MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
Universidade Federal de Alfenas, Alfenas - MG
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JAQUELINE MARIA PEREIRA
FÍSICA DE PARTÍCULAS ELEMENTARES:
A PRODUÇÃO DE SENTIDOS POR ALUNOS
E ALUNAS DO ENSINO MÉDIO MEDIANTE
A LEITURA DE TEXTOS
Alfenas/MG
2013
XXX
Cad. Bras. Ens. Fís., v. XX, n. X: p. XX-XX, XXX. 201X.
JAQUELINE MARIA PEREIRA
FÍSICA DE PARTÍCULAS ELEMENTARES:
A PRODUÇÃO DE SENTIDOS POR ALUNOS
E ALUNAS DO ENSINO MÉDIO MEDIANTE
A LEITURA DE TEXTOS
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado como parte dos requisitos
para a conclusão do Curso de FísicaLicenciatura da Universidade Federal
de Alfenas.
Orientador: Prof. Dr. Leandro
Londero da Silva.
Alfenas/MG
2013
XXX
JAQUELINE MARIA PEREIRA
FÍSICA DE PARTÍCULAS ELEMENTARES:
A PRODUÇÃO DE SENTIDOS POR ALUNOS
E ALUNAS DO ENSINO MÉDIO MEDIANTE
A LEITURA DE TEXTOS
A Banca examinadora abaixo assinada
aprova o Trabalho de Conclusão
de Curso apresentado como parte dos
requisitos para a conclusão do curso
de Física - Licenciatura da Universidade
Federal de Alfenas.
Orientador: Prof. Dr. Leandro Londero
da Silva.
XXX
Cad. Bras. Ens. Fís., v. XX, n. X: p. XX-XX, XXX. 201X.
FÍSICA DE PARTÍCULAS ELEMENTARES: A PRODUÇÃO
DE SENTIDOS POR ALUNOS E ALUNAS DO ENSINO MÉ+
DIO MEDIANTE A LEITURA DE TEXTOS *
Jaqueline Maria Pereira
Leandro Londero da Silva
Universidade Federal de Alfenas – UNIFAL
Alfenas – MG
Resumo
Sabemos que é relativamente fácil encontrar muitas informações
a respeito da Física de Partículas em revistas e livros de divulgação científica. Esses materiais surgem, então, como uma possibilidade de recurso de ensino para a discussão desse tópico. Por outro
lado, o ensino de Partículas Elementares no Ensino Médio constitui um desafio para professores em docência escolar. Perante isso,
investigamos os sentidos atribuídos, por alunos e alunas do ensino
médio, à física de partículas quando da leitura de textos de divulgação científica e as posições sobre a leitura de textos. Procuramos
respostas para as seguintes questões: 1) Como alunos e alunas do
ensino médio interpretam a física de partículas após a leitura de
textos de divulgação científica? 2) Qual a contribuição da leitura e
dos textos para o entendimento da física de partículas? Para tanto,
colocamos em funcionamento um conjunto de textos que versam
sobre física de partículas em uma turma de terceiro ano do Ensino
Médio. Utilizamos como foco de obtenção de dados e análise a
produção escrita dos alunos e alunas. Uma das contribuições desta
investigação diz respeito à avaliação do uso de textos de divulgação científica. Com ela foi possível determinar alguns obstáculos
que poderemos encontrar ao tentar utilizar este tipo de texto, espe-
+
* Recebido: .
Aceito:
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cificamente, no ensino da Física de Partículas. No presente momento, arriscaríamos afirmar que as atividades de leitura mostraram-se como um dos possíveis caminhos ao ensino da Física de
Partículas, incentivando o hábito de leitura consequentemente,
transcendendo à concepção de ensino expositivo e da aprendizagem que se revela somente mediante habilidades lógicomatemáticas.
Palavras-chave: Física de Partículas; Leitura de Textos; Ensino
de Física.
Abstract
We know that is relatively easy to find a lot of information regarding Particle Physics in magazines and books of scientific dissemination. These materials appear, so, as a possibility of teaching resource for discussion on this topic. On the other hand, the teaching of Elementary Particles in high school constitutes a challenge
to teachers involved into teaching activity. In view of this, we investigated the meanings attributed, by students from high school,
to the Particle Physics through the reading of scientific dissemination texts, and the positions on the reading of the texts. We sought
to answer the following questions: 1) How students from high
school interpret Particle Physics after reading scientific dissemination texts? 2) What are the contributions from the reading and the
texts to the comprehension of Particle Physics?. For this, we
worked with a set of texts that deals with Particle Physics in a
group of the third year of high school. We used as an instrument
to collect data the students’ written production. One of the contributions of this investigation regards the assessment of the use of
scientific dissemination texts. With this, it was possible to determine some obstacles that we may find in using this kind of text,
specifically, in the teaching of Particle Physics. In the current
moment, we take the risk of claiming that reading activities
seemed as one of the possible ways for teaching Particle Physics,
stimulating the reading habit consequently, and going beyond the
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conception of expositive teaching and of learning that appears only through logical-mathematical skills.
Keywords: Particle Physics, Reading of Texts, Approaches, Physics Teaching.
I. Introdução
Há algumas décadas observa-se um movimento internacional de inserção
de conteúdos de Física Moderna e Contemporânea (FMC) nos currículos de física
da escola básica. OSTERMANN E MOREIRA (1998) com o intuito de obterem
uma lista consensual, entre físicos, pesquisadores em Ensino de Física e professores de Física do Ensino Médio, sobre quais tópicos de FMC deveriam ser abordados na escola média, com vistas a atualizar o currículo de Física neste nível, chegam a diversos tópicos entre eles o das partículas elementares.
No que se refere a Física de Partículas, podemos dizer que ela fornece uma
nova visão de mundo: o mundo microscópico. A Física de Partículas, como uma Ciência Contemporânea, pode contribuir para a visão mais adequada da ciência, colaborando para uma reinterpretação da Física Clássica e mostrando aos alunos e alunas, como
a Ciência é dinâmica, como ela se desenvolve, a contribuição de diferentes cientistas
para se chegar a um conceito e como a experimentação se torna crucial e difícil de ser
realizada, sendo necessário o investimento financeiro e cooperativo de diversos países e
cientistas. Desta maneira, a Física de Partículas torna-se um conteúdo adequado para
explicar o processo científico de validação de teorias, bem como o funcionamento da
Ciência atual na busca pela compreensão da natureza (SIQUEIRA, 2006).
Pesquisas acerca do ensino de Física de Partículas, para alunos e alunas
do ensino médio, ainda são poucas em comparação com outros tópicos curriculares da física, como pode ser constatado mediante revisão de literatura. Abre-se,
portanto, um campo de investigação, por meio da criação e desenvolvimento de
estudos que possam gerar conhecimentos sobre metodologias para o ensino deste
tópico curricular. De acordo com ARAÚJO E LOZADA (2006), apresentar o
conteúdo de Física de Partículas Elementares no Ensino Médio constitui, sem
dúvida, um desafio, uma vez que os tópicos de FMC não foram inseridos efetivamente nos currículos e o número de aulas semanais de Física, na maior parte das
escolas, ainda é muito reduzido, sendo em alguns casos apenas uma aula semanal,
o que em muito interfere na realização de um trabalho significativo.
XXX
II - A mediação da Física de Partículas por meio da leitura de textos
RON GOOD, no prelúdio do volume especial do Journal of Research in
Science Teaching (1993), intitulado The Reading - Science Learning - Writing
Connection, expressou claramente que a aprendizagem da ciência está quase sempre associada à leitura ao afirmar que “a aprendizagem da ciência é estabelecida
em grande parte pela leitura e interação com o texto em diferentes circunstâncias.
Entender como os estudantes interagem com a ciência descrita em textos é sem
dúvida uma importante área de investigação”.
Neste sentido, alguns autores vêm defendendo a leitura em aulas de física argumentando que essa prática pode servir como ponto de partida para a ativação do
desenvolvimento intelectual dos alunos e alunas (SILVA e ALMEIDA, 1993), ou que a
responsabilidade do uso dela não se restringe a uma única disciplina (ALMEIDA e
RICON, 1993). Ainda, entre os argumentos apontados para defesa do uso de textos
de divulgação científica encontram-se: a) o maior envolvimento e participação dos
alunos e alunas nas atividades em classe com o uso de linguagem comum que
caracteriza esses textos; b) o papel do ensino na formação do sujeito-leitor, capaz
de, ao sair da escola, continuar a obter e checar informações de natureza científico-tecnológica; apresentação de conceitos de forma contextualizada ou, seja, não
destacados, fragmentados e isolados como nos livros didáticos (ALMEIDA e RICON, 1993). ANDRADE E MARTINS (2006) argumentam que atividades de
leitura poderiam contribuir para diminuir o distanciamento entre o aluno e aluna e
o conhecimento científico-tecnológico que muitas vezes, reflete e reforça uma falta
de motivação para seu aprendizado.
Assim, uma possibilidade de ensino da Física das Partículas é por meio
da leitura de textos, em especial, aqueles classificados como de divulgação científica. Para ZANOTELLO E ALMEIDA (2007), a leitura de textos de divulgação
científica se constitui em uma atividade diferenciada em relação ao desenvolvimento das aulas de física que podem se observadas na maioria das escolas. No
entanto, a realização dessa prática passa pela seleção do material a ser utilizado.
Escrever sobre física ou outras áreas da ciência, para um público não especializado, requer grande habilidade do autor para articular uma linguagem acessível,
com uma precisão conceitual adequada. Desse modo, faz-se necessário analisar o
material de divulgação disponível criteriosamente, mas sob o ponto de vista de
quem receberá as informações e não com o elevado rigor e formalismo acaXXX
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dêmico do meio científico (ZANOTELLO e ALMEIDA, 2007). Decorre daí a
necessidade e a importância de estudos que analisem materiais de divulgação sob
o ponto de vista tanto do sujeito leitor como do produtor do texto, ampliando o
escopo das discussões sobre o funcionamento desses textos enquanto recurso de
ensino. Além disso, destacamos a necessidade da seleção de textos confiáveis,
como por exemplo, ter entre os autores pelo menos um pesquisador do tema em
questão.
III - Objetivo e questões norteadoras
Sabemos que é relativamente fácil encontrar muitas informações a respeito da Física de Partículas em revistas e livros de divulgação científica. Esses materiais surgem, então, como uma possibilidade de recurso de ensino para a discussão
desse tópico. A partir da constatação básica de que o ensino de Partículas Elementares no Ensino Médio constitui um desafio para professores em docência escolar,
objetivamos: investigar os sentidos atribuídos, por alunos e alunas do ensino médio, à física de partículas quando da leitura de textos de divulgação científica e as
posições sobre a leitura de textos. Das possíveis questões que seríamos relevantes
responder, nos parece significativo e propomos para este estudo: 1) Como alunos e
alunas do ensino médio interpretam a física de partículas após a leitura de textos
de divulgação científica? 2) Qual a contribuição da leitura e dos textos para o
entendimento da física de partículas?
Nessa pesquisa também temos como objetivo em fazer uma reflexão sobre
a importância de o professor conhecer e pesquisar não somente o conteúdo didático, mas também o perfil de cada um de seus alunos. (RIBEIRO). Pois pensar no
aprender é diferente de pensar no vestibular.
IV – Desenvolvimento da pesquisa e instrumento de análise dos dados
Primeiramente, identificamos livros de divulgação que abordam o tema
“Física de Partículas”. Realizada esta etapa, selecionamos aqueles que trabalharíamos com os alunos e alunas. Na sequência, montamos um episódio de ensino que
trata exclusivamente da Física de Partículas para ser implementado em um conjunto de 11 aulas, com duração de 50 minutos cada uma. Essas aulas foram ministradas em duas escolas Pública de Alfenas, uma que se situa mais ao centro da
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cidade e outra em uma periferia. Neste episódio, dedicamos 05 aulas para discussão da leitura de extratos dos livros selecionados.
Figuras 1, 2, 3 – Livros selecionados para o ensino da Física de partículas.
Partimos para a implementação desse episódio através da Organização
Curricular por Projetos. Para PORTES (2010), reorganizar o currículo por projetos, em vez das tradicionais disciplinas, é a principal proposta do educador espanhol Fernando Hernández. Ele se baseia nas ideias de John Dewey (1859-1952),
filósofo e pedagogo norte-americano que defendia a relação da vida com a sociedade, dos meios com os fins e da teoria com a prática.
O desenvolvimento de projetos tem como objetivo, resolver questões relevantes para o grupo, gerar necessidades de aprendizagem, ou seja, tornar a aprendizagem ativa, interessante, significativa, real e atrativa para o aluno, englobando a educação em um plano de trabalho agradável, sem impor os conteúdos
programáticos de forma autoritária. Assim o aluno e aluna leem, conversa, fazem
investigações, formulam hipóteses, anotam dados, calcula, reúne o necessário e,
por fim, converte tudo isso em pontos de partida para a construção e ampliação do
conhecimento. (PORTES, 2010).
Na primeira aula, iniciamos a implementação do episódio com um levantamento do conhecimento prévio dos alunos e alunas realizando as seguintes perguntas aos alunos, são elas: Há algo menor que o átomo? Os átomos podem ser
compostos de partículas mais simples? Você já escutou algo a respeito? Existem
outras partículas que não fazem parte do átomo? O que é uma partícula para você?
Você já escutou sobre o LHC? As respostas foram registradas individualmente
pelos alunos em seus cadernos. Após, a professora (primeira autora deste trabalho)
iniciou uma discussão com toda a turma, com base nas respostas elaboradas pelos
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alunos e as sistematizou no quadro. O objetivo desta aula era levantar as primeiras
concepções dos alunos sobre o tema.
Na segunda e terceira aula discutimos os modelos atômico. Na quarta e quinta
aula adentramos no estudo das partículas elementares. Para tanto, solicitamos a leitura
e a apresentação de um extrato do livro “O discreto charme das partículas elementares”
(figura 1). Cada aluno e aluna ficaram responsáveis pela leitura do extrato e pela apresentação, para a turma, da história de uma partícula. Em especial, solicitamos a leitura
e a apresentação do capítulo 2 que versa sobre as discretas, estranhas e charmosas
partículas e suas descobertas, sobre as forças existentes entre elas, os modelos que as
explicam e o papel que elas desempenharam no início da formação do universo.
Na sexta e sétima aula, realizamos a leitura e discussão de dois textos de
divulgação científica, são eles: a) LHC: o colosso criador e esmagador de matéria
(BEDIAGA, 2008); b) Pentaquark nova partícula subatômica (SCOCCOLA,
2004).
Na oitava aula, realizamos a leitura e discussão de um trecho do livro “O
Mágico dos Quarks”, especificamente o trecho que possuí o mesmo nome do livro.
Esse trecho trata das cores e sabores dos quarks, bem como dos hádrons e férmions. Na sétima aula dedicamos a leitura e discussão de um extrato da obra “Alice no País do Quantum”, intitulado “O baile de Massacarados” que aborda as
colisões e formação de novas partículas, aborda também a função do glúon. Nessas obras, o autor (Robert Gilmore) utiliza inúmeras analogias para tornar as
exposições mais claras e atraentes aos leitores. Apesar da informalidade narrativa,
os conceitos físicos apresentados são bastante precisos, o que justificaria a utilização dos mesmos.
Na nona aula, finalizamos a discussão sobre as partículas elementares apresentando um vídeo “O discreto Charme das Partículas Elementares” que sintetiza o livro trabalhado na quarta e quinta aula. Nosso objetivo com estas aulas era
proporcionar ao aluno e aluna uma compreensão do Modelo Padrão e da Física de
Partículas Elementares. Na décima aula, apresentamos aos alunos e alunas um
mapa conceitual do Modelo Padrão, extraído de Moreira (2009). A décima primeira aula foi dedicada para a elaboração de produções escritas pelos alunos e alunas sobre
questões envolvendo o assunto estudado e outras questões que versam sobre a leitura de
textos. No entanto, vale a pena destacar que os alunos também elaboraram produções
escritas durante as aulas nas quais eram realizadas leituras e discussões de textos. As-
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sim, utilizamos como foco de obtenção de dados e análise a produção escrita dos
alunos e alunas.
Tendo em vista que procuramos investigar os sentidos atribuídos, por alunos e alunas do ensino médio, à física de partículas quando da leitura de textos
de divulgação científica e as posições sobre a leitura de textos, utilizamos para
examinar as informações obtidas a Análise de Discurso (AD), iniciada por M.
PÊCHEUX (1995). Nessa abordagem o discurso é efeito de sentidos entre locutores. Ainda, considera-se a não transparência da linguagem e as influências ideológicas, históricas e culturais que estão por trás da construção de todo discurso.
ORLANDI (2003) ressalta alguns aspectos devem ser considerados para a AD: o
sujeito; a linguagem e seu processo histórico; os dispositivos de análise; as condições de produção. O uso desse apoio teórico se justifica porque percorre a fala com
a intenção de buscar o significado das informações e o que levou a inclusão desta
ou daquela informação em um determinado discurso. Portanto, olhamos o discurso
que está sempre carregado de sentidos, de subjetividade, de argumentação, dos
efeitos de sentidos expostos por seus interlocutores. Procuramos, sempre que possível, como subsídio para análise das produções a noção de autoria da análise de
discurso. A autoria é o que faz sentido e têm significado, ler e manifestar a autoria
é um exercício que demanda continuidade. Assim buscaram indícios da
“...passagem da “repetição empírica”, quando o estudante exercita a memória para
dizer apenas aquilo que o professor ou o livro já havia dito (num mero exercício
mnemônico), para a “repetição histórica”, ou seja, quando há incorporação de
sentido próprio do aluno e aluna à memória constitutiva, isto é, o aluno e aluna
passa a assumir o discurso como seu: a autoria. Entre essas interpretações teria
uma intermediária, a “repetição formal”, na qual o estudante explicita as mesmas
ideias vistas nas aulas, mas com uma outra roupagem, ou seja, repete o que foi
dito com outras palavras (ALMEIDA et al., 2008, p. 40).
V - Os sentidos atribuídos à Física de Partículas
Na primeira aula, evidenciamos que uma quantidade expressiva dos alunos e alunas não possui nenhum conhecimento sistematizado sobre a física de
partículas, sobre o modelo padrão ou sobre a função do LHC. Isso pode ser justificado já que esse tópico não faz parte do programa curricular de física da
escola. Os alunos e alunas que possuíam alguma informação a adquiriam por
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meio do ensino não-formal. No entanto, muitas das informações apresentadas
eram equivocadas como pode ser observado mediante a leitura da produção da
aluna ABP ao ser questionada, na primeira aula, sobre o seu conhecimento a respeito do LHC.
É um acelerador de partículas que fica na Suíça ou na
França, os cientistas achavam que quando o ligassem poderia acabar o mundo, mas depois descobriram que nada
ocorreria de ruim (ABP)
No discurso da aluna, percebemos que as condições de produção sóciohistóricas exerceram certa influência em seu pronunciamento, uma vez que seu
discurso é constituído por meio de informações adquiridas por meio da imprensa,
seja escrita ou televisiva. De acordo com Pêcheux (2002), há uma relação direta
com os trajetos e a produção discursiva, ou seja,
Não se trata de pretender aqui que todo discurso seria como um aerólito miraculoso, independente das redes de memória e dos trajetos sociais nos quais ele irrompe, mas de
sublinhar que, só por sua existência, todo discurso marca a
possibilidade de uma desestruturação-reestruturação dessas redes e trajetos: todo discurso é um índice potencial de
uma agitação nas filiações sócio-históricas de identificação (...) (p. 56)
Além disso, na produção da aluna ABP notamos indícios da repetição
histórica, já que essa aluna parece remeter seu pronunciamento a um campo discursivo que ressaltaria as informações transmitidas pela mídia, fato possivelmente
relacionado com a sua memória discursiva.
No que se refere aos sentidos produzidos pelos alunos e alunas após a leitura do texto “LHC: o colosso criador e esmagador de matéria”, podemos dizer
que, ao serem questionados sobre quais são as questões que o LHC ajudará os
cientistas resolverem, em geral, os alunos e alunas mencionaram em suas produções a comprovação da existência do Bóson de Higgs, como no exemplo abaixo.
Estudará se existe o bóson de Higgs, explicar o que aconteceu com a antimatéria (AHA)
Ao utilizarmos os extratos dos Livros “O mágico dos Quarks” e “Alice no
país do quantum”, percebemos que quase a totalidade da turma tinha desconhecimento das obras “O Mágico de Oz” e “Alice no país das maravilhas”, ou seja, eles
não haviam realizado a leitura desta obras. Esse fato poderia dificultar as possíveis relações que iríamos fazer ao utilizarmos tais fábulas adaptadas para o ensino
XXX
de partículas. Nosso encaminhamento foi apresentar uma síntese destas obras. No
entanto, ao final destas leituras, os alunos e alunas conseguiram fazer as relações
presentes nas fábulas com a situação das partículas. Como exemplo, podemos citar
a resposta dos alunos e alunas ao serem questionados, ao final da leitura, sobre o
sentido que produziram quando o extrato “O baile dos Massacarados” que aborda
a Dança da Colisão. Em geral, os alunos e alunas conseguiram estabelecer a relação entre a dança da colisão com o acelerador de partículas, as falas abaixo são
indicativos disso.
Um acelerador de partículas, onde uma partícula entra em
colisão com a outra (PTM).
Parece com a máquina aceleradora de partículas, o LHC
(GTS)
Dança da colisão é quando se chocam uma com a outra,
entram em contato (KBD).
Notamos, nestes discursos, que os alunos e alunas trouxeram elementos
externos aos textos nas suas interpretações, realizando possíveis comparações da
fábula com as situações das partículas. Tais interpretações podem ser classificadas
como “repetição formal”, na qual o estudante explicita as mesmas ideias vistas nas
aulas, mas com outra roupagem, ou seja, repete o que foi dito com outras palavras
(ALMEIDA et al., 2008, p. 40).
Por outro lado, houve casos de alunos e alunas que não construíram argumentação própria para responder a questão. De maneira geral, estes alunos e
alunas realizam cópias literais de frase do texto utilizado como, por exemplo, na
produção da aluna CLC.
A dança continuou e mais colisões aconteceram aumentando de quantidade conforme o tempo ia passando. A cada
dança que acontecia, partículas nucleares relativamente
conhecidas se transformavam em coisas estranhas. Logo
havia uma variedade assustadora de partículas, muito mais
do que Alice já havia visto (CLC)
Nesse tipo de interpretação, podemos notar indícios da ocorrência da repetição empírica, ou seja, quando o estudante exercita a memória para dizer apenas aquilo que o professor ou o livro já havia dito (num mero exercício mnemônico (ALMEIDA et al., 2008, p. 40).
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Na produção final dos alunos e alunas, perguntamos qual a compreensão
deles sobre a Física de Partículas. Reproduzimos a seguir algumas das respostas
obtidas.
Hoje sei sobre o modelo padrão e que existem partículas
menores que os elétrons, prótons e nêutrons que formam
toda a matéria, elementos que fazem a junção entre as partículas, sobre a antimatéria e a melhor compreensão do
LHC (MM).
Aprendi que conseguimos enxergar através do fóton que é
um pacote de luz, que os prótons e os nêutrons são divisíveis formado pelos quarks, e os quarks são unidos pelos
gluóns que é uma “cola” de interação forte. E na natureza
existe quatro forças fundamentais: a força eletromagnética,
a forte, a fraca e a gravitacional (ABP).
Antes de começar a ler os textos e assistir o vídeo, eu achava que não havia nada menor que os átomos, e agora sei
que existe. O LHC é o acelerador de partículas que provoca a colisão delas, recriando assim, pequenos big-bangs,
ajudando a entender a formação do universo (GTS).
Com base nas falas dos alunos e alunas é possível afirmar que as leituras
contribuíram, pelo menos em parte, para o entendimento da Física de Partículas.
Em geral, os alunos e alunas declararam, após as leituras, a existência de “partículas menores que os elétrons, prótons e nêutrons que formam toda a matéria” como
exposto nesta produção de MM. A grande maioria dos estudantes fez referência ao
LHC como, por exemplo, na produção do aluno MM e do aluno GTS. De maneira
semelhante ao aluno GTS, em geral, os estudantes explicitaram que o LHC é um
acelerador de partículas que provoca a colisão entre elas, liberando energia.
Assim, podemos notar, mais uma vez, nas respostas, indícios da ocorrência da repetição formal, já que esses alunos e alunas mencionaram as mesmas
ideias discutidas nas aulas, mas com outra aparência, ou seja, reproduziu o que foi
falado com outras expressões, tal como argumenta ALMEIDA ET AL. (2008, p.
40).
Por outro lado, as produções elaboradas pelos alunos e alunas carecem de
argumentação. Percebemos que elas foram elaboradas sem nenhum cuidado. Os
termos científicos são utilizados isoladamente em frases soltas. Essa constatação
pode ser justificada pelo fato dos alunos e alunas não estarem habituados com
atividades nas quais são solicitados registros escritos, nos quais há necessidade de
XXX
utilizarem argumentação. As atividades solicitadas contribuíram nesse sentido,
opondo-se as aulas até então baseadas exclusivamente na matematização dos conteúdos, como pode ser comprovado mediante a leitura da fala de uma aluna, reproduzida a seguir.
Com os textos podemos compreender melhor sobre as partículas elementares, é mais fácil de entender essa matéria,
do que ficar fazendo contas (ABP).
VI - As posições sobre a leitura de textos
Ao final da implementação do episódio de ensino, perguntamos aos alunos e alunas qual era a opinião deles sobre a leitura de textos. Reproduzimos a
seguir algumas das respostas obtidas.
Na minha opinião o uso de textos e livros científicos é muito importante para nós, com isso aprendemos mais sobre a
vida científica (GF).
É sim uma boa opção mas pessoas igual a eu que não gosta
de ler não leram todos os textos (FCN).
Na minha opinião, eu achei muito importante pois nos ajudou a compreender melhor a matéria e principalmente com
a explicação da professora (ABP).
Os textos científicos são muito importantes em nosso aprendizado, pois nos tiram do estudo básico que temos na
escola (MH).
Eu acho legal já que a matéria não é tão interessante e usam um jeito bem legal de contar usando as histórias da Alice no país das maravilhas e o Mágico de OZ (WL).
É interessante, a maioria dos professores deveria aplicar
este método de aula, aplicando estes livros, pois eu acho
que as aulas seriam mais aproveitadas (TA).
Notamos que os alunos e alunas não estavam habituados com práticas de
leitura, pois se assim fosse eles não apresentariam resistência para realizá-las,
como aconteceu com alguns alunos e alunas que não desenvolveram a leitura. A
segunda fala é indicativa deste aspecto, uma vez que ela nos permite comproXXX
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var o que já imaginávamos, ou seja, a falta de hábito e incentivo de leituras. Na
terceira, ao mencionar “com a explicação da professora”, a aluna destaca o papel
que a professora exerceu como medidora das explicações dos assuntos presentes
nos textos, o que corrobora para afirmarmos que a leitura individual não é indicativa de compreensão do assunto pelo aluno e aluna, sendo necessárias intervenções
da professora.
Em geral, os alunos e alunas posicionam-se favoravelmente a leitura. Na
quarta fala, por exemplo, a aluna posiciona-se favoravelmente pelo fato do tipo de
atividade realizada ser diferente daquelas que habitualmente são realizadas. Por
outro lado, a maioria dos alunos e alunas posicionaram-se a favor em virtude do
“modo divertido de se aprender a matéria”, como argumenta o quinto aluno e pelo
“jeito bem legal de contar usando as histórias da Alice no país das maravilhas e o
Mágico de OZ”, como exposto pelo sexto aluno.
Para finalizar, destacamos que a leitura é produzida em determinadas
condições de produção e em um contexto sócio-histórico que deve ser levado em
conta no processo de interpretação, tal como é explicitamente pontuado no contexto da Análise de Discurso.
VII Dados Estatísticos
Gráfico 1: Posição dos alunos e alunas sobre a leitura de textos
VII - Considerações Finais
XXX
Observamos modos diferentes de interpretação e diversos tipos de repetições: a formal, nos momentos em que os alunos e alunas se detiveram no texto,
verbalizando os sentidos atribuídos com as próprias palavras; a empírica, quando
observamos apenas aquilo que o professor ou o texto já havia dito; e a histórica,
quando encontramos rastros da inscrição de alguns alunos e alunas em uma rede
de filiações ligadas à sua memória discursiva. Essas repetições demonstram a
incompletude da produção da leitura e, consequentemente, da produção de sentidos, sendo que os sentidos não estão inscritos nos textos, mas num conjunto de
formações discursivas, entre elas históricas, sociais, pedagógicas, entre outras.
Por outro lado, uma das contribuições desta investigação diz respeito à
avaliação do uso de textos de divulgação científica em aulas de física do ensino
médio. Com ele foi possível determinar alguns obstáculos que podemos encontrar
ao tentar utilizar este tipo de texto no ensino da Física de Partículas. Com isso,
utilizando as contribuições da presente pesquisa, podemos avaliar quais textos são
mais convenientes de serem utilizados em sala de aula e a maneira mais proveitosa. Nesse sentido, apontamos que os professores façam um levantamento, junto
aos seus alunos e alunas, sobre a leitura que eles possuem de fábulas clássicas,
caso utilizem textos adaptados que façam uso delas, para o ensino de conceitos
físicos. Nosso estudo mostrou que, grande parte da turma não havia realizado a
leitura de fábulas clássicas, o que nos levou a realizar uma breve discussão delas
para que pudéssemos utilizar os textos adaptados que fazem analogias com estas
obras.
No presente momento, arriscaríamos afirmar que as atividades de leitura
mostraram-se como um dos possíveis caminhos ao ensino da Física de Partículas,
incentivando o hábito de leitura consequentemente, transcendendo à concepção de
ensino expositivo e da aprendizagem que se revela somente mediante habilidades
lógico-matemáticas.
Referências bibliográficas
ABDALA, M. C. O discreto charme das partículas elementares. São Paulo:
UNESP, 2006. ISBN: 8571396418 / 9788571396418.
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Cad. Bras. Ens. Fís., v. XX, n. X: p. XX-XX, XXX. 201X.
ALMEIDA, M. J. P. M.; RICON, A. E. Divulgação científica e texto literário:
uma perspectiva cultural em aulas de física. Caderno Catarinense Ensino de
Física, v. 10, n. 1, 1993.
ALMEIDA, M. J. P. M.; SOUZA, S. C. de & OLIVEIRA, O. B. Leitura e escrita
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ANDRADE, I. B. A.; MARTINS, I. Discursos de professores de ciências sobre
leitura. Investigações em Ensino de Ciências, v.11, n.2, p.121-151, 2006.
ARAÚJO, M. S.; LOZADA, C. O. Ensino de Física de Partículas Elementares
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FÍSICA DE PARTÍCULAS ELEMENTARES: A - Unifal-MG