UNIVERSIDADE CASTELO BRANCO
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS
ESPECIALIZAÇÃO DE CLÍNICA MÉDICA E CIRÚRGICA
EM PEQUENOS ANIMAIS
OCORRÊNCIA DE LEISHMANIOSE VISCERAL
EM BAIRROS DE UMA FAIXA PERI-URBANA
DO MUNICÍPIO DE CUIABÁ, MATO GROSSO
Hildegard Cesar Resende Wimmer
Cuiabá, nov. 2007
HILDEGARD CESAR RESENDE WIMMER
Aluna de Especialização em Clínica Médica e Cirurgica
em Pequenos Animais da UCB
OCORRÊNCIA DE LEISHMANIOSE VISCERAL
EM BAIRROS DE UMA FAIXA PERI-URBANA
DO MUNICÍPIO DE CUIABÁ, MATO GROSSO
Trabalho monográfico de conclusão do Curso e
Pós-Graduação em Clínica e Cirurgia de
Pequenos Animais, apresentado à UCB como
requisito para a obtenção do título de especialista,
sob a orientação do Prof. Ms. Gustavo Leandro da
Cruz Mestre
Cuiabá, nov. 2007
ii
OCORRÊNCIA DE LEISHMANIOSE VISCERAL
EM BAIRROS DE UMA FAIXA PERI-URBANA
DO MUNICÍPIO DE CUIABÁ, MATO GROSSO
Elaborado por Hildegard Cesar Resende Wimmer
Aluna de Especialização em Clínica Médica e Cirurgica
em Pequenos Animais da UCB
Foi analisado e aprovado com
grau: ............................
Cuiabá, ________ de _________________ de __________.
___________________________
Membro
___________________________
Membro
___________________________
Professor Orientador
Presidente
Cuiabá, nov. 2007
iii
Dedico este trabalho aos meus
familiares, e a todos que fazem
parte da minha vida.
iv
Agradecimentos
À Deus meu fiel Paizinho;
À minha família – que me acompanha
e incentiva meus estudos;
Ao meu Orientador, Prof. Gustavo Mestre –
que me forneceu apoio e orientações seguras;
Aos meus professores e colegas,
pela dedicação e companheirismo.
v
RESUMO
A Organização Mundial da Saúde considera a leishmaniose visceral (LV) como uma das
seis principais doenças tropicais, dada a sua incidência, alta letalidade em indivíduos
não tratados e crianças desnutridas. O propósito deste trabalho foi descrever a atual
situação epidemiológica da doença nos bairros vizinhos Jardim Itapuã, Jardim Três
Poderes e Águas Nascentes, utilizando dados das Secretarias Estadual e Municipal de
Saúde. A primeira ocorrência de LV em Cuiabá foi procedente do bairro Jardim Três
Poderes, em 2005, localizado na faixa peri-urbana de Cuiabá. No mesmo ano, notificouse outro caso da doença no bairro Águas Nascentes. Em 2006, registraram-se mais dois
casos da doença nessa área, sendo um caso procedente do bairro Jardim Três Poderes e
outro no bairro vizinho Jardim Itapuã, acometendo crianças. Os inquéritos sorológicos
caninos e entomológicos identificaram cães sororreagentes e a presença dos vetores
Lutzomyia longipalpis e L. cruzi nesses bairros, considerados focos de transmissão
recente da LV na faixa peri-urbana de Cuiabá, Mato Grosso.
Palavras-chaves: Leishmaniose Visceral, Epidemiologia, Cuiabá, Mato Grosso.
vi
LISTA DE FIGURAS
Figura1 Localização geográfica dos bairros Jardim Itapuã, Jardim Três Poderes e Águas
Nascentes do município de Cuiabá, Mato Grosso...........................................................18
Figura 2 Quintal com ampla área de sombra e árvores frutíferas, Bairro Jardim Três
Poderes............................................................................................................................ 21
Figura 3 Rua sem asfalto, com esgoto exposto e galinhas semi-domiciliadas. Bairro
Jardim Três Poderes.........................................................................................................22
Figura 4 Contraste do centro da cidade com a área peri-urbana. Bairro Jardim Três
Poderes.............................................................................................................................22
Figura 5 Quintal com terra úmida, rica em folhas em decomposição e ampla área de
sombra. Bairro Jardim Itapuã..........................................................................................23
Figura 6 Rua com precárias condições de infra-estrutura sanitária e de rede de esgoto.
Jardim Itapuã...................................................................................................................23
Figura 7 Presença de excesso de material orgânico, sem esgoto e com acúmulo de lixo.
Bairro Jardim Itapuã....................................................................................................... 24
Figura
8
Ausência
de
saneamento
básico
nas
ruas.
Bairro
Águas
Nascentes.........................................................................................................................24
Figura 9 Ausência de coleta regular de lixo. Bairro Águas Nascentes............................25
Figura 10 Acúmulo de lixo e entulho. Bairro Águas Nascentes.....................................25
vii
Figura 11 Cão com sinais clínicos de LV, apresentando caquexia, lesão ulcerada na pele
e conjuntivite com secreção. Bairro Jardim Itapuã..........................................................26
Figura 12 Cão com sinais clínicos de LV, apresentando lesão ulcerada no focinho e
crescimento exagerado das unhas. Bairro Jardim Três Poderes....................................26
viii
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 Características epidemiológicas dos indivíduos com leishmaniose visceral
procedentes dos bairros Jardim Três Poderes, Jardim Itapuã e Águas Nascentes,
Cuiabá, MT, 2006........................................................................................................... 19
Tabela 2 Resultados dos inquéritos sorológicos caninos para leishmaniose visceral e dos
levantamentos entomológicos nos bairros Jardim Itapuã, Jardim Três Poderes e Águas
Nascentes, Cuiabá, MT, 2006......................................................................................... 20
ix
SUMÁRIO
RESUMO.........................................................................................................................vi
ÍNDICE DE FÍGURAS...................................................................................................vii
ÍNDICE DE TABELAS...................................................................................................ix
1 INTRODUÇÃO.
11
2 MATERIAL E METODOS
15
2.1 Tipo de pesquisa
15
2.2 Área de estudo
15
2.3 Fontes dos dados
16
2.3.1 Fonte dos dados sobre a LV humana
16
2.3.2 Fonte dos dados sobre os inquéritos sorológicos caninos e
16
entomológicos
2.3.3 Fontes das figuras obtidas em campo
17
3 RESULTADOS
19
4 DISCUSSÃO
27
5 CONCLUSÃO
30
6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
31
x
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Localização geográfica dos bairros Jardim Itapuã e Jardim Três Poderes,
município de Cuiabá, Mato Grosso.................................................................................
Figura 2 - Vista do Bairro Jardim Três Poderes..............................................................
Figura 3 - Vista do Bairro Jardim Três Poderes .............................................................
Figura 4 - Vista do Bairro Jardim Três Poderes .............................................................
Figura 5 - Vista do Bairro Jardim Três Poderes .............................................................
Figura 6 - Vista do Bairro Jardim Itapuã ......................................................................
Figura 7 - Vista do Bairro Jardim Itapuã ......................................................................
Figura 8 - Vista do Bairro Jardim Itapuã ......................................................................
Figura 9 - Vista do Bairro Jardim Itapuã ......................................................................
Figura 10 - Cão com sinais clínico de LV, apresentando caquexia, lesão ulcerada na
pele e conjuntivite........................................................................................
Figura 11 - Cão com sinais clínico de LV, apresentando lesão ulcerada no focinho e
crescimento exagerado das unhas..............................................................
xi
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Características epidemiológicas dos indivíduos com diagnóstico laboratorial
positivo para leishmaniose visceral nos bairros Jd. Três Poderes, Jd. Itapuã e Águas
Nascentes, Cuiabá, MT....................................................................................................
Tabela 2 – Resultados dos inquéritos sorológicos caninos para leishmaniose visceral e dos
levantamentos entomológicos nos bairros Jd. Três Poderes, Jd. Itapuã e Águas Nascentes,
Cuiabá, MT, 2006...........................................................................................................
xii
SUMÁRIO
Resumo .........................................................................................v
Índice de tabelas ................................................................... ...... vi
Índice de figuras .......................................................................... vii
Parte
1. Introdução ....................................................................................
2. Material e Métodos
2.1. Tipo da Pesquisa ....................................................................
2.2. Área de Estudo ......................................................................
2.3. Fontes dos Dados ...................................................................
2.3.1. Fontes dos dados sobre a LV humana .........................
2.3.2. Fonte dos dados sobre os inquéritos sorológicos
caninos..........................................................................
2.3.3. Fontes das figuras obtidas em campo..........................
3. Resultados .....................................................................................
4. Discussão .......................................................................................
5. Conclusão .......................................................................................
6. Referências Bibliográficas..............................................................
xiii
1 INTRODUÇÃO
O
gênero
Leishmania,
pertencente
à
ordem
Kinetoplastida, família Trypanosomatidae, é composto por dois grandes grupos: O das
leishmanias responsáveis por lesões tegumentares e o das leishmanias responsáveis por
lesões viscerais. Os parasitos responsáveis pela leishmaniose visceral (LV) estão
agrupados no complexo donovani, que compreende a Leishmania (Leishmania)
donovani, a Leishmania (Leishmania) infantum e a Leishmania (Leishmania) chagasi.
No Brasil, a L. (Leismania) chagasi é a espécie mais comumente isolada de pacientes
com LV (MARZOCHI el al., 1999, GENARO e MICHALICK, 2005).
Estudos pioneiros sobre o ciclo de transmissão da
doença no Brasil empreendidos no Ceará culminaram com a incriminação da raposa
Lycalopex vetulus como reservatório silvestre e na confirmação do papel do cão como
reservatório doméstico de maior importância (GENARO e MICHALICK, 2005).
A transmissão da L. chagasi ocorre pela picada de
fêmeas de insetos dípteros pertencentes à família Pyschodidae, sub-família
Phlebotominae, tendo como principal vetor a espécie Lutzomyia longipalpis (ARIAS et
al., 1996). Estes insetos são pequenos, pilosos, cor de palha ou castanho claro,
popularmente conhecidos como “mosquito-palha”, “cangalinha” ou “birigui”. As
fêmeas depositam seus ovos sobre um substrato úmido no solo, com alto teor de matéria
orgânica, para garantir a alimentação das larvas. Uma outra espécie, Lutzomyia cruzi foi
também incriminada como transmissora da doença em Corumbá, Mato Grosso do Sul
(GALATI et al., 1997, SANTOS et al., 1998).
xiv
As fêmeas dos flebotomíneos sugam o indivíduo ou o
animal parasitado, ingerindo juntamente com o sangue, macrófagos contendo formas
amastigotas do protozoário, que passarão a evoluir no tubo digestivo dos insetos. Os
protozoários sofrem uma multiplicação e então transformam–se em promastigotas
(flageladas). Ao exercer novamente o repasto sangüíneo sobre um hospedeiro não
infectado, o homem ou outro reservatório, o vetor inocula as formas promastigotas
infectantes presentes no trato digestivo anterior. Na pele do vertebrado, ao serem
fagocitadas pelos macrófagos e retornarem à forma amastigota intracelular,
disseminam–se para os linfonodos, fígado, baço e medula óssea, completando o ciclo do
parasito. A participação do homem no ciclo da doença é habitualmente acidental
(GENARO e MICHALICK, 2005).
Os pacientes com LV apresentam febre prolongada,
esplenomegalia, hepatomegalia, leucopenia, anemia, tosse, dor abdominal, diarréia,
perda de peso e caquexia (MARZOCHI et al., 1999).
O
quadro
clínico
canino
caracteriza-se
por
linfadenomegalia, febre irregular por longos períodos, anemia, conjuntivite, perda
progressiva de peso e caquexia em seu estágio final. As alterações dermatológicas são
freqüentes e incluem queda de pêlos, lesões ulcerativas, prurido intenso, pelame opaco e
dermatite seborréica. Observa-se também, em alguns casos, onicogrifose (crescimento
anormal das unhas) associada à presença do parasito estimulando a matriz ungueal
(FEITOSA et al., 2000).
Para o diagnóstico da leishmaniose, o encontro do
parasito constitui requisito básico, mas a pesquisa de anticorpos em soro tem sido
bastante empregada em inquéritos epidemiológicos no Brasil, destacando a reação de
imunofluorescência indireta (RIFI) e o ensaio imunoenzimático (ELISA), como
xv
preconizado no Manual de leishmaniose visceral do Ministério da Saúde (BRASIL,
2006).
As estratégias de controle da LV recomendadas pelo
Ministério da Saúde incluem o diagnóstico e tratamento precoce dos casos humanos, a
identificação e eliminação de cães positivos em exames sorológicos ou suspeitos
procedentes de áreas endêmicas, a redução da população de flebotomíneos e atividades
de educação em saúde (BRASIL, 2006). A intervenção nas condições de saneamento
domiciliar, visando alterar as condições que favoreçam a proliferação do vetor, constitui
uma forma racional de prevenção (CAMARGO NEVES, 2005).
Na América Latina, a LV é descrita em pelo menos 12
países, sendo que 90% dos casos ocorrem no Brasil, onde a doença atinge 19 estados
das 27 Unidades da Federação. Até a década de 90, a região nordeste registrou os
maiores coeficientes de incidência e contribuiu com 90% dos casos registrados no país.
Segundo o Ministério da Saúde, nos últimos dez anos, a média anual de casos no País
foi de 3.156 casos, 54% deles em crianças menores de 10 anos e letalidade média de
8%, acometendo principalmente áreas do meio rural e periferia das grandes cidades
(BRASIL, 2006).
Os fatores de risco identificados para a infecção de L.
chagasi em áreas urbanas têm sido associados às precárias condições de moradia e à
presença de animais domésticos infectados (MORENO et al., 2005).
Adicionalmente, o processo migratório oriundo de
áreas endêmicas para as periferias das cidades e as modificações ambientais que
geralmente acompanham esta mobilidade propiciam a adaptação dos vetores a um novo
nicho ecológico, representado pelo peridomicílio, onde o cão e o homem atuam como
fontes de alimentação mais acessíveis (CAMARGO NEVES et al., 2005).
xvi
Em Mato Grosso, a LV, que até recentemente era
considerada uma doença de rara ocorrência, vem assumindo um preocupante perfil
epidemiológico. Durante o período de janeiro de 1998 a dezembro de 2005, 138 novos
casos confirmados da doença foram notificados em todo o estado. Os resultados dos
levantamentos entomológico e canino apontaram para grande potencial de persistência
da transmissão da LV no estado, uma vez que há presença elevada de vetores, como as
espécies Lutzomyia longipalpis e Lutzomyia cruzi, e grande número de casos caninos da
doença (MESTRE E FONTES, 2007).
O aumento de número de casos e a expansão da LV em
Mato Grosso justifica a necessidade de descrever a atual situação epidemiológica da
doença na área urbana do município de Cuiabá, especificamente nos bairros Jardim
Itapuã, Jardim Três Poderes e Águas Nascentes, focos da doença na capital.
xvii
2 MATERIAL E MÉTODOS
2.1 Tipo de pesquisa:
Trata o presente estudo da descrição das características
epidemiológicas das áreas de ocorrência da leishmaniose visceral em bairros da faixa
peri-urbana de Cuiabá, Mato Grosso.
2.2 Área de Estudo:
O município de Cuiabá apresenta clima tropical quente
e subúmido, com aproximadamente cinco meses de seca de maio a setembro. As
precipitações correspondem a 1.750 mm, com maior intensidade em janeiro, fevereiro a
março. A temperatura média anual é de 24oC, sendo a maior máxima de 42oC. O
cerrado constitui a vegetação predominante.
A capital apresenta muitos bairros ocupados de forma
desordenada, desprovidos de asfalto, esgotamento sanitário, abastecimento de água,
coleta regular de lixo e postos de saúde. Os bairros Jardim Itapuã, Jardim Três Poderes e
Águas Nascentes são bairros vizinhos localizados em uma mesma faixa peri-urbana do
distrito norte da capital (Figura 1), caracterizados pelo crescimento urbano desordenado
e ausência de infra-estrutura básica.
xviii
2.3 Fontes dos dados:
2.3.1 Fonte dos dados sobre a LV humana
Os dados epidemiológicos dos casos humanos de LV
ocorridos nos bairros pesquisados foram obtidos a partir dos relatórios fornecidos pelo
Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), fornecidos pela Gerência
de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Cuiabá.
2.3.2 Fonte dos dados sobre os inquéritos sorológicos caninos
Os dados referentes aos inquéritos sorológicos caninos
e levantamentos entomológicos realizados nos bairros foram obtidos a partir dos
relatórios fornecidos pelo Centro de Controle de Zoonoses da Secretaria Municipal de
Saúde de Cuiabá.
O Laboratório Central de Saúde Pública do Estado de
Mato Grosso (MT-Laboratório) realizou o diagnóstico da LV canina através da triagem
pelo
método
imunoenzimático
(ELISA)
e
confirmação
pela
reação
de
imunofluorescência indireta (RIFI), conforme preconizado pelo Ministério da Saúde
(BRASIL, 2006).
Atualmente, somente o teste de aglutinação direta
(DAT), a reação de imunofluorescência indireta (IFI) e as reações imunoenzimáticas
(ELISA, Dot ELISA, ELISA PtA e Fast – ELISA), encontram aplicação prática no
diagnóstico da doença (Castro, 1996). As vantagens e desvantagens de cada método
xix
podem ser vistas no Anexo. Estas provas de diagnóstico sorológico apresenta
reatividade cruzada com várias outras doenças reduzindo a sua especificidade. O uso do
método de PCR (reação em cadeia de polimerase) em sangue periférico mostrou-se
promissor no diagnóstico da LV que apresentou, combinado com a história de
residência em uma área endêmica e o quadro clínico, elevada sensibilidade e
especificidade para o diagnóstico da infecção por LV (Dirch et al., 2000; Feitosa et al.,
2000). O ensaio de ELISA é um método automatizado e a sua acurácia está relacionada
ao tipo de antígeno de leishmania utilizado, obtendo-se melhores resultados com
antígenos totais do parasito (ALVAR, 2001).
Para a realização das capturas de flebotomíneos foram
utilizadas armadilhas luminosas do tipo CDC. Os flebotomíneos capturados foram
encaminhados ao Núcleo de Entomologia da Coordenadoria de Vigilância
Ambiental/SES-MT, para identificação.
2.3.3 Fontes das figuras obtidas em campo
Realizou-se o registro fotográfico das características
ambientais dos bairros Jardim Três Poderes, Jardim Itapuã e Águas Nascentes,
destacando os fatores determinantes para a ocorrência da LV.
Jd. Itapuã
Jd. Três Poderes
xx
Águas Nascentes
Norte
Oeste
Leste
RIO CUIABÁ
VÁRZEA GRANDE
CUIABÁ
Sul
Figura 1 Localização geográfica dos bairros Jardim Itapuã, Jardim Três Poderes e
Águas Nascentes, município de Cuiabá, Mato Grosso
Fonte: IPDU (Instituto Predial de Desenvolvimento Urbano).
3 RESULTADOS
xxi
O número de casos autóctones de LV humana no biênio
2005 e 2006 foi de 11 pacientes, sendo 4 (36,36%) procedentes dos bairros objetos
desse estudo. Em 2005, registrou-se o primeiro caso de LV humana em Cuiabá,
procedente do bairro Jardim Três Poderes, localizado na faixa peri-urbana de Cuiabá,
resultando em óbito do paciente. No mesmo ano, notificou-se outro caso da doença no
bairro vizinho Águas Nascentes, acometendo uma criança de 1 ano. Em 2006,
registraram-se mais dois casos da doença, sendo um caso procedente do bairro Jardim
Três Poderes e outro no bairro vizinho Jardim Itapuã, acometendo crianças (Tabela 1).
Tabela 1 Características epidemiológicas dos indivíduos com leishmaniose visceral procedentes
dos bairros Jd. Três Poderes, Jd. Itapuã e Águas Nascentes, Cuiabá, MT.
Pacientes
Idade (anos)
Sexo
Evolução
Bairro
Ano
Caso 1
25
Feminino
Óbito
Jd. Três Poderes
2005
Caso 2
1
Feminino
Cura
Águas Nascentes
2005
Caso 3
4
Feminino
Cura
Jd. Três Poderes
2006
Caso 4
6
Masculino
Cura
Jd. Itapuã
2006
O Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) da capital
coletou amostras de sangue de cães dos bairros acometidos pela LV. Os resultados
demonstraram que 6,1% das amostras mostraram-se sororreagentes para LV no bairro
xxii
Jardim Itapuã, 24,5% positivas no Jardim Três Poderes e 38,1% positivas no bairro
Águas Nascentes. O CCZ, em parceria com o Núcleo de Entomologia da Secretaria
Estadual de Saúde identificaram as espécies vetoras da LV nos bairros, sendo
encontrada a espécie Lutzomyia longipalpis no bairro Jardim Itapuã, Lutzomyia cruzi no
Jardim Três Poderes e ambas as espécies no bairro Águas Nascentes (Tabela 2).
Tabela 2 Resultados dos inquéritos sorológicos caninos para leishmaniose visceral e dos levantamentos entomológicos nos bairros Jd. Itapuã,
Jd. Três Poderes e Águas Nascentes, Cuiabá, MT, 2006.
Bairros
Amostras
Positivas
Negativas
Indeterminadas
de sangue
Levantamento
Entomológico
Jd. Itapuã
132
8
123
1
L. longipalpis
Jd. Três Poderes
110
27
80
3
L. cruzi
Águas Nascentes
42
16
26
0
L. longipalpis e
L. cruzi
Realizou-se o registro fotográfico das características
ambientais dos bairros Jardim Três Poderes (Figuras 2, 3 e 4) e Jardim Itapuã (Figuras
5, 6 e 7) e Águas Nascentes (Figuras 8, 9 e 10). Contatou-se a presença de fatores
fundamentais para o desenvolvimento dos vetores da LV, como riqueza de material
orgânico, a exemplo de acúmulo de lixo e folhas em decomposição, amplas áreas de
sombra e umidade e presença de abrigo de animais próximo a residências, acrescido do
xxiii
fato de ambos os bairros apresentarem condições precárias de infra-estrutura,
decorrentes da ocupação urbana desordenada. Observou-se também vários grupos
familiares sobrevivendo em precárias condições sócio-econômicas. Nos bairros
pesquisados, havia a presença de cães com sinais clássicos da LV, a exemplo de úlceras
nas extremidades do focinho e orelhas, caquexia e crescimento exagerado das unhas
(Figuras 11 e 12).
Figura 2 Quintal com ampla área de sombra e árvores frutíferas,
Bairro Jardim Três Poderes.
Fonte: WIMMER, H. C. R.. 2007.
xxiv
Figura 3 Rua sem asfalto, com esgoto exposto e galinhas semidomiciliadas. Bairro Jardim Três Poderes.
Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007.
Figura 4 Contraste do centro da cidade com a área peri-urbana.
Bairro Jardim Três Poderes.
Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007.
xxv
Figura 5 Quintal com terra úmida, rica em folhas em decomposição
e ampla área de sombra. Bairro Jardim Itapuã.
Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007
Figura 6 Rua com precárias condições de infra-estrutura sanitária
e de rede de esgoto. Bairro Jardim Itapuã.
Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007.
xxvi
Figura 7
Presença de excesso de material orgânico, sem esgoto
e com acúmulo de lixo. Bairro Jardim Itapuã.
Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007.
Figura 8 Ausência de saneamento básico nas ruas. Bairro:
Águas Nascentes
Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007
xxvii
Figura 9 Ausência de coleta regular de lixo. Bairro: Águas Nascentes.
Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007
Figura 10 Acúmulo de lixo e entulho. Bairro Águas Nascentes.
Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007
xxviii
Figura 11 Cão com sinais clínicos de LV, apresentando caquexia, lesão
ulcerada
na pele e conjuntivite com secreção. Bairro Jardim Itapuã.
Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007.
xxix
Figura 12 Cão com sinais clínicos de LV, apresentando lesão ulcerada no
focinho e crescimento exagerado das unhas. Bairro Jardim Três
Poderes.
Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007.
xxx
4 DISCUSSÃO
A LV é uma doença de notificação compulsória
emergente na capital mato-grossense (MESTRE E FONTES, 2007).
A ocupação de várias áreas (“grilos”) pela população
provocou a destruição de ecótopos silvestres na faixa peri-urbana de Cuiabá, como
observado nos bairros Jardim Itapuã e Jardim Três Poderes, estimulando a urbanização
do vetor da LV. Segundo Rebêlo et al. (1999), a aproximação de certas espécies de
flebótomos com áreas domiciliares pode ser uma conseqüência das alterações em seu
ambiente natural, especialmente aquelas produzidas pelo homem. O inseto Lutzomyia
longipalpis se desloca em busca de fontes alternativas de sangue e abrigo no ambiente
peri-urbano, alimentando-se em uma grande variedade de hospedeiros, entre aves, o
homem, e outros animais silvestres e domésticos (GRIMALDI et al., 1989).
Missawa e Lima (2006) sugerem a participação de
Lutzomyia cruzi na transmissão da LV em municípios de Mato Grosso. Esta espécie foi
encontrada no Jardim Itapuã, enquanto que a L. longipalpis foi identificada no Jardim
Três Poderes.
Bevilacqua et al. (2001) chamaram a atenção para a
importância da idade como fator de risco para a ocorrência da LV humana, atingindo
primariamente crianças. Dentre os três casos de LV registrados na área do foco em
Cuiabá, dois acometeram crianças de 4 e 6 anos, indicando que a transmissão da LV
possa estar ocorrendo nos ambientes peridomiciliar e intradomiciliar, conforme
constatados por Nascimento et al., 1996 e Silva et al., 2001.
xxxi
Sherlock (1996) observou na Bahia e em outras regiões
do país que a pobreza, a desnutrição e a alta densidade de flebotomíneos, tanto no
intradomicílio como no peridomicílio, estão associadas com elevada presença de
animais domésticos, péssimas condições sanitárias e baixo nível sócio-econômico em
áreas de transmissão da LV. A ocorrência de L. longipalpis tem sido amplamente
associada ao aparecimento de casos humanos ou caninos de LV (SANTOS et al., 2003).
A freqüência de cães sororreagentes para LV
encontradas nos bairros pesquisados está de acordo com a encontrada no Brasil, que
oscila entre 1,9% e 35% em diferentes estudos (EVANS et al., 1990, NUNES et al.,
1991, FRANÇA SILVA et al., 2003).
É possível que os números sejam maiores que os
apresentados, já que em muitas regiões onde há ocorrência da doença os indivíduos
acometidos têm pouco ou nenhum acesso ao sistema de saúde. Assim, os casos
ocorreriam mas não seriam notificados. Embora seja uma doença de notificação
compulsória no Brasil, não o é em outros países. Mas existe consenso em torno do fato
que o número de casos de leishmaniose visceral deve ser maior do que os notificados e
de que a sua incidência vem aumentando (BRASIL, 2006).
Luz et al. (2001) alerta para o elevado custo social
acarretado pela LV, medido em anos potenciais de vida perdidos, devido à maior
ocorrência de óbitos em grupos etários mais jovens. A doença segue a trilha do
crescimento desordenado e da pobreza, havendo a necessidade de associação do
trabalho dos profissionais de saúde e do serviço público para que se possa resultar em
benefício para a saúde pública. Para tanto, são necessários sensibilização e
comprometimento político para combater as desigualdades sociais e a exploração da
xxxii
natureza e do trabalhador, e garantir o acesso ao saneamento, à infra-estrutura básica, à
educação e aos serviços de saúde com qualidade.
Os registros dos primeiros casos humanos de LV nos
bairros vizinhos Jardim Três Poderes, Jardim Itapuã e Águas Nascentes, aliada à
ocorrência de cães sororreagentes e à presença de vetores indicam a existência de um
foco de LV na área, definindo esses bairros como prováveis portas de entrada desta
protozoose em Cuiabá.
xxxiii
5 CONCLUSÃO
Considerando a procedência dos pacientes com LV, o
grande número de cães positivos para a doença e a presença elevada de vetores definem
os bairros Jardim Itapuã, Jardim Três Poderes e Águas Nascentes como áreas de
transmissão recente da LV na faixa peri-urbana de Cuiabá, Mato Grosso.
A ocorrência da leishmaniose visceral está associada às
precárias condições econômicas e sociais das comunidades afetadas, conjuntura que se
expressa e resulta em condições precárias de moradia e de baixos níveis nutricionais,
prevalente em grande medida na periferia das grandes cidades.
xxxiv
6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALVAR, j. Las leishmaniosis de la biologia al control. Centro Colaborador de la
OMS para Leishmaniosis – Serviço de parasitologia – Centro Nacional de
Microbiologia Instituto de Salud Carlos III. 2 ed. Madrid, 345p, 2001
ARIAS, J. R.; MONTEIRO, P.; ZICKER F. The re-emergence of visceral leishmaniasis
in Brazil. Emerging Infect Dis. v. 2, p. 145-146, 1996.
BEVILACQUA, P. D. et al. Urbanização da leishmaniose visceral em Belo Horizonte.
Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v. 53, n.1, 2001.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de
Vigilância Epidemiológica. Manual de vigilância e controle da leishmaniose visceral.
Brasília: Editora MS; 2006.
CAMARGO-NEVES, V.L.F. Leishmaniose visceral americana: Doença emergente
no estado de São Paulo. Consciência: Revista Eletrônica de Jornalismo Científico [on
line].
2005.
[capturado
15
jul.
2005];
4(4).
Disponível
em:
http://www.comciencia.br/reportagens/2005/06/17.shtml
EVANS TG et al. Canine visceral leishmaniasis in northeast Brazil: Assessment of
sorodiagnosis methods. Am J Trop Med Hyg. 42: 118-23, 1990.
FEITOSA, M. M. et al. Aspectos clínicos de cães com leishmaniose visceral no
município de Araçatuba – São Paulo (Brasil). Clín. Vet. v. 5, n. 28, p. 36-44, set./out.,
2000.
FRANÇA-SILVA JC. et al. Epidemiology of canine visceral leishmaniasis in the
endemic area of Montes Claros municipality, Minas Gerais State, Brazil. Vet Parasitol.
111: 161-73, 2003
xxxv
GALATI E.A.B. et al. Estudo de flebotomíneos (Diptera: Psychodidae) em foco de
leishmaniose visceral no estado de Mato Grosso do Sul, Brasil. Rev Saúde Públ. 31:
378-90, 1997.
GENARO, O. e MICHALICK, M.S.M. Leishmaniose visceral americana. In: NEVES,
D. P. Parasitologia humana. 11.ed., São Paulo: Atheneu. 5200. cap. 10, p. 67-83,
2005.
GRIMALDI Jr, G.; TESH, R. B.; MEMAHON-PRATT, D. A review of the geographic
distribution and epidemiology of leishmaniasis in the New World. Am. J. Trop. Med.
Hyg. v. 41, p. 687-725, 1989.
LUZ, Z. M. P. et al. A urbanização das leishmanioses e a baixa resolutividade
diagnóstica em municípios da região metropolitana de Belo Horizonte. Rev. Soc. Bras.
Med. Trop. v. 34, supl. 3, p.249-254, 2001.
MARZOCHI, K. B. F.; MARZOCHI, M. C. A.; SCHUBACH, A. O. Leishmaniose
visceral: interação hospedeiro – parasito e determinismo das formas clínicas. Rev. Soc.
Bras. Med. Trop. v. 32, supl. 2, p. 59, 1999.
MESTRE, G. L. C.; FONTES, C.J.F. A expansão da epidemia da leishmaniose visceral
no estado de Mato Grosso, 1998-2005. Rev. Soc. Bras. Med. Trop. v. 40, p. 42-48,
2007.
MISSAWA, N.A., LIMA, G. B. M. Distribuição espacial de Lutzomia longipalpis (Lutz
& Neiva, 1912) e Lutzomyia cruzi (mangabeira, 1938) no estado de Mato Grosso. Rev.
Soc. Bras. Med. Trop. v. 39, p. 337-340, 2006.
MORENO, E.C. et al. Risk factors for Leishmania chagasi infection in an urban area of
Minas Gerais State. Rev Soc Bras Med Trop. 38: 456-63, 2005.
xxxvi
NASCIMENTO M.D.S.B. et al. Aspectos epidemiológicos determinantes na
manutenção da leishmaniose visceral no estado do Maranhão – Brasil. Rev Soc Bras
Med Trop.; 29: 233-40, 1996.
NUNES M.P. et al. Serological survey for canine cutaneous and visceral leishmaniasis
in area for transmission in Rio de Janeiro where prophylactic measures had been
adapted. Mem Inst Oswaldo Cruz. 86: 411-7, 1991.
REBÊLO, J. M. M. et al. Flebótomos (Diptera, Phlebotominae) da Ilha de São Luís,
zona do Golfão Maranhense, Brasil. Rev. Soc. Bras. Med. Trop. v. 32, n. 3, p. 247253, maio/jun., 1999.
SANTOS S.O. et al. The presence of Lutzomyia longipalpis in a focus of american
visceral leishmaniasis where the only proven vector is Lutzomyia cruzi. Corumbá, Mato
Grosso do Sul State. Rev Soc Bras Med Trop. 36: 633-4, 2003.
SANTOS, S.O. et al. Incrimination of Lutzomyia cruzi as a vector of american visceral
leishmaniasis. Med Vet Entomol. 12: 315-7, 1998.
SHERLOCK IA. Ecological interations of visceral leishmaniasis in the state of Bahia.
Mem Inst Oswaldo Cruz. 91: 671-83, 1996.
SILVA E.S. et al. Visceral leishmaniasis in the metropolitan region of Belo Horizonte,
state of Minas Gerais, Brazil. Mem Inst Oswaldo Cruz. 96: 285-91, 2001.
xxxvii
Download

Hildegard Cesar Resende Wimmer