Alex Fernandes Bohrer
IMAGINÁRIO DA PAIXÃO DE CRISTO
Cultura Artística e Religiosa nos Séculos XVIII e XIX no Alto Rio das
Velhas
MONOGRAFIA DE BACHARELADO
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO
■.
Mariana, 2004.
Alex Fernandes Bohrer
IMAGINÁRIO DA PAIXÃO DE CRISTO
Cultura Artística e Religiosa nos Séculos XVIII e XIX no Alto Rio das
Velhas
Monografia apresentada ao Curso de História
da Universidade Federal de Ouro Preto como
parte dos requisitos para a obtenção do grau de
Bacharel em História.
Orientador; Profª. Drª. Adalgisa Arantes
Campos.
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
INTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO
Mariana, 2004.
2
Ao Povo de Cachoeira, Casa Branca e São Bartolomeu,
cuja devoção religiosa nos legou cultura tão rica.
3
RESUMO
Em Minas colonial o ‘homem barroco’ deixou seus ‘ossos’ por toda
parte. Desde os centros urbanos de maior burburinho cultural e intelectual até os
pequeninos povoados dominados por pitorescas capelas coloniais, todos são
testemunhas de um mundo barroco nascido na distante Europa e miscigenado
em solo americano. A proximidade regional que temos desses vestígios
esconde algo mais que um presente da geografia. Há entre nós e eles (os
‘homens barrocos’) certa afinidade histórica. Na mente do homem moderno que
habita as mesmas Minas - que nos legaram obras dignas da melhor arte
humana - habitam vestígios do período colonial, gestados pelo barroco
‘adaptado’ dos mineiros, formando (e ‘re-formando’) um estado mental típico.
As manifestações religiosas ligadas à Paixão de Cristo são parte deste
legado. O estudo do Imaginário da Paixão na ‘Minas Barroca’ - tendo a região
do Alto Rio das Velhas, nas proximidades da velha capital colonial, como
recorte espacial (Cachoeira do Campo, São Bartolomeu e Casa Branca,
especificamente) - é o alvo desta monografia. A Paixão presente nos espaços
religiosos (igrejas e capelas), nos espaços públicos (cruzes e cruzeiros de
martírio), nas mentalidades (as celebrações da Semana Santa e a Adoração da
Cruz, por exemplo) será, então, nosso objeto.
ABSTRACT
In colonial Minas the ‘baroque man’ left his ‘bones’ for everywhere.
Since the urban centers of greater cultural and intellectual murmur until the
teeny towns dominated for picturesque colonial chapels, all are witnesses of a
baroque world born in the distant Europe and mixed in American ground. The
regional proximity that we have of these vestiges hides something more than
a geography gift. There is a cultural proximity and a historical affinity
between them (the ‘baroques men’) and us. In the imaginary of the modern man
who inhabits the same Minas (Mines) - that bequeathed us worthies masterpieces
of the best human art - inhabits legacies vestiges in the colonial period,
generated by the ‘adapted’ baroque of mineiros (miners), modelling (and
‘remodelling’) a peculiar imaginary, a typical mental state.
The Imaginary connected to the Passion of Christ id one of these
lIegacies - one among several, but so complex as the others. The study of the
Imaginary of the Passion in the Baroque Minas (Mines) - having the region of
the Alto Rio das Velhas (Old Woman High River), in the neighborhoods of the
old colonial capital, as space clipping (Cachoeira do Campo, São Bartolomeu
and Casa Branca, specifically) - is the aim of this monograph. The Passion
presents in the religious spaces (churches and chapeis), in the public spaces
(crosses and cruises of the martyrdom), in the mentalities (the ceíebrations of
the Saint Week and the Cross adoration, for example) is, then, our object.
4
SUMÁRIO
Lista de ilustrações...................................................................................................................VI
Apresentação..........................................................................................................................7
1.“Paixões” Mestiças: Diálogo com a Reinvenção..................................................................10
2.A Região
do Alto Rio das Velhas no Contexto Histórico Mineiro...................................14
2.1.Cachoeira do Campo.............................................................................................................16
2.2.São Bartolomeu.................................................................................................................17
2.3.Glaura (Casa Branca)................................................................................................19
3. A Paixão de Cristo no Espaço Público: As Rotas Processionais e as ViasSacras..........21
3.1. As Dores de Cachoeira: Projeto de uma Via-Sacra?.......................................................26
4. No Recinto Sagrado: Arte Devocional e a Paixão de Cristo..............................................32
4.1.
Pintura................................................................................................................................32
4.1.1.Os “Prelúdios Adocicados” da Matriz de Nazaré..........................................................32
4.1.2.O Forro da Igreja de Nossa Senhora das Dores................................................................36
4.2. Talha e Escultura................................................................................................................43
4.2.1.Altares.............................................................................................................................43
4.2.2.Imaginária..........................................................................................................................45
5.Conclusão...........................................................................................................................49
6.Ilustrações......................................................................................................................51
7.Bibliografia
7.1.Livros.................................................................................................................................59
7.2.Artigos.........................................................................................................................61
7.3.Dicionários...........................................................................................................................62
7.4.Fontes primárias..............................................................................................................63
7.4.1.Fontes impressas.................................................................................................................63
7.4.2.Fontes manuscritas..............................................................................................................63
Notas..............................................................................................................................64
5
Lista de Ilustrações
Mapa 1 - Mapa Anônimo dos Caminhos Para as Minas - Biblioteca Nacional
Mapa 2 - Carta Geográfica do Termo de Villa Rica - Museu da Inconfidência
Mapa 3 - São Bartolomeu - arruamento - Prefeitura Municipal de Ouro Preto
Mapa 4 - Glaura (Casa Branca) - arruamento - Prefeitura Municipal de Ouro Preto
Foto 1 - Praça Principal (Praça Filipe dos Santos), em 1894 - Cachoeira do Campo
Foto 2 - Igreja de São Bartolomeu - São Bartolomeu
Foto 3 - Vista Geral - São Bartolomeu
Foto 4 - Igreja de Santo Antônio - Glaura
Foto 5 - Vista Geral - Glaura
Foto 6 - Igreja de N.Sra. das Mercês - São Bartolomeu
Foto 7 - Oratório de Rua - São Bartolomeu
Foto 8 - Capela de N.Sra. da Conceição - Glaura
Foto 9 - Procissão do Encontro - Cachoeira do Campo
Foto 10 - Capela de N.Sra. do Bom Despacho - Cachoeira do Campo
Foto 11 - Descentimento da Cruz, década de 1960 - Cachoeira do Campo
Foto 12 - Cruz dos Martírios - Glaura
Foto 13 - Cruz dos Martírios - Cachoeira do Campo
Foto 14 - Cruz dos Martírios (Detalhe) - Cachoeira do Campo
Foto 15 - Igreja de N.Sra. das Dores - Cachoeira do Campo
Foto 16 - Forro da Capela-Mor (Igreja de N.Sra. das Dores) - Cachoeira do Campo
Foto 17 - Medalhão sob o Coro (Igreja de N.Sra. das Dores) - Cachoeira do Campo
Foto 18 - Sudário (Matriz de N.Sra. de Nazaré) - Cachoeira do Campo
Foto 19 - Manto de Verônica (Matriz de N.Sra. de Nazaré) - Cachoeira do Campo
Foto 20 - Prelúdio dos Martírios (Matriz de N.Sra. de Nazaré) - Cachoeira do Campo
Foto 21 - Prelúdio da Ceia (Matriz de N.Sra. de Nazaré) - Cachoeira do Campo
Foto 22 - Jesus em Getsêmani (Igreja de N.Sra. das Dores) - Cachoeira do Campo
Foto 23 - Beijo de Judas (Igreja de N.Sra. das Dores) - Cachoeira do Campo
Foto 24 - Caminho do Gólgota (Igreja de N.Sra. das Dores) - Cachoeira do Campo
Foto 25 - Crucificação (Igreja de N.Sra. das Dores) - Cachoeira do Campo
Foto 26 - Manto de Verónica (Igreja de N.Sra. das Dores) - Cachoeira do Campo
Foto 27 - Altar do Bom Jesus (Matriz de N.Sra. de Nazaré) - Cachoeira do Campo
Foto 28 - Senhor dos Passos (Matriz de N.Sra. de Nazaré) - Cachoeira do Campo
Foto 29 - Senhor Morto (Matriz de N.Sra. de Nazaré) - Cachoeira do Campo
Foto 30 - Bom Jesus de Bouças (Matriz de N.Sra. de Nazaré) - Cachoeira do Campo
Foto 31 - Bom Jesus/Sacristia (Matriz de N.Sra. de Nazaré) - Cachoeira do Campo
Foto 32 - N.Sra. das Dores (Igreja de N.Sra. das Dores) - Cachoeira do Campo
Foto 33 - Senhor dos Passos (Igreja de N.Sra. das Mercês) - São Bartolomeu
Foto 34 - Senhor dos Passos (Igreja de Santo Antônio) - Glaura
Foto 35 - N.Sra. das Dores (Igreja de Santo Antônio) - Glaura
6
Apresentação
A região em que se encontram as cabeceiras do Rio das Velhas é de
importância fundamental na formação social, política e cultural da antiga
Capitania das Minas. Os Arraiais de Cachoeira do Campo, de São Bartolomeu e
de Casa Branca (atualmente chamada de Glaura) faziam parte do Termo de Vila
Rica, foram todos, em dado momento, cabeça de freguesia no século XVIII e
alcançaram destaque econômico (com a produção aurífera, especialmente nos
princípios do século XVIII, como no exemplo de São Bartolomeu), político
(como bem demonstra o papel de Cachoeira do Campo) e estratégico (Casa
Branca, por exemplo, situava-se nas proximidades de um movimentado
cruzamento das vias de acesso à Capitania).
O viés de estudo ora apresentado prima pelo enfoque nos vestígios de
caráter religioso existente na região citada. Neste sentido, as celebrações que
envolviam a Semana Santa (ou outras manifestações que se contextualizavam nos
episódios referentes à Morte e Paixão de Cristo) são pródigas. Cruzes dos
martírios, pinturas, imagens - de Nossa Senhora das Dores e do Senhor dos
Passos, por exemplo -, capelas, passos e oratórios públicos são todos testemunhas
da religiosidade e da devoção do povo local. O imaginário referente à Paixão de
Cristo remanescente em Cachoeira do Campo, Casa Branca e São Bartolomeu
será, pois, nosso recorte temático. Cabe salientar ainda que no caminhar deste
7
estudo nos prenderemos menos em documentos escritos do que na própria
materialidade deste imaginário.
No que concerne aos estudos 'clássicos' sobre a região enfocada,
podemos citar três obras que são linhas mestras. Em 1908 foi publicada, na
Revista do Arquivo Público Mineiro, a Monografia da Freguesia da Cachoeira
do Campo, fruto das pesquisas do pároco da época, Pe.Afonso Henriques de
Figueiredo Lemos, ou, como ficou simplesmente conhecido, Pe.Afonso (18471911). Provavelmente a obra deste padre foi impressa inacabada ou foi produzida
tendo em vista a execução de um segundo volume1. Discorre a citada monografia
sobre o contexto histórico da região de Cachoeira do Campo e Casa Branca no
século XVIII e contêm informações valiosas neste respeito.
Outro importante referencial é o livro escrito na década de 60, Cachoeira
do Campo, A Filha Pobre do Ouro Preto, publicação das memórias de Lúcio
Fernandes Ramos (1900-1968). A obra está repleta de valiosíssimas informações
sobre a cultura (especialmente as festas religiosas) do primeiro quartel do século
XX. Existe até um capítulo específico sobre a Semana Santa de Cachoeira e um
outro sobre a religiosidade do povo de São Bartolomeu em torno do santo
padroeiro.
Conhecido pela notoriedade de sua erudição, o cachoeirense João
Baptista Costa (1913-1982) produziu variada obra de acentuado valor histórico.
Seus primeiros escritos datam da década de 30 e se estendem, numa conjunto
8
regular, até a década de 70. Mais de quarenta anos de pesquisas ininterruptas
resultaram num grande número de manuscritos. Cachoeira do Campo, Casa
Branca e São Bartolomeu têm presença marcante nestes apontamentos (apesar de
encontrarmos
constantemente
temas
como
história
mundial,
geografia,
astronomia e curiosidades, além de um grande número de romances históricos
ainda inéditos). A nosso ver, a obra de João Baptista Costa não perde em nada
para a de outros conhecidos historiadores mineiros de sua época que também
discorreram sobre Cachoeira do Campo. O mais valioso, porém, é que João
Baptista consultou manuscritos que infelizmente estão perdidos, como “Os
Africanos em Penca” - romance histórico sobre Cachoeira do Campo, escrito por
João Gualberto de Lemos (século XIX) - e “O Livro dos Fatos Notáveis de
Cachoeira” (o qual, havendo indícios de que ainda exista, estamos à procura). O
certo é que temos, através deste historiador autodidata, um vasto acervo sobre a
história do município de Ouro Preto e de suas tradições. Neste quesito cabe
destacar o manuscrito Memória Histórica I, miscelânea de vários estudos sobre
história regional. Como indica o título provisório dado por João Baptista, a sua
Memória está inacabada ou há (o que é mais provável) um segundo volume. O
manuscrito original se encontra hoje nos arquivos da AMIC (Associação Cultural
Amigos de Cachoeira do Campo).
Com as linhas mestras norteadoras da pesquisa lançadas, passemos então
ao assunto principal desta.
9
1. “Paixões” Mestiças: Diálogo com a Reinvenção
A celebração da Paixão, cujo momento maior na Igreja Católica é o
período quaresmal e a Semana Santa, acarretou uma infinidade de manifestações
religiosas nas Minas, cristalizadasdas num imaginário característico: imagens do
Senhor dos Passos, do Senhor Morto, do Bom Jesus, de Nossa Senhora das
Dores, cruzes dos martírios, representações pictóricas dos temas principais etc.
Mas como explicar este fenômeno? Pelo viés puramente religioso? Ou pelo
enfoque cultural ou artístico? Ou ainda, o social?
Se para NAVARRO:
Es necesario (...) tener en cuenta todos estos múltiples
aspectos a la vez; hay que intentar una aproximación
antropológica integral que sea capaz de dar cuenta de
todas las facetas, muchas de ellas contradictorias entre
si pero todas reales, que componen, combinadas, ese
mosaico.2
Para este estudo crê-se que uma abordagem histórica é especialmente
bem-vinda no que concerne aos ritos ligados à Paixão na região pesquisada. As
palavras do estudioso espanhol, as quais se referem ao contexto religioso de
Sevilha, poderiam, porém, elucidar alguns aspectos no que toca à nossa realidade.
Reconhece Navarro que o estudo da Semana Santa sevilhana não pode ser
reduzido a um viés somente. A multiplicidade de manifestações requer uma
multiplicidade de abordagens,
ancoradas e aproximadas pelo enfoque
antropológico. Neste trabalho primaremos pelo viés histórico como fator
10
‘aproximador’ entre a sociologia (como no caso das irmandades) e a história da
arte propriamente dita (necessária ao estudo do imaginário produzido sob o
interesse das irmandades).
Outro aspecto que ajuda na compreensão dos fenômenos em questão
reside nas considerações a se fazer tendo em vista as imbricações culturais e as
interações ocorridas ao longo do tempo com os ritos e as manifestações
específicas da Paixão. Toda a pompa ou culto relativo a este contexto, de
inspiração barroca, foi transplantada fielmente para o ultramar do distante
Portugal? Obviamente não! Temos aqui “paixões” mestiças, cujas celebrações
variam de um lugar a outro e de época a época. Os ritos foram adaptados - ao
meio religioso mineiro, à topografia (no que concerne às rotas processionais), ao
fator fator econômico (riqueza ou simplificação do culto e número e variedade
das imagens) etc. Mas as imbricações sempre aconteceram - aquém e d'alem mar
-tornando as representações da Paixão de Cristo um emaranhado de concepções e
interseções culturais cujo fator histórico deve ser levado em conta.
As orientações da Igreja Tridentina - quanto ao papel didático da arte e
de algumas manifestações - elevou o culto da Morte de Cristo a um “programa
pedagógico e catequético segundo as orientações defendidas e postas em prática”
pelos prelados em Trento, conforme salienta José Manuel TEDIM, em
interessante estudo sobre os Passos da Paixão em Ovar, Portugal 3 . No que
concerne à ereção dos Passos da Paixão e do uso de parte da malha urbana como
11
rota processional, havia como objetivo primeiro a 'criação de caminhos de
substituição para todos os crentes que não tinham condições de alcançar os
lugares sagrados' do antigo Israel 4. Esse tipo de “necessidade” religiosa - típica
da ênfase medieval nas peregrinações - trazida e impulsionada pelos cruzados
católicos, apôs os embates nas terras sagradas, é profundamente susceptível à
mudanças, adaptações e reinvençoes. Cada vila ou povoado europeu poderia ser
transformado numa Jerusalém, com sua própria via-sacra. A encenação da
tragédia cristológica tomou impulso - pelo vigor teatral da cena, entre outros
fatores - no contexto barroco e, como tal, aportou em terras mineiras.
As irmandades do Santíssimo Sacramento e do Senhor dos Passos
promoveram, nas Gerais, a introdução e a propagação do culto à Paixão. Escreve
a professora Adalgisa Arantes CAMPOS:
Somente em meados do XVIII surgiriam as Ordens
terceiras carmelitas, francíscanas e as Confrarias do
Cordão de São Francisco, que, seguindo a tradição
ibérica reavivada após o Concílio Tridentino (15451563), apresentavam no calendário festivo ritos
pertinentes à Paixão.5
Na região em estudo - Cachoeira do Campo, São Bartolomeu e Casa
Branca - não se estabeleceu no século XVIII nenhuma Ordem Terceira (como era
de se esperar pelo tamanho reduzido destes arraiais).6 As celebrações relativas à
Morte de Cristo ficaram a cargo então - durante todo século XVIII e XIX afora
-das já citadas Irmandades do Santíssimo e dos Passos. Ainda, segundo a
12
professora Adalgisa, por se localizar as irmandades no recinto paroquial “as
cerimônias tinham a pompa bastante comprometida” 7 . Especialmente as
irmandades do Senhor dos Passos - que deveriam, além de colaborar nas
provisões internas da Matriz, promover a execução e manutenção de passos,
internos e externos, temporários ou não, armações efêmeras etc - enfrentavam
dificuldades frequentes. Percebe-se, pois, que preocupações de ordem econômica
estavam presentes no cotidiano dessas agremiações e, por consequência, dos seus
festejos. Estas limitações são deveras importantes para se entender o imaginário
da Paixão de Cristo numa região como a estudada, marcada, por um lado, pela
exaustão precoce das minerações auríferas e, por outro, pelo número reduzido de
fiéis se comparado aos das maiores vilas da capitania.
Cada lugar em que se desenvolveram as celebrações relativas à Semana
Santa efetivou mudanças, acarretando reinvenções constantes nos ritos, nos
trajetos, nas relações dos envolvidos, no imaginário etc. São “Paixões” mestiças o
que temos aqui: as dificuldades e singularidades da região enfocada elegeram a
mudança como tônico dessas celebrações e ritos. Improvisação,
reaproveitamento, colaboração são palavras correntes nas pesquisas deste tipo.
Mas, antes de analisarmos mais detalhadamente estes aspectos na arte, na
imaginária e nos espaços sagrados e profanos que envolvem as rotas
processionais, sintetizemos a história e o contexto histórico dessa região.
13
2. A Região do Alto Rio das Velhas no Contexto Histórico Mineiro
Para se entender o contexto primevo da exploração aurífera - onde a
aventura real de bandeirantes se misturou às lendas, aos mitos fundadores, de
lugares como a antiga Vila Rica e Mariana - temos que retornar ao tempo em que
indígenas e sua terminologia ainda eram corriqueiros.
Ao rumarem para o norte, os primeiros exploradores paulistas
reconheceram três regiões distintas no território, até então ignoto, conforme a
vegetação característica de cada um. Da Mantiqueira até a Borda do Campo
encontrava-se a região dos Cataguá, lembrança dos indígenas que aí viviam. Das
Serras da Borda do Campo até a Serra da Itatiaia estendia-se a região das
Congonhas. Além da Itatiaia (que significa "pedra que sua”) e da Serra da
Cachoeira começava o sertão do Caeté. Esta nomenclatura indígena adotada pelos
bandeirantes (ou muitas vezes dada pelos próprios bandeirantes que falavam na
sua maioria um misto de língua indígena e português) descrevia bem a cobertura
vegetal das três principais regiões. Assim, no final do século XVII e início do
XVIII - quando se principiavam a encontrar as jazidas auríferas - existiam acima
dos Cataguases, onde o cerrado se alternava com matas, as Congonhas (que
significa "mato sumido”) e que denominava perfeitamente a região dos campos:
o lugar onde o mato some. Além dos campos abria-se o Caeté (ou "mato
fechado”), lugar de matas espessas, quase impenetráveis.
14
Parece que já nos primeiros anos de extração mineral estes nomes de
origem indígena foram ‘aportuguesados’. Desta forma as Congonhas passaram a
ser simplesmente os Campos, o Caeté passou a ser o Mato Dentro. O termo
cataguá, como deixa entrever Antonil, passou então à uma designação mais
geral.9
Várias localidades tiveram como “sobrenome” a região em que se
localizavam. Assim temos Itabira do Campo (atual Itabirito), Congonhas do
Campo, etc. No Mato Dentro temos Itabira do Mato Dentro (atual Itabira), Catas
Altas do Mato Dentro, Conceição do Mato Dentro, etc. Desta forma nasceram
vários de nossos topônimos.
Neste respeito cumprem destacar os Arraiais de Nossa Senhora de
Nazaré da Cachoeira do Campo e de Santo Antônio do Campo da Casa Branca,
situados nos limites da região dos campos e o Arraial do Apóstolo São
Bartolomeu, erigido já em território de matas fechadas, ou ‘a mata’, como dizem
até hoje os mais velhos. As três localidades foram erigidas do lado oposto aos
arraiais que comporiam Vila Rica, no outro contraforte da Serra da Cachoeira (ou,
como posteriormente passou a ser conhecida, Serra de Ouro Preto). A histórica
Serra se estende desde o vetusto lugarejo de Santo Antônio dos Tabuões (nos
arredores de Cachoeira do Campo) até o atual município de Mariana. Na cumeada
desta imponente serra existem ainda os calçamentos e os vestígios de uma antiga
estrada de acesso à Vila Rica.10
15
Estes caminhos guiaram desde cedo os primeiros aventureiros que para
as Gerais aportaram. Os dados de que se apropriou Antonil 11 são elucidativos
para se entender o amanhecer do século XVIII nas novas minerações. Em seus
escritos o jesuíta cita as Minas de Balthasar de Godoy, na região de Casa Branca,
e descreve as grandes plantações da vizinhança. Alguns dos velhos topônimos
citados por ele já se encontram registrados também nos mapas mais antigos,
apontando - como o que apresentamos aqui (Mapa 1) - as cabeceiras do Rio das
Velhas e seus afluentes. No conhecido mapa de 1782, elaborado por Cláudio
Manuel da Costa, já constam, com maior precisão, estes locais (Mapa 2). Mas
disto - da história, da toponímia e das localizações - falemos na análise específica
de cada povoação e/ou no transcurso da monografia.
2.1. Cachoeira do Campo
Segundo a tradição local, por volta de 1680 um aventureiro chamado
Manuel de Mello se estabeleceu em Cachoeira com casa e roças. Provas concretas
sobre sua existência são escassas. Um dos livros da Irmandade do Santíssimo
Sacramento deixa entrever, num assento de 1709, que entre os nomes do lugar
estava o de "Cachoeyra do Manuel de Mello".12 Recentemente foi encontrada na
Matriz de Nossa Senhora de Nazaré uma pequena bússola confeccionada em
meados do século XVII. Este instrumento, típico dos bandeirantes, talvez seja
16
prova (mesmo que vaga) que realmente colonos se estabeleceram em Cachoeira
no último quartel dos anos de 1600.
Em sua Monografia Histórica Pe.Afonso de Lemos afirma que o
povoado teve início entre 1700 e 1701 quando uma grande fome abateu os
mineradores da região, forçando-os à procura de espaços propícios para o plantio.
Pela fertilidade do solo e amenidade do clima, Cachoeira tornou-se então um dos
centros regionais de produção agrícola (Foto 1).
Cabe ainda salientar que Cachoeira foi escolhida como lugar ideal para
se construir um Palácio de Campo dos Governadores (também chamado de
Palácio da Cachoeira ou Palácio de Recreio ou ainda, Palácio de Veraneio).13 A
poucos quilômetros deste Palácio, mandou outro governador - desta vez Dom
Antônio de Noronha - construir um quartel destinado a ser a Sede da Cavalaria
Paga das Minas, isto no ano de 1779, conforme ainda se lê no brasão de pedrasabão do seu frontispício.
2.2. São Bartolomeu
Diferente de Cachoeira do Campo, São Bartolomeu teve poucos que se
debruçaram no estudo de sua história. Neste sentido são valiosas indicações
esparsas de pesquisadores aqui e acoláe alguns apontamentos de João Baptista
Costa. Salienta o erudito cachoeirense que o Arraial do Apóstolo São Bartolomeu
é dos mais antigos do estado, sendo seus mais remotos documentos datados de
17
fins do século XVII.14 Recentemente nos foi apresentada uma curiosa transcrição
de um assentamento supostamente verídico. A transcrição, ou melhor, a fotocópia
da transcrição original, mesmo bastante desgastada, deixa entrever que a cópia
não é recente. Diz respeito ao sepultamento, no adro da igreja local, de um
indivíduo em 1694. Pela estrutura do texto, pela forma de se grafar as palavras e
pelo uso de toponímia de acordo com a época, a cópia parece fidedigna. O certo,
todavia, é que os vestígios materiais deste distrito de Ouro Preto testemunham,
por si só, a ancianidade do arraial.
Entre estes remanescentes cumpre destacar a Igreja do padroeiro, cujos
altares demonstram uma fatura recuada em Estilo Nacional Português, isenta
ainda da ornamentação antropomorfa (que está presente na Matriz de Cachoeira,
por exemplo). A própria arquitetura desta igreja é prova também da antiguidade
do local, sendo a fachada - com suas três janelas, as torres com telhadinho
15
e os
cunhais de madeira - típica da primeira ‘fase’ construtiva que Minas conheceu
(Foto 2). Sua fachada e seu interior, bem preservados, nos dão uma idéia de como
eram as primeiras igrejas matrizes erguidas com o esforço dos mineradores.
No interessante casario preservado neste povoado podemos localizar
certas curiosidades. Em algumas casas, por exemplo, encontram-se raridades do
século XVIII e XIX: oratórios públicos inseridos nas construções. Há pelo menos
três destes oratórios na rua principal (Foto 3).
18
Os enormes monturos de cascalho ao longo do Rio das Velhas (a poucos
quilômetros das nascentes), as muitas minas e saris (ou sarilhos) indicam a
atividade mineradora dos primeiros anos do setecentos. Foi encontrado há poucos
anos, perto desses monturos, um delicado estojo de cadinhos, com numeração
ainda preservada, usado, ao que parece, na pesagem do ouro.
2.3. Glaura (Casa Branca)
O nome mais antigo de Casa Branca do qual se tem registro é Santo
Antônio das Minas de Balthazar de Godoy. Este Balthazar possuía, segundo
Pe.Afonso, uma ermida com três altares. Quando em meados do século XVIII
deu-se início a construção da atual Matriz estes altares foram inseridos no interior
da igreja, como estão até hoje, preservados na nave. Estes retábulos, mesmo
estando atualmente muito repintados, deixam entrever partes do douramento da
talha primitiva, em um Nacional Português que muito se assemelha ao de São
Bartolomeu (Foto 4).
Dispomos de poucos dados acerca da construção da antiga Matriz de
Casa Branca. O início das obras se deu em 1757 e o fim provável foi em 1764,
data existente na peanha da cruz que encima o frontão. Foram arrematantes José
Coelho de Noronha, Antônio Moreira Gomes e Tiago Moreira. Ereta
originalmente para servir de cabeça de freguesia, somente em meados do século
19
XIX é que passou a ser filial da Matriz de Nossa Senhora de Nazaré de Cachoeira
do Campo (este fato aconteceu também com a Igreja de São Bartolomeu).
A antiga estrada que conduzia à Comarca de Sabará cortava o centro de
Casa Branca. Descendo a Ponte de Ana de Sá (citada por muitos viajantes
estrangeiros) o caminho demandava ao Rio de Pedras (atual Acuruí), às
Congonhas do Sabará (atual Nova Lima) e à própria Sabará, entre outros.
No século XX o poder público municipal mudou o velho nome do
povoado para Glaura, alusão ao poema do árcade Silva Alvarenga. Contudo, a
população ainda conserva o nome primitivo, chamando o povoado somente de
Casa Branca (Foto 5).
20
3. A Paixão de Cristo no Espaço Público: As Rotas Processionais e as ViasSacras
Seja pela Igreja Matriz (que geralmente dominava a paisagem), ou pelas
capelas que pontuavam a área urbana, seja pela presença de oratórios em esquinas
e casas (como os interessantes oratórios de São Bartolomeu), ou pela existência
de cruzeiros (grandes ou pequenos, de pedra ou madeira, em praças,
encruzilhadas ou até mesmo sobre pontes), o ritual sagrado estava no ambiente
visual dos fiéis locais ou dos transeuntes. 16 Era uma reafirmação mental do
imaginário católico que se manifestava não só no recinto sagrado, mas nos
espaços profanos- Em determinadas épocas do ano alguns desses marcos se
transformavam em ‘direcionadores’ de rotas processionais, enfatizando certos
pontos dentro do perímetro do povoado, cuja praticidade dos crentes elegeu como
lugares ‘estratégicos’ da fé.
Primeiramente analisemos os locais privilegiados nos três povoados em
estudo, estabelecendo as possíveis rotas processionais antigas, utilizando, vez por
outra, de informações guardadas acerca das rotas modernas, especialmente as
procissões da Semana Santa17. Cabe ressaltar que, pelo tamanho reduzido desses
distritos até bem poucos anos 18, o percurso das procissões provavelmente se
manteve quase inalterado nos últimos dois séculos.
Comecemos por São Bartolomeu. A área urbana desse antigo arraial não
deixava muita opção para o estabelecimento de rotas processionais (tanto as da
21
Semana Santa, quanto as do santo padroeiro ou de outras festividades). Quase que
a totalidade do povoado era disposta, como se pode perceber hoje pelo casario
preservado, em uma comprida rua que se estende no sentido leste-oeste (Mapa
3). 19 Os possíveis ‘percursos sagrados’ de São Bartolomeu eram, pois, uito
simplificados. A procissão saindo da Matriz - podendo circundar ou não o largo
adro - tinha destino certo na Capela das Mercês e vice-versa (Foto 6). As
celebrações da Semana Santa estão atualmente muito 'resumidas' em São
Bartolomeu que depende do pároco de Cachoeira Campo, sede da extensa
paróquia. Por este motivo não conseguimos precisar o trajeto e o conteúdo das
principais procissões, a saber: Domingo de Ramos, Procissão do Encontro e
Procissão do Enterro. Que (houverarr) essas procissões no passado é certo
pela presença, na outrora Matriz, da imagem do Senhor Morto e, na Capela
das Mercês, do Senhor dos Passos. Pessoas mais velhas do distrito nos
informaram que os oratórios públicos existentes (Foto 7) são alvos ainda
hoje de uma celebração durante o período quaresmal em lembrança às ‘almas
penadas’. Por mais que perguntássemos não conseguimos conhecer,
entretanto, o conteúdo deste ritual.
A disposição das ruas em Casa Branca permitiu, certamente, um trajeto
mais elaborado - ou opções de trajeto - para suas procissões (Mapa 4). Saindo da
antiga Matriz de Santo Antônio, as procissões, sejam elas de Semana Santa ou
não, possuíam (e possuem) um trajeto principal (com algumas variantes
22
dependendo dos organizadores): desce-se a Rua que vai em direção ao lugar
conhecido como “prainha”, até o largo da Capela de Nossa Senhora das Mercês,
com sua pitoresca cruz dos martírios, continua-se à esquerda até a Capelinha de
Nossa Senhora da Conceição (que poderia, por exemplo, ser transformada em
‘passo’ temporário durante a Semana Santa - Foto 8), sobe-se e novamente se vê
a Igreja principal. Como em São Bartolomeu, não conseguimos precisar o
caminho e as ‘paradas’ das principais procissões da Semana Santa e isto pelo
mesmo motivo: pertencer hoje à paróquia de Cachoeira do Campo, o que
simplificou por demais as celebrações.
Cachoeira do Campo sempre teve perímetro urbano maior que os outros
dois povoados, sendo mesmo pólo de influência das redondezas, estando,
desde muito, os habitantes dos distritos circunvizinhos ligados à velha freguesia,
erigida em 1724. Neste distrito, principalmente pela localização recente de
antigos folhetos de festas, é possível também traçar com precisão as rotas
processionais que marcavam a Semana Santa e os dias da semana exatos para
cada celebração. O relevo e a área urbana, muito mais expandida, promoveu
gama variada de rotas passíveis. As comemorações da Paixão começavam, a bem
dizer, na primeira sexta-feira depois do carnaval com o Septenário das Dores.20
O Domingo de Ramos abria a Semana Santa com uma procissão que podia sair
da Capela das Dores ou da Capela de Nossa Senhora das Mercês rumo à Matriz
de Nossa Senhora de Nazaré, onde havia Benção de Ramos. Na terça-feira havia
23
a Procissão do Depósito do Senhor dos Passos. 21 Na Quarta-feira tinha vez a
Procissão do Encontro, que começava com uma missa na Matriz, de onde, finda a
missa, partiam os homens para a Capela do Senhor dos Passos e as mulheres para
a Igreja de Nossa Senhora das Dores. A procissão conduzindo o Senhor dos
Passos descia as ladeiras do Tombadouro, onde, de quando em quando, parava
em frente a locais predeterminados nos quais estavam expostos quadros referentes
à via-sacra 22 (Foto 9). As mulheres, por sua vez, desciam com a imagem da
Virgem pela ‘ladeira do Pe.Afonso’. O encontro sempre se dava na parte baixa
de Cachoeira23 , geralmente em frente à Capela de Nossa Senhora do Bom
Despacho (Foto 10), onde um púlpito “móvel” estava (e está) sempre
guardado para esta ocasião. Após o Sermão do Encontro ouvia-se, na Matriz para onde a imagem dos Passos e das Dores eram levados - o Sermão do
Calvário, proferido no altar-mor. Na Quinta-feira dizia-se missa, com a
Instituição do Santíssimo e o Lava-pés; até à meia-noite havia a Adoração do
Santíssimo. Na Sexta-feira ocorria, desde a manhã, o toque das matracas e a
via-sacra em frente a algumas casas onde os mesmos quadros usados na
Procissão do Encontro estavam postados. Às três da tarde havia a Adoração da
Cruz no altar-mor da Matriz. A noite, pessoas locais vestidas como figuras
bíblicas (Foto 11) encenavam o Descentimento da Cruz que era seguido prela
Procissão do Enterro. 24 À meia-noite - do Sábado para Domingo - ocorria a
Missa do Sábado de Aleluia e no Domingo, pela manhã, Missa e a Procissão
da Ressurreição, com as ruas enfeitadas com tapetes nas
24
calçadas e nas janelas. As figuras bíblicas acompanhavam o cortejo, com exceção
dos centuríões. Na noite do Domingo havia na Matriz a Coroação de Nossa
Senhora das Dores e a Procissão do Triunfo em retorno da Imagem à Capela das
Dores, finalizando, assim, as longas celebrações da Paixão.
Existem ainda vestígios interessantes referentes à pompa dos primeiros
tempos ou dos tempos de maior devoção popular. Entre estes remanescentes
cumpre destacar as cruzes dos martírios de Casa Branca e de Cachoeira. A cruz
dos martírios de Casa Branca é das mais comuns que se encontram em Minas.
Este curioso cruzeiro de madeira, onde os martírios estão pregados, é
demonstrativo da devoção popular e de como a representação da Paixão tomou
vulto no setecentos e oitocentos, atingindo - apesar de irmandades como a do
Senhor dos Passos congregarem membros de maior poder econômico
-representantes de classes sociais menos favorecidas cujo sofrimento de Cristo
despertava sentimentos piedosos (Foto 12).
A cruz dos martírios de Cachoeira tem aspecto bastante diferenciado.
Trata-se de uma grande estrutura de pedra assentada numa base quadrangular
formada por quatro degraus (um dos quais se acha soterrado sob o calçamento
moderno). Na parte inferior do cruzeiro estão algumas inscrições semi-apagadas e
vários instrumentos relativos ao Martírio de Cristo (dois flagelos, coroa de
espinhos, coluna, cravos, martelo, torquês, um cálice, um cetro, uma lança e um
ramo). Na parte superior a inscrição INRI (Jesus Nazareno, Rei dos Judeus)
25
arremata a obra. Velha tradição afirma que este marco foi erguido em lembrança
da prisão de Filipe dos Santos, a pedido de sua família. Sobre a inscrição
principal, que atualmente mal se pode ver, diz Pe.Afonso, em sua monografia,
que outrora se lia: "Ao Povo Que Remiste A Vossa Cruz Adoramos Senhor e
Celebramos a Vossa Paixão. 1799”. Registrada na pedra por devotos do final do
século XVIII está a celebração da Paixão. Os idealizadores do cruzeiro
cachoeirense, diferentemente de Casa Branca, quiseram imortalizar em material
mais durável suas crenças (Fotos 13 e 14).
Esta ênfase de Cachoeira na Paixão Cristã está manifesta também em
outro monumento que, pela magnitude das assertivas tornadas possíveis por sua
presença, merece tópico especial
3.1. As Dores de Cachoeira: Projeto de uma Via-Sacra?
Na colina que se ergue atrás da Matriz de Nossa Senhora de Nazaré se
encontra uma singela capela dedicada a Nossa Senhora das Dores. Esta capela
tem papel destacado na história da devoção à Paixão de Cristo na região em
estudo. Cabem, portanto, algumas palavras acerca da sua história e sua descrição
geral (Foto 15).
Possui um frontispício simples encimado por duas torres, uma das quais
com dois sinos datados de 1810 e 1898. No óculo localizado no triângulo formado
pelo frontão lê-se as datas 1761/1939, sendo a primeira o ano em geral
26
aceito como o marco final da construção e a última indica uma restauração. Há,
ainda na fachada, uma grande porta de verga arqueada e duas sacadas
envidraçadas de mesmo estilo. Entre as janelas, abaixo de uma cruz trabalhada
em pedra, acha-se o citado óculo, desprovido de vidraças. Nas laterais da porta
principal há duas pias de pedra e abaixo do coro se vê pintura representando, em
forma de medalhão, o Monte Calvário. Na nave acham-se, do lado da epístola,
um altar de madeira dedicado à Nossa Senhora das Dores 26 e, do lado do
evangelho, a porta que dá acesso à sacristia e o singelo púlpito (ao qual se sobe
por uma escada de madeira). Na capela-mor acha-se a afamada imagem da
Virgem, uma expressiva imagem de roca.
Chama logo a atenção do visitante o forro composto de 16 pinturas, 15
das quais, em forma de caixotões, localizam-se na nave e retratam cenas da
Paixão de Cristo (estas serão abordadas em tópico próprio). Figurando o teto da
capela-mor está a décima sexta pintura, a qual representa Nossa Senhora das
Dores em meio a alguns anjos. Interessante notar, nesta composição, que a
Virgem parece ferir, com uma de suas espadas, o homem ajoelhado a seus pés.
Deduz-se, por isto, que pode se tratar de um ex-voto, isto é, alguém que alcançou
uma graça e a mandou representar em sua lembrança (Foto 16).
Qual seria o motivo da construção de igreja desta invocação em
Cachoeira do Campo? É tradição que a Capela das Dores foi construída
especificamente para as celebrações da Semana Santa pelo povo mais simples do
27
arraial, que devotava especial fervor ao culto da Paixão. Esta tradição foi
recolhida do populacho ainda no século XIX, provavelmente por João Gualberto de
Lemos,27 e assentada por escrito por João Baptista Costa. Narra a lenda - aqui já
floreada pelo tempo e pelo povo - que uma pobre velha chamada Maria
Dolorosa foi quem, de porta em porta, angariou as esmolas para as obras da
referida igreja. Haveria algum fundo de verdade por trás destas lendas?
O Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa (AHU) guarda um
interessante documento, elucidador de algumas questões. Transcrevemo-lo aqui
na integra: 28
Dizem os irmãos, e mais devotos de Nossa Senhora das
Dores da Freguesia de N. Sra. de Nazareth do Arrayal da
Caxoeira do Campo, Bispado de Mariana, que há 36
anos se acha erecta, por Beneplácido Régio, no Monte
Calvário da mesma freguesia a cappela; em que se
collocou a Imagem da dita sra. das Dores, da qual se tem
conservado hum Devoto, e fervoroso culto pela
frequência do sacrosanto sacrifício, solene
commemoração das Dores da Senhora no seu dia, e mais
offícios, o que religiosamente com aprovação do
ordinário praticão os sobreditos devotos: e porque esta
louvável devoção se tem auymentado demais a mais, a
ponto de não caber na capella a immensidade de Povo,
que concorre a todos os actos que ahi se celebrão,
rezolverão acrescentar a Capella, para melhor dispozição
dos cultos da Senhora, e commodidade dos Devotos
concurrentes. Mas como actualmente se achão
impossibilitados de a poder concluir com a decência
começada, recorrem humildemente a Generosa piedade
de V. A. R. , para que, attendendo a fervoroza e pia
intenção dos supes se digne conceder lhes, que hum
Eremitão com a caixinha da sra. das Dores peça esmolas
28
aos meus fiéis daquele Bispado para o acréscimo, e
concluzão da pretendida obra.
E a V.A.R., que haja por bem conceder lhes por esmola
a obra q. humildemente suplicão. [segue assinatura
ilegível].29
Podemos extrair algumas valiosas informações deste documento. A
primeira delas é que o culto de Nossa Senhora das Dores se propagou
grandemente pela região de Cachoeira, conforme reza a tradição local. A pobre
capela não comportava mais o número de fiéis que para lá afluíam.
O antigo nome do bairro, também citado no documento, é uma alusão às
celebrações da Semana Santa e ao próprio nome da Irmandade: Irmandade de
Nossa Senhora das Dores do Monte Calvário. Sob o coro há ainda o curioso
medalhão pintado com o símbolo da Irmandade: a cruz vazia sobre um coração
perfurado por sete espadas, embasada pelo Monte Calvário (Foto 17).
Outro dado importante a se extrair diz respeito à construção do dito
templo. O documento diz "que há 36 anos se acha erecta” a Capela das Dores.
Se a petição data de 1801, deduz-se que a obra estava pronta em 1765,
confirmando, de certa forma, o ano semi-apagado do óculo: 1761. Estas duas
datas colocam a Capela de Nossa Senhora das Dores de Cachoeira do Campo
entre as mais velhas desta invocação nas Minas. Consta que este culto tomou
fôlego em Portugal na primeira metade do século XVIII e foi trazido de Braga
29
para Vila Rica por volta de 1770. Muitos consideram a igreja de Ouro Preto mais
antiga, contudo o documento citado vem corroborar o contrario.
Mas voltemos ao nome da colina em que se assenta a igreja. Por que
Monte Calvário? No intuito de mover os fiéis - que não poderiam conhecer a
verdadeira Terra Santa - à devoção piedosa, diz José Manuel TED1M:
“começam-se a levantar por todo o mundo católico
palcos de pedra para a encenação da tragédia humana e
divina, palcos, em suma, erguidos em substituição ao
palco original do Calvário em Jerusalém. Para que a
Jerusalém dos Passos da Paixão de Cristo se repetisse
optou-se por aplicar esses programas privilegiando
sempre uma elevação do terreno mais ou menos
acentuada criando aquilo que se pode considerar como
sacro monte 30 ”
Não é tentador aproximar o Sacro Monte ao Monte Calvário
cachoeirense? Vários motivos, além desse, faz-nos pensar na existência de uma
via-sacra externa . Entre eles podemos considerar:
Primeiro, da Matriz de Nossa Senhora de Nazaré até a porta da Igreja de
Nossa Senhora das Dores existiam, no mínimo, três cruzes, conforme se
depreende de fotografias antigas e de remanescentes modernos;
Segundo, existia - até bem poucos anos atrás - pelo menos uma capela a
meio caminho entre as duas igrejas, a que o povo ultimamente chamava de “São
João”. Pelas fotografias sobreviventes vê-se que sua arquitetura se assemelhava
por demais a um Passo;
30
Terceiro, a Igreja das Dores está fora do esquadro da rua atual. Se
traçarmos uma perpendicular à sua fachada obteremos uma ladeira íngreme,
típica de um 'sacro monte' comum. O que aconteceu? Parece que desde cedo
optou-se pelo traçado atual da rua, tornando a subida mais suave. Se
percorrêssemos esta hipotética ladeira, passando pelos quintais modernos,
depararemo-nos, quase já à Rua Nossa Senhora Auxiliadora (paralela à atual
Rua das Dores), com uma curiosa cruz de pedra, bastante desgastada, colocada
sobre um grande rochedo que lhe serve de peanha.
Seriam estes vestígios indícios de uma antiga via-sacra? Por que o
possível projeto original teria tido seu traçado modificado para dar lugar à atual
rua? Uma hipótese - que carece de pesquisa futura - é a grande reforma levada a
cabo em 1782 no Palácio de Campo por Dom Rodrigo de Menezes. A nova ponte
de pedra sobre o Rio Maracujá e o novo arruamento poderia ter forçado os Irmãos
das Dores a abandonarem a idéia de uma ladeira íngreme e uma mais suave foi a
única opção.
31
4. No Recinto Sagrado: Arte devocional e a Paixão de Cristo
Uma vez analisada a presença da Paixão de Cristo nos espaços abertos,
cabe dizer algo sobre o imaginário ligado à Morte de Cristo existente rios recintos
sagrados. Neste quesito, no que concerne à pintura e talha, somente Cachoeira do
Campo possui arte ligada a este tema. Todavia, nas outras igrejas (de São
Bartolomeu e de Nossa Senhora das Mercês em São Bartolomeu e de Santo
Antônio em Casa Branca) ainda existem preservados imagens e apetrechos
ligados à Paixão. Entre estes ‘apetrechos’ cumprem destacar os esquifes
(presentes nas três principais igrejas), 33 cruzes (encontradas em abundância),34
sudários (peças curiosas encontradas em Cachoeira do Campo e Casa Branca
-Foto 18)35 , Mantos de Verônica (finos tecidos onde o rosto de Cristo está
representado - Foto 19).
Mas, o que de mais importante cabe analisar aqui são as imagens, a talha
e as pinturas que estão de alguma forma relacionadas à Paixão. Comecemos pela
pintura que, em Cachoeira do Campo, proporciona uma interessante comparação
entre diversas manifestações de arte a respeito da Paixão cristã.
4.1. Pintura
4.1.1. Os “Prelúdios Adocicados” da Matriz de Nazaré
Além das imagens utilizadas diretamente nas celebrações da Paixão de
Cristo, a Matriz de Nossa Senhora de Nazaré guarda duas pinturas muito
32
interessantes ligadas à Paixão, ambas de refinado cunho simbólico. Mas, antes de
passar ao estudo destas, algumas palavras acerca da história deste monumento
devem ser ditas.
A construção desta Matriz foi iniciada no alvorecer do século XVIII em
substituição a uma primitiva ermida. Os documentos mais recuados começam a
aparecer por volta de 1708 e dizem respeito à Irmandade do Santíssimo
Sacramento, responsável, de princípio, pelo montante das obras. Talvez pela
antiguidade ainda não se encontraram referências aos entalhadores da capela-mor
ou dos altares do cruzeiro. Por outro lado, há um documento datado de 1726 onde
se conclui que o escultor dos dois altares da nave foi o artista português Manuel
de Matos. O douramento é pouco posterior à escultura, estendo-se de 1733 a
1735. Em 1755 o pintor Antônio Rodrigues Bello inaugurou uma nova tipologia
ao conceber o forro da capela-mor, abrindo caminho para a pintura em
perspectiva de Minas Gerais. Em 1792 houve a reconstrução definitiva das torres
e em 1860 foi construído o novo frontispício.
Possui a igreja cinco retábulos em madeira dourada, dos mais
representativos do Estilo Nacional Português. O altar-mor possui quatro colunas
em espiral que sustentam as arquivoltas concêntricas (como é típico desta fase);
no alto há uma tarja central onde
se) figuram os símbolos do Santíssimo
Sacramento; no trono fica a imagem de N. Sra. de Nazaré, rica obra de madeira
policromada.37 A decoração das paredes da capela-mor segue o mesmo estilo,
33
havendo variadas esculturas em alto relevo, oito grandes colunas torsas e seis
quadros representando os evangelistas e cenas simbólicas ligadas à Paixão de
Cristo. São estes últimos que nos interessam estudar.
Acima da porta que, na capela-mor, dá acesso à Capela do Santíssimo,
lado da epístola, há um painel representando duas crianças, a pomba e o cordeiro
sacrifical (Foto 20). Após ligeiro exame iconográfíco percebe-se que se trata de
uma pintura de cunho simbólico que ‘sintetiza’ o ministério de Cristo na terra,
desde o batismo até a morte e ressurreição. Do lado direito do cordeiro há uma
criança vestida com peles de animais segurando uma haste - esta criança
representa São João Batista. A criança do lado esquerdo representa o próprio
Cristo com suas vestes vermelhas e a cruz empunhada pela mão direita. O
cordeiro é uma clara alusão às palavras do Batizador: "Eis o Cordeiro de Deus,
que tira o pecado do mundo” 38. Como forma de remir os pecados da humanidade
Cristo daria sua vida perfeita, oferecendo-a em sacrifício. Nada mais lógico,
então, do que representar os instrumentos do martírio39 carregados pelo cordeiro, o
animal escolhido desde o pacto abraâmico como fator expiatório. Cristo é, pois, o
novo Cordeiro de Deus e, pela sua morte, recuperou a vida perdida de Adão. Os
profetas do antigo testamento, além de preverem a vinda deste cordeiro perfeito,
anunciaram também a vinda de João Baptista – “a voz que clama do deserto”40.
Este nazireu41 do primeiro século - o novo Elias, o novo Aarão42 -
preparou o
caminho do Messias, conforme predisse o Proffeta Malaquias. Não é sugestivo a
34
fato de que, na pintura, João Batista puxa o cordeirinho com uma corda? E que
atrás do cordeiro vem o menino Jesus? Com sutileza admirável esta obra une o
Antigo ao Novo Testamento e, num artifício compositivo simples mas de
intricado significado, resume o ministério público de Cristo, desde o batismo até a
morte e ressurreição (conforme se depreende quando observamos, sobre o
cordeiro, o pombo - alusão ao batismo de Jesus43 - e a cruz que o Cristo menino
tem às mãos - alusão à morte). No entanto, por que representar Jesus e o Batista
como crianças? Era uma forma, sutil e erudita, de “adocicar” o violento momento
mor do ministério de Cristo (a crucificação). Podemos chamar isso de um
‘prelúdio simbólico’ que requeria dos observadores um certo conhecimento e
discernimento para compreender o exato alcance da obra. Mas será que a
representação destes personagens infantis é realmente um “adocicamento”
presente num plano iconográfico preciso ou um estratagema existente somente
nesta pintura? Vejamos, para tanto, o painel que lhe é fronteiro.
Encimando a porta de acesso à Sacristia, lado do evangelho, está uma
outra pintura que, pelo tratamento e detalhes formais, saiu do pincel do mesmo
artista da anterior: representa uma criança abençoando pães sobre uma mesa
rodeada por dois personagens (Foto 21). O menino, pintado com os mesmos
traços do que está no quadro anterior, é a representação do próprio Cristo que, ao
abençoar os pães (nesta imaginária 'páscoa' da sua infância) numa refeição com
seus pais, 44 preconiza algo futuro. A que alude isto? Sem dúvida à vindoura
35
instituição da Eucaristia, com os apóstolos, numa páscoa posterior. Disse Cristo
na Santa-Ceia: “Isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é
derramado por muitos para remissão dos pecados”45. Não é a Eucaristia o símbolo
deste “novo sacrifício” (Painel dos Martírios), e da “nova aliança” (Painel da
Ceia)? O uso novamente do ‘Cristo criança’ vem no sentido de adocicar a cena,
de purificar a representação com o ar dos inocentes. Vê-se, então, que os dois
painéis fazem parte de um mesmo plano iconográfíco, conectados entre si por
uma bem elaborada linha simbólica que une o presente e o passado, não só da
vida de Cristo (infância e idade adulta), mas da própria Igreja (Antigo e Novo
Testamento).46
Estes painéis, de gosto refinado e repletos de simbolismos bíblicos e
teológicos, são interessantes à medida que demonstram algo bem díspar do que
será analisado na Capela das Dores. O gosto popular das Dores se contrapõem ao
caráter mais culto destas duas obras que, vez por outra, são atribuídas a Antônio
Rodrigues Bello, o executor do forro em perspectiva da capela-mor da mesma
Matriz.
4.1.2. O Forro da Igreja de Nossa Senhora das Dores
Se externamente os vestígios de um antigo caminho ou via-crúcis relativo
à Paixão do Senhor desapareceu, internamente a realidade é diferente na Igreja
das Dores. Há interessante via-sacra representada na nave, que apesar dos
36
maus tratos do tempo e das chuvas, tem resistido até nossos dias. De feição
simples e de caráter popular estas pinturas são reveladoras da devoção à Paixão
no século XVIII. Os 15 painéis dispostos em caixotões mostram um arcaísmo no
que concerne à arte mineira: pintados na década de 1760 ou 1770, utilizam um
artifício criativo que já estava em desuso. O português Antônio Rodrigues Bello
já havia inaugurado em Minas a nova tipologia que viria a substituir os antigos
forros de caixotões: a pintura em perspectiva. O artista que decorou o forro das
Dores de Cachoeira desconsiderou esta novidade certamente por dois motivos:
primeiro, um plano iconográfíco de uma via-sacra pintada exigia isto, uma vez
que se “narra” uma história; segundo, as fontes iconográfícas utilizadas
provavelmente requeriam uma execução em forma de quadros.
São estes os painéis e sua descrição geral:
Primeiro Painel: JESUS NO JARDIM DE GETSÊMANI - Jesus se encontra
entre o anjo com o cálice e um apóstolo dormindo. 47 Representa a passagem
bíblica em que Cristo sua o próprio sangue no Monte das Oliveiras. Na verdade
há a junção de duas cenas distintas. O anjo, que no texto bíblico vem aliviar o
sofrimento que causa o suor de sangue, traz, nesta cena vulgarizada, um cálice.
"Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade,
mas a tua. E apareceu-lhe um anjo do céu, que o fortalecia. E, posto em agonia,
37
orava mais intensamente. E o seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue que
corriam até o chão” (Lucas 22:42-44) - Foto 22.
Segundo Painel: O BEIJO DE JUDAS - A cena do beijo acaba de acontecer.
Pedro corta a orelha de Malco. Jesus o repreende em meio aos soldados que o
aprisionam. "Então Simão Pedro, que tinha a espada, desembainhou-a, e feriu o
servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. E o nome do servo era
Malco. Mas Jesus disse a Pedro: Põe a tua espada na bainha; não beberei eu o
cálice que o Pai me deu?” (João 18:10, 11). Esta última frase mantém relação
iconográfica com a primeira cena - o Pai, através do anjo, oferece o cálice a Jesus
- Foto 23.
Terceiro Painel: JESUS PERANTE PILATOS - Dois soldados conduzem Jesus
amarrado até Pilatos que se encontra sentado. A cena se desenrola depois de Jesus
ter sido julgado pelo Sinédrio, sob a direção de Caifás e Anás. Este episódio - o
do Sinédrio - é subtraído nestes painéis. "E, levantando-se toda a multidão deles,
o levaram a Pilatos.” (Lucas 23:1)
Quarto Painel: JESUS PERANTE HERODES - Pela recusa de Pilatos em julgar
conforme a Lei Romana, Jesus é entregue a Herodes, governante na Galiléia.
Cinco soldados conduzem Cristo a Herodes, que tem um cetro n mão e, sentado,
38
usa uma coroa. Note-se, na cena, a palma jogada ao chão. "E, sabendo [Pilatos]
que era [Jesus] da jurisdição de Herodes, remeteu-o a Herodes, que também
naqueles dias [era Páscoa] estava em Jerusalém.” (Lucas 23:7)
Quinto Painel: JESUS AÇOITADO - Em vista da negativa de Herodes em julgar,
Jesus é novamente mandado até Pilatos que, sob pressão dos líderes judaicos, o
manda açoitar. Na cena Jesus é flagelado por dois carrascos. Note-se a presença
da ‘coluna alta’ (onde Jesus é amarrado), mais característica do Renascimento e
não do Barroco, onde a coluna é, via de regra, representada ‘baixa’. Será que este
artista popular utilizou fontes iconográficas cujo cerne eram gravuras
renascentistas? "Pilatos, pois, tomou então a Jesus, e o açoitou.” (João 19:1)
Sexto Painel: JESUS MANIETADO - Nesta cena dois soldados colocam a coroa
de espinhos na cabeça de Cristo (aqui já com o manto) e mais dois soldados,
abaixados, o ridicularizam. "E os soldados, tecendo uma coroa de espinhos, lha
puseram sobre a cabeça, e lhe vestiram roupa púrpura. E diziam: Salve, Rei dos
Judeus. E davam-lhe bofetadas.” (João 19:2,3)
Sétimo Painel: ECCE HOMO - Pilatos, que aparece numa janela, apresenta
Cristo, ensanguentado e seguro por um soldado, ao povo, dizendo: Ecce Homo
(els o homem). A inscrição se encontra acima de Pilatos, num artifício do artista
39
para mostrar a instantaneidade da cena. O espaço em que se deveria encontrar o
povo está vazio, causando a impressão de algo incompleto. É crível que o artista
originalmente representou a multidão (provavelmente apagada por superposições
posteriores). "Saiu, pois, Jesus fora, levando a coroa de espinhos e a roupa
púrpura. E disse-lhes Pilatos: Eis o Homem.” (João 19:5)
Oitavo Painel: JESUS A CAMINHO DO GÓLGOTA - Há nove personagens em
torno de Jesus. Um soldado segura uma vara e outro, uma trombeta, e Simão
Cireneu o ajuda a carregar a cruz. "E quando o iam levando, tomaram um certo
Simão, cireneu 48, que vinha do campo, e puseram-lhe a cruz às costas, para que
a levasse após Jesus.” (Lucas 23:26) - Foto 24.
Nono Painel: CRUCIFICAÇÃO - Maria se encontra do lado esquerdo da cruz e
um soldado do lado direito. Há, ao fundo, interessantes casas que lembram uma
vila colonial, inclusive com capelas. "E junto à cruz de Jesus estava sua mãe, e a
irmã de sua mãe, Maria mulher de Clopas49, e Maria Madalena. “ (João 19:25) Foto 25.
Décimo Painel: LAMENTAÇÃO DE MARIA - Tendo ao fundo várias nuvens,
Maria se encontra sozinha nesta cena. Não há passagem bíblica específica para
este motivo, estando inserido aí, provavelmente, pela invocação da capela.
40
Décimo Primeiro Painel: DESCENTIMENTO DA CRUZ - Enquanto dois
homens descem Jesus do madeiro, um homem e uma mulher estão perto de
Maria. Note-se a roupa dos personagens que sustentam Cristo, alvas como as que
ainda hoje usam os encarregados de retirar a imagem do Senhor Morto da cruz na
Sexta-feira da Paixão. "Depois disto, José de Arimatéia (o que era discípulo de
Jesus, mas oculto, por medo dos judeus) rogou a Pilatos que lhe permitisse tirar
o corpo de Jesus. E Pilatos lho permitiu. Então foi e tirou o corpo de Jesus. “
(João 19:38)
Décimo Segundo Painel: RESSURREIÇÃO - Este quadro era o que mais estava
danificado quando da última restauração. Apesar de seu estado precário os
restauradores conseguiram um resultado bom. Jesus está em pé segurando um
estandarte. 50 A cena é envolta em muitos resplendores e ornatos. "Por que
buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou.” (Lucas 24:
5,6).
A representação da Paixão segundo os evangelhos, propriamente dita, acaba no
décimo segundo painel. Os três restantes são de caráter simbólico, mas todos
ligados à Paixão de Cristo. São eles:
41
Décimo Terceiro Painel: ANJO COM A COROA DE ESPINHOS - Um anjo. de
pé, segura a coroa de espinhos. No século XIX houve uma dilapidação deste
painel. Para se inserir as torres metade da pintura foi subtraída, cortando-lhe de
uma esquina à outra.
Décimo Quarto Painel: ANJO COM O MANTO DE VERÔNICA - Um anjo em
pé segura o manto de Verônica com a face do Senhor gravada. Note-se, ao fundo,
a presença de gramíneas típicas dos campos e, na cabeça do anjo, uma coroa de
flores. A Verônica é uma inserção do imaginário católico, não estando sua
presença registrada nos evangelhos canônicos - Foto 26.
Décimo Quinto Painel: ANJO COM OS CRAVOS - Um anjo em pé segura os
cravos. Como na pintura cuja representação é o anjo com a coroa de espinhos
este painel também foi alterado quando da reforma que inseriu as torres no século
XIX.
Estas cenas representando a Paixão carecem de estudos mais
aprofundados. O artista (ou os artistas) está por ser identificado e as fontes
iconográfícas usadas pedem a localização. No mais, é um interessante testemunho
de arte relativa ao Martírio de Cristo movida pelo gosto popular.
42
4.2. Talha e Escultura
Para ser possível abarcar o maior número de manifestações artísticas
articuladas, de alguma forma, à Paixão de Cristo, convimos dividir, para alem
da; pintura, estas manifestações em obras de talha (altar e detalhes de
altar) e esculturas (imagens do Senhor dos Passos, do Senhor Morto, de Nossa
Senhora das Dores e do Crucificado, basicamente) presentes nos distritos em
estudo.
4.2.1. Altares
De todos os templos analisados, o único que apresenta um altar passível
de ser considerado como obra de arte relacionada à Morte de Cristo é a Matriz de
Nazaré. Encima o altar do arco do cruzeiro, lado do evangelho, uma imagem do
43
crucificado (que será analisada mais abaixo). Seguindo o plano vigente da igreja
este altar é representante do melhor Estilo Nacional Português, contudo bem
menor, como seu congênere do lado da epistola, que os altares da nave. Mas, qual
a invocação precisa deste altar?
Numa dissensão que houve entre os irmãos da Irmandade do Rosário e os
Irmãos desta do Crucificado, acerca da marcação e número de sepulturas, lê-se
num documento a respeito:
Em virtude da provisão retro assinei [o Vigário] as oito
sepulturas [...] na mesma se faz menção na Casa que a
dita Irmandade tem in[?] ao Corpo dela Igreja a qual
tem a porta imediata ao Altar de Nossa Senhora da Boa
Morte, e do Senhor Bom Jesus de Bouças e outra porta
pela qual se passa para a casa onde está a escada para o
púlpito.51
A invocação deste altar é, pois, de um orago bastante incomum: Bom
Jesus de Bouças. Seria o nome ‘Bouças’ uma referência ao local de origem da
invocação? Ou uma alusão ao perizônio52 que, nesta imagem, se dobra muito
semelhante a uma bolsa amarrada pela boca? Isto é assunto para outra pesquisa. O
que importa agora é a análise deste altar do Bom Jesus de Bouças,
Arrematando o retábulo se encontra a tarja com a coroa de espinhos
esculpida. No frontão, acima das arquivoltas concêntricas, lê-se: SPQR (Senaíus
Populus Que Romanus - O Senado E O Povo Romano). Na caixa do altar
propriamente dito, embaixo, estão gravados em alto relevo, ao lado de finas
44
folhas de acanto53 e delicadas fênix, 54 os três cravos e a coroa de espinhos. No
camarim do retábulo ergue-se, para sustentar a imagem do Crucificado, um
pequeno monte (confeccionado em madeira) cuja alusão é o Gólgota. Atrás da
imagem tem-se o sol entalhado, referência à natureza divina de Cristo (Foto 27).
Mais um detalhe curioso e que na maior parte das vezes passa
despercebido pelos visitantes: embasando duas colunas de sustentação das
arquivoltas estão esculpidos, de forma bastante estilizada, dois peixes - na
realidade seres híbridos, onde metade do corpo é o de um peixe e a outra se
confunde com as folhas de acanto. Por que a presença de peixes num altar de
Cristo? Ora, o peixe é um dois mais antigos símbolos do cristianismo, usado
desde os primórdios para representar o Filho de Deus.
4.2.2. Imaginária
Na Matriz de Nossa Senhora de Nazaré estão guardados, entre outros
pertences ligados à Paixão:
-Uma
grande imagem do Senhor dos Passos, comprada na década de
1880 pelo vigário Afonso. 55 Esta imagem impressiona pelo realismo.
Hoje está depositada na antiga “Fábrica do Rosário”, anexa à sacristia,
numa ‘casinha’ de madeira na qual permanece desde o XIX (Foto 28);
-Uma
Imagem do Senhor Morto do século XVIII. Atualmente fica
guardada no lugar em que inicialmente estava: ‘sepulcro’ do altar-mor.
45
Articulada nos braços e nas pernas, ainda possui muito de suas características
originais apesar de algumas restaurações infelizes (Foto 29);
-Uma
imagem do Crucificado que encima o ‘Gólgota’ do altar do Bom
Jesus de Bouças, analisado anteriormente. Esta imagem do século XVIII
impressiona pelo domínio técnico do artista que a esculpiu. Detalhes
como a pele repuxada pelos cravos e a musculatura encabulam ainda
hoje os visitantes. Observe-se os olhos deste Cristo, raramente notados
devido ao cabelo (natural) que cai sobre o rosto: um olho está voltado
para cima, outro para baixo. A que isto se refere? À natureza divina do
Filho de Deus encarnado - o Verbo, o Logos ou a Palavra, segundo a
introdução do Evangelho de São João -, ou seja, Cristo era um ‘homemdeus’, ‘preso’ entre a terra e o céu (Foto 30);
-Uma
imagem do Crucificado existente sobre o arcáz da sacristia.
Também do século XVIII é composta, no entanto, de forma díspar da
anterior (Foto 31);
-Um
Crucificado existente sobre o altar-mor, abaixo da imagem da
padroeira e acima da escultura do pelicano com seus filhotes que, de
caráter simbólico, completa a significação da Morte de Cristo (morte
como expiação pela humanidade). 56 Esta pequena imagem do século
46
XVIII é a que ainda hoje se torna alvo da Adoração na tarde da Sexta-feira da
Paixão.
Pertencem à Capela de Nossa Senhora das Dores de Cachoeira do Campo:
-Uma
imagem de roca de Nossa Senhora das Dores. Merecem destaque
nesta imagem do século XVIII o coração cravejado por sete espadas e o
peito que, sem a roupagem, se sobressai pelos finos desenhos com
motivos florais (Foto 32);
-Um
Crucificado do século XVIII hoje preservado na Igreja Matriz.
Na Capela de Santa Rita (em Cachoeira), construída originalmente para
ser a Capela do Senhor dos Passos, ainda está guardada:
- Uma velha imagem do Senhor dos Passos, bastante danificada. A
imagem dos Passos existente na Matriz de Nossa Senhora de Nazaré veio
em substituição a esta.
Na antiga Matriz de São Bartolomeu estão conservados ainda:
- Uma imagem do Senhor Morto, interessante, mas de fatura bastante
diferenciada daquela de Cachoeira;
- Alguns Crucifixos, os quais, guardados pela população local,
raramente ficam expostos.
■
47
Na Capela de Nossa Senhora das Mercês de São Bartolomeu está
preservada na sacristia:
-Uma imagem do Senhor dos Passos que, apesar de restauração
amadora que lhe desfigurou grandemente a face e as mãos, apresenta
detalhes interessantes: as volutas formadas pela barba, desencontradas no
queixo, e os bigodes, saindo quase da narina, além dos olhos
amendoados, nos fazem pensar numa obra ligada à ‘escola’ do
Aleijadinho. Pelas características a datamos de fins do século XVIII e
início do XIX (Foto 33).
A antiga Matriz de Santo Antônio da Casa Branca conserva ainda:
-Uma
imagem do Senhor Morto, guardada no altar-mor;
-Uma
imagem do Senhor dos Passos, depositada na sacristia (Foto 34);
-Uma
imagem de Nossa Senhora das Dores, depositada na' sacristia,
juntamente com aquela dos Passos (Foto 35).
Estas três imagens sofreram também com uma restauração que
impossibilita análise mais aprofundada.
48
5. Conclusão
E notável perceber quão ricas e diversas são as manifestações que o
‘homem barroco’ criou. A mentalidade deste homem morreu, por certo, com ele,
mas a riqueza documental que ele nos proporcionou clama por pesquisa.
As linhas a seguir, do já citado Isidoro Moreno Navarro, bem que poderiam
aplicar-se à nossa Semana Santa. Sobre a multiplicidade de aspectos a ser analisados
num estudo deste tipo diz NAVARRO:
“En efecto, para intentar la aproximación a un fenómeno de
tanta complejidad y riqueza cultural como es la Semana
Santa sevillana, se precisan una multiplicidad de enfoques.
No es válido acercarse a ella con un enfoque
exclusivamente religioso, y mucho menos si este responde
a una perspectiva estrictamente eclesial, pêro tampoco es
aceptable desconocer o minusvalorar la importante
vertiente de religiosidad popular que la celebración lleva
consigo.”57
As celebrações da Semana Santa em solo mineiro também compõem (ou
compunham) um fenômeno de “complejidad y riqueza cultural”. É claro que nossa
abordagem pretendeu ser menos abrangente e não contemplar todas as facetas do
objeto em questão, mas tão somente a materialidade assumida por este objeto (as
representações artísticas) e a cultura religiosa que a fomentou. Este tipo de pesquisa
se justificaria somente pelo fato de que, não só a bibliografia mineira a respeito é
esporádica, mas a região proposta como recorte espacial (a qual chamamos aqui de
Alto Rio das Velhas) é carente de estudos, merecidos não somente neste tema - uma
vez que possui acervo artístico colonial considerável - mas em outros tantos.
49
Um enfoque assim é importante para o entendimento do homem mineiro do
setecentos e oitocentos, cuja ‘mente barroca’ criou manifestações culturais densas de
significados e que repercutem até hoje, não só na presença física dos monumentos,
mas no imaginário popular hodierno. O cotidiano religioso atual destes povoados tem
muito ainda do barroco reinventado nas Gerais no século XVIII e seguido século
XIX adentro.
Em vista desta importância um aspecto há do qual se preocupar: a constante
depredação do patrimônio mineiro, acelerado nas pequenas localidades que, longe do
burburinho da cultura moderna e ainda não descobertos pelo turismo, recebem pouca
atenção das autoridades. Outro agravante desta depredação desastrosa é de
responsabilidade da própria Igreja que muitas vezes encaminha párocos sem nenhum
conhecimento em artes para paróquias detentoras de rica tradição e acervo histórico.
O resultado? Em favor das modernas preocupações da Igreja, centradas no
‘patrimônio humano’, nossa arte e história desaparecem dia-a-dia: capelas, altares,
imagens, documentos, tudo está se perdendo sob as mãos dos modernos vigários e
com a negligência das autoridades. Como escreveu a professora Adalgisa CAMPOS:
“Ha uma insensibilidade quanto às diferenças culturais de
cada paróquia, colocando-se sacerdotes afeitos ao progresso
em localidades que mereciam um mais experiente, com
formação aberta para as humanidades, inclusive que tenha
noções de arte para ajudar a preservar os acervos
documentais e artísticos.”58
O exemplo da desaparição gradual das celebrações da Semana Santa nestes
povoados é um entre muitos.
50
6. Ilustrações
Mapas:
51
52
53
54
55
56
57
58
7. Bibliografia
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1971 (Debates 35).
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CHARTIER, Roger. A Ordem dos Livros. Leitores, Autores e Bibliotecas na Europa
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de Ovar. In: Anais do VI Colóquio Luso-Brasileiro de História da Arte. Belo Horizonte,
2003, pp. 409-420.
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CIRLOT, J. Dicionário de Símbolos. São Paulo: Moraes, 1984.
62
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e Silva e outros). Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1989.
7.4. Fontes primárias
7.4.1. Fontes impressas
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de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1987.
Códice Costa Matoso. Coleção das notícias dos primeiros descobrimentos das Minas na
América que fez o Dr. Caetano da Costa Matoso sendo Ouvidor-Geral das do
Ouro Preto, de que tomou Posse em fevereiro de 1748 & vários papéis. Belo
Horizonte: Fundação João Pinheiro, Centro de estudos Históricos e Culturais, 1999,
Vol I e II.
Constituiçoens Primeiras do Arcebispado da Bahia Feitas e ordenadas pelo Illustrissimo,
e reverendíssimo Senhor D. Sebastião Monteiro da Vide, Arcebispo do dito
Arcebispado, e do Conselho de sua Magestade, propostas e aceitas em o synodo
Diocesano, que o dito senhor celebrou em 12 de junho do armo de 1707, Lisboa,
Miguel Rodrigues, MDCCLXV.
Missale Romanum. Ex Decreto Sacrosancti Concilii Tridentini Restitutum S. PII Pont.
Max. Jussu Editum, Et Clementis VIII. Primum. Nunc Denuo Urbani Papae VIII
Auctoritate Recognitum, Et Novis Missis Ex Indulto Apostólico Hucusque
Concessis Auctum, In Quo Etiam Míssae, Quae EX Concessionibus Pontificiis In
Regno Portugalliae Celebrantur, Suis Locis Accurate Ponuntur. Olisipone,
Typographia Regia, Et Cum Privilegio. Ano MDCCLXXXIV.
7.4.2. Fontes manuscritas
Livro da Irmandac. do Sanctiffimo Sacramto. desta Freguezia de N. S. de Nazareth da
Cachoeyra q serve de lançar os termos dos Irmãos (...) Sendo Escrivão Este Prezente
anno o srgto Mor Jozeph Luis Sol. 1716. (Cachoeira do Campo, arquivo paroquial).
Petição dos devotos das Dores para se conceder um eremitão para esmolar em prol da
ampliação da Igreja de Nossa Senhora das Dores de Cachoeira do Campo. Arquivo
Ultramarino de Lisboa. AHU-Con.Ultra. - Brasil/MG - CX: 159, DOC: 27. (11555
A801,22,9)
63
Notas:
1
Como demonstra a nota ao final deste escrito de 1908: “continua”.
NAVARRO, Isidoro Moreno. La Semana Santa de Sevilla, p.13.
3
TEDIM, José Manuel. Capelas dos Passos e a Imaginária Religiosa Devocional do Ciclo de Ovar.
In: Anais do VI Colóquio Luso-fírasileiro de História da Arte, p. 409.
4
Idem,p.4O9.
5
CAMPOS, Adalgisa Arantes. Piedade Barroca, Obras Artísticas e Armações Efêmeras: As
Irmandades do Senhor dos Passos em Minas Gerais. In: Anais do VI Colóquio Luso-Brasileiro de
História da Arte, p. 17.
6
Em Cachoeira do Campo localizamos um estandarte - com os dizeres “Ordem Terceira de Nossa
Senhora do Carmo” – e alguns pertences de uma misteriosa e já extinta Ordem do Carmo. A julgar
pela tradição local e pelos objetos, data tardiamente a fundação da referida Ordem - fins do século
XIX - e seu desaparecimento deve ter-se dado na década de 40 do século XX.
7
CAMPOS, Adalgisa Arantes. op. cit., p. 18.
8
Apesar de que, conforme demonstram certos estudos atuais, os caminhos não eram tão
desconhecidos assim, sendo alguns deles abertos no encalço de milenares rotas indígenas.
9
Segundo proposto por Diogo de Vasconcelos ao longo de sua História Antiga das Minas Gerais.
10
Esta estrada seria substituída, em 1782, por uma nova, toda em curva de nível, situada cerca de 300
metros serra abaixo e mandada construir pelo governador de então - Dom Rodrigo Jozé de Menezes.
Em lembrança da obra e do governador e para matar a sede dos viajantes (hoje reduzidos à escassos e
aventureiros turistas) ainda acha-se a meio caminho entre Vila Rica e Cachoeira um belo chafariz de
1782, com detalhes em cantaria, com o nome de D.Rodrigo e o porquê da obra.
11
Uma vez que estudos recentes demoastram que ele (Antonil) provavelmente nunca esteve nas
Minas.
12
Apud RAMOS, Lúcio Fernandes. Cachoeira do Campo. A Filha Pobre do Ouro Preto, p.8.
13
Isto se deveu à posição estratégica de Cachoeira (proximidade do Capão do Lana e do Xiqueiro
dos Alemães, pontos de convergências das principais estradas mineiras do XVIII) e ao clima mais
salubre que o de Vila Rica. Em 1782 Dom Rodrigo Jozé de Menezes transformou a antiga edificação
do Conde das Galveas na luxuosa residência chamada de Palácio, que contava, entre outras regalias,
com um imenso lago artificial (100 x 35m) com capacidade de armazenamento estimada em mais de
25 milhões de litros d'água. Neste lago ziguezagueava até uma embarcação a vela, um scaller, de 7m
de comprimento.
14
Documentos tanto de cunho religioso, quanto expedidos por particulares e pelos primeiros
desbravadores de São Bartolomcu, foram vistos e manuseados (se assim o crermos) por João
Baptista.
15
A torre esquerda guarda uma peça incomum: um sino todo lavrado cm madeira.
16
Destes transeuntes cumprem citar os 'viajantes estrangeiros' que palmilharam o solo brasileiro no
século XIX. Em alguns destes a religiosidade do povo local deixou impressões marcantes.
17
Curiosamente os arquivos da Banda de Música União Social de Cachoeira do Campo possuem
vários cartazes antigos de Semana Santa, o que nos permite supor o trajeto de procissões em
Cachoeira muitos anos antes do surto atual de desenvolvimento. Os cartazes foram encontrados no
ano de 2004, por ocasião da Exposição dos 140 anos daquela Banda, numa mostra organizada pela
AMIC (Associação Cultural Amigos de Cachoeira do Campo).
18
Exceção feita a Cachoeira do Campo que nas últimas décadas tem experimentado um crescimento
urbano considerável. As novas administrações paroquiais, desconscienciosas da importância de se
preservar as antigas rotas, desviaram as procissões para atender os fiéis de bairros novos, tornando os
velhos marcos desprovidos de maior significação religiosa.
19
O visitante que vinha por Cachoeira do Campo, abandonando o caminho de Dom Rodrigo,
chegava ao povoado pelo oeste e já divisava a Matriz de São Bartolomeu, e, mais ao longe, no alto de
2
64
uma colina, a Capela de Nossa Senhora das Mercês, sólida construção de 1772, na parte leste, já em
direção à Ouro Preto.
20
Esta celebração, que tinha como palco a Igreja de Nossa Sra. Das Dores, se estendia por todas as
sextas até a última sexta-feira antes do Domingo de Ramos
21
A procissão do Depósito de Nossa Senhora das Dores era dispensável em Cachoeira por esta possuir
uma capela própria desde o século XVIII.
22
São estes os quadros vistos hoje na nave da Igreja Matriz.
23
Conforme já registram Lúcio Ramos e João Baptista.
24
Com as mesmas figuras bíblicas e as irmandades representadas.
25
O que não deve passar de lenda. Filipe dos Santos foi preso em 1720 no adro da Matriz de Nazaré,
alguns metros distantes do Cruzeiro, que, por isto, deve ter dado origem à esta tradição.
26
Até 1939 este altar ficava na capela-mor, quando foi substituído pelo atual.
27
João Gualberto de Lemos foi tronco de uma família tradicional de Cachoeira c foi um dos
fundadores (e regente por muitos anos) da Banda de Música União Social.
28
AHU-Con.Ultra. - Brasil/MG - CX: 159,DOC.:27. (11555 A801,22,9)
29
Na margem esquerda do documento está a resposta à petição: "He de menos enconveniente q. se
não faça o acrescentamento da capela fpqej pode houver em se permitir quem eremitão com
caixinha: e deverão os supes aprezentar as licenças, conforme se erigio esta capela. "
30
TEDIM, José Manuel, op. cit., p. 410.
31
A via-sacra 'interna' das pinturas analisaremos mais adiante.
32
Antiga Rua do Palácio ou Rua Ponte do Palácio por nela se encontrar a famosa ponte de pedra que
conduzia ao Palácio de Campo dos Governadores.
33
Usados na Procissão do Enterro e, durante o ano, muitas vezes servem para guardar o Senhor
Morto, que, do contrário, fica depositado no 'sepulcro' do altar-mor.
34
Merecem especial destaque as grandes cruzes usadas nas celebrações do descentimento na Sextafeira Santa e as cruzes que serviam ao ritual da Adoração da Cruz na tarde da Sexta-feira
35
Trata-se de pinturas feitas em tecido grosso, representando o manto que envolveu o corpo de
Cristo, frente e verso, numa composição bastante semelhante ao controvertido Sudário de Turim.
Pelo tecido e pela pigmentação usados, acreditamos que são peças confeccionadas em fins do século
XIX ou início do XX. Ninguém, quando instado a respeito, soube dizer para que serviram. O mais
provável é que se destinavam ao Domingo da Ressurreição.
36
Usado ainda hoje, cm Cachoeira, nas procissões do Encontro e do Enterro, pela figura
representando a Verónica.
37
Segundo certa lenda veio de Braga em meados do século XVIII para substituir a outra imagem de
40cm, que, segundo a mesma lenda, pertenceu ao primeiro morador de Cachoeira, Manuel de Mello.
38
João 1:29
39
Os instrumentos representados são: a escada, a lança, o acoite, os pregos, o marteío etc.
40
João 1:23; Malaquias 3:1
41
Nazireus eram indivíduos escolhidos - por Deus ou por voluntariado - para serem servos especiais
no culto judaico. As rígidas regras que governavam a vida dos nazireus estão estipuladas no capítulo
6 do livro bíblico de Números. Entre as normas impostas estão: não tomar bebida alcoólica, não
cortar o cabelo e levar vida ascética.
42
No Antigo Testamento Elias preparou, como profeta, o caminho da obra de pregação de Eliseu c
Aarão preparou o caminho de seu irmão, Moisés - uma antevisão da obra do Batista que prepararia o
caminho de seu primo, Jesus.
43
"E, logo que saiu da água, viu os céus abertos, e o Espírito, que como pomba descia sobre ele. E
ouviu-se uma voz dos céus que dizia: Tu és o meu Filho amado em quem me comprazo." (Marcos
1:10,11)
44
Ao quo mtfct indica, ON personagens representados nesta cena são os pais de Jesus.
45
Mateus 26:28
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46
É interessante notar que, ladeando estes dois painéis, se encontram pintados o trigo e a uva. O
trigo, utilizado sem levedo no preparo do pão pascoal, é símbolo, conforme os quatro evangelhos
canônicos, do Corpo de Cristo. A uva (cujas parreiras se espalham também por todos retábulos) é
matéria-prima do vinho e significa o Sangue de Cristo.
47
Provavelmente o apóstolo que dorme é Pedro.
48
Natural de Cirene, antiga capital do distrito romano de Cirenaica, na costa norte da África (na
atual Líbia).
49
Nome de origem aramaica por vezes grafado na sua possível versão grega: Cléofas.
50
O estandarte, símbolo da vitória e da redenção, é uma inserção do imaginário católico e não
encontra apoio nos textos bíblicos.
51
Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana: Prateleira: AA / Assunto: Inventario-Posse:
Irmandade de N. Snra. do Rosário (Cachoeira do Campo)
52
Perizônio é nome dado ao traje que cobre o Cristo crucificado. Por vezes c também chamado de
"pano de pureza".
53
Vegetal, inicialmente representado nos capitéis coríntios, que tomou vulto na ornamentação
barroca.
.
54
A fênix é uma ave mitológica cujo significado, ligado à imortalidade e à ressurreição, foi
incorporado ao cristianismo. É encontrada nos três distritos enfocados.
55
O mesmo que, posteriormente, escreveu a preciosa Monografia Histórica já citada.
56
O pelicano, alimentando os filhotes, é símbolo da compaixão e do amor divino manifesto na
Eucaristia. O pelicano e a fênix são aves que têm especial significado no contexto da Paixão de
Cristo.
57
NAVARRO, Isidoro Moreno, op. cit., p.12.
58
CAMPOS, Adalgisa Arantes. op. cit., p. 27.
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Alex Fernandes Boher - Instituto de Ciências Humanas e Sociais