III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS)
DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE
“A mulher do saco preto”: a (des)construção da subjetividade de
uma moradora de rua e que vive de restos de lixo
Márcia Aparecida Amador Mascia 1
Estas vidas, por que não ir escutá-las lá onde falam por si próprias?
(Foucault, O que é um autor?)
Introdução
Este estudo encontra-se dentro de um projeto, em andamento, intitulado “Vozes
(In)fames: discursos de exclusão e resistência” o qual, por sua vez, encontra-se inserido
em um projeto maior Latino-americano que tem como proposta estudar a família e a
pobreza nas ruas. Meu sub-projeto se propõe a empreender uma análise discursiva com
o intuito de trazer à tona as vozes de sujeitos duplamente excluídos: pelo contexto de
pobreza e pela doença mental. Buscamos pensar e (des)vendar a produção histórica dos
loucos e pobres, ou seja, daqueles excluídos em nosso mundo contemporâneo. Assim,
pretendemos contribuir com uma pequena parcela nos grandes projetos, levantando as
histórias de vida de alguns sujeitos em situação de pobreza. Entendemos que, cada vez
mais, torna-se urgente entender a realidade que nos cerca, mapeando a pobreza e seus
efeitos nas identidades, e que afetam, também, aqueles que não se encontram em
situação de pobreza.
A pesquisa se ancora teórico-metodologicamente na convergência da Análise do
Discurso de linha francesa e dos estudos arquegenealógicos de Foucault, no que se
referem às relações de poder-saber e resistência e, também, na concepção de “vidas
infames”, instaurada pelo autor, entendidas como “vidas não famosas”, as dos pobres e
dos loucos, em nosso caso.
Levando em conta o projeto dentro do qual encontra-se inserido, o artigo, por sua
vez, tem por objetivo analisar as representações de e sobre uma catadora de lixo, “a
mulher do saco preto”, como ela é conhecida, mas que será designada por nós como
Maria. Maria vive em uma cidade do interior e central no estado de São Paulo e vive
“literalmente” do lixo. Come restos do lixo, se veste dos plásticos dos sacos de lixo,
1
Doutora em Linguística Aplicada e Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da
Universidade São Francisco, linha de Linguagem, Discurso e Práticas Educativas.
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geralmente pretos, de onde o nome, “a mulher do saco preto” e dorme geralmente na
rua, envolta, também, nos sacos de lixo e se confundindo com ele, o lixo.
Em consonância com um estudo já realizado por nós, que trouxe à tona as vozes
de exclusão e resistência de Estamira (MASCIA, 2011), a partir de um documentário
brasileiro, este estudo, também, pretende levantar a história de vida de Maria, “a mulher
do saco preto”, apontando para as múltiplas exclusões: como mulher, como pobre, como
doente mental, como abandonada pela família e pelo marido. Ouvimos Maria e ouvimos
os moradores do bairro no qual ela “perambula”. Assim, a análise tomará como corpus os
dizeres de Maria e sobre Maria pelos moradores do bairro. Ao longo da análise,
procuramos momentos em seu discurso os quais interpretamos como sendo algum tipo
de resistência.
Referencial Teórico
Pautamo-nos em estudos discursivos, na linha francesa, e nos estudos da
arquegenealogia de Foucault, em especial, com relação à obra “A vida dos homens
infames”.
Para a análise do discurso de linha francesa, o sujeito é entendido como efeito de
sentido do discurso, sendo ambos atravessados pela ideologia e pelo inconsciente. É
importante ressaltar que o discurso transcende o meramente linguístico e deriva do
histórico-social. O papel da AD, segundo Pêcheux e Gadet (2004), consiste em “conceber
o não dito, o efeito in absentia da associação, em seu primado teórico sobre a “presença”
do dizer e do sintagma; o não-dito é constituinte do dizer, porque o todo da língua só
existe sob a forma não finita do “não-tudo”, efeito da alíngua...” (PÊCHEUX e GADET,
2004, p.58).
Assim, a AD tem buscado levantar e analisar os equívocos e mal entendidos que
são produzidos, muitas vezes à revelia pelos sujeitos ao falar uma língua. Considerados
como constitutivos à língua, os equívocos são plenos de sentidos a partir dos quais se faz
interpretar os discursos e os sujeitos. Assim, a análise se dá no entrecruzamento do
acontecimento e da estrutura e na tensão entre descrição e interpretação, região de
equívoco, de elipse, de falta, próprios da língua estruturada pela ordem do simbólico,
instaurado este pela ideologia e pelo inconsciente (PÊCHEUX, 2002).
Tendo delimitado os primórdios da análise discursiva, passemos a algumas
considerações com relação à obra de Foucault.
A grande contribuição de Foucault é nos fazer entender que os personagens à
margem da história (o louco, a prostituta, o prisioneiro) devem ser reconhecidos entre
seus protagonistas. Assim, empreende o autor um estudo genealógico desses sujeitos da
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história. Os estudos genealógicos exigem, segundo o autor, paciência e meticulosidade,
paciência de ir e ouvir aquele que não deveria ser ouvido, a história que não deveria ser
contada. Os loucos são marcados por essa (não)história. Assim, para o autor,
A genealogia é cinza; ela é meticulosa e pacientemente documentária. Ela trabalha
com pergaminhos embaralhados, riscados, várias vezes reescritos (...) para a
genealogia [há] um
indispensável demorar-se: marcar a singularidade dos
acontecimentos (...) espreitá-los lá onde menos os esperava e naquilo que é tido
como não possuindo história” (FOUCAULT, 1979, p. 15).
Dentre os estudos do autor, encontra-se a obra “A vida dos homens infames” que
pretendeu levantar histórias de vidas, consideradas miseráveis, medíocres e (in)fames
(sem fama), vidas que passariam sem deixar rastros, mas que, de algum modo
resistiram. Trata-se, nas palavras do autor, de uma “antologia de existências. Vidas de
algumas linhas ou de algumas páginas, desventuras e aventuras sem nome, juntadas em
um punhado de palavras. Vidas breves, encontradas por acaso em livros e documentos.”
(FOUCAULT, 2006, p. 203).
Esta obra, inserida na 2ª fase do autor, da genealogia, pretendeu desmascarar
como o poder opera na sociedade ocidental e na era moderna: enquanto uma cadeia de
técnicas disciplinares que se manifestam através do treinamento, classificação e
normalização, dando visibilidade a todos os indivíduos, dos mais comuns, os infames, até
aos mais ilustres. O autor analisa narrativas, pequenos registros, dentre outros, tomados
como “fragmentos de discurso carregando os fragmentos de uma realidade da qual
fazem parte. Não é uma compilação de retratos que se lerá aqui: são armadilhas, armas,
gritos,
gestos,
atitudes,
astúcias,
intrigas
cujas
palavras
foram
instrumentos”
(FOUCAULT, 2006, p. 207). Tratam-se de vidas que se tornaram visíveis justamente por
fugirem à regra, violando-as, seja criminalmente, seja por não se adaptarem aos
padrões, como os loucos. Por fugirem às regras, suas vidas acabam sendo atravessadas
por elas (as regras), como fruto de sua própria violação. Todos somos impostos, de
algum modo, por “mecanismos de um poder político” (FOUCAULT, 2006, p. 216).
Esta é, também, a história da “mulher do saco preto” que, ao fugir dos padrões de
normalidade, torna-se famosa nas cercanias onde vive, instigando os “ditos normais” a
falarem dela, a construírem histórias, explicações plausíveis a seu respeito, como
veremos, a seguir.
Depoimento de uma moradora
A “mulher do saco preto” vive em uma cidade do interior do estado de São Paulo.
Ao visitar a cidade, fui surpreendida por esse vivente da rua e do lixo, instigando vários
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moradores a falarem a respeito, vindo a conseguir o depoimento de um deles. Trata-se
de uma senhora de 76 anos, na época, e que vive no mesmo bairro há mais ou menos 50
anos. A moradora conhecia, de vista, a “mulher do saco preto” antes dela começar a
viver na rua e nos conta a seguinte história.
Moradora:
Na minha cidade, tem uma moça, que era uma pessoa normal, estudada, que
tinha o colegial, pertencia à igreja dos Crentes, passava sempre bonita em
frente de minha casa, muito bem vestida, de sapatos altos. Conheceu um
moço e se casou, depois o moço traiu ela. Ela então tomou uma decisão na
vida, ela vive hoje na rua. Ela não usa roupa, ela pega os sacos de lixo preto
e se veste todinha com sacos de lixo preto. Ela faz uma blusa, ela amarra um
lenço na cabeça, ela faz uma saia, não usa roupa por baixo, nem calcinha,
nem nada. E não aceita comida de ninguém. Ela come comida do lixo. Ela
rasga o saco grande para ela se vestir e rasga os saquinhos de resto de
feijão, de comida, abaixa na calçada e come. Ela é uma pessoa instruída.
Agora na campanha política, só andava com o jornal, fazendo propaganda. De
ninguém, de nenhuma pessoa não aceita nada de comida, prato de ninguém,
nada não. Se veste de saco preto. Agora, os moradores estão colocando
sacos azuis e brancos. Houve uma época que ela estava andando quase nua.
Mas alguém deu um saco preto grande. Tentaram internar, mas esta é a vida
que ela escolheu, ela quer viver essa vida. Ela conversa, ela abençoa as
casas, ela pára, ela fala sobre política, ela fala sobre futebol, ela vive a vida
que nós vivemos, só que ela é da rua. Ela dorme em qualquer lugar e é
perigoso até um carro passar em cima dela, quando ela abaixa, que parece
um amontoado de saco preto de lixo na rua. Nós tratamos ela de Maria. Ela
anda o dia inteirinho, o dia inteirinho na rua. Onde ela se encontra, ela
dorme. Tentaram internar, ela ficou só quinze dias, ela voltou no mesmo
lugar. Essa é a vida que ela quer, e o povo tá deixando ela viver essa vida.
Embora nesse trecho a moradora não tenha comentado sobre o diagnóstico da
“mulher do saco preto”, em outro momento, ela nos revelou sobre a suposta
esquizofrenia. E, a seu modo, a moradora atribui o “enlouquecimento” à traição pelo
marido. Veja que isso é o divisor de águas da vida da “mulher do saco preto”. Ela
estudou, se casou, tinha religião, todas características “normais”, porém, ao ser traída
pelo marido, não aguentou e “surtou”, vindo a viver nas ruas e dos restos das pessoas.
E, ainda, paralelo a essa “opção” por viver na rua, segundo a moradora, ela desenvolve
um discurso místico, abençoando as pessoas. Embora os moradores quisessem ajudá-la,
tirando-a da rua, a “mulher do saco preto” volta sempre para a rua, vestindo somente de
sacos de lixo e somente de cor preta.
Conversando com a “mulher do saco preto”
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Durante um longo tempo, tentamos abordar a “mulher do saco preto”.
Primeiramente, tentamos encontrar algum parente com o qual pudéssemos conversar,
inclusive no intuito de receber uma aprovação para uma possível entrevista. Porém,
fomos informados que o marido teria desaparecido e ela teria uma irmã adotiva que,
também, desaparecera. Ninguém com o qual pudéssemos conversar, somente os
moradores, como aquela que nos cedeu a entrevista acima. Tentamos segui-la para
melhor entender sua vida, como era o seu dia-a-dia e, também, para verificar o melhor
modo de entrevistá-la. Contudo, não tivemos sucesso, ela não parava para conversar
quando abordada, somente quando queria e, pareceu-nos que ela escolhia aqueles que
conhecia para parar e conversar ou dar algum conselho e/ou benção. Resolvemos, então,
solicitar à moradora entrevistada por nós tentar conversar com ela, em nossa presença e
ver se conseguíamos gravar.
Assim, um dia, estando de carro com a moradora, à procura da “mulher do saco
preto”, a encontramos e ela veio ao nosso encontro começando uma conversa que foi por
nós gravada. Ela estava envolta em sacos pretos, inclusive na cabeça, lembrando uma
muçulmana. Apesar de mal tratada pela vida, aparentava ser uma mulher nos seus trinta
e poucos anos. Vale ressaltar que não tínhamos nenhuma questão pronta e a conversa
se deu de modo casual, partindo a conversa da mesma. Como os moradores do bairro
não têm certeza do nome dela, chamam-na de “Maria”, a moradora iniciou perguntando
o nome, talvez, também, afetada pelo imaginário do que vem a ser entrevista, já que
ficou de entrevistar/conversar com a “mulher do saco preto”. A seguir, apresentamos
alguns trechos da conversa.
Moradora: Como você se chama?
Mulher do saco preto: (inaudível) Vai devagar, vai devagar, devagar... direção
Moradora: Você se lembra de mim? Você sabe onde eu moro?
Mulher do saco preto: Direção... Capaz de ter que passar por um entroncamento na
Avenida Marechal... (inaudível) Você poderá um processo (inaudível)... Eu tomo
(inaudível)...
(Ela lê um trecho de um jornal que fala de luxúria e processo. O resto é ininteligível.)
Moradora: Devagar, né, Maria. É que eu tô começando a dirigir agora. E sarô a boca
aqui?
Mulher do saco preto: Enquanto meu povo estiver agindo nas 24 horas, ah, eu no dia-adia (inaudível) ...
Moradora: Você foi no posto? Já cicatrizou? [referindo a um machucado na mão]
Mulher do saco preto: Mas foi possível cicatrizar corte que eu tinha na mão do lado de cá.
Menos bactérias, leite A, leite B, leite parmesão, queijo parmesão. (Sobreposição de
vozes). Essas bactérias... Atenção... Sem ser lá da fábrica de leite de X. Presta
atenção... Necessita retirar uma bactéria do leite C que o povo tem no dente, X meu
povo (inaudível). Receba um cliente do bar do Cascão, uma parte da cerveja de volta
(inaudível) que o povo trabalhou nessa parte. Senhora, presta atenção, vai ter que fazer
um rastreamento na Avenida Marechal (inaudível)... Poderei pedir uma moedinha?
Moradora: Pode. Maria, deixa eu perguntar uma coisa, sarô a ferida aí de trás? E o que é
isso?
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Mulher do saco preto: Atenção. Isso é uma bactéria do abacaxi que o povo teve, é
tiveram que cortar a pele do meu povo. Vai devagar, vai devagar... Aguarde um
pouquinho, tem uma leitura diferente.
Moradora: Pode me dar a leitura. Então, tá.
Mulher do saco preto: Atenção, calma, calma. É uma promessa também de Deus... Os
melhores momentos da novela “O Bravo”. Maestro da novela “O Bravo”, que nunca
morou na (inaudível) que esfrega o nome. É mais essa parte aí, dona, dona...
Moradora: Você sabe quem sou eu, né? Eu moro lá, né, você sabe?
Mulher do saco preto: Dona, dona, católicos estão certinhos (inaudível). Empresas
(inaudível) ...
Moradora: Maria, fala seu nome certo. Como é seu nome? É Maria McLaren?
Mulher do saco preto: Meu povo... (Ruído de um carro.) Tenho uma promessa do meu
povo, do meu povo, presta atenção.
Moradora: Tem um bichinho aí?
Mulher do saco preto: É, isso é um inseto das procriações. Se deixar lota até o ...
prestenção... (Inaudível). Tá aqui, tá aqui. Foi possível meu povo se ausentar da Folha
de São Paulo.
Moradora: Mas aonde que está seu povo, Maria?
Mulher do saco preto: A senhora vai atravessar toda essa parte...
Moradora: Não vai perder o dinheiro. Eu vou dar uma bolsinha para você, a hora que
passar lá em casa.
(...)
Moradora: Maria, seu povo está na Santa Lucia?
Mulher do saco preto: Prestenção, meu povo, meu povo na TV, na tela da TV no meio
deste povo, a gente vai se ver na Globo. Esse cantor que é bem pouco (Inaudível)... Alô
Pilates, mais um cantor que é (inaudível) ... Prestenção. Luma de Oliveira está certinha
com o vestido de alta luxúria. Isis de Oliveira está contra meu povo. Isis de Oliveira
passou a (Inaudível)... Atriz e modelo Isis de Oliveira (inaudível)... não foi possível
modelo Isis de Oliveira abandonar as partes passadas da novela TV Globo. Não me
apareça em frente à Rádio Progresso, que meu povo recebeu um choque no crânio.
Moradora: É o povo, no crânio?
Mulher do saco preto: Prestenção, conforme recebo um choque no corpo, na cabeça.
Aquilo ali recebeu uma ... (Inaudível). Prestenção. Vai devagar, vai devagar, prestenção.
Prestenção. Meu povo está morando nesta ... aqui na Darci. Vila Darci. As chuvas entre a
noite e a madrugada... Dona, dona, presta atenção...
(Ruído de carro). (Vai embora).
De início, pode-se ver que a conversa acima foi totalmente “comandada” pela
“mulher do saco preto”. Perdemos alguns trechos, pois ela falava muito rápido e se
distanciava de nós, muitas vezes, parecendo conversar consigo própria.
O tópico da conversa foram questões de seu dia-a-dia e, talvez, da maioria das
pessoas consideradas “normais”, porém, os assuntos nos parecem misturados, a primeira
vista. Ela aborda vários assuntos ao mesmo tempo: dos perigos da direção – pareceu
surpresa ao ver a moradora dirigindo e, por isso, durante toda a conversa ficou alertando
que dirigisse “devagar”. Isso faz sentido em um mundo no qual temos cada vez mais
carros, congestionamentos e acidentes. Também, conversou sobre os problemas de
saúde, do machucado em sua mão, que, segundo ela teria sido originado por uma
bactéria do leite. Assim, ela nos alertou que certos tipos de leite apresentam bactérias.
Após, fala da novela “O Bravo” e das estrelas globais, assunto comum no Brasil. A seguir,
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comenta sobre o seu “povo”. Ela se considera como representante de um “povo”, como
enviada para salvar, benzer e, embora não tenha ficado explícito na entrevista, isso nos
foi relatado pela moradora. Essa é uma característica dos esquizofrênicos, criar mundos à
parte e se sentirem como especiais, salvadores. O mesmo acontece com Estamira,
documentário analisado por nós e citado no início deste artigo (cf. MASCIA, 2011).
E, para nossa surpresa comenta sobre “receber choque no crânio, no corpo, na
cabeça”. Isso, provavelmente, remonta ao fato de ela ter sido internada algumas vezes,
no hospital psiquiátrico, e, com certeza, ter recebido choques. Assim, em nossa
interpretação,
apesar
de
pensamentos
e
tópicos
misturados
e,
aparentemente
desordenados, consideramos que sua fala nos revela um testemunho de vida, altamente,
plausível, fruto de sua vivência e experiência cotidiana. Se ela vive em um mundo à
parte, como todos consideram, este não se encontra totalmente desconexo do que
vivemos, da época em que vivemos. Seu modo de viver é uma resistência, em nosso
entender, pois ela se tornou visível transgredindo a “norma” ao morar na rua e comer de
restos...
Há muitos modos de resistência, já que ela se opera na microfísica, de acordo
com Foucault (2004), e Maria resiste e se identifica dentro de seu mundo simbólico: da
esquizofrenia. A análise aponta para o desejo da construção de uma subjetividade por e
de Maria: pelos temas corriqueiros com os quais elabora sua fala; por suas lembranças
de vida; pela inserção no mundo contemporâneo, de atores globais, inclusive cantando o
famoso jingle da Rede Globo (“na tela da TV no meio deste povo, a gente vai se ver na
Globo”), como se pode ver em sua entrevista; como alguém com um discurso místico, todos mecanismos para preservar algo singular em si. Trata-se de uma luta para
encontrar um lugar no mundo no qual as pessoas não dão mais valor às suas palavras e
ações. Para Lacan (1977, p. 216), “os psicanalistas deveriam deixar seus pacientes
definirem seus próprios termos, ou acessar suas próprias verdades”. De certo modo, é
essa a proposta da pesquisa, dar voz à Maria e deixá-la dizer a respeito de sua verdade
e, à medida que a ouvimos, podemos ver um quadro da vida social emergindo, às vezes,
agonizante, às vezes não – ordem e caos – o modo como ela realmente viveu e como o
seu tipo de vida afetou seu corpo e mundo interno.
À guisa de conclusões...
Uma mulher considerada esquizofrênica, traída pelo marido e que, segundo os
mais próximos, teria “enlouquecido” pela traição. Vivente do lixo, dos restos dos ditos
“normais”, mas com seu orgulho – não aceita nada de ninguém, nada pede, até a roupa
é revestida do lixo, do saco de lixo preto. A cor é preta, pois só os sacos pretos podem
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vesti-la. Seria essa a cor da sua alma? Luto porque perdera o marido, o amor, a
esperança, a razão? Mas, parece-nos que não o orgulho e a dignidade. Nada pede e nada
aceita de ninguém, segundo depoimento de moradora do bairro onde ela perambula.
Segundo o Foucault:
Na sociedade européia, os loucos começaram a ser reconhecidos como tal no fim
do século XVI, na medida em que não eram capazes de trabalhar (...). É a
percepção econômica do desemprego que, na Europa, permitiu reconhecer o
louco, designá-lo como tal e aplicar-lhe um tratamento singular (FOUCAULT, 1971,
apud GREGOLIN, 2004, p. 70)
Se aos loucos eram
dados tratamentos singulares, sendo, possivelmente
confinados, retirados das ruas, vemos a “mulher do saco preto” (e, também, Estamira)
“solta” pelas ruas. O que é a rua para a nossa sociedade? Lugar de passagem – de carros
e de transeuntes – que se deslocam de um lugar para o outro. Então a rua não seria um
lugar? Talvez seja um não-lugar, como nos diz Augé:
O não-lugar é diametralmente oposto ao lar, à residência, ao espaço
personalizado. É representado pelos espaços públicos de rápida circulação, como
aeroportos, rodoviárias, estações de metrô, e pelo transporte – mas também pelas
grandes cadeias de hotéis e supermercados (AUGÉ, 1994, contra-capa).
O conceito de não-lugar, proposto por Augé, designaria um espaço de passagem
incapaz de dar forma a qualquer tipo de identidade, porém, não é isso que vemos na
vida da “mulher do saco preto”. Sua identidade encontra-se atrelada à rua e aos restos
de lixo, a partir do qual os moradores a identificam, como vimos no depoimento da
moradora. Ou seja, em não-lugares é possível se pensar a identidade, como estamos
vendo, no mundo contemporâneo.
Ademais, se levarmos em conta a história dos hospitais psiquiátricos no Brasil,
veremos, como o momento contemporâneo tem alterado o estatuto de lugar dos
(in)fames:
Até o século XIX não se instituíram no Brasil grandes espaços de exclusão como os
hospitais gerais da Europa, o que não significa que inexistissem práticas isoladas
de exclusão. Como descreve Engel, ‘apesar da presença significativa de loucos nas
ruas da cidade do Rio de Janeiro durante as primeiras décadas do século passado,
as práticas de exclusão também eram relativamente frequentes mesmo antes do
aparecimento do primeiro hospício da cidade, em 1852’ (Fontes para uma história
das concepções acerca da loucura na cidade do Rio de Janeiro, 1993, p. 239). Em
geral, loucos, mentecaptos e defeituosos eram confiados às famílias; salvo se
perturbassem a ordem pública, quando então eram recolhidos às Santas Casas ou
às prisões, poderiam perambular livremente pelas ruas. As famílias abastadas
mantinham-nos dentro de casa, longe dos olhares indiscretos, muitas vezes em
recintos fechados (LOBO, 2008, p. 394).
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Porém, já no início do século XIX, segundo a autora, com a transferência da corte
para a cidade do Rio de Janeiro, várias mudanças foram empreendidas, de fundo
higienista, sendo uma delas a construção de um hospital para loucos: “um avanço das
luzes da civilização que enfim chegavam até nós. Tornara-se insuportável o espetáculo
de miséria, vagabundagem e loucura que enxameava as ruas” (id., ibid.).
Assim, vários movimentos, envolvendo ou não o espaço da rua, encontram-se
atrelados à história dos loucos: às vezes retirados da rua e outras enviados à rua, como
tem feito a nossa sociedade contemporânea. A rua tem sido espaço, dos loucos, dos
vagabundos, dos viciados, das prostitutas, dos (in)fames...
O que leva os sujeitos a “decidirem” viver na rua? Morar na rua? Em um nãolugar?
A “mulher do saco preto”, em sua (des)razão, parece delimitar o lugar pelo
próprio “corpo”, corpo este vestido de lixo, alimentado pelo lixo e que vive “literalmente”
na rua. Trata-se de um modo de estabelecer algum tipo de identidade só sua e, sem
dúvida, se fazer ver e ouvir, e, mais do que isso, perturbar a tão desejada normalidade
da sociedade.
Esperamos que os resultados desta reflexão possam, mesmo que timidamente,
desnaturalizar as marcas dos corpos “deficientes”, (des)legitimar as explicações de fundo
biológico e levantar as condições sócio-históricas de seu aparecimento, em nossa
sociedade.
Referências Bibliográficas
AUGÉ, M. Não-Lugares – Introdução a uma antropologia da supermodernidade.
Campinas: Papirus, 1994.
GREGOLIN, M. R. Foucault e Pêcheux na construção da análise do discurso:
diálogos e duelos. São Carlos: Claraluz, 2004.
FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: ed. Graal, 1979.
___________ A Vida dos homens infames. In: de MOTTA, M. B. (org.) Ditos e Escritos.
Estratégia, poder-saber- Michel Foucault. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.
LACAN, J. On a question preliminary to any possible treatment of psychosis. In: Écrit: A
selection. New York: W.W. Norton, 1978.
LOBO, L. F. Os infames da história: pobres, escravos e deficientes no Brasil. Rio de
Janeiro: Lamparina, 2008.
MASCIA, M. A. A. “Rio” – a cidade maravilhosa e o lixão de Gramacho: discursos de
exclusão e resistência na voz de Estamira. In: CORACINI, M. J.
(org.) Identidades
silenciadas e (in)visíveis: entre a inclusão e a exclusão. Campinas: Pontes Ed., 2011.
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Pêcheux, M. O Discurso: estrutura ou acontecimento. Trad. Eni P. Orlandi. 3ª edição –
Campinas: Ed. Pontes, 2002.
PÊCHEUX, M. e GADET, F. A Língua Inatingível. Campinas: Pontes, 2004.
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