Fernando Barbosa Lima: Bons Tempos do Telejornalismo
Brasileiro1
SOUZA, Florentina das Neves2
Resumo
Apresentar a história de programas jornalísticos de televisão por meio da vida e trajetória de
Fernando Barbosa Lima, um dos maiores jornalistas de televisão do Brasil é o objetivo deste
artigo. Barbosa Lima morreu no ano passado depois de 52 anos dedicados à televisão
brasileira e com experiências históricas no telejornalismo. Dirigiu dezenas de programas de
sucesso nas TVs Rio, Excelsior, Tupi, Rede Globo e Rede Bandeirantes, TV manchete e TVE
do Rio de Janeiro. A inovação, criatividade e a resistência aos períodos difíceis do improviso
e da censura fazem parte da biografia do jornalista que é a própria história da televisão e do
telejornalismo brasileiro.
Palavras-chave: Televisão, História, Fernando Barbosa Lima, Jornal de Vanguarda,
Telejornalismo.
Considerações Iniciais
Fernando Barbosa Lima faz parte da história da televisão e do
telejornalismo brasileiro. Começou a trabalhar em Televisão em 1955, aos 22 anos, na antiga
TV Rio, no Rio de Janeiro. Antes, porém, já havia trabalhado na agência de propaganda
Standard e no jornal O Tempo, de São Paulo. Barbosa Lima criou e dirigiu mais de 100
programas de televisão e foi considerado o mais ousado produtor e diretor de TV. No
telejornalismo sempre buscou programas criativos, críticos e marcados pela vanguarda e
inovação. Dirigiu as TVs Excelsior, Bandeirantes, Manchete e presidiu a TVE do Rio de
Janeiro.
1
Trabalho apresentado ao GT – História da Mídia Audiovisual. VII Encontro Nacional de História da Mídia
2
Doutora em Ciências da Comunicação- ECA- USP. Docente e pesquisadora da Universidade Estadual de
Londrina
Na década de 1950 e 60, quando a televisão no Brasil ainda engatinhava,
Barbosa Lima criou programas de entrevista com personalidades e no formato de
documentários fugindo da linguagem radiofônica, garantindo audiência absoluta com o
programa Preto no Branco. Ganhou prêmios internacionais e mostrou o telejornalismo
brasileiro para o mundo com o Jornal de Vanguarda. Quando o golpe militar instaurou o
autoritarismo no Brasil e a censura impediu o telejornal de continuar, o jornalista deixou a
televisão. No final dos anos 70, em plena ditadura, voltou para a TV Tupi e montou o
jornalístico Abertura que entrevistava políticos e familiares de exilados. Barbosa Lima
colocava-se claramente contra o regime fazendo sucesso mas enfrentando problemas.
A proposta deste artigo é apresentar a memória de um telejornalismo
inteligente e inovador por meio da vida profissional do jornalista Fernando Barbosa Lima,
que morreu há um ano. A metodologia usada é a técnica da história oral com depoimentos do
próprio jornalista durante uma entrevista em 1999, além de entrevistas com profissionais,
pesquisa bibliográfica e em periódicos .
1. Criatividade e Ousadia
Fernando Barbosa Lima viveu todas as fases da televisão. Começou
dirigindo programas e emissoras quando a TV ainda era em preto e branco e não existia o
videoteipe. O primeiro jornalístico que dirigiu na TV Rio, no Rio de Janeiro, em 1957,
chamava-se Cruzeiro Musical. A estrutura do programa era precária, mas a idéia inovadora
para a época. Em um estúdio muito pequeno, o apresentador César Ladeira, famoso como
apresentador de rádio, mostrava desenhos, cartazes e fotografias do país. Um grupo de teatro
recitava poemas, para falar do Brasil.
As imagens que usávamos eram fotografias, um ou outro filme, que se conseguia
emprestado em preto e branco, tinha que ser em 16 milímetros que a TV não tinha 36
milímetros . E entrevistávamos uma grande personalidade da região dessa cidade que
estávamos focalizando, Então contávamos a história daquela região (Barbosa Lima,
1999).
A TV Rio já tinha o programa Cruzeiro Musical que era patrocinado pela
companhia aérea Cruzeiro do Sul e exibia uma orquestra tocando boleros. Unindo criatividade
e competência, Barbosa Lima pensou: “por que uma empresa nacional de aviação, voando
pelo Brasil, não faria uma série de programas mostrando o Brasil aos brasileiros”
Cada programa mostraria um Estado. (...) por exemplo, nós íamos mostrar a Bahia. A
Bahia era apresentada através das músicas do Dorival Caymi que aquele tempo era o
grande compositor baiano. (....) então a gente pegava as músicas do Caymi, pegava as
histórias, textos, do Jorge Amado sobre a Bahia, uma série de livros sobre a Bahia
(Barbosa Lima, 1999).
Nas duas primeiras décadas da história da televisão brasileira, como não
existia sistema de redes, as TVs eram de proprietários diferentes, porém agregadas. A Record,
por exemplo, pertencia ao Grupo Paulo Machado de Carvalho, associada à TV Rio, de João
Batista do Amaral. Os programas, neste período, trocavam de emissora, mas mantinham a
mesma estrutura e formato, foi o que aconteceu com o Cruzeiro Musical. Fez tanto sucesso na
TV Rio que os diretores convidaram Barbosa Lima para fazê-lo na TV Record, em São Paulo,
o formato permaneceu e a audiência também. “Pensando bem, hoje com toda a tecnologia,
seria um sucesso, seria mostrar o Brasil aos brasileiros” (Barbosa Lima, 2007).
Barbosa Lima dirigiu outro programa revolucionário e de sucesso na
década de 1950. O programa Preto no Branco, foi ao ar, também em 1957, pela TV Rio e
marcou a estréia de Oswaldo Sargentelli3 na televisão. Foi também o primeiro de muitos
trabalhos em parceria com o diretor Carlos Alberto Loflle. “Foi um programa experimental
jornalístico. Eu fiz isso com um grande amigo meu e ficamos praticamente sócios em várias
produções” (Barbosa Lima, 1999).
O formato era totalmente inédito na televisão. O apresentador não
aparecia: escondido, em off, fazia perguntas ao entrevistado, que ficava em pé, apoiado em
um banquinho de bar. O estúdio era composto por um cenário com desenho de céu e nuvens e
3
Oswaldo Sargentelli foi radialista e apresentador de televisão, a voz grave era o destaque nos veículos de
comunicação. Ficou famoso com o samba, por conta das casas de samba do Rio de Janeiro e das suas dançarinas
conhecidas como as mulatas do Sargentelli. Faleceu em 2002 no Rio de Janeiro.
o chão era pintado com linhas pretas dando a noção de profundidade. As perguntas eram
enviadas por dez jornalistas que questionavam, através da voz de Sargentelli. O programa
fazia tanto sucesso e tinha tanta audiência que foi repetido em São Paulo, pela TV Record.
Durante a entrevista a personalidade ficava sozinha e sem nenhum apoio.
Aos poucos apareciam detalhes da mão e do rosto, fazendo um jogo de câmera. Neste
momento ainda não existia o videoteipe e as apresentações eram “ao vivo”, por isso, o
profissional da imagem era muito importante. Barbosa Lima lembrou- se de um dos
profissionais pioneiros na TV e que se transformou em profissional de cinema trabalhando
com os cineastas Glauber Rocha e do Nelson Pereira dos Santos: Dib Lutf. “Todos os
cineastas trabalhavam com o Dib porque ele era realmente um grande câmera. Ele era ágil,
super rápido porque os equipamentos daquele tempo não eram como os de hoje, eram super
pesados, eram um verdadeiro dinossauro” (Barbosa Lima, 1999)
Foram vários os momentos marcantes do programa, durante uma
entrevista com o então governador de São Paulo, Adhemar de Barros, a pergunta polêmica era
se a frase: Rouba, mas faz se tratava de um slogan ou um estilo de vida, uma referência ao
discurso dos correligionários sobre o político. O deputado Tenório Cavalcante conhecido pelo
uso de uma capa preta para esconder a ‘lurdinha’, uma metralhadora de cano dourado que o
acompanhava, foi surpreendido com a pergunta direta: “olhe bem este rosto. Deputado
Tenório Cavalcante, o senhor vive para matar ou mata para viver. A incrível voz de trovão do
Sargentelli estourava em todos os televisores do Rio. No dia seguinte o "Preto no branco"
seria o grande assunto na cidade, nas esquinas e nos escritórios (Barbosa Lima, 2007, pág.
36).
O Programa saiu do ar quando já estava em São Paulo, na TV Record,
com o nome de Pingos nos iii, na décima quinta edição. Na entrevista com a deputada
estadual Conceição Santa Maria, segundo Barbosa Lima (2007, pág.40), o programa cometeu
um erro ao entrar na vida pessoal da deputada. Ela começou a agredir a família Mesquita dona
do jornal O Estado de São Paulo. No dia seguinte a Associação Comercial de São Paulo e o
patrocinador pediram para tirar o programa do ar.
O Preto no Branco foi único programa no estilo, feito “ao vivo”, depois
vieram outros, também dirigidos por Lima, com a mesma linguagem e a voz inconfundível de
Sargentelli, porém, já na era do vieoteipe, eram gravados e editados. Advogado do diabo, A
verdade e A voz do trovão, foram filhos do Preto no Branco.
O programa Advogado do Diabo foi ao ar, pela primeira vez, em 1967,
pela TV Excelsior. Foi dirigido, nesta época, por Walter Sampaio e depois foi apresentado na
TVE do Rio de Janeiro em 1976, já sob a direção de Barbosa Lima. Era um jornalístico com
julgamento. O primeiro programa com julgamento que existiu até então. Não havia um corpo
de jurados permanente era de acordo com o assunto. Em uma série de programas a entrevista
foi com Dom Helder Câmara4.
O julgamento era: Dom Helder Câmara é subversivo. Porque ele já tinha aquele
problema com a revolução. Ele foi julgado e foi absolvido com 7 a 0 . O programa
,correu o Brasil inteiro porque na época não tinha Embratel , ia por videoteipe, por
avião e só não foi apresentado em Recife porque na época ele era arcebispo de Olinda e
Recife e a estação que fazia parte da rede se negou apresentar o programa por razões
políticas (Sampaio, 1999).
Barbosa Lima se orgulha de ter trabalhado com estes formatos e de ter
introduzido linguagens diferentes daquelas até então usadas nos telejornais. Nos programas
Preto no Branco e Advogado do Diabo, por exemplo, procurou sair dos modelos da maioria
dos telejornais e deu destaque para o enquadramento em close:
... eu achava, naquela época, que o close era fundamental, porque eu estou conversando
com você, estou olhando seus olhos seus cabelos e eu queria que a câmera também
transmitisse isso. Porque a emoção você só transmite em close. Você vê que a novela
usa close o tempo todo. Agora o nosso telejornalismo de hoje não. Usa um negócio que
se chama plano americano porque o nosso jornalismo de hoje copia dos Estados Unidos.
Nós copiamos o formato americano do telejornalismo (Barbosa Lima, 1999).
O jornalista Alberto Dines também lembra desta época, considerada
referência para programas geniais. “Se, por um lado, o telejornalismo não dispunha dos
formidáveis recursos que dispõe hoje, por outro lado, era mais rico em matéria de debate, de
referência, de entrevista” ( Dines, 2007).
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Dom Helder Câmara foi arcebispo Emérito de Olinda e Recife, fundou a Conferencia Nacional dos Bispos do
Brasil. Foi indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz pelos seus posicionamentos contra a violência e a
ditadura militar.
2. Jornal de Vanguarda
O Jornal de Vanguarda da TV Excelsior, foi considerado o melhor da
emissora em uma fase revolucionária na televisão brasileira e um dos programas mais
premiados no exterior. Recebeu em 1964, o prêmio Ondas da Eurovisão, na Espanha, como o
melhor telejornal do mundo e ganhou todos os prêmios do Brasil e prêmios internacionais da
época. No prêmio da Eurovisão o Jornal de Vanguarda foi finalista com a BBC de Londres
e venceu pela criatividade. Foi avaliado pelos jurados como melhor porque não tinha os
recursos que tinha o jornal da BBC, mas em compensação, (Barbosa Lima, 1999) dava um
show de criatividade.
O programa foi revolucionário no formato. Rompeu com a linguagem
radiofônica e foi o primeiro apresentado efetivamente por jornalistas. A equipe também tinha
desenhista, caricaturista, humorista e comentarista político. O noticiário foi o responsável por
uma série de inovações do telejornalismo brasileiro, tanto na linguagem como na técnica
trazendo um tom bem informal e coloquial no modo de falar dos seus apresentadores. A
presença de vários locutores dinamizou a apresentação do programa, que passou a ter mais
ritmo. Até 1962, os telejornais, Lima (2007, pág.59), eram apresentados por locutores e
redigidos por um pequeno número de pessoas, gente que vinha do rádio: visualmente, todos
os telejornais eram parecidos: uma cortina de fundo, uma mesa e a cartela com o nome do
patrocinador. “O Jornal de Vanguarda mudou esse esquema, essa tendência”.
Eu fui buscar as pessoas, primeiro nos jornais, daí eu trouxe grandes desenhistas
como Borjalo; o caricaturista, Millôr Fernandes que, além de humorista era um grande
desenhista; também trouxe um grande humorista, um homem nacional: Sérgio Porto,
mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta. Trouxe um grande comentarista político
que era o Vilas Boas Corrêa, um grande homem de política internacional: Newton
Carlos e um grande homem de texto que era o Armando Nogueira e que depois foi
dirigir o jornalismo da Globo (Barbosa Lima, 1999).
O Jornal de Vanguarda era tão movimentado que tinha oito ou nove
pessoas dentro do estúdio, entre apresentadores e comentaristas. Além disso, apresentava
ilustrações, bonecos, sátiras e as “piadinhas” de Sérgio Porto. A utilização dos bonecos era
um modelo argentino. Eles foram trazidos de lá por Edson Leite, diretor da TV Excelsior. O
telejornal na opinião de Frydman (1999) tinha um modo diferente de manifestar sua posição
diante do comentário que era feito: “eles improvisavam o Sargentelli comentando e havia
alguém com uma rosa que se mexia ao sabor dos comentários. Se fosse irônico, ela saía de
campo ou entrava em campo. Esse comentário era como se fosse um editorial. Abria o
telejornal”.
O
programa
era
totalmente
irreverente
e
surpreendente.
Os
apresentadores e comentaristas ficavam em plano americano e sentados em um banquinho
para evitar o mau posicionamento diante das câmeras. Segundo Corrêa (1994, pág. 128) a
vantagem do banquinho era que, sem encosto, obrigava a uma postura correta, evitando a
deselegância de afundar. “Como tudo era ao vivo, de vez em quando aconteciam coisas
pitorescas. Uma vez, o humorista Sérgio Porto contou uma piada tão engraçada, que
provocou riso em toda a equipe. Foi preciso tirar o jornal do ar.
Além das piadas, a função de Sérgio Porto, conhecido pelo pseudônimo
de Stanislaw Ponte Preta no Diário Carioca, era fazer comentários mordazes sobre a
política brasileira e ser irônico. Antes do ‘boa noite’, ele sempre anunciava a próxima
atração. Certa vez, recomendou o filme Os Sete Pecados Capitais e, em especial, uma cena
de strip-tease num táxi. Isso na década de 60 e em pleno regime militar.
Mas, nem tudo era alegria no Jornal de Vanguarda. O telejornal era
sério e ousado ao ponto de tirar a programação do ar para sensibilizar a população para os
problemas brasileiros.
Eu me lembro que uma vez aqui no Brasil a cada minuto morriam duas crianças por
causa da mortalidade infantil, então a gente fez o seguinte comentário: para se ter uma
idéia o que é isso, nós vamos tirar a TV do ar por um minuto. Durante esse minuto é o
tempo que vai morrer uma criança nesse país. Tiramos a TV do ar e aí ficou aquela tela
chiando e ninguém saiu, ficou todo mundo ali.
Outro momento de emoção foi quando no dia primeiro de abril de 1964,
o país já vivendo o período da ditadura um cinegrafista filmou, em película a morte de um
estudante.
um estudante na porta do clube militar gritando “Jango, Jango, Jango”. Aí um homem
de terno, bigodinho fino deu um tiro na cabeça do menino e matou o menino ali na rua.
Esse filme nós colocamos no ar. Coloquei no peito. Uma hora depois estava lá o homem
que deu o tiro, era um major do exército, junto com o general e o diretor da televisão.
Eles queriam o filme. Eu já tinha mandado tirar uma cópia do filme e já tinha mandado
para a Europa, para a França. Inclusive o Sérgio Porto quando viu esse filme no ar
chorou no estúdio. Eu cortei para ele que estava com os olhos cheios d’água de ver
aquele menino ser assassinado daquela maneira (Lima, 1999).
Depois do golpe militar a censura passou a ser muito forte e não deixou
mais o Jornal de Vanguarda prosseguir livremente. Com a perseguição à TV Excelsior, o
programa foi obrigado a mudar de emissora. Passou pelas TVs: Tupi, Globo, Continental e
terminou na TV Rio, no auge do AI-5.
(....) mudava o diretor da televisão, vinha o novo diretor mais ou menos indicado
pelos militares. Era uma censura encomendada, eles não queriam o Darlim Brandão, na
época, porque era assessor direto de Miguel Arraes. O Jornal de Vanguarda foi para a
Tupi e ficou um ano com bastante liberdade. O Walter Clarck assumiu a direção da
Rede Globo e nos convidou . Ficamos na Globo oito meses no mesmo estilo. Começou
uma certa censura, aí nos resolvemos sair. Voltamos para a Excelsior, mas o programa
acabou na TV Rio. (...) Foi uma decisão de toda a equipe. E, inclusive, a última frase do
jornal quando nós estávamos nos despedindo, saindo do ar, dizia assim: um cavalo de
raça a gente se mata com um tiro na cabeça” (Lima,1999).
3. A Abertura para Discussão e Debate
A abertura política, no final da década de 70 e início dos anos 80, permitiu
a volta e surgimento de novos programas jornalísticos de entrevista, discussão e debate como:
Abertura, na Tupi; Crítica e Auto-Crítica e Canal Livre, na Bandeirantes; Persona Em
Debate, na TV Manchete; Os Editores, na TV Educativa e Opinião Pública, na TV de
Brasília. Nesta época, Barbosa Lima, depois de passar os piores anos da ditadura fora da TV,
voltou para retomar a criatividade dos anos 50 e 60. Criou, produziu e dirigiu de 1972 até
inicio de 2001, pelo menos 40 programas. Os destaques foram Canal Livre e Sem Censura
que tiveram três fases e ainda estão no ar e o programa Conexão Internacional; um grande
sucesso da TV Manchete .
O programa Abertura – com uma hora e meia de entrevistas e reportagens
sobre os principais acontecimentos da semana – estreou no dia 4 de fevereiro de 1979, na TV
Tupi, às dez e meia da noite. Fernando Barbosa Lima levou para o Abertura especialistas
como: João Saldanha, Newton Carlos, Villas Boas e Glauber Rocha, além de Tarcísio
Holanda:
(...) quando eu senti que a ditadura estava acabando, estava nos seus últimos estertores,
eu resolvi voltar para a televisão porque a televisão, na verdade, sempre foi a paixão da
minha vida. Daí eu fui para Brasília conversar com o ministro Petrônio Portela que
estava assumindo o ministério da justiça e já estava falando em abertura então eu resolvi
criar um programa chamado Abertura (Barbosa Lima, 1999).
O Abertura era uma grande revista em movimento onde cada jornalista
ou especialista fazia seu quadro. Barbosa Lima afirmava que todos tinham ampla liberdade,
podiam falar o que quisessem e ele dizia que “a não censura tem que começar desde o
programa”. Para o Glauber Rocha Lima dizia que só teria que editar para colocar a matéria
em uma ordem cronológica para o público entender. “Glauber topou, trabalhamos juntos dois
anos sem nunca ter tido um problema”.
Em momentos de início de abertura política entravam, com frequencia no
programa estudantes, jornalistas, escritores e muitos operários. Mas, nem sempre as
entrevistas eram no estúdio. Certa vez, o jornalista Tarcísio Holanda entrevistou o ministro
Jarbas Passarinho, que naquele tempo era ministro do regime militar, em um carro
conversível, passeando e mostrando a paisagem de Brasília.
O jornalista Roberto D’Ávila era o correspondente internacional do
Abertura. Em Paris, onde morava, entrevistou, em uma edição especial, os filhos dos exilados
que não conheciam o Brasil, pois tinham nascido fora. Fernando Barbosa Lima contou que foi
uma entrevista emocionante, pois eles falavam do sonho de voltar ao Brasil e queriam ver as
famílias, mas tinham medo. Eram crianças de oito a nove anos. O objetivo do programa era
discutir assuntos, até então proibidos, de forma clara e formativa. Durante a guerra do Vietnã,
pro exemplo, o jornalista Newton Carlos chegou a explicar onde ficava o país com um mapa
porque as matérias na mídia em geral eram pulverizadas, sem profundidade ou explicação.
...todo o dia ele falava sobre a guerra. Um dia eu falei para ele que ninguém sabia onde
ficava o Vietnã. Ele falou para mim, não é possível, todo mundo sabe. Aí eu disse:
vamos fazer uma coisa ridícula. Nós estávamos em um restaurante, vamos perguntar
aqui para as pessoas quem sabe onde fica o Vietnã. Passei em algumas mesas junto com
ele e ninguém sabia. Ele ficou impressionado e nessa noite ele fez um mapa do Vietnã,
falou onde ficava, deu uma aula ( Barbosa Lima, 1999).
Como o momento não era tão democrático como se imaginava, o
programa Abertura teve alguns problemas com o patrocínio do governo. Alguns foram
retirados e ele teve que sobreviver com menos recursos. Mesmo assim, o programa ficou no
ar durante um ano e meio até o fechamento da TV Tupi, em 1980. Segundo Barbosa Lima o
programa já tinha cumprido a função dele.
O programa Canal Livre, na Bandeirantes, foi criado em 1973. Nesta
primeira fase, o programa de entrevista apresentado por Roberto D’avila exibia o entrevistado
sendo sabatinado por vários jornalistas. O formato é hoje conhecido na experiência do Roda
Viva da TV Cultura. Para Fernando Barbosa Lima, o programa marcou a história do
telejornalismo porque foi exibido em um momento importante para a retomada da democracia
e muitas pessoas, que até então, eram proibidas de aparecer pela censura foram levadas a esse
programa:
nós tivemos a chance de levar, por exemplo, o Tom Jobim e Chico Buarque. A idéia era
documentar a história do país que tinha sido esquecida nesses anos da ditadura.
Levamos o Dom Evaristo Arns e um monte de pessoas que eram proibidas de aparecer
na televisão e o povo brasileiro não conhecia direito (Barbosa Lima, 1999).
O programa Canal Livre foi retomado, sob a direção de Barbosa Lima, em
duas outras fases. Em 1981 e depois em 1984, na programação vespertina da Bandeirantes
com a apresentação de Silvia Poppovic. Barbosa Lima revelou que a terceira fase foi a que
mais o agradou. O jornalista colocou o público em contato com o programa: Inseriu uma
câmera com um repórter e um monitor para que as pessoas participassem das discussões. Esta
experiência começou em São Paulo e depois em outras capitais.
4. Tempos de TV Manchete
Além de produzir e dirigir dezenas de programas telejornalísticos,
Barbosa Lima sempre foi prestigiado como diretor de televisão. Passou por várias emissoras e
só na TVE do Rio de Janeiro, esteve três vezes. Na última passagem criou a Rede Brasil uma
associação da TV Cultura de São Paulo com a Fundação Roquete Pinto. No entanto, foi na
TV Manchete que assinalou com competência e qualidade.
A TV Manchete, de propriedade de Adolfo Bloch, foi formada em 1983,
estreou no dia 05 de junho com um projeto ousado e inovador tanto nas vinhetas, na
produção, quanto na programação. Era considerada uma televisão classe A. O responsável
pelo projeto foi Celso Furtado, recém saído da TV Tupi.
Ela resolveu mudar, fazer uma televisão mais popular, concorrer com a Globo E eu
disse ao Bloch: _ como o senhor não tinha muito dinheiro eu montei uma pequena
joalheria. A TV da Globo é um supermercado enorme, precisa de um capital
gigantesco você vai lidar com 50 mil itens, aqui eu lido com 40 ítens (Furtado,
1999).
Barbosa Lima dirigiu a Manchete no período crítico quando já não
havia programação. Eram exibidos vídeos e filmes velhos e repetidos e o telejornal não estava
mais no ar. Além disso, o equipamento técnico estava sucateado. O jornalista lembrava que
aceitar dirigir a TV Manchete naquele momento era “loucura”, porém aceitou atendendo um
pedido do pai e foi uma experiência importante para a vida profissional dele e de muitos
jornalistas da época.
Meu pai falou para mim: Fernando aquele é um mercado de trabalho muito importante,
se você não aceitar dessa vez vai ser covardia. (...) Na TV Manchete foi onde tive a
oportunidade de criar programas como “Os Brasileiros”, “Xingu”, “Conexão
Internacional” e muitos outros. A minha aventura, junto com Adolpho Bloch na
recuperação do jornalismo da Manchete foi fascinante e gratificante (Barbosa Lima,
1999).
Considerações Finais
Existem muitas outras histórias para apresentar sobre a vida e o jornalismo
de Fernando Barbosa Lima, como não é possível fazê-lo nos limites de tempo e espaço que
dispomos, é importante salientar o exemplo que este jornalista apresentou nos mais de 50
anos dedicados à televisão brasileira. Quando Lima começou a fazer televisão, era em preto e
branco, ao vivo. Depois chegou o videoteipe, a televisão colorida, os satélites, a edição não
linear e a TV digital. O jornalista acompanhou tudo, porém sempre discordou que a qualidade
está no avanço tecnológico. “A TV no início, como tinha mais liberdade, era mais criativa e
mais inteligente. Hoje, com o alto padrão técnico que temos, fazemos uma televisão de alta
qualidade, mas pouco inovadora. Se ganhamos na técnica, perdemos no conteúdo” (Barbosa
Lima, 2005).
A paixão pela televisão não impedia Barbosa Lima de ser um crítico do
veículo, para ele, a prioridade para a TV, como mais importante veículo de comunicação no
Brasil, deveria ser o jornalismo. E fazer jornalismo era sempre ter novas idéias vendo o rosto
do povo brasileiro, o telespectador.
No jornalismo encontrei sempre a televisão na qual eu acreditava. Mesmo quando eu fui
diretor da Excelsior, da TVE, da Bandeirantes e da Manchete o jornalismo estava
sempre em primeiro lugar. A minha opção profissional sempre foi pelo jornalismo. É
através dele que podemos acrescentar novos conhecimentos e novas possibilidades para
o nosso povo. Sem educação não existe futuro. Um caminha ao lado do outro. Daí a
minha preocupação de sempre buscar caminhos novos sem fugir do jornalismo (Barbosa
Lima, 1999).
Fernando Barbosa Lima sempre valorizou o público dos programas que
produziu e sempre acreditou poder fazer da televisão um veículo de formação do indivíduo, é
uma pena que os seus projetos para, a televisão que conhecemos, tenham terminado em 05 de
setembro de 2008. No depoimento pessoal em 1999 suas últimas palavras foram de esperança
sobre a televisão. “A televisão tem que voar acima de seus satélites, tem que ter grandeza,
isso é fundamental para a nossa televisão. A televisão tem um poder quase semideus para o
nosso povo. É uma responsabilidade muito grande.
Referências Bibliográficas
BARBOSA LIMA, Fernando. Entrevista à autora, Rio de Janeiro, novembro, 1999.
________________________. Nossas Câmeras São Seus Olhos. Rio de Janeiro: Ediouro,
2007.
_________________________.
Entrevista
ao
comunique-se
disponível
em
www.comuniquese.com.br em 15/7/05. Acessado em 24-07-2009
CORRÊA, Vilas Boas In KAPLAN, S; REZENDE,S. (Coords.). Jornalismo eletrônico ao
vivo. Petrópolis: Vozes, 1994.
____________________________ In BARBOSA LIMA, Nossas Câmeras São Seus Olhos.
Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.
DINES, Alberto. Disponível em: www.Tvebrasil.com.br/observatório/arquivo/principal
070703.asp, acessado em: 08 de setembro de 2008.
FRYDMAN, Liba. Em depoimento à autora. São Paulo, novembro de 1999 .
FURTADO, Celso. Em depoimento à autora. São Paulo, novembro de 1999.
SAMPAIO, Walter. Entrevista à autora. Santos, novembro de 1999.
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