i UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO INSTITUTO DE LINGUAGENS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DE CULTURA CONTEMPORÂNEA FERNANDO BIRELLO DE LIMA ARQUITETURA ESCOLAR E DEMOCRACIA: DA DISCIPLINA AO MARKETING Cuiabá 4 de Abril de 2012 ii MESTRADO EM ESTUDOS DE CULTURA CONTEMPORÂNEA ÁREA: ESTUDOS INTERDISCIPLINARES DE CULTURA LINHA DE PESQUISA: COMUNICAÇÃO E MEDIAÇÕES CULTURAIS FERNANDO BIRELLO DE LIMA ARQUITETURA ESCOLAR E DEMOCRACIA: DA DISCIPLINA AO MARKETING Dissertação apresentada ao programa de pósgraduação em Estudos de Cultura Contemporânea da Universidade Federal de Mato Grosso como requisito pra obtenção a obtenção do título de Mestre em Estudos de Cultura Contemporânea na Área de Concentração Estudos Interdisciplinares de Cultura, Linha de Pesquisa Comunicação e Mediações Culturais. Orientadora: Profª. Postdoc Ludmila de Lima Brandão. Cuiabá 4 de Abril de 2012 iii Birello de Lima, Fernando Arquitetura Escolar e Democracia: da disciplina ao marketing / Fernando Birello de Lima. - - Cuiabá: UFMT / ECCO, 2012. vii, 141p. : il. ; 31 cm. Orientadora: Ludmila de Lima Brandão. Dissertação (mestrado) – UFMT, IL, Programa de Pósgraduação em Estudos de Cultura Contemporânea, 2012. Referências bibliográficas: f. 107-111 1. Arquitetura Escolar. 2. Democracia. 3. Comunicação Social. 4. Estudos Interdisciplinares de Cultura - Dissertação. I. Brandão, Ludmila de Lima. II.Universidade Federal de Mato Grosso, Instituo de Linguagens, ECCO. III. Título. iv _______________________________________________________ Prof. Drª. Judite Gonçalves de Albuquerque Examinador Externo (Mestrado em Lingüística/UNEMAT) ___________________________________________________________ Prof. Drª. Icléia Rodrigues de Lima e Gomes Examinador Interno (ECCO/UFMT) ___________________________________________________________ Prof. Postdoc.Ludmila de Lima Brandão Orientador (ECCO/UFMT) Cuiabá, 04 de Abril de 2012 v Dedico essa Dissertação, em primeiro lugar, à Vanda Micheli Burginski, a qual, no tempo em que nos amamos, sempre acreditou em minha capacidade de desenvolvê-la, sendo ela minha primeira orientadora científica e vocacional. Obrigado Micheli, se eu detenho uma mínima idéia do que fazer da minha vida, devo isso somente a você. Dedico também esse esforço científico a todos os educadores e professores desse país, que se esforçam inimaginavelmente todos os dias de suas vidas pelo que é bom, justo e melhor pro mundo. vi Agradecimentos Se a orientação laica da academia evita, mas não proíbe, falar de Deus, então tomo emprestado o raciocínio de Aristóteles e agradeço, em primeiro lugar ao Demiurgo, imagem detentora de toda as minhas aflições e susceptibilidades, na qual deposito a sorte de minha existência insignificante, porém miraculosa e iluminada, nos descaminhos desse universo. Sou sempre muito grato à minha família por incentivar, mesmo não entendendo o porquê, meu ingresso no mestrado, e de seu apoio incondicional nos momentos difíceis que sucederam-se enquanto realizava essa pesquisa. Como bem se sabe, um sem-número de vezes agradeço e agradecerei à minha orientadora, Ludmila, que acabou acompanhando esse calvário científico mais do que precisaria, e merecia, sempre disposta, incisiva e sem perder a ternura. Meu agradecimento especial às professoras Judite e Icléia, que, quando da minha Qualificação, foram de extremo cuidado e incentivo para a devida finalização dessa pesquisa. Sou muito grato aos meus amigos e colegas, professores, arquitetos e professores de arquitetura, que foram de imensa contribuição para o preciso foco dessa pesquisa, principalmente Manoel Pérez, Luiz Cláudio Bassan, Iberê Borges Rondon, André Takyia, Wanderley Ariza, Alexandre Delijaicov e George de Guia. Agradeço ao companheiro de lutas Fran Frassetto, do SINTEP, por me encaminhar a grandes educadores da região, os quais foram imprescindíveis para entender a política por trás das urgências educacionais brasileiras. Aos professores do Mestrado em Educação da UFMT, Nicanor Palhares Sá e ao camarada Manoel Motta, que deram o suporte devido da área a fundamentação da pesquisa, e ainda me autorizaram a cursar uma disciplina em seu programa de pós-graduação. A todos os amigos que fiz nesses tortuosos anos de Pós-graduação, principlamente Juan Felipe Sanches de Mederos (se acabó, vamonós dançar salsa!), Thaís D’Castro, Gibran, Paulo Sesar, Celsinho, Yugi Ghushiken, Marli e Marli Barbosa, Cris Almeida, Luzo meu velho, Dom Uguccioni, Daniel, Mayra, Marília, Jan Deivid, Aliana, Rodolfinho, Inara, Piá Falchetti, Augusto Figliaggi... enfim, a alcatéia é grande e generosa. Por último, agradeço aos meus alunos, que por simplesmente existirem fazem com que eu sempre procure fazer o meu melhor enquanto professor, mesmo por vezes errando e me desencontrando. Ao final das contas, quem há de se aproveitar melhor dessa pesquisa são justamente eles. vii “...veja-se, pois, em que círculo vicioso se meteu a Nação. Improvisa escolas de todo jeito porque não acredita em escolas senão como formalidade social e, para preencher formalidade, de nada mais se precisa do que funcionários que conheçam as fórmulas – e porque só tem escolas improvisadas e inadequadas não acredita que escolas possam ser as formadoras eficientes de uma ordem social. (...) ouve falar em todo o progresso ocidental dos últimos duzentos anos, sobrelevando espetacularmente o dos Estados Unidos, filho todo ele da ciência e das escolas; ouve falar que a Rússia se transformou em vinte anos e para isso fez da escola um instrumento de poder incalculável; mas tudo isso lhe parece longe ou remoto. Em volta de si, vê escolas improvisadas ou desorganizadas, sem vigor nem seriedade, alinhavando programas e distribuindo, de qualquer modo, diplomas mais ou menos honríficos. Como acreditar em escolas? Tem razão o povo brasileiro.” (trecho do discurso de Anísio Teixeira, quando da inauguração do Centro Educacional Carneiro Ribeiro, na cidade de Salvador, em 1950.) viii Resumo O que aconteceu com arquitetura escolar? No Aglomerado Urbano Cuiabá-Várzea Grande, a partir da Redemocratização brasileira, em 1985, o alarde (ou marketing negativo) da classe média de que o Brasil não investe na educação e que, por isso, as escolas públicas são todas ruins, feias, inadequadas, apóia-se na imagem de que alguns modelos arquitetônicos do passado republicano (de governos conservadores e ditatoriais) se sustentam historicamente sobre a ação institucional do Estado e da Sociedade, de uma maneira geral, graças à sua sobrevivência material e comunicacional, comparada a algumas experiências de gestões políticas e seus artefatos arquitetônicos deste período político recente. Essa pesquisa pretende identificar os plurais, múltiplos e complexos métodos, ideologias e práxis políticas prescritores de certas arquiteturas, e como essas arquiteturas conseguem nos iconografar e comunicar seu concernente momento histórico-político. Palavras-chave: Arquitetura Escolar, Democracia e Comunicação Social Resumée Qu’est s’arrivé avec l’architecture écolier? En l’Agglomération Urbaine du Cuiabá-Várzea Grande, en partir de la redemocratisation brésilienne, en 1985, le rumeur (ou le marketing negative) de la classe moyenne, dans lequel le Brésil ne pas investe en l’éducation et que, par conséquece, les écoles publiques sont tous en mauvais état, laides, gauches, se support en l’image que certains modeles architetoniques du passé républicain (de gouvernements conservateurs et dictatoriaux) se soutiant historiquement sur l’action institutional de l’Était et de la Société, du manière general, grace à sa materiel e communicational survivance, comparée à des experiences de politiques gestions e leurs artifacts architectoniques de cette période de politique récente. Cette recherche vise à identifier les plurieles, multiples et complexes méthodes, idéologies et praxis politiques prescripteurs du certaines architectures, et comment ces architectures peuvent nous marquer iconiquement e communiquer son concernant moment historique. Mots-clés: L’Architecture ecolier, Democracie et Communication Sociale ix Sumário Introdução..................................................................................................................................x CAPÍTULO 1: A práxis arquitetônica pela comunicação social..........................................1 1. A arquitetura: pelo espírito de seu tempo, não um fim em si mesma..............................2 2. A comunicação pela forma arquitetônica: Do índice ao signo, dos fatos às ideologias..6 3. Prescrição à arquitetura: disciplinando, enquanto “comunicação de massa”..............11 CAPÍTULO 2: História da arquitetura escolar em Cuiabá: na república, arquiteturas heróicas para estados de exceção...........................................................................................19 1. Arquiteturas Heróicas de Estado: memórias autocráticas na Escola brasileira...........20 2. A Arquitetura do Estado Novo – a Invenção do Brasil...................................................21 3. A Arquitetura da Ditadura pós 1964 – pra perder a ternura.........................................23 4. Estudo de casos....................................................................................................................25 4.1. Grupos Escolares na cidade de Cuiabá na 1ª República: uma renovação programática e espacial..........................................................................................................25 4.1.1. Grupo Escolar do 1º Distrito (Escola Modelo Barão de Melgaço)...........................26 4.1.2. Grupo Escolar do 2º Distrito (Escola Senador Azeredo)...........................................28 4.2. Escola Estadual Liceu Cuiabano....................................................................................30 4.3. Escola Estadual Nilo Povoas...........................................................................................32 4.4. Escola Estadual Presidente Médici.................................................................................34 5. O fascínio pela força ou pela imagem de força.................................................................37 CAPÍTULO 3: Nos primeiros anos de redemocratização, escolas particulares alternativas como produto arquitetônico de urgência da classe média.............................39 1. O desafio da autonomia da gestão escolar no Brasil com a redemocratização, nos anos 1980...........................................................................................................................................40 2. O cidadãos-consumidores: a mobilização de parte da classe média nos anos de globalização..............................................................................................................................42 3. A arquitetura como elemento cultural multimidiático: a embalagem de suporte em processos interativos na veiculação de uma propaganda pedagógica................................47 4. A adaptação do modelo arquitetônico disciplinar junto à sociedade de controle.........49 5. Descrição de casos...............................................................................................................52 5.1. Escola Livre Porto Cuiabá..............................................................................................52 5.2. Centro Educacional Plural..............................................................................................55 6. Urgências e emergências: arquiteturas em adaptação....................................................57 CAPÍTULO 4: Os percalços de uma arquitetura escolar pública que dialogue com a condição de redemocratização...............................................................................................59 1. Democracia e Cidadania no Brasil – uma construção histórica e recente.....................60 1.1. Da Constituição do Estado de Mato Grosso..................................................................60 2. Redemocratização: experiências de descentralização da gestão escolar........................61 3. A demanda de vagas vence a demanda de espaços para as escolas................................67 4. Descrição de casos..............................................................................................................73 4.1 CAIC do bairro Jardim Alá – Várzea Grande...............................................................74 4.2 Escola Estadual Adalgisa de Barros................................................................................77 4.3 Escola Municipal Oscar da Costa Ribeiro (2000-2004).................................................80 4.4. Como o projeto Nova Escola se tornou a Escola Atrativa (2002-2006).......................82 x 5. Diálogos restritivos e monólogos de autopromoção : quanto maior a abrangência executiva, mais e maiores produtos arquitetônicos maquiados..........................................89 CAPÍTULO 5: Quadro diádico comparativo para análise e interpretação de casos.......90 1. Da Análise e da Interpretação............................................................................................91 2. A percepção dos sujeitos.....................................................................................................92 3. A visão e impressão de outrem – interpretações..............................................................96 3.1. Gestor político..................................................................................................................96 3.2. Educador.........................................................................................................................101 4. A visão e opinião do arquiteto – interpretações.............................................................102 5. Considerações finais - Arquiteturas heróicas ou arquiteturas honestas?....................104 BIBLIOGRAFIA...................................................................................................................107 ANEXOS................................................................................................................................112 ANEXO I – Da Constituição do Estado de Mato Grosso..................................................113 ANEXO II – Figuras dos objetos de pesquisa....................................................................115 xi Introdução 1. Origem do problema O que aconteceu com a arquitetura escolar? A arquitetura do período recente de redemocratização personifica uma mudança política, comparando-a com a arquitetura escolar de períodos de exceção e conservadores? A origem desse trabalho está ligada diretamente aos questionamentos não solucionados, quando da graduação deste autor em Arquitetura e Urbanismo, no ano de 2001: Porque achamos certos prédios e espaços mais bonitos, mais interessantes, que outros? Por que então, nesse sentido, nos chega a idéia coletiva de que toda, ou a maioria das escolas públicas contemporâneas, aparentemente não são, ou nunca serão tão bonitas e atraentes quanto as escolas particulares ou as outras escolas públicas consagradas no passado republicano de Mato Grosso? À época, o tema do Trabalho Final foi: Identificação do Espaço escolar: por uma linguagem arquitetônica, ficando o aprofundamento deste apenas no projeto de intervenção arquitetônica para um centro de ensino fundamental e médio, privilegiando as soluções estritamente tecnológicas da arquitetura. Nessa época passada, ouvia-se pelos cantos da faculdade, e pelos poucos professores afins de áreas de artes, que existia uma tal de Linguagem da Arquitetura, ou que, no caminhar do curso, muitos se tornariam arquitetos, mas poucos se tornariam artistas. Em contrapartida, os professores das disciplinas de Projeto de Arquitetura, privilegiavam, em primeira instância, sempre a tríade Programa de necessidades – Função edificacional – excelência da Técnica construtiva. Arte? Linguagem? Estética Arquitetônica? Para grande parte desses professores, isso era capricho de profissionais excêntricos, como muito diziam ser, por exemplo, Oscar Niemeyer. Ora, se essas discussões não fossem pertinentes, então não se acometeria qualquer curiosidade sobre essas temáticas, e se sabe que ela, a curiosidade, é a mãe de todas as ciências. É fato que, mesmo arquitetos inexperientes conseguiam e conseguem entender que, como bem lembra, Paul Valery1, “a maioria dos edifícios nada nos diz, e deles nada entendemos. Mas existe uma certa parte deles que conseguem falar-nos, desde frases, até poesias. Ainda mais, existe uma pequena parcela destes que, mais do que dotados de palavras, frases ou poesias, nos cantam.” 1 Em Eupalinos ou O arquiteto, Trad. Olga Reggiani, Editora 34, São Paulo, 2006. xii Nesse sentido, o contato desse autor com discussões contemporâneas da Arquitetura2 fez entender que, o que podem ou não transmitir certas edificações, através da experiência de sua Arquitetura e linguagem Arquitetônica, em suas ênfases e desatenções, está, ou deveria estar, essencialmente relacionado com a função social e histórica (economia e política – as quais são sempre amplas e plurais) com a qual são ou serão comprometidos tais espaços. Mesmo genericamente, enquanto homem-massa, dentro de uma heterogeneidade da paisagem urbana, pensa-se ser possível estabelecer uma relação de predicação, como diria FERRARA3, pelo juízo próprio (preferencialmente pessoal), que possivelmente se retrate ao inconsciente particular do universo da vida privada sobre o que atrai o ser humano, constituindo índices de qualificação ambiental, onde se classificam certos modelos específicos de edificações como, a priori, melhores ou piores, em que o interlocutor (ou interlocutores), muitas vezes, o faz inconscientemente. Uma vez que um desses interlocutores em questão é o autor deste trabalho, profissional e docente da Arquitetura, se tem as suas próprias e particulares preposições como o ponto de partida para o desenvolvimento das propostas de problema a serem investigadas por essa dissertação, e que a partir daí, se irá de encontro à realidade, com a constituição de outras vozes políticas e estruturais da sociedade, que correspondem diretamente às demandas econômico-sociais dessa realidade (o Aglomerado Urbano Cuiabá-Várzea Grande), suposto objeto de prescrição de uma arquitetura. 2. Proposição e delimitação do problema Admitindo-se que a construção dos sentidos da arquitetura não poderá nunca ser exclusivamente condicionada ao interlocutor central em questão (o arquiteto), enquanto uma constituição real de demanda – da concepção de espaços para centros de ensino – pode-se instituir uma tríade vetorial a partir de segmentos da sociedade civil que, à primeira vista, se complementaria, e possibilitaria a idealização, a gestão, e a concepção dos espaços arquitetônicos para centros de ensino. Essa tríade, que guiará os apontamentos dessa pesquisa, seria formada pelas ações do educador (o que idealiza o local de prática de ensino, pautandose em seus sinais sociais e reais), do gestor (tanto o público quanto o da iniciativa privada, que administra recursos para construção, manutenção e funcionamento dos centros e da 2 Mais especificamente refire-se a obra A estrutura ausente, do semiólogo italiano Humberto Eco, que em parte desta trata de observações semilógicas da Arquitetura sobre um olhar mais fenomenológico. (São Paulo: Perspectiva, 1971). 3 FERRARA, Lucrecia D’Alésio. Olhar periférico. Edusp-Fapesp, São Paulo, 1999. xiii aplicação da lei e de outras demandas possíveis), e o do arquiteto-construtor (que concebe, viabiliza, e concretiza o espaço, em função das demandas anteriores). Fig. 1: Triângulo semiótico que demonstra a tríade vetorial pilar dessa pesquisa; Fonte: Do autorr. Todavia, independente da observação pragmática acerca dessa tríade vetorial, sabe-se que, dentro da realidade das sociedades, através das fases de sua história política, a maneira como funciona essa tríade está sempre em constante mudança, principalmente, com a recente (cerca de – apenas – 200 anos) formação das Repúblicas modernas, e de suas constituições estruturalmente – e teoricamente – democráticas. Considerando a posição estratégica institucional dos centros de ensino na sociedade enquanto prática comunicacional, sobreposta à prática de sociabilização e controle das populações pergunta-se: como cada competência descrita na tríade vetorial faz funcionar as interlocuções, ora mais profundas e particulares, ora um tanto superficiais e irrestritas, quando da concepção arquitetônica de centros de ensino? Faz-se necessária a atribuição de valores teóricos da Comunicação Social justamente por entender-se que, sendo qual for o constructo humano, se é dotado de linguagem, comunica. Por este fim, teríamos, na linguagem (ou linguagens) arquitetônica de centros de ensino, o principal recorte analítico e interpretativo que nos ajudaria a entender a relação (ou relações) comunicacional (is) que estabelece com sua sociedade, enquanto possível cristalização de um espírito de seu tempo (zeitgeist), independente da coexistência de sinais sincrônicos ou diacrônicos (e até anacrônicos), na realidade concreta do espaço arquitetônico. Como a discussão deste trabalho provém, em parte, de um momento histórico recente, optou-se por desenvolver a análise e interpretação de casos escolhidos a partir de investigações preliminares desta pesquisa, referentes ao arco histórico de 1985-2010, justamente quando o Brasil volta a ser uma Democracia – portanto, como diria FERRARA, tornando-se uma estrutura social mais complexa e comunicativa –, entre modelos particulares (que se dispõem como soluções alternativas e humanistas aos polêmicos centros de ensino xiv pré-vestibulares) e públicos (que aparentemente procuram demonstrar a generosidade e magnanimidade de seus gestores – ou seja, populismo), ao mesmo tempo em que se procurará entender por que ainda existem modelos arquitetônicos notáveis em sua espacialidade e uso, que mesmo referentes a períodos políticos de exceção e/ou conservadores, continuam a envergar sentimentos de apropriação histórico-social sobre a população e a paisagem urbana do Aglomerado Urbano Cuiabá-Várzea Grande . À maneira de como possam comunicar, por conta de seus jogos de linguagem arquitetônica, pretende-se ainda dar um aprofundamento analítico da influência do marketing em dois casos estudados (Centro Educacional Plural e as Escolas Atrativas do governo estadual), os quais apresentam desdobramentos curiosos na arquitetura em quanto “tentação do marketing”, donde o advento da imagem enquanto advento do marketing na arquitetura escolar (escola como produto privado ou político) possibilita à Arquitetura ser consumida como embalagem. 3. Importância da pesquisa Através de suas fruições possíveis tanto por suas ênfases, quanto por sua desatenção, que ela não é uma ação em si mesma, mas conseqüente a outras discussões políticas, intelectuais e sociais de uma sociedade, entende-se a arquitetura sendo analisada e interpretada sobre a ação de uma interlocução plural, contraditória até, onde, pode-se encontrar novas, arejadas e criativas maneiras de constituir seu olhar, pensamento e ação na realidade. A princípio, da maneira como se procura desassociar o ensino de arquitetura de uma postura radicalmente questionadora e curiosa, criativa até, subdesenvolvem-se naturalmente ações de intervenção espacial que pode resultar em simples retórica arquitetônica, esta submetendo grande parte das edificações do mundo contemporâneo. Esta pesquisa preocupa-se em reforçar a imagem de que é possível a um arquiteto desenvolver pesquisa acadêmica, discursiva e teórica, sem abrir mão de suas atribuições profissionais e práticas. A arquitetura é também uma ciência e assim deve ser encarada, não excluindo o arquiteto da natural participação e atuação no mercado de trabalho, onde, divulgase, não haver espaço para a voz da curiosidade, pré-condenando o profissional a um suposto ostracismo atribuído a uma vida acadêmica. Buscar a identificação e entendimento sobre essas variáveis sociais que prescrevem funções à arquitetura não é fácil, tampouco sistemático. Justamente por isso, o desdobramento da fundamentação teórica sobre outras áreas de discussão e conhecimento tornou-se uma xv tarefa laboriosa para o autor desta pesquisa, justamente por não ter acesso a um conhecimento mais plural dentro de seu ambiente de graduação. Esta pesquisa demonstra que, ao desenvolver estudos interdisciplinares, constitui-se, por fim, no verdadeiro farol científico para a formação de um bom arquiteto. Quanto à contingência e abrangência da pesquisa, pôde-se apenas focalizar em modelos que se destacaram por suas especificidades arquitetônicas, o que desprivilegiou a análise de casos mais comuns, considerados esteticamente e funcionalmente pobres, que realmente existem contingencialmente em todo o Aglomerado Urbano, onde sequer se poderia reconhecer a existência da tríade metodológica dessa pesquisa, tamanha a aparente ineficiência do artefato arquitetônico. Fica a proposta para novas pesquisas e intervenções, a partir dessa pesquisa inaugural. 4. Organização do trabalho Na construção da Dissertação, se faz necessário identificar certas atribuições metodológicas que constituirão a noção de como a tríade vetorial (emissor: educador-gestorarquiteto) interage entre si para ir de encontro às massas e/ou público (receptor). Como a pesquisa tratará de modelos que se destacam por suas especificidades arquitetônicas (por predicação e qualificação espacial), e que respondem ao funcionamento institucional dessa tríade, será necessário constituir um quadro investigativo temporal, no Aglomerado Urbano Cuiabá-Várzea Grande acerca da linguagem arquitetônica de centros de ensino enquanto representação do espírito de seu tempo. Até porque é na reconstituição de ações históricas, que se pode manter um referencial comparativo de repertório de pesquisa desejado ao desdobramento das análises e interpretações. A explanação de conceitos sobre a Arquitetura enquanto ferramenta da Comunicação Social será a abordada do Capítulo 1 desta pesquisa, que servirá também para suportar grande parte das análises e reflexões assinaladas no quadro histórico de arquitetura escolar no Aglomerado Urbano formado pelos capítulos subseqüentes. O capítulo 2 apresenta casos de antigas escolas públicas que ainda existem enquanto edificações de uso comum ou continuam funcionando como centros de ensino, e de suas relações com a ação política atribuída a seus respectivos momentos históricos. Curiosamente, a maioria desses edifícios reportam a situações políticas de mecenato de gestões autoritárias e/ou conservadoras. No capítulo 3, começa a ser abordada na pesquisa a análise do momento contemporâneo, em dois casos de escolas particulares – A Escola Livre Porto Cuiabá e o xvi Centro Educacional Plural – que destacam-se por serem os inaugurais recortes da pesquisa no momento histórico da Redemocratização, justamente por apresentarem, em suas premissas, um relato fiel das aspirações e ações políticas de seus gestores e público no momento histórico em que foram concebidas. Em contrapartida, o capítulo 4 trará seis casos de projetos e edificações de centros de ensino público, posteriores historicamente aos apresentados no capítulo 3, novamente destacados por suas especificidades arquitetônicas, que podem trazer informações sobre como se desenvolveram, com avanços e com retrocessos, certas ações democráticas da gestão estatal-educacional em duas esferas do poder executivo no Aglomerado Urbano CuiabáVárzea Grande (Estado e município). Fundamentações teóricas que ajudam na análise, como, por exemplo, Público Específico, Classes populares, Grupo de consumidores, Gestão educacional autônoma, Comunicação dialógica, Sinais semióticos de baixa e alta definição, Panoptismo, Maquiagem de produtos, Arquitetura como comunicação de massa, Simbolismo x Expressionismo em arquitetura, etc., pertinentes a toda discussão da pesquisa, e apresentadas em sua maioria no Capítulo 1, aparecem entremeadas nas análises. Explicitadas as análises de casos, pode-se, no capítulo 5, que constitui as considerações finais, apresentar uma interpretação de todos os casos estudados, relacionandoos e contrapondo-os, sendo este exercício suportado, em grande parte, pela semiótica aplicada, muito hábil esta, para identificar as motivações externas que prescrevem-se à consagração de uma arquitetura. xvii Fig. 2: Vista de localização, via satélite, das Escolas objetos de estudo desta dissertação; Legenda: A – Escola Modelo Barão de Melgaço, B – Senador Azeredo, C – Liceu Cuiabano, D – Nilo Póvoas, E – Presidente Médici, F – Livre Porto Cuiabá, G – Centro Educacional Plural, H – CAIC Jardim Alá, I – Adalgisa de Barros, J – Oscar Ribeiro, e K – Diva Hugueney; Fonte: Google Earth, modificada pelo autor. 1 CAPÍTULO 1 A PRÁXIS ARQUITETÔNICA PELA COMUNICAÇÃO SOCIAL. 2 1. A arquitetura: pelo espírito de seu tempo, não um fim em si mesma. O conceito universal de Práxis pode ser enunciado enquanto uma atividade humana em sociedade e na natureza, onde tudo que é da textualidade humana se têm por tanto. O conceito de Práxis Revolucionária de Marx1 define-a como "a coincidência da transformação das circunstâncias com a atividade humana", sendo então uma atividade teórico-prática, dialogista e dialética, portanto histórica, em que a teoria se modifica constantemente com a experiência prática, que por sua vez modifica constantemente com a teoria. Assim sendo, que experiência teórica posta em prática justifica uma arquitetura? Qual a verdadeira motivação que consegue fazer alguns homens transcenderem radicalmente a simples condição primeira do habitat humano? Transcender esteticamente ao que era simplesmente um abrigo para os rigores do clima? Nessa implementação de técnicas de excelência no controle dos recursos construtivos, graças a uma constituição política e econômica mais complexa e coletiva, o espaço, que protagoniza a arquitetura, transforma-se num dos mais veementes registros das transformações históricas, sejam políticas, intelectuais ou culturais, que se sucedem às sociedades. Ao vincular-se o entendimento da Práxis de uma arquitetura ao discurso da comunicação social, o estudo das textualidades possíveis suportaria-se bastante nas abordagens teóricas da Semiótica, que trás o entendimento das possibilidade não-verbais dentro de um processo comunicacional histórico. Numa semântica arquitetônica2, mesmo com as mudanças (sejam elas quais forem) sentidas em sociedade, em seus usos, classificações e fruições, que promovam uma reificação3 ou resignificação utilitária de parte de seus elementos constitutivos, certos códigos comunicacionais, estruturas textuais, tipologias funcionais, por força de seu caráter e condição diacrônicos4, mantém-se íntegros na consecutividade da história. 1 É em Teses sobre Feuerbach, A Ideologia Alemã e A Sagrada Família, que Marx desenvolve o conceito de práxis ao criticar o Materialismo e o Idealismo. 2 Em termos gerais, é o estudo de significados de elementos compositivos em Arquitetura. 3 O termo Reificação é usado por Frederic Jameson, em Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio, no qual explica-se enquanto o emprego de certos signos, ou palavras, sobre outras atribuições de significação, outrora nem um pouco referentes ao signo, ou palavra original em si. Um exemplo presente em minha realidade seria o uso da palavra “encabulado”, que já presenciei, principalmente pela geração Y (meus alunos), com o sentido de “estupefato”, “surpreso”, sendo que conhecidamente, “encabulado” é usado para designar, “constrangimento”, “vergonha”. 4 Na determinação clássica entre Sincronia e Diacronia dos signos (veiculada a teoria lingüística de Saussure), a primeira se detém aqueles índices e signos de um sistema de linguagem que compõem um entendimento imediato, e condicionado a um determinado momento histórico de seu uso, cristalizando sua significação; a segunda, quando do entendimento de um signo ou de seus índices, que resiste, em uso, à passagem do tempo, mantendo seu emprego original. 3 As mudanças nas sociedades, apesar de naturalmente revolucionarem a percepção da realidade, são construções históricas que se sustentam em um processo de transformação dialética, sedimentada, superativa, mas não estritamente afirmativa (ao negar uma coisa para afirmar outra coisa), o que ajuda a entendermos a resistência de significações diacrônicas, ao invés de estarmos sujeitos às transformações radicais e totais dos códigos semânticos de tempos em tempos. Por isso, na construção de um ideal civilizatório, prova-nos a história e a sociologia que, de uma forma ou de outra, as coletividades depreendem um anseio de poder simbólico (ou um símbolo de poder), de uma sujeição político-econômica, ao mesmo tempo em que estas estabelecem, sobre a sua natural inércia, um equilíbrio existencial por sua força e presença produtiva. Ao entender essas transformações, e empreender outras e novas, precisa-se continuar refletindo e analisando o processo histórico sobre as mais variadas atribuições humanas. Pelo estudo das artes, pode-se encontrar diversas situações que necessitem dessas ações e, sendo a arquitetura definida enquanto uma arte utilitária, contingente de ações e atribuições humanas, suportada signicamente por inclinações políticas e culturais, é possível, através de uma análise semiótica, construir-se uma contextualização histórica da percepção do espaço, sobre os seus mais variados índices. Pois bem, partindo agora da premissa principal de análise deste trabalho (a tríade gestor-educador-arquiteto), tem-se que a arquitetura, de um modo geral, dentro de sua história, tem conseguido preservar, com razoável eficiência, a identificação dos programas de necessidade (principalmente aqueles estabelecidos nos objetos de pesquisa deste trabalho), com seus respectivos e correspondentes gerenciadores educacionais. Todavia, há de se ter cautela é quanto à efetivação dos espaços encomendados com os discursos políticopedagógicos correlatos a esses períodos históricos. Essa cautela se justifica ao entender que, “ a Arquitetura não é uma maneira de mudar a história e a sociedade, mas um sistema de regras para dar à sociedade aquilo que ela prescreve à arquitetura’ (grifo meu). A Arquitetura seria portanto um serviço, visto que 5 seus códigos mais não seriam do que léxicos do tipo iconológico, estilístico ou retórico. Não estabelecem possibilidades geradoras mas esquemas 5 Para a lingüística, o sistema léxico de uma língua traduz a experiência cultural acumulada por uma sociedade através do tempo, ou seja, o léxico pode ser considerado como o patrimônio vocabular de uma comunidade lingüística através de sua história, um acervo que é transmitido de uma geração para a geração seguinte. Sinteticamente, o léxico arquitetônico pode se entendido enquanto um acervo de referências patrimoniais do habitar e do construir. 4 feitos.[ainda que] toda a verdadeira obra de Arquitetura traz qualquer coisa de novo”. (ECO, 1971) 6 A arquitetura pode ser considerada notoriamente persuasiva, já que, mesmo em desatenção, intervém e pode condicionar nas mais variadas subjetividades humanas, sejam em grupos, em indivíduos, ou nos trajetos diários que pertencem à realidade concreta de um espaço existente, natural ou alterado. Por essa capacidade persuasiva, a arquitetura possui as mesmas características das mensagens-massa7 da comunicação social, pois nela, os estímulos são simultaneamente ideologias que podem conotar uma ideologia do habitar, pelo que se oferece, no próprio momento em que persuade, a uma leitura interpretativa capaz de levar a um acréscimo de informação. Então, aquilo a que a arquitetura dá forma (um sistema de relações sociais, um modo de habitar e de estar em conjunto) não lhe pertence, visto que, um sistema de relações espaciais como o que é estudado pela proxêmica8, e um sistema de relações parentais como o que é estudado pela Antropologia cultural, situam-se fora da arquitetura 9. Na arquitetura, sobre esse prisma, se pode fazer interpretações nos campos político, filosófico, científico, econômico-social, técnico, físiopsicológico e formalista, mas o que dirige e vale na sua acepção e concepção é o espaço10, onde tudo começa e termina: “A interpretação política diz respeito às causas que estão na base das correntes arquitetônicas; visto que uma corrente arquitetônica não é tal se não materializa no espaço, uma interpretação política eficaz da arquitetura centraliza-se nas tendências espaciais. A interpretação filosófica investiga a contemporaneidade das concepções da transcendência e do homem, e das concepções espaciais. (...) Obviamente, a interpretação econômico-social, quando afirma a derivação das formas arquitetônicas de fenômenos econômicos, considera que o espaço exprime a cultura e o costume social, determinados pelos materialistas da condição econômica. (...) Pode-se, enfim, concluir que todas as interpretações relativas ao conteúdo têm um sentido na crítica arquitetônica, em virtude de centralizarem sua atenção nos espaços. (...) às interpretações fisiopsicológicas,(...)um espírito agudo acaba por identificar o valor da arquitetura com o do seu espaço, a cuja presença 6 Op. Cit. pp. 231-232. Tanto Umberto Eco (Op. Cit.) quanto Renato de Fusco (Arquitectura como “Mass-medium”; Barcelona, Editorial Anagrama: 1970), aceitam a idéia de que a arquitetura possa ser veiculada dentro de uma sociedade enquanto comunicação de massa, dentro do conceito clássico do Difusionismo em comunicação, pretensamente coercitivo, indutivo e pragmático, apesar dos mesmos já conhecerem e reconhecerem em suas análises a participação da recepção (ou das recepções - pilar de teoria Dialogista em comunicação) nos processos comunicativos da sociedade contemporânea. 8 Aonde a principal obra, apontada por este estudo, encontra-se em HALL, Edward T. A dimensão oculta. 7ª. edição. São Paulo: Martins Fontes, 2003. 9 ZEVI, Bruno. Saber ver a arquitetura. 5ª. edição. São Paulo: Martins Fontes, 1996; pp.259-260. 10 Op. Cit. p.190; Para Bruno Zevi, o Espaço seria o deslocamento sucessivo do ângulo visual sobre a “quarta dimensão”, a do tempo, por infinitas vezes. Assim, neste “vazio” arquitetônico, ou seja, no espaço interno do invólucro arquitetônico (ou mural), se constitui de igual importância a plenitude estética do conjunto. 7 5 todos os outros elementos estão subordinados (...) Já para o que diz respeito à crítica formalista, o que significa dizer que um edifício deve ter unidade ou proporção, eurritmia ou caráter? Toda arte deve ter essas qualidades, e, em se falando de arquitetura, devemos precisar que se trata de harmonia, de proporção ou de eurritmia nos valores espaciais e de adesão a estes de todos os outros valores.” 11 (grifos meus). Já que estabelecemos, pois, que o objeto da arquitetura está prescrito a ela, justificando-a, emulando-a, voltemos nossa atenção, em seqüência, para a origem epistemológica do tipo construtivo escola, objeto deste trabalho, pelo menos como o consentimos no mundo moderno, calcado na concepção de uma sociedade plural e extratificada socialmente, apesar da noção generalista e soberana de Povo. De acordo com Gregotti12, pode-se definir o tipo, num sentido bem genérico: a) como um modelo de onde extrair cópias e esquemas de comportamento (enquanto resume os traços caracterísitcos de um grupo de fenômenos); b) como conjunto de traços característicos, cuja descoberta, num fenômeno determinado, nos permite sua classificação. E, no que se refere à arquitetura, existe uma noção de tipo cujo vínculo com a forma é mais estreito, pois se realiza como quase-forma de um fenômeno cujas características estão mais próximas da instituição (se não da invenção) do organismo: “Quando falamos em hospitais, escolas, igrejas, para indicar um fato arquitetônico específico, procedemos a uma generalização e a uma esquematização que se refere precisamente ao que se chama ‘tipo construtivo’. Quer dizer, uma série de funções do habitat humano por referência a sua organização recíproca e a seu significado, uniram-se segundo uma certa agregação cujo ‘hábito’ construtivo se chama escola, hospital, etc. Trata-se, portanto, de um conjunto de funções estavelmente delimitadas que constituem um ou vários serviços unidos entre si por relações de continuidade espacial. Esse serviço (por exemplo, a escola) pode, por sua vez, ser classificado segundo suas qualidades e o grau de suas relações. Naturalmente, podem inserir-se novas funções, outras podem desaparecer sem que se modifique a estrutura do tipo, alterando-se somente o gênero. Este define-se pelo tipo de hierarquia segundo a qual as funções estão conectadas, pelo gênero da função (escola elementar), pelo modo de agregação das funções (escolas com corredores), pela quantidade e dimensão, pelas condições de localização, e, por último (através da definição tipológica dos diversos caracteres estruturais) pelas qualidades semânticas com que se oferece ao usuário.”13 11 ZEVI, Bruno. Op.cit. pp. 190-191. Usam-se nessa pesquisa as atribuições sígnicas de um tipo em arquitetura descritas do capítulo 4 – Tipo, Uso e Significado –, da obra Território da Arquitetura, de GREGOTTI,Vittorio. 2ª. Edição. São Paulo,Perspectiva, 1994. 13 Op. Cit. pp.151-154. 12 6 Nesse sentido, ao falarmos de arquitetura escolar, estamos invocando a memória coletiva advinda de uma sociedade que constitui historicamente uma ideologia (na verdade ideologias) sobre os espaços de reprodução e continuidade de conhecimentos, os quais se depõem como afirmadores de um modo de vida, que sabe-se, não pára de mudar. Do primeiro mestre embaixo de uma árvore para as turmas de ensino seriado, a escola, enquanto espaço arquitetônico, submete-se aos anseios políticos presentes nas mais variadas mudanças paradigmáticas coletivas e, portanto, estéticas. 2. A comunicação pela forma arquitetônica: Do índice ao signo, dos fatos às ideologias. “Cuidado com a coisa coisando por aí. A coisa coisa sempre e também coisa pro aqui. Seqüestra o seu resgate, envenena a sua atenção. É verbo, substantivo, adjetivo e palavrão.” (RENATO RUSSO. Marcianos invadem a terra. 1986)14 Em semiótica, sabe-se que a procedência das formas na comunicação não-verbal advém preferencialmente de uma história de aceitação dos signos através da experiência humana (experiência estética) com a linguagem. Na linguagem não-verbal, alguns índices físicos (visuais principalmente, apesar de, no caso da arquitetura, índices semióticos sinestésicos, acústicos e olfativos serem relevantes), estabelecem-se enquanto um repertório estético (universal ou regional, portanto cultural) com o passar do tempo e paralelo ou mesmo sobreposto – dada a figura do significante em lingüística – à constituição semântica dos idiomas falados. Nesse pressuposto, entende-se que é da humanidade, na passagem do tempo, alfabetizar-se15 das formas do mundo, assim, portanto, condicionando sua conduta cognitiva para com os fenômenos de seu campo perceptivo. Assim como na linguagem falada, a concepção de signos e índices não-verbais atravessa um julgamento do acaso e da causalidade, para que constituam-se enquanto elementos da criatividade e da linguagem na textualidade arte-factual humana. 14 Esse trecho é parte da letra da canção, registrada fonograficamente no álbum Uma outra estação, da banda de rock Legião Urbana, apenas em 1997. 15 No trabalho de Donis A. Dondis, Sintaxe da Linguagem Visual, cunha-se o termo Alfabetismo Visual para a faculdade humana, segundo a autora, de necessitar-se conhecer e apreender formas do mundo para um mais pleno desenvolvimento cognitivo, tal que propicie outras experiências estéticas, sempre através do contato com as artes visuais. 7 No impulso de criar, a experiência estética humana concebe para a semiosfera16 novos códigos de leitura e novas condições criativas. Ao criar-se expressa-se, simplesmente. E, em princípio, expressar não implica automaticamente na constituição de uma aceitação social, coletiva. O fenômeno estético (ou uma “coisa” que coisa alguma coisa), num primeiro momento acontece apenas. É na condição de afetação17 desse acontecimento como fenômeno, no contato com a coletividade, que se pode viabilizar sua incorporação18 como signo, ou como um ícone19, para um novo uso comunicacional, ou mesmo artístico. Ao comunicar pela forma, entende-se que algumas formas não-verbais (visuais, espaciais, acústicas, etc.) afetam a percepção humana mais do que outras, muito mais do que condiciona uma esfera cultural, mesmo porque, é na impressão afetiva suscitada na percepção humana que vários códigos culturais se estabelecem, e concebem a essas mesmas formas valores comunicativos20 e icônicos. Portanto, ao criar, a ação humana, pode se autoreferenciar num ulterior vocabulário formal, que, coerente ao espírito de seu tempo, reinterpreta a realidade num novo código formal, não necessariamente radical e expressivo, e que consegue constituir de imediato um processo comunicacional. Nas formas arquitetônicas (ou em uma composição de formas), volumes, superfícies e espaços podem ser comunicados por seu simbolismo 21, tanto implícito conotativamente (uma arquitetura de expressão), quanto explícito denotativamente (uma arquitetura de significado), na maioria das vezes existindo ambiguamente, mas sempre com uma ênfase numa ou noutra situação. A noção de que possa haver um condicionante ideológico sobre a experiência ao artefato arquitetônico talvez explique porque essa dicotomia é identificável. Em uma de suas obras22, Robert Venturi trabalha a análise dessa dicotomia em dois artefatos arquitetônicos que originam do mesmo tipo construtivo, no caso, uma casa de repouso para idosos: A Guild House (de autoria de Venturi) e Crawford Manor (de autoria de 16 Termo oriundo da Semiótica da Cultura, cunhado pelo semioticista russo Yuri Lotman, a Semiosfera pretendese enquanto um espaço semiótico necessário para a existência e funcionamento da linguagem e da cultura com sua diversidade de códigos. Assim sendo, fora desse espaço, não há comunicação, não há linguagem e é impossível a existência da própria semiose. 17 O primeiro contato humano com uma “coisa” que se faz notar, mesmo não fazendo entender-se num primeiro momento, dá-se a condição de afeto (ou afecto, segundo Gilles Deleuze), o que não garante a constituição de uma incorporação sígnica dessa coisa a posteriori . 18 Ou Iconografização, segundo o professor Juan Felipe Sanches de Mederos. 19 Para a semiótica Peirceana, o ícone é um tipo de signo que mantém uma relação de proximidade sensorial ou emotiva entre o signo, representação do objeto, e o objeto dinâmico em si. É uma coisa imediatamente coisada enquanto tal. 20 Ainda na semiótica Peirceana, o sígno Símbolo desempenha essa função, que por vezes é, ao mesmo tempo, Símbolo e Ícone, ao suportar-se imageticamente na força afetiva de um Ícone. 21 VENTURI, Robert, BROWN, Denise Scott & IZENOUR, Steven. Aprendendo com Las Vegas. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. 22 Op. Cit. pp. 117-133. 8 Paul Rudolph), ambas contemporâneas, mas com abordagem arquitetônicas distintas, que acabam por comunicar seus suportes ideológicos contrastados em suas imagens estilísticas. Fig 3: A Guild House (1963) de Venturi (esquerda) e Crawford Manor (1962), de Rudolf (direita); Fonte: 1) Wiliam Miller e 2) www.annapujadas.cat. Um dos expoentes estilísticos e teóricos do chamado Pós-modernismo23 em arquitetura, Venturi identifica claramente a distinção de idéias sobre como atender a um programa arquitetônico para uma casa de repouso, isso devido, segundo ele, a escolha, na criação, sobre como utilizar as formas e os espaços arquitetônicos. Num caso (a Guild House), preferencialmente simbólicas, noutro (A Crawford Manor), preferencialmente expressivas. 23 Restringe-se a um momento histórico da arquitetura entre as décadas de 1960 e 1980, e se encerra com a realização dos trabalhos de autores como Charles Moore, Paolo Portoghesi, entre outros, além de Venturi; o Pósmodernismo, enquanto experiência estilística e estética, é diferente do que se estuda enquanto Pós-modernidade, de caráter social e cultural (que em arquitetura não se restringe a uma estilística), e que continua acontecendo. 9 Fig. 4: As plantas da Guild House (1963) de Venturi (primeira acima) e Crawford Manor (1962), de Rudolf (segunda acima); Fonte: 1) Robert Venturi e 2) Dartmouth Library web page. Essa análise comparativa não visa justificar uma experiência ou outra, mas, justamente, comprovar o papel das ideologias (sejam elas quais forem), no desenvolvimento dos artefatos arquitetônicos e, por conseguinte, e em suas mensagens-massa possíveis. Tanto na articulação dos espaços em planta quanto no desenho resolvido às superfícies e volumes arquitetônicos, chega-se a um resultado estético catalisador de uma leitura espacial que comunica e até afirma certas ideologias do habitar (e do consumir). 10 Por exemplo, a estilística Brutalista24 da Crawford Manor restringe a leitura comum da edificação, por conta, segundo Venturi, de um “Expressionismo abstrato” que articula a arquitetura num sentido criativo, único e original, de simbolismo implícito “conotativo”25, e, enquanto “Arquitetura Pura”, a restringe enquanto artefato midiático, pois tenta elevar o sistema de valores do cliente e/ou o orçamento com referências à arte e à metafísica, exigindo uma leitura mais apurada ao senso comum estético de seu tempo. Em contrapartida, a Guild House, de acordo com Venturi, apesar de concebida por meios mistos, já que incorpora a função publicitária e de evocação historicista, consegue um desempenho comunicacional mais abrangente, justamente pelo simbolismo denotativo pretendido, partindo do sistema de valores do cliente (o indivíduo de classe média norteamericano), de tecnologia convencional e ornamentação ordinária, prática e socialmente comum. Pode-se incorporar a essa interpretação comunicacional das arquiteturas, feita por Venturi, a definição de Marshal McLuhan26 sobre os sistemas de comunicação e informação, divididos entre alta definição (meios quentes) e baixa definição (meios frios). Alta definição se refere à alta saturação de dados e, o oposto, baixa definição, se refere a sistemas com dados difusos ou pouco explícitos. (...) Entretanto, à alta saturação de dados corresponde a segurança de uma informação que solicita pouco a operação perceptiva do receptor; é imediata e total, amparada em um código ou nas vibrações de um só sentido, que atuam como meio de relação do receptor com o seu universo; ao contrário, à baixa saturação de dados, corresponde uma informação pouco segura, entrópica e desordenada, mas potencialmente mais rica, desde que o receptor desempenhe uma operação preceptiva elaborada e verdadeiramente criativa, na medida em que é capaz de relacionar antigos estímulos informativos com índices pouco discriminados no universo que o envolve. 27 Encarando o processo comunicacional dessa maneira, entende-se que é possível um tratamento dado à logística de projeto e da forma arquitetônica tal qual se dá aos processos de comunicação institucional organizado, que se apropria da codificação, privilegiando ora uma leitura mais imediata, ora mais indutiva. Justamente por conta disso é que se faz necessário 24 O Brutalismo é um desenvolvimento estilístico do racionalismo em arquitetura que encampa realizações que visem mostrar a sinceridade dos materiais em suas concepções construtivas, onde nisso não existiria justificativa para escondê-los sobre outros revestimentos. Nesse intuito, madeira, pedra, aço e concreto aparente estão visíveis na imagem arquitetônica das edificações concebidas sob esse paradigma estético. 25 O papel conotativo e denotativo do signo arquitetônico já é discutido antes dessa obra de Venturi, pois em A estrutura ausente, Umberto Eco define-os muito bem, em seu capítulo sobre a Semiologia da Arquitetura. 26 Em Olhar Periférico (Edusp-Fapesp, São Paulo: 1999), Lucrécia D’Alessio Ferrara traz esse suporte teórico para o instrumental da semiótica aplicada à interpretação dos espaços. 27 FERRARA, Op. Cit., p. 175. 11 conhecer as motivações ideológicas por trás de um projeto arquitetônico, pois justamente elas (as ideologias) expressam um caráter político de prática social consolidada, seja ela progressista ou conservadora em seus mais variados graus. Massimo Canevacci afirma que “política é comunicação”28 e, nesse sentido, uma política que não esteja dentro da comunicação é inexistente. Assim sendo, pergunta-se: à arquitetura, qual o objeto, o canal midiático que articula todos os sistemas comunicacionais possíveis a um caráter político? Talvez essa incumbência esteja possível na Publicidade. Na história da Arquitetura, sabe-se que é a partir do advento das grandes Exposições Industriais29 do séc. XIX, que a arquitetura destinada aos pavilhões nacionais, por conta de ação e intenção de autopromoção destes, convertia-se em uma colossal operação de propaganda – lembrando que a publicidade moderna nasce precisamente naquele período –, onde, enquanto mídia de massa30, se usam os aspectos construtivos tecnológicos de maneira comunicativa, simbólica e lúdica, onde estas comunicações e intercâmbios, “e o espírito de emulação e de competência dos pavilhões se expressaram, mais do que nas mercadorias expostas, no gigantismo das estruturas, na novidade das formas, símbolos mais vistosos e atrativos para a fantasia popular”.31 Todavia, antes de entrar nos pormenores dessa “fantasia popular”, se faz necessário nesta pesquisa apresentar os pormenores da comunicação social que antecederam essa premissa bem acabada. 3. Prescrição à arquitetura: disciplinando, enquanto “comunicação de massa”. “Por comunicação de massas, podemos entender tanto os chamados meios de comunicação de massa (cinema, rádio, televisão, assim como a imprensa, publicidade, etc.) ou seja, os canais, através dos quais se comunica à massa com relativa rapidez, como as próprias comunicações detectáveis que se reproduzem (ou seja, os filmes, os programas de rádio e televisão, os periódicos, em suas realizações concretas, etc.), ou seja, o que se chama propriamente de mídia de massas.(...) A hipótese da arquitetura como mídia de massa (ou apenas mídia – grifo meu) se entende sobretudo nesse segundo aspecto. (...) As mídias de massa podem definirem-se como invenções técnicas que amplificam (ou tendencionam – grifo meu) a mensagem que geralmente parte de uma pessoa ou de um grupo. Em vez de chegar a um indivíduo ou a um grupo diretamente, como acontecia antes, agora a mensagem chega a milhares, a milhões de pessoas, mais rápida e ruidosamente”. 32 28 CANEVACCI, Massimo. Comunicação visual. Rio de Janeiro: Brasiliense S.A., 2009. Tanto que é na Exposição Industrial de Paris, em 1889, que a Torre Eiffel é concebida como mídia de divulgação da Arquitetura e Engenharia feitas apenas com ferro fundido. 30 Termo cunhado da tradução livre de Mass-Medium, de DE FUSCO. 31 DE FUSCO, Op. Cit., p. 85. 32 DE FUSCO, Op. Cit., p.69. 29 12 Com a modernização da sociedade ocidental, e seu conseqüente inchamento populacional nas cidades, revela-se uma nova situação social, aonde as massas de trabalhadores das novas e várias fábricas e refugados do sistema de produção capitalista compõem-se em uma multidão33. E ela está por toda a parte. Nesse contexto social, que necessita de oferta excedente de mão-de-obra barata, a todos os lugares que se for, se esbarrará na multidão. O homem médio, transeunte dos locais públicos, filho e cliente das Revoluções modernas, mediano, ordinário, medíocre até, compõe a unidade contingente da multidão: o homem-massa34. Com o capitalismo nascente, credor e servidor do Estado-Nação moderno, outras demandas organizacionais da sociedade ocidental fizeram-se presentes: nessa multidão, a aglomeração de grandes contingentes coletivos sem organização espacial e sanitária constrói verdadeira celeuma no exercício do poder estatal e no controle e gestão dessas novas coletividades. A multidão, bem-vinda a constituir o novo quadro social modernizante, também sofre e é responsabilizada pelos grandes problemas urbanos e humanos dessas novas cidades, despreparadas fundiariamente para comportar os numerosos núcleos familiares com condições mínimas de higiene e salubridade. Essas condições adversas contrastam ferozmente com as recentes, até então, construções filosóficas em torno de um Contrato Social, de abrangência coletivista e não absolutista, que através de uma sociedade laica, e de um Estado de direito, regulador das mais variadas dinâmicas e inércias nas relações sociais, e que programariam as fases de implementação racional de suas diretrizes, ao sabor ou dissabor dessa multidão. Lidar com a inércia35 das massas implica num olhar e abordagens preferencialmente pragmáticos, à ordem das urgências administrativas dos Estados-Nações modernos, assim também como as do mercado. Com a formação Iluminista do mundo moderno, e de seus desdobramentos político-ideológicos (num campo mais geral, Liberais e Socialistas), econômicos e tecnológicos (industrialização e maquinização do trabalho), os Estados-Nações Ocidentais, primeiramente se puseram a categorizar a manutenção de suas conquistas revolucionárias por uma organização disciplinar primaz, racionalista, higienista, de orientação Liberal. 33 ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das Massas. São Paulo: Marins Fontes, 2006. O termo cunhado de Ortega Y Gasset, assim como o de Multidão, apresar de contestados em sua aplicabilidade integral à contemporaneidade pela escola dos Cultural Studies, procura, nessa pesquisa estabelecer uma Unidade de Medida (tão caro à leitura arquitetônica) Comunicacional, à análise da semiótica arquitetônica, principalmente no que diz respeito à ação do Estado sobre a contingência do acesso à Educação. 35 Nesse sentido, não se quer dizer imobilidade, mas sim, força da contingência. 34 13 Espacialmente, é através do Modelo Panóptico36, teorizado e aplicado, de Jheremy Benthan37, que a contingência da massa sofre ação disciplinadora e classificadora, por conta de um poder governamental. Michel Foucault38 demonstra esse modelo espacial disciplinar enquanto uma figura arquitetural onde seu princípio se faz conhecer assim: “na periferia uma construção em anel; no centro, uma torre; esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior, correspondendo às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um escolar.(...) O dispositivo panóptico organiza unidades espaciais que permitem ver sem parar e reconhecer imediatamente.(...) Cada um, em seu lugar, está bem trancado em sua cela, de onde é visto de frente pelo vigia; mas os muros laterais impedem que entre em contato com seus companheiros. É visto, mas não vê; (...) a disposição de seu quarto, em frente a torre central, lhe impõe uma visibilidade axial; mas as divisões do anel, essas celas bem separadas, implicam uma invisibilidade lateral. E esta é a garantia da ordem.(...) A multidão, massa compacta, local de múltiplas trocas, individualidades que se fundem, efeito coletivo, é abolida em proveito de uma coleção de individualidades separadas.”39 Para Foucault este era o efeito mais importante do Panóptico: induzir no detento um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder, onde esse aparelho arquitetural fosse uma máquina de criar e sustentar essa relação de poder, independente daquele que o exercesse40. 36 [De pan- + -óptico] Adjetivo. 1.Que permite uma visão total: construção pan-óptica. Filósofo e jurista inglês. Juntamente com Stuart e James Mill, difundiu o Utilitarismo, teoria ética que responde todas as questões acerca do que fazer, do que admirar e de como viver, em termos da maximização da utilidade e da felicidade. 38 Em Vigiar e Punir: história da violência nas prisões. Petrópolis, Vozes, 1997. 39 Op. Cit., pp.165-166. 40 Op. Cit., p. 167. 37 14 Fig.5: Corte e Planta do Panóptico de Benthan; Fonte: http://www.infoescola.com, reprodução do original de Jeremy Benthan. Nesse modelo espacial de disciplina das massas é que a quase totalidade das tipologias funcionais das arquiteturas institucionais e coletivas que se conhecem na atualidade ainda se sustentam, entre elas a escola. Dada a objetividade da solução formal e espacial, a leitura imediata possível do Panóptico denota explicitamente sua significação ideológica para com uma ação política incisiva e disciplinadora, imediatamente mediada para os corpos de seus usuários, não dando espaço para leituras mais indutivas e criativas, as quais depreenderiam ações político-administrativas mais elaboradas, demoradas e pouco simbólicas para tal oferta arquitetônica. O direito à Educação que era, em princípio, uma aspiração clássica ao autoconhecimento e à liberdade social de um indivíduo, torna-se, na transposição de uma sociedade mais em modernização, e maciçamente coletiva, instrumento, ou aparelho, de domesticação e adestramento da inércia da multidão. E sua arquitetura, a priori, busca uma composição comunicacional bastante padronizada e imediata, mas que depois sofre a ação de 15 outras revoluções políticas e sociais que tenderiam a humanizá-la, mas sem nunca abdicar da segurança ideológica de seu contexto espacial disciplinador. No século XX, Louis Althusser, filósofo de orientação marxista, vai desenvolver a análise teórica acerca dos Aparelhos de Estado e Aparelhos Ideológicos do Estado, cabíveis no entendimento das motivações da aplicação de um modelo arquitetônico Panóptico: “(...) de que maneira a burguesia consegue impor à sociedade como um todo uma ideologia que justifica apenas os seus interesses particulares? A resposta a essa questão implica a necessidade de algumas considerações a respeito do Estado. Para tanto, se utilizará as colocações de Althusser que, por sua vez, retoma a teoria marxista clássica do Estado. (...) numa sociedade capitalista, o poder de Estado é exercido pela burguesia, que se utiliza do Aparelho do Estado, para impor seus interesses e conseqüentemente conservar-se como a classe dominante. Mas é preciso salientar ainda, (...) que o ‘Aparelho de Estado compreende dois corpos: o corpo das instituições que representam o aparelho repressivo de Estado, por um lado, e o corpo das instituições que representam o corpo dos Aparelhos Ideológicos de estado, por outro lado’. O primeiro, também chamado simplesmente de Aparelho de Estado compreende: o governo, a Administração, o Exército, a Polícia, os Tribunais, as prisões, etc. Por aparelhos Ideológicos de Estado (AIE) Altusser designa: ‘ ...um certo número de realidades que se apresentam ao observador imediato sob a forma de instituições distintas e especializadas’. Dentre essas instituições que compõem os Aparelhos Ideológicos de Estado destaca: ‘o AIE religioso (o sistema das diferentes Igrejas), o AIE escolar (o sistema das diferentes escolas públicas e particulares), o AIE familiar, o AIE jurídico, AIE político (o sistema político de que fazem parte os diferentes partidos), o AIE sindical, o AIE da informação (imprensa, rádio, televisão, etc.) e o AIE cultural (Letras, Belas 41 Artes, desportos, etc.)’.”. A modernidade encampou durante muito tempo as deliberações disciplinares referentes aos Aparelhos Ideológicos do Estado, através de sua personificação Panóptica, chegando até a primeira metade do século XX, e a partir daí incorporando a tradição da chamada Mass Comunication Research42, oriunda da sociologia empírica americana, na qual o modelo difusionista da comunicação de massa era enxertado dentro das realidades e desafios próprios da sociedade, na expectativa de indução desta à suas demandas ideológicas, fossem elas pragmáticas ou teleológicas. 41 BUFFA, Ester. Ideologias em conflito: Escola Pública e Escola Privada. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979. pp. 92-93. 42 Pesquisa em Comunicação de Massa. Essa linha de discussão e pensamento da Comunicação Social discorre sobre as teorias que se centraram (principalmennte no começo do séc. XX) sobre os efeitos de curto prazo das mídias, sua eficácia e raio de alcance. De pensamento crítico influenciado pelo idealismo alemão e pelo marxismo teleológico, acreditava na capacidade de introduzir na sociedade uma mensagem que suscitava uma resposta condicionada. Nesse raciocínio, as mídias teriam um poder de ação direta e seriam um agente poderosíssimo de controle e de propaganda. Para melhor aprofundamento, pode-se consultar, nessa bibliografia, GUSHIKEN, Yuji. Dialogismo: Emergência do Pensamento Latino-Americano em Comunicação. 16 Para fazer uma análise semiótica da arquitetura, integrada às Teorias da Comunicação, reforça-se o posicionamento paradigmático deste trabalho, em que se afirma, mais uma vez, que a arquitetura não é uma maneira de mudar a história e a sociedade, mas um sistema de regras para dar à sociedade aquilo que ela prescreve à arquitetura. Nesse sentido, o arquiteto, além de procurar o código da arquitetura fora dela, deve também saber configurar as suas formas significantes de modo a que possam fazer frente a outros códigos de leitura. A arquitetura antecipa e acolhe, nunca promove os movimentos da história, aonde “o ato do comunicar através da arquitetura concorre, certamente, para mudar as circunstâncias, mas não constitui a única forma de praxis.”43. Outrora nessa pesquisa se disse que seria possível ter uma arquitetura mediada enquanto uma “fantasia popular” (pautada historicamente a partir da experiência das Grandes Exposições), contingente de uma ação Publicitária. Para tal, se deve entender a função da publicidade no mundo moderno e contemporâneo, donde: “A publicidade pode se configurar como um sistema semiótico complexo, entre as estratégias enunciativas de sedução e a pragmática de lucro.(...) A publicidade, na perspectiva do conceito de modernidade-mundo, não apenas reflete como também faz parte dos valores dessa modernidade-mundo e até, em certa medida, não pode ser analisada de maneira isolada.”44 A publicidade, enquanto atividade persuasiva e lógica, contemporiza e catalisa os limites da comunicação social comum, extrapolando essa ação comunicacional na tática e na estratégia de veiculação de idéias e ações coletivas e individuais, portanto ideológicas, públicas e comerciais na mediação do e pelo Produto, que é o supra-sumo da idéia do que seria a Mídia de Massa em princípio: um artefato que não restringe sua existência ao que tem a oferecer mediante suas possibilidades de uso e fruição, e que possui apelo imagético e estético. Mas além de tudo isso, há de se saber ainda que: “O Papel funcional do produto ou da entidade, como maior critério de escolha ou de existência, desapareceu progressivamente em benefício de evocações psicológicas e sociais que esses produtos e entidades subtendem. Nesse nível, há muito tempo que empresas, instituições, associações, partidos e candidatos políticos, causas sociais, programas culturais, sociais, personalidades, etc. tendem a ser considerados produtos. A materialidade do objeto (ou seja, tudo o que se oferece à nossa vista e ao nosso espírito) é encoberta pela expressão de um sistema de signos, de símbolos, dos quais produto e organização são o suporte.(...) o objeto (tangível ou intangível) 43 ECO, Umberto. Op. Ct. p.247. BARBOSA, Ivan Santo. Os sentidos da publicidade – estudos interdisciplinares. São Paulo: Thomson , 2005; p.X). 44 17 revela-se signo diferencial graças à marca, que cristaliza os elementos materiais e imateriais do produto ou da organização em um todo harmônico e significante, disponibilizando-os ao consumo. ‘Consumimos signos’ (Baudrillard, 1984, p.232-233). Assim, o objeto é consumido, não na sua materialidade, mas na sua diferença. A mais-valia acrescida pela marca nos fez evoluir em uma sociedade de comunicação.(...) mais do que um nome e/ou uma imagem, isto é, um traço distintivo que identifica (por meio de atributos próprios), a marca é uma fala (verbal e não-verbal), nem sempre assumida, que deve ser compartilhada. Sem pleonasmo, é um contrato fiduciário de confiança.(...) A marca comercial/Institucional pode ser apreendida como bem simbólico, concebido como signo social resultante de um trabalho de co-enunciação por parte dos agentes de sua produção e transmissão, do(s) destinatário(s), bem como do próprio mercado e da sociedade.” 45 (grifos meus). Tendenciosamente, a incorporação do papel marcário 46 na comunicação social considera todas as suas mediações possíveis enquanto cavalo-de-batalha, que em sua perspectiva pragmática (a de marca) sempre procurará sintetizar uma rede de significações para as recepções possíveis. E é justamente nesse poder sintético da marca que se provocam possibilidades de resignificação, de dinamismo e de adaptação às representações do desejo de cada indivíduo (seja como consumidor ou como cidadão): “a marca é uma conexão simbólica e afetiva estabelecida entre uma organização, sua oferta material, intangível e aspiracional e às pessoas para as quais se destina.”47 Considerando assim que o mundo moderno, a partir da Era das Revoluções48, tem toda sua ação político-social, seja de cunho popular ou privado, influenciada pela atividade Publicitária, é compreensível estabelecer um paradigma comunicacional aonde a arquitetura parece possuir as mesmas características das mensagens-massa, justamente porque: “1) O discurso arquitetônico é persuasivo: parte de premissas adquiridas, coliga-as em argumentos conhecidos e aceitos, e induz a determinado tipo de consenso (vou morar assim porque mo propõe, com base em formas espaciais que se aliam a outras já conhecidas, e porque você me demonstra que, relacionando-as desta maneira, poderei viver ainda mais cômoda e confortavelmente); 2) O discurso arquitetônico é psicagógico (com suave violência, que me passa, aliás, totalmente despercebida, sou levado a seguir as instruções do arquiteto, o qual não apenas significa funções, mas as promove e induz – no mesmo sentido em que falamos de persuasão oculta, indução psicológica, estimulação erótica); 3) O discurso arquitetônico é 45 ZOZZOLI, Jean-Charles J. A marca comercial-institucional – Retrospectiva e prospecção, in Os sentidos da publicidade – estudos interdisciplinares. São Paulo: Thomson , 2005; pp.112-113). 46 O papel, ou ação marcaria é aquele que diz respeito à apropriação das características comunicacionais de uma marca em quaisquer das textualidades humanas. 47 BARBOSA, Op. Cit., p.X. 48 Termo cunhado por Eric Hobsbawn para englobar um grande arco de acontecimentos sociais na história da humanidade, a grosso modo: A Revolução Industrial, A Revolução Francesa e o Advento do Capitalismo Mercantilista. 18 fruído na desatenção, como se fruem o discurso fílmico e televisional, as estórias em quadrinhos, os romances policiais, (ao contrário de como se frui a arte propriamente dita, que requer absorção, atenção, devoção à obra que se vai interpretar, respeito pelas supostas intenções do remetente); 4) A mensagem arquitetônica pode carregar-se de significados aberrantes sem que o destinatário perceba estar com eles perpetrando uma traição(...); 5) nesse sentido, a arquitetura move-se entre um máximo de coerção (você terá de morar assim) e um máximo de irresponsabilidade, (você poderá usar esta forma como quiser); 6) A arquitetura está sujeita a rápida obsolescência e sucessão de significados se não postular um recurso filológico (...) à semelhança do que acontece com as canções e trajes da moda; 7) A arquitetura move-se numa sociedade de mercadorias, está sujeita a determinações de mercado, mais do que as outras atividades artísticas e tanto quanto os produtos da cultura de massa (...) o arquiteto (a menos que formule um modelo utópico) não pode ser arquiteto senão inserindo-se num circuito tecnológico e econômico e procurando assimilar-lhe as razões, ainda quando quer contestá-las.” 49 Se toda verdadeira obra de arquitetura traz qualquer coisa de novo, pode-se interpretála em suas prescrições, encontrando aí, e não isoladamente em suas tipologias e espacialidades, sua verdadeira aspiração às novidades, ou ao eufemismo de novidades antigas. Em um primeiro momento, o Panóptico representa uma inovação social sobre as novas constituições de uma sociedade muito mais agregada e coletiva, apesar de desigual. Seu discurso comunicacional pela arquitetura é contestado historicamente, mas ainda resiste, por sua conveniente onipresença institucional, portanto política. Sobre esse esquema tipológico de arquitetura e, assim sendo, de sua gestão políticoescolar, é que a crítica e as teorias da educação mais progressistas começam a desenvolver suas pretensas aspirações Iluministas, intencionando na subversão, e até numa propensa superação tipológica, suas realizações programáticas. Estilos e discursos artísticocomunicacionais, pela força de suas experiências estéticas, depreendem um mosaico de contextualizações políticas, culturais e sociais pela História da Arquitetura, o que acrescenta uma leitura semiótica à História das sociedades e repúblicas modernas como um todo, à História da república brasileira e, por conseguinte, à História republicana do estado de Mato Grosso. 49 IBID. pp.224-226. 19 CAPÍTULO 2 HISTÓRIA DA ARQUITETURA ESCOLAR EM CUIABÁ: NA REPÚBLICA, ARQUITETURAS HERÓICAS PARA ESTADOS DE EXCEÇÃO. 20 1. Arquiteturas Heróicas de Estado: memórias autocráticas na Escola brasileira “... para o Brasil, nem Monarquia, nem República, mas uma Oligarquia dominante.” (Machado de Assis, em 1889). Ao tratar da constituição dos governos republicanos modernos, democráticos ou não, calcados em instâncias variadas de poder, e de suas Estatuintes soberanas, encontramos referências arquitetônicas distintas para o espaço escolar. Lembrando que a arquitetura deveria expressar o que a ela se prescreve, de acordo com o espírito de seu tempo50, pode-se dessa maneira, construir um quadro histórico da república por seus prédios escolares. A frase de Machado de Assis que inicia esta parte do trabalho diz muito sobre a verdadeira constituição do poder estatal correspondente aos primeiros anos da República no Brasil, que ficou conhecida historicamente enquanto República Velha, catalisada por oficiais do exército, até então os membros liberais e reformistas da sociedade, mas sustentada e promovida pelos antigos senhores de engenho, ainda revanchistas para com a abolição da escravatura, imprescindível, mas não-planejada em sua implementação, em 1888. Notoriamente uma República conservadora, foi na gestão do Marechal golpista de 1889, Floriano Peixoto, que sua implementação fez-se valer “pela força do Estado”, onde toda e qualquer movimentação dissidente eram punidas com perseguição política, abuso de poder, aplicação da força, assédio moral e extinção de liberdades individuais. Num jogo de transição consentida do poder pelas oligarquias econômicas, os anos da República Velha em pouco lembravam aos ideais iluministas modernos que intencionavam criar um mundo novo, de verdadeira participação coletiva. Mas a presença da multidão não é definida por fronteiras nacionais, mas por oportunidades econômicas e sociais, e, nessa Republicação do Brasil, que começava a encontrar sua vocação liberal, mesmo em um Estado conservador e opressor, a contingência existente de escravos libertos (e não integrados à sociedade), imigrantes europeus e asiáticos, assim como uma crescente urbanização (imigração para os centros urbanos) da população economicamente ativa, para dentro das zonas urbanas começou montar o quadro insalubre pelo qual os países precursores da industrialização já haviam passado no século XIX. E, nesse sentido, a inclinação natural da jovem República brasileira foi apoiar-se nas experiências e 50 Zeitgeist, em alemão. O conceito de Zeitgeist designa as características gerais de uma determinada época. 21 referências já consagradas na modernização orquestrada pela sociedade ocidental no século XIX, principalmente em suas consagrações arquitetônicas, dentro de uma estilística neoclassicista, de influência francesa, napoleônica, aonde um Estado forte se garantia, justamente, por sua força e subjugação. Era um Estado pragmaticamente modernizador, mas essencialmente de exceção. 2. A Arquitetura do Estado Novo – a Invenção do Brasil. “Se reconhecermos a rapidez de informação aos periódicos, à televisão ou à publicidade, na arquitetura, no urbanismo e no design temos de reconhecer sua capacidade de duração”.51 A revolução de 1930, orquestrada por um grupo político ligado ao derrotado candidato à presidência na sucessão de Washington Luis, Getúlio Vargas, é considerada por alguns historiadores, como a definitiva fase brasileira da revolução burguesa desencadeada no mundo ocidental com a Revolução Francesa de 1789. Com a necessidade de afirmar a identidade e a força do Estado-Nação que deveria, e poderia ser o Brasil recém centenário, arquitetou-se um programa político de construção maciça de um ideário nacional, amparada pela mecenização do Estado em atividades científicas, artísticas e culturais que intencionassem tamanha reflexão acerca da identidade nacional. E nesse intento, inclui-se uma nova arquitetura, imagem dessa invenção do Brasil, onde: “a relação umbilical entre arquitetura moderna e a ação estatal tem uma longa tradição no Brasil, que remonta a 1930, quando o governo revolucionário de Getúlio Vargas submete as oligarquias regionais com um Estado Nacional forte e onipresente, inspirado no ideário fascista italiano. Mas é sabido que a figura de um ditador rígido e benigno – o “pai dos pobres” – é uma construção histórica que retrata a hegemonia do político sobre a economia, arte, cultura, etc.”52 O que era o Brasil de então? É dessa época a publicação de tratados sociológicos acerca da formação do país, e datam dessa época, Raízes do Brasil(1936), de Sérgio Buarque de Holanda, Casa Grande e Senzala(1933), de Gilberto Freyre, que destacam o aspecto mestiço e plural da constituição étnica e cultural dos povos brasileiros. É criado o Instituto do 51 DE FUSCO, Op. Cit., P.70. GUERRA, Abílio. Arquitetura e Estado no Brasil. In: Arquitextos Vitruvius Nº 064, de Setembro de 2005, no sítio: www.vitruvius.com.br 52 22 Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que comporta imensos trabalhos de catalogação, registro e preservação de atividades e obras culturais, nas mais diversas localidades do território brasileiro. Em 1932, é construído um projeto, revolucionário para a época, um dos marcos da arquitetura modernista brasileira, de Lúcio Costa, e um estagiário chamado Oscar Niemeyer, a partir de rascunho iniciado pelo franco-suíço Le Corbusier: o Ministério da Educação e Saúde, bancado pelo então ministro da pasta Gustavo Capanema. Um ano depois, o projeto de Atílio Correa Lima para a nova capital do estado de Goiás, Goiânia, traz em si uma profusão de prédios públicos realizados no estilo Art Decó, (uma espécie de Proto-modernismo, mas de imagética mais universal, dada sua consagração ao edifício nova-iorquino Empire State, entre outros), estilo esse também presente nos edificios-sedes do Correios nas capitais estaduais, arquiteturas essas estritamente veiculadas propagandisticamente à imagem da era Vargas. Fig.6: Ministério da Educação de Saúde (1932) e Estação de trens de Goiânia (1933). Fonte: 1) Nelson Kon; 2) Wikimedia Commmons. Mesmo marcado pela supressão de liberdades políticas e civis, principalmente pela ilegalidade imposta ao Partido Comunista, os anos de Getúlio Vargas deram início a uma modernização das instituições republicanas nunca antes tentada em sua, até então, curta história. É nesse quadro histórico que se tem a disseminação das idéias da Escola-Nova de John Dewey, trazida à baila nacional pela experiência do estado de São Paulo, onde se 23 experimenta uma escolarização adaptada às características regionais. Formam-se equipes interdisciplinares de educadores, sanitaristas, arquitetos e engenheiros para desenvolver propostas arquitetônicas modelares voltadas para as especificidades das regiões, majoritariamente urbanas. O Estado brasileiro, a exemplo do que se deu com a renovação de 1910-1927, assume uma postura modelar, no que diz respeito ao planejamento do espaço arquitetônico das escolas públicas, mas, neste caso, adotando os novos ideais e técnicas modernistas da arquitetura, em detrimento da limitação e obsolescência construtiva, estilística e tipológica do Neoclássico de influência francesa e de seu Ecletismo, na primeira república. O programa de necessidades das escolas procurava contemplar, além de uma maior oferta de vagas (numa previsão do processo de urbanização da população), e atividades condizentes com essa ambição estatal de construção de uma identidade ou imagem nacional. O modernismo brasileiro desenvolveu-se com características próprias, seja em qual for a sua atividade cultural, e na arquitetura, não foi diferente. A flexibilização da concepção do espaço, em função do avanço da engenharia e das técnicas construtivas, em consonância com uma nova preocupação com a singularidade da natureza e climas brasileiros, tornou possível a concepção de uma arquitetura institucional que veiculasse essa imagem desejada pelo/do Estado Novo, e que reforçasse a imagem marcária de benevolência de seu Pai dos Pobres. 3. A Arquitetura da Ditadura pós 1964 – pra perder a ternura. A educadora Esther Buffa53, em seu livro Arquitetura e Educação: Organização do espaço e propostas pedagógicas dos grupos escolares paulistas, 1893/1971, no que diz respeito à relação interdisciplinar entre educadores e construtores dos espaços escolares, nomeia os anos 1960 como os de um diálogo interrompido e os 1970 como anos de desencanto. De fato, a situação política brasileira nunca conheceu período de tamanha supressão explícita das liberdades individuais, de perseguições políticas e arbitrariedades, submetidas pelas esferas de poder. Com o mundo mergulhado em uma Guerra Fria que reproduzia, em larga escala, a rivalidade e paranóia entre sistemas governamentais opostos, Capitalismo e Socialismo, a necessidade do poder estatal, que respondia à zona de influência norte-americana, de suprimir quaisquer que fossem as situações que possibilitassem aglomerações e conluio, assumiu níveis obsessivos. 53 BUFFA, Esther & PINTO, Gerson de Almeida. Arquitetura e Educação: organização do espaço e propostas pedagógicas dos grupos escolares paulistas, 1893-1971. São Carlos: Brasília: EdUFSCar, INEP, 2002. 24 A exigência do desmantelamento ou descaracterização das áreas de vivência nas escolas ocasionou exemplos de espaços escolares fechados em si mesmos, robustos em sua composição estrutural, muito influenciados pelo Brutalismo paulista de arquitetos como Vilanova Artigas, Carlos Cascaldi e Paulo Mendes da Rocha. Paralelamente no cenário mundial, o Brutalismo, que surge como uma exigência de sinceridade à sociedade pela arquitetura em sua honestidade de materiais, acabaria por resultar em arquiteturas grandiloqüentes e fechadas em si, como, por exemplo, o Tricorn Center, na Inglaterra – que, apesar da excelência de sua técnica, seria considerado, com o andar dos anos um edifício feio e autista, até a sua demolição. Fig.7: Tricorn Centre (1966), Portsmouth, Inglaterra, de Owen Luder. Fonte: Sue Barrthames Hudson. Nos centros de ensino brasileiros (mais especificamente, os paulistas segundo Buffa), o programa de necessidades continuou extenso, principalmente nos grandes centros, mas a centralização das deliberações das políticas de Estado e o deslumbre dos projetistas com novos materiais industrializados (pré-fabricados), colocaram de lado as especificidades das regiões atendidas em valorização à rapidez e à aridez da pré-fabricação. Estados mais populosos, como São Paulo, continuaram a tocar seus escritórios públicos de projeto. No caso de Mato Grosso, parte dos projetos (como os das escolas Nilo Povoas e Presidente Médici, apresentados logo adiante), vinha das instâncias federais, que, conseqüentemente, encontraria 25 estranhamento com as peculiaridades da região, mais ou menos como um autista conseguiria se comunicar: apenas dentro de seu universo cognitivo particular. 4. Estudo de casos 4.1. Grupos Escolares na cidade de Cuiabá na 1ª República: uma renovação programática e espacial. Na regulamentação e modernização do sistema de ensino educacional republicano, a primeira medida é a reforma da Instrução Pública, iniciada no governo do Marechal Hermes da Fonseca, em 1910, indo até o ano de 1927, na gestão do Presidente Washington Luís. Em época que idéias liberais estavam se disseminando, o modelo de escola primária unificada foi, gradativamente, configurando-se como escola com várias classes e, por conseguinte, com vários professores. Entraram em cena, com mais eficácia, o ensino simultâneo e o método intuitivo, então paradigmas de corporificação do real e do ideal fortemente enraizados nos pressupostos republicanos. “Os reformadores da Instrução Pública Primária de Mato Grosso, nessa época, inspiraram-se nos modernos dispositivos disciplinares advogados pela pedagogia moderna e em uso nas escolas públicas estrangeiras. Esses substituíam os castigos físicos pela emulação e persuasão amistosa. Todos os regulamentos da Instrução Pública no período aqui considerado (1896-19101927) reafirmavam que a disciplina escolar ’deveria repousar essencialmente na feição do professor para com os alunos, de modo a estes ser dirigidos, não pelo temor, mas pelo conselho e pela persuasão amistosa (grifo meu)’” 54. São dessa época, na cidade Cuiabá, os Grupos Escolares do1º e do 2º Distritos (Centro e Porto, conhecidos atualmente como Palácio da Instrução e Casa do Artesão – ambos não funcionando mais enquanto centros de ensino), os quais eram de “uma arquitetura monumental e edificante que colocava a escola primária à altura das suas finalidades políticas e sociais e servia para propagar e divulgar a ação do governo”55. Ideologicamente, a implementação dessa arquitetura para esses grupos escolares procura corresponder à ciência construtiva de seu tempo, dando continuidade à estilística neoclássica de tendência eclética que compunha todos os prédios institucionais do anterior Império. A imagem desse espaço escolar como um palácio de instrução pode ter sido resquício de uma constituição histórica que se punha obsoleta dentro das discussões políticas já existentes de então. 54 A pesquisadora Rosinete Maria dos Reis, em sua dissertação de Mestrado Palácios da Instrução – Institucionalização dos Grupos Escolares em Mato Grosso, constrói um quadro da atuação do incipiente governo Republicano.Cuiabá:Edufmt, 2006, p.70. 55 Idem, Op. Cit., p.77. 26 A rígida cultura familiar da época, somada à tradição católica de ensino, espólio do Império, e do pensamento higienista no trato com as coletividades, demanda um modelo escolar de divisão espacial sexista, separando por alas opostas o convívio cotidiano de meninos e meninas e numa rígida vigilância, ambiência conveniente pela onipresença do modelo panóptico. 4.1.1. Grupo Escolar do 1º Distrito (Escola Modelo Barão de Melgaço): O atual Palácio da Instrução está localizado onde outrora existia a chamada Casa de Guerra, bem ao centro histórico da capital (o chamado 1º Distrito), ao lado da Catedral Metropolitana (Fig.01), entre as ruas Joaquim Murtinho e Antônio Maria, no entorno do sítio da Praça da República, onde também se situam os prédios da Secretaria Estadual de Turismo, a antiga Casa do Tesouro, em estilo neoclássico, e da Empresa dos Correios, em Art Decó. À época de sua concepção, a Escola Modelo Barão de Melgaço foi toda estruturada seguindo o estilo Neoclássico, com a fachada principal voltada para a Praça da República, cobrindo uma área construída de 1.286 m², em terreno de 4.757 m². Na fachada principal, ao centro, um frontão com o Brasão da República e a data do término de sua construção, 1913. Todo o prédio se assenta em um soco56 de alvenaria e pedra canga, ladeada por 88 janelas com vidros fabricados na Bélgica e gravados com o Brasão de armas de Mato Grosso. Possui vinte e sete salas, outrora destinadas às atividades escolares, quatro gabinetes, sanitários, vestíbulo e um vasto e espaçoso salão. Hoje em dia esses ambientes servem à salas de exposição do museu. O andar térreo apresenta as mesmas disposições do superior, este assoalhado com tábuas de cedro e forro de madeira. Em sua orientação Higienista para o arejamento e iluminação, traz internamente dois pátios internos, em lados opostos a um eixo de centralização da planta. O acesso ao piso superior é feito por uma ampla escadaria, que se acessa logo à entrada do saguão principal de entrada. O Palácio da Instrução contém elementos clássicos em sua fachada, como as pilastras, a cobertura do pórtico encimado por um frontão triangular, característico do neoclassicismo, como a platibanda que esconde o telhado, os elementos de decoração de fachada não simbolizam musas ou deuses Greco-romanos, mas motivos naturalistas, como peixes e plantas, que conferem à obra certo tom local. Essa regionalidade decorativa aliás é o que 56 Base aparente das paredes dos edifícios. 27 identifica na tipologia mural uma orientação eclética57 ao conjunto Neoclássico. A disposição interna racionaliza o espaço, pois das janelas avista-se o pátio, destinado à prática de educação física e festividades escolares, fornecendo ventilação e iluminação natural, abrindose para a cidade através de suas janelas. Fig. 8: Vista da implantação atual, imagem de satélite; Legenda: A – Pátio dos fundos, B – Pátios internos, C – Pavilhões de salas de aula, D – Corpo administrativo, E – Largo de entrada; Confontações: 1) Praça Alencastro, 2) Catedral Metropolitana, 3) Rua Joaquim Murtinho, 4) Av. Getúlio Vargas, 5) Camelódromo, 6) Rua Antônio Maria, 7) Rua João Dias, 8) Praça da República, 9) Antiga Casa do Tesouro, 10) Sede metropolitana dos Correios; Fonte: Google Earth, editada pelo autor; 57 O Ecletismo em arquitetura não é considerado um estilo, mais uma aglomeração de citações estilísticas no conjunto construtivo e decorativo de edificações do Neoclássico. No chamado pós-modernismo em arquitetura, esses jogos de referências estéticas voltam a ser utilizados, mas de maneira irreverente. 28 A rigidez programática (dada pela divisão sexual) produz, no caso do 1º Distrito, um edifício com dois pátios centrais, indicando o uso das alas por sexo e dos pátios segundo horários diferentes. 4.1.2. Grupo Escolar do 2º Distrito (Escola Senador Azeredo) Onde atualmente funciona o SESC58 Casa do Artesão outrora funcionava o Grupo Escolar Senador Azeredo, localizado no bairro do Porto – à época o segundo maior bairro da capital, assim como a sua segunda maior população –, no cruzamento entre as atuais rua 13 de Junho e Av. Senador Metello, em frente à praça Major João Bueno. Numa interessante ocupação do terreno de esquina, a divisão da planta por usos separados dos sexos, é feita por alas separadas por braços, opostos e simétricos. Nesse partido, os pavilhões de aula, apesar de confinantes sobre a onipresença disciplinar do panóptico, não parecem tão opressores enquanto parte do espaço escolar, já denunciando uma modernização em seu projeto, mesmo sendo de menor porte em comparação com o Grupo Escolar do 1º Distrito. Em seu programa de necessidades, temos um número bem menor de especificidades de ambientes, justo por sua abrangência em uma região menos populosa que o Centro da cidade. A arquitetura do Grupo Escolar Senador Azeredo traduz uma linha construtiva de um edifício simples, seguindo o padrão típico das obras públicas executadas em Mato Grosso durante a década de 1910, mas também como no 1º distrito, suas paredes são erguidas sobre socos de alvenaria e pedra canga. 58 O Serviço Social do Comércio é uma instituição de caráter privado, sem fins lucrativos e de âmbito nacional. Foi criado em 1946 por iniciativa do empresariado do comércio e de serviços, que o mantém e administra. Tem por finalidade a promoção do bem-estar social, o desenvolvimento cultural e a melhoria da qualidade de vida do trabalhador no comércio e serviços, de sua família e da comunidade em geral. 29 Fig.9: Vista aérea da implantação do prédio, atualizada, de satélite, do Grupo Escolar do 2º distrito (Porto), 1910; atualmente atende ao funcionamento da “Casa do Artesão”; Legenda: A – Pátio interno, B – Largo ajardinado de entrada, C – Pavilhões de Salas de aula, D – Junção (Hall) entre setores; Confrontações: 1) Atual Escola Estadual Senador Azeredo, 2) Rua Senador Metelo, 3) Rua 13 de Junho, 4) Praça Major João Bueno; Fonte: Google Earth, editada pelo autor; A sua fachada principal apresenta um frontão enriquecido por balaústres e adornos metálicos, na composição tipológica mural dessa arquitetura, convém destacar, mais uma vez o uso do sinal arquitetônico do Pórtico, ou seja, com uma portada única e central marcando a entrada do prédio da escola. O espaço arquitetônico interior é bem definido, podendo-se definir o núcleo da construção, de onde se faz o acesso para as duas alas da escola e desta para o pátio interno, não enclausurado59, como no caso da Escola Modelo Barão de Melgaço. Esse 59 As leis de uso e ocupação do solo declaram enquanto fossos ou pátios enclausurados aqueles cercados por paredes da edificação por todos os seus lados. 30 prédio ainda conserva todas as suas características originais de construção, mesmo já não funcionando enquanto escola. 4.2. Escola Estadual Liceu Cuiabano Localizado em uma quadra inteira do bairro Bosque, entre as avenidas Getúlio Vargas, São Sebastião e Presidente Marques e a rua Cândido Mariano, e margeado, em seu acesso principal, pela praça Gal. Mallet, o Colégio Estadual de Mato Grosso, ou Liceu Cuiabano, foi inaugurado na gestão do interventor Júlio Müller, que marcava espacialmente o tipo de modernização dos anos do Estado Novo. Fig.10: Vista aérea da implantação do prédio, atualizada, de satélite, do Colégio Estadual de Mato Grosso, atual Escola Estadual de I e II graus Liceu Cuiabano D. Maria de Arruda Müller, bairro Bosque Cuiabá-MT; Projeto do Escritório de engenharia Coimbra Bueno (1944); Legenda: A – Campo de futebol, B – Ginásio de esportes, C – Setores de salas de aula, D – Anfiteatro, E – Largo de entrada, junto à praça Gen. Mallet; Confrontações: 1) Praça Santos Dumont, 2) Rua Cândido Mariano, 3) Av. Getúlio Vargas, 4) Rua Presidente Marques; Fonte: Google Earth, editada pelo autor; É o edifício escolar mais antigo (1944), e de considerável dimensionamento (1.260 vagas), em atividade no Estado. A beleza arquitetônica e a grande estrutura de seu programa 31 de necessidades, além do valor simbólico que passou a desfrutar junto à população, entre outras razões, é claro, explicam o sucesso do Liceu Cuiabano que, mesmo após 60 anos, continua em funcionamento, o que não pôde ocorrer com os dois supracitados grupos escolares da velha República. Em seu programa de necessidades, é incomparavelmente maior do que os exemplos descritos anteriormente, justamente por deter maiores atividades recreativas, dispondo de ginásio poliesportivo, grande anfiteatro, campo de futebol de medidas profissionais e pista de atletismo. Sua implantação, em forma de “U”, privilegia um uso do pátio de maneira menos encerrada e integrada aos equipamentos de desporto. Fig. 11: Colégio Estadual de Mato Grosso, atual Escola Estadual de I e II graus Liceu Cuiabano D. Maria de Arruda Müller, bairro Bosque Cuiabá-MT; Projeto do Escritório de engenharia Coimbra Bueno. FOTOS: 1) detalhe da composição espacial “orgânica” da fachada principal, com destaque ao pórtico de entrada do auditório, nos anos 1950; 2) detalhe do pavilhão de salas de aula avarandadas, apropriadas ao clima da região, e 3) vista da fachada principal, em frente à praça Gal. Mallet, em 2007. Fonte: 1) SEDUC; 2) e 3) acervo próprio. Constituindo-se como uma edificação de arquitetura arrojada, mas trabalhando com alguns métodos constritivos da região – do soco de alvenaria da base à fixação de seixo rolado, que é um tipo de pedra “redonda” de rio, em partes da fachada –, o prédio dispõe de diversos planos volumétricos, salientados pela diferenciação dos materiais de revestimento (no tal uso engenhoso do seixo rolado, até hoje lembrado como referência nas aulas de arquitetura das universidades da grande Cuiabá, por seu belo e “atemporal” aspecto). Os engenheiros do escritório Coimbra Bueno lograram conceber uma arquitetura monumental 32 (bem ao gosto do populismo getulista), mas dinâmica, e até, guardadas as devidas proporções e diferenças, orgânica, no sentido mesmo do trabalho de Frank Lloyd Wright, fato notado pelo excelente jogo de sobreposição de volumes da fachada principal e articulação de elementos tradicionais de uma arquitetura vernacular, como os jogos de telhados (fig. 9). Dentro das salas de aula, a configuração do espaço privilegia um pé-direito60 alto, com amplas e altas janelas basculantes que servem a uma varanda lateral, em balanço, contígua ao pavilhão de salas, o que possibilita a entrada de grande quantidade de luz solar no horário de aulas diurnas, mas de maneira difusa, que arrefece uma transmissão de calor mais intensa e indesejável para essa região geográfica. O ginásio dispõe de uma estrutura de sustentação do telhado feita em ferro fundido, de desenho correspondente aos trabalhos europeus da chamada Arquitetura em Ferro do início do século XX. 4.3. Escola Estadual Nilo Povoas. Na Grande Cuiabá, no final da década de 1960, foi edificada a Escola Estadual Nilo Povoas, no alto do Morro da luz, em uma região, à época, tida como periférica, suburbana, o bairro Bandeirantes. O morro da luz, além de área de preservação ambiental e histórica, também detém um acesso direto com a avenida Historiador Rubens de Mendonça que, poucos anos depois da construção da escola, se tornaria a principal via de acesso à região do novo Centro Político Administrativo, vetor de crescimento urbano da cidade nas décadas seguintes. O projeto, federalizado, como era praxe à época, detém uma capacidade de uso de cerca de 2.250 vagas, uma das maiores até hoje dentro da Grande Cuiabá. Por ser um projeto federalizado, detém uma certa estandartização de seu programa e sistemas construtivos, com destaque para um pátio interno, de dois níveis, diferente da maneira de como se fazia até então na região de Cuiabá, coberto por uma série de arcadas de concreto, com cobertura em acrílico. Interessante também destacar a existência de um pequeno Teatro de Arena, em forma de tronco de cone, em concerto armado e alvenaria, que substituiria um providencial anfiteatro. O outro pátio, que é externo, detém pouco uso diurno, por conta da exposição ao clima agressivo, e detém uma acessibilidade difícil para as outras áreas de convivência da edificação, já que, à época de sua concepção, a orientação técnica por acessibilidade não era obrigatória, apesar de possível. 60 Pé-direito é a denominação que se dá à distância entre piso e teto (ou forro) de um ambiente interno de uma edificação. 33 Fig.12: Vista de implantação, via satélite, da Escola Estadual Nilo Póvoas (1967); Legenda: A – Acesso principal, B – Bloco da escola, C – Ginásio, D – Pátio externo, E – Acesso e estacionamento p/ professores, F – Portões secundários, G – Acesso à escadaria do morro da luz, H – Anfiteatro; Confrontações: 1) Av. Hist. Rubens de Mendonça, 2) Ladeira Pedro Góes, 3) Parque Urbano Morro da Luz, 4) Rua Manoel Ferreira de Mendonça, 5) Rua Manoel dos Santos Coimbra, 6) Rua Almeida Lara,7) Rua Diogo Domingos Ferreira; Fonte: Google Earth, editada pelo autor; O bloco denso de concreto e alvenaria defende-se da paisagem circundante do morro, mesmo com sua distribuição de ambientes bastante funcional, e de belas estruturas construtivas, como, por exemplo, a cobertura de concerto armado do ginásio. O espaço arquitetônico de convivência, por conta da solução adotada de seu pátio interno, se volta para dentro, além de ser coberto, isolando-se, tanto para o entorno do morro (com sua densa vegetação) e para o centro antigo (no sopé do morro), quanto para a rua do acesso principal (notadamente na implantação do pequeno anfiteatro da fachada principal, também de costas). 34 O pórtico, relacionado ao espaço tradicional da escola, inexiste. O que se verifica atualmente é a adaptação de uma cobertura para a rampa de acesso principal, sem muitos critérios técnicos e estéticos. Fig.13: Escola Estadual Nilo Póvoas (1967); 1) vista da fachada principal, com destaque ao pequeno anfiteatro de costas à rua; 2) detalhe da bela casca de concreto que delimita o espaço interno do ginásio. Fonte: acervo próprio. 4.4. Escola Estadual Presidente Médici A Escola Estadual Presidente Médici está localizada no antigo e, atualmente, populoso bairro Araés, contígua à via estrutural e coletora Avenida Mato Grosso, em situação suburbana, à época de sua concepção, similar à da Escola Estadual Nilo Póvoas. Apesar de pretender atender o bairro Araés, e parte do Centro Norte, outros bairros da cercania precisaram ser atendidos pela instituição. Em função disso, o conjunto arquitetônico para a escola foi concebido com uma capacidade de provento de vagas bem grande (3.420 vagas), sendo até hoje, o centro de ensino com o maior número de vagas disponíveis no estado de Mato Grosso. 35 É um projeto federalizado, assim como a da Escola Nilo Povoas, logo, sua logística de projeto, tecnologia construtiva e canteiro de obra obedecem a decisões pré-existentes, seqüenciais, de padrão de uma ação centralizada. O programa de necessidades não difere do modelo anterior, mas em suas dimensões, responde proporcionalmente à demanda a qual se presta, imensa. Fig.14: Vista de Implantação, via satélite, da Escola Estadual Presidente Médici (1971), bairro Araés, CuiabáMT; atualmente, ainda detém a maior capacidade de oferta de vagas para alunos do estado de Mato Grosso. Legenda: A – Largo de entrada/ estacionamento, B – Rampa de acesso principal, C – Blocos da escola, D – Pátio dos fundos, E – Ginásio F – Acesso dos fundos; Confrontações: 1) Rua Olegário Moreira de Barros, 2) Av. Mato Grosso, 3) Inspetoria da Secretaria de Estado de Educação, 4) Trav. Profª. Leonor Borralho; Fonte: Google Earth, editada pelo autor; 36 De novo, o concreto armado é utilizado em sua excelência de método, nas estruturas de sustentação e nas coberturas dos pavilhões e ginásio (em seqüência de abóbodas de berço, seja em linha ou em níveis), apesar de este não se comportar bem nas peculiaridades do clima da baixada cuiabana. Nos painéis de vedação vertical (paredes), a alvenaria rebocada dá lugar ao tijolo maciço aparente. Novamente, como no caso anterior, não há o Pórtico, apenas uma esguia e solitária rampa de acesso. O paisagismo é explorado preferencialmente em escala arbórea, e alta, quase inexistindo o uso de forrações e arbustos. Fig.15: Escola Estadual Presidente Médici, 1971, bairro Araés, Cuiabá-MT; atualmente, ainda detém a maior capacidade de oferta de vagas para alunos do estado de Mato Grosso. No detalhe, o conjunto de arcadas modulares, à época de sua construção. Fonte: Handerson, por Panoramio. Fig.16: Escola Estadual Presidente Médici, 1971, bairro Araés, Cuiabá-MT; atualmente, ainda detém a maior capacidade de oferta de vagas para alunos do estado de Mato Grosso. No detalhe, a entrada de serviço nos fundos e detalhe da cobertura da quadra; Fonte: acervo próprio. 37 Fig.17: Escola Estadual Presidente Médici, 1971, bairro Araés, Cuiabá-MT; atualmente, ainda detém a maior capacidade de oferta de vagas para alunos do estado de Mato Grosso. No detalhe, vista da rampa de aceso de alunos na fachada principal, voltada à Av. Mato Grosso. Fonte: acervo próprio. Na Escola Estadual Presidente Médici, temos essa implantação compactada ampliada em escala espacial e visual, que, apoiada pela singularidade do terreno, escarpado, transforma com grande movimento a experiência espacial dos blocos de salas, como se fossem armadas sobre o mar revolto. As abóbadas, por sua modulação seqüencial, parecem remeter à disposição de canhões, com em antigas fortificações. 5. O fascínio pela força ou pela imagem de força. O apontamento dessa pesquisa sobre esses artefatos não é arbitrária ou aleatória, já que esses cinco modelos estão presentes no ideário coletivo das opiniões dos mais variados arquitetos e educadores da região metropolitana de Cuiabá. São escolas que sempre se destacam por uma incontestável beleza arquitetônica. Suas disposições geográficas e espaciais, a vultuosidade de suas soluções plásticas, independente do que se possa criticar para o bem e para o mal, fazem com que esses prédios constituam, além da própria imagem institucional em si, parte da imagem panorâmica da capital mato-grossense. O simples olhar sobre essas cinco arquiteturas não traz de imediato seu completo julgamento histórico. Mas o fascínio que despertam enquanto fotogramas da imagem da cidade talvez se explique ao conhecer suas motivações políticas, portanto comunicacionais, onde a intenção simbólica de suas arquiteturas esconde uma programação marcária de seu poder em exercício. Ao conhecer a pregnância do modelo panóptico na sociedade em exercício, sabe-se que sua onipresença induz certas rotinas cotidianas e exerce sim uma relação de poder, mas que se diluí enquanto imagem do próprio, pela conveniência da reação dócil das massas a ele. É nesse momento em que a máquina publicitária desses estados de exceção e conservadores 38 trabalham efetivamente em relacionar todo e qualquer ícone de linguagem, seja verbal ou nãoverbal, na composição de sua mensagem institucional. E nisso, como se pôde conhecer, está incluso as possibilidades comunicacionais da arquitetura, descritas em suas constituições estéticas, principalmente aquela destinada ao uso comum e coletivo. Pois bem, até agora o quadro arquitetônico apresentado nessa pesquisa tratou de casos de fácil iconografização comunicacional, dados suas contundentes inflexões e motivações políticas. Em sequência, a pesquisa traz o papel do ambiente heterogêneo e prolífico, politicamente falando, de uma condição de Democracia estabelecida. 39 CAPÍTULO 3 NOS PRIMEIROS ANOS DE REDEMOCRATIZAÇÃO, ESCOLAS PARTICULARES ALTERNATIVAS COMO PRODUTO ARQUITETÔNICO DE URGÊNCIA DA CLASSE MÉDIA 40 1. O desafio da autonomia da gestão escolar no Brasil com a redemocratização, nos anos 1980. Quando da interrupção, com o golpe militar de 1964, das discussões iniciadas nas décadas de 1950 e 1960, sobre a autonomia escolar e da liberdade dos educadores para “rebater a dominância de ações administrativas e intervenções políticas com projetos alheios à realidade escolar”61, a escola pública tornou-se domínio, em quase todos os estados e municípios, de estruturas administrativas centralizadas e burocratizadas. Ainda assim, continuou-se a reivindicar, por parte dos educadores pelo menos, uma autonomia escolar, vinculada à necessidade de experimentar alternativas pedagógicas – curriculares e didáticas – que diminuíssem os altos índices de evasão e repetência na escola primária e a deterioração da qualidade da escola pública em geral, sujeita a rituais, arcaísmos e burocratismos da cultura político-administrativa brasileira. Os argumentos que defendiam uma gestão escolar autônoma como condição para a qualificação do ensino supunham a unidade escolar (o edifício, o local, o espaço em si) como o locus dessa melhoria62. Interrompidas na década de 1970, essas iniciativas foram substituídas pela centralização administrativa do Estado, então ditatorial, que ignorou solenemente as Leis constitucionais de 1961 e 197163, que dispunham dessa autonomia e descentralização administrativa à pauta das agendas políticas. E só a partir da década de 1980, é que a gestão escolar volta à cena do debate político, mas agora no contexto de reforma do Estado, descentralizado e reorganizando sua institucionalidade democrática. Supunha-se, por razões distintas, mas possivelmente influenciadas pela teorias dialogistas de comunicação, que as formas descentralizadas de prestação de serviços públicos seriam mais plurais, participativas, fortalecendo e consolidando a democracia. A teoria dialogista64 (também chamada de participativa), tem sido evidenciada, desde o final dos anos 1960, como uma das importantes propostas críticas contemporâneas nos estudos e nas práticas em Comunicação na América Latina. Sustentando um antagonismo crítico com o que era proposto pelas teorias de cunho Difusionista, na qual o emissor da 61 KRAWCZYK, Nora. A gestão escolar: Um campo minado. Artigo resultante de um estudo realizado no Cenpec em novembro de 1997 e faz parte do Projeto Gestão e Políticas Públicas, coordenado por Raquel Brunstain. p.01. 62 “É a unidade escolar que comporta as possibilidades de aperfeiçoamento qualitativo de ensino, porque é nela que podem ser realizadas experiências pedagógicas alternativas” (Krawczyk apud Mirian Jorge Warde, Cenpec:1997, p.02). 63 Lei no 4.024/6 e Lei no 5.692/71. 64 GUSHIKEN, Yuji. Op. Cit.. 41 informação a ser comunicada tomava pra si o papel de decisão do que haveria de ser veiculado aos veículos de comunicação de massa. Na produção da comunicação de massa, o pólo emissor prevalece sobre o receptor, gerenciando a oferta e controlando o consumo de informações, onde a proposta dialógica deve colocar ambos no mesmo plano, numa relação de bivalência: todo emissor pode ser receptor e todo receptor pode ser emissor65. Caso contrário não há autenticidade na relação comunicacional, e por conseguinte, na ação educacional. No Brasil, a expressão maior desse esforço na política é o projeto de orçamento participativo e, no caso da gestão escolar, essa conduta dialógica faz a identificação da autonomia institucional como o caminho mais adequado para políticas duradouras e mais próximas da comunidade. Em Porto Alegre, por exemplo, o princípio de participação na autonomia da administração escolar referia-se a uma gestão voltada para a construção de espaços de aproximação entre a administração e a comunidade, numa conduta dialógica que fez avançar consideravelmente a atuação educacional (e de suas estruturas) do aparelho estatal. Seguindo essa premissa, a discussão educacional no continente latino-americano vem privilegiando o reforço qualitativo à educação básica, em função da evolução dos sistemas de educação em nível mundial, nas novas exigências que o sistema produtivo impõe ao setor educacional, reflexo das discussões desencadeadas nos países desenvolvidos, há cerca de 20 anos, refletida nos países de economias consideradas periféricas: “As tendências atuais do debate educacional expressam de maneira bem clara a mudança do cenário socioeconômico dos últimos anos. Nesta última década do século a educação ganha centralidade por estar diretamente associada ao processo de reconversão e participação dos diferentes países em uma economia em crescente globalização. Nesse quadro, a primazia da qualidade do ensino passou a integrar a agenda dos políticos como meio para alcançar a competitividade da produção nacional no mercado mundial e o desenvolvimento de uma cidadania apta a operar no mundo globalizado.”.66 Todavia, mesmo seguindo essa perspectiva, apresentada como mais democrática do que a utilização de recursos para promover a educação formal, e que procura colocar o sistema público sob pressão da competição e assim, encorajar a sua reestruturação, diferenciação, flexibilização e especialização, as inconsistências e suposições do potencial democrático das tendências que o Estado brasileiro tem demonstrado neste fim de século, em 65 66 PASQUALI, Antônio. Sociologia e Comunicação. Petrópolis: Editora Vozes, 1973. KRAWCZYK. Op. Cit. p.02. 42 relação à educação e à inexperiência dessas discussões, ainda não atenuaram nem reduziram significativamente a ineficiência de grande parte da gestão escolar, e de seus desdobramentos, na grande demanda do ensino público, abrindo uma brecha considerável à atuação do sistema privado de ensino, já que este funciona enquanto produto de consumo Pret-a-Porter. Parafraseando Perrenoud67, pode-se afirmar que essas experiências autônomas confrontam-se com um desafio que, sem ser novo, torna-se urgente: “Entretanto, se lançarmos este desafio para a nossa realidade específica deparamo-nos, a rigor, com a constatação de que necessitamos realizá-lo duplamente, pois, no caso brasileiro, a formulação adequada seria: garantir a escolarização de todos e, ao mesmo tempo, assegurar a formação de todos”.68 Nesse sentido, esta pesquisa faz algumas observações, na abordagem que certas instituições de ensino privado atuantes em Cuiabá-MT fazem em seus discursos publicitários, focados num público específico, que, por conta disso constituem-se enquanto ideal de consumo, divulgando melhorias e solicitudes Institucionais e Infra-estruturais (suas edificações), alinhadas às expectativas de uma classe média que não se enxerga mais enquanto contingente de um ensino público oferecido irregularmente e permeado de fatores administrativos problemáticos. 2. O cidadãos-consumidores: a mobilização de parte da classe média nos anos de globalização. O homem-massa disperso na constituição de uma coletividade, é visto contemporaneamente tanto como um oprimido quanto um usurpador da urbanidade da vida nas cidades. O pavor sociológico de autores europeus que ajudaram a dissecar esse homemmassa, como o liberal Josè Ortega y Gasset69, por exemplo, que o define como “mimado”, alheio à noção de um Poder Superior, usofruidor das benesses da técnica, e, ao mesmo tempo, alienado e irreverente aos inventores desta, contrastam com a visão latino-americana, progressista, de autores como Paulo Freire70 e Nestor Garcia Canclini71, por exemplo, mais 67 Philippe Perrenoud é um sociólogo suíço, doutor em sociologia e antropologia, professor da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Genebra e diretor do Laboratório de Pesquisas sobre a Inovação na Formação e na Educação (Life), também em Genebra, que é uma referência essencial para os educadores ocidentais contemporâneos em virtude de suas idéias sobre a profissionalização de professores e a avaliação de alunos. 68 CASTRO, Maria C. P. Spínola. Escola plural: a função de uma utopia. 1997, p. 02 69 ORTEGA Y GASSET, Josè. A Rebelião das Massas. São Paulo: Marins Fontes, 2006. 70 FREIRE, Paulo. Comunicação ou Extensão? Rio de Janeiro: paz e Terra, 1977, 3ª edição; Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, ; Pedagogia da Autonomia. 43 aproximada de nosso contexto sócio-cultural, que é a de um homem médio aquém até da alienação e irreverência, prostrado na condição mestiça de um nativo colonizado, muito mais um consumidor desesperado pela urgência do mercado do que um indolente com vistas e atenções para com um Estado assistencialista. Claramente, as épocas e referenciais teóricos desses autores correspondem à constituição histórica das teorias da comunicação, que compõem uma formação que vem de uma postura verticalizada, difusionista, categórica, determinista e arbitrária, mas que caminha até uma concepção de processos dialogistas, horizontalizados, retificados, pretensamente progressistas e, portanto, democráticos. Encarando-se essa situação dicotômica, não se pode, contudo, cair na armadilha fácil de um maniqueísmo pseudo-teórico, que reproduziria as digladiações estritamente reducionistas das dinâmicas político-partidárias, recorrentes no século XX, e ainda presentes na aurora deste novo século. A contradição é situação humana muito natural, e para isso, a observação atenta dos fenômenos, de maneira pragmática, e em instrumental dialético, pode levar a um acréscimo de informação mais elaborada, complexa e plural sobre tais desdobramentos teóricos precedentes. A globalização dos mercados e o desenvolvimento de novas tecnologias, recorrentes com o fim da Guerra-fria, criaram a necessidade de dar um novo significado à organização escolar para que a escola seja eficiente e democrática no processo de formação do novo cidadão, um cidadão de uma era globalizada72. Nesse raciocínio, apresenta-se um cenário atual de subterfúgio da agonia e apreensão de grande parte da sociedade ocidental dentro das primícias de uma globalização incontestável. A leitura definitiva da globalização como degradação da política e a descrença em suas instituições, impede que “identifiquemos onde outros modos de participação se fortalecem”73, e onde o consumo privado de bens e dos meios de comunicação de massa é uma das práticas em que os direitos abstratos da democracia representativa parecem ser compensados. Nessa condição contemporânea, o consumo serve (ou poderia servir) para pensar, pois claramente, as mudanças nas maneiras de consumir afetaram as possibilidades e as formas de exercer a cidadania. Para as práxis educacionais não é mais suficiente o desenvolvimento da aquisição quantitativa de conhecimento que, de maneira geral, ainda é a metodologia do sistema educacional do Estado brasileiro. O aprendizado teria se preocupado apenas em ensinar o 71 CANCLINI, Nestor Garcia. Consumidores e Cidadãos. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995. KRAWCZYK. Op. Cit. p.02. 73 CANCLINI. Op.Cit. p.29. 72 44 Know-how para preparar profissionais especializados. Hoje a preocupação passa a ser o ensino do Know-why74, que serve para formar uma mente crítica, apta a levantar problemas, situá-los em novos contextos, identificá-los com uma nova significação a fim de resolvê-los: “Nessa nova configuração global, a flexibilidade passa a ser uma condição de sobrevivência e progresso, porque uma das poucas certezas restantes é a de que o amanhã será muito diferente de hoje. O sucesso de ontem não pode garantir o sucesso de amanhã. Também por isso as atitudes são mais importantes que a capacidade, os sistemas são mais importantes que os produtos, e o conhecimento é mais fundamental que a experiência. Outra conseqüência de semelhante transformação é o fato fundamental de que os problemas não são isolados; todos estão interligados. Vivemos num mundo 75 planetariamente sistêmico;(...) tudo está interligado.” No que foi pesquisado acerca dos projetos pedagógicos dos dois casos propostos para estudo neste capítulo (Centro Eucacional Plural e Escola Livre Porto Cuiabá), ambos se preocupam, enquanto insituições de ensino privado, em apresentar definições marcárias próprias do que almejam colocar à disposição de seu público consumidor, respectivamente: Plrualismo e Liberdade. Curiosamente, tais atributos marcários denominam (e os distinguem da multidão) esses empreendimentos. Nesse sentido, podemos relacionar diretamente com as tais disposições de saber o porquê (know-why) que são contundentes em ambos os discursos institucionais. Assim o parecem fazer, tanto por convicção institucional, quanto por estratégia de marketing direcionada. A anexação do discurso pedagógico ao discurso publicitário está na ordem do dia, nessa sociedade de controle76 – a contemporânea – a qual estaria intrinsecamente à mercê simbiótica das alegrias do marketing. Todavia, ambos os casos surgiram de iniciativas privadas de grupos familiares de classe média, que se constituíram como demanda para uma metodologia de ensino diferenciada do que era oferecido, no mercado e pelo Estado até então, como se o mercado privado, sobre o gosto de seus consumidores, pudesse, ou devesse, substituir a suposta, ou proposta ineficiência do Estado para tal. No caso do Centro Educacional Plural, o método didático é distinto entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental. Para o primeiro, existe o Método Casinha Feliz, ou Método Iracema Meireles, que é o nome da educadora que o criou nos anos 1950, que 74 Em tradução literal: Saber o porquê. É a ação crítica e conseqüente de antemão ao Saber como. OKAMOTO, Jun. Percepção ambiental e comportamento – edição revisada e ampliada. São Paulo: Mackenzie, 2004. p.251. 76 DELEUZE, Gilles. Post-Scriptum: sobre as sociedades de controle. In: Conversações. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 75 45 afirma que “as crianças vão fazendo suas descobertas e entendendo as relações entre os sons e símbolos”77; para o segundo, foi adotado um método paulista chamado Etapa78, criado em 1970, para uma centro de ensino homônimo, no qual, além de existir um suporte prévestibular, assegura oferecer uma educação cívica, que ao mesmo tempo prepara para a competitividade do mercado de trabalho, o qual se sustenta na assertiva: Educação, Cidadania e Competência,. O Centro Educacional Plural, enquanto instituição, apresenta uma organização empresarial incisiva em sua logística, identificada nas relações estritamente profissionais de veiculação de sua marca à imagem (física e cultural) de sua instituição a seus consumidores, através de um slogan publicitário que declara: –“não basta ser único, tem que ser PLURAL”. Se a real imagem espacial, arquitetônica, realmente pode estar veiculada a essa marca institucional, logo em seqüencia deste capítulo isso será analizado. Fig. 18: Centro Educacional Plural, Cuiabá (1986, 1997 e 2001); exemplo da anexação natural entre o discurso pedagógico e o publicitário na divulgação da marca, que explora através de suas cores, todos os níveis midiáticos possíveis, desde o projeto arquitetônico, até aos uniformes dos alunos; Fonte: do site institucional. A Escola Livre Porto Cuiabá conta com um método de ensino da Pedagogia Waldorf, tendo como base a Antroposofia, oriunda do pensamento do filósofo alemão Rudolf Steiner. Primordialmente desenvolvida para educar os filhos dos operários da fábrica de cigarros Waldorf/Astoria, nos idos de 1919, tal método, de orientação muito mais holística79 77 Informações acerca do Centro Educacional Plural retiradas diretamente do site da instituição, www.educacaoplural.com.br; 78 Informações acerca do Sistema Didático Etapa retiradas diretamente do site da instituição, www.sistemadidaticoetapa.com.br; 79 Holismo (grego holos, todo) é a idéia de que as propriedades de um sistema, quer se trate de seres humanos ou outros organismos, não podem ser explicadas apenas pela soma de seus componentes. É também chamado nãoreducionismo, por ser o oposto do reducionismo. Vê o mundo como um todo integrado, como um organismo. 46 do que socialista, conclama a busca de harmonia entre o Pensar, o Sentir e o Querer, tornando, segundo o método, o saber não como um fim último a ser atingido, mas um meio para que o aluno alcance harmonia e estabilidade em seu processo de autoconhecimento e conhecimento da realidade exterior. Mesmo tendo uma logística de funcionamento particular, a organização da escola proclama-se mantida por uma Associação Pedagógica Parsifal, declarada sem fins lucrativos, que incorpora aos seus quadros administrativos, vários pais de alunos. Essa iniciativa privada foi capitaneada por famílias de classe média que já haviam tido maior ou menor contato com esse tipo de metodologia de ensino. Permeado de atividades paradidáticas pouco convencionais, pelo menos em comparação com o que é parcamente disponibilizado e praticado pela grande maioria dos centros de ensino no Brasil, sejam eles públicos ou privados, esse centro de ensino atribui a sua gestão escolar uma formação que considera humanista, não necessariamente comprometida com a preparação pré-vestibular, e com a competitividade do mercado de trabalho, numa opção pedagógica que destoa de todas as urgências da livre iniciativa capitalista. Para essa metodologia, o ensino deve estimular a vida do pensamento, fazendo-o com exatidão, trabalhando a responsabilidade na ação, e a formação do juízo independente. Essa situação institucional corresponde a um processo de consumo mais elaborado, que pode servir para pensar. Fig. 19: Escola Livre Porto Cuiabá, Cuiabá (1989,1991 e 1996): vistas da Unidade 1 (sede de ensino à infância), e sala de aula do ensino fundamental (em outra edificação); o uso da marca (no alto à esquerda), existe, mas é discreto, secundário até, incorporado a detalhes do design do prédio (a cor azul da marca) e dos uniformes; Fonte: Acervo próprio e do site institucional. 47 3. A arquitetura como elemento cultural multimidiático: a embalagem de suporte em processos interativos na veiculação de uma propaganda pedagógica. Nesse capítulo, apontam-se, curiosamente, que os casos pesquisados do Centro Educacional Plural, e da Escola Livre Porto Cuiabá, ambas estabelecidas em Cuiabá, surgiram da mobilização de núcleos familiares desejosos por uma abordagem pedagógica alternativa (leia-se não tradicional), acompanhando a demanda por uma “autonomia” e postura crítica dialogista (aos meios de produção e ao mercado), em função das alternativas esvaziadas da até então estrutura educacional pública e privada da baixada cuiabana, no entremeio das décadas de 1980 e 1990. À época, a estrutura existente consistia de escolas particulares ditas tradicionais, escolas confessionais, cursinhos exclusivamente voltados ao ingresso ao vestibular, de freqüentação da pequena elite histórica, e uma rede pública que não conseguia prover, nem quantitativa, nem qualitativamente, à demanda populacional subseqüente à migração maciça dos anos 1970 e 1980. Sendo que tal situação infra-estrutural foi muito parecida em quaisquer localidades que sofreram essa ação de diáspora, durante esse período histórico. Por postarem-se como alternativas para uma classe média forasteira e, de certa maneira, também alternativa, incorporam a tônica do experimento, da vanguarda, do alternativo, ao seu discurso pedagógico/publicitário como complemento paradidático (ou seria melhor dizer enquanto valor agregado de marca), o que de certa maneira também se incorporam em suas arquiteturas. Esses casos específicos tratam de maneira similar seu espaço (e produto) arquitetônico, em função de sua demanda institucional. Suplantada a urgência social de uma infra-estrutura de ensino adequada, correspondente a uma demanda específica de um setor da classe média (ou seja, um público), sucedeu-se naturalmente, sob o ponto de vista da dinâmica de mercado, o desdobramento da marca institucional dos estabelecimentos privados, através da exposição midiática, onde foi possível iconografar (ou estereotipar) o espaço arquitetônico, atribuindo um valor de consumo com fundamento estético ao estabelecimento de ensino. Criam-se logomarcas, logotipias, ícones, padrões de cores e formas, e estes se desdobram em artefatos visuais mais concretos, como, por exemplo, em uma linguagem arquitetônica, no design em geral, desde as indumentárias de funcionários e alunos, sistemas de comunicação visual, artes gráficas de materiais didáticos e mídias eletrônicas da instituição (website). Até mesmo na prática de atividades paradidáticas que alcancem a referência estética de seus alunos. 48 Midiaticamente, a relação estética com a instituição no consumo de sua marca é reificada, refeita para ser olhada, apropriada. Mesmo com o olhar como sentido de alerta e de distância: “Olhar passa a significar apropriar-se. E deixar-se olhar significa deixar-se apropriar. E apropriar-se é a tarefa que se impôs a ‘era da orientação’ em suas descobertas, conquistas, expansões e, em sua última versão, na chamada globalização.(...) Assim, ser visto, aparentar, enfim, ser uma imagem, passam a ser o grande imperativo da era da orientação em seu apogeu. (...) Transformados em imagens, os corpos devem integrar uma nova lógica de produção, passam a participar sem resistência desta nova ordem social.”80 A preocupação com as novidades instantâneas, com a neofagia81 como direção de vida chega a levar esse público consumidor, a se transformar em imagens de si mesmo: imagens de corpos, imagens de profissionais, imagens de pais, imagens de cidadãos, imagens de humanos82. Não importa o fundamento, o que importa é o contexto, logo, não importa ser, mas importa parecer. Fig. 20: Página de apresentação institucional do Website do Centro Educacional Plural: a interatividade entre as mídias descritas veicula todos os valores de uso impregnados na marca da instituição; vê-se a estrutura arquitetônica e imagens de estudantes uniformizados – a logomarca e suas cores estão por toda a página; Fonte: do site institucional. 80 OKAMOTO. Op. Cit. p.252. Tomo a liberdade de inferir um neologismo à postura hedonística do consumo contemporâneo. 82 OKAMOTO. Op. Cit. p.252. 81 49 É possível que esses fatos sejam demandas a essas arquiteturas, nas quais se objetivam a funcionalidade e a estética abstrata, na procura do efeito público, na demonstração da sua importância, de seu status social. E, esses fatos podem ser perigosos, pois, “(...) Com a universalização do valor de troca na produção artística e cultural, o vazio tornou-se o seu conteúdo, sua verdadeira substância. No que diz respeito à arte, a estética se torna cada vez mais vazia e diretamente fetichizada, uma estética que passa a expressar o conteúdo, o vazio, portanto, 83 da mercadoria, do capital.” Na verdade, a produção capitalista evoluiu de tal forma na contemporaneidade, que o valor de troca passou a autonomizar-se como verdadeiro desiderato da produção, o capital aprendeu a criar, recriar e programar os valores de uso. E é em função desses seus subterfúgios, engenhos, de seu marketing portanto, que intencionam-se interferências no gosto dos consumidores, dentro da operação altiva do fenômeno dialogista na prática comunicacional latino-americana. Há de se entender que, sendo interferências, elas não seriam necessariamente, ou exclusivamente manipuladoras, pois a todo tipo de comunicação de massa realizada a seu público, essa interferência não ultrapassaria o caráter sugestivo, apesar de, muitas vezes, ser apelativo. 4. A adaptação do modelo arquitetônico disciplinar junto à sociedade de controle. No que diz respeito à arquitetura escolar, em sua concepção panóptica inicial, hoje, não é suficiente apenas discorrer sobre a percepção de seu espaço de caráter euclidiano84, sobre os ambientes, seus acabamentos, mas também, em como a imagem e linguagem destes, qualitativamente, atraem e produzem uma relação comunicacional (sensacional) de conforto, de acolhimento, atendendo às aspirações subjetivas do ser humano, desenvolvendo o sentido afetivo ou a ligação prazerosa que enseje, ao contrário do que se destinava primordialmente, a permanência no local, útil e desejada ao papel político contemporâneo sobre o educar. As sociedades disciplinares, outrora catalisadoras do controle sobre a multidão para o cumprimento do programa modernizador do ocidente, no âmbito das quais, a escola 83 CARVALHO, Edmilson. A cultura como valor de troca. Texto especial 097, da série arquitextos 016, postado no sítio www.vitruvius.com.br, em Setembro de 2001. 84 Foi aproximadamente 300 anos antes de Cristo que Euclides, filósofo e matemático grego, escreveu seu livro Os Elementos, um dos clássicos que mais influenciou a Geometria ocidental. Nessa obra ele enuncia leis de forma universal, formula-as de modo a torná-las como rigorosas e absolutas e o que é mais importante, não se limita a enunciar um grande número de leis geométricas: ele as demonstra (no que ele mesmo denominou de “teoremas”). Até o século XIX, os Elementos não foram apenas o livro texto da Geometria, mas o modelo daquilo que o pensamento científico devia ser. 50 tradicional foi concebida, em que os corpos tornavam-se dóceis e disciplinados no espaço de confinamento, onde o indivíduo não cessava de passar de um espaço fechado a outro, cada qual com suas leis: primeiro a família, depois a escola, depois a caserna, depois a fábrica, de vez em quando o hospital, e, eventualmente, a prisão85, encontram-se em estado de falência e obsolescência. A sociedade de controle resulta dessa crise dos confinamentos. No mundo contemporâneo, não é necessária disciplina enquanto pode-se prover controle. São formas ultra-rápidas de controle ao ar livre, que substituem as antigas disciplinas de confinamento. A incorporação ao cotidiano contemporâneo de máquinas e ambiências que propiciam uma territorialização não-material, virtual, dos indivíduos de uma sociedade anulam, de certa maneira, a rigidez do campo de visão espacial outrora possibilitada pela disciplina. Os telefones celulares, os computadores e seus universos particulares e não-concretos desterritorializam o poder marcial com que as edificações panópticas, como a escola, faziam funcionar a sociedade. O poder (ou o capitalismo, ou as modernidades), em reação, substitui a assinatura e o registro civil por cifras, chips e gps, no afã de manter-se, estender sua atuação para cada indivíduo, no refúgio que cada um encontrou para sua subjetividade. A rede mundial de computadores abole algumas fronteiras indispensáveis na escola tradicional. Como controlar o contato com a exterioridade se o muro da escola ou as grades das janelas nada podem contra as mensagens veiculadas pelos aparelhos celulares e similares? Alguns centros de ensino imediatamente perceberam essa nova situação e passaram a dotar seus programas de necessidades prediais de recursos didáticos compatíveis com essa ausência de fronteiras. Os laboratórios de informática já são, desde os anos 1990, parte integrante e atuante nos processos educacionais das escolas, principalmente nos centros de ensino privado, em que grande parte de seus estudantes detém poder aquisitivo para possuir um (ou mais de um) computador, devidamente interligado à rede mundial, e que não se vê mais desincorporado de seu uso cotidiano: “as antigas sociedades de soberania manejavam máquinas simples, alavancas, roldanas, relógios; mas as sociedades disciplinares recentes tinham por equipamento máquinas energéticas, com o perigo passivo da entropia e o perigo ativo da sabotagem; as sociedades de controle operam por máquinas de uma terceira espécie, máquinas de informática e computadores, cujo perigo passivo é a interferência, e, o ativo, a pirataria e a introdução de vírus. Não é uma evolução tecnológica sem ser, mais profundamente, uma mutação do capitalismo.” 86 85 86 DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p.219. DELEUZE. Op. Cit. p.223. 51 Dessa maneira, seria esperado que essas mudanças sócio-técnicas pudessem provocar radicais transformações, ou pelo menos, adaptações nas estruturas arquitetônicas outrora mais condizentes com a organização disciplinar. Isso não é tão unânime nos casos apresentados nesse capítulo: no Centro Educacional Plural essa incorporação de espaços e infra-estrutruras multi-midiáticas é natural, premente e apresentada enquanto valor agregado de uso-fruto institucional, enquanto que na Escola Livre Porto Cuiabá, por força de sua orientação filosófico-pedagógica, essa orientação programática é ignorada, em detrimento dos espaços voltados para oficinas de trabalhos manuais, teatro e espaços de convivência social, num programa estritamente coerente com as assertivas da Pedagogia Waldorf. Fig. 21: Laboratório de informática do Centro Educacional Plural. Fonte: Acervo próprio. 52 Fig. 22: Atelier de trabalhos manuais da Escola Livre Proto Cuiabá. Fonte: Acervo Próprio. 5. Descrição de casos 5.1. Escola Livre Porto Cuiabá Localizado no bairro Dom Aquino, e em função de sua repartição espacial (dois prédios, em terrenos separados), na rua Tenente Lira, funciona o prédio para a Coordenação do Jardim e do Primeiro Grau, além das salas do Jardim I, II e III, Classe de Alfabetização, e 1ª a 7ª Séries. A Unidade 2 fica na rua Sta. Terezinha, s/n, onde funciona a tesouraria da Escola, a biblioteca, salas da 8ª Série e 1º ao 3º Colegial, além da Coordenação do Ensino Médio. As turmas são pequenas (cerca de vinte alunos por turma), em comparação à outras escolas, em função de observações pedagógicas próprias, havendo, inclusive salas para atividades especiais, paradidáticas. Não se sabe se o programa pedagógico holístico da instituição influencia, mas a disposição do programa de necessidades, fragmentada, separa e reserva muito bem a convivência entre as idades escolares. A instituição alega, simplesmente, força de ocasião e surpresa sobre a demanda de contingência, daí, as ampliações pulverizadas em terrenos separados pelo sistema viário. 53 No geral, o programa detém as salas de aula normais, mas com mobiliário adaptado para trabalhos em dupla, além de salas de trabalhos manuais (cerâmica e tecelagem) onde todos se sentam à mesma mesa de trabalho. A importância dada aos espaços não encerrados enquanto parte do programa faz estabelecer um trabalho extenso de paisagismo sobre os sítios, mais que simples proteção vegetal, a hierarquia de aplicações de escala paisagística87 é plena e bem cuidada, tornando-os zonas de convivência. Fig.23: Vista de Implantação, via satélite, da Escola Livre Porto Cuiabá (1989,1991 e 1996), bairro Dom Aquino, Cuiabá-MT. Legenda: A – Unidade 2 (prédio com 4 pavimentos); B – Pátio coberto da Unidade 2; C – Terreno adquirido pela escola para futura ampliação; D – Pátio aberto da unidade 1; E – Pátio coberto da unidade 1; F – Pavilhão de salas da unidade 1; G – Cozinha; H – Área verde sobre canalização do Córrego do Gambá (área sobre manutenção concedida); Confrontações: 1) Rua Tenente Lira, 2) Rua Santa Terezinha; Fonte: Google Earth, editada pelo autor; Os sistemas construtivos atendem solicitações institucionais e funcionais, onde encontramos, desde elementos pré-fabricados de concreto, desempenhando função estrutural, 87 A Hierarquia das aplicações vegetais, no paisagismo, classifica-se por porte espacial: Árvores, arbustos, semiarbustos e forrações. 54 até entalhes em madeira, servindo às exposições iconográficas da filosofia pedagógica. Certas tipologias funcionais do sítio, na unidade 1, tendem à referências residenciais, como no uso de varandas voltadas a jardins, e nos telhados, visíveis, não escondidos por platibandas, em cobertura cerâmica. Todavia, no acesso principal da unidade 1, temos a referência tipológica do pórtico, constante na maioria os casos de centros de ensino, que se preza, nesse caso, em especial, à amalgamar-se com a ideologia do local, sendo este em estrutura de madeira com um entalhe da identidade visual da instituição à frente. Fig. 24: Vista da unidade 1 da Escola Livre Porto Cuiabá (1989,1991 e 1996), bairro Dom Aquino, Cuiabá-MT.; Fonte: Do site institucional; Na unidade 2, o prédio em alvenaria de múltiplos pavimentos justamente se destaca na paisagem do sítio por sua verticalidade inesperada à região essencialmente residencial e térrea. Dispõe de um volume de destaque, formado pela caixa de escada da edificação, destaque esse realçado pela cor de sua pintura: vermelho. Em relação à sua implantação, essa verticalidade procura ser compensada por extensa arborização em torno deste. 55 Fig. 25: Vista da unidade 2 da Escola Livre Porto Cuiabá (1989,1991 e 1996), bairro Dom Aquino, Cuiabá-MT.; Fonte: acervo próprio; 5.2. Centro Educacional Plural O Centro Educacional Plural está localizado no bairro Quilombo, em Cuiabá, e, assim como o Livre Porto, sua ocupação está disposta em terrenos separados pelo sistema viário, entre as ruas Presidente Wenceslau Brás (que, na verdade, atravessa a escola), Presidente Afonso Penna, Américo Salgado e Ten. Eulálio Guerra. Outrora pensado apenas para educação infantil, a procura pela instituição fez crescer a necessidade de ampliar-se o espaço necessário para as atividades didáticas e paradidáticas, suportadas pelo projeto pedagógico amplo. Esse projeto pedagógico procura comportar, além do básico, o seguinte programa de necessidades: laboratórios de Informática, Ciências e de Culinária, Biblioteca, Salas de Leitura, Vídeo e Multimídia, Cantina, Salão de Lanche, Unidade Maternal, Pátio com equipamentos para educação no trânsito, Piscina e Ginásio Poliesportivo. O uso das cores nas edificações da instituição é marcante, suportada pela paleta de cores da marca Institucional (Azul pastel, laranja, amarelo e branco), e adaptada, pela sua composição, às alvenarias e acessórios metálicos (beirais, gurada-corpos, esquadrias). Da maioria dos casos estudados nesta pesquisa, esse centro de ensino está implantado em um região de declive acentuado, sendo constante a difereça de níveis entre uma edificação e outra do complexo, assim como a sua inteira interligação de acesso, feita por rampas apropriadas aos alunos e usuário que sejam PNE88. 88 Portador de Necessidades Especiais. 56 Fig.26: Vista de Implantação, via satélite, do Centro Educacional Plural (1986), bairro Quilombo, Cuiabá-MT. Legenda: A – Ginásio Poliesportivo coberto, B – Passarela suspensa, C – Salas de aula, D – Salas de aula e cantina, E – Quadra descoberta, F – Pátio de educação no trânsito, G – Unidade Maternal, H – Laboratórios de ciência e de Culinária, I – Biblioteca, J – Piscina, K – Administração; Confrontações: 1) Praça, 2) Rua Américo Salgado, 3) Rua Presidente Wenceslau Braz, 4) Av. Presidente Afonso Penna, 5) Rua Ten. Eulálio Guerra; FONTE: Google Earth, editada pelo autor. A escala humana dos mobiliários respondem à idade a qual atendem. Assim, no maternal, primeiras e últimas séries, o tamanho dos mobiliários se distinguem, privilegiando 57 os trabalhos em equipes. A tipologia construtiva e decorativa também tem suas especificidades, onde, por exemplo, no maternal, o pavilhão de aulas têm configuração construtiva de caráter lúdico, que remete a um castelinho, e nos demais pavilhões, para séries mais avançadas, a aparência industrial dos artefatos metálicos padronizam mais a composição geral do conjunto. Na entrada principal, ve-se, de novo, o uso do pórtico, personificado por uma marquise em balanço, mas o elemento cosntrutivo mais marcante do Invólucro mural do conjunto trata-se, sem dúvida, da passarela suspensa entre o ginásio coberto e o complexo principal, que coroa, com seu desenho e cor específicos, a passagem e a imagem que se tem pela rua Presidente Wenceslau Braz, confundindo a possível percepção do que seria espaço público e espaço privado. Fig. 27: A intervenção urbanística de sua arquitetura traz uma sensação de envolvimento do espaço público, descaracterizando de certa maneira as noções estéticas de espaço público e espaço privado; Fonte: do site institucional e acervo próprio. 6. Urgências e emergências: arquiteturas em adaptação. Apesar de distintos em seus projetos pedagógicos, ambos os casos estudados nesse capítulo compõem ações sistêmicas do que se convenciona chamar, em comunicação, de comportamento de público consumidor. Nesse apontamento, observam-se que as simples ações político-organizacionais de um reduzido grupo de cidadãos, os quais, conscientes das possibilidades de realização de suas premências enquanto consumidores potenciais de um tipo escpecífico de produto insitucional – educação de qualidade, não condiconada pelo Estado –, deflagraram a criação de um novo 58 nicho regional de mercado, na apropriação de uma educação de cunho privado, mas que se pretendia diferenciada pedagogicamente. Da urgência sobre esse paradigma social decorreram e continuam decorrendo medidas emergenciais para a possibilidade de realização dos emprendimentos educacionais na adaptação espacial de seus estabelecimentos. Num primeiro momento, ambos os casos começam a funcionar, enquanto centros de ensino, em edificações embrionárias, precariamente ao que exigiam seus projetos pedagógicos, mas que vão se transformando arquitetonicamente com o passar dos anos, no mesmo passo em que se afirmam, enquanto produtos de consumo, na consolidação de suas marcas institucionais. Observa-se uma periodicidade em torno de dez anos sobre as modificações e ampliações espaciais e infra-estruturais sobre suas arquiteturas, que acompanham o crescimento do número de turmas em curso e da publicidade de suas marcas enquanto representantes de um produto direcionado a um público específico. Os dois casos, apesar de se diferenciarem entre si pela gestão educacional, incorporam sistemicamente à imagem e consolidação de suas arquiteturas o desenvolvimento de uma Lei de Criação89 marcária. Na reconstituição das liberdades individuais possibilitada pela redemocratização brasileira a partir de 1985, não só as dicussões de descentralização da gestão escolar pública, para seu pleno exercício, fizeram a ordem do dia: métodos e sistemas educacionais alternativos, que mesmo de cunho privado poderiam ser considerados enquanto subversivos pela Ditadura Militar, agora poderiam ser disponibilizados a quem pudesse bancá-los. Nessa prática de consumo por parte da sociedade civil é que se consolida o abismo social e o marketing negativo relacionados à qualidade de Ensino proporcionada pelo Estado brasileiro redemocratizado, que opera com uma inércia mais contingente, massificadora, de gestão política heterogênia em suas instâncias, situação essa estudada no próximo capitulo. 89 A Lei de Criação constitui as possibilidades de reprodução da imagem e qualidades de uma Marca para a sua veiculação comunicacional. 59 CAPÍTULO 4 OS PERCALÇOS DE UMA ARQUITETURA ESCOLAR PÚBLICA QUE DIALOGUE COM A CONDIÇÃO DE REDEMOCRATIZAÇÃO 60 1. Democracia e Cidadania no Brasil – uma construção histórica e recente. No Brasil, a trajetória da formação da identidade nacional traçou-se paralelamente ao processo de organização política e social, com a atuação desinteressada da grande massa. Apesar da colonização, o Brasil construiu, e constrói, assim, tardia e fragmentadamente, uma consciência de si como coletividade, como nação. O esforço de construção da democracia no Brasil só ganhou ímpeto após o fim da ditadura militar, em 1985, cuja maior prova é a freqüência do uso e a difusão da palavra cidadania: “(...) mais ainda, ela (a cidadania) substituiu o próprio povo na retórica política. Não se diz mais ‘o povo quer isto ou aquilo’, diz-se ‘a cidadania quer’. Cidadania virou gente. No auge do entusiasmo cívico, chamamos a Constituição de 1988 de Constituição Cidadã (grifo meu)”90. Em cada Estado-Nação republicano, o fenômeno da cidadania é complexo e historicamente singular, mas, pode-se afirmar que, apesar dos princípios gerais que regem a República, o gozo de certos direitos, como a liberdade de pensamento e voto, não gera automaticamente o gozo de outros, como segurança e o emprego. O exercício do voto não garante a existência de governos atentos aos problemas básicos da população. Dito de outra maneira: a liberdade e a participação não levam automaticamente, ou rapidamente, à resolução de problemas sociais, pois a situação democrática, essencialmente, não comporta um Estado com decisões unilaterais e singulares, mas plurais e complexas. Uma cidadania plena, que combine liberdade, participação e igualdade para todos, é um ideal desenvolvido de parâmetro para o julgamento da qualidade da cidadania em cada país e em cada momento histórico. É considerando essa distinção entre a cidadania como idéia e a sua construção efetiva, que procuraremos pensar, para a Grande Cuiabá, as políticas públicas educacionais particularmente no que se refere à produção dos espaços arquitetônicos específicos (escolas). 1.1. Da Constituição do Estado de Mato Grosso Numa democracia moderna, a carta magna de sua validação, da ação de “comprometimento” de seus cidadãos é expressa, segundo a construção iluminista do EstadoNação, pela sua Constituição. Nesse efetivo contrato social, que institui as regras de convivência de uma sociedade, independente do jugo de quaisquer soberanos, residem as 90 CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil – o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p.07. 61 bases para a implementação de ações administrativas em um Estado Republicano. Assim sendo, é pelo amplo alcance das regras comuns da Constituição e através do recolhimento de impostos e do desenvolvimento de um sistema econômico de produção, que se pretende lograr êxito em quaisquer atividades administrativas da República. Grande parte das democracias contemporâneas contém, além de sua Constituição Nacional, um sistema autônomo de Constituições Estaduais ou locais, submetidas à Carta magna, mas dispostas, como já se disse, de certas autonomias em relação à suas políticas públicas. Na República Federativa do Brasil isso é fato. Por ser uma federação, a Constituição Federal, de 1988 – a 6ª promulgada na história do país, delibera também sobre a implementação de Constituições Estaduais. A do Estado de Mato Grosso (igualmente sua 6ª Constituição), foi promulgada em 5 de Outubro de 1989. Deve-se lembrar que estamos tratando apenas das considerações gerais. Para compreensão total das disposições existentes no Estado de Mato Grosso, deve-se recorrer ao Anexo I deste trabalho, assim com às Leis Complementares Nº 49, 57, 77, 152, 153, 186 e 209. Todavia, estas disposições gerais são suficientes para compreender o Estado na gestão da educação para a sociedade. Entendemos que a vontade expressa na Constituição de gestão integral da educação inclui, entre suas preocupações, a pertinência (educação e qualidade) da infraestrutura das edificações destinadas às suas práticas. 2. Redemocratização: experiências de descentralização da gestão escolar. É interessante constatar que, em nossa construção histórica sobre arquiteturas de centros de ensino anteriores ao período de redemocratização (1985-2005), as intervenções estatais, no Aglomerado Urbano Cuiabá-Várzea Grande, foram feitas por governos de cunho conservador, antidemocrático e autoritário. Em contrapartida, o ideário da educação democrática no Brasil foi construído enquanto força política a partir das incursões metodológicas e práticas de Anísio Teixeira, durante o primeiro período democrático entre 1945 e 1964. Seguramente, um dos maiores educadores que o país conheceu, e marcante em sua proposta revolucionária, influenciada pela teoria da Escola Nova, de John Dewey, Anísio Teixeira situa-se como um arauto da divisão igualitária das oportunidades, sendo a educação a base dessa divisão e, para ele, o caminho para o amadurecimento político de qualquer cidadão. Suas idéias, nunca impostas, sempre colocadas e discutidas, alteraram o rumo do ensino no país, provocando mudanças que ainda hoje procuram ser empregadas em todas as etapas educacionais, consistindo no 62 principal vetor de fundamentação das discussões atuais acerca da descentralização da gestão escolar. No que diz respeito à concepção arquitetônica do espaço escolar, o educador baiano destacou-se, primeiro, por sua experiência com as Escolas-Nucleares e Escolas-Platoon, no até então existente Estado da Guanabara, em parceria com o arquiteto Enéas Silva e, posteriormente, pela concepção e experiência modelares das Escolas-Classe Escola-Parque91, (Centro Educacional Carneiro Ribeiro - 1950), em Salvador, considerada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), como uma das maiores experiências de ensino fundamental neste século. Fig. 28: Centro Educacional Carneiro Ribero, Salvador-BA (Hélio Duarte, 1950), o suporte arquitetônico da Escola-Parque na ação político pedagógica de Anísio Teixeira. Fonte: 01) Hélio Duarte; 02) UnB-CEDOC. Já nessa experiência, as discussões suscitadas por Anísio orientavam-se numa conduta muito mais dialógica do que difusionista, acerscentando ao programa político-pedagógico e à imagem do espaço escolar categorizações referentes à realidade social e cultural de onde se instalariam tais equipamentos institucionais. Ou seja, pedagogicamente, politicamente e arquitetonicamente, as ações de implementação do AIE, à primeira vista, pareceram ceder sua rigidez programática e ideológica aos questionamentos progressistas iniciados dentro dos blocos políticos formados em função da guerra-fria, onde a humanização da dinâmica social, tanto em relação ao Capitalismo, quanto o Comunismo, fizeram-se prementes. 91 (Se escreve assim mesmo, os dois substantivos compostos juntos, de acordo com a referência bibliográfica) Constitui uma ação político-educacional testada na cidade de Salvador, BA, inspirada no modelo estadunidense de Escolas-Platoon, onde existia um “rodízio” entre as atividades exercidas nas edificações voltadas às aulas ordinárias em meio-período (Escolas-Classe), e outras atividades paradidáticas desenvolvidas no núcleo regional exercido pela edificação da Escola-Parque. Ver DUARTE, Helio de Queiroz. Escolas-Classe Escola –Parque, uma experiência educacional. São Paulo: Dedalus, Acervo FAU-USP, 1973. 63 Fig.29: Diagrama básico acerca do funcionamento do sistema de Escolas-Classe Escola-Parque. Fonte: DUARTE, Op. Cit. 1973. Nos anos 1956-1961, o estabelecimento de forças na realidade do AIE Escolar sofre uma refrega, onde setores ideológicos antagônicos da política educacional brasileira (Libreais idealistas e pragmáticos – representados por Anísio Teixeira – e Socialistas – encabeçados por Florestan Fernandes), unem-se na luta para a aprovação da L.D.B. (Lei de Diretrizes Básicas da Educação N�. 4.024 de 20/12/1961)92, que propiciaria, a partir desta data, um ensino de vulto estritamente laico, visto que a realidade brasileira de então tinha na Igreja Católica a principal provedora e detentora dessa atribuição clamada pelas revoluções modernas. Apesar das movimentações iniciais de Socialistas e Liberias contra o monopólio da igreja, os embates ocasionaram em uma solução conciliatória de Lei, onde se “preserva o caráter típico da educação escolarizada no Brasil, como fator divorciado da reconstrução social”93. A força desse revés eclipsou um tanto a figura política de Anísio Teixeira, o qual particularmente sempre possuíra uma tradição Liberal de educação, tais aos moldes da educação pública e democrática dos E.U.A. e Europa, radicalmente laicos. Com o fim da ditadura militar de 1964-1985, e a eleição (indireta, ainda) do 1º Presidente da República não-militar – Tancredo Neves – em 1985, é inaugurada uma nova época na sociedade e na política brasileira, iniciada e marcada um ano antes pela comoção popular na campanha para liberação do pleito à Presidente da República, conhecida como 92 93 BUFFA, Ester. Op. Cit. p.79. Idem. p.79. 64 Diretas já, capitaneada pelo então Deputado Federal por Mato Grosso pelo MDB, Dante de Oliveira. Com a recuperação da participação democrática na sociedade brasileira, em função das liberdades políticas reconquistadas, posturas administrativas das instâncias governamentais retomaram a busca de autonomia, visando desfazerem-se das dificuldades logísticas e efetivas da administração centralizada e verticalizada do regime militar. Como já se disse no início desse capítulo, grande parte dessas diretrizes de re-federalização do território brasileiro foram contempladas com a Constituição de 1988, pelo menos no campo da legislação, o que não garantiu plenamente a sua atuação. Discussões do campo da Educação, referentes à aplicação de diretrizes de autonomia na gestão escolar, vigentes no período democrático anterior, voltaram à pauta, porém, dentro de escopos históricos sincronizados à nova situação. A Guerra Fria, apesar da disposição beligerante da liderança estadounidense da ocasião (o Partido Republicano, na figura do conservador Ronald Regan), encontrava crescente arrefecimento, graças também à eleição de Mikhail Gorbachev como Premiê da União Soviética, que implementou políticas de abertura da economia e de transparência de gestão administrativa da URSS. A dicotomia socialismo/capitalismo continuava a existir, mas as mitificações em ambos os modelos apresentavam falência. No Brasil, a volta do pluripartidarismo possibilitou a reorganização de quadros ideológicos outrora díspares – em função do bipartidarismo democrático/conservador do MDB e Arena –, a retomada de registro eleitoral do Partido Comunista, a criação do Partido dos Trabalhadores (PT), do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), e do Partido da Frente Liberal (PFL), bem como a consolidação majoritária do Partido da Mobilização Democrática Brasileira (PMDB). Esse novo quadro tornou possível a emergência de novas condutas e experiências, ora ideológicas, ora pragmáticas, ora originais, ou, às vezes, um amálgama destes. Experiências pautadas em uma participação mais ativa da comunidade, como a da formação de conselhos escolares – de escala regional, estadual e municipal – de pais, educadores e profissionais da educação, mostraram um relativo avanço e ainda apontam (mesmo com os vários casos em que ocorreram distorções) com grandes expectativas para a construção de uma gestão escolar efetivamente democrática, horizontalizada e eficiente. Todavia, a experiência dessas décadas de redemocratização, no que diz respeito a essas ações políticas, mostra a influência do populismo em casos de estandardizações 65 arquitetônicas, na verdade, soluções “fáceis” e “espetaculares”, distorcendo a atuação plena desses conselhos e gestões populares: “O exemplo de como, em distintos momentos históricos, na área educacional se repete nas diversas outras áreas de atuação do Estado, como habitação, educação, saúde, comunicação, transporte, etc. É um estigma que se perpetua, mesmo depois da redemocratização de 1984, após duas décadas de regime militar: políticos de orientações diversas convocando os melhores arquitetos brasileiros para projetos de relevância social, mas com o intuito de promoção pessoal e/ou partidária. A prioridade dada ao aspecto publicitário explica a escolha de siglas marcantes e o descompasso entre a excelência do projeto arquitetônico e a precariedade de sua execução.” 94 No plano nacional, as mais importantes referências da tentativa de estandardização, em grande escala, da arquitetura escolar na redemocratização, remetem a programas como o Centro Integrado de Ensino Profissionalizante (CIEP), com projeto de Niemeyer para o Estado do Rio de Janeiro, no governo de Leonel Brizola e o Centro Integrado de Atenção à Criança (CIAC), com projeto do arquiteto João Filgueiras Lima – Lelé – para o presidente Fernando Collor de Mello. Mais recentemente, dois programas distintos destacam-se no Estado de São Paulo: a Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE) do governo estadual de Mário Covas e Geraldo Alckmin; e o Centro Educacional Unificado (CEU) do governo municipal de Marta Suplicy, que constituem, ambos, modelos arquitetônicos pretensamente, ou intencionalmente, de atuações descentralizadoras e de anseios democráticos, somadas a posturas estilísticas mais, digamos, dialógicas com as peculiaridades regionais, em suas arquiteturas. Fig. 30: 1) CIEP ou “Brizolão” 476 Elias Lazaroni, Nova Campina-RJ, de Oscar Niemeyer (1994); 2) CIAC Jardim Alá, de Lelé, construído na cidade de Várzea Grande-MT (1990); Fonte: 1) site do CIEP; 2) Acervo próprio; 94 GUERRA, Abílio. Arquitetura e Estado no Brasil. In: Arquitextos Vitruvius Nº 064, de Setembro de 2005, no sítio: www.vitruvius.com.br 66 Fig. 31: 1) Projeto de André Vainer e Guilherme Paoliello pelo FDE, para a cidade de Campinas-SP (2004); 2) CEU Butantã, São Paulo. Arquitetos Alexandre Delijaicov, André Takiya e Wanderley Ariza (2003). Fonte: 1) Carlos Kipnis; 2) Nelson Kon. Mesmo assim, longe desses casos localizados, a arquitetura realizada no Brasil desde então foi em sua maioria condicionada por interesses contraditórios de governos discricionários e, não raro, antidemocráticos95, mesmo com o engajamento voluntário de profissionais das áreas com visão social e boa formação intelectual. Nesses casos, a arquitetura resultante se reflete por vezes autista em sua linguagem, tal como foi descrito no Capítulo 2 desta pesquisa: “a ambigüidade de visões de mundo distintas em convívio forçado: de um lado, a conhecida arquitetura moderna brasileira, de forma elegante e arbitrária, voltada para a confirmação de um imaginário nacional fundado na delicadeza e sensualidade de um povo miscigenado e pacífico; do outro, relevante pela disseminação no território nacional, as soluções estandardizadas para suprir necessidades em setores estratégicos” 96. Nessas duas últimas décadas, a dificuldade em fazer valer o que consta na Constituição Federal e nas Estaduais, no que diz respeito à maneira como se faz o investimento previsto em educação – e em suas unidades escolares, quando chega a acontecer – não contempla a ação das iniciativas de autonomia e descentralização da gestão escolar, sendo atribuída uma ação de prática de corrupção à participação estatal, imagem esta que acaba funcionando enquanto um marketing viral, depreciativo, para a práxis metodológica e dialógica das experiências autônomas na gestão e estruturação escolar, revalorizando a ação de iniciativa privada nesse setor. Na grande Cuiabá, durante a década de 1990, ocorreu situação similar. Na gestão do município de Cuiabá, principalmente, com a divulgação institucional de que as divisas 95 96 GUERRA. Op. Cit. Idem. 67 estavam deficitárias, ao mesmo tempo em que tinham de suprir a crescente demanda por vagas em escolas, as idealizações dos programas político-pedagógicos foram abandonados, em função de reducionismos estratégicos, onde, em uma alardeada emergência estrutural, se viu a publicidade institucional por vezes destacar que as administrações ofereciam à população mais salas de aula, mas nunca mais escolas. `3. A demanda de vagas vence a demanda de espaços para as escolas. A ingenuidade que marcava grande parte do entusiasmo (e das expectativas) no Brasil acerca do papel da cidadania na retomada do processo democrático, fez a multidão acreditar que a sociedade civil organizada, e a democratização das instituições trariam rapidamente a felicidade nacional. Pensava-se que a reconquista do direito de eleger os respectivos mandatários (pois se elegiam, durante a ditadura militar, apenas os membros dos parlamentos) seria, além da garantia de liberdade democrática e de participação, garantia de segurança, de desenvolvimento, de emprego, de justiça social: “de liberdade, ele (o direito - grifo meu) foi. A manifestação do pensamento é livre, a ação política e sindical é livre. De participação também. O direito do voto nunca foi tão difundido. Mas as coisas não caminharam tão bem em outras áreas. Pelo contrário. Já 15 anos passados desde o fim da ditadura, problemas centrais de nossa sociedade, como a violência urbana, o desemprego, o analfabetismo, a má qualidade da educação, a oferta inadequada dos serviços de saúde e saneamento e as grandes desigualdades sociais e econômicas ou continua sem solução, ou se agravam, ou quando melhoram, é em ritmo muito lento. Em conseqüência, os próprios mecanismos e agentes do sistema democrático, como as eleições, os partidos, o Congresso, os políticos, se desgastam e perdem a confiança dos 97 cidadãos” . Na década de 1990, a Guerra Fria encerrara-se com a dissolução da União Soviética, botando em cheque o sistema de produção Socialista, enquanto alternativa política e econômica. Ascende então, no vocabulário econômico e político o verbete da Globalização. Como não haveria mais barreiras ideológicas entre as relações comerciais transnacionais e internacionais, a conduta urgente da competitividade colocaria todas as demandas estruturais mundiais sobre os trilhos do Neoliberalismo. As nações que ansiassem por melhores oportunidades de mais-valia sobre seus produtos e serviços, dentro do comércio mundial, deveriam melhorar a qualidade de sua mão-de-obra. E nisso pesava a proporção, quantidade e qualidade de sua escolarização. Noções economicistas vigentes como, por 97 Op. Cit. pp.7-8 68 exemplo, gestão estratégica, qualidade total, motivação, sucesso escolar, etc., passaram a fazer parte do discurso e do ideário dos projetos pedagógicos das gestões autônomas, numa postura reativa às novas urgências do mundo livre. A opção pela política de resultados, segundo metodologias e doutrinas de organização do trabalho, resultou apenas, na maior parte das vezes, em discursos retóricos e superficiais, que se confundem com propaganda político-partidária, maquiando o fracasso das iniciativas populistas e de administrações governamentais demagógicas e corruptas, principalmente durante os anos 1990. Neste mundo cada vez mais competitivo, considerando-se ainda o subdesenvolvimento do país, atender quadros quantitativos em detrimento dos ideais qualitativos – escolarizando primeiro, e, se der, educando depois – pareceu ser a única conduta aos que pretendiam atender à solicitude do sistema político-eleitoral. No que tange à qualidade do espaço arquitetônico, várias gestões estatais e escolares se viram instados a lidar com as demandas educacionais. Na subseqüente guerra de influências entre forças partidárias, mercantilizada e maquiada pela mágica das campanhas publicitárias, inaugurou-se uma panacéia de discursos que reforçavam a atenção fordista dada à feitura de salas de aula, discurso esse repetido à exaustão em diversas localidades do país. Grande parte dos municípios brasileiros, ainda desprevenidos estruturalmente para atender às atribuições da nova LDB98, que distribuía responsabilidades entre estados e municípios acerca do ensino fundamental e médio, voltou-se para a prática de maquiagem de produtos, distribuindo salas de aula aleatoriamente, sem o devido planejamento físico, sem as finalizações necessárias (escolas incompletas), visando apenas atender à demanda mais urgente, que seriam as salas de aula. Em Mato Grosso, em muitos casos, como aponta a pesquisa Projeto Nova Escola99, desde a escolha do terreno que, por vezes, era doado ao poder público – portanto sem se olhar os dentes – revela equívoco (ou ausência) de planejamento infra-estrutural. São comuns os problemas, que vão desde a falta de drenagem do solo (lençol freático próximo às camadas superficiais) até a criação de ilhas de calor, tanto por confinamento dos espaços, quanto por inexistência de arborização e permeabilidade do solo. 98 A original é de 1996 (LEI 9.394/96), mas sofreu atualizações em 2005 e 2006. Pesquisa desenvolvida em 2003, pelos arquitetos Deodato Gomes Monteiro Neto, Luis Cláudio Bassam, Manoel Pérez, e pela Engenheira Civil Luciane Durante, na qual recolhiam dados avaliativos sobre arquitetura e infra-estrutura de centros de ensino para a concepção e implementação de modelos por demanda. 99 69 O início dessa pesquisa sobre arquitetura escolar se deu no Trabalho Final de Graduação em Arquitetura do autor100, no qual se estudou alguns casos de edificações escolares públicas na cidade de Cuiabá-MT, chamando-se a atenção algumas unidades escolares concebidas pela Prefeitura Municipal àquela época, em áreas pobres de ocupação recente – bairros oriundos de invasões, como o Jardim Florianópolis e o Jardim Vitória. Neste último, encontram-se dois casos díspares acerca da plenitude de programa para a edificação escolar: a Escola Municipal de 1º Grau Dejany Ribeiro Campos, e a Fundação Bradesco, uma escola gratuita, mas de iniciativa privada. A diferença infra-estrutural entre ambas era grande, desde a concepção do espaço arquitetônico até sua preservação. Fig. 32: Escola Municipal de 1º Grau Dejani Ribeiro Campos, final da década de 1990, bairro Jardim Vitória, Cuiabá-MT; Fonte: Acervo próprio, material de pesquisa para trabalho final de graduação em Arquitetura, 2000-2001. Nas imagens da escola municipal, pode-se ver o exemplo da depreciação do programa e da qualidade do espaço arquitetônico para atender a uma “demanda por salas de aula”: 1) a aglutinação dos espaços de atividades (salas) e de fluxos (escadas), comprometendo os espaços de vivência (pátio); 2) às circulações, sub-dimensionadas, reserva-se também o uso como depósito de material para manutenção; 3) os gradis, elementos tipológicos freqüentes na arquitetura desse período; 4) para uma limpeza menos trabalhosa, exime-se o pátio externo de quaisquer coberturas vegetais, tampouco da permeabilidade do solo. 100 LIMA, Fernando Birello de. Identificação do espaço escolar: por uma linguagem arquitetônica; Trabalho Final de Curso de Graduação em Arquitetura. FAET-UFMT, 2001. 70 Mas, independente de onde vêm os recursos para conceber e manter suas estruturas, estamos falando de escolas, de espaços de socialização. Mais que classificar o grau de “beleza” das edificações, importa verificar que a concepção dos espaços escolares indica, através das discussões e teorias pedagógicas, já há algum tempo, a tentativa de subverter o ideário determinantemente disciplinador do modelo panóptico, trazendo componentes lúdicos, criativos, convidativos à participação social. A compulsão por soluções baratas e urgentes para os prédios escolares, reflete-se no caso da Escola Dejany Ribeiro Campos (e em tantas outras, em diferentes lugares do Brasil), onde aparentemente inexiste qualquer subterfúgio arquitetônico que recuse o signo panóptico de sua finalidade onipresente. O orientador do TFG à época, o arquiteto e professor Vítor Damião da Silva questionou: “Para jovens e crianças que aqui estudam, que já nascem marginalizados, esmagados pelo abismo social, qual é o ‘choque’ de sair daqui e ir direto para uma penitenciária?”. Fig. 33: No citado Trabalho Final de Graduação, indica-se a semelhança entre a escola e a antiga penitenciária de Cuiabá, hoje demolida, exemplo clássico da aplicação do modelo panóptico. Fonte: acervo próprio. Dos anos da redemocratização em diante, no que diz respeito da relação das Cartas Magnas, a federal e a estadual, com a Arquitetura Institucional, pode-se dizer que há qualquer coisa desencontrada, esquizofrênica até. Ao mesmo tempo em que se estabelecem metas administrativas, através das Constituições, em que a gestão escolar busca autonomia, as instâncias de poder parecem não se entender, obstruídas por inércia de ação e clientelismo, e não se complementam. Autarquias públicas, ligadas ao Ministério da Educação, criadas exclusivamente para responder técnica e cientificamente às diversas metas gestacionais de tamanha demanda, não desbaratam todos os entraves políticos. 71 Em 1998, foi criado o Programa de Fundo de Fortalecimento da Escola (Fundescola)101, uma dessas autarquias, com o objetivo de apoiar estados e municípios a reduzir suas desigualdades educacionais. O programa faz parte de um plano nacional de suporte à educação, e responde apenas pelas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, que visa desde ações como a formação continuada de professores, o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), até a aquisição e reforma de mobiliário, assim como reforma e construção de novas escolas. Numa dessas ações, instaurou-se o Projeto Espaço Educativo: Arquitetando uma Escola para o Futuro, durante o ano de 2000, supervisionada pelo arquiteto José Maria de Araújo, de desenvolvimento de projetos modelares, atendendo a um programa de 12 salas de aula, que deveriam levar em consideração a realidade climática, cultural e econômica de cada um dos estados contemplados pelo Fundo, envolvendo profissionais dos respectivos estados. Para o Estado de Mato Grosso, os arquitetos Weliton Ricoy Torres, Eduardo Argenton Colonelli e Nelson Massa desenvolveram um estudo bastante adequado à região, tanto do ponto de vista orçamentário, quanto da abordagem técnica e simbólica, lembrando os projetistas do Liceu Cuiabano, ao reincorporarem o pórtico como sinal arquitetônico que convida a adentrar no espaço da escola. Todavia, passados sete anos de sua concepção, o projeto não saiu do papel, por conta de entraves burocráticos, mas o que é divulgado oficialmente pela representação do Fundescola junto à Secretaria de Estado de Educação é que, simplesmente, não existe ainda demanda populacional para um investimento tão significativo. 101 O Fundescola é resultado de um acordo de empréstimo firmado pelo Governo Federal e Banco Mundial (BIRD), da ordem de US$ 1,3 bilhão. O programa é responsabilidade do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). 72 Legenda 01- Marquise de acesso 02- Sala de aulas 03- Diretoria 04- Secretaria/arquivo 05- Biblioteca 06- Informática 07- Marquise de ligação 08- Pátio coberto 09- Grêmio 10- Refeitório 11- Quadra Poliesportiva 12- Pista de atletismo 13- Praça de leitura 14- Anfiteatro 15- Pátio descoberto 16- Pátio infantil 17- Horta 18- Estacionamento 19- Entrada de serviço 20- Entrada da comunidade 21- Sala de vivência 22- Sala pedagógica 23- Sala dos professores 24- Laboratório Fig. 34: Escola Modelo para o Estado de Mato Grosso, segundo o estudo desenvolvido pelo Fundescola (2000); projeto de Weliton Ricoy Torres, Eduardo Argenton Colonelli e Nelson Massa, sob supervisão de José Maria de Araújo; Fotos: 1) Planta de implantação; 2) Vista, pela maquete do projeto, da fachada principal; 3) Planta do pavimento superior; 4) Vista aérea, pela maquete do projeto; Fonte: Revista Projeto Design, setembro de 2000. Ao que parece, continua a existir um paradoxo institucional: ao mesmo tempo que a Constituição delibera sobre o direito inalienável da educação com gratuidade e qualidade, e que a cidadania ainda sonha com a perfeita civilidade oriunda de uma democracia, salas de 73 aula aglutinadas em mórbidos esqueletos panópticos, como as da escola Dejany Ribeiro Campos, continuam a existir e a se proliferar, em quase nada se diferenciando das instituições punitivas. Já se vão 26 anos da Redemocratização brasileira. Ao identificar-se, em nossa região, uma arquitetura que expresse o espírito de nosso tempo, se apresentará na seqüência deste capítulo como essa construção atravessa vieses curiosos, inesperados até, não constituindo totalmente e necessariamente, nesse pequeno arco histórico, um inferno nacional102. 4. Descrição de casos Na primeira parte desta descrição, se examinará dois casos (o CAIC do bairro Jardim Alá e Escola Estadual Adalgisa de Barros), em que a qualidade técnico-estética da arquitetura, e conseqüentemente sua mensagem-massa, é eclipsada pela ação difusionista da administração política, onde tais modelos arquitetônicos são “importados” de fora do contexto cultural-regional ao qual se destinam. Esses modelos foram concebidos durante a gestão executiva estadual de Jayme Veríssimo de Campos (PFL), de 1990 a 1994, que coincidiu com o mandato presidencial de Fernando Collor de Mello (PRN), entre 1990-1992, dentro do qual foi iniciado um programa de implementação de modelos arquitetônicos padronizados, em sistemas de pré-fabricação, os CAIC’s103, sob a coordenação e criação do arquiteto João Filgueiras Lima, o “Lelé”, em semelhança ao que fora feito na gestão estadual fluminense de Leonel Brizola (PDT), com os CIEP’s de Oscar Niemeyer. O programa dos CAIC’s transplantou para o campo nacional o que outrora fora executado em um campo regional. Na seqüência desta descrição, essas reflexões sobre a premência de um Dialogismo na linguagem arquitetônica de escolas serão demonstradas no corpus de duas experiências bem contemporâneas: 1) na gestão municipal de Várzea Grande, o modelo arquitetônico da Escola Municipal de Ensino Básico Oscar da Costa Ribeiro; 2) na gestão estadual, o Dialogismo do Projeto Nova Escola abandonado em função da experiência exclusivamente publicitária e populista, portanto Difusionista, da Escola Atrativa, dentro do Aglomerado Urbano CuiabáVárzea Grande. No que diz respeito à práxis arquitetônica enquanto comunicação social, essa parte da pesquisa fecha sua construção teórica e abre a análise e discussão sobre o objeto de pesquisa 102 Toma-se a liberdade aqui de fazer citação à crônica homônima de Stanislaw Ponte Preta. Para melhores esclarecimentos, pode-se consultar SOBRINHO, José Amaral & PARENTE, Marta Maria de Alencar. CAIC: Solução ou problema? Texto para discussão N�. 363. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA): Janeiro de 1995. 103 74 em si: Sabendo das atribuições primordialmente disciplinadoras da arquitetura escolar, tal como comunicação de massa, essencialmente denotativas, como se tem feito, através desses anos de redemocratização brasileira, uma relação estético-comunicacional mais criativa, na construção de seus sentidos comunicacionais conotativos? Prevaleceriam ações apenas Difusionistas, da praxe deste tipo de edificação, ou já ocorreram contaminações Dialogistas em suas implementações políticas? 4.1 CAIC do bairro Jardim Alá – Várzea Grande. A Escola Municipal de Educação Básica Gonçalo Domingos de Campos, que comporta uma unidade do Centro de Atenção Integrada à Criança, está localizada no Bairro Jardim Alá, um bairro periférico e de baixa concentração de renda, na cidade Várzea Grande, que faz parte do Aglomerado Urbano da Grande Cuiabá. O modelo Federalizado de integração dos módulos construtivos dos CAIC’s, que seria de permanência integral, geralmente tende a atender um número considerável de alunos, sendo, inclusive dotado de infra-estrutura para parcerias institucionais de serviços de saúde pública e coletiva, como, por exemplo, assistência social e odontológica. Seu sítio comporta uma considerável extensão territorial, margeada por passeios e equipamentos de desporto e lazer básicos, cercados por um alambrado, expondo o complexo arquitetônico visualmente ao entorno. 75 Fig. 35: Vista de implantação, via satélite, do CAIC do bairro Jardim Alá, em Várzea Grande-MT (1990); Legenda: A–Campo de futebol, B–Campo de vôlei de areia, C–Teatro de arena, D–Ginásio coberto, E– Passarela/mezzanino, F–Pórtico de entrada e Ponto de ônibus, G–Pavilhão de aulas /administativo/serviços, H– Pavihão de aulas, I–Pavilhão de primeira infância/creche, J – Playground; Confrontações: 1) Rua Dourados, 2) Rua Salto do Guairá, 3) Av. Pirapora, 4) Terreno baldio; Fonte: Google Earth, modificada pelo autor; O Programa de necessidades, além do básico, procura atender suas outras funções de equipamento social, tanto que, no primeiro pavilhão de aulas, seus dois pavimentos se prestam a suportar, além de salas de aula, um auditório, consultório dentário, enfermaria, sala para assistente social, coordenação pedagógica, administração e biblioteca. Mas o que é programático, dentro da proposta da ação institucional, na prática e adaptação à realidade regional encontra outra utilização. Para o real funcionamento da enfermaria e consultório dentário, ambos equipados para tal, era preciso, à época, de ações mais ágeis do poder executivo, para contratar os profissionais da área, pois, passados os anos desde sua 76 construção, a infra-estrutura se sucateou, restando apenas a lembrança de uma boa intenção programática. Outro fato: a demanda, na região pelo centro de ensino é grande, tanto que o dimensionamento original do projeto (que não é pequeno), não consegue atender da maneira e na quantidade pré-estabelecidas, estando a biblioteca diminuída para o aproveitamento do espaço em mais uma sala de aula. A edificação é projetada pelo Arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, conhecido por sua predicação a sistemas construtivos de rápida execução, pré-fabricados, para em seqüência, serem apenas montados in loco, antecipando muitas fases do canteiro de obras. O concreto usinado, aparente ou pintado (verde, amarelo, azul e branco) dá a tônica da maior parte do complexo arquitetônico, mas também existem artefatos de ferro e aço, como sheds, pára-sol, esquadrias, guarda-corpos, corrimões, luminárias e estruturas treliçadas. Fig. 36: CAIC no bairro Jardim Alá, Várzea Grande-MT (1994); 1) Vista panorâmica, em destaque, os sheds e brises metálicos sobre a cobertura de concreto, assim como a cobertura lúdica da quadra poliesportiva; 2) Detalhe da biblioteca adaptada em sala de aula; Fonte: acervo próprio. A reprodução dos elementos pré-fabricados compõe a sua principal tipologia mural, dando um aspecto fabril à presença dos edifícios, o que parece desprivilegiar as experiências estéticas para com o espaço. Os pés-direitos da maioria dos módulos que se destinavam às atividades utilitárias, por exemplo, em função da racionalidade da pré-fabricação, tiveram sub-dimensionamento. Ao implementarem-se as tipologias técnicas de janelas de abertura sobre eixo pivotante, de maior e melhor aproveitamento da ventilação natural, construiu-se outro problema regional: por causa da orientação solar equivocada, e da altura e da presença 77 de vidro nessas esquadrias, a entrada direta de luz natural aumentou muito a temperaturas dos ambientes internos. Para resolver paleativamente, as folhas de vidro foram pintadas de branco, que, nessa nova configuração precisam permanecer abertas para não requisitar o uso de luz artificial. Sem contar no comportamento termodinâmico do concreto, de baixa inércia térmica104. 4.2 Escola Estadual Adalgisa de Barros. A Escola Estadual de Ensino Médio Adalgisa de Barros, localizada entre a Avenida Filinto Müller e a rua Gov. Pedro Pedrossian, no Jardim Aeroporto, próximo ao centro da cidade de Várzea Grande, é um modelo arquitetônico trazido do estado do Paraná, um modelo tecnicista, que detém logística de implantação similar à dos CAIC’s, apesar do dimensionamento menor. É um centro de ensino público de ensino médio, e sua demanda populacional atende a toda a cidade, por isso a localização próxima ao centro, por conta de ser uma das poucas escolas públicas que, em função de sua gestão escolar, tem bons resultados nos exames vestibulares do Estado. O seu Programa de necessidades está reduzido, justamente pelo fato de ao ter-se implantado o modelo sem a sua completa finalização. Na disposição dos pavilhões de aulas, falta o acréscimo de mais um deles, ao fundo do terreno, onde estariam os laboratórios e a biblioteca, que atualmente funciona, improvisada, em uma das salas do pavilhão administrativo. 104 Inércia térmica é uma propriedade física atribuída aos mais diversos materiais de construção, onde se mensura a capacidade de absorção, retardamento e transmissão do calor recebido de uma superfície a outra em um componente, através de sua espessura. 78 Fig. 37: Vista de implantação, via satélite, da Escola Estadual Adalgisa de Barros, no centro de Várzea GrandeMT (1994); Legenda: A – Ginásio poliesportivo coberto, B – Pátio externo, C – Acesso principal e Pórtico de entrada, D – Administração, E – Pátio coberto, F – Pavilhão de aulas, G – Terreno para ampliação; Confrontações: 1) Rua Clóvis Hugueney, 2) Igreja Batista Central, 3) Av. Filinto Müller, 4) Batalhão de Policia Militar 5) Rua Gov. Pedro Pedrossian; Fonte: Google Earth, modificada pelo autor; De logística pré-fabricada também, o concreto armado e o aço estão presentes em sua estrutura, mista, a qual compõe uma separação de altura entre a laje dos pavilhões e uma 79 cobertura metálica, que impressiona pelo arrojo técnico e estético, sendo notável o movimento formal de seu desenho, unindo e articulando os blocos de aulas, pátio interno e administração, chegando à formação do Pórtico de entrada. A adoção da cobertura metálica possibilita esse desenho, mas, por ser um modelo projetado às solicitações regionais do estado do Paraná, de clima predominantemente temperado, e sem proteção e isolamento térmicos no tórrido sol mato-grossense, o comportamento térmico da ambiência do espaço foi comprometido. Fig. 38: Escola Estadual Adalgisa de Barros, no centro de Várzea Grande-MT (1994); Entrada principal, em destaque, o pórtico de entrada; Fonte: acervo próprio. Fig. 39: Escola Estadual Adalgisa de Barros, no centro de Várzea Grande-MT (1994); Detalhe do pátio interno com ênfase na continuidade do movimento do pórtico de entrada; Fonte: acervo próprio. Outras características construtivas destoam da realidade regional da baixada cuiabana: uma impermeabilização excessiva dos passeios e áreas de convivência, e Pé-direito baixo das salas. A impermeabilização excessiva, comprovadamente, dificulta a transposição de umidade pela ação do movimento do ar, e age como rebatedor, da insolação direta, carregada de calor, que, numa outra solução, seria potencialmente absorvida por uma forração vegetal ou um solo permeável; os Pés-direito baixos vão diretamente sofrer a ação da transmissão de calor ocasionada por condução, através da baixa inércia térmica. 80 4.3 Escola Municipal Oscar da Costa Ribeiro (2000-2004). Foi construída na gestão municipal de Jayme Veríssimo de Campos, outrora Governador do estado de Mato Grosso, durante os anos de 2000-2004. A Escola Municipal de Ensino Básico Oscar da Costa Ribeiro, pela excelência de seu projeto e linguagem arquitetônica, dizem, surpreendeu muito o prefeito quando da sua inauguração. Localizada na Rua 32, no Bairro São Mateus, de localização periférica, suburbana, de população de renda econômica baixa. É uma escola municipal, logo, de acordo com a nova LDB, atende apenas ao ensino básico, assim como no CAIC. Apesar disso, a demanda do bairro e cercanias sempre impressiona, pois é um centro de ensino modelar, de participação junto à comunidade, muito bem contemplado fisicamente em seu programa de necessidades e em sua configuração tipológica. No decorrer da obra, a câmara de Vereadores do município ameaçou diversas vezes cancelar o cumprimento do orçamento para a conclusão da obra, alegando custo alto em sua construção. Na verdade, de acordo com o autor e responsável técnico da obra, o arquiteto Iberê Borges Rondom, era apenas uma retórica exagerada em função da estranheza para com as soluções adotadas em projeto, bastante particulares. O arquiteto procurou adotar uma imagem espacial que se referia, em seu julgamento, de uma maneira cuiabana de estar nos espaços, privilegiando as zonas de convivência, tornando-as tão importantes quanto os espaços de trabalho obrigatórios do centro de ensino. 81 Fig. 40: Vista de implantação, via satélite, da Escola Municipal de Ensino Básico Oscar da Costa Ribeiro, bairro São Mateus, Várzea Grande-MT (2004); Legenda: A – Salas de aula, B – Horta, C – Salão de festas e cozinha, D – Laboratórios, pátio coberto, e sanitários, E – Ginásio coberto, F – Jardim de convivência, G – Administração, H – Jardim, I – Acesso principal e pórtico de entrada, J – Pergolado; Confrontações: 1) Rua São Mateus, 2) Rodovia MT 070, 3) Rua Antônio Talentino, 4) Posto de Combustível, 5) Rua trinta e dois; Fonte: Google Earth, modificada pelo autor. Pela primeira vez em nossa pesquisa, nós encontramos uma referência essencialmente cultural, subvertendo a onipresença do modelo panóptico, apesar de funcionalmente, não o descartá-lo. A implantação do complexo arquitetônico evidencia esse predileção pelos espaços de convivência, deixando as salas de aula postas de maneira livre, sem condicionamentos mais rígidos, apesar de o jardim interno propiciar uma observação generalizada do que acontece em suas salas de aula. Desde a sua implantação flexível, até a notória comunicação visual e espacial entre os blocos de edificações, e à maneira como se usam as cores nos revestimentos, na tipologia dos telhados cerâmicos, vemos uma exploração interessante da linguagem técnica de materiais 82 aparentemente comuns, ordinários, sem sofisticação, mas, nesse caso, repletos de significações culturais, e que se relacionam naturalmente com outras tipologias construtivas, mais aplicadas a edificações de grande porte, como vemos na concepção espacial e mural do ginásio e do pátio coberto. Fig. 41: Escola Municipal de Ensino Básico Oscar da Costa Ribeiro, bairro São Mateus, Várzea Grande-MT (2004): 1) Fachada principal; 2) Pátio interno, com detalhe do desenho da rampa de acesso ao laboratório de informática; 3) Detalhe do pórtico de entrada; Fonte: Acervo próprio. 4.4. Como o projeto Nova Escola se tornou a Escola Atrativa (2002-2010) Dentro da realidade do poder executivo estadual, a eleição do empresário Blairo Borges Maggi (PPS) em 2001, representou, de certa maneira, um rompimento com a tradição das forças hegemônicas dentro da esfera política mato-grossense. A notória condição de empresário do setor agrícola aspirava à gestão estadual uma conduta liberal de eficiência, produtividade, economia de gastos e objetividade nos desígnios do estado de Mato Grosso. Nomeando o antigo reitor da Universidade Federal de Mato Grosso, Gabriel Novis Neves enquanto Secretário de Educação do estado, começou-se um trabalho de discussões técnicas entre educadores e a equipe de arquitetos – Também professores universitários – formada por Deodato Gomes Monteiro, Manuel Perez, Luis Cláudio Bassan e a EngenheiraCivil Luciane Cleonice Durante, que culminou na ação do Projeto Nova Escola, onde desenvolveram-se três modelos – uma de 24, outra de 18 e a terceira de 12 salas de aula – de 83 edificação escolar para as peculiaridades ontológicas do Mato Grosso. À época dos trabalhos, esses profissionais concluíram que, nos últimos trinta anos no estado, em se tratando de edificações escolares públicas, nenhuma edificação de referência havia sido construída, apenas salas de aula. Fig. 42: Modelo Arquitetônico “B”, do Projeto Nova Escola, com capacidade de 18 salas de aula; Deodato G. M. Neto, Luis Cláudio Bassan, Manuel Perez e Luciane C. Durante (2001); 1) Perspectiva e 2) Corte esquemático; Fonte: 1) e 2): Manuel Perez. Esses modelos de edificações escolares encontraram uma boa mediação entre beleza técnica e comunicação dialógica do espaço, em modelos que procuram atender às demandas de vagas propostas, norteados tanto pelos problemas infra-estruturais e pedagógicos referentes ao espaço escolar, quanto a uma concepção artística de arquitetura, assim como ofertar um outro uso do espaço às populações atendidas numa postura gestacional muito parecida com a efetuada pelos CEU’s de São Paulo, de proposta gestacional autônoma e até participativa. A tipologia arquitetônica do telhado de águas aparentes105 pareceu buscar, na mensagem-massa dessa arquitetura, uma referência bem evidente da realidade de bairros essencialmente residenciais aos quais se destinariam, constituindo (ou buscando constituir) um diálogo. Esses projetos estariam no rumo das mudanças naturais de se entender a dinâmica 105 As águas de um telhado correspondem justamente à sub-divisão deste em caídas para despejo dos eflúvios oriundos das chuvas. 84 social da sociedade, pelo menos de como refletiu-se até aqui. Pois que justamente esses trabalhos foram abandonados pela gestão executiva, sem maiores explicações, o que ocasionou a demissão voluntária do Secretário de Educação Gabriel Novis Neves. Na esteira desses acontecimentos, foi lançado pelo executivo uma ação governamental substituta do Projeto Nova Escola, o Programa Escola Atrativa, extensamente propagandeada pela administração estatal, que aproveitava-se de alguns apontamentos do projeto anterior, como por exemplo a extensão à comunidade, mas substituindo as três opções de projetos arquitetônicos de aspecto monolítico106 e condensado. O modelo de Escola Atrativa estudado está localizado no bairro jardim Aroeira, em Cuiabá, onde funciona a Escola Estadual Profª. Diva Hugueney. Além desta unidade, existe outra no Aglomerado Urbano Cuiabá-Várzea Grande, a Escola Estadual Jaime Veríssimo de Campos Júnior, em Várzea Grande. Os projetos arquitetônicos dos pavilhões de aulas (de 12 salas de aula) e administração possuem uma modulação só, dispostas em dois braços, com seis unidades cada, e em dois pavimentos (três no térreo e três no pavimento superior), que parte de um volume central, de aspecto monumental, que além de comportar sala de professores, diretoria e laboratório de informática, também dispõe de uma área de vivência, no andar superior, e de um hall de acesso no térreo. 106 Um monolito é uma pedra de grandes dimensões, ou uma obra ou monumento construído a partir de um só bloco de rocha. 85 Fig. 43: Vista de implantação, via satélite, da Escola Estadual Diva Hugueney (2006); Legenda: A – Acesso principal, B – Jardim, C – Balcão, D – Pavilhão de aulas, E – Rampa coberta, F – Refeitório, cozinha e recreação, G – Ginásio coberto, H – Piscina, I – Estar contemplativo; Confronações: 1) Rua Quatro, 2) Av. Sem. Jonas Pinheiro; Fonte: Google Earth, modificada pelo autor. O projeto, por possuir pavimento superior, dispõe de uma rampa coberta, posicionada para acesso do Hall do térreo, e após ela, tem-se acesso a um estar contemplativo, que se comunica com os acessos para o refeitório, Piscina e Ginásio. Esse programa de funcionamento com piscina é uma novidade na região, mas já existem vários programas arquitetônicos de escolas, em outros estados, que já trabalham com a piscina. É mais um 86 artifício para trazer a comunidade para a vida escolar, partindo de uma prescrição atual de participação popular nas instâncias de governo, que, a partir de aulas e recreação nos tanques, se passariam para outras atividades mais comprometidas com a gestão escolar. Fig. 44: Vista da fachada principal, com destaque ao balcão, da Escola Estadual Diva Hugueney, no bairro Jardim Aroeira, Cuiabá-MT (2006); Fonte: Acervo próprio. Os sistemas construtivos são convencionais, em alvenaria, esquadrias em aço e vidro (fumê), forros de PVC, mas destaca-se a estrutura, em aço, de rápida montagem. Em sua monumentalidade na composição geral, o projeto substitui, na fachada, a tipologia do pórtico pela do balcão107, mas mantém a imponência icônica e de comunicação para uma fachada principal, como também seria um frontão. A predominância de um matiz de amarelo na pintura de grande parte da edificação constituiu uma polêmica, na época de seu lançamento: diziam-se na cena política que o amarelo e o vermelho (para detalhes construtivos), foram escolhidos não porque seriam cores estimulantes, mas porque eram as cores do partido do governador. Na verdade, em casos mais antigos, o amarelo tendendo ao ocre já foi bastante utilizado, vide os projetos dos Grupos Escolares e do Liceu Cuiabano, no segundo capítulo dessa pesquisa. Curiosamente, no material de divulgação publicitária oficial do Programa, não existem quaisquer referências aos autores do projeto arquitetônico, apenas uma consultoria de um profissional dessa atribuição, numa ação que demonstra, pela diluição do direito autoral dos modelos arquitetônicos, a preocupação em dotar o empreendimento educacional de uma imagem corporativa generalista, padronizada, alinhada com a ação publicitária de replicação da marca institucional da gestão executiva. Tamanho é o nível de estratégia publicitária sobre todos os níveis dessa gestão política que qualquer produto resultante da ação institucional se torna propaganda dessa marca. Várias 107 De Tipologias murais muito similares, o que difere o Pórtico do Balcão são preferencialmente, suas dimensões físicas e funcionalidade; no Balcão, podem existir ambiências, mesmo enquanto funciona como acesso principal da edificação, enquanto no Pórtico, de dimensões menores, apenas se marcaria o acesso. 87 cartilhas institucionais sobre os programas de governo foram desenvolvidas com apurado rigor propagandístico. Tanto que na capa da cartilha de Padronização de Obras do Programa Escola Atrativa, a predominância de imagens de seu modelo arquitetônico, com destaque à fachada principal, se sobrepõem à notória identificação iconográfica de suas logomarcas Institucionais... estaria se falando aqui de maquiagem de produtos? 88 Fig. 45: Vista da fachada principal, com destaque ao balcão, da Escola Estadual Diva Hugueney, no bairro Jardim Aroeira, Cuiabá-MT (2006), utilizada enquanto replicação publicitária da marca institucional; Fonte: Acervo próprio. 89 5. Diálogos restritivos e monólogos de autopromoção : quanto maior a abrangência executiva, mais e maiores produtos arquitetônicos maquiados. O raciocínio logístico da gestão educacional descentralizada contemplada pela LDB vem demonstrar a problemática institucional sobre as ações do poder executivo de um país de dimensões continentais como o Brasil. A herança paternalista e populista da práxis política brasileira se debate de frente com as aspirações mais participativas e democráticas da nova sociedade civil que insurge na dinâmica social da virada do século XX para o século XXI. Não é necessariamente a inércia da coletividade social, o problema a ser apontado nos equívocos arquitetônicos recorrentes nesse capítulo, mas justamente a pouca disposição política, por parte dos podres executivos, de desenvolverem ações logísticas mais orgânicas e integradas com a sociedade. No ocaso de uma postura verticalizada de gestão política para a educação, ações institucionais Difusionistas, ou falaciosamente dialógicas, só conseguiram promover a marca de suas gestões, personificadas na imagem de seus atores políticos, mais preocupados em demonstrar magnanimidade e/ou eficiência empreendedora do que realmente articularem-se organicamente enquanto representantes de uma sociedade democrática. Nessa condição, a estratégia publicitária institucional, com seus subterfúgios fetichistas, irresistível como convém a ser, cumpre sua tarefa de maquiar o produto arquitetônico e disponibilizá-lo para o consumo, sendo este eficiente ou não. Obviamente, é na municipalidade que se encontram as melhores experiências de gestão educacional que resultam em produtos arquitetônicos coerentes com a tríade social a qual se destinam, já que a autonomia de gestão da unidade escolar possibilita seu desenvolvimento em melhor contato com sua comunidade assistida e com o aval necessário, mesmo que reticente, por parte do poder executivo e legislativo. 90 CAPÍTULO 5 QUADRO DIÁDICO COMPARATIVO PARA ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DE CASOS 91 1. Da Análise e da Interpretação Ao introduzir-se este trabalho, levantou-se três suportes existenciais de uma tríade que seriam responsáveis pela maneira em como são concebidas as arquiteturas escolares. Recordando: O Gestor, o Educador e o Arquiteto. As reflexões apresentadas até aqui constroem uma contextualização sobre os objetos de prescrição de arquiteturas escolares, e da descrição de experiências espaciais efetuadas, durantes esses períodos políticos, no Aglomerado Urbano Cuiabá-Várzea Grande. O próximo passo consiste em analisar e interpretar os modelos oriundos dessas experiências, tentando encontrar informações mais detalhadas sobre os índices sincrônicos e diacrônicos na linguagem de suas arquiteturas. Aos gestores, e aos processos políticos, reservam-se a ação e reflexão da aplicabilidade dos projetos administrativos, de infra-estrutura em geral, buscando contemplar as dinâmicas sociais, que podem, estas, serem públicas, ou de públicos, generalizadas ou estratificadas. Sobre as ciências pedagógicas e seus educadores, suporta-se toda e qualquer inovação teórica que diz respeito a manutenção, modernização e reconstrução das utopias e realidades educacionais, e, conseqüentemente, de um projeto de sociedade. Ao arquiteto, resta estar atento e sensível à essas dinâmicas, pois sua arquitetura não promove, nem nunca promoverá, por si só, essas evoluções e revoluções, mas sempre poderá abarcá-las e incentivá-las. Os signos temporais mais diversos, cristalizados pelas experiências com o espaço podem ajudar a compreender como funcionam ou funcionaram as inter-relações nessa tríade. Com essa conduta, podemos fazer uma experiência de comparação diádica108 sobre objetos arquitetônicos que correspondem diametralmente à períodos políticos conservadores ou de exceção, e a período de redemocratização, a parir de 1985. Sendo pois, que numa tensão diádica da experiência do hoje e o juízo perceptivo da experiência de ontem, é que registra-se uma tensão entre as ações no tempo, uma tensão entre o presente e o passado. Na justaposição diádica entre um plano de conteúdo (significados) e um plano de expressão (significantes), podemos finalmente constituir algum tipo de signo. 108 “O signo diádico, segundo a teoria lingüística de Saussure, é intracerebral, sendo entidade abstrata, psíquica e antropocêntrica, em que o mundo exterior é extralingüístico; na teoria Semiótica de Peirce, por outro lado, o sígno seria triádico, que é relacional, nascido da interação de uma mente com um objeto, em semiose infinita, em que o homem é um signo entre signos”. DOMINGOS, Adenil Alfeu. Entre os Signos Diádico da Lingüística e o Triádico da Semiótica. Artigo científico de Docente do Programa de Pós-graduação de Comunicação e da graduação do Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, UnespBauru. 92 Este suposto antagonismo político não pode reduzir a percepção e a linguagem de suas arquiteturas no que diz respeito à seus códigos contíguos e a assimilação estética pela sociedade, por supor uma fruição paradoxal, contrária, irreversível, pois sabe-se que no espaço, a construção dos sentidos de uma arquitetura, principalmente a escolar tão comprometida com uma superestrutura, está rigidamente suportada entre a contigüidade de um código tipológico e a similaridade de um juízo criativo sobre suas relações comunicacionais e expressivas, particulares ou gerais. 2. A percepção dos sujeitos Antes de nos levarmos às interpretações de dados sígnicos relacionados apenas às criações arquitetônicas, voltemos nosso olhar e questionamentos sobre a percepção dos sujeitos sociais que sustentaram essa pesquisa, a tríade Gestor- Educador-Arquiteto: O que anseiam atingir em suas percepções os três sujeitos da pesquisa? Em, função disso, qual seria a conexão metodológica para a concepção e realização da arquitetura escolar? Essa pesquisa não se firmou em questionários deterministas, sugestionáveis, mas em conversas mais abertas sobre os temas onde, naturalmente, surgiram repetidamente alguns modelos arquitetônicos existentes. Isso foi feito com vários educadores, políticos e, principalmente, arquitetos envolvidos com o tema, o que ajudou a definir mais especificamente o corpus desta pesquisa. Providencial, já que, quando do ingresso na Pósgraduação, o autor desta pesquisa tinha apenas seus pequenos casos estudados e seu projeto de Graduação em arquitetura. Nesta pesquisa, conheceu-se diversos casos muito interessantes, mas que acabaram não fazendo parte do recorte final, e que ajudaram a definir e a interpretar os casos mais relevantes para tal. 93 A partir de agora se estabelecerá um quadro temático sobre a percepção dos três sujeitos do trabalho: afinal, o que anseiam atingir no processo de concepção final de um centro de ensino... O Gestor? 1º.) O projeto político; 2º.) Satisfazer a demanda social; 3º.) Otimizar e fiscalizar a aplicação dos recursos; O educador? 1º.) O ideal pedagógico; 2º.) Lidar e interagir com a demanda social; 3º.) Otimizar a estrutura e salubridade de seu ambiente de trabalho; O Arquiteto? 1º.) Eficiência arquitetônica; 2º.) Entender as demandas sociais; 3º.) Otimizar a resolução dos espaços e das edificações, cumprindo o programa com economia e excelência técnica; 4º.) Executar a obra 4º.) Participar do processo de 4º.) Desempenhar a função cumprindo os prazos; elaboração do projeto; com eficiência e no prazo; 5º.) A resposta política no 5º.) A resposta social no 5º.) A resposta histórica e próximo pleito (carreira); cotidiano (carreira); estilística (carreira); Quadro 1 – motivações da tríade institucional para a arquitetura escolar. A metodologia para fazer funcionar tais relações é a comunicação e a parceria institucional, que, realizada multilateralmente, concretiza-se em, por assim dizer, soluções que encontrarão as tais respostas perceptivas par um produto arquitetônico final. Notando o primeiro item do quadro, vê-se que é a partir dessa premissa que se poderá começar a constituir o quadro diádico de análise e comparação de casos, partindo das contextualizações histórico-políticas e descrições já apresentadas. Estado Republicano O projeto político O ideal pedagógico Disciplina cívica e Estados de exceção Conservadorismo, doutrinação e Higienismo no ou conservadores sujeição ideológica cotidiano Estados sociedades democráticas e Progressismo, com Autonomia participação e intelectual e cívica liberdade política com criatividade no cotidiano Eficiência arquitetônica Disciplina aos corpos sobre uma arquitetura tecnicista e predominantemente simbolista Uso e fruição dos corpos sobre uma arquitetura predominantemente tecnicista e até expressionista Quadro 2 – Dos objetos das primeiras motivações da tríade institucional para a arquitetura escolar. Esses dados trazem uma situação mais geral, bastante demonstrativa e ilustrativa, mas incompleta, independente de situar certos e distintos signos temporais, justamente por ser possível enxergar peculiaridades semióticas contraditórias em vários dos casos estudados. Ao repetir o quadro anterior, mas destrinchando os períodos administrativos da república, se tem, a partir dos dados, um quadro mais detalhado: 94 Conservadores ou Ditatoriais A República velha O Estado Novo O projeto político O ideal pedagógico Conservadorismo, Disciplina cívica e com sujeição Higienismo no estatal pelas cotidiano oligarquias regionais; Estado totalitário, anti-democrático, forte, centralizador, populista e de inclinações ultranacionalistas ; Ufanismo cívico, nacionalista, e Higienismo no cotidiano Estado totalitário, Disciplina militar, A Ditadura militar de 1964- anti-democrático, alienação cívica conservador, pelo patriotismo e 1985 centralizador, doutrinação sujeição ideológica de controle e cotidiano do Eficiência arquitetônica Modelos arquitetônicos Disciplina aos corpos sobre uma arquitetura predominantemen te simbolista, de estilística obsoleta Disciplina aos corpos sobre uma arquitetura propagandística, tanto simbolista quanto expressionista, de estilística renovadora Disciplina aos corpos sobre uma arquitetura predominantemen te tecnicista e estóica, mas simbólica, e, às vezes, expressionista Grupos escolares do 1º e 2 º Distritos; Liceu Cuiabano; Nilo Povoas Presidente Médici; Quadro 3 – Dos objetos das primeiras motivações da tríade institucional para a arquitetura escolar. e 95 O projeto político O ideal pedagógico Eficiência arquitetônica Modelos arquitetônicos Progressismo, com liberdade política para participação e ingresso garantidos no mercado de trabalho; Autonomia intelectual e cívica com competitividade no cotidiano Escola Livre Porto Cuiabá e Centro Educacional Plural; Gestão estadual com suporte federal (Governo Jayme Campos 1990 - 1994) Populismo, com decisões unilaterais, apesar da liberdade política, além do fervor em mostrar serviço aos eleitores pelas suas obras; Autonomia intelectual cívica criatividade cotidiano e com no Gestão municipal autônoma (Governo Jayme Campos 1996 – 2004) Progressismo, com correção fiscal, participação comunitária e liberdade política; Autonomia intelectual cívica criatividade cotidiano e com no Gestão estadual autônoma (Governo Blairo Maggi 2002 a 2010) Pragmatismo fiscal e administrativo, com participação política consentida, mas reduzida, maquiada sobre marketing corporativo; Autonomia intelectual cívica criatividade cotidiano e com no Uso e fruição dos corpos sobre um modelo disciplinar, em uma arquitetura tecnicista, às vezes expressionista, mas sempre simbolista; Disciplina aos corpos sobre uma arquitetura predominantemen te tecnicista, estandardizada, estóica, mas simbólica, e, às vezes, expressionista; Uso e fruição dos corpos sobre uma arquitetura tecnicista, viável, expressionista e de simbolismo sutil; Uso e fruição dos corpos adaptados em um modelo disciplinar, viável, de arquitetura tecnicista, simbolista e iconografável; Numa Democracia Grupos de consumidores com autonomia econômica (décadas de 1980-1990) CAIC do Jardim Alá e Escola Adalgisa de Barros; Escola Ribeiro; Oscar Escolas Atrativas; Quadro 4 – Dos objetos das primeiras motivações da tríade institucional para a arquitetura escolar. Em uma Democracia, se tem situações políticas e sociais complexas, estratificadas, que se sincretizam, interagem e se distanciam, e é aí que a dinâmica comunicacional com o público alvo, nos mais variados níveis, depreende maiores e mais completas ações institucionais retificadas. Em contrapartida, quando se tem situações políticas mais simplificadas, de atuação verticalizada e unilateral dos governos, a inflexão difusionista nos processos de comunicação não encontra resistência institucional para acontecer. 96 Todavia, as contradições sucedem-se, em ambos os casos. Mesmo em períodos democráticos, certas posturas gestacionais podem tomar rumos unilaterais e pouco participativos, em função de um controle mais absoluto sobre as deliberações e aplicações dos recursos administrativos, se suportando ou justificando, no campo da prática política, tanto em populismos quanto em pragmatismos fiscais. Em algumas situações autoritárias e de exceção, é o discurso ufanista da identidade nacional, do patriotismo, que detém as resistências políticas de oposição, fazendo, através dessa ação populista, tais contrariedades serem virtualmente aceitas pela coletividade. 3. A visão e impressão de outrem - interpretações 3.1. Gestor político Que tipo de sociedade se quer? A dinâmica social, seja em qual for o recorte temporal referente, sempre apresentará uma necessidade de comando, de um poder simbólico que exerça sobre o senso coletivo, em casos extremos, ou um fascínio catártico de participação intensa e protecional, ou uma sujeição social, de rigidez metodológica e participativa. Saber dirimir as reais necessidades e vocações de uma sociedade nunca representou ação epistemológica de fácil absorção e resultado, pois os resultados gerais sempre se distorcem pela inércia do senso comum social dentro de suas contrações individuais. Desde a revolução histórico-social deflagrada pelo Iluminismo e sua necessidade urgente de modernizar as sociedades, um sem-número de posturas e propostas racionalistas sobrepõem-se às mais diversas movimentações políticas dentro da sociedade ocidental, tornando-a um caleidoscópio de experiências metodológicas. No seio dessas experiências, uma das principais discussões proferidas dá-se em torno da noção e da gestão do trabalho, que, por meio deste, se organizam estruturalmente e economicamente as sociedades. A escola, a idéia institucional, tal como se a conhece nessa modernidade e na contemporaneidade, pouco mudou de sua matriz helênica, símbolo de uma sociedade (ou de parte dela) que buscava sua excelência política, científica e histórica. Agora, no que diz respeito ao espaço para tal, o Tipo Construtivo do centro de ensino, a modernidade dá sua contribuição, pois, numa sociedade que constrói uma dinâmica social livre dos absolutismos políticos, a idéia de uma participação social atinge escala nunca antes intencionada. Todavia, como toda mudança estrutural proposta por iniciativas individuais, ao propagar-se nas coletividades, suas prescrições lidam direto com a realidade das massas, quase sempre resistentes, ou então, dependendo dos poderes simbólicos de antanho, bastantes influenciáveis. 97 A organização disciplinar do Panoptismo, vista sobre a ótica atual pode parecer desumana e opressora, mas não faz nada mais do que corresponder aos problemas gestacionais sobre a multidão ao tempo em que esta se insurgiu. A gestão dessa nova organização política encontrava em suas próprias aspirações antropocêntricas os obstáculos a superar. Na deflagração do mercantilismo intercontinental, as vocações econômicas de cidades e regiões das mais variadas começaram a potencializar uma crescente ocupação das zonas urbanas, que, na seqüência dos atos, resultaria no desenvolvimento do capitalismo industrial, acumulador de contingências em suas rebarbas. Tais contingências, por também se reportarem a princípios reformadores da sociedade, vez ou outra, e por força de seu conjunto, servem-se de sua situação enquanto multidão para forçarem sua participação política de maneira mais contundente e garantirem a assistência lavoral e social, junto ao capitalismo, e ao estado. Historicamente, tais forças trabalhadoras, ao mesmo tempo em que são comportadas pelas ações disciplinares dos Estados, transformam a dinâmica social e suas demandas políticas, obrigando o poder constituído a ceder espaço à suas reivindicações existenciais. Na modernização da sociedade ocidental, essa balança de forças lavorais e sistemas de produção tem dado a tônica das gestões políticas de administração do Estado. Sobre o lado do mercado auto-regulável, com mínima intervenção do Estado, o liberalismo predomina, sendo ele pragmático (progressista) ou ortodoxo; sobre a visão de um estado muito ativo e participativo no cotidiano das populações, o socialismo, sobre uma orientação socialdemocrata (progressista) ou radical, faz sua oposição. No entanto, mesmo existindo essas correntes político-filosóficas predominantes, existe sempre à espreita, um Conservadorismo sistemático, resquício da transição do feudalismo para o capitalismo acumulativo, exercido, na maioria dos casos, por oligarquias político-econômicas, que mantiveram e continuam mantendo influência gestacional nas mais variadas escalas de ação das organizações políticosociais. O Brasil, como já contextualizado, vem na esteira da história contemporânea desenvolvendo seus prognósticos modernizadores um tanto quanto tardiamente. Como parte do mundo moderno e ocidental, repete, em suas escalas e períodos políticos, a dicotomia entre liberalismo e socialismo, assim como da distorção histórica do conservadorismo. O centro de ensino, como instrumento de disciplina às coletividades (ou Aparelho Ideológico do Estado), têm suas concessões serventes a todas essas situações políticas, assim como a outras situações mais regionais e paradoxais, mas concernentes ao que se prestam. Na 98 contextualização deste trabalho, encontrou-se um quadro amplo e diversificado, com situações políticas bem definidas e quase sempre decisivas no objeto de sua arquitetura. A) Durante a República Velha, a reforma federal da Instrução Pública denuncia e inclina-se sobre um forte Conservadorismo, até porque, para a incipiente e recente república, uma nação de extensão territorial como o Brasil compreendia (e ainda compreende) uma logística de gestão problemática. A organização social sustentada anteriormente pela monarquia constituiu um quadro de forças políticas exercido por oligarquias regionais, de resquícios escravistas e de acumulação de capital. Com a participação incisiva de quadros oficiais do exército brasileiro, enquanto vetor de modernização política da sociedade, uma sujeição oligárquica se consolidou nos desígnios políticos dessa até então nova organização social. As ações estatais, viam no higienismo coletivo, pragmaticamente disciplinar, ainda referente ao já passado século XIX, a ferramenta urgente de gestão da nova República. B) Na derrocada da República Velha, a invenção e construção de uma identidade nacional menos europeizada é o que suporta, em grande escala a ditadura do Estado Novo. Justamente numa ditadura, em que se afirmam as decisões de gestão verticalizada dirimidas exclusivamente pelo governo federal, a postura higienista sobre as coletividades é mantida, mas o nacionalismo propagandeado pelo populismo de Getúlio Vargas constrói uma aceitação coletiva até então inesperada, onde as liberdades individuais cerceadas e interrompidas são compreensíveis por grande parte da população, que enxergam em um pai do povo, numa situação politicamente severa, o poder simbólico que daria a ela a sua percepção de comando. C) Na ditadura militar de 1964-1985, o quadro do poder simbólico é radicalmente diferente do existente no Estado novo, apesar de ambos serem estados de exceção. Enquanto o Estado Novo derrubava uma oligarquia governamental estatisticamente impopular, e completava o prognóstico de uma revolução burguesa, a ditadura militar conseguinte enfileirava a dura disputa ideológica desencadeada com o fim da 2ª Guerra Mundial, entre comunistas e capitalistas, a chamada Guerra Fria. Guerra esta encampada sobre zonas de influência econômica e militar, e, enquanto durou (1945-1990), em ambos os blocos econômico-ideológicos, os seus países satélites reproduziram suas susceptibilidades. O pavor do comunismo, alardeado à época, e natural em uma sociedade originalmente conservadora como a do Brasil, não fez resistência maciça ao golpe que se sucedeu à gestão (populista, é verdade) do último presidente democrático desse período, João Goulart, instaurando um período de sujeição autoritária nunca antes experimentado pela sociedade brasileira. A doutrinação e sujeição ideológica rígida instaurada nesse período, simbolizada em slogans e propagandas patrióticas, e executada pelos seus Atos Institucionais, amordaçou a 99 opinião pública e o real registro dos fatos sociais, construindo uma imagem dicotômica da real situação de comando exercida pelo Estado. A multidão, nesse período histórico, já começava a apresentar outra dinâmica, que seria consagrada nas décadas seguintes, dando um fim melancólico e patético a esse período autoritário. D) A redemocratização todavia, não se sucedeu de maneira mágica e rápida sobre a realidade política e social brasileira, que experimentou uma Década perdida até ao final dos anos 1980, onde a Hiperinflação, a especulação cambial, e a corrupção endêmica, herdeira da cultura conservadora e clientelista brasileira, eclipsaram a ação mais visível de um Estado de bem-estar social, mesmo com as discussões sobre gestão participativa e descentralizada voltando aos circuitos e discursos políticos. E) Nesse período histórico, encontramos ações particulares, efetuada por grupos de consumidores, que buscavam suprir-se de serviços essenciais de qualidade de vida que não conseguiam ser contemplados com qualidade e eficiência pelo Estado. Foi uma época de expansão dos Planos de saúde, e Centros de ensino particulares, que encontravam na classe média em geral, detentora de certo poder aquisitivo que lhe cabia e de uma noção de modernização institucional, sua principal demanda econômica e programática. Para o que se pode chamar de primeiras ações descentralizadas de uma sociedade democrática, foi só sobre organizações coletivas menores, afastadas da subordinação estatal, e, conseqüentemente, limitadas às suas órbitas econômicas, que seus ideários se tornaram realidade de uma práxis política desejada, mesmo que sobre uma ótica consumidora. Não só no Aglomerado Urbano Cuiabá-Várzea Grande, mas em praticamente todas as regiões metropolitanas do país essa ação se sucedeu. A consolidação de uma realidade competitiva para o mercado de trabalho exige que exista uma reciclagem permanente das especializações profissionais, assim como da mais completa formação possível sobre as idades cognitivas do estudante. Nesses anos, viu-se que o Estado recomeçava sua autonomia de gestão escolar, só começando a generalizar melhorias institucionais mais adiante. F) Na autonomia de gestão exercida pelo poder executivo federal e estadual, durante a gestão do primeiro presidente eleito democraticamente, Fernando Collor de Mello, a ação populista e voluntarista da política presidencial, explicitamente difusionista, arrebanhou e arrebatou as lideranças regionais da época em que se punham nessa vocação. O Governo do estado de Mato Grosso, que era de exercido por um político de um partido da base de apoio ao governo no Parlamento Nacional, Jayme Veríssimo de Campos, abraçou veementemente esse programa. A imagem verticalizada de um benfeitor das massas, como assim se pôs Fernando Collor de Mello, resultaria em decisões gestacionais por vezes unilaterais, residualmente 100 autoritárias e por vezes, equivocadas. Sobre o fervor de mostrar o Brasil dando certo, os canteiros de obras institucionais sucediam-se sem ações de gestão mais participativas e correlacionais às regionalidades. Com o passar dos anos e das experiências democráticas de gestão estatal, a implementação de autonomia às unidades da federação começa a produzir experiências menos estandardizadas e mais genuínas sobre as suas dinâmicas sociais. O quadro social já denuncia maior participação populacional sobre as realidades regionais, o que facilita a fiscalização da real aplicação de recursos, mas isso é melhor realizável dentro das esferas municipais, por razões organizacionais óbvias. G) Na gestão municipal do mesmo Jayme Veríssimo de Campos, em Várzea Grande, seguinte ao seu exercício como governador do estado de Mato Grosso, essa nova realidade política encontrou contorno em sua gestão educacional, na figura de sua então secretária de educação, Professora Zilda Campos, que compunha, à época, oposição política ao prefeito, mas que fora encarregada, justamente por acusar uma visão diferenciada da situação, numa participação política mais abrangente, tanto pelos quadros político-administrativos, quanto técnicos e populares. Construir uma democracia não é uma ação simplesmente programática, fácil, sucedânea das vontades de elites intelectuais, políticas e econômicas. Certamente a influência do poder capital dessas minorias existe, mas o encontro com as massas sempre a fará adotar decisões consensuais, compensatórias. H) Dentro da realidade mais contemporânea, a tecnocracia de influência corporativa, quando junto das administrações estatais, procura contornar com agilidade os senões da multidão, seja assumindo um pragmatismo fiscal, seja sobre as alegrias do marketing institucional, que procura veicular uma envergadura marcária de responsabilidade empresarial. Tudo isso possível em detrimento de uma participação mais efetiva, sendo o raio de abrangência desta participação popular mais consentida do que incentivada. Os dados de pesquisa apontam que, na então gestão estadual de Blairo Borges Maggi, que aconteceu de 2002 a 2010, esse isolamento corporativo tem existido, havendo algumas decisões administrativas – muito sobre ao que diz respeito à gestão escolar e aplicação de recursos destes – de tomadas unilaterais, que acabam maquiadas e relativizadas pela ação do marketing institucional. A implementação do Programa Escola Atrativa denuncia várias dessas ações, principalmente pelo abandono da pesquisa organizacional anterior Projeto Nova Escola, que em reação de repúdio, causou a demissão do então Secretário de Educação 101 Gabriel Novis Neves, e na adoção de um partido arquitetônico e construtivo mais exeqüível e espartano, em comparação com os protótipos mais programáticos do Projeto Nova Escola. 3.2.Educador Dentro desta pesquisa, se sabe que é o educador quem realmente lida e interpreta a maioria, senão todas, as susceptibilidades oriundas dos públicos dentro de uma multidão ou coletividade. Principal idealizador, agente e ferramenta das ações políticas das gestões educacionais, é sobre sua organização profissional que se implementam e revolucionam-se as mais diversas práticas educacionais, notoriamente comunicacionais. Todavia, a força de suas intenções e ações não resiste, ou submete, ao momento político que vivencia: A) A rigidez do Estado oligárquico da República Velha adotou uma postura concernente à maneira confessional109 de educar, instituindo na formação disciplina cívica, integrada a um modelo Higienista de sociedade, urgente a uma realidade espacial de mínimas condições sociais de salubridade. B) Esse projeto higienista, estritamente disciplinador, sofre um acréscimo modernizador a partir do Estado Novo, quando a escola torna-se um dos meios irradiadores da nova construção da identidade nacional, mestiça, ufanista, irreverente, e submetida a um Pai dos pobres, pretensamente provedor de todas as urgências coletivas. C) Com o fim do período democrático, na ditadura militar de 1964-1985, o que havia de avanços sobre as discussões progressistas pela educação encerraram-se, voltando suas ações institucionais de ensino a abordagens ultra-disciplinares, pautadas na alienação coletiva pela força do patriotismo e do controle do cotidiano. O silenciamento da categoria profissional, deixando o cumprimento de um currículo estritamente tecnicista só seria interrompido, logicamente, com o fim da ditadura, em 1985. D) A redemocratização voltou com a promessa de construção de uma sociedade mais justa e participativa, possibilitada, essencialmente, por uma educação sistêmica e de gestão autônoma, mas, no verdadeiro exercício de sua dinâmica, o cumprimento desse ideário para as coletividades torna-se uma tarefa muito mais complexa e demorada. O Brasil é grande, culturalmente plural e diverso, e a autonomia necessária ao exercício da cidadania através da ação escolar, exige uma leitura particular de cada uma dessas circunstâncias sociais, sistematizando-as. 109 O modelo Confessional de educação é o modelo adotado desde sempre pelos centros de ensino religiosos, principalmente os de orientação Católica. (Nota do autor). 102 E) Justamente por essa construção demorada, em função da inércia e dinâmica das coletividades, é que grupos de consumidores vão procurar tal ideário educacional de autonomia intelectual e cívica em instituições de ensino privado que se reportem para tal, ao mesmo tempo em que se preocupam com a formação das novas gerações voltadas para uma iminente competitividade de mercado. F) Apesar da inércia social e do aparente desinteresse atribuído a cada gestão pública, o educador entende sua real função nesta permanente construção da democracia, onde idealiza e problematiza a formação de uma autonomia intelectual e cívica, substituindo gradativamente a sujeição disciplinar dos corpos dóceis para uma invenção criativa do cotidiano, onde os corpos usofruem do espaço, apesar de todos os senões de uma subseqüente sociedade de controle. As metas e os sonhos não mudaram, mas as discussões e reflexões dos educadores continuam a existir para perpetuá-las através da história. 4. A visão e opinião do arquiteto - interpretações É possível uma investigação técnica sobre a arquitetura sem quaisquer reticências sobre os outros dois eixos vetoriais de nossa pesquisa, justamente por a arquitetura ser realizada pela intervenção física pura e simples, atendendo a programas de necessidades dos mais complexos aos mais simples, empregando conhecimento técnico sobre sistemas de construção, e sobre as construções sígnicas dos estilos e partidos arquitetônicos adotados. Ele é, essencialmente, um prestador se serviços, técnico por excelência, apesar de a atitude e opiniões críticas e estéticas não lhe serem desmerecedoras. Sobre as arquiteturas dos casos estudados, encontram-se tipos construtivos que, em uma mesma obra, existem de maneira sincrética110, em suas significações sincrônicas e diacrônicas, no que dizem respeito à função denotativa, simbólica, desses tipos. O principal índice semiótico construtivo encontrado simultaneamente na maior parte dos casos estudados é o pórtico. Em arquitetura, é um local coberto à entrada de um edifício, de um templo ou de um palácio. Ele pode se estender ao longo de colunatas, ou fechada por paredes. A identidade reverente que se detém à imagem de uma escola na sociedade depreende, através do uso dele, seu principal elemento de comunicação institucional sobre a ação política do gestor. A marcação da entrada principal por pórticos só não ocorre nos casos das escolas Nilo Povoas e Presidente Médici, sem qualquer tipo de identidade ou comunicação visual para tal. 110 Assim como no sincretismo dos cultos afro-brasileiros sobre a religião católica, onde um conjunto de códigos formais subscreve-se sobre outro existente, sem anulá-lo e vice-versa, é possível também que outras manifestações culturais e artísticas exerçam manifestações sincréticas em suas expressividades. (nota do autor) 103 Além disso, no caso da Escola Atrativa, a entrada é marcada tipologicamente por um balcão, que tem função similar com a do pórtico, mas comporta em sua constituição física algumas áreas úteis da edificação. Mesmo assim, a função comunicacional persiste. Na análise dos casos, consecutivamente, temos as seguintes especificidades arquitetônicas de seus espaços: A) Nos grupos escolares da República Velha, o programa exerce sobre as ambiências estrita disciplina sobre os corpos, herança do estilo Neoclássico das construções, atendendo às demandas da política higienista de então. Sua estilística, obsoleta para as discussões arquitetônicas do mundo ocidental à época, serve bem ao tipo de Estado oligárquico instituído, por sua tipologia mural predominante decorativa e simbolista, referentes a um estilo de vida nobiliárquico, napoleônico, idealizado e glamorizado. B) No Liceu Cuiabano, pelo Estado-Novo, a propaganda populista de uma arquitetura por vezes simbolista e expressionista, com uma estilística inovadora para os moldes de então, que se apropria de certas peculiaridades regionais, parece mascarar espacialmente uma configuração espacial tão higienista e disciplinar quanto à da República Velha; C) Estoicismo espartano e tecnicista configura a arquitetura do Nilo Povoas e do Presidente Médici. A disciplina panóptica exigida para o controle das coletividades encontra a excelência das metodologias de pré-fabricação em concreto, de simbolismo político, mas também dotadas de certo expressionismo aerodinâmico, principalmente em suas cascas côncavas de concreto. D) As escolas particulares Livre Porto Cuiabá e Centro Educacional Plural dispõem em seus espaços o uso e a fruição dos corpos sobre um modelo disciplinar referencial. Todavia, suas arquiteturas procuram ser simbolistas, principalmente quanto ao uso das cores das marcas nas instituições. A programação de investimentos das instituições acaba sempre condicionando economicamente seus sistemas construtivos, técnicos e práticos, mas em alguns detalhes espaciais das instituições, soluções expressionistas surgem, seja na passarelacoroa do Plural quanto no pórtico-pergolado de madeira entalhada do Livre Porto. E) As escolas Adalgisa de Barros e o CAIC de Várzea Grande encontraram num projeto tecnicamente arrojado, prático, e padronizado, a mensagem-massa apropriada para uma euforia populista esperada, tanto simbólica, quanto dotada de certas expressividades arquitetônicas, onde a disciplina espacial persiste sem subversões do modelo panóptico. F) Na escola Oscar Ribeiro, a experiência bastante particular e autônoma de gestão escolar produziu um artefato arquitetônico único, em se comparando com os outros casos estudados, onde o uso e fruição dos corpos para com o espaço encontram uma edificação de 104 exeqüibilidade viável, tecnicista, mas dotada de um distinto senso expressionista, principalmente no que diz respeito às intenções ambientais do autor, referentes à cultura residencial cuiabana. Seus simbolismos são sutis, adotados na escolha das cores dos revestimentos, que são os mesmos da marca da gestão, assim como da identificação do gestor responsável, através da aplicação de letras caixa na parede de seu saguão principal. G) Na Escola Atrativa, o modelo basicamente disciplinar adotado suporta-se em uma arquitetura tecnicista e viável, onde o uso e fruição dos corpos para com o espaço subsiste em certos equipamentos de uso comum, voltados à vida em comunidade. O uso das cores de revestimento, assim como no caso das escolas particulares, suspeita caráter simbolista, marcário e, portanto, iconografável. 5. Considerações finais - Arquiteturas heróicas ou arquiteturas honestas? Nos casos estudados, principalmente nos que ainda estão em uso enquanto centros ensino, verificou-se a existência de diversas reformas, ampliações e reconfigurações de espaço físico, tanto pela demanda por mais salas de aula, quanto pela readequação de sua infra-estrutura programática. Essa expansão de suas atividades não cessa a demanda ainda crescente de mais espaço físico à atividade educacional, mas incrementa uma discussão política com as possíveis conseqüências destes investimentos de emergência, em detrimento da real e adequada ação institucional para possibilitar a prática educacional em suas ideais condições de funcionamento. Qual seria o presente papel da arquitetura sobre as construções ideais às percepções de um mundo mais complexo e plural, e cada vez mais participativo? A resposta dada pela história da arquitetura dos casos estudados, parece trazer em duas soluções aparentemente dicotômicas um quadro para se refletir: ao mesmo tempo em que concepções arquitetônicas essencialmente simbólicas prestam um serviço publicitário de aspirações heróicas sobre a imagem e recepção da gestão institucional, sua funcionalidade programática, econômica e educacional exigem edificações honestas, de controle orçamentário pragmático, responsável, às vezes até modesto, onde as práticas de ensino possam ser desenvolvidas na excelência de seus projetos pedagógicos. Uma arquitetura é classificada enquanto heróica justamente quando procura marcar na imagem da cidade e de sua civilização seus parâmetros ideológicos de sociedade, de política, de humanidade. Apesar de poder encontrar essa aspiração em resoluções técnicas que sejam expressionistas, referentes à códigos arquitetônicos de linguagem indireta e de baixa 105 definição, é na urgência da publicidade, com seus simbolismos de tipologia mural, marcários, de alta definição, que se iconografam esses ideais arquitetônicos. No ordinário do cotidiano, as demandas sociais, sempre urgentes, exigem apenas o cumprimento de seus direitos ou atenções, não prescrevendo nenhuma retórica arquitetônica grandiloqüente, mas, com certeza funcional e confortável. Essa honestidade possível em uma arquitetura institucional não depreende tecnologias sofisticadas para existirem, mas precisamente da sensibilidade do arquiteto para entender como funcionam e se realizam tais demandas sociais, transformado-as em espaços de uso e de fruição. Arquiteturas heróicas ou honestas? Se pudessem ser ambas, não seria difícil projetálas. Na verdade, todo o trabalho arquitetônico vai depender de sua inter-relação com os outros dois vetores da tríade apresentada, lidando de caso em caso. A primeira, e mais estreita relação comunicacional, em alta definição, com os públicos dos centros de ensino, e que forneceria o real programa de necessidades para a ação do arquiteto, seria sobre o vetor institucional do educador. E é sobre essa ação institucional, plenamente, que se realizariam as interlocuções entre o gestor político e o arquiteto. Sobre o gestor, a inflexão das forças ideológicas e tecnocráticas, contra ou em consonância com a inércia e dinâmica das massas, daria o tom da administração e aplicação dos recursos, assim como de sua retórica política, pouco importando, na prática, o resultado das construções arquitetônicas, mas possa ser que através da divulgação indireta destas, o encaminhamento de seu projeto político conquiste seus êxitos e deméritos. E é assim, quando o gestor se entende com o educador que se descobre como podem responder às massas, tanto reativas quanto comodamente. Para o arquiteto, não seria empecilho desempenhar a sua função com excelência técnica, mesmo se isolando das discussões e participações institucionais sobre a arquitetura escolar, mas o risco que corre em desenvolver uma arquitetura autista e desconfortável aumentaria junto com a sua distância institucional. Hoje, quando da experiência deste autor com a docência, se entende que a falta de atribuições, ainda existente, de discussões mais críticas, políticas, voltadas ao devir da arte de Arquitetura e Urbanismo na realidade docente de Mato Grosso, reflete uma realidade por vezes calcada na idéia do desenvolvimento (pelo menos para o que era para os governos militares) do interior do país, da fronteira agrícola, na modernização dos meios de infraestrutura e de produção, e da hábil locomoção territorial, onde não há tempo e nem recursos para discussões consideradas acessórias e supérfluas, objetos pressupostamente presentes na criação das arquiteturas. 106 São em ambientes acadêmicos assim, essencialmente retóricos e poucos reflexivos, e, em no caso mato-grossense, muito mais reativos, que muitos arquitetos passam pelos anos de graduação, e isso sem ao menos suspeitar de quais ciências se atribuiriam as suas curiosidades. Ao analisar os casos estuados, foi possível delinear parte dos caminhos que a redemocratização do país trilhou pelo estado de Mato Grosso, e mais especificamente, pelo Aglomerado Urbano Cuiabá-Várzea Grande, no afã de recolocar na discussão e administração a autonomia da gestão escolar e sua conseqüência na obra arquitetônica. Somada às dificuldades econômicas do Brasil com a retomada da democracia, mais os espólios da divisão do estado de Mato Grosso, em 1977, a explosão migratória dos anos 1970 e 1980, e a real capacidade de infra-estrutura do estado à época, que ainda hoje rende problemas, pode-se compreender o porquê do Mato Grosso ainda estar, enquanto parte de uma sociedade em vias de modernização, apresentando disparidades qualitativas sobre a percepção e concepção dessas arquiteturas escolares. Na construção permanente da democracia brasileira, apesar de toda a individualidade possibilitada por mecanismos de uma sociedade de controle, as coletividades da sociedade contemporânea continuam a exigir inserção, comunhão e sociabilização sobre seus direitos inalienáveis, mesmo quando confundem consumo com cidadania. A investigação dos casos, principalmente no que diz respeito à autonomia de ação dos educadores, demonstra que o alcance e eficiência da educação pública identifica melhoras, apesar de ainda existir muito a realizar, já que a educação, historicamente falando, é um investimento permanente e crescente. Independente da pressão da competitividade dos mercados e de algumas experiências erráticas de administração que sempre acabam por irem e virem em uma democracia, a escola, imaterial e universal como sempre foi, mesmo antes de modular-se no Panóptico, mas como instrumento de autonomia humana, continua a expressar em sua existência arquitetônica, como já disse o arquiteto Louis I. Khan, e independente da existência de pobres e ricos, que é o local aonde é belo aprender. 107 BIBLIOGRAFIA BAITELO JUNIOR, Norval. A era da Iconofagia – Ensaios de Comunicação e Cultura. São Paulo: Hacker Editores, 2005. BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Editora Hucitec, 2006. BARBOSA, Ivan Santo (org.). Os sentidos da publicidade - Estudos interdisciplinares. São Paulo: Thompson, 2005. BARKER, Stephen F. Filosofia da matemática. Rio de Janeiro: Zahar, 1969. BUFFA, Ester. Ideologias em conflito: Escola Pública e Escola Privada. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979. ____________. 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Saber ver a arquitetura. São Paulo: Martins Fontes, 2002. 112 ANEXOS 113 AENXO I – Da Constituição do Estado de Mato Grosso. Apresenta-se a seguir seus principais tópicos no que diz respeito às disposições gerais relativas à Educação, começando pelo Título I – Dos princípios Constitucionais Fundamentais: “Art. 3º - São princípios fundamentais e constituem objetivos prioritários do Estado: (...); II – A aprovação da pessoa humana, com a criação de mecanismos que concretizem suas potencialidades com perspectiva de transformação, sem paternalismo ou privilégios; III – Propiciar a educação, habitação, saúde e assistência pública à maternidade, à infância, à adolescência, ao idoso e às pessoas portadoras de qualquer tipo de deficiência; IV – O respeito incondicional à moralidade e à probidade administrativa, com a efetivação de mecanismos que oportunizem à coletividade o controle da legalidade de seus atos e da transparência de suas ações; V – A eficiência na prestação dos serviços públicos e o estabelecimento de mecanismos de controle pela coletividade da adequação social de seu preço; VI – A efetivação da participação popular na elaboração das diretrizes governamentais e no funcionamento dos Poderes; Art. 4º - O estado prestigia e garante, nos termos da lei, a participação da coletividade na formulação e execução das políticas públicas em seu território, bem como na elaboração de programas, projetos e planos estaduais e municipais mediante assento em órgãos colegiados.”(2006: pp.19-20). Mais adiante se tem o Título II – Dos Direitos, Garantias e deveres individuais e sociais – cujo Capítulo II – Dos direitos e deveres sociais afirma: “Art. 13 – É dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com prioridade, o direito à vida, á saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, á profissionalização, à cultura, à convivência familiar e comunitária, bem como coloca-la à salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência e maus tratos.” O título V – Do desenvolvimento econômico e social – encontramos o Capítulo II – Da ação cultural - cuja seção I – Da educação traz o seguinte: Art.237 – O Estado e os Municípios organizarão os seus sistemas de ensino de modo articulado e em colaboração, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa humana, ao seu preparo para o exercício da cidadania com base nos seguintes princípios: I – a educação escolar pública, de qualidade. Gratuita, em todos os níveis e graus, é direito de todos, conforme art. 10 inciso III, desta Constituição; 114 II – gratuidade do ensino público, em todos os níveis e graus, em estabelecimentos oficiais; (...) IV – gestão democrática, e todos os níveis dos sistemas de ensino, com eleição direta para diretores das unidades de ensino e dirigentes regionais e composição paritária dos Conselhos Deliberativos Escolares, com participação dos profissionais de ensino, pais e alunos, na forma da lei; (...) Art. 238 – É dever do Estado o provimento de vagas em todo território matogrossense em número suficiente para atender a e demanda do ensino fundamental e médio. (...) Art. 242 – O dever do Estado com a educação efetivar-se-á mediante garantia de: I – ensino fundamental médio obrigatório e gratuito, inclusive para os que não tiverem acesso na idade própria; II – educação permanente para todos os adolescentes e adultos; III – acesso aos instrumentos de apoio às necessidades do ensino público obrigatório. Art. 243 – As unidades escolares terão autonomia na definição da política pedagógica, respeitados em seus currículos os conteúdos mínimos estabelecidos em nível nacional, tendo como referência os valores culturais e artísticos nacionais e regionais, a iniciação técnico-científica e os valores ambientais. (...) Art. 244 – Os sistemas estadual e municipais de ensino passam a integrar o Sistema Único de Ensino. Parágrafo Único – Ao Estado caberá organizar e financiar o sistema de ensino e prestar assistência técnica e financeira aos municípios para gradual integração em um Sistema Único de Ensino, na forma da lei.” (2006: pp. 123-125). 115 ANEXO II – Figuras dos objetos de pesquisa. a) Grupo escolar do 1º Distrito (Escola Modelo Barão de Melgaço). Fig. 46: Vista aérea, em foto tirada nos anos 1930; Fonte: SEDUC-MT; Fig. 47: vista da fachada principal, pela travessa Antônio Maria, nos anos 1980, Fonte: SEDUC-MT; 116 Fig. 48: Detalhe do Pórtico de entrada e do adorno de topo (frontão); Fontes: Acervo do grupo de pesquisa em História da Educação, do programa de Pós-graduação em Educação, da Universidade Federal de Mato Grosso; Fig. 49: Detalhe das ambiências dos pátios internos; Fontes: Acervo do grupo de pesquisa em História da Educação, do programa de Pós-graduação em Educação, da Universidade Federal de Mato Grosso; 117 Fig. 50: Detalhe das circulações horizontal e vertical (escadaria); Fontes: Acervo do grupo de pesquisa em História da Educação, do programa de Pós-graduação em Educação, da Universidade Federal de Mato Grosso; Fig. 51: Detalhe de tipologias acessórias (esquadrias); à esquerda, janela padrão da edificação; à direita, gradil em ferro fundido do acesso principal; Fontes: Acervo do grupo de pesquisa em História da Educação, do programa de Pós-graduação em Educação, da Universidade Federal de Mato Grosso; 118 Fig. 52: Planta baixa do pavimento térreo; Fonte: Acervo do grupo de pesquisa em História da Educação, do programa de Pós-graduação em Educação, da Universidade Federal de Mato Grosso; 119 Fig. 53: Planta baixa do pavimento superior; Fonte: Acervo do grupo de pesquisa em História da Educação, do programa de Pós-graduação em Educação, da Universidade Federal de Mato Grosso; 120 b) Grupo escolar do 2º Distrito (Escola Senador Azeredo). Fig. 54: Planta baixa do Grupo Escolar Senador Azeredo em Cuiabá-MT; Fonte: Catálogo Graffico de Mato Grosso (1910); 121 Fig. 55: Vista da fachada principal, na esquina da av. Senador Metello com a rua 13 de julho, atualmente e nos anos 1970, Fontes: Acervo do grupo de pesquisa em História da Educação, do programa de Pós-graduação em Educação, da Universidade Federal de Mato Grosso; 122 Fig. 56: Detalhe do Pórtico de entrada e do adorno de topo (frontão); Fontes: Acervo do grupo de pesquisa em História da Educação, do programa de Pós-graduação em Educação, da Universidade Federal de Mato Grosso; Fig. 57: Detalhe da circulação interna do pavilhão de aula e detalhes tipológicos de esquadrias; Fontes: Acervo do grupo de pesquisa em História da Educação, do programa de Pós-graduação em Educação, da Universidade Federal de Mato Grosso; 123 c) Escola Estadual Liceu Cuiabano Fig. 58: - Detalhe da circulação externa do pavilhão de aula e do pórtico de entrada; Fontes: Acervo próprio; Fig. 59: Anfiteatro, com destaque para o hall de entrada e de sua ambiência; Fontes: Acervo próprio; 124 Fig. 60: Ginásio, com destaque para o revestimento em seixo rolado, estrutura de sustentação da cobertura e ambiência, onde a platéia fica no andar superior; Fontes: Acervo próprio; 125 d) Escola Estadual Nilo Povoas Fig. 61: Detalhe do acesso secundário para os professores, que também se interliga com a escadaria de aceso para a Av. da Prainha; Fonte: Acervo próprio; Fig. 62: Detalhe do pátio interno, com seus dois pavimentos e iluminação zenital; Fonte: Acervo próprio; 126 e) Escola Estadual Presidente Médici Fig. 63: Detalhe do primeiro pavilhão de aulas com destaque para as abóbadas de berço em sua cobertura; Fonte: Acervo próprio; Fig. 64: Detalhe do acesso para professores; Fonte: Acervo próprio; Fig. 65: Detalhe da rampa de acesso à entrada principal; Fonte: Acervo próprio; 127 f) Escola Livre Porto Cuiabá Fig. 66: Detalhe da sala de tecelagem; Fonte: Acervo próprio; Fig. 67: A separação de faixas etárias foi resolvido com o transbordamento da estrutura arquitetônica em duas edificações, à direita, educação infantil, e à esquerda, o prédio do ensino fundamental e médio; Fonte: Acervo próprio. 128 Fig. 68: Detalhe do paisagismo arbóreo existente nas duas edificações: a relação holística de sua pedagogia consegue ser comunicada através dele, mudando os ares do bairro em que se situa; Fonte: Acervo próprio. g) Centro Educacional Plural Fig 69: Vista da fachada principal do complexo arquitetônico: como a sede do estabelecimento sofreu sucessivas reformas, ampliações e reconfigurações de seu espaço com o decorrer dos anos e o aumento de suas demandas; Fonte: acervo próprio. Fig 70: As adaptações físicas, (auditório e sala de informática), da estrutura educacional; Fonte: do site institucional. 129 h) CAIC Jardim Alá Fig 71: Vista do Pórtico de entrada/ponto de ônibus; Fonte: Acervo Próprio. Fig 72: Vista Panorâmica, a partir do acesso principal; com o ginásio de esportes e primeiro bloco ao fundo; Fonte: Acervo Próprio. Fig 73: Vista Panorâmica dos blocos de aula, com o ginásio ao fundo; Fonte: Acervo Próprio. Fig 74: Vista panorâmica com detalhe nos sheds para iluminação e ventilação natural; Fonte: Acervo Próprio. Fig 75: Vista panorâmica do hall de entrada do primeiro bloco, onde se percebe a inexistência de iluminação natural, suprimida pelas esquadrias pintadas de branco; Fonte: Acervo Próprio. 130 Fig 76: Detalhes da cobertura do ginásio e da escadaria de acesso ao belvedere; Fonte: Acervo Próprio. Fig 77: Vista interna do Ginásio; Fonte: Acervo Próprio. Fig 78: Vista panorâmica do belvedere, com destaque do primeiro bloco; Fonte: Acervo Próprio. 131 Fig 79: Vista do teatro de arena; Fonte: Acervo Próprio. Fig 80: Vista do segundo bloco; Fonte: Acervo Próprio. Fig 81: Vista panorâmica do auditório; Fonte: Acervo Próprio. Fig 82: Vista da sala de informática; Fonte: Acervo Próprio. 132 Fig 83: Vista do laboratório de ciências; Fonte: Acervo Próprio. Fig 84: Vista da sala de profesores; Fonte: Acervo Próprio. Fig 85: Duas salas de aula, em destaque; Fonte: Acervo Próprio. 133 i) Escola Estadual Adalgisa de Barros Fig 86: Vista exteror da escola, com destaque no Ginásio; Fonte: Acervo Próprio. Fig 87: Detalhe do primeiro bloco, com o pórtico de entrada em destaque; Fonte: Acervo Próprio. Fig 88: Duas vistas, em ângulos diferentes, do pátio coberto entre o primeiro e segundo blocos; Fonte: Acervo Próprio. Fig 89: Detalhe do paisagismo entre blocos; Fonte: Acervo Próprio. 134 Fig 90: Detalhe da rampa de acesso ao pavimento superior dos blocos; Fonte: Acervo Próprio. j) Escola Municipal Oscar Ribeiro Fig 91: Vista externa da fachada principal; Fonte: Acervo Próprio. Fig 92: Vista do pátio principal (hall) coberto, com destaque para a rampa de acesso ao pavimento superior; Fonte: Acervo Próprio. Fig 93: Vista do jardim principal, voltado ao hall, com destaque às varandas dos blocos de salas; Fonte: Acervo Próprio. 135 Fig 94: Vista dos blocos de salas dos fundos, com destaque ao pergolado; Fonte: Acervo Próprio. Fig 95: Vista panorâmica de dentro do ginásio; Fonte: Acervo Próprio. k) Croquis do Projeto Nova Escola Fig 96: Planta baixa do térreo, Escola Tipo A (24 salas); Fonte: Manuel Perez. 136 Fig 97: Planta baixa do pavimento superior, Escola Tipo A (24 salas); Fonte: Manuel Perez. Fig 98: Perspectiva, Escola Tipo A (24 salas); Fonte: Manuel Perez. 137 Fig 99: Planta baixa, Escola Tipo B (18 salas); Fonte: Manuel Perez. Fig 100: Perspectiva, Escola Tipo B (18 salas); Fonte: Manuel Perez. 138 Fig 101: Planta baixa, Escola Tipo C1 (12 salas); Fonte: Manuel Perez. Fig 102: Perspectiva, Escola Tipo C1 (12 salas); Fonte: Manuel Perez. 139 Fig 103: Planta baixa, Escola Tipo C2 (18 salas); Fonte: Manuel Perez. Fig 104: Perspectiva, Escola Tipo C2 (18 salas); Fonte: Manuel Perez. 140 l) Escola Atrativa Diva Hugueney Fig 105: Vista da fachada, com destaque ao balcão; Fonte: Acervo Próprio. Fig 106: Detalhe da interligação dos pavilhões de salas com o estar do balcão; Fonte: Acervo Próprio. Fig 107: Detalhe da rampa de acesso ao pavimento superior; Fonte: Acervo Próprio. Fig 108: Vista da fachada posterior do bloco de salas de aula, com destaque à rampa; Fonte: Acervo Próprio. 141 Fig 109: Detalhe da ambiência de uma das salas de aula, em dia de reunião de pais e mestres; Fonte: Acervo Próprio. Fig 110: Vista panorâmica do equipamento comunitário (piscina e galpão mult-iuso); Fonte: Acervo Próprio. Fig 111: Detalhe do galpão multi-uso; Fonte: Acervo Próprio. Fig 112: Detalhe do Ginásio de esportes; Fonte: Acervo Próprio.