Gestão & Planejamento Revista do Departamento de Ciências Sociais Aplicadas 1. Nº 3 Universidade Salvador - UNIFACS Reitor Manoel Joaquim Fernandes de Barros Sobrinho Vice-Reitor Guilherme Marback Neto Adjunta do Reitor para Assuntos Comunitários Sônia Maria Ribeiro Simon Cavalcanti Pró-Reitores Verônica Menezes Fahel - Administrativa Sérgio Augusto Veloso Viana - Comunitário Maria das Graças Sodré Fraga Maia – Graduação Luiz Pontes – Pesquisa, Extensão e Pós-Graduação Chefe de Departamento Tânia Maria da Cunha Dias Coordenação dos Cursos de Graduação Alberto Novais de Queiroz - Administração de Empresas Lúcia Aquino Queirós - Turismo Manoel Joaquim Fernandes de Barros - Administração com habilitação em Comércio Exterior Alexandre Tochetto Paupério - Administração com habilitação em Hotelaria Esta publicação contou com o apoio de .... Comissão Editorial Alan Jolly (ÉCOLE DE HAUTES ÉTUDES DE MONTREAL) Alberto Novais de Queiroz (UNIFACS) Alexandre Tochetto Paupério (UNIFACS) Blanca Olías de Lima (UNIVERSIDAD COMPLUTENSE DE MADRID) Carlos Herval Laranjeira (UNIFACS) Edivaldo Boaventura (UFBA) João Eurico Matta (UCSAL) José Augusto Abreu (UNIFACS/FTC) Lúcia Aquino Queirós (UNIFACS) Manoel Joaquim Fernandes de Barros (UNIFACS) Marta Zabaleta (MIDDLESEX UNIVERSITY) Tânia Maria da Cunha Dias (UNIFACS) Vanessa Ribeiro Simon Cavalcanti (UNIFACS) Coordenação Editorial Vanessa Ribeiro Simon Cavalcanti Editoração Eletrônica/Arte de Capa Fernanda da Cunha Dias Tiragem: 500 exemplares Ficha catalográfica Gestão & Planejamento: Revista do Departamento de Ciências Sociais Aplicadas I da UNIFACS. – n. 3 (2001). Salvador, Editora, 2001 – Semestral ISSN 0000-0000 1. Administração – periódicos. I. UNIFACS – Universidade Salvador. Departamento de Ciências Sociais Aplicadas I. Gestão & Planejamento é uma publicação do Departamento de Ciências Sociais Aplicadas I da UNIFACS – Universidade Salvador e reserva-se o direito de publicar ou não o material espontaneamente enviado à redação, conforme critérios estabelecidos pela Comissão Editorial. Os textos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores. As colaborações e os pedidos devem ser enviados para: UNIVERSIDADE SALVADOR - UNIFACS – Prédio 8 Departamento de Ciências Sociais Aplicadas I Alameda das Espatódias, 915 – Caminho das Árvores – Tel. (071) 340-3635 41820-460 Salvador – BA Fax (071) 340-3697 E-mail: [email protected] Proibida a reprodução total ou parcial por qualquer meio de impressão, em forma idêntica, resumida ou modificada, em língua portuguesa ou qualquer outro idioma. SUMÁRIO Apresentação Artigos Pesquisa e Planejamento ambiental no litoral norte da Bahia Maria Raquel Mattoso Mattedi O Turismo no final do século XX: um contexto paradoxal Carolina de Andrade Spinola Turismo e Desenvolvimento Local: Mitos, Ameaças e Oportunidades Bruno Moraes, Edísio Sousa, Fernando Oliveira, Juciara Alves e Samuel Tararan A distância real da Gestão José da Conceição Santana Ensaios e Iniciação Científica Cooperativas Agroindustriais na Bahia: Estudo de Caso da Cooperfeira Pat Virgíne Luz Viana A importância da Administração de Recursos Humanos na Empresa Hoteleira Alice Fernandes Teixeira Coelho Fonseca e Alessandra Carla Ribeiro Sales Gutierréz Professora Orientadora: Kátia Oliver de Sá Diálogos em sala de aula Cerveja Bavaria: História de um ex-produto promissor Denise Borba, Fernando Tanure, Ivan Barbosa, Juliana Coelho, Karine Brasileiro e Pablo Ramos Professores Orientadores: Alexandre Paupério e Lissandra Figueira Cidadania na Universidade: Um exercício constante Willys de Andrade Santos Normas para Publicação APRESENTAÇÃO ARTIGOS PESQUISA E PLANEJAMENTO AMBIENTAL NO LITORAL NORTE DA BAHIA* Maria Raquel Mattoso Mattedi** RESUMO Este artigo tem como objetivo apresentar os resultados do Diagnóstico Socioambiental da Área de Proteção Ambiental do Litoral Norte da Bahia - APA LN, nas porções correspondentes aos Municípios de Mata de São João e Entre Rios. Serão destacados alguns aspectos históricos da ocupação da região, apresentada uma síntese dos resultados da pesquisa domiciliar e, por fim, com base nos resultados obtidos, algumas considerações para pensar o planejamento daquela unidade de conservação. Palavras-chave: Litoral Norte, turismo, Área de Proteção Ambiental - APA, planejamento e gestão ambiental. 1. O litoral norte da Bahia: história e mudanças recentes A ocupação da região teve início na segunda metade do século XVI, confundindo-se com a própria colonização brasileira. Garcia D'Avila, português que deu início à colonização da área, recebeu de Tomé de Souza uma extensa propriedade "compreendida entre os campos do Rio Pojuca até próximo à foz do Rio Real", na segunda metade do século XVI. Entre os anos de 1563 e 16091, foi construída, nas imediações da atual Praia do Forte, a primeira Casa da Torre, fortaleza que funcionou como "um observatório avançado" da coroa portuguesa na Colônia, desempenhando as funções típicas de proteção e defesa. A partir daí, teve início um processo lento e pouco adensado de ocupação territorial, nos sentidos nordeste e noroeste, que alcançou, ao longo dos séculos seguintes, a região do além São Francisco. Desenvolveu-se, em toda a área, uma pecuária extensiva, além de uma economia de subsistência como atividade complementar à economia açucareira, no Recôncavo baiano. Essa economia proveu, por quase um século, o Recôncavo e a cidade do Salvador, de produtos das mais variadas espécies: "(...) através do fornecimento de carne, leite, produtos de couro e animais de tração para os engenhos de açúcar. Essa complementaridade poderia ser, ainda, evidenciada no fornecimento de lenha para os engenhos e de óleo de baleia para a iluminação de Salvador" (Sobrinho, 1988). Sem sofrer grandes alterações nos séculos seguintes, uma sociedade de traços patriarcais estruturouse e consolidou-se em torno da sesmaria, com “um proprietário que morava na sede e uma classe numerosa de pessoas descendentes de mestiços e escravos detendo a posse temporária da terra” (Sobrinho, 1988). Com o refluxo da economia açucareira, em meados do século XVII, a região, altamente dependente e articulada ao recôncavo baiano, entra num processo de estagnação econômica tendo suas atividades produtivas redefinidas a partir de então. A plantação do coco é introduzida na região que "... passa então a fornecer, além da lenha, do carvão, da carne e dos produtos de couro dos tempos coloniais, o coco e as frutas, o feijão, os derivados do leite e os objetos de palha" (ECOPLAN, 1997). A região segue seu ritmo nos séculos seguintes, havendo lacunas nos registros encontrados sobre o período compreendido entre meados do século XVII e final do XIX, quando uma grande extensão de terra foi adquirida por um excêntrico prussiano, naturalizado norte-americano que, tendo notícias sobre o Brasil, através de um encontro com o Imperador D. Pedro II, na Filadélfia, transferiu-se para cá, fixando-se no litoral norte da Bahia e lá permanecendo até meados do século XX. Trata-se de Sigisfred Sigismundo Schindler que chegou ao Brasil no ano de 1879, na cidade do Rio * Diagnóstico realizado pela UNIFACS através de Convênio de Cooperação com a CONDER e WS Atkins. 1999. ** Doutoranda em Planejamento Territorial pela UNIFACS/Universidade de Barcelona e Professora do Curso de Graduação em Ciências Sociais da UNIFACS. 1 Trata-se da construção da primeira Casa da Torre, da qual não restam vestígios. Em 1716 foi concluída a construção da segunda Casa da Torre, nas proximidades da Vila Praia do Forte, hoje sendo restaurada. de Janeiro2, instalando-se, pouco depois, na Bahia em propriedades adquiridas dos descendentes dos D'Avila. Diz ele, em seus relatos sobre o litoral norte (Queiroz e Almeida, 1997): "(...) Da costa do Forte até Vila do Conde eu tive várias terras, a maioria delas pertencentes aos herdeiros da Casa da Torre. Eu fundei vários armazéns para estocar diversos produtos que eu comprei na região. Especialmente, o COCONUT (semente de coco). Era uma área de 42 léguas de terras. Eu tive terras em Esplanada, Pojuca, Mata de São João, e Parafuso para instalar os armazéns, e diversas fábricas para o aperfeiçoamento e ao mesmo tempo a manufatura de diversos produtos". Visionário, Schindler foi um atento pesquisador de produtos naturais visando o estabelecimento de um próspero negócio de exportação. Da África trouxe para a Bahia sementes do "bicho da seda" cujo cultivo foi introduzido na localidade de Tucano; levou para Londres amostras da casca externa da piaçava, o "endocárpio", pensando na fabricação de botões; adquiriu, na Antuérpia, máquinas pensando no corte da fibra da piaçava e no fabrico de vassouras; na Dinamarca comprou máquinas para o beneficiamento de fibras. Iniciou na localidade de Queimadas a exportação de peles de cobra e, em 1889, a exportação de plantas medicinais (Queiroz e Almeida, 1997). As palavras de Schindler são eloquentes e as mais apropriadas para dar uma idéia da quantidade e das potencialidades dos recursos naturais disponíveis à época, bem como do uso econômico a partir do beneficiamento local de muitos produtos3: "(...) Todo o tempo eu ampliei minhas exportações com novos produtos descobertos: coconut, corte de piaçava, borracha da mangabeira, raízes medicinais, especialmente manocá, videiras selvagens e tingui, e também óleo de mamona da fábrica de Esplanada, frutas secas do cajueiro em latas para durar 2 anos, vinho do cajueiro, bananas secas, farinha de banana das fábricas construídas em Parafuso(...). Obtive do Governador Luis Viana a permissão para a exploração da areia monazítica, poços artesianos nas terras do interior para reduzir os danos da seca e, moinhos de açúcar na Vila do Conde (...)" (...) Eu montei na cidade de Alagoinhas "casas de salgagem" para preparar peles secas para exportação. Eu exportei milhões de bengalas chamadas "cherules"e estandartes (bandeiras) feitas de "dart"(um tipo de bambu) para decoração. Eu produzi goma para fábricas têxteis, farinha de banana para fazer biscoitos (crakers), etc." (...) Em 1898 é inaugurado o primeiro porto da região, na foz do Rio Sauípe, localidade hoje conhecida como Porto Sauípe, no Município de Entre Rios. O porto chamava-se Porto Schindler e, segundo notas da imprensa da época, a inauguração entusiasmou fortemente os moradores da localidade que eram em número superior a 1.000 pessoas! (Queiroz e Almeida, 1997). Assim, o extrativismo como base da economia local manteve-se até muito recentemente. Informações, nem sempre coincidentes nos seus detalhes, dão conta da venda das terras de Schindler, entre 1900-1920, para uma companhia inglesa de borracha - British and Brazilian Rubber Planters e Manufaturados (Stifelman, 1997) - que almejava dar continuidade às atividades de comércio exportador iniciadas pelo americano, especialmente aquelas relativas à exploração do látex da mangaba, abundante na região, para o fabrico da borracha. Algumas fontes indicam que a área vendida correspondia a 80.000 ha ou o equivalente a 20 km de costa por 40 km de profundidade, no sentido leste oeste (Queiroz e Almeida, 1997). A companhia inglesa desenvolveu atividades na área até 1940 quando entrou em falência, entregando-a ao Bank of London que passou a responder pela administração da empresa. Lembrada na região até recentemente (Stifelman, 1997), a Companhia arrendava terras aos moradores locais que permaneceram desenvolvendo atividades de subsistência e extrativas. Conta a história que o representante da companhia inglesa, instalado na região, teve que ausentar-se do Brasil por motivos 2 Schindler empreendeu longa viagem pelo interior e seus relatos referem-se à passagem por povoados de alguns estados brasileiros: Rio de Janeiro (Nova Friburgo e Petrópolis), São Paulo (Botucatu e Riberão Preto), Minas Gerais e Goiás. No seu retorno ao Rio de Janeiro publicou um trabalho sobre plantas medicinais. 3 Relato de Schindler, gravado em abril de 1934, um ano antes de sua morte (Queiroz e Almeida, 1997). relacionados à guerra na Europa, deixando as terras aos cuidados de dois moradores da localidade de Sauípe, hoje Vila Sauípe. Tendo um deles morrido precocemente, o Sr. Genésio Tolentino de Jesus respondeu como procurador da Companhia, enviando regularmente para a Inglaterra o dinheiro arrecadado dos arrendamentos, até 1949. Ainda hoje, são encontrados descendentes da família Tolentino em Vila Sauípe, localizada no extremo norte do Município de Mata de São João. Em 1949, parte dessas terras são compradas da Companhia Inglesa pela Construtora Norberto Odebrecht - CNO, que passa a dispor de 1.700 ha. situados entre o riacho Santo Antônio na porção norte do atual Município de Mata de São João e o Rio Sauípe, já no Município vizinho de Entre Rios. Neste local encontra-se em fase de conclusão o Complexo Sauípe (Stifelman: 1997; Queiroz e Almeida: 1997). Na porção sul de Mata de São João, consta que em 1922, o coronel Otacílio Nunes de Souza comprou a Fazenda Praia do Forte de Régis Pacheco, ex-governador da Bahia e descendente dos D’Avila, iniciando o cultivo do coco e desenvolvendo um programa de mudas selecionadas associado à pecuária extensiva. Em 1939, com a morte do Sr. Otacílio Nunes, tem início um processo de decadência econômica da família, cercada de conflitos entre os muitos herdeiros. Somente após 30 anos, em 1970, a Fazenda Praia do Forte é vendida a um empresário paulista que tenta dar continuidade às atividades agropecuárias na região, mas, posteriormente, desenvolve o primeiro grande projeto turístico do Litoral Norte: o Projeto da Praia do Forte. Como visto, poucas alterações ocorreram na região ao longo dos séculos seguintes até meados do atual. Afastada das sedes municipais, a região permaneceu isolada da capital do Estado, cujo acesso, a partir da Praia do Forte no sentido norte, só era possível, via marítima, através de saveiros. As atividades agropecuárias e as extrativas continuaram sendo predominantes numa estrutura produtiva consolidada secularmente. Na década de 50 a região presencia o início da exploração do petróleo com a instalação de poços nos municípios de Mata de São João, Entre Rios, Itanagra, Pojuca e Cardeal da Silva, com efeitos sobre toda a região. Por volta dos anos 70, com a primeira crise da atividade petrolífera, emerge como alternativa econômica regional, dado o preço favorável da celulose no mercado internacional, a produção da celulose e do carvão vegetal. É implantado, então, o Distrito Florestal do Litoral Norte da Bahia, abrangendo 763.000 ha. e vários municípios. Instalaram-se na região empresas reflorestadoras apoiadas por uma política vantajosa de subsídios fiscais. Alguns trabalhos que analisaram a atividade na área, dão conta do impacto do reflorestamento sobre a estrutura fundiária e ocupacional pré-existente4, provocando, inclusive, resistências por parte de grupos ambientalistas e, simultaneamente, de grupos econômicos interessados no desenvolvimento do turismo. Como observa a Empresa ECOPLAN, no Estudo Preliminar de Impacto Ambiental/EPIA de um empreendimento turístico local, o Resort Pojuca, as atividades florestais, nos moldes em que foram implantadas, provocaram problemas sociais, desalojando pequenos proprietários instalados há muito tempo na área: "Apesar das fábricas de celulose nunca terem sido implantadas, devido a mudanças no mercado mundial, o reflorestamento teve grande impacto em termos de ocupação das terras do Litoral Norte. Vastas áreas foram utilizadas na plantação de florestas de eucalipto e pinus. Esse processo gerou um incremento na concentração fundiária que por sua vez agravou o problema da desocupação das populações rurais, que venderam, ou simplesmente perderam suas pequenas propriedades, sendo parcialmente absorvidas pelo trabalho sazonal de plantio (bóias frias) e engrossando as periferias das maiores cidades da região” (ECOPLAN, 1997: 116). 4 Vejam-se: SAMPAIO, Marieze Rosa P. Formação de Atores e Reestruturação do Espaço. Dissertação de Mestrado apresentada ao Mestrado de Sociologia da UFBA, 1990; Centro Mineiro de Estudos e Pesquisas sobre Florestas. Os "fracos" e os "avessos": formas de resistência social no litoral norte da Bahia. Uma Análise dos Conflitos entre os Projetos da Pequena Produção e da Agroindústria Florestal, Belo Horizonte, 1997. Com este pano de fundo, a partir dos anos 70, o turismo passa a ser concebido como uma nova e viável alternativa econômica para o litoral norte. Até então de caráter estritamente regional, recebendo veranistas e visitantes dos municípios próximos, a atividade volta-se para o mercado nacional e internacional. Na década seguinte, a região passa a ser preparada para a consolidação da atividade turística agora em novos moldes e associada à questão ambiental. Inicia-se um processo de redefinição socioespacial começado pela localidade da Praia do Forte na porção sul do Município de Mata de São João. Datam deste período algumas iniciativas importantes para a compreensão da atividade turística e sua implantação na região, bem como para a análise das vinculações entre turismo, mudanças espaciais e populações locais. Em 1975 foi criado o Parque Florestal Garcia D'Avila, através do Decreto Estadual N. 24.643, abrangendo áreas dos Municípios de Mata de São João e Camaçari; em 1977 a área foi transformada em Refúgio Particular de Animais Silvestres, através do IBDF/IBAMA. Em 1981, é criada a Fundação Garcia D'Avila - FGA, com o objetivo de “administrar a área, executar os projetos e os empreendimentos turísticos, hoteleiro e imobiliário, transformando-se no principal agente transformador do espaço” (Sobrinho: 1998:61). No ano de 1982 foi construída a ponte sobre o Rio Pojuca, a rede de energia elétrica foi ampliada beneficiando a localidade de Praia do Forte e, ainda, instalado o Projeto TAMAR, voltado para a preservação das tartarugas marinhas, abundantes na costa. Este Projeto passa a contar com o apoio da FGA. Em 1984, através de Portaria criando uma unidade de conservação, na categoria de Refúgio Particular, novos espaços, da antiga fazenda Praia do Forte, foram destinados à preservação ambiental: Camurujipe e Sapiranga. Em 1985, é inaugurado o Hotel Robison Crusoé, atual Praia do Forte Eco Resort. Também no mesmo período, duas outras intervenções sobre o território da Praia do Forte, foram bastante significativas: a elaboração do Plano Diretor da Praia do Forte, regulamentando o uso e a ocupação do solo e o Plano de Manejo da Reserva Sapiranga. Em 1987, a FUNATURA, fundação nacional voltada para a preservação e conservação ambientais, elabora o Plano de Manejo das Áreas de Refúgio Particular da Vida Silvestre. Neste mesmo ano, passam a vigorar as Leis do Código Florestal e de Proteção da Fauna5. As Lagoas de Timeantube e a Mata da Sapiranga passam a Reservas Ecológicas e cria-se a primeira Delegacia Ecológica da região. Todas essas medidas provocaram impactos sobre a estrutura social, ocupacional e territorial pré-existentes, havendo, dentre outros efeitos, a transferência de população para áreas mais afastadas dos povoamentos litorâneos originais. (Spinola: 1996). Três importantes intervenções governamentais foram decisivas para a consolidação da área como destinação turística, nos moldes referidos, nos anos que se seguiram: o PRODETUR/ Bahia, viabilizando recursos para o desenvolvimento da região chamada agora de Costa dos Coqueiros, a abertura da Linha Verde e a criação da Área de Proteção Ambiental do Litoral Norte da Bahia/APA LN. O impacto dessas intervenções sobre o espaço e sobre as populações tradicionais não tem passado desapercebido de pesquisadores baianos e, hoje, já se dispõem de significativos estudos sobre o tema. Spinola (1997) e Sobrinho (1998) estudaram a Praia do Forte e o impacto do turismo sobre a socioeconomia local; Stifelman (1997) analisou a Vila Sauípe, destacando, em sua etnografia, os usos múltiplos e a gestão social dos recursos naturais pela população residente; Queiroz e Almeida (1997) analisaram o impacto da construção da Linha Verde sobre Porto Sauípe, identificando problemas relacionados ao avanço da atividade turística na área. Na atualidade multiplicam-se as intervenções sobre a área. Programas e projetos de planejamento, gestão e educação ambiental têm sido concebidos e implementados tanto pelo estado, como por entidades não-governamentais. O Governo do Estado da Bahia, através da CONDER, vem implementando o Programa de Planejamento e Gerenciamento Ambiental - PPGA que, com apoio do governo britânico, desenvolve pesquisas na APA/LN voltadas para o conhecimento, planejamento e desenvolvimento da região, em bases de sustentabilidade. Assim, desde 1998 a área 5 Código Florestal: Lei 4.771 de 15/09/65 e Proteção à Fauna: Lei 5.197 de 03/01/67. vem sendo objeto de estudos que visam melhor conhecer o perfil dos moradores, as potencialidades econômicas e as condições ambientais. Dispõem-se de dados e informações suficientemente capazes de contribuir para um adequado planejamento e gestão da área. 2. O Diagnóstico Socioambiental da APA Litoral Norte O Diagnóstico Socioambiental realizado no período que se estendeu de outubro de 1998 a maio de 1999, teve como principal objetivo conhecer o morador tradicional6 da área, as atividades produtivas, as relações de trabalho, os níveis de rendimentos, o padrão habitacional e o acesso aos serviços básicos de infra-estrutura. Em outras palavras, procurou-se conhecer como vive, do ponto de vista sócio-econômico e ambiental a população "beneficiária" da criação da APA LN. Os dados quantitativos foram obtidos através de pesquisa domiciliar, de natureza amostral e os qualitativos através de entrevistas abertas, reuniões comunitárias e reuniões com grupos focais. No Município de Mata de São João foram visitados 10 povoados7, 183 domicílios, abarcando 954 pessoas, em Entre Rios, 05 povoados, 44 domicílios, totalizando 206 pessoas. A despeito dos fluxos migratórios para a região desde 1970, atualmente intensificados, a maioria da população estudada é natural do próprio litoral norte, seja do povoado onde foi realizado o levantamento, seja de povoados ou municípios vizinhos. No conjunto, mais de 70% da amostra considerada são naturais de Mata de São João ou de Entre Rios; dentre os nascidos na vila mesma onde foi realizada a pesquisa os índices alcançam 45,9% e 52,3%, respectivamente. Este fato mostra que o deslocamento populacional tem se dado em direção àquelas localidades que já estão inseridas na rota turística do litoral norte, tais como Praia do Forte, Imbassaí e Porto Sauípe. Considerando a variável tempo de residência dessa mesma população, verificou-se que apenas 24% em Mata de São João e 20% em Entre Rios residiam na localidade há menos de dez anos. Os motivos de mudança, em geral, referiam-se a motivos familiares, tais como: casamento, nascimento, morte de algum membro da família ou relações de parentesco. Observaram-se também vários casos de regresso ao lugar natal, após alguns anos fora, em geral em Salvador ou região metropolitana. Ainda que esse aspecto não tenha sido explorado na pesquisa, é possível levantar a hipótese de que estaria havendo, após a abertura da Linha Verde e do incremento do turismo, um movimento de retorno de pessoas que anteriormente emigraram em busca de melhores condições de vida. Essa população é bastante jovem, de baixa escolaridade e pobre. A metade da população estudada apresentava idade inferior a 20 anos, chegando a 49 e 50,9% do conjunto em Mata de São João e Entre Rios, respectivamente. Nos dois municípios, cerca de 25% eram de crianças menores de 10 anos. Considerando aqueles que responderam aos formulários, geralmente donas de casa ou pessoas maiores de 18 anos, foram altos os índices de analfabetismo. Em Mata de São João, os analfabetos corresponderam a 27,8% do conjunto e, em Entre Rios, a 29,5%. Considerando o grupo familiar estes índices decresceram para 15,62% e 12,62% respectivamente. Apesar disso, a grande maioria não chegou a concluir o primeiro grau. Cerca de dois terços da população estudada, nos dois municípios, encontravam-se entre a primeira e a quarta série. Igualmente poucos foram os casos de término do I grau ou ingresso no 2o Grau. A partir do primeiro ano do ensino básico a tendência é uma diminuição no número de alunos em sala de aula. Os motivos são muitos e diversos, mas quase sempre relacionados com a subsistência das famílias, fato que implica na necessidade de agregar ao trabalho familiar, o trabalho da criança ou do jovem em idade escolar. Considerando o perfil ocupacional das famílias, os resultados apontaram para uma realidade de pluriatividade ocupacional, bem como para a coexistência de atividades tradicionais com atividades 6 O morador tradicional foi considerado como aquelas pessoas naturais da região, moradores de pequenos vilarejos ou vilas de pescadores, situados ao longo da costa da APA LN, inclusive, os localizados a oeste da Linha Verde, numa extensão de 10 Km para o interior. 7 Em Mata de São João: Açu da Torre, Sapiranga, Barro Branco, Diogo, Santo Antônio, Areal, Curralinho, Malhadas, Campinas e Vila Sauípe. Em Entre Rios: Água Comprida, Estiva, Canoas, Massarandupió e Sítio Novo. modernas, estruturadas no âmbito do mercado formal e vinculadas à "indústria" do turismo. Entretanto, diferentemente do suposto inicialmente pela pesquisa, que esperava uma maior expressividade das atividades ligadas ao turismo, as atividades agropecuárias e da produção extrativa, vegetal e animal, configuraram-se como as principais atividades desenvolvidas pela população estudada. Dado o interesse da pesquisa em aprofundar o entendimento da estrutura produtiva local, as atividades agropecuárias e extrativas, correspondentes a 14,3% do conjunto da população em Mata de São João e 16% em Entre Rios, foram detalhadas e consideradas em suas diversas expressões. Assim, agrupadas sob o título genérico de atividades agropecuárias e extrativas, encontravam-se as seguintes atividades tradicionais: a) as atividades agropecuárias típicas, definidas como aquelas realizadas em terra de terceiros, envolvendo ora o trabalho assalariado, ora a prestação diária de serviços; b) a pequena produção rural ou agricultura familiar; c) o artesanato da piaçava e, por fim, d) outras atividades tradicionais, abrangendo a pesca artesanal, a mariscagem e a coleta de frutas nativas para fins comerciais. Dentre as atividades agropecuárias típicas, destacaram-se aquelas realizadas em estabelecimentos agrícolas ou florestais. Supõe-se que as fazendas de coco e de gado da região, bem como as empresas de reflorestamento do Distrito Florestal do Litoral Norte, sejam as responsáveis pela absorção da mão de obra local. Entretanto, a produção de coco já foi maior na região. Segundo Stifelman (1997), no passado, pequenos produtores arrendavam terras de grandes proprietários para a plantação do coco. Independentemente da propriedade e da localização da terra, o direito à produção, por parte daquele que plantou a árvore, manteve-se respeitada através de gerações. Mais recentemente verifica-se uma redução no arrendamento de terras para a plantação do côco, com a compra de coqueirais por empresas que atuam na região (Stifelman: 1997:95-96). Simultaneamente às atividades agropecuárias desenvolvidas em terras de terceiros, destacam-se, em importância, as atividades ligadas à pequena produção rural. O roçado, a cultura de alguns produtos num grande quintal, a capina ou, simplesmente, a cultura e o beneficiamento da mandioca é uma atividade desenvolvida por grande parte da população local. Muitas vezes, é importante notar, quando indagadas sobre as atividades desenvolvidas, as pessoas não se referem à atividade por desconsiderá-la enquanto atividade produtiva. Porém, ao pesquisador atento não escapa o fato de que, mesmo pequena, essa atividade é parte do modo de vida dessa população, assegurando um complemento de renda e aumentando a dieta familiar. O artesanato da piaçava é responsável, sobretudo, pela ocupação de mulheres e crianças nos dois municípios. Chamadas de tranceiras, essas mulheres desenvolvem o artesanato a partir da coleta e do beneficiamento da palha da piaçava, palmácea abundante em toda a região. Mostra Stifelman que, em Vila Sauípe, 79 mulheres produziam o artesanato como atividade principal. A palha era tradicionalmente apanhada nas proximidades de Sauípe, em terras de particulares, duas a três vezes por mês. Eventualmente, comprava-se a palha. A produção é bastante trabalhosa e demorada, resultando na confecção diária de um chapéu ou de uma bolsa. As peças são costuradas com linho (fibra) do ouricuri, também chamado de licuri, outra palmácea local (Stifelman: 1997:84). Atualmente são frequentes as referências à escassez da matéria prima, sobretudo pelo cercamento das propriedades. No Município de Mata de São João, destacam-se as localidades de Diogo, Santo Antônio e Vila Sauípe como as mais representativas da produção artesanal da região e, em Entre Rios, os povoados de Canoas e Porto Sauípe, onde vem se estruturando, recentemente, uma associação de artesãos. Trata-se de uma atividade realizada e comercializada principalmente por mulheres, embora possa haver a participação da família e até da vizinhança durante em algumas etapas do processo produtivo. Por fim, as outras atividades tradicionais referem-se, principalmente, àquelas ligadas à pesca artesanal, à mariscagem e à coleta de frutas. Observou-se, que muitas famílias praticam a pesca como uma fonte alternativa de sobrevivência e renda familiar. Em Vila Sauípe a pesca no rio é desenvolvida especialmente pelos homens, durante os meses de verão. Segundo Stifelman, cerca de 20 famílias viviam da “maré” na localidade, entre 1996-1997. A mariscagem, antes pouco valorizada por dar-se na lama, parece mostrar-se em expansão, devido ao recente aumento da demanda. A pesca no mar é praticada por poucos, com jangadas de seis paus ou com catraia. A coleta de frutas é, por sua vez, uma atividade capaz de envolver muita gente, sobretudo mulheres e crianças. Em Vila Sauípe, a equipe de campo teve a oportunidade de presenciar, mais de uma vez, o comércio da mangaba por compradores de fora, inclusive de lugares distantes tais como o sul da Bahia e Sergipe. Essa “produção”, que pode ser coletada no "mato", nos quintais ou nas "malhadas", nomenclatura regional para quintal, é também comercializada nas feiras de Vila Sauípe ou da Praia do Forte. Trata-se sempre de um acréscimo pequeno, mas importante na receita familiar. Em ordem de importância, apareceram a seguir as atividades da construção civil. Em Mata de São João corresponderam a, aproximadamente, 11% do conjunto, e em Entre Rios, a 13,6%. Nos dois municípios, os trabalhadores menos qualificados são os mais numerosos. Considerando o Município de Mata de São João, verificou-se a importância crescente da atividade nas áreas vizinhas ao Complexo Sauípe. Grande parte dessa população encontrava-se vinculada à CNO. O assalariamento, embora temporário, parece estar possibilitando um certo dinamismo local. As atividades e serviços de hospedagem e alimentação apareceram a seguir e são representadas, respectivamente nos Municípios de Mata de São João e Entre Rios, por 8,8% e 7,7%. Observou-se, na região da Praia do Forte, um índice superior à média, chegando a 12,7%. Trata-se de um fato facilmente compreensível se se considera que a atividade turística encontra-se, mesmo coexistindo com atividades tradicionais, praticamente consolidada nessa área da APA LN. Finalmente aparecem o comércio de mercadorias e as atividades relacionadas aos serviços domésticos, em casas de veraneio, que têm maior expressão na área de influência da Praia do Forte. Atividades mais qualificadas, na indústria ou nos serviços, são pouco representadas. A média de salários pagos na região não vai além do salário mínimo e a grande maioria da população estudada tem um rendimento médio familiar que se situa em torno de um a dois salários mínimos. Em alguns períodos do ano esses rendimentos podem ser incrementados pela entrada de rendimentos provenientes da participação de outros membros da família, na receita familiar, através da prestação de serviços associados ao turismo. É comum a contratação de pessoal, por tempo determinado, no período de alta estação. Além disso, muitas famílias dispõem de rendimentos não monetários tais como a produção do roçado, a pesca, a mariscagem e a coleta de frutas, como visto. Em Mata de São João existe maior proporção de trabalhadores assalariados, correspondendo a 46,5% dos quais 15% não têm carteira assinada. Em Entre Rios o índice de assalariados é menor, representando 27,7% da força de trabalho ocupada, sendo que 13,2% deste total não têm registro em carteira. Respectivamente têm-se 49,1% e 72,4% de trabalhadores autônomos. Quanto ao estado dos domicílios os dados indicam condições de conforto e bem estar bastante precárias. Ainda que a grande maioria dos domicílios seja de alvenaria, mais de 30% do total, nos dois municípios, não dispõem de instalações sanitárias, seja no interior ou fora dos domicílios. Dentre os que têm instalação sanitária, 42,2% em Mata de São João e 50% em Entre Rios, não dispõem de fossas sépticas ou qualquer outro tipo de esgotamento sanitário. O uso dos rios, do mato, brejos, terrenos vazios, etc. para o escoamento sanitário e o depósito do lixo é bastante comum. A água para consumo, em geral, passa por uma ou outra forma de tratamento, atingindo cerca de 68% dos casos. As formas mais utilizadas são o filtro ou algum tipo de produto químico; a fervura, por sua vez, é muito pouco utilizada, o que pode ser compreendido se se considera o preço do gás de cozinha. Entretanto, observa-se uma proporção considerável de famílias que não usam qualquer tipo de tratamento, chegando a 30% do conjunto em ambos os municípios. A região dispõe de uma única escola de II grau, nas proximidades da Praia do Forte - Escola Alaor Coutinho, em Açu da Torre - que recebe estudantes de todo o município e também dos municípios vizinhos. Em Açu da Torre e Vila Sauípe existem dois Postos de Saúde que são pouco aparelhados e insuficientes para atender a demanda local, sendo mais comum o deslocamento da população para hospitais de Salvador ou de Camaçari. Muitos povoados não dispõem de abastecimento regular de água, coleta de lixo, energia elétrica e serviços de telecomunicação. O comércio é precário e os preços são altos devido ao desenvolvimento do turismo que, de um lado, dinamiza alguns ramos do comércio e, de outro, inflaciona os preços. 3. Considerações finais: para pensar o planejamento Considerando a existência dos muitos estudos existentes sobre a região, fato que possibilitou um conhecimento prévio e satisfatório das localidades turísticas de maior porte8, a pesquisa procurou concentrar-se naquelas localidades sobre as quais se dispunha de pouca ou nenhuma informação. Assim, procurou-se conhecer mais detalhadamente o morador dos povoados mais antigos, que se encontram fora da rota turística propriamente dita, ou seja, situados do lado oeste da Linha Verde, conforme visto no início deste artigo. A maioria das localidades selecionadas para a pesquisa, portanto, localiza-se do lado oposto às áreas costeiras, mais valorizadas. Esta população, aqui chamada de tradicional, é integrada por pessoas naturais da própria região que vêm assegurando a sua sobrevivência e reprodução através do desenvolvimento de atividades produtivas tradicionais, relacionadas ao uso direto dos recursos naturais. É uma população jovem, de baixa escolaridade e renda, portanto pobre e pouco preparada para enfrentar os desafios atuais que se avolumam. Populações como essa subsistem às investidas do capital ao longo de toda costa brasileira e têm, tradicionalmente, desempenhado um papel importante na conservação da biodiversidade. Diegues (1997) as considera como remanescentes de povoações coloniais vinculadas aos grandes ciclos econômicos. No caso do litoral norte que no passado se beneficiou dos laços mantidos com a cultura da cana de açúcar, verifica-se uma certa estagnação regional. A população local volta-se para a vida comunitária, mantendo um comércio de víveres, pescados e artesanato, por via marítima, com Salvador. Vive uma economia predominantemente de subsistência, praticando o extrativismo de recursos naturais, a pequena agricultura, a pesca, o artesanato, assegurando a sobrevivência do grupo familiar através de uma relação estreita e de natureza conservadora com o meio ambiente natural. Isolada, vive sem sofrer pressões imediatas de elementos exógenos. Mas vivem também na área outros grupos sociais, além de baianos e/ou pessoas radicadas em Salvador que construíram uma segunda residência, impulsionados por fatores como a proximidade de Salvador, facilidade de acesso, o intenso processo de parcelamento da terra e a criação de loteamentos, dentre outros, verificados dos anos setenta em diante. São os moradores novos, que lá chegaram e continuam chegando, atraídos pelas perspectivas de desenvolvimento futuro, sobretudo, aquelas relacionadas ao turismo. Este grupo é formado, em geral, por pessoas de fora da região, empresários de pequeno, médio ou grande porte e por trabalhadores, do turismo e da construção civil que, mais recentemente, têm sido atraídos pelas obras em andamento. O diagnóstico socioambiental realizado e o contato prolongado com a realidade local, possibilitou o entendimento de que a população residente e, portanto, "beneficiária"9 da criação da APA Litoral Norte, não pode ser pensada como uma categoria única, composta por grupos homogêneos e interrelações de poder simétricas. O conceito de população e desenvolvimento local é pouco operacional porquanto coloca sob uma mesma denominação segmentos populacionais e interesses econômicos muito diferenciados. O modo de vida anterior à entrada do turismo e de outras atividades como a reflorestamento na parte mais ao norte da APA LN, assentou-se sobre uma organização socioespacial e produtiva que vinha garantindo, por muitas gerações, senão a riqueza ao menos o acesso facilitado à terra, ao "mato" e às riquezas naturais abundantes. O avanço dessas atividades, no entanto, vem seguramente impactando a base sobre a qual se assentava a economia local, provocando alguns efeitos positivos, simultaneamente, a muitos efeitos negativos. Isso é percebido pela população residente que aceita o "progresso" sem deixar de identificar os problemas dele decorrentes, entre eles conflitos. 8 Localidades como: Praia do Forte, Imbassaí, Porto Sauípe. Salvo raras exceções, são poucas as experiências que atestam os benefícios decorrentes da criação das unidades de conservação para as chamadas populações locais, ou autóctones. 9 Focos de conflitos, latentes e manifestos, são frequentemente observados na área: conflitos na Praia do Forte e na Reserva de Sapiranga entre a população nativa e empresários de turismo; conflitos no Santo Antônio e no Diogo entre proprietários da terra e população nativa; conflitos na área de abrangência do Complexo Sauípe entre empresas privadas e a população local; conflitos em Entre Rios, pela ocupação da barra do Rio Sauípe, entre empresas, donos de loteamentos e barraqueiros nativos; conflitos em Imbassaí, entre comunidade local e visitantes de um dia, os também chamados de "farofeiros", dentre outros. Em geral as causas desses conflitos estão diretamente relacionadas com o aumento de dificuldade ou, em alguns casos, com a completa perda de acesso aos recursos naturais até então usados economicamente pela população, sem grandes problemas ou restrições. A piaçava, usada para a confecção do artesanato, anda rareando; o percurso que leva ao banho de mar está, em alguns pontos, maior e obstruído pelas cercas instaladas nas hoje valorizadas propriedades; mananciais estão sendo represados e desviados para a instalação de áreas de lazer, destinadas ao turismo. Em outras palavras, os conflitos, em geral, estão associados à privatização da base de recursos naturais que até então era acessado e usado livremente pelos moradores. A existência de conflitos dessa natureza remete para uma questão importante, que merece ser mais amplamente discutida entre os diversos segmentos sociais que interagem na APA LN, entre eles os responsáveis pelo planejamento e pela gestão da área. Trata-se da concepção vigente de proteção ambiental. Prevalece, entre os mais bem situados, uma visão ambiental comumente considerada como correta, mas que valoriza elementos da natureza em detrimento de elementos da sociedade, como pessoas, costumes ou tradições. Em nome da proteção ambiental, adota-se uma postura preservacionista que, em suas origens, fundamenta-se na dicotomia estabelecida entre homemnatureza e numa visão de território como objeto de expansão e dominação. Concepções vinculadas à ecologia política, no entanto, privilegiam a relação homem-natureza e o uso adequado e conservador de recursos naturais. Os impactos recaem diretamente sobre a qualidade de vida desses moradores. As águas são poluídas, os mananciais privatizados, o pescado tende a rarear e a piaçava não é mais tão facilmente encontrada nos arredores das vilas. Por outro lado, mediante tantas transformações, os serviços sociais básicos e os de infra-estrutura tornaram-se escassos e insatisfatórios para as demandas que crescem dia a dia. A região dispõe de uma única escola de segundo grau, os serviços de saúde são de difícil acesso porquanto não se dispõem de transporte intra-regional; as casas não dispõem de instalações sanitárias, o saneamento básico é inexistente em toda a APA, sendo altos os índices de doenças parasitárias, a energia elétrica não atende a todos e as comunicações são precárias. Nesse contexto, a qualidade de vida da população nativa, tende a piorar sendo poucas as perspectivas concretas de superação das condições de baixa escolaridade, trabalho pouco qualificado e de pobreza. O "modelo" de desenvolvimento preconizado para a região, com o desenvolvimento do turismo, ao tempo em que abre oportunidades de trabalho e renda para a população residente, desestrutura sistemas sócio produtivos locais. Na medida em que as atividades modernas, relacionadas ao turismo, longe estão de se tornarem as dominantes ou hegemônicas na estrutura produtiva da APA LN, os planejadores devem se indagar sobre a pertinência de se apregoar o fim das antigas atividades que ainda têm um peso importante na sobrevivência do grupo familiar em toda extensão da área. Os dados nos levam a refletir sobre a necessidade de assegurar uma participação mais efetiva dessa população nos benefícios gerados pelas novas atividades implantadas e o planejamento da área deve contemplar a possibilidade de implementação de políticas, programas e projetos que, não apenas assegurem a permanência ou sustentabilidade das atividades tradicionais, mas, principalmente, garantam a valorização das mesmas, simultaneamente a sua inserção nos circuitos turísticos. Como ampliar os benefícios e mitigar os impactos decorrentes do desenvolvimento da atividade turística, é uma boa pergunta para orientar o planejamento da área. Esses aspectos devem ser mais discutidos pelo planejador e órgãos públicos atuantes na APA LN, pois são exatamente estes que devem fazer a mediação entre os diversos e diferenciados interesses que existem e coexistem na região em foco. Projetos que visem, simultaneamente, à conservação e ao desenvolvimento social, são os mais indicados para serem implementados numa área que há mais de quatro séculos vem sendo ocupada e conservada pela sociedade local. As novas alternativas econômicas, como a produção da celulose e o crescimento do turismo, podem exercer impactos muito negativos sobre a região, tanto do ponto de vista ambiental como social. Cabe aos responsáveis pelo planejamento e gestão, bem como aos empresários e às organizações não-governamentais interessadas em apoiar o desenvolvimento sustentável da APA LN, potencializar os efeitos benéficos e compatíveis com os princípios de igualdade, justiça social e sustentabilidade ambiental, evitando ou mitigando, em contraposição, os impactos negativos, que dizem respeito, sobretudo, à exclusão da população tradicional dos benefícios gerados pelas novas atividades. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAHIA. Secretaria da Indústria Comércio e Turismo da Bahia. Empresa de Turismo da Bahia/Bahiatursa. Programa de Desenvolvimento Turístico da Bahia. Zona Turística Costa dos Coqueiros e Zona Turística Costa do Descobrimento. Relatório Final. Salvador, 1992 BAHIA. Secretaria do Planejamento, Ciência e Tecnologia. Companhia de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Salvador. Relatório Síntese do Plano de Manejo. Área de Proteção Ambiental do Litoral Norte. Síntese. Salvador, S/D. BAHIA. 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Aparentemente não existem certezas absolutas. Pelo contrário, a dualidade e a contradição entre as diversas tendências manifestadas, assim como a complementaridade e a relação de causa-consequência, entre as mesmas tendências, e entre elas e as ações implementadas pelas esferas pública e privada, formam um todo indissociável e de difícil análise. Por natureza o turismo é um fenômeno diverso e de estrutura complexa (Palomeque, 1999). Quando o analisamos partindo de uma escala global, considerando as diferenças existentes entre as regiões do planeta, então estas características se tornam mais evidentes, exigindo dos pesquisadores múltiplas aproximações à questão, partindo de referenciais diferentes. Até que ponto o cenário atual do turismo em destinos mais novos é semelhante ao de destinos consolidados? Como se apresentam estes novos produtos turísticos nas vésperas do século XXI? Este texto procura fazer uma aproximação entre o conhecimento turístico produzido na Europa, notadamente na Espanha, e o cenário apresentado por destinos consolidados no nível global, traçando um paralelo com o estado da questão no Brasil. A análise da situação do turismo brasileiro é feita mediante a sua contextualização frente a algumas das principais características da atividade neste final de século, identificadas nos textos trabalhados, ressaltando-se alguns pontos de convergência e divergência entre os diversos autores. Apesar das dificuldades que cercam os esforços de teorização do turismo, tentou-se demarcar algumas tendências para a atividade, presentes em textos recentes de estudiosos da área, que traçariam um quadro referencial para o seu entendimento no momento atual: 1. Crescimento e expansão da atividade no nível global – essa tendência é uma das mais explícitas e facilmente identificáveis. Se refere ao crescimento quantitativo dos indicadores da atividade e à sua expansão em termos geográficos, abarcando áreas do planeta até então excluídas do processo: “Na atualidade, alguns ou muitos países estão prestes a serem engolidos pelo processo turístico. Não é um fenômeno destinado a lugares concretos, mas todos os espaços, atividades (...) podem ser material ou simbolicamente, objeto do olhar turístico” Urry (1990:156) Este fenômeno também é denominado de generalização espacial do turismo ou “turistificação” do território. (Palomeque, 1997). As cifras que dão conta da magnitude numérica da atividade são impressionantes por si mesmas, sem se considerar sua evolução no tempo. Segundo dados da Organização Mundial de Turismo – OMT e do Conselho Mundial de Viagens e Turismo – WTTC, em 1998 a atividade turística registrou 625 milhões de chegadas (esse número se refere apenas ao movimento que consta das estatísticas oficiais), um faturamento de US$ 4,4 trilhões para as empresas do setor, uma geração de US$ 802 bilhões de impostos e 231 milhões em empregos. Baseados na evolução temporal destes indicadores, estes dois organismos prevêem para o ano 2000 um incremento de 12% nestes * Doutoranda em Geografia pela Universidade de Barcelona. Professora da UNIFACS e integrante do Núcleo de Gestão & Planejamento do Turismo e da Cultura (DCSA1). números, alcançando um montante de 1,02 bilhão de chegadas em 2010. O turismo responde, hoje, por 10,7% do Produto Nacional Bruto mundial, é a maior “indústria” do mundo e emprega 10,6% da força de trabalho global. Todas essas estimativas podem ser confirmadas por algumas tendências anunciadas para a sociedade do século XXI, principalmente nos países desenvolvidos, que terá mais tempo livre para suas atividades de ócio e lazer e melhores condições de conhecer destinos cada vez mais distantes e diferentes. O “boom” do turismo no Brasil é mais recente e, portanto, a representatividade do país no contexto da evolução do turismo global é bastante tímida. Para o mesmo ano de 1998, o Brasil registrou uma movimentação aproximada de turistas da ordem de 43 milhões de pessoas, das quais apenas 4,8 milhões de turistas estrangeiros, o que situava o país em uma desprestigiada 30a posição do ranking da OMT neste indicador1. O faturamento das empresas do setor foi de US$ 38 bilhões e o número de empregos diretos e indiretos alcançava a casa dos 5 milhões. Entre 1994 e 1998 a rede hoteleira brasileira praticamente duplicou, totalizando hoje cerca de 10 mil meios de hospedagem. O mesmo se verificou com as chegadas de vôos nacionais e internacionais que registraram um incremento de 50% no mesmo período. Novamente frisamos que ainda que não tenham representatividade no nível global, os indicadores do turismo brasileiro demonstram uma grande evolução quantitativa da atividade nos últimos 10 anos, situando-a como o segundo item das exportações brasileiras em termos de geração de divisas, atrás apenas dos automóveis, tratores e ciclos. Por outro lado, também é oportuno ressaltar a falta de tradição existente no país em levantar estatísticas setoriais de turismo e, portanto, estimar-se uma margem de erros nos dados apresentados, atribuída a aquelas transações não devidamente computadas nos controles formais. O Brasil faz parte desta nova leva de destinações surgidas na última década sob o rótulo de “exóticas” e, portanto, concorrente natural de destinos consolidados em outras regiões do planeta. Ele próprio um beneficiário do processo de turistificação dos territórios no nível global, embora ainda não o seja internamente. A atividade está concentrada em algumas áreas específicas do país e só recentemente foi iniciado um processo de interiorização do turismo, abordado com mais detalhes em seguida. 2. predomínio do turismo de sol e praia - existe uma hegemonia, em uma escala global, do turismo litorâneo frente a outras modalidades de turismo, conformando uma hierarquia espacial da atividade que parece privilegiar estas porções do território em detrimento das áreas interiores. Visceralmente ligado ao conceito de turismo de massa, o turismo de sol e praia é responsável pela atração dos maiores fluxos de visitantes e tem o seu sucesso associado ao fato de ser a modalidade de turismo mais intensiva e, portanto, mais adequada à exploração industrial2. Segundo Palomeque (1997) o turismo de sol e praia é hegemônico na Espanha e em algumas comunidades autônomas, como é o caso da Catalunha que concentra no litoral ¾ do negócio turístico. No Brasil não é diferente, sendo que o mesmo fenômeno está associado à própria localização litorânea das capitais estaduais, que salvo algumas poucas exceções – como é o caso de São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre – estão entre os maiores núcleos urbanos do País. Segundo dados da Embratur – Empresa Brasileira de Turismo, 62% do fluxo internacional recebido pelo Brasil se concentra no litoral, com destaque para as cidades do Rio de Janeiro, Salvador, Florianópolis e Recife. Dentre as cidades mais visitadas por turistas estrangeiros só fogem a essa regra Foz do Iguaçu, em função das famosas Cataratas, e São Paulo, esta última, prioritariamente um destino de convenções e negócios. Este resultado se repete em relação ao turismo interno, com 1 Este resultado já significa uma grande evolução da atividade no Brasil, tendo em vista no ano de 1994 estar ocupando a 43a posição no ranking da OMT. 2 Um estudo citado no texto de Fluviá & Mena (1998) determinou que esta modalidade de turismo é especialmente sensível à variação da renda dos consumidores. Segundo ele, o aumento de 1% na renda do turista significaria um incremento de 1,76% na sua demanda pelo turismo de sol e praia. uma maior participação das cidades de Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife, Salvador e Porto Seguro nas viagens nacionais. Reforçando esta tendência, notadamente no nordeste do País – área com a maior porção litorânea e com muitas praias inexploradas – a Política Nacional de Turismo tem priorizado a construção de mega complexos turísticos, próximos a núcleos urbanos consolidados de médio e grande porte, voltados para o turista de alto poder aquisitivo, preferentemente internacional. 3. movimento de “internacionalização” e “interiorização” do turismo. Tendências percebidas por Urry (1990) e reforçadas por Donaire (1995) e Palomeque (1997) representam uma das dualidades às quais nos referimos no início deste texto. Estes dois movimentos, embora aparentemente contraditórios, não são excludentes e acontecem em escalas territoriais distintas. Têm uma estreita correlação com o processo de “turistificação” ou generalização espacial do turismo exposto anteriormente e, sendo, de uma certa forma, até explicados por ele. A internacionalização do turismo acontece em função de dois fatores: a hegemonia do capitalismo (globalização) e a demanda cada dia mais crescente por experiências e destinos alternativos, que se contraponham à padronização dos produtos turísticos massificados. (Donaire, 1995). Assim, destinos consolidados passam a competir globalmente, com locais exóticos e distantes - agora facilmente alcançáveis pelos meios de transporte modernos - que vêm se somar à concorrência local e regional. Na escala regional, apesar de se sofrer essa mesma concorrência global, se processa outro fenômeno simultâneo que é a interiorização da atividade, ora como uma estratégia de reestruturação dos espaços turísticos tradicionais, notadamente os litorâneos (Palomeque, 1997), ora como uma preocupação com o desenvolvimento de áreas economicamente deprimidas, ou ainda, como uma ação voltada para a diversificação do produto turístico local. Na Espanha, a interiorização do turismo parece obedecer a essas três diretrizes ao mesmo tempo, tendo em vista: a) a necessidade de se resolver o problema da saturação de alguns destinos de sol e praia, com a incorporação de áreas interiores adjacentes onde se possa desenvolver modalidades alternativas de turismo; b) a concepção do turismo como fator dinamizador do mundo rural, assumida por muitos planejadores locais e até incorporados pelo Programa LEADER da Comunidade Econômica Européia3 e c) o desejo de mudar a imagem turística do País que, face aos recursos naturais e culturais existentes, não pode ser lembrado apenas como um balneário europeu. (Palomeque, 1997 e 1999). Como o desenvolvimento do turismo no Brasil é bem mais recente e a ocupação massiva do espaço apenas nos últimos anos começou a manifestar de forma clara seus efeitos desestruturantes sobre o território4, o movimento de interiorização se credita apenas aos dois últimos fatores, como uma ferramenta de desenvolvimento local e uma estratégia de diversificação do “produto Brasil”. Novamente a Política Nacional de Turismo inclui dentre as suas metas a descentralização da atividade turística, através da promoção e dinamização de núcleos turísticos no interior do país. O Brasil conta com 1680 municípios considerados de interesse turístico, número que pode dar a dimensão dos recursos turísticos existentes, esperando para serem incorporados pela atividade. O PRODETUR – Programa de Desenvolvimento do Turismo e o Programa de Municipalização do Turismo são os dois principais instrumentos utilizados pelo governo neste sentido. É necessário, entretanto, que essas áreas consideradas de interesse turístico sejam inventariadas e categorizadas segundo região e nível de interesse para a atividade, para favorecer a adoção de estratégias regionais e evitar-se situações de competição entre localidades vizinhas. Para que a interiorização do turismo aconteça no Brasil também é necessário baixar o custo do turismo interno que, nos níveis em que é praticado, torna-se impeditivo a qualquer estratégia de 3 O turismo rural ocupa 50% dos investimentos do Programa LEADER na Catalunha. (Palomeque, 1999). Ver trabalhos de Coriolano (1998) no litoral do Ceará, Lima (1997) em Fernando de Noronha, Menezes e Santiago (1997) em Florianópolis e Calvente (1996) sobre as comunidades turísticas de Ilhabela, São Paulo. 4 incremento das receitas domésticas. Neste mesmo sentido é oportuna uma reavaliação da ênfase que é dada pelos promotores da atividade ao turista estrangeiro. Acredita-se que seja muito importante tendo em vista apresentar um gasto médio diário superior ao do turista nacional, mas temos que nos lembrar das dificuldades de se procurar sobreviver deste público em tempos de mercados globalizados. Por fim, há que se mudar a imagem do País no exterior. Invariavelmente o Brasil está associado ao samba, às mulatas, ao futebol e à floresta Amazônica, sem falar nos aspectos negativos como a violência e a oferta de opções de turismo sexual, estas últimas bastante apreciadas por segmentos de turistas europeus e asiáticos. 4. a aparente crise da massificação. Essa parece ser uma tendência global do turismo que se situaria como uma das causas determinantes da mudança de paradigmas que se processa na atividade, que está migrando do chamado “modelo fordista” para o modelo pós-fordista5 (Anton et alii, 1997). Entretanto, Donaire (1995) situa a necessidade de se esclarecer que essa suposta crise do turismo de massas atinge, na realidade, apenas alguns dos elementos que o caracterizam quais sejam a estandardização e a homogeneidade dos produtos turísticos. Em função de sua estreita vinculação com o turismo de massa, o turismo de sol e praia é o primeiro que apresenta os sinais da aparente crise do modelo. Isto já acontece nas destinações litorâneas da Europa há algum tempo, gerando situações como a mudança do perfil dos turistas6, com estes locais passando a atrair um público menos exigente, com menor poder aquisitivo e menos consciente das questões ambientais, gerando, como observado por Palomeque (1999) um conflito entre qualidade e quantidade. Para Fluviá & Mena (1998), contudo, o exame das evidências disponíveis não permite afirmar que o turismo de sol e praia esteja em regressão em termos absolutos mas sim em termos relativos, manifestada de formas sutis como a diminuição do período médio de estadia dos turistas e do gasto per-capita, este último elemento uma consequência da mudança do perfil econômico desse público. Para ele, a mudança dos gostos e preferências dos turistas é algo dificilmente quantificável, embora seja praticamente um consenso entre os textos analisados, a alteração qualitativa percebida no perfil dos turistas que procuram as destinações de sol e praia consolidadas. De qualquer forma, percebe-se uma grande ênfase das políticas turísticas desta região, notadamente da Espanha, para a problemática do turismo de qualidade e da diversificação de produtos, em detrimento de ações voltadas para a atração maiores fluxos de visitantes. (Bote & Marchena, 1996). O Brasil segue firme rumo ao incremento do turismo de massa. Quanto à opção pelo turismo de qualidade, algum tempo será necessário, visto que continuamos praticando um modelo de atividade que privilegia o incremento dos fluxos de visitantes e dos indicadores numéricos, frente às questões ambientais e sociais que permeiam o paradigma pós-fordista. 5. necessidade de regulação por parte do estado x diminuição do Estado - essa, de fato, é uma tendência contraditória pois se, de um lado, o papel do estado como normatizador e ordenador da atividade turística se torna mais necessário em função da desestruturação espacial que ele tem causado com seu crescimento espontâneo, se verifica neste final de século um menor envolvimento da administração pública no sistema produtivo e territorial e um menor peso político nas decisões econômicas, conformando o que se denomina de “diminuição do estado”. (Palomeque, 1998) A importância da administração pública na regulação da atividade turística é uma opinião recorrente entre muitos estudiosos da matéria ( Palomeque, 1998; Bote & Marchena, 1996; Fayos-Solá, 1996; 5 O modelo fordista de produção do turismo corresponderia, segundo o autor, a uma etapa da evolução da atividade caracterizada pela elaboração e produção estandardizada de produtos turísticos, orientados para mercados amplos e pouco segmentados. O modelo pós-fordista, surgido a partir de meados da década de 80, se caracteriza por novas tendências da demanda e da oferta, como uma maior segmentação do mercado, maior flexibilidade dos produtos, sustentabilidade ambiental e social e gestão calcada na competitividade. 6 Ainda segundo o estudo citado no texto de Fluviá & Mena, a propensão marginal ao consumo do turismo de sol e praia decresce em função do poder aquisitivo do consumidor. Vera Rebollo, 1996 e Valenzuela, 1996) que, de maneira mais ou menos intervencionista, defendem sua propriedade em aspectos como: a) ordenação e orientação – regulamentação dos serviços turísticos; b) facilitação e estímulo ao desenvolvimento da atividade através de investimentos públicos e promoção; c) financiamento e gestão direta, a depender do estágio de evolução da atividade num dado território. Até mesmo autores como Fluviá & Mena (1998) que apregoam uma maior presença do setor privado no desenvolvimento da atividade turística a nível local, admitem que a intervenção do poder público é necessária para cobrir eventuais falhas nas ações dos empresários e garantir a sustentabilidade da atividade. No Brasil a administração pública exerce um papel predominante na definição e execução das políticas setoriais de turismo. A iniciativa privada está representada pelos seus respectivos órgãos de classe, que se mobilizam para defender os direitos e as estratégias de negócios de seus associados. Em algumas ocasiões esporádicas se verifica a formação de “pools” para a promoção de destinos e/ou atração de eventos. A iniciativa privada participa, teoricamente, da definição das diretrizes do turismo brasileiro mas sua ação, é muito pulverizada entre os diversos interesses dos empresários do setor. O Estado atua simultaneamente como ordenador, facilitador e financiador da atividade. Dentre estas atribuições, até como uma consequência deste movimento de diminuição do Estado, tem se concentrado no papel de facilitador e captador de investimentos privados para regiões prioritárias, repassador de financiamentos, através de linhas de crédito específicas para o setor e promotor do “produto Brasil”. Sua função regulamentadora é frágil, como de resto acontece com toda a estrutura do Estado brasileiro, principalmente porque ainda não se conseguiu um grau de descentralização da atividade a nível de municípios e pequenas regiões, como acontece na Espanha, o que facilitaria a ordenação e normatização da atividade. 6. perda da autenticidade do turismo – essa aparece como uma das características mais marcantes do turismo contemporâneo. Gerada pelo processo de globalização e massificação da atividade que termina por tornar iguais lugares diferentes e eliminar as peculiaridades locais em prol de um todo comercializável. A despeito do que se imagina, esta não é uma característica que passa desapercebida aos turistas modernos, a quem Feifer (1985) denomina de pós-turistas. Segundo ele: “ O pós-turista sabe que não é um viajante do tempo quando visita um lugar histórico, nem um selvagem quando está em uma praia tropical (...) não se evade nunca de sua condição de forasteiro” (Feifer, 1985:271) De fato, o turista sabe que, em muitas ocasiões, não está vivendo uma experiência singular, original, mas isso não tira em nada o encanto desta experiência, frente ao cotidiano e à rotina de sua vida em casa. Face a essa certeza, se distingue dois tipos de turista: aquele que busca o contexto espacial e o que busca o contexto a-espacial. (Donaire, 1995). No primeiro caso, encontram-se aqueles que estão no centro da suposta crise do turismo de massa. Pessoas que não se conformam em consumir experiências padronizadas em lugares distintos e que valorizam o diferente, o original, o exótico, incluindo neste grupo aqueles para os quais o turismo também é uma forma de intercâmbio entre culturas, de aprendizado. O segundo grupo é mais numeroso e, viajando individualmente ou através de pacotes, estas pessoas procuram diversão e segurança. Conscientes de que não vivem uma experiência única, fazem de conta que sim. Muitas destas pessoas podem nem querer viver situações muito diferentes das cotidianas e por isso buscam referenciais conhecidos em produtos padronizados. O fato é que o mercado turístico hoje conta com estes dois tipos de demanda, absolutamente opostas em suas expectativas e que exigem muita flexibilidade por parte da oferta. A conjugação do turismo de massa como ele existe, com modalidades de turismo alternativo a exemplo do ecoturismo e do turismo rural, principalmente nas ações de marketing das empresas, é uma das estratégias escolhidas para enfrentar o momento atual. Também no Brasil se procura estabelecer a mesma estratégia dual, conjugando o singular com o padronizado. 7. uma organização empresarial pós-fordista- por fim, também as empresas se viram forçadas a mudar seus modelos de gestão para se adaptar ao paradigma pós-fordista ou pós-cookista7, como denomina Donaire (1995). Estas mudanças incluem a adoção de novas pautas organizacionais e tecnológicas, a informatização, o uso intensivo das telecomunicações, a difusão espacial, flexibilidade laboral e redução de custos com a incorporação de grupos marginais a exemplo das mulheres, minorias étnicas e jovens. As fusões entre grandes grupos empresariais também tem sido uma realidade no setor turístico, assegurando às empresas maiores condições de competição global. O atendimento ao cliente e o serviço de qualidade se tornaram prioritários, não somente para a sobrevivência dos negócios isoladamente, como também para a manutenção dos destinos. Como ressaltam Fluviá & Mena (1998), a prática dos “comportamentos imorais” por parte dos empresários podem gerar focos externos negativos de natureza colateral e inter-temporal sobre o conjunto da oferta do município turístico. De todos os aspectos considerados neste texto, este é o que se reproduz de maneira mais semelhante no cenário brasileiro. A despeito dos equivocos que vêm sendo cometidos no planejamento e nas diretrizes básicas da atividade a nível nacional, percebe-se que o setor empresarial de alguma forma se descola desta realidade, apresentando, em grande parte dos empreendimentos existentes, notadamente nos pólos turísticos mais consolidados, um nível de profissionalismo e de adequação às tendências do mercado acima da média. O setor privado parece ser o componente mais dinâmico, flexível e adaptável às mudanças da estrutura turística do país. Cabe ressaltar o avanço das redes transnacionais no setor, representadas, principalmente, pelas grandes cadeias hoteleiras, o que merece atenção especial da sociedade, notadamente quando se discute o compromisso e a contribuição da iniciativa privada para o desenvolvimento das comunidades onde se instala a atividade turística. Considerações Finais Dos textos analisados pode-se perceber que, excetuando-se algumas poucas divergências de opiniões que, inclusive, são parciais, existe um entendimento razoavelmente homogêneo, por parte dos autores, do que seja o cenário do turismo pós-moderno neste final de século. Este trabalho, sem a pretensão de esgotar o assunto, buscou fazer uma sistematização das características do turismo atual mais recorrentes nos textos analisados, enumerando as que se seguem: 1) crescimento e expansão da atividade a nível global; 2) predomínio do turismo de sol e praia; 3) movimento de “internacionalização” e “interiorização” do turismo; 4) a aparente crise da massificação; 5) necessidade de regulação por parte do estado x diminuição do estado; 6) perda da autenticidade do turismo e 7) o surgimento de uma organização empresarial pós-fordista. Considerando-se que todos os autores contemplados analisam o cenário turístico partindo de um referencial e de uma experiência européia, é importante alertar para a natureza globalizada deste cenário, visto que ele não se restringe territorialmente e apresenta as mesmas tendências, de maneira mais ou menos perceptível, em países considerados periféricos e com muito menos tradição na atividade como o Brasil. Do paralelo desenhado entre o cenário global do turismo neste final de século e a sua reprodução no Brasil fica claro a semelhança das características do momento vivido. Entretanto, também não poderia deixar de ser comentada, e aqui o faço rapidamente tendo em vista não ter sido este o objetivo do presente texto, a insistência da Política Nacional de Turismo em reproduzir também os equívocos cometidos por destinações consolidadas em outras partes do mundo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOTE, Venancio & MARCHENA, Manuel. Política Turística. Introducción a la economia del turismo en España. Madrid: Civitas, 1996, p.295-326 7 O termo pós-cookista utilizado por Donaire faz uma alusão a Thomas Cook, a quem se atribui a organização da primeira excursão nos moldes modernos, em 1841, na Inglaterra. CALVENTE, Maria del Carmen M.H. O impacto do turismo sobre comunidades de Ilhabela (SP). Turismo Impactos Sócioambientais. São Paulo: Hucitec, 1999, p.85-92. CORIOLANO, Luzia. 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Barcelona: UPC, 1996, p.87-98 ARTIGOS TURISMO E DESENVOLVIMENTO LOCAL: Mitos, Ameaças e Oportunidades* Bruno Moraes Edísio Sousa Fernando Oliveira Juciara Alves Samuel Tararan** RESUMO Este artigo objetiva discutir a questão das oportunidades de desenvolvimento local propiciadas pelo turismo, bem como os possíveis danos que ele pode causar. A discussão ainda pretende elucidar as conseqüências da atividade turística em localidades pouco desenvolvidas, desmitificar a imagem do turismo como uma solução para todos os problemas e propor uma discussão em torno do planejamento participativo de um nível ótimo de turismo. PALAVRAS-CHAVE: Desenvolvimento Local; Sustentabilidade; Planejamento Participativo; Oportunidades; Preservação. Introdução Qual é a sua sensação ao entrar num zoológico e olhar os animais presos e expostos? O que você pensa quando vê suas celas que tentam imitar os seus respectivos habitats? De alguma forma lhe parece serem estes os meio-ambientes reais? A resposta é óbvia, e por tanto redundante. Pois é este um dos problemas mais graves causados pelo turismo explorado irresponsavelmente: transformar manifestações culturais, sejam históricas ou folclóricas, em “atrações de um zoológico”. O Brasil é um país de proporções continentais. Nós nos originamos de muitos povos, de lugares distantes e tendo cada um a sua cultura própria, quase sempre bem diferentes. Em um quadro como este é impossível que não se desenvolvam manifestações culturais únicas e isoladas uma das outras. Música, dança, arte, literatura e história prontas para serem exploradas em nome da indústria do lazer. E não há nada que impeça que essa exploração seja feita sem respeito às tradições ou ao valor que este patrimônio tem para a identidade de seu povo. Certa vez, enquanto conversávamos com um experiente professor de história, sobre o desenvolvimento de um artigo nosso, ele nos contou um fato que narraremos com nossas próprias palavras: Em uma reunião com um grupo de empresários que pretendiam instalar um hotel em Porto Sauipe, litoral norte da Bahia, em certo momento um dos empresários comentou que eles tinham tanto “respeito” pela cultura baiana que pretendiam até instalar um terreiro de candomblé no hotel, visto que os turistas adoram candomblé. Quem conhece um pouco da cultura afro-brasileira sabe que um terreiro não é uma atração circense. A montagem de um terreiro envolve toda uma série de eventos e rituais ligados às plantas e ao culto aos ancestrais. É um templo de uma religião e coisa muito séria para seus crentes. Mesmo assim estes empresários pretendiam criar uma desrespeitosa “representação” de uma das mais significativas heranças da nossa cultura. Muitos já lucram com a exploração da cultura e da história de nosso povo. Um bom exemplo disto é o candomblé, "grande atração para o visitante. Todos querem assisti-lo e as agências de turismo incluem-no em seus roteiros. Mas é preciso compreende-lo e respeitá-lo.” (OLIVEIRA, 1999: 16) É inevitável que as manifestações folclóricas sejam exploradas pelo turismo. Turismo atrai pessoas e gera renda. Todos em um cidade podem se beneficiar com o turismo, especialmente a Bahia que "tem um produto tão importante quanto o cacau, o petróleo, a mamona e tantos outros. É o seu folclore.” (OLIVEIRA, 1999: 16) Porem existe um limite entre a exploração benigna e aquela que agride tradições e heranças históricas. A língua, a arte e o passado são os maiores patrimônios de um povo e é neles que estão * Texto referente ao trabalho interdisciplinar com orientação dos professores MSc Vanessa Cavalcanti, MSc René Pimentel, MSc Paulo Miguez e ESp Maria Benedita Santos e co-orientação do MSc Carlos Alex Cypriano. ** Bachareís em Administração de Empresas pela UNIFACS. inscritos a identidade, os valores e os princípios deste povo. São coisas muito sérias e devem ser tratadas com extremo cuidado. É quase impossível que um povo consiga manter inalterado o seu patrimônio histórico-cultural por muito tempo. Casos como o do povo japonês, que mantém costumes de milênios, é muito raro. A intensidade com que as pessoas tem interagido no mundo globalizado contribui bastante para acelerar esse processo. Porem estas mudanças muitas vezes não são malignas, e sim reflexos da evolução natural das pessoas e dos costumes. Acompanhe o caso abaixo: “O acarajé, que encontramos, quentinho e dourado, no tabuleiro da baiana, é o mesmo, na forma e nos ingredientes, que os escravos nagôs fritavam no azeite rubro e fervente, para oferecer a Iansã ou a Xangô. Essa comida que se dava aos santos passou, depois, para a mesa dos senhores, mas, na verdade, não se profanou por inteiro e nem se modificou em demasia.” (OLIVEIRA, 1999: 15) O que percebemos é uma mudança de um costume para outro. Ouve uma criação e não uma destruição. A criação de novos costumes, marcando o surgimento de uma etnia nova e diferente, que não é nem africana, nem européia, nem indígena: é baiana. O objetivo deste artigo não é o de fazermos alguma espécie de denuncia ou de protesto e sim o de despertar nossas mentes de administradores para a responsabilidade de nossos atos, para o impacto que nossas decisões egoístas podem ter para toda a nossa gente. Vamos dar início a uma discussão crítica sobre os impactos do turismo sobre localidades pouco desenvolvidas, descrever as oportunidades de desenvolvimento e as ameaças de depredação que ele pode representar e propor uma outra discussão focando o planejamento turístico responsável. Organizamos este artigo em mais duas partes: discutiremos as potencialidades e os riscos do turismo para as regiões subdesenvolvidas e, para finalizar o texto, propomos uma discussão sobre o planejamento participativo do turismo local. Oportunidades de Desenvolvimento e os Riscos do Turismo Segundo KRIPPENDORF (1989), a sociedade humana, outrora tão sedentária, pôs-se em movimento. Os homens se aproveitam de todas as oportunidades para viajar. Viajam, pois não se sentem mais a vontade ali onde estão: os locais onde trabalham e onde moram. Ano após ano, semana após semana, milhões de seres humanos tomam a estrada e, no decorrer de suas viagens, consomem a tranqüilidade, o clima, a paisagem e a cultura dos outros. É sabido que para se desenvolver uma região, primeiro deve ter instalado uma infra-estrutura (estradas, saneamento básico, energia, água), educação (escolas) e um pequeno comércio para se dar início a um ciclo virtuoso de crescimento. Se a cidade ou local, se situa em alguma rota de grande fluxo de pessoas e de mercadorias, o desenvolvimento é certo de vir, basta que se gerencie o que de fato pode ser de utilidade para o crescimento local. Não se encontrando num ponto como o citado acima, a região deverá atrair pessoas de alguma forma, e com elas o dinheiro. Esta é, para muitas localidades, a única forma de alcançar o desenvolvimento. É daí que se observa a importância que o turismo pode ter para o desenvolvimento de uma localidade: o turismo é um criador de demanda externa, um atrator de pessoas (ABLAS, 1991). O Brasil, com suas dimensões continentais e lugares que conservam a natureza praticamente intacta, apresenta um potencial para o desenvolvimento de um tipo de turismo que deve crescer muito no próximo século: O Ecoturismo. A conseqüência imediata que se espera de tal característica é o desenvolvimento sustentável de cidades e lugarejos que se encontrem imersos em belezas naturais ou que possuam grande riqueza cultural. O turismo tem o poder de em pouco tempo mudar o perfil econômico e social de qualquer região. Em Bonito, por exemplo, o seu potencial para o turismo ecológico começou a ser descoberto muito recentemente, em meados dos anos 80, se firmando no início dos anos 90. Conhecido por suas atrações ecológicas, que vão desde mergulho no Rio Formoso e nas cavernas até passeios de bote e caminhadas pela mata, a cidade já tem 43 pousadas e hotéis, dez vezes o número registrado em meados dos anos oitenta (MARCOLINI, 1998: 3.). Há ainda 14 campings, 23 agências de viagens e 45 guias turísticos. A primeira agencia foi aberta em 1985. O desenvolvimento do turismo local, no caso de Bonito, mudou a economia que antes era baseada em mineração de calcário e na agropecuária. Como conseqüência há o aparecimento de novos postos de trabalho, aumento na arrecadação municipal de impostos, e aumento da renda da população local. Enfim, toda a economia local foi aquecida. Assim como em Bonito, a região da Chapada Diamantina, na Bahia, apresenta condições especiais de clima, vegetação e relevo. É formada por um dos maiores corredores de fauna e flora do Brasil, com trechos de montanhas, campos gerais, cerrados e florestas cercados de canyons, cachoeiras, rios, poços e cavernas. Trata-se de uma região úmida coberta por variada capa vegetal, ilhada entre imensidões de cerrados e matas. O clima local é responsável pela diversidade biológica do lugar. O pico da região chega a 1400 metros de altitude e funciona como uma barreira à umidade. Achamos necessário para os leitores essa breve descrição do local, para que possam imaginar uma região ímpar em se tratando de beleza natural, que encanta a todos que tem a oportunidade de conhecer. Portanto, não é por acaso que a Chapada Diamantina apresenta diversos projetos de inclusão na rota mundial do turismo ecológico. Algumas cidades como Morro do Chapéu, Jacobina., Miguel Calmon, Wagner, Orolândia, Utinga, Pititiba e Campo Formoso começam a despontar na Bahia como novos “points” desse ecoturismo. Essas cidades, através de uma parceria com a Bahiatursa (Orgão de Turismo Oficial do Estado da Baia), da Coordenação de Desenvolvimento do Turismo (Codetur) e da Secretaria da Cultura e Turismo do Estado, estão participando do Programa Nacional de Municipalização do Turismo. Inicialmente, os integrantes do projeto tentam identificar as necessidades dos municípios e da população, para por o projeto turístico em prática. Para tanto, os participantes tomam como base em inventários feitos em cada um dos municípios envolvidos no processo, com patrocínio da Secretaria. O importante da iniciativa citada é a descentralização do turismo na região que se concentra basicamente em lençóis (70 % da Demanda), assim como a melhoria de vida da população local e o desenvolvimento da cidadania. Todavia, esse êxodo de massas parece estar chegando aos seus limites. Há sinais cada vez mais numerosos de que o turismo, sob a forma atual, não pode ser uma terapia válida. A profunda alteração de valores abala a sociedade industrial moderna, e um número crescente de pessoas começa a tomar consciência de que as carências da vida cotidiana não podem ser compensadas por alguns breves instantes de liberdade, de lazer criativo, de felicidade e autodeterminação durante esses momentos de repouso e férias. Os habitantes das regiões visitadas, por sua vez, começam também a reagir. Têm cada vez mais a impressão de que esse desenvolvimento os sufoca e, ao mesmo tempo, os exclui. Ainda fazem de todo o possível para que os turistas venham, mas na realidade, gostariam de fazer tudo para impedilos de vir. O turismo é uma das maiores e mais lucrativas atividade do mundo. Pode transformar um sitio dispersor em um atrator de pessoas, de pobre em rico, de desconhecido em conhecido. Movimenta bilhões de dólares em todo mundo e milhares de pessoas levam esses bilhões para os lugares que souberem atrair melhor esse recurso. Da mesma forma que isso pode ser bom para a região, também pode ser devastador: as praias que eram fascinantes aos olhos do turista, podem se tornar poluídas e não serem mais tão belas, a floresta e seus inúmeros seres, podem ser extintos, a arquitetura de uma cidade pode ser demolida para dar lugar a construções mais modernas, a cultura e história de um povo podem se perder por ingenuidade das pessoas que não vêem o futuro com cautela e acreditam estar melhorando de vida. Deve se pensar também, que regiões como Morro de São Paulo, Lençóis e Porto Seguro, naturalmente chamariz de turistas devido a suas belezas diversas, sofreram um “inchaço”. Talvez a única dessas três que ainda não sofre tão fortemente tais problemas decorrentes deste aglomerado de pessoas que resolveram visitar o local, e por lá ficaram, seja Lençóis, mas, se não houver um planejamento para o seu crescimento, tenderá a se tornar um Porto Seguro ou um Morro de São Paulo. Essas regiões devem ter um turismo organizado, tanto para que não sofram devido a falta de infra-estrutura suficiente para atender todos os turistas nas temporadas de pico, para que seu maior atrativo, a beleza natural, não seja destruída pelos turistas e nem pelos próprios moradores. Cada vez mais explorado, o, recém descoberto, turismo cultural encontra uma grande variedade de locações especialmente na Bahia, região famosa por suas riquezas artísticas, históricas e culturais únicas. Este tipo de turismo visa levar os curiosos, desejosos por diversão, e os estudiosos, a procura de conhecimento, até determinado povo de cultura peculiar e especialmente interessante. Mas esse encontro pode causar choques quando a cultura destes grupos se cruzam. Manifestações culturais, cujas origens já estão perdidas no tempo, de povos afastados dos centros intelectuais do pais são prejudicadas quando tem sua rotina alterada ou os seus preceitos desrespeitados por grupos de desavisados forasteiros. As manifestações culturais são a alma de um povo e a sua mais genuína herança. São tão importantes e ao mesmo tempo tão frágeis que quase sempre precisam do apoio e da defesa dos órgãos públicos ou ONGs, sem os quais muitas delas não podem existir, que devem zelar pelo patrimônio histórico e cultural de suas regiões até como parte de sua estratégia para o turismo. Vide o caso dos grupos de bacamarteiros da Chapada Diamantina, já quase extintos, que não encontram o menor apoio entre as autoridades do poder executivo para continuar com uma tradição que existe desde a época do Brasil colônia. O turismo que gera empregos e faz crescer a economia local não pode deixar que as pessoas que fazem essa economia rodar, destruam o ambiente e a população sem mesmo se dar conta disso. A conscientização deve começar com os próprios moradores, que muitas vezes são os próprios iniciadores da destruição por pura falta de informação e educação. Após estes, é hora de educar os visitantes, que, porque chegam com o dinheiro, acreditam poder fazer o que bem entendem no local. Conclusão Podemos ver que o turismo tem duas faces opostas. Mas como podemos usa-lo para alcançarmos nossos objetivos evitando os seus possíveis malefícios. Como podemos desenvolver o turismo, desenvolver a economia e cidadania de nossas pequenas e grandes localidades e ao mesmo tempo preservar o meio ambiente, os costumes e as culturas locais. Numa primeira reflexão, estes problemas podem ser contornados com um envolvimento de toda a população interessada, no sentido de controlar e determinar os objetivos da exploração do turismo em sua região. Um movimento visando o planejamento do turismo de acordo com os objetivos de cada parcela da população e realizado em conjunto com profissionais especializados em turismo, administração de empresas, administração pública, entidades de classe, organizações não governamentais e governamentais. Mas, infelizmente, pela forma como o poder político está estruturado, longe do alcance do povo nas regiões menos desenvolvidas do pais, este movimento é muito difícil e raro. Alguns cientistas e pesquisadores do turismo sustentável esclarecem algumas questões importantes: “o marketing turístico é: a adaptação sistemática e coordenada da política das empresas de turismo, tanto privadas como do estado; no plano local, regional, nacional e internacional, visando a plena satisfação das necessidades de determinados grupos de consumidores, obtendo, com isso um lucro apropriado.” (KRIPPENDORF, 1989). Também seguindo esta compreensão, LINDBERG e HAWKINS (1983) traçaram suas etapas básicas para incentivar a participação local em projetos de turismo de natureza e identificaram três fatores de insucesso na promoção do desenvolvimento e de criação de problemas com relação à cultura local, a degradação do ambiente e a criação de dificuldades econômicas para a população local: 1º fator: ausência de empenho e comprometimento político dos governos para mobilizar os recursos humanos, financeiros, culturais e morais; 2º fator: interesses variados de pessoas de fora da região. Resultado: os benefícios não permanecem na região; 3º fator: falta integração das necessidades e preferências locais no processo de planejamento. O planejamento cuidadoso é necessário para evitar alguns dos efeitos negativos não previstos do turismo. Muitos desses projetos tem ênfase em promover fundos para a administração de áreas protegidas, gerar renda para as comunidades locais, minimizar o impacto negativo, maximizar os benefícios sócio-econômico e ambiental. Deve-se construir um turismo socialmente responsável e ambientalmente viável através de um diálogo fundamentado e construído a partir das necessidades regionais. Ainda seguindo as idéias de LINDBERG e HAWKINS (1983), o primeiro passo para um projeto turístico que se preocupe com as comunidades alvo é a coleta de informações: informações sobre a comunidade e suas preferências. Durante essa etapa é possível identificar líderes comunitários; organizações locais; questões que a comunidade considera prioritárias; idéias; expectativas e inquietações que as pessoas tem em relação ao turismo. A justificativa para muitos projetos turísticos é a de que o turismo pode promover a preservação, mostrando a importância das áreas naturais e das manifestações culturais para a geração de renda via turismo. O turismo é considerado uma fonte de empregos e de renda, que deveria, por sua vez, promover o fim das práticas destrutivas. Para que o turismo promova a conservação, é necessário que haja um vínculo entre o benefício que as pessoas recebem e a proteção dos recursos. Os benefícios devem ser flexíveis para atender o interesse de grupos diferentes dentro da comunidade, e deve haver um bom nível de organização comunitária para reforçar os vinculo. Mas será que as comunidades locais estão desejosas de todo este dito desenvolvimento” que estes empreendedores da cidade grande trazem como uma grande novidade e como a “solução para todos os problemas”? Será que eles desejam realmente mudar suas vidas e suas rotinas em nome deste “progresso”? Quem de fato vai lucrar com estes “investimentos”? O que significa desenvolvimento sustentável para populações nativas de regiões afastadas dos centros econômicos e intelectuais do Brasil, que estão a décadas, e até a séculos, vivendo dentro dos preceitos e valores de seus ancestrais? Não se pode cometer os mesmos erros dos jesuítas que no século XVI invadiram uma cultura que não lhes pertenciam sem pedir licença, afinal seria um ato no mínimo educado para uma população que se dizia “civilizada”. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS A OUTRA FACE DA CHAPADA. Documentário produzido pela TV BAHIA e exibido as 12:30 de 13/06/99 na TVE Nordeste canal 2. ABLAS, Luiz. Efeitos do Turismo no Desenvolvimento Regional. Turismo em Análise. São Paulo, Eca USP, vol. 2, nº 1, maio, 1991, p. 42–52. ANDRADE, Maiza. Turismo. A Tarde. Salvador, 09 de junho de 1999, p. 5/6. BANDEIRA, Renato Luís. Chapada Diamantina; História Riquezas e Encantos. Salvador, Onavilis, ed.2, 1999. BANDEIRA, Renato Luís. 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Palavras-Chave: Comunicação – Política – Gestão A ciência administrativa tem largamente explorado os modos de gestão e sobre esse tema existe um vasto arsenal de técnicas e teorias que visam aproximar o administrador da realidade que o cerca, com o fito de se alcançar os objetivos com mais eficiência e eficácia. A Escola Clássica de Administração revoluciona a gestão então vigente com as técnicas e princípios administrativos de Taylor e Fayol. Contudo, desde os primórdios que já fica patenteada a necessidade de se acrescer algo à técnica em busca do aperfeiçoamento da gestão, contribuindo para o entendimento mais apurado da realidade. Surge então, movido pelo dinamismo próprio do ato de gerir e da evolução constante da sociedade, a intervenção da Escola de Relações Humanas contribuindo com suas idéias a respeito de incorporar às técnicas, a parcela subjetiva do ser humano como elemento indispensável à compreensão dos resultados obtidos e, em última análise, abrindo o campo de investigação a cerca da realidade sobre a qual se assenta a gestão das atividades humanas. Incessantemente tem se teorizado sobre o tema e hoje é ponto pacífico a aceitação da influência comportamental no resultado de qualquer processo administrativo e gerencial, conforme atestam os experimentos e conclusões de cientistas do porte de Mayo, Argyris, Maslow, Hesberg, McGregor, Chanlat e vários outros. Em sendo assim, uma gestão que se pretende mais próxima da realidade, deve levar em conta os aspectos técnicos, o meio na qual está inserida e o indivíduo sujeito e objeto dessa gestão. Seguindo esse caminho, procura-se no presente artigo se debruçar sobre a questão política do meio social hoje, representada pela democracia moderna e a apreensão dessa realidade pelo indivíduo, como forma de discutir o posicionamento da gestão atual. A forma democrática vigente A democracia, definida por Bobbio (1997), contrapõe-se às formas autoritárias de governo, fundamentando-se em três condições: a) toma-se decisões vinculatórias a todo grupo, com base em regras que estabelecem os indivíduos autorizados a decidir; b) os indivíduos autorizados são eleitos por uma maioria de integrantes do grupo; c) essa maioria escolhe entre as alternativas postas, tendo como pressuposto o direito à liberdade de opiniões, associações e reuniões. O funcionamento democrático se baseia num estado de liberdades fundamentais garantidos. Entre o ideal democrático e a sua prática existem lacunas que transformam a sua concepção original. Essas lacunas foram denominadas por Bobbio (1997) como promessas não cumpridas na prática democrática em relação ao idealizado. A primeira dessas promessas não concretizada é a concepção da sociedade pluralista que, sobre a concepção original da democracia de uma sociedade individualista, cria a sociedade política, pretensamente sem corpos intermediários entre o povo soberano e seus representantes, mas que na prática faz surgir a força dos grupos: grandes organizações, associações, partidos que assumem o protagonismo da vida política, anulando a soberania do indivíduo que se vê apenas como parte de grupos concorrentes, com autonomia relativa. A segunda promessa não cumprida, de acordo Bobbio (1997), é a transformação da representação política - onde o eleito não deve se vincular a interesses de grupos, nem mesmo ao que o elege, e sim, representar o interesse maior da nação. Assim, na democracia moderna o que se experimenta é a representação de interesses em lugar da representação política, com grupos lutando para impor sua supremacia. Decorrente dessa transformação, surge a terceira promessa não cumprida pela prática democrática moderna: o acesso ao poder pela maioria e não um segmento oligárquico no comando, como se apresenta hoje a democracia representativa “não uma ausência de elites mas a presença de muitas elites em concorrência entre si para a conquista do voto popular” (Bobbio, 1997:27). Depreende-se então que a democracia em funcionamento é por si mesma uma forma de renúncia ao princípio da liberdade como autonomia, ao impor o sistema representativo de interesses de determinados grupos. Na seqüência de promessas distantes da realidade prática, Bobbio cita a supressão do espaço individual, à medida que, da multiplicidade de papéis específicos de trabalhador, estudante, doente, consumidor, o indivíduo passa a exercer apenas o papel geral de cidadão, cabendo-lhe tão somente o ato de votar, substituindo os seus espaços onde possa exercer seu direito individual. Além disso, a democracia moderna falha na questão de propiciar ao indivíduo a transparência e o controle do poder, invertendo o prometido: valendo-se da tecnologia, os poderosos tendem a utilizar os ilimitados recursos técnicos para um controle maior dos indivíduos, seja do seu comportamento ou da expressão do seu pensar, caminhando na contramão da visibilidade do governo como forma de eliminar ou restringir o poder invisível, garantindo a participação autônoma do indivíduo. Por fim, a democracia moderna, para Bobbio, caminha na direção de negar a educação política ao cidadão, resultando numa opção pela apatia e reforçando a prática de representar interesses particulares, suplantando a formação de opinião política. A revolução ocorrida no Leste Europeu em 1989 e seu impacto mundial, trouxe uma grande euforia em relação à democracia e à economia de mercado como grandes ganhadores do debate. Mas, como assinala Dahrendorf (2000), não se chegou ao fim da história e muito menos a democracia demonstrou o vigor que parecia ter ganho, chegando ao ponto de hoje se questionar o seu futuro. De acordo o autor há o esvaziamento do poder democrático representativo no que tange à troca de governantes ou limitação dos seus poderes, sem recorrer à violência, para atender aos anseios novos da população, anseios estes provenientes das mudanças e das necessidades emergentes. Esse esvaziamento retira da democracia a força de propiciar a convivência pacífica das diversidades e o que está se constatando é um regresso a tipos de fundamentalismo e práticas demagógicas, resultando num estabelecimento, ainda que dissimulado, de autoritarismos. Para Dahrendorf a democracia se definha com a declinação do Estado nacional, o qual está passando por um processo de transferências de poderes e decisões para uma esfera internacional. Ocorre então a supremacia de organizações a exemplo da Organização Mundial do Comércio, Organização do Tratado Atlântico Norte, Fundo Monetário Internacional e outras que não estão subordinadas à vontade das populações nacionais, invalidando a representação democrática como fonte de poder para exigir prestação de contas diretamente sobre as decisões e atos. Há um vazio de um fórum efetivo onde possam ser discutidas judicialmente as questões ao alcance dos cidadãos, os quais passam a não existir como comunidade. Reforçando os pensamentos expostos anteriormente, Llebrez (1999) afirma que a democracia busca mostrar uma cidadania autônoma que em verdade ela furta ao cidadão. E, acrescenta Llebrez que centrando-se na busca de segurança, a construção da democracia contemporânea tem como característica central o reducionismo da idéia a cerca de política, via a exclusão de elementos públicos e privados da vida comum, conseqüentemente reduzindo a própria amplitude da democracia. Segundo Llebrez (1999) ao eleger a busca de segurança como principal referencial do cidadão, a democracia moderna conduz a convivência social a um campo de disputa pelo poder, alicerçando o raciocínio de que o acúmulo de poder resultará em maior segurança e estabilidade. Ademais, o caminho da segurança como meta leva o indivíduo a querer exercer mais e mais o seu poder, para a obtenção e expansão do domínio na tentativa de garantir sua estabilidade, gerando angústias e ansiedades porquanto esse pensamento é conflitante com a dinâmica do mundo moderno que aposta numa constante agitação. Se esta opção está movida pelo pensamento de que a satisfação plena do seu desejo é a realização democrática, a luta desencadeada pelo poder e expansão do domínio se deflagra sem padrões morais públicos capazes de manter os limites éticos. Na sua análise, Llebrez (1999) afirma que hodiernamente se iguala a democracia ao desejo e isso induz à formação de um caráter amoral da vida pública, instala a ditadura da maioria, despreocupada da observância de outros pontos referenciais necessários à convivência social em bases justas. As relações de dominação, para a realização do desejo simplesmente, assumem a direção do processo e o indivíduo é impulsionado a ampliar cada vez mais o seu poder para controlar o limite do outro e superar seus próprios limites. Essa atitude se origina do entendimento de um poder onipotente, referenciado na seguridade, valor típico da democracia moderna. Ainda de acordo Llebrez (1999) o poder no mundo Ocidental é definido como a capacidade de levar a cabo tarefas, utilizando-se de elementos coercitivos, baseados na supervisão e controle. E, o poder democrático para o autor é o estabelecimento de relações de domínio, valor imperante da modernidade e sua prática permite aos cidadãos acessar ao poder como uma ferramenta que se pretende igualitária, porém desencadeando uma luta constante pelo controle cada vez maior dessa ferramenta, uma vez que para satisfazer a expansão do domínio, procura-se compulsivamente atender ao anseio de quanto mais poder melhor. Essa idéia de poder criada pela democracia moderna tende a não respeitar limites impostos pela moralidade e a fortalecer seu impulso de superar sempre os limites, como características da cidadania de avançar mais e mais, transformando os fins em meios numa progressão que tende ao infinito e gera um sentimento de frustração por objetivos inconcludentes, impelindo sempre à expansão, num ciclo sem fim que anula a criatividade e a originalidade. Outro ponto importante na formação do espírito dominante da democracia moderna é o pensamento democrata liberal que, na visão de Llebrez (1999), interpreta que ser racional é objetivar a busca do poder. Conseqüentemente, a democracia então se apóia na premissa de que a relação de dominação é impossível de evitar, tendo o poder como elemento referencial e para garantir a segurança democrática são criadas normas e regras, recorrendo ao pensamento kantiano de não fazer aos outros aquilo que não se quer que lhe façam, como sustentáculo das regras e a possibilidade de marcar os limites, garantindo assim a pluralidade. Buscando justificar os meios, fins e a própria teoria democrática o pensamento liberal caracteriza os seus atos com uma vinculação externa, ou seja: os fins passam a ser bens externos separados dos meios, não havendo uma relação interna entre eles e os bens externos, de caráter efetivo, determinam os de caráter interno. Assim, a democracia liberal com base nas relações de dominação não é capaz de estabelecer diálogo com as inquietudes internas dos indivíduos, convertendo-se num meio que aniquila o significado político, social e moral (Llebrez,1999). O espaço público liberal rompe com o projeto de uma vida em que se desenvolva o compartilhamento de fins públicos e sociais. Daí, concordando com Llebrez (1999), as atividades propostas pelo pensamento liberal se sustentam num âmbito de deveres originados por imposições, com uma relação externa entre meios e fins, sendo os últimos sobrepujados pelos primeiros. Há a colocação do indivíduo como a realidade fundamental da cidadania, desligando-o dos demais e dessa forma, desvanece-se o espaço público coletivo e a autoridade se submete a tentáculos, gerando uma eficácia jurídica desprovida de argumentos sociais e éticos, tornando a experiência democrática órfã, sem significado de vida pública. Ainda de acordo o autor supra mencionado, o liberalismo atual adiciona à democracia moderna a tendência de igualar ideologia e utopia, procurando incutir a aceitação do mundo tal qual vivemos, estratégia que visa atenuar os conflitos. Essa premissa termina por anular a função da utopia que é de fazer a crítica à sociedade existente e por conseqüência, elimina a capacidade crítica da teoria democrática, passado esta a desempenhar o papel de discurso legitimador da atuação civilizatória. Por outro lado, Llebrez chama a atenção para a crítica necessária à utopia que por seu caráter autoritário, ao expressar um olhar absoluto que pretende abarcar a totalidade do mundo, a partir de princípios abstratos e neutros que atuam como pretensas leis naturais, forjando uma espécie de idéia da natureza humana. Llebrez afirma que atualmente já não há um claro divisor entre o natural e o artificial, mas um matiz que permite novas alternativas de visão do mundo. Critica o autor a visão dos autores utópicos de fecharem-se numa idéia sem a interação com a realidade, levando à perda da função característica do pensamento poético da utopia. Ao se abrir para o externo, é possível se estabelecer uma recorrência às fantasias que estão por trás das convenções e aproveitar esse material vivo para a construção de caminhos alternativos e melhores para a vida. Llebrez (1999) então evoca o conceito de uma realidade virtual, conceituação diferente da virtualidade tecnológica e dos jogos eletrônicos. A realidade virtual aqui referida nada tem haver com a fuga do cotidiano, mas sim uma geração de objetos e processos novos que origine uma outra forma de realidade, a qual expressando uma construção fixa e absoluta do ser humano, abre caminhos para fora da tirania que advém da utopia. Essa reflexão conduz ao conceito de imagem virtual que, operando como espaço da realidade mental, pretende gerar uma força moral de onde possa se desenvolver um olhar crítico sobre a democracia e a cidadania. Tomar a criatividade como elemento fundador do pensamento e uma construção baseada na interação com a experiência, incluindo os fins na unidade narrativa criada pelos próprios humanos, cria o canal adequado que permite o prestar contas à coletividade, estabelecendo o compartilhamento da verdade, avançando além do modelo liberal. A unidade narrativa significa vincular os caminhos com as metas fixadas e adotá-las, partindo da premissa de que os meios e os fins desenvolvam uma vinculação interna. É preciso se manter a idéia de prática e de virtude interdependentes, para que seja possível a possibilidade de se estabelecer uma ética política de fins compartidos comunitariamente (Llebrez, 1999). O caminho até a realidade Depreende-se então que o conhecimento mais próximo da realidade permitirá uma maior interação desta com a imagem virtual, estimulando a criatividade e criações de soluções de acordo com os novos horizontes traçados, embasados numa prática sustentada na ética comunitária. Entretanto, o conhecer a realidade passa pela estrutura psicológica do indivíduo, suas experiências e sua visão de mundo, na maioria das vezes implantadas na sua mente, impossibilitando ver com clareza a realidade com a qual interage. É preciso então, explorar-se esses caminhos percorridos pelo indivíduo para uma aproximação do entendimento que ele tem da realidade para fundamentar a discussão e reflexão a cerca de mudanças. Segundo Javier Roiz (1992) vem da psicologia a afirmação de que a verdade é o reconhecimento da realidade e essa realidade, tida pela própria psicologia como muito pesada, será aliviada a partir da opção por uma das possibilidades seguintes: luz nas misérias humanas; satisfações substitutas; ou, substâncias alienantes, sendo que a primeira é o caminho recomendado pela psicoterapia, na busca da saúde mental. A linha de ação é pelo racional, com o objetivo de lançar-se luz sobre a parte obscura da mente, procurando resgatar o lado cívico da humanidade. Esse conceito de verdade sofre a influência política e fica na dependência do conteúdo ético do contexto em que está inserido. No mundo democrático o caráter absoluto da verdade se interrelaciona com os fatos e essa conceituação é impressa, por assim dizer, nas mentes onde a realidade passa a ser digerida como opinião ou interpretação. O pensamento democrático se torna uma representação que se molda seguindo princípios abstratos superiores, onde o poder é ponto fundamental na ação democrática. Partindo dessa formulação, órgãos políticos podem imprimir suas vontades na vida pública e privada dos cidadãos e em conseqüência, os detentores do poder afetam a formação de novos homens, bem como podem segregar a verdade a seu favor (Roiz, 1992). No caminho até a verdade que necessariamente, segundo Roiz, passa pelo caminho até a realidade, são colocados obstáculos pela modernidade. Assim, em lugar da realidade se cria males e mitos, em sua grande parte gerados pela religião e pela ciência. Seguindo a análise do autor, a religião tem o inferno e a incrustação de deuses, trazendo consigo os respectivos castigos e introduz o cativeiro da alma, através da instalação da dicotomia entre o bem e o mal. Por seu lado, a ciência substitui o inferno pelo ego e seu aparato complexo e pretende solucionar a fragmentação do indivíduo apontando o conhecimento da realidade interna e externa, ao desvendar esse aparato psíquico do indivíduo. E nesse sentido, o século XX é prodigioso na elaboração de teorias na área psíquica. Além desses obstáculos, o conceito de realidade é altamente corruptível e manipulado por ações externas, dificultando a real sanidade mental que passa necessariamente pelo conhecimento do eu e da realidade, a qual só pode ser autônoma se a terapia aplicada é politicamente limpa. Terapia e política estão entrelaçados e, por isso, o cidadão autônomo começa com um indivíduo saudável, como retrata Roiz (1992) que fala também da dificuldade prática de se aplicar o raciocínio terapêutico, ainda que correto, para se fortalecer o eu dos cidadãos, principalmente em se tratando das crianças, a fim de se processar a compreensão da realidade sem distorções, a exemplo da hostilidade da concorrência, onde se forja como meta a derrota do outro. Depara-se em primeiro plano como a grande dificuldade, a inexistência de modelos que levem a sociedade a trilhar por caminhos que substituam a luta pelo poder. Continuando com a visão de Roiz, a exigência da garantia da sobrevivência, pelo menos no modelo mental atual da civilização ocidental, leva a se pensar na inviabilização ou inaplicabilidade de um modelo que valorize mais o êxito em atividades não competitivas, já que a tônica geral do grupo é estabelecer um sentido constante de lutar pela sobrevivência, criando um contexto de competitividade hostil prevalecente e mais valorizada. Para Roiz (1992) o eu moderno ao se defrontar com a realidade sofre comumente quatro tipos de desvios: a mentira; a alienação; a racionalização disfarçante; e, a ofuscação não culpável. Esses desvios tornam a mente do homem moderno impura, incapaz de refletir sobre a realidade. À tarefa de retirar essas impurezas, têm se dedicado filósofos e cientistas sociais de diferentes ideologias ao longo dos tempos, dedicando-se, no fundo da questão, a um trabalho terapêutico. Essa busca não é uma tarefa simples, onde métodos puramente científicos sejam capazes de remover as impurezas introjetadas na mente humana. Por isso, é senso comum entre os estudiosos que a educação tem um papel fundamental no processo de liberação da mente humana. A formação da estrutura funcional da mente do homem moderno é muito bem expressa por Roiz (1992, p.27) “... as idéias, os preconceitos, estão condicionados pela posição social do sujeito. E como conseqüência disto, a maioria dos indivíduos têm a mente ocupada com idéias que o próprio indivíduo não tem criado e que sequer tem tido a opção de escolha. O cidadão não sabe de onde vêm nem por que estão aí, limita-se a cursa-las como um daqueles escravos da antiguidade que carregavam as pedras das pirâmides”. Daí, a conclusão de que a maioria das idéias que ocupam as mentes não são criações, nem opções dos indivíduos que as possui, estando a razão humana contaminada e colonizada pela estrutura social, além do que, segundo Roiz, a mente humana está envolvida na busca constante da felicidade e seu crescimento, o que requer uma luta freqüente e duradoura. Essa é uma carga passada pela sociedade e que forma a base da matriz política vigente. Roiz (1992) afirma que a difícil tarefa que especialmente se dedica a psicologia, é tentar a liberação do indivíduo para que ele alcance a sua autonomia e possa, enfim, governar-se. Para levar a contento essa tarefa, os terapeutas (e por que não incluir também os educadores) têm de conscientizar-se profundamente a cerca das influências ideológicas que exercem um poder tirânico e das diversas formas que atua. Nesse sentido, torna-se, em especial, por demais importante a clareza da influência da polis sobre aqueles que estão chegando à vida. Entretanto, ressalva Roiz, aos educadores e terapeutas não cabe semear revoluções radicais interiores nos indivíduos, mas sim ajudá-los a compreender a realidade e refletir sobre ela, removendo os destroços e entulhos que não pertençam ao eu da pessoa. Esse processo permite uma maturação e fortalecimento do eu, necessários ao confronto com a realidade, implicando na necessidade de se estar atento que o desencadear de revoluções pode não resultar em êxito, e, provocar um aprofundamento do cárcere, a exemplo das revoluções sociais que fracassam. Enfim, concordando com Roiz, a liberação do eu é também um processo de ameaça à sua estabilidade e sobrevivência, já que muitos dos destroços introjetados fazem parte do cidadão e a sua retirada, portanto, requer cuidados para que o crescimento seja o resultado alcançado e não fragilize ainda mais o indivíduo ou o remeta mais ainda à prisão por medo da dissolução do seu eu. Roiz (1992) chama a atenção, com bastante propriedade, de que é necessário a consciência do educador e do terapeuta que eles agem sob uma matriz política, derivada de sua ideologia. Isso não impede, entretanto, que se trabalhe terapeuticamente com grupos de ideologia contrárias. O que não se pode fazer é pretender passar um apoliticismo inexistente, uma vez que as atividades pedagógicas são genuinamente políticas na tradição Ocidental. Por outro lado, fala Roiz que reduzir a questão transcendental do ser humano à política é empobrecê-lo. Dessa forma, deve o terapeuta ou educador tentar ultrapassar a lógica social, superando o limite imposto ao homem, decorrente da solução de viver em coletividade. Assim, torna-se como meta, a busca da preservação do princípio individual e não identificar o político com o mundo aparente das relações interpessoais externas, entendendo que o conflito político humano real vai mais além dessa visão limitada. Em se tratando de convivência coletiva, existe um outro processo fundamental para a consistência política do grupamento humano, envolvendo o indivíduo em toda sua complexidade e principalmente as relações de poder. É o processo de formação e estabelecimento da autoridade, inerente a todo grupamento humano, processo esse que exige alienações de partes individuais dos integrantes do grupo e essa autoridade passa a exercer poder sobre os indivíduos, na forma de instituições ou figuras constituídas para tal fim, constituindo-se a vida política da sociedade que passa a abarcar todas atividades humanas que se desenrolam sob o império da lei, ao qual deve se submeter a própria autoridade constituída (Roiz, 1992; Dahrendorf, 2000). Sobre esse processo de formação de autoridade Roiz (1992) traz uma compreensão bastante aclaradora. No seu entender, o grupo, qualquer que seja ele, percebe de forma idêntica a autoridade, havendo inicialmente a formação de um inconsciente coletivo, processo esse que vai se encorpando à medida que o indivíduo perde o medo de dissolução do seu eu. Isso cria as condições para o nascimento e fortalecimento da autoridade que se dá pelo processo de transferências e projeções individuais para uma entidade que via de regra, se situa a uma certa distância do grupo. Onde e quão rapidamente se dá esse processo, depende da dinâmica e das circunstâncias pessoais dos integrantes. Porém, a aparição da autoridade sempre é associada a uma criação supra-humana e que paira sobre o grupo. Na sua evolução, conforme explana Roiz, o processo parte de um modelo politeísta e à medida que progressivamente se torna mais complexo, atinge um monoteísmo cuja autoridade central abarca todas as outras, universalizando a sua superioridade semelhantemente ao modelo religioso. No grupo, como na sociedade em geral, a identidade pessoal ou realidade interna é ignorada, criando uma distorção da percepção e atuação na realidade externa, já que ao mesmo tempo o indivíduo é ele mesmo e não pode sê-lo integralmente. A terapia tem aberto portas importantes do inconsciente individual para a compreensão mais concreta da realidade. Contudo, conforme acentua Roiz, a ciência terapêutica tem se defrontado com a constatação de que ao lado dos ecos do homem ancestral, estão incorporados elementos públicos e essa incorporação constrói um vasto foro político, rico e diverso. Dessa forma, não há mais como se prender à separação “canônica entre res publica e res privata. Os conceitos de verdade e autoridade, junto com a extraordinária plasticidade do ser humano, são os caminhos através dos quais o público e o privado se inundam” (Roiz, 1992p. 39). E, embora tenha sido identificado como a entranha política da sociedade por séculos, o conteúdo político da república perde o seu significado e necessita de redefinição radical para se adequar à nova compreensão. E, o próprio Javier Roiz (1996) vislumbra um prenúncio de mudança de era na fase da modernidade atual, marcado pela falta de pensamento próprio, confusão entre atividade mental e pensamento, militarização da vida e a memória como base de aquisição e controle mental. De acordo Roiz, na ausência de um pensar próprio se continua remoendo e passando adiante teorias arcaicas como novos ensinamentos, a exemplo do livre mercado e tradição socialista. Assim como se persiste na cultura de que o pensamento é algo compulsório, equivalendo-o à atividade mental, ou seja: quer se fazer acreditar que todo conteúdo da mente seja classificado como pensamento, como se o ato de pensar não passa de um mecanismo automatizado, não o diferenciando sequer das fobias e obsessões. O aspecto da militarização da vida que marca a atualidade, chega a aclamar a idéia de Clausewitz (citado por Roiz, 1996), de que guerra e política formam um continuum natural da civilização. O exemplo mais dramático dessa visão é o fenômeno do nazismo que, segundo Fritzsche (1998), sustenta-se no nacionalismo exacerbado e leva a Alemanha a estruturar suas aspirações através da guerra, numa concepção de comunidade nacional que contempla desde a utopia socialista até o racismo ariano mais rude, união essa estimulada pelo estado de guerra, movimentando o povo alemão a buscar neles próprios o sentimento de patriotismo de forma intensa e agressiva. Por seu turno, a memória como delegada da identidade do self, segundo Roiz (1996), apresenta deficiências como agente central do conhecimento, em prejuízo da criatividade, resultando numa tendência atual de valorizar o pensamento dirigido pela consciência, na tentativa de responder às necessidades da época, esquecendo-se de considerar que a riqueza das experiências ultrapassam as explicações das ciências. Roiz (1996) enfatiza que não há mais como se aceitar o ser humano somente como a consciência que apresenta, haja visto que essa é apenas uma parte de um ser complexo interior, teoria largamente comprovada nas descobertas de Freud, Lacan e outros. Na descrição do autor, esse ser interior não é uno e sim composto de várias partes, presentes em qualquer pessoa, independentemente de sua saúde mental aceita como normalidade. Assim, a diferença é que nos indivíduos tidos como doentes, esse desequilíbrio se manifesta de modo mais incontrolável. Para Roiz (1996) a percepção do indivíduo com essa formação interior, abala profundamente a crença de que a ordem republicana é suficiente para impor uma aceitação tranqüila de todo ser, sustentando o modelo de democracia que apresenta a modernidade. Não há garantias de que esse “eu” possa suportar os encargos impostos ao indivíduo e isso expõe a fragilidade da base em que se sustenta a ordem democrática. Acentua ainda o autor que também é pouco producente a tentativa de alguns, em negar a consistência das descobertas científicas sobre a psique humana, buscando manter o “status quo” por medo de enfrentar as mudanças, ou mesmo, por não querer fazer concessões. Incorporar essas descobertas, permitirá uma modernização na idéia de democracia e vai ajudar a absorção da reação das pessoas ao contactarem com a não verdade da vida que têm levado. Por mais que a democracia do século XX queira submeter os homens à sua verdade, dois fatores debilitam sua posição. O primeiro é a existência de forças internas no indivíduo e que não estão sob o controle da sua consciência e, o segundo fator é a percepção do homem moderno à corrupção que permeia a democracia moderna. Da tentativa de ignorar as forças internas vem a justificativa de se sobrepor ao homem um interesse coletivo que despreze sua complexidade interior. Entretanto, o mundo interior faz suas conexões e desconexões com o externo com independência de leis ou vontades, bem como por influências dos estímulos tecnológicos e científicos oferecidos pela sociedade. Por outro lado, a democracia moderna se esmera em isolar o mundo interior dos indivíduos, como uma defesa para manter a totalidade e via de regra usa a tirania aprisionando esse homem, acreditando com isso, preservar o seu “eu”. Submetido a essa disputa de poder e maltratado pelas tribulações cotidianas (fome, humilhações, carências afetivas, etc), o indivíduo tenta suprimir ou sufocar seus medos no inconsciente, gerando uma sociedade de tendência melancólica e depressiva (Roiz, 1996). Do pensamento expresso pelo próprio Roiz, sabe o ser humano, no entanto, que a saída é a busca da verdade e do seu inconsciente brotam forças contrárias à tirania, dizendo não às manipulações. A fonte dessas forças não está sob o controle da consciência, nem ao alcance de nenhum tirânico, daí a inesgotável resistência aos controles e enjaulamentos. Ressalta o autor que tomar contato com a realidade deve ser a finalidade de um pensamento que se pretende novo, sendo necessário revisar e criticar verdades aprendidas. Nesse processo é fundamental a atuação dos educadores e terapeutas, refazendo o caminho ensinado aos adultos e cuidando dos ensinamentos à infância, para criar um homem mais limpo, sem negar absolutamente a racionalidade, mas “tomando consciência e responsabilidade das limitações de controle que se tem sobre o ‘self’ dos indivíduos e grupos” (Roiz, 1996:143). Quer dizer, aceitar a identidade múltipla ou fracionada, incorporando as peças internas, excluindo-se a ditadura da consciência sobre a totalidade do ser e, assim, construir uma verdadeira democracia. A concretização das promessas democráticas como saída A relação entre os homens, fundada numa democracia vigilante, intenta enquadrar as diferenças de cada ser na forma de organização definida por Arendt (1999) como corpos políticos erigidos a partir da família. Por essa via se busca organizar o caos absoluto, porém, com o preço da supressão da diversidade original. A autora chama a atenção que se por um lado o modelo família tem ampla validade no âmbito pragmático, vez que o mundo está organizado sobre esses corpos políticos a partir da família, por outro produz um mundo inóspito e estranho para os mais diferentes. Arendt vai mais além na análise sobre essa estrutura política, classificando-a de não pertencente à essência do homem mas um fenômeno entre-os-homens, externo, gerador de esquemas limitados que pretendem garantir a pluralidade dos homens. A exemplo, a religião ao conceber uma visão monoteísta de Deus e o homem ser cria da sua imagem e semelhança, gera um homem imagem da solidão de Deus e por isso com uma existência sem sentido de estar com o outro, provocando um estado de rebelião de todos contra todos. Nas suas considerações sobre o futuro da democracia, Bobbio (1997) analisa alguns outros obstáculos enfrentados pela democracia moderna para implementar o ideal democrático. Em primeiro plano, a democracia se vê frente a frente com uma tecnocracia que surge graças à complexidade da vida moderna. Essa tecnocracia retoma, em alguma medida, uma prática dos estados absolutos que é manter a base longe do centro de decisões, haja visto sua ignorância. Tal é a complexidade da sociedade civil de hoje, exigindo competências técnicas muito apuradas que o indivíduo médio se vê envolto em conhecimentos científicos para ele misteriosos. Isso confere aqueles que dominam o conhecimento, o status detentor do poder decisório independente da participação da base. Decorre também dessa complexidade, o crescimento do aparato burocrático como forma de organizar e encaminhar as demandas múltiplas, originadas pela ampliação da participação inerente ao avanço da democracia. Burocracia que ao tempo em que organiza e viabiliza a realização de demandas, contraditoriamente concentra poder e restringe a realização democrática. Da correção desse pensamento e dos demais nesse artigo mencionados sobre a forma de democracia vigente, pode-se extrair conclusões interessantes sobre o vigilar o homem. A democracia moderna estabelecida nessas bases, promete, por um lado garantir a diversidade e autonomia mas, por outro lado, restringe a pluralidade resultante dessa diversidade sob leis, regulamentos, mandamentos e dogmas, concebidos por uma elite como caminho a ser seguido por todos. Há então o isolamento dos seres, revolta pela frustração de sua criatividade cerceada, angústia pelas respostas vazias e melancolia como destino da existência. E qual a importância ou relevância dessas considerações sobre democracia, indivíduos e seus espaços internos com relação à gestão? A resposta se inicia por constatar que a sociedade atual é basicamente constituída e dependente de organizações que assumem o papel central na coordenação e viabilização das atividades humanas, salvo raras exceções. Do desempenho das organizações estão dependentes muitas vezes o destino de populações e, assim, a gestão das organizações de qualquer tipo é um bem social que termina por afetar, em maior ou menor grau, a comunidade. Peter Drucker (1995) assinala a importância fundamental das organizações no tempo atual, conferindo-lhes o papel de motor desestabilizador para que se processe as mudanças necessárias à evolução. Na sua concepção há uma formidável descentralização de poder, cabendo às organizações funcionarem como esses centros descentralizados, catalizadores de transformações nas comunidades onde se inserem. No cenário de drásticas mudanças previsto por Drucker, as organizações têm de se preparar para o abandono daquilo que fazem e planejar sistematicamente a inovação, num ciclo em que o processo sempre recomeça. Esse processo requer forte descentralização para viabilizar decisões rápidas, consoantes com o mercado, mudanças tecnológicas, sociais, ambientais, demográficas e no conhecimento. Funcionar em tal ambiente requer nova forma de gerenciar, onde a criatividade e autonomia são requisitos essenciais, conforme assinala Davidow (1992) de que não é possível se gerenciar com os métodos tradicionais, face ao reordenamento gerencial ocorrido, obrigando criar novos esquemas de subordinação e responsabilidades. As evidências confirmam largamente as previsões e corroboram as analises dos especialistas quanto às mudanças e os requisitos solicitados. Retomando o pensamento de Drucker em sua reflexão sobre as organizações, ele afirma que para compensar a tensão entre a comunidade e as organizações proveniente do embate entre as tendências conservadoras da primeira e desestabilizadora das últimas, é necessário que as organizações se compenetrem das suas responsabilidades sociais, como um ponto de equilíbrio nessa relação. Por outro lado, surge um novo perfil de trabalhador que Drucker chama de ‘trabalhadores de conhecimento’, não mais uma mão-de-obra fácil de substituição, mas aquele trabalhador que detém o conhecimento qualificado e por isso essencial à organização. Isso implica numa sensível mudança de relacionamento entre as partes. A resposta à indagação sobre o entrelace: gestão, indivíduo e democracia ganha contornos mais claros ao se pensar que a matéria prima para atender às demandas desafiantes é a criatividade humana. E, para isso, torna-se extremamente necessário um novo homem, aberto ao conhecimento contínuo e às inovações, bem como organizações (quer sejam governamentais, empresariais ou ONGs) dispostas a remover entulhos que impedem o avanço em direção a uma democracia nãovigilante, portanto, com uma gestão que busque maior aproximação com o indivíduo e toda a sua complexidade. E, finalizando a reflexão sobre a necessidade de uma gestão calcada em novos valores que a aproxime mais da realidade, a resposta supra mencionada ao envolvimento de gestão, indivíduo e democracia encontra eco no pensamento de Malfé (1999), para o qual o homem moderno passa do sonho arcaico (baseado em forças exteriores, desprovido de subjetividade interior), ao ‘sonho’ calculado, onde impera a técnica e num lado mais negativo a loucura da destruição. Contudo, apesar das catástrofes econômicas, do império do capitalismo avassalador, constata-se uma heterogeneidade de formas de percepção e sonhos (emergidos até pela crise). Destarte, a mesma agonia que robotiza e fragmenta o homem, faz brotar também, ainda que tímida, uma nova sensibilidade e isso trás uma esperança e a certeza de que para atingir o humano é necessário sonhar. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARENDT, Hannah. O que é política? Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999. BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. DAHRENDORF, Ralf. Después de la democracia, ¿qué? El País, Madrid, 02 feb 2000. DAVIDOW, William H. & MALONE, Michael S. A corporação virtual. São Paulo, 1992. DRUCKER, Peter. A nova sociedade de organizações. Administrando em tempos de grandes mudanças. São Paulo: Atlas, 1995. LLEBREZ, Fernando. El triunfo de Mefistófeles. In: RELEA 8 (mayo – agosto 1999, p.131-154). MALFÉ, Ricardo. Vivir es dormir y sin duda soñar. In: RELEA 8 (mayo – agosto 1999, p.125-129). ROIZ, Javier. El mundo interno del ciudadano. El Gen Democrático. Madrid: Trotta, 1996. __________ Los espacios públicos internos. Experimento Moderno, Madrid: Trotta, 1992. Ensaios e Iniciação Científica COOPERATIVAS AGROINDUSTRIAIS NA BAHIA: ESTUDO DE CASO DA COOPERFEIRA Pat Virgíne Luz Viana* RESUMO Este artigo evidencia a origem do Modelo Cooperativista Brasileiro, o seu desenvolvimento, o novo cooperativismo no Brasil e as suas características. Discute também o estado atual da gestão da qualidade na empresa agroalimentar e sobre a “Cooperfeira” e o seu funcionamento. Palavras-Chave: Cooperativismo - Desenvolvimento- Indústria Agroalimentar- Gestão da Qualidade O cooperativismo nasceu, na Inglaterra, no final do século XVI, quando teve início a Revolução Industrial. Os trabalhadores das manufaturas, na época, eram qualificados e possuíam associações de oficio, que controlavam o exercício profissional. Com a introdução das máquinas, estes trabalhadores começaram a sofrer a competição de fábricas, que empregavam pessoas não qualificadas, geralmente regressas do campo. Como os produtos industriais eram mais baratos do que os artesanais, em pouco tempo os trabalhadores manufatureiros ficaram sem trabalho. As associações fizeram de tudo para impedir que as máquinas substituíssem os trabalhadores. As ações clandestinas violentas - como a queima das fábricas - foram reprimidas com vigor. Nessa época, Robert Owen, um dos pais do socialismo, começou a pregar que a indústria em si é benéfica, ao baratear os bens de consumo, masque ela deveria ser colocada sob o controle dos trabalhadores e os resultados do trabalho em comum deveriam ser repartidos igualmente. Ele propunha que ao redor das fábricas fossem formadas aldeias cooperativas, em que os meios de produção seriam possuídos e geridos coletivamente. Ele criou várias aldeias com este caráter, uma nos Estados Unidos e as demais na Inglaterra. Na terceira década do século passado, o "owenismo" tomou-se um movimento de massas na Inglaterra e passou a inspirar o nascente movimento das “trade-unions”. Owen assumiu a liderança das lutas operárias e orientou os sindicatos a formar cooperativas de produção de cada vez que fizessem greves, tendo em vista tomar o mercado dos capitalistas. Nesta época, centenas de cooperativas foram formadas e em diversas ocasiões os sindicatos tentaram levar a cabo a estratégia de Owen. A classe capitalista reagiu de maneira ofensiva contra o movimento dos trabalhadores: fizeram "lock-outs", para expulsar os trabalhadores owenistas das empresas, organizaram listas contra o emprego de ativistas sindicais e obrigaram os empregados a assinar uma promessa de jamais se filiar a um sindicato. Com isso, parte dos sindicatos teve de fechar e outros passaram à clandestinidade. Como declínio do movimento operário, provavelmente muitas cooperativas também encerraram suas atividades. Mas, em 1844, um pequeno número de trabalhadores industriais fundou em Rochdale, um importante centro têxtil, uma cooperativa de consumo que eles chamaram "A Sociedade dos Pioneiros Eqüitativos". Eram todos militantes operários owenistas ou cartistas (partidários dum grande movimento de massa na época, que lutavam pelo sufrágio universal masculino). Eles adotaram oito princípios, que provavelmente decorriam da experiência das duas ou três décadas anteriores de cooperativismo. (SINGER, 1996). Em resumo, estes princípios eram os seguintes: “1º a Sociedade seria governada democraticamente, cada sócio dispondo de um voto; 2º a Sociedade seria aberta a quem dela quisesse participar, desde que integrasse uma quota de capital mínima e igual para todos; 3º qualquer dinheiro a mais investido na cooperativa seria remunerado por uma taxa de juro, mas não daria ao seu possuidor qualquer direito adicional de decisão; 4º tudo o que sobrasse da receita deduzidas todas as despesas, inclusive juros, seria distribuída entre os sócios em proporção às compras que fizessem da cooperativa; 5º todas as vendas seriam à vista; 6º os produtos vendidos seriam sempre puros e de boa qualidade; 7º a Sociedade deveria promover a educação dos sócios nos princípios do cooperativismo; e 8º a Sociedade teria que ser neutra política e religiosamente”. (SINGER, 1996). Aplicando estes princípios, a Sociedade dos Pioneiros de Rochdale cresceu imensamente, * Bacharel em Administração de Empresas da UNIFACS. Estagiária da área de Planejamento e Controle de Materiais do Hospital Português. alcançando dezenas de milhares de sócios. Representando um importante mercado consumidor, os Pioneiros fundaram diversas cooperativas de produção: fábrica de sapatos e tamancos, fiação e tecelagem, uma cooperativa de habitação e uma sociedade de beneficência, que prestava assistência à saúde. O exemplo de Rochdale se irradiou pela Inglaterra e mais tarde por outros países. Numerosas cooperativas foram fundadas a partir destes princípios. Hoje, a cooperativa de Rochdale é considerada a pioneira de todas as cooperativas. O cooperativismo surgiu em outros países, notadamente na França, na mesma época, sempre ligado às lutas operárias. Na Alemanha, foram desenvolvidas cooperativas de crédito rurais e urbanas, seguindo modelos diferentes, mas aplicando os mesmos princípios. Finalmente, em 1895, fundouse a Aliança Cooperativa Internacional (A.C.I.), em Genebra, Suíça, classificada com uma organização não governamental (ONG) internacional, que desde então congrega as entidades cooperativas de todos os países do mundo (82 países, 203 organizações e 662.970.545 pessoas – ACI, 1992). (SINGER, 1996). O processo de desenvolvimento das cooperativas e sua transformação em agroindústrias processadoras, a partir de estratégias diferenciadas, deu-se num contexto de transformações do setor agrícola brasileiro, no período do pós-guerra, e, recentemente, com as mudanças do mercado, em vista da globalização, abertura econômica e integrações regionais. Durante os últimos dois séculos, cooperativas surgiram em quase todos os países, assumindo diversas formas: cooperativas de consumo – empresas de propriedade de seus clientes, que lhes vendem bens ou serviços de qualidade comprovada a preços mínimos, pois não visam lucros. São hoje importantes em setores que fornecem serviços de grande valor, a longo prazo, como as cooperativas de saúde, de escolas, de crédito, de seguros, habitacionais, de comercialização – empresas formadas por pequenos ou médios produtores agrícolas, artesanais, coletores de refugos recicláveis, que vendem a produção dos sócios e compram para eles equipamentos, matérias primas, etc. Cooperativas agrícolas freqüentemente criam indústrias de processamento de produtos agropecuários, acrescentando valor a eles; cooperativas de produção – empresas de produção coletiva agropecuária, industrial ou de serviços. Uma modalidade destas cooperativas são as chamadas “cooperativas de trabalhadores” ou de “serviços”, que prestam serviços nas instalações e com os equipamentos dos clientes. São exemplos cooperativas de manutenção de redes de energia elétrica e de telefonia, de manutenção e limpeza de edifícios, hospitais, etc, e de fornecimento de mão de obra para colheitas, para confecção de vestuário, calçados (faccionistas), entre outras. Embora haja grandes diferenças entre os vários tipos de cooperativas, todos se regem pelos mesmos princípios, que são os herdados dos Pioneiros de Rochdale, adaptados e enriquecidos por sucessivos congressos da Aliança Cooperativa Internacional (A.C.I.). Como todos os que trabalham em cooperativas são seus próprios patrões – exceto alguns poucos que são assalariados, quase sempre em estágio probatório para serem depois admitidos como sócios - eles não têm os direitos que a legislação do trabalho assegura, aos empregados. Este fato deu oportunidade a abusos por parte de empregadores inescrupulosos. Para não pagar os chamados “encargos trabalhistas”, estes patrões criam falsas cooperativas, obrigam seus trabalhadores a se associar a elas, “contratando-os” enquanto pretensos cooperados por valores bem menores que a antiga folha de pagamentos. A prova de que estas cooperativas são falsas é que elas são dirigidas por propostos do próprio contratante, que obriga os trabalhadores a aceitar a nova relação sob pena de ficarem sem trabalho. (SINGER, 1996). Está claro que nenhuma cooperativa é autêntica se ela não for o resultado da vontade livre e consciente de seus membros. Uma cooperativa de verdade serve para defendermos interesses de seus sócios, de modo que ela exigirá pelos serviços dos mesmos uma remuneração que inclua todos direitos trabalhistas dos assalariados, como férias, fundo de garantia de tempo de serviço, 13( salário dentre outros benefícios. É vital para as verdadeiras cooperativas de serviços que as falsas sejam eliminadas ou então transformadas em autênticas, mediante a conquista de sua direção pelos associados. Na luta contra as "cooperfraudes", sindicatos e cooperativas são aliados naturais. Todas as cooperativas são democráticas e igualitárias, seus dirigentes são eleitos pelos sócios, as diretrizes são discutidas e aprovadas em assembléias gerais, nas de produção o ganho líquido é repartido conforme critérios aprovados pela maioria etc. São estes princípios que permitem distinguir falsas cooperativas das verdadeiras. O cooperativismo tem crescido, como reação dos trabalhadores contra o desemprego em massa e a exclusão social, provocados por revoluções industriais (causadoras de desemprego tecnológico) e/ou por depressões econômicas. Um surto importante de cooperativismo ocorreu no fim do século passado, na Europa Ocidental e na América do Norte, em função destes fatores. Após a 2º Guerra Mundial, o pleno emprego perdurou por cerca de 30 anos nos países industrializados, durante os quais os trabalhadores assalariados conquistaram melhorias salariais. Neste período, o interesse pelo cooperativismo por parte do movimento operário mais combativo decresceu, pois a conquista do poder estatal tornara-se prioritária. As cooperativas existentes continuaram funcionando, mas foram poucas as formações de novas. Muitas cooperativas de consumo não resistiram à competição das grandes redes de super e hipermercados. Mas, a partir de meados de 1970, crises e recessões sucessivas e cada vez mais graves se sucederam e a 3ª Revolução Industrial (micro-eletrônica) tomou impulso. O desemprego voltou a crescer. A globalização financeira e comercial provocou a desindustrialização de países em que a classe trabalhadora tinha feito conquistas e o mesmo fenômeno atingiu a América Latina e em especial o Brasil a partir dos 1990. Tudo isso provocou e, renascimento do cooperativismo, na Europa, na América Latina e mais recentemente no Brasil também. Hoje, pode-se distinguir entre o cooperativismo tradicional e o novo cooperativismo, que traz as marcas da crise ideológica da esquerda e a necessidade de enfrentar o neoliberalismo e a atual crise das relações de trabalho. O novo cooperativismo constitui a reafirmação da crença nos valores centrais do movimento operário socialista: democracia na produção e distribuição, desalienação do trabalhador, luta direta dos movimentos sociais pela geração de trabalho e renda, contra a pobreza e a exclusão social. (SINGER, 1996). Nem sempre o novo cooperativismo se insere nos mesmos espaços institucionais do tradicional. Estes, muitas vezes, foram cooptados por órgãos governamentais, ou se burocratizaram, ou degeneraram. Há "cooperativas de comercialização” – sobretudo agrícolas ou agroindustriais – cujos sócios são empregadores capitalistas. Obviamente estas pretensas cooperativas nada tem em comum com a esmagadora maioria das cooperativas, formadas por trabalhadores que procuram criar para si e para toda a sociedade alternativas democráticas e igualitárias ao capitalismo. A situação do cooperativismo difere de país a país. Apesar de estar organizado internacionalmente na Aliança, o cooperativismo está hoje em processo acentuado de transformação. Na Bahia existem mais de mil cooperativas. Apenas 371 estão registradas na Organização das Cooperativas do Estado da Bahia. São doze os tipos de cooperativas existentes: 170 - Trabalho; 77 Agropecuária; 53 saúde; 31 crédito; 21 educacionais; 4 habitacionais; 2 mineração e 3 consumo. As cooperativas de Lazer e Turismo, Produção, Especial e de Serviço ainda não foram registradas na Organização das Cooperativas do Estado da Bahia. (AQUILES, 2000). O novo cooperativismo surge em grande medida como resultado das novas formas de luta do sindicalismo mais combativo e se opõe à globalização em sua modalidade neoliberal e à devastação que ela ocasiona no seio da classe trabalhadora. As cooperativas agroindustriais têm crescido bastante nos últimos tempos. As cooperativas agropecuárias também foram surgindo no Sul do Brasil, principalmente nas comunidades de origem alemã e italiana, conhecedoras do sistema cooperativista europeu. Elas se dividem conforme os tipos dos produtos com os quais trabalham. Muitas são mistas, ou seja, têm mais de uma seção: a de compras em comum (para compra de insumos, adubos, sementes, instrumentos etc.) e a data de vendas em comum (venda dos produtos cooperados). O cooperativismo agropecuário já se estendeu a todo território nacional. (BENATO, 1997). É o mais conhecido pela sociedade brasileira participando das exportações, o que engorda a Balança Comercial e, ao mesmo tempo, abastece o mercado interno de produtos alimentícios. Ele presta um enorme leque de serviços – desde de assistência técnica, armazenamento, industrialização e comercialização dos produtos, até a assistência social e educacional aos cooperados. As cooperativas agropecuárias são hoje o segmento econômico mais forte do cooperativismo brasileiro. (BENATO, 1997). Sendo assim, o setor agroalimentar é essencial para o país, contudo, o número de trabalhadores que tratam da gestão da qualidade deste setor é muito pequeno. Cabe ao poder público, a responsabilidade de exercer um controle rigoroso sobre a qualidade final do produto, por meio de normas de produção e distribuição. Para as indústrias agroalimentares, a qualidade é uma questão de sobrevivência. Caso um produto não tenha qualidade, ele poderá afetar a imagem de uma marca consolidada no mercado. Uma cadeia de produção agroindustrial pode ser segmentada em três macrossegmentos. São eles: a comercialização, a industrialização e a produção de matérias-primas. Essa divisão pode variar segundo o tipo de produto. (BENATO, 1997). O conceito de qualidade de produto é um conjunto de múltiplos atributos deste produto que irá determinar o grau de satisfação ou não do cliente. A gestão da qualidade é o conjunto de práticas utilizadas para obter-se de maneira eficaz e eficiente, a qualidade de um produto. A gestão da qualidade no setor agroalimentar tem duas características marcantes. A primeira refere-se aos parâmetros e às exigências dae qualidade, os quais os consumidores não conseguem detectar diretamente. A segunda característica é a importância dos padrões de qualidade de apresentação para a decisão de compra do produto. (TOLEDO, 2000). Um produto pode ser muito bom do ponto de vista da qualidade de segurança alimentar, mas o consumidor poderá não ter o desejo de consumi-lo. Segurança e qualidade são dois pontos importantes para a cadeia agroalimentar. Não dependem apenas das regulamentações e ações de inspeção governamental, mas sim da cultura e do conhecimento de todos, a fim de estabelecer uma melhoria contínua, sempre se preocupando com o consumidor final. Devido a isso, todas as empresas consideram importante a inspeção de seus produtos e a padronização dos processos, existindo uma estrutura de inspeção no recebimento de matérias-primas e durante o processamento e embarque do produto. (TOLEDO, 2000). Segundo a Organização das Cooperativas do Estado de Minas Gerais (OCEMG), 1994, cooperativa é uma sociedade de pessoas, de natureza civil, unidas pela cooperação e ajuda mútua, gerida de forma democrática e participativa, com objetivos econômicos e sociais comuns e cujos aspectos legais e doutrinários são distintos de outras sociedades. No sistema cooperativista não pode haver conflitos entre os interesses da empresa e dos seus cooperados (sócios). Uma cooperativa é uma organização que exige administração diferenciada, possuindo assim: um controle democrático onde as decisões representam a vontade da maioria; neutralidade política e indiscriminação religiosa, racial e social; retorno das sobras proporcional às operações e integração cooperativista, havendo sempre um espírito de união e cooperação mútua entre seus membros. A atual estrutura de poder nas cooperativas brasileiras vem recebendo muitas críticas, pois as suas deficiências estão comprometendo a competitividade das demais organizações em relação às organizações não cooperativas, principalmente devido a sua ineficácia administrativa, como por exemplo: a lentidão nas decisões, a falta de competência administrativa dos dirigentes, centralização do poder, a remuneração demasiada dos dirigentes, etc. O cooperativismo deveria promover uma sociedade de maior participação e igualdade econômica e social, evitando assim, o privilégio de alguns e a marginalização de outros. O tema escolhido – Cooperativas Agroindustriais do estado da Bahia – visa relacionar a teoria com a prática de gestão das cooperativas, para tanto, foi escolhida como objeto de estudo a COOPERFEIRA, que vem se apresentando como uma das mais bem sucedidas cooperativas do Estado da Bahia. A COOPERFEIRA é uma cooperativa que surgiu em 1975, com a finalidade de atuar na compra e venda de insumos para seus associados, mas que a partir de 1979 passou a ser uma cooperativa agropecuária. Esta mudança ocorreu depois de uma grande crise na Bahia que culminou com o fechamento dos seis grandes frigoríficos do Estado. Atualmente, a COOPERFEIRA conta com 745 cooperativados. A sua sede administrativa continua na cidade Feira de Santana, contudo o seu frigorífico foi transferido em 1986 para a cidade vizinha de Humildes. Esta transferência aconteceu, porque a estrutura do frigorífico estava localizada dentro do perímetro urbano de Feira de Santana, fazendo com a Prefeitura Municipal exigisse a sua saída, devido à poluição gerada pela mesma. (COOPERFEIRA, 2000). Infelizmente, nós brasileiros, nos preocupamos muito mais com a opinião dos estrangeiros do que com a nossa própria opinião. Devido a isso, o superintendente da COOPERFEIRA tinha como uma única saída, recuperar as cooperativas do Brasil, pois as de Salvador estavam acabando. Sendo assim, o superintendente da COOPERFEIRA mandou fazer um estudo do que é que significava as cooperativas do país, qual era a sua importância. Segundo estudo do Governo Federal, as cooperativas são responsáveis por 60 % da armazenagem da produção do país, 80% consumo de insumos é via cooperativas, 10 % da população economicamente ativa do país vive do cooperativismo e um bilhão de dólares/ano da exportação brasileira é produto da comercialização via cooperativas. Dentro dos vários ramos cooperativistas, o agro-industrial possui o maior destaque, já que é responsável por cerca de 70% de toda a atividade agro-industrial do país. Isso tudo nos deixa bastante claro a importância das cooperativas para um país. No início, todas as cooperativas sofreram dificuldades para entrar nas regiões, não por falta de administração, mas sim porque as cooperativas têm uma desvantagem enorme quando o país é emergente e muda de plano toda hora, devido à lentidão das cooperativas. Houve também um projeto de recuperação das cooperativas do país por parte do governo chamado RECOOP (Recuperação das Cooperativas do País), mas que até hoje isso ainda não funcionou, mas a tendência é funcionar. A Bahia foi contemplada com 1% de todo o investimento RECOOP, onde desse 1% entraram 22 cooperativas e só foram aprovadas 10, e dessas 10 sobraram apenas duas, onde uma delas é a COOPERFEIRA. Em cooperativas não há sociedade de capital. Foram realizadas palestras para especialistas em cooperativas e administradores, e eles não entendem qual a diferença de sobra e lucro. Por exemplo, numa entidade capitalista, no caso S/A, quem comanda é o capital. O resultado é proporcional ao capital disponível, onde se tem a responsabilidade de dirigir de acordo com esse capital. Já nas cooperativas é bastante diferente, onde a sociedade é de pessoas e não de capital. A cooperativa em si não tem finalidade lucrativa. Quem tem lucro é o associado da cooperativa. Como ela não tem lucro, ela não paga Confins, não pode ser taxada como Imposto de Renda porque ela não tem renda, o PIS é pago de forma diferente (não é pago pelo faturamento). A cooperativa tem uma diferença entre o que ela arrecada e o que ela tem de despesa, e essa diferença é chamada de sobra, que não é sinônimo de lucro. O rateio final do lucro é de acordo com o seu capital, e o rateio final da sobra da cooperativa, é de acordo com o movimento, ou seja, os cooperativados recebem de acordo com o movimento daquele determinado período. Existem quatro tipos básicos de cooperativas: Cooperativas de Vendas em Comum, Cooperativas de Compras em Comum, Cooperativas de Serviço e as Cooperativas Temporárias. Nas Cooperativas de Vendas em Comum, reúne-se o produto e vende em comum a terceiros. Já nas Cooperativas de Compras em Comum, você compra insumos, compra tudo e distribui. É chamada também de Cooperativa de Consumo, como por exemplo, um supermercado. As Cooperativas de Serviço são as cooperativas de trabalho, escolares, de táxi etc. As Cooperativas Temporárias são as cooperativas para fazer um prédio, por exemplo, são cooperativas habitacionais. Em 1975, um grupo de fazendeiros decidiu fazer uma cooperativa, mas muitas vezes as pessoas não sabem a razão de querer fazer uma cooperativa, e isto é muito importante. É necessário saber que tipo de cooperativa se quer abrir. Em 1979, aconteceu um fato econômico muito sério, onde os frigoríficos do Estado da Bahia fecharam. Todos faliram. Quando há uma falência de atividade, a razão não pode ser determinada pela má gestão. A má gestão pode retardar ou minimizar a falência, mas não pode inverter uma situação. O motivo do fechamento destes frigoríficos foi a concorrência com matadouros em cidades do interior baiano que sonegavam impostos e, portanto tinham uma vantagem nos preços praticados no abate do gado. Os criadores preferiam passar clandestinamente por barreiras fiscais e abater suas crias nestes matadouros clandestinos. Diante desta crise no setor pecuário, os grandes criadores pediram ajuda financeira ao Governo do Estado com a finalidade de reabilitar os seis frigoríficos. Contudo, o governo não pode emprestar o capital necessário porque se tratavam de empresas privadas. A ajuda teria que ser dada através de alguma entidade sem fins lucrativos, e neste momento, os criadores resolveram utilizar uma pequena cooperativa de consumo situada na cidade de Feira de Santana chamada COOPERFEIRA. Enfim, o cooperativismo é um instrumento para se atingir a melhoria econômica e social. Ele representa para os pequenos produtores, uma valiosa ferramenta para aumentar a sua força e o seu poder. A cooperativa ajuda a aumentar os rendimentos do produtor, defende o preço justo dos produtos no mercado, afastando e disciplinando a ação do intermediário. Referências Bibliográficas: AQUILES, Haroldo. Como são as Cooperativas. [online] Disponível na Internet via WWW. URL: http://atardeonline.com.br. Arquivo capturado em 21/07/2000. COOPERFEIRA. Home Page. URL: http://gd.com.br/cooperfeira. Arquivo capturado em 29/07/2000. SINGER, Paul. A origem do Cooperativismo. Disponível na Internet via WWW. URL:http://www.cut.org.br/a21003.htm. Arquivo capturado em 31/07/2000. TOLEDO, José Carlos. Qualidade na Indústria Agroalimentar: Situação Atual e Perspectivas. Revista de Administração de Empresas, São Paulo, Volume 40, nº 2. Abr/Jun 2000, p.90-101. BENATO, João. A estrutura do Cooperativismo. Disponível na Internet via WWW. URL:http://www.ocesp.org.br/cprtvsmo.htm. Arquivo capturado em 31/07/2000. Ensaios e Iniciação Científica A IMPORTÂNCIA DA ADMINISTRAÇÃO DE RECURSOS HUMANOS NA EMPRESA HOTELEIRA* Alice Fernandes Teixeira Coelho Fonseca Alessandra Carla Ribeiro Sales Gutierréz** Prof. Orientadora: Kátia Oliver de Sá*** " Para um ser humano... crescer significa atingir a maturidade, um crescimento interno de qualidade. E aqui é interessante notar uma estrita relação entre pensamento e valor. Ambos podem ser encarados como passagens da alta afirmação para integração. Estas duas tendências são ambos aspectos essenciais de todo e qualquer sistema vivo. E, se examinamos os valores podemos observar uma passagem correspondente da competição para a cooperação, da expansão para a conservação, da quantidade para a qualidade, da dominação para a parceria." Fritijof Capra RESUMO Este texto aborda como a Administração de Recursos Humanos na última década, tornou-se assunto importante nas organizações, e essas para se manterem no mercado, resolveram investir na capacitação dos seus funcionários. As empresas hoteleiras, passaram a reconhecer que o elemento humano é peça fundamental na prestação dos serviços, por isso é necessário qualificá-lo e motivá-lo para que desempenhe suas funções da forma esperada. O nosso objeto de pesquisa foi o papel do gerente de recursos humanos no Bahia Othon Palace, e as atividades desenvolvidas por esse com intuito de promover o bem-estar dos funcionários e propiciar retornos positivos à organização. Palavras – chave: Administração de Recursos Humanos, serviços , qualidade, Empresa hoteleira. Na década de 90, o mundo passou por muitas transformações e uma delas foi a abertura dos mercados para o livre comércio. Isso fez com que todo o mercado, tanto de produtos assim como de serviços passassem a Ter uma grande preocupação com o que fazer para sobreviver nesse mercado de concorrência acirrada. As empresas perceberam então, que teriam que adotar uma nova postura, para poderem continuar existindo nesse mercado. Dessa forma surge a preocupação com a qualidade total dos seus serviços. As qualificações dos serviços são os atributos mais representativos para a satisfação dos clientes. Para qualificar os seus produtos as empresas resolveram investir em equipamentos e tecnologias. Porém empresas prestadoras de serviços como é o caso de empresas hoteleiras, optaram por investir na sua mão de obra. O que estas empresas vêm apontando é que o investimento na mão de obra começa com a valorização do Recurso Humano. É preciso motivar os funcionários, não só ouvindo suas opiniões como oferecendo treinamento adequado. Em uma empresa hoteleira a eficiência dos funcionários em todos os setores do hotel é de grande importância, pois não basta apenas abrir um largo sorriso para se mostrar simpático e assim assegurar a preferência do cliente. Portanto, a preocupação com a eficiência dos serviços e dos profissionais é um fator que apresenta grande crescimento na rede hoteleira. O serviço de hotelaria é uma atividade de prestação de serviços onde o ser humano, deve ser o centro de tudo e que jamais poderá ser trocado pelas máquinas. A administração de recursos humanos cuida do desenvolvimento de pessoas que pertencem a uma organização, proporcionando as empresas uma mão de obra motivada, integrada e produtiva. A Empresa e a Importância dos Recursos Humanos ** Estudantes do 4o ano de Administração com ênfase em Hotelaria da UNIFACS. Mestranda em Educação pela UFBA. Especialista em Liderança Organizacional e Metodologia e Didática do Ensino Superior. Professora da UNIFACS e integrante do Núcleo de Gestão e Planejamento do Turismo e da Cultura (DCSA1). *** O comportamento dos seres humanos é voltado para a satisfação de seus desejos e necessidades individuais e sempre visa alcançar seus objetivos. Por isso, ao interagirem num ambiente reagem, respondem aos seus interesses. Numa organização a reação pode representar uma resistência, quando esses não concordam com as estratégias de liderança adotadas, com as práticas organizacionais. Dentro de uma organização, alguns fatores se constituem em motivacionais e geralmente aparecem relacionados às tarefas realizadas, as habilidades exercitadas, o reconhecimento do trabalho e na qualidade das relações desenvolvidas com as outras pessoas do ambiente de trabalho. Portanto a empresa deve reconhecer seus funcionários como o seu maior patrimônio, o seu recurso mais valioso e pensar nesses profissionais como pessoas que possuem valores, motivações, necessidades. É importante salientar que ao selecionar os recursos humanos, visando alcançar objetivos organizacionais, é preciso que a empresa ofereça qualidade de vida no trabalho através de um ambiente saudável. O bom relacionamento, por exemplo, deve ser desenvolvido e cultivado entre as pessoas e a empresa, de forma cooperativa, pois as pessoas que ingressam e passam a participar da organização se constituem no único recurso vivo e dinâmico. É importante reconhecer que essas pessoas, no seu trabalho, disponibilizam à empresa seus conhecimentos, habilidades e atitudes. Todo profissional ao ingressar numa organização, assina um contrato formal onde está escrito o cargo que ocupará, o conteúdo do seu trabalho, salário, horário de trabalho, etc, mas existe um contrato psicológico que traduz uma expectativa daquilo que a organização e o indivíduo esperam conquistar e realizar com esse novo relacionamento. Esse contrato não se constitui num acordo formal, mas influencia no comportamento das partes envolvidas e é um elemento relevante em qualquer relação de emprego. As políticas estabelecidas por uma organização, refletem à sua filosofia e às suas necessidades, e são as regras que dirigem as funções e visam assegurar que elas sejam desempenhadas de acordo com os objetivos almejados. Portanto, é necessário que se possa oferecer na empresa condições para que seus membros alcancem seus objetivos individuais de realização, pois este é o fator motivacional dos mais importantes. O Papel do Especialista em Recursos Humanos O principal papel do departamento de Recursos Humanos é tratar de assuntos referentes a aspectos internos e aspectos externos ou ambientais à empresa. A maneira como esse órgão coordena as pessoas dentro da organização, pode representar um aspecto crucial na competitividade organizacional. Segundo Antonio Carlos Gil (1994), o perfil do profissional especialista em Recursos Humanos na última década desse século se alterou, ele passou a ser um consultor especializado dentro da empresa, prestando serviços. Esse profissional deve dominar conhecimentos específicos de Recursos Humanos e compreender especificidades das outras áreas da empresa. Para isso, deve buscar contatos, estreitar laços com os outros setores, visando unir esforços para que os objetivos organizacionais sejam alcançados. Para enquadrar-se no novo perfil exigido o profissional de Recursos Humanos deve constantemente se autoqualificar, identificar e promover ações voltadas à capacitação de pessoal em todos os níveis e deve ter espírito conciliador, integrador e ter habilidade para negociar com gerentes. De acordo com este estudioso da área, entre as funções inerentes ao profissional de Recursos Humanos, destacamos a função de comunicador, selecionador, instrutor, avaliador, líder e gestor de qualidade. Saber comunicar-se é uma habilidade requerida a todos os profissionais que exercem funções gerenciais, contudo o profissional de Recursos Humanos, é o grande comunicador da empresa, pois ele inicia a comunicação antes mesmo de um candidato ser admitido. Logo ele deve fazer-se entender, saber ouvir, para que a comunicação não se confunda com o ato de informar que é unilateral, onde só a pessoa que tem a informação a dar se envolve. Esse profissional como emissor, deve escolher o código correto, ou seja, o mecanismo adequado para exteriorizar suas mensagens, para que o receptor, aquele a quem se comunica, a decifre de forma sintonizada, garantindo assim que o receptor compreendeu aquilo que coincide com o que o emissor pretendia informar. A atividade de seleção de pessoal é uma das mais importantes para o órgão de Recursos Humanos, é por meio dela que as pessoas ingressam na empresa, e quando bem feita ela evita problemas futuros para essa, como o desempenho inadequado na execução de tarefas e altos índices de rotatividade de pessoal. Cabe ao profissional de Recursos Humanos dispor de conhecimentos, experiência para selecionar de forma eficaz e auxiliar as demais chefias, que de acordo com as novas tendências são co-responsáveis pelo processo seletivo. É importante salientar que os treinamentos e reciclagens são vistos como ferramentas para suprir carências dos profissionais em termos de conhecimentos, habilidades e atitudes, propiciando condições para que esses desempenhem suas tarefas de forma satisfatória, contribuindo assim para que os objetivos organizacionais sejam atingidos. É tarefa do órgão de Recursos Humanos promover treinamentos, mas de acordo com as mudanças necessárias, reconhecidas ou mesmo apontadas pelas gerências. O profissional de Recursos Humanos deve estudar e implantar o sistema de avaliação do desempenho de seu pessoal, de forma tecnicamente elaborada, evitando que essa seja superficial e unilateral, do chefe em relação ao subordinado, pois através da avaliação de desempenho é que se verifica se o ocupante do cargo está cumprindo os deveres e responsabilidades descritas para o seu cargo. Na função de líder, o profissional de Recursos Humanos, assim como os demais gerentes de uma empresa moderna, devem influenciar as atividades dos profissionais e dos grupos para a realização de objetivos. O papel do gerente de Recursos Humanos na Gestão de Qualidade é dotar-se de conhecimentos capaz de persuadir a alta administração de que é preciso criar uma “cultura de qualidade” voltada para os seres humanos, pois para se atingir a qualidade desejada nos produtos e serviços, é preciso dos esforços e desejos de todos os profissionais da empresa, imbuídos de espírito de equipe que joga em um time para vencer. O Recurso Humano na Hotelaria O elemento humano que presta serviços continua sendo a peça fundamental da empresa hoteleira, apesar do progresso técnico, pois é do tratamento que o hóspede recebe que ele forma a imagem do hotel. Nos médios e grandes hotéis, o elemento humano qualificado é condição relevante para a oferta de serviços de qualidade, é a base do esquema operacional, e esse deve adaptar-se aos novos equipamentos e técnicas de gestão, pois na empresa hoteleira o trabalho desenvolvido é caracterizado pelo dinamismo devido à diversidade de situações. O sucesso das empresas prestadoras de serviços depende da qualidade dos processos e estes da capacitação das pessoas que os executam. Para se manterem competitivas, estas identificam a necessidade de investir na educação e em treinamentos que agregam valor às pessoas e assim passam a ter no seu quadro de funcionários pessoas capazes que possibilitam um retorno positivo aos negócios da empresa, contribuindo dessa forma para elevar a auto-estima e satisfação das necessidades de todo o ser humano que dela faz parte. Segundo Castelli (2000), o produto hoteleiro é um somatório de bens e serviços que deve primar pelo seu equilíbrio; Logo é preciso que o hotel ofereça aos clientes excelentes equipamentos, instalações e prestação de serviços de forma a satisfazer e encantar os clientes. Na década de 70, foi criada a classificação hoteleira que focava 70% da pontuação na qualidade das instalações e equipamentos, e apenas 30% aos serviços. Isso gerou um estilo gerencial que não valorizou adequadamente as pessoas e assim não se investiu na capacitação e satisfação pessoal do elemento humano prestador de serviço. A necessidade de reação surgiu com a competitividade acirrada na década de 90, o que levou às empresas hoteleiras a repensar o capital gasto com investimentos na educação e treinamento dos seus recursos humanos, para oferecer um serviço de qualidade capaz de mantê-la firme no mercado atual, e que atenda às necessidades de todas as pessoas com as quais a empresa tem compromisso, tais como: empregados, clientes, acionistas e a comunidade. O estilo gerencial vem apresentando mudanças, cabendo a pessoa que exerce a função de gerência compromissar toda a equipe, conceder autonomia sobre determinados processos, principalmente aqueles funcionários que estão na “linha de frente”, tratando diretamente com os hóspedes, evitando assim soluções lentas devido a necessidade de consultas ao superior. É necessário reconhecer e delegar autoridade sobre os processos que compõem a função. Estudos apontam que quando todos os funcionários da empresa hoteleira estão educados, treinados e engajados, eles passam a compreender e apoiar a missão dos serviços e chamam para si a responsabilidade pela qualidade. Portanto esse é o grande desafio dos gerentes de hotelaria para esse novo milênio que estamos por iniciar. O Papel do Gerente de Recursos Humanos na Empresa Hoteleira Maximizar a produtividade dos funcionários, promover seu bem-estar, implementar e supervisionar os programas de treinamento, a política e os procedimentos na área de recursos humanos, respeitando as leis estaduais, federais e a filosofia do hotel, são as funções básicas do cargo do gerente de recursos humanos na empresa hoteleira. É responsabilidade do gerente de recursos numa empresa hoteleira, selecionar candidatos qualificados e providenciar para os mesmos orientação e treinamento, para que estes possam contribuir para o progresso do hotel. É necessário também garantir que os funcionários sejam tratados com respeito. Outros fatores importantes são: implantar e controlar um plano de cargos e salários, manter-se atualizado com a política de relações humanas, controlar a freqüência dos funcionários em treinamentos, prover e organizar os benefícios e obrigações sociais, manter um arquivo completo e minucioso dos empregados, utilizar técnicas de motivação, padronizar os serviços, supervisionar o serviço de qualidade oferecido ao hóspede, orientar e coordenar as avaliações de desempenho, certificar-se de que a política salarial seja cumprida e ainda, desenvolver e implementar estratégias para atingir a satisfação dos funcionários, promover o desenvolvimento de habilidades nos funcionários, garantir que medidas disciplinadoras sejam tomadas quando necessário e cuidar das questões sindicais. O Perfil do Gerente de Recursos Humanos do Bahia Othon Palace A nossa pesquisa centrou-se no Bahia Othon Palace, que pertence a Rede Othon constituída de 19 meios de hospedagem sendo 14 hotéis e 5 pousadas, localizadas em 7 estados brasileiros ( Bahia , Alagoas , Minas Gerais , São Paulo , Rio de Janeiro, Ceará e Pernambuco). O Sr. Othon Lynch Bezerra de Melo, fundador da rede, em 1943, vislumbrou possuir Meios de Hospedagem em todo território nacional, oferecendo estrutura física adequada e confortável e serviços de alta qualidade . Com esse intuito alguns Meios de Hospedagem já possuem o certificado da ISO 9002 e outros estão na fase final de certificação. O Bahia Othon Palace foi escolhido para ser estudado por se tratar de uma Empresa que direciona os seus esforços na melhoria e qualificação dos seus serviços, como por exemplo, a implantação da ISO 9002 que foi desenvolvida desde maio/99 e concluída em agosto/2000. A classificação da Embratur, portanto não é meta principal do Hotel porque requer reformas dispendiosas na sua estrutura física e os administradores acreditam que a ISO 9002 garantirá a qualidade dos serviços, que é o que o hóspede mais avalia. Sendo assim, o bom atendimento deve ser a maior preocupação do Hotel, onde está sendo investido muito no aperfeiçoamento dos funcionários. Segundo o que é apontado neste trabalho, a tradição e a excelência da marca Othon estão confirmadas internacionalmente, e mais, pelo certificado de qualidade mais importante do mundo. A administração da Rede Othon, atenta para as tendências de mercado, e ao fato de consumidores estarem cada vez mais exigentes, tem como foco administrativo para alavancar os serviços, a qualificação de seus funcionários. Esses, além de serem analisados no processo admissional com base nas competências exigidas pelo perfil de cargos/serviços, recebem treinamentos e reciclagens permanentes visando adequar e aprimorar as habilidades de forma que atendam as especificidade dos diversos serviços, não só administrativos mas principalmente de atendimento dos clientes/hóspede. O Bahia Othon Palace possui atualmente 234 funcionários, que estão divididos em: Governança, Recepção, Manutenção, Reservas, Alimentos & Bebidas, Vendas, Controladoria e Recursos Humanos. A Rede Othon exige ao contratar um gerente de Recursos Humanos, que este tenha experiência anterior na área de RH e se possível, no ramo hoteleiro. Outras qualidades exigidas: espírito de liderança , que seja conciliador, que tenha dinamismo e espírito inovador. A Alta Administração da Rede Othon, que contrata o gerente de RH, avalia ainda, no processo admissional, se o perfil do candidato condiz com a filosofia da empresa. A equipe de Recursos Humanos é responsável em aplicar dinâmicas de grupos, fazer entrevistas individuais, aplicar psicotestes com a parceria de psicólogos contratados. Essa equipe tem que ter a capacidade de averiguar características de personalidade dos candidatos para atender os diversos serviços do hotel. Dentre os vários perfis possíveis de ser encontrados, busca-se candidatos que valorizam relações francas, que prezam pelo bom clima de trabalho. Após ser admitido o novo funcionário passa por um período de experiência, onde o chefe direto acompanha suas novas funções analisando de perto se as características demonstradas no exame admissional realmente são observadas no decorrer do exercício de suas atividades e se principalmente demonstram qualidades ou disposição para trabalhar em equipe. É importante salientar que esses valores fazem parte da filosofia da Rede Othon. O gerente de Recursos Humanos, é quem desenvolve e elabora programas diversos com o intuito de propiciar um ambiente de trabalho saudável, onde o bem- estar dos funcionários seja assegurado, e principalmente se preocupa com a qualificação em serviço dos funcionários. O atual gerente de RH do Bahia Othon Palace é Sr. Rimaci Miguel, que estudou Engenharia Mecânica, Administração de Empresa e Processamento de Dados, porém não concluiu nenhuma das 3 universidades. Após desvincular-se de uma empresa de informática, onde atuava como gerente técnico, foi convidado pelo gerente do Hotel Sofitel Quatro Rodas, pertencente ao grupo Accor, a trabalhar como assistente de RH nessa unidade hoteleira. Nesse período ele confessa que apaixonou-se pela área de RH, chegando nesse mesmo hotel a atuar como gerente. No período de 1996 à 1998, passou a integrar a equipe de funcionários do Fiesta Bahia Hotel, na função de RH, conhecendo assim outra filosofia e desenvolvendo trabalhos adequados aos objetivos dessa empresa e sendo responsável inclusive pela implantação da ISO 9002. Em 1998, foi convidado por Aldo Campos , Gerente Geral do Bahia Othon Palace, para assumir a gerência de RH desse Meio de Hospedagem, período que a prioridade da administração era reformular políticas, investir na qualificação dos profissionais e reestruturar a empresa no contexto financeiro. Nesse mesmo hotel, auxiliado pela administração participativa implementada pelo Gerente Geral, ele desenvolveu e passou a aplicar o treinamento essencial para os novos funcionários. Esse treinamento consiste num conhecimento minucioso sobre o Bahia Othon, sua estrutura física, produtos, serviços disponíveis e conhecimento sobre os demais hotéis da rede Othon. Implantou um programa de evolução de desempenho mensal, que é preenchida em duplas pelos funcionários e seu chefe direto. Ele acredita que esse método de avaliação é uma ferramenta de diagnóstico de extrema importância, pois a empresa passa a conhecer bem seus funcionários e esses por sua vez adquirem conhecimentos específicos e relevantes para desenvolverem de forma adequada suas funções, com um determinado comportamento e desempenho esperado pela empresa. Esse método, segundo Sr. Rimaci, propiciou a empresa identificar necessidade de treinamentos e reciclagens, e para o funcionário representou uma satisfação, pois esses sentem-se mais valorizados, visto que sentem que a Empresa visa qualificá-los e tem real interesse pelo seu trabalho. A preferência pelo recrutamento interno, também motivou os funcionários, pois desde 1998, os profissionais do Bahia Othon Palace possuem prioridade quando surgem novas vagas em funções mais elevadas. Assim a Gerência de RH identifica funcionários que estão habilitados ou se tornarão aptos após treinamentos, a assumir uma nova função. Caso isso não seja possível, o departamento de RH através de informativo aos funcionários, solicita que esses tragam Curriculum Vitae de pessoas amigas que se enquadrem ao perfil. As festas promovidas no Bahia Othon Palace voltadas para a integração e lazer dos funcionários, também foram criadas pelo Sr. Rimaci e acontecem a cada 3 meses, quando comemora-se os aniversários. As festas tradicionais também são festejadas, na área de eventos e todos esmeram-se na decoração e a área de A & B capricha nos alimentos e bebidas. Essas festas são organizadas num padrão idêntico aos oferecidos a clientes e ocorrem na “famosa área verde do Othon”. Considerações Finais O que se observa na Rede Othon é uma verdadeira preocupação com as novas tendências do mercado que diante da realidade competitiva, procura estabelecer um diferencial na formação de seus funcionários. Como as suas instalações são antigas e percebem que não podem, na atualidade, concorrer de igual para igual com os super empreendimentos que vêm surgindo, resolveram acreditar e investir na qualificação da mão de obra. O que ficou muito claro na pesquisa realizada é a grande preocupação com esse investimento e a certeza de que esse é o caminho que possibilita a empresa manter o seu alto padrão de qualidade com um certo número elevado de clientes fiéis. Isso ficou revelado também pela forma com que a empresa trata seus funcionários, criando um laço de fidelidade e de equipe que contribui para fortalecer os serviços que se traduzem, no dia a dia para os hóspedes, como fator de qualidade. Para nós estudantes, este estudo possibilitou uma investigação que evidenciou na prática, resultados que podem ser comparados ao que existe de mais avançado nos estudos da área. O que também ficou como reconhecimento que possibilita avanços na forma de enxergar e conduzir a gestão de Recursos Humanos em Hotelaria, é o saber da convivência da humildade, da parceria que com muita sabedoria estabelece o reconhecimento dos serviços prestados pelas pessoas que delas fazem as suas realizações profissionais do cotidiano, e que faz refletir no cliente a satisfação e o reconhecimento de saber que está sendo bem cuidado, pois este é um dos papéis mais significativos que o meio de hospedagem pode ofertar à sociedade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BUZZELLI, Giovanni Emilio. Manual de La Industria Hotelera. Madrid, Ediciones Ceac,1994. CASTELLI, Geraldo. Administração Hoteleira. Caxias do Sul, Educs, 2000. CASTELLI, Geraldo. Excelência em Hotelaria. Rio de Janeiro, Qualitymark, 1998. CHIAVENATO, Idalberto. Recursos Humanos. São Paulo, Atlas, 1998. DAVIES, Carlos Alberto. Cargos em Hotelaria. Caxias do Sul, Educs, 1997. DRUCKER, Peter. O Gerente Eficaz. Rio de Janeiro. Copyright, 1967. GIL, Antonio Carlos. Administração de Recursos Humanos. São Paulo, Atlas, 1994. Diálogos em sala de aula CERVEJA BAVARIA: HISTÓRIA DE UM EX-PRODUTO PROMISSOR Denise Borba Fernando Tanure Ivan Barbosa Juliana Coelho Karine Brasileiro Pablo Ramos* Orientadores: Alexandre Paupério e Lissandra Figueira** RESUMO Este artigo tem como finalidade descrever a história da Cerveja Bavaria, um produto promissor que hoje se encontra em franco declínio de participação no mercado. Serão descritas as fases de introdução, crescimento e prematuro declínio, apresentando ainda, o modo como este produto foi concebido, caracterizado e lançado no mercado, auferindo um a grande aceitação. Visa também mostrar como a decisão da fusão entre a Brahma e Antarctica alterou o ciclo de vida desta cerveja, analisando sua queda de participação no mercado nacional, a decisão do CADE e as determinações impostas para sua venda. A Concepção da Bavaria No início dos anos 90, o mercado cervejeiro do país foi marcado pela forte disputa mercadológica entre as marcas Antarctica (“Paixão Nacional”) e Brahma (“a Número 1”). Nesta disputa a Brahma obteve melhores resultados, visto que conseguiu aumentar o share de mercado, tanto da cerveja Brahma, como da cerveja Skol, produto pertencente ao seu portifolio, que foi adquirido, através da compra da Skol Caracu, reformulado e relançado no mercado, tornando-se a cerveja n º 2 desta empresa. "Para muitas empresas uma das forças fundamentais reside na contínua revisão de novos produtos. Essa introdução ou revisão é importante porque assim é possível aumentar ou pelo menos manter os níveis da demanda dos produtos, diferenciando a empresa da sua concorrência" (MOREIRA, 1998). A partir da constatação de que as cervejas Brahma e Skol estavam elevando suas participações de mercado, os administradores da Antarctica buscaram reverter essa situação por meio de duas decisões estratégicas. A primeira seria recuperar a participação de mercado do grupo Antarctica como um todo, não apenas do produto cerveja Antarctica. A segunda seria explorar um nicho significativo de mercado que pudesse representar volume, share e rentabilidade a médio e longo prazo. Mesmo porque "as empresas, de um modo geral, buscam desenvolver novos produtos e serviços, a fim de atender as necessidades e desejos dos consumidores e, logicamente, manterem seus negócios lucrativos" (KOTLER, 1998). Estratégia de Marketing Para se ter uma sólida estratégia de marketing é necessário construir um Sistema de Informação de Marketing adequado as decisões estratégicas fundamentais da organização. Este sistema "visa fornecer aos executivos de marketing informações para ajudar na solução de problemas específicos e esporádicos que surjam durante o processo de administração de marketing. As informações produzidas pelo sistema são predominantemente de tipo ad - hoc, ou seja, são produzidas especificamente e dirigidas para ajudar na solução de problemas definidos e únicos, como: escolher a marca para um novo produto, descobrir as razões para queda de vendas de um produto, redefinir o preço de um produto etc." (MATTAR, 1997). Neste panorama, os administradores de marketing da Antarctica buscaram um produto que representasse o posicionamento da organização, naquele momento, com relação ao ambiente. Para isto, foram realizadas pesquisas tendo como público alvo jovens com interesse pelo Movimento Sertanejo o qual assolou o país nos anos 90. * Alunos da 4ª série, turno matutino, do Curso de Administração de Empresas da UNIFACS. Professores do Curso de Administração de Empresas. ** Na pesquisa elaborada pela equipe de marketing do grupo Antarctica, buscou-se descobrir quais as características da cerveja que esse público alvo desejava. Questionamentos como cor, teor alcoólico, amargor, espuma e extrato foram feitos para se chegar a composição de uma cerveja com as seguintes características: clara, suave, espuma espessa, baixo teor alcoólico (menos que as do mercado), leve e consistente, na medida para o target alvo. De posse dessas informações, os profissionais de marketing da Antarctica concluíram que poderiam desenvolver um novo produto que atendesse ao mercado alvo. Esse produto foi, na realidade, a modificação da Cerveja Bavaria Premium em Cerveja Bavaria Pilsen, com todas aquelas características indicadas pela pesquisa. Mix de Marketing Além de reposicionar esse novo produto no mercado, o grupo Antarctica trabalhou de forma brilhante o composto de marketing: Produto, Preço, Promoção e Praça. Com relação ao produto foi desenvolvido a Cerveja Bavaria com base nas necessidades e desejos do público alvo, com mudanças nas embalagens, passando também a ser comercializada em lata e long neck. O preço foi estrategicamente estabelecido de forma mediana e variada, de acordo com o mercado consumidor, sendo colocada mais barata do que as líderes do mercado local e mais caras que as demais, com variações entre 4,5% e 6%, para ambos os casos. A promoção baseou-se em um investimento de R$30 milhões de reais para introdução da marca no mercado, utilizando campanha publicitária e materiais promocionais para pontos de venda. Aproveitou-se o modismo sertanejo no país em 1997, contratando-se as três duplas sertanejas de maior sucesso ( Chitãozinho e Xororó, Zezé de Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo) para divulgar o produto. Vinculou-se a marca a estas duplas, com o seguintes slogan: "A Cerveja dos Amigos". Contou-se, ainda, com a publicidade desses artistas, através do disco "Amigos", patrocínio de shows e eventos ligados a este movimento, como rodeios, além da cobertura da imprensa em geral. A sexta-feira tornou-se sinônimo de Bavaria, ao ponto da música "Cerveja" não poder ser executada em eventos promovidos pelos concorrentes. A cerveja Bavaria tinha um enfoque muito forte na distribuição, haja vista que esta marca fazia parte do portifolio da empresa com a maior rede de distribuição de bebidas do país (Antarctica), fazendo que esse produto chegasse o mais rápido possível ao consumidor de forma ostensiva, explorando o potencial de cada região consumidora, conforme suas demandas cervejeiras. O enfoque da cerveja Bavaria era o consumidor. Os planos de investimento em marketing, previstos para o ano de 1999, eram cerca de R$270 milhões, sendo R$170 milhões para cerveja, e destes a maior parte para a cerveja Antarctica e Bavaria. Números e Resultados da Bavaria Há dez anos, o crescimento do mercado de cerveja era de 8% ao ano. Aproveitar as oportunidades de mercado era preciso. Por isso, em agosto de 1997, foi lançada, com investimentos de R$35 milhões em pesquisa, desenvolvimento e marketing, a Bavaria, representando mais de 20% da verba de marketing das cervejas do grupo. O produto, a partir daí, começou a ser colocado no mercado, "a demanda ainda não é alta, pois o mercado não está familiarizado com o produto" (MOREIRA, 1998), justificando, assim, tamanho investimento para a introdução desta marca no mercado. Foi previsto o crescimento na ordem de 1% a 2% ao ano, o que, com estes percentuais, deveria consolidar a Bavaria como segunda marca nacional da Antarctica. Entretanto, o sucesso da cerveja Bavaria foi tão expressivo que no primeiro mês de lançamento, o estado de São Paulo consumiu 10 milhões de litros de Bavaria Pilsen. No segundo mês cerca de 30 milhões. Isto significava que o produto começava a se tornar competitivo e a publicidade estava ajudando o mercado a conhecê-lo melhor. No período entre 15 de agosto e 15 de setembro, foi conquistado 0,3% do mercado nacional e 0,9% das vendas em volume em São Paulo. Devido a tamanha aceitação no mercado paulista, seu lançamento nacional foi antecipado. Três meses após seu lançamento, o produto já detinha 8,4% do mercado do interior de São Paulo, 12,3% de participação na grande São Paulo e cerca de 5% do mercado nacional, um feito nunca antes alcançado no mercado cervejeiro nacional. Entre outubro de 1998 e janeiro de 1999, a Bavaria alcançou o mais alto share do mercado brasileiro: 7,3%. Vale salientar que as características da cerveja Bavaria proporcionavam um custo de produção 11% inferior com relação as demais, garantindo dessa maneira reais possibilidades para essa nova marca competir no mercado. 1999: O Fim do Período de Auge, Os Motivos da Queda e o Anúncio da Fusão Considerada um fenômeno de mercado, a Bavaria desfrutou seu melhor momento no período que foi de outubro de 1998 a janeiro de 1999. Tudo indicava que a fase de crescimento vertiginoso ia ser mantida. Entretanto, ainda no primeiro semestre de 1999, poucos meses antes do anúncio da fusão entre a Brahma e Antarctica, as campanhas publicitárias da Bavaria, contendo quatro campanhas nacionais, com um total de dez filmes, além de dezenas de peças impressas e centenas de materiais promocionais e de pontos de venda, foram suspensas. "Desde então as vendas da cerveja vem caindo continuadamente e embora ainda tenha um índice de lembrança junto ao consumidor de 25%, sua participação bateu 4,4% no bimestre dezembro/99 janeiro/2000 (dados Nielsen) e continua baixando" (PENNA, 2000). Esta inesperada reversão teve várias explicações. A própria empresa "admitiu em meados de 1999, que a Bavaria havia roubado a participação de mercado da Antarctica" (PENNA, 2000), embora isto não fosse considerado prejudicial, posto que o faturamento final ia para o mesmo caixa. Todavia, o gerente geral da Schincariol, Francisco Martins, afirma que a estratégia de apresentar cerveja ao mercado como o produto de preço baixo serviu apenas para transferir consumidores da Antarctica para a Bavaria. Hoje, se for somada a participação das duas cervejas é menor do que a marca dos dois pinguins tinha sozinha antes da "Cerveja dos Amigos" começar a ser vendida. Fontes do mercado, porém, afirmam que os problemas foram de faturamento e não só o apontado pela Antarctica. A Bavaria tinha como uma de suas políticas operacionais ser vendida com preços de 4,5% a 6% inferior ao praticado pela cerveja líder nos locais escolhidos como alvo das ações promocionais. A rigidez dessa margem "teria sido fatal para os resultados de faturamento da Bavaria" (PENNA, 2000). O esgotamento da verba para introdução da marca no mercado, no valor de R$ 30 milhões, foi um outro problema, pois isto terminou sendo um forte fator para a direção da Antarctica optar por desacelerar a força de vendas do produto. Outro problema estratégico, afirmam os analistas, "teria sido manter a Bavaria e a Antarctica debaixo da mesma estrutura de vendas e distribuição, fator que impediu o surgimento de uma competição saudável entre equipes de vendas, estimulando o crescimento das duas marcas ao mesmo tempo" (PENNA, 2000). O anúncio da fusão da Brahma e Antarctica no início do mês de julho de 1999, fez com que a situação da Bavaria ficasse mais crítica, pois as atenções se voltaram completamente para o processo de aliança entre as duas cervejarias. O tempo gasto desde o anúncio da fusão até a resolução de todos os trâmites legais para a provação foi outro fator que agravou a posição da Bavaria. Tanto que, em novembro de 1999, durante o processo de aprovação da fusão, a AmBev esteve disposta a vendê-la a concorrentes ou até mesmo aos trabalhadores, para que a aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) fosse facilitada. Isto sem antes haver o parecer da Secretaria de Defesa Econômica (SDE), que saiu em janeiro de 2000. Atualmente, a posição da AmBev sobre a marca é de ela está oficialmente abandonada, visto que não há previsão de veiculação de publicidade. O Parecer Final da Fusão e o Incerto Futuro da Bavaria No dia 30 de março de 2000, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE, 2000) "aprovou, sem restrições, o ato nos mercados relevantes de águas engarrafadas, refrigerantes carbonatados e outras bebidas não alcoólicas e, sob condições, no mercado de cervejas" a fusão entre Brahma e Antarctica. Entende-se pelo termo 'sem restrições', o fato de haver a perda de um concorrente. Segundo o CADE, a AmBev "caracteriza-se como um ato que limitou a concorrência, sendo, não obstante, legal a sua autorização, em razão das medidas estruturais impostas e das eficiências e benefícios invocados, que, a juízo do Colegiado, preenchem as condições previstas em lei" (CADE, 2000). Para compensar a perda de um concorrente, foram tomadas algumas medidas para viabilizar a entrada de uma nova empresa no mercado, através da venda, a um único comprador, da marca Bavaria, cinco fábricas e o compartilhamento da distribuição. Isto gerou alguns motivos para contestações. "A entrada de um comprador em escala nacional, deverá ser feito por empresa independente, que tenha condições não apenas de manter o negócio em funcionamento, como também potencial para competir em igualdade de condições, no mercado nacional, até o término do prazo de compartilhamento da distribuição, não podendo esta empresa independente deter, na presente data, mais de 5% (cinco por cento) de participação do mercado brasileiro de cerveja" (CADE, 2000). Exclui-se, assim, as chances da Kaiser e da Schincariol comprar a Bavaria, já que elas têm 15% (quinze por cento) e 9% (nove por cento) de participação de mercado, respectivamente. Ambas as empresas contestaram esta medida. O presidente da Kaiser reagiu com declarações de desaprovação na imprensa e ameaças de intervenção judicial, pois, segundo ele, a decisão do CADE não foi baseada em critérios técnicos e que este Conselho não acatou os pareceres das Secretarias de Direito Econômico (SDE) e Acompanhamento Econômico (SEAE), que sugeriram a venda da Brahma, Skol ou Antarctica. A lei não obriga o Conselho a seguir estes pareceres. O gerente geral da Schincariol classificou o parecer do CADE como incoerente. Para ele é equivocado permitir que apenas pequenos fabricantes comprem a Bavaria e pensar que estes irão conseguir através desta compra chegar a 20% (vinte por cento) de participação de mercado. Um detalhe foi esquecido por este gerente: e as grandes companhias de bebidas estrangeiras? Vale ressaltar que elas não têm mais de 5% de participação de mercado, não têm uma boa rede de distribuição e suas presenças no país se dão por meio de representantes. Os contratos que a Anheuser - Busch (Budweiser) e a Miller tinham com a Antarctica e Brahma, respectivamente, foram suspensos ou estão em processos de cancelamento. Outra medida referente ao parecer final do CADE é a que determina a venda de cinco fábricas de cerveja, uma em cada região do país (mercado relevante geográfico para a SDE e o CADE), para que possa ser permitido ao comprador produzir a marca adquirida, mantendo a produção e com possibilidade de crescimento de 12% (doze por cento). Segue abaixo uma tabela com as unidades a serem vendidas: Local Capacidade Instalada (em hectolitros) Getúlio Vargas/RS 607.000 Ribeirão Preto/SP 2.400.000 (500.000 para Chopp e 1.900.000 para Cerveja) Cuiabá/MT 700.000 Camaçari/BA 2.900.000 Manaus/AM 487.000 Fonte: CADE - Parecer Final Caso AmBev. Março, 2000. Propriedade Antarctica Antarctica Brahma Brahma Brahma Estas fábricas deverão estar em perfeito estado de conservação e funcionamento, com capacidade instalada em condições de competir, em relação ao abastecimento, no mercado regional onde esteja localizado; atualizada em nível tecnológico satisfatório, ter funcionários para operar as máquinas e linhas de produção para garrafas retornáveis. O pacote de venda destas fábricas é contestado pela concorrência, que as julgam como obsoletas e fora dos planos tanto da Brahma, quanto da Antarctica. "Não se constrói uma marca com cinco fábricas obsoletas, como as que o CADE propôs que fossem vendidas. Eram fábricas que não interessavam mais nem mesmo à Brahma ou à Antarctica" (PACHECO, 2000: 16/18), palavras de Francisco Martins, gerente geral da Schincariol. A Companhia de Bebidas das Américas (AmBev) "deverá compartilhar sua rede de distribuição com a compradora, assegurando-lhe igualdade de condições em todos os aspectos da distribuição e oferta de seu produto a todos os pontos de venda do mercado nacional de cervejas servidos pela rede de distribuição" (CADE, 2000), dispensando-a do pagamento da comissão de distribuição para os quatro anos do compartilhamento, prorrogáveis por mais dois anos. Essa aparente vantagem de desfrutar da rede de distribuição da AmBev é ilusão, pois só abrange uma única marca, a Bavaria. Para a AmBev não haverá muita diferença, já que a marca própria que era distribuída por ela, agora vai continuar a ser distribuída da mesma forma, entretanto, para um novo dono. Os planos de distribuição permanecerão os mesmos. Para o comprador da Bavaria, se este tiver um portifolio de marcas que não atinja somente esta cerveja, não haverá muita vantagem. Apenas se a intenção for única e exclusiva de ganhar abrangência e alguma participação de mercado com um único produto, ou que esteja faltando ao seu portifolio de bebidas uma cerveja com as características da Bavaria. Qualquer outra marca de cerveja e bebidas deste comprador não poderá usufruir da rede de distribuição da AmBev, aproveitando o acordo do Termo de Compromisso. A distribuição para a gama de produtos anteriormente existentes permanecerá a mesma. A intenção do CADE de viabilizar a entrada de um novo concorrente através desta medida, pelo que foi analisado, não será muito eficiente. As medidas descritas encontram-se no Termo de Compromisso de Desempenho entre CADE e AmBev, que terá a duração de cinco anos. Com relação ao preço estipulado para a venda deste conjunto de ativos (marca, fábricas e compartilhamento da distribuição) é de R$ 500 milhões, entretanto, em setembro de 1999, este conjunto foi avaliado em R$ 2 bilhões. O prazo de venda é de oito meses e se este não for cumprido, a venda será realizada a qualquer preço, por um interventor nomeado pelo CADE, ficando a AmBev sujeita a multas que variam de 5 mil a 100 mil UFIRs. Com um conjunto de resoluções como estas para a venda da Bavaria, fica difícil apontar candidatos para a sua compra. Apenas os grupos estrangeiros estão cotados. Os investimentos seriam altos em comunicação para ressuscitar a marca e trazê-la de volta ao mercado. "Para isso, será preciso investigar quanto de força residual a marca ainda terá quando for vendida. Um exercício que envolve pesquisas, entrevistas de mercado, estudos econômico - financeiros e, principalmente, muito faro" (PENNA, 2000). Baseando-se nesses dados, fica nebulosa e incerta visualização do futuro da marca Bavaria. Considerações Analisando uma marca que tinha excelente potencial de crescimento e permanência no mercado, a primeira pergunta que se faz é: o que realmente houve para que a Bavaria apresentasse um ciclo de vida tão atípico em comparação a outras marcas de cerveja? E o que a organização poderia ter feito para evitar que isso acontecesse? Inicialmente, pode-se afirmar que houve a existência de fatores intangíveis e falhas de planejamento contínuo que atuaram em conjunto para a situação de declínio. Os aspectos positivos intrínsecos na concepção da Bavaria foram: as estratégias de marketing quanto à construção de um eficiente sistema de informações de marketing, o que viabilizou pesquisas de mercado voltadas para um público alvo, o jovem, possibilitando descobrir suas necessidades e desejos; a exploração do mix, aliado a um planejamento de marketing, com referência ao desenvolvimento, introdução e crescimento do produto no mercado. Não há dúvidas que o sucesso alcançado pela Bavaria, na sua introdução no mercado, foi conseqüência do processo de marketing estabelecido pelo grupo Antarctica, através da segmentação do mercado, definição dos consumidores alvo e posicionamento da marca na mente de quem realmente eles queriam atingir. Por outro lado, os aspectos negativos, que aceleraram o declínio da Bavaria, foram: a falta de um planejamento estratégico baseado em cenários, a ausência de sincronia entre planejamento e o controle dos processos durante o início do ciclo de vida da Bavaria, o qual foi agravado pelo anúncio da fusão entre a Brahma e Antarctica e pela decisão do CADE. Para uma organização, delinear um bom planejamento estratégico é fundamental, pois isto servirá como um "processo de desenvolvimento e manutenção de uma referência estratégica entre objetivos e capacidade da empresa e as mudanças de suas oportunidades no mercado" (KOTLER, 1998), sendo necessária a possibilidade de se trabalhar com cenários. Posicionamentos como este, no caso da Bavaria, evitaria, que um produto fundamentado em bem sucedidas pesquisas, desenvolvimento e introdução no mercado chegasse a tal ponto, pois a realidade teria que ser encaixada ou no cenário otimista, ou no pessimista ou naquele em que se trabalharia. Isto ajudaria também a empresa saber como agir em situações como a que aconteceu com a Bavaria. O processo de marketing, que foi responsável por esse tamanho sucesso inicial da Bavaria, não é só feito de segmentação, definição e posicionamento de mercado, mas, sobretudo, de uma cuidadosa mensuração e previsão da demanda atual e futura. Embora a aceitação estivesse acima do planejado, seria crucial ter sido revista a capacidade da empresa diante deste novo momento. O sucesso da cerveja Bavaria contou com um volumoso aporte financeiro, para que esse produto se posicionasse no mercado nacional. Esse suporte não foi compatível com a demanda real e os recursos financeiros disponíveis. Isto fez com que as campanhas publicitárias fossem suspensas antes da previsão inicial, devido ao esgotamento das verbas de introdução do produto no mercado, iniciando-se, assim, o declínio da Bavaria. Não houve nenhuma atitude quanto a redução da demanda de forma temporária (de marketing), visando o equacionamento das visões financeira, da produção e de marketing sobre o caso, a fim de que os objetivos da Antarctica com relação a Bavaria fossem alcançados. Ficou bastante claro que uma das restrições percebidas foi de ordem financeira. A fusão entre a Brahma e Antarctica, anunciada em 1º de julho de 1999, absorveu todas as atenções do grupo Antarctica para esta nova variável, levando-se em consideração que esse foi o acontecimento mais importante da história da cervejaria nacional, inclusive com repercussões internacionais. Este evento, colocou em segundo plano, os projetos de cada grupo separadamente, principalmente os da Antarctica. A decisão do CADE com relação à AmBev, foi o "tiro de misericórdia" para a cerveja Bavaria, pois estabeleceu obrigações a serem cumpridas, em um prazo de oito meses a contar de março de 2000. E dentre este conjunto de medidas estão a venda da marca Bavaria, de cinco fábricas e o compartilhamento da distribuição, o que gerou sérios questionamentos. Quando se restringe a 5% de participação de mercado a compra da Bavaria, exclui-se potenciais compradores nacionais, possibilitando a manifestação de interessados estrangeiros. Mesmo para estes, será que haveria interesse em um negócio que, dentre os ativos envolvidos, está uma marca decadente e o compartilhamento da distribuição apenas para ela? Não seria mais atrativo disponibilizar a marca Bavaria e mais uma marca de cerveja da compradora para utilizar a rede de distribuição da AmBev e assim permitir de fato a entrada de um novo concorrente? Como reverter, diante deste quadro, a situação da Bavaria, que um dia foi um produto altamente promissor e hoje se encontra em declínio? Deve-se salientar que o grande problema da entrada de uma cervejaria estrangeira no país é a distribuição. E a AmBev conta com 770 distribuidores, atendendo 6072 municípios. Baseado nisto, as chances de se prevê algo digno para este ex - produto promissor são cada vez mais complicadas e nebulosas, piorando a medida em que o prazo legal para sua venda vai diminuindo. Duas alternativas para que a Bavaria não se tornasse um ex - produto promissor seriam: a colocação de uma marca da empresa compradora, junto com esta marca para usar a rede de distribuição da AmBev; estabelecimento de metas anuais para a construção de uma rede de distribuição independente pela compradora, para que ao final de quatro anos a Bavaria pudesse recuperar a sua participação de mercado e manter-se, posteriormente, através desta rede. Estas duas medidas já evitariam que o futuro da Bavaria chegasse a previsões tão pessimistas, até mesmo com a possibilidade de desaparecimento da marca. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS MOREIRA, Daniel Augusto. Administração da Produção e Operações. São Paulo, Pioneira, 1998. KOTLER, Philip & ARMSTRONG, Gary. Princípios de Marketing. Rio de Janeiro, Prentice-Hall do Brasil, 1998. MATTAR, Fauze Najib. Pesquisa de Marketing. São Paulo, Atlas, 1997. PENNA, Maysa. . Valor da Bavária é problema para a AmBev. Gazeta Mercantil, 17/4/2000, p. C 1, caderno C. CONSELHO ADMINISTRATIVO DE DEFESA ECONÔMICA. Decisão do CADE Caso AmBev. [online] Disponível na Internet via WWW. URL: http://www.mj.gov.br/cade.27/03/2000. Diálogos em sala de aula CIDADANIA NA UNIVERSIDADE: UM EXERCÍCIO CONSTANTE* Willys de Andrade Santos** Como aluno do curso de Administração de Empresas com Habilitação em Comércio Exterior da UNIFACS, fui apresentado a vários conceitos no estudo da sociologia e do direito, dentre os quais, os que mais me chamaram a atenção foram: universidade, organização, instituição social e cidadania. Em decorrência do estudo, análise e conversas com professores das referidas matérias sobre tais conceitos, surgiram questionamentos da minha parte em relação à definição dos mesmos, e o que de fato acontece com o aluno recém-chegado à universidade. Dentre os autores que tivemos como referência, a escolha recai sobre Marilena Chaui e Norberto Bobbio. De acordo com Marilena Chaui, a universidade pode ser considerada uma instituição social, onde a "prática social fundada no reconhecimento público de sua legitimidade e de suas atribuições, num princípio de diferenciação, que lhe confere autonomia perante outras instituições sociais, e estruturada por ordenamentos, regras, normas e valores de reconhecimento e legitimidade internos a ela. A legitimidade da universidade moderna fundou-se na conquista da idéia de autonomia do saber diante da religião e do Estado, portanto na idéia de um conhecimento guiado por sua própria lógica, por necessidades imanentes a ele, tanto do ponto de vista de sua invenção ou descoberta como de sua transmissão. Por isso mesmo, a universidade européia tornou-se inseparável das idéias de formação, reflexão, criação e crítica. Com as lutas sociais e políticas dos últimos séculos, com a conquista da educação e da cultura como direitos, a universidade tornou-se também uma instituição social inseparável da idéia de democracia e de democratização do saber; seja para realizar essa idéia, seja para opor-se a ela, a instituição universitária não pôde furtar-se à referência à democracia como idéia reguladora, nem pôde furtar-se à responder, afirmativa ou negativamente, ao ideal socialista.” Neste sentido, sendo uma ação social, isso significa que a universidade deve ter práticas voltadas para a sociedade, não só internamente como a formação de profissionais como também externamente com programas de extensão de ensino e pesquisa. Significa também que é flexível no que diz respeito ao saber e não se distancia da realidade, analisando-a e estimulando os alunos para a busca de soluções de problemas sociais, usando o próprio saber e o que a universidade lhe confere em termos de formação profissional. É interessante perceber como Chaui diferencia claramente os termos ‘instituição social’ e ‘organização’ quando diz que a universidade é uma ‘instituição social’, conforme descreve acima e não uma organização. Em sua compreensão, uma organização difere de uma instituição por definir-se por uma outra prática social: "a de sua instrumentalidade: está referida ao conjunto de meios particulares para obtenção de um objetivo particular.(...) É regida pelas idéias de gestão, planejamento, previsão, controle e êxito. Não lhe compete discutir ou questionar sua própria existência, sua função, seu lugar no interior da luta de classes, pois isso, que para a instituição social universitária é crucial, é, para a organização, um dado de fato.(...) Em outras palavras, a instituição se percebe inserida na * Texto apresentado a partir de diálogos com o Prof. Luiz Carlos Café na disciplina Ética e Filosofia. Aluno do 3º ano do curso de Administração de empresas com Habilitação em Comércio Exterior da UNIFACS. Integrante do Núcleo de Estudos Sociais (CORDIS/UNIFACS). ** divisão social e política e busca definir uma universalidade (ou imaginária ou desejável) que lhe permita responder às contradições impostas pela divisão. Ao contrário, a organização pretende gerir seu espaço e tempo particulares aceitando como dado bruto sua inserção num dos pólos da divisão social, e seu alvo não é responder às contradições, e sim vencer a competição com seus supostos iguais". Ao tomar conhecimento de que, conforme acima citado, a universidade é uma instituição social, isto é, percebe-se inserida na divisão social e política, e não como uma organização, que pretende gerir seu espaço e tempo particulares, vi a necessidade de uma análise da sua função, do contexto que a envolve, e do perfil de quem a freqüenta, o aluno, por achar que seu real sentido não esteja sendo compreendido e respeitado. Antes, porém, torna-se necessário esclarecer o termo cidadania, que segundo Norberto Bobbio: “São Direitos que consagram as vitórias do cidadão sobre o poder que podem ser classificados em civis, políticos e sociais. Os primeiros são aqueles que dizem respeito à personalidade do indivíduo (liberdade pessoal, de pensamento, de religião, de reunião e liberdade econômica), através da qual é garantida a ele uma esfera de arbítrio e de liceidade, desde que seu comportamento não viole o direito dos outros. Os direitos civis obrigam o estado a uma atitude de não impedimento, a uma abstenção. Os direitos políticos (liberdade de associação nos partidos, direitos eleitorais) estão ligados à formação do Estado democrático representativo e implicam uma liberdade ativa, uma participação dos cidadãos na determinação dos objetivos políticos do estado. Os direitos sociais ( direito ao trabalho, à assistência, ao estudo, à tutela da saúde, liberdade da miséria e do medo), maturados pelas novas exigências da sociedade industrial, implicam, por seu lado, um comportamento ativo por parte do estado ao garantir aos cidadãos uma situação de certeza.” Se analisarmos os dois conceitos, veremos que eles caminham paralelamente seguindo uma orientação única que é a democracia. De um lado está uma instituição de ensino superior independente e com autonomia de poder diante da religião e do Estado, inseparável da idéia de democracia e da democratização do saber onde a reflexão, criação e crítica são fundamentais, e do outro uma distinção categórica de direitos diversos conferidos aos cidadãos, com o objetivo básico de protegê-lo. Direitos esses que supostamente são garantidos pelo estado. É possível perceber que ambos os conceitos convergem para um mesmo ponto que é a democracia. Em nossa história podemos considerar que o ápice do exercício pleno desses dois conceitos foi no período que antecedeu a ditadura. Isso pode ser comprovado pela postura do estudante daquela época em relação aos seus direitos, posição política e principalmente a idéia de que através do conhecimento podia-se provocar transformações sociais. Era uma geração estudantil politizada e consciente da necessidade de democracia. Esse pensamento coletivo levou vários estudantes a participar de manifestações políticas contra a ditadura, onde muitos deles acabaram mortos. As universidades eram vigiadas a fim de se sufocar qualquer movimento que nelas começasse. Direitos civis e políticos foram desrespeitados com a castração da liberdade de expressão e associação a partidos de esquerda. Analisando o aluno que hoje, após o restabelecimento da democracia, entra na universidade pode-se notar que existe um certo desconhecimento em relação ao que é a universidade, o seu propósito, que postura espera-se dele enquanto aluno e seus direitos e uma certa apatia em relação a sua posição política e a sociedade. Talvez pelo próprio contexto onde se encontra, que é o processo de mudança não só provocado pelas exigências do mercado e da sociedade como também do segundo para o terceiro grau. O que isso quer dizer? A transição da escola de segundo grau para a universidade pode ser suave e natural para alguns mas árdua e, às vezes, até traumatizante para outros. O aluno recém-chegado à universidade é forçado a encarar diversos desafios tanto de ordem educacional quanto psicológica. É obrigado adquirir novas posturas, diferentes da que tinha na Escola Secundária. Vê-se, algumas vezes, perdido na cultura do individualismo à qual não está acostumado. É obrigado a tomar decisões todos os dias. E o pior de tudo; muitas vezes se encontra perdido mesmo dentro do curso por ter sido obrigado a fazer uma opção profissional muito cedo, sem ter certeza se é aquilo que queria e até mesmo se desejava estar na universidade. Tendo que enfrentar tantas barreiras que começam no primeiro ano e muitas vezes se arrastam pelos outros tornando a estada na universidade uma obrigação e não um prazer, os reflexos desse fato são claros na sala de aula como: desinteresse, indisciplina, incapacidade de adequação às novas normas, resistência, entre outros. Apesar disso, talvez o maior problema seja o fato de não saberem o que é, e, qual o objetivo da universidade. Essa é uma questão básica para a aquisição de uma nova postura e novas expectativas em relação ao aprendizado bem como para a conscientização de seus direitos. Apesar de todos esses problemas enfrentados pelo aluno, acredito ser possível uma conscientização, ainda que lenta mas gradual, de sua postura em relação ao ensino superior bem como estimulá-lo à prática de sua cidadania. É um exercício baseado na formação de idéias, reflexão, criação e crítica sobretudo a respeito do que for discutido, debatido ou pesquisado na sala de aula, bem como de que forma o conteúdo assimilado possa situá-lo na sua carreira profissional e no mercado de trabalho. Acho necessário uma motivação ao aluno para que sejam evidenciados valores, crenças, posições políticas e idéias com o objetivo final do saber democratizado e independente de qualquer poder. A universidade não pode ser vista apenas como uma forma de ascensão ou status social, pois sua relevância enquanto instituição transcende tais limitações. O momento político atual requer uma reflexão sobre as ciências sociais e a universidade tem papel fundamental na formação de mentes questionadoras para que sua atuação enquanto instituição social seja plena. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOBBIO, Norberto. Dicionário de política. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1997. CHAUI, Marilena. A universidade operacional. Folha de São Paulo, 27/05/1999, c. MAIS, p. 5-3. NORMAS PARA PUBLICAÇÃO Os textos devem ser encaminhados para a Comissão Editorial. A aprovação e revisão dos textos são de responsabilidade dos autores e professores/ orientadores (em caso de produção estudantil), assim como da própria Comissão Editorial. A entrega do material para seleção é em disquete 3,5’’, utilizando o editor de textos WORD for WINDOWS, em fonte Times New Roman, acompanhados de cópia impressa e da ficha de cadastramento (ver anexo). Tamanho da Fonte: título 14 Sub-itens 12 corpo do texto 12 Rodapé 10 Memorial 10 Prof.Orientador 12 Resumo/Abstract 10 Epígrafe 10 Espaçamento: Texto entre linhas 1,5 Resumo e abstract simples Notas de Rodapé simples Margens: superior 3; inferior 2,5; direita 2,5 e esquerda 3. Numeração de Páginas: não incluir Os números de páginas (padrão: 30 linhas e até 70 toques) para cada tipo de trabalho são os seguintes: Resenhas – 2 a 3 páginas Artigos – 10 a 15 páginas Ensaios e Iniciação Científica – 5 a 10 páginas Traduções – até 15 páginas Diálogos em Sala de Aula – 5 a 8 páginas Os textos deverão ser encaminhados contendo abaixo do título do trabalho (fonte 14), as seguintes informações: nome do autor com nota de rodapé, contendo um breve memorial (fonte 10) e corpo do texto (fonte 12). Deve constar ainda de um RESUMO/ABSTRACT (versões em português e inglês), com no máximo 10 linhas, além de Palavras-Chave (4 ou 5 palavras). 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