Artigo de Pesquisa
Original Research
Artículo de Investigación
Silva VLS, Chiquito NC, Andrade RAPO, Brito MFP, Camelo SHH
FATORES DE ESTRESSE NO ÚLTIMO ANO DO CURSO DE
GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM: PERCEPÇÃO DOS ESTUDANTES
STRESS FACTORS IN THE FINAL YEAR OF UNDERGRADUATE NURSING:
STUDENTS’ PERCEPTIONS
FACTORES DE ESTRÉS EN EL ÚLTIMO AÑO DEL CURSO DE PREGRADO EN
ENFERMERÍA: PERCEPCIÓN DE LOS ESTUDIANTES
Vânea Lucia dos Santos SilvaI
Natália do Carmo ChiquitoII
Rosemeire Antonia Paim de Oliveira AndradeIII
Maria de Fátima Paiva BritoIV
Silvia Helena Henriques CameloV
RESUMO: Este artigo teve como objetivo analisar, de acordo com a visão dos estudantes do último ano de graduação em
enfermagem, fatores de estresse desencadeados durante as atividades acadêmicas. O estudo exploratório desenvolvido
utilizou-se da abordagem quantiqualitativa e dele participaram 14 estudantes de enfermagem de uma faculdade privada do
interior paulista. Os dados foram coletados por meio de entrevista semiestruturada, em 2010. Constatou-se a existência de
fatores de estresse nos estudantes, tais como: sobrecarga de atividades acadêmicas teórico/práticas; expectativas e preocupações com o mundo do trabalho; relação trabalho/estudo; relação estudo/vida familiar/moradia e relacionamento interpessoal
entre os estudantes. A identificação de fatores de estresse nos estudantes contribui para a elaboração de estratégias de
gerenciamento, proporcionando um melhor aproveitamento acadêmico e preparo para desafios profissionais futuros.
Palavras-chave: Estudantes de enfermagem; estresse psicológico; ensino superior; enfermagem.
ABSTRACT: This study analyzed stressors produced during academic activities, as perceived by final-year undergraduate
students of nursing. The exploratory, quanti-qualitative study involved 14 students of nursing of a private college in the
interior of São Paulo State. Data were collected in 2010 by semi-structured interview. Stress factors were found among the
students, as follows: overload of practical and theoretical academic activities; expectations and concerns regarding the
world of work; the relationship between working and studying; relations among studying, family life and housing; and
interpersonal relationships among the students. Identification of stress factors among the students contributes to formulating
management strategies, making for better academic performance and preparedness for future professional challenges.
Keywords: Students, nursing; stress, psychological; education, higher; nursing.
RESUMEN: Este artículo tuvo como objetivo analizar, según la opinión de los estudiantes del último año del pregrado en
enfermería, los factores de estrés provocado durante las actividades acadêmicas. El estudio fue desarrollado utilizando un
enfoque cualitativo y de ello participaron 14 estudiantes de enfermería de una universidad privada del interior del Estado
de São Paulo-Brasil. Los datos fueron recolectados através de entrevista semiestructurada, en 2010. Se verifico la existencia
de factores de estrés en los estudiantes, tales como sobrecarga de actividades acadêmicas teóricas y prácticas; expectativas y preocupaciones sobre el mundo del trabajo; relación trabajo / estúdio, relación estudio / vida familiar/moradía; y
relaciones interpersonales entre los estudiantes. La identificación de factores de estrés en los estudiantes contribuye para el
desarrolo de estratégias de gestión, proporcionando um mejor logro académico y preparación para futuros retos profesionales.
Palabras clave: Estudiantes de enfermería; estrés psicológico; educación superior; enfermería.
INTRODUÇÃO
A graduação em enfermagem é um curso que
exige atenção dos estudantes, no conteúdo que está
sendo ensinado pelo professor, para que se tenha um
bom entendimento e assim melhor compreensão do
estudo, que será de grande valor no campo de estágio
e na vida profissional1. A complexidade deste curso e
I
Aluna do Curso de Graduação em Enfermagem do Centro Universitário Barão de Mauá. Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected].
Aluna do Curso de Graduação em Enfermagem do Centro Universitário Barão de Mauá. Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. E-mail:
[email protected].
III
Aluna do Curso de Graduação em Enfermagem do Centro Universitário Barão de Mauá. Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected].
IV
Enfermeira, Mestre em Enfermagem. Professora do Curso de Graduação em Enfermagem do Centro Universitário Barão de Mauá, Ribeirão Preto, São
Paulo, Brasil. E-mail: [email protected].
V
Enfermeira, Doutor em Enfermagem, Professor Doutor do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão
Preto, Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected].
II
Recebido
– Aprovado
em: 07.02.2011
Recebidoem:
em:04.01.2011
04.11.2011
– Aprovado
em: 07.02.2011
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Estressores em estudantes de enfermagem
o lidar com os limites humanos fazem com que o estudante frequentemente desenvolva sentimentos de
incapacidade frente às atividades exigidas durante sua
formação profissional2.
Entendemos o estudante de enfermagem como
um ser humano que fez a opção de vida de cuidar e
ajudar outros seres humanos a nascer e viver de forma
saudável, superar agravos à sua saúde, conviver com
limitações e encontrar um significado nesta experiência e a morrer com dignidade3. Esse estudante, no processo de preparar-se para realizar as várias ações que
integram este trabalho, com competência técnica,
dialógica e política, enfrenta situações de sofrimento
que podem contribuir para o desencadeamento do processo de estresse3. Situações estas decorrentes dos estágios práticos, dos conflitos entre os trabalhos acadêmicos, quando vivenciam momentos de dificuldade
pessoal e interpessoal, conflitos ligados aos relacionamentos afetivos, além do desgaste ligado ao contato
com doenças e morte4.
Como acadêmicas do último ano do curso de
enfermagem, temos observado e vivenciado situações
desgastantes, comportamentos e posturas inadequadas, tanto em sala de aula como nos campos de estágio; ansiedade e angústias relacionadas aos trabalhos
acadêmicos, entre eles o trabalho de conclusão de
curso e o relatório do estágio supervisionado, bem
como relacionadas ao futuro profissional (insegurança
quanto ao mercado de trabalho e a formação profissional). Fatos que têm gerado inquietações e que podem desencadear o processo de estresse. Frente ao
exposto questionamos:
Qual a percepção dos estudantes de enfermagem sobre os fatores de estresse no último ano do
curso de graduação?
Esta pesquisa teve como objetivo analisar, de
acordo com a visão dos estudantes do último ano de
graduação em enfermagem, fatores de estresse desencadeados durante as atividades acadêmicas.
REFERENCIAL TEÓRICO
Conceituando estresse
Hans Selye foi o primeiro cientista a utilizar o
termo stress na área da saúde; observou que muitas
pessoas sofriam de doenças físicas e reclamavam de
sintomas comuns. Tais observações o levaram a investigações científicas com animais, e, em 1936, a
definir stress como o resultado inespecífico de qualquer demanda sobre o corpo, seja de efeito mental ou
somático, e estressor, como o agente ou demanda que
provoca reação de estresse, seja de dimensão física,
mental ou emocional. Em seus estudos, ele observou
que o estresse produzia reações de defesa e adaptação
frente ao agente estressor. A partir dessas observa-
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ções, ele descreveu a síndrome geral de adaptação
(SAG), que pode ser entendida como o conjunto das
reações do organismo frente à exposição prolongada
do estressor. Segundo este autor, tal síndrome apresenta três fases ou estágios5.
Fase de alarme: O organismo tem uma excitação de agressão ou de fuga ao estressor, que pode ser
entendida como um comportamento de adaptação.
Nos dois casos, reconhece-se uma situação de reação
saudável ao estresse, porquanto possibilita o retorno
à situação de equilíbrio após a experiência estressante.
Fase de resistência: Havendo persistência da
fase de alerta, o organismo altera seus parâmetros de
normalidade e concentra a reação interna em um determinado órgão alvo, desencadeando a síndrome de
adaptação local (SAL).
Fase de exaustão: O organismo encontra-se extenuado pelo excesso de atividades. Ocorre, então, a
falência do órgão mobilizado na SAL, o que se manifesta sob a forma de doenças orgânicas.
No entanto, outra fase do processo de estresse
foi identificada, à qual foi dado o nome de quase
exaustão, por se encontrar entre as fases de resistência e exaustão, provocando na pessoa uma sensação
forte de esgotamento aumentando a chance de descontrole emocional. É importante lembrar que nem
sempre a pessoa passa pelas quatro fases, e só alcançará a fase de exaustão quando o estressor for muito
grave e não conseguir se adaptar à situação6.
O estresse se configura como foco de interesse de
várias pesquisas em diversas áreas do conhecimento,
entre as quais destaca-se a área da saúde. Diferentes populações têm sido focalizadas em pesquisas sobre o
estresse acadêmico, sendo que algumas delas são voltadas para o início da fase escolar, de pré-escola ao ensino
fundamental7. Outros estudos vêm sendo realizados na
população universitária, com alunos de medicina8, bem
como com graduandos de enfermagem, onde identificaram a existência de estresse devido a situações
desgastantes que estes estudantes vivenciam 2,9. O
estresse quando instalado nesta população pode gerar
problemas favorecendo a diminuição do rendimento
acadêmico e da qualidade de assistência de enfermagem
durante a assistência nos estágios e, neste sentido, pensamos o quanto é relevante o diagnóstico dos fatores
geradores de estresse nestes indivíduos.
METODOLOGIA
Trata-se de estudo do tipo exploratório, utilizando-se da abordagem quantiqualitativa. O local do estudo foi uma faculdade privada de um município do
interior paulista, a qual oferece 60 vagas para o Curso
de Enfermagem, nos períodos matutino e noturno,
totalizando 120 vagas. Os sujeitos do estudo foram se-
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lecionados de maneira aleatória, entre os estudantes
de enfermagem voluntários e matriculados no último
ano do Curso de Graduação em Enfermagem do cenário da pesquisa. Conseguiu-se a adesão de 14 alunos.
Este tipo de amostragem acarreta a obtenção de pessoas mais disponíveis para participarem do estudo10.
Os dados da pesquisa foram coletados em 2010,
por meio de entrevistas semiestruturadas, com questões sobre características pessoais, tais como: idade,
sexo, procedência, formação anterior na área, e uma
pergunta aberta, relacionada ao tema proposto. As
entrevistas foram gravadas, e posteriormente transcritas, mantendo-se o anonimato dos participantes.
Os estudantes de enfermagem (EE) foram identificados por essas duas letras seguidas do número de ordem de participação na pesquisa: EE1, EE2...
Foi aplicada a análise estatística aos dados relativos ao perfil sociodemográfico dos sujeitos.
Para o tratamento dos dados referentes aos fatores de estresse, foi realizada a análise de conteúdo na
modalidade temática11. Neste sentido, a análise iniciou-se com a leitura exploratória vertical, exaustiva,
para possibilitar o domínio do conteúdo de cada entrevista; a seguir foi feita a leitura horizontal do conjunto de entrevistas para estabelecer relações entre elas.
Da leitura vertical e horizontal, identificaram-se unidades temáticas fundamentadas na identificação dos
fatores de estresse dos estudantes de enfermagem.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética do
Centro Universitário Barão de Mauá, protocolo no
402/2010, e para cada sujeito da pesquisa foi entregue
o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, de
acordo com a Resolução no 196/96, do Conselho Nacional de Saúde.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Perfil dos sujeitos da pesquisa
Os sujeitos que compuseram o grupo de entrevistados foram 14 estudantes de enfermagem cursando o último ano de graduação. Quanto à variável idade, encontravam-se na faixa etária entre 21 e 46 anos,
sendo que 12 (85,71%) estudantes possuem menos
de 30 anos, etapa da vida considerada como adultos
jovens12. Os dados mostraram predominância do sexo
feminino, sendo um total de 12 (85,71%) estudantes,
reforçando ser a enfermagem uma profissão ainda
dominada por mulheres. A tendência de feminilização
da força de trabalho em enfermagem confirma-se em
várias pesquisas2,13, sendo considerada uma característica feminina o desenvolvimento do trabalho de
cuidar, embora visualizemos um sensível crescimento masculino pela busca ao curso de enfermagem13.
Os estudantes são procedentes de cidades do interior do Estado de São Paulo, sendo 50% provenientes
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do local do estudo e os outros 50% residentes em cidades próximas.
Quanto à formação anterior na área, 5(35%) estudantes possuem algum tipo de formação, sendo 3(21%)
técnicos de enfermagem e 2(14%) auxiliares de enfermagem, todos exercendo suas atividades em instituição de
saúde. Nos últimos anos, o fenômeno estudante-trabalhador de enfermagem vem crescendo nos cursos superiores. A procura parece continuar em ascensão, justamente por seduzir o estudante-trabalhador que, altamente
motivado, superará grandes desafios para tornar-se enfermeiro14. Em estudo realizado na mesma instituição, ao
analisar o perfil do estudante ingresso no curso de enfermagem, identificou que 43,5% de sua amostra frequentou curso técnico antes de ingressar no curso de enfermagem. Isso mostra a constante busca pela qualificação, item
exigido em um mercado de trabalho competitivo15.
Fatores de estresse identificados
A análise dos discursos possibilitou identificar a
presença de fatores de estresse nos estudantes de graduação, e foram depreendidas cinco unidades temáticas: sobrecarga de atividades acadêmicas teórico/práticas, expectativas e preocupações com o mundo do
trabalho, relação trabalho/estudo, relação estudo/vida
familiar/moradia e relacionamento interpessoal entre
os estudantes.
Sobrecarga de atividades acadêmicas teóricas e práticas
Analisando esta unidade temática pode-se observar que os estudantes de enfermagem, ao cursar o último ano de graduação, sentem-se sobrecarregados com o
conteúdo programático oferecido.
[...] a carga pesada que a gente tem acaba levando a um
cansaço maior e você fica sobrecarregado durante as atividades que são bastantes puxadas, de manhã ou à tarde, aí fica
com muita coisa pra fazer e leva ao cansaço físico. (EE1)
[...] o estágio supervisionado ocupa muito tempo do
dia, são 6 horas, aí você fica com aquela carga pesada
de estágio. (EE8)
Ao cursar no último ano o estágio curricular supervisionado, o estudante passa a se envolver nas situações práticas de campo, acrescentando um novo processo de ansiedade frente à nova situação. A preocupação
com as novas situações gera sentimentos de conflito,
sofrimento e dificuldade para enfrentá-las5.
Sabe-se que o estresse é proveniente de inúmeros
fatores e, neste estudo, este fato não foi diferente, pois,
além do estágio supervisionado, outras atividades desenvolvidas pelos estudantes foram consideradas como
fontes geradores de estresse, como é o caso do trabalho
de conclusão de curso (TCC).
[...] eu atribuo estresse agora no 4o ano pelo trabalho
de conclusão de curso (TCC) tanto pela pressão que a
gente sofre em relação a isso, porque é um trabalho
pesado, uma carga grande de pesquisa que a gente tem
que fazer [...]. (EE2)
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Estressores em estudantes de enfermagem
O TCC causa desgaste nos estudantes, pois muitas vezes não sabem por onde começar a montar o seu
pré-projeto, e alguns nunca tiveram a oportunidade ou
interesse em ver uma
interesse
uma monografia
monografia pronta
pronta9. Na prática,
os estudantes, ao referirem a pressão para a realização
dessa atividade, estão enfatizando a sobrecarga de conteúdo teórico oferecido associado com a atividade de
pesquisa. Acredita-se que o estudante, ao relatar essa
dificuldade não compreende a importância e a associação do conhecimento teórico adquirido em pesquisa e a
aplicação dos resultados na prática clínica. Ao contrário, essa associação de atividades parece ter um significado de sobrecarga, o que denota uma fonte de estresse16.
Os estudantes de enfermagem consideram que no
decorrer do curso, em especial no último ano, há um
aumento da responsabilidade pela aproximação com a
vida profissional.
[...] a gente se sente muito cobrado, agora você tem
uma carga de responsabilidade maior pelo fato de estar
se formando [...]. (EE1)
[...] a gente atribui as responsabilidades do setor, é como
se estivéssemos trabalhando mesmo, a gente não se sente mais aluno em campo de estágio [...]. (EE2)
Os estudantes deparam-se com uma realidade nem
sempre em consonância com a esperada, tanto em relação ao curso como as condições de ensino, percebendose diante de uma nova etapa de suas vidas, em que são
chamados à responsabilidade pelo próprio caminhar e
pelas escolhas a serem feitas17.
Expectativas e preocupações com o mundo do trabalho
As falas dos entrevistados mostraram que no último ano do curso de graduação em enfermagem os estudantes se deparam com o medo quanto ao futuro profissional no atual mercado de trabalho e insegurança quanto à sua formação, sendo estas situações destacadas como
provocadoras de estresse.
O meu medo é depois no mercado de trabalho [...]. (EE6)
[...] medo e insegurança de você não conseguir chegar
aonde você deseja. Eu penso, meu Deus, será que vou
dar conta? (EE8)
A competitividade causa insegurança quanto ao
ingresso no mercado de trabalho, que, por sua vez, pode
ocorrer pelo fato de o formando não conseguir um emprego após a graduação18. No Brasil, este aspecto merece
atenção devido à expansão dos cursos de graduação em
enfermagem19.
Eu me sinto um pouco insegura porque com essa questão de último ano, às vezes bate um medo de estar
formado e não conseguir emprego [...]. (EE3)
Eu sinto medo, exatamente por causa dessa questão de
emprego, que a gente sabe que não está fácil. (EE13)
A formação e/ou preparo do estudante para atuar
no mercado de trabalho foi percebida como um fator
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gerador de estresse. Os estudantes de enfermagem sentem-se despreparados para o mercado de trabalho, pois
já são praticamente profissionais e permanece o medo
de atuarem sem o apoio do professor20.
Eu tenho medo do futuro, eu tenho medo porque agora nós estamos no último ano. Será que vou sair apta
para ele? (EE6)
[...] bate sim a insegurança, sabe aquela insegurança, ah
meu Deus, será que eu vou ser uma boa enfermeira? (EE 14)
As expectativas dos estudantes com a finalização
do curso e o fato de não se sentirem aptos para ingressar no mercado de trabalho foram aspectos também
destacados em estudo recente21.
De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem (DCNS),
o perfil do enfermeiro desejado é o de formação
generalista com competências para a atenção à saúde,
tomada de decisões, comunicação, liderança, administração e gerenciamento e educação permanente22. Dessa
forma, os cursos de graduação devem oferecer conhecimentos e habilidades para os estudantes enfrentarem situações desgastantes.
Relação trabalho/estudo
Outro fator relevante para esta discussão é o
desgaste percebido pelo estudante ao cursar a faculdade de enfermagem e exercer atividade profissional.
O perfil dos estudantes entrevistados mostra de uma
forma geral que 50% deles, além de estudarem, exercem atividade profissional, sendo que 35% trabalham
na área da saúde. A duplicidade de papéis é um fator
que pode desencadear o processo de estresse.
[...] cursando o último ano eu acho bem pesado, cansativo e estressante, principalmente pelo fato de trabalhar. Depois do estágio tem que sair para o seu trabalho... e ainda à noite ter que ir para a faculdade. (EE8)
[...] eu tenho uma rotina muito intensa, então de manhã, às 7 horas, eu já estou no consultório, eu saio do
consultório às 5 horas para ir para o estágio [...]. (EE14)
Para as pessoas que acabam optando por fazer as
duas atividades ao mesmo tempo, trabalhar e estudar,
o dia a dia acaba ficando muito corrido, não sobrando
muito tempo para o lazer. Muitos estudantes para subsidiar sua formação necessitam trabalhar e com isso
acarretam uma carga horária excessiva de atividades,
e, para cumprir as exigências acadêmicas e profissionais acabam ocupando suas horas de lazer e de estar
com a família para realizar as atividades pendentes23.
[...] o tempo às vezes se torna curto pra fazer o tanto de
coisa que a gente precisa fazer em relação a desenvolver
todas as atividades [...]. (EE14)
A associação trabalho/estudo faz com que o acadêmico se sinta forçado a modificar seu estilo de vida,
antes somente dedicado à tarefa de estudar, adaptando-a com as atividades de seu serviço24. A dificuldade
Recebido em: 04.11.2011 – Aprovado em: 07.02.2011
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de conciliar o trabalho e os estudos pode levar a um
desgaste físico e psicológico, pois exigem muito esforço e gasto de energia, podendo desencadear o processo de estresse.
Relação estudo/vida familiar/moradia
A análise dos discursos mostrou a existência de
dificuldade do estudante em conciliar as atividades
acadêmicas, vida familiar e o deslocamento de sua
moradia para o campo de estágio e/ou local de estudo,
conforme descrito abaixo:
[...] a gente não consegue separar a casa da faculdade, do
trabalho, a gente acaba juntando tudo e fica uma bomba
relógio, prestes a explodir a qualquer minuto. (EE13)
O deslocamento dos estudantes de suas residências
para as universidades, tendo que conciliar a vida familiar
e social com as atividades acadêmicas, é confirmado por
outros pesquisadores como fatores que podem levar a um
nível de estresse25. As horas perdidas em viagem impedem a dedicação necessária aos estudos, sendo esta uma
das hipóteses quanto à condição estressora para os estudantes que necessitam viajar para estudar26.
Cansaço por causa da locomoção da minha cidade,
saio da minha cidade muito cedo, saio 5h20 da manhã
e só chego às 4 da tarde. A viagem me desgasta. (EE3)
O ser humano tem sido exposto frequentemente
às inúmeras situações às quais precisa adaptar-se, demandas e pressões externas vindas da família, meio social, do trabalho/escola ou meio ambiente, além de ser
exigido nas responsabilidades, obrigações, autocrítica,
dificuldades fisiológicas e psicológicas, fatores que têm
levado a dois males da atualidade: estresse e depressão27.
Relacionamento interpessoal entre os estudantes
Ao analisar as entrevistas, verifica-se que os
estudantes de enfermagem percebem o conflito no
relacionamento interpessoal como uma das dificuldades encontradas no último ano de graduação.
[...] tem muitas coisas, pessoas que são diferentes, não
tem responsabilidade, não tem que pagar a faculdade
todo mês, e outras tem que trabalhar para poder pagar,
então ocorrem muitas divergências ou brigas na sala de
aula [...]. (EE12)
As relações interpessoais são definidas por ligações interativas, sendo condicionadas por uma série
de atitudes recíprocas. Em nossos relacionamentos,
cada pessoa traz consigo diferentes percepções, valores e conhecimentos, o que determina que, muitas
vezes, uma mesma questão seja olhada sob diferentes
formas28. Essa visão vem nos mostrar que diferenças
individuais podem manifestar-se em vários ambientes, entre eles, o acadêmico, e sob várias formas, comportamentos, atitudes, interesses e opiniões. A qualidade das relações interpessoais é fator importante
na hora de determinar o potencial estressor29.
Recebido em: 04.11.2011 – Aprovado em: 07.02.2011
Silva VLS, Chiquito NC, Andrade RAPO, Brito MFP, Camelo SHH
CONCLUSÃO
O estudo revelou fatores de estresse nos estudantes do último ano do Curso de Graduação em Enfermagem, e que estes podem acarretar um comprometimento nas atividades acadêmicas realizadas neste período.
Os estudantes sentem-se sobrecarregados com
o conteúdo programático oferecido ao desenvolver
as atividades acadêmicas teóricas e práticas, gerando
um aumento da sua responsabilidade no último ano
do curso; apontaram situações causadoras de desgaste físico, angústia, medo e insegurança como a elaboração do trabalho de conclusão de curso, preocupações relacionadas à inserção no mercado de trabalho,
relação trabalho/estudo/vida familiar e dificuldade no
relacionamento interpessoal. Estes fatos corroboram
estudos anteriores, os quais haviam ressaltado que os
estudantes de enfermagem vivenciam situações
estressoras e que estas se refletem na qualidade da sua
saúde e de seu desempenho acadêmico.
A identificação de fatores de estresse deve proporcionar aos estudantes um processo de reflexão de
suas atividades, bem como contribuir para a elaboração de estratégias de gerenciamento das situações
desgastantes que possam surgir no último ano do curso
de graduação em enfermagem, levando a um melhor
aproveitamento acadêmico e preparando-os para
enfrentar um mercado de trabalho com importantes
desafios como futuros profissionais.
Ainda, os limites do trabalho são representados pela
impossibilidade de generalização dos resultados, considerando o reduzido número de sujeitos investigados.
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Recebido em: 04.11.2011 – Aprovado em: 07.02.2011
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