UNIVERSIDADE CASTELO BRANCO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS ESPECIALIZAÇÃO DE CLÍNICA MÉDICA E CIRÚRGICA EM PEQUENOS ANIMAIS OCORRÊNCIA DE LEISHMANIOSE VISCERAL EM BAIRROS DE UMA FAIXA PERI-URBANA DO MUNICÍPIO DE CUIABÁ, MATO GROSSO Hildegard Cesar Resende Wimmer Cuiabá, nov. 2007 HILDEGARD CESAR RESENDE WIMMER Aluna de Especialização em Clínica Médica e Cirurgica em Pequenos Animais da UCB OCORRÊNCIA DE LEISHMANIOSE VISCERAL EM BAIRROS DE UMA FAIXA PERI-URBANA DO MUNICÍPIO DE CUIABÁ, MATO GROSSO Trabalho monográfico de conclusão do Curso e Pós-Graduação em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais, apresentado à UCB como requisito para a obtenção do título de especialista, sob a orientação do Prof. Ms. Gustavo Leandro da Cruz Mestre Cuiabá, nov. 2007 ii OCORRÊNCIA DE LEISHMANIOSE VISCERAL EM BAIRROS DE UMA FAIXA PERI-URBANA DO MUNICÍPIO DE CUIABÁ, MATO GROSSO Elaborado por Hildegard Cesar Resende Wimmer Aluna de Especialização em Clínica Médica e Cirurgica em Pequenos Animais da UCB Foi analisado e aprovado com grau: ............................ Cuiabá, ________ de _________________ de __________. ___________________________ Membro ___________________________ Membro ___________________________ Professor Orientador Presidente Cuiabá, nov. 2007 iii Dedico este trabalho aos meus familiares, e a todos que fazem parte da minha vida. iv Agradecimentos À Deus meu fiel Paizinho; À minha família – que me acompanha e incentiva meus estudos; Ao meu Orientador, Prof. Gustavo Mestre – que me forneceu apoio e orientações seguras; Aos meus professores e colegas, pela dedicação e companheirismo. v RESUMO A Organização Mundial da Saúde considera a leishmaniose visceral (LV) como uma das seis principais doenças tropicais, dada a sua incidência, alta letalidade em indivíduos não tratados e crianças desnutridas. O propósito deste trabalho foi descrever a atual situação epidemiológica da doença nos bairros vizinhos Jardim Itapuã, Jardim Três Poderes e Águas Nascentes, utilizando dados das Secretarias Estadual e Municipal de Saúde. A primeira ocorrência de LV em Cuiabá foi procedente do bairro Jardim Três Poderes, em 2005, localizado na faixa peri-urbana de Cuiabá. No mesmo ano, notificouse outro caso da doença no bairro Águas Nascentes. Em 2006, registraram-se mais dois casos da doença nessa área, sendo um caso procedente do bairro Jardim Três Poderes e outro no bairro vizinho Jardim Itapuã, acometendo crianças. Os inquéritos sorológicos caninos e entomológicos identificaram cães sororreagentes e a presença dos vetores Lutzomyia longipalpis e L. cruzi nesses bairros, considerados focos de transmissão recente da LV na faixa peri-urbana de Cuiabá, Mato Grosso. Palavras-chaves: Leishmaniose Visceral, Epidemiologia, Cuiabá, Mato Grosso. vi LISTA DE FIGURAS Figura1 Localização geográfica dos bairros Jardim Itapuã, Jardim Três Poderes e Águas Nascentes do município de Cuiabá, Mato Grosso...........................................................18 Figura 2 Quintal com ampla área de sombra e árvores frutíferas, Bairro Jardim Três Poderes............................................................................................................................ 21 Figura 3 Rua sem asfalto, com esgoto exposto e galinhas semi-domiciliadas. Bairro Jardim Três Poderes.........................................................................................................22 Figura 4 Contraste do centro da cidade com a área peri-urbana. Bairro Jardim Três Poderes.............................................................................................................................22 Figura 5 Quintal com terra úmida, rica em folhas em decomposição e ampla área de sombra. Bairro Jardim Itapuã..........................................................................................23 Figura 6 Rua com precárias condições de infra-estrutura sanitária e de rede de esgoto. Jardim Itapuã...................................................................................................................23 Figura 7 Presença de excesso de material orgânico, sem esgoto e com acúmulo de lixo. Bairro Jardim Itapuã....................................................................................................... 24 Figura 8 Ausência de saneamento básico nas ruas. Bairro Águas Nascentes.........................................................................................................................24 Figura 9 Ausência de coleta regular de lixo. Bairro Águas Nascentes............................25 Figura 10 Acúmulo de lixo e entulho. Bairro Águas Nascentes.....................................25 vii Figura 11 Cão com sinais clínicos de LV, apresentando caquexia, lesão ulcerada na pele e conjuntivite com secreção. Bairro Jardim Itapuã..........................................................26 Figura 12 Cão com sinais clínicos de LV, apresentando lesão ulcerada no focinho e crescimento exagerado das unhas. Bairro Jardim Três Poderes....................................26 viii LISTA DE TABELAS Tabela 1 Características epidemiológicas dos indivíduos com leishmaniose visceral procedentes dos bairros Jardim Três Poderes, Jardim Itapuã e Águas Nascentes, Cuiabá, MT, 2006........................................................................................................... 19 Tabela 2 Resultados dos inquéritos sorológicos caninos para leishmaniose visceral e dos levantamentos entomológicos nos bairros Jardim Itapuã, Jardim Três Poderes e Águas Nascentes, Cuiabá, MT, 2006......................................................................................... 20 ix SUMÁRIO RESUMO.........................................................................................................................vi ÍNDICE DE FÍGURAS...................................................................................................vii ÍNDICE DE TABELAS...................................................................................................ix 1 INTRODUÇÃO. 11 2 MATERIAL E METODOS 15 2.1 Tipo de pesquisa 15 2.2 Área de estudo 15 2.3 Fontes dos dados 16 2.3.1 Fonte dos dados sobre a LV humana 16 2.3.2 Fonte dos dados sobre os inquéritos sorológicos caninos e 16 entomológicos 2.3.3 Fontes das figuras obtidas em campo 17 3 RESULTADOS 19 4 DISCUSSÃO 27 5 CONCLUSÃO 30 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 31 x LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Localização geográfica dos bairros Jardim Itapuã e Jardim Três Poderes, município de Cuiabá, Mato Grosso................................................................................. Figura 2 - Vista do Bairro Jardim Três Poderes.............................................................. Figura 3 - Vista do Bairro Jardim Três Poderes ............................................................. Figura 4 - Vista do Bairro Jardim Três Poderes ............................................................. Figura 5 - Vista do Bairro Jardim Três Poderes ............................................................. Figura 6 - Vista do Bairro Jardim Itapuã ...................................................................... Figura 7 - Vista do Bairro Jardim Itapuã ...................................................................... Figura 8 - Vista do Bairro Jardim Itapuã ...................................................................... Figura 9 - Vista do Bairro Jardim Itapuã ...................................................................... Figura 10 - Cão com sinais clínico de LV, apresentando caquexia, lesão ulcerada na pele e conjuntivite........................................................................................ Figura 11 - Cão com sinais clínico de LV, apresentando lesão ulcerada no focinho e crescimento exagerado das unhas.............................................................. xi LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Características epidemiológicas dos indivíduos com diagnóstico laboratorial positivo para leishmaniose visceral nos bairros Jd. Três Poderes, Jd. Itapuã e Águas Nascentes, Cuiabá, MT.................................................................................................... Tabela 2 – Resultados dos inquéritos sorológicos caninos para leishmaniose visceral e dos levantamentos entomológicos nos bairros Jd. Três Poderes, Jd. Itapuã e Águas Nascentes, Cuiabá, MT, 2006........................................................................................................... xii SUMÁRIO Resumo .........................................................................................v Índice de tabelas ................................................................... ...... vi Índice de figuras .......................................................................... vii Parte 1. Introdução .................................................................................... 2. Material e Métodos 2.1. Tipo da Pesquisa .................................................................... 2.2. Área de Estudo ...................................................................... 2.3. Fontes dos Dados ................................................................... 2.3.1. Fontes dos dados sobre a LV humana ......................... 2.3.2. Fonte dos dados sobre os inquéritos sorológicos caninos.......................................................................... 2.3.3. Fontes das figuras obtidas em campo.......................... 3. Resultados ..................................................................................... 4. Discussão ....................................................................................... 5. Conclusão ....................................................................................... 6. Referências Bibliográficas.............................................................. xiii 1 INTRODUÇÃO O gênero Leishmania, pertencente à ordem Kinetoplastida, família Trypanosomatidae, é composto por dois grandes grupos: O das leishmanias responsáveis por lesões tegumentares e o das leishmanias responsáveis por lesões viscerais. Os parasitos responsáveis pela leishmaniose visceral (LV) estão agrupados no complexo donovani, que compreende a Leishmania (Leishmania) donovani, a Leishmania (Leishmania) infantum e a Leishmania (Leishmania) chagasi. No Brasil, a L. (Leismania) chagasi é a espécie mais comumente isolada de pacientes com LV (MARZOCHI el al., 1999, GENARO e MICHALICK, 2005). Estudos pioneiros sobre o ciclo de transmissão da doença no Brasil empreendidos no Ceará culminaram com a incriminação da raposa Lycalopex vetulus como reservatório silvestre e na confirmação do papel do cão como reservatório doméstico de maior importância (GENARO e MICHALICK, 2005). A transmissão da L. chagasi ocorre pela picada de fêmeas de insetos dípteros pertencentes à família Pyschodidae, sub-família Phlebotominae, tendo como principal vetor a espécie Lutzomyia longipalpis (ARIAS et al., 1996). Estes insetos são pequenos, pilosos, cor de palha ou castanho claro, popularmente conhecidos como “mosquito-palha”, “cangalinha” ou “birigui”. As fêmeas depositam seus ovos sobre um substrato úmido no solo, com alto teor de matéria orgânica, para garantir a alimentação das larvas. Uma outra espécie, Lutzomyia cruzi foi também incriminada como transmissora da doença em Corumbá, Mato Grosso do Sul (GALATI et al., 1997, SANTOS et al., 1998). xiv As fêmeas dos flebotomíneos sugam o indivíduo ou o animal parasitado, ingerindo juntamente com o sangue, macrófagos contendo formas amastigotas do protozoário, que passarão a evoluir no tubo digestivo dos insetos. Os protozoários sofrem uma multiplicação e então transformam–se em promastigotas (flageladas). Ao exercer novamente o repasto sangüíneo sobre um hospedeiro não infectado, o homem ou outro reservatório, o vetor inocula as formas promastigotas infectantes presentes no trato digestivo anterior. Na pele do vertebrado, ao serem fagocitadas pelos macrófagos e retornarem à forma amastigota intracelular, disseminam–se para os linfonodos, fígado, baço e medula óssea, completando o ciclo do parasito. A participação do homem no ciclo da doença é habitualmente acidental (GENARO e MICHALICK, 2005). Os pacientes com LV apresentam febre prolongada, esplenomegalia, hepatomegalia, leucopenia, anemia, tosse, dor abdominal, diarréia, perda de peso e caquexia (MARZOCHI et al., 1999). O quadro clínico canino caracteriza-se por linfadenomegalia, febre irregular por longos períodos, anemia, conjuntivite, perda progressiva de peso e caquexia em seu estágio final. As alterações dermatológicas são freqüentes e incluem queda de pêlos, lesões ulcerativas, prurido intenso, pelame opaco e dermatite seborréica. Observa-se também, em alguns casos, onicogrifose (crescimento anormal das unhas) associada à presença do parasito estimulando a matriz ungueal (FEITOSA et al., 2000). Para o diagnóstico da leishmaniose, o encontro do parasito constitui requisito básico, mas a pesquisa de anticorpos em soro tem sido bastante empregada em inquéritos epidemiológicos no Brasil, destacando a reação de imunofluorescência indireta (RIFI) e o ensaio imunoenzimático (ELISA), como xv preconizado no Manual de leishmaniose visceral do Ministério da Saúde (BRASIL, 2006). As estratégias de controle da LV recomendadas pelo Ministério da Saúde incluem o diagnóstico e tratamento precoce dos casos humanos, a identificação e eliminação de cães positivos em exames sorológicos ou suspeitos procedentes de áreas endêmicas, a redução da população de flebotomíneos e atividades de educação em saúde (BRASIL, 2006). A intervenção nas condições de saneamento domiciliar, visando alterar as condições que favoreçam a proliferação do vetor, constitui uma forma racional de prevenção (CAMARGO NEVES, 2005). Na América Latina, a LV é descrita em pelo menos 12 países, sendo que 90% dos casos ocorrem no Brasil, onde a doença atinge 19 estados das 27 Unidades da Federação. Até a década de 90, a região nordeste registrou os maiores coeficientes de incidência e contribuiu com 90% dos casos registrados no país. Segundo o Ministério da Saúde, nos últimos dez anos, a média anual de casos no País foi de 3.156 casos, 54% deles em crianças menores de 10 anos e letalidade média de 8%, acometendo principalmente áreas do meio rural e periferia das grandes cidades (BRASIL, 2006). Os fatores de risco identificados para a infecção de L. chagasi em áreas urbanas têm sido associados às precárias condições de moradia e à presença de animais domésticos infectados (MORENO et al., 2005). Adicionalmente, o processo migratório oriundo de áreas endêmicas para as periferias das cidades e as modificações ambientais que geralmente acompanham esta mobilidade propiciam a adaptação dos vetores a um novo nicho ecológico, representado pelo peridomicílio, onde o cão e o homem atuam como fontes de alimentação mais acessíveis (CAMARGO NEVES et al., 2005). xvi Em Mato Grosso, a LV, que até recentemente era considerada uma doença de rara ocorrência, vem assumindo um preocupante perfil epidemiológico. Durante o período de janeiro de 1998 a dezembro de 2005, 138 novos casos confirmados da doença foram notificados em todo o estado. Os resultados dos levantamentos entomológico e canino apontaram para grande potencial de persistência da transmissão da LV no estado, uma vez que há presença elevada de vetores, como as espécies Lutzomyia longipalpis e Lutzomyia cruzi, e grande número de casos caninos da doença (MESTRE E FONTES, 2007). O aumento de número de casos e a expansão da LV em Mato Grosso justifica a necessidade de descrever a atual situação epidemiológica da doença na área urbana do município de Cuiabá, especificamente nos bairros Jardim Itapuã, Jardim Três Poderes e Águas Nascentes, focos da doença na capital. xvii 2 MATERIAL E MÉTODOS 2.1 Tipo de pesquisa: Trata o presente estudo da descrição das características epidemiológicas das áreas de ocorrência da leishmaniose visceral em bairros da faixa peri-urbana de Cuiabá, Mato Grosso. 2.2 Área de Estudo: O município de Cuiabá apresenta clima tropical quente e subúmido, com aproximadamente cinco meses de seca de maio a setembro. As precipitações correspondem a 1.750 mm, com maior intensidade em janeiro, fevereiro a março. A temperatura média anual é de 24oC, sendo a maior máxima de 42oC. O cerrado constitui a vegetação predominante. A capital apresenta muitos bairros ocupados de forma desordenada, desprovidos de asfalto, esgotamento sanitário, abastecimento de água, coleta regular de lixo e postos de saúde. Os bairros Jardim Itapuã, Jardim Três Poderes e Águas Nascentes são bairros vizinhos localizados em uma mesma faixa peri-urbana do distrito norte da capital (Figura 1), caracterizados pelo crescimento urbano desordenado e ausência de infra-estrutura básica. xviii 2.3 Fontes dos dados: 2.3.1 Fonte dos dados sobre a LV humana Os dados epidemiológicos dos casos humanos de LV ocorridos nos bairros pesquisados foram obtidos a partir dos relatórios fornecidos pelo Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), fornecidos pela Gerência de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Cuiabá. 2.3.2 Fonte dos dados sobre os inquéritos sorológicos caninos Os dados referentes aos inquéritos sorológicos caninos e levantamentos entomológicos realizados nos bairros foram obtidos a partir dos relatórios fornecidos pelo Centro de Controle de Zoonoses da Secretaria Municipal de Saúde de Cuiabá. O Laboratório Central de Saúde Pública do Estado de Mato Grosso (MT-Laboratório) realizou o diagnóstico da LV canina através da triagem pelo método imunoenzimático (ELISA) e confirmação pela reação de imunofluorescência indireta (RIFI), conforme preconizado pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2006). Atualmente, somente o teste de aglutinação direta (DAT), a reação de imunofluorescência indireta (IFI) e as reações imunoenzimáticas (ELISA, Dot ELISA, ELISA PtA e Fast – ELISA), encontram aplicação prática no diagnóstico da doença (Castro, 1996). As vantagens e desvantagens de cada método xix podem ser vistas no Anexo. Estas provas de diagnóstico sorológico apresenta reatividade cruzada com várias outras doenças reduzindo a sua especificidade. O uso do método de PCR (reação em cadeia de polimerase) em sangue periférico mostrou-se promissor no diagnóstico da LV que apresentou, combinado com a história de residência em uma área endêmica e o quadro clínico, elevada sensibilidade e especificidade para o diagnóstico da infecção por LV (Dirch et al., 2000; Feitosa et al., 2000). O ensaio de ELISA é um método automatizado e a sua acurácia está relacionada ao tipo de antígeno de leishmania utilizado, obtendo-se melhores resultados com antígenos totais do parasito (ALVAR, 2001). Para a realização das capturas de flebotomíneos foram utilizadas armadilhas luminosas do tipo CDC. Os flebotomíneos capturados foram encaminhados ao Núcleo de Entomologia da Coordenadoria de Vigilância Ambiental/SES-MT, para identificação. 2.3.3 Fontes das figuras obtidas em campo Realizou-se o registro fotográfico das características ambientais dos bairros Jardim Três Poderes, Jardim Itapuã e Águas Nascentes, destacando os fatores determinantes para a ocorrência da LV. Jd. Itapuã Jd. Três Poderes xx Águas Nascentes Norte Oeste Leste RIO CUIABÁ VÁRZEA GRANDE CUIABÁ Sul Figura 1 Localização geográfica dos bairros Jardim Itapuã, Jardim Três Poderes e Águas Nascentes, município de Cuiabá, Mato Grosso Fonte: IPDU (Instituto Predial de Desenvolvimento Urbano). 3 RESULTADOS xxi O número de casos autóctones de LV humana no biênio 2005 e 2006 foi de 11 pacientes, sendo 4 (36,36%) procedentes dos bairros objetos desse estudo. Em 2005, registrou-se o primeiro caso de LV humana em Cuiabá, procedente do bairro Jardim Três Poderes, localizado na faixa peri-urbana de Cuiabá, resultando em óbito do paciente. No mesmo ano, notificou-se outro caso da doença no bairro vizinho Águas Nascentes, acometendo uma criança de 1 ano. Em 2006, registraram-se mais dois casos da doença, sendo um caso procedente do bairro Jardim Três Poderes e outro no bairro vizinho Jardim Itapuã, acometendo crianças (Tabela 1). Tabela 1 Características epidemiológicas dos indivíduos com leishmaniose visceral procedentes dos bairros Jd. Três Poderes, Jd. Itapuã e Águas Nascentes, Cuiabá, MT. Pacientes Idade (anos) Sexo Evolução Bairro Ano Caso 1 25 Feminino Óbito Jd. Três Poderes 2005 Caso 2 1 Feminino Cura Águas Nascentes 2005 Caso 3 4 Feminino Cura Jd. Três Poderes 2006 Caso 4 6 Masculino Cura Jd. Itapuã 2006 O Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) da capital coletou amostras de sangue de cães dos bairros acometidos pela LV. Os resultados demonstraram que 6,1% das amostras mostraram-se sororreagentes para LV no bairro xxii Jardim Itapuã, 24,5% positivas no Jardim Três Poderes e 38,1% positivas no bairro Águas Nascentes. O CCZ, em parceria com o Núcleo de Entomologia da Secretaria Estadual de Saúde identificaram as espécies vetoras da LV nos bairros, sendo encontrada a espécie Lutzomyia longipalpis no bairro Jardim Itapuã, Lutzomyia cruzi no Jardim Três Poderes e ambas as espécies no bairro Águas Nascentes (Tabela 2). Tabela 2 Resultados dos inquéritos sorológicos caninos para leishmaniose visceral e dos levantamentos entomológicos nos bairros Jd. Itapuã, Jd. Três Poderes e Águas Nascentes, Cuiabá, MT, 2006. Bairros Amostras Positivas Negativas Indeterminadas de sangue Levantamento Entomológico Jd. Itapuã 132 8 123 1 L. longipalpis Jd. Três Poderes 110 27 80 3 L. cruzi Águas Nascentes 42 16 26 0 L. longipalpis e L. cruzi Realizou-se o registro fotográfico das características ambientais dos bairros Jardim Três Poderes (Figuras 2, 3 e 4) e Jardim Itapuã (Figuras 5, 6 e 7) e Águas Nascentes (Figuras 8, 9 e 10). Contatou-se a presença de fatores fundamentais para o desenvolvimento dos vetores da LV, como riqueza de material orgânico, a exemplo de acúmulo de lixo e folhas em decomposição, amplas áreas de sombra e umidade e presença de abrigo de animais próximo a residências, acrescido do xxiii fato de ambos os bairros apresentarem condições precárias de infra-estrutura, decorrentes da ocupação urbana desordenada. Observou-se também vários grupos familiares sobrevivendo em precárias condições sócio-econômicas. Nos bairros pesquisados, havia a presença de cães com sinais clássicos da LV, a exemplo de úlceras nas extremidades do focinho e orelhas, caquexia e crescimento exagerado das unhas (Figuras 11 e 12). Figura 2 Quintal com ampla área de sombra e árvores frutíferas, Bairro Jardim Três Poderes. Fonte: WIMMER, H. C. R.. 2007. xxiv Figura 3 Rua sem asfalto, com esgoto exposto e galinhas semidomiciliadas. Bairro Jardim Três Poderes. Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007. Figura 4 Contraste do centro da cidade com a área peri-urbana. Bairro Jardim Três Poderes. Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007. xxv Figura 5 Quintal com terra úmida, rica em folhas em decomposição e ampla área de sombra. Bairro Jardim Itapuã. Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007 Figura 6 Rua com precárias condições de infra-estrutura sanitária e de rede de esgoto. Bairro Jardim Itapuã. Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007. xxvi Figura 7 Presença de excesso de material orgânico, sem esgoto e com acúmulo de lixo. Bairro Jardim Itapuã. Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007. Figura 8 Ausência de saneamento básico nas ruas. Bairro: Águas Nascentes Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007 xxvii Figura 9 Ausência de coleta regular de lixo. Bairro: Águas Nascentes. Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007 Figura 10 Acúmulo de lixo e entulho. Bairro Águas Nascentes. Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007 xxviii Figura 11 Cão com sinais clínicos de LV, apresentando caquexia, lesão ulcerada na pele e conjuntivite com secreção. Bairro Jardim Itapuã. Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007. xxix Figura 12 Cão com sinais clínicos de LV, apresentando lesão ulcerada no focinho e crescimento exagerado das unhas. Bairro Jardim Três Poderes. Fonte: WIMMER, H. C. R. 2007. xxx 4 DISCUSSÃO A LV é uma doença de notificação compulsória emergente na capital mato-grossense (MESTRE E FONTES, 2007). A ocupação de várias áreas (“grilos”) pela população provocou a destruição de ecótopos silvestres na faixa peri-urbana de Cuiabá, como observado nos bairros Jardim Itapuã e Jardim Três Poderes, estimulando a urbanização do vetor da LV. Segundo Rebêlo et al. (1999), a aproximação de certas espécies de flebótomos com áreas domiciliares pode ser uma conseqüência das alterações em seu ambiente natural, especialmente aquelas produzidas pelo homem. O inseto Lutzomyia longipalpis se desloca em busca de fontes alternativas de sangue e abrigo no ambiente peri-urbano, alimentando-se em uma grande variedade de hospedeiros, entre aves, o homem, e outros animais silvestres e domésticos (GRIMALDI et al., 1989). Missawa e Lima (2006) sugerem a participação de Lutzomyia cruzi na transmissão da LV em municípios de Mato Grosso. Esta espécie foi encontrada no Jardim Itapuã, enquanto que a L. longipalpis foi identificada no Jardim Três Poderes. Bevilacqua et al. (2001) chamaram a atenção para a importância da idade como fator de risco para a ocorrência da LV humana, atingindo primariamente crianças. Dentre os três casos de LV registrados na área do foco em Cuiabá, dois acometeram crianças de 4 e 6 anos, indicando que a transmissão da LV possa estar ocorrendo nos ambientes peridomiciliar e intradomiciliar, conforme constatados por Nascimento et al., 1996 e Silva et al., 2001. xxxi Sherlock (1996) observou na Bahia e em outras regiões do país que a pobreza, a desnutrição e a alta densidade de flebotomíneos, tanto no intradomicílio como no peridomicílio, estão associadas com elevada presença de animais domésticos, péssimas condições sanitárias e baixo nível sócio-econômico em áreas de transmissão da LV. A ocorrência de L. longipalpis tem sido amplamente associada ao aparecimento de casos humanos ou caninos de LV (SANTOS et al., 2003). A freqüência de cães sororreagentes para LV encontradas nos bairros pesquisados está de acordo com a encontrada no Brasil, que oscila entre 1,9% e 35% em diferentes estudos (EVANS et al., 1990, NUNES et al., 1991, FRANÇA SILVA et al., 2003). É possível que os números sejam maiores que os apresentados, já que em muitas regiões onde há ocorrência da doença os indivíduos acometidos têm pouco ou nenhum acesso ao sistema de saúde. Assim, os casos ocorreriam mas não seriam notificados. Embora seja uma doença de notificação compulsória no Brasil, não o é em outros países. Mas existe consenso em torno do fato que o número de casos de leishmaniose visceral deve ser maior do que os notificados e de que a sua incidência vem aumentando (BRASIL, 2006). Luz et al. (2001) alerta para o elevado custo social acarretado pela LV, medido em anos potenciais de vida perdidos, devido à maior ocorrência de óbitos em grupos etários mais jovens. A doença segue a trilha do crescimento desordenado e da pobreza, havendo a necessidade de associação do trabalho dos profissionais de saúde e do serviço público para que se possa resultar em benefício para a saúde pública. Para tanto, são necessários sensibilização e comprometimento político para combater as desigualdades sociais e a exploração da xxxii natureza e do trabalhador, e garantir o acesso ao saneamento, à infra-estrutura básica, à educação e aos serviços de saúde com qualidade. Os registros dos primeiros casos humanos de LV nos bairros vizinhos Jardim Três Poderes, Jardim Itapuã e Águas Nascentes, aliada à ocorrência de cães sororreagentes e à presença de vetores indicam a existência de um foco de LV na área, definindo esses bairros como prováveis portas de entrada desta protozoose em Cuiabá. xxxiii 5 CONCLUSÃO Considerando a procedência dos pacientes com LV, o grande número de cães positivos para a doença e a presença elevada de vetores definem os bairros Jardim Itapuã, Jardim Três Poderes e Águas Nascentes como áreas de transmissão recente da LV na faixa peri-urbana de Cuiabá, Mato Grosso. A ocorrência da leishmaniose visceral está associada às precárias condições econômicas e sociais das comunidades afetadas, conjuntura que se expressa e resulta em condições precárias de moradia e de baixos níveis nutricionais, prevalente em grande medida na periferia das grandes cidades. xxxiv 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVAR, j. Las leishmaniosis de la biologia al control. Centro Colaborador de la OMS para Leishmaniosis – Serviço de parasitologia – Centro Nacional de Microbiologia Instituto de Salud Carlos III. 2 ed. Madrid, 345p, 2001 ARIAS, J. R.; MONTEIRO, P.; ZICKER F. The re-emergence of visceral leishmaniasis in Brazil. Emerging Infect Dis. v. 2, p. 145-146, 1996. BEVILACQUA, P. D. et al. Urbanização da leishmaniose visceral em Belo Horizonte. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v. 53, n.1, 2001. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Manual de vigilância e controle da leishmaniose visceral. 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