Maria Carolina de GODOY (IC - CNPqlPffiIC)
Maria celia de Moraes LEONEL
(UNESP-Araraquara)
ABSTRAcr: In the course of time, many researches of narrative have dedicated
themself to the examination of the instance that "focalize" the narrate happenings. For
the analysis of the tale "Corpo fechado "by Guimariies Rosa, it privileged the studies of
Tzvetan Todorov (1986), Norman Friedman (1967) and Oscar Tacca (1983).
KEY WORDS: focus of narration, "f' as witness and polyphony
Este trabalho representa 0 inicio de uma investig~ao mais ampla a respeito das
categorias narrativas que constituem 0 conto "Corpo fechado" de Guimarii.es Rosa e
baseia-se em texto te6ricos de Tzvetan Todorov (1986), em As vozes do romance de
Oscar Tacca (1983) e na tipologia de Norman Friedman atraves da sfutese e adap~ao
acurada de Ligia C. M. Leite em 0 foco narrativo (1985).
Todorov mostra-se mais abrangente ao descrever as categorias que permitem a
distincao entre as especies de visao e nao se prende a descricao de cada visao em
particular. Seu estudo volta-se quantidade e qualidade das informacoes veiculadas,
incluindo a apreciacao feita dos acontecimentos.
A c1assificacao do narrador, proposta por Nonnan Friedman de maneira
sistematizada, lista oito tipos e mostra seu efeito nas narrativas que servem de exemplo.
Quanto ao estudo de O. Tacca, interessa a este trabalbo, principalmente, 0 conceito
de polifonia, considerado por esse autor como sendo de suma importincia para 0 estudo
do romance. Segundo Tacca, no romance pode-se perceber a voz do narrador isolada ou
ao lade de outras vozes. Uma narr~ao pode adotar 0 ponto de vista ou a consciencia de
um personagem sem assumir sua voz, restando apenas a voz do narrador. Mas, 0
romance pode apresentar uma polifonia que, segundo 0 autor, consiste nas diferentes
vozes que 0 narrador modula atraves da sua.
Esses estudos serao aproximados, quando possIvel, para a analise do conto
proposto.
a
a
Urn medico instala-se num arraial chamado Laginha e procura registrar suas
impressoes a respeito das pessoas e dos aconteeimentos do lugar. Mantem contato com
os habitantes e torna-se amigo de urn morador, Manuel Pula.
Entre uma cerveja e outra, Manuel Pula dialog a com 0 medico e the fala sobre os
valentoes do arraial, detendo-se, demoradamente, na descri~ao de Targino - 0 valentao
do momento. Aleen da apresenta~ao dos valentoes, Manuel Pula conta suas pr6prias
fa~anhas, enaltecendo-se por duas coisas: 0 sangue de Peixoto e a besta ruana Beija
Pull). A caracteristica marcante do protagonista e see contador de prosa e fanfarrao, 0
que se nota pelos exageros de suas est6rias.
Na realidade, Manuel Pula e descendente dos Veiga - gente humilde do arraial,
mas insiste em afirrn:ar que possui 0 sangue de Nha Peixoto - grande comerciante do
lugar.
o medico interessa-se pelas est6rias do fanfarrao que agu~am sua curiosidade.
Como, por exemplo, 0 contato que Pula teve com os ciganos.
Essas impressoes relatadas pelo medico constituem a primeica parte do con to, que
prepara a pr6xima etapa da hist6ria. 0 segundo momento inicia-se com 0 aparecimento
da noiva de Manuel Pula - a das Dor - e os preparativos para 0 casamento. A uniao e
amea~ada. quando surge 0 valentao Targino que manifest a desejo de ter a noiva antes
do casamento. Esse e 0 infcio da terceira etapa da hist6ria.
Diante do desejo de Targino e de sua facna de temido valentlio, 0 medico procura
ajuda entre as pessoas do arraial - 0 Coronel Melguerio e 0 Vigano - enquanto Manuel
Pula esconde-se na casa do amigo. Ninguem pode oferecer ajuda e, para agravar a
situa~ao, 0 subdelegado retira-se da cidade.
Surge 0 curandeiro-feiticeiro Antonico das Pedras ou Antonico das Aguas,
possuidor de uma sela mexican a e muito interessado em coloca-Ia numa besta ruana.
Esse homern com "alma de paje", em troca da mula Beija-Pulo, oferece ajuda ao
Manuel Pula. E aqui come~a a ultima etapa da hist6ria.
Ap6s longa discussao, sern que ninguem rnais pudesse ouvi-Ia. 0 curandeiro e 0
noivo trancam-se no quarto juntamente com alguns objetos: agulha, linha. prato fundo,'
cacha~a e bras a. Passado algum tempo, Targino aparece e Manuel Pula sai do quarto,
supostamente com 0 corpo fechado e sendo capaz de enfrentar e de matar 0 valentao
diante de todos. Manuel Pula, confiante no feiti~o, troca insultos com 0 valentao e
enfrenta os cinco tiros disparados por Targino. Tica uma faquinha do bolso e pula sobre
seu adversano, esfaqueando-o ate a morte.
Assim, Manuel Pula recebe-as gl6rias dos moradores do arraial, casa-se com a das
Dor e, de vez em quando, tern 0 privilegio de passear na Beija-Fula e gritar que tern
sangue de Peixoto.
As impressoes sobre 0 lugar onde ocorrem os fatos sao do narrador - 0 medico
mencionado apenas como Dr., que fixa resi~ncia no arraial. cuja paisagem e composta
de grllos, bezerros, pessoas a carninho da igreja, cavalos e valentoes. Atraves do relato
do medico, atento as est6rias de Manuel Pula, toma-se conhecimento das caracteristicas
dos personagens e do arraial:
Entlio foi que me mostraram 0 valentlio Targino. Era magro, feio, de cara
esverdeada (...) Agora, 0 Manuel FulO, este sim! Um sujeito pingadinho, quase
menino - "pepino que encorujou desde pequeno" - cara de bobo de fazenda do
segundo tipo (...). (ROSA, 1994: p.385)
Tudo e mostrado, de inicio, a partir do ponto de vista do medico que narra da
periferia dos acontecimentos, procurando observar de forma global 0 local e os
participantes dos fatos. Segundo a classific~ao de Norman Friedman, apresentada por
Ligia C. M. Leite, podemos considera-Io um narrador-testemunha, que
a
narra em primeira pessoa, mas e um "eu''ja interno narrativa, que vive os
acontecimentos a( descritos como personagem secundtiria que pode observar,
desde dentro, os acontecimentos, e, portanto da-los ao leitor de modo mais direto,
mais veross(mil. (LEITE, 1985: p.37)
Sobre 0 narrador-testemunha. e importante acrescentar que, ainda segundo
Friedman, seu atlgulo de visao e limitado, pois ele nao sabe 0 que se passa na mente dos
demais personagens, apenas pode inferir, la~ar hipoteses, servindo-se tambem de
informa~oes, de coisas que viu ou ouviu. (LEITE, 1985: p.37). Na aceWao de Todorov,
pode-se dizer que 0 narrador possui um conhecimento objetivo dos acontecimentos e
personagens e 0 seu angulo de visao e externo, descrevendo os atos do protagonista sem
incursao em seu pensarnento.
o narrador do conto obtem informa~oes atraves dos dialogos que mantem com
Fula e a alternancia entre ouvir ever e constante na narrativa. Assim, 0 medico cumpre
duplo papel, apresenta-se como personagem que ouve e depois participa dos fatos e
assume 0 papel de narrador ao contar as coisas que ouviu e viu. Predomina na maior
parte da narrativa, 0 discurso direto e, em alguns momentos, aparece 0 discurso
indireto. Delegando a voz ao protagonista dos fatos, 0 narrador diminui a distatlcia entre
o leitor e a personagem, tornando mais visivel a presen~a de Manuel Fula.
Pode-se dizer que ha vozes sobrepostas, inseridas umas nas outras, que aparecem
como discursos entrela~ados e que constr6em, segundo O. Tacca, a polijonia no
interior da narrativa. Acontece tal fato, por exemplo, quando a "fala" de Manuel Fula
pelo e narrativizada pelo narrador.
.
No in!cio do conto, 0 medico assume 0 papel de narrador e relata, em discurso
indireto, embora 0 verbo declarativo esteja ausente, a "fala" de Manuel Fula:
Jose Boi caiu de urn barranco de vinte metros; ficou com a cabeleira
enterrada no chilo e quebrou 0 pesco~o. (...). Voce 0 conheceu, Manuel FulO? Mas muito... Bom homem... Muito amigo meu. (ROSA, 1994:p.381)
Relatando a est6ria de Manuel Fula em discurso direto e indireto, 0 narrador
demostra desconfian~a em rel~ao as palavras do amigo, pedindo detalhes mais
apurados das est6rias. Hesitando, ainda, quanta a credibilidade que 0 discurso do
fanfarrao possa ter, busca maiores informa~oesentre as "pessoas respeitaveis".
Talvez pelo fato de as est6rias de Manuel Fula mostrarem-se urn tanto exageradas,
as vezes 0 nmador opta pela reprodu~ao das palavras do bravateiro, predominando 0
discurso direto, que da maior impressao de fidelidade. A credibilidade do leitor em
rela~ao ao narrador aumenta tambem a medida que toma contato com os dialogos entre
o narrador-testemunha e 0 protagonista, visto que 0 leitor e colocado em contato nao
apenas com os fatos, mas tambem com 0 pretenso discurso do pr6prio protagonista
desses "fatos". Nesses momentos, M estili~ao do falar sertanejo, com corruptelas
pros6dicas e express~ locais usadas de modo muito econam.ico, sem a mfnima
pretensao de transcr~i() documental:
Voce viveu com os ciganos,Manuel FulO?Me conta comofoi quefoi ...
Foi pOT causa que eu estava sem gosto p'ra c~ar serv~o bruto, naquele
tempo...Garrei a maginar: 0 que eu nasci mesmo p'ra saber fazer e neg6cio de
negociar .com animal. Mas eu queria ser 0 melhor de todos... (ROSA, 1994:
p.389)
- (...) Esse sujeitinho ainda vai teT de dan~ar de ceroula, seu doutor! ISlo
aqui e terra de gente brava...
- VeTdade, Manuel?
- Pade aprovar, seu doulor (...) (ROSA, 1994:p.383)
A hist6ria, na acewiio de Todorov e Genette, ou a fabula no sentido de
Tomachevski, com~a com a chegada do medico ao arraial e 0 inlcio da amizade entre
Manuel Pula e 0 medico. Apesar disso, 0 narrador destaca dentro do conto tres
momentos em que a sua hist6ria com~a. Pode-se afumar que, para 0 narrador, a
hist6ria registrada e 0 feiti~o • corpo fechado • lan~ado sobre 0 protagonista e que
nomeia 0 conto. As tres etapas destacadas sao as seguintes:
1a - Ao encontrar-se com a noiva das Dor e tomar conhecimento do casamento de
Manuel Pula, 0 narrador assim nos diz:
Ora pois, um dia, um meio-dia de mormac;o e modorra, grilaram "6 de
casal " e eu gritei "6 de fora!", e a{foi que a hist6ria come~ou.(ROSA, 1994:
p.387)
2a - Targino manifesta 0 desejo de passar uma noite com a noiva e, novamente,
narrador marca 0 inicio da hist6ria:
0
(...) Ate que assomou a porta da venda - feio como um defunto vivo,
gasturento como faca em nervo, esfriante como um sapo - sua Excelencia 0
Valentao dos Valentoes, Targino e Tal. E foi entao que a historia come{:ou.
(ROSA, 1994: p.396)
3a. - Antonico das Pedras aparece e, em troca da Beija-Pula, fecha
Manuel:
0
corpo de
e
Mas, de fato, cartas dada, a historia comec:amesmo aqui. Porque: era uma
vez um pedreiro Arttonico das Pedras ou Antonico das Aguas, que tinha alma de
paje( ...).(ROSA, 1994: p.399)
As frases "e ai foi que a hist6ria comecou", "E foi entao que de fato a hist6ria
comeeou" e "Mas, de fato, cartas dadas, a hist6ria comeea mesmo e_aqui." (grifos
nossos) evidenciam uma gradacao indicativa da proximidade do nucleo central da
hist6ria - 0 enfrentamento vitorioso de Manuel Pula em virtude do feitico, que dli nome
ao conto. Trata-se, portanto, de um narrador que quer a garantia da compreensao do que
narra e da importbcia dos fatos.
a contato entre 0 Dr. e as hist6rias contadas por Manuel Pula nada mais sao do
que uma preparacao para os acontecimentos posteriores. Instaurada a confianCa no
narrador, conhecedor das peripecias de Manuel para livrar-se dos problemas e, crente
no amor do protagonista pela mula e pela noiva, 0 leitor esta preparado para conhecer a
hist6ria presenciada e relatada pelo mewco-narrador.
Desde a chegada de Targino, 0 medico nao apenas assume a narrativa, mas passa a
relatar os fatos que ve e ainda de que participa. Torna-se personagem secundario da
mais importante peripecia de Manuel Pula, passando de ouvinte a participante dos
acontecimentos, procurando reproduzi-Ios, fieimente.
Como vimos, a primeira chegada de Targino tem por objetivo avisar Manuel Pula
da pretensao em ter a noiva do infeliz contador de bravatas. E 0 medico procura fazer
com que Manuel Fula defenda a pr6pria honra, do que 0 protagonista procura esquivarse:
- Bem, mas se 0 sangue de Peixoto e bom mesmo para ferver, voce vai
preparar as armas, para en/rentar 0 Targino amanhii, na hora da badema, niio
vai?
- Pois sera que nem 0 senhor e mais meu amigo? Esta querendo a minha
morte? Qualquer outro eu escorava mesmo, mas 0 Senhor niio sabe que esse
Targino eo valentao?!... (ROSA, 1994: p.397)
Nao se pode saber se foi por arnor a das Dor, por honra ou por qualquer que seja 0
motivo. mas 0 fato e que Manuel entrega Beija-Fula em troca de urn provavel feitico
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para fechar seu corpo. Com esse suposto feiti~o. nao s6 mata 0 valentao Targino. como
tambem ganha a admira~ao e 0 respeito do povo do lugar. Todo 0 epis6dio e narrado
pelo mMico. preocupado em afirmar que os acontecimentos foram vistos e nao apenas
ouvidos:
Vi-lhe um brilho estrito nos olhos.( ...) E vi tambim 0 Antonico das Pedras,
lampeiro ejagueiro, perguntando pela Beija-FulO. Eu me debrucei um pouco pela
janela. Cruzaram-se os insultos. (ROSA, 1994: p.400)
E importante destacar que 0 narrador nao se limita apenas a contar, objetivamente,
os fatos, mas acrescenta suas observacoes e impressoes.
No momenta dos tiros 0 narrador-testemunha isenta-se da responsabilidade de
assumir a eficacia do feiti~o, mas nao deixa de revelar a impressao que lhe causou a
destreza de seu protegido:
Eu tirei a cara da janela, e s6 ouvi as balas, que assoviaram, cinco vezes,
rua a/ora (...). E quando espiei outra vel. vi exato: Targino,jixo um manequim, e
Manuel Ful6 pulando nele e 0 esfaqueando, pela altura do peito - Tudo com rara
elegtincia e sumaprecisiIo. (ROSA, 1994: p.400)
Nessa oportunidade, 0 narrador nao "viu", apenas "ouviu" os disparos. E possivel
dizer que uma testemunha pode estar mais certa acerca dos epis6dios que relata, quando
atesta aquilo que viu e nao apenas aquilo que ouviu. De toda maneira, 0 narrador nao
confrrma a chegada dos tiros ate Manuel, deixando duvidas quanto ao feit~o. Conseguese, assim, urn efeito especial na narrativa - de credibilidade - atraves da narracao do
medico que, enquanto testemunha, apresenta 0 ouvir nos primeiros momentos e 0 ouvir
e 0 ver no epis6dio nuclear.
RESUMO: Ao longo do tempo, varios estudiosos da narrativa tem-se dedicado ao
exame da instlJncia que "/ocaliza" e relata os acontecimentos narrados. Para analise
do conto "Corpo jechado" de GuimariIes Rosa; privilegiaram-se os estudos de Tzvetan
Todorov (1986), Norman Friedman(1967) e Oscar Tacca (1983).
PALAVRAS-CHA VB : foco narrativo, narrador testemunha e polifonia
LEITE, L.C.M. (1985) 0 loco PlQmativo. Sio Paulo: Atica (serie prindpiO.t)
ROSA, 1. G. (1994).In: __
.Ficf80 compl.ta. Rio 1aneiro: Nova Aguilar. v. 1 p.197-462.
TACCA, O. (1983). Pr61080, Introdu~ e Olhar, collllciSncia e VOL In:__
de M. C. Gouveia. Coimbra: AJmedinL
.
TODOROV. T. (1986). 0 upeeto verbal: vis6es.
TecremL p.49-61.
536
VOL
10:__
. As vozes do romanc •• Trad.
. POitictJ. Trad. C. da V. Pem:irL Lisboa: