O BRINQUEDO TERAPÊUTICO NO PREPARO DA CRIANÇA E SUA FAMÍLIA PARA A CIRURGIA PULMONAR Introdução: O procedimento cirúrgico representa uma circunstancia crítica, mas para a criança, essa experiência pode ser mais difícil de enfrentar, já que nem sempre compreende claramente o que está acontecendo. (1,2) Para amenizar o sofrimento, proteger e favorecer seu desenvolvimento integral, ela e sua família devem ser preparadas adequadamente e, como recurso, o enfermeiro pode utilizar-se do brinquedo terapêutico (BT) (2-4) . Trata-se de uma técnica não dirigida, utilizada por qualquer enfermeiro e indicada para qualquer criança que vivencie uma situação atípica para a sua idade, com o objetivo de aliviar a ansiedade e auxiliar no preparo para procedimentos ao dar oportunidade de dramatizar situações vividas e manusear instrumentos utilizados no hospital ou que o representem. Para o profissional, o BT possibilita a compreensão das necessidades e sentimentos da criança, favorecendo o estabelecimento de um vínculo de confiança com ela. As sessões duram cerca de 15 a 45 minutos e podem ser realizadas em qualquer lugar, conforme a preferência da criança. (3,4) Considerando os inúmeros benefícios da aplicação da técnica de BT na assistência de enfermagem (5), este estudo aborda sobre o seu emprego no preparo da criança escolar e sua família para a cirurgia. Objetivo: Descrever a experiência do preparo de uma criança escolar e sua família com brinquedo terapêutico para cirurgia pulmonar. Método: Trata-se de um estudo de caso, realizado com um menino de sete anos e 11 meses, internado em um hospital público de São Paulo e sua mãe. Foram realizadas cinco sessões de BT dramático e instrucional durante o período de internação, sendo oferecidos os seguintes materiais: boneco de pano, gorro, luva, mascara cirúrgica, agulhas, seringas e roupa privativa de centro cirúrgico. Resultados: TBS foi encaminhado ao Pronto Socorro Infantil da referida instituição devido a queixas de dores súbitas em hemitórax esquerdo. Foi internado na unidade pediátrica e submetido à lobectomia devido à abcesso pulmonar, permanecendo internado por 28 dias, dois deles em unidade de terapia intensiva pediátrica (UTIP). Esteve acompanhado da mãe durante toda a hospitalização, recebendo visitas do pai e do irmão. A criança mostrou-se muito preocupada ao realizar o exame de PPD (Derivado Protéico Purificado), apresentando episódios de prurido intenso sem justificativa clínica. Foi realizada a primeira sessão de BT instrucional, usado quando se deseja explicar os procedimentos à criança permitindo a ela: saber o que esperar e como participar durante o procedimento, compreender a finalidade deste, envolver-se na situação em vez de ser tratada como objeto passivo, manipular o material antes e depois de ser utilizado e estabelecer relação de confiança no adulto e profissional (2) .A sessão durou cerca de 15 minutos e foi oferecido à criança um boneco de pano e seringa agulhada, demonstrando-se o procedimento de PPD. Em seguida, ela foi convidada a repeti-lo no boneco, dramatizando o procedimento diversas vezes, mostrando-se mais calma e menos ansiosa e verbalizando que estava entendendo o que era PPD. Além disso, demonstrou estabelecer um vinculo de confiança com a enfermeira, chamando-a para brincar de “furar o boneco”. Sua mãe também se tranqüilizou após o BT, pois também não conhecia este tipo de exame. Na segunda sessão de BT instrucional, que durou cerca de 30 minutos, foi contada a historia de um menino que precisou ser internado, necessitando de punção venosa periférica e inalação. Na terceira sessão de BT, a criança foi convidada a contar a história de um menino que estava doente, relatando sobre as visitas do pai e do irmão e a permanência da mãe junto a ele o tempo todo, enfatizando que ela estava muito nervosa, chegando a passar mal.. A quarta sessão de BT realizou-se no dia em que a criança necessitou colher exames de sangue, sendo puncionado diversas vezes, sem sucesso. Após explicar e demonstrar no brinquedo o que seria feito, a enfermeira puncionou-a mais uma vez conseguindo coletar o material necessário. Novamente foi convidado a contar a história de uma criança doente. Iniciou a brincadeira dramatizando as punções venosas repetidas que sofrera e dizendo: “ah, o ultimo tubo, o maior! Não foi suficiente, vai ter que te picar de novo, mas não se preocupe. Vai ser com a agulha de bebê”. Quando a enfermeira perguntou a ele se o boneco tinha medo da injeção, afirmou: “Não, a injeção não dói. Ele não tem medo dela, tem medo do que ele tem”. Disse, ainda, que sentiria saudades do hospital e não queria ir embora para casa. A mãe contou que ele gostava muito das brincadeiras com o boneco de pano e as agulhas. A última sessão de BT foi realizada após ser confirmada a data da cirurgia. Até este momento, ele ainda não sabia que seria operado e a mãe mostrou-se muito preocupada em ter que explicar ao filho sobre a cirurgia. Utilizou-se o BT instrucional e a enfermeira sugeriu à criança criar uma história, sobre uma criança que seria operada. Foi oferecido gorro, luva, mascara cirúrgica, agulhas, seringas, roupa privativa de centro cirúrgico e bonecos de pano sendo explicado a ela sobre a cirurgia. A criança colocou a roupa do centro cirúrgico, puncionou o boneco e disse que ele iria tomar um remédio, que não iria ver nada e dramatizou a ida do boneco para o centro cirúrgico. Foi oferecido à criança um frasco de coleta de secreção pulmonar, bastante parecido com o dreno de tórax, que a enfermeira colocou no boneco, explicando sua utilidade. A criança retirou-o do boneco e colou em seu tórax, dizendo a todos que era o seu dreno. Permaneceu tranqüilo durante toda a sessão, manipulando tudo com tranqüilidade e com a participação de sua mãe que verbalizou estar mais tranqüila com o comportamento da criança. Após a cirurgia, quando recebeu alta da UTI e retornou a unidade pediátrica, logo voltou a brincar, apesar de ter se submetido a uma cirurgia de grande porte. Conclusão:. O BT mostrou-se efetivo no preparo da criança escolar e de sua família para os diferentes procedimentos hospitalares realizados durante a hospitalização. Referências: 1- Algren C. Cuidado centrado na família da criança durante a doença e a hospitalização. In: Hockenberry MJ, Wilson D, Winkelstein ML, editores. Wong Fundamentos de Enfermagem Pediátrica. Trad. Danielle Corbett et al. 7ª ed. São Paulo: Elsevier, 2006. cap. 21, p.637- 705. 2- Almeida F A. Brincando no hospital: preparando a criança para a cirurgia. In: Viegas D. Brinquedoteca hospitalar: isto é humanização. Rio de Janeiro: Walk; 2007. p:133-140. 3- Ribeiro CA, Almeida FA, Borba RIH. A criança e o brinquedo no hospital. In: Almeida FA, Sabatés AL (orgs). Enfermagem pediátrica: a criança, o adolescente e sua família no hospital. Barueri: Manole; 2008. P. 65-77 4- Ribeiro CA, Borba RIH, Rezende MA. O brinquedo na assistência à saúde da criança. In: Fujimori E, Ohara CVS, orgs. Enfermagem e a saúde da criança na atenção básica. São Paulo: Manole; 2009. p. 287-327. 5- Jansen MF, Santos RM, Favero L. Benefícios da utilização do brinquedo durante o cuidado de enfermagem prestado à criança hospitalizada. Rev Gaúcha Enferm., Porto Alegre (RS) 2010 jun;31(2):247-53. Descritores: jogos e brinquedos, enfermagem pediátrica, cirurgia.