Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación Silva VLS, Chiquito NC, Andrade RAPO, Brito MFP, Camelo SHH FATORES DE ESTRESSE NO ÚLTIMO ANO DO CURSO DE GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM: PERCEPÇÃO DOS ESTUDANTES STRESS FACTORS IN THE FINAL YEAR OF UNDERGRADUATE NURSING: STUDENTS’ PERCEPTIONS FACTORES DE ESTRÉS EN EL ÚLTIMO AÑO DEL CURSO DE PREGRADO EN ENFERMERÍA: PERCEPCIÓN DE LOS ESTUDIANTES Vânea Lucia dos Santos SilvaI Natália do Carmo ChiquitoII Rosemeire Antonia Paim de Oliveira AndradeIII Maria de Fátima Paiva BritoIV Silvia Helena Henriques CameloV RESUMO: Este artigo teve como objetivo analisar, de acordo com a visão dos estudantes do último ano de graduação em enfermagem, fatores de estresse desencadeados durante as atividades acadêmicas. O estudo exploratório desenvolvido utilizou-se da abordagem quantiqualitativa e dele participaram 14 estudantes de enfermagem de uma faculdade privada do interior paulista. Os dados foram coletados por meio de entrevista semiestruturada, em 2010. Constatou-se a existência de fatores de estresse nos estudantes, tais como: sobrecarga de atividades acadêmicas teórico/práticas; expectativas e preocupações com o mundo do trabalho; relação trabalho/estudo; relação estudo/vida familiar/moradia e relacionamento interpessoal entre os estudantes. A identificação de fatores de estresse nos estudantes contribui para a elaboração de estratégias de gerenciamento, proporcionando um melhor aproveitamento acadêmico e preparo para desafios profissionais futuros. Palavras-chave: Estudantes de enfermagem; estresse psicológico; ensino superior; enfermagem. ABSTRACT: This study analyzed stressors produced during academic activities, as perceived by final-year undergraduate students of nursing. The exploratory, quanti-qualitative study involved 14 students of nursing of a private college in the interior of São Paulo State. Data were collected in 2010 by semi-structured interview. Stress factors were found among the students, as follows: overload of practical and theoretical academic activities; expectations and concerns regarding the world of work; the relationship between working and studying; relations among studying, family life and housing; and interpersonal relationships among the students. Identification of stress factors among the students contributes to formulating management strategies, making for better academic performance and preparedness for future professional challenges. Keywords: Students, nursing; stress, psychological; education, higher; nursing. RESUMEN: Este artículo tuvo como objetivo analizar, según la opinión de los estudiantes del último año del pregrado en enfermería, los factores de estrés provocado durante las actividades acadêmicas. El estudio fue desarrollado utilizando un enfoque cualitativo y de ello participaron 14 estudiantes de enfermería de una universidad privada del interior del Estado de São Paulo-Brasil. Los datos fueron recolectados através de entrevista semiestructurada, en 2010. Se verifico la existencia de factores de estrés en los estudiantes, tales como sobrecarga de actividades acadêmicas teóricas y prácticas; expectativas y preocupaciones sobre el mundo del trabajo; relación trabajo / estúdio, relación estudio / vida familiar/moradía; y relaciones interpersonales entre los estudiantes. La identificación de factores de estrés en los estudiantes contribuye para el desarrolo de estratégias de gestión, proporcionando um mejor logro académico y preparación para futuros retos profesionales. Palabras clave: Estudiantes de enfermería; estrés psicológico; educación superior; enfermería. INTRODUÇÃO A graduação em enfermagem é um curso que exige atenção dos estudantes, no conteúdo que está sendo ensinado pelo professor, para que se tenha um bom entendimento e assim melhor compreensão do estudo, que será de grande valor no campo de estágio e na vida profissional1. A complexidade deste curso e I Aluna do Curso de Graduação em Enfermagem do Centro Universitário Barão de Mauá. Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected]. Aluna do Curso de Graduação em Enfermagem do Centro Universitário Barão de Mauá. Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected]. III Aluna do Curso de Graduação em Enfermagem do Centro Universitário Barão de Mauá. Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected]. IV Enfermeira, Mestre em Enfermagem. Professora do Curso de Graduação em Enfermagem do Centro Universitário Barão de Mauá, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected]. V Enfermeira, Doutor em Enfermagem, Professor Doutor do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected]. II Recebido – Aprovado em: 07.02.2011 Recebidoem: em:04.01.2011 04.11.2011 – Aprovado em: 07.02.2011 Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2011 jan/mar; 19(1):121-6. • p.121 Estressores em estudantes de enfermagem o lidar com os limites humanos fazem com que o estudante frequentemente desenvolva sentimentos de incapacidade frente às atividades exigidas durante sua formação profissional2. Entendemos o estudante de enfermagem como um ser humano que fez a opção de vida de cuidar e ajudar outros seres humanos a nascer e viver de forma saudável, superar agravos à sua saúde, conviver com limitações e encontrar um significado nesta experiência e a morrer com dignidade3. Esse estudante, no processo de preparar-se para realizar as várias ações que integram este trabalho, com competência técnica, dialógica e política, enfrenta situações de sofrimento que podem contribuir para o desencadeamento do processo de estresse3. Situações estas decorrentes dos estágios práticos, dos conflitos entre os trabalhos acadêmicos, quando vivenciam momentos de dificuldade pessoal e interpessoal, conflitos ligados aos relacionamentos afetivos, além do desgaste ligado ao contato com doenças e morte4. Como acadêmicas do último ano do curso de enfermagem, temos observado e vivenciado situações desgastantes, comportamentos e posturas inadequadas, tanto em sala de aula como nos campos de estágio; ansiedade e angústias relacionadas aos trabalhos acadêmicos, entre eles o trabalho de conclusão de curso e o relatório do estágio supervisionado, bem como relacionadas ao futuro profissional (insegurança quanto ao mercado de trabalho e a formação profissional). Fatos que têm gerado inquietações e que podem desencadear o processo de estresse. Frente ao exposto questionamos: Qual a percepção dos estudantes de enfermagem sobre os fatores de estresse no último ano do curso de graduação? Esta pesquisa teve como objetivo analisar, de acordo com a visão dos estudantes do último ano de graduação em enfermagem, fatores de estresse desencadeados durante as atividades acadêmicas. REFERENCIAL TEÓRICO Conceituando estresse Hans Selye foi o primeiro cientista a utilizar o termo stress na área da saúde; observou que muitas pessoas sofriam de doenças físicas e reclamavam de sintomas comuns. Tais observações o levaram a investigações científicas com animais, e, em 1936, a definir stress como o resultado inespecífico de qualquer demanda sobre o corpo, seja de efeito mental ou somático, e estressor, como o agente ou demanda que provoca reação de estresse, seja de dimensão física, mental ou emocional. Em seus estudos, ele observou que o estresse produzia reações de defesa e adaptação frente ao agente estressor. A partir dessas observa- p.122 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2011 jan/mar; 19(1):121-6. Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación ções, ele descreveu a síndrome geral de adaptação (SAG), que pode ser entendida como o conjunto das reações do organismo frente à exposição prolongada do estressor. Segundo este autor, tal síndrome apresenta três fases ou estágios5. Fase de alarme: O organismo tem uma excitação de agressão ou de fuga ao estressor, que pode ser entendida como um comportamento de adaptação. Nos dois casos, reconhece-se uma situação de reação saudável ao estresse, porquanto possibilita o retorno à situação de equilíbrio após a experiência estressante. Fase de resistência: Havendo persistência da fase de alerta, o organismo altera seus parâmetros de normalidade e concentra a reação interna em um determinado órgão alvo, desencadeando a síndrome de adaptação local (SAL). Fase de exaustão: O organismo encontra-se extenuado pelo excesso de atividades. Ocorre, então, a falência do órgão mobilizado na SAL, o que se manifesta sob a forma de doenças orgânicas. No entanto, outra fase do processo de estresse foi identificada, à qual foi dado o nome de quase exaustão, por se encontrar entre as fases de resistência e exaustão, provocando na pessoa uma sensação forte de esgotamento aumentando a chance de descontrole emocional. É importante lembrar que nem sempre a pessoa passa pelas quatro fases, e só alcançará a fase de exaustão quando o estressor for muito grave e não conseguir se adaptar à situação6. O estresse se configura como foco de interesse de várias pesquisas em diversas áreas do conhecimento, entre as quais destaca-se a área da saúde. Diferentes populações têm sido focalizadas em pesquisas sobre o estresse acadêmico, sendo que algumas delas são voltadas para o início da fase escolar, de pré-escola ao ensino fundamental7. Outros estudos vêm sendo realizados na população universitária, com alunos de medicina8, bem como com graduandos de enfermagem, onde identificaram a existência de estresse devido a situações desgastantes que estes estudantes vivenciam 2,9. O estresse quando instalado nesta população pode gerar problemas favorecendo a diminuição do rendimento acadêmico e da qualidade de assistência de enfermagem durante a assistência nos estágios e, neste sentido, pensamos o quanto é relevante o diagnóstico dos fatores geradores de estresse nestes indivíduos. METODOLOGIA Trata-se de estudo do tipo exploratório, utilizando-se da abordagem quantiqualitativa. O local do estudo foi uma faculdade privada de um município do interior paulista, a qual oferece 60 vagas para o Curso de Enfermagem, nos períodos matutino e noturno, totalizando 120 vagas. Os sujeitos do estudo foram se- Recebido em: 04.11.2011 – Aprovado em: 07.02.2011 Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación lecionados de maneira aleatória, entre os estudantes de enfermagem voluntários e matriculados no último ano do Curso de Graduação em Enfermagem do cenário da pesquisa. Conseguiu-se a adesão de 14 alunos. Este tipo de amostragem acarreta a obtenção de pessoas mais disponíveis para participarem do estudo10. Os dados da pesquisa foram coletados em 2010, por meio de entrevistas semiestruturadas, com questões sobre características pessoais, tais como: idade, sexo, procedência, formação anterior na área, e uma pergunta aberta, relacionada ao tema proposto. As entrevistas foram gravadas, e posteriormente transcritas, mantendo-se o anonimato dos participantes. Os estudantes de enfermagem (EE) foram identificados por essas duas letras seguidas do número de ordem de participação na pesquisa: EE1, EE2... Foi aplicada a análise estatística aos dados relativos ao perfil sociodemográfico dos sujeitos. Para o tratamento dos dados referentes aos fatores de estresse, foi realizada a análise de conteúdo na modalidade temática11. Neste sentido, a análise iniciou-se com a leitura exploratória vertical, exaustiva, para possibilitar o domínio do conteúdo de cada entrevista; a seguir foi feita a leitura horizontal do conjunto de entrevistas para estabelecer relações entre elas. Da leitura vertical e horizontal, identificaram-se unidades temáticas fundamentadas na identificação dos fatores de estresse dos estudantes de enfermagem. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética do Centro Universitário Barão de Mauá, protocolo no 402/2010, e para cada sujeito da pesquisa foi entregue o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, de acordo com a Resolução no 196/96, do Conselho Nacional de Saúde. RESULTADOS E DISCUSSÃO Perfil dos sujeitos da pesquisa Os sujeitos que compuseram o grupo de entrevistados foram 14 estudantes de enfermagem cursando o último ano de graduação. Quanto à variável idade, encontravam-se na faixa etária entre 21 e 46 anos, sendo que 12 (85,71%) estudantes possuem menos de 30 anos, etapa da vida considerada como adultos jovens12. Os dados mostraram predominância do sexo feminino, sendo um total de 12 (85,71%) estudantes, reforçando ser a enfermagem uma profissão ainda dominada por mulheres. A tendência de feminilização da força de trabalho em enfermagem confirma-se em várias pesquisas2,13, sendo considerada uma característica feminina o desenvolvimento do trabalho de cuidar, embora visualizemos um sensível crescimento masculino pela busca ao curso de enfermagem13. Os estudantes são procedentes de cidades do interior do Estado de São Paulo, sendo 50% provenientes Recebido em: 04.11.2011 – Aprovado em: 07.02.2011 Silva VLS, Chiquito NC, Andrade RAPO, Brito MFP, Camelo SHH do local do estudo e os outros 50% residentes em cidades próximas. Quanto à formação anterior na área, 5(35%) estudantes possuem algum tipo de formação, sendo 3(21%) técnicos de enfermagem e 2(14%) auxiliares de enfermagem, todos exercendo suas atividades em instituição de saúde. Nos últimos anos, o fenômeno estudante-trabalhador de enfermagem vem crescendo nos cursos superiores. A procura parece continuar em ascensão, justamente por seduzir o estudante-trabalhador que, altamente motivado, superará grandes desafios para tornar-se enfermeiro14. Em estudo realizado na mesma instituição, ao analisar o perfil do estudante ingresso no curso de enfermagem, identificou que 43,5% de sua amostra frequentou curso técnico antes de ingressar no curso de enfermagem. Isso mostra a constante busca pela qualificação, item exigido em um mercado de trabalho competitivo15. Fatores de estresse identificados A análise dos discursos possibilitou identificar a presença de fatores de estresse nos estudantes de graduação, e foram depreendidas cinco unidades temáticas: sobrecarga de atividades acadêmicas teórico/práticas, expectativas e preocupações com o mundo do trabalho, relação trabalho/estudo, relação estudo/vida familiar/moradia e relacionamento interpessoal entre os estudantes. Sobrecarga de atividades acadêmicas teóricas e práticas Analisando esta unidade temática pode-se observar que os estudantes de enfermagem, ao cursar o último ano de graduação, sentem-se sobrecarregados com o conteúdo programático oferecido. [...] a carga pesada que a gente tem acaba levando a um cansaço maior e você fica sobrecarregado durante as atividades que são bastantes puxadas, de manhã ou à tarde, aí fica com muita coisa pra fazer e leva ao cansaço físico. (EE1) [...] o estágio supervisionado ocupa muito tempo do dia, são 6 horas, aí você fica com aquela carga pesada de estágio. (EE8) Ao cursar no último ano o estágio curricular supervisionado, o estudante passa a se envolver nas situações práticas de campo, acrescentando um novo processo de ansiedade frente à nova situação. A preocupação com as novas situações gera sentimentos de conflito, sofrimento e dificuldade para enfrentá-las5. Sabe-se que o estresse é proveniente de inúmeros fatores e, neste estudo, este fato não foi diferente, pois, além do estágio supervisionado, outras atividades desenvolvidas pelos estudantes foram consideradas como fontes geradores de estresse, como é o caso do trabalho de conclusão de curso (TCC). [...] eu atribuo estresse agora no 4o ano pelo trabalho de conclusão de curso (TCC) tanto pela pressão que a gente sofre em relação a isso, porque é um trabalho pesado, uma carga grande de pesquisa que a gente tem que fazer [...]. (EE2) Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2011 jan/mar; 19(1):121-6. • p.123 Estressores em estudantes de enfermagem O TCC causa desgaste nos estudantes, pois muitas vezes não sabem por onde começar a montar o seu pré-projeto, e alguns nunca tiveram a oportunidade ou interesse em ver uma interesse uma monografia monografia pronta pronta9. Na prática, os estudantes, ao referirem a pressão para a realização dessa atividade, estão enfatizando a sobrecarga de conteúdo teórico oferecido associado com a atividade de pesquisa. Acredita-se que o estudante, ao relatar essa dificuldade não compreende a importância e a associação do conhecimento teórico adquirido em pesquisa e a aplicação dos resultados na prática clínica. Ao contrário, essa associação de atividades parece ter um significado de sobrecarga, o que denota uma fonte de estresse16. Os estudantes de enfermagem consideram que no decorrer do curso, em especial no último ano, há um aumento da responsabilidade pela aproximação com a vida profissional. [...] a gente se sente muito cobrado, agora você tem uma carga de responsabilidade maior pelo fato de estar se formando [...]. (EE1) [...] a gente atribui as responsabilidades do setor, é como se estivéssemos trabalhando mesmo, a gente não se sente mais aluno em campo de estágio [...]. (EE2) Os estudantes deparam-se com uma realidade nem sempre em consonância com a esperada, tanto em relação ao curso como as condições de ensino, percebendose diante de uma nova etapa de suas vidas, em que são chamados à responsabilidade pelo próprio caminhar e pelas escolhas a serem feitas17. Expectativas e preocupações com o mundo do trabalho As falas dos entrevistados mostraram que no último ano do curso de graduação em enfermagem os estudantes se deparam com o medo quanto ao futuro profissional no atual mercado de trabalho e insegurança quanto à sua formação, sendo estas situações destacadas como provocadoras de estresse. O meu medo é depois no mercado de trabalho [...]. (EE6) [...] medo e insegurança de você não conseguir chegar aonde você deseja. Eu penso, meu Deus, será que vou dar conta? (EE8) A competitividade causa insegurança quanto ao ingresso no mercado de trabalho, que, por sua vez, pode ocorrer pelo fato de o formando não conseguir um emprego após a graduação18. No Brasil, este aspecto merece atenção devido à expansão dos cursos de graduação em enfermagem19. Eu me sinto um pouco insegura porque com essa questão de último ano, às vezes bate um medo de estar formado e não conseguir emprego [...]. (EE3) Eu sinto medo, exatamente por causa dessa questão de emprego, que a gente sabe que não está fácil. (EE13) A formação e/ou preparo do estudante para atuar no mercado de trabalho foi percebida como um fator p.124 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2011 jan/mar; 19(1):121-6. Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación gerador de estresse. Os estudantes de enfermagem sentem-se despreparados para o mercado de trabalho, pois já são praticamente profissionais e permanece o medo de atuarem sem o apoio do professor20. Eu tenho medo do futuro, eu tenho medo porque agora nós estamos no último ano. Será que vou sair apta para ele? (EE6) [...] bate sim a insegurança, sabe aquela insegurança, ah meu Deus, será que eu vou ser uma boa enfermeira? (EE 14) As expectativas dos estudantes com a finalização do curso e o fato de não se sentirem aptos para ingressar no mercado de trabalho foram aspectos também destacados em estudo recente21. De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem (DCNS), o perfil do enfermeiro desejado é o de formação generalista com competências para a atenção à saúde, tomada de decisões, comunicação, liderança, administração e gerenciamento e educação permanente22. Dessa forma, os cursos de graduação devem oferecer conhecimentos e habilidades para os estudantes enfrentarem situações desgastantes. Relação trabalho/estudo Outro fator relevante para esta discussão é o desgaste percebido pelo estudante ao cursar a faculdade de enfermagem e exercer atividade profissional. O perfil dos estudantes entrevistados mostra de uma forma geral que 50% deles, além de estudarem, exercem atividade profissional, sendo que 35% trabalham na área da saúde. A duplicidade de papéis é um fator que pode desencadear o processo de estresse. [...] cursando o último ano eu acho bem pesado, cansativo e estressante, principalmente pelo fato de trabalhar. Depois do estágio tem que sair para o seu trabalho... e ainda à noite ter que ir para a faculdade. (EE8) [...] eu tenho uma rotina muito intensa, então de manhã, às 7 horas, eu já estou no consultório, eu saio do consultório às 5 horas para ir para o estágio [...]. (EE14) Para as pessoas que acabam optando por fazer as duas atividades ao mesmo tempo, trabalhar e estudar, o dia a dia acaba ficando muito corrido, não sobrando muito tempo para o lazer. Muitos estudantes para subsidiar sua formação necessitam trabalhar e com isso acarretam uma carga horária excessiva de atividades, e, para cumprir as exigências acadêmicas e profissionais acabam ocupando suas horas de lazer e de estar com a família para realizar as atividades pendentes23. [...] o tempo às vezes se torna curto pra fazer o tanto de coisa que a gente precisa fazer em relação a desenvolver todas as atividades [...]. (EE14) A associação trabalho/estudo faz com que o acadêmico se sinta forçado a modificar seu estilo de vida, antes somente dedicado à tarefa de estudar, adaptando-a com as atividades de seu serviço24. A dificuldade Recebido em: 04.11.2011 – Aprovado em: 07.02.2011 Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación de conciliar o trabalho e os estudos pode levar a um desgaste físico e psicológico, pois exigem muito esforço e gasto de energia, podendo desencadear o processo de estresse. Relação estudo/vida familiar/moradia A análise dos discursos mostrou a existência de dificuldade do estudante em conciliar as atividades acadêmicas, vida familiar e o deslocamento de sua moradia para o campo de estágio e/ou local de estudo, conforme descrito abaixo: [...] a gente não consegue separar a casa da faculdade, do trabalho, a gente acaba juntando tudo e fica uma bomba relógio, prestes a explodir a qualquer minuto. (EE13) O deslocamento dos estudantes de suas residências para as universidades, tendo que conciliar a vida familiar e social com as atividades acadêmicas, é confirmado por outros pesquisadores como fatores que podem levar a um nível de estresse25. As horas perdidas em viagem impedem a dedicação necessária aos estudos, sendo esta uma das hipóteses quanto à condição estressora para os estudantes que necessitam viajar para estudar26. Cansaço por causa da locomoção da minha cidade, saio da minha cidade muito cedo, saio 5h20 da manhã e só chego às 4 da tarde. A viagem me desgasta. (EE3) O ser humano tem sido exposto frequentemente às inúmeras situações às quais precisa adaptar-se, demandas e pressões externas vindas da família, meio social, do trabalho/escola ou meio ambiente, além de ser exigido nas responsabilidades, obrigações, autocrítica, dificuldades fisiológicas e psicológicas, fatores que têm levado a dois males da atualidade: estresse e depressão27. Relacionamento interpessoal entre os estudantes Ao analisar as entrevistas, verifica-se que os estudantes de enfermagem percebem o conflito no relacionamento interpessoal como uma das dificuldades encontradas no último ano de graduação. [...] tem muitas coisas, pessoas que são diferentes, não tem responsabilidade, não tem que pagar a faculdade todo mês, e outras tem que trabalhar para poder pagar, então ocorrem muitas divergências ou brigas na sala de aula [...]. (EE12) As relações interpessoais são definidas por ligações interativas, sendo condicionadas por uma série de atitudes recíprocas. Em nossos relacionamentos, cada pessoa traz consigo diferentes percepções, valores e conhecimentos, o que determina que, muitas vezes, uma mesma questão seja olhada sob diferentes formas28. Essa visão vem nos mostrar que diferenças individuais podem manifestar-se em vários ambientes, entre eles, o acadêmico, e sob várias formas, comportamentos, atitudes, interesses e opiniões. A qualidade das relações interpessoais é fator importante na hora de determinar o potencial estressor29. Recebido em: 04.11.2011 – Aprovado em: 07.02.2011 Silva VLS, Chiquito NC, Andrade RAPO, Brito MFP, Camelo SHH CONCLUSÃO O estudo revelou fatores de estresse nos estudantes do último ano do Curso de Graduação em Enfermagem, e que estes podem acarretar um comprometimento nas atividades acadêmicas realizadas neste período. Os estudantes sentem-se sobrecarregados com o conteúdo programático oferecido ao desenvolver as atividades acadêmicas teóricas e práticas, gerando um aumento da sua responsabilidade no último ano do curso; apontaram situações causadoras de desgaste físico, angústia, medo e insegurança como a elaboração do trabalho de conclusão de curso, preocupações relacionadas à inserção no mercado de trabalho, relação trabalho/estudo/vida familiar e dificuldade no relacionamento interpessoal. Estes fatos corroboram estudos anteriores, os quais haviam ressaltado que os estudantes de enfermagem vivenciam situações estressoras e que estas se refletem na qualidade da sua saúde e de seu desempenho acadêmico. A identificação de fatores de estresse deve proporcionar aos estudantes um processo de reflexão de suas atividades, bem como contribuir para a elaboração de estratégias de gerenciamento das situações desgastantes que possam surgir no último ano do curso de graduação em enfermagem, levando a um melhor aproveitamento acadêmico e preparando-os para enfrentar um mercado de trabalho com importantes desafios como futuros profissionais. Ainda, os limites do trabalho são representados pela impossibilidade de generalização dos resultados, considerando o reduzido número de sujeitos investigados. REFERÊNCIAS 1. Cerchiari EA, Caetano D, Faccenda O. Prevalência de transtornos mentais menores em estudantes universitários. Estud psicol. (Natal) 2005; 10:413-20. 2. Monteiro CFS, Freitas JFM, Ribeiro AAP. Estresse no cotidiano acadêmico: o olhar dos alunos de enfermagem da Universidade Federal do Piauí. Esc Anna Nery. 2007; 11:66-72. 3. Saupe R, Nietche EA, Cestari ME, Giorgi MDM, KrahlV M. 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