista ele nem se alimenta sozinho. Se ele for um corpo psicótico
ele não se organiza. Então isso é que é o psiquismo.
O pensamento, vai dizer Freud, é a capacidade de entre a
experiência da falta, vamos supor, falta de verdade, não entendi tal
assunto que eu li e a experiência do encontro, ah, entendi, entendi uma
parte, solucionei meu problema. Você é capaz de fazer um arco bem
maior que percurso, por várias marcas simbólicas, do qual a fantasia
participa, mas pro Freud é importante, Freud é nosso analista né, que os
caminhos de fantasia que vão bifurcando esse percurso de pensamento
não iludam o movimento do sujeito o suficiente para ele abortar o
percurso. Isso é impossível de garantir. Muitas vezes a gente ta pensando
num problema e pega um atalho, chega numa fantasia e ah, ta bom
assim vai, chega, não quero mais pensar! Provavelmente a gente faz
isso a maior parte das vezes, poucas vezes a gente vai até o resultado
realmente e resolver o problema. É muito difícil a gente distinguir o que
é fantasia e o que é puro pensamento teórico. Imagina, Descartes, o
racionalista, ele cria uma fantasia monumental para sustentar a idéia
que ele existe, um deus enganador que botou para fingir, se iludir que
os sentidos dele percebem ou que não percebem, então é muito difícil
de distinguir essas coisas, em todo caso o que o Freud diz é que ele dá,
ele privilegia o movimento do pensamento como movimento superior do
psiquismo no sentido de ser capaz de suportar mais tempo na ausência
do objeto de satisfação.
Fazer uma busca mais longa, claro, quanto mais tempo pode
buscar mais rico, não vou chamar de evoluído que evoluído pressupõe
uma gradação, mas em termos de riqueza, não estamos falando de
gradação mas de ligações mentais, mais ricos nós somos. Quanto mais
ligações, quantos mais caminhos mentais a gente puder fazer, a pessoa
que só faz aquele caminho mental, só pensa de um jeito, só fica contente
com um tipo de coisa é mais pobre psiquicamente. O ponto de vista, só
se interessa por 2 ou 3 coisas, só se sente bem, só se sente segura em
poucos ambientes, é mais pobre do ponto de vista da da vida psíquica.
Quanto mais plasticidade, quanto mais possibilidade de fazer ligações,
quanto mais... mais rica.
Bom, para terminar, a gente tem uma hora mais ou menos uma
hora de debate eu espero né, eu vou fazer um pulo aqui pro Walter
Benjamim rapidamente que ao contrario do Freud...Ele é freudiano, ele
não é freudiano, imagina, é um filosofo muito mais rico, mas ele usa Freud
pra resolver alguns problemas. Ele leu Freud, então é um filosofo capaz de
incluir a psicanálise num sistema de pensamento do começo do século
XX e, só que ao contrário do Freud ele dá um enorme valor a imaginação,
ao devaneio, ao sonho, as narrativas, as lendas, a tudo aquilo que vai
criando elo entre as pessoas e criando elo da pessoa com sua própria
historia com o seu devir que não tem que passar necessariamente pela
razão. Ele tem boas razões para fazer isso, por que ele viveu a I Guerra
Mundial e o começo da II, e ele sabe os delírios de que a razão é capaz.
No século do progresso, da ciência, do racionalismo que é o século
XX, da tecnologia e ele passou por 2 guerras horrorosas sendo que na
segunda ele mesmo se matou prevendo o fim horroroso que ele podia
ter se ele caísse nas mãos dos nazistas. Então ela tinha boas razões para
também valorizar aquilo que faz a nossa ligação com o passado, com os
antepassados, com a comunidade humana, que é muito mais a fantasia
do que a razão, as fantasias, os devaneios, as lendas, as narrativas, etc..
Bem, Benjamim se preocupou muito com a melancolia, e ele aborda a
melancolia, que seria a depressão, a nossa, de várias maneiras ao longo
da sua obra, e a maneira que me interessa aqui em relação ao tempo
é a seguinte: ele percebe que a modernidade, quer dizer, ele nasce
na Alemanha em 1882 e tem uma primeira infância, tudo bem já era
modernidade, mas ainda é uma modernidade...a Alemanha entrou mais
tarde na Revolução Industrial, na unificação, entrou na modernidade
mais tarde, mesmo ele vivendo em Berlin, as memórias berlinenses dele
é quase como se ele vivesse numa província, a estabilidade da vida, na
infância. Uma casa burguesa e etc.. Quando ele vai pra Paris e ele começa
a ler Baudelaire, que é um autor anterior a ele, da primeira metade do
século XIX, ele se dá conta, primeiro, Paris é trepidante no começo do
século XX e ele cria uma teoria para explicar a, que eu não vou entrar
por que ai ficaria aqui até as 7 da noite, mas ele cria uma teoria de que
na modernidade urbana a melancolia, porque ele considera Baudelaire
um poeta melancólico, umas das explicações pro melancólico é que
ele vive sob o impacto da velocidade, da vida na grande cidade, e
com isso o que se perde é essa capacidade profunda do devaneio e da
imaginação. Ele toma Freud, e ele diz o seguinte: o psiquismo, ele tem
uma camada superficial que é a atenção consciente, essa é a mais fácil
de a gente entender, que se confunde com o córtex cerebral, e que
tem como função aparar os choques vindos do exterior para proteger
as camadas mais profundas do psiquismo, profunda na terminologia
freudiana, porque ele nunca fala em profunda, ele fala o inconsciente
está a céu aberto. Ele ta naquilo que você fala. mas pra Freud, ele usa
essa ideia de camadas profundas, que seria onde se dá o sonho, onde se
dá...vamos chamar de profunda aquilo que não está, cujo trabalho não
é resposta imediata ao presente, não precisa pensar na profundidade no
sentido da metáfora de um poço, mas a metáfora do tempo, aquilo que
precisa ser evocado para voltar, a imaginação, a lembrança, etc.. Bom,
Freud vai dizer: esse sistema da atenção consciente, ele tem neurônios
que orientam o psiquismo para sobreviver no presente. Metáfora banal:
atravessar uma rua né, ou dirigir numa estrada. Qual é o sistema que
tem que estar ligado? É o da atenção consciente, e ele vai aparando os
choques da vida exterior.
Choque não é igual a trauma tá, trauma é justamente quando o
choque é tão violento que ele desorganiza todo o psiquismo por que o
nosso sistema da atenção consciente não consegue dar conta. Você é
atropelado por um trem, não tem psiquismo que dê conta disso. Então
ele ta chamando de choques, os faróis dos carros, as pessoas que
atravessam, o caminhão atrás buzinando, o medo de perder a direção,
o motor no ouvido, o ruído se ta bom, se não ta, se furou o pneu, é
estado de tensão mas é uma tensão em que o que ta ativo é o sistema
de percepção de consciência. E Freud vai dizer: esse sistema tem que
um pouco se amortecer para proteger os outros, ele vai morrendo um
pouco, morrendo no sentido de que ele vai se fixando no atual, no
presente, no imediato. Então o modelo do Benjamim, entre outros sobre
a melancolia, é de que um sujeito que vive nas condições de velocidade
da modernidade e olha que Baudelaire, se a gente vivesse na Paris de
Baudelaire a gente ia achar um passeio! Mas Baudelaire tem algumas
poemas em prosas que falam da loucura da carruagens passando,
carruagem... Benjamin já falava de automóveis, trens...
Ele diz: por quê que o sujeito de melancoliza? Por que ele empobrece
psiquicamente, por que ele tem que responder o tempo todo ao que vem
de fora e ele perde essa conexão profunda, profunda vamos pensar em
termos temporais, não só com a sua fantasia, com a sua memória, com
a sua infância, mas também com as gerações passadas que o constitui.
E hoje se a gente pensar nisso é como se nós estivéssemos um imperativo,
e hoje esse imperativo também é ideológico, ele não é só prático, a
nossa sociedade valoriza muito o presente e o futuro, você tem que estar
já com um pé ali na porta do futuro para não ficar pra trás. Então, mas
o ideológico é o de menos, as condições materiais é que sustentam o
ideológico, se não houvesse as condições materiais o ideológico seria
uma fantasia que depois se dissiparia.
Essa idéia de que você tem que estar atento para pegar tudo aquilo
que o momento presente, pegar, responder, reagir, o que o presente te
trás. E isso em vez de trazer uma maior riqueza te empobrece. É estranho
né. Porque hoje você tem como o humano é muito plástico...É engraçado
que quando eu escrevi minha tese, faz muito tempo, também estudando
um pouco o século XIX, eu li um autor que dizia: qualquer pessoa que
viveu antes da máquina a vapor, da locomotiva a vapor, nunca mais
vai se adaptar num mundo em que você pode andar a velocidade de
50, 60 km/h, esse autor que eu não lembro quem era falando sobre o
espanto que foi o deslocamento pelos trens a vapor do século XIX, 50, 60
km...o corpo humano não foi feito para andar a essa velocidade diz ele.
Depois, no fim do século XX já, o filho do escritor, Alphonse Daudet
que é um escritor francês, chegou a dizer: o automóvel é a guerra. Quer
dizer , que existe uma máquina capaz dessa velocidade isso vai trazer a
guerra. Por que vai trazer a guerra? Não que as pessoas vão brigar por
automóveis, porque a tecnologia permite, existe uma tecnologia que
permite o extermínio a distancia, uma velocidade absurda, ela tem que
ser usada, ai já é uma questão do capitalismo, enfim, depois no debate
a gente pode conversar um pouco mais.
Mas estou fazendo aqui um salto para chegar naquilo que o
Benjamim vai dizer.
Então se primeiro ele diz, estudando Baudelaire que o homem
moderno, e ele toma o Baudelaire como paradigma, uma parte do
imaginário fica sacrificada porque o sistema atenção- percepçãoconsciência é o mais solicitado, os outros sistemas vão ficando como
que atrofiados, ou pelo menos desativados e uma hora o sentido da vida
se perde, por que o sentido da vida é ficcional, ele não é objetivo, e isso
a gente vê no consultório atualmente muita gente dizendo: eu acordo
desde de manhã até de noite eu faço um monte de coisas e nada disso
me faz acreditar que minha vida tem sentido, parece uma vida vazia.
Por que? No sistema ele está só respondendo a estimulo, como se
esse sujeito perdesse esse elo com o passado, com a sua fantasia, com
tudo aquilo que faz com que ele sinta que a vida é boa, é prazerosa, é
prazerosa pelo tipo de atividade psíquica que ela permite desenvolver:
devaneio, fantasia, o exercício do querer, que não ta ligado ao que
eu quero imediatamente, isso é uma coisa. A outra que o Benjamim
percebeu muito cedo e que hoje nós não temos mais duvidas que ele
percebeu certo, é que a tecnologia, o desenvolvimento da técnica
que no começo do século XX não chega aos pés do que é hoje, ele
impõe, se impõe aos homens não a serviço do homem, mas colocando
o homem à serviço dele. Por isso que ele sacou, e ele cita esse filho
do Alphonse Daudet , ele sacou que a tecnologia podia levar a uma
guerra, e levou, e ia levar a outra guerra, por que a fé na tecnologia
faz com que, claro ai tem toda a questão de geopolítica, os Estados,
a Alemanha, a humilhação da Alemanha, ele não ta dizendo que a
guerra foi só um brinquedinho de homens, mas é como se a vontade
de ver aquilo em ação participa daquilo , que faz com que inclusive as
populações, a I Guerra Mundial, foi uma guerra em que a população da
Inglaterra, a população da França, a população de vários países aderiu
entusiasticamente, aderiu entusiasticamente, não é que eram obrigados
a se alistar, aderiu , era a fé no combate aéreo, que iam ganhar, que
aquilo ali ia resolver, era querer ver tecnologia funcionando. Claro que
existem mecanismo políticos, quer dizer, vejam, a tecnologia nuclear
teve um momento que ela parecia inevitável, teve que ter acordos muito
fortes entre os países para dizer não vamos usar, por que se existe por que
não vou usar né, os bombardeios e etc.
Mas a metáfora que o Benjamim faz da tecnologia, são duas
metáforas que ele faz: Uma é do bombardeio aéreo, ele passou pela
I Guerra e ele diz: uma geração que foi a escola num bonde puxado
a cavalos, a burros, que é a coisa mais, para nós, primitiva que pode
existir, - é uma carroça- se viu de repente de baixo de bombardeios sob
um céu, sob uma paisagem irreconhecível na qual a única coisa familiar
eram as nuvens do céu, sendo que as nuvens do céu são as coisas mais
voláteis que existe, mais mutante, no entanto, a única da paisagem
a única coisa que o sujeito poderia ainda reconhecer, fazendo parte
do mesmo mindo que ele vinha e de baixo de um campo de forças
destruidoras o frágil e minúsculo corpo humano.
Ele está descrevendo um bombardeio aéreo, ele ta descrevendo a
guerra. Mas ele poderia estar descrevendo a nossa experiência urbana.
Tira a bomba e põe no lugar da bomba os carros, os aviões, o barulho, a
velocidade, e o frágil e minúsculo corpo humano Os quarteirões de casas
que caem para dar lugar a rapidez da mudança, que vai tornando o
mundo irreconhecível para nós.
Homem – Em São Paulo nem céu nós temos.
Maria – Nem céu nós temos...um pedacinho sempre sobra. Nem céu
nós temos. A ideia do Benjamim que é muito interessante, ele continua
esse parágrafo em outro texto dizendo: uma ...forma.. monstruosa se
abateu sobre os homens, (uma num sei o quê monstruosa) não me
lembro o que é - se abateu sobre os homens.. é a tecnologia. Veja, não
é uma fala obscurantista - eu vou voltar a andar de carroça e iluminar
com luz de vela, não tem antibiótico- não é isso, é que a técnica aliada
ao capitalismo, ela se impõe a nós, e nós é que a servimos a ela, e não
ela nos serve. Nós é que a servimos.
Por quê que as pessoas fazem fila cada vez que lança um novo
ipad ou ipod, sei lá, vão fazer fila na porta das lojas né? Porque elas
acreditam, isso é uma crença, tão crença quanto acreditar que eu vou
pro céu ou pro inferno, e que deus ta vendo tudo que eu faço.
Por quê que elas acreditam que elas tem que ter um novo que
foi lançado? E por que, qualquer amigo argumenta com você -mas tem
que ter! se não você vai ficar pra trás.
Pra trás do quê? Qual é a corrida? Para onde nós estamos indo?
E não tem nada a ver com falar contra as descobertas que...alguém
quer não ter mais e-mail? Alguém não quer mais falar no celular,
se estabeleceu, facilitou algumas coisas da vida. Mas a adesão a
isso, ela tem a ver eom as estratégias do capitalismo, tem a ver com
concentração de riqueza, e o mais importante, muito rapidamente a
gente vai começar, a gente já está, os jovens então, por que vocês
são do teatro, tem outro pensamento, tem outros modos de estar no
mundo, mas muito rapidamente, os adolescente já estão a serviço do
seu celulares e não mais se servindo de seus celulares, e a existência
da tecnologia que permite o encurtamento da comunicação, a rapidez
imediata, a notícia que chega em um minuto, faz com que isso se torne
indispensável. E cada vez mais, quer dizer, se essa metáfora da rodovia
ou do trânsito de carruagens na Paris do século XIX já é uma metáfora de
velocidade, pro Benjamin ou pro Baudelaire, a metáfora da vida digital,
não precisava nem de correr com o corpo, o corpo pode estar sentado,
você pode ficar 12 horas respondendo a estimulo, você nunca vai ficar
sem nada para fazer e se você acredita de fato que para você existir
você tem que estar presente na maquininha, no facebook, no youtube,
no Google ... você pode ficar 12 horas a serviço da tecnologia. E o vazio
que se produz, é imenso. Eu tenho pacientes viciados nisso, em relações
por computador.
Então eu estou dando o exemplo do computador que é o que eu
percebo de mais atual, você pode não sair de casa, não ter contato
com ninguém, não ler um livro, mas tudo isso é o de menos, o principal
é que você pode ficar em casa lendo um livro, eu tinha um paciente
deprimido que tinha um mundo interior com uma riqueza....ele ficava em
casa mas ele conhecia tudo de jazz, ele conhecia os filmes da década
de 40 e 50 que eu adorava, ou os filmes de cinema Cult, ele lia tudo
quanto é, gostava de escrever, tocava guitarra, fazia poesia, mas ele
não queria sair de casa, ele ficava lá na deprê dele, mas a deprê dele
era riquíssima, então não se trata de sair ou não sair de casa, o que
eu to dizendo, tomando de novo esse modelo freudiano o Benjamim
retoma de você...a vida passa a ser atividade do sistema de percepção
e consciência, responder a estimulo, responder a estimulo e não precisa
mais ser como imaginava o Benjamim um estimulo ameaçador, o carro
na rodovia, a bomba que vocês tem que se esconder, você tem que
responder estimulo para sobreviver, pode ser no maior conforto, você
pode estar super seguro no seu quarto, mas você pode fazer uma vida
de responder a estímulos. Porque essas máquinas das quais nós nos
servimos para encurtar o tempo, para ter mais tempo, então resolve por
celular, resolve por computador, manda por e-mail, imagina, quando
eu era jornalista e ainda por cima não tinha carro, escrevia o artigo na
máquina de escrever, punha num envelope, tomava um ônibus, porque
eu era ‘duranga’ , ia na Folha de São Paulo lá na Marginal e entregava
o artigo, e via umas pessoas, tomava um cafezinho, paquerava um
jornalista, pegava outro ônibus, voltava para casa e isto tomava uma
tarde. É legal poder mandar por e-mail, claro que é legal, mas é bom ter
a noção do que a gente perdeu quando tinha aquela tarde ali para isso,
entende, você manda por e-mail e qual é a próxima coisa que eu tenho
que fazer agora? Alguma coisa se perdeu. Não se trata de passadismo
‘no meu tempo que era bom’. Cada um tem o seu tempo e as saudades
que a gente tem do passado a gente sempre recorda de melhor, então
a gente acha que era bom, não lembra da chuva, de ficar dentro do
ônibus, não é isso, enfim, eu to dizendo como quanto mais coisa você
faz caber dentro de seu tempo mais seu tempo te parece menor, ou
mais dilatado ele te parece, isso é subjetivo, é por que o tempo ta sendo
vivenciado nessa dinâmica sem nenhuma dialética de responder a
estimulo, do sistema percepção consciência.
Mulher – Isso que você falou, poderia repetir: quanto mais coisa...
Maria – Quanto mais coisa você tentar enfiar dentro do seu tempo
em vez dele te parecer mais dilatado te parece... que voou. As vezes
a gente fala: nossa essa semana já passou? O que que eu fiz? Não fiz
nada!? Que você fez: você respondeu à demanda do outro o tempo
todo.
E aí tem uma questão também, da demanda do outro.
Quer dizer, para você ter um projeto, por que pras pessoas é tão
difícil fazer uma tese, por exemplo? tudo bem, tem lá o orientador que
te cobra prazo, que te enche o saco, que fala num quero que você vá
por esse caminho, lê aquele autor- tem um outro que te demanda. Mas
se você resolve fazer uma tese o desejo é seu, teoricamente o desejo
é seu. Aí você vai fazer uma coisa por conta do seu desejo, não é por
que alguém te perguntou, alguém te pediu, alguém te...fica dificílimo,
de repente os caras querem desistir, não querem sustentar, porque não
é a demanda do outro. E responder a demanda do outro a gente sabe.
A criança faz isso desde cedo não é, mesmo quando a criança, mama
no peito e etc, para criança ela ta tão ainda fundida com a mãe que
ela não sabe se ela mama porque ela quer ou se ea mãe quer que
ela mame porque a mãe sabe o que é bom para ela e ela se sente
bem. Tanto que o adulto que estimula demais a criança ele cria uma
criança ansiosa, porque não é que a criança fica satisfeita com aquele
excesso de estímulo, ela fica se sentindo tendo que responder um monte
de demanda. Isso é muito confuso pra criança. E é confuso pra qualquer
um de nós, quando alguém fala, vocês tem essa experiência: faça isso,
é pro seu bem; eu quero isso de você por que é pro seu bem. Você
não sabe mais se você faz por você ou pelo outro. Um pouco a nossa
vida com a tecnologia é essa, é pro seu bem! Esse novo Che Guevara
do século XXI, que é o Steve Jobs- cada geração tem o Che Guevara
que merece- ele fez tanta coisa pro nosso bem não é, enfim, ele criou
aparelhinhos de nos demandar o tempo todo. Ótimo, não tenho mais
que me preocupar com o meu desejo, eu só respondo a demanda. Eu
posso virar um sujeito, uma casca oca de sujeito a serviço da demanda.
Enfim. Agora eu to divagando mas eu acho que a gente pode conversar
mais um pouquinho até, deu para falar baixinho, minha garganta saiu
um pouco.
Mulher – Essas coisas algum texto especifico? Ou é um apanhado
da obra inteira?
Maria – Não, da obra inteira não. Tem alguns textos em que ele
cuida disso. Mais fácil aqui no Brasil, a Brasiliense lançou nos anos 80, mas
ainda existem, 3 volumes com textos selecionados do. Um deles, que eu
acho que era o segundo e chama: Ciência e técnica, arte e magia, que
eu acho que é um volume onde ele fala da infância dele em Berlin, acho
que é, não tenho certeza, tem dois textos, um se chama O narrador, que
é muito conhecido e o outro se chama Experiência e pobreza, nos dois
textos ele fala e é a coisa mais engraçada que acontece neste dois textos
e não é empastelamento editorial porque eu fui encontrar esses textos
em outras línguas, ele repete esse parágrafo: uma geração que ainda foi
à escolas em bondes puxado a burro de repente se viu debaixo de um
bombardeio’, ele repete esse parágrafo e não é que ele repete porque
ele é preguiçoso e não quis pensar e cortou aqui colou ali como a gente
faz no computador: ah, esse pedaço desse artigo eu posso por aqui, esse
outro eu colo, recorto e colo; ele repete provavelmente porque isso é muito
central, essa ideia da velocidade da tecnologia; E em um ele vai pra um
lado, que é a narrativa, o devaneio, você pertencer a uma comunidade
que vai intercambiando as experiências com a narrativas, e no outro
ele fala mais, também da experiência da transmissão da tradição e da
tecnologia que é ‘ Experiência e pobreza’. E tem um outro volume, que
se chama Paris, capital do século XX, eu acho, que é o que ele fala do
Baudelaire que é um texto muito difícil, é um texto tão complicado que
o Adorno e Horkheimer que morava já nos Estados Unidos e, o Benjamin,
estava , eu dizia dizer tava aqui...! tava em Paris passando fome quase,
a única coisa que ele tinha de vez em quando era uma mesada do
Instituto, que era a Escola de Frankfurt lá né, ele não conseguiu emigrar,
esse texto eles se recusaram a publicar, eles acharam pouco dialético,
pouco marxista, ele caprichou nesse texto e não conseguiu. Então você
não precisa ler esse texto inteiro, mas tem um trecho desse texto, agora
eu não sei dizer qual é tem que dar uma olhada, onde ele usa o ‘Além
do princípio do prazer’ do Freud, esse modelo do sistema percepçãoconsciência, em relação aos outros sistemas, o apara choques, etc.. Ele
usa nesse, num ponto desse texto, sobre Baudelaire. Tem referencia de
onde é, é legal ler o Benjamim mesmo.
ENCONTRO COM LAYMERT GARCIA DOS SANTOS
DATA: 02 DE DEZEMBRO DE 2011
Cristiane - Entendeu. Do Rumos, que levantou muita coisa, a gente
quer falar mais com ele, quer ouvir ele mais, por que ele levantou muitas
bolas. A gente tem uma pesquisa, a gente ta com um projeto Máquina
do tempo ou longo agora, mais uma vez só para. E tem a questão
da tecnologia, como isso altera nossa temporalidade, tem a questão
dessa experiência linda que você teve com os índios ianomâmis, que
também que acho que é uma outra vivencia de tudo, que eu acho que
pode enriquecer as nossas perguntas né. Por que eu acho que é mais
a gente tentar levantar questões, levantar as provocações que podem
desembocar na criação. A gente tem gente que é o pessoal do Fila 7
que ta aqui, tem o pessoal, a Débora, que estão lá desde o primeiro
grupo de estudos que começou, tem o pessoal que são os agregados
expandidos, sabe, o PovoemPé expandido, e tem o grupo em si que
ta aqui. Então, acho que assim, você se sinta muito livre para falar e a
gente vai perguntar.
Laymert - Então, eu até pensei quando vocês me mandaram
o projeto, as informações sobre o projeto e tal, eu pensei em duas
possibilidades, uma seria um bate bola, de conversa, um outro seria uma
coisa mais estruturada, e aí nessa coisa mais estruturada, eu pensei do
que já fiz e do que eu to fazendo, o quê que poderia ser mais interessante
para um grupo de teatro, e entre as coisas que eu já fiz, ou melhor, nesse
caso eu não fiz, mas é uma pesquisa que eu tava, eu prometi, mas eu
não fiz, mas eu coloquei os parâmetros dessa pesquisa, era, que tem a
ver com tema que eu acho que interessa a vocês, era uma pesquisa
para indicar o que é que aconteceu na passagem do Hamlet pro Hamlet
máquina do Heiner Müller, por que dentro do meu projeto, eu tinha um
projeto de bolsa de produtividade e pesquisa da CAPES, universitário né,
eu sou universitário. Eu tinha um projeto sobre o futuro do MAM, e dentro
desse projeto sobre o futuro do MAM, a coisa assim, caminhou para essa
diferença ou essa passagem do Hamlet pro Hamlet máquina por que o
Hamlet, a questão do Hamlet é a questão do tempo estar fora do prumo.
E como o tempo ta fora do prumo e o Heiner Müller trabalhou mais ou
menos uns 10 anos em cima da peça do Hamlet para escrever uma
peça que tem 9 páginas, que é o Hamlet máquina, e como eu gosto
muito do que o Heiner Müller faz, eu de repente, o Heiner Müller, me veio
a ideia de que para eu estudar o futuro do MAM eu precisava passar
pela passagem do Hamlet para o Hamlet máquina, por que a questão
do Hamlet de certa maneira atravessa 4 séculos e é considerada como
a questão moderna por excelência, e depois se ele faz a passagem pro
Hamlet máquina, para ele tinha alguma coisa acontecendo que não é
mais o Hamlet, e o que é que isso, o que é que é essa figura que já não
é mais só humana, mas que ao mesmo tempo é humana mas que ao
mesmo tempo não é mais, é máquina e que de certo modo vai indicar
uma transformação que eu acho que tem a ver com essa transformação
de aceleração dos tempos. Então, ai fica a critério de vocês. Se eu for
falar da questão do Heiner Müller e do Hamlet máquina eu teria umas
10 páginas para ler, que é digamos, ai eu prefiro ler d o que falar, que ta
muito mais preciso e ta muito mais exato, tem as palavras do meio, tem
os comentadores, tem num sei o quê, mas eu acho que dá para situar
um pouco o que essa pesquisa que eu disse que ia fazer a 3 anos atrás
mas ainda não fiz, mas eu vou fazer, eu não fiz mas vou fazer. Então se
vocês preferirem isso ai eu leio isso, se vocês preferirem que façam um
bate bola mais geral sobre a questão do tempo e a aceleração, a gente
pode fazer uma conversa mais nessa direção. Ai eu não sei, depende do
grupo, do quê que vocês acham que pode ter um rendimento melhor,
que as pessoas conhecem outros textos ou não conhecem, etc., por que
ai eu posso puxar, num sei, realmente ai fica a critério de vocês né.
É o seguinte, só como uma pequena introdução pro texto, o quê é
que foi dado de inicio, eu vou rememorar para quem tava na palestra
do Rumos, uma pequena observação que eu tinha feito lá, por quê que
eu entro nessa observação. O Müller tinha no texto dele, é uma entrevista,
mencionado um conceito que para mim é muito caro já há vários anos,
que é o conceito de estratégia de aceleração total econômico-técnicocientifico, que ele chamava tecnológica naquele tempo, não chamava
de técnico-cientifico, e dessa perspectiva ele dizia o humano vai
desaparecer no vetor da tecnologia, e ele forjou essa noção de estratégia
de aceleração total econômica e tecnológica a partir de uma
observação de um aristocrata, escritor, grande pensador alemão
também da tecnologia que se chama Berners Jungen, que escreveu um
livro sobre a mobilização total na I Guerra Mundial e depois o Jungen
num comentário sobre por quê que a Alemanha nazista perdeu a guerra,
o Jungen tinha dito o seguinte: a guerra foi perdida pelos alemães por
que eles se dividiram, e dividiram as forças em duas frentes, umas frente
de guerra, que já é dividida em duas contra a União Soviética de um
lado, contra os outros países ocidentais do outro, conforme sejam. Então
eles tinham essa frente de batalha, frente de guerra, mas eles também
dividiram os recursos para botar em ação o projeto de solução final dos
judeus, e por que eles dividiram essas forças, eles perderam a guerra, diz
o Jungen. O Müller que era um finíssimo leitor do Jungen disse: o Jungen,
não tem razão, não foi por isso que os nazistas perderam a guerra, por
que ele não entendeu, e no caso não ter entendido era uma coisa
bastante complicado, por que o Jungen era um teórico da questão da
mobilização total para a guerra, ele disse: o que ele não entendeu foi
que o problema não era a frente de batalha, o projeto nazista era um
projeto de tecnologização total da vida, e nesta perspectiva a solução
final estava inscrita no âmago do próprio projeto nazista de tecnologização
da vida entende, por que a questão da tecnologia, se a aceleração é
total, coloca-se imediatamente a questão da aniquilação daqueles que
são contrários a aceleração total, e diz o Müller, a questão principal é
que a solução final se inscreve numa lógica da aceleração total por que
é preciso eliminar as minorias, por que as minorias tem temporalidades
próprias e como movendo-se em temporalidades próprias elas não
aceitam uma temporalidade única para todo mundo (9:40) e tecnológica.
Então o projeto da solução final se inscrevia logicamente, diz o Müller,
dentro de uma perspectiva, e não foi um erro de calculo, de certa
maneira, de dividir as forças, mas tava inscrito já na própria dinâmica
que tinha que atacar a questão das minorias, eu acho isso uma questão
interessantíssima, eu utilizo isso como norte na minha pesquisa, na minha
maneira de pensar a tecnologia, não que eu seja contra a usar a
tecnologia, por que eu já vou avisando: não sou, não sou contra a
tecnologia, não sou nenhum saudosista, não sou budista, nada disso.
Mas eu to levantando essa questão por que, como eu falei aquele dia
no Rumos, eu encontrei com um sujeito que estuda futuro e romper de
patentes, responsável por um grupo de 40 pesquisadores de ponta para
estudar o futuro da invenção e o futuro da tecnologia, no hospital de
romper patentes, que é uma big organização, e lá eles se dedicavam a
essa geopolítica, e ele acabou caindo numa questão, que foi a questão
que eu mencionei lá no Rumos, que era a questão da intensidade da
aceleração tecnológica, intensidade essa que aparece, para ele,
apareceu para ele da seguinte maneira: se você pegar a intensidade
da transformação tecnológica do ano 2000 e projetar 100 anos para trás
e 100 anos para frente, o que é que você pode tirar disso, tomando a
intensidade de aceleração tecnológica do ano 2000 como parâmetro,
como um metro, para medir 100 para trás e 100 para frente, se você
toma 100 para trás isso significa que nos últimos 100 anos tomando como
medida a aceleração do ano 2000, o século XX encolhe para 16 anos,
ou seja, ele começa numa perspectiva de 100 anos, mas a medida que
essa intensidade vai aumentando, aumentando, vai encolhendo o
século, e o século de 100 vira um século de 16, em termos de intensidade
tecnológica do ano 2000. Se você pega a questão desse projetar para
trás, projetar para frente, de 2000 a 2100, ai então, ai é que dá o problema,
por que ai ao invés de você ter uma contração você tem uma expansão,
por que vai acelerando cada vez mais, cada ano, de acordo com o
padrão do ano 2000, e aí é que o resultado é que 100 anos viram 25000
de intensidade tecnológica. Ai ele diz: 25000 de intensidade tecnológica
é impensável, não dá! E ele que estava estudando a perspectiva em
vários outros intermitentes por que o que ele tinha ali na mão com esses
40 especialistas eram diferentes técnicas a respeito de propriedade
intelectual e invenção, etc. Ele olhava todos os outros que faziam
prospectiva e todo mundo parava e tomava como horizonte 2030, e ele
viu que daria por que se você pegasse essa chave de 25000 anos, 2030
você tinha uma aceleração de “só” 3000, e depois de 3000 anos é
inimaginável, que a nossa memória humana, indo para trás, a gente
chegando na pré-historia, a gente chega em 3000, então ele diz:
chegando em 3000 para trás, e por isso que os estudos de prospectiva,
todos param em 2030, por que depois de 2030 não dá para saber o que
pode ser, não dá para saber, mas ele diz: mas mesmo pegando só 3000
anos, isso coloca um problema, disse ele, por que se a gente considerar
alguns povos africanos que vivem, do ponto de vista da perspectiva da
tecnologia ocidental, na idade da pedra, isso também é discutível, mas
enfim, nos nossos padrões, em termos de artefatos, eles estão a 3000
anos atrás, se isso acontecer, se a gente pegar e considerar que 3000
anos é isto, se a gente considerar isto, então isto significa que em 30
anos, 25 anos a humanidade ocidental e o resto da humanidade vai ter
que lidar com um acumulo, com uma intensidade de aceleração que é
como se a gente chegasse lá na aldeia dos (14:38) e dissesse para eles
que eles tem que evoluir 3000 anos imediatamente né. E nisto terminava
o comentário dele, como eu tinha ligação com os Ianomâmis e nessa
perspectiva eles também estão há 3000 anos atrás, eu acho que eles
não estão, quer dizer, são contemporâneos nossos e vivem de uma outra
maneira, isso é uma outra historia que a gente pode conversar depois,
mas na nossa perspectiva ocidental e olhando para eles em termos
tecnológicos eles estão 3000 anos atrás né. Se eles estão 3000 anos atrás
a questão que se coloca é a seguinte, eu falei bom, essa realidade eu
conheço, eu sei o que ta acontecendo no território Ianomâmi, eu sei o
tipo de pressão que a sociedade ocidental faz sobre aquela, e eu sei o
que isso significa, que é atirar aquelas pessoas, sem fazer um colchão de
proteção, vocês atira aquelas pessoas contra a parede, numa velocidade
de tal ordem que eles não dão conta de processar, mas o problemas do
Constantinus, era que, quer dizer que eu acho que era o problema, era
que a sociedade que tem que enfrentar em 30 anos uma intensidade
tecnológica de aceleração tecnológica de 3000 não é a do outro povo
que não tinha nada a ver com isso, é a nossa, é a mesma sociedade.
Então, para mim isso começou, passou a ser um ponto de vista, uma
perspectiva muito interessante para poder, de certa maneira, mudar
completamente os meus parâmetros sobre tudo aquilo que a gente
chama de o pós e o des, o pós-moderno e o modernismo, o pósestruturalismo, o pós-humano, o pós-teatro, do pós-teatro ao pós-cinema
ao pós...eu não gosto muito daquele poema do Augusto Junqueira, de
certa maneira esse pós-tudo, mas todo esse prefixo que começou a ser
colocado na frente de tudo aquilo que era do tempo da gente ou pelo
menos do meu tempo, da minha geração, mudar pro pós. E depois o
des, que era desmanche, que era desestruturação, que era, enfim, todos
os des, desconstrução, enfim, todas essas teorias pós-modernas, etc., e
que davam ao mesmo tempo com pós e des, por que justamente a
referencia ainda era o anterior, quer dizer a gente num sabe como você
vai nomear aquilo que ta vindo, a referencia que você tem é a referencia
anterior, e essa referencia anterior não vale para pensar, não vale, ela
não vale por que se você fala pós-moderno e ela não tiver a referencia
é moderno, se você já tá num tempo que tá destruindo ou desconstruindo
o moderno ou desmontando o moderno com essa intensidade como é
que você vai usar esses parâmetros se você usa os parâmetros modernos
para olhar isso você fica sempre só no, naquilo que isso que é novo não
é, você não tem parâmetro para dizer o quê que aquilo é, por que você
ta o tempo inteiro usando um referencial que não se adéqua mais a essa
situação e esse referencial não serve para gente, para perceber o novo,
não dá para utilizar. Então para mim esse pensamento ai é interessante
a partir justamente da questão da aceleração total por que é muito
difícil de considerar que a gente vai poder entender o que ta
acontecendo, ou começar a entender o que ta acontecendo usando
um referencial teórico e conceitual que já é de um outro tempo, um
tempo anterior, o que significa também que dá para entender por quê
que tem crise na universidade, por quê que tem crise nas instituições, por
quê que tem crise no entendimento das coisas e por quê que tem crise,
enfim, por quê que essa crise nas ciências humanas mesmo é uma crise
muito forte, e há um questionamento radical se a gente puder dizer
assim, e eu acho que a radicalidade desse questionamento ta ligada a
essa perspectiva de aceleração total. Além desses dois que estavam já
antenados com essa coisa, havia já alguns autores, algumas pessoas,
que estudam já tecnologia e já tavam ligadas nessa questão da
aceleração total, e que já datavam de 1970, essa virada, é a década
de 70 que faz essa virada, portanto é a década em que eu era jovem
né, então é uma geração antes de vocês, mas é a geração que viveu a
passagem para a disseminação da, digamos, da cibernética, em todos
os campos né, com isto aqui e com todos os derivados de, digamos do
reino da informação, foi quando a gente passou pra informação, pras
tecnologias da informação, que essa coisa começou, isso já estava
sendo registrado desde os anos 40, mas foi nos anos 70 que isso ganhou
capilaridade e começou a entrar, modificando aquilo que o Foucault
chama de vida, trabalho e linguagem, ou seja, todas as dimensões da
experiência humana, a cibernização entrou para valer na vida, trabalho
e linguagem, o que significa que o trabalho não tem mais o mesmo
sentido, a vida não tem mais o mesmo sentido e a linguagem também
não tem mais o mesmo sentido, ou seja, do ponto de vista do Foucault,
corroborado pelo Deleuze, que vai fazer o livro dele sobre o Foucault,
nós estaríamos entrando numa outra formação histórica, que está
deixando para trás essa formação moderna e estamos entrando num
outro tipo de formação histórica, e ai qual é essa nova formação, é isso
que nos interessa, é dentro do quadro disso que nos interessa o Müller
fazer a passagem do Hamlet pro Hamlet máquina, por que de certa
maneira o descentramento do tempo já estava colocado desde o
Hamlet, quando o Hamlet diz: o tempo ta fora do prumo, o tempo ta fora
do eixo, e isso digamos, não se saiu dessa crise desde que ela foi
anunciada pelo Shakespeare, a gente pode rastrear até na literatura, ou
rastrear mesmo na filosofia, muita gente que volta, Nietzsche inclusive,
enfim, desde o pensar, tem uma porção de gente que volta para esse
ponto, considerando que ai é o momento onde a crise do homem
moderno se anuncia, essa espécie de inadequação entre o tempo do
sujeito e o tempo da história né, que esse é o ponto da adequação,
houve uma defasagem com o tempo do sujeito e com um tempo da
história. Bom, mas se isso veio de um Hamlet digamos assim até o começo
de 1970 né, e o Müller escreve em 77 o texto dele, ou termina de escrever
o texto dele, que é de 9 páginas, em 77 né, ele ta captando que esse
Hamlet não dá mais conta dessa outra coisa por que ele ta vendo o que
ta acontecendo, ele ta vendo mas como nós todos, nós sabemos o que
está acontecendo, que uma coisa é você perceber o que esta
acontecendo e outra é você não ter palavras para dizer o que está
acontecendo e é uma espécie de uma impressão surda ou uma
impressão que de certo modo, depois disso, até generalizou por que
ninguém mais tem tempo, nenhuma, ninguém mais tem tempo, e
ninguém mais tem tempo e ta todo mundo correndo atrás o tempo
inteiro. E parece até que as tecnologias, o que é um paradoxo, por que
as tecnologias são todas feitas para nos poupar tempo e parece que
quanto mais intensa a utilização da tecnologia por nós, menos tempo a
gente tem né. Então, que historia é essa da era para nos poupar tempo
e para nos permitir que a gente pudesse fazer, ter mais tempo, mais
tempo livre, e acontece que quanto mais tecnologia a gente tem menos
tempo a gente tem, então tem um paradoxo ai, que evidentemente
esse paradoxo dita a inadequação também do tipo de sociedade que
é a nossa, que é a sociedade do trabalho, mas a sociedade do trabalho
ta em crise, todos nós sabemos, por que o trabalho tem cada vez menos,
e os governos e os Estados passam o tempo inteiro dizendo a gente
precisa criar emprego e eles adotam uma política que é o tempo inteiro
de eliminar os empregos, então tem emprego, cada vez tem mais gente
que é, digamos que cai fora do trem bala da aceleração total, ou por
que não consegue ficar no trem, a crise de 2008 para cá a gente ta
vendo então, bom, ai não vamos nem entrar nesse assunto por que ai é
pesado. Então, eu acho que tem ai uma questão, de que com que
instrumental então que se vai, eu digo conceitual, com que instrumental
se vai dizer ou perceber e mostrar o que essa sensação de aceleração
total e um pouco como é que essa aceleração incide sobre nós. Existe
uma fileira, já vi que eu não vou ler o texto. Eu achei que era mais fácil
começar por ali...
Mulher – O texto era uma porta de entrada.
Laymert – Hum?
Mulher – O texto fica como uma porta de entrada.
Laymert - É. Existe uma linhagem de autores que pensam justamente
essa questão, como é que, que impacto tem sobre nós, né, essa
aceleração. E existe uma linhagem de gente pensando não da mesma
maneira exatamente que Müller sobre o desaparecimento, mas de certo
modo sim, do humano, do vetor da tecnologia, mas que pensa que o
homem está obsoleto, que o homem está obsoleto em que chave? Na
chave de que o corpo humano não dá conta dessa intensidade de
aceleração, não dá conta, por que é demais, e ai não dando conta, por
exemplo, uma figura interessante nessa perspectiva é um filosofo
chamado Gunther Anders, que foi marido da Ana Heinz, a própria Ana
Heinz migrou para os Estados Unidos, e tal, e ele escreveu um livro em
dois volumes que é muito interessante chamado O homem obsoleto,
onde ele começa já a detectar: ih, tá complicado esse negocio né, ta
complicado, e quando ele percebe isso, ele diz assim: eu vou parar hoje
de fazer filosofia, de modo, e eu vou fazer uma filosofia de ocasião. E
filosofia de ocasião, ele entendia por isso, é um pensamento que fosse,
não tivesse mais como referencia o pensamento clássico, mas que
pensasse a partir daquilo que ta acontecendo no momento e aquilo
que se pode perceber no momento, e ele percebeu isso quando ele foi
com uma, um jovem numa exposição, numa exposição de máquinas
nos Estados Unidos e ai ele viu que o jovem tinha vergonha de si mesmo
diante da perfeição da máquina, ai, foi ai que ele sacou o negocio, aqui
tem problema, por quê? Por que esse sentimento de vergonha com
relação a máquina, e a máquina foi feita pelos humanos, então como é
que é essa vergonha do seu inacabamento, do seu, da sua imperfeição
diante dessa perfeição e destaprecisão, etc. e tal. Ele começou colocar
nessa direção e acabou escrevendo esses dois volumes, que são muito
interessantes, sobre essa questão da obsolescência do humano, dizendo:
bom, do jeito que vai indo, esse sentimento de vergonha vai mostrando,
é apenas um indicador grande, de uma crise de que tem um outro ser e
um outro modo de ser no mundo, que não é animal e nem vegetal, e
nem é humano, e que digamos, concorre com o humano, e que de
certa maneira, ta assumindo uma condição como espécie, de certo
modo, entre aspas, que ta mais na frente do que o humano, diante do
qual o humano, digamos de certo modo, o humano se recolhe né. Então
ele indicou essa questão, outras pessoas também começaram a ver essa
questão e começaram a ver de um modo muito interessante, por
exemplo, na NASA né, na corrida espacial, nos anos 60, a Guerra Fria se
exprime, como não podia haver um enfrentamento direto por causa da
bomba atômica, outra vez questão tecnológica, não podia haver um
enfrentamento direto na Guerra Fria entre Estados Unidos e União
Soviética, então eles faziam guerras quentes em territórios distantes né,
que a gente sabe disso, as ditaduras da América Latina inteira foi um
efeito disso, mas, eles faziam as guerras quentes em outros lugares mas o
enfrentamento entre eles quando se dava se dava só através da corrida
espacial, corrida espacial é, digamos, de certa maneira, a gente não
para pra pensar essas coisas, mas se você para pra pensar 5 minutos, é
uma piração, por que o humano é um ser terrestre né, o que é que ele
vai fazer num habitat que não é o dele, certo? A questão da NASA, que
dentro da NASA se colocou era muito simples, era o seguinte: o habitat
do homem é terrestre, mas eu quero ir para o espaço. Você só pode
fazer duas coisas: ou você modifica o habitat pro humano poder estar lá
e sobrevivendo, ou você tem que modificar o humano, para ele poder
estar num habitat que não é o dele, foi ai que apareceu o Ciborgue, o
Ciborgue surge dos psiquiatras da NASA estudando a questão de como
fazer para resolver o problema de ter humano se mandando, literalmente,
para o espaço. E ai a questão era, você não pode mudar o ambiente
por que você não tem tecnologia e nem poder suficiente para mudar o
espaço, então como fazer para modificar o humano? A questão do
ciborgue que é organismo cibernético, justamente, ou seja, é o domínio
cybernetic organism, ciborgue, a questão do ciborgue apareceu por
que você tinha que fazer um acoplamento homem/ máquina, que
permitisse ao homem poder viver no espaço que não é o dele, e esse
espaço era o espaço extra-terrestre e para poder fazer isso, precisava
que o humano tivesse acoplado maquinas que conseguissem assumir o
seu metabolismo, por que se não ele ia se mandar pro espaço e ia ter
que ficar cuidando o tempo inteiro do seu metabolismo e ele não ia
poder fazer nada mais, ele não teria mais nada a fazer a não ser cuidar
do seu metabolismo, da sua luta contra a morte nesse espaço, então ai
surgiu essa ideia de acoplamento, próteses e etc. que permitissem um
agenciamento humano/ máquina que permitisse que o homem ficasse
num ambiente que é essa piração certo, e isso é uma coisa, bom,
digamos, foi aceito, digamos, como uma proposição não delirante
digamos assim né, e continuou essa historia até que o momento, teve
uma série de explosões que morreram vários astronautas americanos e
vários astronautas russos né, eles começaram a ver que o buraco era
mais em baixo e começaram a direcionar essas tendências que eram,
digamos, no nível macro, esse desenvolvimento no nível macro, eles
começaram a direcionar pra um nível micro, em vez de ir para o espaço
a corrida passou a ser pela conquista do molecular, aquilo que é o micro,
nanotecnologia, biotecnologia e as, as tecnologias da informação,
todas essas micro, lidam com informação que é a onde você vai agenciar
a maquinação da transformação em todos os campos, né, que é por
isso então a questão de 1970 para frente, que vai ser a transformação,
que é a virada cibernética, se a gente pode dizer assim, em todos os
campos, e aí, por que a informação? Por que a informação, na definição
do Benson que era um psiquiatra também, mas era antropólogo,etc. e
tal, e que trabalhou esse assunto de um modo interessantíssimo, na
definição do Benson a informação é a diferença que faz a diferença,
em vez de você jogar no grande você joga o controle no pequeno, no
mínimo, para ver se você tem a posse, se apropria da diferença mínima
e se você tiver o poder de transformação sobre as mínimas diferenças
você tem o poder, então a ênfase passou do nível macro pro micro e
claro continuou tendo um voo tripulado e etc., até hoje você tem, mas
não era mais, o lance não era mais o de se mandar toda hora para lua,
etc.. A questão, o foco da competição era nesse plano do complexo
industrial militar, era nesse plano micro, com as tecnologias da informação.
Voltando pro humano então, o humano, essa questão da do humano
começou a ser uma questão importante, do ponto de vista da
transformação da vida, do trabalho e da linguagem pelas tecnologias,
pelo impacto que isso, que as tecnologias tinham e tem sobre o próprio
corpo e pelas soluções que começaram a ser desenvolvidas pelo
pensamento, a partir dessa crise do humano. Hoje em dia já tem, digamos,
algumas tendências que dá para mapear no terreno de como é que
essas questões estão sendo discutidas, você tem uma tendência que é
uma tendência de ver o que tá acontecendo nessa dimensão e falar
que horror, quero voltar para trás! Quero segurar sobretudo o humanismo!
Essa é a tendência digamos, eu diria a mais comum, a mais corriqueira,
que é ambivalente na verdade, por que de um lado as pessoas querem
voltar para trás, mas ao mesmo tempo elas querem os benefícios das
tecnologias, então elas querem voltar, mas elas não querem de certa
maneira. Então elas fazem de um lado, nessa tendência tem uma
expressão positiva e uma negativa, a negativa quer voltar para trás, que
é através de uma espécie de tecnofobia e a que quer mesmo falar: que
barato, para frente mesmo, uma espécie de tecnofilia, de amor, paixão
pela tecnologia, que é digamos o reverso da tecnofobia, mas que
coloca ainda a questão em termos: bom, o humano vai transformar, mas
ele vai atravessar esse negocio, ele vai continuar sendo legal lá na frente.
Que é a minha briga com outros gerencistas, inclusive em mesas redondas
e etc. por que eles me chamam de xiita, chamavam, por que agora eu
nem vou, mas chamavam de xiita, entortavam o nariz, por que eles
achavam que eu tava na posição em que eu tava defendendo o
humano para assegurar o humanismo e eles, pareciam assim aqueles
vovozinhos, assim que nem eu, super simpáticos, de palito de tríade, de
cabelo todo cortadinho, cientista e ele falava as maiores sandices sobre
reprodução assistida para a plateia jovem e etc. todo mundo
entusiasmadíssimo, sem em nenhum momento medir as implicações
daquilo que ele tá falando, por que, então tá bom, se é essa a perspectiva,
por exemplo, se é a perspectiva da reprodução assistida que a industria
assume o papel do pai e da mãe né, tudo bem, mas então como fica a
questão, digamos, vamos dizer assim, da individuação de cada um nesse
processo. Você explodiu a família ta legal, você explodiu a paternidade
ta legal, você explodiu a maternidade ta legal, então você jogou fora
Freud e Nietzsche junto, tudo bem, a gente sabe que é bom, mas se
você jogar isso tudo no lixo qual é o parâmetro para as pessoas saberem
quem elas são? Por que isso é que é a questão, a questão não é você
falar: ah, é bem legal por que você pode ter, vários casos, não vou discutir
essa coisa por que já faz mais de 15 anos. Ah, que é legal, a menina de
17 anos que invocou que ela é a imaculada Conceição e que ela quer
parir sem relação, a tecnologia diz que pode, e ela pode fazer a viagem
dela de imaculada Conceição, tudo bem, tudo o que é tecnologicamente
permitido deve ser feito? Esse é o ponto, e aí se começava a ter todo
tipo de combinação, as mais loucas e todos os tipos de experimentações
também, que vão desde, sei lá, o cara que fazia, o cara mais bambambam
de efeitos especiais de Hollywood que começa com essa historia que
dizia: bom, agora que a coisa começou a ficar legal, por que agora a
gente não precisa mais fazer efeito especial, agora a gente cria
realidades monstruosas e baixa elas, faz elas existirem na real, como os
experimentos que estavam sendo feitos, de transformações genéticas,
de criar orelha nas costas de rato, enfim, tinha uma fileira de monstros, de
experimentações, e o humano entra nessa, e a obsolescência do
humano vinha: bom, nós vamos entrar numa via de transformação do
humano, seja para uma implantação de prótese, seja pela transformação
genética do próprio humano. Então tinha a turma do humanismo, que
dizia não pode tem que botar o freio; tinha a turma que dizia: pode, mas
os humanos vão ser substituídos por maquinas aperfeiçoadas e a gente
tem que assumir como espécie que a nossa espécie ta condenada, por
que na competição entre nós e uma robótica hiperdesenvolvida, eles
tem condição de sobreviver em ambientes hostis melhor do que nós,
portanto nós então somos uma espécie fadada a extinção. E os que
diziam: não, não vai ser pela via da transformação do robô, vai ser pela
via da transformação do humano; então qual transformação, prótese?
Transformação genética? Que via, que via, qual vai ser a via, e o que é
que vai se dar com a transformação a começar do próprio corpo, dentro
dessa chave você abre o leque que vai do botox a digamos, a criação
de uma aristocracia geneticamente modificada e desenvolvida para,
com habilidades inclusive artística que assumem a criação de ponta,
por exemplo. Não sei se vocês já viram o filme Gattaca, que tratava
dessa questão, nos anos 90, no mesmo ano que saiu esse filme saiu um
livro de um geneticista de Princeton, Lis Silva, e ele escreveu um livro
chamado Ramake Eden, que quer dizer: Refazendo o Eden, e nesse livro
ele já postulava a criação de uma nova espécie humana turbinada que
seria uma aristocracia da espécie humana que ficaria para trás, por que
você teria os não geneticamente modificados e você teria os
geneticamente modificados, no mesmo ano que saiu o filme, e ai se
você comparar uma coisa com a outra é exatamente a mesma coisa,
só que ele era um cientista, o outro tava fazendo uma ficção e o Elis Silva
estava escrevendo enquanto geneticista de Princeton né, não é um
lugar qualquer, nem era um charlatão da esquina que tava falando
essas coisas, mas estava falando, aliás quem quiser narrativa, digamos,
delirante ou, você não sabe mais o que é que é ficção ou não é ficção
eu acho que é bem dentro desse terreno, do terreno da biotecnologia,
da nano, etc. a confusão e mesmo o apagamento de fronteira entre
realidade e ficção, e de certo modo um preparo, um chamamento para
que aquilo possa acontecer do ponto...é só ler os cientistas, por que já
tinham cientistas que eram fantásticos, por que eles estão pirando na
maionese total...
Mulher - E o Almodóvar agora né....
Laymert - Nesse Último filme? Eu não vi ainda esse último filme...
Mulher - Então veja.
Laymert - Ele tá trabalhando essa...
Mulher - Com o Miguel Nicolelis, também li aquele livro lá dele o
Muito além do nosso eu, que é uma viagem.
Laymer - É nessa direção. É uma viagem, você pega por exemplo,
um sujeito que pega a relação do que é que pode acontecer e o
que seria preciso, como seria possível se precaver para que o humano
continue dentro dessa perspectiva, é um astrônomo da Marinha, eu
esqueci o nome dele, Paul... eu não me lembro agora o nome dele,
mas ele escreveu um livro fazendo recomendações e nesse livro ele
diz: bom, existe uma possibilidade; analisa lá as razões, que existe 50%
de possibilidade de ter uma guerra bacteriológica, ou por terrorismo
ou por escape, descontrole ou situações estilo Fukushima, etc. e tal, e
de ter uma guerra ai não atômica ou não por uma questão atômica,
mas bacteriológica, e ele diz: nesse caso, se existe 50% a gente tem que
começar a se precaver para salvar o humano, e a proposta que ele
faz a sério é começar a mandar, para que um olho genético humano,
agenciado em organismos ou não agenciado, etc. para o espaço,
para a galáxia, você lê aquilo você fala: bom, isso aqui é pura ficção
cientifica, é uma viagem, mas é defendido, digamos racionalmente e
argumentado, etc. por um cientista da High Society, não é uma pessoa
qualquer, então você começa a ler aqui, outro lá, outro cá, e começa
a ver que tem aquilo que o filosofo chamou, ele fez uma observação
que eu acho bastante judiciosa, ele falou: disseram que na pósmodernidade acabou as grandes narrativas, eu, Petes, eu acho que não,
por que está em construção uma grande narrativa que eu acho que é
a da obsolescência do humano, e ele é contra, essa construção dessa
narrativa por que ele acha que o pressuposto dessa narrativa é que de
certa maneira as virtualidades, as potencialidades do humano estão se
esgotando e que é preciso, digamos, faz o caminho pro homem sair de
cena né, o que significa, digamos, de certa maneira, essa coisa que o
Müller fala de nazismo, essa piração né, só que bem mais para frente, e
ele diz: e eu acho que essa construção, dá de barato que é como se o
humano e as virtualidades do humano estivessem todas já realizadas, e
que portanto essa perspectiva do humano pode ser obsoleto mas é essa
construção dessa narrativa que tem que ser criticada e que tem que se
mostrar quais são os pressupostos dela.
Bom, então esse é o panorama, de certa maneira geral, que
organiza essa discussão sobre o chamado futuro do humano e dentro
dessa perspectiva trava essa questão do Müller né, já detectando, e ai
ele fala, o Heiner fala uma coisa que é muito interessante, que eu acho
que vale a pena ver que é o seguinte: em que terreno que a gente pode
procurar pistas para gente ver o que seria, mas afinal de contas o que é
que ta acontecendo, o que é que tá acontecendo? E ele diz, o Müller
tem uma frase muito interessante, que tem a ver com tudo isso, e eles diz:
a poesia pega mais rápido, é capaz de captar melhor o que está por vir
por que ela vai mais rápido do que a teoria; isso eu acho uma questão
importante, para mim que sou da área das ciências humanas e que
estou vendo o atraso das universidades e das instituições que organizam
o chamado pensamento, e que estou vendo a incapacidade delas de
lidar com o que está acontecendo e a falta digamos, o caráter lento
delas para perceber o que está acontecendo e lidar com isso, eu acho
que essa frase dele é importante, ela é importante por que se a poesia
vai mais depressa do que a teoria, é por que ela tem algum método,
outro, para perceber alguma coisa que a teoria não é capaz de perceber
e o que é mais importante, ela vai mais depressa, olha, se a gente ta
falando de tempo de aceleração o Müller ta indicando que de certo
modo quem pode lidar com uma aceleração alucinada dessa que é a
que a gente ta vivendo é a poesia, evidentemente que a gente ainda
ta falando da grande poesia, evidentemente que a gente ta falando de
uma poesia que tenha não só uma compreensão complexa do tempo
ou melhor, das temporalidades, e uma compreensão e uma capacidade
de elaboração para dizer o quê é isto, e dizer isto no tempo e dizer isso
no tempo certo, e dizer isso no tempo certo não significa que vai
entendido ou recebido no tempo presente, o próprio Nietzsche dizia: se
alguém perguntar para mim para quando que eu to escrevendo, eu to
escrevendo para 200 anos essa coisa; o Nietzsche escrevia para dali a
200 anos, já se passaram 100, eu acho que continua valendo, ele é um
autor absolutamente contemporâneo sendo ao mesmo tempo
extemporâneo, mas é contemporâneo justamente por que é
extemporâneo e vice-versa. Então, eu acho interessante o Müller dizer
isso por que você pode estar escrevendo e dizer o que você está
percebendo e não ter publico para isso por que as pessoas estão ainda
numa vibe que é, elas tão achando ainda que elas estão num outro
tempo, num tempo que já não corresponde mais, tem uma defasagem
de tempo, o Marx dizia a consciência vem sempre depois, que o processo
avança e a consciência vem sempre depois ou mesmo diz: bom, a
maneira da gente lidar com isso é que a poesia capta, ela pode até
dizer isso de uma maneira cifrada, mas ela tem uma capacidade maior
do que a teoria para captar o movimento no tempo em que ele se faz,
o que eu acho que é importante. E aí nessa questão dele, é nessa chave
que liga a questão Hamlet com Hamlet máquina, por que ele dizia o
seguinte, que ele teve duas obsessões na vida, como vocês sabem quem
foi o Müller, o Müller é uma figura interessantíssima, eu acho uma figura
interessantíssima, eu tive a felicidade de conhecer o Müller no
apartamento dele em Berlin, no apartamento dele em 1985, eu fui numa
viagem como convidado e me deram um livro sobre a Alemanha que
eu fui ler no avião e eu li uma entrevista do Müller para uma revista de
Nova York, achei interessante, como a gente ia para Berlin Oriental, eu
pedi pra um diplomata arranjar para mim o telefone dele e eu telefonei
para ele e disse que eu queria fazer uma entrevista come ele, e ele me
falou então você venha na minha casa amanhã. Tinha o muro, eu tava
do lado de lá, e ele falou você vai ter que voltar, você tinha que pagar
para vir de novo, eu falei: tudo bem, venho; ai já não era mais com o
grupo, era sozinho e no dia seguinte eu paguei tudo de novo e fui para
casa dele, e eu não tinha lido nada dele a não ser aquela entrevista,
não tinha lido nada, mas eu não sei, alguma coisa me disse que eu tinha
que ir lá na casa dele e eu fui, fiz uma entrevista com ele, e ai depois eu
fui lendo tudo o que eu podia, eu não falo alemão, mas fui ler tudo em
francês, tem praticamente tudo traduzido, então eu li, por isso que eu li
os textos, as entrevistas, as peças, etc. eu li tudo dele e me liguei na
figura, ele era uma figura muito especial por que justamente, ele morava
em Berlin Oriental, do outro lado do muro, mas ele era um dos pouquíssimos
intelectuais, ou uma das pouquíssimas figuras que tinha livre transito, que
podia passar para Berlin Ocidental por causa, um pouco por causa do
estatuto dele de escritor, e de escritor que estava sendo cada vez mais
conhecido e ele tinha uma mobilidade que a maioria das pessoas não
tinha e ele era critico ao mesmo tempo do lado de lá e do lado de cá,
o que era interessante, talvez até por isso também que as autoridades
de lá o deixassem passar, por que ele era também aquele cara que
vinha do lado de lá, sacava as coisas, voltava pro lado de lá e falava:
olha, não pensem que o capitalismo é uma maravilha por que é assim,
assim, assim; ele tinha uma critica bastante feroz do capitalismo, como
ele tinha uma critica feroz do lado de lá. Então essa figura, era uma figura
que estava assim entre mundos, e ele tava exatamente na interface
desses mundos e ele podia perceber as diferenças de velocidade entre
uma sociedade e a outra. Nesse dia dessa entrevista na casa dele ele
falou para mim: aqui em Berlin Oriental todo mundo vê a televisão de
Berlin Ocidental; e é claro que os aliados todos do lado de cá e a
Republica Federal Alemã tava o tempo inteiro emitindo para o lado de
lá a maravilha do consumo, a maravilha do capitalismo, e ele falava:
não é que a televisão de Berlin Ocidental seja melhor que de Berlin
Oriental, por que a Oriental dá muito mais informação que a Ocidental,
mas é por que ela é mais rápida, a televisão Ocidental é muito mais
rápida; e ele disse: e eu estou falando em termos de imagens por
segundo, tem muito mais velocidade de imagem. O que fazia por
exemplo, nessa época mesmo, quando a Globo começou a transmitir e
exportar novelas brasileiras para Europa, na Polônia se via novela brasileira
mas na Alemanha não se via por que eles achavam lento demais a
novela, já tava lá numa narrativa que já não era mais essa coisa da
novela, essa coisa que fica desdobrando, desdobrando, desdobrando,
eles não estavam mais nessa onda, e eles achavam, não fazia sucesso
as novelas brasileiras nem nas camadas populares por que não
correspondia mais ao ritmo por que era lento demais, assim como em
Berlin Oriental se via a televisão Ocidental por que ela era mais rápida.
Então ele tinha essa noção muito precisa de um aparato perceptivo,
sensores muito fortes para entender essas diferenças de temporalidade,
sobretudo por que também era um escritor, e ai vem outro ponto que eu
acho muito importante no caso dele, que o torna um grande poeta e,
grande mesmo, por que ele considerava que aquilo que os gregos
chamam destino e que é tramado pelos deuses, o problema sempre do
herói é que ele vai...a tragédia é isso né, o deuses dão a direção, o cara
resolve, o herói resolve que ele não vai obedecer os deuses e que ele vai
fazer por conta própria, e ai vai ser justamente o castigo dele que vai ser
o objeto da tragédia, que vai ser o apartar do desígnio dos deuses, o
Müller foi um cara que sacou que o papel, digamos, do destino para nós
não é do Olimpo, não é dos deuses, é a historia, a historia que coloca
para nós os caminhos, o peso da historia. Então, como ele tinha uma
compreensão muito profunda a respeito do que era a historia, do papel
que a historia tinha na vida de cada um, o peso da historia na vida de
cada um, e aí a importância do Hamlet entre justamente o desajuste,
entre o tempo do sujeito e o tempo da história né, é este o desajuste,
entre o tempo do sujeito e o tempo da história, por que ele tinha uma
percepção muito fina a respeito disso ele também era ao mesmo tempo
transhistorico, por quê? Por que ele era capaz de viajar na historia, mas
ele era capaz de pegar a tragédia grega que tava falando do tempo
do mito e trabalhar o tempo transhistorico, ou seja, de trazer aquilo que
não é do tempo histórico, que é do tempo de antes da historia, trazer pro
tempo de antes, o tempo do mito para dentro da historia e mostrar, por
exemplo, como, um exemplo, uma mulher, uma camponesa, do interior
da União Soviética tem a grandeza de uma heroína da tragédia grega
falando das suas batatas, por que quando ela está falando das batatas,
das batatas, ela não está falando das batatas só, ela ta trazendo com
ela todo o peso de uma historia e todos os conflitos dessa historia com a
dimensão que isso tem, que é uma dimensão equivalente com a
dimensão de uma Medeia, então ela pode falar 4 frases desse tamainho,
mas essas frases não são, elas são as frases de uma camponesa, mas
não são só as frases de uma camponesa, são muito mais do que isso por
que vem um mundo junto, e esse mundo que vem é um mundo de uma
grandeza imensa por que é um mundo que tem esse, digamos, tem toda
a questão do destino que faz com que aquela mulher seja colocada ali
naquele momento, fazendo aquilo e que o movimento dela não é só o
dela, o movimento dela e formado por todo esse imenso movimento e
que dá essa, dá a dimensão dela. Voltando pro Hamlet, ele disse, o Müller
disse: bom, eu tive duas obsessões na vida, uma era o Hamlet, a outra
era a historia do humano, ou seja, justamente a defasagem entre o
tempo do sujeito e o tempo da história e por outro lado a questão do
peso da historia, sobretudo da historia Alemã no século XX, duas guerras
mundiais, uma revolução abortada em 1918, Guerra Fria, Berlin dividida,
quer dizer, você pega o século XX e assim...e o medo, ainda que tudo
está vivo, a cidade, a cidade é um monumento do século XX por que
tudo que aconteceu lá, o buraco de bala na parece ainda né, então
tudo o que aconteceu a cidade, a cidade reverbera, ele é um sujeito
que mora nessa cidade dividida e que tem essa visão da historia e dessa
visão da historia como mito e por isso mesmo que ele revisita, enfim, vai
reescrever Filoctetes, mas vai reescrever Ligações perigosas, O quarteto,
vai reescrever Conan , vai reescrever num sei o quê, e vai de certo modo
reescrever o Hamlet, só que ele vai reescrever o Hamlet e ai ele dá uma
pulo. Hamlet vai para frente. Ele diz que o Shakespeare escreveu o Hamlet
sem saber direito o que é que ele estava escrevendo, ou seja, que ele
estava escrevendo no escuro a respeito de uma crise que vinha, que ia
vir, que ia acontecer, ele tava pressentindo, que ele captou uma crise
que estava vindo, de uma fratura que estava vindo e que ele escreveu
no escuro isto que ele escreveu. O movimento que o Müller faz é
praticamente o mesmo movimento que ele acha que, e ele estudou a
vida inteira, traduzia, inclusive fez uma nova tradução do Hamlet, o
mesmo movimento que ele acha que o Hamlet, ou o Shakespeare fez
ele escreve de novo também, escrevendo sem saber o que está
escrevendo, escrever só captando aquilo que está por vir, sem saber
direito isso que ele está escrevendo, ele só vai saber melhor depois, ele
trabalhou nesse texto 10 anos, não é só um texto de 9 páginas, tem um
livro só sobre as variantes, do que ele escreveu, do que ele enxugou para
virar essas noves páginas, que é absolutamente fascinante, é um livro
absolutamente fascinante. Então é muito interessante essa espécie de
do Shakespeare da passagem do Hamlet pro Hamlet máquina por que
se a gente olha pro Hamlet máquina a gente começa a ver que, como
é que alguém que pensa tudo isso, que ta olhando para frente, que ta
vendo alguma coisa que vai vir, alguma coisa que a gente não sabe
direito o que é, que é o autor? Isso começa a adquirir mas que aparece,
que figura é essa que começa a aparecer no futuro do humano?
Havia um projeto, desde que ele escreveu o Hamlet máquina em
77, ele tinha um projeto de montar na sequencia Hamlet, Hamlet
máquina, tudo de uma vez, junto e fazer justamente para sublinhar, mas
a Republica Democrática Alemã nunca autorizou, proibiu que ele fizesse
isso, então ele não fez. No ano em que ele montou Hamlet junto com
Hamlet máquina foi 1989, caiu o muro. Eu não to dizendo que o muro
caiu por causa disso, mas de certa maneira, quando você coloca numa
perspectiva as coisas como as coisas acontecem, é muito interessante
ver essas ressonâncias que tem entre esses movimentos, e eu acho que
de certa maneira e ai é interessante para gente pensar nessa, e agora
eu já vou parar por que já to falando demais, eu acho que seria
interessante para pensar essa questão da temporalidade, da
temporalidade no teatro, da questão da aceleração, da aceleração
tecnológica e econômica, que não é a mesma coisa, eu inclusive
quando li aquele livro e ele quando formulou, ele formulou isso como
sendo um movimento só, aceleração econômica e tecnológica era
uma só, você constrói, como Hitler construindo novas estradas, foi um
vetor de autoestradas, o Hitler construindo autoestrada, Volkswagen, ou
seja, o carro do povo e pensando a Blitz , a guerra relâmpago, para usar
a autoestrada, no momento em que você tira o Volkswagen de lá,
instauro a guerra, em um dia você já ta na fronteira por que você tem as
rotas pros tanques chegarem no país vizinho no mesmo dia ou no dia
seguinte, então isso é você pensar economia, pensar guerra, pensar
digamos, a tecnologia numa estratégia total né. Hoje eu já acho que
existem diferenças, não dá mais para gente poder pensar o tempo da
aceleração tecnológica como sendo o tempo da aceleração
econômica total, eu acho que a aceleração tecnológica é mais rápida
do que a aceleração econômica total e um dos efeitos disso é a crise de
2008 e seus desdobramentos agora, por que a crise, o capitalismo ta
implodindo com essa crise e de certa maneira foi por que, não foi só isso
evidentemente, tem uma série de fatores, mas entre os fatores tem a
possibilidade de fazer com que a especulação nos chamados mercados
futuros ganhasse uma velocidade que se tornou incontrolável né, se a
gente pensar por exemplo que em 99, 99 parece que outro tempo já de
tanto tempo que faz, em 99 quando teve a crise, que foi a crise das .
com, da Bolsa de Nova York, os investidores telefonavam para os
operadores da Bolsa e falavam: G.N.O, por que a frase Get me out era
grande demais, eles falavam G.N.O por que Get me out eles já perdiam
milhões para falar esta frase, por que para falar G.N.O o cara já vendia
as ações, e se ele falasse Get me out ele já perdia mais tantos milhões
naqueles poucos segundos, esse é o tempo, esse é o tempo né, isso em
99 os caras falavam G.N.O. Quando a gente...os caras desde o começo
dos anos 2000 os grandes bancos de investimento contratavam astrofísicos
para fazer a arquitetura dos investimentos nos mercados futuros, eram
matemáticos e astrofísicos que montavam a arquitetura da especulação,
ou seja, mercados futuros eram antecipação de um futuro, você começa
a construir pontes de especulação do que vai acontecer no futuro e
depois você começa a construir pontes para se proteger se aquele futuro
der certo ou se não der certo, eu preciso proteger pelo menos uma parte
do meu capital apostando ao contrário, fazendo o que eles chamam de
Heads, ou seja pontes, para compensar a perda, por que eu tento ganhar
um tanto a mais aqui mas se der errado eu to ganhando um tanto a
menos aqui. Os cenários futuros eram construídos e são construídos por
astrofísicos, eu acho que a gente tem que ter a dimensão dessas coisas
para saber que isso é o que acontece, digamos, com a ponta do
capitalismo e de certa maneira o que aconteceu com esse processo, foi
que você tem uma aceleração econômica absolutamente brutal com
a financeirização da economia e o predomínio, o predomínio dos
chamados mercados financeiros, mas por outro lado tem uma aceleração
tecnológica também seguindo o ritmo alucinado que vai junto com isso,
mas em certos setores vai separado disso e vai mais rápido do que a
própria aceleração econômica, o que faz com que, digamos, de certa
maneira, acabe dando surpresas como crises e essas que a gente ta
falando por causa da antecipação de futuro que permitam inclusive
que de repente aconteça isso que aconteceu conosco, que de repente
a gente que era um país subdesenvolvido virou rapidamente emergente
e de emergente a gente tá caminhando para ser a 5º economia do
mundo, só que não dá nem para saber se digamos, se a gente vai poder
relaxar e gozar, se vai dar tempo nessa perspectiva que a gente ta
falando, mas por exemplo, quem esperava na direção disso que a gente
ta vivendo que de repente a gente ia ser considerado digamos, nois na
fita, né, a gente entrou na cena mundial, na cena global a gente está,
São Paulo é uma cidade que está na cena global hoje absurdamente,
não tem uma pessoa fora do Brasil que não queira vir aqui, todo mundo
quer vir aqui, de qualquer ramo, de qualquer profissão todo mundo quer
vir para cá, por que São Paulo no ano passado, ano passado não, este
ano foi considerada a cidade global mais atraente do mundo, mais do
Londres, mais do que Los Angeles, por que é a cidade onde as coisas
estão acontecendo hoje, e eu acho que vocês tem que levar em
consideração isso, essa inserção seria impensável 10 anos atrás, ta certo
que teve uma dinâmica interna que também ajudou a isso, e
evidentemente ajudou, mas a gente também, claro, se o governo Lula
não tivesse a clarividência de saber qual era o lance né, e justamente de
em 2008 não comprar o discurso neoliberal e de fazer o contrário a gente
não estaria onde a gente está hoje, mas ao mesmo tempo que ele fez
tudo isso ele fez isso por que ele não fez aquilo que seria todo mundo
apostando na direção que acabou afundando os centrais e os
emergentes começaram a crescer, não é que começaram, eles já
estavam crescendo, mas eles começaram a entrar na cena efetivamente,
como que ao mesmo tempo que os outros tavam, começavam, os outros
tem em principio a tecnologia na mão né, então não é pouco o que eles
tem na mão, ainda vai dar bastante pano para manga. Bom, enfim, era
mais ou menos isso que eu acho que é a questão geral ai e eu quis
terminar propositalmente com a coisa do Brasil, por que eu acho que no
Brasil tem, eu acho que os intelectuais brasileiros e os artistas brasileiros, a
ficha não caiu, a ficha não caiu no sentido de que nós entramos numa
transformação muito forte, não só no mundo lá fora mas no mundo aqui
dentro e aparecem, que aparecem para essa geração, aparecem
oportunidades que nunca apareceram na nossa historia e de certa
maneira nós estamos ainda com a cabeça, a intelectualidade brasileira,
ta com a cabeça ainda, como se ainda tivesse num tempo anterior, num
outro tempo, tem uma defasagem ai, na frase da (1:11:33) documentadora
que foi o documento da virada do milênio né, que é a curadora francesa
que fez a documenta poética política, ela andou vindo por aqui varias
vezes, a gente andou fazendo umas coisas juntos e ela viu muitos artistas,
ela circulou bastante por aqui, e o comentário que ela sempre fazia era:
tem um déficit, tem um déficit nos artistas e intelectuais brasileiros tem um
déficit com relação a realidade, a realidade vai muito mais depressa
aqui do que a expressão dessa realidade, a expressão eu digo, artística,
estética, dessa realidade, tem um déficit aqui; ela dizia: tem um déficit
aqui, eu percebo que tem um déficit aqui por que é como se o movimento
do real fosse muito mais rico e maior do que aquilo que a gente vê nas
exposições, nas manifestações de expressão artística. Ela andou um
tempo por aqui vendo se era interessante e num sei o quê, ela de um
certo modo, parou de vir, eu conversei com ela depois para saber por
quê que ela parou de vir, mas eu acho que de certa maneira ela parou
de vir e ela começou a se interessar pelos países árabes né, e bom, ela
ta se interessando pelos países árabes faz mais ou menos uns 8 anos, 9
anos, ela tem mapeado toda a produção digamos de artes plásticas
dos países árabes e esse ano a gente viu o que é que aconteceu nos
países árabes, e você imagina o que ela fez, digamos, o mapeamento
de toda essa gente que já tava fervendo antes da coisa se explicitar,
depois que a coisa explicita fica fácil né, o interessante é antes, é você
saber antes e a gente, e a gente aqui eu acho que a gente ta correndo
atrás do prejuízo, o que para nós eu acho uma coisa muito grave, eu
tenho falado, todo lugar em que me convidam para falar eu to falando,
praticamente sempre falando a mesma coisa, eu acho isso grave, por
que a gente pode estar tendo uma oportunidade fantástica, que é a
primeira vez que aparece para nós e a gente pode perder essa
oportunidade por falta de simancol né, por falta de sacar qual é o
movimento e de não fazer aquilo que o movimento está pedindo que
seja feito, acho que esse é meu um pouco ponto de vista.
PALESTRANTE CONVIDADO: JOSÉ MIGUEL WISNIK
DATA: 27 DE FEVEREIRO DE 2012
José - Eu gosto muito dessas situações em que o grupo já está
envolvido num trabalho, embalado num trabalho e fazendo conversas
com muitas pessoas, o assunto já vem quente de certo modo, da parte
de quem chama não é, e isso acho que contagia também quem fala,
e afinal também quem escuta, afinal é assim que eu gostaria que fosse.
Esse tipo de conversa, quando o convite é pra um tema muito aberto
como esse, visões do tempo, eu gosto de vir para essas situações, assim,
levemente despreparado, é a melhor maneira, se vocês me entendem,
por que justamente esse é um chamado para ocupar um momento não
é, que vai depender um pouco desse encontro com essas pessoas, com
esse grupo, que eu pessoalmente, embora eu conhecesse algumas das
pessoas, a gente se encontra agora com vocês e de algum modo a
gente ocupa esse agora, e isso já é um começo do assunto né.
Eu tenho escrito textos que saem no jornal O Globo do Rio, aos
sábados, e isso há um ano e meio que isso acontece, e é uma coluna
daquilo que antigamente se chamava crônica, e crônica é um gênero
ligado ao tempo, à experiência do tempo. Quando esse gênero surgiu
era um gênero que se desenvolveu especialmente no Brasil, é um gênero
aberto ao que está acontecendo naquele momento. A palavra crônica
tem a ver justamente com uma experiência do tempo, que ao mesmo
tempo é, vamos dizer, ligada ao momento fugas, às coisas passageiras,
aos assuntos momentâneos, mas que fazem justamente com que você
entre nesses assuntos momentâneos de uma maneira que é um mergulho
diferente do tempo sendo consumido diariamente. Machado de Assis
escrevia crônicas em que ele falava de qualquer coisa, mas justamente
num momento em que falar de qualquer coisa era entrar, pela primeira
vez, num mundo que tinha imprensa, tinha jornais, tinha noticias do
mundo, e na verdade criava-se um personagem que está muito ligado
ao nosso mundo que é o do consumidor de notícias, aquele que está
conectado com o mundo, por que chegam notícias do mundo, tanto
como do que se passou ali na esquina, na cidade, no Largo da Carioca,
como o que está se passando, as vezes, numa guerra da Rússia com o
Japão, coisas assim. Aquilo abria essa espécie de disposição pro mundo
simultâneo, era uma primeira aparição disso, e esta história tem uma,
uma... Um desenvolvimento que leva a grandes cronistas, e eu gosto
especialmente do Rubem Braga, que era aquele que se permitia falar
da borboleta amarela, falar do nada, falar de assunto nenhum, falar da
falta de assunto, na verdade converter a chamada falta de assunto em
alguma coisa que era fundamental, por que ali existia uma espécie de
disponibilidade para você não estar propriamente tratando de assuntos
que são produtivos, informativos, de intervenção, portanto de relação
direta com a vida produtiva. Rubem Braga foi talvez o último cronista
poeta desta possibilidade, que é a criação desses nichos, dessas bolhas
de tempo livre, no meio de um mundo que se acelera, e que inclui
todo mundo e que as palavras são arrastadas todas para finalidades
pragmáticas, são aliciadas para, quer dizer, para uma, vamos dizer, para
um mundo onde elas são ressignificadas, são apropriadas e as palavras
perdem chão. Drummond que também foi cronista assinalou isso nos
anos 50 e 60 que as palavras estavam sendo apropriadas, na verdade
apropriadas pela publicidade e a publicidade tomou conta de todas as
palavras, usou para tudo, para todos os produtos que vocês quiserem,
todos os valores, todas as ideias, todos os hábitos, todas as estéticas,
em suma, o repertório inteiro da cultura ocidental foi canalizado para
propaganda. Isso significa uma avassaladora mercantilização do mundo
no sentido de que aquela gratuidade da palavra está à disposição
poética daquele sentido que ela vai tomar, que ela não tem como dado,
isso é uma coisa que se tornou difícil hoje, por que você não tem palavras
há disposição que não tenham passado por esse processo. Então, eu
disse que ao ter aceito essa situação de escrever semanalmente, que
foi um exercício para mim, por que escrever pra um jornal do Rio, eu
nem vejo as pessoas que leram, então para mim virou uma espécie
de autoanálise, eu escrevo para um analista invisível, onde eu mesmo
passo pelo crivo as coisas que eu posso estar pensando sobre o que está
acontecendo e portanto, e isso para mim acabou sendo um exercício,
uma coisa importante para minha própria saúde porque eu to de certo
modo, ao mesmo tempo, tratando de temas que são obrigatoriamente
ligados, informativos, etc... Mas com aquela margem de flutuação que
admite que a gente saia do trilho assim.
Outro dia justamente, momentos de falta de assunto é sempre
um... Comento Rubem Braga, na verdade não é falta de assunto, é não
tratar dos assuntos que já estão prontos para serem falados, e que estão
prontos de uma maneira tal que falar daquilo já é usar aquelas palavras
que já estão ali, assumir posições alinhadas, com todas as formas. Todo
o assunto possível já tem as posições que a gente pode chamar de
baias retóricas, que justamente é uma corrida, é uma corrida onde os
disputantes, num mundo em que a faccionalização da vida cultural é
meio acelerada e já tem todo mundo discursos prontos para acionar
diante de qualquer coisa. Os corretos e eventualmente os incorretos,
todos eles estão alinhados para disparar... Então, esse é um negócio
interessante que é justamente sair desse lugar em que falar de qualquer
coisa é acionar uma maquinaria discursiva que está pronta, máquina
para falar, máquina, há máquinas discursivas a esta altura, prontas, que
cobriram o campo inteiro do pensável, de certo modo.
Então, outro dia justamente eu lembrei de uma crônica do Rubem
Braga que era sobre um homem nadando, que ele via da varanda da
casa dele. Ele via um sujeito nadando, que ele não conhece quem
era, e que foi nadando e a atenção dele focou, quer dizer, ele se ligou
naquele nadador e se identificou com aquele nadador, que nadava,
ele dizia assim, com uma suave virilidade, cujo esforço regular ia para
lugar nenhum, aquele homem não estava competindo com nada,
não tinha que chegar a lugar nenhum, ele tinha que fazer um arco de
um movimento, era um risco na água do oceano, no azul, na espuma
que ele fazia, o risco de espuma que se fazia em torno dele e que fazia
com que ele fosse nadando, o que era? Era um corpo humano cheio
de uma vontade, uma vontade de atravessar aquela água, e que ele
vai acompanhando até que o nadador desaparece da vista por que
tem um telhado de uma outra casa que cobre e ele não o vê mais.
Durante esse tempo ele passa a torcer pelo nadador, torcer para quê?
Como eu disse não é torcer contra nada, é torcer para que aquele
movimento fizesse um caminho perfeito, que ele não desistisse no meio,
que enquanto a vista acompanhasse ele fizesse aquele desenho, como
a gente torce pra um take musical quando a gente está gravando,
e alguém começa a tocar e aquela música está linda e você espera
que ela vá assim até onde ela tem que chegar, você embarca naquilo
junto, você está junto e não precisa forçar aquilo a nada, apenas quer
que aquilo se complete, que perfaça aquele caminho que tem a fazer.
Acho que aquela crônica tenha uma relação com o tempo que era
justamente fazer aparecer um momento, de pura disponibilidade para
isso, um ser humano com aquele meio movediço que é a própria água,
o oceano, mas ele atravessar com aquela dignidade, com aquela
inteireza, aquele lugar, aquele momento. Tudo isso foi uma espécie de
um prólogo para dizer que na última coluna do ano o assunto que me
ocorreu tem a ver com o de vocês, com a máquina do tempo e tal. Era
o seguinte, eu observo um sintoma que eu acho muito generalizado,
que faz parte da vida cotidiana, eu poderia até dizer da psicopatologia
da vida cotidiana, que é um sintoma insistente que é, a partir de certa
altura do ano, eu acho que quando vira o meio do ano, já em agosto já
começa, a ladainha já começa, mas esse ano eu já ouvi em fevereiro,
que diz assim: o ano já está no fim, o tempo está correndo, ninguém
pode mais, o tempo, quem aguenta essa coisa, o tempo não dura nada,
o ano já acabou. Parece que as pessoas esperam já o momento para
poder começar com essa ladainha, começam muito cedo e atravessam
o ano dizendo que o ano acabou. E o fim do ano, o antigo ciclo, serve
só para você virar a página, ficar um pouquinho parado, para começar
imediatamente a dizer que o ano acabou. Então, esse é um sintoma
incrível por que eu tenho uma sensação, eu gosto de me defender disso,
eu me irrito com essa posição, eu não quero. Isso, é claro, é uma maneira
de dizer algo do real, de fato o mundo se acelerou desenfreadamente,
avassaladoramente, a gente está, vamos dizer, atado a redes produtivas,
turbinadas pela concorrência e pelas tecnologias que fazem com que
realmente a experiência das coisas se acelerem, e se acelerem por que
o tempo é, a percepção do tempo está ligada à prioridade que a gente
dá a ordem das coisas e vamos dizer, aceleração da propriedade, da
produção, ela necessariamente afeta a percepção do tempo. Então o
que as pessoas estão dizendo é o sintoma de algo real, o que me irrita é
que elas se entreguem a isso, que elas aceitem isso e transformem numa
espécie de uma cansada metafísica, e esse fato que justamente elas
deviam rebater, rebater a partir de alguma coisa que sempre resta com
qualquer pessoa, é habitar o tempo.
Então, ano passado, assim novembro, dezembro, uma pessoa
muito ansiosa, maravilhosa, que trabalha comigo e muito produtiva, e
faz coisas sem parar, mas com essa ansiedade sempre achando que
o tempo já passou e num sei o quê, num sei o quê, eu falei para ela:
para um minuto, para um único minuto, não fala nada e nem faz nada
durante um minuto. E o negócio foi o seguinte, esse minuto, aquilo não
passava nunca, uma eternidade, aquilo para ela era um suplício, um
tormento, por que o tempo na verdade durava demais, era o contrário
exatamente. Isso que eu estou contando eu me lembrei já antes de
vir, mas a partir do que você disse, por que o grupo OPOVOEMPÉ tem
muitas vezes feito intervenções na cidade, com as pessoas, e agora, de
algum modo, sobre a maneira de se perceber e reagir ao tempo e tal.
E esse negócio de parar, eu gosto de pensar que para meia noite de
hoje, de qualquer hoje, falta um tempo que a gente mal suportaria se
a gente fosse de fato se ligar a esse tempo que falta para cada meia
noite, é quase insuportável viver o tempo propriamente dito, então esse
traço está ligado a uma maneira de reagir a um processo. Por que eu
acho que quem viveu as duas últimas décadas assistiu a aceleração, e
eu estou aqui também como um espécime exemplar de uma geração
que viu isso acontecer. Por que... Ai eu vou dar um zoom maior para...
Por que isso que to falando significa que a gente está tomado por uma
aceleração que está ligada ao império das coisas, e esse império das
coisas tem falado alto em tudo que a gente vive e resta saber... E está
mudando o mundo aceleradamente, está corroendo as bases do modo
como se davam todas as relações em todos os campos, os chamados
paradigmas, que é uma palavra usada para dizer isso, que é a base, o
modelo pelo qual você estabelece conexões entre as várias áreas da
existência elas de fato vieram mudando e já mudaram, e ao mesmo
tempo, enquanto império das coisas isto está mudado, quer dizer, o
fato de ter uma instantaneidade de informação acessível à grande
parte da população humana já muda completamente tudo, tudo, que
se acumulou como experiência do tempo nos últimos milênios, e essa
grande mudança se deu nas últimas décadas, é o seguinte, Levi Strauss
diz isso por um lado, Hobsbawm o grande historiador que escreveu as
várias idades, Idade das revoluções, a Era do capital e o Breve século
XX: A era dos extremos, onde ele diz: no último quartel do século, nos
últimos 25 anos, portanto na altura ali da década de 70 para cá se deu
uma transformação na história da humanidade que muda tudo aquilo
que se conheceu desde a instauração do neolítico, a cerca de 10 mil
anos atrás. dizia o seguinte: até então a maior parte da humanidade era
dedicada ao cultivo da terra para produção de alimentos, claro que
nas cidades, especialmente, há um desarraigamento da terra e dessas
formas mais arcaicas, antigas da relação com a terra, como produção
da subsistência, tudo isso vem desde que a humanidade inventou a
agricultura e portanto a sistemática colonização dos territórios, uma
territorialização produtiva, em que você não colhe simplesmente, mas
você faz a natureza produzir, disso resultando depois as cidades, a escrita
e uma série de transformações fundamentais, mas isso significava uma
humanidade ligada à terra, ligada à terra significa ligada aos ciclos,
ligada ao ciclos significa entender o tempo da natureza e relacionarse com o tempo da natureza, é a forma pela qual você organiza o
tempo, o tempo portanto está organizado na forma de ciclos, ele faz seu
movimento, é preciso respeitar esse movimento, esse movimento tem seu
tempo, ele vai e volta, todas as mitologias que restaram até hoje sobre
os ciclos, sobre as quatro estações do ano, ligadas as quatro idades da
vida, todas essas mitologias, essas lendas, essas histórias, que organizam o
mundo através dos ciclos das estações, em que você tem o nascimento,
o crescimento, o fastígio, o declínio, a morte, o renascimento, isso está
em tudo, está em toda a parte, na poesia, na canção, nas coisas, em
suma, por baixo das literaturas, essa ideia, a ideia da roda da fortuna que
é uma imagem medieval mas que está ligada a ideia de que a vida é
um ciclo, que faz... Portanto sabedoria significa entender, acompanhar,
receber, acolher, saber se relacionar com esse ciclo, com o que ele tem
de benéfico e de cruel, saber que ele tem alto e baixo, e etc... Mas que
ele tem seu tempo. Isto é uma cultura imensa do tempo, que esta ligada
a uma ligação, como eu falei, de respeito com a terra e, portanto, está
ligada ao mundo em que algo dentro da atividade humana estava
ligada a isso. Nesse mundo a base, a concepção do tempo é baseada
na ideia de que no primórdio aconteceu um acontecimento gerador,
que é o acontecimento mítico, os deuses, as entidades que geraram as
coisas que existem e por isso existe uma cultura dos ritos, dos mitos e dos
ritos, que buscam fazer com que tudo aquilo que existiu um dia possa
existir e continuar existindo, é uma coisa de mover esse giro dos ciclos e
fazer com que eles... Sacrificar aos deuses significa aplacá-los, alimentálos, etc. para que eles continuem gerando aquilo que foi uma vez gerado.
É só isso, é simplesmente isso que significa, quer dizer, é um negócio que
passou milênios gerando um imaginário ligado a uma percepção do
tempo, ligado a uma relação com tempo, a uma experiência do tempo,
certo?
Dentro dessa forma mental que remonta ao neolítico, há grandes
transformações que foram alavancadas e puxadas pelo ocidente, e
que estão ligadas ao vetor do moderno. Se falarmos assim, essa palavra
num sentido muito lato que é não só fazer mitos que revivam as origens,
mas, mover o tempo para que ele atinja o futuro, para que ele não só
remonte aos primórdios, mas que ele vá para frente. Insinua-se um outro
mito, que não é o dos ciclos baseados nos primórdios, mas de atingir
alguma coisa que está no futuro. Boa parte disso que eu estou falando
vocês encontram no livro do poeta e ensaísta mexicano chamado
Octavio Paz, eu estou dando a minha interpretação pessoal com outros
exemplos e com outras coisas do fato de que lá ele traça uma história do
tempo baseada num livro que em português se chama Os filhos do barro,
no espanhol no original chama-se Los hijos del limo , seria mais bonito se
eles chamassem na tradução: Os filhos da lama. Mas a idéia é que os
filhos da lama são os poetas modernos, que são aqueles que perderam
essas... Bom, isso eu vou explicar daqui a pouco, mas são aqueles que na
encruzilhada do tempo já não estão mais ligados a esse mundo circular,
do tempo arcaico que ficou, já estão no moderno, mas não estão nem
inteiramente no moderno nem no arcaico, estão justamente num outro
lugar ou não lugar, digamos, mas isso eu estou me antecipando um
pouco. O principal é dizer o seguinte, a cultura judaica, judaico-cristã, ela
introduz um vertente messiânico, que é importante para essa mudança,
isso supõe o monoteísmo por que as religiões dos ciclos, essas que eu me
referi primeiro, são politeístas, a criação do monoteísmo é que faz com
que se aponte para um tempo em que aponte para acontecimento
futuro, que vai depender justamente que o tempo vai chegar a um
acontecimento no final, que é a vinda do messias, na verdade o que é a
vinda do messias? É uma espécie de encontro da humanidade consigo
mesmo, do mundo com o mundo, ou da criação consigo mesmo que
estaria no futuro, não no passado. O judaísmo é um messianismo nesse
sentido, é um anúncio de um messias, mas o judaísmo é uma espécie
de esperando o Godot, o messias não é para vir, é só para criar essa
expectativa. E o cristianismo é uma traição ao judaísmo por que diz
que o messias veio, o messias se encarnou e faz, portanto, que Deus
tome forma humana e faça uma grande revolução mental, que é em
vez de os seres humanos oferecerem sacrifícios ao Deuses para aplacálos, é Deus que se oferece em sacrifício aos homens, prometendo uma
salvação no fim do tempo. Então estas duas vertentes elas apontam,
elas tem uma reversão daquilo que é, das concepções circulares, de
tantas culturas que vivem a experiência do tempo voltando sobre si, que
é um eterno retorno. Ali, os Deuses morrem e renascem, como Dionísio,
mas não ressuscitam, ressurreição é uma ideia cristã, por que morrer e
renascer é parte de um movimento sem fim desse ciclo. Mas você morrer
e ressuscitar para a eternidade significa que você consagra um fim dos
tempos onde algo diferente acontece e, portanto, tudo isso são grandes
figurações do tempo, é ou não é?
Então, não à toa a tradição judaico-cristã criou a perspectiva que a
gente chama de escatológica, essa palavra tem dois sentidos, uma que
escatologia está ligado a excremento, fezes, mas a mesma palavra tem
outro sentido, com outra origem que quer dizer tudo aquilo que é ligado
ao fim dos tempos, o desembocar messiânico da história em alguma
coisa que a ultrapasse, então, essa perspectiva está numa longa tradição
judaico cristã e o que se diz é que modernamente com a mundialização
dos mercados, e o capital pensando nisso nas navegações do século XVI,
ou aquilo que levou ao século XVI, que começa realmente o processo de
mundialização que nós conhecemos. Nesse caso o que acontece é que
essa ideia de um fim dos tempos em vez de uma dimensão religiosa ganha
uma outra dimensão mítica que é a história como a se cumprir, chegar
ao domínio, ao fim do progresso. A ideia de progresso é o grande mito
moderno, que é, o tempo vai subindo, ascendendo etapas, até chegar
o momento em que a natureza está dominada pelo ser humano e esse
domínio da natureza faria com que se chegasse à possibilidade de uma
vida regulada pelo fato de que a natureza está dominada, o tempo está
dominado. Há uma secularização do mito religioso, do messianismo, com
a ideia burguesa que está ligada a ilustração, aos pensadores do século
XVIII, de um futuro onde a humanidade se realize na vida terrena. Então,
o mundo moderno é uma corrida a esse futuro, a corrida ao futuro ela
passa pelo império britânico, pelo império norte-americano, e a guerra
fria no século XX foi uma espécie de corrida ao domínio do futuro, até a
década de 70, para dizer quem é que chegava e colonizava o futuro,
se afinal era o mundo capitalista ou o mundo socialista, nos dois casos
baseados na ideia de otimização de todos os recursos tecnológicos para
domínio da natureza. Então isso, há um longo ciclo da modernidade que
está ligado a isso, a minha geração ainda viveu isso, ainda presenciou
esse teatro, as duas potências falando, buscando e apontando para
esse lugar em que o progresso se consumaria. Na década de 70, no
entanto, apareceram sinais de que o domínio da natureza não era o
domínio dos recursos do planeta, mas esses recursos tinham limite, e eles
não correspondiam a essa corrida fáustica do progresso e que o planeta,
os limites do planeta que apareceram eram uma questão que apontava
para uma possível outra forma de fim da espécie que não era só a guerra
atômica, produzida pelos artefatos criados e intensamente mobilizados
em potência pelas duas forças concorrentes, ou seja, na década de 70
com a primeira crise do petróleo e a emergência do tema ecológico,
apareceu ligado a uma crise da ideia do progresso de que você vai
indo para uma coisa que é cada vez mais racionalizada pela técnica,
e com isso eu acho que entra em um outro momento, que é o tal, que
coincide com aquilo que Levi Strauss está falando, Hobsbawm está
falando, e que é quando vocês nasceram, isso quero ser bem enfático,
fiquem sabendo, vocês nasceram na hora que aconteceu isto e que
portanto, quando depois, com a queda do muro de Berlim e a queda
do socialismo real, do ponto de vista do capitalismo, acabou o interesse
de se dizer que vai colonizar o futuro, muito do futuro não interessava
mais, por que o futuro já chegou para quem puder comprar, e não está
mais em consideração. Então, essa grande mudança, a ideia de um
condomínio do futuro, oferecido a todos, ele muda e você... Então, a
gente entra num mundo de acelerada corrida aos meios disponíveis,
com as questões que estão ligadas aos limites que isso trás e tal. Então,
com isso eu junto com o começo da história, a tal sensação de que o ano
corre, de que você não tem tempo, tudo mais, faz parte de um mundo
onde aquela regulação da vida dada pelo ciclo, que é um equilibrador,
por que se você equilibra o tempo de maneira a saber que em um certo
momento o ano termina por que recomeça, você respira o tempo, na
ideia de que ele faz um caminho de homeostase como se fosse uma
onda, como a onda da vida, dos organismos, como a onda do mar,
como a onda musical, etc.. Então, o tempo tem a sua montante, o seu
declínio, um ano é uma porção de tempo que começa, chega ao seu
momento, depois declina, mas recomeça e você então... O ciclo era um
grande auxiliar na relação pânica com o tempo devorador e de certo
modo existe já uma dificuldade de viver em comum o tempo cíclico, por
isso tudo que a gente está falando, eu acho que por isso o tal sintoma
é muito ligado a isso, à ideia de que o ano não é experimentado como
uma porção cíclica do tempo, mas ele é o tempo todo sinal de que o
tempo está passando, você chega ao fim para virar a página e começar
de novo a dizer isso... Quer dizer, isso está ligado a uma psicologia de que
você não tem por onde você tomar o tempo para si. Então, tudo isso
eu estou falando de sintomas, de grandes arcos, e ligados ao fato de
que nós vivemos num mundo de grande instantaneidade, simultânea
e de bombardeio informativo muito intenso, etc. e que, portanto, faz
a gente se perguntar como é que a gente se relaciona com isso, com
esse turbilhão de informações, e que envolve essa percepção de que o
tempo nos escapa e rouba, ele rouba a vida, o tempo é um ladrão, não
só no atacado, mas no varejo, está roubando todo dia as horas que a
gente tem, etc.
Então, isso tudo que eu falei da maneira mais eloquente que eu
pude, isso está ao mesmo tempo associado ao fato de que na verdade
se anunciam novas experiências com tempo que ao mesmo tempo são
antiquíssimas, tem um longo agora, um eterno agora, que não pára de
acontecer, e justamente onde criar, onde se criam possibilidades de não
simplesmente ser levado pelo império das coisas, que eu acho que as
coisas pura e simplesmente elas arrastam nesse sentido.
Agora, um dos instrumentos que durante muito tempo vigoraram
para isso é a arte, a poesia, a música, o teatro, são formas pelas quais
você faz do tempo, estabelece com o tempo outro tipo de relação.
Então, eu vou ler para vocês só uma letra de uma música do Gilberto
Gil que se chama Parabolicamará, vocês devem conhecer, mas eu
queria que a gente relesse essa música dentro do contexto disso que
nós estamos falando, por que é um poema que abraça tudo isso que
a gente acabou de dizer, numa forma poética, que é de certo modo,
não só uma visão. Agora nós temos um debate cultural onde tem os
críticos que querem continuamente mostrar os efeitos, os malefícios,
dessa vida contemporânea, que estão ligados ao poder destrutivo do
capital, e tudo mais, o que é verdade, mas cria uma situação em que
a gente tem que simplesmente aceitar a posição apocalíptica de que
não há outra coisa a fazer se não a crítica desta ordem de coisas, como
se fosse restaurar alguma outra coisa que ninguém também diz o que
é propriamente, por que, de certo modo, o que eu acho é isso, essa
experiência do tempo que nós passamos, eu não acredito ser possível
voltar atrás para épocas simplesmente onde não existiam os meios
técnicos que foram desenvolvidos nesses últimos tempos.
Então, no caso, o Gilberto Gil tem uma posição poética que é uma
espécie de aceitação das transformações, é como se ele iluminasse a
possibilidade de transformações, de que maneira que isso se faz nessa
musica? Então, ele diz assim: “Antes mundo era pequeno por que terra
era grande, hoje mundo é muito grande por que terra é pequena, do
tamanho da antena parabolicamará, ê volta no mundo camará ê, ê,
o mundo da volta, camará”. Isso aqui é um poema em que ele está
usando um estribilho de capoeira, uma expressão de capoeira, e a
capoeira é uma forma de arte, dança, música e poesia ligada a um
mundo pré-moderno no qual a experiência do ciclo, uma sabedoria do
ciclo incorporada ao corpo e à dança, está presente alí. Então quando
se diz: “ê volta no mundo camará, ê, mundo da volta camará”; que
ele toma da capoeira isso ganha um outro sentindo diante de uma
outra grande transformação, que é esta de que fala Levi Strauss ou
Hobsbawm, mas que é a grande mudança de escala, antes mundo era
pequeno por que terra era grande, por que todas as populações viviam
em nichos que estavam ligados a comunidades próximas, e grande
parte da humanidade vivia perto daquele lugar onde nasceu, e nossa,
uma viagem era uma coisa demoradíssima, você ir para um lugar para
conhecer outra gente, outras pessoas, a comunicação lentíssima. Dentro
desse quadro o mundo é pequeno, aquele no qual você vive, por que
a terra é grande, para além do horizonte já fica difícil. Portanto culturas
desenvolveram suas linguagens, suas singularidades dentro de nichos
que são um tesouro da experiência humana, as culturas do mundo, que
estão ligadas a essa experiência, grupos próximos, as vezes, trocando
com seus vizinhos, etc. mas desenvolvendo algo que era o mundo
pequeno numa terra grande; aí ele diz: “antes longe era distante, perto
só quando dava, quando muito alí defronte o horizonte acabava, hoje lá
atrás dos montes, dentro de casa camará, ê volta no mundo camará, ê,
ê, mundo da volta camará”. Ou seja o horizonte passou a ser devassado,
você sabe o que está além.
Até a guerra fria nos anos 50, Roland Barthes escreveu um belo
texto sobre isso em Mitologias, a Rússia era pensada como se fosse Marte,
os russos eram marcianos, talvez por isso os discos voadores apareciam
e deixaram de aparecer, quando na verdade os ETs que somos nós
mesmos passamos a ser vistos, se alguém escorrega numa casca de
banana no Cazaquistão alguém filmou aquilo, as questões ligadas
ao parlamento, a câmara de vereadores, fatos que acontecem alí
pipocam no nosso repertório, em suma, isso mudou completamente esse
horizonte, justamente a antena parabolicamará, a antena parabólica
é como uma coisa de instantaneização da informação que faz com
que coisas de qualquer parte do mundo estejam em qualquer momento
nos lugares mais retirados. Insisto, vocês nasceram dentro disso e isto
representa uma enorme mudança de horizonte mental, e a questão,
acho eu, Gilberto Gil está oferecendo a possibilidade de isso formar
um novo repertório, um repertório em que se viva o tempo presente
abraçando as eras, por que você está ao mesmo tempo com a antena
parabólica, mas com a capoeira. Esta simultaneidade não é como
simplesmente negada, as experiências passadas não são simplesmente
negadas, elas passam a interagir, polifonicamente com as outras, ou seja,
tecnologia e a coisa artesanal estão aqui de algum modo ligadas. Na
continuação ele diz: “de jangada levo uma eternidade, de saveiro levo
uma encarnação, pela onda luminosa levo o tempo de um raio, tempo
que levava Rosa pra aprumar o balaio, quando sentia que o balaio ia
escorregar, ê volta do mundo camará, ê, ê, mundo da volta camará”.
Isto é muito sintético, mas é uma formulação poética disto, daquela
história que a gente estava falando, de jangada leva uma eternidade
para você cobrir uma certa distância, um tempo infindável com aquela
tecnologia de transporte; de saveiro leva uma encarnação, o tempo
de uma vida, pela onda luminosa que vem pela antena parabólica,
leva o tempo de um raio, tempo que levava a Rosa pra aprumar o
balaio, quando sentia que o balaio ia escorregar. Então você tem um
instante que é aqui ligado ao mundo artesanal, carregar aquele balaio
de vime que ao mesmo tempo aquilo que na capa do disco aparece,
antena parabólica como um balaio de vime, portanto o artesanal com
a tecnologia de ponta, estão ligados, como se fossem arpejos de tempo,
por isso a jangada, a saveiro e a onda luminosa, elas contracenam com
a eternidade, a encarnação e o instante, aí a música fala o seguinte:
“esse tempo nunca passa, não é de ontem, nem de hoje, mora no som
da cabaça, nem ta preso, nem foge, no instante que tange o berimbau
meu camará, ê, volta do mundo camará”. Quando alguém toca o
berimbau, ele tem uma cabaça que fica na barriga, no umbigo e que
o movimento da barriga faz com que haja pulsação rítmica, que é da
corda percutida que ressoa naquela cabaça em contato com a barriga,
e isto é pulsação, é tempo, mas justamente o tempo, o tempo pulsante
é aquilo que atravessa todas essas experiências, o tempo que está em
pulsação do momento, o instante pulsante que está na música, é afinal,
de algum modo, aquilo que atravessa todas essas dimensões que ele
vinha falando lá. Bom, aí ele volta: “de jangada levo uma eternidade,
de saveiro levo uma encarnação, de avião o tempo de uma saudade”;
portanto a jangada, a saveiro e o avião, o avião quando viu já chegou,
ele já descolou, já te deixou, o tempo de uma saudade, quer dizer a
separação, você está a todo momento se separando de tudo, por que
justamente você não vive mais em nichos muitos estáveis e duradouros,
etc. e tal. E, aí ele diz isso: “esse tempo não tem rédea, vem nas asas do
vento, o momento da tragédia, Chico, Ferreira e Bento, só souberam na
hora do destino apresentar, ê, volta do mundo camará, ê, ê, mundo da
volta camará”. Isso aí é citação de Dorival Caimi: Chico, Ferreira e Bento,
quer dizer, a morte do pescador, a tragédia no mar, mas isso é aquilo que
se apresenta, a morte como o corte, em suma, que nos corta a relação
com o tempo e que é uma outra dimensão que está aí, aprendizados da
morte, por que esse é um ponto crucial de tudo o que estamos falando,
por que esses ciclos humanos e tal, criaram sabedorias do tempo que
supunham o aprendizado da morte ou como morrer, então se você
aceita que a morte faz parte de um ciclo isso dá sentido a morte, por
que ela não é assim o simples corte, não é o golpe do acaso, é aquilo
faz parte de um eterno retorno, digamos, se você tem a perspectiva
de que aquilo é algo que se redime no final dos tempos, no juízo final,
isso também é um consolo, vamos dizer, para o corte, e quando você
não tem, essa perspectiva nem do ciclo nem da redenção, você na
verdade está exposto à criação de uma outra sabedoria da morte que
está em jogo agora. A gente vive um tempo muito cindido, por que por
um lado existe uma enorme fome de que alguém dê sentido à falta
de sentido da vida e dê sentido a morte, de preferência alguém te
dando isso, ou você comprando isso, ou seja, eu vivi o tempo para ver
que os cinemas que na minha infância passavam Fellini numa cidade
pequena como São Vicente, junto de Santos onde eu morava, viraram
igrejas evangélicas. Isso é um dado muito eloqüente, por um lado é por
que o cinema foi para televisão, por sua vez foi para outras formas e
etc. que aqueles lugares, aqueles mesmos lugares em que você tinha
as matinês de domingo, que passava um jornal, dois trailers, um filme,
intervalo, mais outro filme, e havia aquele mergulho em que o cinema
por algum momento, enquanto rito eu quero dizer, não só os filmes que a
gente pode baixar na internet e ver de outras maneiras, eu digo um rito,
aquele lugar era uma câmara de tempo onde você tinha um rito que
de algum modo igrejas, onde alguém te diz que o tempo, a morte, tudo
isso está explicado, está dado, que o terror que existe por baixo disso seja
aplacado por alguma coisa de algum modo pronta, esse é um traço
de uma cisão, de um mundo em que você ou tem essa consolação
muito pronta, de massa ou você tem uma interrogação que por outro
lado... A publicidade é uma religião do mundo contemporâneo, e ela te
oferece o tempo todo produtos que te prometem totalidade, produtos
que fazem você acreditar que naquele momento você tem tudo, então
é uma poderosa religião, que tem que ser chamada pelo nome.
Então como vocês estão, estamos falando aqui de teatro, ou
de poesia, de música e tal, eu acho que é importante no nosso caso
entender o que é essa outra religião, todas essas religiões colocadas
entre aspas, que é a arte, que tem essa característica, ela tem a ver
com consolação, com a pergunta pelo sentido das coisas e de tudo, e
daquilo que não tem sentido, mas na forma de interrogação, na forma
de enigma, na forma de algo que nunca está pronto, e que não tem a
resposta, em que a resposta não está dada, você não pode consumí-la
simplesmente por que ler Drummond é simplesmente... Você passa a vida
lendo Drummond e a cada vez que você ler aquilo terá um novo sentido,
uma nova pergunta, uma nova inquietação e uma nova consolação
que está ligada ao papel da arte hoje, muito bombardeado, inclusive
para aqueles que para serem críticos e se mostrarem, não terem ilusões,
dizem que a arte faz um papel puramente ilusório, ela não tem papel
nenhum, então é nesse pé que estamos, certo?
Então, da minha parte eu tenho a seguinte fé, que há uma
demanda, uma necessidade, de dar sentido ao tempo vivido, sabendo
que esse tempo se esgota, acho que a morte, a tragédia humana passa
a ser exposta hoje, crianças são expostas à tragédia humana, basta olhar
qualquer jornal de televisão, a qualquer momento, a dimensão trágica
da existência está dada, assim, desde antes da criança saber quem
ela é ou que ela existe, aquelas coisas que fazem parte desse repertório
nativo, são gerações nativas da tragédia e tal.
Então, eu acho que a arte é uma das poderosas, dos poderosos
instrumentos que atravessam os tempos, lidando com essa coisa fluida e
incapturável como o tempo. Então eu gostaria de tocar uma música só
para nesse momento a gente completar uma apresentação e a partir
disso a gente poderia falar, conversar, certo?
Enquanto isso a gente conversa, não sei se tudo o que eu falei soa
pessimista, não sei se soa pessimista, eu não me identifico, eu não sou
pessimista, eu sou de escorpião, eu gosto de poder remexer mesmo no
que está, onde está pegando, para poder rebater aquilo, sabe, tomar
dozes do veneno para poder neutralizar o efeito dele, para poder pensar
em outra coisa, sair daquilo, então na verdade... Bom...
(música Arnaldo Antunes)
A música muda você
Você muda mais alguém
Alguém muda outro alguém
Que muda você também
Você muda a cada momento
A música muda o tempo
Você é um instrumento
A música muda você
Pra melhor, pra melhor, pra melhor
A música muda o corpo
E a dança ajuda a mudança
A música de um outro
Desfaz a sua distância
O mundo muda você
Os outros te mudam muito
Você muda pra crescer
A música muda o mundo
Pra melhor, pra melhor, pra melhor
A música muda o vento
O pé também muda o chão
Assim como o pensamento
Muda sua sensação
A música muda tudo
E tudo muda você
Você é você porque muda
A música ajuda a ser
Bem melhor
Isso aqui é do Arnaldo Antunes, é um disco do Arnaldo Antunes
com o Edgar Scandurra, é um disco que acabou de sair, no final do ano
passado, chama “Na curva da cintura”, mas eles dois juntos com um
músico de Mali, que chama Toumani Diabate, que é um músico que
toca esse instrumento que é uma espécie de uma harpa africana
chamada Kora, muito incrível assim, que é uma cabaça, esse instrumento
inclusive, eles fizeram o disco e também o vídeo que documenta a
gravação do disco lá em Mali, e aí aparece como que eles fazem esse
instrumento, como que a cabaça, como é que ela se cobre de coro,
tem todo um rito de fazer o instrumento, por que todos os instrumentos
dessas tradições imemoriais são transformações da natureza, de cabaça,
de coisas ou de coro, de pele, de tripa, portanto, na verdade são animais
sacrificados que se transformam em som, esse é um dos assuntos básicos
do meu livro “Som e Sentido”, que é essa ideia de que o som nessas
tradições ele é ligado a ideia de o sacrifício, algo morre, algo é sangrento
para que possa vir a harmonia, a paz do som, a palavra aleluia, por
exemplo, que vocês vem na Aleluia de Handel, nas grandes peças da
música sacra, na origem aleluia é o canto das aves de rapina, é uma
onomatopeia do canto das aves de rapina, como se fosse um carcará,
e é justamente como se fosse a truculência da vida que é transformada
em harmonia. Então esses instrumentos, essa tradição, o músico africano,
a África é um grande tesouro dessa experiência, na verdade onde surgiu
a humanidade, e que é a grande escola de uma técnologia do tempo,
de uma técnologia dos ritmos, a música ocidental da Europa, a música
moderna, é uma música que veio do domínio do controle do que a
gente chama de alturas, melodias e harmonias, cujas relações, em
escalas, acordes, polifonias, criou a grande arquitetura sonora do
Ocidente, baseadas em melodias e harmonias, mas a África é o grande
repositório dos ritmos, entendeu, timbres e ritmos, das superposições, tem
melodias também, mas eles não se dão ao trabalho de desenvolver
acordes e discursos evolutivos. Então é isso, esse instrumento, se vocês
virem no vídeo, o músico faz aquilo, as cordas elas parecem um tear, são
trançadas assim para dar a forma, não é como a harpa ocidental que é
assim e você percorre, as cordas vem todas trançadas de maneira que
ele toca as notas todas sem mexer a mão, por que todas elas se cruzam
aqui, então é como se a multiplicidade do tempo, que uma cultura que
longamente aprendeu a trazer aquilo, todo esse disco, portanto, músicas
de Arnaldo com Scandurra que tem a ver com rock, com técnologia,
com a vanguarda do Ocidente, por sua vez toda banhada numa coisa
dessa cabaça do tempo africano, e dessas Koras, entende? Então, por
isso que eu acho que é uma experiência do tempo que tem muito a nos
ensinar sobre essas situações contemporâneas, em que a gente não é
simplesmente atravessado pelo poder das coisas, não é isso que eu
quero dizer, que isso cria situações em que esses tempos, essas linguagens
acham um novo lugar. Essa música é uma música originalmente dele, do
músico africano, e a voz que aparece cantando, essa voz feminina,
lindíssima, ela está cantando a música feita pelo... Mas na África, como
na Índia tradicional, como entre os Árabes, eles não têm a ideia de uma
peça fechada, escrita numa partitura, toda a peça é um modelo para
uma improvisação que vai acontecer num dado momento. Então a
ideia do Ocidente foi justamente a ideia de que essas construções
melódico-harmônicas elas acabam sendo consolidadas em partituras
que você tem que tocar nota por nota obedecendo tal como está lá.
Essa foi uma forma mental do ocidente em seu desenvolvimento quando
ele desenvolveu essa linguagem espantosa, mas que chegou à essa
coisa de um tempo armazenado, acumulado e guardado, gerando
essas formas poderosas de acumulação de melodias e harmonias em
progresso. Que começa no século XII, XIII com o canto gregoriano,
quando ele começa a somar vozes, criando as polifonias, no século XVI,
os acordes, no século XVII, a linguagem evolutiva do sistema tonal, essa
que agente conhece na musica clássica, se desenvolve com a forma de
sonata no século XVIII, passa por intensas transformações no século XIX,
e chega no fim do século XIX, começo do século XX à sua crise, por que
é uma música baseada no princípio do progresso, quer dizer, você
sempre tem que incluir uma novidade, uma tensão nova, você tem que
queimar os materiais que foram apresentados e levá-los adiante e isso
faz um arco, que chega no final das contas a uma música atonal
dodecafônica, serial, eletrônica, que é quando o som justamente
desemboca no ruído, e no ruído descentrado, onde não tem mais esse
princípio, chega nos confins onde você não tem essa espécie de
movimento circular que faz nessas escalas dessas músicas, que no livro
“O Som e o Sentido” eu chamo de modais, que são todas essas tradições
pré-modernas que praticam escalas rítmicas que voltam sobre si mesmas
em círculos, como a pentatônica chinesa, cinco notas só... (canta) Essa
música que eu to cantando não existe, não é que existe pronta há anos,
eu estou passeando pela escola pentatônica, isso é música para eles, a
música é o momento em que você passeia por aquela escala, e eles
não queriam passar além das cinco notas, nessa tradição por que eles
sabiam que daí vinha problema, se você colocar a sexta nota na escala
você vai criar um intervalo tenso com outra, e se colocar a sétima então,
já viu uma ruína lá na frente entendeu, eles já sabiam que aquilo ia
chegar no dodecafonismo, o que eu to dizendo é um pouco brincadeira,
mas é verdade, eles sabiam já fazer instrumentos que soubessem já tocar
os 12 tons da escala, só que eles não queriam, assim como os chineses
poderiam ter descoberto a Europa, eles tinham uma armada, uma
condição de navios que eles podiam, antes dos portugueses dobrarem
o Cabo das Tormentas, eles vieram, olharam e não gostaram, não
quiseram colonizar, isso é justamente o elemento, isso é a relação com o
tempo, que significa isso, a sabedoria Oriental, quer dizer, chinesa, dizia
isso, a ordem cósmica é guarnecida pelas cinco notas da escala
pentatônica, se você mexer nelas cai o céu em cima da terra, esmaga,
ou seja, o tempo é regulado, e todas as relações, por um princípio circular
que garante uma harmonia interna, que não é evolutiva, não busca
progredir, busca manter a harmonia e realimentá-la. Os indianos por sua
vez, na tradição da música indiana, essa que a gente conhece, pode
ouvir, essas tocadas pelas cítaras, tampuras e tal, essa coisa riquíssima,
ligada à uma tradição rítmica fortíssima, eles tem todo um conjunto de
escalas que para eles eram tocadas conforme a estação do ano e a
hora do dia, então certa estação do ano, a tarde, vamos dizer, no fim de
tarde de verão você toca certas escalas, não outras, por quê? Por que
isso está ligado a uma sabedoria cíclica, então você tem, não é
brincadeira esse negócio, não é só por que agora a moda é ser cíclico,
não, é que aquilo é um princípio organizador do tempo, do mundo, que
está em tudo, então, aquilo é regido por tabus, tabus que dizem: você
não toca tal música em tal hora por que isso desorganiza as relações
cósmicas. Ou seja, a sabedoria é uma acumulação do que uma certa
cultura codificou como sendo a melhor forma de se relacionar com o
tempo, entende? Então assim são as músicas árabes, tradicionais,
indianas, chinesas, ou japonesas, e as africanas, com diferentes escalas
que você reconhece quando toca, você sabe se uma coisa é africana,
chinesa, japonesa, etc., indiana, por que aquelas escalas estão
consolidadas com um uso, aquelas culturas, nos seus nichos, quando o
mundo era pequeno e a terra era grande, eles milenarmente exploraram
aquilo tudo, então essas coisas estão lá. O ocidente fez a curva que eu
estava dizendo do progresso, que é você atingir o fim, começa junto
com o canto gregoriano e aí você soma voz, aí não satisfeito você soma
uma segunda voz, aí uma quarta, que nem uma polifonia, cinco, sete,
doze vozes, trinta e duas vozes, entende, aí começa a escrever aquilo, e
regular o tempo, ver como são aqueles melhores acordes, momento de
tensão e repouso, como é que aquilo evolui para você criar uma peça,
como uma sinfonia de Beethoven que dura vinte minutos, onde umas
quatro notas dão aquilo... Uma célula replica e produz um discurso, isso
é do Ocidente, a forma mental que aqui no livro eu chamo de tonal, que
é o ocidente moderno e que chega ele mesmo ao processo da crise do
atonalismo, que é a saturação das tensões que levaram à uma
descentralização, que fazem como um fato novo, que as músicas desde
sempre elas tiveram um centro tonal, elas giram em torno de um centro.
Nas músicas modais sempre o centro está lá, como uma terra da qual
você não sai, nas músicas do Ocidente progressivo, já na sonata,
mozartiana, Mozart, Beethoven, você tem um centro, você questiona
esse centro, tensiona e volta, toda a graça é: você instaura um centro,
problematiza, dinamiza, dialetiza esse centro, põe ele em contradição
com ele mesmo, para depois heigelianamente ele voltar ao princípio
dialeticamente transformado. Mas essa dialética vai passando por uma
espécie de corrosão da negatividade que faz com que a tensão não
encontre mais jeito de voltar pro princípio, no livro “Som e Sentido” eu
comparei isso com o pacto Faustiano, que é uma figura, é um mito do
Ocidente moderno, a figura do Fausto, que surge uma lenda alemã no
século XVI, vai passando por várias versões e chega a grande versão do
Fausto de Goethe que é uma consagração desse princípio, de quem?
De um homem que faz um pacto com Mefistófeles para tudo poder e
saber, quem é ele? O homem moderno, evidentemente, que faz o que?
Que queima todos os tabus. Não há mais tabus, aqueles tabus que
regulavam o uso regrado das formas e das linguagens para que você
não quebre o equilíbrio cíclico, é substituído por um princípio que é da
possibilidade de você usar todos os recursos possíveis, passando por
todas as fronteiras e todos os limites para colonizar o mundo em escala
global, isso é o pacto com o diabo nesse sentido, é o pacto com o não
limitado, é a quebra do tabu, dita em linguagem leiga, em linguagem
não religiosa. Nesse sentido a figura do diabo ficou sendo a figura
moderna do rompimento dos limites, cujo pacto faz com que o mundo
possa ser como hoje, essa instantaneidade técnologica, etc. ela foi
movida por esse pacto que dizia, além do original, que ele tem um preço,
ele tem um custo, que é cobrado no fim, de certo modo a gente tem, eu
diria que o tema da dívida, todo esse processo acelerado, ele é baseado
numa divida que você replica, que você empurra, que é sem limite, por
que ela está sempre sendo cobrada depois, a não ser que ela num dado
momento diga chega, a cobrança é já, quando isso acontecer isso
significa que essa cultura encontrou o seu apocalipse, apocalipse no
sentido religioso, que significa que a dívida é cobrada, mas ela é feita
estruturalmente para não ser cobrada. Nesse sentido o capitalismo é
feito para se alimentar da dívida, você aumenta a dívida e você
enriquece porque a dívida não é paga, então a pergunta é: que limite
é esse? Eu me pergunto o que estará sendo falado lá na sala de baixo,
um geógrafo marxista que está falando do enigma do capital e é
certamente isso tudo aqui no andar subterrâneo, lotado, e isso está
sendo falado e há uma grande avidez por saber alguma coisa sobre isso.
Mas aqui no andar superior estamos falando das implicações simbólicas
e poéticas da mesma coisa, algumas chaves que a gente está usando
aqui não sei se eles usam lá, acho que não, mas tem a ver, e isso é uma
alegoria perfeita da cultura contemporânea, por que na música
ocidental, no livro “Som e Sentido” eu digo isso, a resolução do trítono,
que é uma tensão que tem na escala de sete notas é o pacto com o
diabo, é um intervalo que na Idade Média era chamado de diabolos em
música, quem fazia o canto gregoriano sabia que aquele intervalo
introduzia um grau de tensão acústica maior do que os outros, se você
tem dó, sol, do, ré, mi, fá, sol, do, sol, dó, fá, dó, mi, ré, do, mi, do, ré, você
tem notas que tem uma certa ordem interna que você, cujas tenções
internas você administra, mas: do, ré, mi, fá, sol, do, sol, do, fá, do, fá, do
fá. Os chineses todos sabiam que isso é problema: do, fá. E portanto
aquilo não se toca, qual é a solução medieval? Não se toca esse intervalo,
onde ele aparecer você retira. Qual foi a solução tonal? Onde ele
aparecer você usa ele para dinamizar o sistema, Mozart: do, mi, sol, si,
você tem uma melodia que é: do, mi, sol, é o acorde perfeito maior,
perfeitamente harmônico, você cria um lugar, um centro tonal que faz:
do, mi, sol, mas a melodia faz: do, mi, sol, si, se você parar nesse lugar dá
uma tensão não resolvida, então vem aquele alívio, isso é a célula que
explica tudo, da música pop a Wagner, tem formas mais simples ou mais
complexas disso, você cria um centro tonal produz uma tensão e resolve,
demora mais para resolver, por caminhos menos prováveis ou diretos,
certo? E Mozart gostava desse estado de frescor disso.
E nós, em suma, as crianças do ocidente cresceram sendo
embaladas por essa solução, mas o trítono vai se tornando mais incidioso
e mais incontrolável, e tomando conta de tudo assim, até o atonalismo,
quando não tem mais resolução. Essa é uma dialética perfeita,
representação, se a gente pudesse dizer assim, de uma dialética do
ocidente, falada pela musica, certo? E aí, nós chegamos num lugar que
é uma música que não tem centro, de um estado de coisas que não tem
centro. Schamberg (?) acreditava que essa era a música do futuro, que
a humanidade ia toda, sei lá o que ele imaginava desse concerto (...)
tudo isso sabe, era muito, todo mundo vibrando juntos, ele acreditava.
Não foi bem assim, o que essa música trouxe de certo modo é aquele
fundamento insuportável do real...
O ruído entra alí... Então o fundamento insuportável do real é o
ruído.
Mas, na verdade, a música chegou a um lugar.
Então o negócio é que a música do Ocidente ela chegou a um
lugar que é uma espécie a um real de fundo, quem suportaria conviver
cotidianamente com aquilo que diz a teoria quântica ou a teoria da
relatividade sobre o tempo e o espaço? Quem suportaria esse real que
a ciência trouxe a tona? Na verdade, ninguém suportaria conviver, nós
precisamos de uma escala, uma escala que é uma escala aconchegante
dos limites do ser humano, dentro do seu ciclo de vida, entende? A gente
não pode ser exposto à ideia de que o tempo é puramente relativo, e
o espaço há certas velocidades curvo, ele não se mantém no mesmo
tempo, o problema é isso, é que não é nada de uma certa ordem linear
na qual a gente mantém a sensação do tempo como um habitat, que
toda a questão da escala humana é a possibilidade de criar um habitat,
ou seja, de criar um lugar que seja uma morada. A palavra habitat tem
a ver com hábito, ou seja, aquilo que você possa aceitar como o que
permanece e te acolhe, te aconchega, então, todo mundo precisa
disso ao mesmo tempo que, o real contemporâneo, a tragédia humana,
a ciência e a tecnologia é uma exposição a um habitat sem centro, sem
aconchego, se a gente olhar, uma vertigem do universo, e as galáxias e
mais o átomo, etc. quem aguentaria isso? E quem aguentaria ser exposto
ao inconsciente tal como formulado por Freud, ser exposto, a gente
sabe que a gente tem proteções, a gente precisa se guardar, criar um
hábito, criar um habitat, essa é a concepção da música, por exemplo,
na poética de Gilberto Gil, que é saber que a música, sabendo de tudo
isto você tem um lugar em que você guarda alí aquela cabaça, aquele
ritmo, aquela pulsação, que é a possibilidade da criação... Eu acho que
o novo paradigma, é justamente a possibilidade de criação de habitats,
num mundo descentrado, em que ao mesmo tempo você viva o real
desse descentramento tendo habitats, moradas possíveis, que não são
moradas fixas, então esse é um grande desafio, é uma grande pergunta,
aonde que esses habitats se criam. Na música do Arnaldo Antunes o
que ele está falando maravilhosamente é isto, aquela melodia daquele
africano, eu fiz um longo parêntese quando eu disse que o africano não
tem uma música pronta, é algo que se improvisa na hora, é uma matriz
que é improvisada, então aquela cantora canta aquilo que esse homem
compôs, improvisando sobre aquilo, que é o que ela faz, e o Arnaldo por
sua vez fala como se ele tivesse fazendo aquela música dentro da sua
poética, diz que a música muda o mundo, muda alguém que muda o
outro, que muda você também e muda o tempo e aí você vive dentro
daquele tempo que você mudou e o pensamento também se altera
com isso e tudo mais, ou seja, a consciência descentrada, do autor de
tudo ao mesmo tempo agora, Arnaldo Antunes é um dos poetas desse
mundo descentrado, quer dizer, da percepção disso, mas ao mesmo
tempo criando a possibilidade de nichos, de lugares onde você possa
não se perder simplesmente em tudo isso. Então, aqui fica lindo por que
justamente entra aquele, quando vocês puderem ouvir isso mais vezes,
entra aquela Kora tocando, o tal instrumento, a harpa africana, e ela
fica um bom tempo, um tempo maior do que uma introdução comum,
de uma música que a gente conheceria, por que ela está justamente
instaurando um tempo, ela está justamente criando aquela história, não
é uma introdução que prepara para começar a música, parou e isso
fica, aquela pulsação, aquele instrumento tocando, aí ele faz, ele faz a
estrofe dele, aí entra aquela voz, falando numa língua que a gente não
entende, a gente entende tudo o que ele falou, só que aquela voz com
a língua que a gente não entende fala tudo o que ele falou de uma
maneira potente, por que está falando música, está falando pulsações,
ritmos, melodias, escalas, e escalas não ocidentais, por que ela justamente
entra em intervalos que não tem nas escalas dos instrumentos ocidentais,
não tem, que são os microtons próprios das músicas, que é uma região
da África, o Mali, que é uma área de influência árabe, uma combinação
muito singular. Então, esse canto traz esse lugar, e aí a palavra volta a
dizer e volta aquilo, aqui ele começa em três planos entre a Kora, essa
voz que canta e aquela outra voz que canta falando isso cria um lugar.
Então eu acho que isso está elaborando aquela questão aberta de
escala sonora . Digam coisas.
PALESTRANTE CONVIDADO: JORGE ALBUQUERQUE VIEIRA
DATA: 28 DE FEVEREIRO DE 2012
Cristiane - Olá, boa noite, bem-vindos todos, eu sou a Cristiane,
diretora do OPOVOEMPÉ, é um prazer receber vocês nesta palestra, que
é a segunda palestra aberta ao público do projeto A Máquina do Tempo
(ou longo agora), este projeto tem o apoio do fomento ao teatro e vai
acabar resultando em três experimentos, alguns deles na cidade, outros
em sala fechada. A gente convida quem não conhece o trabalho do
OPOVOEMPÉ a conhecer. Mas a gente tá bastante honrado em receber
o Jorge Albuquerque Vieira, aqui com a gente, para falar, para dar sua
visão do tempo, as visões do tempo. Eu estava falando com o professor
antes, tem várias pessoas do nosso grupo que já estudaram com ele e
que falavam muito, muito bem e... “nós temos que chamar o Jorge, nós
temos que chamar o Jorge”. Então, que bom que a gente conseguiu
trazê-lo, a gente está muito honrado com sua presença e eu aqui,
estou curiosíssima em ouvir tudo. Então é isso, bem-vindos. O professor
vai explanar e depois a gente abre para perguntas, uma sessão de
perguntas, tá bom? Obrigada.
Jorge - Bem, boa noite a todos. Muito obrigado pela presença.
Como já foi comentado aqui, eu tenho um imenso prazer de estar aqui
por que muitas pessoas aqui já foram minhas alunas, trabalham comigo,
e isso é muito bom.
O tema de hoje, me pediram para que eu falasse sobre o tempo.
Na minha opinião, pelo menos, é um dos temas mais difíceis de serem
abordados, talvez seja o conceito mais difícil mesmo. O tempo é um
conceito, talvez o pior deles, que pertence a um corpo de conhecimento
extremamente básico, fundamental, é o tipo do corpo de conhecimento
que todos nós necessitamos para viver, esse corpo de conhecimento
não nos é ensinado por ninguém, nós aprendemos sozinhos desde
pequenininhos, esse corpo de conhecimentos envolve conceitos e ideias
profundamente gerais, fundamentais e básicas, e por isso mesmo
extremamente difíceis de serem entendidas, discutidas, racionalizadas, e
etc... Esses conceitos são basicamente: espaço, tempo, uma noção
aproximada de matéria, mudança, transformação, consequentemente
evolução, possibilidade, causalidade, e etc... Se vocês pararem para
pensar, com algumas exceções, a maioria de nós ao longo da vida
nunca estudou isto, e nas escolas normais, nós normalmente não temos
acesso a este tipo de conhecimento, nem mesmo, na maioria dos cursos
de natureza científica. Toda vez que a ciência é feita, cientistas costumam
pressupor a existência do espaço, do tempo e da matéria, mas não
filosofam sobre isso e, no entanto, quando a gente é nenenzinho,
pequeno, que a gente começa a engatinhar e etc... Nossos primeiros
experimentos, subir na cadeira e cair da cadeira, envolve basicamente
explorações de espaço, de tempo e de matéria, e nós crescemos com
isso. Então nós temos de maneira internalizada, algum conceito, alguma
ideia, muito subjetiva e muito tácita, ou seja, não discursiva, do que seja
a duração, do que seja algo que lembra a passagem ou o fluir do tempo,
mas se você parar para analisar direitinho, você vai ver que toda a
grande maioria do que a gente fala, principalmente tempo, é metáfora.
A gente nunca sabe ao certo o que o tempo é. Para poder discutir o que
é essa questão a gente precisa fazer uma breve incursão na teoria do
conhecimento, eu vou procurar ser bem rápido para não ficar muito
chato. Mas imaginem que haja alguma coisa, um sistema, que necessite
ou que queira saber, conhecer, tecnicamente esse sistema é chamado
de sujeito, imagine que haja um outro sistema a ser conhecido,
tecnicamente ele é chamado de objeto, toda vez que se estabelecer
uma certa relação entre sujeito e objeto, você tem conhecimento. Ou
seja, conhecimento é um tipo de relação que se estabelece entre sujeito
e objeto, e recorrendo um pouquinho à matemática, relação é uma
espécie de emparelhamento condicional, ou seja, quando uma coisa
emparelha com outra segundo certas restrições, segundo certas
condições. O conhecimento faz parte por tanto desse tipo de relação,
chamada relação gnosiológica, relação do conhecimento. A teoria do
conhecimento foi construída em cima dessa relação, é o coração da
filosofia, digamos assim, ela envolve cinco grandes problemas, o primeiro
deles que eu considero mais fundamental, chama-se o problema da
essência do conhecimento, consiste em a gente discutir qual é a natureza
da relação e o que é que governa essa relação cognitiva, no caso; os
outros problemas são o problema da origem do conhecimento, ou seja,
se conhecimento é considerado como processo, se ele começa do
sujeito para o objeto ou o contrário; o problema da possibilidade do
conhecimento, se é efetivamente possível conhecer alguma coisa, e em
que medida; o problema das formas de conhecimento, ou seja, quais
são os processos que ocorrem na nossa cabeça no ato de conhecer e o
problema da verdade, que é considerado o pior deles. Do ponto de
vista do problema da essência do conhecimento você tem dois pólos, o
do sujeito e o do objeto, a relação faz a mediação entre os dois. A
pergunta é: para onde tende a relação? Ela é do domínio do sujeito ou
ela é do domínio do objeto? Se você partir do pressuposto que é do
domínio do sujeito e for exageradamente nessa direção, você vai chegar
à conclusão que o conhecimento se reduz, é contido integralmente no
sujeito, mas a gente sabe que não é assim, por outro lado, se você for na
outra direção, você pode achar que o conhecimento tá todo colocado
no objeto, também não é assim. Na verdade a solução é sempre
mediada, classicamente falando, toda vez que alguém opta mais para
o lado do sujeito está fazendo uma forma de subjetivismo, e toda vez
que alguém opta pelo lado do objeto, está fazendo uma forma de
objetivismo. Porque estou falando isso? Por que do ponto de vista
filosófico, conceitos, mesmo abstratos e fundamentais como o tempo,
podem ir sendo avaliados, analisados, de maneira subjetivista ou
objetivista, essa dualidade persiste até hoje. Existiram alguns filósofos,
talvez o mais famoso deles seja Charles Sanders Peirce, que tentaram
superar isso mostrando a continuidade que existe entre sujeito e objeto,
mas classicamente, a maioria das pessoas, inclusive, não conhece Peirce,
o trabalho dele, e a briga, a dualidade entre objetivismo e subjetivismo
permanece até hoje. Mas para gente ser honesto mesmo quanto ao
tempo, nós somos sujeitos, então tudo começa sempre no sujeito, sobre
esse ponto de vista, a primeira ideia que nós temos de tempo é de
natureza subjetiva. Bem, o que é que isso significa? A noção que nós
temos de tempo, ela é vaga. Se você parar para analisar direitinho o
que você sabe sobre o tempo a única coisa que lhe resta é uma sensação
extremamente fugaz, vaga, disso que a gente chama de agora. Se a
primeira coisa que você toma consciência: eu estou aqui agora, eu
estou falando para vocês agora; mas notem o verbo: eu estou falando
para vocês agora, eu não digo: eu falei para vocês agora, eu não digo:
eu falo para vocês agora, mas sim: eu estou falando para vocês agora.
Isso pressupõe que o meu agora é seguido de outro agora que é seguido
de outro agora, e se a gente analisar isso friamente a gente vai ver que
agora é uma coisa muito rápida, extremamente passageira. Do ponto
de vista da neurociência, agora significa aproximadamente 0,25 do
segundo, ou seja, o nosso presente, o nosso agora, essa espécie de faca
que divide o tempo entre passado e futuro tem uma extensãozinha para
nós, uma função resolução da ordem de 0,25 do segundo, é isso que nós
dispomos, e a gente percebe depois uma coisa inquietante, esse agora
é fugaz, o futuro ainda não é e o passado já foi, é como se não restasse
nada, mas a gente sabe ao mesmo tempo, que não é bem assim e é
essa sensação de que não é bem assim que denuncia a presença do
tempo. Por exemplo, eu posso dizer para vocês que eu estou sendo, eu
posso ficar inclusive completamente imóvel aqui e vou continuar sendo,
esse pedestal aqui, está inerte e imóvel aqui há um certo tempo e se
nada de mais acontecer, ele vai continuar sendo, ou seja, existe essa
noção de tempo, de tempo de duração, tempo do ser, e isso é que
denuncia o tempo primordial, agora, como é que nós chegamos a esta
conclusão? De maneira subjetiva, na nossa cabeça existe um mecanismo
que internaliza informação e que constrói para nós a noção de um
passado, função de uma memória, inclusive comprometida, esburacada,
falha, etc... Você tem uma breve noção do que já aconteceu, e uma
certa expectativa do que vai acontecer ainda, ou seja, na verdade a
única coisa que nós dispomos para valer mesmo na nossa subjetividade
é de um agora, de um presente, de um passado e de um futuro vagos, é
a única coisa que a gente dispõe. Aí vem a pergunta filosófica, mas
você está falando então de um tempo que só existe na sua cabeça, só
existe no sujeito? Ou esse tempo existe fora de você? Por que se ele
existe fora de você, ele tem chance de ser algo de objetivo. Geralmente,
ser objetivo significa admitir uma coisa também difícil de definir chamada
realidade, e subjetivistas extremos negam a existência da realidade, mas
se você for um subjetivista moderado ou um objetivista moderado você
vai admitir que a realidade existe. O que é que é a realidade mesmo?
De maneira muito grosseira, seria o conjunto daquelas coisas que insistem
em permanecer, que não dependem de nós, pelo menos em certas
circunstâncias, e o que é pior, elas se forçam sobre nós de vez em quando,
por exemplo, pode parecer ingênuo, mas eu acredito na realidade, eu
acredito que essa sala é real, por que eu sei que se eu sair da sala, a sala
vai continuar sendo, ela não vai acabar com a minha saída, e vocês
podem testemunhar isso, se eu tentar sair da sala sem passar pela porta,
se eu tentar sair pela parede, eu vou me machucar, a parede vai se
esforçar sobre mim, além dela não depender de mim, ela não me dá
muita bola, não me dá muita colher de chá não, ela se força sobre mim,
isso é o real, de uma maneira muito grosseira, na verdade, definir
filosoficamente realidade é uma espécie de inferno. Bem, mas isso já
acarreta para a gente mais alguma coisa quanto ao tempo, eu posso
construir, tentar construir uma visão objetiva do tempo, mas eu tenho
que seguir um certo método, por exemplo, eu tenho a sensação de um
agora, agora, já construímos graças a ciência e a modelos aproximados
do tempo, relógios, e aí eu olho no meu relógio e vejo a hora, e pergunto
a vocês, qual é a hora que vocês estão percebendo ai? Geralmente
existe um consenso, com erros é claro, mas existe um consenso. Esse
consenso, ou seja, eu comparar a minha opinião, a minha subjetividade
com a subjetividade do outro, é um primeiro critério de teste de
objetividade, os filósofos do tempo chamam isso de objetividade nível 1,
é aquela objetividade temporal, ou seja, tem um tempo comum para
todo mundo aqui, mas que vigora no âmbito da nossa experiência, que
é muito restrita dentro do universo, mas existe um certo tempo comum
para nós. Se ele é comum para todo mundo, ele deve existir independente
de nós. Essa é uma acepção objetivista. E depois usando isso e outros
artifícios de natureza semiótica eu posso inferir, por exemplo, que existiram
tempos muito antigos, que existiram coisas desses tempos muito antigos,
que pode haver um futuro com coisas muito novas nesse futuro que
ainda não aconteceu, um mundo de possibilidades, por exemplo, eu
posso dizer para vocês que há coisa de 60 ou 70 milhões de anos atrás o
planeta era dominado por dinossauros que foram extintos numa grande
crise, aí alguém pode honestamente perguntar: mas como é que você
se atreve a falar de uma coisa que parece que aconteceu a 70 milhões
de anos atrás se você é uma coisa viva que só vive décadas? A
objetividade nível 2, que é a de natureza mais científica, é que nos
permite fazer antropologia, arqueologia, e etc... Todas as ciências
históricas que envolvem basicamente o estudo do passado. Então isso é
o nível que nós dispomos, o nível do sujeito, o nível da subjetividade, com
tentativas de objetividade. Estas tentativas de objetivação são chamados
experimentos intersubjetivos, ou seja, o máximo que a gente consegue é
comparar subjetividades, por que ninguém consegue sair de si mesmo e
olhar a realidade fora de si mesmo. Bem, então esse é um preâmbulo
filosófico dado pela teoria do conhecimento, isso não resolve ainda a
questão do tempo.
Eu queria agora adiantar para vocês, algumas visões do tempo,
como foram colocadas por teorias científicas. Teorias científicas são
sistemas de ideias, sistemas conceituais, são construídas pelos cientistas
na tentativa de se criar aqui dentro alguma coisa coerente com o que
está lá fora, a tal realidade. Por que essa necessidade de criar isso? E de
criar isso de maneira coerente? Para que a gente possa sobreviver. Você
pode criar na sua cabeça subjetivamente realidades magníficas, mas se
não forem coerentes com a realidade que está lá fora você pode se dar
mal. Então, o grande problema que o ser humano tem em termos
cognitivos é primeiro: criar uma imagem de mundo, e segundo: garantir
que essa imagem de mundo seja compatível, seja coerente com o
mundo mesmo, a tal realidade que se força sobre nós. Bem, a ciência é
especialista em fazer essas representações de mundo de maneira
controlada, usando o método científico. Na história do pensamento
humano, do ponto de vista científico surgiram três grandes visões do
tempo que são discutidas até hoje, a primeira visão é uma visão
ontológica digamos, ou seja, pertence a esse conjunto de temas básicos
e fundamentais que não se costuma discutir muito, eu falei para vocês,
cientistas geralmente pressupõem a existência do espaço, do tempo e
da matéria, ou seja, é a visão de Newton. Quando Newton fez a física
clássica, a grande, talvez a maior construção do espírito humano em
termos de ciência. Quando ele fez a física clássica ele não trabalhou o
problema do espaço e do tempo, ele pressupôs a existência do espaço
e do tempo, ele partiu de pressupostos ditos ontológicos, ou seja, coisas
que a gente aceita e sem muita discussão. Qual é a proposta newtoniana?
Existe algo que é o espaço e existe algo que é o tempo e existe algo que
é a matéria, e essas coisas são independentes entre si. Essas coisas não
são objetos físicos, ou seja, não podem ser estudadas pela física, agora,
elas em conjunto formam uma espécie de cenário, de palco, onde os
fatos, os acontecimentos ocorrem. É dentro dessa visão newtoniana que
a física clássica foi feita, esse é o chamado tempo do palco, tempo do
contêiner, ou seja, o ambiente que contém as coisas. Todo mundo aceita
isso tacitamente, o pessoal que estudou física aqui sabe como isso é
tratado. A gente substitui tempo pela variável T, admite que é uma
variável contínua, e curiosamente na física de Newton você poderia ir
pra frente no tempo e poderia ir para trás no tempo, ou seja, haveria
reversibilidade. Quem observa o mundo percebe que isso não existe, ou
seja, se eu largar esse microfone ele vai cair no chão, dificilmente eu
observaria um microfone no chão vir voando de volta para minha mão.
Aquela velha história, você pega uma pedrinha e joga no lago, a
pedrinha bate na água e cria aqueles círculos concêntricos em expansão,
ninguém vê círculos concêntricos em expansão contraírem e quando
eles virarem um ponto sair daquele ponto na água, uma pedrinha que
vem na sua mão. Processos reversíveis não costumam ocorrer, mas na
física de Newton matematicamente é possível isso, devido à natureza
das equações, é um tempo reversível. Uma outra coisa que é sugerida, é
que esse tempo ele é unidimensional, é como se fosse algo associado a
uma reta, que se movesse na direção, nos dois sentidos, mas na direção
dada pela reta. Uma espécie disso que a gente chama não muito
claramente de tempo linear, então a visão de Newton, a visão do
contêiner, a visão do palco, do cenário, é essa visão, digamos assim, é o
cara que adotou mais rapidamente, mais praticamente o caráter
ontológico do tempo e do espaço. Não discutiu muito a questão, apenas
admitiu, formalizou e resolveu o problema dele. Depois surgiu uma outra
visão mais sofisticada, mais interessante, mais inebriante, por incrível que
pareça, um pouco mais concreta, a noção de Einstein, do tempo como
substância primordial. No início do trabalho de Einstein isso não estava
muito claro não, só estava claro de maneira matemática, depois que
surgiram interpretações mais sofisticadas. Nesse contexto de Einstein o
tempo e o espaço são interdependentes, não há independência entre
tempo e espaço, tempo e espaço formam um contínuo, uma coisa que
está sendo discutida hoje em dia, tempo e espaço formam um contínuo
quadridimensional, três dimensões no espaço e a dimensão do tempo.
Agora, tempo e espaço se comportam como uma substância primordial,
uma espécie de recheio da realidade, quando esta substância primordial
condensa fortemente ela vira a coisa, a matéria. No início Einstein não
dizia isso muito bem, dessa maneira não. Ele dizia o seguinte:
matematicamente espaço e tempo são funções da matéria. Quem
estudou matemática aqui deve se lembrar da noção de função, é uma
relação de dependência que existe entre um aspecto variável, que tem
um certo grau de independência e um aspecto variável que tem um
grau de dependência em relação a ela, chamadas variáveis
independentes e dependentes: y = f(x), a gente diz que y é uma função
de x. Einstein dizia: “Espaço e tempo são função da matéria”. Esse é o
resultado que ele encontra na famosa equação de campo dele,
separava conteúdo, espaço temporal, aliás, forma espaço temporal do
conteúdo material e energético, uma fórmula muito bonita. Bem, tem
até uma historinha que contam sobre isso, dizem que ele chega numa
viagem de avião e na hora que ele está descendo a escadinha do
avião, um repórter vem correndo, vira para ele e pergunta: “Professor,
professor, o sr. poderia nos explicar em alguns segundos a sua teoria?” E
o velho não se perturbou, parou no meio da escada e disse: “Ah,
antigamente acreditávamos que se tirássemos toda a matéria do
universo ficaria um vazio de espaço-tempo, hoje em dia nós sabemos
que se a gente tirar a matéria do universo, o espaço e o tempo saem
junto”. Então, na verdade, a conclusão que veio depois, na década de
60, na teoria de Kiptor (?) e Willian, que geometrizava, digamos assim, a
relatividade geral, é esse modelo do espaço tempo como substância.
Coisas são pedaços concentrados de espaço e tempo, então isso aqui
não está no espaço e não está durando um tempo, isso aqui é o espaçotempo condensado. Essa interpretação é extremamente ousada e não
costuma ser colocada de maneira tão explícita como eu estou fazendo
aqui, mas é basicamente essa a ideia. É chamado modelo, ou visão da
matéria prima, do recheio da realidade. Bem, essa é a segunda visão,
muito usada na relatividade geral. Notem só um detalhezinho, na hora
em que essas teorias foram construídas, tanto a mecânica celeste quanto
a relatividade e a mecânica quântica, o conceito de tempo utilizado
ainda era clássico e newtoniano, nas três teorias. Deve haver alguma
coisa de interessante por trás desse fato, talvez relacionado à natureza
intrínseca do tempo, deve haver, na minha opinião, por que não é isso
que a gente acessa, a gente acessa outras coisas. A terceira visão é
uma visão que veio principalmente de Leibniz, uma visão interessante,
uma teoria relacional do espaço-tempo, ou seja, o espaço-tempo não
seriam coisas, espaço-tempo seriam relações ou conjunto de relações.
Então, o espaço é a relação entre coexistentes possíveis, a relação entre
essas coisas coexistentes nesse momento, me dá uma noção de
espacialidade, da mesma maneira, tempo é a ordenação dos sucessivos.
É claro que quando eu falo isso, isso é muito interessante, isso aproxima o
tempo da nossa percepção, mas ao mesmo tempo o que é que é uma
sucessão? Notem como isso é complicado, a noção de coexistência, a
noção de espacialidade tem um caráter inclusive levemente perceptual,
nós vemos o mundo, o nosso olho foi tratado pela evolução, para por
meio de certos mecanismos de paralax ocular, ou de distância entre os
olhos, avaliar a profundidade, distâncias diferentes, então eu posso fazer
essa questão de coexistentes e ter a sensação de que eu estou vendo o
espaço dessa sala, minha percepção vai até aí, mas minha percepção
não atinge o tempo, a única coisa que eu tenho quanto ao tempo é
uma sensação, eu sinto que o tempo está passando, durando, não sei
dizer direito o que é, mas eu não vejo o tempo, a única coisa que eu vejo
são índices do tempo, signos do tempo, sinais do tempo, por exemplo,
eu encontro pessoas, minha netinha por exemplo, eu encontro agora,
eu digo: “Está crescendo a bichinha”; daqui há um mês eu vou encontrála de novo e ela vai estar maior ainda, essa mudança, essa transformação
é índice, é signo de que algo passou, algo fluiu. Mesmo assim eu estou
sendo metafórico, eu não tenho a menor garantia de que algo passa ou
flui e esse algo é o tempo. Então o tempo relacional, tanto pro espaço
quanto pro tempo em si mesmo, pro caso da questão da relação espaçotempo, essa visão relacional é uma visão indireta, ela não trata da
essência do tempo, ela trata dos sintomas associados ao tempo, apesar
de ser o tempo mais utilizado pela ciência moderna agora, principalmente
nas visões mais recentes, como as visões de Prigogine e a filosofia de
Ambi Person (?) e assim em diante, o tempo das transformações, o tempo
criativo, mas é um tempo de transformações, e o que você observa é a
transformação, não é o tempo em si mesmo. Isso cria um outro conceito
de tempo, que é o mais usado, e esse está próximo da nossa percepção,
chamado tempo de processo ou tempo processual. A ideia é essa, você
não vê o tempo, a única coisa que você vê são processos. Deixa eu
tentar falar para vocês também, brevemente, o que é um processo. A
gente tem que se habituar a definir aquilo que a gente fala. Imaginem
que nós vivemos num mundo de coisas, de objetos, e que cada coisa,
cada objeto tem uma coleção de características, de propriedades, por
exemplo, essa sala aqui, fisicamente, ou seja, usando a antologia regional
da física tem propriedades como volume, temperatura, pressão, e etc...
São propriedades da sala. Agora, imaginem, admitam, e geralmente é o
que acontece, que essas propriedades apresentem intensidades, por
exemplo, a sala pode estar muito fria, muito quente, a pressão pode ser
mais ou menos alta, mais ou menos baixa, são propriedades que tem
intensidade, e mais ainda, essas intensidades costumam mudar no
tempo. A sala, portanto, ao meio dia, uma hora da tarde deveria estar
mais quente, agora já está mais fresquinha, as intensidades flutuam ao
longo do tempo. Imagine que você consiga congelar a realidade em
um certo instante de tempo e você meça as intensidades das
propriedades de uma determinada coisa, a coleção dessas intensidades,
para esse instante de tempo considerado chama-se o estado em que a
coisa está, é a definição de estado. Agora, com o passar do tempo as
intensidades mudam, se as intensidades mudam a coleção de
intensidades muda, e se a coleção de intensidades muda o estado do
sistema muda, ou seja, a mudança de estado ao longo do tempo é o
que a gente chama de processo. Então, o que você nota mesmo são
coisas que estão sofrendo processos, estão mudando as intensidades de
suas propriedades ao longo do tempo, você não vê o tempo, você vê a
mudança da propriedade, a mudança do estado, este é o tempo
processual, tempo de relógio é isso, quando você olha pro seu relógio
você não vê o tempo, você vê a mudança de estado espacial e rotativo
de um ponteiro, numa escala convencional, a escala convencional
apelou para a realidade objetiva. Descobriu-se que a terra gira em torno
de um certo eixo num certo lapso de tempo, é um tempo de processo, é
o tempo de processo de rotação da terra, aí nós tomamos isso como
base e definimos dia, hora, minuto, segundo, ano, semestre, e construímos
máquinas que reflitam isso. E aí comparamos os nossos processos, as
nossas preocupações e tal com o que o relógio diz. Então o que a gente
está trabalhando sempre é tempo de processo, agora o tempo em si
mesmo a gente nunca está trabalhando. Bem, isso coloca uma questão
interessante, de onde é que isso tudo vem? Por que afinal de contas isso
deve ter tido uma origem. Sem apelar para coisas mais altas, sempre a
resposta que nos resta, como os antigos faziam, inclusive os grandes
cientistas faziam isso, Galileu, Newton, eram pessoas extremamente
religiosas; se a gente não quiser apelar para isso, a gente vai ter que
admitir certas coisas, a gente vai no nosso baú de ideias limitadas e
comprometidas, que são de natureza teórica, e tenta entender o
processo. O quê que a nossa sensação diz? Que coisas são! Que coisas
persistem no tempo! Coisas permanecem! Bem, existem coisas complexas
que permanecem e para que possam permanecer elas são obrigadas a
mudar, então o termo permanência que eu estou usando aqui não é no
sentido de extremamente conservado ou totalmente conservado, eu
estou querendo dizer como permanência é capacidade de durar
tempo, mesmo que para isso seja necessário mudar. Como é o caso da
vida, e como é o caso da evolução. Chama-se esse parâmetro sistêmico
de permanência, parece ser o mais fundamental de todos, e a pergunta
ontológica que surge é: por que as coisas tendem a permanecer? Por
que isso insiste em estar aqui? Por que eu estou aqui já há um certo tempo
e vocês também? A gente sabe que essa dimensão do eterno não existe,
pelo menos dentro do alcance humano não existe. Todas as coisas
nascem, “vivem” e morrem, desaparecem, galáxias, estrelas, black holes,
tudo isso um dia vai desaparecer. E existem coisas muito mais efêmeras,
de baixa permanência, insetos que vivem semanas, nuvens que existem
só durante alguns minutos, as escalas de permanência são extremamente
variáveis dentro da realidade. Mas de onde é que vem esta tentativa de
permanecer? Não é a permanência final, é uma mera tentativa, de
onde é que isso vem? As modernas teorias científicas dão uma resposta
razoável, discutível, mas razoável, vocês já devem ter ouvido falar do
modelo do Big Bang? É um modelo cosmológico, modelos cosmológicos
são representações da realidade como um todo, isso soa extremamente
pretensioso, o ser humano não é capaz de chegar ao todo, ele mal
consegue lidar com partes, mas a gente faz essa tentativa. Dizem que a
cosmologia se tornou científica com o trabalho de Einstein, até aí era
ontologia pura, era filosofia. Bem, o modelo do Big Bang diz o seguinte:
há um tempo finito atrás, não vamos discutir agora que tempo é esse,
mas há um tempo finito atrás, algo aconteceu, ninguém sabe dizer o
que aconteceu nesse algo aí, existe uma indeterminação matemática
chamada singularidade que não nos permite dizer nada, mas algo
ocorreu e esse algo, se a gente pegar a formulação original de Einstein,
esse algo criou o espaço-tempo, e criou a matéria, na verdade uma
dualidade matéria-energia, algo dúbio. Essa coisa entrou em expansão,
não faz sentido perguntar aonde ela expande, a teoria não responde
isto. Nosso senso comum diz que toda vez que algo expande, esse algo
expande em algum espaço, é a visão do contêiner, a teoria não tem
como dizer aonde ocorre a expansão, a única coisa que ela demonstra
é que há expansão. E há expansão não só da matéria, na verdade a
matéria mal é afetada nisso, a expansão é do espaço-tempo, ou seja, se
você observar as galáxias como Hubble fez e medir a expansão do
universo pelo afastamento das galáxias, você vai ver que as galáxias se
afastam, mas elas não estão sendo deformadas ou esticadas pela
expansão, é o espaço entre elas que aumenta, o espaço-tempo entre
elas que aumenta, então esse é o universo em expansão, esse resultado
foi obtido na década de 20, se não me engano, por Hubble, as evidências
a favor dessa ideia foram encontradas... Essa é a primeira ideia dada
pelo Hubble, e depois em 1965 surgiu uma outra evidência relativa à
grande explosão que gerou isso tudo, que é metaforicamente chamada
de o Big Bang. É, na verdade, Einstein já tinha concluído algo parecido
com isto só que ele mesmo não aceitou, ele construiu a equação de
campo dele e quando ele foi preencher de significação a equação, ele
chegou à conclusão de que se ele tivesse uma variação da matéria e
energia do universo como um todo ele entrava num lado da equação e
do outro lado iria aparecer a forma do universo. Perguntar pela forma do
universo é fazer uma pergunta cosmológica, é nesse sentido que ele
virou um cosmólogo. Ele encontra um universo fechado, aproximadamente
esférico, ou seja, o espaço-tempo são deformados pelo conteúdo de
matéria, criando alguma coisa de fechado. Eu insisto em dizer, não se
sabe aonde, mas há algo de fechado. Só que daí na equação dele, ele
observa, era uma equação não linear, a equação dele abria caminho
para instabilidade, ou seja, era altamente provável que a solução da
equação fosse uma crise, e aí entra em jogo a questão religiosa em
Einstein. Einstein era um camarada religioso, e o Deus dele, a versão que
ele tinha de Deus, era a versão de Espinosa e havia, portanto, uma
identificação profunda entre Deus e a realidade, entre Deus e o universo.
Einstein não podia admitir que Deus fosse uma crise, ou seja, o universo
não podia ser crise, então conscientemente e contra a natureza do
método científico ele soma uma constante do lado tensorial da equação,
do tensor de conteúdo, de matéria e energia, para equilibrar o universo.
Depois Hubble, logo depois Hubble descobriu a expansão do universo e
ficou evidente que o universo é uma crise sim, e é uma crise de expansão.
Bem, e ele reconheceu publicamente que esse foi o maior erro da vida
dele. Mas então, existe uma expansão primordial, essa expansão
primordial é considerada pelos cosmólogos como primeiro grande
processo que vai orientar o eixo do tempo, ou seja, o tempo se orienta
no sentido da expansão do universo, quando o universo está contraído é
o passado, na medida em que ele aumenta de tamanho vai construindo
o futuro, ou seja, existe um eixo do tempo que vem de um certo instante
t0 na direção de um futuro em aberto, e isso é regido pela expansão do
universo, esse é o primeiro eixo do tempo, é um eixo por enquanto
irreversível. Aí as pessoas dizem assim: “Ah, mas existem modelos
cosmológicos em que o universo mais cedo ou mais tarde pode voltar a
contrair, ele pode reverter, aí o tempo vai reverter e volta ao passado”.
Não, acontece que existe uma coisa chamada entropia, que é a
capacidade do universo se desorganizar, ou seja, quando o universo
está em expansão, ele está em expansão e desorganizando em larga
escala, embora esteja se organizando em pequena escala, ele está se
desorganizando em larga escala, quando ele começar a retrair o tempo
vai continuar e ele vai devolver, nessa contração, o que ele desorganizou,
ou seja, se agora eu olho pro céu e vejo estrelas nítidas, bem definidas no
céu, quando o universo estiver contraindo o que vai voltar não é a
imagem das estrelas bem definida, é uma luz difusa que a estrela perdeu
num processo entrópico dissipativo, ou seja, o que eu vou observar
enquanto processo não é o filme passado ao contrário, então o eixo do
tempo continua identificável como sendo o futuro, indo para o futuro,
bem, esse é o primeiro eixo do tempo. O segundo eixo do tempo, graças
a expansão o universo não esfria, por que ele usa a energia interna dele
para poder dilatar, para poder expandir, então graças a expansão há
uma queda de temperatura, ou seja, no passado alta temperatura, no
futuro baixa temperatura. Essa temperatura, quanto a energia, foi
medida em 1965, 2,78 graus kelvin, quase o 0 absoluto, bem frio já, mas
ainda tem alguma temperatura, essa queda de temperatura define um
eixo do tempo termodinâmico, mas esse eixo termodinâmico é permitido,
é imposto por quem? Pela expansão do universo. Então o segundo eixo
do tempo que é de natureza termodinâmica, depende do eixo da
expansão do universo. Bem, mas graças ao resfriamento, matéria e
energia se separam e começam a qualecer (?) de maneira separada, a
matéria, basicamente hidrogênio, se decompõe em grandes nuvens e
ganha movimentos de rotação, quantidade de movimento rotativo, e aí
começa a agir o princípio da conservação do momento rotativo, e essas
nuvens são as próprias galáxias, começa a surgir um mar de galáxias, e
aí começa um processo local de contração de matéria por efeito
gravitacional com emissão de radiação pro espaço mais frio em
expansão, isso define uma termodinâmica local, aí aparece, e isso
aparece na nossa galáxia também, o terceiro eixo do tempo, que é um
eixo termodinâmico pela ativa produção de entropia intragaláctica.
Então, notem, já temos três eixos: eixo de expansão provocando
resfriamento, que está provocando a produção de entropia local.
Graças a isso sistemas planetários se formam, estrelas evoluem, material
complexo é produzido e em certas circunstâncias aparentemente muito
difíceis de ocorrer, mas isso é discutível, essa organização toda redunda
em algo notável chamado vida. Aí aparece o eixo do tempo biológico,
que é o eixo da evolução, que nós só conhecemos a nossa forma de
vida aqui na terra. Isso vem durando, esse eixo do tempo está se
estendendo a coisa de 4,5 bilhões de anos. Nesse processo evolutivo
aparece um outro eixo, que é o eixo da consciência psicológica, nós
pensando o tempo, se você parar para pensar direitinho você vai ver
que o primeiro eixo aponta pro futuro, o segundo, o terceiro, e o eixo
psicológico também aponta pro futuro. Como é que nós percebemos
esse eixo psicológico na nossa cabeça? Pela nossa memória, pelas
nossas lembranças. Aí as pessoas dizem: “Ah, mas por meio da sua
lembrança você pode voltar ao passado”. Não é bem assim, ou seja,
você volta ao passado, mas não de maneira processual, quando você
se lembra de algo passado, por exemplo, o que é que você estava
fazendo no sábado? Sua cabeça dá um salto, cai no sábado, digamos
assim, e recorda tudo de novo do passado pro futuro. Como aconteceu.
Ninguém despensa, ninguém pensa ao contrário, mesmo dentro do
psiquismo, você faz sempre uma mesma história, unidirecional, na direção
do futuro. Bem, e aí já surgem outros eixos do tempo mais complexos,
tempos psicossociais, tempos sociais, tempos culturais, etc... Uma
multidão de tempos, que vão ficando cada vez mais diversificados e
complexos, mas por enquanto todos eles orientados do passado pro
futuro segundo um critério de reversibilidade, por outro lado, apesar
dessa diversidade do tempo, o que nos resta é o que? Todos eles, todos
são tempos de processo, não são ainda o tempo em si mesmo, são
índices, são signos desse tempo que está por trás. Prigogine chama esse
tempo que está por trás de tempo primordial, o que ele trabalha o tempo
todo na teoria dele das estruturas dissipativas é tempo de processo, mas
ele admite a possibilidade de um tempo primordial anterior, e mais,
quando ele analisa os modelos cosmológicos ele diz que se houver
alguma coisa que existiu antes desse universo surgir essa coisa é o tempo
primordial, ou seja, acima de tudo já havia o tempo, e dado o tempo o
universo se tornou possível, essa é a visão de Prigogine, Elia Prigogine, é
um nome famoso na ciência, pelo menos em alguns lugares. É interessante
como a gente não costuma ver nas universidades o conceito dele. O
nome de Prigogine ser citado, ser debatido, é muito raro, nunca entendi
muito bem o porquê, mas Prigogine fez contribuições notáveis com a
teoria de estruturas dissipativas, ele contribuiu muito para teoria da
complexidade, e trabalhou muito nas vizinhanças ao mesmo tempo que
o pessoal da física de caos. Quando ele formula a teoria das estruturas
dissipativas ele usa o que a gente chama de um dos caminhos pro caos,
que é a teoria das bifurcações. Existem três: teoria das intermitências,
teoria das bifurcações e o surgimento, a formação de atratores estranhos,
são três hipóteses diferentes pro caos. Prigogine trabalhava com a teoria
das bifurcações. Mas ele percebe uma coisa notável, depois, quando
ele percebe que já estava fazendo a física de caos ele reescreve o
trabalho dele, vocês devem conhecer um livro famoso dele que de certo
foi publicado aqui no Brasil: A nova aliança. A nova aliança foi publicado
aqui em 1984, nesse ano, lá fora, na Bélgica, Prigogine já tinha reformulado
o livro para a linguagem da física de caos e esse livro foi republicado
com outro nome: Ordem a partir do Caos, que é o problema na verdade
da auto-organização, aí, entra toda uma discussão notável sobre
correlações de longo alcance, o problema das funções memórias dos
sistemas, o que permite a auto-organização, a emergência da
complexidade, ou seja, os fundamentos termodinâmicos da vida, por
que a vida é isso. Mas Prigogine quando estava trabalhando com isso
ele percebeu uma coisa, seria possível conceituar uma espécie de
tempo interno. O tempo interno seria também ainda um processo, mas
um processo que iria manifestar o crescimento de complexidade dos
sistemas, analisando os atratores em espaços-estados ele percebe que
a maioria desses atratores tem um caráter fractal, ou seja, em dimensão
fracionária, e ele percebe que essa fractalidade pode ser construída por
meio de um conjunto de operações matemáticas, e ele chega à
conclusão de que existe uma operação fundamental que engendra
todas as outras, ou seja, um alfabeto base. Quando o sistema evolui no
tempo e fica complexo, a fractalidade fica mais complexa no espaçosestados dele, na representação histórica dele. Prigogine então mostrou
que existe um operador matemático, uma entidade matemática, que
quando aplicada a história do sistema vai mostrando o gradativo
crescimento da complexidade dessa história, dessa fractalidade. O
número de vezes em que você sai da condição mais simples aplicando
esse dispositivo matemático até chegar à complexidade atual do
sistema, esse número de vezes é a idade do sistema, o espaço complexo,
chamado tempo interno do sistema, essa transformação matemática
recebe o nome popular de transformação do padeiro. Já viram o padeiro
fazendo pão? Ele pega a massa, espreme, depois estica, dobra, estica,
dobra, estica, dobra, muito processo caótico e de atrator estranho
ocorre no espaço matemático de estados por meio do processo ser
equivalente a esticamento e dobra, ou seja, a transformação do padeiro
pode ser expressa matematicamente, e ele fez isso com bastante rigor. E
eu nunca entendi direito, por que eu nunca consegui estudar isso a fundo
assim, mas esse operador matemático que faz isso tem um pezinho da
mecânica quântica, não do ponto de vista físico, mas do ponto de vista
matemático, ou seja, tem uma similaridade matemática com os
operadores irreversíveis da mecânica quântica, ou seja, a proposta de
Prigogine na verdade é uma proposta de síntese, e é a primeira vez que
aparece uma maneira de quantificar pelo menos uma forma de
complexidade. Complexidade é outro problema, não é definida até
hoje, a gente fala uma palavra, mas a gente não sabe o que a gente
está falando direito. Tempo e complexidade parecem andar juntos, por
meio de um mecanismo de evolução, mesmo assim isso é uma hipótese
ontológica. A hipótese de que ao longo do tempo a complexidade da
realidade está aumentando cada vez mais, muita gente não concorda
com isso, inclusive o pessoal da biologia tem bons exemplos do contrário,
mas em média, talvez no universo como um todo, a complexidade seja
sempre crescente, e ela poderia ser mais um índice para denunciar a
passagem do tempo. Poucos filósofos trabalham com isso, Pierce supunha
isso, que vivemos em uma realidade de crescente complexidade, Teilhard
de Chardin que foi um antropólogo jesuíta, religioso, ele era padre,
católico, mas era um evolucionista, ia contra o que a igreja dizia, Chardin
também acreditava numa lei de crescimento da complexidade. Outros
sistemistas acham que o que cresce não é a complexidade, são
características da organização, como é o caso da integralidade, da
escola de Denver. E essa questão da complexidade é algo que está
sendo muito discutido agora, nós estamos necessitando urgentemente
de uma teoria da complexidade por que nós estamos vivendo num
mundo cada vez mais complexo, o sintoma disso se reflete entre outras
coisas no nosso tempo subjetivo, hoje em dia a gente diz que o tempo
passou e eu não senti, o ano já começou e nós já estamos indo para
março já, o que acontece na verdade, o tempo é o mesmo fisicamente
falando, a nossa cabeça é que não consegue elaborar a quantidade
de informação que está aumentando, e isso nos afasta da nossa
percepção normal do tempo, esse é um subproduto da complexidade
crescente da nossa realidade, se a gente não aprender a lidar com isso,
não sei o que vai acontecer.
Acho que já passou bastante tempo. Tá ok pessoal? Era mais ou
menos isso que eu tinha para falar para vocês. Muito obrigado.
FICHA TÉCNICA
A Máquina do Tempo (ou Longo Agora) - O FAROL, O ESPELHO, A FESTA
Concepção, Direção e Dramaturgia
Cristiane Zuan Esteves
Atrizes Criadoras
Anna Luiza Leão
Graziela Mantoanelli
Manuela Afonso
Paula Lopez
Paula Possani
Performers convidados (O FAROL)
Caio Paduan
Maíra Vaz Valente
Mario Panza
Sergio Ponti
Tamara Leite
Fotografia
Roberto Setton
Criação Musical e Sonoplastia
Pedro Semeghini
Edição Publicação Documental
Alice Possani
Assistência de Direção
Joana Dória
Programação Visual
Fernando Bergamini
Direção Musical
Erico Theobaldo
Produção Executiva de Junho a Dezembro 2011
Cuca Dias
Cenografia (A FESTA, O ESPELHO)
Simone Mina
Produção Executiva
Anayan Moretto
Figurinos (A FESTA, O FAROL)
Anne Cerruti
Direção de Produção
Henrique Mariano
Autoria Cabelo e Maquiagem (A FESTA)
Bob Toscano
Idealização e Realização
OPOVOEMPÉ – Núcleo Artístico
Anna Luiza Leão
Cristiane Zuan Esteves
Graziela Mantoanelli
Manuela Afonso
Paula Lopez
Paula Possani
Iluminação (A FESTA)
Grissel Piguelim
FICHA TÉCNICA
TRILHA SONORA DOCUMENTAL
Entrevistadores
Nilson, Nesner Fabiano, Vagner Pedro de Souza,
OPOVOEMPÉ
Edcarlos taxista, Homem do avião, Oswaldo
Joana Dória
Zuan Esteves, Caio Lafraia Brant, Nayara, Nobu,
Pedro Semeghini
Kenytiro, Alessandra Esteves de Lima Horta, Lauro
Raful, Pedro Rodrigues de Araújo, Tiago Silva
Edição Entrevistas
Cristiane Zuan Esteves
Trechos das palestras (O FAROL)
Maria Rita Kehl
Criação e Montagem
Laymert Garcia dos Santos
Cristiane Zuan Esteves
José Miguel Wisnik
Pedro Semeghini
Entrevistados (O ESPELHO)
Finalização e Mixagem
Djalma (Morere), Maria Teresa Pedro, Claudio
Erico Theobaldo
Possani, Lucila Engholm Acunha, Dona Maria José,
Pedro Semeghini
David Lopes Levi, Lídia de Almeida Afonso, Lúcia
Sandler, Fernanda Gomes, Guilherme Brandão,
Atores (O FAROL)
Helliane de Lima, Raquel Pelegrini de Campos,
Beto Matos
Guilherme de Lima, Walther Possani, Oswaldo Zuan
Cristiane Zuan Esteves
Esteves, Bernardo de Lima Horta, Antonia de Lima
Horta, Decio Sanchis, Julia Sanchis Spiandorim,
Entrevistados (O FAROL)
Anna Lucia Cardenuto Sanchis, Jovita do Valle e
Eduardo José Afonso, Lucila Engholm Acunha,
Pedro Torrano
Valdir Afonso, Decio Sanchis, João Ildes Piraí,
PROCESSO DE PESQUISA
Palestras
Jorge de Albuquerque Vieira
José Miguel Wisnik
Observadores Participativos
Natalia Oliveira Moreira (Documentação)
Theo Coelho Yepez (Sonoplastia)
Vitor Djun (Sonoplastia)
Coordenador Workshop
Key Sawao
Participantes Workshop
Flávia Melman
Janaina Carrer
Luannah Jimenes
Marcos Suchara
Mariana Senne
Thiago Antunes
Coordenador Grupo de Estudos 01
Ciro Marcondes Filho
Coordenadores Grupo de Estudos 02
Cassiano Quilici
Laymert Garcia dos Santos
Maria Rita Kehl
Peter Pál Pelbart
Participantes Grupos de Estudos 01 e 02
André Liberato
Beto Matos
Caio Paduan
Débora Pinto
Isabela Santana
Ivan Martucci Fornerón
Janaina Carrer
Joana Doria
José Cavalhero
Livia Piccolo
Luciene Guedes
Marco Catalão
Marcos Suchara
Pedro Felício de Oliveira
Ruy Filho
Sandra Lessa
Coordenação Treinamento Aberto:
Graziela Mantoanelli (Suzuki Training)
Cristiane Zuan Esteves (Viewpoints)
Participantes Treinamento Aberto
Beto Matos
Carolina Leiderfarb
Flávia Melman
Hugo Reis
Janaina Carrer
Luciana Arcuri
Marcos Suchara
Talma Salem
Vera Bonilha
Teoria Musical
Natalia Mallo
Ratnabali
Benjamim Taubkin
Emiliano Patarra
AGRADECIMENTOS
Adri Macul, Adriana Lopes, Adriana Rolin e Flávio (Subprefeitura de Pinheiros Secretaria do Desenvolvimento), Adriana Rota, Adriano e Alessandra de Lima
Horta, Alexis Pagliarini, Alice Bavaresco Noronha, Amma, Andrea Lang, Andrea
Zuan Esteves, Ângela Maria Miranda, Angelo Mundy, Anna Lucia Cardenuto
Sanchis (Milú), Antonio Lopes, Arthur, Beatriz Viana Dória, Bene Mantoanelli,
Bernardo, Antonia e Vinicius, Beto Matos, Cabeludo (Boipeba), Caio Lafraia Brant,
Carolina Barretto Gimenes, Carolina Benedetti, Casa da Dança, Celso Curi, Celso
Lopes, Chico, Cia Temporaria, Cida GAG, Cintia Sanchez, CJE-ECA-USP, Claudia,
Claudio Possani, Clelia Lopes, Clio Levi, Clóvis Arruda, Coletivo Bruto, Conceição,
Cristina Cavalcanti, Daniel Mantoanelli e Caroline Mantoanelli, Danilo Vieira,
David Lopes Levi, Décio Sanchis, Dilson Rufino, Dona Maria José, Édia D’Angelo,
Elen Londero Eneida D’Angelo, equipe do _barco, Estudio Luzia, Fabiano Marçal
Estanislau, Fabio Machado Gimenes, Felipe Cohen, Fernanda Carvalho, Francisco
Medeiros, Gabriel Pinheiro, Gabriela Ciancio, Grupo Lume, Jiddu Pinheiro, João
Ildes Piraí, Joaquim Gama, Jorge Alberto Ciancio, Jovita do Valle, Jovita Torrano,
Julia Sanchis Spiandorim, Karina Wolffenbuttel, Kiki Vassimon, Lama Padma
Santem, Laura Reis, Leonardo Brant, Lizandra de Almeida, Lucia Sandler, Lucila
Engholm Acunha, Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida, Marcelo Cunha, Márcia
Lopes, Marcos Azevedo, Maria Antonieta Monteiro Lopes, Maria Salete Zandona,
Maria Teresa Pedro, Mariana Coutinho, Mariana Vaz, Mario Mantoanelli, Marília
Tandeta, Marisa Riccitelli Sant’ana, Meire, Meire, Miguel Worcman Santos, Mirella
Brandi, Nesner Fabiano, Nilse Ikeda, Nilson, Odsal Ling, Olgaria Matos, Osvaldo
Pinheiro, Otavio Almeida, Otília dos Santos, Paula Santoro, Paulo Pereira, Pedro
Rodrigues de Araujo, Pedro Torrano, Rafael Ciancio, Raquel Pallares, Raquel
Ravanini, Raquel Sherab, Raul Teixeira, Ravi Cohen, Regina Barbosa, Renata Leão,
Rene Piazentin, Rita, Rita Afonso, Rosangela Zanchetta, Rubens Velloso, Ruy FIlho,
Secretaria de Obras e Infraestrutura do Município de São Paulo, Silvia Helena e
Oswaldo Zuan Esteves, Sonia Maria, Sonia Sobral, SP Escola de Teatro, Tareke Ortiz,
Tatiana Sanchis, TeatreKunst, Toni Mestrovic, Triade, Vagner Pedro de Souza, Valdir
Afonso, Valdir Rivaben, Vera Marcondes e Walter Possani.
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