Profissões ligadas ao áudio 7 - o Engenheiro de Áudio
Autor: Fernando Antônio Bersan Pinheiro
Encerrando a nossa série de artigos sobre profissões ligadas ao áudio, temos agora a figura do
Engenheiro de Áudio (ou Engenheiro de Som).
De vez em quando encontramos nas revistas sobre sonorização que uma ou outra pessoa é engenheiro
de áudio, ou mesmo engenheiro de gravação (um engenheiro de áudio que atua em estúdios de
gravação). Que figura é essa do engenheiro de som? Engenheiro é quem estuda engenharia, diz o senso
comum. Mas se procurarmos um curso sequer de Engenharia de Áudio no Brasil, não vamos encontrá-lo,
nem à nível de graduação nem em especialização. O mais próximo que existe disso é um curso de
Engenharia Elétrica com ênfase em Áudio, na UFMG
(http://www.eletrica.eng.ufmg.br/html/Documentos/fr_curriculo.htm). Existem cursos específicos de
Engenharia de Áudio no exterior, mas são muito raras as pessoas com essa formação.
Na falta de uma formação específica de engenheiros de áudio no Brasil, o jeito é recorrer à AES - Audio
Engieneering Society - Associação dos Engenheiros de Áudio, seccional Brasil. www.aesbrasil.org. Para
a AES, existem os membros (com direito a voto) e os associados (sem direito a voto). Os membros são
Engenheiros (de qualquer formação), Físicos e Arquitetos, ou pessoas com "realizações importantes na
área de Áudio". Já os associados podem ir desde os técnicos e operadores a interessados em geral.
A AES nos deu uma importante pista para definir quem é o engenheiro de áudio. O que tem em comum
um engenheiro, um físico e um arquiteto? O que eles sabem que os peazeiros, técnicos de gravação,
DJ´s e roadies não sabem (não no mesmo nível)? A resposta é simples - Matemática e Física. Áudio é
uma grandeza física, que segue leis rígidas e também pode ser reduzida a valores e expressões
matemáticas. Nesse ponto, ter formação na área de exatas dá uma visão muito melhor do áudio como
uma verdadeira ciência. Evidentemente que algumas pessoas, mesmo sem formação específica,
acabaram aprendendo "na prática" (e na raça), em cursos e como autodidatas a Matemática e Física
envolvida no áudio, e assim também são aceitas como membros, como engenheiros de áudio. São as
pessoas com "realizações importantes na área de Áudio". Não precisamos citar nomes, mas tem muita
gente boa (muito boa mesmo) na área de áudio que sequer tem alguma formação superior, mas que
poderiam estar dando aulas para formação de novos engenheiros de som.
Mas porque a Matemática e a Física são tão importantes assim? Porque o "ouvidômetro" (apelido
carinhoso dos nossos ouvidos) é subjetivo. A questão de gosto pessoal influencia nas nossas escolhas.
Uma pessoa pode gostar mais de agudos, outra pessoa pode gostar mais de graves, uma pessoa pode
achar o mesmo microfone excepcional e o outro pode achá-lo apenas razoável. Mas quando entra a
Matemática e a Física, a subjetividade não mais permanece. Essas ciências trazem certezas, exatidão.
Claro que o ouvido não pode ser menosprezado, e os engenheiros de áudio também tem um bom
"ouvidômetro".
Vou dar um pequeno exemplo de como o conhecimento científico é importante. Se um técnico for montar
o sistema de sonorização de uma igreja e for comprar os amplificadores necessários, o volume sonoro
(pressão sonora - dB SPL) final poderá ficar abaixo do esperado ou muito acima do necessário (vai gastar
menos do que precisava ou muito além). Ele provavelmente comprará por experimentação. Já um
engenheiro de áudio vai primeiro observar outras igrejas semelhantes, calculará quantos dB SPL
necessários, fará os cálculos de rendimento das caixas acústicas, fator de crista das músicas, uma
reserva técnica de tantos dB, etc. E só depois vai dizer: comprem X amplificadores de Y potência. Pronto.
Não se gastou nem em falta nem em excesso, mas sim o necessário.
Esse exemplo é bem básico, e ninguém espera chamar um engenheiro para se comprar um ou dois
amplificadores para uma igreja pequena. Mas em grandes igrejas, para algumas milhares de pessoas,
que vão precisar de muitos amplificadores de vários milhares de reais cada, um engenheiro pode
representar uma grande economia.
Mas o que um engenheiro de som faz?. O currículo do curso da UFMG pode nos ajudar bastante nisso:
"O Engenheiro Eletricista formado na ênfase em Engenharia de Áudio deve ser capaz de analisar e
solucionar questões que envolvam a interação da Eletrônica e da Acústica. Deve projetar e especificar
sistemas de sonorização, estúdios de gravação, rádio e TV, além de equipamentos para processamento
de sinais de áudio e música eletrônica; emitir relatórios técnicos sobre as características acústicas de
ambientes e propor soluções; gerenciar a implantação de equipamentos de áudio em aplicações que
envolvam sistemas de sonorização e/ou de gravação; especificar sistemas de monitoração e diagnóstico
de falhas em equipamentos; propor soluções para problemas de incômodo auditivo em diferentes
ambientes urbanos."
Na prática, isso significa:
Se for um engenheiro de áudio com atuação no ramo de acústica, pode participar de projetos acústicos
de qualquer tipo de construção ou ainda trabalhar com controle de ruídos (conforto auditivo), seja dentro
de um hospital, seja dentro de um automóvel ou aeronave.
Se for um engenheiro de áudio com atuação no ramo de eletrônica, pode participar do projeto de
equipamentos de sonorização: amplificadores, mesas de som, equalizadores, etc;
Há engenheiros de áudio que atuam no ramo de sistemas eletromecânicos: caixas acústicas, altofalantes, etc.
Há engenheiros de áudio que atuam no ramo de sistemas de energia elétrica para sistemas de áudio.
Um engenheiro de som pode projetar e operar sistemas de sonorização (eventos, shows, etc) e treinar
operadores para esse sistema.
E existe ainda a figura do engenheiro de gravação, um engenheiro de áudio que atua em projeto e
operação de sistemas de gravação, envolvendo inclusive estúdios, rádios e TV.
Para finalizar, um texto que o Spurgeon - membro do fórum do SomAoVivo e que cursa Engenharia com
ênfase em Áudio na UFMG - nos mandou sobre o seu curso:
"E como que funciona o curso aqui? Nos dois primeiros anos você é bombardeado com muita Física,
Matemática e Computação. No quinto período você entra na engenharia elétrica de fato, estuda no quinto
e sexto muita coisa de energia e eletrônica, sendo que no sétimo período você faz opçao pelas diversas
sub-áreas: Telecomunicação, Áudio, Sistemas de Energia, Engenharia Biomédica ou Eletrônica de
Potência.
A UFMG só implementou o curso de áudio pq seu currículo é flexível. Você como estudante de
engenharia elétrica pode estudar até com alunos da medicina se quiser, os alunos que estudam
engenharia biomédica estudam anotomia. Assim, a interdisciplinaridade que o áudio pede pode ser
alcançada.
Um exemplo: a gente estuda Acústica Básica junto com os alunos da Engenharia Mecânica. Depois
estuda Acústica Aplicada com os alunos do curso de Arquitetura. Estudamos controle de ruídos e conforto
ambiental com os alunos da Engenharia Civil, estudamos Psicoacústica, treinamento auditivo, um pouco
de eletroacústica aplicada na Faculdade de Música e por ai vai. Todo fim de semestre você tem que ir
nestas escolas, eles disponibilizam as matérias que serão ofertadas, e se te interessar você se matricula.
Você é orientado sobre o que tem que estudar, mas é você quem tem que correr atrás.
Na escolla de Eengenharia vc estuda tudo de conversores, aprende a programar DSPs, aprende a
realizar medidas eletroacústicas seguindo normas, aprende muita coisa de processamento digital e
analógico de sinal, aprende sobre amplificadore e transdutores e etc. É um bom curso, eu gosto.
Saindo do campo musical, no ramo industrial se encontra hoje espaço para um Engenheiro de Áudio.
Como a UFMG é a única universidade que o cara sai com este título no diploma, tem engenheiro de áudio
formado pela UFMG trabalhando por este Brasil afora.
Exemplos: conheço engenheiros de áudio que formaram aqui trabalhando na Embraer, na GM e na Fiat.
Eles trazem soluções buscando conforto acústico para os passageiros. Eu sei que a Fiat tem um
laboratório de eletroacústica calibrado pelo Inmetro, e que a Embraer desenvolveu materiais acústicos os
quais são tratados como segredo de Estado. Sei também que os engenheiros de áudio sao "rivais" dos
projetistas de design automobilístico, afinal, eles desenham e a bomba cai na mão do engenheiro de
áudio que tem que atender as especificações de conforto acústico. Alguma semelhança com construção
de igrejas?
Enfim, desde que se descobriu o que um desconforto auditivo pode causar nas pessoas, gerando
improdutividade, doenças, irritabilidade, e desde que para competir se faz necessário se adequar às
normas, onde o ruído é um problema, e se esta for uma grande empresa com gestão moderna, ela estará
procurando um engenheiro de áudio. A solução de colocar abafadores no ouvido já vem sendo
combatida, sabe-se que é mais barato a longo prazo atuar na fonte, mas isto é outra história."
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