CARDEAL MOTTA: O PIONEIRISMO DO PRIMEIRO BISPO DE APARECIDA BIOGRAFIA DE CARLOS CARMELO DE VASCONCELOS MOTTA A ORIGEM Nasceu na fazenda Quinta do Lago, em Bom Jesus do Amparo, interior de Minas Gerais, em 16 de julho de 1890, onde os pais tinham ido em visita de família. Seus pais foram o Sr. João de Vasconcellos Teixeira da Motta e Dona Francisca Josina dos Santos Motta, católicos praticantes e descendentes de tradicionais famílias mineiras. Foram seus avós paternos: o Coronel Joaquim Camilo Teixeira da Motta e Dona Maria Josefa Teixeira da Motta, e avós maternos: o Sr. Carlos José dos Santos e Dona Emerenciana Maria Pinto (ARQUIDIOCESE DE APARECIDA, 1990, p. 14). Nascido prematuramente, aos sete meses, foi batizado em 2 de agosto de 1890, na Fazenda da Prata, residência da família, pelo padre Manuel Maria da Silva. Foram padrinhos: o Dr. Carlindo dos Santos Pinto, representado pelo Sr. José Afonso dos Santos Lima e Dona Maria da Natividade Teixeira da Motta. Seu pai foi deputado à Assembléia Provincial de Minas Gerais, durante o Império. Seu avô, Coronel Joaquim Camilo Teixeira da Motta, exerceu a presidência da Província de Minas Gerais. Seu bisavô, Coronel João da Motta Ribeiro, português, chegou ao Brasil em 1795, acompanhado de seu primo João Alves Motta, para receberem uma herança em terras, deixada por um tio. João da Motta Ribeiro tornou-se proprietário de muitos latifúndios e de importantes jazidas de ouro. O Desembargador Dr. José Teixeira de Vasconcellos, Visconde de Caeté, também seu bisavô, foi o primeiro Presidente Constitucional da Província de Minas Gerais (ARQUIDIOCESE DE APARECIDA, 1990, p. 15). Carlos Carmelo iniciou os seus estudos na Fazenda da Prata, residência da família, onde também recebeu a Primeira Comunhão. Concluído o curso primário, ingressou no Colégio de Matozinhos, em Congonhas do Campo, Minas Gerais, na época dirigido pelos Irmãos Maristas. Em 1904, passou para o Seminário de Mariana, Minas Gerais, onde se bacharelou em Ciências e Letras, em 1909. Regressou, então, para a Fazenda da Prata, onde passou a se dedicar às atividades agrícolas (ARQUIDIOCESE DE APARECIDA, 1990, p. 15-16). Estudava muito para saber. Pois um homem sem saber é um pequeno mundo sem luz, um mundo em que não aparecem as estrelas, porque se ignoram as verdades; em que não se vêem os princípios porque se não conhecem os enganos; em que o vício se equivoca com a virtude, a realidade com a aparência. Eis porque a vida de um ignorante é uma noite contínua em que todas as suas ações são cegueiras (VIDIGAL, 1973, p. 30). O POLÍTICO Seguindo o exemplo de seu pai, manifestou interesse pela política, sendo eleito vereador para a Câmara Municipal de Caeté, em 1912. Entretanto, resolveu continuar os seus estudos, seguindo para Belo Horizonte, onde cursou o primeiro ano da Faculdade de Direito (ARQUIDIOCESE DE APARECIDA, 1990, p. 16). O PADRE Sentindo-se, realmente, chamado para o sacerdócio, se matriculou no Curso de Teologia do Seminário Maior de Mariana, Minas Gerais, em 1914. Em março do ano seguinte, recebeu o primeiro grau do clericato. Dom Modesto Vieira, Bispo Auxiliar de Mariana, conferiu-lhe as ordens menores, em 8 de abril de 1916. Em 25 de março de 1917, recebeu o subdiaconato, e o diaconato em 10 de abril do mesmo ano. Em 29 de junho de 1918, foi ordenado sacerdote pelo Arcebispo de Mariana, Dom Silvério Gomes Pimenta. Conforme escreve Vidigal: “Saiu do Seminário de Mariana com aquele espírito de Fé e de Caridade que faz os Santos Padres e que anuncia os grandes Bispos, e preparou o futuro Cardeal, o primeiro nascido em Minas Gerais” (1973, p. 31). O Padre Carlos Carmelo celebrou a sua primeira missa na Matriz do Santíssimo Sacramento, na Paróquia de Taquarassú, Minas Gerais. Logo após, recebeu um convite do Presidente Wenceslau Braz e de líderes da política mineira, para que aceitasse o lançamento de sua candidatura para deputado federal. Alegando incompatibilidade entre política e ministério sacerdotal, não aceitou o convite. Continuou em Taquarassú, na qualidade de Coadjutor do Vigário, até 29 de março de 1919, quando foi nomeado Capelão do tradicional Asilo São Luiz, na Serra da Piedade, em Caeté, Minas Gerais (VIDIGAL, 1973, p. 32). Durante o surto da chamada “gripe espanhola”, desenvolveu importante apostolado entre os enfermos, colocando em risco a sua própria saúde. Em 1922, assumiu a direção do Santuário de Nossa Senhora da Piedade e do Convento de Macaúbas, dos quais seus ascendentes paternos e maternos foram benfeitores e protetores. Nos anos seguintes foi pároco nas cidades mineiras de Caeté e Sabará (VIDIGAL, 1973, p. 32). Em 1926, empreendeu uma viagem de estudos à Europa, visitando Roma (Itália), Espanha, Portugal e França. Quando regressou, foi agraciado pelo Papa Pio XI, com as honras de Monsenhor Camareiro Secreto. Com a fundação do Seminário de Belo Horizonte, em 1928, foi convocado por Dom Antônio dos Santos Cabral, Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, para ocupar a reitoria daquele estabelecimento. O então Monsenhor Carlos Carmelo dirigiu o Seminário até a sua ordenação episcopal (VIDIGAL, 1973, p. 32). O BISPO Em 29 de julho de 1932 foi eleito Bispo Titular de Algiza e Auxiliar do Arcebispo de Diamantina, Dom Joaquim Silvério de Souza. Em 30 de outubro de 1932, durante a festa de Cristo Rei, foi sagrado Bispo por Dom Antônio dos Santos Cabral, na Matriz de São José, em Belo Horizonte (VIDIGAL, 1973, p. 52). Dom Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta escolheu para lema de seu episcopado as palavras do Apóstolo São João: In Sinu Jesu (No Coração de Jesus), referindo-se à passagem da Última Ceia: “Um dos discípulos, ao qual Jesus amava, estava recostado no coração de Jesus” (Jó 13, 23) (VIDIGAL, 1973, p. 52). Em seu trabalho pastoral na Arquidiocese de Diamantina, visitou as mais distantes igrejas e capelas daquele Arcebispado, e providenciou a reforma da nova Sé. Foi eleito Vigário Capitular da Arquidiocese, governando-a até 11 de novembro de 1934, em virtude do falecimento do Arcebispo. Posteriormente, voltou para Belo Horizonte, onde auxiliava Dom Antonio dos Santos Cabral nas visitas pastorais (VIDIGAL, 1973, p. 52). O ARCEBISPO No Consistório de 16 de dezembro de 1935, foi nomeado Arcebispo Metropolitano de São Luís do Maranhão, assumindo o governo eclesiástico em 27 de abril de 1936. O seu primeiro ato foi estabelecer o retiro espiritual do clero (VIDIGAL, 1973, p. 53-54) Em 1937, realizou e presidiu o Congresso Eucarístico Sacerdotal de Caxias, Maranhão. Mudou do Palácio Arquidiocesano, nele instalando um colégio, dirigido pelos Irmãos Maristas, e passou a residir em uma casa modesta, com a finalidade de se aproximar da vida cotidiana do povo. Aprofundou o contato com os maranhenses, para possibilitar conhecer seus anseios e dificuldades, o que conquistou a admiração da população (VIDIGAL, 1973, p. 54) Em suas visitas pastorais, percorreu todo o Arcebispado, procurando visitar todas as paróquias. Devido à precariedade das vias de acesso, utilizou vários meios de transporte, até mesmo o cavalo. Na cidade de Coroatá, crismou cerca de sete mil pessoas, durante nove horas consecutivas. Ajudou na fundação de um hospital para doentes portadores de hanseníase (lepra) no Maranhão (VIDIGAL, 1973, p. 56) Em 1938, trouxe para a sua Arquidiocese as primeiras religiosas Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo e os Padres da Congregação da Missão da Província Holandesa. Em 1939, esteve presente no Concílio Plenário Brasileiro, que adotou diversas das suas medidas apostólicas. Pouco depois, viu realizado o seu duplo projeto, ou seja, a criação da Diocese de Caxias e da Prelazia de Pinheiros, desmembradas da Arquidiocese de São Luiz (VIDIGAL, 1973, p. 54) Antes da criação da Diocese de Caxias, conseguiu a colaboração das Irmãs Franciscanas, que ali fundaram o Colégio São José. Em 1941, restaurou o Cabido Metropolitano de São Luís. Em 1943, por ocasião de seu jubileu de prata sacerdotal, realizou a primeira Conferência dos Bispos da Província Eclesiástica do Maranhão, após a qual escreveu uma Pastoral Coletiva ao povo. Nesse mesmo ano, intercedeu junto ao Ministro da Justiça e ao Presidente da República, contra a campanha a favor do divórcio (VIDIGAL, 1973, p. 56) A obra em que se empenhou com dedicação foi a ampliação das dependências do Seminário, para acolhimento dos estudantes pobres. Reformou a Catedral, a Câmara Eclesiástica e diversas igrejas. Durante o seu governo eclesiástico criou vinte paróquias (VIDIGAL, 1973, p. 56) Em 13 de agosto de 1944, Dom Carlos Carmelo foi nomeado Arcebispo Metropolitano de São Paulo, tomando posse na Arquidiocese, por procuração, em 7 de setembro do mesmo ano. Em 16 de novembro, assumiu efetivamente o cargo, após haver dirigido sua primeira Carta Pastoral ao povo paulistano (VIDIGAL, 1973, p. 57) O CARDINALATO DE CARLOS CARMELO DE VASCONCELOS MOTTA No Consistório de 18 de fevereiro de 1945, presidido pelo Papa Pio XII, na Basílica de São Pedro, Dom Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta, foi nomeado Cardeal Presbítero da Santa Igreja Romana, do título de São Pancrácio. No dia 20 de fevereiro, recebeu o barrete de Cardeal e no dia seguinte, o chapéu e o anel cardinalícios. No dia 26 do mesmo mês, recebeu das mãos do Santo Padre, o pálio arquiepiscopal (VIDIGAL, 1973, p. 60) As qualidades sólidas e brilhantes de Dom Carlos, mais sólidas do que brilhantes, o recomendaram a PIO XII para ser o segundo Cardeal brasileiro, quando já estava governando a Arquidiocese de São Paulo, substituindo aquele outro grande mineiro que foi Dom José Gaspar D’Affonseca e Silva (VIDIGAL, 1973, p. 35-36) O CARDEAL MOTTA NA ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO Em 1946, fundou a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, da qual foi o Grão-Chanceler. Sob sua direção e orientação, a universidade tornou-se uma instituição de prestígio, com mais de dez mil alunos e doze faculdades. Essa iniciativa acabou influenciando a criação da Universidade Católica de Campinas. Também incentivou a fundação de inúmeros educandários de Curso Primário, Secundário e Normal (VIDIGAL, 1973, p. 62-63) Dia virá em que o Brasil, que tantos benefícios deve à Igreja, haverá de ajuntar ao montante dos maiores já recebidos, mais estes inestimáveis das Universidades Católicas, no meio das quais se agiganta a que o Eminentíssimo Cardeal Motta fundou e vem mantendo para destruir a superstição do Cientificismo que está arruinando a instrução superior, muitas vezes atulhando a cabeça do estudante de fragmentos desconexos de informação, ao invés da Sabedoria, que constitui o único verdadeiro conhecimento (VIDIGAL, 1973, p. 39). Em 1948, organizou a Confederação das Famílias Cristãs, tendo como objetivo a restauração dos fundamentos da sociedade cristã. Preocupado com a escassez do clero diocesano, implantou o Seminário de Vocações Adultas. Reformou e ampliou o Seminário Central e Menor, implantou a Pontifícia Faculdade de Teologia e intensificou a Obra das Vocações Sacerdotais. Desenvolveu o ensino catequético e o apostolado dos leigos, por meio da Ação Católica (VIDIGAL, 1973, p. 62) Em outubro de 1952, se destacou na fundação e organização da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da qual foi o primeiro Presidente, cargo que ocupou por sete anos (VIDIGAL, 1973, p. 60) Coube ao Cardeal Motta a tarefa de continuar a construção da Catedral da Sé. Dirigiu a campanha para levantar as torres do templo, cuja inauguração ocorreu em 1954, durante as comemorações do IV Centenário de São Paulo. Nesse mesmo ano, criou a Diocese de Santo André, desmembrada da Arquidiocese de São Paulo (VIDIGAL, 1973, p. 60) Ainda em 1954, realizou em São Paulo, o Primeiro Congresso Nacional da Padroeira do Brasil. No dia 7 de setembro, por ocasião do término do Congresso, o Papa Pio XII enviou especial rádio-mensagem sobre o culto de Nossa Senhora Aparecida, que foi ouvida por uma multidão estimada em mais de um milhão de fiéis, na colina histórica do Ipiranga, local da Independência do Brasil. Em março de 1956, fundou a Rádio Nove de Julho e o jornal “O São Paulo”, para a divulgação dos princípios cristãos. Entusiasta dos estudos bíblicos, criou uma comissão de especialistas em Sagradas Escrituras, para a tradução da Palavra de Deus, para o vernáculo, segundo o texto original (VIDIGAL, 1973, p. 60) Com aprovação do Papa Pio XII, lançou a Cruzada Pró-Dia Universal de Ação de Graças. No mesmo ano, convocou e dirigiu o Congresso Nacional das Vocações Sacerdotais, com a presença de mais de cem Bispos (VIDIGAL, 1973, p. 60) Em 1961, realizou campanha pela construção do Auditório da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Em 1962, criou a circunscrição eclesiástica de Mogi das Cruzes, desmembrada da Arquidiocese de São Paulo. Em carta de 22 de março de 1964, solicitou ao Papa Paulo VI, que, em virtude de a sua “idade muita e saúde pouca”, o exonerasse do Arcebispado de São Paulo, e o transferisse para a Arquidiocese de Aparecida, já sob o seu governo de Administrador Apostólico. Em 19 de abril de 1964 é transferido para o Arcebispado de Aparecida (VIDIGAL, 1973, p. 73) Em seus vinte anos como Arcebispo Metropolitano de São Paulo, criou mais de cem novas paróquias. O Arcebispado de São Paulo se transformou na maior Arquidiocese de todo o mundo católico (VIDIGAL, 1973, p. 57) O CARDEAL MOTTA NA ARQUIDIOCESE DE APARECIDA Em 29 de junho de 1964, o Cardeal Motta toma posse como o primeiro Arcebispo Metropolitano de Aparecida. Desde que assumiu o governo eclesiástico de São Paulo, o Cardeal Motta havia manifestado um especial interesse pela promoção do culto à Nossa Senhora Aparecida. Em janeiro de 1946, escolheu pessoalmente o local para construção da nova Basílica Nacional de Nossa Senhora Aparecida. “Subindo em uma rocha que se destacava no Morro das Pitas, no bairro da Ponte Alta, tendo de um lado o arquiteto Benedito Calixto de Jesus Neto, autor da planta do majestoso Templo e, de outro, o Padre Geraldo Pires de Souza, então Provincial da Congregação do Santíssimo Redentor, deixou-se fotografar, afirmando: Aqui ficará o altar central”. O lançamento da pedra fundamental dos alicerces do novo templo foi em 10 de setembro de 1946, pelas mãos do Cardeal Patriarca Dom Manuel Gonçalves Cerejeira, que trouxera um punhado de terra do Santuário de Fátima, para depositar no cofre da pedra angular (ARQUIDIOCESE DE APARECIDA, 1990, p. 25) No lugar em que o povo brasileiro, durante mais de 250 anos, vem recebendo os maiores benefícios, as maiores graças do Pai do Céu, por intermédio de Maria, Mãe de Jesus, Sua Eminência o Sr. Cardeal Motta está construindo o segundo maior Templo da Cristandade: a Basílica de Nossa Senhora Aparecida (VIDIGAL, 1973, p. 74). Em 30 de junho de 1949, em Roma, a planta da nova Basílica Nacional foi aprovada pela Comissão Pontifícia de Arte Sacra. A área total coberta do novo santuário é de 18.000 metros quadrados, podendo abrigar 32.000 pessoas. Sob a orientação pessoal do Cardeal Motta, de 1952 até 1954, executaram-se os trabalhos de adaptação do local da nova Basílica. Em 11 de novembro de 1955, teve início a construção propriamente dita. E iniciando a construção da nova Basílica de Nossa Senhora Aparecida, na Cidade de Aparecida do Norte, irá fazer dela a segunda Igreja do mundo em tamanho e beleza, inferior somente à de São Pedro, em Roma, e bem maior que a de São Paulo, em Londres, e que as catedrais de Paris e de Viena, de Colônia e de Milão (VIDIGAL, 1973, p. 40) Por sua sugestão e solicitação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a fixação da data de 12 de outubro para a festa litúrgica de Nossa Senhora Aparecida foi aprovada pela Santa Sé, por decreto de 5 de setembro de 1953. No dia 18 de abril de 1958, o Papa Pio XII criou a Arquidiocese de Aparecida. No pontificado do Papa João XXIII, deu-se a instalação da nova Arquidiocese, em 8 de dezembro de 1958. O Cardeal Motta, então Arcebispo Metropolitano de São Paulo, em 15 de novembro do mesmo ano, foi nomeado Administrador Apostólico de Aparecida, com plenos poderes de Bispo Residencial. Procurando atender o anseio do povo brasileiro, autorizou que a imagem autêntica de Nossa Senhora Aparecida percorresse o imenso território nacional, para receber as homenagens de fé dos brasileiros. A imagem peregrinou cerca de 50.000 quilômetros, em todas as direções, visitando mais de 2.000 cidades e localidades. Criou no Arcebispado de Aparecida uma rádio-emissora, a Rádio Aparecida, com o propósito de propagar a catequese dos fiéis, e difundir a devoção à Nossa Senhora Aparecida (ARQUIDIOCESE DE APARECIDA, 1990, p. 24) No ano de 1967, por motivo do 250º. Aniversário do início do culto à Nossa Senhora Aparecida, o Papa Paulo VI, atendendo solicitação do Cardeal Motta, concedeu Indulgência Plenária, em forma de Jubileu, da forma de costume, a todos fiéis que peregrinassem ao Santuário Nacional, em visita à imagem de Nossa Senhora Aparecida. Em 1967, o Papa Paulo VI enviou o sacramental da Rosa de Ouro ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, como forma de vincular o culto de Nossa Senhora Aparecida à Santa Sé Apostólica e à pessoa do Santo Padre (ARQUIDIOCESE DE APARECIDA, 1990, p. 24) O Cardeal Motta intercedeu junto ao Governo Federal, para a construção de uma ponte, ligando a velha à nova Basílica. Iniciada no governo do general Arthur da Costa e Silva, foi concluída em 1971, durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici, na gestão de Mário Andreazza no Ministério dos Transportes (ARQUIDIOCESE DE APARECIDA, 1990, p. 24) Em 4 de julho de 1980, o Papa João Paulo II, em visita ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, consagrou a nova Basílica, cumprindo previsão do Cardeal Motta. Em sua saudação ao Cardeal Motta, durante almoço no Seminário Bom Jesus, o Papa disse: “Minha visita a Aparecida não estaria completa se faltasse este encontro, mesmo breve. Vossa Eminência está ligado a este lugar sagrado não somente por quase 20 anos de pastoreio, mas também pelas vultosas obras que trazem a marca de sua atividade e a maior delas é certamente a majestosa Basílica que, com emoção de todos nós, tive a alegria de consagrar esta manhã” (ARQUIDIOCESE DE APARECIDA, 1990, p. 25) Com quase 90 anos de idade, sofre um acidente em que fratura o fêmur, tendo que se submeter a uma cirurgia em São Paulo. A partir de então, sua saúde passa a ficar cada vez mais debilitada. Dom Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta morreu no dia 18 de setembro de 1982, aos 92 anos de idade, na Santa Casa de Aparecida (ARQUIDIOCESE DE APARECIDA, 1990, p. 29-30) OUTRAS INICIATIVAS DO CARDEAL MOTTA Em 20 de setembro de 1956, data escolhida em homenagem ao centenário de nascimento de seu pai, o Cardeal Motta tomou posse como membro do Instituto Histórico e Geográfico do Estado de Minas Gerais (ARQUIDIOCESE DE APARECIDA, 1990, p. 28). Em 3 de maio de 1957, celebrou a primeira Missa em Brasília, atendendo convite do Presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira. Na ocasião, pronunciou uma oração cívico-patriótica, sobre o significado nacional e a filosofia de ação da nova capital do Brasil, e presenteou as autoridades com uma imagem fac-símile de Nossa Senhora Aparecida, que havia sido venerada em todos os Estados e Territórios do país, para ser colocada na futura Catedral. Foi o Cardeal Motta quem escolheu, pessoalmente, o nome de Brasília para ser a nova capital federal da Nação (ARQUIDIOCESE DE APARECIDA, 1990, p. 21) Inspirou a construção das rodovias Belém-Brasília e Cuiabá-Santarém, às margens das quais vão nascendo os núcleos demográficos para o desbravamento da região Amazônica (ARQUIDIOCESE DE APARECIDA, 1990, p. 22). Na qualidade de Cardeal, participou de dois conclaves, dos quais saíram eleitos os Papas João XXIII (1958) e Paulo VI (1963), e participou das duas primeiras sessões (1962-1963) do Concílio Vaticano II (ARQUIDIOCESE DE APARECIDA, 1990, p. 19). Em 06 de maio de 1971, foi empossado na Academia Mineira de Letras, ocupando a vaga deixada por Augusto de Lima Júnior (ARQUIDIOCESE DE APARECIDA, 1990, p. 28). CONCLUSÃO A origem do Cardeal Motta nos revela a política como vocação hereditária de sua família, direcionando-o para o Curso de Direito e para cargos públicos, que ocupa até se sentir definitivamente arrebatado pela fé. Podemos concluir que essa estreita convivência com a política, contribui para que, dentro da estrutura da Igreja Católica Romana, ele tivesse uma consistente ascensão, ocupando cargos de relevância, como, por exemplo, primeiro presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Cardeal das Arquidioceses de São Paulo e Aparecida. Por onde passou, o Cardeal Motta revelou a visão pioneira que norteou sua vida dedicada à Igreja e aos ideais de progresso. O nosso trabalho convida a uma reflexão sobre a importância de Dom Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta para a Igreja, e até que ponto as afinidades e os encontros havidos com os governantes brasileiros, em especial com o presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, teria favorecido sua trajetória de bons e grandes serviços prestados à Igreja Católica no Brasil. Esta é uma questão instigante, que carece de aprofundamento, podendo se constituir em tema para novas pesquisas. REFERÊNCIAS ARQUIDIOCESE DE APARECIDA. Reminiscências. São Paulo: 1990. BARROS, Edgar Luiz de; PINSKY, Jaime (Coord.). A Guerra Fria. Campinas: UNICAMP, 1988. ____________________; PINSKY, Jaime (Coord.). Os Governos Militares: São Paulo: Contexto, 1991 (Coleção Repensando a História). BOJUNGA, Cláudio. JK: O Artista do Impossível. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. BUENO, Eduardo. História do Brasil. 2ª. ed. São Paulo: Folha da Manhã e Zero Hora/RBS Jornal, 1997. FICO, Carlos. “O Brasil no contexto da Guerra Fria: democracia, subdesenvolvimento e ideologia do planejamento (1946-1964)”. In: MOTA, Carlos Guilherme (Org.). Viagem Incompleta: A Experiência Brasileira (1500-2000). Vol. I - A Grande Transação. São Paulo: SENAC, 2000. FREIXINHO, Nilton. Instituições em Crise: Dutra e Góes Monteiro – Duas Vidas Paralelas. Rio de Janeiro: Exército, 1997 (Coleção General Benício, vol. 330). MAINWARING, Scott. A Igreja Católica e a Política no Brasil (1916-1985). São Paulo: Brasiliense, 1989. PAULO NETTO, José. “Em busca da contemporaneidade perdida: a esquerda pós-64”. In: MOTA, Carlos Guilherme (Org.). Viagem Incompleta: A Experiência Brasileira (1500-2000). Vol. I - A Grande Transação. São Paulo: SENAC, 2000. SALLUM JR., Brasílio. “A condição periférica: o Brasil nos quadros do capitalismo mundial (1945-2000)”. In: MOTA, Carlos Guilherme (Org.). Viagem Incompleta: A Experiência Brasileira (1500-2000). Vol. I - A Grande Transação. São Paulo: SENAC, 2000. VIDIGAL, Pedro Maciel. O Cardeal de Vasconcellos Motta. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1973. VIEIRA, Evaldo. Brasil: do golpe de 1964 à redemocratização. In: MOTA, Carlos Guilherme (Org.). Viagem Incompleta: A Experiência Brasileira (1500-2000). Vol. I – A Grande Transação. São Paulo: SENAC, 2000. BRASÃO E LEMA Descrição: Escudo eclesiástico, partido: o 1º de sinopla, com cinco flores-de-lis de jalde postas em sautor Armas dos Mottas; o 2º de sable com três faixas veiradas de argente e goles - Armas dos Vasconcellos. O escudo está assente em tarja branca, na qual se encaixa o pálio branco com cruzetas de sable. O conjunto pousado sobre uma cruz trevolada de duas travessas de ouro. O todo encimado pelo chapéu eclesiástico com seus cordões em cada flanco, terminados por quinze borlas cada um, tudo de vermelho. Brocante sob a ponta da cruz um listel de goles com a legenda: IN SINV IESV, em letras de jalde. Interpretação: O escudo oval obedece as regras heráldicas para os eclesiásticos. Os campos representam as armas familiares do Cardeal. O Campo de sinopla (verde) representa: esperança, liberdade, abundância, cortesia e amizade. As flores-de-lis simbolizam: candura, castidade, pureza, poder e soberania, sendo de jalde (ouro) traduzem: nobreza, autoridade, premência, generosidade, ardor e descortínio. No 2º, o esmalte sable (negro) do campo simboliza: a sabedoria, a ciência, a honestidade, a firmeza e a obediência ao Sucessor de Pedro; as faixas veiradas representam as pontas de peles variadas que ornavam os mantos da ·nobreza, sendo que pelo seu metal argente (prata) simboliza a inocência, a castidade, a pureza e a eloqüência, virtudes essenciais num sacerdote; e, pela sua cor goles (vermelho), simboliza o fogo da caridade inflamada no coração do Cardeal pelo Divino Espírito Santo, bem como, valor e socorro aos necessitados. O listel tem como lema: No Seio (Coração) de Jesus, sendo uma afirmação da confiança do cardeal na promessa de Jesus, de quem nEle espera jamais será confundido. Wanderley Alves dos Santos é graduado em História pela UNITAU