OPOVOEMPÉ apresenta A Máquina do Tempo (ou Longo Agora) patrocínio apoio institucional apoio cultural NOTA DA ORGANIZAÇÃO 1 - ANTES DO TEMPO: ORIGENS OPOVOEMPÉ Inquietações Originais 2 - INCORPORANDO O TEMPO Objetivo do Projeto Composições Consígnias Descrições de Composições 3 - DOS CAMINHOS DA CRIAÇÃO Por que três? por Cristiane Esteves, direção e dramaturgia 4 - UMA CONTEMPLAÇÃO DA VELOCIDADE Primeiro Experimento - O Farol Relato de um espectador Entre breves, semi-breves e silêncios: aulas de música Entrevista com João Ildes Piraí, morador de Pinheiros há 63 anos Entrevista com o historiador Eduardo José Afonso 5 - UMA CONTEMPLAÇÃO DA VIDA E DA FINITUDE Segundo Experimento - O Espelho Perguntas do Público Impressões, memórias e esperanças 6 - COMPARTILHAR UM AGORA Terceiro Experimento - A Festa Depoimento de uma espectadora Habitar o presente: entrevista com Midori Takada O tempo obrando sua arte: sobre treinamento e invisibilidades Entrevista com Valdir Afonso 7 - DEVORANDO O TEMPO Relato participante do Grupo de Estudos - Débora Pinto Transcrições palestras e grupos de estudo FICHA TÉCNICA AGRADECIMENTOS NOTA DA ORGANIZAÇÃO O Projeto A Máquina do Tempo (ou longo agora) foi contemplado pelo Programa de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo, e foi realizado de junho/2011 a agosto/2012. Nesse período aconteceram mais ou menos 8 hrs de palestras, 25 hrs de entrevistas, 28 hrs de aulas de música, 30 hrs de treinamentos abertos, 36 hrs de grupos de estudos orientados, 70 hrs de apresentações, 160 hrs de edição e montagem da trilha, pelo menos 900 hrs de ensaios, além de inúmeras leituras e incontáveis reuniões! Ufa!... Convidamos nesse momento, você, leitor, a compartilhar um tanto de tudo que foi vivido no breve tempo da leitura das páginas que seguem. Como trazer para esse texto a intensidade da experiência vivida e compartilhada? Como compartilhar a sensação das tempestades e trovoadas que faziam o chão da sala de trabalho tremer, deixando as tardes misteriosas e cheias de uma possibilidade de vida a mais? Como descrever os momentos em que, durante um treinamento, o grupo alcançava uma conexão sensível e apurada? Como se os sete anos de história coletiva adquirissem, naquele instante, uma dimensão inimaginável e surpreendente? Como transformar em palavras a experiência das atrizes em revisitar sua história através da voz de familiares queridos? Como reproduzir a sensação do público que, por sua vez, era convidado a resignificar sua própria trajetória a partir da delicada condução das cenas? Foram muitas as experiências, agrupadas nessa compilação mais por critérios subjetivos do que em sequência cronológica. Afinal, já disse o mestre Guimarães, através do sábio Riobaldo: “contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância (...) Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente que outras, de recente data”... Nosso convite é para que você entre conosco nessa máquina do tempo, no desejo de que possa vislumbrar parte desse intenso processo de pesquisa e criação, e, quem sabe, viajar um pouco pelo tempo, no tempo, com o tempo... Vamos lá! Cinco onde você está enquanto lê esse texto? Quatro enxerga pessoas à sua volta? Três a partir de agora, observe se o tempo do outro é o mesmo que o seu. Dois seus pés tocam o chão? Um uma respiração profunda antes do mergulho. Tudo viaja no tempo. Quando terminar de ler esta frase, você terá viajado no tempo alguns segundos. 1 - ANTES DO TEMPO: ORIGENS OPOVOEMPÉ. As pessoas em pé nos pontos de ônibus. As pessoas em pé nas filas. As pessoas em pé, caminhando, em existência ativa, coletiva, anônima. Nosso OPOVOEMPÉ está sediado no imenso conglomerado urbano que é a cidade de São Paulo. Para brincar de ser-cidade. Para brincar de cor, de olho no olho do olho do outro. O grupo surgiu em 2004 com um trabalho baseado na fisicalidade e no desenvolvimento do ator-criador no contexto contemporâneo. A diretora Cristiane Zuan Esteves e as atrizes Ana Luiza Leão, Graziela Mantoanelli, Manuela Afonso, Paula Possani e Paula Lopez formam o núcleo permanente de criação. Desde 2005, OPOVOEMPÉ realiza a Guerrilha Magnética, uma série de intervenções na rua e em espaços públicos, visando, sobretudo, propiciar relações mais vivas entre as pessoas e a apropriação do espaço da cidade. Da Praça da Sé à esquina da Avenida Paulista com Consolação, foram alvo das intervenções do grupo: supermercados, feiras-livres, viadutos, estações de trem e janelas de edifício. O grupo já encheu as ruas com trouxas coloridas, flanelas alaranjadas, desenhou percursos com giz no chão, ou simplesmente transitou entre invisibilidade e evento, entre gesto banal e dança do cotidiano. A Guerrilha Magnética nasceu do desejo de interagir com o potencial dramático e coreográfico das situações cotidianas. Fazer a “dança do cotidiano” no cotidiano, falar do homem contemporâneo no contexto da urbanidade. Baseadas nas dinâmicas da cidade e em sua arquitetura, as intervenções acontecem em situações de trânsito, consumo e trabalho. Em 2007, o grupo realiza a montagem de 9:50 Qualquer Sofá, espetáculo para espaços alternativos e públicos. Já em 2008, OPOVOEMPÉ participou do UrbanFestival, na cidade de Zagreb, Croácia, sendo o primeiro grupo latino-americano a participar desse festival de arte pública, e da Mostra SESC de Artes. Em julho de 2009, o grupo se apresentou em Munique, Alemanha, onde apresentou um “work in progress” do espetáculo AquiDentro, além da intervenção Out Of Key(s). No mesmo ano estreia o espetáculo AquiDentro AquiFora em São Paulo, sendo contemplado com o Prêmio de Melhor Ocupação de Espaço da Cooperativa Paulista de Teatro. O espetáculo faz apresentações em algumas cidades e no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto e entra na lista da Revista Cult como um dos melhores espetáculos teatrais da década. Em 2010 o grupo é selecionado no Prêmio Rumos Teatro do Itaú Cultural e desenvolve pesquisa com o Lume Teatro, de Campinas. Quantas horas por dia você trabalha? Quantas horas por dia você fica em deslocamento? Quantas horas por dia você utiliza algum dispositivo eletrônico? (celular, computador, internet, telefone, jogos eletrônicos, televisão) Quantas horas por dia você dorme? Que atividades você realiza simultaneamente: - comer e usar o celular? - dirigir e usar o celular? - caminhar e usar o celular? - conversar e usar o celular? - usar o toalete e usar o celular? Falta tempo pra quê? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ O tempo voa quando.... _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ O tempo demora quando.... _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ Inquietações Originais O Tempo O tempo é um aspecto básico da existência humana. O tempo tem sido matéria da filosofia, da física, da religião, psicologia e da história. Discutimos a natureza do tempo, nossa percepção do tempo. Reconhecemos a nós mesmos como seres temporais, através da consciência do fluxo da vida, de seu início e de sua finitude. Registramos a passagem do tempo em segundos minutos, horas, dias, meses, anos, décadas, séculos, eras, como se tudo tivesse lugar numa escala temporal objetiva. Reconhecemos que nossos processos e percepções mentais fazem segundos passarem como anos, ou horas agradáveis passarem com imensa rapidez. Percebemos a relação temporal entre os eventos, um evento após o outro. Vivenciamos o tempo através das suas dimensões: a lembrança do passado, a atenção ao presente e a expectativa de futuro. Em torno do nosso sentido comum de tempo, organizamos nossas vidas diárias. Mas recentemente, sentimo-nos na crista de grandes mudanças, num mundo em que o impulso geral parece ser para frente numa aceleração vertiginosa do tempo. Das inquietações diante dessas mudanças, nasce o desejo de questionar o tempo e nossa relação com ele através deste projeto. Globalização, Aceleração e Velocidade “O capitalismo é o senhor do tempo, mas tempo não é dinheiro. Isso é uma monstruosidade. O tempo é o tecido da vida.” Antonio Cândido A modernização capitalista buscou acelerar o tempo de produção e o tempo de circulação de mercadorias. Na análise de David Harvey, a estrada de ferro e o telégrafo, o automóvel, o rádio e o telefone, o avião a jato e a televisão e a recente revolução nas telecomunicações serviram para fazer do mundo um local menor. Assim, passamos a viver a compressão do espaço (tudo se passa aqui sem distância, sem diferença, nem fronteiras) e a compressão do tempo (tudo se passa agora, sem passado nem futuro). A partir do último quarto do século XX, a velocidade conectou mercados díspares em um chamado mercado mundial com produtores globais e consumidores globais, regidos pela descartabilidade e por mudanças rápidas. Os efeitos dessa velocidade têm se refletido na organização da vida social e da vida subjetiva. Segundo Franklin Leopoldo e Silva, vivemos aquilo que é chamado de aceleração do tempo histórico, numa era de mudanças de caráter abrupto. Ao experimentar a velocidade, sentimos que tudo depende de acontecimentos que dominamos cada vez menos. Haveria um comprometimento da “consciência íntima do tempo”. No próprio ato de representar o tempo, ele nos escaparia pelo acúmulo de transformações que mal podemos compreender ou controlar. Era da Informação e o “Tempo Real” “E quem são os atores do tempo real? Somos todos nós?... A história é comandada pelos grandes atores deste tempo real, que são, ao mesmo tempo, os donos da velocidade e os autores do discurso ideológico. Os homens não são igualmente atores desse tempo real.” Milton Santos O que hoje aceitamos como “tempo-real” dos acontecimentos é um reflexo das telecomunicações instantâneas e das tecnologias de informação. Essas dissolveram o fluir tradicional de passado, presente e futuro, e permitiram um mundo definido em termos de contínua “telepresença”. Ironicamente, a antiga idéia filosófica de “viver no presente” é realizada de fato e em massa por meio de tecnologias comunicacionais. Mas cabe lembrar que, para Milton Santos, “Na família dos imaginários da globalização e das técnicas, encontra-se a ideia difundida com exuberância de que a velocidade constitui um dado irreversível na produção da história. Na verdade, porém, somente algumas pessoas, firmas e instituições são altamente velozes.” Ainda assim, para Marilena Chauí, “é preciso levar em conta como o poder econômico se apropria desta velocidade. Nosso presente é um instante de mutação - e mutação drástica, profunda. Sob efeito das tecnologias eletrônicas de informação, a experiência desconhece sentido de continuidade e se esgota num presente reduzido a um instante fugaz - um mundo sem tempo, onde nada passa e nada fica, onde tudo coexiste sem passado, nem porvir, num presente interminável”. Para Maria Rita Kehl, paradoxalmente, as mesmas inovações tecnológicas destinadas a nos poupar tempo de certas tarefas e aumentar o tempo ocioso, vem produzindo um sentimento crescente de encurtamento do tempo: “O mandato aproveite bem sua vida, que poderia produzir alguns efeitos interessantes e criativos, torna-se estéril quando a ideia de aproveitamento alia-se à lógica da produção, da acumulação e do consumo. A obsolência do passado e da memória produz um sujeito permanentemente disponível, pronto a se desfazer de suas referências em troca das novidades em oferta. Desligado do frágil fio que ata o presente à experiência passada, voltado sofregamente para o futuro com medo de ser deixado para trás, o dito “consumidor” sofre com o encurtamento da duração. Assim se desvalorizam o tempo vivido e os atos significativos da existência.” A Questão do Futuro e do Esquecimento « Que horas são? -A mesma de sempre. » Beckett, Fim de Jogo Frente à sensação de presente absoluto, fica a questão de como vemos o futuro, lidamos com o passado e vivemos os ciclos. A ausência de perspectiva de longa duração e de longo prazo causa inquietude. Segundo Stewart Brand, “A civilização está vivendo em um patológico estado de atenção curta. A tendência talvez venha da aceleração da tecnologia, da perspectiva de curto alcance de uma economia voltada para o mercado, das expectativas das democracias voltadas para as próximas eleições, ou das distrações das multi-tarefas pessoais. Algum tipo de mecanismo capaz de contrapor esta visão, a curto prazo, é necessário - algum mecanismo de longa perspectiva e de responsabilidade a longo prazo- onde “longo prazo” seja medido no mínimo em séculos.” O filósofo e arquiteto Paul Virilio analisa: “Quando se trabalha com a velocidade, trabalha-se com o esquecimento. As tecnologias de tempo real, as tecnologias da globalização do tempo, trazem nelas mesmas uma potência de esquecimento, de evasão da realidade, de todas as realidades. É uma das ameaças do futuro. A perda dos vestígios e a perda da memória.” Cinco segundos para lembrar- O que você fez na última quinta-feira? 5 4 3 2 1 Cinco segundos para lembrar- Em quem você votou na última eleição? 5 4 3 … 1 Cinco segundos para lembrar- Como eram as manhãs da sua infância? 5 ... 3 2 ... Cinco segundos para lembrar- Qual o nome dos seus avós? ... 4 ... 2 ... Cinco segundos para lembrar - Qual o nome dos seus bisavós? … … … … ... O Tempo é uma pessoa... 2 - INCORPORANDO O TEMPO Um dos objetivos do projeto era a criação de um experimento cênico em três partes. Para isso, o grupo se propôs a desenvolver o mesmo tema em três experiências temporais distintas, sendo que cada uma das partes deveria: - propor uma vivência temporal diferente ao espectador. - propor uma relação específica com o espectador no que se refere ao espaço, à função do público e à duração da experiência. - desenvolver as mesmas questões dramatúrgicas. As partes da experiência deveriam ser independentes, mas complementares umas às outras. Poderiam acontecer na cidade, no espaço público ou em sala fechada. Poderiam ser apresentadas em conjunto e também de forma independente. Utilizariam os espaços físicos e recursos que se fizessem necessários no decorrer da pesquisa e iriam incorporar o espectador como co-criador. Isso implicou na criação de uma dramaturgia pós-dramática, não ficcional, com incorporação de elementos da narrativa e do documental e na criação de formatos de espetáculos porosos à interferência da vida - real e cotidiana. Composições A Composição é um método para criar material cênico original, articular ideias, momentos e imagens. É um processo de “escritura” colaborativa, que se faz em ação a partir de demandas específicas da direção. Apoiado pela pesquisa prévia, o elenco cria cenas curtas, específicas, referentes a um aspecto particular do trabalho. Desta forma, estabelece-se o material bruto, o “rascunho” da linguagem que fará parte do trabalho, levanta-se princípios de encenação e elementos específicos com que se irá trabalhar. Ao longo dessa publicação iremos descrever algumas das composições realizadas pelo núcleo artístico do POVOEMPÉ. Não são descrições de cenas dos espetáculos, tampouco devem ser entendidas, como a semente desta ou daquela determinada cena. As composições são exercícios de criação que sim, podem ser utilizados posteriormente nos experimentos, mas que, independentemente de sua “aplicação” direta, tiveram a função de criar possibilidades de utilização do Tempo em cena, como janelas que nos mostraram paisagens e combinações possíveis. Como territórios em que pudemos inspirar o Tempo - no sentido literal da palavra, tornar o Tempo parte dos nossos corpos, torná-lo espaço e relação, povoar de Tempo nosso imaginário, dobrá-lo em criação estética. Essas descrições têm o intuito de compartilhar parte dos tortuosos caminhos da criação, em que, geralmente, o melhor trajeto entre dois pontos não é - definitivamente - uma reta. “O Mistério da Consígnia” por Cristiane Zuan Esteves, direção. Depois de anos utilizando a palavra CONSÍGNIA dia após dia de trabalho, dei um Google. Consígnia não parece fazer parte da língua portuguesa. Se ela veio comigo, herança da França, sua justeza não me faz desejar substituí-la por nenhuma outra de meu modesto vocabulário. Talvez sua força viva em mim impregnada da memória do rigor por vezes impiedoso dos professores da Ècole Jacques Lecoq, ou dos gritos retumbantes da mestra Ariane Mnouchkine: “Ecoutez la consigne!” (Ouça a consígnia). Mesmo se a despirmos de uma suposta autoridade sábia que a acompanha, é mister respeitar a consígnia. E aí vive todo o seu mistério. A tradução da palavra francesa consigne aparece nas páginas de dicionários como “ordens”, “instruções” ou até mesmo no sentido de “guarda-volumes”. Há uma tradução com que simpatizo “orientações ou pressupostos sobre determinado assunto ou atividade que devem ser seguidos para sua correta execução”. Se bem que a palavra “correta” não se aplica à criação artística, que é nosso motivo para utilizar incessantemente esta palavra. Utilizamos as consígnias para propor dinâmicas, estruturas de improvisação e, sobretudo, como itens a serem observados na criação de composições. Uma consígnia é o ponto de apoio de onde se pode dar o salto criativo. É a regra do jogo e a proposição que possibilita o jogo. Um regulador e um provocador de ações. Segundo guias de pedagogia, as consígnias pertencem a duas grandes categorias: - as que precedem um exercício e uma atividade, chamadas de enunciado ou diretiva. - as que constituem o assunto de um discurso (guiado ou semi-guiado). Quando as consígnias designam os itens que devem fazer parte de uma composição teatral, sua função é exercer uma diretiva livre, sobretudo se elas servem à articulação de um discurso cênico. A prioridade que se dá a uma consígnia pode fazer dela o eixo de tensão de uma cena. A articulação entre as várias consígnias acaba configurando a forma e o discurso da cena. Uma consígnia desbaratada, inusitada, difícil (mas com sua relativa pertinência) pode provocar grandes saltos não imaginados anteriormente pelo criador que se vê obrigado a resolvê-la. A restrição se apresenta como o caminho da liberdade. (Cada vez mais acredito na arte que lida e libera as impossibilidades). Descrições de Composições Seguem exemplos de algumas composições, selecionadas dentre um repertório vasto e variado. A partir das consígnias propostas pela direção, as atrizes sozinhas, em duplas ou em trios tinham um período restrito de tempo para realizar suas propostas cênicas. Os títulos, propostos pela direção, constituem uma pista das inquietações que devem mover a proposição. Constituem, portanto, o foco temático a ser desenvolvido através das consígnias. Experiências como essas aconteceram durante todo o processo de pesquisa e criação dos três experimentos abertos ao público. COMPOSIÇÃO 1 - “Onde está o Agora?” Consígnias: 1. escolher um local no espaço 2. definir uma função para o público 3. trabalhar com um trecho do diário 4. trabalhar com trechos das entrevistas 5. “re-encenação” de uma história ouvida na entrevista 6. trecho de literatura que aborde o tema TEMPO 7. uma ação que permeie toda a cena 8. uma música de fonte inesperada 9. um objeto que proponha ritmo 10. ações que se repitam 11. duração de 5 minutos. Por Ana Leão O local debaixo de (isto veio da entrevista com minha mãe que se enfiava debaixo do banco no jardim a noite quando a irmã tinha, ou teve, um ataque de bronquite) O público observa Trecho do diário: 17:35 Escurecendo. Estou desconcentrada. 17:40 Me perguntaram a hora, escurece mais. 17:50 Mais escuro. As testas estão um pouco enrugadas. 18:30 Escureceu e soltou um rojão. Trecho livro ‘CONTOS’ de Katherine Mansfield onde a personagem queria chorar, mas não tinha onde. Ela se dá conta de um modo de viver e percebe o tempo, uma vida, vivendo daquela maneira. E o tempo e a falta de lugar para chorar trazem o aprisionamento em ação. E na rua sem onde, começa a chover e seu avental infla. Ação que permeia: bolinha que rola como reticências no espaço enquanto estou fora de cena. A música vem de dentro de uma TARTARUGA dourada que com uma fita passeio com ela com passos longos, lentos. Música do trailer do filme de Winwenders sobre a Pina Bausch. Objeto que propõe ritmo: garrafa d’água furada pingando ritmicamente. Fora da sala, na recepção, um trecho da entrevista com meu pai: “aconteciam outras coisas lá em jaçanã: Os cavaleiros tocando cem bois. Pelas ruas. Bhehhhh.(som de vento e ação em quase sussuro) Pra levar pro matadoiro. Então quando vinha a boiada sai da frente. Então, as vezes você ia pra escola daí: olha a boiada! E a Zuleika uma vez teve que correr pra chegar no portão do grupo. Ele tinha fechado por causa da boiada, Claro ela chegou la ele abriu! Mas ela passou a vida inteira traumatizada”. *(proponho para mim mesma, um ‘entre’ personagem e narrador. Uso a dinâmica da voz que ouvi, procuro reproduzi-la. Em volume, em tempo, em pontuação) COMPOSIÇÃO 5 - “Temporando” Consígnias: 1. sequência de ações com gestos e deslocamentos se repetindo uniformemente do início ao fim 2. outras sequências de ações que se relacionam com essa sequência principal (tema) e que ajustam a ela seu início, meio e fim. Imagem de uma engrenagem. As ações desta segunda sequência acontecem marcadas em relação às ações da primeira 3. um texto que dê instruções para uma volta ao passado 4. 10 min. de duração Por Paula Possani Minha sequência de ações era entrar na sala com uma fronha na mão, sentar num banquinho de frente pra elas, olhar nos olhos de cada uma, arrastar o banco para trás de uma mesa, pegar a caneta, abrila, começar a escrever, parar algumas vezes pra pensar, escrever mais, parar de escrever, dobrar o papel escrito, guardá-lo dentro da fronha, levantar e sair da sala. Durante as repetições dessa sequência outras duas atrizes entravam na cena e repetiam as minhas ações de pegar a caneta, escrever no papel e dobrá-lo. Na primeira vez que sentei diante delas falei: “Minha mãe sempre escreveu diários. Desde pequena. Acredito que ela não escreva todo santo dia, mas cuida de registrar os principais acontecimentos. E ela guarda esses diários todos. Uma vez ela me disse que escreve pra tentar guardar o tempo. Ela tem hoje 57 anos. E eu fico pensando em quanta coisa deve ter guardada naqueles caderninhos...” Quando já estava sentada atrás da mesa falei: “Então hoje, eu vou guardar a minha mãe. A casa da minha mãe. As bromélias da casa da minha mãe. O brilho especial dos olhos dela desde que ela soube que vai ser avó. O jeito dela sorrir transbordante sempre que eu faço alguma coisa engraçada. Nossas conversas ao telefone compartilhando a vida... E rindo juntas!” Na segunda vez que sentei atrás da mesa falei: “Eu vou guardar o meu avô. Vou guardar ele baixinho, de suspensório. O fusca do meu avô. O cheiro de gasolina do fusca do meu avô. Meu avô acenando do portão pra mim na última vez que a gente se viu. Ele andando sozinho pelo quintal procurando o que fazer. A cara que ele faz quando vê os netos, de tão feliz!” Na terceira vez que sentei atrás da mesa falei: “Quero guardar os meus 30 anos. A expectativa de ser tia pela primeira vez. Tudo que sonho fazer com o meu sobrinho. Quero guardar o desejo de cantar muito pra ele. Quero guardar minha saúde, meu corpo que me acompanha onde eu quero ir. Quero guardar a filha da minha prima molhando a cabeça na bacia. O suor frio da minha madrinha quando me abraça. Meu pai dizendo que estava com saudades”. E na quarta vez falei: “Quero guardar esse sentimento de fé na vida. A saudade do meu afilhado. A minha beleza. O colo da minha mãe. O meu cachorro e o jeitinho dele pisar em cima de mim na cama de manhã. A sensação de que meus pais serão eternos”. Então continuando a sequência que se repetia todas as vezes, saí, mas dessa vez não voltei mais. COMPOSIÇÃO 6 - “Como construí meu próprio relógio?” Consígnias: 1. utilizar elementos / objetos que regulam meu tempo 2. convidar mais alguém 3. trabalhar a possibilidade de aceleração e desaceleração 4. restrição espacial 5. lista de mecanismos reguladores de tempo em forma de palavras (lido, falado, cantado, etc.) Por Paula Lopez Que mecanismos você usa para se orientar no tempo? “Se cada um construísse seu próprio relógio, os relógios não teriam mais função” Norbert Elias - Mesinha Verde com banquinhos em volta - 2 barquinhos vazios (cascas de árvores em forma de barco) estão vazios sobre a mesinha verde - Performer está atrás da mesinha verde e manipula objetos - Sino - um elemento real e se localiza pendurado num caibro do telhado atrás das pessoas que assistem a ação AÇÃO - Ao escutar o som do sino, performer coloca uma bonequinha Mulher encima do barquinho - Som de sino - Performer adiciona o bonequinho Homem - Som de sino - Performer adiciona 01 semente - Sino - performer adiciona outra semente, e em resposta às badaladas as sementes vão sendo adicionadas, sino, semente, sino, semente, sino, semente até que sai o homem, a mulher e ficam as sementes Lê-se as seguintes frases retiradas de eclesiastes: Tempo para plantar e tempo para arrancar o que foi plantado; Tempo para destruir (demolir) e tempo para construir; Tempo para chorar e tempo para rir; Tempo para procurar e tempo para perder; Tempo para guardar e tempo para jogar fora; Tempo para calar e tempo para falar; Tempo para amar e tempo para odiar; LISTA DE ELEMENTOS REGULADORES DO TEMPO: Crescimento dos dentes do cavalo Anéis de uma árvore Cilindros de gelo na Antártica Conchas dos moluscos Carvão Elementos que regulam MEU tempo: Sino da Igreja São Domingos Ciclo menstrual Corrida de Formula 1 aos domingos quando eu morava com meus pais Tempo de vida de um Incenso ou uma Vela As marés Tempo das mamadas do David quando era bebê Fraldas Helicóptero aos domingos quando eu morava perto da Avenida Paulista Fim de tarde: cigarras, grilos e luz mudando Quando escutava vinil, ao fim de um lado eu sabia que mais ou menos meia hora havia se passado Ouvíamos a Rádio Jovem Pan e ao escutar o Show da Manhã já sabíamos que estava quase na hora de bater o sinal da entrada na escola Posição da Lua ou do Sol no céu Tipos de passarinhos cantando me indicam que horas são COMPOSIÇÃO 10 (DUPLAS) - “O Tempo nas mãos” Consígnias: 1. ação cronometrada 2. espaço determinado restrito 3. determinar alguma relação espacial entre os integrantes do público 4. criar para o público alguma situação onde ele tenha que cuidar de uma certa duração 5. um momento de contemplação silenciosa 6. estabelecer um ritmo inicial que se interrompe 7. vinte respirações em uníssono a qualquer momento 8. utilizar como quiser alguma ação da lista de reguladores temporais 9. algum objeto usado de forma inusitada Por Paula Possani e Manuela Afonso O público saía da porta do Gag (nosso local de ensaio) uma pessoa de cada vez. Recebiam a instrução de criar uma marcação de um pulso qualquer e caminhar até a esquina andando no ritmo daquele pulso e contando o número de passos que levariam pra chegar lá. Quando chegavam na esquina eram recebidos por outra atriz que perguntava quantos passos haviam sido necessários para chegar até ali, quantos cafezinhos a pessoa já tinha tomado naquele dia, pedia pra que subissem numa balança que havia na porta de uma farmácia e cronometrava o tempo que o ponteiro da balança levava para estabilizar na marcação do peso. Com esses quatro números (peso, tempo de oscilação do ponteiro da balança, número de passos e número de cafés) fazia um cálculo maluco que chegava num valor que representava a capacidade de contemplação de cada um. Então todos eram convidados a contemplar a velocidade que um determinado botão de flor que havia numa árvore dalí levava para abrir. Cada um deveria contemplar por um determinado tempo: O número resultante da conta maluca era o número de respirações que cada um levaria em sua contemplação do botão. Depois disso cada um podia voltar tranquilamente observando o caminho. Na chegada recebiam um copo d’água. COMPOSIÇÃO 11 (DUPLAS) - “Cronofotografias Picnolépticas 1” Consígnias 1. sete quadros da mesma situação em diferentes momentos temporais 2. espaço de ação reduzido 3. ângulo de visão do público reduzido 4. uso de objetos para compor os quadros 5. não usar atores, exceto se for essencial 6. usar sons 7. objetivo de criar uma mecânica de condução do olhar do público Graziela Mantoanelli 1- Primeiro quadro é a vela completamente derretida. Segundo quadro é a vela pela metade. Terceiro quadro vela inteira, apagada. 2- Primeiro quadro é um relógio feito por uma criança. O segundo quadro é um relógio de adulto. O terceiro é um relógio feito por uma criança x. 3- Primeiro quadro uma pilha de remédios. Segundo quadro um remédio. O terceiro é um médico olhando um exame. 4- Primeiro quadro: 3 escovas de dentes (2 adultas e uma de criança) em cima da pia. Segundo quadro: 2 escovas de dentes em cima da pia. Terceiro quadro: 1 escova de dentes em cima da pia. A matéria prima seria o silêncio. Um estado de silêncio onde até os ruídos possam se tornar material de criação... 3 - DOS CAMINHOS DA CRIAÇÃO Por que três? Por Cristiane Zuan Esteves, direção e dramaturgia Passado presente futuro. Ontem hoje amanhã. O tempo que escapa. O tempo que fica. O tempo que espera. Parecia importante repartir o tempo em três. Foi a proposta inicial do projeto: criar três experimentos. No meu computador, 90 pdfs de livros e pesquisas. Na estante, mais de 40 livros. Grupos de estudos que mobilizaram aproximadamente 50 pessoas. O mergulho no tema foi desorientador, avassalador, um tsunami levantando oceanos de conceitos. Visões do tempo construídas durante milênios. Urgências velozes do mundo em construção da era da informação. Como cercar um território, dimensionar um material a ser tratado dentro de questões tão gigantescas, profundas e que permeiam todos os aspectos de nossas existências- consciências. O que antes era um enfoque específico do tema parecia se perder frente a todas as sutilezas, abordagens, diferenças. O que poderiam ser estes três experimentos? Em dezembro, um imenso vazio e ao mesmo tempo um frenesi de levantamento de material documental, de referências, de material cênico. Um oceano de virtualidades. O que atualizar? Disto tudo, veio uma certeza: nenhuma resposta será definitiva, nada será capaz de definir. Tudo será parcial. Qualquer resposta está na vida e na sua incompletude. Tratamentos do TEMPO - Pontos de partida das concepções Das visões da intuição Cena 01 - O alto de um edifício. Janelas para a cidade. Helicópteros lá fora. Dentro, silêncio. Velocidades desiguais. Cena 02 - O jardim da casa da minha mãe. A luz do fim do dia. Pássaros voam. A possibilidade de não fazer. Ser somente. Cena 03 - Vela de aniversário. Bolo de aniversário. Todos os aniversários. Todos os dias. Dia. Noite. Dia. Noite. Parabéns pra você. Esta é data querida! Das anotações do caderno O que olhamos: O presente. O “eu-máquina do tempo” O “coletivo-máquina do tempo” O “agora-máquina do tempo” Todos entrelaçando “memória”, “porvir”, “presente-duração”. O LONGO AGORA 1 - O EU - Máquina do Tempo Foco : O corpo e sua finitude. A brevidade da vida. A memória da Infância. A perspectiva da velhice. O que vejo nesta máquina do tempo: Minha infância. Minha velhice. O que não está X O que está. A inevitabilidade do Fim-Morte. Local: Escola de Crianças. Asilo de Velhos. Recurso: A cabine do tempo. Ver suas mãos de criança. Ver suas mãos de velho. Referências Teóricas/ Poéticas: Sêneca - “Brevidade” Heidegger – “Destino do ser” Proust - “Memória” Pesquisar: Memórias de Objetos Memória Topográfica Memórias Íntimas Atrizes, Famílias. Crianças e Velhos. Momentos em que se recorda. Olhar religioso sobre a morte. Sons da Infância, da Velhice Imagens, cheiros da Infância. O que olho: Meu corpo que um dia irá morrer. De onde: Dele mesmo. Aqui estava O ESPELHO. 2- O COLETIVO - Máquina do Tempo Foco: A velocidade. A cultura anulando espaço-tempo. A cidade e seus fluxos. O que vejo nesta máquina do tempo: A cidade revelando a concepção contemporânea do tempo. O Império da Velocidade. Movimento X Imobilidade. O Trabalho e seu “ocupar do tempo” - Produção x Ócio Local: Cabine de Visão + Trânsito Veloz (02 momentos). Onde fica a Máquina do Tempo hoje? Recursos: Somos viajantes do tempo, observamos nossa civilização de hoje. Elemento Ficcional (simulação) Elemento Documental (depoimentos dos habitantes desta velocidade) Referências Teóricas: Paul Virilio David Harvey Baudrillard Peter Pál Pelbart Pesquisar: Depoimentos em áudio. Locais onde Velocidade encontra Imobilidade. O que olho: O presente como se ele não existisse mais. Aqui estava O FAROL. 3- O AGORA- Máquina do Tempo Foco : Experiência Coletiva do Momento presente compartilhada. O que vejo nesta máquina do tempo: O AGORA em si - “a troca”. O tempo passar, repetir, devenir. O rito - bee hive. Local: Sala escura (?) Recursos: A caverna de Platão é caverna do espeleólogo. Paramnésia- O deja vu Referências Teóricas/ Poéticas: Deleuze- Cristais do Tempo Bergson – Image - souvenir Present q tombe dans le Passé q contiene son passé. Pesquisar: Estados de alteração de percepção temporal. Repetição. Resposta. Territórios Modais. Medições-Intervalos. Condução do Espectador- Imaginação. O que olho: Este instante e seu desdobramento. Aqui estava A FESTA. Construções dramatúrgicas Em janeiro, havia 145 páginas de uma dramaturgia geral. Textos onde havia tudo de tudo - física, filosofia, medicina, antropologia, sociologia, religião, manifesto, poesia. Trechos que interessavam: uma imagem, um conceito, um dado, uma frase, uma ideia. Assuntos que poderiam estar nos três, em dois, em um. A verdade é que esta enorme massa de material foi mastigada, revirada, jogada fora, cortada, reinventada, apagada, reescrita. A construção dramatúrgica de cada experimento se deu de maneiras muito diferentes. O FAROL foi de alguma forma o mais solitário. Uma visão confusa que veio da leitura dedicada de muitos livros de Paul Virilio. Uma imagem. Era fundamental estar em uma região economicamente veloz, próxima às altas torres e aos helicópteros. A velocidade de demolição e de construção de imóveis era algo que impressionava todo o grupo: bairros e bairros em uma transformação que nos roubava as referências e a memória. O antigo dando lugar às novas arquiteturas. Pesquisamos janelas de hotéis na região da Nova Faria Lima e da Berrini. Até que um dia, depois de uma reunião em um hotel perto da Berrini, era dia de ensaio e tomei o trem atrasada. Não fiz a conexão na Estação Pinheiros como de hábito. Pensando que por outro caminho seria mais rápido, continuei até a Estação Presidente Altino para fazer a conexão em direção à Lapa. A chegada em Altino parou tudo. Uma prisão, uma ponte, uma favela, um espaço aberto de muitos trilhos e trens, muitos trens parados. Um verdadeiro choque, quase euforia. O contraste com o hotel luxuoso, a mudança da arquitetura da cidade, a diferente sensação de tempo, a possibilidade poética despertada pela tensão entre as paisagens causaram a certeza de que aquele deveria ser o percurso. Era exatamente a imobilidade x velocidade apontada meses antes, mais pequenas anotações do caderno. (Uma sensação semelhante à da adaptação do trabalho anterior AquiDentro AquiFora para São José do Rio Preto, onde a descoberta de um terreno de construção de 2500 casas gerou o movimento da dramaturgia, e a peça acabava ali em um pôr-do-sol vermelho entre escavadeiras e fileiras de casas em construção depois de 10 minutos de deslocamento real em ônibus escolar). O Farol seria o experimento focado na cidade. A cidade determinou sua dramaturgia. O espaço constitui o primeiro eixo dramatúrgico. Algum tempo depois, conseguimos a parceria com o Sheraton WTC que possibilitou que utilizássemos, além do Hall do Hotel, o Shopping D&D e o Centro de Convenções Golden Hall, com seu foyer com janelas para o Rio Pinheiros e sua ampla nave. A partir da observação e exploração da psicogeografia de cada ponto deste trajeto, veio a articulação das cenas da trilha, sincronizada ao deslocamento no espaço. Veio se somar o outro eixo dramatúrgico: a trilha, cujo conteúdo é de origem documental: entrevistas, palestras e textos sobre a velocidade contemporânea. Mas que em seu diálogo com o espaço demandou trechos mais lúdicos, poéticos, dissoluções. Apesar dos helicópteros, do musak de espera ou mesmo do oceano, o possível elemento ficcional não acontece a partir da trilha, mas a partir do terceiro eixo de dramaturgia: das ações dos performers com suas malas vermelhas e das mínimas proposições feitas ao espectador. Este eixo se articula mais como uma referência contingente, transversa, que acompanha o percurso. O ESPELHO veio devagar. A proposta de ouvir velhos e crianças já estava lá no primeiro dia de ensaio, como uma obsessão da direção. Mas O ESPELHO nasceu das pequenas coisas. Do jardim que a gente via pela porta de vidro da sala de ensaio. Do pequeno Chico com seus passos recém-aprendidos invadindo nossa sala com suas pedrinhas. De um ensaio delicioso onde a tarefa era compartilhar histórias muito banais. De Graziela jogando milho no jardim. De Manú vendo tevê com um cigarro na boca como a sua avó. De Paula Possani se fazendo velha na nossa frente com riscos de lápis no rosto. De Ana como o terrível som do dentista. De Paula Lopez com jabuticabas no jardim. De Joana com suas perguntas. De Pedro com seus discos. De um dia em que escrevendo na casa da minha mãe, parei tudo e fiquei só olhando árvores, flores, pássaros e pôr-do-sol. Coragem pra fazer um espetáculo que fosse só contemplação e jardim. O ESPELHO se estrutura a partir da reunião de conteúdo documental de entrevistas, das memórias pessoais das próprias atrizes e da contribuição do público. Na primeira parte, ao redor da mesa, são as memórias de infância das atrizes que desenham o percurso que fazemos todos juntos sem nos movermos. Ao longo do processo, foram vários exercícios desses contares e da evocação dessas memórias, que só foram selecionadas e organizadas ao final de uma forma bastante orgânica e improvisacional. Cada atriz tem um repertório de histórias/ memórias suas que são articuladas segundo um roteiro temático (quase um canovaccio). Cada apresentação é diferente. Muda a ordem das histórias, mudam histórias que não vêm, outras que chegam com outra cor. As histórias se articulam entre si, mas de forma aberta e incluem as interferências do público, que contribui com suas próprias lembranças que são muito vivas e alimentam a mesa. Acontece, assim, uma conversa coletiva entre atrizes e público, mas com um repertório claro e uma condução precisa e suave. Em um segundo momento, espelhados pelo parque, o público em duplas escuta o que chamamos de “outras vozes” entrevistas de pessoas jovens e velhas sobre memórias, morte e futuros gravadas em velhas fitas cassetes que as duplas escolhem por seus títulos. O público escuta também algumas das perguntas que foram feitas aos entrevistados, e que os trazem de volta ao tempo presente, ao hoje. A FESTA foi construída a partir daquele enorme texto inicial proposto pela dramaturgia que foi sendo editado no decorrer dos ensaios. Foi construída pela certeza de que cada pessoa presente na sala deveria saber quantos dias teria vivido até aquele instante. Muito material foi descartado, cortado, re-adaptado. Algumas cenas realizadas em composições foram incorporadas à dramaturgia, com propostas de ações e textos vindos das atrizes. Mas apesar de tudo, sentia falta da festa. Em que medida poderíamos incluir mais as pessoas, coletivizar mais a experiência. Considero que a finalização da dramaturgia se deu com a incorporação de perguntas dirigidas ao público durante o espetáculo. Este recurso foi usado para criar uma ponte entre o conteúdo poético ou conceitual dos textos ditos pelas atrizes com possíveis interferências ou sensações do público. Mais uma vez, a ficção se instaura mais na criação de um “lugar” coletivo do que em qualquer conteúdo dramático. Em cada um dos experimentos a relação proposta ao espectador é determinante da experiência. A pesquisa tem buscado formas de co-criação por parte do espectador, criar possibilidades de que ele seja o articulador dos significados e também o elemento compositor da cena, sob o ponto de vista da espacialidade, da situação e da função. Há um discurso feito a partir de uma coralidade: crianças, velhos, intelectuais, cidadãos comuns constituem o discurso polifônico das obras como um todo. Há vestígios que se fazem e refazem: as pulseirinhas com os dias vividos e as marcas dos integrantes do público nas paredes da FESTA, os formulários do FAROL e as perguntas nos papeizinhos coloridos do ESPELHO. Aspectos de experimentação Esses três experimentos são, portanto, três. Pediram um tratamento distinto de três eixos da pesquisa: do material documental, da atuação e do público como co-criador. O que poderia ser excesso, o que foi de fato muito trabalho, foi também uma possibilidade de liberdade. “Este texto, esta ação não são pra este experimento, são para o outro!”. “A gente não precisa tratar disso aqui, já estamos tratando ali”. Não foi preciso contemplar todos os nossos desejos, porque havia muito espaço em que caber e pouco tempo para realizar. Aconteceu assim. 1Um material documental em uma trilha sonora acelerada, com excesso de mensagens somadas a muitas outras vindas das vitrines, das telas, dos anúncios. Transita por territórios impressionistas, depois metalingüísticos. Muitas vozes se misturam em simultaneidade até chegar à quase dissolução do sentido. Um espectador-atuador-sutil alterna entre movimento e espera, guiado, mas criador de seu próprio olhar através de janelas, recortes, fragmentos, até finalmente um horizonte. Um condutor-performer, facilitador da experiência, quase invisível. 2Um material documental pessoal compartilhado. (a)Colhido em intimidade. Atualizado. Pais, avós, filhos, sobrinhos. O acúmulo através da memória, sucessão: várias fitas cassetes com um (01) depoimento somente. O futuro para o menino de 06 anos. O futuro para a mulher de 82. Um espectador livre pra escolher agir: tomar café ou não, comer bolo ao não, contar algo seu ou não, ouvir isto ou aquilo, contemplar. Um espectador autor de dramaturgia. Um atuador sem teatro. Quanto menos teatro, melhor. Mais vida. Ou o primeiro teatro: contar ao outro simplesmente. Qualquer sinal de atuação esvazia o hoje. 3Um material documental colhido a fórceps com perguntas. Um diálogo entre atuador e platéia. Vestígios materiais: a pulseirinha no pulso, a marca da altura na parede, os pratos com respostas, os nomes dos antepassados. Um espectador coagido a esperar, lembrar, contar os dias de sua vida. Perguntas respondidas em voz alta ou em silêncio. Escolhe o que olhar. “Estou nesta encrenca. Faço parte desta encrenca”. Um atuador em trânsito. Entre o teatro e o estar ali. Escuta fina por afinar a cada instante. Coralidade pluri-focal. 4 - UMA CONTEMPLAÇÃO DA VELOCIDADE A máquina roda, roda, e continua a sua carreira. Livre de qualquer direção, roda, roda sempre. A pressão sobe doidamente, a velocidade torna-se assustadora. As pessoas, cuja embriaguez aumenta, subitamente alegram-se com aquela corrida violenta, cantam mais alto ainda. Atravessam a cidade como um raio. A máquina roda, roda sem fim, como enlouquecida cada vez mais pelo ruído estridente da própria respiração. Aquele comboio doido, aquela máquina sem maquinista nem foguista, vagões que uivam canções. Vão Vão Vão Agora todos os aparelhos tilintam, todos os corações batem. Ao longe já se vê o rodar do ser fugidio com o seu galope furioso, com uma força prodigiosa e irresistível, que nada pode deter. Roda na noite negra, nem se sabe para onde. Que importa o que a máquina esmaga no caminho! Não se dirige ela também para o futuro, indiferente fera cega, surda, indômita, roda, roda, atulhada da carne desses seres cheios de fadiga e embriagados, que cantam. Abrir os olhos totalmente. Aqui outra vez. Acordar. (adaptação de A Besta Humana de Emile Zola, por Cristiane Zuan Esteves) Primeiro Experimento: O FAROL Relato de um espectador, por Décio Sanchis Não sei como nomear o acontecimento “O FAROL”, criado e montado pelo Grupo OPOVOEMPÉ, de São Paulo e em São Paulo. Na minha cabeça teatro continua sendo algo representativo, a que assistimos e onde algumas vezes somos chamados a ter uma ou outra participação além dos respirados suspiros, do ajeitar do corpo, do riso e choro e dos aplausos. Quando é exigida, acedemos geralmente a contragosto, por constrangimento. Teatro em que a platéia participa voluntária, ativa e alegremente, só mesmo, creio eu, os espetáculos infantis. Nós adultos não nos permitimos tais envolvimentos expositivos. Adulto quando quer dar-se a alguma participação em público, vai a “shows” musicais, onde levanta e agita os braços, berra, canta e se sacode. Ou aos estádios, de igual equivalência. Parou aí. No FAROL a concepção é outra. O público sabe de antemão que vai ser conduzido a algo, digamos uma viagem, onde será o protagonista. Não sabe é onde vai chegar. Percorreremos espaços do dia a dia, com olhos de quase nunca. Caminharemos com fones no ouvido. Não, não imaginem uma visita “guiada”, dessas de museus ou palácios. Tudo foi pensado, criado, organizado minuciosamente pelo grupo ao longo de um ano, num projeto a que deu o nome de A Máquina do Tempo (ou longo agora). As trilhas gravadas foram inteligente e cuidadosamente criadas, o gestual, os caminhos a percorrer, as paradas sugeridas, o panorama a ser observado, estão rigorosamente cronometrados. Cada uma das atrizes assume sua tarefa com seriedade e precisão. Difícil imaginar que o público participante se sinta constrangido. Dados os primeiros passos, cai-se na aventura proposta. E o que tem tudo isto a nos mostrar? A mostrar, não sei, pois depende do olhar de cada um. Mas a instigar, tudo. É certo que pensamos diariamente na tecnologia crescente posta a nossa disposição, e a usamos. Mas somos suscitados ali, no curso do passeio, a pensar no quanto ela cresce exponencialmente, cercando e mudando nossas vidas. Um simples exemplo, já que estou digitando em meu computador: como eu escrevia quando era criança, um pedaço de vida atrás, como escrevo agora, como escreverei um outro pedaço de vida adiante? Como estas mudanças nos afetam? Lembro-me passageiro criança no Ford 1937, preto, circulante na velocidade de então. Olho os carros que percorrem a Marginal Pinheiros na velocidade de hoje. Lembro das ruas calçadas de paralelepípedos. Quantos carros passavam simultaneamente então? Olho por imensas janelas fechadas por vidros, do alto de um prédio maior que o mais alto que dominava orgulhoso a cidade de então. E ele não está sozinho. É apenas um entre as torres circundantes, recíproca e distorcidamente espelhadas nas vidraças de todas elas. Chego ao meu ponto de observação por elevadores velozes, silenciosos no funcionamento, mas automaticamente falantes. Terceiro andar, cama, mesa e banho, dizia aproximadamente isto o ascensorista do velho Mappin. Não há mais cabineiros. Olho as avenidas, o rio no meio. O trânsito é veloz, intenso, contínuo nas pistas. No céu cruza um helicóptero a cada minuto. Bem mais em cima um avião ruma ao outro lado do mundo que foi imenso e agora é uma bolinha. Há um zumbido que poderia lembrar os oceanos que outrora nos separavam. Nos ouvidos a voz me pergunta o porquê de tanta velocidade. É impossível não olhar a favela do outro lado do rio e o próprio rio Pinheiros. Não. A tecnologia não chega a todos com a mesma velocidade, concluo eu. Nem os confortos que dela vêm. Nem os benefícios. Desgraçadamente o mundo desigual de ontem continua desigual hoje. Doença não erradicada, malgrado todos os aparelhos e medicamentos inventados para a nossa longevidade, e apesar de todos os sonhos, utopias, lutas, sofrimentos. Mais adiante verei o povo entrando nos trens modernos transitando velozmente, de Osasco ao Grajaú. E nele se acotovelando, pois é preciso chegar a tempo... Mas, por ora, olho o rio. Tudo corre, menos ele. Fico ali, pelo menos por um minuto, mirando a mesma sujeira branca que flutua. Não andará? Não anda. Talvez haja algum movimento abaixo da superfície. Mas é imperceptível. Este rio não permitiria ao filósofo grego pensar sobre a permanência da verdadeira substância das coisas, provocado pela contínua mudança da água que corre. Este rio parece estático. Já correu um dia. Hoje é firme, quase sólido, o rio Pinheiros no meio da velocidade. O que será daqui a vinte, trinta anos? Mais do que isto, adverte-me uma voz nos fones dos ouvidos, não nos podemos atrever na previsão de como será o mundo do futuro. Sinto, mais do que concluo, o peso deste vertiginoso amontoamento de conhecimentos e tecnologia e intervenções do ser humano sobre ele, o mundo que agora me ocupa a mente. Dizem meus olhos: há uns pássaros brancos voejando na margem estreita do rio parado. Há círculos e bolhas, ininterruptamente surgindo e sumindo na água gelatinosa. Apesar de tudo, a vida gulosa não pára. Saio de tais visões e vou para dentro. Imenso espaço vazio. Imensa cúpula formada de tubulações. Sinto-me entrando em uma nave espacial. Disco voador? Parado no centro, a música que os fones me oferecem surpreende-me. Não, não é uma Odisséia no Espaço. É música indiana. Isto com certeza não é um templo. Mas o espaço que me estão sugerindo também é vasto e interior. Dentro de mim mesmo. Fico olhando minha gentil condutora e sua mala vermelha distanciaremse e caminharem ao longe, vagarosamente, a minha volta. Eu sozinho. Volto ao grego filósofo. Com certeza continuadamente não sou o mesmo. Nem em células e nem em conhecimentos, nem em pensamentos. Mas sou o mesmo. E daí? Dalí a pouco, o trem me leva ao subúrbio da metrópole. A um subúrbio próximo, que outros muito mais distantes existem. Todos eles, quanto mais longínquos mais desprovidos das torres gigantescas, dos vidros espelhados, de condutos de ar condicionado, de elevadores falantes, de confortos, de avenidas grandiosas, de carros velozes. Tão mais parados... Mas cada um deles, com incessantes círculos e bolhas na superfície gelatinosa. Apesar de tudo a vida não para. Fico mais uma vez a me perguntar: o que justifica a continuidade dessa diferença na distribuição das benesses vindas do conhecimento que se acumula? As escadas aqui não se movimentam. A passarela de concreto por onde se transita para cruzar o pátio da estação é incrivelmente longa. Sentado nela, um mutilado de um braço, jamais visto por Saramago, resta por isto mesmo, desprovido até do gancho do Baltazar Sete Sóis, e muito mais de Blimunda, Sete Luas. Pede-me uma esmola. Dou-lha de bom grado. É inevitável lembrar do pedinte da rua da Baixa, na ironia de Fernando Pessoa. Apresso-me a despachar a lembrança pensando, nem simpatizo com ele e nem sou lúcido. A viagem de volta não traz respostas. Já me perguntaram como distribuo o tempo na minha vida. Ou como distribuo minha vida no tempo fugaz de minha existência. As formigas trabalhadoras se acotovelam ainda mais no trem moderno. É preciso chegar no horário. Sigo de pé, entre elas. Velho e novo ali. Obrigado OPOVOEMPÉ. Entre breves, semi-breves e silêncios: aulas de música As aulas de teoria musical foram conduzidas por Natalia Mallo (musicista e compositora), Ramiro Murillo (físico e músico), Emiliano Patarra (maestro), Ratnabali (musicista indiana) e Benjamin Taubkin (pianista concertista). Com Natalia Mallo tivemos encontros sobre Teoria básica de Música. De modo prático e teórico, introduziu-nos sobre o que é compasso, pulso, tempo, andamento. Figuras e seus valores: semibreve, colcheia, semicolcheia, fusa, semifusa e suas respectivas pausas. Tom, semitom, sustenido, bemol, escalas, acordes menores e maiores. Definiu harmonia, melodia e ritmo. Ramiro Murillo, por ser físico e músico, nos trouxe teórica e praticamente conceitos de reflexão, transmissão, absorção, reverberação, acústica, ondas e um pouco de fonografia. Esclareceu diferenças entre propagação e intensidade do som, eco, vibração, timbre, amplitude, altura e volume. Seguem algumas citações: Quanto mais elástico um meio, menor propagação ele tem, e portanto mais demora. Elástico vem da propriedade da matéria. Propagação sendo uma sucessão de variações de compressão e rarefação do meio. Som sendo energia mecânica que a gente ouve. O grave penetra mais nos sólidos, se propaga mais. E a propagação precisa de um meio para se propagar. Vácuo é ausência de matéria. Intensidade - forte fraco- é VOLUME. Benjamin Taubkin oferece a relação da música com a vida. Seus exemplos práticos, seu auto-didatismo, seu ‘descompasso’ com o padrão daquele momento que vivia, o querer tornar-se músico, época em que os que estavam à sua volta exigiram dele uma garra que hoje dá frutos. Nas suas experiências, pudemos nos ver tendo experimentado algumas restrições parecidas noutras áreas da nossa vida. Pudemos nos identificar com sua trajetória notando que em diferentes áreas da vida vivemos semelhantes sensações de aprendizado. Em meio à um ambiente de certo modo estimulante criativamente, porém, ao mesmo tempo opressivo. Pressões, impaciências e aparentes brutalidades - como pode ele bem observar - foram um manancial rico e potente para que hoje esteja livre. E sua arte, pelo seu modo de estar no mundo, esteja tão receptiva quanto disponível. E pela sua arte - piano, a escuta, o improviso - oferece lindamente linguagem e comunicação num além verbo que o permite estar no mundo - Coréia e África por exemplo - conversando a partir de um ‘lugar’ que realmente tem para ele valor. Direto ao ponto. Direto ao ser. OUVIR JUNTO Ouvimos e pudemos comentar o que sentimos a partir de músicas de vários lugares do mundo. Observações de ritmos, sensações, sentimentos que geram em nós algo, e que revelam também, segundo Taubkin, como é também possível pontuar a tristeza da vida, pontuar a alegria, pontuar a atual desconexão, cisão, como se vivêssemos áreas diferentes, desconectadas, integrá-las traduzindo-as. Maestro Emiliano Patarra Com interesse e clareza fala de curiosidades em relação a épocas, estilos e nos traz conhecimento sobre compositores e um pouco da história da música. Uma citação fica sobre o TEMPO que na própria escrita é expressivo, pois a figura da BREVE passou a não ser usada devido à aceleração. As notas sofreram alterações em função do aumento da velocidade na música com o passar dos anos. Tivemos um foco na dramaturgia musical clássica ocidental, a qual pudemos ouvir, sentir aprender a discernir as diferenças, mudanças de tonalidades e perceber as ‘curvas’ numa composição. Aprendizado do ouvir. Praticamos juntos, em exercícios, o tempo das figuras e das pausas. Na escrita, as notas (figuras) mudaram por que a música acelerou. A breve já não é mais usada, por exemplo. A narrativa - dramaturgia contida numa Sonata por exemplo, ou numa forma Sonata, ou Sinfonia, Concerto, Suíte e etc... um centro que se mostra, se afirma e depois muda para outro e a tensão - de querermos que volte ao referencial anterior - nos gera Drama. Gera tensão. (como um ímã gerando forte atração)(este mesmo ímã, se colocado à uma certa distância máxima perde seu poder, perde-se a tensão, ou ‘a linha’ ou até mesmo o ‘sentido’. Antigamente, o centro se mantinha, ou em algumas formas de música isto se mantém. Faz parte do propósito da música manter o centro sem dele sair. Propósitos diferentes. Noutras épocas a proposta era não ter um centro. E suas possíveis variações artísticas como todos os movimentos e escolas. RatnaBali Estrutura da música clássica oriental indiana. Uma tela branca onde o som desenha, imprime, pinta. O tempo é infinito. É cíclico, não há começo nem fim e sim ciclo. Assim, no momento que se brinca com o tempo, com o ritmo, está se despedaçando o tempo, e depois ele volta a ser infinito e eterno. O conceito da música e sua melodia (Raga) e ritmo (Tala). Focamos na primeira parte ou ‘movimento’ de Tala aprendendo e cantando a apresentação das notas. Brincamos com as palavras – Bols. Ouvimos Ratna cantar - música clássica principalmente, pois este era nosso foco. Nos apresentou a música religiosa através de alguns mantras. Nos deixamos ser ‘telas’ pintadas por ela, ali, na sala de seu apartamento. Através do canto pudemos experimentar a música ouvindo, cantando, sentindo, brincando. Segundo Ratnabali, brincar com ritmo é ‘despedaçar o tempo’ como disse, e depois deixá-lo ser como é, eterno. Trechos da entrevista com João Ildes Piraí, Morador de Pinheiros há 63 anos - trabalha na biblioteca Alceu Amoroso Lima Sobre hoje em dia: “Tudo muito instantâneo, escorrendo pelos dedos das mãos, tudo sem significância (...) Não há mais narrativa, você tem todas as maneiras para se expressar, mas não há narrativa pessoal (...) Não adianta ter máquina fotográfica se você não sabe o que fotografar.” Sobre a construção da Nova Faria Lima: “Os quarteirões desapareciam (...) parecia que tinha sido bombardeado tudo, as ruas desapareciam, uma casa desaparece, mas um quarteirão é muito significativo, né? Um quarteirão são muitas casas, né? São muitas faixadas, né? E de repente tudo aquilo só existe na sua lembrança. É curioso isso, é uma coisa que mostra: Olha só, como é frágil tudo isso!” Trechos de entrevista com o historiador Eduardo José Afonso “Eles vão construir um prédio de 8 andares, são 48 apartamentos. As pessoas que vão morar lá, nenhuma vai saber o que é, quem morou ali, qual é a história da Vila Madalena, não tem relação afetiva com nada. Às vezes nem com os próprios vizinhos. Então aí essa cidade vira uma cidade terrível, sem alma, violenta. Você se acostuma com a violência porque você não tem a relação de cuidado e de fraternidade com nada. Tudo é descartável, cada dia mais. Qual é a razão da vida? Onde a gente vai colocar a nossa sensibilidade, afinal de contas? Na lata do lixo? Por isso as pessoas ficam neuróticas, né? Cada dia mais, porque nós somos feitos de razão e sensibilidade. Só que o que acontece é que a gente perde a razão porque entra na alienação do consumo e não cultua a sensibilidade. Então isso vira uma neurose, né? Porque você fica um ser sem essa mínima estrutura, né? E precisa resgatar isso. Levi Strauss diz que os índios bororo tiveram arrancadas as suas relações com a natureza. Sua aldeia foi desmembrada, eles foram levados de um lado pro outro. E ele dizia assim: quando esse mapa afetivo é arrancado daquele grupo humano, ele perde suas referências, e quando ele perde suas referências, ele perde ele próprio, porque ele não entende mais a sua essência e a sua alma. Ele fica sem nenhuma referência e ele passa a não ter nenhuma relação de sensibilidade com nada e é isso que interessa ao mundo do consumo, né? Você não ter a relação amorosa e de sensibilidade com nada porque tudo é descartável e as relações humanas passam a ser assim também. Então a sociedade atual é essa, a gente tem que lutar contra isso.” 5 - UMA CONTEMPLAÇÃO DA VIDA E DA FINITUDE “Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.” (Rubem Alves) Segundo Experimento: O ESPELHO Em um parque, o público é convidado a fazer parte de um piquenique com café e bolo enquanto as atrizes compartilham, de forma cotidiana, depoimentos sobre experiências de tempo. A seguir, o público inicia a contemplação do jardim do parque onde crianças brincam. Depoimentos sonoros de crianças e adultos com visões sobre passado e futuro, resultados de entrevistas feitas pelos integrantes do grupo ao longo do processo, são ouvidos pelo público. Aos 3 anos - Isso é uma galinha? Aos 4 anos - Como vão ser minhas férias? Aos 16 anos - O que você vai fazer hoje mais tarde? Aos 23 anos - Por quê? Aos 24 anos - No que está pensando a galinha Laura? Aos 27 anos - Quanto tempo dura a felicidade? Ainda aos 27 anos - Qual o sentido do mundo? Aos 28 anos - Que importa quem fala? Aos 30 anos - Vai ter sol amanhã? Aos 31 anos - Por que foi? Aos 34 anos - Por que é tão difícil ser simples? Aos 37 anos - Mudar tudo agora? Aos 52 anos - O que fazemos? Ainda aos 52 anos - E se chover? Aos 54 - Por que estamos tão afastados da natureza? Aos 61 - Como ser ator e espectador ao mesmo tempo? Aos 72 anos - O que leva vocês a promover este evento? Aos 80 anos - Como você tiraria leite de gato? Perguntas feitas pelo público na apresentação do dia 07 de julho de 2012. Impressões, memórias e esperanças Claudio Possani – 55 anos “Tem uma sensação de missão cumprida, de que uma parcela de tempo se passou, de que algo que você estava esperando acontecer, aconteceu, um evento que passado o tempo devido, ocorreu no tempo devido, isso também leva a uma sensação de tempo, de pensar na vida passando. Tem um que de paz nisso e um que de angústia, você vê as pessoas crescendo e conseguindo realizar seus sonhos, então você vê seus filhos realizando seus sonhos e ao mesmo tempo que isso dá uma sensação de paz, de que a vida própria está se efetivando, ela está passando de uma forma boa, você vê seus filhos conseguindo sucesso, vê sua relação afetiva amadurecendo de uma forma bacana, daí você fica tranqüilo, sua vida está tendo um rumo bacana, ao mesmo tempo é muito angustiante, porque mostra a vida passando mesmo, né? Você vê que sua vida está cumprindo seu papel, mas como dizem de brincadeira: a fila anda, né? Quando todos os rituais, todos os grandes momentos da sua vida vão se efetivando é porque sua vida está fluindo muito bem, obrigada, mas está acabando também. Tem uma noção de tempo se escoando, o que é uma noção angustiante.” Lucila Acunha - 83 anos Casada - o tempo passava rápido quando ia ao baile. - ficava durante horas brincando na chuva, vendo a chuva e os pingos que pareciam soldadinhos. Hoje em dia - mudanças no mundo, o mundo mudou e os mais velhos tem que mudar junto. Vê a internet como meio para criminalidade. Acha boa a evolução da mulher que deixou de ser escrava do homem, antes as mulheres tinham que obedecer... - acha que o mundo mudou pra melhor por causa da liberdade. “Hoje você vive a sua vida e ninguém tem nada a ver com isso.” Futuro - com a tecnologia falta mão de obra. Vai chegar um dia em que o Homem não vai precisar fazer nada, só apertar botões. Futuro por Bernardo, 6 anos “Dois mil e trezentos? Dois mil e trezentos! Você entendeeeeeu? Hummm. Tem naves espaciais e também tem um monstro (longo assobio). Só tem coisas horríveis e tradordinárias e mais berros, entendeeeu? (assobio) nhanhonhatchcio nhogostonhonhonhacio tchiloloque rloloqueri go ratiri nho vateri ro nanari no fiteri e raiurari. ukari makura tchiru raiu biu raijaracha (longo assobio). É muito estranho e feio. Só tem gosma preta e gosma verde e gosma preta, gosmas pra tudo que é canto, entendeeeu? (longo assobio)”. Walter Possani - 94 anos - Evolução do telefone: na época dele o telefone era de manivela e ficava na parede. “Hoje é tão nítido que nossa... O Cleber tava no deserto da Rússia, é 1000km da capital da Rússia, lá no fundo, lá longe, ele ligou o telefone e parecia nós dois aqui, mas como? Um aparelhinho desse tamanhinho com, como é que fala? Microondas... Esse telefoninho que... Celular! Desse tamanho, fala do deserto da Rússia que é no fim do mundo, fala igual nós dois aqui. Que perfeição de aparelho, né?” - Evolução da medicina, tirou pedra do rim e foi almoçar em casa. “Hoje passa rápido. Parece que passa mais ligeiro. Eu não sei, não vejo passar e cada pouco é fim de ano. Num instante eu fiz 40 anos, depois 50, 60, parece que agora passa mais ligeiro, não sei...” - Se pudesse viver tudo de novo, faria as coisas diferentes? “Ia fazer as coisas melhor, ia. Porque embora eu não fosse ruim, tinha alguma grosseria, alguma ignorância, alguma coisa que eu não faria, trataria melhor parentes, vizinhos, qualquer coisa, porque a gente era um pouco burro, um pouco orelhudo, talvez formação, vem de origem já... Eu seria melhor, seria. “Passou, eu não vi, passou, eu tenho 90 anos já e... 90 anos em um tempo pouca gente chegava, hoje tem bastante gente com noventa anos. 93 eu tenho. E passou, eu não vi! Passou tão depressa que eu fiz ontem 90 anos agora já to com 93 e se continua com saúde eu ainda faço mais um pouco e vai indo.” “A juventude não volta mais, e eu percebo no subir uma escada, subir um peso, pegar uma corridinha, começou garoar eu corro dali de baixo até aqui, pertinho não é? Filha da mãe, eu chego aqui (ofegando). Digo, acho que to ficando velho. - Falando da vizinha doente: “Ela fica assim: (ofegando) Pra mim ela ta morrendo devagarzinho, mas os filhos dela, o maridos é bom, os filho é bom, eles são militar, um é sargento, outro é tenente, bem graduado, ganha bem, e não sai da casa dela, então tem uma proteção boa, mas a doença é maior do que o carinho que eles tem. - Sobre hoje em dia ser melhor que antes: “Hoje a gente ganha mais, tem mais conforto, as crianças pequeninhas já vão pra escola, é um sacrifício, né? A gente vê criança pequeninha assim com uma bolsa pesada, mas se ele não for ele fica pra trás porque começou mais cedo, né?” - Conselho aos mais jovens: “Eu aconselharia tratar bem as pessoa. (chora) A melhor coisa que eu fiz, de bom mesmo foi tratar bem. Tem a retribuição depois. Nossa... E na minha idade não precisa muito carinho, muito lambe lambe não, mas precisa que me trate bem, né? E que me ajude, me de um palpite as vezes, que as vezes não é dinheiro que ta faltando, é uma opinião de uma coisa qualquer, quanto que vale pra mim... Eu na minha idade só preciso saúde, que o resto eu tenho tudo aqui em casa.” - Momentos engraçados: “Eu como de tudo, bebo de tudo, agora eu chupei 16 laranja... é muito?? Era meia pequena. Chupei 16 laranja, eu contei! Porque eu gosto e tava com sede, então... Esse salgadinho aí, eu vou buscar salgadinho, e quando eu acabei de comer um pacote eu quero outro, né? Mas eu não gosto de dizer que acabou, então eu pego, vou lá embaixo e digo: Me da uns 20 pacote desse salgadinho aí, esse torresmo aí! (risos)” “... Ele tem serviço pro ano que vem inteiro. Ainda não começou o ano que vem, né? ...” Julia, 10 anos Como sente as manhãs “Eu sempre tenho preguiça de acordar sempre que eu acordo eu fico meio tonta.” Quando o tempo demora para passar “Você não faz nada fica lá parado tipo demora muito” O que faria durante horas - dançar O que faz todo dia igual “Tomo leite, como pão no café, passo spray no meu cabelo de manhã e penteio ele de manhã só... olho no espelho...” Tem alguma coisa marcante? “Nossa se tem. Tava correndo tropecei sangrou muito... eu ficava pensando que nunca ia passar a dor pensando que ia demorar. E demorou cantei o parabéns dolorida (e ri)” Como era o mundo há 10 anos atrás “Era igual ao que tem hoje, mas algumas coisas não existiam tipo o telefone; o Ipod touch essas coisas modernas, não existia celular; ipod; computadores pró, assim, tipo Apple não existia. os carros não eram muito grandes ( $ )... só quem tinha muuuuito dinheiro que tinha vídeo game... a maioria dos carros era fusca, essas coisas...fiat...” Como o mundo será daqui há 10 anos “Minininho de 4 anos já sabe mexer em iphone, já sabe criança de 2 anos vai ter uma habilidade maior e vai existir coisa nova 10 anos atrás não existia ipod touch, esse ano existe. Aí tipo, daqui 10 anos vai existir um ipod que VOA por exemplo” “Vão lançar uma coisa cara que só adulto pode ter, quer dizer, que a maioria dos adultos têm.” Na cidade “Coisas novas na rua , carros big, carros pequenos, $ supondo, pode ter tudo, pode ter qualquer coisa as pessoas usando roupas diferentes desses anos” (compara bolsa da Hering com a Vitoria Secret) “a maioria vai usar da Vitoria Secret.” Daqui há 10 anos mude o valor do trabalho Compara moça do shopping ganhando mais “Se esforça mais, ganha mais dinheiro só assina papel ganha só 500 reais por mês. Faxineira ganha mais do que uma pessoa que só assina papel por exemplo.” Futuro próximo: “Eu vou sair da escola meio dia e quarenta... todas as aulas seguidas” “Quando vc ta fazendo alguma coisa os segundos são pa pa pa pa pa pa pa Quando ce não ta fazendo nada eles são pé......pé......pé.....” Dona Lídia, 86 anos Infância. Sitio, pobreza. As irmãs e as brincadeiras. Aos 7 anos vai para escola. O cotidiano: escola, o almoço, as tarefas de casa.. e as brincadeiras. Aos 12 anos começa a trabalhar na roça ajudando os pais. Aos 15 passou a carregar caixas (de banana, mamão, etc) Aos 17 anos a família muda para a cidade e ela começa a trabalhar em casa de famílias. Memória oscila, tipo “nesse meio tempo..é, foi. Não, foi antes...” Conta que vai trabalhar em SP, em casa de família. “Acho que o tempo para mim nunca voou. Custava pra passar. Custava muito, eu não sei se era o peso da vida que a gente tinha, que a gente sentia que queria... o tempo custava para passar. Custava muito.” O hábito diário era a oração. “O que marcou a infância era aquela ânsia que a gente tinha de querer as coisas que a gente não tinha. A gente queria um sapato, não tinha. Queria um vestido, não tinha. Isso é que... tinha mas era muito difícil e quando eles podiam. E isso marca na gente porque a gente quando quer, quer, né? Quando é criança a gente quer, mas não tem condições então a gente tinha que esperar. Isso marca, marcou muito. Isso é pesado, que marca muito na gente, né? Eu acho.” O nascimento dos filhos. Tempo sofrido. Ela trabalhava. Desde a gravidez foi sofrido. Sem conforto, sem carinho. Ela tinha que trabalhar e amamentar. A tristeza dela de interromper as mamadas para atender um freguês do comércio deles. A vida era difícil. Ela tinha muita responsabilidade. “Era muito confuso, parece que o tempo não passa nessa confusão”. “Quando o tempo passava rápido. Eu nem me lembro quando o tempo passava rápido. Foi tão difícil ali a minha vida. É. Eu nem sei. Nessa época foi difícil a minha vida” Os filhos eram lindo, bons. Ela gostaria de sair com os filhos, mas não tinha tempo. Fez algumas viagens, mas o marido não acompanhava ela e os filhos. “Eu nunca tive o prazer de ter o tê-lo junto comigo e com os filhos. Passear, conversar com os filhos, comprar um doce, um sorvete. Nada. Aquilo me entristecia muito.” “Parece que a gente nunca chega num lugar bom, né? Feliz. Nunca chega, né? Foi lento.” Hoje em dia a vida é mais alegre! “Com todo os ossos doídos, com todos os problemas, eu me sinto bem. Me sinto feliz. Levanto feliz, como o que eu quero. Não posso andar porque não posso, mas os meus filhos tão aí ao meu lado, meus netos. Eu me sinto alegre porque não tenho uma coisa que me prende, entendeu? E eu tinha. Uma coisa que me prendia que não me dava prazer, não me dava alegria.” Volta a falar do marido. Da relação que ele tinha com a religião. Volta a falar que se sente melhor hoje apesar de estar doente. “A minha vida foi triste, foi. Não foi triste, não foi alegre. Foi meio, foi pelo meio.” Dona Maria José, 84 anos “Só tem uma coisa no mundo que eu tenho muita antipatia, que eu acho antipática demais é a tal da morte. Por favor não bata na minha porta antes da hora não, pode esperar quietinha, vai bater na porta de outro que ta louco pra ir porque eu não to nem afim, não to nem um pouco querendo ir, ainda quero ficar aqui muito tempo, se Deus quiser e ele vai querer, ô mortezinha chata, antipática, xô, vai, vai embora!” Antonia, 5 anos “Agora pergunta como as pessoas, como as pessoas se criaram... Foi assim, ó. Elas, daí, elas nasceram, passaram três dias no hospital, depois elas foram crescendo, crescendo, viraram crianças, foram crescendo, crescendo, crescendo até virarem adultos. Algumas se casam, tevam filhos e aí elas vão ficando velhinhas, velhinhas, velhinhas, até que... morrem.” 6 - COMPARTILHAR UM AGORA O fluxo do tempo não é como o fluxo de um rio. As águas do tempo geram poças, senhoras de três nomes. Em uma, deixamos os pertences e a infância. Em outra mora, em suma, a esperança e o fim. A irmã do meio é onde nos banhamos agora, esquecendo-nos talvez que as águas das três piscinas naturais são, em verdade, a mesma. (Débora Pinto) Terceiro Experimento: A FESTA Público e atores compartilham o mesmo espaço, uma espécie de repartição sem janelas, um “poupa-papa-tempo”, com seções de atendimento, bancos de espera e relógios sem ponteiros. O público é convidado a refletir sobre certos aspectos da sua vida. São construídos e descontruídos quadros sobre aspectos coletivos e pessoais da memória, do esquecimento, do futuro, do sonho e da finitude. Depoimento de uma espectadora Mas o que é que A Festa tem a ver com poupa-tempo? Foi isso que pensei, enquanto sentada na cadeira, apenas observava as filas e as atendentes. Até que uma delas gritou: Próximo! - Não era para mim, mas não resisti e furei a fila - que pecado! Fui atendida por uma funcionária muito eficiente e sorridente, que me parabenizou pelos 9.569 dias vividos. Uau!! Quanto falta para chegar aos 10.000 dias vividos? Vou fazer uma festa para comemorar! Ops! FESTA? Acho que entendi! Que bom! Fiz os cálculos e vi que faltam mais ou menos dois anos e dois meses para os dez mil, vai demorar? Então posso começar com uma festa pelos 9.600 dias vividos, será em uma segunda-feira! E assim a FESTA continuou, e mais do que compartilhar, sinto que ali naquele espaço COMEMORAMOS o AGORA. Obrigada Povo em pé! Andrea Martins Habitar o presente: entrevista com Midori Takada, percurssionista japonesa, por Graziela Mantoanelli O que é tempo para você? “O tempo geralmente é pensado como algo que flui de forma linear. Mas, mesmo dentro desse pensamento, de que é uma progressão linear, se nós nos colocarmos em um ponto desse gráfico, ele não existirá de maneira independente, ele incluirá o passado e o futuro. O passado e o futuro, são de alguma forma parte desse ponto, tornando o tempo em algo não apenas linear, mas cíclico também. Em outras palavras, você não está somente aqui agora, esse aqui agora inclui tudo o que já aconteceu com você e tudo o que está por vir. Minha idéias de tempo vem de conceitos antigos da tradição japonesa, baseada no budismo japonês e no conceito de animismo. A idéia de que os seres humanos não estão separados do mundo natural, mas que a condição humana é uma parte desse mundo, desse fluxo de tempo. Não há uma separação entre o homem e a natureza, vista às vezes no pensamento ocidental cristão. Parte dessa idéia, do Budismo animista, quer dizer que você não está aqui de forma independente. A sua presença aqui agora, inclui com todos aqueles que viveram antes de você e todos aqueles que virão. De alguma forma, todas as experiências, tudo que existiu no passado, existe em você agora, tudo o que está por vir, existe em você agora. Você não está isolado no tempo você é parte desse tempo continuum”. 6 - O TEMPO OBRANDO SUA ARTE: SOBRE TREINAMENTO E INVISIBILIDADES Alice Possani Atualmente, faz parte do léxico teatral a expressão “treinamento de ator”, compreendida de modo geral como um trabalho que acontece regularmente, e com a finalidade de aprimorar os elementos necessários para um bom fazer teatral, como a expressão corporal/vocal, a escuta, a capacidade de jogo, e etc, utilizando-se para isso de um múltiplo repertório de técnicas e tradições disseminadas de maneira global. O Projeto A Máquina do Tempo, realizado pelo OPOVOEMPÉ, trouxe à público três experimentos cênicos que tiveram o Tempo como ponto de partida, e aconteceram em formatos, espaços e propostas de relação com o público diferentes entre si. Como pano de fundo, um treinamento de ator que caracterizase menos pela capacidade virtuosa de realizar ações/movimentos no espaço, e mais pela capacidade de promover encontros potentes. Menos pelo domínio e controle do corpo do ator, do que pela capacidade de gerar afetos, de provocar experiências e provocar-se experiências. Foram necessários sete anos de contínua pesquisa de linguagem e verticalização nos elementos que compõe o treinamento do grupo, para que, paradoxalmente, em O Espelho, as atrizes pudessem estar da maneira mais cotidiana possível: um encontro sob as árvores de um parque, em que qualquer teatralidade pode esvaziar a experiência. Em O Farol, há a condução delicada e quase invisível de cada atriz que guia os dois espectadores. Em A Festa a atuação é mais evidente, e se aproxima do perigoso lugar em que atores fazem e público observa, mas desvia-se dessa armadilha na medida em que, visivelmente, as atrizes estão também sendo tocadas pela experiência provocada. Um olhar desatento pode ter a sensação de que, muitas vezes, os atores não estão “fazendo nada”, ou quase nada. E, no entanto, há uma refinada organização que sustenta essa leveza. Uma trilha elaborada com precisão, uma dramaturgia minuciosa, e muita, muita técnica por parte dos atores. É necessária farta generosidade e uma boa porção de confiança para que os atores possam permanecer nesse lugar neblinado, permitindo que a experiência emerja e, esta sim, ganhe contorno e intensidade. É fundamental que os atores resistam ao impulso de tomar a ação nas mãos e protagonizar a cena. Movimento que o público, inclusive, espera. É possível identificar nos trabalhos uma opção não só estética, mas também ética, na relação com o público, com a cena, com a cidade e com a própria profissão. Estamos falando aqui de um treinamento que inclui as técnicas, mas que não se fecha nelas. Um treinamento que extrapola as paredes da sala de trabalho e pode ser entendido como um modo de existência e resistência. Que inclui subjetividades e dilui as fronteiras entre trabalho e vida, permitindo que os encontros entre espectador e público adquiram dimensões incomensuráveis. Obrigada, ator, atrizes, diretora e toda a equipe, pela oportunidade de integrar esse projeto. Revisitando o Treinamento Suzuki e Viewpoints AS LINGUAGENS DE BASE O treinamento e a pesquisa das técnicas Suzuki e Viewpoints, que chamamos de Linguagens de Base, possibilitam desenvolver um vocabulário próprio e tem instrumentalizado a pesquisa do grupo por vários anos. Neste projeto, OPOVOEMPÉ teve oportunidades de refletir e reavaliar o treinamento através de novas experiências e das sessões de treinamento aberto. O grupo realizou trocas com o grupo Lume, através do Rumos Teatro do Itaú Cultural. Nesta fase, o grupo levou a técnica de Viewpoints para o Lume e realizou o treinamento vibracional proposto pela pesquisa do Lume, incorporando-o em alguns momentos ao treinamento de Suzuki. Ao mesmo tempo, o grupo teve a oportunidade de realizar uma oficina com Donnie Matter, ator-americano que anteriormente já havia ministrado outras oficinas com participação do grupo. Do outro lado do mundo, a atriz Graziela Mantoanelli teve a oportunidade de treinar, no Japão, com a companhia de Tadashi Suzuki. Realizamos também dez sessões de treinamento aberto com participantes inscritos, com diferentes graus de familiaridade com esse tipo de trabalho. Tais experiências levantaram questões e abriram novas perspectivas para o treinamento do grupo. Fica a certeza de que o encontro com o outro é fundamental para rever a si mesmo: os hábitos, limites, vícios e também qualidades de seu treinamento. Fica um grande desejo coletivo de dar continuidade a este tipo de treinamento em futuros projetos, ou mesmo de continuar as trocas de forma regular em um futuro próximo. Questões do Treinamento do OPOVOEMPÉ Concentração por Graziela Mantoanelli “Em Toga, um lugarejo no interior do Japão, dormindo ao lado de um riacho, onde os olhos e os ouvidos são agraciados pelo silêncio balbuciante da mata, nossa capacidade de concentração se multiplica na mesma proporção da vastidão do horizonte. Um lugar onde o foco é muito claro: o fazer artístico. Tudo gira em torno disso, desde as coisas mais simples do cotidiano, como aquelas diretamente relacionadas à prática. Treinar, ensaiar, falar, andar de bicicleta, caminhar, cuidar do espaço, cozinhar, tudo é pela arte de fazer teatro. Ao viver essa clareza no foco, a primeira coisa que me veio à mente foi: como trazer essa concentração para uma cidade como São Paulo? Uma cidade que te pede mil coisas ao mesmo tempo. Um país onde temos que nos dividir em diversos para conseguir ser um. É possível ter essa concentração aqui? É possível ter foco? Não querendo jogar a toalha, mas também desiludida com os movimentos de conquista, concluí que para ser um bom ator é preciso ser um bom meditador. Um meditador se utiliza de diversas ferramentas para abrir espaços internos que o permita estar na vida do jeito que ela se apresenta e assim deixar que ela siga seu fluxo. Nesse sentido, uma das funções do ator é permitir que as pessoas vejam a vida transbordando. Mas como realizar tal façanha se todos os espaços estão fechados. Ou melhor, entupidos pelo excesso. Daí a necessidade eterna de limpar, arejar, para que nossa tela realmente transborde a vida. Cada um tenta achar à sua maneira aquela limpeza que lhe convém, mas, diferente da meditação, no teatro esse espaço tem que ser criado de forma coletiva. É aqui que entra o treinamento criado por Tadashi Suzuki. Treinamento que surgiu de uma necessidade muito individual e que, quando foi colocada no coletivo, tomou a proporção do mundo. Nesse momento de digestão, o que fica mais forte dessa ferramenta é a sua capacidade de abrir espaços. É um mergulho interno para se chegar em algo monumental: a vida.” O Treinamento - breve reflexão Por Manuela Afonso O treinamento com artistas selecionados e convidados foi, na minha opinião, de enorme riqueza para o grupo arejar e refrescar seu treino. No caso do Suzuki training, a atriz Graziela Mantoanelli esteve no Japão estudando a técnica com o criador da mesma, Tadashi Suzuki, e durante o treinamento aberto ela conduziu os treinos e compartilhou com todo o grupo suas reflexões e novas descobertas acerca da técnica. Foi riquíssimo. Entendemos melhor alguns dos movimentos e seus motores, e aprofundamos a técnica. No treinamento do Viewpoints, a diretora Cristiane Zuan Esteves conduziu o grupo ao foco da exploração nos Viewpoints de tempo (repetição, andamento, resposta e duração). Foi bastante interessante para, coletivamente, alargarmos a gama temporal das improvisações, ampliarmos a palheta de velocidades, ritmos e durações, e multiplicarmos as possibilidades de jogo nesta direção. Eu, particularmente, fiquei bastante instigada por pesquisar a duração. Durar, durar, durar... O que me move? Quando? Recebo um estímulo, sigo durando? (onde quer que eu esteja) ou passo a uma nova ação? Escolhas. Trabalhando duração explorei a escolha dentro da sessão de Viewpoints. Mesmo buscando manter a abertura aos estímulos externos, passo a compreender corporalmente que continuar em duração (ao receber um estímulo) passa a ser uma questão de escolha! Consciente de um estímulo, agora escolho seguir, parar, transformar, manter, durar, etc... Para quem sempre buscou responder transformando ou parando ou seguindo, ganhar a opção de ficar, manter, durar, se torna um novo mundo no horizonte! Sinto possibilitar, assim, um jogo mais sincero com colegas e público. Depoimento de Carolina Leiderfab, participante do treinamento aberto “As técnicas de Suzuki e Viewpoints tem funcionado pra mim como organizadores da experiência de estar presente em cena e improvisar, a partir do corpo, variável e concreta. Tem sido um desafio expandir o jogo a partir das consígnias bastante precisas que ambas as abordagens propõem. Em outras palavras, como ter uma fôrma sem forma. É como uma fôrma de cozinha que contém, dá sustentação a diversos ingredientes, estes que variam de receita pra receita. Inclusive, a própria fôrma pode mudar, mas sempre estará lá, como base para o alimento a ser cozinhado. Treinar com as meninas do OPOVOEMPÉ me fez reafirmar a mesma pergunta que me surgiu quando conheci a técnica de Viewpoints em 2009, ao fazer o curso da SITI Company, que é: como uma técnica, cheia de variáveis, pode organizar ou dar diretrizes para uma experiência que em si, não é organizada, sem direcionar ou bloquear a mesma?” Trechos de entrevista sobre tempo com Valdir Afonso “Eu posso ter um tempo de não fazer nada. O tempo de não fazer nada, para mim ele é muito útil porque aparentemente eu não estou fazendo nada, mas alguma coisa ta sendo gestada. Agora isso também é em função do que eu projeto para mim, né? Eu não me projeto estar, fazer, acontecer... ser isso, ser aquilo... Eu projeto para mim exatamente uma qualidade de vida num lugar que ao mesmo tempo está nessa redoma. Porque eu estou, não estou fora, eu vivo em São Paulo, eu tenho trabalho, mas eu toco isso de um jeito.. que isso não determine o que é minha vida, mas que a minha vida se relacione com isso. A minha preocupação hoje é muito mais de entender o que acontece do que intervir no que acontece. Neguinho num bota uma coisa na internet e .. estouro a boca do balão. O mundo inteiro viu, o mundo inteiro soube. Agora, a gente sabe também que três dias depois vai ter uma outra. O que é realmente importante nisso? Ou que isso é só ficar fazendo borbulha? Fazendo borbulha, fazendo borbulha. As pessoas correndo feito doidas, fazendo borbulha, fazendo borbulha. E o tempo, ao fim ao cabo, é aquilo que a gente faz dele. Se eu acredito que a felicidade está no mercado e que eu tenho que ser o ban ban ban das calonga, que se eu não for o ban ban ban das calonga eu não vou ser feliz. Se eu não tiver um apartamento de um milhão de reais, um carro de duzentos contos, se eu não tiver meus filhos estudando não sei aonde...evidentemente, se eu acredito que a felicidade é isso, aí eu tenho que ir atrás do tempo que isso pede das pessoas. Agora, se eu acredito que o barato é um outro, vai me exigir um outro tempo. Então, o tempo é muito do mundo que você pertence. E você pode pertencer a mais de um mundo ao mesmo tempo, também tem isso. Então, essa é a complexidade.” 7 - DEVORANDO O TEMPO Ao longo do projeto foram realizados grupos de estudos coordenados por Ciro Marcondes, Laymert Garcia dos Santos, Peter Pál Pelbart, Maria Rita Kehl e Cassiano Quilici. Esses grupos foram abertos à inscrição de interessados, e trouxeram farto material para refletir, deglutir, digerir, questionar, pensar e criar o Tempo. Ainda com o intuito de investigar o tema de maneira compartilhada, foram realizadas duas palestras abertas com o tema “Visões do Tempo”. Os palestrantes foram José Miguel Wisnik e Jorge Albuquerque Vieira. Segue texto produzido por uma das participantes dos grupos de estudo, bem como transcrições das falas dos coordenadores e das referidas palestras. IMPRESSÕES GERAIS POR DÉBORA PINTO, PARTICIPANTE DO GRUPO DE ESTUDOS 01, COORDENADO POR CIRO MARCONDES SOBRE A ABERTURA DO PROCESSO ou contribuições do formato Grupo de Estudos conforme proposto pelo OPOVOEMPÉ Uma das principais peculiaridades do fazer artístico incide no fato de que este, inflado de estratégias, abarca uma enorme quantidade de riscos e, por isso mesmo, de potenciais de erro. Esta relação com o risco e as escolhas utilizadas neste percurso podem criar linguagem, especular estéticas, fazer emergir possibilidades. São escolhas dentro de um processo e, ao mesmo tempo, aquelas que definem o próprio processo em curso. Desta maneira, a abertura de processo, segundo o meu olhar e explicitando aqui também parte do meu interesse neste Grupo de Estudos, aparece como uma oportunidade para observar uma parcela da construção estratégica em prol do compartilhar de conhecimento em uma de suas partículas - a do aprofundamento teórico acerca do tema base da proposição artística. Reunir pessoas de diferentes formações e pontos de perspectiva em uma rodada de diálogos suscita claramente um desafio, uma angústia, uma espera - e muitos riscos. Um Grupo de Estudos é também em si uma articulação criativa, se assim ele for visto e tratado. Eis aí uma das importâncias da gestação de espaços para este modo de compartilhar, certamente um dos mais raros e também dos mais promissores quando o objetivo é buscar e ultrapassar ideias, crenças e paradigmas. Além de abrir portas para o enfrentamento do desafio da alteridade, mapear pensares compartilhados e divergentes e, certamente, expandir fronteiras de pensamento e ação. SOBRE O PROCESSO DE SELEÇÃO as motivações e a pesquisa O processo de seleção para o Grupo de Estudos 01 obedeceu a uma celebrada ordem de fatores em meu caso. Eu havia tido uma experiência de viagem ao conhecer um vendedor de antigüidades que comercializava e colecionava relógios antigos, com quem tive uma troca sobre a passagem do tempo que havia aberto diversos espaços de percepção em minha mente. O sabor da experiência se perpetuou em mim por semanas até ser elaborado em uma síntese: o que eu desejava fazer era refletir sobre o tempo. Restava-me, então, encontrar um modo de realizar tal intento. Ao ver a proposta do OPOVOEMPÉ, tive uma espécie de chamado poderoso. Eu estava desperta para um tema e ele, ao que parecia, também queria revelar-se para mim. Basicamente uma oportunidade genuína. Tipo da raridade que não pode ser desperdiçada. Com esta motivação, reservei um dia para buscar as minhas próprias referências sobre o tema Tempo, um pequeno garimpo que se mostrou produtivo com uma velocidade surpreendente. Foi simples encontrar nas páginas dos livros os trechos que interessavam àquele intuito - e no fim do dia, após finalizados os textos para a ficha de inscrição, desfrutar o deleite de reler Alice no País das Maravilhas. As escolhas para o processo de seleção, bem como a elaboração dos pequenos textos que de que este era composto, ordenaram a pesquisa e me solicitaram a dar alguma forma aos referenciais encontrados. Foi, além de um pequeno mergulho, uma espécie de preparo para o processo que estava por vir. O GRUPO, OS ENCONTROS Como avançar em um grupo de estudos? Que tipos de dinâmica fariam com que aquela junção de aproximadamente quinze pessoas trouxesse pequenos ou grandes iluminares acerca do Tempo? Grande parte dos presentes no Grupo tinham uma vivência artística, e mais especificamente teatral. Mas também havia representantes de outras formas de expressão, como as artes plásticas, a dança, a literatura. Grande parte das trocas, porém, não tocava necessariamente estas experiências. Após o primeiro encontro, que contou com proposições mais dirigidas por parte do professor Cyro Marcondes, os debates passaram a desnudar conceitos e sensações, sentimentos e percepções de cada um daqueles indivíduos em sua relação diária com a temática do tempo - com especial destaque para as fricções, os desencontros, as assimetrias e fissuras provocadas por este relacionar-se. Assim, cada qual - as atrizes, os componentes do grupo e o professor Ciro Marcondes foi tecendo encontro a encontro um modo de interação que possibilitou a expressão de pensamentos e ideias que podiam se embeber de afetividade livremente, além do deliberar mais conceitualmente científico e formal. Esta abertura possibilitou trocas e momentos surpreendentes, muitas vezes fruto de divergências que inflamavam potencialidades ou de convergência que construíam caminhos de pensamento, frases e partituras poéticas, pequenos despertares e alguns nós que iam desatando-se de maneira progressiva no curso de cada encontro. Não havia dúvidas, porém, de que os ouvidos e corações ali estavam definitivamente presentes e claramente tocados pelas capilaridades daquela temática. O TEMPO ENQUANTO TEMA Amplo, profundo e complexo, o tema Tempo conta com um aspecto fugidio. As conclusões que suscita são tantas e levam a tantos caminhos que parecem edificar verdadeiros labirintos. O meu interesse principal inicial era o de discutir o tema a partir principalmente dos fenômenos da memória, quer do aspecto individual quer do coletivo, um viés histórico fortalecido pela minha devoção à museologia e às questões relativas ao patrimônio histórico. Ou seja, o meu ponto de partida era a relação com o tempo passado e com a experiência humana de suas ações. Rapidamente esta se revelaria apenas uma das entradas no imenso labirinto. Física, Sociologia, Psicologia, Arte, Antropologia, História, Comunicação e outras ciências apresentam verdadeiros tratados sobre e para o Tempo. A forma como cada um se sente tocado por seus tentáculos e manifestações é ainda um campo mais vasto. Trata-se de uma temática, no mínimo, profundamente desafiadora. E o Grupo de Estudos que sobre ela se debruçou em diversos momentos experimentou, creio eu, seu formato de esfinge a fazer mais perguntas do que oferecer respostas e suas imagens, sólidas apenas enquanto miragens. DESDOBRAMENTOS Abaixo pontuo alguns dos caminhos mais percorridos ao longo dos diálogos ocorridos no Grupo de Estudos 01, de acordo com a minha percepção. O critério para a escolha desses desdobramentos foi, basicamente, sua recorrência em diferentes encontros e o impacto causado nos presentes (e, é claro, em mim). Vida, morte, ritmo e compasso O relógio, esta alegoria do tempo, marca também alegoricamente nossa trajetória de vida. Não importa o quanto nossa existência seja longeva, simplesmente carregamos a consciência de nossa finitude. E também a de que as badaladas das horas continuarão seguindo após nossa partida. Mesmo que filosoficamente ou artisticamente seja possível desconstruir esta imagem, não acredito - e o senti fortemente durante o Grupo de Estudos - que nossa existência possa se eximir de uma constante conversa com as tradicionais medidas das horas e anos, em um constante balanço entre o que fora percorrido e o que ainda está por ser trilhado. Incrível como a morte e a finitude embrenham-se na reflexão sobre o Tempo. Especialmente impactante a confrontação com uma espécie de senso de compasso de vida também me tocou profundamente. O que seria estar em um compasso correto, em sintonia e amizade com o Tempo? A que equivaleria à perfeita harmonia entre ritmo e compasso? A temporalidade exercida pelos ciclos da natureza é a mais apta a reger as nossas relações conosco e com o mundo? A experiência contemporânea e urbana estaria nos deixando de alguma maneira especialmente desnorteados? Nosso temor em relação à morte influiria mesmo tão drasticamente nestas relações? Perguntas de esfinge, respostas miragens - e ainda assim, respostas perseguidas como oásis. Creio que não por acaso este desdobramento se repetiu tanto. Estar no tempo, para nós humanos, é estar embebidos em finitude. Temos prazo de validade. É necessário lidar com esta verdade, absoluta. De especial beleza foi verificar o impacto do dueto Tempo-finitude em diferentes membros do grupo de acordo com o momento de vida - a chegada aos 40, a partida da adolescência ou de um certo tipo de juventude. Olhares compartilhados para começos, meios e fins. Capitalismos O choque entre a utilização que fazemos de nosso tempo e o nosso desejo de liberdade encontraram um motivador comum em muitos dos encontros: o sistema capitalista. Parece ser difícil livrarmo-nos da sensação de nos encontrarmos impregnados de um sistema falido, que nos absorve e de alguma forma condena, ao mesmo tempo que nos possibilita o nosso estilo de vida e mesmo a nossa existência como a conhecemos. Como que por consequência, observamos que o consumo e sua abrangência ampla nos toca não apenas do ponto de vista prático mas também sob o aspecto subjetivo. Simplesmente não conseguimos escapar, ao falarmos sobre o Tempo, do bom e velho ditame “tempo é dinheiro”. Uma vez que a regulação de nossas vidas passa pela nossa capacidade de consumir - e também de gerar recursos para o consumo - nossos relógios sociais recebem a interferência capitalista nas mais variadas camadas. As 24 horas de nossos dias, os dias da semana, os meses, a organização dos anos. As aglomerações, movimentos, celebrações, o ócio, o divertimento, o prazer. Temos no capitalismo uma espécie de cartilha imperativa para a correta manobra em cada um desses setores, uma fórmula matemática de emblemas simbólicos pautando severamente nossos relógios. Não são afinal os patrões e as corporações grandes compradores de tempo produtivo de vidas humanas? Buscar autonomia e sair da cartilha apresenta riscos e preços - como qualquer escolha. E requer de nós capitalistas um modo especial de preparo: a compulsão que liga produção e consumo acaba por nos convencer de que tempo improdutivo é tempo perdido. E que tempo é algo que se pode perder, como se podem perder notas de dinheiro. No que indago: o que seria o equivalente contrário? O que seria ganhar tempo? A imagem de um tempo que não se acumula, que não se pode colocar em uma caderneta de poupança nem ser ampliado por especulações surgiu em dado momento como que para novamente nos trazer a consciência de que o tempo de uma vida humana conta com um aspectos que saltam ao sistema. Ele existia quando ainda não existia sistema. Tem fluxo em sociedades onde o capitalismo não é o sistema. E mesmo em nós, ocidentais capitalistas, carrega impagáveis camadas de sonho, belezas, sutilezas, significados, invisibilidades, sagrados. Tempo-cidade em artefatos e artifícios Vejo em São Paulo uma bomba relógio. A velocidade está nas entranhas de suas vias e, para os que nela habitam, parece acelerar até o sangue que corre pelas veias. E não apenas porque carros, ônibus, metrôs, motoboys e pedestres são velozes. Mas pela sensação atmosférica de que algo está programado para nos fugir completa e totalmente do controle assim que micro ou macro ciclos temporais se fecharem sobre nossas cabeças. Estará perdido se não dançarmos corretamente em seu ritmo acelerado. Desfalecerá se formos lentos em meio a seus pedidos. Desmantelará se não obtivermos todas as repostas e respondermos a todas as perguntas. Esta certamente é uma característica de qualquer grande cidade. Mas a peculiaridade aqui parece estar no ríspido desencontro entre o relógio da bomba que nos põe em marcha e fisicalidade concreta da urbes. Ela nos entrava. Torna complexa até a mais simples das ações de deslocamento. Faz desmoronar referências e nos desnorteia, como que viva e zombeteira. E cresce em população, incha. Renova a cada dia suas estratégias para seguir nos acelerando e nos debatendo, como que na certeza de que jamais teremos condições de desarmá-la e retirá-la de sua condição de artefato explosivo armado de uma intrínseca condição temporal. E, pois que rememoro que cidades são, basicamente, artefatos humanos. E a velocidade está em nós, em nossas escolhas, em nossas demandas, em nossos anseios mais ou menos associados ao modo de viver da cultura contemporânea e todos os seus afins. Sim, há os imperativos capitalistas, bem como as exigências sociais que escolhemos acolher. As regras do lugar e aquilo que acreditamos necessitar para sermos aceitos e amados. A cidade somos nós. Mas também as construções, prédios, avenidas, ruas e calçadas esburacadas. A expansão desordenada. A desordem. O caos. A beleza. O tempo único que produz. Os múltiplos que imbrica. Os multiversos que silencia. As variadas cadências. Os solavancos que reverbera. Nas 24 horas dos dias. Nas tardes que vemos cair no trânsito. Se determinamos a cidade ou é a cidade que nos determina, se fazemos o tempo da cidade ou o é tempo da cidade que nos faz. Nos diálogos do grupo, mais uma vez mais esfinges do que resultantes fixas. E, por fim, um fato: escolhemos estar no caos São Paulo, nos temporalizar com ele. Talvez, e aqui me arrisco, porque sintamos que nesta terra bomba relógio exista a possibilidade real de ciclos revelarem não somente caos ou desalento, mas também brilho e cores intensas como as de barulhentos e bem-vindos fogos de artifício. Querer parar ou uma vida de índio Neste exato momento em território brasileiro, milhares de seres humanos dotados das mesmas faculdades que eu não estão preocupados com o fato de amanhã ser segunda-feira, dia útil em que enfim os bancos abrirão e as contas poderão ser pagas sem atraso. Para eles não existem conceitos como “banco”, ou “contas” e, obviamente, nenhum sentido na expressão “pagas sem atraso”. Eles acordarão amanhã para um modo de vida que desconheço quase que completamente, em total integração com a natureza que os cerca e com os ciclos que esta produz. Não sei exatamente como determinam a hora de fazer isso ou aquilo, mas é certo que se organizam, que vivem, que amam, que se divertem, que trabalham. E que não usam relógios. A verdade é que a vida dos índios sempre exerceu sobre mim uma espécie de fascínio absoluto. Secretamente, confesso, os invejo desde a infância e desde a infância torço para um dia, por algum motivo inimaginável, transformar-me em membro alguma tribo ainda não culturalmente sucateada. Ter uma existência com um grau completo de intensidade, em contato direto com a realidade mais tátil e natural. E nunca, nunca, nunca mais ser acordada por um despertador. Eis que meu sonho de infância aparece agora compartilhado com conterrâneos mais chegados, mesmo que sob disfarces. E suspeito que, se não é por fama e glória do modo de vida das florestas, é em grande parte pela desavença em relação aos despertadores, aos dias úteis, às contas a serem pagas sem atraso. Muitos dos que encontro afirmam que, em um ponto da vida ou em todos, está em “uma correria”. E não são poucos os que mais intimamente deixam escapar: “sabe, eu queria mesmo era poder parar um pouco”. Durante o Grupo de Estudos, em diversos momentos senti, de forma mais ou menos explícita, este clamor pela desaceleração. Aqui e ali uma certa nostalgia de tempos históricos não experimentados, mas aparentemente dotados de uma temporalidade mais alinhada com os nossos anseios de felicidade. Podemos experimentar uma incrível velocidade na comunicação, no acúmulo de informação, no deslocamento pelo globo. Embora por vezes esse acelerado possa provocar cansaço, também nos permeia de reais e verdadeiros prazeres. As velocidades se sobrepõem e nos amparam. E mais uma vez a questão parece ser a liberdade, ou uma certa categoria de liberdade de escolha. Mergulhados em nossas realidades, corremos o risco de nos esquecermos de nossa capacidade criativa para ter experiências temporais distintas. E não falo apenas das que vivenciam os índios. Mas do tempo em suspenso da paixão romântica, que pode deixar marcas e estar presente por anos. O tempo da dor profunda. O tempo das despedidas. O tempo dos recomeços. O querer parar talvez esteja associado ao desejo de vivenciar cada uma dessas experiências dentro de sua intensidade e cronologia específica. Do sonho de organizar a existência levando em conta nossas sensações e sentimentos, dos mais sutis aos mais contundentes. Se não uma vida de índio, uma vida de pele, de nervos, de coração, de pensamento, de contemplação. E de aceleração, quando assim nos parecer de justa medida. A liberdade de transitar por distintas temporalidades é o nosso querer parar. Em paradoxo, portanto, não uma estática forma, mas uma vibração e um movimento. APONTAMENTOS percepções e sugestões gerais Em relação ao Grupo de Estudos 01, creio que poderiam ter dado lastro ao processo trabalhos gerados pelos participantes - por exemplo, no formato de texto. Da mesma forma, proposições temáticas, embora apresentassem o risco da limitação, também ocorreriam como balizas capazes de aprofundar as discussões. Da mesma forma, creio que um fechamento de processo, com uma avaliação do grupo sobre o encaminhamento e/ou algum produto (texto ou qualquer outra modalidade de expressão) auxiliariam nesta finalização com mais amarração. No mais, coloco como altamente generosa a postura das criadoras do OPOVOEMPÉ no andamento de todo o processo. Foi sem dúvida uma aventura dessas capazes de despertar novas percepções e gerar transformações dessas que só a poesia pode promover. ENCONTRO COM PETER PÁL PELBART DATA: 12 DE NOVEMBRO DE 2011 Cristiane – A gente também mandou um texto pra todos, espero que tenham lido, que era bem lindo - Arnaldo tempo rei a gente mandou - para as pessoas já começarem a entrar no espírito dessa discussão, desse grupo de estudo que a gente fez uma primeira parte. Tem alguns remanescentes dessa primeira parte que continuam com a gente, tem os que estão chegando novos hoje, tem o pessoal que são os colaboradores expandidos, aqueles... Marrie, Marcos, são as pessoas que tem trocado com a gente em sala de ensaio também, como em outras dimensões, assim. Então acho que é bem legal a gente reunir todo mundo. A gente tá estudando o tempo. O nosso projeto chama A Máquina do Tempo (ou longo agora) e a ideia é de pensar o que são essas máquinas do tempo e como a gente lida com o nosso tempo, um monte de questões que a gente já levantou mas que...eu não sei, assim, eu fico muito contente de poder ter você hoje aqui por que, eu acho que quando a gente lê seu texto, super poético, ele inspira muita coisa. Eu acho que esse grupo de estudo mais do que chegar em alguma conclusão, são provocações para criação. Então a gente tem a sorte de ter muita gente que trouxe várias inquietações ou várias visões diferentes para gente e que isso desperta possibilidades de criação. Então acho que essa é a brincadeira de ter esse grupo de estudos hoje. A gente tá um pouco desfalcado hoje até, por causa do feriado, mas ... pode ser que alguém chegue ainda e não sei. Mas é isso. Peter – Tá. Como é que vocês imaginam que a gente possa proceder? Me ocorre duas possibilidades. Uma que, a partir da leitura que vocês foram fazendo, das questões que os inquietam, que vocês me digam um pouco assim no meu cargo o que vocês gostariam de ouvir e a partir daí eu faço uma fala que retoma o que me coube. Outra possibilidade é eu ir dobrando alguma coisa, depois vocês vão interferindo no meio, e depois a gente conversa, num sei. Qual é a dinâmica que vocês imaginam? Mais produtiva para vocês... lance. Ana – Eu acho que tendo o tempo, que é o nosso motivo aqui do trabalho, a alternativa B me parece boa, de você sugerir e dar uma...daí a gente vai entrando. Cristiane – E a gente também vai perguntando coisas. Peter – Ta bom. Eu vou fazer assim oh, eu não vou fazer uma exposição assim esquemática sobre a criação do tempo que é vastíssima, mas eu posso abrir algumas, eu vou oferecer algumas imagens que nos ajudem a pensar. Eu vou começar com um ... eu tive com vocês aqui a 3, 4... Cristiane – 2 anos e meio. Peter – E sobre o que que eu falei aqui? Cristiane - Era o Aqui Dentro Aqui Fora, e você falou uma coisa muito linda que era do “outrar-se”, de encontrar o outro e ser modificado. É bem lindo. Tá no site. Peter – É só para eu não me repetir né, eu venho ao todo duas vezes e digo mesma coisa... Ana – É repetição. Peter – Então, vamos começar com uma imagem do Bergson, que tá um pouco naquele texto que você me enviou. Aquele texto circulou, não é? Ou não? Cristiane – Qual, o ...? Peter – O do Deleuze? Cristiane – Não por que era em Francês e eu acho que não é todo mundo que fala francês.... Peter – Então ó, eu vou retomar um fragmento filosófico extraído do Bergson, que viveu no final do século XIX, no começo do XX. São textos que o Deleuze usou muito para escrever os livros dele sobre cinema, tem o Cinema I e Cinema II. Então é ... nada disso importa. Eu vou contar uma historinha: Era uma vez, era uma vez um monte de imagens. Apenas imagens. Imaginem que nessa espécie de início de um universo não houvesse nada além de pura imagens. Imagens que percutem umas nas outras, ou seja, a cada movimento, cada movimento de uma imagem provoca um movimento da imagem vizinha. Como se fosse um mar de imagens, como se fossem gotas, cada movimento de uma gota produzisse algum movimento na gota vizinha. A gente poderia comparar esse mar de imagens a uma espécie assim de barulho cósmico. Então era uma vez apenas imagens. É uma ficção que o Bergson sugere. Ora, uma imagem ao receber um movimento ela imediatamente transmite esse movimento a diante, ela não faz nada a mais do que transmitir o movimento que ela recebe. Eu sei que tudo isso parece no limite da alucinação, por que como é que a gente pode imaginar um mundo de imagens onde sequer houvesse um sujeito ou um olho? É imagem para quem? Imagem de quem? Mas é assim mesmo. Tomemos esse grau de alucinação filosófica. Era uma vez um momento em que só havia imagens e nenhum sujeito que as contemplasse e nenhum sujeito no qual essas imagens estivessem. Aí, imaginemos que cada imagem, como se fosse uma espécie de célula que recebe um movimento e retransmite esse movimento. Imaginemos que no meio dessas infinitas imagens houvessem algumas que ao invés de receber e transmitir o movimento, aquilo que elas recebessem de movimento elas tardassem um átimo em retransmitir. Seriam como que imagens um pouco mais lentas que as demais, que elas não transmitissem automaticamente tudo aquilo que incide sobre elas, que houvesse nessas imagens uma espécie de retardo, ou mais do que isso, uma pequena hesitação. Essas imagens que o Bergson vai chamar de imagens vivas, essas imagens singulares que não se satisfazem, ou melhor, que não conseguem transmitir automaticamente o que elas recebem, e elas são como que um centro de indeterminação. Elas são lentas. Elas não reagem imediatamente. Elas hesitam. Elas produzem uma espécie de hiato no automatismo dos movimentos e o Bergson vai dizer: essas células imagens ... pera ai, deixa eu recuar um passo ainda, vai ficar mais obscuro. As imagens não só transmitem o movimento de umas para as outras, mas elas também são pura luz. Elas incidem luminosamente umas sobre as outras. Elas percutem luminosamente umas sobre as outras. Elas marcam luminosamente uma as outras. Tudo aqui é enigmático. Essas imagens, que o Bergson chama de vivas, que quando recebem um movimento não o transmite imediatamente tal qual, mas elas como que impõe um retalho, uma hesitação, um hiato temporal, uma espécie de intervalo, é um foco de indeterminação, por que? Porque não dá para saber o que vai acontecer logo em seguida. Elas receberam um movimento, por exemplo, um golpe, ao invés de retransmitir esse golpe elas podem não reagir. Elas podem sofrer um tremor, elas podem um leque de possibilidades que é indeterminado. Para o Bergson o que caracteriza o vivo, em oposição ao inerte é precisamente isso. O vivo é aquele que sofre ações de outros objetos ou seres e que não as prolonga automaticamente, é como ele se reservasse o direito de escolher entre múltiplas possibilidades como é que ele vai reagir, se é que ele vai reagir. Então, esse foco de indeterminação é para Bergson uma certa margem de liberdade. O ser vivo é isso, o ser vivo é um foco de indeterminação com uma margem de liberdade. Tudo isso por que? Justamente por que ele é uma espécie de intervalo temporal, há um hiato, ele é um hiato, como se ele abrisse nesse retardo que o caracteriza uma margem de manobra, possibilidades diversas. O ser vivo é da ordem na hesitação, ao contrário ao inerte, não hesita nada. Se você dar um golpe numa bola, ela vai. Imediatamente. A bola obedece automaticamente ao movimento que lhe é imposto. O ser vivo não obedece automaticamente. Ele se reserva, digamos assim, o direito de escolher num leque de possibilidades a partir - eu insisto - de um retardo, de uma hesitação, de uma indeterminação. Então é ai, para Bergson é aí a gente poderia dizer, que nasce o Tempo. Nessa...nesse retardo, nesse hiato, nessa indeterminação, nesse intervalo, nasce um possível e não mais o necessário. Se a gente agora pensar ao invés do movimento, ao invés de transmitir alguém me dá uma porrada, ao invés de eu devolver eu tremo, ou eu choro, ou eu me lembro de todas as pancadas que eu levei ao longo da minha vida, ou eu desfaleço, ou eu dou um golpe no meu vizinho, ou eu desconto no meu filho, percebe? Ou nada disso. Eu escrevo. Ou eu vou lá e piro no palco. Quantas possibilidades. Eu levei um golpe. Ao invés de eu imediatamente retransmitir esse movimento que eu recebi ... há ai um hiato, uma margem, de onde podem surgir “n” possíveis e nenhum dele está determinado. Por isso que é um foco de indeterminação, uma certa liberdade, não assim como a gente costuma entender: “a consciência resolve entre 5 opções”. Não, a liberdade do ser vivo é de outra ordem. Não é da ordem da consciência escolhendo, mas é o vivo produzindo possíveis que antes não estavam inventariados ou repertoriados nas reações admissíveis. Então é fenomenal porque nesse... isso é do ponto de vista do tempo, eu queria falar um segundo sobre a luz. Depois a gente retoma o tempo, aliás, eu falei do movimento, eu queria falar umas coisas sobre a luz. No Bergson isso tudo é o início de um livro extraordinário e dificílimo, que eu não aconselho para ninguém, chamado Matéria e Memória. É o livro mais difícil do Bergson. O primeiro capítulo é essa descrição do barulho cósmico feito de puras imagens, movimento e luz. Então, as imagens se marcam umas as outras luminosamente, mas como elas se imprimissem sobre um negativo fotográfico nem todas revelam o que foi marcado luminosamente ali. Só algumas revelam. Essas que não são propriamente luminosas, mas são como que uma tela negra. Nelas a luz incide e elas funcionam como uma espécie de revelador fotográfico. Então elas conseguem fazer aparecer aquilo que luminosamente foi impresso sobre elas e esses também, no universo, são seres vivos. Os seres vivos não é que eles tem algo a mais do que os não vivos, ao contrário, eles tem algo a menos. Eles tem uma lentidão que os outros não tem. Eles tem uma escuridão que os outros não tem. Pelo fato deles terem um retardo, o leque de possibilidades neles aumenta. Pelo fato de eles terem como que uma escuridão, a marca luminosa que incide sobre eles, neles se revela e em outros não se revela, tá na marcada, não se revela do mesmo jeito. Então nós somos, nós somos seres... primeiro, se a gente estender isso do vivo para o humano, se a gente generalizar um pouco - agora eu to saltando para fora do texto do Bergson, mas a gente pensa, bom. O que nos caracteriza com vivos, ainda mais como humanos não é que nós temos mais, é que nós temos menos. Isto é, nós somos mais lentos, mais hesitantes, mais retardados. Que bom, nós somos retardados. E segundo que ao invés de nós sermos pura fonte luminosa, nós temos como que uma tela negra que seria um pouco a consciência onde revela-se aquilo que nos marcou luminosamente. Vamos deixar esse aspecto de luz, que é muito importante e poderoso pensar o cinema, e vamos deixar também o aspecto movimento, que é muito importante e poderoso também pensar no cinema. Quer dizer, esses dois instrumentos, o que é o cinema senão imagem, movimento e luz? ...... foi, pegou no poço da dissonância tudo o que ele precisava para teorizar o cinema. Mas fiquemos só com esse aspecto do tempo, por enquanto. Hiato: intervalo no automatismo da ação-reação. Uma espécie de quebra. Nós somos aqueles, tô exagerando no nós mas, essas imagens vivas são aquelas que quebram a velocidade e o automatismo dos movimentos. Bom, daí se extrai toda uma teorização sobre a subjetividade, ou seja, o que é o sujeito? É aquilo, é aquilo que nasce nesse hiato, nesse intervalo, nessa, nesse retardo. O sujeito é da ordem de uma lentidão. Pronto, primeira cena. Encerro essa. Vou para uma segunda, a menos que vocês queiram interromper e podem, à vontade. Se nessa ficou alguma dúvida, alguma questão que querem associar vão em frente, sim? Tá mais ou menos, assim, 3% claro? Mais que isso não precisa. Três. Público: Risos Peter - Três, três e meio? Público - Não, acho que mais. Peter - Mais, até? Público - Aham. Peter - Então, vamos para um segundo momento Bergson. O que é esse retardo? Esse hiato? Essa indeterminação? O que tem aí dentro? Agora to dando um salto, tá bom? Vamos supor que o que tem ai dentro, vamos dar um nome pra isso, é ... vamos chamar isso de duração. Duração. É um nome esquisito. Bergson pescou esse nome assim... na verdade Bergson brigou com muita gente de toda a história do pensamento, porque ele discordou de uma tradição longuíssima de filósofos muito eminentes que sempre, segundo ele, ou melhor ... que nunca, segundo ele, conseguiram pensar o tempo. Segundo Bergson a tradição filosófica, desde Sócrates, é uma brutal negação do tempo. É uma ignorância do tempo ou é uma desqualificação do tempo. Por que? Não é que esses pensadores não eram inteligentes, não eram, não tinham...mas, um cacoete do pensamento inteiro e que amarra história da filosofia em geral é que esses pensadores sempre, quando pensaram sobre o tempo, traduziram o tempo em espaço. A representação mais trivial do tempo é uma linha do tempo, né? Você sempre põe uma flechinha na ponta. Olha só a linha do tempo. Isso é uma linha do tempo. Taí o tempo. Bergson diz, aqui eu não estou vendo o tempo, eu estou vendo o espaço, eu estou vendo uma medida, eu estou vendo uma quantidade, eu estou vendo números ou seguimentos do espaço. Mas o tempo não é isso com essa linha, com essa quantidade, com essa representação cronológica. Tempo é outra coisa. A tal ponto ele achou que tempo era outra coisa, que ele desistiu da palavra tempo, deixou o tempo como palavra com esses que o representam espacialmente, e pegou uma outra palavra que chamou de duração. E a duração é nome que Bergson dá ao tempo pensado, não a partir do espaço, não em contraposição da eternidade e um monte de coisa que eu não vou falar agora, mas o tempo pensado na sua dimensão, na sua espessura própria, na sua densidade própria e na sua qualidade própria. Porque o tempo é uma qualidade não é uma quantidade e pensar o tempo qualitativamente é uma tarefa difícil e ele, para Bergson, a gente pode dizer que metade da obra do Bergson foi tentar pensar a densidade qualitativa própria do tempo sem recorrer aos parâmetros quantitativos, espaciais, causais, que o repertorio filosófico nos oferece. Mas então a gente tem uma pequena dificuldade, porque sim, duração, duração é uma coisa difícil de pensar. Vou tentar dar dois ganchos. O primeiro tem a ver com uma características que para nós talvez seja mais fácil inicialmente de imaginar, a duração ... se a gente por um segundo se debruça sobre a nossa temporalidade interna, digamos, o nosso fluxo de consciência. Nosso fluxo de pensamentos, volições, sensações, a gente se dá conta de que há uma espécie de ... eu tava numa defesa de tese ontem e antes de ontem. A de antes de ontem que era sobre tango. E a moça fez uma tese sobre o tango, esteve em Buenos Aires, fez uma pesquisa, assim, de campo muito intensa, né? E foi perguntada ali - qual é afinal o segredo de conseguir desfrutar do tango sem grudar num clichê de movimentação? - e ela deu uma resposta estonteante. Ela diz - olha, o segredo é, conforme me ensinou meu professor de tango, é fazer cada movimento como se ele fosse o último da sua vida. Portanto você não sabe o que vem depois. Se ele é o último você não tem como antecipar o que é que vai seguir-se a ele. Eu achei essa resposta, assim, muito intrigante. E aí, eu não tive tempo nem de ler direito, nem de preparar direito, nem de preparar as minhas perguntas, quase ... era o dia que tava marcado para vir aqui inclusive. Público - Risos. Peter - Mas aí me veio assim eu disse - poxa - será que eu conseguiria fazer a experiência de falar essa arguição aqui? Usar cada palavra como se ela fosse a ultima? Eu não consegui. Eu não conseguiria viver na linguagem com um precipício na minha frente. O Kafka conseguiu. Mas é um gênio. Mas eu não conseguiria. Já pensou? Essa é a ultima palavra que eu vou dizer na vida. Depois tem que ver que outra vem, sempre vem, ou se é que eu desabo. Ora, para o Bergson é uma experiência impossível, por que? Porque a duração é uma experiência de continuidade, não de descontinuidade abrupta. A duração, essa...a duração tem dois aspectos contraditórios. Primeiro é uma continuidade, por isso você não pode recortá-la em segmento, por isso que a linha não serve, por que a linha é um monte de pontinhos. Mas e como é que passa de um ponto pro outro, pergunta o Bergson, ninguém sabe. Como é que, se você imagina que o tempo é uma quantidade de instantes, você com isso não consegue revelar o maior mistério. Como é que se passa de um instante pro outro? Você pode dizer - não, a minha vida é uma seqüência de muitos instantes - mas e a passagem? E pro Bergson o que é essencial no tempo é a passagem, os estados pelos quais se passa são quase secundários, ou melhor, os estados são como que fotos instantâneas de um movimento que ele é continuo. O movimento é continuo. A gente pode dizer - não, passei por tal estado, depois por outro, por outro, mas a passagem é o que importa. Bom para o Bergson a continuidade na duração lhe é intrínseca e essencial. Esse é um aspecto. O segundo, que é um pouco mais difícil mas eu não acho que é difícil, que é: a duração é uma multiplicidade. Como assim? Como assim? É uma multiplicidade, vou dar um exemplo, o mais fácil, a música. Pensemos na música. A música sem uma continuidade ela não é nada. Sem a continuidade ela se, como diz, ela se fragmenta em pedacinhos soltos. Mas na continuidade ela vai incorporando múltiplas tonalidades, notas, melodias etc. É uma multiplicidade... então, tem uma continuidade e uma variação. Se só tiver continuidade não é musica. Se só tiver variação sem continuidade tão pouco é música. O tempo é a mesma coisa. O tempo é continuidade, mas essa continuidade é uma variação de múltiplos elementos que vão surgindo ou desaparecendo, se agregando, se avolumando, se adensando, se incorporando. Então continuidade e multiplicidade. É muito difícil pensar isso junto, mas o exemplo musical nos salva. Então o que que é ... não dá ... Então ... terceiro passo. Pensando que o primeiro - onde é que eu tava na minha contagem? Não, eu dei dois elementos sobre a duração, a verdade é isso. A continuidade e a multiplicidade - o terceiro elemento que eu vou oferecer é aquele sem o qual nada disso seria pensado, que no fundo é um sinônimo de tempo também, que é a memória. A memória. Ora, vamos pensar assim: como é que poderia ter continuidade, se eu não tivesse a memória dessa continuidade? Se não houvesse uma memória que nem se....eu poderia ter este fragmento de segundo como se ele fosse o último ou o primeiro da memória isolado o que o precede e o que o sucede. A memória ... bom, a memória, não vou, nós não vamos aprofundar, mas eu queria dizer assim. Então, esse é o segundo segmento, posso pular para o terceiro? O segundo era sobre a duração. O primeiro era sobre o intervalo, o hiato,o foco de indeterminação. O segundo era sobre a duração. O terceiro vou falar um pouquinho da memória, não queria mas vou. 41:30 Homem – Mas diga então uma coisa. Peter – Fala. Homem – Então a memória ela é também uma característica da duração? Peter – A memória ela é sinônimo da duração num certo sentido. Homem – Ela não está em pé de igualdade com a continuidade, com a multiplicidade, não são três componentes da duração? Peter – Não, não. São os dois. A memória é porque ... eu vou então falar da memória. Público - Risos. Por que o quê que... o que que é a memória em Bergson? Eu costumo me representar a memória como ... eu teho uma memória! Eu tenho uma espécie de disco rígido em mim, que registra tudo aquilo que eu vivi. Uma espécie de... é um suporte físico que preserva o registro do tempo. Para Bergson é uma representação tola, por que não tem suporte físico, não tem registro, não é que eu tenho uma memória. Eu sou uma memória, ou melhor, eu sou ... eu, nesse presente, eu sou o ponto mais contraído de uma memória mundo que eu encarno. Se a gente tivesse uma lousa eu faria aqui uma espécie de “v” gigante, cujo vértice seria a ponta da minha cabeça. Então, digamos que cada um de nós andássemos, não com um chapéu mas, com “v” virtual sobre a sua cabeça. Isso quer dizer o quê? Cada um de nós é uma contração atual de uma “memória mundo” virtual que cada um de nós necessita... é, que cada um de nós carrega isso tudo. A gente poderia dizer - a memória, essa espécie de massa virtual da qual eu sou uma atualização do presente. Eu vou dar um exemplo assim um pouco mais fantasioso que está nos livros do Deleuze de cinema: eu to aqui com o meu chapéu virtual, tá bom? Que é o .... você quer me perguntar? Não ? Chapéu virtual é assim, é a massa de “memória mundo” da qual eu sou uma atualização, você é uma outra, cada um é uma atualização dessa memória mundo, cada um segundo as suas singularidades. Ora, o quê acontece? Eu aqui, solicitado por vocês, tô constrangido nesse presente a acessar da minha, do meu cone virtual aquilo que interessa nesse momento para mim e para vocês. Agora imagina que eu interrompesse isso aqui. Nós resolvêssemos acabar com essa aula, fumar um baseado ... o meu presente se liberaria para ao invés de responder às solicitações do meu entorno e apenas puxar desse reservatório virtual aquilo que interessa para o presente, me surgiam zonas desse cone invertido virtual. Zonas inteiras, ou pedaços de focos luminosos, que me invadiriam o presente e eu navegaria entre isso tudo. Essa massa virtual, nela, flutuam blocos de passado, regiões, não necessariamente lembranças, mas regiões. Quando eu solicito uma região dessas, ela se atualiza para mim como uma lembrança - ah, quando eu era criança ... mamãe isso, mamãe aquilo - mas a região infância flutua ali feito um bloco e nesse momento eu não preciso desse bloco para dar essa aula de filosofia. Então, eu não vou usar isso. Mas se eu me soltar um pouco pode ser que isso venha, se eu assistir um filme pedaços disso venha, se eu escrever de um outro jeito talvez eu precise disso como minha matéria prima, eu precise dessa ... é um reservatório da memória. É a memória como um reservatório virtual do qual ... então a memória não é assim - registro cronológico - mas é essa espécie de flutuação de pontos luminosos que as vezes, nesse cone virtual, estão vizinhos locus, que numa linha do tempo estariam muito distantes uma da outra, mas ali eles coexistem. Ou uma vivência que na linha do tempo está situada no ano de 1972, no cone virtual aquilo ali tá meio estilhaçado. Tem um pedaço aqui, outro ali, outro acolá. É a experiência do padeiro: Peguem uma massa de pão. (é uma experiência da física hein, não olhem assim. É da física) E uma massa de pão assinale em dois pontos negros, né? Depois corte a massa de pão em dois e faz assim... pláft ! - Os dois pontos que estavam longe, de repente, podem se aproximar. Você faz isso inúmeras vezes, o que é que aconteceu? Os pontos que estavam distantes no início, pode ser que se misturaram, e um ponto que no início era um ponto só, se fragmentou em vários outros. A memória é isso, essa plasticidade toda. Então, você não pode recortá-la segundo anos ou segundo planos cronológicos, mas ela ...ela como que ... ela toda coexiste. Não só ela coexiste, como eu não passo de uma atualização singular dela toda. Mas então, não é só a memória desse ser chamado Peter. É a memória também dos seres vivos, dos inertes, das pedras, do céu, do cosmos. Tudo isso tá aqui como que condensado nesse presente, que eu tenho a presunção de chamar pelo meu nome. Então, esse é o bloco da...A questão da memória para Bergson, no fundo a memória, ela tá inteira na minha duração. Ela tá virtualmente inteirinha ali, mas não toda ela ativa, não toda ela atualizada, mas virtualmente ela está integralmente ali. 52:08 Graziela – Peter. Peter - Oi. Graziela - Eu tenho uma pergunta Peter- Sim. Graziela - Por que que você fala ... quando você está falando do cone da memória e falando a palavra, virtualmente, imediatamente eu remeti as nuvens, né? Peter – Sim. Por que? Mulher – Hoje tecnologicamente ... Peter - Ah, entendi! As nuvens ... Graziela - ... as “nuvens tecnológicas” ... Peter – Ah, sei. Graziela - ... não as nuvens ... Peter - Entendi. Público - Claro. Graziela - ... e daí agora ... e tava me ajudando essa associação. Aí pensei assim - mas por quê que a memória é ... por que que você tá usando essa palavra, “virtual”? Peter – Eu vou te dizer por quê. Por que o Bergson usa. Muito antes de terem inventado o computador o Bergson usou como um conceito e, o conceito, ele é riquíssimo. O que é virtual? Olha só, pro Bergson... eu vou te dar, eu vou tentar uma definição que não nos confunda. Ela vai nos confundir um pouquinho, mas ela... o virtual é real. Ele é totalmente real. Mas ele não está atualizado. Ele se atualiza de maneiras as mais imprevisíveis. Então, se a gente imagina esse cone virtual, essa é um atualização. Essa que você está vendo agora. Quantas outras podem haver que eu desconheço? E você também ... como se essa virtualidade pudesse se atualizar não só de múltiplas maneiras, mas de maneira absolutamente indeterminável, imprevisível. Por que? Porque uma atualização é uma invenção no presente a partir daquela matéria virtual. Toda virtualidade quando se atualiza, ela se inventa. Diferente disso seria: eu tenho 15 possíveis dentro de mim. Prontos. Eu vou realizar o possível 1, depois o 2, depois de eu ter realizado os 15, acabou. Então uma coisa é o possível, que tá só na mente e que quando se realiza, a realização dele copia esse modelito que tá apenas mentalmente. Então do, o Bergson diz - do possível ao real, é uma copia. O real copia um possível já dado previamente e formatado. É apenas uma copia. A única diferença de um para outro é que um não existe na materialidade concreta, e outro só existe idealmente. É totalmente diferente a relação entre virtual e o atual. O virtual é uma espécie de emaranhado sem uma forma dada. Ele é uma espécie de potência, digamos assim. Quando ele se atualiza, a atualização dele é uma invenção que não está ali dentro como uma forma previa, entendeu? Então, por que pra Bergson isso é importante? É importantíssimo, por que? Porque a vida funciona como atualização de virtualidades e não como realização de possível. Qual seria a grande diferença? Se a vida fosse realização do possível eu teria todos os possíveis estocados no presente e o futuro seria apenas a desova sucessiva de tudo o que já está dado. Liberdade não haveria nenhuma e o tempo não serviria para nada a não ser para desovar os possíveis ideais na realidade concreta. É uma certa ideia que se tem de liberdade - qual é a liberdade? - a liberdade é de ir realizando possíveis. E o Bergson diz: não, não, não, isso não é liberdade, isso é apenas pensar o tempo como um conta gotas. Tá ali. Todo, tudo que vai ser ... que vai passar pelo conta gotas, já tá pronto. Simplesmente o tempo evita que tudo se dê de uma só vez, se não mataria o paciente. Mas pro Bergson o tempo não... aá vem a definição do Bergson: ou o tempo é invenção ou ele não é nada. O tempo é invenção. O Tempo não é um conta gotas que vai desovando todos os possíveis estocados na mente de deus ou no código genético, ou onde vocês quiserem. Não. O tempo, ele mesmo tem que inventar, a partir da memória mundo, dessa matéria virtual. Ele, em cada atualização, inventa algo antes inimaginável. Então um dia chegaram pro Bergson e falaram: - como o Sr. vê o teatro de amanhã? E ele responde pro jornalista: - se eu o visse, eu o faria. Não há como eu ver o teatro de amanhã. Não é um possível que está dado hoje e que será desovado amanhã. Ele será inventado amanhã. Então o Tempo pode ser definido não só como invenção. O Tempo ou invenção ou ele não é nada. E, outra coisa, o Tempo já que ele é invenção, e ele é invenção de coisas que não existiam antes, ele não é mera desova de possíveis já dados, a gente pode dar um passinho a mais ... o Tempo é invenção de possíveis. Ele não é desova de um possível dado, ele é a invenção de um possível que antes não tava em lugar algum. Não era imaginável, não era detectável, não era repertoriável. Por isso quando eu era jovem e tinha a ciência chamada “futurologia” ... vinha aqueles Hermma Kam da vida. Escreveram um catatau desse tamanho prevendo o que seria o futuro dentro de 100 anos a partir do que ele conhecia como presente dele. Ele preveu tudo, ele só não previu que iam inventar o computador. Público - Risos. Peter - O livro dele caiu no lixo no dia em que inventaram o computador. Por que? Porque inventaram alguma coisa que reconfigurou inteiramente o campo do possível. Público - Uhum. Peter - Então, percebe como o Bergson nos libera de uma concepção determinista, causalista, cronológica, e é um grande alívio esse tipo de pensamento. Por isso é ... o Deleuze muito, quando o Bergson era um pensador, assim, considerado um pouco empoeirado, por que tinha o Sartre. Depois da guerra, o Sartre era aquele charme todo. Os rapazes iam no café com O Ser e O Nada debaixo do braço, porque esse era um jeito de seduzir as mocinhas ... ninguém lia mais Bergson, ele era um velho, empoeirado e o Deleuze fez um livrinho. Em 56 fez um texto muito forte sobre o Bergson e a concepção da diferença, de onde ele tirou toda a teorização sobre a diferença dele. E depois ... e depois, em 62, ele lançou um livro do Bergson mesmo. E ali tem muitas pistas interessantes, que é assim, essa espécie de encontrar no Bergson, uma espécie de frescor do pensamento sobre o tempo e nos serve em vários domínios. Pronto, esse é o bloco Bergsoniano, que se encerra aqui. Então a gente pode, a partir daí, fazer uma rodada ... nossa, quatro e quinze! É, melhor fazer uma rodada, se não eu vou falar sozinho ... ENCONTRO COM CASSIANO QUILICI DATAS: 17 E 24 DE NOVEMBRO DE 2011 Cassiano falou sobre a importância de se criar vácuos, espaços de vazio, de silêncio, para que possamos nos ocupar de nós mesmos e adentrar questões mais profundas e pessoais de cada indivíduo. E da importância do teatro (e da arte em geral) como lugar onde o Homem ganha instrumentos para se refazer. Falou também da importância de o artista sofrer seu próprio tempo para poder falar dele, agir sobre ele e transformá-lo. E da busca para viver cada experiência de forma inteira, sem a ansiedade em relação ao que virá imediatamente depois. Um instante que não pretende inaugurar um futuro. Considerações sobre as discussões do primeiro encontro: A idéia sobre a importância da arte como lugar onde o Homem se refaz ultrapassa qualquer formato de espetáculos de entretenimento. Mas dialoga com o potencial ritualístico de transformação da arte. Na Grécia, as cidades paravam para assistir aos festivais de tragédias, pois nessas ocasiões importantes conteúdos eram elaborados coletivamente. Outro exemplo pode ser observado nos rituais de passagens dos índios Xavantes, que promovem intensas transformações naqueles que participam e onde aparecem elementos artísticos como mudanças corporais, música, dança, mudança de nome, etc. Como recuperar essa força de transformação dos ritos numa sociedade laica como a nossa? Que transformações gerar? Que marcas deixar? Na nossa sociedade, a mentalidade está voltada para a lógica da produção. Até os tempos de descanso seguem essa lógica e existem à medida que também potencializem a própria produção. Dessa forma, descanso e produção se retroalimentam. Os poucos vácuos que existem são ocupados de forma previsíveis, com entretenimentos planejados. Ficamos sempre ocupados de algo externo a nós, mesmo que sejam atividades de distração, mas ficamos com pouco ou quase nenhum tempo para nos ocupar de nós mesmos. Para deixar eclodirem nossas questões mais profundas e pessoais. É preciso tempos vazios para isso. É preciso abandonar o comportamentomáquina que existe essencialmente para a produção. É desse espaço que não está investido de ação que emergem coisas novas, imagens, assim como nosso inconsciente, vêm à tona quando dormimos e estamos assim com o metabolismo lento e os sentidos recolhidos. Para isso, precisamos aprender a se deparar com nosso próprio vazio antes de preenchê-lo. E isso é difícil. O horror ao vazio seria uma característica da humanidade e não somente dessa sociedade consumista de produção. A diferença é que algumas culturas parecem conseguir lidar melhor com isso, respeitar, cuidar e até potencializar a vida a partir disso, enquanto outras culturas apenas negam e tentam camuflar essa angústia. O vazio interessante não se trata de uma atitude sonolenta, preguiçosa. Mas de um estado de abertura, de tônus, de percepção aguçada. Não se trata de torpor, de abandono de si, mas sim de um silêncio ativo para receptividade de novos estados, pensamentos e experiências. Fica o desejo de descobrir como criar essas rupturas, esses espaços de vazio intensamente receptivos às novidades não só para o público, através da linguagem de nossos trabalhos cênicos, mas também para nós atores em nossa rotina de treinamento e também para nós artistas em nossa relação com a vida cotidiana. Ver o treinamento como a arte de atravessar a existência. Quanto mais experimentarmos na prática aquilo que nos propomos a alcançar, mais elementos teremos para provocar isso no público. Tem a ver com ter a experiência verdadeira mais do que especular. Considerações sobre as discussões do segundo encontro: O que seria buscar viver as experiências de forma inteira? Criar um Agora Inaugural: ruptura da linearidade, choque. Condensamento do passado e de um porvir do futuro no mesmo instante. Um instante que não pretende inaugurar um futuro, que não se prende na expectativa de uma conquista, mas que considera o valor da experiência em si. Isso não significa parar de planejar as coisas, pois isso seria infantil, mas sim, procurar estar inteiro em cada experiência. Para falar de nosso tempo, precisamos sofrer as mazelas desse tempo, suspender os analgésicos. Mais do que tentar enxergá-lo, devemos buscar senti-lo, dançar com ele. Experimentar suas dores na potência, não no pessimismo, mas na coragem de quem quer saber, ver, viver o real e ganhar assim a possibilidade de agir sobre ele, gerar transformação. Ficam as questões: Quais são os analgésicos de meu tempo para que eu possa suspendê-los? Como provocar a extemporaneidade em mim? Devo me colocar à margem para poder enxergá-lo melhor ou ao contrário devo mergulhar nele ainda mais? Será possível realmente enxergar meu tempo estando tão imersa nele? Fica o desejo de ampliar o horizonte histórico para gerar estranheza, para ter referencial de comparação e não ser engolido por esta possibilidade como se fosse a única. O que ficou pra trás e vale a pena ser resgatado? O que existe agora que vale a pena ser passado para os próximos? ENCONTRO COM MARIA RITA KEHL DATA: 25 DE NOVEMBRO DE 2011 Maria – Bom, ai hoje eu pensei em ir por um caminho que é mais fácil para mim. Eu não vou forçar a voz, mas se vocês não estiverem ouvindo acho que o melhor seria aglutinar mais. Tá. Depois no dia 9, espero, vai ter parado de doer, talvez eu consiga mais, até de coisas mais difíceis, mas engraçado a gente fala de coisas mais difíceis gasta mais a voz, é diferente de você falar de uma coisa que você está mais à vontade, você fala conversando, se é um assunto que você tem que consultar apontamento você força mais a voz, vocês são de teatro devem ter percebido diferenças no uso da voz né. Então hoje eu vou falar um pouco do que a psicanálise tem a dizer sobre a incidência do tempo no psiquismo, o que que é, o que o tempo faz conosco, acho que é por ai. Assim, eu ia começar pela ideia de como é que nós nos tornamos sujeitos. Acho que quem já leu um texto de psicanálise deve saber que não basta uma criança nascer para que ela seja um sujeito. Uma criança recém nascida, vamos supor, dependendo do ambiente em que ela vive, ou se ela for abandonada, ou se ela for alimentada numa creche em que ela só é alimentada maquinalmente, dá mamadeira, o corpo dela se desenvolve, ela pode até não se tornar um neurótico normal, como nós, que é o máximo de normalidade que a psicanálise conhece, depois, dali para diante tudo é pior né, psicose, perversão, então a neurose é a melhor das possibilidades, isso por que não existe gente sem neurose... Deve existir, mas como só chega na psicanálise... (rs) é o que podemos, é o que Freud pôde observar. No mínimo você é neurótico, depois você pode ser pior do que isso, porque são, sujeito são, totalmente são não existe. Mas eu posso justificar isso, apesar da coisa engraçada, pela existência do inconsciente, ou seja, para tirar essa ideia de saúde e de doença, porque a neurose não necessariamente é uma doença, como uma parte...O sujeito humano né, desconsiderando os animais, ele vem ao mundo desadaptado da sua condição natural por que ele já é recebido por pais, seja em qualquer lugar, seja em Nova York seja numa tribo perdida no meio da África, ele já é recebido por adultos que pertencem a uma cultura, a linguagem, a linguagem no sentido amplo, o sistema de valores, símbolos, códigos, regras dessa cultura já vão determinar o lugar dessa criança. A diferença se é homem ou mulher, dentro da cultura faz diferença. Se é o primeiro filho ou se é o ultimo filho, que lugar que os pais ocupam na escala social se for uma cultura com classes diferentes. Uma tribo é diferente né, o que é que os pais esperavam dele, que tipo de futuro é valorizado em cada cultura, o cara vai virar um ator, um político, um profissional liberal, uma dona de casa, enfim, e que práticas essa cultura se estabelece no trato das crianças. Não há cultura que não estabeleça alguma prática de trato com as crianças, ou seja, a criança não é um ser de natureza. O bezerrinho nasce e fica lá no chão, assim que sente força nas pernas ele procura a teta da vaca, vocês sabem disso, não é a vaca que tem que saber o que fazer, ela só dá a teta, ela sabe o que fazer também, mas ela não tem como induzir o seu filho, ela pode ajudar, empurrar com focinho, se o bezerro está muito fraco. Os animais em geral são adaptados às suas necessidades físicas né, naturalmente adaptados, e o humano não, no humano mesmo a satisfação da necessidade mais primária passa por práticas culturais. Então, nisso que foge ao saber da criança, ao saber e sentir - não to falando do saber intelectual- nisso que ela é desadaptada se constitui imediatamente algo que a gente chama de inconsciente. Não tem que ser uma coisa recalcada, porque é proibida, porque é algo que ela não alcança, que faz parte da experiência dela mas ela não alcança. Um exemplo banal, os nove meses de vida uterina, do qual a criança não tem a menor consciência, porque aí sim ela é parte daquele todo, não tem tensão, não tem...o alimento esta fluindo, através do liquido placentário, através da placenta, então ali não tem sujeito, mas tem um organismo vivo. Os 9 meses que se interrompem bruscamente marcam naquele organismo, não dá nem pra falar de psiquismo, naquele organismo, uma experiência primordial de plenitude, de paz, de ausência de necessidade, de ausência de tensão, que se torna imediatamente inconsciente quando a criança nasce, porque imediatamente aquilo é interrompido, de uma forma, para criança, muito violenta. Não tem nenhuma violência, não aconteceu nada, ela nasceu bonitinha, parto natural, mas de repente luz, temperatura, descontinuidade, ela sai do mundo de continuidade pro mundo de descontinuidade, isso não dá para evitar. Se a criança continua num mundo de continuidade ela pode ser um autista por exemplo, mas eu não posso falar muito disso porque eu conheço pouco, ela pode ser um psicótico grave, se ela não, por alguma razão, o ambiente dela, não permita que ela sinta que algo se quebrou. Mas vamos pensar nos neuróticos normais, que é o que nós temos. Porque ao romper com essa experiência primordial, de satisfação, que não é a satisfação que a gente chama de prazer, por que a gente só conhece o prazer, nós, já nascidos, como alívio de uma tensão: fome, comer; relação sexual, orgasmo; cansaço, repouso; tudo o que é prazer para nós ta marcado pela descontinuidade da experiência, então nós não podemos nem saber se o que a criança vive antes de entrar no mundo da cultura é prazer, desse mesmo jeito que a gente...o Freud chamou de plenitude, nirvana, com isso ele tem uma teoria de que é assim uma pulsão de morte, que a tendência desse organismo vivo é voltar para esse estado, ele se vale também da entropia, enfim, mas ai é um assunto um pouco mais teórico. O fato é que essa interrupção anterior à criança ter qualquer possibilidade de simbolizar o mundo, já produz uma marca inconsciente de um vivido que ela perdeu acesso. Então se o humano, algo da sua experiência se torna inconsciente desde o começo, que Freud chama de inconsciente primário, que não é um inconsciente recalcado( que não tem a ver com o processo de reprimir) que o conceito mais correto é a palavra recalcar, a gente usa mais. Se algo já escapou, esse inconsciente da experiência atrai outras representações que não puderam ser elaboradas, ai se forma o inconsciente, se forma o sujeito que ele chama de dividido, ele não ta inteiro em si mesmo, há algo que escapa, e isso que escapa Freud percebeu... A ideia de inconsciente não é freudiana, a ideia de inconsciente vem de várias psicologias anteriores a Freud, toda palavra inconsciente no sentido de que eu não tinha consciência disso é uma palavra que esta no vocabulário anterior a psicanálise; mas quando Freud percebe, propõe que o inconsciente seja uma parte da nossa experiência que está proibida de vir à consciência, ele percebe justamente a partir dos efeitos que essa consciência fora da consciência vai produzir, vão produzir, sonhos, lapsos, atos falhos, esquecimentos, esquecimentos despropositais e todos os sintomas que cada um tem. O sintoma é uma espécie de jeito de falar sem palavras de alguma coisa que está nos produzindo angustias. Então o obsessivo que lava a mão 20 vezes antes de sair de casa, não consegue sair, se atrasa nos compromissos, vai ver se o gás ta ligado, verifica de novo as janelas, com esse sintoma ele ta falando alguma coisa, do medo dele, errar, do medo dele fazer uma coisa má, do medo dele ser sujo, cada um cada um, a gente não pode generalizar, embora os sintomas pareçam óbvios eles não são óbvios. Mas de qualquer maneira foi ai que o Freud percebeu essa divisão do sujeito, algo em mim, eu não sou dono da minha casa como ele disse. A brincadeira era que a humanidade sofreu 3, com Marx 4, 3 grandes decepções narcísicas: a primeira com a descoberta de Copérnico, de que a terra não é o centro do sistema solar, ou seja, deus não botou o homem no centro do universo, era o sol que era o centro do sistema e a gente gira em torno dele; a segunda com Darwin dizendo vocês não são filhos do sopro divino, vocês vieram do macaco e a terceira com Freud, dizendo que você nem ao menos é senhor da sua própria casa, tem uma parte muito íntima sua que você não manda nela, ela que manda em você; a quarta seria com Marx quando ele diz que o homem que faz a história mas não como ele quer, então nem ao menos o processo histórico você domina, você só percebe que fez depois, enfim. Então tudo isso, com a brincadeira de que no mínimo a gente é neurótico, quer dizer, o neurótico é aquele que descobre soluções, não descobre intelectualmente descobre vivencialmente, soluções para que alguma coisa do recalcado possa de vez em quando se expressar, nos sonhos, nos lapsos, nas fantasias, nos sintomas, nos atos falhos, etc. Então isto somos nós basicamente. Agora como é que entra ai a questão do tempo, a questão desse núcleo, parece, este centro. O psiquismo, que pro Freud é o sistema que inclui a consciência, todo o sistema da atenção, da percepção que é a consciência, mais um sistema pré-consciente, que é essa memória que nós somos capazes de acessar, ela não está recalcada, sei lá, eu não me lembro da minha infância agora por que eu não to pensando nisso mas se alguém me perguntar num ta inconsciente, estaria pré-consciente: ah, você lembra em que casa que a sua família morou quando você tinha 7 anos? Ah, lembro, só que não ta na minha consciência, esse é chamado de pré-consciência por Freud, e o inconsciente, o psiquismo é isso. né. E a ideia que você pode deduzir a partir Freud é que o psiquismo não é espacial, primeiro, ele não se confunde com o cérebro, os neurologistas estão tentando tentando descobrir onde é que está o inconsciente no cérebro, onde é que ta. A consciência tem a ver com o córtex cerebral, então a consciência é mais fácil, mas as camadas, as camadas chamadas mais profundas do psiquismo não dá para localizar no cérebro, pode ser que algum dia cheguem a descobrir, Freud tinha esperança, ele era neurologista, de que todo terreno teórico da psicanálise ele poderia ser traduzido um dia em termo de química e de neurologia, pode ser, mas por enquanto ninguém sabe onde está o inconsciente, não tem uma parte do cérebro que é que posso denominar inconsciência. Então o que dá para entender a partir de Freud é que o psiquismo não é uma instancia espacial, que tem a ver com massa cinzenta, com os neurônios, o psiquismo é uma instancia temporal, é claro que eu to dizendo isso, não chega a ser metaforicamente, porque depois eu vou descrever o processo e vocês vão perceber.Ele é consequência do que o tempo faz em nós. Vou tentar explicar, os 9 meses intra-uterinos, eles são 9 meses para mãe, que ta esperando, que sabe que tá esperando, que já é uma adulta. Pro bebê você não sabe, pode ser um tempo pleno, e um tempo pleno é um tempo que não passa, é a ideia do paraíso, do céu no fim da vida. Na eternidade. O que é a eternidade, por que é eternidade? É eternidade porque você não sente o tempo passar. Então a gente não sabe se para criança no útero são 9 meses, pode ser que seja simplesmente um tempo sem tempo e a primeira, ...a criança nasce, ela ainda ta um pouco alimentada pelo liquido placentário, então tem muita gente que fala assim: ai, meu bebê é tão bonzinho, ele não chora! Ele não chora porque ele ainda não sabe que ele nasceu. Um bebezinho pequeno ele, a não ser que realmente tenha um fator patológico, dor, algum problema de má formação, ou uma mãe que abandona muito, se ele estiver mais ou menos confortável, vocês vão observar que ele não chora, ele ainda tá alimentado, ele ta na continuidade daquela experiência, não tem tempo para ele ainda, ele ainda não tá querendo nada, sentindo falta de nada, e além do mais ele ainda está muito perto do corpo materno, pensando numa mãe razoavelmente boa. Então o calor, aquilo substitui um pouco aquela experiência de estar dentro daquele corpo, estar em volta daquele corpo, ser envolvido por aquele corpo. Então, o modelo freudiano supõe que a primeira experiência de descontinuidade seja fome, a fome é bom pro modelo, poderia ser o frio, mas como a primeira atividade da criança é oral, o frio, se ela sentir frio ela vai chorar, ela vai ser agasalhada, não tem nela nenhuma atividade, alguém, ela não tem como participar da atividade de se agasalhar. Pode ser...não importa, o fato é que a fome é fundamental por que ela é a primeira forma de desconforto, primeiro que vem dos órgãos internos, o que para criança não existe, não é nada, mas cuja satisfação vai depender também de uma atividade dela, que se a criança não suga vocês sabem que é um problema, quando a criança nasce e não suga, então essa experiência, quer dizer, nessa plenitude que a criança continua depois que nasceu, tudo bem, ela chora, leva aquele susto... Homem – Por que ela aprende a mamar não é isso? A criança aprende a mamar ela não sabe mamar. Maria – Exatamente. Ela aprende por que a mãe oferece, espirra um pouquinho do leite, tem crianças que começam a sugar mais rápido, outras mais devagar, mas tem aí já é um pouco da cultura, já não é o bezerro. Agora, a hipótese que a gente pode fazer, por que ninguém nunca conseguiu contar as suas memórias de um dia de vida né, é que a fome é uma experiência para a criança recém-nascida muito perturbadora, por que ela não tem nenhum registro, a criança em primeiro lugar ainda não tem psiquismo, ela ainda é uma psicossoma que a gente chama, o corpo e o psico é uma coisa só. Então do corpo vem uma insatisfação, é o mínimo que a gente pode dizer, um desprazer intenso, intenso por que? Porque tudo o que nós sentimos no corpo, por mais desprazeiroso que seja nós temos um correspondente representacional: a dor do parto, quebrou um braço, ta com muita fome, levou uma surra, tem um componente capaz de representar, de desviar neurologicamente, uma parte daquele desconforto pro pensamento, uma representação mental. A criancinha não, é puro desconforto, então a gente tem que imaginar um pouco um ser..Não dá nem para dizer que ele se sente ameaçado de morte, mas ele não sabe o que é morte, um ser que sai do estado de pura satisfação para um estado de puro desconforto, por que o corpo do bebê ele ainda não é parcializado, ele não sente no estomago, ou na ponta do dedão do pé, é tudo, o corpo ainda não ta organizado de acordo com suas funções, por isso que a acriança abandonada pode se tornar um autista psicótico, mesmo que ela possa sobreviver, por que é o outro que vai organizar, é a mãe, ou um substituto, que dando a mamadeira, acariciando a pele, lavando, agasalhando, limpando as fezes, vai começar a desenhar nesse corpo circuito de prazer, e aí o corpo se organiza, a boca começa a mamar, e depois vai fazer mil substitutos desse prazer oral, os órgãos internos vão começando a amadurecer suas funções, o anus se torna uma outra fonte de estimulo, excitação, enfim, a pele se torna uma superfície de prazer enorme, mas isso é no contato com o outro, não é sozinho, por isso que a psicanálise Freudiana não pensa o sujeito como um individuo, como uma célula isolada, separada, tudo bem, cada um dos nossos corpos é um, todo mundo aqui ta separado, pode sair daqui cada um pra um lado, somos indivíduos, temos independência, mas aquilo que te formou o outro, já tá aqui, o outro, o que a gente chama de grande outro na psicanálise, já participa, não tem um pensamento totalmente independente, uma sensação que... Bom, vamos ao tempo, chegar ao tempo. Então a gente pode imaginar que essa criança no primeiro momento sente um desconforto horroroso, que ela só consegue expressar chorando e embora o choro do recém-nascido ainda seja fraquinho, por que ela ainda não capacidade pulmonar, para ela, ela tá usando toda a sua força, todo o seu recurso para expressar o seu desconforto. O tempo que ela sente a fome, pode ser 5 minutos, 15, meia hora, e vai depender também de cada cultura. Tem culturas por exemplo, nos anos 50 no Ocidente, todo pediatra instruía a mãe a amamentar a criança de 2 em 2 ou de 3 em 3 horas, 2 ou 3. Então, não quer dizer que a criança tem fome durante 3 horas, por que uma hora ela vai estar bem alimentada, mas na hora que começa a fome, se ela não é levada a sério fica lá a criança olhando, dorme de exaustão, acorda e de novo, é um jeito de experimentar o tempo, um outro jeito é uma mãe da cultura mais ‘hiponga’, que é da minha geração, não, não pode deixar a criança sofrer nenhum pouquinho, dá logo o leite, amamenta logo... Homem – Ela também já vem alimentada por um tempo né Maria – Então, por isso que digo que ela não sabe que nasceu. A criança fica boazinha no começo. Ainda está alimentada. É. A placenta direto o sangue da mãe. Então não ta com falta de proteína. Homem – Que é o tempo de aprender... Maria – Ela vai aprender só no exercício da mãe. .., só com a fome ela não aprende. Ela não tem recursos. Mulher – Assim como esses circuitos que vai se estabelecer de prazer. É isso? Maria – Isso. Exatamente. Esse circuito que é satisfação, a satisfação já depende de uma participação da criança, que ela ta aprendendo a sugar, plenitude, tanto que as crianças chupando o peito, num sei se vocês viram já, de repente ela pah, desmaia, parece que tomou um porre, teve um orgasmo, daí tem um tempo de plenitude, acorda, começa dar uma inquietação, acordar não é necessariamente desconfortável, daí começa de novo. Então, Freud vai chamar esse intervalo, não o intervalo entre uma mamada e outra, mas o intervalo entre a volta da fome e a próxima mamada de tempo de espera da satisfação. Para criança aquilo não é tempo, não é nada, aquilo é só desprazer. No entanto se existe um mínimo de regularidade na mãe de satisfazê-lo, satisfazê-la, começa, esse tempo começa a ser sentido com menos angustia, não dá para dizer que dia que é, na primeira semana, na segunda semana, enfim, também tem as particularidades de cada organismo, mas o que o Freud vai propor é que tem uma marca, a primeira satisfação deixa uma marca psiquica, também inconsciente, inconsciente por que ainda não tem como simbolizar, é uma marca quase que no corpo, de satisfação, e aos poucos esse choro da criança já não é o choro do puro desespero, de que é puro desprazer, mas é um choro que busca trazer de volta aquela experiência inicial. É como se aos poucos o choro que é pura expressão de angustia e terror, e sei lá o quê ele sente, se torna linguagem. A criança começa a perceber que ela é potente para chamar a mãe de volta, vai ganhando autoconfiança, ela continua a chorar, por que chorar não é só de sofrimento, chorar também é a linguagem que a criança tem, ela não tem outra linguagem. Então, chora, a mãe vem, amamenta, e ai se instaura um ritmo, que não é necessariamente regular, como um ritmo como a gente fala, 3 por 4, não, vai ser um ritmo mais, mas se instala nessa experiência de descontinuidade, digamos assim, como é que a gente pode dizer, uma outra continuidade, que não é a mesma continuidade da satisfação plena, é uma continuidade assim: eu confio que a cada falta vai suceder uma presença, a cada insatisfação vai suceder uma satisfação, isso é um pouco parecido com a continuidade que nós conseguimos ter, por quê que as vezes, vou dar um exemplo bem bobo, mas por quê que as vezes a gente sai de viagem e num outro lugar, sem o trabalho, numa praia, hoje em dia não tem mais praia deserta, mas na minha juventude ainda tinha, você começa a estabelecer de novo um ritmo, mais ou menos um horário de acordar, mais ou menos o horário de ir pra praia, mais ou menos na hora do pôr do sol você pega o violão, por que a rotina quando ela não é imposta, ela é uma forma de continuidade, quer dizer, você cria num lugar que você nunca foi, ninguém manda no seu tempo, você cria de novo, alguns hábitos que criam, você antecipa o outro dia, mesmo que seja só em pensamento, mesmo que seja só uma expectativa alegre, mais ou menos com aqueles rituaizinhos que estabelecem uma continuidade. Talvez por isso quando a gente vai pra férias muito, uma viagem internacional que cada dia você vai para um lugar, você se cansa, você se cansa não só, talvez você tenha bastante tempo para dormir, talvez não seja por que você corre muito, mas por que você não relaxa nesse sentido de dizer: mais ou menos eu confio que amanhã será como hoje. A cada dia, o que também é muito gostoso, hoje como é que vai ser né? Você passa 2 dias em Paris, depois 4 dias em Madri, mas cansa, nesse sentido, você tem que construir os seus dias e não eles vêem prontos pra você. Bom, isso é uma direção. Voltando para essa criança, o que vai se formar ai, e por isso que eu digo que o psiquismo é uma instancia temporal, esse tempo de espera de satisfação é fundamental para criança, por que é a partir desse tempo de espera de satisfação, primeiro, que ela começa a desenvolver um contato com o outro, como sendo o outro exterior a ela, vamos supor como modelo teórico, que se a mãe estivesse sempre disponível e pudesse sempre até antecipar a fome, talvez a criança não se desse conta de que ela é separada desse outro, claro que esse processo de separação também não se dá de uma vez, até por que o próprio investimento da mãe na criança permite essa ilusão em relação ao tempo de que os dois que formam um, que tem o todo complexo e etc. mas o desentendimento necessário entre o que a mãe acha que o filho quer e o quê o filho quer né, tem que ter um pouco de desentendimento, por que esse desentendimento que faz com que a criança se dê conta da separação. Eu costumo dizer que a mãe psicótica, quando você vê ela com o bebê pequeno, ela parece a melhor das mães, por que como ela não se vê como ser separado, a psicótica, o filho é quase um pedaço dela, ela tem uma capacidade muito maior do que a mãe neurótica, normal como nós, de estar em comunicação e oferecer o que o filho quer, por isso provavelmente ela vai ter um filho psicótico ou com tendências a se tornar um psicótico, por que ele não vai se sentir como um ser separado, ele vai se sentir sempre como um pedaço do outro. Então por quê que o psiquismo é uma instancia temporal? Por que a primeira forma como a criança registra que ela nasceu, mesmo que ela não saiba o que é nascer, que ela está no mundo, é a partir desse tempo de espera de satisfação, esse intervalo, entre uma satisfação e outra. O tempo instaura uma tensão nesse psicossoma que não está mais o tempo todo abastecido com o que estava na placenta não é, desta tensão, a tensão mobiliza trabalho por que essa criança que eu chamo de psicossoma ela não tem psiquismo ainda, tem neurônios e massa muscular e órgãos, enfim, mas esses neurônios são capazes de trabalho no humano, e a criança começa a quando vem a fome ela evoca a marca mnêmica da experiência a satisfação, ou seja, da mamada, isso não é uma palavra ainda hein, não tem palavra ainda, criança recém-nascida, não tem palavra, tem uma confusa lembrança neurológica e corporal, de o quê é que poderia acabar com aquele desconforto, o seio da mãe, é ai então que o grito se torna linguagem, a mais primordial das linguagens, não é mais apenas uma expressão de desconforto, é um chamado. Aí tem um sujeito, o proto sujeito psíquico, ele já tem uma marca mnemica e que o Freud supõe, por que ai é uma construção teórica, não dá para dizer: ah, prova isso empiricamente; então estamos trabalhando com uma construção teórica- é que quando a criança mesmo com fome já não chora com tanto desespero ou demora para chorar ou fica meio inquieta mas não fica desesperada como ela ficava no começo é por que ela, essa marca da satisfação é tão forte, por que ela não tem outras marcas psíquicas, não tem uma profusão de marcas, essa marca da satisfação é tão forte que lhe permite durante alguns minutos ou segundos alucinar, quando ela encontra a memória é como se ela estivesse satisfeita, ela alucina o objeto, mais tarde isso que a gente chama de alucinação da criança, é a nossa memória até visual, de vez em quando, vocês devem saber, a gente tem a impressão de que a gente lembra de alguma coisa com tanta veracidade que é como se ela tivesse presente né, mas aquilo se perde em segundos, você vê alguém que se parece com o namorado, aquele namorado se presentifica, o namorado que você não vê a 20 anos, sei lá, mas isso é, nós, é totalmente fugaz, a alucinação só é uma forma de satisfação de desejo como psicose, que é justamente nesse sujeito que não se separa do outro, o funcionamento mental ainda é muito próximo do infantil. Mas o que que nós adultos colocamos no lugar da alucinação, fantasia. Fantasia não é uma alucinação, qualquer pessoa é capaz de fantasiar, pode estar lá feliz da vida pensando: ai amanhã eu vou encontrar aquele cara que eu vi na festa, acho que vai dar certo...Ela não acha que aquilo está acontecendo, ela pode estar com muito prazer nessa fantasia. A fantasia é tão poderosa que se pode ter orgasmos com a fantasia, não é brincadeira, certo. Num é um detalhe a fantasia para nós, ela não induz só prazer mental, ela excita o corpo, a gente tem medo, terror de fantasiar, e começa a contar uma historia e você perde o sono, então a fantasia é muito poderosa. Não vamos fazer pouco da fantasia. Mas numa criança, essa fantasia é evidentemente, como ela ainda não sabe o quê é que é fora, o quê é que é dentro, o quê é que é o outro, o que é lembrança, o que é experiência, esse psicossoma ainda é muito precário, então a marca, encontrar a memória é quase como que encontrar o objeto, então o Freud vai chamar isso do representante psíquico do objeto, a marca, quase uma representação de coisa... Mulher – O que as vezes é psíquico. Maria – é , o representante é psíquico, mnêmico, psíquico do objeto. No entanto não basta lembrar do ser para ele vir, não basta dar o primeiro gritinho para mãe aparecer, então, algo tem que se construir aí para suportar esse tempo vazio, que é o tempo de espera da satisfação, algo tem que se construir para que esse tempo seja suportado, mesmo quando ta suportável a criança chora, não quer dizer que ta suportável que a criança vai ficar quietinha, mas para ela não ter a sensação de que ela vai ser destruída por aquele mal estar, e aos poucos, esse representante que é o representante psíquico, que a gente também pode chamar de representação coisa, é a marca da experiência real né, que para nós vai se tornando inconsciente, vai se tornando inconsciente e a gente vai deixando de ter acesso as nossas lembranças mais primordiais da vida, por sobre essa primeira marca vai se construir um outro trabalho de representação, que é a representação significante, quer dizer, que é ou palavra ou substituição de palavra né, o grito, a voz da mãe que ta lá longe, a criança memoriza a voz da mãe, então se você grita a mãe pode dizer to indo neném, já to indo, ou canta uma musiquinha para te deixar distraído em quanto você ta lá ou outras representações começam a ter e a palavra, e a criança ainda não sabe nada da palavra, vai deixando uma marca auditiva que é uma marca de expectativa de que aquela que trás conforto vai chegar. Então é isso, é esse modelo freudiano que nos permite dizer que o psiquismo é uma instancia temporal, que o psiquismo é trabalho de representação para encobrir um tempo vazio, um tempo de espera, um tempo de desconforto, quanto menos vazio for esse tempo mais suportável ele é, quanto mais a criança puder ter algum tipo de atividade mental ao qual nós não temos acesso no bebê, a gente só supõe, que tipo de caminhos, de memórias, a mente dessa criança faz até que a mãe chegue, para ela não se desesperar e não chorar, ela pode começar a chamar, das uns agitos, não mais berrar desesperada, a atividade mental vai ser a marca das lembranças em que ela vai tendo algum tipo de prazer, que não vai substituir totalmente o outro, por que não mata a fome mas que a permite esperar, então isso é psiquismo, é trabalho de representação sobre o fundo de vazio, e esse fundo de vazio, esse trabalho, só são possíveis por que há um tempo de espera, entre uma satisfação. Isso é o básico ta. Quando eu pensei na questão da depressão eu imaginei um modelo, mas eu não queria tratar da depressão hoje, mas eu vou dizer porque que achei isso importante: Que como nós vivemos numa experiência temporal muito acelerada e essa experiência não é escolha nossa, quer dizer, algo na própria economia, na própria dinâmica do mundo em que a gente vive se acelera e isso nos acelera, precisa você ter uma iniciação Zen para você continuar no tempo pessoal, numa temporalidade vagarosa no meio desse mundo, se você não tiver uma disciplina, não for um yogue, não tiver uma mística, não tiver alguma coisa, você é chupado, não tem muito...independente se você trabalha mais ou menos, você vai, você pode ser um aposentado que vai ao supermercado, tem uma urgência, tem algo que te chama para fazer logo, para ir logo, para encher o dia, etc.. Então o modelo da depressão que eu imaginei é que essa aceleração que pega todos nós, evidentemente pega as mães também, faz com que a mãe suporte pouco que seu filho espere, por que ela também suporta pouco esperar, por que a gente vive num mundo do tudo ao mesmo tempo, agora, então ela talvez se antecipe muito, talvez não deixe a criança esperar quase nada, isso não quer dizer que a criança vai ficar psicótica, vamos supor que essa mãe é uma mãe normal, ela se vê separada da sua criança, não é aquela mãe que quase não tem desconforto por que a mãe e a criança estão completamente misturadas, mas exige pouco desse trabalho psíquico, é como se fosse um ser que vai se tornando muito dependente do outro e vai se tornando pouco confiante em si mesmo. O Winnicott que foi um pediatra, e depois desenvolveu teorias interessantes de psicanálise de criança, ele disse que quando a criança, esse equilíbrio entre ter que esperar, mas saber que vem, que não é a espera de uma criança abandonada, que ela nunca sabe se vem ou não, sei lá, uma mãe alcoólatra que de vez em quando dorme e esquece completamente a criança, até que a criança dorme por exaustão, quando uma mãe é mais ou menos norma, esse equilíbrio entre saber esperar, por que confia que vai vir, essa previsibilidade das experiências de prazer, que não vão ser só a mamada, a mãe chega e depois brinca com ela, põe no colo quando chega dá beijinho, tudo que é gostoso, faz com que a criança desenvolva uma confiança básica de que o mundo é bom, interessante né, por que nada nos autoriza dizer que o mundo é bom, ele é bom e é ruim, e é aleatório e a gente nunca sabe se vai cair um vaso na cabeça da gente e a gente desmaia na calçada , enfim, não dá para dizer cientificamente que o mundo é bom, no entanto, a maioria das pessoas, mais ou menos, regularmente normais acorda todo dia com uma certa expectativa de que o dia não vai ser um horror, essa confiança básica vem lá de trás. É evidente se a gente passa por campo de concentração, por uma guerra, essa confiança fica abalada, depende muito da sociedade, não é, ou em momentos de perda, de luto, mas o que impede que a maioria das pessoas, inclusive se mate, em situações reais de muita dor é que subjaz uma confiança que as vezes a gente nem tem consciência dela, de que vai ficar tudo bem, mas essa consciência vem do começo da vida. Você ta chorando de fome, desesperado; vai ficar tudo bem, a mãe vai... e o seu choro é capaz de chama-lo, então você também, não é que você é só uma coisa inerte esperando o outro, você tem recursos para trazer e você também tem recursos para esperar, para aguentar o sofrimento. Tudo isso vai trazendo uma confiança de que o mundo é bom e você que andaram lendo o Bergson com o Peter Mulher – A gente leu antes, uma parte leu, que é o pessoal do grupo de estudos anterior. E aí o Peter falou do Bergson – da concepção do tempo. Maria – Ta. Isso por que o tem uma expressão que é uma expressão bonita, que entre esses vai e vens da mãe, ou do substituto, também pode ser o pai, enfim, o tempo da criança ta sendo preenchido cada vez por mais gente, mas que com isso ele cria um sentimento de continuidade da existência, é muito bonita essa ideia de um sentimento de continuidade da existência, por que é o que faz com que a gente sinta que nós somos a mesma pessoa ao longo da nossa vida, o corpo muda completamente, seus pensamentos mudam, as coisas que você queria mudam, as coisas que te davam prazer não dão mais prazer, nós poderíamos dizer: eu não me reconheço, aquela menina de 10 anos não era eu, eu, então aquela de 30 anos não era eu, no entanto a não ser em crises de quebra de identidade muito profundas, psicóticas, a gente sente que nós somos os mesmos ao longo da vida e continuaremos ser os mesmos até morrer, e cada dia é uma espécie de continuidade lisa né, uma estrada em que você vai...embora a vida seja cheia de descontinuidade, não é aquela continuidade uterina, que não tem altos e baixos, idas e vindas, mas é uma continuidade, essa...eu disse isso por que no Bergson no “ Em matéria e memória” eu não sei se vocês leram, tem uma hora que ele faz um esqueminha dizendo que o presente não existe, o instante ele é tão fugaz, que, o que que nós temos? Nós temos passado, que só se concebe na memória, por isso que ele não é mais matéria, matéria é o que ta no corpo, o passado se conserva na memória; e temos o futuro que é, ele vai dizer, ele vem roendo o presente , por que sempre você está, ao acabar de falar está, eu já estou em outro instante. Então se o instante presente não existe, assim, você não consegue nem medilo temporalmente, ele é uma partícula tão frágil, você não sabe se o presente dura o tempo de eu falar A, se dura metade do tempo de eu falar A, se dura um milésimo de segundo do tempo de eu falar A, no entanto nós nos sentimos no presente, quer dizer, faz uma hora que eu to falando e durante essa uma hora nós estamos no tempo presente, embora tantas, o começo dessa fala já está no passado e daqui a pouco vocês já começam a antecipar o que vocês vão fazer daqui a pouco, então o futuro já...e o futuro também é a minha próxima frase. Então, o Bergson diz: essa partícula do presente ela não existe, ela existe por um razoável sentimento de continuidade dos vários passados que vão avançando na direção do futuro que não chega nunca e também o futuro assim que ele chega, o futuro é uma fantasia, ele ta na nossa representação, assim que ele chega ele vira presente e no segundo seguinte ele já é passado, quase como se você pudesse dizer: só o passado existe e no entanto é só o passado é que não existe mais, por que acabou, acabou de acabar, eu falei acabou de acabar por que acabou de acabar de novo. Então só o passado existe, o futuro existe na fantasia e o presente só existe pro corpo, o corpo está presente, a sensação corporal de cada partícula de segundo dessa, que não dá nem para medir é que me diz: estou presente. Diga. Mulher – É que eu estava pensando, isso é muito louco né, por que tem, você fala do Yoga, ele fala né, que só existe o presente... Maria – O que é verdade. O que é verdade a rigor. Se o corpo é que está no presente, só existe o presente; o passado tá na memória. Por isso que o Bergson chama: matéria e memória, matéria ta aqui no presente, o futuro é a antecipação. Mas o quanto que a gente já não vive no futuro e o quanto que o passado ele tá completamente em nós, por que se não tiver a gente tem uma sensação de estranhamento. Não sei se já aconteceu com vocês, talvez seja a idade, de vez em quando você ter um negocio assim de: nossa, o quê que eu to fazendo aqui. Você esta andando, você se distrai, você ta fazendo seu caminho habitual, mas você se distrai e de repente tem 3 quarteirões que você não percebeu que você andou por que você ta com a cabeça em outro lugar né. E mesmo esse pequeno lampejo de noção do passado muito recente já dá um frio na barriga, ai você reconstitui, não, claro, eu virei ali na Apinagés, era eu. Então vamos mais um pouquinho na questão do temporal para gente começar a conversar. Enquanto a criança ta nesse... que o Freud uma vez observou o neto dele, vocês devem saber disso, da psicanálise, se alguns não souberem já vale a pena. O neto dele tinha um, brincava num berço com um carretel e ele jogava o carretel para fora do berço e falava Oh e ai puxava pela linha e falava Ah, o Freud não entendia aquele, mas ele mostrava um enorme jubilo quando ele puxava pela linha e falava Ah, era uma alegria assim, como se ele tivesse descoberto a América. Depois Freud descobriu que essa criança brincava também, sabe quando a criança brinca de esconder a cara e acha que ela ta escondida, de falar nenê Oh, nenê Ah, então ele entendeu que isso tinha a ver com a brincadeira que ele fazia com as mãos do bebê que tem duas palavras em alemão que era Ford, que era fora, e Da, aqui, então é a brincadeira do Ford Da e o Freud então sacou que essa brincadeira tem a ver com a criança perceber que a criança ta lidando com a descontinuidade ; jogou fora, pegou de volta, jogou fora, pegou de volta; a mãe vai, mas volta, vai, mas volta; com o começo da capacidade de simbolização da criança, se ela pode simbolizar que a mãe que vai, volta e se ela pode inclusive brincar de esconder uma coisa e achar, de jogar e pegar, ela não é só quem sofre passivamente da falta da mãe e depois recebe passivamente, ela também é capaz de sumir e aparecer, ou de fazer sumir e trazer de volta os objetos, ela começa a poder lidar com a falta, sabendo que o objeto vem e que se não vier a mãe ela brinca de carretel, o objeto vem, isso é o sujeito psíquico, o sujeito é capaz de simbolizar, e simbolizar para nós é simbolizar o ausente. Na presença, tudo bem, eu sei que você chama Cristiane, mas na presença eu não preciso me preocupar com isso, o símbolo, o nome vem para evoca-la ou chama-la se ela não ta aqui, ou pelo menos se ela ta mas não ta prestando atenção em mim, nesse sentido, a ausência não precisa estar fora do ambiente, não ta grudado, não tá ligado, então o psiquismo é isso. Agora, dessa capacidade da criança de lidar com o desprazer, com a falta, com a necessidade, até ai nós estamos no terreno das necessidades né, como é que se dá a passagem da necessidade pro desejo? Que é diferente necessidade de desejo, é que o desejo da criança, e quanto mais a mãe ganha autonomia, isso é normal, o bebê vai ficando um pouquinho independente a mãe vai voltando as atividades, volta até a trabalhar hoje em dia, antigamente não voltava a trabalhar, ou a mãe reerotiza o seu corpo, durante algum tempo fica um corpo completamente maternal, a mãe quer o pai também, ou se não é o pai é um outro namorado, ou o trabalho dela, ela quer outras coisas além da criança, então o que a criança perdeu ali não é só o leite, o cuidado, a maternagem, por que isso vamos dizer que a mãe garanta, porque tem a vó, tem a babá, enfim, pensando numa criança numa situação razoável de vida, não precisa ser...a criança ta com as necessidades satisfeitas. Então o quê que ela perdeu? Ela perdeu o lugar, o lugar que era o único lugar que ela conhecia até então, que era um lugar um pouco ilusório, mas em todo caso aquela ilusão muito forte, de ser tudo para mãe, de ela me completa e eu completo ela, esse lugar que na psicanálise chama-se O falo do outro, esse conceito, o falo, quer dizer aquilo que completa, que tapa o buraco. Ela perde isso então ela perde Ser, ela perde o seu ser por que a única experiência de ser pleno que nós temos é a experiência primordial de ser aquilo que completa o outro, o resto não é ser é falta de ser, nós somos sujeitos de falta a ser, por isso que nós estamos sempre nos construindo, nunca estamos satisfeitos, o que é muito bom né, nós somos falta de ser, nós sabemos qual o nosso nome, qual o sexo a gente pertence, a família, nós sabemos muita coisa que dão complemento de identificação para nós, você não perde a noção de quem você é, se você tiver mais ou menos bem psiquicamente. Você pode se definir de muitas maneiras, de muitos vetores, o seu estilo, onde você mora, pais pertence, que língua você fala, quem são seus amigos, com quem você é casado, quem não é, sua historia de vida toda cria uma identificação comigo mesma, com minha imagem corporal, que por mais que o corpo mude ao longo da vida você continua se olhando no espelho e sabendo que é você, e se você ficar 10 anos numa ilha sem espelho você pode até levar um susto quando se vir, mas é você, você tem um sentimento de permanência do seu eu, mas o ser é incompleto. O Lacan costuma dizer: só os lírios do campo são. Por isso que o Freud... A bíblia fala:’ olhai os lírios do campo eles que estão na sua plenitude’ ..... Só na natureza os seres são. O humano é a falta a ser. E a vida é uma continua busca do que que pode completar este ser que nunca é completo.Só o morto É de novo, o morto esta pleno, ele não tem mais devir, ele não tem mais falta, agora se fechou. É interessante talvez , porque que nós sentimos tanta falta que colocar o nosso nome na lapide. Eu penso nas pessoas que querem ser cremadas. Meu pai quis ser cremado, foi cremado, muito tempo depois eu passei pelo tumulo da Família Kehl , no cemitério da Consolação que eu nem sabia que existia, eu fui lá e pus o nome dele, eu falei: ah, o nome ta ai, o SER já se perdeu, mas como a morte para tudo, o nome ta ali, paradinho. Por isso que a gente usa mármore, essas matérias estáveis pros mortos, por que ali o ser se realizou, se concluiu. Mas vamos falar assim, o que é que é o desejo? O desejo é um movimento que parte, primeiro Freud vai tratar esse assunto como se fosse ainda do lado das necessidades. Ele fala o seguinte, o desejo é um impulso, ele não é uma coisa, ele é um impulso que parte da insatisfação em busca de um equivalente daquela marca psíquica da experiencia de satisfação, então você tem a referencia da marca da experiencia da satisfação, é ela que você vai buscar de novo quando você sente a falta, por que o desejo é esse impulso, ele não é uma coisa, ele é um movimento psíquico, que muitas vezes você não acha a coisa, você acha a ideia, por isso que o sonho realiza desejo. Por que que o Freu d dizia que o sonho realiza desejo? No sonho você não come, não bebe, não viaja, não faz amor, não abraça, não beija, não tem filho, no sonho você só representa aquilo que pode te completar, nada acontece de fato, como satisfação corporal, no entanto ele realiza desejo , porque o desejo não esta no plano corporal. As necessidades estão no plano corporal, o primeiro modelo que o Freud faz que é o da criança, é a satisfação de necessidades, leite. O desejo já não está no plano corporal, ele está no plano simbólico, o desejo é o movimento que busca o equivalente, busca conceber o equivalente da satisfação perdida. Por isso ele não deixa de nos acompanhar durante a vida, por isso o sujeito psíquico é um sujeito do desejo. Vamos supor, se esse desejo que é um desejo de completar a falta a ser, ter de volta aquilo que você perdeu lá, que tinha que perder para virar sujeito, sujeito de desejo, se um dia eu encontrasse aquilo eu parava, por isso a ideia da plenitude, da morte como plenitude, por isso a ideia aristotélica de que a morte ecoa vida, o fim de uma vida, é ela que vai dar sentido para aquela vida inteira, não é, não é que a morte seja boa, mas ela é o único ponto de parada pra esse movimento, pra desse ato do desejo, enfim, tudo isso vai depender da possibilidade de suportar o tempo, como o transcorrer entre um ponto e outro, entre dois pontos digamos de satisfação. Além do desejo tem um outro movimento que vai amadurecendo principalmente na medida em que a criança tem acesso a linguagem que é o movimento do pensamento. O movimento do pensamento não precisa ser como o calculo, racional, pode ser a fantasia também, pode ser: ai como eu gostaria de...E começar a imaginar tudo o que a gente gostaria, mas o pensamento é aquilo que suporta o rodeio maior. A criança que num primeiro momento sente a falta, recorre a marca mnêmica do objeto e no primeiro momento quase quando ela alucinou, parece até que ela achou, por que é um tempo muito curto, esse tempo, na medida em que o tempo de insatisfação pode ser suportado por um tempo mais longo a atividade psíquica vai se enriquecendo, entre a primeira experiência, a insatisfação e o retorno da experiência. A atividade psíquica vai se enriquecendo, então o psiquismo é isso, é fazer ligações, fazer ligações, ligações sobre um fundo de vazio, por que a gente não é nada, a gente é o trabalho psíquico que a gente construiu, se não o corpo em si não é nada, se ele for um corpo autista ele nem se alimenta sozinho. Se ele for um corpo psicótico ele não se organiza. Então isso é que é o psiquismo. O pensamento, vai dizer Freud, é a capacidade de entre a experiência da falta, vamos supor, falta de verdade, não entendi tal assunto que eu li e a experiência do encontro, ah, entendi, entendi uma parte, solucionei meu problema. Você é capaz de fazer um arco bem maior que percurso, por várias marcas simbólicas, do qual a fantasia participa, mas pro Freud é importante, Freud é nosso analista né, que os caminhos de fantasia que vão bifurcando esse percurso de pensamento não iludam o movimento do sujeito o suficiente para ele abortar o percurso. Isso é impossível de garantir. Muitas vezes a gente ta pensando num problema e pega um atalho, chega numa fantasia e ah, ta bom assim vai, chega, não quero mais pensar! Provavelmente a gente faz isso a maior parte das vezes, poucas vezes a gente vai até o resultado realmente e resolver o problema. É muito difícil a gente distinguir o que é fantasia e o que é puro pensamento teórico. Imagina, Descartes, o racionalista, ele cria uma fantasia monumental para sustentar a idéia que ele existe, um deus enganador que botou para fingir, se iludir que os sentidos dele percebem ou que não percebem, então é muito difícil de distinguir essas coisas, em todo caso o que o Freud diz é que ele dá, ele privilegia o movimento do pensamento como movimento superior do psiquismo no sentido de ser capaz de suportar mais tempo na ausência do objeto de satisfação. Fazer uma busca mais longa, claro, quanto mais tempo pode buscar mais rico, não vou chamar de evoluído que evoluído pressupõe uma gradação, mas em termos de riqueza, não estamos falando de gradação mas de ligações mentais, mais ricos nós somos. Quanto mais ligações, quantos mais caminhos mentais a gente puder fazer, a pessoa que só faz aquele caminho mental, só pensa de um jeito, só fica contente com um tipo de coisa é mais pobre psiquicamente. O ponto de vista, só se interessa por 2 ou 3 coisas, só se sente bem, só se sente segura em poucos ambientes, é mais pobre do ponto de vista da da vida psíquica. Quanto mais plasticidade, quanto mais possibilidade de fazer ligações, quanto mais... mais rica. Bom, para terminar, a gente tem uma hora mais ou menos uma hora de debate eu espero né, eu vou fazer um pulo aqui pro Walter Benjamim rapidamente que ao contrario do Freud...Ele é freudiano, ele não é freudiano, imagina, é um filosofo muito mais rico, mas ele usa Freud pra resolver alguns problemas. Ele leu Freud, então é um filosofo capaz de incluir a psicanálise num sistema de pensamento do começo do século XX e, só que ao contrário do Freud ele dá um enorme valor a imaginação, ao devaneio, ao sonho, as narrativas, as lendas, a tudo aquilo que vai criando elo entre as pessoas e criando elo da pessoa com sua própria historia com o seu devir que não tem que passar necessariamente pela razão. Ele tem boas razões para fazer isso, por que ele viveu a I Guerra Mundial e o começo da II, e ele sabe os delírios de que a razão é capaz. No século do progresso, da ciência, do racionalismo que é o século XX, da tecnologia e ele passou por 2 guerras horrorosas sendo que na segunda ele mesmo se matou prevendo o fim horroroso que ele podia ter se ele caísse nas mãos dos nazistas. Então ela tinha boas razões para também valorizar aquilo que faz a nossa ligação com o passado, com os antepassados, com a comunidade humana, que é muito mais a fantasia do que a razão, as fantasias, os devaneios, as lendas, as narrativas, etc.. Bem, Benjamim se preocupou muito com a melancolia, e ele aborda a melancolia, que seria a depressão, a nossa, de várias maneiras ao longo da sua obra, e a maneira que me interessa aqui em relação ao tempo é a seguinte: ele percebe que a modernidade, quer dizer, ele nasce na Alemanha em 1882 e tem uma primeira infância, tudo bem já era modernidade, mas ainda é uma modernidade...a Alemanha entrou mais tarde na Revolução Industrial, na unificação, entrou na modernidade mais tarde, mesmo ele vivendo em Berlin, as memórias berlinenses dele é quase como se ele vivesse numa província, a estabilidade da vida, na infância. Uma casa burguesa e etc.. Quando ele vai pra Paris e ele começa a ler Baudelaire, que é um autor anterior a ele, da primeira metade do século XIX, ele se dá conta, primeiro, Paris é trepidante no começo do século XX e ele cria uma teoria para explicar a, que eu não vou entrar por que ai ficaria aqui até as 7 da noite, mas ele cria uma teoria de que na modernidade urbana a melancolia, porque ele considera Baudelaire um poeta melancólico, umas das explicações pro melancólico é que ele vive sob o impacto da velocidade, da vida na grande cidade, e com isso o que se perde é essa capacidade profunda do devaneio e da imaginação. Ele toma Freud, e ele diz o seguinte: o psiquismo, ele tem uma camada superficial que é a atenção consciente, essa é a mais fácil de a gente entender, que se confunde com o córtex cerebral, e que tem como função aparar os choques vindos do exterior para proteger as camadas mais profundas do psiquismo, profunda na terminologia freudiana, porque ele nunca fala em profunda, ele fala o inconsciente está a céu aberto. Ele ta naquilo que você fala. mas pra Freud, ele usa essa ideia de camadas profundas, que seria onde se dá o sonho, onde se dá...vamos chamar de profunda aquilo que não está, cujo trabalho não é resposta imediata ao presente, não precisa pensar na profundidade no sentido da metáfora de um poço, mas a metáfora do tempo, aquilo que precisa ser evocado para voltar, a imaginação, a lembrança, etc.. Bom, Freud vai dizer: esse sistema da atenção consciente, ele tem neurônios que orientam o psiquismo para sobreviver no presente. Metáfora banal: atravessar uma rua né, ou dirigir numa estrada. Qual é o sistema que tem que estar ligado? É o da atenção consciente, e ele vai aparando os choques da vida exterior. Choque não é igual a trauma tá, trauma é justamente quando o choque é tão violento que ele desorganiza todo o psiquismo por que o nosso sistema da atenção consciente não consegue dar conta. Você é atropelado por um trem, não tem psiquismo que dê conta disso. Então ele ta chamando de choques, os faróis dos carros, as pessoas que atravessam, o caminhão atrás buzinando, o medo de perder a direção, o motor no ouvido, o ruído se ta bom, se não ta, se furou o pneu, é estado de tensão mas é uma tensão em que o que ta ativo é o sistema de percepção de consciência. E Freud vai dizer: esse sistema tem que um pouco se amortecer para proteger os outros, ele vai morrendo um pouco, morrendo no sentido de que ele vai se fixando no atual, no presente, no imediato. Então o modelo do Benjamim, entre outros sobre a melancolia, é de que um sujeito que vive nas condições de velocidade da modernidade e olha que Baudelaire, se a gente vivesse na Paris de Baudelaire a gente ia achar um passeio! Mas Baudelaire tem algumas poemas em prosas que falam da loucura da carruagens passando, carruagem... Benjamin já falava de automóveis, trens... Ele diz: por quê que o sujeito de melancoliza? Por que ele empobrece psiquicamente, por que ele tem que responder o tempo todo ao que vem de fora e ele perde essa conexão profunda, profunda vamos pensar em termos temporais, não só com a sua fantasia, com a sua memória, com a sua infância, mas também com as gerações passadas que o constitui. E hoje se a gente pensar nisso é como se nós estivéssemos um imperativo, e hoje esse imperativo também é ideológico, ele não é só prático, a nossa sociedade valoriza muito o presente e o futuro, você tem que estar já com um pé ali na porta do futuro para não ficar pra trás. Então, mas o ideológico é o de menos, as condições materiais é que sustentam o ideológico, se não houvesse as condições materiais o ideológico seria uma fantasia que depois se dissiparia. Essa idéia de que você tem que estar atento para pegar tudo aquilo que o momento presente, pegar, responder, reagir, o que o presente te trás. E isso em vez de trazer uma maior riqueza te empobrece. É estranho né. Porque hoje você tem como o humano é muito plástico...É engraçado que quando eu escrevi minha tese, faz muito tempo, também estudando um pouco o século XIX, eu li um autor que dizia: qualquer pessoa que viveu antes da máquina a vapor, da locomotiva a vapor, nunca mais vai se adaptar num mundo em que você pode andar a velocidade de 50, 60 km/h, esse autor que eu não lembro quem era falando sobre o espanto que foi o deslocamento pelos trens a vapor do século XIX, 50, 60 km...o corpo humano não foi feito para andar a essa velocidade diz ele. Depois, no fim do século XX já, o filho do escritor, Alphonse Daudet que é um escritor francês, chegou a dizer: o automóvel é a guerra. Quer dizer , que existe uma máquina capaz dessa velocidade isso vai trazer a guerra. Por que vai trazer a guerra? Não que as pessoas vão brigar por automóveis, porque a tecnologia permite, existe uma tecnologia que permite o extermínio a distancia, uma velocidade absurda, ela tem que ser usada, ai já é uma questão do capitalismo, enfim, depois no debate a gente pode conversar um pouco mais. Mas estou fazendo aqui um salto para chegar naquilo que o Benjamim vai dizer. Então se primeiro ele diz, estudando Baudelaire que o homem moderno, e ele toma o Baudelaire como paradigma, uma parte do imaginário fica sacrificada porque o sistema atenção- percepçãoconsciência é o mais solicitado, os outros sistemas vão ficando como que atrofiados, ou pelo menos desativados e uma hora o sentido da vida se perde, por que o sentido da vida é ficcional, ele não é objetivo, e isso a gente vê no consultório atualmente muita gente dizendo: eu acordo desde de manhã até de noite eu faço um monte de coisas e nada disso me faz acreditar que minha vida tem sentido, parece uma vida vazia. Por que? No sistema ele está só respondendo a estimulo, como se esse sujeito perdesse esse elo com o passado, com a sua fantasia, com tudo aquilo que faz com que ele sinta que a vida é boa, é prazerosa, é prazerosa pelo tipo de atividade psíquica que ela permite desenvolver: devaneio, fantasia, o exercício do querer, que não ta ligado ao que eu quero imediatamente, isso é uma coisa. A outra que o Benjamim percebeu muito cedo e que hoje nós não temos mais duvidas que ele percebeu certo, é que a tecnologia, o desenvolvimento da técnica que no começo do século XX não chega aos pés do que é hoje, ele impõe, se impõe aos homens não a serviço do homem, mas colocando o homem à serviço dele. Por isso que ele sacou, e ele cita esse filho do Alphonse Daudet , ele sacou que a tecnologia podia levar a uma guerra, e levou, e ia levar a outra guerra, por que a fé na tecnologia faz com que, claro ai tem toda a questão de geopolítica, os Estados, a Alemanha, a humilhação da Alemanha, ele não ta dizendo que a guerra foi só um brinquedinho de homens, mas é como se a vontade de ver aquilo em ação participa daquilo , que faz com que inclusive as populações, a I Guerra Mundial, foi uma guerra em que a população da Inglaterra, a população da França, a população de vários países aderiu entusiasticamente, aderiu entusiasticamente, não é que eram obrigados a se alistar, aderiu , era a fé no combate aéreo, que iam ganhar, que aquilo ali ia resolver, era querer ver tecnologia funcionando. Claro que existem mecanismo políticos, quer dizer, vejam, a tecnologia nuclear teve um momento que ela parecia inevitável, teve que ter acordos muito fortes entre os países para dizer não vamos usar, por que se existe por que não vou usar né, os bombardeios e etc. Mas a metáfora que o Benjamim faz da tecnologia, são duas metáforas que ele faz: Uma é do bombardeio aéreo, ele passou pela I Guerra e ele diz: uma geração que foi a escola num bonde puxado a cavalos, a burros, que é a coisa mais, para nós, primitiva que pode existir, - é uma carroça- se viu de repente de baixo de bombardeios sob um céu, sob uma paisagem irreconhecível na qual a única coisa familiar eram as nuvens do céu, sendo que as nuvens do céu são as coisas mais voláteis que existe, mais mutante, no entanto, a única da paisagem a única coisa que o sujeito poderia ainda reconhecer, fazendo parte do mesmo mindo que ele vinha e de baixo de um campo de forças destruidoras o frágil e minúsculo corpo humano. Ele está descrevendo um bombardeio aéreo, ele ta descrevendo a guerra. Mas ele poderia estar descrevendo a nossa experiência urbana. Tira a bomba e põe no lugar da bomba os carros, os aviões, o barulho, a velocidade, e o frágil e minúsculo corpo humano Os quarteirões de casas que caem para dar lugar a rapidez da mudança, que vai tornando o mundo irreconhecível para nós. Homem – Em São Paulo nem céu nós temos. Maria – Nem céu nós temos...um pedacinho sempre sobra. Nem céu nós temos. A ideia do Benjamim que é muito interessante, ele continua esse parágrafo em outro texto dizendo: uma ...forma.. monstruosa se abateu sobre os homens, (uma num sei o quê monstruosa) não me lembro o que é - se abateu sobre os homens.. é a tecnologia. Veja, não é uma fala obscurantista - eu vou voltar a andar de carroça e iluminar com luz de vela, não tem antibiótico- não é isso, é que a técnica aliada ao capitalismo, ela se impõe a nós, e nós é que a servimos a ela, e não ela nos serve. Nós é que a servimos. Por quê que as pessoas fazem fila cada vez que lança um novo ipad ou ipod, sei lá, vão fazer fila na porta das lojas né? Porque elas acreditam, isso é uma crença, tão crença quanto acreditar que eu vou pro céu ou pro inferno, e que deus ta vendo tudo que eu faço. Por quê que elas acreditam que elas tem que ter um novo que foi lançado? E por que, qualquer amigo argumenta com você -mas tem que ter! se não você vai ficar pra trás. Pra trás do quê? Qual é a corrida? Para onde nós estamos indo? E não tem nada a ver com falar contra as descobertas que...alguém quer não ter mais e-mail? Alguém não quer mais falar no celular, se estabeleceu, facilitou algumas coisas da vida. Mas a adesão a isso, ela tem a ver eom as estratégias do capitalismo, tem a ver com concentração de riqueza, e o mais importante, muito rapidamente a gente vai começar, a gente já está, os jovens então, por que vocês são do teatro, tem outro pensamento, tem outros modos de estar no mundo, mas muito rapidamente, os adolescente já estão a serviço do seu celulares e não mais se servindo de seus celulares, e a existência da tecnologia que permite o encurtamento da comunicação, a rapidez imediata, a notícia que chega em um minuto, faz com que isso se torne indispensável. E cada vez mais, quer dizer, se essa metáfora da rodovia ou do trânsito de carruagens na Paris do século XIX já é uma metáfora de velocidade, pro Benjamin ou pro Baudelaire, a metáfora da vida digital, não precisava nem de correr com o corpo, o corpo pode estar sentado, você pode ficar 12 horas respondendo a estimulo, você nunca vai ficar sem nada para fazer e se você acredita de fato que para você existir você tem que estar presente na maquininha, no facebook, no youtube, no Google ... você pode ficar 12 horas a serviço da tecnologia. E o vazio que se produz, é imenso. Eu tenho pacientes viciados nisso, em relações por computador. Então eu estou dando o exemplo do computador que é o que eu percebo de mais atual, você pode não sair de casa, não ter contato com ninguém, não ler um livro, mas tudo isso é o de menos, o principal é que você pode ficar em casa lendo um livro, eu tinha um paciente deprimido que tinha um mundo interior com uma riqueza....ele ficava em casa mas ele conhecia tudo de jazz, ele conhecia os filmes da década de 40 e 50 que eu adorava, ou os filmes de cinema Cult, ele lia tudo quanto é, gostava de escrever, tocava guitarra, fazia poesia, mas ele não queria sair de casa, ele ficava lá na deprê dele, mas a deprê dele era riquíssima, então não se trata de sair ou não sair de casa, o que eu to dizendo, tomando de novo esse modelo freudiano o Benjamim retoma de você...a vida passa a ser atividade do sistema de percepção e consciência, responder a estimulo, responder a estimulo e não precisa mais ser como imaginava o Benjamim um estimulo ameaçador, o carro na rodovia, a bomba que vocês tem que se esconder, você tem que responder estimulo para sobreviver, pode ser no maior conforto, você pode estar super seguro no seu quarto, mas você pode fazer uma vida de responder a estímulos. Porque essas máquinas das quais nós nos servimos para encurtar o tempo, para ter mais tempo, então resolve por celular, resolve por computador, manda por e-mail, imagina, quando eu era jornalista e ainda por cima não tinha carro, escrevia o artigo na máquina de escrever, punha num envelope, tomava um ônibus, porque eu era ‘duranga’ , ia na Folha de São Paulo lá na Marginal e entregava o artigo, e via umas pessoas, tomava um cafezinho, paquerava um jornalista, pegava outro ônibus, voltava para casa e isto tomava uma tarde. É legal poder mandar por e-mail, claro que é legal, mas é bom ter a noção do que a gente perdeu quando tinha aquela tarde ali para isso, entende, você manda por e-mail e qual é a próxima coisa que eu tenho que fazer agora? Alguma coisa se perdeu. Não se trata de passadismo ‘no meu tempo que era bom’. Cada um tem o seu tempo e as saudades que a gente tem do passado a gente sempre recorda de melhor, então a gente acha que era bom, não lembra da chuva, de ficar dentro do ônibus, não é isso, enfim, eu to dizendo como quanto mais coisa você faz caber dentro de seu tempo mais seu tempo te parece menor, ou mais dilatado ele te parece, isso é subjetivo, é por que o tempo ta sendo vivenciado nessa dinâmica sem nenhuma dialética de responder a estimulo, do sistema percepção consciência. Mulher – Isso que você falou, poderia repetir: quanto mais coisa... Maria – Quanto mais coisa você tentar enfiar dentro do seu tempo em vez dele te parecer mais dilatado te parece... que voou. As vezes a gente fala: nossa essa semana já passou? O que que eu fiz? Não fiz nada!? Que você fez: você respondeu à demanda do outro o tempo todo. E aí tem uma questão também, da demanda do outro. Quer dizer, para você ter um projeto, por que pras pessoas é tão difícil fazer uma tese, por exemplo? tudo bem, tem lá o orientador que te cobra prazo, que te enche o saco, que fala num quero que você vá por esse caminho, lê aquele autor- tem um outro que te demanda. Mas se você resolve fazer uma tese o desejo é seu, teoricamente o desejo é seu. Aí você vai fazer uma coisa por conta do seu desejo, não é por que alguém te perguntou, alguém te pediu, alguém te...fica dificílimo, de repente os caras querem desistir, não querem sustentar, porque não é a demanda do outro. E responder a demanda do outro a gente sabe. A criança faz isso desde cedo não é, mesmo quando a criança, mama no peito e etc, para criança ela ta tão ainda fundida com a mãe que ela não sabe se ela mama porque ela quer ou se ea mãe quer que ela mame porque a mãe sabe o que é bom para ela e ela se sente bem. Tanto que o adulto que estimula demais a criança ele cria uma criança ansiosa, porque não é que a criança fica satisfeita com aquele excesso de estímulo, ela fica se sentindo tendo que responder um monte de demanda. Isso é muito confuso pra criança. E é confuso pra qualquer um de nós, quando alguém fala, vocês tem essa experiência: faça isso, é pro seu bem; eu quero isso de você por que é pro seu bem. Você não sabe mais se você faz por você ou pelo outro. Um pouco a nossa vida com a tecnologia é essa, é pro seu bem! Esse novo Che Guevara do século XXI, que é o Steve Jobs- cada geração tem o Che Guevara que merece- ele fez tanta coisa pro nosso bem não é, enfim, ele criou aparelhinhos de nos demandar o tempo todo. Ótimo, não tenho mais que me preocupar com o meu desejo, eu só respondo a demanda. Eu posso virar um sujeito, uma casca oca de sujeito a serviço da demanda. Enfim. Agora eu to divagando mas eu acho que a gente pode conversar mais um pouquinho até, deu para falar baixinho, minha garganta saiu um pouco. Mulher – Essas coisas algum texto especifico? Ou é um apanhado da obra inteira? Maria – Não, da obra inteira não. Tem alguns textos em que ele cuida disso. Mais fácil aqui no Brasil, a Brasiliense lançou nos anos 80, mas ainda existem, 3 volumes com textos selecionados do. Um deles, que eu acho que era o segundo e chama: Ciência e técnica, arte e magia, que eu acho que é um volume onde ele fala da infância dele em Berlin, acho que é, não tenho certeza, tem dois textos, um se chama O narrador, que é muito conhecido e o outro se chama Experiência e pobreza, nos dois textos ele fala e é a coisa mais engraçada que acontece neste dois textos e não é empastelamento editorial porque eu fui encontrar esses textos em outras línguas, ele repete esse parágrafo: uma geração que ainda foi à escolas em bondes puxado a burro de repente se viu debaixo de um bombardeio’, ele repete esse parágrafo e não é que ele repete porque ele é preguiçoso e não quis pensar e cortou aqui colou ali como a gente faz no computador: ah, esse pedaço desse artigo eu posso por aqui, esse outro eu colo, recorto e colo; ele repete provavelmente porque isso é muito central, essa ideia da velocidade da tecnologia; E em um ele vai pra um lado, que é a narrativa, o devaneio, você pertencer a uma comunidade que vai intercambiando as experiências com a narrativas, e no outro ele fala mais, também da experiência da transmissão da tradição e da tecnologia que é ‘ Experiência e pobreza’. E tem um outro volume, que se chama Paris, capital do século XX, eu acho, que é o que ele fala do Baudelaire que é um texto muito difícil, é um texto tão complicado que o Adorno e Horkheimer que morava já nos Estados Unidos e, o Benjamin, estava , eu dizia dizer tava aqui...! tava em Paris passando fome quase, a única coisa que ele tinha de vez em quando era uma mesada do Instituto, que era a Escola de Frankfurt lá né, ele não conseguiu emigrar, esse texto eles se recusaram a publicar, eles acharam pouco dialético, pouco marxista, ele caprichou nesse texto e não conseguiu. Então você não precisa ler esse texto inteiro, mas tem um trecho desse texto, agora eu não sei dizer qual é tem que dar uma olhada, onde ele usa o ‘Além do princípio do prazer’ do Freud, esse modelo do sistema percepçãoconsciência, em relação aos outros sistemas, o apara choques, etc.. Ele usa nesse, num ponto desse texto, sobre Baudelaire. Tem referencia de onde é, é legal ler o Benjamim mesmo. ENCONTRO COM LAYMERT GARCIA DOS SANTOS DATA: 02 DE DEZEMBRO DE 2011 Cristiane - Entendeu. Do Rumos, que levantou muita coisa, a gente quer falar mais com ele, quer ouvir ele mais, por que ele levantou muitas bolas. A gente tem uma pesquisa, a gente ta com um projeto Máquina do tempo ou longo agora, mais uma vez só para. E tem a questão da tecnologia, como isso altera nossa temporalidade, tem a questão dessa experiência linda que você teve com os índios ianomâmis, que também que acho que é uma outra vivencia de tudo, que eu acho que pode enriquecer as nossas perguntas né. Por que eu acho que é mais a gente tentar levantar questões, levantar as provocações que podem desembocar na criação. A gente tem gente que é o pessoal do Fila 7 que ta aqui, tem o pessoal, a Débora, que estão lá desde o primeiro grupo de estudos que começou, tem o pessoal que são os agregados expandidos, sabe, o PovoemPé expandido, e tem o grupo em si que ta aqui. Então, acho que assim, você se sinta muito livre para falar e a gente vai perguntar. Laymert - Então, eu até pensei quando vocês me mandaram o projeto, as informações sobre o projeto e tal, eu pensei em duas possibilidades, uma seria um bate bola, de conversa, um outro seria uma coisa mais estruturada, e aí nessa coisa mais estruturada, eu pensei do que já fiz e do que eu to fazendo, o quê que poderia ser mais interessante para um grupo de teatro, e entre as coisas que eu já fiz, ou melhor, nesse caso eu não fiz, mas é uma pesquisa que eu tava, eu prometi, mas eu não fiz, mas eu coloquei os parâmetros dessa pesquisa, era, que tem a ver com tema que eu acho que interessa a vocês, era uma pesquisa para indicar o que é que aconteceu na passagem do Hamlet pro Hamlet máquina do Heiner Müller, por que dentro do meu projeto, eu tinha um projeto de bolsa de produtividade e pesquisa da CAPES, universitário né, eu sou universitário. Eu tinha um projeto sobre o futuro do MAM, e dentro desse projeto sobre o futuro do MAM, a coisa assim, caminhou para essa diferença ou essa passagem do Hamlet pro Hamlet máquina por que o Hamlet, a questão do Hamlet é a questão do tempo estar fora do prumo. E como o tempo ta fora do prumo e o Heiner Müller trabalhou mais ou menos uns 10 anos em cima da peça do Hamlet para escrever uma peça que tem 9 páginas, que é o Hamlet máquina, e como eu gosto muito do que o Heiner Müller faz, eu de repente, o Heiner Müller, me veio a ideia de que para eu estudar o futuro do MAM eu precisava passar pela passagem do Hamlet para o Hamlet máquina, por que a questão do Hamlet de certa maneira atravessa 4 séculos e é considerada como a questão moderna por excelência, e depois se ele faz a passagem pro Hamlet máquina, para ele tinha alguma coisa acontecendo que não é mais o Hamlet, e o que é que isso, o que é que é essa figura que já não é mais só humana, mas que ao mesmo tempo é humana mas que ao mesmo tempo não é mais, é máquina e que de certo modo vai indicar uma transformação que eu acho que tem a ver com essa transformação de aceleração dos tempos. Então, ai fica a critério de vocês. Se eu for falar da questão do Heiner Müller e do Hamlet máquina eu teria umas 10 páginas para ler, que é digamos, ai eu prefiro ler d o que falar, que ta muito mais preciso e ta muito mais exato, tem as palavras do meio, tem os comentadores, tem num sei o quê, mas eu acho que dá para situar um pouco o que essa pesquisa que eu disse que ia fazer a 3 anos atrás mas ainda não fiz, mas eu vou fazer, eu não fiz mas vou fazer. Então se vocês preferirem isso ai eu leio isso, se vocês preferirem que façam um bate bola mais geral sobre a questão do tempo e a aceleração, a gente pode fazer uma conversa mais nessa direção. Ai eu não sei, depende do grupo, do quê que vocês acham que pode ter um rendimento melhor, que as pessoas conhecem outros textos ou não conhecem, etc., por que ai eu posso puxar, num sei, realmente ai fica a critério de vocês né. É o seguinte, só como uma pequena introdução pro texto, o quê é que foi dado de inicio, eu vou rememorar para quem tava na palestra do Rumos, uma pequena observação que eu tinha feito lá, por quê que eu entro nessa observação. O Müller tinha no texto dele, é uma entrevista, mencionado um conceito que para mim é muito caro já há vários anos, que é o conceito de estratégia de aceleração total econômico-técnicocientifico, que ele chamava tecnológica naquele tempo, não chamava de técnico-cientifico, e dessa perspectiva ele dizia o humano vai desaparecer no vetor da tecnologia, e ele forjou essa noção de estratégia de aceleração total econômica e tecnológica a partir de uma observação de um aristocrata, escritor, grande pensador alemão também da tecnologia que se chama Berners Jungen, que escreveu um livro sobre a mobilização total na I Guerra Mundial e depois o Jungen num comentário sobre por quê que a Alemanha nazista perdeu a guerra, o Jungen tinha dito o seguinte: a guerra foi perdida pelos alemães por que eles se dividiram, e dividiram as forças em duas frentes, umas frente de guerra, que já é dividida em duas contra a União Soviética de um lado, contra os outros países ocidentais do outro, conforme sejam. Então eles tinham essa frente de batalha, frente de guerra, mas eles também dividiram os recursos para botar em ação o projeto de solução final dos judeus, e por que eles dividiram essas forças, eles perderam a guerra, diz o Jungen. O Müller que era um finíssimo leitor do Jungen disse: o Jungen, não tem razão, não foi por isso que os nazistas perderam a guerra, por que ele não entendeu, e no caso não ter entendido era uma coisa bastante complicado, por que o Jungen era um teórico da questão da mobilização total para a guerra, ele disse: o que ele não entendeu foi que o problema não era a frente de batalha, o projeto nazista era um projeto de tecnologização total da vida, e nesta perspectiva a solução final estava inscrita no âmago do próprio projeto nazista de tecnologização da vida entende, por que a questão da tecnologia, se a aceleração é total, coloca-se imediatamente a questão da aniquilação daqueles que são contrários a aceleração total, e diz o Müller, a questão principal é que a solução final se inscreve numa lógica da aceleração total por que é preciso eliminar as minorias, por que as minorias tem temporalidades próprias e como movendo-se em temporalidades próprias elas não aceitam uma temporalidade única para todo mundo (9:40) e tecnológica. Então o projeto da solução final se inscrevia logicamente, diz o Müller, dentro de uma perspectiva, e não foi um erro de calculo, de certa maneira, de dividir as forças, mas tava inscrito já na própria dinâmica que tinha que atacar a questão das minorias, eu acho isso uma questão interessantíssima, eu utilizo isso como norte na minha pesquisa, na minha maneira de pensar a tecnologia, não que eu seja contra a usar a tecnologia, por que eu já vou avisando: não sou, não sou contra a tecnologia, não sou nenhum saudosista, não sou budista, nada disso. Mas eu to levantando essa questão por que, como eu falei aquele dia no Rumos, eu encontrei com um sujeito que estuda futuro e romper de patentes, responsável por um grupo de 40 pesquisadores de ponta para estudar o futuro da invenção e o futuro da tecnologia, no hospital de romper patentes, que é uma big organização, e lá eles se dedicavam a essa geopolítica, e ele acabou caindo numa questão, que foi a questão que eu mencionei lá no Rumos, que era a questão da intensidade da aceleração tecnológica, intensidade essa que aparece, para ele, apareceu para ele da seguinte maneira: se você pegar a intensidade da transformação tecnológica do ano 2000 e projetar 100 anos para trás e 100 anos para frente, o que é que você pode tirar disso, tomando a intensidade de aceleração tecnológica do ano 2000 como parâmetro, como um metro, para medir 100 para trás e 100 para frente, se você toma 100 para trás isso significa que nos últimos 100 anos tomando como medida a aceleração do ano 2000, o século XX encolhe para 16 anos, ou seja, ele começa numa perspectiva de 100 anos, mas a medida que essa intensidade vai aumentando, aumentando, vai encolhendo o século, e o século de 100 vira um século de 16, em termos de intensidade tecnológica do ano 2000. Se você pega a questão desse projetar para trás, projetar para frente, de 2000 a 2100, ai então, ai é que dá o problema, por que ai ao invés de você ter uma contração você tem uma expansão, por que vai acelerando cada vez mais, cada ano, de acordo com o padrão do ano 2000, e aí é que o resultado é que 100 anos viram 25000 de intensidade tecnológica. Ai ele diz: 25000 de intensidade tecnológica é impensável, não dá! E ele que estava estudando a perspectiva em vários outros intermitentes por que o que ele tinha ali na mão com esses 40 especialistas eram diferentes técnicas a respeito de propriedade intelectual e invenção, etc. Ele olhava todos os outros que faziam prospectiva e todo mundo parava e tomava como horizonte 2030, e ele viu que daria por que se você pegasse essa chave de 25000 anos, 2030 você tinha uma aceleração de “só” 3000, e depois de 3000 anos é inimaginável, que a nossa memória humana, indo para trás, a gente chegando na pré-historia, a gente chega em 3000, então ele diz: chegando em 3000 para trás, e por isso que os estudos de prospectiva, todos param em 2030, por que depois de 2030 não dá para saber o que pode ser, não dá para saber, mas ele diz: mas mesmo pegando só 3000 anos, isso coloca um problema, disse ele, por que se a gente considerar alguns povos africanos que vivem, do ponto de vista da perspectiva da tecnologia ocidental, na idade da pedra, isso também é discutível, mas enfim, nos nossos padrões, em termos de artefatos, eles estão a 3000 anos atrás, se isso acontecer, se a gente pegar e considerar que 3000 anos é isto, se a gente considerar isto, então isto significa que em 30 anos, 25 anos a humanidade ocidental e o resto da humanidade vai ter que lidar com um acumulo, com uma intensidade de aceleração que é como se a gente chegasse lá na aldeia dos (14:38) e dissesse para eles que eles tem que evoluir 3000 anos imediatamente né. E nisto terminava o comentário dele, como eu tinha ligação com os Ianomâmis e nessa perspectiva eles também estão há 3000 anos atrás, eu acho que eles não estão, quer dizer, são contemporâneos nossos e vivem de uma outra maneira, isso é uma outra historia que a gente pode conversar depois, mas na nossa perspectiva ocidental e olhando para eles em termos tecnológicos eles estão 3000 anos atrás né. Se eles estão 3000 anos atrás a questão que se coloca é a seguinte, eu falei bom, essa realidade eu conheço, eu sei o que ta acontecendo no território Ianomâmi, eu sei o tipo de pressão que a sociedade ocidental faz sobre aquela, e eu sei o que isso significa, que é atirar aquelas pessoas, sem fazer um colchão de proteção, vocês atira aquelas pessoas contra a parede, numa velocidade de tal ordem que eles não dão conta de processar, mas o problemas do Constantinus, era que, quer dizer que eu acho que era o problema, era que a sociedade que tem que enfrentar em 30 anos uma intensidade tecnológica de aceleração tecnológica de 3000 não é a do outro povo que não tinha nada a ver com isso, é a nossa, é a mesma sociedade. Então, para mim isso começou, passou a ser um ponto de vista, uma perspectiva muito interessante para poder, de certa maneira, mudar completamente os meus parâmetros sobre tudo aquilo que a gente chama de o pós e o des, o pós-moderno e o modernismo, o pósestruturalismo, o pós-humano, o pós-teatro, do pós-teatro ao pós-cinema ao pós...eu não gosto muito daquele poema do Augusto Junqueira, de certa maneira esse pós-tudo, mas todo esse prefixo que começou a ser colocado na frente de tudo aquilo que era do tempo da gente ou pelo menos do meu tempo, da minha geração, mudar pro pós. E depois o des, que era desmanche, que era desestruturação, que era, enfim, todos os des, desconstrução, enfim, todas essas teorias pós-modernas, etc., e que davam ao mesmo tempo com pós e des, por que justamente a referencia ainda era o anterior, quer dizer a gente num sabe como você vai nomear aquilo que ta vindo, a referencia que você tem é a referencia anterior, e essa referencia anterior não vale para pensar, não vale, ela não vale por que se você fala pós-moderno e ela não tiver a referencia é moderno, se você já tá num tempo que tá destruindo ou desconstruindo o moderno ou desmontando o moderno com essa intensidade como é que você vai usar esses parâmetros se você usa os parâmetros modernos para olhar isso você fica sempre só no, naquilo que isso que é novo não é, você não tem parâmetro para dizer o quê que aquilo é, por que você ta o tempo inteiro usando um referencial que não se adéqua mais a essa situação e esse referencial não serve para gente, para perceber o novo, não dá para utilizar. Então para mim esse pensamento ai é interessante a partir justamente da questão da aceleração total por que é muito difícil de considerar que a gente vai poder entender o que ta acontecendo, ou começar a entender o que ta acontecendo usando um referencial teórico e conceitual que já é de um outro tempo, um tempo anterior, o que significa também que dá para entender por quê que tem crise na universidade, por quê que tem crise nas instituições, por quê que tem crise no entendimento das coisas e por quê que tem crise, enfim, por quê que essa crise nas ciências humanas mesmo é uma crise muito forte, e há um questionamento radical se a gente puder dizer assim, e eu acho que a radicalidade desse questionamento ta ligada a essa perspectiva de aceleração total. Além desses dois que estavam já antenados com essa coisa, havia já alguns autores, algumas pessoas, que estudam já tecnologia e já tavam ligadas nessa questão da aceleração total, e que já datavam de 1970, essa virada, é a década de 70 que faz essa virada, portanto é a década em que eu era jovem né, então é uma geração antes de vocês, mas é a geração que viveu a passagem para a disseminação da, digamos, da cibernética, em todos os campos né, com isto aqui e com todos os derivados de, digamos do reino da informação, foi quando a gente passou pra informação, pras tecnologias da informação, que essa coisa começou, isso já estava sendo registrado desde os anos 40, mas foi nos anos 70 que isso ganhou capilaridade e começou a entrar, modificando aquilo que o Foucault chama de vida, trabalho e linguagem, ou seja, todas as dimensões da experiência humana, a cibernização entrou para valer na vida, trabalho e linguagem, o que significa que o trabalho não tem mais o mesmo sentido, a vida não tem mais o mesmo sentido e a linguagem também não tem mais o mesmo sentido, ou seja, do ponto de vista do Foucault, corroborado pelo Deleuze, que vai fazer o livro dele sobre o Foucault, nós estaríamos entrando numa outra formação histórica, que está deixando para trás essa formação moderna e estamos entrando num outro tipo de formação histórica, e ai qual é essa nova formação, é isso que nos interessa, é dentro do quadro disso que nos interessa o Müller fazer a passagem do Hamlet pro Hamlet máquina, por que de certa maneira o descentramento do tempo já estava colocado desde o Hamlet, quando o Hamlet diz: o tempo ta fora do prumo, o tempo ta fora do eixo, e isso digamos, não se saiu dessa crise desde que ela foi anunciada pelo Shakespeare, a gente pode rastrear até na literatura, ou rastrear mesmo na filosofia, muita gente que volta, Nietzsche inclusive, enfim, desde o pensar, tem uma porção de gente que volta para esse ponto, considerando que ai é o momento onde a crise do homem moderno se anuncia, essa espécie de inadequação entre o tempo do sujeito e o tempo da história né, que esse é o ponto da adequação, houve uma defasagem com o tempo do sujeito e com um tempo da história. Bom, mas se isso veio de um Hamlet digamos assim até o começo de 1970 né, e o Müller escreve em 77 o texto dele, ou termina de escrever o texto dele, que é de 9 páginas, em 77 né, ele ta captando que esse Hamlet não dá mais conta dessa outra coisa por que ele ta vendo o que ta acontecendo, ele ta vendo mas como nós todos, nós sabemos o que está acontecendo, que uma coisa é você perceber o que esta acontecendo e outra é você não ter palavras para dizer o que está acontecendo e é uma espécie de uma impressão surda ou uma impressão que de certo modo, depois disso, até generalizou por que ninguém mais tem tempo, nenhuma, ninguém mais tem tempo, e ninguém mais tem tempo e ta todo mundo correndo atrás o tempo inteiro. E parece até que as tecnologias, o que é um paradoxo, por que as tecnologias são todas feitas para nos poupar tempo e parece que quanto mais intensa a utilização da tecnologia por nós, menos tempo a gente tem né. Então, que historia é essa da era para nos poupar tempo e para nos permitir que a gente pudesse fazer, ter mais tempo, mais tempo livre, e acontece que quanto mais tecnologia a gente tem menos tempo a gente tem, então tem um paradoxo ai, que evidentemente esse paradoxo dita a inadequação também do tipo de sociedade que é a nossa, que é a sociedade do trabalho, mas a sociedade do trabalho ta em crise, todos nós sabemos, por que o trabalho tem cada vez menos, e os governos e os Estados passam o tempo inteiro dizendo a gente precisa criar emprego e eles adotam uma política que é o tempo inteiro de eliminar os empregos, então tem emprego, cada vez tem mais gente que é, digamos que cai fora do trem bala da aceleração total, ou por que não consegue ficar no trem, a crise de 2008 para cá a gente ta vendo então, bom, ai não vamos nem entrar nesse assunto por que ai é pesado. Então, eu acho que tem ai uma questão, de que com que instrumental então que se vai, eu digo conceitual, com que instrumental se vai dizer ou perceber e mostrar o que essa sensação de aceleração total e um pouco como é que essa aceleração incide sobre nós. Existe uma fileira, já vi que eu não vou ler o texto. Eu achei que era mais fácil começar por ali... Mulher – O texto era uma porta de entrada. Laymert – Hum? Mulher – O texto fica como uma porta de entrada. Laymert - É. Existe uma linhagem de autores que pensam justamente essa questão, como é que, que impacto tem sobre nós, né, essa aceleração. E existe uma linhagem de gente pensando não da mesma maneira exatamente que Müller sobre o desaparecimento, mas de certo modo sim, do humano, do vetor da tecnologia, mas que pensa que o homem está obsoleto, que o homem está obsoleto em que chave? Na chave de que o corpo humano não dá conta dessa intensidade de aceleração, não dá conta, por que é demais, e ai não dando conta, por exemplo, uma figura interessante nessa perspectiva é um filosofo chamado Gunther Anders, que foi marido da Ana Heinz, a própria Ana Heinz migrou para os Estados Unidos, e tal, e ele escreveu um livro em dois volumes que é muito interessante chamado O homem obsoleto, onde ele começa já a detectar: ih, tá complicado esse negocio né, ta complicado, e quando ele percebe isso, ele diz assim: eu vou parar hoje de fazer filosofia, de modo, e eu vou fazer uma filosofia de ocasião. E filosofia de ocasião, ele entendia por isso, é um pensamento que fosse, não tivesse mais como referencia o pensamento clássico, mas que pensasse a partir daquilo que ta acontecendo no momento e aquilo que se pode perceber no momento, e ele percebeu isso quando ele foi com uma, um jovem numa exposição, numa exposição de máquinas nos Estados Unidos e ai ele viu que o jovem tinha vergonha de si mesmo diante da perfeição da máquina, ai, foi ai que ele sacou o negocio, aqui tem problema, por quê? Por que esse sentimento de vergonha com relação a máquina, e a máquina foi feita pelos humanos, então como é que é essa vergonha do seu inacabamento, do seu, da sua imperfeição diante dessa perfeição e destaprecisão, etc. e tal. Ele começou colocar nessa direção e acabou escrevendo esses dois volumes, que são muito interessantes, sobre essa questão da obsolescência do humano, dizendo: bom, do jeito que vai indo, esse sentimento de vergonha vai mostrando, é apenas um indicador grande, de uma crise de que tem um outro ser e um outro modo de ser no mundo, que não é animal e nem vegetal, e nem é humano, e que digamos, concorre com o humano, e que de certa maneira, ta assumindo uma condição como espécie, de certo modo, entre aspas, que ta mais na frente do que o humano, diante do qual o humano, digamos de certo modo, o humano se recolhe né. Então ele indicou essa questão, outras pessoas também começaram a ver essa questão e começaram a ver de um modo muito interessante, por exemplo, na NASA né, na corrida espacial, nos anos 60, a Guerra Fria se exprime, como não podia haver um enfrentamento direto por causa da bomba atômica, outra vez questão tecnológica, não podia haver um enfrentamento direto na Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, então eles faziam guerras quentes em territórios distantes né, que a gente sabe disso, as ditaduras da América Latina inteira foi um efeito disso, mas, eles faziam as guerras quentes em outros lugares mas o enfrentamento entre eles quando se dava se dava só através da corrida espacial, corrida espacial é, digamos, de certa maneira, a gente não para pra pensar essas coisas, mas se você para pra pensar 5 minutos, é uma piração, por que o humano é um ser terrestre né, o que é que ele vai fazer num habitat que não é o dele, certo? A questão da NASA, que dentro da NASA se colocou era muito simples, era o seguinte: o habitat do homem é terrestre, mas eu quero ir para o espaço. Você só pode fazer duas coisas: ou você modifica o habitat pro humano poder estar lá e sobrevivendo, ou você tem que modificar o humano, para ele poder estar num habitat que não é o dele, foi ai que apareceu o Ciborgue, o Ciborgue surge dos psiquiatras da NASA estudando a questão de como fazer para resolver o problema de ter humano se mandando, literalmente, para o espaço. E ai a questão era, você não pode mudar o ambiente por que você não tem tecnologia e nem poder suficiente para mudar o espaço, então como fazer para modificar o humano? A questão do ciborgue que é organismo cibernético, justamente, ou seja, é o domínio cybernetic organism, ciborgue, a questão do ciborgue apareceu por que você tinha que fazer um acoplamento homem/ máquina, que permitisse ao homem poder viver no espaço que não é o dele, e esse espaço era o espaço extra-terrestre e para poder fazer isso, precisava que o humano tivesse acoplado maquinas que conseguissem assumir o seu metabolismo, por que se não ele ia se mandar pro espaço e ia ter que ficar cuidando o tempo inteiro do seu metabolismo e ele não ia poder fazer nada mais, ele não teria mais nada a fazer a não ser cuidar do seu metabolismo, da sua luta contra a morte nesse espaço, então ai surgiu essa ideia de acoplamento, próteses e etc. que permitissem um agenciamento humano/ máquina que permitisse que o homem ficasse num ambiente que é essa piração certo, e isso é uma coisa, bom, digamos, foi aceito, digamos, como uma proposição não delirante digamos assim né, e continuou essa historia até que o momento, teve uma série de explosões que morreram vários astronautas americanos e vários astronautas russos né, eles começaram a ver que o buraco era mais em baixo e começaram a direcionar essas tendências que eram, digamos, no nível macro, esse desenvolvimento no nível macro, eles começaram a direcionar pra um nível micro, em vez de ir para o espaço a corrida passou a ser pela conquista do molecular, aquilo que é o micro, nanotecnologia, biotecnologia e as, as tecnologias da informação, todas essas micro, lidam com informação que é a onde você vai agenciar a maquinação da transformação em todos os campos, né, que é por isso então a questão de 1970 para frente, que vai ser a transformação, que é a virada cibernética, se a gente pode dizer assim, em todos os campos, e aí, por que a informação? Por que a informação, na definição do Benson que era um psiquiatra também, mas era antropólogo,etc. e tal, e que trabalhou esse assunto de um modo interessantíssimo, na definição do Benson a informação é a diferença que faz a diferença, em vez de você jogar no grande você joga o controle no pequeno, no mínimo, para ver se você tem a posse, se apropria da diferença mínima e se você tiver o poder de transformação sobre as mínimas diferenças você tem o poder, então a ênfase passou do nível macro pro micro e claro continuou tendo um voo tripulado e etc., até hoje você tem, mas não era mais, o lance não era mais o de se mandar toda hora para lua, etc.. A questão, o foco da competição era nesse plano do complexo industrial militar, era nesse plano micro, com as tecnologias da informação. Voltando pro humano então, o humano, essa questão da do humano começou a ser uma questão importante, do ponto de vista da transformação da vida, do trabalho e da linguagem pelas tecnologias, pelo impacto que isso, que as tecnologias tinham e tem sobre o próprio corpo e pelas soluções que começaram a ser desenvolvidas pelo pensamento, a partir dessa crise do humano. Hoje em dia já tem, digamos, algumas tendências que dá para mapear no terreno de como é que essas questões estão sendo discutidas, você tem uma tendência que é uma tendência de ver o que tá acontecendo nessa dimensão e falar que horror, quero voltar para trás! Quero segurar sobretudo o humanismo! Essa é a tendência digamos, eu diria a mais comum, a mais corriqueira, que é ambivalente na verdade, por que de um lado as pessoas querem voltar para trás, mas ao mesmo tempo elas querem os benefícios das tecnologias, então elas querem voltar, mas elas não querem de certa maneira. Então elas fazem de um lado, nessa tendência tem uma expressão positiva e uma negativa, a negativa quer voltar para trás, que é através de uma espécie de tecnofobia e a que quer mesmo falar: que barato, para frente mesmo, uma espécie de tecnofilia, de amor, paixão pela tecnologia, que é digamos o reverso da tecnofobia, mas que coloca ainda a questão em termos: bom, o humano vai transformar, mas ele vai atravessar esse negocio, ele vai continuar sendo legal lá na frente. Que é a minha briga com outros gerencistas, inclusive em mesas redondas e etc. por que eles me chamam de xiita, chamavam, por que agora eu nem vou, mas chamavam de xiita, entortavam o nariz, por que eles achavam que eu tava na posição em que eu tava defendendo o humano para assegurar o humanismo e eles, pareciam assim aqueles vovozinhos, assim que nem eu, super simpáticos, de palito de tríade, de cabelo todo cortadinho, cientista e ele falava as maiores sandices sobre reprodução assistida para a plateia jovem e etc. todo mundo entusiasmadíssimo, sem em nenhum momento medir as implicações daquilo que ele tá falando, por que, então tá bom, se é essa a perspectiva, por exemplo, se é a perspectiva da reprodução assistida que a industria assume o papel do pai e da mãe né, tudo bem, mas então como fica a questão, digamos, vamos dizer assim, da individuação de cada um nesse processo. Você explodiu a família ta legal, você explodiu a paternidade ta legal, você explodiu a maternidade ta legal, então você jogou fora Freud e Nietzsche junto, tudo bem, a gente sabe que é bom, mas se você jogar isso tudo no lixo qual é o parâmetro para as pessoas saberem quem elas são? Por que isso é que é a questão, a questão não é você falar: ah, é bem legal por que você pode ter, vários casos, não vou discutir essa coisa por que já faz mais de 15 anos. Ah, que é legal, a menina de 17 anos que invocou que ela é a imaculada Conceição e que ela quer parir sem relação, a tecnologia diz que pode, e ela pode fazer a viagem dela de imaculada Conceição, tudo bem, tudo o que é tecnologicamente permitido deve ser feito? Esse é o ponto, e aí se começava a ter todo tipo de combinação, as mais loucas e todos os tipos de experimentações também, que vão desde, sei lá, o cara que fazia, o cara mais bambambam de efeitos especiais de Hollywood que começa com essa historia que dizia: bom, agora que a coisa começou a ficar legal, por que agora a gente não precisa mais fazer efeito especial, agora a gente cria realidades monstruosas e baixa elas, faz elas existirem na real, como os experimentos que estavam sendo feitos, de transformações genéticas, de criar orelha nas costas de rato, enfim, tinha uma fileira de monstros, de experimentações, e o humano entra nessa, e a obsolescência do humano vinha: bom, nós vamos entrar numa via de transformação do humano, seja para uma implantação de prótese, seja pela transformação genética do próprio humano. Então tinha a turma do humanismo, que dizia não pode tem que botar o freio; tinha a turma que dizia: pode, mas os humanos vão ser substituídos por maquinas aperfeiçoadas e a gente tem que assumir como espécie que a nossa espécie ta condenada, por que na competição entre nós e uma robótica hiperdesenvolvida, eles tem condição de sobreviver em ambientes hostis melhor do que nós, portanto nós então somos uma espécie fadada a extinção. E os que diziam: não, não vai ser pela via da transformação do robô, vai ser pela via da transformação do humano; então qual transformação, prótese? Transformação genética? Que via, que via, qual vai ser a via, e o que é que vai se dar com a transformação a começar do próprio corpo, dentro dessa chave você abre o leque que vai do botox a digamos, a criação de uma aristocracia geneticamente modificada e desenvolvida para, com habilidades inclusive artística que assumem a criação de ponta, por exemplo. Não sei se vocês já viram o filme Gattaca, que tratava dessa questão, nos anos 90, no mesmo ano que saiu esse filme saiu um livro de um geneticista de Princeton, Lis Silva, e ele escreveu um livro chamado Ramake Eden, que quer dizer: Refazendo o Eden, e nesse livro ele já postulava a criação de uma nova espécie humana turbinada que seria uma aristocracia da espécie humana que ficaria para trás, por que você teria os não geneticamente modificados e você teria os geneticamente modificados, no mesmo ano que saiu o filme, e ai se você comparar uma coisa com a outra é exatamente a mesma coisa, só que ele era um cientista, o outro tava fazendo uma ficção e o Elis Silva estava escrevendo enquanto geneticista de Princeton né, não é um lugar qualquer, nem era um charlatão da esquina que tava falando essas coisas, mas estava falando, aliás quem quiser narrativa, digamos, delirante ou, você não sabe mais o que é que é ficção ou não é ficção eu acho que é bem dentro desse terreno, do terreno da biotecnologia, da nano, etc. a confusão e mesmo o apagamento de fronteira entre realidade e ficção, e de certo modo um preparo, um chamamento para que aquilo possa acontecer do ponto...é só ler os cientistas, por que já tinham cientistas que eram fantásticos, por que eles estão pirando na maionese total... Mulher - E o Almodóvar agora né.... Laymert - Nesse Último filme? Eu não vi ainda esse último filme... Mulher - Então veja. Laymert - Ele tá trabalhando essa... Mulher - Com o Miguel Nicolelis, também li aquele livro lá dele o Muito além do nosso eu, que é uma viagem. Laymer - É nessa direção. É uma viagem, você pega por exemplo, um sujeito que pega a relação do que é que pode acontecer e o que seria preciso, como seria possível se precaver para que o humano continue dentro dessa perspectiva, é um astrônomo da Marinha, eu esqueci o nome dele, Paul... eu não me lembro agora o nome dele, mas ele escreveu um livro fazendo recomendações e nesse livro ele diz: bom, existe uma possibilidade; analisa lá as razões, que existe 50% de possibilidade de ter uma guerra bacteriológica, ou por terrorismo ou por escape, descontrole ou situações estilo Fukushima, etc. e tal, e de ter uma guerra ai não atômica ou não por uma questão atômica, mas bacteriológica, e ele diz: nesse caso, se existe 50% a gente tem que começar a se precaver para salvar o humano, e a proposta que ele faz a sério é começar a mandar, para que um olho genético humano, agenciado em organismos ou não agenciado, etc. para o espaço, para a galáxia, você lê aquilo você fala: bom, isso aqui é pura ficção cientifica, é uma viagem, mas é defendido, digamos racionalmente e argumentado, etc. por um cientista da High Society, não é uma pessoa qualquer, então você começa a ler aqui, outro lá, outro cá, e começa a ver que tem aquilo que o filosofo chamou, ele fez uma observação que eu acho bastante judiciosa, ele falou: disseram que na pósmodernidade acabou as grandes narrativas, eu, Petes, eu acho que não, por que está em construção uma grande narrativa que eu acho que é a da obsolescência do humano, e ele é contra, essa construção dessa narrativa por que ele acha que o pressuposto dessa narrativa é que de certa maneira as virtualidades, as potencialidades do humano estão se esgotando e que é preciso, digamos, faz o caminho pro homem sair de cena né, o que significa, digamos, de certa maneira, essa coisa que o Müller fala de nazismo, essa piração né, só que bem mais para frente, e ele diz: e eu acho que essa construção, dá de barato que é como se o humano e as virtualidades do humano estivessem todas já realizadas, e que portanto essa perspectiva do humano pode ser obsoleto mas é essa construção dessa narrativa que tem que ser criticada e que tem que se mostrar quais são os pressupostos dela. Bom, então esse é o panorama, de certa maneira geral, que organiza essa discussão sobre o chamado futuro do humano e dentro dessa perspectiva trava essa questão do Müller né, já detectando, e ai ele fala, o Heiner fala uma coisa que é muito interessante, que eu acho que vale a pena ver que é o seguinte: em que terreno que a gente pode procurar pistas para gente ver o que seria, mas afinal de contas o que é que ta acontecendo, o que é que tá acontecendo? E ele diz, o Müller tem uma frase muito interessante, que tem a ver com tudo isso, e eles diz: a poesia pega mais rápido, é capaz de captar melhor o que está por vir por que ela vai mais rápido do que a teoria; isso eu acho uma questão importante, para mim que sou da área das ciências humanas e que estou vendo o atraso das universidades e das instituições que organizam o chamado pensamento, e que estou vendo a incapacidade delas de lidar com o que está acontecendo e a falta digamos, o caráter lento delas para perceber o que está acontecendo e lidar com isso, eu acho que essa frase dele é importante, ela é importante por que se a poesia vai mais depressa do que a teoria, é por que ela tem algum método, outro, para perceber alguma coisa que a teoria não é capaz de perceber e o que é mais importante, ela vai mais depressa, olha, se a gente ta falando de tempo de aceleração o Müller ta indicando que de certo modo quem pode lidar com uma aceleração alucinada dessa que é a que a gente ta vivendo é a poesia, evidentemente que a gente ainda ta falando da grande poesia, evidentemente que a gente ta falando de uma poesia que tenha não só uma compreensão complexa do tempo ou melhor, das temporalidades, e uma compreensão e uma capacidade de elaboração para dizer o quê é isto, e dizer isto no tempo e dizer isso no tempo certo, e dizer isso no tempo certo não significa que vai entendido ou recebido no tempo presente, o próprio Nietzsche dizia: se alguém perguntar para mim para quando que eu to escrevendo, eu to escrevendo para 200 anos essa coisa; o Nietzsche escrevia para dali a 200 anos, já se passaram 100, eu acho que continua valendo, ele é um autor absolutamente contemporâneo sendo ao mesmo tempo extemporâneo, mas é contemporâneo justamente por que é extemporâneo e vice-versa. Então, eu acho interessante o Müller dizer isso por que você pode estar escrevendo e dizer o que você está percebendo e não ter publico para isso por que as pessoas estão ainda numa vibe que é, elas tão achando ainda que elas estão num outro tempo, num tempo que já não corresponde mais, tem uma defasagem de tempo, o Marx dizia a consciência vem sempre depois, que o processo avança e a consciência vem sempre depois ou mesmo diz: bom, a maneira da gente lidar com isso é que a poesia capta, ela pode até dizer isso de uma maneira cifrada, mas ela tem uma capacidade maior do que a teoria para captar o movimento no tempo em que ele se faz, o que eu acho que é importante. E aí nessa questão dele, é nessa chave que liga a questão Hamlet com Hamlet máquina, por que ele dizia o seguinte, que ele teve duas obsessões na vida, como vocês sabem quem foi o Müller, o Müller é uma figura interessantíssima, eu acho uma figura interessantíssima, eu tive a felicidade de conhecer o Müller no apartamento dele em Berlin, no apartamento dele em 1985, eu fui numa viagem como convidado e me deram um livro sobre a Alemanha que eu fui ler no avião e eu li uma entrevista do Müller para uma revista de Nova York, achei interessante, como a gente ia para Berlin Oriental, eu pedi pra um diplomata arranjar para mim o telefone dele e eu telefonei para ele e disse que eu queria fazer uma entrevista come ele, e ele me falou então você venha na minha casa amanhã. Tinha o muro, eu tava do lado de lá, e ele falou você vai ter que voltar, você tinha que pagar para vir de novo, eu falei: tudo bem, venho; ai já não era mais com o grupo, era sozinho e no dia seguinte eu paguei tudo de novo e fui para casa dele, e eu não tinha lido nada dele a não ser aquela entrevista, não tinha lido nada, mas eu não sei, alguma coisa me disse que eu tinha que ir lá na casa dele e eu fui, fiz uma entrevista com ele, e ai depois eu fui lendo tudo o que eu podia, eu não falo alemão, mas fui ler tudo em francês, tem praticamente tudo traduzido, então eu li, por isso que eu li os textos, as entrevistas, as peças, etc. eu li tudo dele e me liguei na figura, ele era uma figura muito especial por que justamente, ele morava em Berlin Oriental, do outro lado do muro, mas ele era um dos pouquíssimos intelectuais, ou uma das pouquíssimas figuras que tinha livre transito, que podia passar para Berlin Ocidental por causa, um pouco por causa do estatuto dele de escritor, e de escritor que estava sendo cada vez mais conhecido e ele tinha uma mobilidade que a maioria das pessoas não tinha e ele era critico ao mesmo tempo do lado de lá e do lado de cá, o que era interessante, talvez até por isso também que as autoridades de lá o deixassem passar, por que ele era também aquele cara que vinha do lado de lá, sacava as coisas, voltava pro lado de lá e falava: olha, não pensem que o capitalismo é uma maravilha por que é assim, assim, assim; ele tinha uma critica bastante feroz do capitalismo, como ele tinha uma critica feroz do lado de lá. Então essa figura, era uma figura que estava assim entre mundos, e ele tava exatamente na interface desses mundos e ele podia perceber as diferenças de velocidade entre uma sociedade e a outra. Nesse dia dessa entrevista na casa dele ele falou para mim: aqui em Berlin Oriental todo mundo vê a televisão de Berlin Ocidental; e é claro que os aliados todos do lado de cá e a Republica Federal Alemã tava o tempo inteiro emitindo para o lado de lá a maravilha do consumo, a maravilha do capitalismo, e ele falava: não é que a televisão de Berlin Ocidental seja melhor que de Berlin Oriental, por que a Oriental dá muito mais informação que a Ocidental, mas é por que ela é mais rápida, a televisão Ocidental é muito mais rápida; e ele disse: e eu estou falando em termos de imagens por segundo, tem muito mais velocidade de imagem. O que fazia por exemplo, nessa época mesmo, quando a Globo começou a transmitir e exportar novelas brasileiras para Europa, na Polônia se via novela brasileira mas na Alemanha não se via por que eles achavam lento demais a novela, já tava lá numa narrativa que já não era mais essa coisa da novela, essa coisa que fica desdobrando, desdobrando, desdobrando, eles não estavam mais nessa onda, e eles achavam, não fazia sucesso as novelas brasileiras nem nas camadas populares por que não correspondia mais ao ritmo por que era lento demais, assim como em Berlin Oriental se via a televisão Ocidental por que ela era mais rápida. Então ele tinha essa noção muito precisa de um aparato perceptivo, sensores muito fortes para entender essas diferenças de temporalidade, sobretudo por que também era um escritor, e ai vem outro ponto que eu acho muito importante no caso dele, que o torna um grande poeta e, grande mesmo, por que ele considerava que aquilo que os gregos chamam destino e que é tramado pelos deuses, o problema sempre do herói é que ele vai...a tragédia é isso né, o deuses dão a direção, o cara resolve, o herói resolve que ele não vai obedecer os deuses e que ele vai fazer por conta própria, e ai vai ser justamente o castigo dele que vai ser o objeto da tragédia, que vai ser o apartar do desígnio dos deuses, o Müller foi um cara que sacou que o papel, digamos, do destino para nós não é do Olimpo, não é dos deuses, é a historia, a historia que coloca para nós os caminhos, o peso da historia. Então, como ele tinha uma compreensão muito profunda a respeito do que era a historia, do papel que a historia tinha na vida de cada um, o peso da historia na vida de cada um, e aí a importância do Hamlet entre justamente o desajuste, entre o tempo do sujeito e o tempo da história né, é este o desajuste, entre o tempo do sujeito e o tempo da história, por que ele tinha uma percepção muito fina a respeito disso ele também era ao mesmo tempo transhistorico, por quê? Por que ele era capaz de viajar na historia, mas ele era capaz de pegar a tragédia grega que tava falando do tempo do mito e trabalhar o tempo transhistorico, ou seja, de trazer aquilo que não é do tempo histórico, que é do tempo de antes da historia, trazer pro tempo de antes, o tempo do mito para dentro da historia e mostrar, por exemplo, como, um exemplo, uma mulher, uma camponesa, do interior da União Soviética tem a grandeza de uma heroína da tragédia grega falando das suas batatas, por que quando ela está falando das batatas, das batatas, ela não está falando das batatas só, ela ta trazendo com ela todo o peso de uma historia e todos os conflitos dessa historia com a dimensão que isso tem, que é uma dimensão equivalente com a dimensão de uma Medeia, então ela pode falar 4 frases desse tamainho, mas essas frases não são, elas são as frases de uma camponesa, mas não são só as frases de uma camponesa, são muito mais do que isso por que vem um mundo junto, e esse mundo que vem é um mundo de uma grandeza imensa por que é um mundo que tem esse, digamos, tem toda a questão do destino que faz com que aquela mulher seja colocada ali naquele momento, fazendo aquilo e que o movimento dela não é só o dela, o movimento dela e formado por todo esse imenso movimento e que dá essa, dá a dimensão dela. Voltando pro Hamlet, ele disse, o Müller disse: bom, eu tive duas obsessões na vida, uma era o Hamlet, a outra era a historia do humano, ou seja, justamente a defasagem entre o tempo do sujeito e o tempo da história e por outro lado a questão do peso da historia, sobretudo da historia Alemã no século XX, duas guerras mundiais, uma revolução abortada em 1918, Guerra Fria, Berlin dividida, quer dizer, você pega o século XX e assim...e o medo, ainda que tudo está vivo, a cidade, a cidade é um monumento do século XX por que tudo que aconteceu lá, o buraco de bala na parece ainda né, então tudo o que aconteceu a cidade, a cidade reverbera, ele é um sujeito que mora nessa cidade dividida e que tem essa visão da historia e dessa visão da historia como mito e por isso mesmo que ele revisita, enfim, vai reescrever Filoctetes, mas vai reescrever Ligações perigosas, O quarteto, vai reescrever Conan , vai reescrever num sei o quê, e vai de certo modo reescrever o Hamlet, só que ele vai reescrever o Hamlet e ai ele dá uma pulo. Hamlet vai para frente. Ele diz que o Shakespeare escreveu o Hamlet sem saber direito o que é que ele estava escrevendo, ou seja, que ele estava escrevendo no escuro a respeito de uma crise que vinha, que ia vir, que ia acontecer, ele tava pressentindo, que ele captou uma crise que estava vindo, de uma fratura que estava vindo e que ele escreveu no escuro isto que ele escreveu. O movimento que o Müller faz é praticamente o mesmo movimento que ele acha que, e ele estudou a vida inteira, traduzia, inclusive fez uma nova tradução do Hamlet, o mesmo movimento que ele acha que o Hamlet, ou o Shakespeare fez ele escreve de novo também, escrevendo sem saber o que está escrevendo, escrever só captando aquilo que está por vir, sem saber direito isso que ele está escrevendo, ele só vai saber melhor depois, ele trabalhou nesse texto 10 anos, não é só um texto de 9 páginas, tem um livro só sobre as variantes, do que ele escreveu, do que ele enxugou para virar essas noves páginas, que é absolutamente fascinante, é um livro absolutamente fascinante. Então é muito interessante essa espécie de do Shakespeare da passagem do Hamlet pro Hamlet máquina por que se a gente olha pro Hamlet máquina a gente começa a ver que, como é que alguém que pensa tudo isso, que ta olhando para frente, que ta vendo alguma coisa que vai vir, alguma coisa que a gente não sabe direito o que é, que é o autor? Isso começa a adquirir mas que aparece, que figura é essa que começa a aparecer no futuro do humano? Havia um projeto, desde que ele escreveu o Hamlet máquina em 77, ele tinha um projeto de montar na sequencia Hamlet, Hamlet máquina, tudo de uma vez, junto e fazer justamente para sublinhar, mas a Republica Democrática Alemã nunca autorizou, proibiu que ele fizesse isso, então ele não fez. No ano em que ele montou Hamlet junto com Hamlet máquina foi 1989, caiu o muro. Eu não to dizendo que o muro caiu por causa disso, mas de certa maneira, quando você coloca numa perspectiva as coisas como as coisas acontecem, é muito interessante ver essas ressonâncias que tem entre esses movimentos, e eu acho que de certa maneira e ai é interessante para gente pensar nessa, e agora eu já vou parar por que já to falando demais, eu acho que seria interessante para pensar essa questão da temporalidade, da temporalidade no teatro, da questão da aceleração, da aceleração tecnológica e econômica, que não é a mesma coisa, eu inclusive quando li aquele livro e ele quando formulou, ele formulou isso como sendo um movimento só, aceleração econômica e tecnológica era uma só, você constrói, como Hitler construindo novas estradas, foi um vetor de autoestradas, o Hitler construindo autoestrada, Volkswagen, ou seja, o carro do povo e pensando a Blitz , a guerra relâmpago, para usar a autoestrada, no momento em que você tira o Volkswagen de lá, instauro a guerra, em um dia você já ta na fronteira por que você tem as rotas pros tanques chegarem no país vizinho no mesmo dia ou no dia seguinte, então isso é você pensar economia, pensar guerra, pensar digamos, a tecnologia numa estratégia total né. Hoje eu já acho que existem diferenças, não dá mais para gente poder pensar o tempo da aceleração tecnológica como sendo o tempo da aceleração econômica total, eu acho que a aceleração tecnológica é mais rápida do que a aceleração econômica total e um dos efeitos disso é a crise de 2008 e seus desdobramentos agora, por que a crise, o capitalismo ta implodindo com essa crise e de certa maneira foi por que, não foi só isso evidentemente, tem uma série de fatores, mas entre os fatores tem a possibilidade de fazer com que a especulação nos chamados mercados futuros ganhasse uma velocidade que se tornou incontrolável né, se a gente pensar por exemplo que em 99, 99 parece que outro tempo já de tanto tempo que faz, em 99 quando teve a crise, que foi a crise das . com, da Bolsa de Nova York, os investidores telefonavam para os operadores da Bolsa e falavam: G.N.O, por que a frase Get me out era grande demais, eles falavam G.N.O por que Get me out eles já perdiam milhões para falar esta frase, por que para falar G.N.O o cara já vendia as ações, e se ele falasse Get me out ele já perdia mais tantos milhões naqueles poucos segundos, esse é o tempo, esse é o tempo né, isso em 99 os caras falavam G.N.O. Quando a gente...os caras desde o começo dos anos 2000 os grandes bancos de investimento contratavam astrofísicos para fazer a arquitetura dos investimentos nos mercados futuros, eram matemáticos e astrofísicos que montavam a arquitetura da especulação, ou seja, mercados futuros eram antecipação de um futuro, você começa a construir pontes de especulação do que vai acontecer no futuro e depois você começa a construir pontes para se proteger se aquele futuro der certo ou se não der certo, eu preciso proteger pelo menos uma parte do meu capital apostando ao contrário, fazendo o que eles chamam de Heads, ou seja pontes, para compensar a perda, por que eu tento ganhar um tanto a mais aqui mas se der errado eu to ganhando um tanto a menos aqui. Os cenários futuros eram construídos e são construídos por astrofísicos, eu acho que a gente tem que ter a dimensão dessas coisas para saber que isso é o que acontece, digamos, com a ponta do capitalismo e de certa maneira o que aconteceu com esse processo, foi que você tem uma aceleração econômica absolutamente brutal com a financeirização da economia e o predomínio, o predomínio dos chamados mercados financeiros, mas por outro lado tem uma aceleração tecnológica também seguindo o ritmo alucinado que vai junto com isso, mas em certos setores vai separado disso e vai mais rápido do que a própria aceleração econômica, o que faz com que, digamos, de certa maneira, acabe dando surpresas como crises e essas que a gente ta falando por causa da antecipação de futuro que permitam inclusive que de repente aconteça isso que aconteceu conosco, que de repente a gente que era um país subdesenvolvido virou rapidamente emergente e de emergente a gente tá caminhando para ser a 5º economia do mundo, só que não dá nem para saber se digamos, se a gente vai poder relaxar e gozar, se vai dar tempo nessa perspectiva que a gente ta falando, mas por exemplo, quem esperava na direção disso que a gente ta vivendo que de repente a gente ia ser considerado digamos, nois na fita, né, a gente entrou na cena mundial, na cena global a gente está, São Paulo é uma cidade que está na cena global hoje absurdamente, não tem uma pessoa fora do Brasil que não queira vir aqui, todo mundo quer vir aqui, de qualquer ramo, de qualquer profissão todo mundo quer vir para cá, por que São Paulo no ano passado, ano passado não, este ano foi considerada a cidade global mais atraente do mundo, mais do Londres, mais do que Los Angeles, por que é a cidade onde as coisas estão acontecendo hoje, e eu acho que vocês tem que levar em consideração isso, essa inserção seria impensável 10 anos atrás, ta certo que teve uma dinâmica interna que também ajudou a isso, e evidentemente ajudou, mas a gente também, claro, se o governo Lula não tivesse a clarividência de saber qual era o lance né, e justamente de em 2008 não comprar o discurso neoliberal e de fazer o contrário a gente não estaria onde a gente está hoje, mas ao mesmo tempo que ele fez tudo isso ele fez isso por que ele não fez aquilo que seria todo mundo apostando na direção que acabou afundando os centrais e os emergentes começaram a crescer, não é que começaram, eles já estavam crescendo, mas eles começaram a entrar na cena efetivamente, como que ao mesmo tempo que os outros tavam, começavam, os outros tem em principio a tecnologia na mão né, então não é pouco o que eles tem na mão, ainda vai dar bastante pano para manga. Bom, enfim, era mais ou menos isso que eu acho que é a questão geral ai e eu quis terminar propositalmente com a coisa do Brasil, por que eu acho que no Brasil tem, eu acho que os intelectuais brasileiros e os artistas brasileiros, a ficha não caiu, a ficha não caiu no sentido de que nós entramos numa transformação muito forte, não só no mundo lá fora mas no mundo aqui dentro e aparecem, que aparecem para essa geração, aparecem oportunidades que nunca apareceram na nossa historia e de certa maneira nós estamos ainda com a cabeça, a intelectualidade brasileira, ta com a cabeça ainda, como se ainda tivesse num tempo anterior, num outro tempo, tem uma defasagem ai, na frase da (1:11:33) documentadora que foi o documento da virada do milênio né, que é a curadora francesa que fez a documenta poética política, ela andou vindo por aqui varias vezes, a gente andou fazendo umas coisas juntos e ela viu muitos artistas, ela circulou bastante por aqui, e o comentário que ela sempre fazia era: tem um déficit, tem um déficit nos artistas e intelectuais brasileiros tem um déficit com relação a realidade, a realidade vai muito mais depressa aqui do que a expressão dessa realidade, a expressão eu digo, artística, estética, dessa realidade, tem um déficit aqui; ela dizia: tem um déficit aqui, eu percebo que tem um déficit aqui por que é como se o movimento do real fosse muito mais rico e maior do que aquilo que a gente vê nas exposições, nas manifestações de expressão artística. Ela andou um tempo por aqui vendo se era interessante e num sei o quê, ela de um certo modo, parou de vir, eu conversei com ela depois para saber por quê que ela parou de vir, mas eu acho que de certa maneira ela parou de vir e ela começou a se interessar pelos países árabes né, e bom, ela ta se interessando pelos países árabes faz mais ou menos uns 8 anos, 9 anos, ela tem mapeado toda a produção digamos de artes plásticas dos países árabes e esse ano a gente viu o que é que aconteceu nos países árabes, e você imagina o que ela fez, digamos, o mapeamento de toda essa gente que já tava fervendo antes da coisa se explicitar, depois que a coisa explicita fica fácil né, o interessante é antes, é você saber antes e a gente, e a gente aqui eu acho que a gente ta correndo atrás do prejuízo, o que para nós eu acho uma coisa muito grave, eu tenho falado, todo lugar em que me convidam para falar eu to falando, praticamente sempre falando a mesma coisa, eu acho isso grave, por que a gente pode estar tendo uma oportunidade fantástica, que é a primeira vez que aparece para nós e a gente pode perder essa oportunidade por falta de simancol né, por falta de sacar qual é o movimento e de não fazer aquilo que o movimento está pedindo que seja feito, acho que esse é meu um pouco ponto de vista. PALESTRANTE CONVIDADO: JOSÉ MIGUEL WISNIK DATA: 27 DE FEVEREIRO DE 2012 José - Eu gosto muito dessas situações em que o grupo já está envolvido num trabalho, embalado num trabalho e fazendo conversas com muitas pessoas, o assunto já vem quente de certo modo, da parte de quem chama não é, e isso acho que contagia também quem fala, e afinal também quem escuta, afinal é assim que eu gostaria que fosse. Esse tipo de conversa, quando o convite é pra um tema muito aberto como esse, visões do tempo, eu gosto de vir para essas situações, assim, levemente despreparado, é a melhor maneira, se vocês me entendem, por que justamente esse é um chamado para ocupar um momento não é, que vai depender um pouco desse encontro com essas pessoas, com esse grupo, que eu pessoalmente, embora eu conhecesse algumas das pessoas, a gente se encontra agora com vocês e de algum modo a gente ocupa esse agora, e isso já é um começo do assunto né. Eu tenho escrito textos que saem no jornal O Globo do Rio, aos sábados, e isso há um ano e meio que isso acontece, e é uma coluna daquilo que antigamente se chamava crônica, e crônica é um gênero ligado ao tempo, à experiência do tempo. Quando esse gênero surgiu era um gênero que se desenvolveu especialmente no Brasil, é um gênero aberto ao que está acontecendo naquele momento. A palavra crônica tem a ver justamente com uma experiência do tempo, que ao mesmo tempo é, vamos dizer, ligada ao momento fugas, às coisas passageiras, aos assuntos momentâneos, mas que fazem justamente com que você entre nesses assuntos momentâneos de uma maneira que é um mergulho diferente do tempo sendo consumido diariamente. Machado de Assis escrevia crônicas em que ele falava de qualquer coisa, mas justamente num momento em que falar de qualquer coisa era entrar, pela primeira vez, num mundo que tinha imprensa, tinha jornais, tinha noticias do mundo, e na verdade criava-se um personagem que está muito ligado ao nosso mundo que é o do consumidor de notícias, aquele que está conectado com o mundo, por que chegam notícias do mundo, tanto como do que se passou ali na esquina, na cidade, no Largo da Carioca, como o que está se passando, as vezes, numa guerra da Rússia com o Japão, coisas assim. Aquilo abria essa espécie de disposição pro mundo simultâneo, era uma primeira aparição disso, e esta história tem uma, uma... Um desenvolvimento que leva a grandes cronistas, e eu gosto especialmente do Rubem Braga, que era aquele que se permitia falar da borboleta amarela, falar do nada, falar de assunto nenhum, falar da falta de assunto, na verdade converter a chamada falta de assunto em alguma coisa que era fundamental, por que ali existia uma espécie de disponibilidade para você não estar propriamente tratando de assuntos que são produtivos, informativos, de intervenção, portanto de relação direta com a vida produtiva. Rubem Braga foi talvez o último cronista poeta desta possibilidade, que é a criação desses nichos, dessas bolhas de tempo livre, no meio de um mundo que se acelera, e que inclui todo mundo e que as palavras são arrastadas todas para finalidades pragmáticas, são aliciadas para, quer dizer, para uma, vamos dizer, para um mundo onde elas são ressignificadas, são apropriadas e as palavras perdem chão. Drummond que também foi cronista assinalou isso nos anos 50 e 60 que as palavras estavam sendo apropriadas, na verdade apropriadas pela publicidade e a publicidade tomou conta de todas as palavras, usou para tudo, para todos os produtos que vocês quiserem, todos os valores, todas as ideias, todos os hábitos, todas as estéticas, em suma, o repertório inteiro da cultura ocidental foi canalizado para propaganda. Isso significa uma avassaladora mercantilização do mundo no sentido de que aquela gratuidade da palavra está à disposição poética daquele sentido que ela vai tomar, que ela não tem como dado, isso é uma coisa que se tornou difícil hoje, por que você não tem palavras há disposição que não tenham passado por esse processo. Então, eu disse que ao ter aceito essa situação de escrever semanalmente, que foi um exercício para mim, por que escrever pra um jornal do Rio, eu nem vejo as pessoas que leram, então para mim virou uma espécie de autoanálise, eu escrevo para um analista invisível, onde eu mesmo passo pelo crivo as coisas que eu posso estar pensando sobre o que está acontecendo e portanto, e isso para mim acabou sendo um exercício, uma coisa importante para minha própria saúde porque eu to de certo modo, ao mesmo tempo, tratando de temas que são obrigatoriamente ligados, informativos, etc... Mas com aquela margem de flutuação que admite que a gente saia do trilho assim. Outro dia justamente, momentos de falta de assunto é sempre um... Comento Rubem Braga, na verdade não é falta de assunto, é não tratar dos assuntos que já estão prontos para serem falados, e que estão prontos de uma maneira tal que falar daquilo já é usar aquelas palavras que já estão ali, assumir posições alinhadas, com todas as formas. Todo o assunto possível já tem as posições que a gente pode chamar de baias retóricas, que justamente é uma corrida, é uma corrida onde os disputantes, num mundo em que a faccionalização da vida cultural é meio acelerada e já tem todo mundo discursos prontos para acionar diante de qualquer coisa. Os corretos e eventualmente os incorretos, todos eles estão alinhados para disparar... Então, esse é um negócio interessante que é justamente sair desse lugar em que falar de qualquer coisa é acionar uma maquinaria discursiva que está pronta, máquina para falar, máquina, há máquinas discursivas a esta altura, prontas, que cobriram o campo inteiro do pensável, de certo modo. Então, outro dia justamente eu lembrei de uma crônica do Rubem Braga que era sobre um homem nadando, que ele via da varanda da casa dele. Ele via um sujeito nadando, que ele não conhece quem era, e que foi nadando e a atenção dele focou, quer dizer, ele se ligou naquele nadador e se identificou com aquele nadador, que nadava, ele dizia assim, com uma suave virilidade, cujo esforço regular ia para lugar nenhum, aquele homem não estava competindo com nada, não tinha que chegar a lugar nenhum, ele tinha que fazer um arco de um movimento, era um risco na água do oceano, no azul, na espuma que ele fazia, o risco de espuma que se fazia em torno dele e que fazia com que ele fosse nadando, o que era? Era um corpo humano cheio de uma vontade, uma vontade de atravessar aquela água, e que ele vai acompanhando até que o nadador desaparece da vista por que tem um telhado de uma outra casa que cobre e ele não o vê mais. Durante esse tempo ele passa a torcer pelo nadador, torcer para quê? Como eu disse não é torcer contra nada, é torcer para que aquele movimento fizesse um caminho perfeito, que ele não desistisse no meio, que enquanto a vista acompanhasse ele fizesse aquele desenho, como a gente torce pra um take musical quando a gente está gravando, e alguém começa a tocar e aquela música está linda e você espera que ela vá assim até onde ela tem que chegar, você embarca naquilo junto, você está junto e não precisa forçar aquilo a nada, apenas quer que aquilo se complete, que perfaça aquele caminho que tem a fazer. Acho que aquela crônica tenha uma relação com o tempo que era justamente fazer aparecer um momento, de pura disponibilidade para isso, um ser humano com aquele meio movediço que é a própria água, o oceano, mas ele atravessar com aquela dignidade, com aquela inteireza, aquele lugar, aquele momento. Tudo isso foi uma espécie de um prólogo para dizer que na última coluna do ano o assunto que me ocorreu tem a ver com o de vocês, com a máquina do tempo e tal. Era o seguinte, eu observo um sintoma que eu acho muito generalizado, que faz parte da vida cotidiana, eu poderia até dizer da psicopatologia da vida cotidiana, que é um sintoma insistente que é, a partir de certa altura do ano, eu acho que quando vira o meio do ano, já em agosto já começa, a ladainha já começa, mas esse ano eu já ouvi em fevereiro, que diz assim: o ano já está no fim, o tempo está correndo, ninguém pode mais, o tempo, quem aguenta essa coisa, o tempo não dura nada, o ano já acabou. Parece que as pessoas esperam já o momento para poder começar com essa ladainha, começam muito cedo e atravessam o ano dizendo que o ano acabou. E o fim do ano, o antigo ciclo, serve só para você virar a página, ficar um pouquinho parado, para começar imediatamente a dizer que o ano acabou. Então, esse é um sintoma incrível por que eu tenho uma sensação, eu gosto de me defender disso, eu me irrito com essa posição, eu não quero. Isso, é claro, é uma maneira de dizer algo do real, de fato o mundo se acelerou desenfreadamente, avassaladoramente, a gente está, vamos dizer, atado a redes produtivas, turbinadas pela concorrência e pelas tecnologias que fazem com que realmente a experiência das coisas se acelerem, e se acelerem por que o tempo é, a percepção do tempo está ligada à prioridade que a gente dá a ordem das coisas e vamos dizer, aceleração da propriedade, da produção, ela necessariamente afeta a percepção do tempo. Então o que as pessoas estão dizendo é o sintoma de algo real, o que me irrita é que elas se entreguem a isso, que elas aceitem isso e transformem numa espécie de uma cansada metafísica, e esse fato que justamente elas deviam rebater, rebater a partir de alguma coisa que sempre resta com qualquer pessoa, é habitar o tempo. Então, ano passado, assim novembro, dezembro, uma pessoa muito ansiosa, maravilhosa, que trabalha comigo e muito produtiva, e faz coisas sem parar, mas com essa ansiedade sempre achando que o tempo já passou e num sei o quê, num sei o quê, eu falei para ela: para um minuto, para um único minuto, não fala nada e nem faz nada durante um minuto. E o negócio foi o seguinte, esse minuto, aquilo não passava nunca, uma eternidade, aquilo para ela era um suplício, um tormento, por que o tempo na verdade durava demais, era o contrário exatamente. Isso que eu estou contando eu me lembrei já antes de vir, mas a partir do que você disse, por que o grupo OPOVOEMPÉ tem muitas vezes feito intervenções na cidade, com as pessoas, e agora, de algum modo, sobre a maneira de se perceber e reagir ao tempo e tal. E esse negócio de parar, eu gosto de pensar que para meia noite de hoje, de qualquer hoje, falta um tempo que a gente mal suportaria se a gente fosse de fato se ligar a esse tempo que falta para cada meia noite, é quase insuportável viver o tempo propriamente dito, então esse traço está ligado a uma maneira de reagir a um processo. Por que eu acho que quem viveu as duas últimas décadas assistiu a aceleração, e eu estou aqui também como um espécime exemplar de uma geração que viu isso acontecer. Por que... Ai eu vou dar um zoom maior para... Por que isso que to falando significa que a gente está tomado por uma aceleração que está ligada ao império das coisas, e esse império das coisas tem falado alto em tudo que a gente vive e resta saber... E está mudando o mundo aceleradamente, está corroendo as bases do modo como se davam todas as relações em todos os campos, os chamados paradigmas, que é uma palavra usada para dizer isso, que é a base, o modelo pelo qual você estabelece conexões entre as várias áreas da existência elas de fato vieram mudando e já mudaram, e ao mesmo tempo, enquanto império das coisas isto está mudado, quer dizer, o fato de ter uma instantaneidade de informação acessível à grande parte da população humana já muda completamente tudo, tudo, que se acumulou como experiência do tempo nos últimos milênios, e essa grande mudança se deu nas últimas décadas, é o seguinte, Levi Strauss diz isso por um lado, Hobsbawm o grande historiador que escreveu as várias idades, Idade das revoluções, a Era do capital e o Breve século XX: A era dos extremos, onde ele diz: no último quartel do século, nos últimos 25 anos, portanto na altura ali da década de 70 para cá se deu uma transformação na história da humanidade que muda tudo aquilo que se conheceu desde a instauração do neolítico, a cerca de 10 mil anos atrás. dizia o seguinte: até então a maior parte da humanidade era dedicada ao cultivo da terra para produção de alimentos, claro que nas cidades, especialmente, há um desarraigamento da terra e dessas formas mais arcaicas, antigas da relação com a terra, como produção da subsistência, tudo isso vem desde que a humanidade inventou a agricultura e portanto a sistemática colonização dos territórios, uma territorialização produtiva, em que você não colhe simplesmente, mas você faz a natureza produzir, disso resultando depois as cidades, a escrita e uma série de transformações fundamentais, mas isso significava uma humanidade ligada à terra, ligada à terra significa ligada aos ciclos, ligada ao ciclos significa entender o tempo da natureza e relacionarse com o tempo da natureza, é a forma pela qual você organiza o tempo, o tempo portanto está organizado na forma de ciclos, ele faz seu movimento, é preciso respeitar esse movimento, esse movimento tem seu tempo, ele vai e volta, todas as mitologias que restaram até hoje sobre os ciclos, sobre as quatro estações do ano, ligadas as quatro idades da vida, todas essas mitologias, essas lendas, essas histórias, que organizam o mundo através dos ciclos das estações, em que você tem o nascimento, o crescimento, o fastígio, o declínio, a morte, o renascimento, isso está em tudo, está em toda a parte, na poesia, na canção, nas coisas, em suma, por baixo das literaturas, essa ideia, a ideia da roda da fortuna que é uma imagem medieval mas que está ligada a ideia de que a vida é um ciclo, que faz... Portanto sabedoria significa entender, acompanhar, receber, acolher, saber se relacionar com esse ciclo, com o que ele tem de benéfico e de cruel, saber que ele tem alto e baixo, e etc... Mas que ele tem seu tempo. Isto é uma cultura imensa do tempo, que esta ligada a uma ligação, como eu falei, de respeito com a terra e, portanto, está ligada ao mundo em que algo dentro da atividade humana estava ligada a isso. Nesse mundo a base, a concepção do tempo é baseada na ideia de que no primórdio aconteceu um acontecimento gerador, que é o acontecimento mítico, os deuses, as entidades que geraram as coisas que existem e por isso existe uma cultura dos ritos, dos mitos e dos ritos, que buscam fazer com que tudo aquilo que existiu um dia possa existir e continuar existindo, é uma coisa de mover esse giro dos ciclos e fazer com que eles... Sacrificar aos deuses significa aplacá-los, alimentálos, etc. para que eles continuem gerando aquilo que foi uma vez gerado. É só isso, é simplesmente isso que significa, quer dizer, é um negócio que passou milênios gerando um imaginário ligado a uma percepção do tempo, ligado a uma relação com tempo, a uma experiência do tempo, certo? Dentro dessa forma mental que remonta ao neolítico, há grandes transformações que foram alavancadas e puxadas pelo ocidente, e que estão ligadas ao vetor do moderno. Se falarmos assim, essa palavra num sentido muito lato que é não só fazer mitos que revivam as origens, mas, mover o tempo para que ele atinja o futuro, para que ele não só remonte aos primórdios, mas que ele vá para frente. Insinua-se um outro mito, que não é o dos ciclos baseados nos primórdios, mas de atingir alguma coisa que está no futuro. Boa parte disso que eu estou falando vocês encontram no livro do poeta e ensaísta mexicano chamado Octavio Paz, eu estou dando a minha interpretação pessoal com outros exemplos e com outras coisas do fato de que lá ele traça uma história do tempo baseada num livro que em português se chama Os filhos do barro, no espanhol no original chama-se Los hijos del limo , seria mais bonito se eles chamassem na tradução: Os filhos da lama. Mas a idéia é que os filhos da lama são os poetas modernos, que são aqueles que perderam essas... Bom, isso eu vou explicar daqui a pouco, mas são aqueles que na encruzilhada do tempo já não estão mais ligados a esse mundo circular, do tempo arcaico que ficou, já estão no moderno, mas não estão nem inteiramente no moderno nem no arcaico, estão justamente num outro lugar ou não lugar, digamos, mas isso eu estou me antecipando um pouco. O principal é dizer o seguinte, a cultura judaica, judaico-cristã, ela introduz um vertente messiânico, que é importante para essa mudança, isso supõe o monoteísmo por que as religiões dos ciclos, essas que eu me referi primeiro, são politeístas, a criação do monoteísmo é que faz com que se aponte para um tempo em que aponte para acontecimento futuro, que vai depender justamente que o tempo vai chegar a um acontecimento no final, que é a vinda do messias, na verdade o que é a vinda do messias? É uma espécie de encontro da humanidade consigo mesmo, do mundo com o mundo, ou da criação consigo mesmo que estaria no futuro, não no passado. O judaísmo é um messianismo nesse sentido, é um anúncio de um messias, mas o judaísmo é uma espécie de esperando o Godot, o messias não é para vir, é só para criar essa expectativa. E o cristianismo é uma traição ao judaísmo por que diz que o messias veio, o messias se encarnou e faz, portanto, que Deus tome forma humana e faça uma grande revolução mental, que é em vez de os seres humanos oferecerem sacrifícios ao Deuses para aplacálos, é Deus que se oferece em sacrifício aos homens, prometendo uma salvação no fim do tempo. Então estas duas vertentes elas apontam, elas tem uma reversão daquilo que é, das concepções circulares, de tantas culturas que vivem a experiência do tempo voltando sobre si, que é um eterno retorno. Ali, os Deuses morrem e renascem, como Dionísio, mas não ressuscitam, ressurreição é uma ideia cristã, por que morrer e renascer é parte de um movimento sem fim desse ciclo. Mas você morrer e ressuscitar para a eternidade significa que você consagra um fim dos tempos onde algo diferente acontece e, portanto, tudo isso são grandes figurações do tempo, é ou não é? Então, não à toa a tradição judaico-cristã criou a perspectiva que a gente chama de escatológica, essa palavra tem dois sentidos, uma que escatologia está ligado a excremento, fezes, mas a mesma palavra tem outro sentido, com outra origem que quer dizer tudo aquilo que é ligado ao fim dos tempos, o desembocar messiânico da história em alguma coisa que a ultrapasse, então, essa perspectiva está numa longa tradição judaico cristã e o que se diz é que modernamente com a mundialização dos mercados, e o capital pensando nisso nas navegações do século XVI, ou aquilo que levou ao século XVI, que começa realmente o processo de mundialização que nós conhecemos. Nesse caso o que acontece é que essa ideia de um fim dos tempos em vez de uma dimensão religiosa ganha uma outra dimensão mítica que é a história como a se cumprir, chegar ao domínio, ao fim do progresso. A ideia de progresso é o grande mito moderno, que é, o tempo vai subindo, ascendendo etapas, até chegar o momento em que a natureza está dominada pelo ser humano e esse domínio da natureza faria com que se chegasse à possibilidade de uma vida regulada pelo fato de que a natureza está dominada, o tempo está dominado. Há uma secularização do mito religioso, do messianismo, com a ideia burguesa que está ligada a ilustração, aos pensadores do século XVIII, de um futuro onde a humanidade se realize na vida terrena. Então, o mundo moderno é uma corrida a esse futuro, a corrida ao futuro ela passa pelo império britânico, pelo império norte-americano, e a guerra fria no século XX foi uma espécie de corrida ao domínio do futuro, até a década de 70, para dizer quem é que chegava e colonizava o futuro, se afinal era o mundo capitalista ou o mundo socialista, nos dois casos baseados na ideia de otimização de todos os recursos tecnológicos para domínio da natureza. Então isso, há um longo ciclo da modernidade que está ligado a isso, a minha geração ainda viveu isso, ainda presenciou esse teatro, as duas potências falando, buscando e apontando para esse lugar em que o progresso se consumaria. Na década de 70, no entanto, apareceram sinais de que o domínio da natureza não era o domínio dos recursos do planeta, mas esses recursos tinham limite, e eles não correspondiam a essa corrida fáustica do progresso e que o planeta, os limites do planeta que apareceram eram uma questão que apontava para uma possível outra forma de fim da espécie que não era só a guerra atômica, produzida pelos artefatos criados e intensamente mobilizados em potência pelas duas forças concorrentes, ou seja, na década de 70 com a primeira crise do petróleo e a emergência do tema ecológico, apareceu ligado a uma crise da ideia do progresso de que você vai indo para uma coisa que é cada vez mais racionalizada pela técnica, e com isso eu acho que entra em um outro momento, que é o tal, que coincide com aquilo que Levi Strauss está falando, Hobsbawm está falando, e que é quando vocês nasceram, isso quero ser bem enfático, fiquem sabendo, vocês nasceram na hora que aconteceu isto e que portanto, quando depois, com a queda do muro de Berlim e a queda do socialismo real, do ponto de vista do capitalismo, acabou o interesse de se dizer que vai colonizar o futuro, muito do futuro não interessava mais, por que o futuro já chegou para quem puder comprar, e não está mais em consideração. Então, essa grande mudança, a ideia de um condomínio do futuro, oferecido a todos, ele muda e você... Então, a gente entra num mundo de acelerada corrida aos meios disponíveis, com as questões que estão ligadas aos limites que isso trás e tal. Então, com isso eu junto com o começo da história, a tal sensação de que o ano corre, de que você não tem tempo, tudo mais, faz parte de um mundo onde aquela regulação da vida dada pelo ciclo, que é um equilibrador, por que se você equilibra o tempo de maneira a saber que em um certo momento o ano termina por que recomeça, você respira o tempo, na ideia de que ele faz um caminho de homeostase como se fosse uma onda, como a onda da vida, dos organismos, como a onda do mar, como a onda musical, etc.. Então, o tempo tem a sua montante, o seu declínio, um ano é uma porção de tempo que começa, chega ao seu momento, depois declina, mas recomeça e você então... O ciclo era um grande auxiliar na relação pânica com o tempo devorador e de certo modo existe já uma dificuldade de viver em comum o tempo cíclico, por isso tudo que a gente está falando, eu acho que por isso o tal sintoma é muito ligado a isso, à ideia de que o ano não é experimentado como uma porção cíclica do tempo, mas ele é o tempo todo sinal de que o tempo está passando, você chega ao fim para virar a página e começar de novo a dizer isso... Quer dizer, isso está ligado a uma psicologia de que você não tem por onde você tomar o tempo para si. Então, tudo isso eu estou falando de sintomas, de grandes arcos, e ligados ao fato de que nós vivemos num mundo de grande instantaneidade, simultânea e de bombardeio informativo muito intenso, etc. e que, portanto, faz a gente se perguntar como é que a gente se relaciona com isso, com esse turbilhão de informações, e que envolve essa percepção de que o tempo nos escapa e rouba, ele rouba a vida, o tempo é um ladrão, não só no atacado, mas no varejo, está roubando todo dia as horas que a gente tem, etc. Então, isso tudo que eu falei da maneira mais eloquente que eu pude, isso está ao mesmo tempo associado ao fato de que na verdade se anunciam novas experiências com tempo que ao mesmo tempo são antiquíssimas, tem um longo agora, um eterno agora, que não pára de acontecer, e justamente onde criar, onde se criam possibilidades de não simplesmente ser levado pelo império das coisas, que eu acho que as coisas pura e simplesmente elas arrastam nesse sentido. Agora, um dos instrumentos que durante muito tempo vigoraram para isso é a arte, a poesia, a música, o teatro, são formas pelas quais você faz do tempo, estabelece com o tempo outro tipo de relação. Então, eu vou ler para vocês só uma letra de uma música do Gilberto Gil que se chama Parabolicamará, vocês devem conhecer, mas eu queria que a gente relesse essa música dentro do contexto disso que nós estamos falando, por que é um poema que abraça tudo isso que a gente acabou de dizer, numa forma poética, que é de certo modo, não só uma visão. Agora nós temos um debate cultural onde tem os críticos que querem continuamente mostrar os efeitos, os malefícios, dessa vida contemporânea, que estão ligados ao poder destrutivo do capital, e tudo mais, o que é verdade, mas cria uma situação em que a gente tem que simplesmente aceitar a posição apocalíptica de que não há outra coisa a fazer se não a crítica desta ordem de coisas, como se fosse restaurar alguma outra coisa que ninguém também diz o que é propriamente, por que, de certo modo, o que eu acho é isso, essa experiência do tempo que nós passamos, eu não acredito ser possível voltar atrás para épocas simplesmente onde não existiam os meios técnicos que foram desenvolvidos nesses últimos tempos. Então, no caso, o Gilberto Gil tem uma posição poética que é uma espécie de aceitação das transformações, é como se ele iluminasse a possibilidade de transformações, de que maneira que isso se faz nessa musica? Então, ele diz assim: “Antes mundo era pequeno por que terra era grande, hoje mundo é muito grande por que terra é pequena, do tamanho da antena parabolicamará, ê volta no mundo camará ê, ê, o mundo da volta, camará”. Isso aqui é um poema em que ele está usando um estribilho de capoeira, uma expressão de capoeira, e a capoeira é uma forma de arte, dança, música e poesia ligada a um mundo pré-moderno no qual a experiência do ciclo, uma sabedoria do ciclo incorporada ao corpo e à dança, está presente alí. Então quando se diz: “ê volta no mundo camará, ê, mundo da volta camará”; que ele toma da capoeira isso ganha um outro sentindo diante de uma outra grande transformação, que é esta de que fala Levi Strauss ou Hobsbawm, mas que é a grande mudança de escala, antes mundo era pequeno por que terra era grande, por que todas as populações viviam em nichos que estavam ligados a comunidades próximas, e grande parte da humanidade vivia perto daquele lugar onde nasceu, e nossa, uma viagem era uma coisa demoradíssima, você ir para um lugar para conhecer outra gente, outras pessoas, a comunicação lentíssima. Dentro desse quadro o mundo é pequeno, aquele no qual você vive, por que a terra é grande, para além do horizonte já fica difícil. Portanto culturas desenvolveram suas linguagens, suas singularidades dentro de nichos que são um tesouro da experiência humana, as culturas do mundo, que estão ligadas a essa experiência, grupos próximos, as vezes, trocando com seus vizinhos, etc. mas desenvolvendo algo que era o mundo pequeno numa terra grande; aí ele diz: “antes longe era distante, perto só quando dava, quando muito alí defronte o horizonte acabava, hoje lá atrás dos montes, dentro de casa camará, ê volta no mundo camará, ê, ê, mundo da volta camará”. Ou seja o horizonte passou a ser devassado, você sabe o que está além. Até a guerra fria nos anos 50, Roland Barthes escreveu um belo texto sobre isso em Mitologias, a Rússia era pensada como se fosse Marte, os russos eram marcianos, talvez por isso os discos voadores apareciam e deixaram de aparecer, quando na verdade os ETs que somos nós mesmos passamos a ser vistos, se alguém escorrega numa casca de banana no Cazaquistão alguém filmou aquilo, as questões ligadas ao parlamento, a câmara de vereadores, fatos que acontecem alí pipocam no nosso repertório, em suma, isso mudou completamente esse horizonte, justamente a antena parabolicamará, a antena parabólica é como uma coisa de instantaneização da informação que faz com que coisas de qualquer parte do mundo estejam em qualquer momento nos lugares mais retirados. Insisto, vocês nasceram dentro disso e isto representa uma enorme mudança de horizonte mental, e a questão, acho eu, Gilberto Gil está oferecendo a possibilidade de isso formar um novo repertório, um repertório em que se viva o tempo presente abraçando as eras, por que você está ao mesmo tempo com a antena parabólica, mas com a capoeira. Esta simultaneidade não é como simplesmente negada, as experiências passadas não são simplesmente negadas, elas passam a interagir, polifonicamente com as outras, ou seja, tecnologia e a coisa artesanal estão aqui de algum modo ligadas. Na continuação ele diz: “de jangada levo uma eternidade, de saveiro levo uma encarnação, pela onda luminosa levo o tempo de um raio, tempo que levava Rosa pra aprumar o balaio, quando sentia que o balaio ia escorregar, ê volta do mundo camará, ê, ê, mundo da volta camará”. Isto é muito sintético, mas é uma formulação poética disto, daquela história que a gente estava falando, de jangada leva uma eternidade para você cobrir uma certa distância, um tempo infindável com aquela tecnologia de transporte; de saveiro leva uma encarnação, o tempo de uma vida, pela onda luminosa que vem pela antena parabólica, leva o tempo de um raio, tempo que levava a Rosa pra aprumar o balaio, quando sentia que o balaio ia escorregar. Então você tem um instante que é aqui ligado ao mundo artesanal, carregar aquele balaio de vime que ao mesmo tempo aquilo que na capa do disco aparece, antena parabólica como um balaio de vime, portanto o artesanal com a tecnologia de ponta, estão ligados, como se fossem arpejos de tempo, por isso a jangada, a saveiro e a onda luminosa, elas contracenam com a eternidade, a encarnação e o instante, aí a música fala o seguinte: “esse tempo nunca passa, não é de ontem, nem de hoje, mora no som da cabaça, nem ta preso, nem foge, no instante que tange o berimbau meu camará, ê, volta do mundo camará”. Quando alguém toca o berimbau, ele tem uma cabaça que fica na barriga, no umbigo e que o movimento da barriga faz com que haja pulsação rítmica, que é da corda percutida que ressoa naquela cabaça em contato com a barriga, e isto é pulsação, é tempo, mas justamente o tempo, o tempo pulsante é aquilo que atravessa todas essas experiências, o tempo que está em pulsação do momento, o instante pulsante que está na música, é afinal, de algum modo, aquilo que atravessa todas essas dimensões que ele vinha falando lá. Bom, aí ele volta: “de jangada levo uma eternidade, de saveiro levo uma encarnação, de avião o tempo de uma saudade”; portanto a jangada, a saveiro e o avião, o avião quando viu já chegou, ele já descolou, já te deixou, o tempo de uma saudade, quer dizer a separação, você está a todo momento se separando de tudo, por que justamente você não vive mais em nichos muitos estáveis e duradouros, etc. e tal. E, aí ele diz isso: “esse tempo não tem rédea, vem nas asas do vento, o momento da tragédia, Chico, Ferreira e Bento, só souberam na hora do destino apresentar, ê, volta do mundo camará, ê, ê, mundo da volta camará”. Isso aí é citação de Dorival Caimi: Chico, Ferreira e Bento, quer dizer, a morte do pescador, a tragédia no mar, mas isso é aquilo que se apresenta, a morte como o corte, em suma, que nos corta a relação com o tempo e que é uma outra dimensão que está aí, aprendizados da morte, por que esse é um ponto crucial de tudo o que estamos falando, por que esses ciclos humanos e tal, criaram sabedorias do tempo que supunham o aprendizado da morte ou como morrer, então se você aceita que a morte faz parte de um ciclo isso dá sentido a morte, por que ela não é assim o simples corte, não é o golpe do acaso, é aquilo faz parte de um eterno retorno, digamos, se você tem a perspectiva de que aquilo é algo que se redime no final dos tempos, no juízo final, isso também é um consolo, vamos dizer, para o corte, e quando você não tem, essa perspectiva nem do ciclo nem da redenção, você na verdade está exposto à criação de uma outra sabedoria da morte que está em jogo agora. A gente vive um tempo muito cindido, por que por um lado existe uma enorme fome de que alguém dê sentido à falta de sentido da vida e dê sentido a morte, de preferência alguém te dando isso, ou você comprando isso, ou seja, eu vivi o tempo para ver que os cinemas que na minha infância passavam Fellini numa cidade pequena como São Vicente, junto de Santos onde eu morava, viraram igrejas evangélicas. Isso é um dado muito eloqüente, por um lado é por que o cinema foi para televisão, por sua vez foi para outras formas e etc. que aqueles lugares, aqueles mesmos lugares em que você tinha as matinês de domingo, que passava um jornal, dois trailers, um filme, intervalo, mais outro filme, e havia aquele mergulho em que o cinema por algum momento, enquanto rito eu quero dizer, não só os filmes que a gente pode baixar na internet e ver de outras maneiras, eu digo um rito, aquele lugar era uma câmara de tempo onde você tinha um rito que de algum modo igrejas, onde alguém te diz que o tempo, a morte, tudo isso está explicado, está dado, que o terror que existe por baixo disso seja aplacado por alguma coisa de algum modo pronta, esse é um traço de uma cisão, de um mundo em que você ou tem essa consolação muito pronta, de massa ou você tem uma interrogação que por outro lado... A publicidade é uma religião do mundo contemporâneo, e ela te oferece o tempo todo produtos que te prometem totalidade, produtos que fazem você acreditar que naquele momento você tem tudo, então é uma poderosa religião, que tem que ser chamada pelo nome. Então como vocês estão, estamos falando aqui de teatro, ou de poesia, de música e tal, eu acho que é importante no nosso caso entender o que é essa outra religião, todas essas religiões colocadas entre aspas, que é a arte, que tem essa característica, ela tem a ver com consolação, com a pergunta pelo sentido das coisas e de tudo, e daquilo que não tem sentido, mas na forma de interrogação, na forma de enigma, na forma de algo que nunca está pronto, e que não tem a resposta, em que a resposta não está dada, você não pode consumí-la simplesmente por que ler Drummond é simplesmente... Você passa a vida lendo Drummond e a cada vez que você ler aquilo terá um novo sentido, uma nova pergunta, uma nova inquietação e uma nova consolação que está ligada ao papel da arte hoje, muito bombardeado, inclusive para aqueles que para serem críticos e se mostrarem, não terem ilusões, dizem que a arte faz um papel puramente ilusório, ela não tem papel nenhum, então é nesse pé que estamos, certo? Então, da minha parte eu tenho a seguinte fé, que há uma demanda, uma necessidade, de dar sentido ao tempo vivido, sabendo que esse tempo se esgota, acho que a morte, a tragédia humana passa a ser exposta hoje, crianças são expostas à tragédia humana, basta olhar qualquer jornal de televisão, a qualquer momento, a dimensão trágica da existência está dada, assim, desde antes da criança saber quem ela é ou que ela existe, aquelas coisas que fazem parte desse repertório nativo, são gerações nativas da tragédia e tal. Então, eu acho que a arte é uma das poderosas, dos poderosos instrumentos que atravessam os tempos, lidando com essa coisa fluida e incapturável como o tempo. Então eu gostaria de tocar uma música só para nesse momento a gente completar uma apresentação e a partir disso a gente poderia falar, conversar, certo? Enquanto isso a gente conversa, não sei se tudo o que eu falei soa pessimista, não sei se soa pessimista, eu não me identifico, eu não sou pessimista, eu sou de escorpião, eu gosto de poder remexer mesmo no que está, onde está pegando, para poder rebater aquilo, sabe, tomar dozes do veneno para poder neutralizar o efeito dele, para poder pensar em outra coisa, sair daquilo, então na verdade... Bom... (música Arnaldo Antunes) A música muda você Você muda mais alguém Alguém muda outro alguém Que muda você também Você muda a cada momento A música muda o tempo Você é um instrumento A música muda você Pra melhor, pra melhor, pra melhor A música muda o corpo E a dança ajuda a mudança A música de um outro Desfaz a sua distância O mundo muda você Os outros te mudam muito Você muda pra crescer A música muda o mundo Pra melhor, pra melhor, pra melhor A música muda o vento O pé também muda o chão Assim como o pensamento Muda sua sensação A música muda tudo E tudo muda você Você é você porque muda A música ajuda a ser Bem melhor Isso aqui é do Arnaldo Antunes, é um disco do Arnaldo Antunes com o Edgar Scandurra, é um disco que acabou de sair, no final do ano passado, chama “Na curva da cintura”, mas eles dois juntos com um músico de Mali, que chama Toumani Diabate, que é um músico que toca esse instrumento que é uma espécie de uma harpa africana chamada Kora, muito incrível assim, que é uma cabaça, esse instrumento inclusive, eles fizeram o disco e também o vídeo que documenta a gravação do disco lá em Mali, e aí aparece como que eles fazem esse instrumento, como que a cabaça, como é que ela se cobre de coro, tem todo um rito de fazer o instrumento, por que todos os instrumentos dessas tradições imemoriais são transformações da natureza, de cabaça, de coisas ou de coro, de pele, de tripa, portanto, na verdade são animais sacrificados que se transformam em som, esse é um dos assuntos básicos do meu livro “Som e Sentido”, que é essa ideia de que o som nessas tradições ele é ligado a ideia de o sacrifício, algo morre, algo é sangrento para que possa vir a harmonia, a paz do som, a palavra aleluia, por exemplo, que vocês vem na Aleluia de Handel, nas grandes peças da música sacra, na origem aleluia é o canto das aves de rapina, é uma onomatopeia do canto das aves de rapina, como se fosse um carcará, e é justamente como se fosse a truculência da vida que é transformada em harmonia. Então esses instrumentos, essa tradição, o músico africano, a África é um grande tesouro dessa experiência, na verdade onde surgiu a humanidade, e que é a grande escola de uma técnologia do tempo, de uma técnologia dos ritmos, a música ocidental da Europa, a música moderna, é uma música que veio do domínio do controle do que a gente chama de alturas, melodias e harmonias, cujas relações, em escalas, acordes, polifonias, criou a grande arquitetura sonora do Ocidente, baseadas em melodias e harmonias, mas a África é o grande repositório dos ritmos, entendeu, timbres e ritmos, das superposições, tem melodias também, mas eles não se dão ao trabalho de desenvolver acordes e discursos evolutivos. Então é isso, esse instrumento, se vocês virem no vídeo, o músico faz aquilo, as cordas elas parecem um tear, são trançadas assim para dar a forma, não é como a harpa ocidental que é assim e você percorre, as cordas vem todas trançadas de maneira que ele toca as notas todas sem mexer a mão, por que todas elas se cruzam aqui, então é como se a multiplicidade do tempo, que uma cultura que longamente aprendeu a trazer aquilo, todo esse disco, portanto, músicas de Arnaldo com Scandurra que tem a ver com rock, com técnologia, com a vanguarda do Ocidente, por sua vez toda banhada numa coisa dessa cabaça do tempo africano, e dessas Koras, entende? Então, por isso que eu acho que é uma experiência do tempo que tem muito a nos ensinar sobre essas situações contemporâneas, em que a gente não é simplesmente atravessado pelo poder das coisas, não é isso que eu quero dizer, que isso cria situações em que esses tempos, essas linguagens acham um novo lugar. Essa música é uma música originalmente dele, do músico africano, e a voz que aparece cantando, essa voz feminina, lindíssima, ela está cantando a música feita pelo... Mas na África, como na Índia tradicional, como entre os Árabes, eles não têm a ideia de uma peça fechada, escrita numa partitura, toda a peça é um modelo para uma improvisação que vai acontecer num dado momento. Então a ideia do Ocidente foi justamente a ideia de que essas construções melódico-harmônicas elas acabam sendo consolidadas em partituras que você tem que tocar nota por nota obedecendo tal como está lá. Essa foi uma forma mental do ocidente em seu desenvolvimento quando ele desenvolveu essa linguagem espantosa, mas que chegou à essa coisa de um tempo armazenado, acumulado e guardado, gerando essas formas poderosas de acumulação de melodias e harmonias em progresso. Que começa no século XII, XIII com o canto gregoriano, quando ele começa a somar vozes, criando as polifonias, no século XVI, os acordes, no século XVII, a linguagem evolutiva do sistema tonal, essa que agente conhece na musica clássica, se desenvolve com a forma de sonata no século XVIII, passa por intensas transformações no século XIX, e chega no fim do século XIX, começo do século XX à sua crise, por que é uma música baseada no princípio do progresso, quer dizer, você sempre tem que incluir uma novidade, uma tensão nova, você tem que queimar os materiais que foram apresentados e levá-los adiante e isso faz um arco, que chega no final das contas a uma música atonal dodecafônica, serial, eletrônica, que é quando o som justamente desemboca no ruído, e no ruído descentrado, onde não tem mais esse princípio, chega nos confins onde você não tem essa espécie de movimento circular que faz nessas escalas dessas músicas, que no livro “O Som e o Sentido” eu chamo de modais, que são todas essas tradições pré-modernas que praticam escalas rítmicas que voltam sobre si mesmas em círculos, como a pentatônica chinesa, cinco notas só... (canta) Essa música que eu to cantando não existe, não é que existe pronta há anos, eu estou passeando pela escola pentatônica, isso é música para eles, a música é o momento em que você passeia por aquela escala, e eles não queriam passar além das cinco notas, nessa tradição por que eles sabiam que daí vinha problema, se você colocar a sexta nota na escala você vai criar um intervalo tenso com outra, e se colocar a sétima então, já viu uma ruína lá na frente entendeu, eles já sabiam que aquilo ia chegar no dodecafonismo, o que eu to dizendo é um pouco brincadeira, mas é verdade, eles sabiam já fazer instrumentos que soubessem já tocar os 12 tons da escala, só que eles não queriam, assim como os chineses poderiam ter descoberto a Europa, eles tinham uma armada, uma condição de navios que eles podiam, antes dos portugueses dobrarem o Cabo das Tormentas, eles vieram, olharam e não gostaram, não quiseram colonizar, isso é justamente o elemento, isso é a relação com o tempo, que significa isso, a sabedoria Oriental, quer dizer, chinesa, dizia isso, a ordem cósmica é guarnecida pelas cinco notas da escala pentatônica, se você mexer nelas cai o céu em cima da terra, esmaga, ou seja, o tempo é regulado, e todas as relações, por um princípio circular que garante uma harmonia interna, que não é evolutiva, não busca progredir, busca manter a harmonia e realimentá-la. Os indianos por sua vez, na tradição da música indiana, essa que a gente conhece, pode ouvir, essas tocadas pelas cítaras, tampuras e tal, essa coisa riquíssima, ligada à uma tradição rítmica fortíssima, eles tem todo um conjunto de escalas que para eles eram tocadas conforme a estação do ano e a hora do dia, então certa estação do ano, a tarde, vamos dizer, no fim de tarde de verão você toca certas escalas, não outras, por quê? Por que isso está ligado a uma sabedoria cíclica, então você tem, não é brincadeira esse negócio, não é só por que agora a moda é ser cíclico, não, é que aquilo é um princípio organizador do tempo, do mundo, que está em tudo, então, aquilo é regido por tabus, tabus que dizem: você não toca tal música em tal hora por que isso desorganiza as relações cósmicas. Ou seja, a sabedoria é uma acumulação do que uma certa cultura codificou como sendo a melhor forma de se relacionar com o tempo, entende? Então assim são as músicas árabes, tradicionais, indianas, chinesas, ou japonesas, e as africanas, com diferentes escalas que você reconhece quando toca, você sabe se uma coisa é africana, chinesa, japonesa, etc., indiana, por que aquelas escalas estão consolidadas com um uso, aquelas culturas, nos seus nichos, quando o mundo era pequeno e a terra era grande, eles milenarmente exploraram aquilo tudo, então essas coisas estão lá. O ocidente fez a curva que eu estava dizendo do progresso, que é você atingir o fim, começa junto com o canto gregoriano e aí você soma voz, aí não satisfeito você soma uma segunda voz, aí uma quarta, que nem uma polifonia, cinco, sete, doze vozes, trinta e duas vozes, entende, aí começa a escrever aquilo, e regular o tempo, ver como são aqueles melhores acordes, momento de tensão e repouso, como é que aquilo evolui para você criar uma peça, como uma sinfonia de Beethoven que dura vinte minutos, onde umas quatro notas dão aquilo... Uma célula replica e produz um discurso, isso é do Ocidente, a forma mental que aqui no livro eu chamo de tonal, que é o ocidente moderno e que chega ele mesmo ao processo da crise do atonalismo, que é a saturação das tensões que levaram à uma descentralização, que fazem como um fato novo, que as músicas desde sempre elas tiveram um centro tonal, elas giram em torno de um centro. Nas músicas modais sempre o centro está lá, como uma terra da qual você não sai, nas músicas do Ocidente progressivo, já na sonata, mozartiana, Mozart, Beethoven, você tem um centro, você questiona esse centro, tensiona e volta, toda a graça é: você instaura um centro, problematiza, dinamiza, dialetiza esse centro, põe ele em contradição com ele mesmo, para depois heigelianamente ele voltar ao princípio dialeticamente transformado. Mas essa dialética vai passando por uma espécie de corrosão da negatividade que faz com que a tensão não encontre mais jeito de voltar pro princípio, no livro “Som e Sentido” eu comparei isso com o pacto Faustiano, que é uma figura, é um mito do Ocidente moderno, a figura do Fausto, que surge uma lenda alemã no século XVI, vai passando por várias versões e chega a grande versão do Fausto de Goethe que é uma consagração desse princípio, de quem? De um homem que faz um pacto com Mefistófeles para tudo poder e saber, quem é ele? O homem moderno, evidentemente, que faz o que? Que queima todos os tabus. Não há mais tabus, aqueles tabus que regulavam o uso regrado das formas e das linguagens para que você não quebre o equilíbrio cíclico, é substituído por um princípio que é da possibilidade de você usar todos os recursos possíveis, passando por todas as fronteiras e todos os limites para colonizar o mundo em escala global, isso é o pacto com o diabo nesse sentido, é o pacto com o não limitado, é a quebra do tabu, dita em linguagem leiga, em linguagem não religiosa. Nesse sentido a figura do diabo ficou sendo a figura moderna do rompimento dos limites, cujo pacto faz com que o mundo possa ser como hoje, essa instantaneidade técnologica, etc. ela foi movida por esse pacto que dizia, além do original, que ele tem um preço, ele tem um custo, que é cobrado no fim, de certo modo a gente tem, eu diria que o tema da dívida, todo esse processo acelerado, ele é baseado numa divida que você replica, que você empurra, que é sem limite, por que ela está sempre sendo cobrada depois, a não ser que ela num dado momento diga chega, a cobrança é já, quando isso acontecer isso significa que essa cultura encontrou o seu apocalipse, apocalipse no sentido religioso, que significa que a dívida é cobrada, mas ela é feita estruturalmente para não ser cobrada. Nesse sentido o capitalismo é feito para se alimentar da dívida, você aumenta a dívida e você enriquece porque a dívida não é paga, então a pergunta é: que limite é esse? Eu me pergunto o que estará sendo falado lá na sala de baixo, um geógrafo marxista que está falando do enigma do capital e é certamente isso tudo aqui no andar subterrâneo, lotado, e isso está sendo falado e há uma grande avidez por saber alguma coisa sobre isso. Mas aqui no andar superior estamos falando das implicações simbólicas e poéticas da mesma coisa, algumas chaves que a gente está usando aqui não sei se eles usam lá, acho que não, mas tem a ver, e isso é uma alegoria perfeita da cultura contemporânea, por que na música ocidental, no livro “Som e Sentido” eu digo isso, a resolução do trítono, que é uma tensão que tem na escala de sete notas é o pacto com o diabo, é um intervalo que na Idade Média era chamado de diabolos em música, quem fazia o canto gregoriano sabia que aquele intervalo introduzia um grau de tensão acústica maior do que os outros, se você tem dó, sol, do, ré, mi, fá, sol, do, sol, dó, fá, dó, mi, ré, do, mi, do, ré, você tem notas que tem uma certa ordem interna que você, cujas tenções internas você administra, mas: do, ré, mi, fá, sol, do, sol, do, fá, do, fá, do fá. Os chineses todos sabiam que isso é problema: do, fá. E portanto aquilo não se toca, qual é a solução medieval? Não se toca esse intervalo, onde ele aparecer você retira. Qual foi a solução tonal? Onde ele aparecer você usa ele para dinamizar o sistema, Mozart: do, mi, sol, si, você tem uma melodia que é: do, mi, sol, é o acorde perfeito maior, perfeitamente harmônico, você cria um lugar, um centro tonal que faz: do, mi, sol, mas a melodia faz: do, mi, sol, si, se você parar nesse lugar dá uma tensão não resolvida, então vem aquele alívio, isso é a célula que explica tudo, da música pop a Wagner, tem formas mais simples ou mais complexas disso, você cria um centro tonal produz uma tensão e resolve, demora mais para resolver, por caminhos menos prováveis ou diretos, certo? E Mozart gostava desse estado de frescor disso. E nós, em suma, as crianças do ocidente cresceram sendo embaladas por essa solução, mas o trítono vai se tornando mais incidioso e mais incontrolável, e tomando conta de tudo assim, até o atonalismo, quando não tem mais resolução. Essa é uma dialética perfeita, representação, se a gente pudesse dizer assim, de uma dialética do ocidente, falada pela musica, certo? E aí, nós chegamos num lugar que é uma música que não tem centro, de um estado de coisas que não tem centro. Schamberg (?) acreditava que essa era a música do futuro, que a humanidade ia toda, sei lá o que ele imaginava desse concerto (...) tudo isso sabe, era muito, todo mundo vibrando juntos, ele acreditava. Não foi bem assim, o que essa música trouxe de certo modo é aquele fundamento insuportável do real... O ruído entra alí... Então o fundamento insuportável do real é o ruído. Mas, na verdade, a música chegou a um lugar. Então o negócio é que a música do Ocidente ela chegou a um lugar que é uma espécie a um real de fundo, quem suportaria conviver cotidianamente com aquilo que diz a teoria quântica ou a teoria da relatividade sobre o tempo e o espaço? Quem suportaria esse real que a ciência trouxe a tona? Na verdade, ninguém suportaria conviver, nós precisamos de uma escala, uma escala que é uma escala aconchegante dos limites do ser humano, dentro do seu ciclo de vida, entende? A gente não pode ser exposto à ideia de que o tempo é puramente relativo, e o espaço há certas velocidades curvo, ele não se mantém no mesmo tempo, o problema é isso, é que não é nada de uma certa ordem linear na qual a gente mantém a sensação do tempo como um habitat, que toda a questão da escala humana é a possibilidade de criar um habitat, ou seja, de criar um lugar que seja uma morada. A palavra habitat tem a ver com hábito, ou seja, aquilo que você possa aceitar como o que permanece e te acolhe, te aconchega, então, todo mundo precisa disso ao mesmo tempo que, o real contemporâneo, a tragédia humana, a ciência e a tecnologia é uma exposição a um habitat sem centro, sem aconchego, se a gente olhar, uma vertigem do universo, e as galáxias e mais o átomo, etc. quem aguentaria isso? E quem aguentaria ser exposto ao inconsciente tal como formulado por Freud, ser exposto, a gente sabe que a gente tem proteções, a gente precisa se guardar, criar um hábito, criar um habitat, essa é a concepção da música, por exemplo, na poética de Gilberto Gil, que é saber que a música, sabendo de tudo isto você tem um lugar em que você guarda alí aquela cabaça, aquele ritmo, aquela pulsação, que é a possibilidade da criação... Eu acho que o novo paradigma, é justamente a possibilidade de criação de habitats, num mundo descentrado, em que ao mesmo tempo você viva o real desse descentramento tendo habitats, moradas possíveis, que não são moradas fixas, então esse é um grande desafio, é uma grande pergunta, aonde que esses habitats se criam. Na música do Arnaldo Antunes o que ele está falando maravilhosamente é isto, aquela melodia daquele africano, eu fiz um longo parêntese quando eu disse que o africano não tem uma música pronta, é algo que se improvisa na hora, é uma matriz que é improvisada, então aquela cantora canta aquilo que esse homem compôs, improvisando sobre aquilo, que é o que ela faz, e o Arnaldo por sua vez fala como se ele tivesse fazendo aquela música dentro da sua poética, diz que a música muda o mundo, muda alguém que muda o outro, que muda você também e muda o tempo e aí você vive dentro daquele tempo que você mudou e o pensamento também se altera com isso e tudo mais, ou seja, a consciência descentrada, do autor de tudo ao mesmo tempo agora, Arnaldo Antunes é um dos poetas desse mundo descentrado, quer dizer, da percepção disso, mas ao mesmo tempo criando a possibilidade de nichos, de lugares onde você possa não se perder simplesmente em tudo isso. Então, aqui fica lindo por que justamente entra aquele, quando vocês puderem ouvir isso mais vezes, entra aquela Kora tocando, o tal instrumento, a harpa africana, e ela fica um bom tempo, um tempo maior do que uma introdução comum, de uma música que a gente conheceria, por que ela está justamente instaurando um tempo, ela está justamente criando aquela história, não é uma introdução que prepara para começar a música, parou e isso fica, aquela pulsação, aquele instrumento tocando, aí ele faz, ele faz a estrofe dele, aí entra aquela voz, falando numa língua que a gente não entende, a gente entende tudo o que ele falou, só que aquela voz com a língua que a gente não entende fala tudo o que ele falou de uma maneira potente, por que está falando música, está falando pulsações, ritmos, melodias, escalas, e escalas não ocidentais, por que ela justamente entra em intervalos que não tem nas escalas dos instrumentos ocidentais, não tem, que são os microtons próprios das músicas, que é uma região da África, o Mali, que é uma área de influência árabe, uma combinação muito singular. Então, esse canto traz esse lugar, e aí a palavra volta a dizer e volta aquilo, aqui ele começa em três planos entre a Kora, essa voz que canta e aquela outra voz que canta falando isso cria um lugar. Então eu acho que isso está elaborando aquela questão aberta de escala sonora . Digam coisas. PALESTRANTE CONVIDADO: JORGE ALBUQUERQUE VIEIRA DATA: 28 DE FEVEREIRO DE 2012 Cristiane - Olá, boa noite, bem-vindos todos, eu sou a Cristiane, diretora do OPOVOEMPÉ, é um prazer receber vocês nesta palestra, que é a segunda palestra aberta ao público do projeto A Máquina do Tempo (ou longo agora), este projeto tem o apoio do fomento ao teatro e vai acabar resultando em três experimentos, alguns deles na cidade, outros em sala fechada. A gente convida quem não conhece o trabalho do OPOVOEMPÉ a conhecer. Mas a gente tá bastante honrado em receber o Jorge Albuquerque Vieira, aqui com a gente, para falar, para dar sua visão do tempo, as visões do tempo. Eu estava falando com o professor antes, tem várias pessoas do nosso grupo que já estudaram com ele e que falavam muito, muito bem e... “nós temos que chamar o Jorge, nós temos que chamar o Jorge”. Então, que bom que a gente conseguiu trazê-lo, a gente está muito honrado com sua presença e eu aqui, estou curiosíssima em ouvir tudo. Então é isso, bem-vindos. O professor vai explanar e depois a gente abre para perguntas, uma sessão de perguntas, tá bom? Obrigada. Jorge - Bem, boa noite a todos. Muito obrigado pela presença. Como já foi comentado aqui, eu tenho um imenso prazer de estar aqui por que muitas pessoas aqui já foram minhas alunas, trabalham comigo, e isso é muito bom. O tema de hoje, me pediram para que eu falasse sobre o tempo. Na minha opinião, pelo menos, é um dos temas mais difíceis de serem abordados, talvez seja o conceito mais difícil mesmo. O tempo é um conceito, talvez o pior deles, que pertence a um corpo de conhecimento extremamente básico, fundamental, é o tipo do corpo de conhecimento que todos nós necessitamos para viver, esse corpo de conhecimento não nos é ensinado por ninguém, nós aprendemos sozinhos desde pequenininhos, esse corpo de conhecimentos envolve conceitos e ideias profundamente gerais, fundamentais e básicas, e por isso mesmo extremamente difíceis de serem entendidas, discutidas, racionalizadas, e etc... Esses conceitos são basicamente: espaço, tempo, uma noção aproximada de matéria, mudança, transformação, consequentemente evolução, possibilidade, causalidade, e etc... Se vocês pararem para pensar, com algumas exceções, a maioria de nós ao longo da vida nunca estudou isto, e nas escolas normais, nós normalmente não temos acesso a este tipo de conhecimento, nem mesmo, na maioria dos cursos de natureza científica. Toda vez que a ciência é feita, cientistas costumam pressupor a existência do espaço, do tempo e da matéria, mas não filosofam sobre isso e, no entanto, quando a gente é nenenzinho, pequeno, que a gente começa a engatinhar e etc... Nossos primeiros experimentos, subir na cadeira e cair da cadeira, envolve basicamente explorações de espaço, de tempo e de matéria, e nós crescemos com isso. Então nós temos de maneira internalizada, algum conceito, alguma ideia, muito subjetiva e muito tácita, ou seja, não discursiva, do que seja a duração, do que seja algo que lembra a passagem ou o fluir do tempo, mas se você parar para analisar direitinho, você vai ver que toda a grande maioria do que a gente fala, principalmente tempo, é metáfora. A gente nunca sabe ao certo o que o tempo é. Para poder discutir o que é essa questão a gente precisa fazer uma breve incursão na teoria do conhecimento, eu vou procurar ser bem rápido para não ficar muito chato. Mas imaginem que haja alguma coisa, um sistema, que necessite ou que queira saber, conhecer, tecnicamente esse sistema é chamado de sujeito, imagine que haja um outro sistema a ser conhecido, tecnicamente ele é chamado de objeto, toda vez que se estabelecer uma certa relação entre sujeito e objeto, você tem conhecimento. Ou seja, conhecimento é um tipo de relação que se estabelece entre sujeito e objeto, e recorrendo um pouquinho à matemática, relação é uma espécie de emparelhamento condicional, ou seja, quando uma coisa emparelha com outra segundo certas restrições, segundo certas condições. O conhecimento faz parte por tanto desse tipo de relação, chamada relação gnosiológica, relação do conhecimento. A teoria do conhecimento foi construída em cima dessa relação, é o coração da filosofia, digamos assim, ela envolve cinco grandes problemas, o primeiro deles que eu considero mais fundamental, chama-se o problema da essência do conhecimento, consiste em a gente discutir qual é a natureza da relação e o que é que governa essa relação cognitiva, no caso; os outros problemas são o problema da origem do conhecimento, ou seja, se conhecimento é considerado como processo, se ele começa do sujeito para o objeto ou o contrário; o problema da possibilidade do conhecimento, se é efetivamente possível conhecer alguma coisa, e em que medida; o problema das formas de conhecimento, ou seja, quais são os processos que ocorrem na nossa cabeça no ato de conhecer e o problema da verdade, que é considerado o pior deles. Do ponto de vista do problema da essência do conhecimento você tem dois pólos, o do sujeito e o do objeto, a relação faz a mediação entre os dois. A pergunta é: para onde tende a relação? Ela é do domínio do sujeito ou ela é do domínio do objeto? Se você partir do pressuposto que é do domínio do sujeito e for exageradamente nessa direção, você vai chegar à conclusão que o conhecimento se reduz, é contido integralmente no sujeito, mas a gente sabe que não é assim, por outro lado, se você for na outra direção, você pode achar que o conhecimento tá todo colocado no objeto, também não é assim. Na verdade a solução é sempre mediada, classicamente falando, toda vez que alguém opta mais para o lado do sujeito está fazendo uma forma de subjetivismo, e toda vez que alguém opta pelo lado do objeto, está fazendo uma forma de objetivismo. Porque estou falando isso? Por que do ponto de vista filosófico, conceitos, mesmo abstratos e fundamentais como o tempo, podem ir sendo avaliados, analisados, de maneira subjetivista ou objetivista, essa dualidade persiste até hoje. Existiram alguns filósofos, talvez o mais famoso deles seja Charles Sanders Peirce, que tentaram superar isso mostrando a continuidade que existe entre sujeito e objeto, mas classicamente, a maioria das pessoas, inclusive, não conhece Peirce, o trabalho dele, e a briga, a dualidade entre objetivismo e subjetivismo permanece até hoje. Mas para gente ser honesto mesmo quanto ao tempo, nós somos sujeitos, então tudo começa sempre no sujeito, sobre esse ponto de vista, a primeira ideia que nós temos de tempo é de natureza subjetiva. Bem, o que é que isso significa? A noção que nós temos de tempo, ela é vaga. Se você parar para analisar direitinho o que você sabe sobre o tempo a única coisa que lhe resta é uma sensação extremamente fugaz, vaga, disso que a gente chama de agora. Se a primeira coisa que você toma consciência: eu estou aqui agora, eu estou falando para vocês agora; mas notem o verbo: eu estou falando para vocês agora, eu não digo: eu falei para vocês agora, eu não digo: eu falo para vocês agora, mas sim: eu estou falando para vocês agora. Isso pressupõe que o meu agora é seguido de outro agora que é seguido de outro agora, e se a gente analisar isso friamente a gente vai ver que agora é uma coisa muito rápida, extremamente passageira. Do ponto de vista da neurociência, agora significa aproximadamente 0,25 do segundo, ou seja, o nosso presente, o nosso agora, essa espécie de faca que divide o tempo entre passado e futuro tem uma extensãozinha para nós, uma função resolução da ordem de 0,25 do segundo, é isso que nós dispomos, e a gente percebe depois uma coisa inquietante, esse agora é fugaz, o futuro ainda não é e o passado já foi, é como se não restasse nada, mas a gente sabe ao mesmo tempo, que não é bem assim e é essa sensação de que não é bem assim que denuncia a presença do tempo. Por exemplo, eu posso dizer para vocês que eu estou sendo, eu posso ficar inclusive completamente imóvel aqui e vou continuar sendo, esse pedestal aqui, está inerte e imóvel aqui há um certo tempo e se nada de mais acontecer, ele vai continuar sendo, ou seja, existe essa noção de tempo, de tempo de duração, tempo do ser, e isso é que denuncia o tempo primordial, agora, como é que nós chegamos a esta conclusão? De maneira subjetiva, na nossa cabeça existe um mecanismo que internaliza informação e que constrói para nós a noção de um passado, função de uma memória, inclusive comprometida, esburacada, falha, etc... Você tem uma breve noção do que já aconteceu, e uma certa expectativa do que vai acontecer ainda, ou seja, na verdade a única coisa que nós dispomos para valer mesmo na nossa subjetividade é de um agora, de um presente, de um passado e de um futuro vagos, é a única coisa que a gente dispõe. Aí vem a pergunta filosófica, mas você está falando então de um tempo que só existe na sua cabeça, só existe no sujeito? Ou esse tempo existe fora de você? Por que se ele existe fora de você, ele tem chance de ser algo de objetivo. Geralmente, ser objetivo significa admitir uma coisa também difícil de definir chamada realidade, e subjetivistas extremos negam a existência da realidade, mas se você for um subjetivista moderado ou um objetivista moderado você vai admitir que a realidade existe. O que é que é a realidade mesmo? De maneira muito grosseira, seria o conjunto daquelas coisas que insistem em permanecer, que não dependem de nós, pelo menos em certas circunstâncias, e o que é pior, elas se forçam sobre nós de vez em quando, por exemplo, pode parecer ingênuo, mas eu acredito na realidade, eu acredito que essa sala é real, por que eu sei que se eu sair da sala, a sala vai continuar sendo, ela não vai acabar com a minha saída, e vocês podem testemunhar isso, se eu tentar sair da sala sem passar pela porta, se eu tentar sair pela parede, eu vou me machucar, a parede vai se esforçar sobre mim, além dela não depender de mim, ela não me dá muita bola, não me dá muita colher de chá não, ela se força sobre mim, isso é o real, de uma maneira muito grosseira, na verdade, definir filosoficamente realidade é uma espécie de inferno. Bem, mas isso já acarreta para a gente mais alguma coisa quanto ao tempo, eu posso construir, tentar construir uma visão objetiva do tempo, mas eu tenho que seguir um certo método, por exemplo, eu tenho a sensação de um agora, agora, já construímos graças a ciência e a modelos aproximados do tempo, relógios, e aí eu olho no meu relógio e vejo a hora, e pergunto a vocês, qual é a hora que vocês estão percebendo ai? Geralmente existe um consenso, com erros é claro, mas existe um consenso. Esse consenso, ou seja, eu comparar a minha opinião, a minha subjetividade com a subjetividade do outro, é um primeiro critério de teste de objetividade, os filósofos do tempo chamam isso de objetividade nível 1, é aquela objetividade temporal, ou seja, tem um tempo comum para todo mundo aqui, mas que vigora no âmbito da nossa experiência, que é muito restrita dentro do universo, mas existe um certo tempo comum para nós. Se ele é comum para todo mundo, ele deve existir independente de nós. Essa é uma acepção objetivista. E depois usando isso e outros artifícios de natureza semiótica eu posso inferir, por exemplo, que existiram tempos muito antigos, que existiram coisas desses tempos muito antigos, que pode haver um futuro com coisas muito novas nesse futuro que ainda não aconteceu, um mundo de possibilidades, por exemplo, eu posso dizer para vocês que há coisa de 60 ou 70 milhões de anos atrás o planeta era dominado por dinossauros que foram extintos numa grande crise, aí alguém pode honestamente perguntar: mas como é que você se atreve a falar de uma coisa que parece que aconteceu a 70 milhões de anos atrás se você é uma coisa viva que só vive décadas? A objetividade nível 2, que é a de natureza mais científica, é que nos permite fazer antropologia, arqueologia, e etc... Todas as ciências históricas que envolvem basicamente o estudo do passado. Então isso é o nível que nós dispomos, o nível do sujeito, o nível da subjetividade, com tentativas de objetividade. Estas tentativas de objetivação são chamados experimentos intersubjetivos, ou seja, o máximo que a gente consegue é comparar subjetividades, por que ninguém consegue sair de si mesmo e olhar a realidade fora de si mesmo. Bem, então esse é um preâmbulo filosófico dado pela teoria do conhecimento, isso não resolve ainda a questão do tempo. Eu queria agora adiantar para vocês, algumas visões do tempo, como foram colocadas por teorias científicas. Teorias científicas são sistemas de ideias, sistemas conceituais, são construídas pelos cientistas na tentativa de se criar aqui dentro alguma coisa coerente com o que está lá fora, a tal realidade. Por que essa necessidade de criar isso? E de criar isso de maneira coerente? Para que a gente possa sobreviver. Você pode criar na sua cabeça subjetivamente realidades magníficas, mas se não forem coerentes com a realidade que está lá fora você pode se dar mal. Então, o grande problema que o ser humano tem em termos cognitivos é primeiro: criar uma imagem de mundo, e segundo: garantir que essa imagem de mundo seja compatível, seja coerente com o mundo mesmo, a tal realidade que se força sobre nós. Bem, a ciência é especialista em fazer essas representações de mundo de maneira controlada, usando o método científico. Na história do pensamento humano, do ponto de vista científico surgiram três grandes visões do tempo que são discutidas até hoje, a primeira visão é uma visão ontológica digamos, ou seja, pertence a esse conjunto de temas básicos e fundamentais que não se costuma discutir muito, eu falei para vocês, cientistas geralmente pressupõem a existência do espaço, do tempo e da matéria, ou seja, é a visão de Newton. Quando Newton fez a física clássica, a grande, talvez a maior construção do espírito humano em termos de ciência. Quando ele fez a física clássica ele não trabalhou o problema do espaço e do tempo, ele pressupôs a existência do espaço e do tempo, ele partiu de pressupostos ditos ontológicos, ou seja, coisas que a gente aceita e sem muita discussão. Qual é a proposta newtoniana? Existe algo que é o espaço e existe algo que é o tempo e existe algo que é a matéria, e essas coisas são independentes entre si. Essas coisas não são objetos físicos, ou seja, não podem ser estudadas pela física, agora, elas em conjunto formam uma espécie de cenário, de palco, onde os fatos, os acontecimentos ocorrem. É dentro dessa visão newtoniana que a física clássica foi feita, esse é o chamado tempo do palco, tempo do contêiner, ou seja, o ambiente que contém as coisas. Todo mundo aceita isso tacitamente, o pessoal que estudou física aqui sabe como isso é tratado. A gente substitui tempo pela variável T, admite que é uma variável contínua, e curiosamente na física de Newton você poderia ir pra frente no tempo e poderia ir para trás no tempo, ou seja, haveria reversibilidade. Quem observa o mundo percebe que isso não existe, ou seja, se eu largar esse microfone ele vai cair no chão, dificilmente eu observaria um microfone no chão vir voando de volta para minha mão. Aquela velha história, você pega uma pedrinha e joga no lago, a pedrinha bate na água e cria aqueles círculos concêntricos em expansão, ninguém vê círculos concêntricos em expansão contraírem e quando eles virarem um ponto sair daquele ponto na água, uma pedrinha que vem na sua mão. Processos reversíveis não costumam ocorrer, mas na física de Newton matematicamente é possível isso, devido à natureza das equações, é um tempo reversível. Uma outra coisa que é sugerida, é que esse tempo ele é unidimensional, é como se fosse algo associado a uma reta, que se movesse na direção, nos dois sentidos, mas na direção dada pela reta. Uma espécie disso que a gente chama não muito claramente de tempo linear, então a visão de Newton, a visão do contêiner, a visão do palco, do cenário, é essa visão, digamos assim, é o cara que adotou mais rapidamente, mais praticamente o caráter ontológico do tempo e do espaço. Não discutiu muito a questão, apenas admitiu, formalizou e resolveu o problema dele. Depois surgiu uma outra visão mais sofisticada, mais interessante, mais inebriante, por incrível que pareça, um pouco mais concreta, a noção de Einstein, do tempo como substância primordial. No início do trabalho de Einstein isso não estava muito claro não, só estava claro de maneira matemática, depois que surgiram interpretações mais sofisticadas. Nesse contexto de Einstein o tempo e o espaço são interdependentes, não há independência entre tempo e espaço, tempo e espaço formam um contínuo, uma coisa que está sendo discutida hoje em dia, tempo e espaço formam um contínuo quadridimensional, três dimensões no espaço e a dimensão do tempo. Agora, tempo e espaço se comportam como uma substância primordial, uma espécie de recheio da realidade, quando esta substância primordial condensa fortemente ela vira a coisa, a matéria. No início Einstein não dizia isso muito bem, dessa maneira não. Ele dizia o seguinte: matematicamente espaço e tempo são funções da matéria. Quem estudou matemática aqui deve se lembrar da noção de função, é uma relação de dependência que existe entre um aspecto variável, que tem um certo grau de independência e um aspecto variável que tem um grau de dependência em relação a ela, chamadas variáveis independentes e dependentes: y = f(x), a gente diz que y é uma função de x. Einstein dizia: “Espaço e tempo são função da matéria”. Esse é o resultado que ele encontra na famosa equação de campo dele, separava conteúdo, espaço temporal, aliás, forma espaço temporal do conteúdo material e energético, uma fórmula muito bonita. Bem, tem até uma historinha que contam sobre isso, dizem que ele chega numa viagem de avião e na hora que ele está descendo a escadinha do avião, um repórter vem correndo, vira para ele e pergunta: “Professor, professor, o sr. poderia nos explicar em alguns segundos a sua teoria?” E o velho não se perturbou, parou no meio da escada e disse: “Ah, antigamente acreditávamos que se tirássemos toda a matéria do universo ficaria um vazio de espaço-tempo, hoje em dia nós sabemos que se a gente tirar a matéria do universo, o espaço e o tempo saem junto”. Então, na verdade, a conclusão que veio depois, na década de 60, na teoria de Kiptor (?) e Willian, que geometrizava, digamos assim, a relatividade geral, é esse modelo do espaço tempo como substância. Coisas são pedaços concentrados de espaço e tempo, então isso aqui não está no espaço e não está durando um tempo, isso aqui é o espaçotempo condensado. Essa interpretação é extremamente ousada e não costuma ser colocada de maneira tão explícita como eu estou fazendo aqui, mas é basicamente essa a ideia. É chamado modelo, ou visão da matéria prima, do recheio da realidade. Bem, essa é a segunda visão, muito usada na relatividade geral. Notem só um detalhezinho, na hora em que essas teorias foram construídas, tanto a mecânica celeste quanto a relatividade e a mecânica quântica, o conceito de tempo utilizado ainda era clássico e newtoniano, nas três teorias. Deve haver alguma coisa de interessante por trás desse fato, talvez relacionado à natureza intrínseca do tempo, deve haver, na minha opinião, por que não é isso que a gente acessa, a gente acessa outras coisas. A terceira visão é uma visão que veio principalmente de Leibniz, uma visão interessante, uma teoria relacional do espaço-tempo, ou seja, o espaço-tempo não seriam coisas, espaço-tempo seriam relações ou conjunto de relações. Então, o espaço é a relação entre coexistentes possíveis, a relação entre essas coisas coexistentes nesse momento, me dá uma noção de espacialidade, da mesma maneira, tempo é a ordenação dos sucessivos. É claro que quando eu falo isso, isso é muito interessante, isso aproxima o tempo da nossa percepção, mas ao mesmo tempo o que é que é uma sucessão? Notem como isso é complicado, a noção de coexistência, a noção de espacialidade tem um caráter inclusive levemente perceptual, nós vemos o mundo, o nosso olho foi tratado pela evolução, para por meio de certos mecanismos de paralax ocular, ou de distância entre os olhos, avaliar a profundidade, distâncias diferentes, então eu posso fazer essa questão de coexistentes e ter a sensação de que eu estou vendo o espaço dessa sala, minha percepção vai até aí, mas minha percepção não atinge o tempo, a única coisa que eu tenho quanto ao tempo é uma sensação, eu sinto que o tempo está passando, durando, não sei dizer direito o que é, mas eu não vejo o tempo, a única coisa que eu vejo são índices do tempo, signos do tempo, sinais do tempo, por exemplo, eu encontro pessoas, minha netinha por exemplo, eu encontro agora, eu digo: “Está crescendo a bichinha”; daqui há um mês eu vou encontrála de novo e ela vai estar maior ainda, essa mudança, essa transformação é índice, é signo de que algo passou, algo fluiu. Mesmo assim eu estou sendo metafórico, eu não tenho a menor garantia de que algo passa ou flui e esse algo é o tempo. Então o tempo relacional, tanto pro espaço quanto pro tempo em si mesmo, pro caso da questão da relação espaçotempo, essa visão relacional é uma visão indireta, ela não trata da essência do tempo, ela trata dos sintomas associados ao tempo, apesar de ser o tempo mais utilizado pela ciência moderna agora, principalmente nas visões mais recentes, como as visões de Prigogine e a filosofia de Ambi Person (?) e assim em diante, o tempo das transformações, o tempo criativo, mas é um tempo de transformações, e o que você observa é a transformação, não é o tempo em si mesmo. Isso cria um outro conceito de tempo, que é o mais usado, e esse está próximo da nossa percepção, chamado tempo de processo ou tempo processual. A ideia é essa, você não vê o tempo, a única coisa que você vê são processos. Deixa eu tentar falar para vocês também, brevemente, o que é um processo. A gente tem que se habituar a definir aquilo que a gente fala. Imaginem que nós vivemos num mundo de coisas, de objetos, e que cada coisa, cada objeto tem uma coleção de características, de propriedades, por exemplo, essa sala aqui, fisicamente, ou seja, usando a antologia regional da física tem propriedades como volume, temperatura, pressão, e etc... São propriedades da sala. Agora, imaginem, admitam, e geralmente é o que acontece, que essas propriedades apresentem intensidades, por exemplo, a sala pode estar muito fria, muito quente, a pressão pode ser mais ou menos alta, mais ou menos baixa, são propriedades que tem intensidade, e mais ainda, essas intensidades costumam mudar no tempo. A sala, portanto, ao meio dia, uma hora da tarde deveria estar mais quente, agora já está mais fresquinha, as intensidades flutuam ao longo do tempo. Imagine que você consiga congelar a realidade em um certo instante de tempo e você meça as intensidades das propriedades de uma determinada coisa, a coleção dessas intensidades, para esse instante de tempo considerado chama-se o estado em que a coisa está, é a definição de estado. Agora, com o passar do tempo as intensidades mudam, se as intensidades mudam a coleção de intensidades muda, e se a coleção de intensidades muda o estado do sistema muda, ou seja, a mudança de estado ao longo do tempo é o que a gente chama de processo. Então, o que você nota mesmo são coisas que estão sofrendo processos, estão mudando as intensidades de suas propriedades ao longo do tempo, você não vê o tempo, você vê a mudança da propriedade, a mudança do estado, este é o tempo processual, tempo de relógio é isso, quando você olha pro seu relógio você não vê o tempo, você vê a mudança de estado espacial e rotativo de um ponteiro, numa escala convencional, a escala convencional apelou para a realidade objetiva. Descobriu-se que a terra gira em torno de um certo eixo num certo lapso de tempo, é um tempo de processo, é o tempo de processo de rotação da terra, aí nós tomamos isso como base e definimos dia, hora, minuto, segundo, ano, semestre, e construímos máquinas que reflitam isso. E aí comparamos os nossos processos, as nossas preocupações e tal com o que o relógio diz. Então o que a gente está trabalhando sempre é tempo de processo, agora o tempo em si mesmo a gente nunca está trabalhando. Bem, isso coloca uma questão interessante, de onde é que isso tudo vem? Por que afinal de contas isso deve ter tido uma origem. Sem apelar para coisas mais altas, sempre a resposta que nos resta, como os antigos faziam, inclusive os grandes cientistas faziam isso, Galileu, Newton, eram pessoas extremamente religiosas; se a gente não quiser apelar para isso, a gente vai ter que admitir certas coisas, a gente vai no nosso baú de ideias limitadas e comprometidas, que são de natureza teórica, e tenta entender o processo. O quê que a nossa sensação diz? Que coisas são! Que coisas persistem no tempo! Coisas permanecem! Bem, existem coisas complexas que permanecem e para que possam permanecer elas são obrigadas a mudar, então o termo permanência que eu estou usando aqui não é no sentido de extremamente conservado ou totalmente conservado, eu estou querendo dizer como permanência é capacidade de durar tempo, mesmo que para isso seja necessário mudar. Como é o caso da vida, e como é o caso da evolução. Chama-se esse parâmetro sistêmico de permanência, parece ser o mais fundamental de todos, e a pergunta ontológica que surge é: por que as coisas tendem a permanecer? Por que isso insiste em estar aqui? Por que eu estou aqui já há um certo tempo e vocês também? A gente sabe que essa dimensão do eterno não existe, pelo menos dentro do alcance humano não existe. Todas as coisas nascem, “vivem” e morrem, desaparecem, galáxias, estrelas, black holes, tudo isso um dia vai desaparecer. E existem coisas muito mais efêmeras, de baixa permanência, insetos que vivem semanas, nuvens que existem só durante alguns minutos, as escalas de permanência são extremamente variáveis dentro da realidade. Mas de onde é que vem esta tentativa de permanecer? Não é a permanência final, é uma mera tentativa, de onde é que isso vem? As modernas teorias científicas dão uma resposta razoável, discutível, mas razoável, vocês já devem ter ouvido falar do modelo do Big Bang? É um modelo cosmológico, modelos cosmológicos são representações da realidade como um todo, isso soa extremamente pretensioso, o ser humano não é capaz de chegar ao todo, ele mal consegue lidar com partes, mas a gente faz essa tentativa. Dizem que a cosmologia se tornou científica com o trabalho de Einstein, até aí era ontologia pura, era filosofia. Bem, o modelo do Big Bang diz o seguinte: há um tempo finito atrás, não vamos discutir agora que tempo é esse, mas há um tempo finito atrás, algo aconteceu, ninguém sabe dizer o que aconteceu nesse algo aí, existe uma indeterminação matemática chamada singularidade que não nos permite dizer nada, mas algo ocorreu e esse algo, se a gente pegar a formulação original de Einstein, esse algo criou o espaço-tempo, e criou a matéria, na verdade uma dualidade matéria-energia, algo dúbio. Essa coisa entrou em expansão, não faz sentido perguntar aonde ela expande, a teoria não responde isto. Nosso senso comum diz que toda vez que algo expande, esse algo expande em algum espaço, é a visão do contêiner, a teoria não tem como dizer aonde ocorre a expansão, a única coisa que ela demonstra é que há expansão. E há expansão não só da matéria, na verdade a matéria mal é afetada nisso, a expansão é do espaço-tempo, ou seja, se você observar as galáxias como Hubble fez e medir a expansão do universo pelo afastamento das galáxias, você vai ver que as galáxias se afastam, mas elas não estão sendo deformadas ou esticadas pela expansão, é o espaço entre elas que aumenta, o espaço-tempo entre elas que aumenta, então esse é o universo em expansão, esse resultado foi obtido na década de 20, se não me engano, por Hubble, as evidências a favor dessa ideia foram encontradas... Essa é a primeira ideia dada pelo Hubble, e depois em 1965 surgiu uma outra evidência relativa à grande explosão que gerou isso tudo, que é metaforicamente chamada de o Big Bang. É, na verdade, Einstein já tinha concluído algo parecido com isto só que ele mesmo não aceitou, ele construiu a equação de campo dele e quando ele foi preencher de significação a equação, ele chegou à conclusão de que se ele tivesse uma variação da matéria e energia do universo como um todo ele entrava num lado da equação e do outro lado iria aparecer a forma do universo. Perguntar pela forma do universo é fazer uma pergunta cosmológica, é nesse sentido que ele virou um cosmólogo. Ele encontra um universo fechado, aproximadamente esférico, ou seja, o espaço-tempo são deformados pelo conteúdo de matéria, criando alguma coisa de fechado. Eu insisto em dizer, não se sabe aonde, mas há algo de fechado. Só que daí na equação dele, ele observa, era uma equação não linear, a equação dele abria caminho para instabilidade, ou seja, era altamente provável que a solução da equação fosse uma crise, e aí entra em jogo a questão religiosa em Einstein. Einstein era um camarada religioso, e o Deus dele, a versão que ele tinha de Deus, era a versão de Espinosa e havia, portanto, uma identificação profunda entre Deus e a realidade, entre Deus e o universo. Einstein não podia admitir que Deus fosse uma crise, ou seja, o universo não podia ser crise, então conscientemente e contra a natureza do método científico ele soma uma constante do lado tensorial da equação, do tensor de conteúdo, de matéria e energia, para equilibrar o universo. Depois Hubble, logo depois Hubble descobriu a expansão do universo e ficou evidente que o universo é uma crise sim, e é uma crise de expansão. Bem, e ele reconheceu publicamente que esse foi o maior erro da vida dele. Mas então, existe uma expansão primordial, essa expansão primordial é considerada pelos cosmólogos como primeiro grande processo que vai orientar o eixo do tempo, ou seja, o tempo se orienta no sentido da expansão do universo, quando o universo está contraído é o passado, na medida em que ele aumenta de tamanho vai construindo o futuro, ou seja, existe um eixo do tempo que vem de um certo instante t0 na direção de um futuro em aberto, e isso é regido pela expansão do universo, esse é o primeiro eixo do tempo, é um eixo por enquanto irreversível. Aí as pessoas dizem assim: “Ah, mas existem modelos cosmológicos em que o universo mais cedo ou mais tarde pode voltar a contrair, ele pode reverter, aí o tempo vai reverter e volta ao passado”. Não, acontece que existe uma coisa chamada entropia, que é a capacidade do universo se desorganizar, ou seja, quando o universo está em expansão, ele está em expansão e desorganizando em larga escala, embora esteja se organizando em pequena escala, ele está se desorganizando em larga escala, quando ele começar a retrair o tempo vai continuar e ele vai devolver, nessa contração, o que ele desorganizou, ou seja, se agora eu olho pro céu e vejo estrelas nítidas, bem definidas no céu, quando o universo estiver contraindo o que vai voltar não é a imagem das estrelas bem definida, é uma luz difusa que a estrela perdeu num processo entrópico dissipativo, ou seja, o que eu vou observar enquanto processo não é o filme passado ao contrário, então o eixo do tempo continua identificável como sendo o futuro, indo para o futuro, bem, esse é o primeiro eixo do tempo. O segundo eixo do tempo, graças a expansão o universo não esfria, por que ele usa a energia interna dele para poder dilatar, para poder expandir, então graças a expansão há uma queda de temperatura, ou seja, no passado alta temperatura, no futuro baixa temperatura. Essa temperatura, quanto a energia, foi medida em 1965, 2,78 graus kelvin, quase o 0 absoluto, bem frio já, mas ainda tem alguma temperatura, essa queda de temperatura define um eixo do tempo termodinâmico, mas esse eixo termodinâmico é permitido, é imposto por quem? Pela expansão do universo. Então o segundo eixo do tempo que é de natureza termodinâmica, depende do eixo da expansão do universo. Bem, mas graças ao resfriamento, matéria e energia se separam e começam a qualecer (?) de maneira separada, a matéria, basicamente hidrogênio, se decompõe em grandes nuvens e ganha movimentos de rotação, quantidade de movimento rotativo, e aí começa a agir o princípio da conservação do momento rotativo, e essas nuvens são as próprias galáxias, começa a surgir um mar de galáxias, e aí começa um processo local de contração de matéria por efeito gravitacional com emissão de radiação pro espaço mais frio em expansão, isso define uma termodinâmica local, aí aparece, e isso aparece na nossa galáxia também, o terceiro eixo do tempo, que é um eixo termodinâmico pela ativa produção de entropia intragaláctica. Então, notem, já temos três eixos: eixo de expansão provocando resfriamento, que está provocando a produção de entropia local. Graças a isso sistemas planetários se formam, estrelas evoluem, material complexo é produzido e em certas circunstâncias aparentemente muito difíceis de ocorrer, mas isso é discutível, essa organização toda redunda em algo notável chamado vida. Aí aparece o eixo do tempo biológico, que é o eixo da evolução, que nós só conhecemos a nossa forma de vida aqui na terra. Isso vem durando, esse eixo do tempo está se estendendo a coisa de 4,5 bilhões de anos. Nesse processo evolutivo aparece um outro eixo, que é o eixo da consciência psicológica, nós pensando o tempo, se você parar para pensar direitinho você vai ver que o primeiro eixo aponta pro futuro, o segundo, o terceiro, e o eixo psicológico também aponta pro futuro. Como é que nós percebemos esse eixo psicológico na nossa cabeça? Pela nossa memória, pelas nossas lembranças. Aí as pessoas dizem: “Ah, mas por meio da sua lembrança você pode voltar ao passado”. Não é bem assim, ou seja, você volta ao passado, mas não de maneira processual, quando você se lembra de algo passado, por exemplo, o que é que você estava fazendo no sábado? Sua cabeça dá um salto, cai no sábado, digamos assim, e recorda tudo de novo do passado pro futuro. Como aconteceu. Ninguém despensa, ninguém pensa ao contrário, mesmo dentro do psiquismo, você faz sempre uma mesma história, unidirecional, na direção do futuro. Bem, e aí já surgem outros eixos do tempo mais complexos, tempos psicossociais, tempos sociais, tempos culturais, etc... Uma multidão de tempos, que vão ficando cada vez mais diversificados e complexos, mas por enquanto todos eles orientados do passado pro futuro segundo um critério de reversibilidade, por outro lado, apesar dessa diversidade do tempo, o que nos resta é o que? Todos eles, todos são tempos de processo, não são ainda o tempo em si mesmo, são índices, são signos desse tempo que está por trás. Prigogine chama esse tempo que está por trás de tempo primordial, o que ele trabalha o tempo todo na teoria dele das estruturas dissipativas é tempo de processo, mas ele admite a possibilidade de um tempo primordial anterior, e mais, quando ele analisa os modelos cosmológicos ele diz que se houver alguma coisa que existiu antes desse universo surgir essa coisa é o tempo primordial, ou seja, acima de tudo já havia o tempo, e dado o tempo o universo se tornou possível, essa é a visão de Prigogine, Elia Prigogine, é um nome famoso na ciência, pelo menos em alguns lugares. É interessante como a gente não costuma ver nas universidades o conceito dele. O nome de Prigogine ser citado, ser debatido, é muito raro, nunca entendi muito bem o porquê, mas Prigogine fez contribuições notáveis com a teoria de estruturas dissipativas, ele contribuiu muito para teoria da complexidade, e trabalhou muito nas vizinhanças ao mesmo tempo que o pessoal da física de caos. Quando ele formula a teoria das estruturas dissipativas ele usa o que a gente chama de um dos caminhos pro caos, que é a teoria das bifurcações. Existem três: teoria das intermitências, teoria das bifurcações e o surgimento, a formação de atratores estranhos, são três hipóteses diferentes pro caos. Prigogine trabalhava com a teoria das bifurcações. Mas ele percebe uma coisa notável, depois, quando ele percebe que já estava fazendo a física de caos ele reescreve o trabalho dele, vocês devem conhecer um livro famoso dele que de certo foi publicado aqui no Brasil: A nova aliança. A nova aliança foi publicado aqui em 1984, nesse ano, lá fora, na Bélgica, Prigogine já tinha reformulado o livro para a linguagem da física de caos e esse livro foi republicado com outro nome: Ordem a partir do Caos, que é o problema na verdade da auto-organização, aí, entra toda uma discussão notável sobre correlações de longo alcance, o problema das funções memórias dos sistemas, o que permite a auto-organização, a emergência da complexidade, ou seja, os fundamentos termodinâmicos da vida, por que a vida é isso. Mas Prigogine quando estava trabalhando com isso ele percebeu uma coisa, seria possível conceituar uma espécie de tempo interno. O tempo interno seria também ainda um processo, mas um processo que iria manifestar o crescimento de complexidade dos sistemas, analisando os atratores em espaços-estados ele percebe que a maioria desses atratores tem um caráter fractal, ou seja, em dimensão fracionária, e ele percebe que essa fractalidade pode ser construída por meio de um conjunto de operações matemáticas, e ele chega à conclusão de que existe uma operação fundamental que engendra todas as outras, ou seja, um alfabeto base. Quando o sistema evolui no tempo e fica complexo, a fractalidade fica mais complexa no espaçosestados dele, na representação histórica dele. Prigogine então mostrou que existe um operador matemático, uma entidade matemática, que quando aplicada a história do sistema vai mostrando o gradativo crescimento da complexidade dessa história, dessa fractalidade. O número de vezes em que você sai da condição mais simples aplicando esse dispositivo matemático até chegar à complexidade atual do sistema, esse número de vezes é a idade do sistema, o espaço complexo, chamado tempo interno do sistema, essa transformação matemática recebe o nome popular de transformação do padeiro. Já viram o padeiro fazendo pão? Ele pega a massa, espreme, depois estica, dobra, estica, dobra, estica, dobra, muito processo caótico e de atrator estranho ocorre no espaço matemático de estados por meio do processo ser equivalente a esticamento e dobra, ou seja, a transformação do padeiro pode ser expressa matematicamente, e ele fez isso com bastante rigor. E eu nunca entendi direito, por que eu nunca consegui estudar isso a fundo assim, mas esse operador matemático que faz isso tem um pezinho da mecânica quântica, não do ponto de vista físico, mas do ponto de vista matemático, ou seja, tem uma similaridade matemática com os operadores irreversíveis da mecânica quântica, ou seja, a proposta de Prigogine na verdade é uma proposta de síntese, e é a primeira vez que aparece uma maneira de quantificar pelo menos uma forma de complexidade. Complexidade é outro problema, não é definida até hoje, a gente fala uma palavra, mas a gente não sabe o que a gente está falando direito. Tempo e complexidade parecem andar juntos, por meio de um mecanismo de evolução, mesmo assim isso é uma hipótese ontológica. A hipótese de que ao longo do tempo a complexidade da realidade está aumentando cada vez mais, muita gente não concorda com isso, inclusive o pessoal da biologia tem bons exemplos do contrário, mas em média, talvez no universo como um todo, a complexidade seja sempre crescente, e ela poderia ser mais um índice para denunciar a passagem do tempo. Poucos filósofos trabalham com isso, Pierce supunha isso, que vivemos em uma realidade de crescente complexidade, Teilhard de Chardin que foi um antropólogo jesuíta, religioso, ele era padre, católico, mas era um evolucionista, ia contra o que a igreja dizia, Chardin também acreditava numa lei de crescimento da complexidade. Outros sistemistas acham que o que cresce não é a complexidade, são características da organização, como é o caso da integralidade, da escola de Denver. E essa questão da complexidade é algo que está sendo muito discutido agora, nós estamos necessitando urgentemente de uma teoria da complexidade por que nós estamos vivendo num mundo cada vez mais complexo, o sintoma disso se reflete entre outras coisas no nosso tempo subjetivo, hoje em dia a gente diz que o tempo passou e eu não senti, o ano já começou e nós já estamos indo para março já, o que acontece na verdade, o tempo é o mesmo fisicamente falando, a nossa cabeça é que não consegue elaborar a quantidade de informação que está aumentando, e isso nos afasta da nossa percepção normal do tempo, esse é um subproduto da complexidade crescente da nossa realidade, se a gente não aprender a lidar com isso, não sei o que vai acontecer. Acho que já passou bastante tempo. Tá ok pessoal? Era mais ou menos isso que eu tinha para falar para vocês. Muito obrigado. FICHA TÉCNICA A Máquina do Tempo (ou Longo Agora) - O FAROL, O ESPELHO, A FESTA Concepção, Direção e Dramaturgia Cristiane Zuan Esteves Atrizes Criadoras Anna Luiza Leão Graziela Mantoanelli Manuela Afonso Paula Lopez Paula Possani Performers convidados (O FAROL) Caio Paduan Maíra Vaz Valente Mario Panza Sergio Ponti Tamara Leite Fotografia Roberto Setton Criação Musical e Sonoplastia Pedro Semeghini Edição Publicação Documental Alice Possani Assistência de Direção Joana Dória Programação Visual Fernando Bergamini Direção Musical Erico Theobaldo Produção Executiva de Junho a Dezembro 2011 Cuca Dias Cenografia (A FESTA, O ESPELHO) Simone Mina Produção Executiva Anayan Moretto Figurinos (A FESTA, O FAROL) Anne Cerruti Direção de Produção Henrique Mariano Autoria Cabelo e Maquiagem (A FESTA) Bob Toscano Idealização e Realização OPOVOEMPÉ – Núcleo Artístico Anna Luiza Leão Cristiane Zuan Esteves Graziela Mantoanelli Manuela Afonso Paula Lopez Paula Possani Iluminação (A FESTA) Grissel Piguelim FICHA TÉCNICA TRILHA SONORA DOCUMENTAL Entrevistadores Nilson, Nesner Fabiano, Vagner Pedro de Souza, OPOVOEMPÉ Edcarlos taxista, Homem do avião, Oswaldo Joana Dória Zuan Esteves, Caio Lafraia Brant, Nayara, Nobu, Pedro Semeghini Kenytiro, Alessandra Esteves de Lima Horta, Lauro Raful, Pedro Rodrigues de Araújo, Tiago Silva Edição Entrevistas Cristiane Zuan Esteves Trechos das palestras (O FAROL) Maria Rita Kehl Criação e Montagem Laymert Garcia dos Santos Cristiane Zuan Esteves José Miguel Wisnik Pedro Semeghini Entrevistados (O ESPELHO) Finalização e Mixagem Djalma (Morere), Maria Teresa Pedro, Claudio Erico Theobaldo Possani, Lucila Engholm Acunha, Dona Maria José, Pedro Semeghini David Lopes Levi, Lídia de Almeida Afonso, Lúcia Sandler, Fernanda Gomes, Guilherme Brandão, Atores (O FAROL) Helliane de Lima, Raquel Pelegrini de Campos, Beto Matos Guilherme de Lima, Walther Possani, Oswaldo Zuan Cristiane Zuan Esteves Esteves, Bernardo de Lima Horta, Antonia de Lima Horta, Decio Sanchis, Julia Sanchis Spiandorim, Entrevistados (O FAROL) Anna Lucia Cardenuto Sanchis, Jovita do Valle e Eduardo José Afonso, Lucila Engholm Acunha, Pedro Torrano Valdir Afonso, Decio Sanchis, João Ildes Piraí, PROCESSO DE PESQUISA Palestras Jorge de Albuquerque Vieira José Miguel Wisnik Observadores Participativos Natalia Oliveira Moreira (Documentação) Theo Coelho Yepez (Sonoplastia) Vitor Djun (Sonoplastia) Coordenador Workshop Key Sawao Participantes Workshop Flávia Melman Janaina Carrer Luannah Jimenes Marcos Suchara Mariana Senne Thiago Antunes Coordenador Grupo de Estudos 01 Ciro Marcondes Filho Coordenadores Grupo de Estudos 02 Cassiano Quilici Laymert Garcia dos Santos Maria Rita Kehl Peter Pál Pelbart Participantes Grupos de Estudos 01 e 02 André Liberato Beto Matos Caio Paduan Débora Pinto Isabela Santana Ivan Martucci Fornerón Janaina Carrer Joana Doria José Cavalhero Livia Piccolo Luciene Guedes Marco Catalão Marcos Suchara Pedro Felício de Oliveira Ruy Filho Sandra Lessa Coordenação Treinamento Aberto: Graziela Mantoanelli (Suzuki Training) Cristiane Zuan Esteves (Viewpoints) Participantes Treinamento Aberto Beto Matos Carolina Leiderfarb Flávia Melman Hugo Reis Janaina Carrer Luciana Arcuri Marcos Suchara Talma Salem Vera Bonilha Teoria Musical Natalia Mallo Ratnabali Benjamim Taubkin Emiliano Patarra AGRADECIMENTOS Adri Macul, Adriana Lopes, Adriana Rolin e Flávio (Subprefeitura de Pinheiros Secretaria do Desenvolvimento), Adriana Rota, Adriano e Alessandra de Lima Horta, Alexis Pagliarini, Alice Bavaresco Noronha, Amma, Andrea Lang, Andrea Zuan Esteves, Ângela Maria Miranda, Angelo Mundy, Anna Lucia Cardenuto Sanchis (Milú), Antonio Lopes, Arthur, Beatriz Viana Dória, Bene Mantoanelli, Bernardo, Antonia e Vinicius, Beto Matos, Cabeludo (Boipeba), Caio Lafraia Brant, Carolina Barretto Gimenes, Carolina Benedetti, Casa da Dança, Celso Curi, Celso Lopes, Chico, Cia Temporaria, Cida GAG, Cintia Sanchez, CJE-ECA-USP, Claudia, Claudio Possani, Clelia Lopes, Clio Levi, Clóvis Arruda, Coletivo Bruto, Conceição, Cristina Cavalcanti, Daniel Mantoanelli e Caroline Mantoanelli, Danilo Vieira, David Lopes Levi, Décio Sanchis, Dilson Rufino, Dona Maria José, Édia D’Angelo, Elen Londero Eneida D’Angelo, equipe do _barco, Estudio Luzia, Fabiano Marçal Estanislau, Fabio Machado Gimenes, Felipe Cohen, Fernanda Carvalho, Francisco Medeiros, Gabriel Pinheiro, Gabriela Ciancio, Grupo Lume, Jiddu Pinheiro, João Ildes Piraí, Joaquim Gama, Jorge Alberto Ciancio, Jovita do Valle, Jovita Torrano, Julia Sanchis Spiandorim, Karina Wolffenbuttel, Kiki Vassimon, Lama Padma Santem, Laura Reis, Leonardo Brant, Lizandra de Almeida, Lucia Sandler, Lucila Engholm Acunha, Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida, Marcelo Cunha, Márcia Lopes, Marcos Azevedo, Maria Antonieta Monteiro Lopes, Maria Salete Zandona, Maria Teresa Pedro, Mariana Coutinho, Mariana Vaz, Mario Mantoanelli, Marília Tandeta, Marisa Riccitelli Sant’ana, Meire, Meire, Miguel Worcman Santos, Mirella Brandi, Nesner Fabiano, Nilse Ikeda, Nilson, Odsal Ling, Olgaria Matos, Osvaldo Pinheiro, Otavio Almeida, Otília dos Santos, Paula Santoro, Paulo Pereira, Pedro Rodrigues de Araujo, Pedro Torrano, Rafael Ciancio, Raquel Pallares, Raquel Ravanini, Raquel Sherab, Raul Teixeira, Ravi Cohen, Regina Barbosa, Renata Leão, Rene Piazentin, Rita, Rita Afonso, Rosangela Zanchetta, Rubens Velloso, Ruy FIlho, Secretaria de Obras e Infraestrutura do Município de São Paulo, Silvia Helena e Oswaldo Zuan Esteves, Sonia Maria, Sonia Sobral, SP Escola de Teatro, Tareke Ortiz, Tatiana Sanchis, TeatreKunst, Toni Mestrovic, Triade, Vagner Pedro de Souza, Valdir Afonso, Valdir Rivaben, Vera Marcondes e Walter Possani.