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S É R I E
C R I S T I A N I S M O
EM ESPÍRITO
E EM VERDADE
Curso prático de liturgia
P R Á T I C O
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S É R I E
C R I S T I A N I S M O
P R Á T I C O
EM ESPÍRITO
E EM VERDADE
Curso prático de liturgia
2ª. Edição
Luiz Carlos Ramos
EDITEO
São Bernardo do Campo, 2008
Série Cristianismo Prático
© 2008 Luiz Carlos Ramos
EDITORA DA FACULDADE DE TEOLOGIA (EDITEO)
Catalogação preparada pela bibliotecária
Aparecida Comelli Tavares (CRB 8-3781) – Biblioteca Jalmar Bowden
264
R147e
RAMOS, Luiz Carlos
Em espírito e em verdade: curso prático de
liturgia / Luiz Carlos Ramos. 2. ed. São Bernardo do Campo: Editeo, 2008.
144 p.
ISBN: 978-85-88410-85-5
1. Liturgia 2. Culto público I. Curso prático
de liturgia II. Título
CDD 18ª. ed.
Faculdade de Teologia da Igreja Metodista – Umesp
Reitor da Faculdade de Teologia
Reitor da Umesp
Rui de Souza Josgrilberg
Márcio de Moraes
Editeo
Conselho Editorial
Blanches de Paula
Helmut Renders
José Carlos de Souza
Luiz Carlos Ramos
Magali do Nascimento Cunha
Nelson Luiz Campos Leite
Otoniel Luciano Ribeiro
Rui de Souza Josgrilberg (presidente)
Ronaldo Sathler-Rosa
Stanley da Silva Moraes
Tércio Machado Siqueira
Marcos José Martins
Coordenador editorial
Editor responsável por este livro
Coordenador de produção
Revisão
Ronaldo Sathler-Rosa
Tércio Machado Siqueira
Luiz Carlos Ramos
Gedilson Oliveira dos Santos,
Glória Pratas e Adilson Miguel da Silva
Glória Pratas
Marcos Antonio Brescovici
Vitor Chaves (patena e cálice
utilizados nas celebrações
eucarísticas da FaTeo)
Assistente Editorial
Editoração e capa
Foto da capa
EDITORA DA FACULDADE DE TEOLOGIA DA IGREJA METODISTA
Rua do Sacramento, 230 – Rudge Ramos
09840-000 – São Bernardo do Campo, SP
Telefone: (11) 4366-5983 — e-mail: [email protected]
Sumário
Prefácio ................................................................... 7
Prólogo .................................................................. 11
Introdução ............................................................ 13
Liturgia e Culto ............................................................ 13
Liturgia e Teologia........................................................ 13
Modelos bíblicos e históricos de ordem para o culto ....... 16
As bases da liturgia cristã: o Pão e a Palavra ................. 24
I O que é culto? (A liturgia do serviço) ...............29
II Por que fazer culto? (A liturgia da graça) .......37
III Onde se faz culto? (A liturgia do espaço
sagrado)................................................................41
Lugares Sagrados ........................................................ 42
Tabernáculo................................................................. 43
O Templo .................................................................... 45
Sinagogas ................................................................... 47
Casas (cenáculo) ......................................................... 48
Praça pública ............................................................... 50
Prisões ........................................................................ 51
Catacumbas ................................................................ 52
Basílicas e catedrais ..................................................... 54
A linguagem espacial e a teologia dos edifícios, mobílias
e utensílios religiosos................................................... 56
A Igreja: em espírito e em verdade............................... 62
IV Quem participa do culto? (A liturgia
do povo de Deus) ..................................................66
O lugar da criança no culto cristão ................................ 70
Culto para crianças ou culto com as crianças? ............... 73
O que as crianças podem e não podem fazer no culto?.. 75
Preparação da liturgia de um culto inclusivo .................. 78
Portanto...................................................................... 80
V Quando fazer culto? (A liturgia do tempo) ....... 82
A celebração da História da Salvação............................ 83
O Calendário Litúrgico.................................................. 86
Ciclo do Natal .............................................................. 88
O Tempo Comum (após Epifania
e após Pentecostes)..................................................... 93
Ciclo Pascal ................................................................. 96
Esquema do Ano Litúrgico...........................................101
VI Como fazer culto? (A liturgia da liberdade
e da criatividade)................................................ 105
Objetividade e subjetividade litúrgicas .........................106
A emoção na comunicação litúrgica .............................107
A razão na comunicação litúrgica.................................108
Emoção, sensação e razão e a saúde litúrgica ..............110
Outras formas de comunicação-não-verbal na liturgia ..111
A natureza e o culto....................................................112
O corpo e o culto ........................................................120
A cultura e o culto.......................................................131
A Equipe ou Ministério de Liturgia ................................135
Epílogo ................................................................ 139
Referências ......................................................... 141
Textos sobre culto e liturgia .........................................141
Textos sobre a comunicação por vias não-verbais ........143
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Prefácio
A Série Cristianismo Prático (SCRIPT) foi planejada para oferecer às
lideranças das igrejas locais, pastores
e pastoras, leigos e leigas, um instrumento de trabalho e aperfeiçoamento da pastoral cristã. Como uma
demonstração de nossa disposição,
temos a alegria de apresentar o trabalho do Rev. Luiz Carlos Ramos, Em
Espírito e em Verdade, um curso prático de liturgia.
A publicação deste livro torna-se
urgente, exatamente, porque cresce,
nas igrejas evangélicas, uma atitude
de desdém para com a palavra “liturgia”. Há poucos dias, ouvi a seguinte
frase, numa oração de um leigo: “Re-
preenda, Senhor, o espírito de liturgia”. Indagado pelo pastor sobre o seu
conceito de liturgia, ele respondeu: “é
aquele papelzinho que organiza o culto”.
O livro Em Espírito e em Verdade
tem a intenção de esclarecer o significado de liturgia para a Igreja Cristã.
Mais do que enfatizar a liturgia como
uma ordem para a celebração cúltica,
o autor deixa claro que ela vai além.
Para ele, liturgia deve ser compreendida como uma vida de serviço à
Causa Divina. Isso faz da liturgia um
conjunto harmonioso de palavras,
gestos e expressões que orientam e
desafiam a comunidade celebrante a
aperfeiçoar o seu testemunho cristão.
Assim, pedagogicamente, a liturgia
deixa de ser mera questão formal,
para exercer um verdadeiro papel
profético, desafiando a cada celebrante a transformar os passos litúrgicos,
contidos numa folha de papel, em
práticas do seu dia-a-dia.
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O autor desenvolve este tema
com profundidade e leveza. Partindo
das bases bíblicas, mostra a liturgia
como um instrumento necessário ao
testemunho cristão. Além disso, ele
deseja mostrar que a liturgia é um
dos elementos que sinalizam a dimensão ecumênica da Igreja Cristã,
em todas as épocas. Na diversidade
das igrejas, a liturgia se faz presente
na especificidade de cada tradição
cristã.
Portanto, a Faculdade de Teologia
da Igreja Metodista pretende, com
esta publicação, incentivar as igrejas
locais a redescobrirem a importância
da liturgia, para o culto, e a dialogarem com as tradições cristãs. A preocupação do Rev. Luiz Carlos é com a
prática do culto nas igrejas.
Como editor da Série Cristianismo
Prático, espero que este curso prático
de liturgia ajude o povo cristão na
busca de uma autêntica celebração
de sua fé. Que os cultos sejam mais
|
9
comunitários e participativos, e que o
povo crente seja mais consciente e
comprometido com a Palavra de
Deus.
Tércio Machado Siqueira
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Prólogo
O material desta obra é o resultado da experiência do autor como pastor e como liturgista. É fruto dos
cursos ministrados nas comunidades
pelo Brasil afora e das aulas de Liturgia da Faculdade de Teologia da
Igreja Metodista; e também da experimentação de uma espiritualidade
encarnada, vivenciada nas celebrações da Igreja local, regional e nacionalmente, bem como em tantos encontros ecumênicos, e, particularmente, nos cultos da FaTeo.
Luiz Carlos Ramos
Introdução
Liturgia e Culto
A
NTES
DE
APRESENTARMOS
uma definição de liturgia, é
importante fazer uma pequena distinção entre Liturgia e Culto: segundo Nelson Kirst
(ver referências bibliográficas no final
da publicação) Culto é o encontro celebrativo entre Deus e o seu povo, e a
Liturgia é o que acontece nesse encontro.
Liturgia e Teologia
Convencionalmente, a Teologia se
estrutura em três grandes áreas, a
saber: (1) Bíblia, que se ocupa da in-
vestigação das fontes da fé cristã; (2)
Teologia Sistemática e História, que
estuda a maneira como a fé foi interpretada e reinterpretada em diferentes épocas e lugares; (3) e Pastoral,
que se ocupa da práxis da fé, isto é,
da reflexão e da prática aplicada à
realidade das pessoas e das comunidades de fé no contexto da missão da
Igreja a toda a humanidade.
Didaticamente, a Liturgia inscreve-se no escopo da Teologia Pastoral,
que, por sua vez, se subdivide em diferentes áreas, sendo as principais
estabelecidas a partir da narrativa
bíblica do livro dos Atos dos Apóstolos
(especialmente, 2.42-47): doutrina
(didaskalia) – comunhão (koinonia) –
partilha do pão (diakonia) – oração/louvor (liturgia). A Liturgia é, portanto, um capítulo da Teologia Pastoral, ao lado da Educação Cristã, do
Aconselhamento ou Poimênica, da
Diaconia ou Ministérios. Entretanto,
essas divisões têm caráter meramente
didático, pois, na prática, todas as
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LUIZ CARLOS RAMOS
áreas da Teologia estão imbricadas,
interligadas e se interdependem.
Na academia, o uso científico do
termo liturgia aplica-se à disciplina
teológica que trata da ritualidade cerimonial e rubrical que regulam o exercício externo do culto.
Considera-se a liturgia como teologia primeira (theologia prima) e a reflexão dogmática como Teologia segunda (theologia secunda). É igualmente considerada ápice e fonte (culmen et fons) da ação da igreja (actio
ecclesiae). Neste sentido, como ensina
Casiano Floristán, a liturgia é “lugar
primário no qual se realiza a autêntica fé, ao mesmo tempo em que é fonte
e norma primeira da doutrina”. A liturgia é uma das três grandes ações
da Igreja, sendo precedida pela evangelização e seguida pela atividade caritativa, testemunhal ou apostólica.
Assim sendo, não se pode fazer Liturgia sem se recorrer à fonte da nossa fé, a Bíblia; nem à interpretação e
atualização dessa fé, a Teologia SisSCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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temática e a História; e, muito menos,
sem recorrer-se à aplicação dessa fé à
vida com vistas à transformação da
realidade à luz dos princípios do Reino de Deus, que é a tarefa específica
da Teologia Pastoral.
Por essa razão, trataremos dos
temas da Liturgia, sempre relacionando-os à Bíblia, à sistematização
histórica e à práxis pastoral.
Comecemos, portanto, pela busca
de alguns modelos bíblicos de ordem
para o culto.
Modelos bíblicos e históricos
de ordem para o culto
Na Bíblia Hebraica há muitas indicações, umas mais, outras menos
explícitas, de diferentes práticas litúrgicas. Um bom exemplo é a narrativa de Neemias 8.1-12. Note-se a
estrutura sugerida pela narrativa:
Reunião – leitura bíblica – adoração –
edificação (explicação da leitura) –
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|
LUIZ CARLOS RAMOS
refeição comunitária/serviço aos necessitados.
No mesmo livro podemos encontrar variações dessa estrutura, vejase, por exemplo, Neemias 9: Confissão individual – leitura bíblica – adoração e louvor – confissão comunitária – dedicação (renovação da aliança).
Um dos modelos mais significativos é o encontrado em Isaías 6.1-8. A
estrutura oferecida por esta passagem
forneceu a base para a liturgia de várias igrejas reformadas e, particularmente, a Igreja Metodista, aqui no
Brasil: adoração – confissão (individual e comunitária) – edificação – dedicação.
No Novo Testamento, várias são as
referências. Detenhamo-nos em algumas das que mais inspiraram a
prática litúrgica histórica.
Lucas 24. O capítulo 24 do Evangelho de Lucas repete sistematicamente uma mesma estrutura: encontro – Serviço da Palavra – Serviço da
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
|
17
Mesa – Envio. Veja Lucas 24.13-35;
36-43; 44-49.
O mesmo texto de Atos 2.42-47,
mencionado acima, também nos oferece uma referência sobre a prática
celebrativa dos primeiros cristãos:
instrução – comunhão – partilha –
oração e louvor.
Apocalipse 8. Uma outra proposta
litúrgica, bem diferente, encontramos
no relato de um culto escatológico,
narrado no capítulo 8 e seguintes do
livro do Apocalipse: silêncio contemplativo – súplicas (incensário) – proclamação (trombetas) – edificação
(10.8-10) – Envio (10.11; 11.1ss).
Um dos registros mais antigos, a
que temos acesso, sobre o culto nos
primeiros séculos, encontra-se na
Didachè, que era uma espécie de manual dos primeiros cristãos, datado,
provavelmente, do final do primeiro
século. Veja-se, a título de ilustração,
a seguinte oração eucarística extraída
da Didachè:
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LUIZ CARLOS RAMOS
No que se refere à eucaristia,
dai graças assim:
Primeiramente, sobre o cálice:
Nós te damos graças, ó Pai nosso,
pela santa vinha de Davi, teu servo;
tu no-la fizeste conhecer
por Jesus, teu filho.
Glória a ti pelos séculos!
Depois, sobre o pão partido:
Nós te damos graças, ó Pai nosso,
pela vida e pelo conhecimento
que nos concedeste
por Jesus, teu filho.
Glória a ti pelos séculos!
Como esse pão partido,
antes disseminado
sobre as montanhas,
foi reunido para ser apenas um,
reúne do mesmo modo tua igreja das
extremidades terra em teu Reino.
Sim, a ti são a glória e o poder
por Jesus Cristo, pelos séculos!
Depois de terdes comido o pão,
agradecei assim:
Nós te damos graças, ó Pai santo,
por teu santo nome,
que abrigaste em nosso coração,
pelo conhecimento, pela fé
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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e pela imortalidade
que nos concedeste
por Jesus, teu filho.
Glória a ti pelos séculos!
Tu, Senhor todo-poderoso, criaste o
universo para louvor de teu nome e
deste aos homens a comida e a bebida
para [seu] regozijo,
a fim de que eles te dêem graças;
mas a nós, tu nos deste um alimento
e uma bebida espirituais
e a vida eterna por teu filho.
Antes de tudo nós te damos graças
porque és poderoso;
Glória a ti pelos séculos!
Lembra-te, Senhor,
de livrar tua igreja de todo mal
e de completá-la em teu amor.
Reúne, dos quatro ventos a Igreja,
que santificaste,
no Reino que preparaste para ela.
Porque a ti pertencem o poder
e a glória pelos séculos!
Venha a tua graça
e passe este mundo!
Hosana ao Deus de Davi!
Quem é santo venha;
quem não é faça penitência.
Marana tha! Amém.
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LUIZ CARLOS RAMOS
Síntese: Adoração (orações a Deus,
o Pai) – Eucaristia (proclamação do
evangelho e memorial de Jesus, o Filho) – Diakonia (Espírito Santo motiva
o serviço/coleta em favor dos necessitados).
Outro importante documento é o
relato de Justino Mártir (Primeira
Apologia), de meados do segundo século da era cristã. Assim Justino descreve a celebração do domingo:
Depois disso, continuamos a recordação dessas coisas. Aqueles que
têm posses prestam ajuda a todos os
que têm necessidade, e nós nos damos assistência mutua. Em todas as
nossas oferendas bendizemos o Criador do universo por seu filho Jesus
Cristo e pelo Espírito Santo. No dia
chamado do sol, todos, habitem nas
cidades ou nos campos, se reúnem
num mesmo lugar. São lidas as memórias dos apóstolos e os escritos
dos profetas enquanto o tempo o
permite. Terminada a leitura, aquele
que preside toma a palavra para advertir e exortar à imitação desses belos ensinamentos. Em seguida, todos
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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21
nós nos levantamos e oramos em voz
alta. Depois, como já dissemos, terminada a oração, são trazidos pão,
vinho e água. Aquele que preside, à
medida que suas forças o permitem,
faz subir ao céu orações e ações de
graça, e todo o povo responde com a
aclamação amém.
Segue-se a distribuição dos alimentos consagrados a cada um, e a parte
dos ausentes lhes é enviada pelo ministério dos diáconos. Aqueles que
têm bens em abundância e querem
fazer doações doam livremente o que
querem. O que é recolhido é entregue
ao presidente, que dá assistência aos
órfãos, ás viúvas, aos doentes, aos
indigentes, aos presos, aos hóspedes
estrangeiros, numa palavra, a todos
os que estão passando necessidade.
Nós nos reunimos no dia de Sol porque é o primeiro dia, aquele em que
Deus, tirando a matéria das trevas,
criou o mundo, porque nesse mesmo
dia o nosso salvador Jesus Cristo
ressuscitou dos mortos. Na vigília do
dia de Saturno ele foi crucificado e,
no dia seguinte a este, isto é, no dia
do Sol, ele apareceu aos seus apósto-
22
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LUIZ CARLOS RAMOS
los e aos seus discípulos e lhes ensinou essa doutrina que nós acabamos
de submeter ao vosso exame.
A liturgia começava com leituras
das Escrituras e relatos dos testemunhos dos apóstolos (seguidores de
Jesus) – exortações para a imitação
dos atos de Jesus, conforme testemunhados – orações pelo mundo e
pela igreja, particularmente pelos
enfermos, ou que estavam à morte, e
pelos que haviam sido presos por
professarem a Cristo, denunciados
por não cristãos – beijo da Paz – ofertório dos elementos eucarísticos –
oração eucarística – distribuição dos
elementos eucarísticos aos presentes
e envio aos ausentes – coleta em favor dos necessitados (alimentos, roupas ou dinheiro) – despedida com
oração para que todos permaneçam
fiéis e a salvo até reunirem-se novamente no próximo domingo.
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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As bases da liturgia cristã:
o Pão e a Palavra
Sabe-se que os primeiros cristãos
mantinham seu costume, como judeus, de freqüentar a sinagoga, aos
sábados, para ouvir a leitura da Lei,
dos Escritos e dos Profetas; e que, no
domingo, se reuniam nas casas para
o “partir do pão” e celebrar a memória de Jesus. Celebravam, assim, a
Palavra, no sábado, e a Ceia, no domingo. Porém, à medida que os cristãos foram sendo expulsos das sinagogas, passaram a concentrar no
domingo a celebração da Palavra e da
Mesa.
Num primeiro momento, como salienta Nelson Kirst em Nossa Liturgia:
das origens até hoje, o sacramento
eucarístico era feito no contexto de
uma refeição normal e tinha a seguinte estrutura: O celebrante partia
o pão e fazia uma oração de ação de
graças, depois todos comiam a refeição comunal e, ao final, o celebrante
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LUIZ CARLOS RAMOS
voltava a chamar a atenção de todos
para a partilha do vinho que era precedida de outra oração de ação de
graças.
A estrutura era, portanto: pão –
refeição – vinho. Mais tarde, por razões várias, passou-se a realizar a
refeição em primeiro lugar, juntando
a celebração do pão e do vinho no
final da cerimônia: refeição – pão e
vinho. Mais adiante, ainda, separouse completamente a refeição do memorial do pão e do vinho.
O culto cristão integra em uma
única celebração a leitura e a explicação das Escrituras, próprias da
liturgia da Sinagoga judaica, e o
memorial eucarístico, do Cenáculo.
As primeiras pessoas a professar
a fé cristã eram, principalmente, judias, e assim continuaram até que
foram expulsas da Sinagoga. Até então, reuniam-se no sábado (Shabah),
na Sinagoga para a liturgia da Palavra, e tornavam a reunir-se no do-
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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mingo (Dia do Senhor) para a Liturgia
do Cenáculo.
Quando as Sinagogas fecharam
suas portas aos cristãos, estes passaram a concentrar a liturgia da Palavra, e a do Cenáculo, numa única
celebração, desta vez no Dia do Senhor (Kyriake hemera).
Dos relatos bíblicos e históricos,
mencionados até aqui, podemos estabelecer um padrão que dá o fundamento da liturgia cristã: a Celebração da Palavra e a Celebração da
Mesa.
Quase todos os relatos têm em
comum o fato de terem dois focos
distintos e complementares: a leitura
e explicação da Palavra, de um lado,
e a prática sacramental do memorial
instituído por Jesus, a eucaristia, ou
Santa Ceia, ou ainda a Ceia do Senhor, de outro. Pão e Palavra são,
portanto, os pilares da liturgia.
Na organização do espaço celebrativo, esses “pilares” ficam evidentes
pela disposição, no altar: da mesa da
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LUIZ CARLOS RAMOS
comunhão e do púlpito, lugares respectivos da comunhão e da proclamação; do sacramento e do Evangelho; da partilha e do anúncio; da fé e
da prática; dos atos de piedade e das
obras de misericórdia; enfim, do Pão
e da Palavra.
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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27
I
O que é culto?
(A liturgia do serviço)
O
origem no
grego clássico leitourgia (leitos
[adjetivo de laós] = povo + ergon
= trabalho, esforço), que originalmente designava toda obra, ação ou
iniciativa assumida livremente por um
indivíduo em favor do povo ou do bairro
ou da cidade ou do Estado. Aos poucos
o termo passou a designar qualquer
trabalho que importasse em “serviço”,
mais ou menos obrigatório, prestado ao
Estado, ou a um indivíduo, ou mesmo à
divindade (“serviço religioso”).
Na Bíblia Hebraica, ou Antigo Testamento, um dos termos mais signifiTERMO LITURGIA TEM
cativos, relativos ao culto, é hawa,
que pode ser traduzido por “prostrarse” e “adorar”. A palavra é empregada
170 vezes em todo o AT e traz a idéia
de submissão e auto-humilhação,
cujo sentido sugere um curvar-se até
a testa encostar o chão.
Derivam de hawa outros termos
que nos ajudam a entender melhor a
força e a idéia da raiz desse termo:
abad, traduzido por “escravo”, servo
(equivalente ao grego doulos); abida,
traduzido por “serviço”, “ritual”, “adoração”; ‘abodah, traduzido por “trabalho” e ‘abad, “servir”, “cultivar o campo” (vd. Êx 12.21-28; Dt 10.8; 2Cr
8.14).
Em Esdras 6, por exemplo, esses
termos são empregados na narrativa
que descreve o serviço realizado por
ocasião da construção ou reconstrução de Jerusalém.
A tradução grega do Antigo Testamento, a Septuaginta (LXX), emprega
o termo liturgia sempre, sem exceção,
para designar o “serviço religioso”
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LUIZ CARLOS RAMOS
prestado pelos levitas a Yaweh (ocorre
mais de 150 vezes).
No Novo Testamento, o verbo leitourgeo, o adjetivo leitourgikos e os
substantivos leitourgia e leitourgos
ocorrem 15 vezes e, em geral, são traduzidos como “serviço”, “ministério”,
“socorro/auxílio” e seus correspondentes. Em Atos 13.2 o termo tem,
especificamente, o sentido de “culto”
(ver também: Hb 1.7,14, 8.2,6, 10.11;
Fp 2.17).
Nos escritos extrabíblicos, como
na Didachè e textos de Clemente, o
termo aparece claramente relacionado
com a celebração eucarística.
Ao longo da história da Igreja, o
termo grego foi preservado na igreja
oriental, mas substituído por seus
equivalentes latinos (officium, ministerium, múnus...) na igreja latina.
Atualmente, a palavra liturgia se
aplica a todo o conjunto dos atos rituais e da Igreja pelos quais prossegue no mundo no exercício do sacerdócio de Jesus Cristo, destinado a
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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santificar os seres humanos e glorificar a Deus.
No Novo Testamento, outros termos são utilizados com o mesmo sentido de leitourgia (At 13.2; Hb 1.7,14,
8.2,6, 10.11; Fp 2.17), entre eles:
ƒ Proskyneo (equivalente ao hebraico hawa), geralmente traduzido por “adorar/adoração/
adorador”, (Mt 2.2,8, 11; 4.9,
10; Jo 4.20-23; Ap 3.9). Significa, literalmente, “curvar-se”,
“prostrar-se”;
ƒ Sebomai, traduzido por “temor”, “piedade” (Mt 15.9; At
13.43,50, 16.14, 17.4,17, 18.
7,13, 19.27). É a característica
dos homens e mulheres cuja
piedade se tornava notória pela
prática da oração, do jejum e
das esmolas dadas aos pobres;
ƒ E Latreia, traduzido como “culto”, “serviço sagrado” (Rm 9.4,
12.1; Hb 9.1,6,9,14; Mt 4.10;
At. 7.7; Ap 7.15, 22.3). A latreia é a tarefa do latris, o mais
32
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LUIZ CARLOS RAMOS
humilde dos serviçais do período bíblico. Há vários tipos de
escravos que são mencionados
na Bíblia: o doulos, que cuidava dos serviços externos (tratava dos animais, lavrava a terra...); o diakonos, que cuidava
dos serviços domésticos (servia
as mesas, limpava a casa...); e
o latris, que era quem fazia o
trabalho mais degradante (limpava a latrina). O latris não é
mencionado nas páginas do
NT, mas o seu serviço sim, nos
textos indicados acima. Da
mesma raiz, temos as expressões em português “latrina” e
“idolatria”.
Todos esses termos têm a conotação de humildade e serviço.
Portanto, liturgia é o serviço comunitário celebrado pelo povo de Deus por
meio da adoração à Trindade e da solidariedade aos da família da fé, bem como a toda a comunidade humana.
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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33
Talvez por essa origem etimológica
dos termos, para muitos, participar
do culto assumiu um caráter de dever, de obrigação, de trabalho (até
hoje, um termo muito comum na língua inglesa para designar o culto é
service, “serviço”).
Por essa razão, é preciso, aqui,
evocar a grande ação da graça de
Deus, que toma a iniciativa de vir até
nós, no culto, como veio ao encontro
da humanidade na pessoa de Jesus
Cristo, e estabelece conosco uma nova aliança, pela qual já não somos
chamados servos, mas amigos:
Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor;
mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos
tenho dado a conhecer. (Jo 15.15)
Assim sendo, o culto é o encontro
maravilhoso do Eterno com o efêmero,
do Infinito com o finito, do Santíssimo
com o pecador redimido.
34
|
LUIZ CARLOS RAMOS
A dimensão do serviço prestado
com muita humildade permanece,
mas não por dever, mas por amor.
Dizendo de outra forma, a liturgia
é um diálogo interativo e afetivo entre Deus e os seres humanos e destes entre si, no contexto celebrativo
da fé, na forma de um serviço comunal — comunitário e comunicacional — porque é prestado por todos e para todos.
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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35
II
Por que fazer culto?
(A liturgia da graça)
P
OR QUE ALGUÉM VAI AO CULTO?
A
resposta a esta pergunta pode
ser reveladora da teologia do
culto.
Há, historicamente, três posturas
clássicas a esse respeito: a primeira,
típica da Igreja Medieval, que diz que
devemos ir ao culto para sermos agraciados por Deus: ênfase na mística
sacramental.
Uma segunda, muito difundida
entre os anabatistas, diz que devemos
ir ao culto para sermos alimentados
pela Palavra de Deus: ênfase na racionalidade dogmática.
Finalmente, a posição de reformadores, como Calvino e Lutero, que
entenderam que a liturgia não deve
ser considerada mero meio para se
obter graça ou favor divinos, nem como ocasião para que o povo de Deus
seja alimentado por sua Palavra, uma
vez essas seriam práticas antropocêntricas — porque têm como último beneficiário o ser humano.
Em contrapartida, os reformadores
entenderam que a liturgia deve ser
teocêntrica, de modo que Deus seja o
sujeito, o centro, o foco do culto. Assim, o fiel deve buscar em primeiro
lugar o Reino de Deus e sua justiça —
isso também no culto. Assim, a graça,
a instrução bem como as demais coisas, serão acrescentados aos fiéis
como decorrência natural. Aqui estão
sendo levadas em consideração as
duas grandes doutrinas da Reforma
Protestante: a Teologia da Graça (especialmente, Lutero) e a da Soberania
de Deus (especialmente, Calvino).
38
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LUIZ CARLOS RAMOS
Na prática, constata-se que há um
caminho de mão dupla: de um lado,
Deus vem ao encontro da comunidade
(e é sempre ele quem toma a iniciativa), e, por outro lado, a comunidade
vai ao encontro de Deus, como resposta em ação de graças à grande
ação da graça de Deus. O culto se
constitui, assim, em ponto de encontro celebrativo entre Deus e a comunidade e desta consigo mesma (cf. Tg
4.8).
No entanto, não se deve perder o
referencial de que Deus é o centro do
culto, é ele que “está sentado no alto
e sublime trono” (cf. Is 61).
A pergunta “por que fazer cultos?”
será melhor respondida e mais detalhadamente explicada ao longo dos
próximos capítulos, à medida que abordarmos outros aspectos essenciais
da liturgia.
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
|
39
III
Onde se faz culto?
(A liturgia do espaço sagrado)
Q
UANTO
AO
ESPAÇO
LITÚRGICO,
desde muito cedo na experiência do povo de Deus, conforme
registrada nas Escrituras, houve a preocupação de delimitações e
estabelecimento de áreas nas quais a
manifestação do Sagrado é experimentada de maneira especialmente
enfática.
A relação do povo de Deus com
tais lugares acompanhou o amadurecimento da sua fé e espiritualidade,
bem como as contingências sóciopolítico-geográficas próprias de cada
período de sua história.
Lugares Sagrados
Primeiramente, na fase em que o
povo de Deus dava seus primeiros
passos na construção de sua identidade religiosa (fé e teologia), sua experiência com as manifestações de
Yaweh (as teofanias) eram eventuais
e esporádicas. Assim, as primeiras
referências são os chamados Lugares
Sagrados, tais como aconteceu com:
Noé, após o Dilúvio (Gn 8.20); Abraão,
nos Carvalhais de Manre (Gn 13.18);
Moisés, no Monte Horebe (Êx 3.5);
Josué, no Monte Ebal (Js 8.30); Davi,
na Eira de Ornã (1Cr 21.26); Esdras e
Neemias, na reconstrução do Templo
(Ed 3.2); mesmo Jesus, no Monte da
Transfiguração (Mc 9.2ss); e Paulo, no
lugar de oração às margens de um rio
(At 16.13 ).
Nas primeiras experiências, o lugar em si passa a ser considerado
sagrado, porque ali algo especial da
parte de Deus aconteceu.
42
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LUIZ CARLOS RAMOS
Na medida em que a identidade religiosa do povo de Deus vai se estabelecendo com mais clareza, começouse a construir ou utilizar-se de locais
conforme as circunstâncias do seu
cotidiano.
Tabernáculo
Quando nômades, habitantes de
tendas, e peregrinos do deserto, construíram o Tabernáculo (Êx 30-40, ver
também cap. 25 [especialmente v. 8 a
27]).
O Tabernáculo deveria ficar no
centro do acampamento israelita, com
a entrada do Santo Lugar voltada para o Oriente e a do compartimento
interno, o Santo dos Santos, voltado
para o Ocidente.
Tratava-se de uma estrutura simples: uma cerca de lona com um pátio, e um espaço reservado menor (o
Santo) para os sacrifícios diários, oferecidos pelos sacerdotes, e um ainda
mais reservado (o Santo dos Santos)
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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43
onde o Sumo-Sacerdote oferecia o
sacrifício anual.
O Tabernáculo abrigava a Arca da
Aliança (cf. Êx 25.1-22), o Menorah
ou castiçal de sete braços (cf. Êx
25.31-39), o Altar de Bronze para os
holocaustos (cf. Êx 27.1-8) e o Altar
de Ouro para o incenso (Êx 30.1-10).
Quando o povo levantava acampamento e partia para outras paragens, o Tabernáculo era desmontado
e carregado pelos levitas que tornavam a montá-lo no novo lugar de destino.
Diferentemente do que se passava
nos Lugares Sagrados, com o Tabernáculo, Yaweh passa a habitar em
uma tenda muito parecida com a casa
do povo que o adorava, acompanhando-o em sua peregrinação, sempre
que este se mudava.
Durante a conquista de Canaã, o
Tabernáculo permaneceu em Gilgal,
depois em Silo, e depois em QuiriateJearim, até Davi. No tempo de Saul,
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LUIZ CARLOS RAMOS
ficou em Nobe (1Sm 21.1). Salomão o
trouxe para Jerusalém.
Segundo o Evangelho de João, Jesus “tabernaculou” com os seres humanos (cf. 1.14).
O Templo
Quando sedentários, já estabelecidos na Terra Prometida, e passam a
habitar em casas de madeira e alvenaria, devidamente decoradas e “apaineladas” (cf. Ag 1.4), os adoradores
de Yaweh decidem construir o Templo
(cf. 1Rs 5.5; 6).
O modelo para o Templo é o que
há de melhor em termos de edificações humanas da época.
O Templo passa a ser o lugar de
referência ao redor do qual gira a vida
do povo de Deus. Em Jerusalém, onde é edificado, está o centro do poder
político, econômico e religioso.
E é o Templo que dá legitimidade a
todo o resto. Para isso, peregrinações
anuais eram promovidas, de modo
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
|
45
que todos tinham o compromisso de
comparecer ao Templo periodicamente para oferecer sacrifício, pagar taxas
e impostos e apresentar seus filhos e
iniciá-los na fé de Yaweh.
O Templo de Jerusalém, edificado
por Salomão, foi destruído pelos Babilônios, cerca de 600 anos antes de
Cristo. Em duas ocasiões, foi reedificado (por Neemias, em 520-516 a.C.,
e por Herodes, entre 19 a.C. e 64
d.C.). Depois de quatro anos de rebelião armada, pela qual os hebreus
pretendiam inutilmente expulsar os
funcionários de César da terra prometida, no ano 70, o general romano
Tito, obedecendo às ordens do seu
pai, Vespasiano, foi enviado à Palestina para restabelecer a ordem imperial. Lá chegando, assaltou Jerusalém e
incendiou e arrasou o Templo, não
sem antes promover-lhe o saque
completo.
Atualmente, no lugar do Templo,
em Jerusalém, está construída uma
Mesquita Islâmica (a Mesquita da
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LUIZ CARLOS RAMOS
Cúpula Dourada). Ainda hoje há facções judaicas que sonham com a reconstrução o Templo de Salomão.
Sinagogas
Quando, na diáspora, o povo de
Deus se viu disperso por “todo o canto”, e longe do Templo. Como fazer
para preservar as tradições religiosas? Como transmiti-las às novas gerações? Como celebrar a fé? Onde ler
as Escrituras? Onde reunir-se para
as orações?
Tais necessidades motivaram a
constituição das sinagogas (do gr.
syn+ago = “reunir-se”, “ir para junto”). Estas eram edificações inspiradas no Templo, em proporções reduzidas, nas quais o povo passou a se
reunir para exercitar a espiritualidade
e alimentar a fé. A Sinagoga fazia as
vezes do Templo, a exceção dos sacrifícios.
Jesus, como judeu que era, freqüentava assiduamente as sinagogas
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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47
(ver Lc 4.16-37). Também os apóstolos e os primeiros cristãos reuniam-se
nas sinagogas para a leitura e explicação das Escrituras e para a oração
(ver At 17.1-2 e 10).
Casas (cenáculo)
Além das sinagogas, os primeiros
cristãos se reuniam nas casas das
pessoas do povo que abriam suas
portas para acolher a comunidade
cristã.
Esse costume foi certamente inspirado e incentivado pelo próprio Jesus, que tinha essa prática de freqüentar as casas de seus amigos e ali
constituir um lugar de oração, comunhão, e instrução (cf. Lc 4.38; 6.29;
10.38ss).
A instituição do sacramento da
Ceia Eucarística se deu na casa de
uma pessoa anônima que, hospitaleiramente, cedeu o Cenáculo (um aposento destinado às refeições familiares), para que Jesus, seus seguidores
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LUIZ CARLOS RAMOS
e seguidoras, bem como, naturalmente, os integrantes da família hospedeira, partilhassem aquela refeição comunal.
Num primeiro momento, na história da Igreja Cristã, a prática normal
era, nos sábados, a comunidade reunir-se na Sinagoga, para a Liturgia da
Palavra e, nos domingos, no Cenáculo, para a Liturgia da Mesa.
Aos poucos, à medida que a identidade entre a religiosidade judaica
oficial e o cristianismo nascente foi se
distinguindo e distanciando, houve
uma ruptura entre a Sinagoga e o
Cenáculo.
Muitos seguidores de Jesus foram,
literalmente, expulsos, excomungados, da Sinagoga (ver Jo 9.34-35).
Excluída, a comunidade cristã passou
a concentrar nas Casas/Cenáculo
tanto a Liturgia da Palavra quanto a
da Mesa.
Enquanto gozavam de certa liberdade, a comunidade cristã se reunia
nas Casas sem maiores problemas.
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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49
Muitas casas abrigavam Igrejas (ver,
por exemplo, Rm 16.5; Fm 1-3). Estas
passaram a ser conhecidas como Casas-igrejas (em gr. oikos-ekklesia; em
latim, domus ecclesie): a comunidade
de fé que se reúne em salas de casas
particulares.
Estima-se que, no final do terceiro
século, havia mais de 40 Casasigrejas somente em Roma.
Para os cristãos, não mais o templo é o lugar da habitação da divindade, mas a própria comunidade dos
fiéis é entendida como o lugar espiritual onde Deus, em Cristo, se faz presente, onde quer que esta esteja reunida.
Praça pública
Grande parte do ministério de Jesus — a partir do seu batismo por
João Batista e depois do seu primeiro
milagre, em Caná da Galiléia (cf. Jo 1
e 2) — se deu em espaços públicos:
nas praias, à beira dos lagos (cf. Mt 5
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LUIZ CARLOS RAMOS
e paralelos); nas planícies e nas colinas (cf. Lc 6.17ss e Mt 5); pelas estradas, nos caminhos e à margem dos
caminhos (cf. Mc 10.17,46; Lc
24.13ss); em jardins e hortos (cf. Lc
22.39 e par.); nas ruas das cidades
(cf. Lc 19); no pátio e nos espaços
comuns do Templo (cf. Lc 19.41-17);
etc.
Também os apóstolos, impulsionados pelo Espírito Santo, ganharam
as ruas para falar das maravilhas de
Deus (cf. At 2); ocuparam os espaços
públicos de debate, tais como as praças e o Areópago (cf. At 17.16ss, especialmente os vs. 17b e 19); evangelizaram nas estradas (cf. At 8.26ss);
em tombadilhos de navios (cf. At 27);
nas margens de rios (cf. At 16.13-15);
etc.
Prisões
Não tardou para que fossem lançados em prisões aqueles e aquelas
que anunciavam o Evangelho de JeSCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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51
sus Cristo com tanta ousadia (ver At
5.18; 12.7). Particularmente em Atos
16.25, encontramos Paulo e Silas
cantando louvores a Deus na prisão.
Em Romanos 16.17, entre outras
passagens bíblicas, Paulo menciona
nominalmente os seus “companheiros
de prisão”. Mesmo preso, Paulo continuou a sua missão apostólica como
pregador do Evangelho, gerando muitos “filhos na fé”, mesmo “na prisão”,
como podemos constatar por sua Epístola a Filemon (esp. o v. 10).
Também João, prisioneiro na Ilha
de Pátmos, exerceu seu ministério
pastoral, redigindo suas cartas às
Igrejas da Ásia Menor e registrando
suas visões e textos litúrgicos de louvor e glorificação ao Senhor Deus Eterno (cf. Ap 1.4 e 2.1ss).
Catacumbas
Quando a perseguição às pessoas
que professavam sua fé em Cristo ganhou proporções mais violentas, atin-
52
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LUIZ CARLOS RAMOS
gindo níveis de crueldade inimagináveis, as comunidades cristãs precisaram de lugares mais seguros e discretos onde pudessem reunir-se “secretamente’’ e em relativa segurança.
Assim as Catacumbas passam a ser
a nova “sede” dos cultos. Os cemitérios
eram lugares temidos, porque, segundo
as superstições pagãs, eram lugares
habitados por espíritos imundos (ver Mc
5), lugar de demônios e assombrações.
Mas, por causa da experiência,
primeiro, da ressurreição de Lázaro e,
depois, da ressurreição de Jesus, para os cristãos, nem a morte nem os
cemitérios eram temidos.
Desde o martírio de Estevão (cf. At
7.54-60), e de Tiago, irmão de João
(cf. At 12.1-2), a comunidade cristã
adotou o costume de honrar a memória dos seus mártires. Daí nasceu o
costume de reunir-se nos lugares onde descansam os restos mortais daqueles e daquelas que deram sua vida
por sua fé em Cristo. Ali, junto às lápides dos mártires, a salvo dos suSCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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persticiosos perseguidores, a Igreja se
reuniu inúmeras vezes para a Liturgia
da Palavra e a Liturgia da Mesa (ver
Ap 7.9-17 [esp. v. 14]).
Basílicas e catedrais
Em meados do século IV, devido a
controvertidos episódios políticos e
místicos do Imperador Constantino, o
cristianismo passou, não só a ser tolerado, mas a ser, enfaticamente, incentivado com o respaldo do Estado.
Esse período recebeu a designação de
Paz Constantiniana.
Os pequenos grupos marginais de
cristãos vão, rapidamente, se tornando grandes assembléias. Isso exigiu
uma reestruturação do espaço celebrativo. As casas já não davam conta
de abrigar às grandes massas que
afluíam para as cerimônias religiosas.
O próprio Constantino designou,
então, seus arquitetos para a edificação de novos espaços destinados aos
cultos cristãos. Ora, a experiência
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LUIZ CARLOS RAMOS
desses profissionais quanto à construção de amplos edifícios, estava
consolidada pelas chamadas Basílicas. Estas eram, a princípio, espaços
forenses onde se reunia o Tribunal do
Júri da época, para julgar processos
judiciais.
Tais edifícios têm o santuário, geralmente com abside (nicho ou recinto semicircular ou poligonal, de teto
abobodado, geralmente situado nos
fundos ou na extremidade da construção ou de parte dela) para a cátedra (antes destinada para uso do magistrado, agora reservado para quem
preside a liturgia), um ambão ou púlpito (antiga tribuna), o altar (mesa da
comunhão), e um nártex (vestíbulo
que ficava à entrada da basílica paleocristã, destinado aos catecúmenos,
para que pudessem assistir aos rituais, sem deles participar diretamente,
por ainda não serem batizados [continuou em uso nas igrejas da Idade
Média e, mesmo após perder seu sentido, nos períodos posteriores, perSCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
|
55
maneceu demarcado pelo espaço entre a portada e o pára-vento]).
Nos séculos subseqüentes, as basílicas apresentaram formas variadas
(quadrada, redonda, em forma de
cruz latina, de cruz grega ou simplesmente de aula [pátio ou grande
vestíbulo], retangular).
Os estilos variaram, com as culturas dos respectivos séculos: estilo
românico, gótico, clássico renascentista, barroco, neo-clássico, e contemporâneo.
O termo “Catedral” é relativo a “cátedra”, e designa a igreja principal de
uma diocese, onde se encontra o trono episcopal; sé, matriz.
A linguagem espacial e a teologia
dos edifícios, mobílias e utensílios
religiosos
No culto, antes mesmo que os celebrantes pronunciem qualquer palavra, o Evangelho já começa a ser pregado e conceitos teológicos e ideológi-
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LUIZ CARLOS RAMOS
cos já estão sendo transmitidos pela
linguagem espacial da arquitetura do
edifício, pela disposição e tipos da
mobília, pela estética e função dos
utensílios.
Pode-se identificar, para fins didáticos, três concepções espaciais típicas: O conceito medieval, que valoriza
o altar, pois sua teologia reforça o
aspecto místico e espiritual da participação no mistério eucarístico. O
conceito cartesiano, próprio do período da pós-Reforma do séc. XVI, que
coloca em evidência o púlpito, que
reforça o aspecto intelectual, conceitual e didático da fé. E o conceito midiático, comum nos dias atuais, que
valoriza o palco, isto é, o aspecto espetacular do evento celebrativo, cujo
centro passa a ser a performance dos
celebrantes como comunicadoresatores e dos instrumentistas e cantores.
Deve-se, portanto, ter um espírito
crítico em relação ao trato que se dá
ao espaço celebrativo, pois aquilo que
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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este comunica pode, eloqüentemente,
estar em flagrante contradição com
aquilo que os/as pregadores/as anunciam dos púlpitos.
As edificações religiosas devem ser
adequadas à celebração das ações
litúrgicas e devem facilitar a participação ativa dos fiéis.
Cada elemento arquitetônico, ou
da mobília ou utensílio empregado no
culto, tem implicações teológicolitúrgicas que expressam seu (1) aspecto celebrativo, pois o culto é fé e
festa motivada pela Graça (cf. Lc
15.7,10,23 e 32); (2) aspecto educativo, pois há uma teologia inerente às
formas dos espaços retangulares,
quadrados, circulares e em leque —
uns mais inclusivos outros menos; (3)
aspecto encarnacional, pois o espaço
explicita o nível de inculturação ou
encarnação do Evangelho pregado em
determinada cultura, como expressão
material da Palavra, à luz da encarnação de Deus em Cristo (Jo 1.14); (4)
aspecto espiritual, pois aponta para a
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LUIZ CARLOS RAMOS
transcendência por meio da transparência perceptível na concepção desse
espaço: simplicidade nobre, familiaridade, beleza, propriedade, qualidade,
autenticidade ou integridade dos elementos que compõem o ambiente celebrativo; (5) aspecto estético-poético
do espaço que, intencionalmente, integra a comunidade de fiéis (corpoalma-e-espírito), por meio de cuidadosa ambientação e decoração que
possibilitem a inclusão dos sentidos,
sentimentos, emoções e razões.
Isso implica em um cuidado teológico-litúrgico-estético do lugar ou espaço onde esse povo se reúne. Por
isso, são considerados imprescindíveis, nos templos cristãos, como estrutura mínima fundamental, o santuário, a nave e o átrio.
O Santuário é o espaço central
(não fisicamente, mas no sentido de
mais importante) do edifício. Tudo deve estar orientado para o espaço reservado para o Memorial Pascal, lugar
da renovação da aliança: o altar, que
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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representa a mesa do sacrifício (AT), a
mesa eucarística (NT) e as lápides dos
fiéis que deram sua vida por amor a
Cristo, os mártires; para a pia ou fonte batismal, que, juntamente com a
mesa do altar, representam os dois
sacramentos (Ceia e Batismo); para o
ambão ou púlpito, que é o lugar de
onde o Evangelho é pregado e a Palavra de Deus é proclamada; e para a
sédia ou cátedra, que é o lugar onde
se senta o presidente da celebração.
A Nave (do latim navis, que significa “navio”, pela lembrança do formato das vigas que suportam o teto de
alguns templos se parecerem com o
costado de um navio) é o espaço da
assembléia, que são os membros do
corpo místico de Cristo. É o lugar da
atenção, do alerta, da vigilância. É o
lugar dos batizados e, por esta razão,
o batistério (ou pia batismal) pode estar colocado à entrada da nave, indicando que participam da celebração
cristã aquelas pessoas que receberam
o Sacramento do Batismo e se vesti60
|
LUIZ CARLOS RAMOS
ram das “vestes brancas” para apresentar-se diante do Trono do Cordeiro.
E o Átrio (do latim atriu[m]) é o
espaço de transição. É o espaço para
a festa do encontro, onde as pessoas
se reúnem antes e depois da celebração. Ao chegar para o culto, a pessoa
se prepara para entrar no santuário,
fica em silêncio e passa pela porta
que é Cristo (não se pode chegar no
lugar santo a não ser por intermédio
de Cristo — Jo 10.7,9).
Os vários objetos que são empregados no culto devem ser cuidadosamente escolhidos e sabiamente empregados, quer sejam objetos simbólicos, tais como o pão e o vinho e os
recipientes que os contêm, a Bíblia, a
cruz; quer sejam objetos festivos, como são os candelabros, as flores e os
vasos, os estandartes, os ornamentos
e os vitrais; e mesmo os objetos funcionais, entre eles, o suporte para a
Bíblia, as toalhas, os sistemas acústi-
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
|
61
cos, climatizadores, de iluminação,
etc.
A Igreja: em espírito e em verdade
Teologicamente, ou espiritualmente falando, à luz dos ensinamentos e
da prática de Jesus (cf. Jo 4.20-23),
deve-se compreender que o “espaço
sagrado”, por excelência, não depende
da forma arquitetônica, nem da topografia, mas da atitude dos fiéis que
devem adorar o Pai “em espírito e em
verdade”.
Essa compreensão — de adoradores que adoram em espírito e em verdade —, juntamente com o dito de
Jesus de que “onde estiverem dois ou
três reunidos em meu nome, ali estou
no meio deles” (Mt 18.20), fundamentou a eclesiologia cristã: a “igreja” não
é um edifício, mas o povo reunido em
nome de Jesus, o Cristo.
Os modelos para os edifícios cristãos, portanto, não devem ser os suntuosos “templos” do paganismo mo-
62
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LUIZ CARLOS RAMOS
derno, tais como os bancos, shopping
centers, edifícios públicos e casas de
espetáculo. Antes, sua forma deve ser
determinada pela teologia do culto,
isto é, a liturgia. Suas linhas devem
ser sóbrias, austeras e singelas — o
que não implica em comprometer a
estética. Linhas que privilegiem o sentimento de comunhão da assembléia
com Deus e de solidariedade para
com o próximo; onde Deus possa ser
adorado em espírito e em verdade (Jo
4.24), com decência e com ordem
(1Co 14.40), com o espírito e com o
entendimento (1Co 14.15), onde possamos apresentar os nossos próprios
corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus em um culto racional,
alegre, sensível e sincero (cf. Rm 12.1).
O Ministério da Ambientação, ou
da decoração, ou da ornamentação, é,
em primeira instância, um ministério
kerygmático, de anúncio do Evangelho e da proclamação da Palavra.
Aquelas pessoas que abraçam esse
ministério devem estar dispostas a
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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63
ambientar e decorar com arte (estética
e qualidade), o que pressupõe dom e
talento; devem também ambientar e
decorar com inteligência (praticidade e
significado), o que requer esforço e
estudo; e devem ainda ambientar e
decorar com o coração (afetividade e
espiritualidade), para o que é preciso
sensibilidade e fé.
64
|
LUIZ CARLOS RAMOS
IV
Quem participa do culto?
(A liturgia do povo de Deus)
D
e acordo com a tradição bíblica, Deus é a personagem
central do culto, pois é ele
quem está assentado no alto
e sublime trono (cf. Is 6.1); é glorificado por seres celestiais (cf. Is 6.2); é
servido por ministros ou sacerdotes/liturgos/ celebrantes (cf. 103. 21),
é cultuado pela comunidade de fiéis,
a congregação ou assembléia (cf. Sl
5.8; 22.22-23, 25-26); até mesmo por
todos os que morreram por causa do
seu testemunho, os mártires ou testemunhas, se acham constantemente
diante do trono, glorificando o Altís-
simo (cf. Ap 7.9-15); mesmo os pagãos ou gentios, de todas as nações,
estão convidados para o culto (cf. Sl
117); e, mais ainda, de acordo com os
salmistas, todo ser que respira deve
louvar a Deus (cf. Sl 150.6); e mesmo
os seres inanimados, tais como os
corpos celestes, de alguma forma,
proclamam a glória de Deus, e anunciam as obras das suas mãos (cf. Sl
19.1).
Deus é quem toma a iniciativa e
vem ao nosso encontro, no culto,
dando início ao diálogo litúrgico e celebrativo da fé. Pouco sabemos sobre
a participação dos seres celestiais no
culto, bem como a respeito das testemunhas que se acham constantemente diante do trono louvando a
Deus. Por outro lado, podemos nos
aplicar a compreender a nossa participação no culto, como comunidade
de fiéis.
A congregação de fiéis é formada
por pessoas de todas as camadas sociais, de todas as culturas e de todas
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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67
as idades. Isso significa que, do culto,
tomam parte e têm lugar: pessoas das
classes empobrecidas e das classes
abastadas; pessoas cultas ou iletradas; e pessoas de todas as idades — a
Igreja talvez seja o único espaço institucional com tamanha abrangência
inclusiva.
Teoricamente, todos deveriam ter
sua participação no culto garantida,
representada ou contemplada: na estrutura da liturgia que se celebra, no
repertório dos cânticos que se entoam, no tipo de linguagem que se adota, etc.
Ou a Igreja é de todos ou não é Igreja! Igreja só para jovens não é Igreja, é point; igreja só para idosos não é
Igreja, é clube de saudosistas.
Quando se diz que têm lugar no
culto pessoas de todas as idades, estamos dizendo que a liturgia deve ser
concebida e preparada para incluir e
contemplar bebês, crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos.
68
|
LUIZ CARLOS RAMOS
Embora isso pareça relativamente
óbvio, ao observarmos o que acontece
na prática de muitas igrejas, essa inclusão não acontece.
Conquanto se possa constatar um
evidente conflito de gerações, entre
jovens e idosos, na disputa pela hegemonia litúrgica, as maiores vítimas
dessas disputas são as crianças.
De uma maneira ou de outra, jovens, adultos e idosos têm os seus
meios para contestar e protestar. As
crianças, entretanto, não têm voz
nem vez.
Não obstante, dar destaque para a
participação da criança no culto não é
apenas uma questão de fazer uma
concessão e dar-lhes, provisoriamente, vez e voz. A criança trazida para o
centro do culto, como se pretende
demonstrar a seguir, é a própria razão de ser da liturgia.
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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69
O lugar da criança no culto cristão
A participação da criança, no culto, merece destaque por uma razão
histórica e bíblica. Como sabemos, o
centro da liturgia cristã é a Páscoa
que é também o centro da liturgia
judaica. Ora, nas instruções dadas
por ocasião da instituição da Páscoa
judaica, a criança desempenha um
papel central, e é ela que dá início às
solenidades.
Vejamos alguns dos relatos bíblicos
da instituição da celebração da Páscoa:
Êxodo 12.24-27: “24 Guardai, pois, isto por estatuto para vós outros e para
vossos filhos [grifo nosso], para sempre.
25 E, uma vez dentro na terra que o
SENHOR vos dará, como tem dito, observai este rito. 26 Quando vossos filhos
[grifo nosso] vos perguntarem: Que rito
é este? 27 Respondereis: É o sacrifício
da Páscoa ao SENHOR, que passou por
cima das casas dos filhos de Israel no
Egito, quando feriu os egípcios e livrou
as nossas casas. Então, o povo se inclinou e adorou.”
70
|
LUIZ CARLOS RAMOS
Êxodo 13.14: “Quando teu filho [grifo
nosso] amanhã te perguntar: Que é isso? Responder-lhe-ás: O SENHOR com
mão forte nos tirou da casa da servidão.”
Deuteronômio 6.20-21: Quando teu filho [grifo nosso], no futuro, te perguntar, dizendo: Que significam os testemunhos, e estatutos, e juízos que o SENHOR, nosso Deus, vos ordenou? 21 Então, dirás a teu filho [grifo nosso]: Éramos servos de Faraó, no Egito; porém o
SENHOR de lá nos tirou com poderosa
mão.
À luz dessas referências, podemos
nos perguntar pelo lugar que as crianças devem ter nos nossos cultos.
As grandes experiências de fé do
povo de Deus eram celebradas ciclicamente, justamente, pensando na transmissão dessa espiritualidade para as
novas gerações (ver Lc 2.41-42).
As crianças eram, assim, o elemento disparador de tais liturgias.
Tais cerimoniais eram concebidas
especialmente para responder aos
insistentes por quês? das crianças:
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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71
“quando vossos filhos vos perguntarem: que rito é este? Responder-lhesás...” (Êx 12.26 e par.).
As crianças eram, portanto, o ponto
de partida e, em grande parte, a razão
de ser da liturgia. É como se o culto
fosse um veículo em cujo motor precisasse ser dada a partida por um sistema eficiente de ignição, para então empreender efetivamente sua viagem.
Ao que parece, não faria muito
sentido fazer essas festas sem a presença das crianças. Sim, é verdade
que os adultos sempre se beneficiam
muito de tais festas, mas para o adulto os ritos são sempre repetição, e
tem função de reforço conceitual e
prático, mas para as crianças é descoberta e novidade deslumbrante de
um novo universo espiritual.
Assim sendo, se alguém, depois de
Deus, tiver que ser privilegiado no
culto cristão, esse alguém são as crianças.
72
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LUIZ CARLOS RAMOS
Culto para crianças
ou culto com as crianças?
Qual seria, então, a melhor alternativa em relação à questão criançae-culto? As alternativas mais freqüentemente empregadas pelas igrejas
protestantes são: (1) Modelo do culto
infantil que consiste em tirar a criança do culto e fazer um outro (infantilizado) à parte para elas; (2) o modelo
híbrido que tolera as crianças no culto parcialmente, mas somente até o
momento da prédica, quando, então,
elas são retiradas do templo para um
lugar onde terão atividades “diferenciadas” (a palavra é mais bonita do
que o resultado, pois amiúde o que se
verifica é que tais atividades se resumem a entretenimento sem projeto
didático-pedagógico, supervisionadas
por pessoas que não têm formação
para a educação infantil); (3) e o modelo deixa como está pra ver como fica, que simplesmente ignora a presença da criança no culto, cuja liturSCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
|
73
gia prossegue indiferente à presença
das crianças.
O terceiro modelo, do deixa como
está, embora talvez seja o mais recorrente, deveria estar fora de cogitação.
Quanto aos outros dois modelos,
por mais bem intencionados que sejam tanto o projeto do culto infantil
quanto o projeto híbrido, ambos também acabam se tornando antipedagógicos, pois excluem a criança do culto, total ou parcialmente.
Ora, se a criança é retirada do
templo quando pequena, não há como
esperarmos que, quando for adolescente (ou pré-adolescente), ela queira
permanecer no culto. Pois tudo o que
lhe foi ensinado, ainda que não intencionalmente, todas as vezes que foi
retirada do culto, é que ela não é
bem-vinda ali.
As experiências inclusivas são raras. Isso é em parte compreensível,
mas não justificável. Compreensível,
porque exige esforço, preocupação e
dá trabalho. É injustificável, porque
74
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LUIZ CARLOS RAMOS
não há nada mais importante no Reino de Deus do que as crianças: afinal,
foi isso que aprendemos (ou deveríamos ter aprendido) de Jesus em Mateus 18.1-2 e em Lucas 9.47.
Como, afinal, a criança pode ser
incluída plenamente no culto? Disso
trataremos a seguir.
O que as crianças podem
e não podem fazer no culto?
Eis uma boa questão para a Igreja
se perguntar: afinal o que as crianças
podem e o que não podem no culto?
Talvez o leitor ou leitora desta reflexão se surpreenda com a resposta
enfática que aqui se dará, afirmando
que não há nada, liturgicamente falando, que as crianças não possam
fazer no culto cristão – nada que um
adulto não faça.
O que acontece, amiúde, nos nossos cultos? Em geral, oramos, cantamos, lemos as Escrituras Sagradas,
testemunhamos, proclamamos o ESCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
|
75
vangelho, comungamos, ofertamos,
nos comprometemos assumindo compromissos, etc.
Ora, quais desses atos litúrgicos
estão fora das possibilidades das crianças?
As crianças podem aprender a orar
antes mesmo de aprender a andar –
então, por que nunca convidamos
uma criança para fazer uma oração
nos cultos de domingo?
E quanto a cantar, por que também não cantamos com elas, uma vez
que elas sempre cantam conosco?
pois todos, mesmo os bebês, adoram
(inclusive no sentido literal do termo)
cantar (afinal, deles nasce o perfeito
louvor, dizem as Escrituras Sagradas
em Mt 21.16). Se elas cantam nosso
repertório, porque nós não cantamos
as suas canções?
Ler a Bíblia: desde que alfabetizada, o que acontece cada vez mais cedo, uma criança com sete, ou seis,
talvez cinco anos, pode fazer leituras,
da Bíblia ou de outros textos litúrgi76
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LUIZ CARLOS RAMOS
cos, tal como qualquer adulto – não
seria fantástico se todo culto tivesse a
participação de crianças na direção
de certas leituras?
Quanto aos testemunhos e à proclamação, também aí as crianças podem ser sujeitos.
Elas podem, inclusive, participar
da prédica, encenando passagens bíblicas, interpretando ilustrações (praticamente todo sermão recorre às ilustrações para aclarar pontos obscuros ou conceitos abstratos). O mero
fato de o pregador, ou pregadora, ter
em mente que seu público também é
formado por crianças, já pode servir
como estímulo para a busca de uma
linguagem mais expressiva, o uso de
vocabulário mais substantivo, objetivo
e concreto; para o emprego de imagens visuais e outros recursos sensíveis (ao tato, ao paladar, ao olfato,
por exemplo). Fazendo isso, todos se
beneficiariam, pois quando usamos
linguagem abstrata, somente os adultos (e nem mesmo todos eles) conseSCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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77
guem acompanhar, mas a linguagem
objetiva e os substantivos concretos,
todos, crianças e adultos, podem e
gostam de acompanhar.
E, no momento da dedicação, intercessão e envio, as crianças também
podem assumir compromissos como
sujeitos na comunidade de fé e na
construção do Reino de Deus.
Quanto aos bebês, quando presentes ao culto, podem não entender
conceitualmente o que está se passando, mas afetivamente eles estão
“aprendendo”, desde cedo, que eles
são bem-vindos, que são amados e
que ali é seu lugar: no meio da comunidade de fé.
Preparação da liturgia
de um culto inclusivo
Preparar a liturgia de um culto inclusivo, para todos, no qual todos são
considerados, representados, e cuja
participação está garantida, não é
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LUIZ CARLOS RAMOS
assim algo tão difícil ou diferente do
convencional.
Basta que, na hora em que estivermos escolhendo o repertório dos hinos,
das leituras, dos gestos e atos litúrgicos, lembrar de incluir as crianças,
assim como fazemos naturalmente com
os jovens e os adultos. Por exemplo,
prever músicas próprias para as crianças (ora, se elas podem cantar nossos
hinos, porque não podemos cantar os
delas?). E, na hora de distribuir as tarefas, na condução do culto, lembrarmo-nos de atribuir funções às crianças, que pode ser desde a direção de
orações e leituras, até a cooperação em
atos como o recolhimento das ofertas, a
distribuição da Ceia, e encenações e
performances várias — a depender unicamente da criatividade, da boa vontade e do bom senso dos responsáveis
pelo preparo e direção da liturgia dos
cultos ordinários das nossas igrejas.
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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79
Portanto...
Para finalizar estas considerações
sobre o culto cristão inclusivo, podemos sintetizar algumas das principais
conclusões a que chegamos, a partir
do exposto acima:
1. Deus é sempre o principal sujeito
do culto Cristão que, mediante o
convite da sua graça, nos reúne
como seu povo num encontro celebrativo dialógico e interativo.
2. O povo é a congregação de fiéis
que, em resposta ao convite da
graça divina, presta-lhe seu
serviço no culto comunitário.
3. A congregação de fiéis é formada por todas as pessoas da
comunidade: bebês, crianças,
adolescentes, jovens, adultos e
idosos.
4. As pessoas responsáveis pela
preparação e pela direção da liturgia devem levar em conta a
totalidade do povo de Deus, o
que implica em envolver, con-
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LUIZ CARLOS RAMOS
templar, incluir a todos nos vários atos litúrgicos.
5. Dentre todos os fiéis, são as
crianças as que merecem maior
cuidado e atenção, pois, à luz
da tradição bíblica, são elas
que deflagram o culto com suas
perguntas fundamentais, às
quais a comunidade celebrante
oferece sua resposta de fé, no
exercício de uma espiritualidade que é, assim, transmitida de
geração em geração.
6. Não há nada que um adulto faça no culto que não possa ser
feito pelas crianças. Portanto,
elas não devem ser meras espectadoras do culto, mas sujeitos ativos da dinâmica litúrgica.
Colocar isso em prática... Eis aí
um belo desafio!
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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81
V
Quando fazer culto?
(A liturgia do tempo)
A
e
no espaço. O tempo da liturgia é a História da Salvação
contada ciclicamente durante o Ano Cristão, que tem a Páscoa como
centro irradiador da mensagem salvífica.
Ao contar a história de Jesus (a
expectativa de sua vinda, sua vida e
ensinamentos, sua paixão, morte e
ressurreição) e sua presença espiritual na Igreja, a comunidade de fé relembra, atualiza e celebra a sua própria salvação.
LITURGIA SE DÁ NO TEMPO
A liturgia é, a um só tempo, memória, atualização e esperança salvífica.
A celebração da História da Salvação
Para celebrar a sua salvação em
Cristo, a Igreja, observa o Calendário
Cristão ou Calendário Litúrgico, que
se estrutura em dois ciclos festivos e
dois tempos ordinários: o Ciclo do Natal, formado pelo Advento, Natal e Epifania, que é seguido por um primeiro Tempo Comum (após Epifania); e o
Ciclo da Páscoa, que compreende a
Quaresma (que dura 40 dias), a Semana Santa, o Tempo Pascal (que se
estende por 50 dias e termina com o
dia de Pentecostes), seguido de um
segundo Tempo Comum (também
chamado “após Pentecostes” ou Tempo do Reino).
Essa história é constantemente
atualizada em ocasiões que se revestem de especial sentido, à luz do Evangelho: o Domingo (dia da Ressurreição), a Quarta (acordo de Judas
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
|
83
para a traição), Quinta (lava-pés e
instituição da Ceia) e Sexta-feiras
(julgamento, crucificação, morte e
sepultamento de Jesus), e o Sábado
(Jesus no sepulcro); bem como as Horas de Oração — Matinas-Laudes
(nascer do sol/ressurreição), Tércias
(julgamento), Média (crucificação),
Noas (morte), Vésperas (sepultamento), Completas e as Vigílias Noturnas
(Getsêmani).
No próprio culto, a igreja revive a
História da Salvação: num primeiro
momento adora o Pai (primeira pessoa da Trindade), recordando o Criador que é Santo e perfeito; diante da
santidade do Pai, a congregação reconhece suas imperfeições e pecados,
por isso recorre ao Filho, segunda
pessoa da Trindade, que é o “Cordeiro
de Deus que tira o pecado do mundo”;
agraciada com o perdão, a congregação pode agora ser instruída na sua
fé, porque o Filho também é o “Verbo
que se fez carne e habitou entre nós
cheio de graça e de verdade”; essa
84
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LUIZ CARLOS RAMOS
instrução, entretanto, para que se
efetive na vida da comunidade, deve
ser inspirada e iluminada pela ação
do Espírito Santo, a terceira pessoa
da Trindade, que é também quem motiva e envia a Igreja em sua missão,
que é a de reconciliar a humanidade
com Deus, o Pai, retomando, assim, o
ciclo teológico-litúrgico.
A História da Salvação é, assim,
celebrada no tempo cósmico, no ano
litúrgico, nas horas do dia e naquela
“hora única” que é o culto.
Também a História da Humanidade é celebrada na liturgia da comunidade de fé: datas cívicas, nacionais e
internacionais, são motivo de referência e intercessão no culto.
E, finalmente, a História das Pessoas (nascimento, puberdade, casamento, procriação, envelhecimento e
morte) também são motivos que inspiram a prática celebrativa, porque
relacionam a nossa própria história
de vida, e nos incluem, na grande his-
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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85
tória da salvação, mediante a graça
de Deus.
O Calendário Litúrgico
Todo o Calendário Litúrgico se desenvolve a partir da Páscoa. Esta é
comemorada no primeiro domingo
depois da primeira lua cheia do outono, no hemisfério Sul (e na primavera,
no Norte). Tradicionalmente era a ocasião em que os catecúmenos eram
batizados e recebidos como membros
da comunidade cristã — geralmente
depois de ter passado três anos se
preparando para isso.
Desde muito cedo, na História da
Igreja, adotou-se o costume de observar um tempo de jejum e oração, primeiramente no dia anterior ao Domingo da Páscoa, depois, durante toda a Semana Santa. Por fim, esse período se ampliou para quarenta dias,
inspirado por várias a narrativas bíblicas significativos: a tentação de
Jesus durante quarenta dias e qua-
86
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LUIZ CARLOS RAMOS
renta noites no deserto, bem como
nas demais associações com o número quatro: quarenta dias do dilúvio,
quatrocentos anos de escravidão no
Egito, quarenta anos de peregrinação
pelo deserto, anúncio de que em quarenta dias Nínive seria subvertida, e
sua súbita conversão, etc.
A Festa do Natal é mais tardia, e
se estabelece depois do século IV (e o
Advento, depois do VI). Trata-se da
cristianização da festa pagã que celebrava o “começo do fim” do inverno,
isto é, o solstício de inverno, no hemisfério Norte. Para os cristãos, Jesus é o Sol da Justiça que nasceu em
Belém; ele é o Sol que é maior que o
astro adorado pelos pagãos, este sol
não existiria, não fosse aquEle.
Da mesma forma que sucedeu
com a Páscoa, a comemoração do
nascimento de Jesus, no Natal, como
que exigia um tempo de preparação.
Novamente o número quatro é evocado. Desta vez, reserva-se quatro semanas (domingos), para que as coSCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
|
87
munidades cristãs se preparem para
o grande evento da encarnação do
Verbo. Nesse período, a igreja recorda
as promessas feitas aos pais na fé a
respeito da vinda do Messias, o Salvador.
Ciclo do Natal
O Ciclo do Natal corresponde a
quatro tempos litúrgicos do calendário cristão, a saber, Advento, Natal,
Epifania e Batismo do Senhor. Este
ciclo tem início quatro domingos antes do Natal e se estende até o Batismo do Senhor.
O Advento é o tempo que marca o
início do calendário litúrgico cristão.
Sua origem é documentada a partir
do século IV d.C. Semelhante à preparação da Páscoa, expiação de Cristo, o Advento surge como preparação
para o nascimento de Jesus, o Natal.
Advento, do latim adventus, significa
“vinda”, “espera”.
88
|
LUIZ CARLOS RAMOS
Trata-se de uma celebração onde o
foco é a expectativa da vinda do Messias, o Cristo prometido. Nesse período celebra-se a espera do Messias, e
pode ser dividido em duas partes: os
dois primeiros domingos enfatizam o
Advento Escatológico, o terceiro e o
quarto domingos a Preparação do Natal de Cristo.
Destarte, o Advento tem a dimensão da expectativa da segunda vinda
de Cristo, bem como, a expectativa da
chegada do Messias que concretiza o
Reino, o “já” e o “ainda não” – que
implica viver a espera do cumprimento das promessas e renovar a esperança no Reino que virá.
A espiritualidade do Advento é
marcada pela esperança e o aguardo
do Messias prometido; a fé na concretização da promessa; o amor que se
demonstra com a chegada do Messias
e a paz por ele anunciada e plenificada.
O segundo tempo litúrgico desse
ciclo é o Natal. Esta celebração teve
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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89
sua origem nos meados do século IV
d.C., entretanto sua aceitação como
festa cristã só ocorreu no século VI. O
Natal surgiu com a finalidade de afastar os fiéis da festa pagã do natale
solis invictus (“deus sol invencível”), e
passou a significar a chegada do Messias, o “sol da justiça” (cf. Ml 4.2) já
anunciado e aguardado no Advento.
Natal, na acepção da palavra, significa “nascimento”, entretanto, para
as/os cristãs/ãos a partir do século
IV d.C., este significado é ainda mais
profundo, pois com o nascimento de
Cristo celebra-se “o Verbo que se fez
carne e habitou entre nós”. O Deus
infinitamente rico se faz servo e habita entre os despossuídos da terra. É
este Verbo que atrai para si toda a
criação a fim de reintegrá-la ao projeto salvífico de Deus.
A espiritualidade desse período
enfatiza a humanidade de Cristo e a
salvação que nele é absoluta.
O terceiro tempo desse ciclo é a
Epifania, que surgiu no Oriente como
90
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LUIZ CARLOS RAMOS
festa da manifestação do Cristo encarnado. Somente, a partir do século
IV d.C., passou para o Ocidente a fim
de rememorar a visita dos reis magos
ao Messias que havia chegado.
Epifania, do grego ephifaneia, significa “manifestação”, “aparição”. Antes de tornar-se um termo apropriado
pelo cristianismo, significava a chegada de um rei ou imperador. A partir
de Cristo, tem a conotação de “manifestação do divino ao mundo”, que no
Primeiro Testamento era expressa
pelo termo “teofania”.
Esse tempo celebra a manifestação
de Cristo aos seres humanos, no
momento em que os reis do Oriente
seguiram a estrela em busca daquele
que viria a ser o Salvador por excelência.
A Epifania é para o Natal o que o
Pentecostes é para a Páscoa, isto é,
desenvolvimento e permanência do
ato de Cristo em favor da humanidade.
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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91
A espiritualidade deste período é
caracterizada pela manifestação e aparição de Cristo ao mundo. É o Cristo prometido que se torna uma realidade na vida de mulheres e homens
que procuram a paz, a justiça e o amor.
O Batismo do Senhor é celebrado
no primeiro domingo após a Epifania,
e representa o início da missão de
Jesus no mundo. Este tempo é parte
da manifestação de Jesus aos seres
humanos, por isso trata-se de uma
continuidade da Epifania. Diferenciando-se pelo fato de que na Epifania é
a humanidade (representada pelos
magos) que vai a Cristo, ao passo que
com o Batismo do Senhor é Deus (por
meio de Jesus Cristo) que vem até o
ser humano, a fim de cumprir sua
missão.
Por isso, a espiritualidade desse
dia é marcada pela missão iniciada
por Jesus em prol dos menos favorecidos e injustiçados.
92
|
LUIZ CARLOS RAMOS
Com o Batismo do Senhor termina
o Ciclo do Natal, dando início ao Tempo Comum, ou Tempo após Epifania.
O Tempo Comum
(após Epifania e após Pentecostes)
Além dos dois ciclos festivos, o “Ano do Senhor”, também contempla 33
ou 34 semanas, situadas entre o Natal e a Páscoa. Esse período recebeu a
designação Tempo Comum por contrapor-se à época festiva do Ano Cristão.
O fato de haver um Tempo Comum
ressalta o significado de que Deus
não é Senhor somente das coisas extraordinárias, mas também o é do
cotidiano. Enfatiza a presença constante e amorosa do Pai na caminhada
do povo rumo à plenitude do Reino. A
cada celebração, antecipamos a eterna liturgia do céu, para o qual nos
preparamos, dia-a-dia, tanto no tempo festivo como no tempo comum.
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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93
Ao longo da história, várias iniciativas foram tomadas no sentido de
oferecer alternativas à liturgia do
tempo não festivo. Para exemplificar
com algumas mais recentes e próximas, citamos a formalização, na década de 30 nos EUA, de uma proposta que sugeria a criação de um novo
período, o Kingdomtide (Ciclo ou
Tempo do Reino). Essa proposta tem
de positivo o fato de enfatizar menos o
aspecto eclesiástico-institucional e
mais o teológico-missionário do período. Entretanto, a postura mais amplamente adotada pelos protestantes
do mundo todo, foi a de designar as
duas partes do Tempo Comum como
sendo “Tempo após Epifania” e “Tempo após Pentecostes”, respectivamente. Na Igreja Metodista no Brasil, o
rev. Messias Valverde propôs uma
organização do Ano Cristão dividido
em Estações Litúrgicas, das quais
destacamos a Estação da Criação,
com uma preocupação ecológica e
escatológica.
94
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LUIZ CARLOS RAMOS
A primeira parte do Tempo Comum tem início na segunda-feira após a comemoração do Batismo do
Senhor e vai até a véspera da QuartaFeira de Cinzas, quando começa a
Quaresma (Ciclo da Páscoa).
Sua espiritualidade enfatiza o anúncio do Reino de Deus e visa à esperança e à pregação da Palavra.
A segunda parte do Tempo Comum começa na segunda-feira após
Pentecostes e dura até a véspera do
Primeiro Domingo do Advento, quando tem início o Ciclo do Natal.
Sua espiritualidade comemora o
próprio ministério de Cristo em sua
plenitude, principalmente aos domingos e enfatiza a vivência do Reino de
Deus e a compreensão de que os/as
cristãos/ãs, são o sinal desse Reino.
Se na primeira parte do Tempo Comum a ênfase é no anúncio, na segunda é a concretização do Reino de
Deus.
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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95
Ciclo Pascal
O Ciclo Pascal — que compreende
a Quaresma, a Semana Santa, o
Tempo Pascal, e encerra-se com o
Pentecostes — formou-se a partir de
um processo de reflexão e sistematização do cristianismo que vai do primeiro ao quarto século da era Cristã.
A partir deste ciclo se constituiu todo
o calendário litúrgico.
Nas comunidades primitivas, era
comum a reunião no primeiro dia de
cada semana na qual celebrava-se a
memória de Jesus. A origem do culto
cristão está em torno dessa “Páscoa
Semanal”, que ocorria no chamado
“Dia do Senhor”.
Em boa parte por influência do judaísmo cristão, desenvolveu-se uma
celebração anual da Páscoa como um
“grande dia do Senhor”, cuja festa se
prolongava por cinqüenta dias, sendo
o último, o dia de chegada do Espírito, o Pentecostes Cristão, isso já no
século II.
96
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LUIZ CARLOS RAMOS
No século IV, desenvolveu-se a
tradição de reviver e refletir de um
modo mais sistematizado, os momentos da paixão, isso deu origem às celebrações da Semana Santa. Desde o
século III as vésperas da Páscoa já
eram dias de reflexão. Os catecúmenos que por dois anos vinham sendo
preparados, agora eram acompanhados por toda a comunidade. Inspirando-se nos quarenta dias de preparo
de Jesus para seu ministério, nasceu
o período da quaresma. Assim, em
torno da celebração da morte e ressurreição de Jesus, desenvolveu-se
todo o Ciclo Pascal do Calendário Litúrgico Cristão, marcado pela penitência e confissão, mas também pela
alegria e exultação do crucificado e
ressuscitado.
A Quaresma é o período no qual
se enfatiza a importância da contrição, do preparo e da conversão. Inicia-se no quadragésimo dia antes da
Páscoa (não se contam os domingos).
O início na Quarta-feira de Cinzas
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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97
retoma à tradição bíblica do arrependimento com cinzas e vestes de saco
(Jn 3.5-6). É um momento oportuno
para refletir sobre a confissão e o valor do perdão de Deus.
Sua espiritualidade enfatiza momentos de preparo na história bíblica
geral e da vida de Jesus:
ƒ Quarenta dias de Jesus no deserto (Mt 4.2; Lc 4.1ss);
ƒ Quarenta dias de Moisés no
Sinai (Êx 34.28);
ƒ Quarenta anos do povo no deserto (Êx 16.35);
ƒ Elias em direção ao Horeb (1Rs
19.8).
A Semana Santa tem início no
Domingo de Ramos, celebração de
Cristo como o Messias, salvador dos
pobres, o rei dos humildes. Reflete-se,
nessa semana, passo a passo, os últimos momentos da vida de Jesus.
Este é o momento da vigília de
preparo para a ressurreição.
98
|
LUIZ CARLOS RAMOS
Sua espiritualidade chama-nos a
atenção para os momentos finais de
Jesus até o ápice de sua paixão:
ƒ A Santa Ceia (Mt 26.17-30);
ƒ O Lava-pés (Jo 13.1-17);
ƒ Jesus no Getsêmani (Mt 26.3646; Mc 14.26-31);
ƒ O julgamento, sepultamento e
a crucificação (Mt 27; Mc 15;
Lc 23; Jo 19).
A Páscoa¸ propriamente, é a festa
da ressurreição e da libertação. Um
novo Êxodo ocorre, e a humanidade
passa do cativeiro da morte para a
vida.
Sua solenidade pode iniciar-se já
na Quinta-Feira Santa (instituição da
ceia), que dá início ao chamado Tríduo Pascal. Contudo a celebração da
ressurreição começa com uma vigília
na noite de sábado encontrando sua
plenitude no romper da aurora do
Domingo da Páscoa, quando Cristo é
lembrado como o sol da justiça que
traz a luz da nova vida, na ressurreição.
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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99
A espiritualidade norteadora da
Páscoa aponta para a ressurreição
nos mais variados relatos das comunidades do século I d.C.:
ƒ A ressurreição (Mt 28.1-20; Mc
16.1-8; Lc 24.1-12; Jo 20.1-18;
At 1.14);
ƒ Cânticos Pascais (Sl 113 ao 118
e Êx 12).
Entre os hebreus, era comum a
celebração da chamada “festa das
semanas” ou Pentecostes, isso porque ela se dava sete semanas, ou cinqüenta dias, após a Páscoa. Nela, o
povo dava graças ao Senhor pela colheita. Mais tarde, adquiriu mais uma
dimensão celebrativa, a da proclamação da lei (instrução) no Sinai, cinqüenta dias após a libertação do Egito.
Na era cristã, o Pentecostes tornou-se o último dia do ciclo pascal,
quando celebra-se a chegada do Espírito Santo como aquele que atualiza a
presença do ressuscitado entre nós,
dando força para que as comunidades
100
|
LUIZ CARLOS RAMOS
sejam testemunhas de Jesus na história.
A espiritualidade que nos orienta
nesse período fala da presença consoladora do Espírito que semeia nos
corações a esperança do Reino de
Deus e nos impulsiona para a missão:
ƒ Festa das semanas (Êx 34.22;
Lv 23.15);
ƒ Jesus promete o Consolador
(Jo 16.7);
ƒ Jesus ressuscitado sopra seu
Espírito (Jo 20.22);
ƒ A chegada do Espírito Santo no
dia de Pentecostes (At 2).
Esquema do Ano Litúrgico
Ciclo do Natal
ƒ Advento (quatro domingos que
antecedem o Natal)
ƒ Natal (véspera, dia de Natal e
semana que se segue)
ƒ Epifania (6 de janeiro ou o domingo mais próximo)
Tempo Comum após Epifania
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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101
Domingos seguintes até o que
antecede a Quarta-Feira de
Cinzas
Ciclo da Páscoa
ƒ Quaresma (tem início com a
Quarta-Feira de Cinzas)
ƒ Semana Santa: o Domingo de
Ramos ou Domingo da Paixão
(dá início à Semana Santa) que
se completa com o Tríduo Pascal (as solenidades da Instituição da Ceia, a Crucificação e a
Ressurreição de Cristo)
ƒ Domingo da Páscoa, que encerra
a Semana Santa (é a festa mais
importante do Ano Litúrgico)
ƒ Domingos de Páscoa (até o domingo de Pentecostes)
ƒ Pentecostes (encerra o período
da Páscoa)
Tempo Comum após Pentecostes
ƒ Domingo da Santíssima Trindade
ƒ Domingos seguintes até o...
ƒ ... Domingo do Cristo Rei (último domingo do Ano Litúrgico:
no domingo seguinte recomeçaƒ
102
|
LUIZ CARLOS RAMOS
se o ciclo do Natal com o Primeiro Domingo de Avento).
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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103
VI
Como fazer culto?
(A liturgia da liberdade
e da criatividade)
A
PARTIR
DO
NOSSO
ESTUDO,
constatamos que um culto
cristão tem uma tríplice estrutura, caracterizada pela
ação efetiva das três pessoas da Trindade, o Pai, o Filho, e o Espírito Santo.
Assim, pode-se dizer que o culto cristão
possui partes essenciais que se ausentes o descaracterizariam.
Assim, a estrutura básica da liturgia cristã é trinitária e pressupõe um
primeiro momento teológico, no qual
Deus é adorado, um segundo momento
Cristológico, no qual a memória de
Cristo é celebrada e proclamada; e um
terceiro momento, Pneumatológico, no
qual, pela ação do Espírito, a comunidade se compromete com o serviço a
Deus e ao próximo.
Essa liturgia é construída a partir
da ação criativa da comunidade de fé e
compõe-se de atos, ritos.
Objetividade e subjetividade
litúrgicas
Nesse sentido, a liturgia se constitui
de ritos, atos, ofícios e sacramentos
comunitários que se expressam pelas
vias racionais próprias das palavras
(escritas, lidas, proclamadas, cantadas)
e pelas vias sensoriais próprias dos
gestos (levantar os olhos, fechar os olhos, ouvir a palavra, aspirar o incenso,
curvar a cabeça, beijar, comer o pão,
beber o vinho, impor as mãos, estender
as mãos, aplaudir, bater no peito, abraçar, ficar em pé, sentar-se, ajoelharse, processionais e recessionais...).
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LUIZ CARLOS RAMOS
A emoção na comunicação litúrgica
Além das dimensões racionais e
sensoriais da comunicação verbal e
não-verbal, a liturgia também comunica pelas vias subjetivas das emoções. A
maneira como os ritos, atos, ofícios e
sacramentos afetam nossos sentimentos dependem de um sem número de
questões que subjazem à nossa consciência. As emoções podem ser evocadas
a partir de fora, mas somente podem
ser experimentadas a partir de dentro.
O riso ou choro, a ira ou a ternura, a
indignação ou a compaixão, são estados que, literalmente, jorram do subconsciente. São manifestações que,
antes de despertar, jazem adormecidas
ou, para usar a linguagem psicanalítica, estão reprimidas e contidas no obscuro mundo da alma humana.
Quando somos tocados desde fora
por uma palavra ou um gesto, por um
som ou uma imagem, pode acontecer
de vacilarem as forças repressoras que
mantinham trancadas as comportas do
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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subconsciente. Abrem-se essas comportas e emergem, então, as emoções,
juntamente com memórias significativas (de experiências da infância, de
lembranças dos pais, dos filhos...), que
compõem o repertório existencial e que,
por uma razão ou outra, foi associado
ao instante celebrativo. Não raro, essas
liberações emocionais resultam em êxtases que se revelam tão intensos que
chegam a embotar a razão, dando vazão a ações não conscientes e não racionais.
A razão na comunicação litúrgica
Ora, o princípio da primazia da emoção sobre a razão é o grande trunfo
dos meios de comunicação de massa.
Os estudiosos da comunicação rapidamente concluíram que as pessoas
não são persuadidas por argumentos
racionais, mas seduzidas por experiências emocionais. A mídia descobriu a
eficiência do entretenimento e do espetáculo como mediadoras da “conver-
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LUIZ CARLOS RAMOS
são” que transforma o auditório em
massa.
Entretenimento, como sugere a etimologia da palavra, se refere a um processo que procura ter o indivíduo “entre” alguma coisa. O entretenimento
funciona como um parêntesis, no qual
o indivíduo se isola, ainda que por alguns instantes, do mundo real. É aqui,
no processo de separação do real, que
entra o espetáculo, cuja etimologia remonta ao latim speculum, espelho. O
espetáculo é, portanto, uma imagem do
real. As imagens, por mais parecidas
que sejam, não podem ser confundidas
com a realidade, pois toda imagem refletida no espelho se apresenta como o
“inverso” do real ou como sua reprodução invertida. A vida real, quando espetacularizada, se nos dá como não-vida.
Quando, como espectadores, nos divertimos com o espetáculo, abrimos um
parênteses em nossa vida e suspendemos por um tempo a nossa existência,
para nos dedicarmos à contemplação
da simulação do real.
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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Como ação terapêutica, essa prática
pode até ser de grande benefício para a
nossa saúde emocional, entretanto,
quando isso se dá como mecanismo de
fuga sistemática da realidade, o que se
verifica é um desperdício considerável
da vida real. Como o medo e a amnésia, a fuga também se constitui em importante dispositivo de sobrevivência.
Não obstante, o medo, a amnésia e a
fuga não devem substituir a própria
vida, por mais dura que esta seja, sob
pena de terminar por aniquilar a própria existência. O entretenimento pode
causar dependência, mas não responsabilidade; alivia as tensões, mas não
resulta em compromissos.
Emoção, sensação e razão e a saúde
litúrgica
A liturgia é essencialmente comunicação por abranger todo o espectro
comunicacional humano. E a comunicação litúrgica será tanto mais intensa
quanto maior for a abrangência da sua
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LUIZ CARLOS RAMOS
ação, subjetiva/objetiva, verbal/nãoverbal, consciente/inconsciente... Um
grande desafio para a liturgia é, portanto, dosar adequadamente emoção,
sensação e razão. Concluímos que a
saúde litúrgica de uma comunidade de
fé depende da sensibilização equilibrada e inteligente das dimensões sensorial, emocional e racional da comunicação humana no contexto celebrativo.
Mas isso não se poderá obter pelo espetáculo nem pelo entretenimento, mas
somente no serviço comunitário celebrado pelo povo para Deus e para toda
a comunidade humana.
Outras formas de
comunicação-não-verbal na liturgia
Temos “lugares” comuns com todas
as pessoas, de todas as idades, de
qualquer nacionalidade e de qualquer
substrato social.
O primeiro desses “lugares” é a natura (natureza), em cujo ventre todos
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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fomos gerados, em cujos seios saciamos a fome.
O segundo é o corpo — a corporeidade é um tema que nos diz respeito a
todos, religiosos ou não, homens e mulheres, adultos e crianças.
Finalmente, a cultura, o “universo”,
a oikoumene, na qual habitamos. Conquanto diversa e extremamente complexa — seja nas imensas distâncias
geográficas dos cinco continentes, quer
seja no microcosmo da nossa casa — a
cultura nos forja, ora nos formando,
ora nos deformando.
A natureza e o culto
Os antigos filósofos diziam que a
tudo o que existe no mundo é derivado
de quatro substâncias elementares: a
terra, a água, o fogo e, o ar.
Na Bíblia, encontramos inúmeras
referências a esses elementos relacionados à espiritualidade do povo de
Deus.
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LUIZ CARLOS RAMOS
No princípio, criou Deus os céus e a
terra. Deus fez o ser humano a partir
do pó da terra e o designou para cultivar e cuidar da terra (“tu és pó e ao pó
tornarás”) ouviu o grito do sangue de
Abel clamando da terra; não suportando a maldade do coração humano, enviou o dilúvio para destruir e purificar
a terra; chamou Abraão e lhe disse:
“sai da tua terra e vai pra terra que te
mostrarei”; desafiou Moisés a libertar o
povo e Israel da opressão no Egito e
conduzi-lo à terra prometida; com Josué conquistaram e habitaram a terra
que mana leite e mel; em Jesus Cristo,
Deus desceu do céu à terra e habitou
entre nós, cheio de graça e de verdade;
pela boca dos apóstolos, o Evangelho
foi anunciado por toda a terra; João, no
Apocalipse, nos fala assim da nova Jerusalém: “vi novo céu e nova terra...”.
A terra é a nossa casa, é o nosso
berço e o nosso destino. A nova terra é
a promessa da vida abundante, da redenção plena. Na Bíblia, a palavra terra
aparece quase três mil vezes (2729).
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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No culto, podemos fazer alusão, ou
mesmo utilizarmos de maneira concreta o elemento terra nos momentos de
batismo, de lançamento de pedra fundamental de edifício religioso, de renovação do pacto, de ofício fúnebre, etc.,
etc.
Não menos importante é a água: no
Gênesis, o Espírito de Deus pairava
sobre a face das águas; no dilúvio, as
águas cobriram e purificaram a terra
de sua maldade; na libertação do Egito,
Moisés tocou a água com seu bordão e
o mar se abriu para que o povo passasse; na chegada à terra prometida,
tiveram que transpor o rio Jordão; o
mesmo rio em cujas águas João batizou multidões e o próprio Jesus; Jesus
andou sobre as águas e acalmou a
tempestade e os vagalhões; com água,
o eunuco, foi batizado por Filipe e Pedro batizou mais de três mil almas de
uma só vez; Paulo sobreviveu a naufrágios e, como Jonas, foi devolvido à
praia para pregar o Evangelho; na Cidade Santa, descrita no Apocalipse, há
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LUIZ CARLOS RAMOS
o rio da vida, brilhante como cristal,
que corre do trono de Deus e do Cordeiro, em cujas margens está a árvore
da vida, que produz frutos para a cura
dos povos e o último verso do Apocalipse diz: “O Espírito e a noiva dizem:
Vem! Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida”.
Na Bíblia, a palavra água ocorre
659 vezes, sem contar rio, torrente,
chuva, manancial, fonte, etc.
Na liturgia, a água é simbolicamente significativa no batismo, na celebração do ágape, na cerimônia do lavapés, nos cultos de renovação do pacto e
de purificação, etc., etc.
O fogo é também a luz. O primeiro
ato criador de Deus foi “haja luz!”;
Deus fez chover enxofre e fogo sobre
Sodoma e Gomorra; Abraão caminhava
rumo ao lugar onde deveria sacrificar o
próprio filho com o cutelo numa mão e
o fogo na outra; Moisés viu o fogo em
uma sarça que ardia, mas não se consumia; uma das pragas lançadas sobre
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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o Egito, no processo de libertação, foi a
chuva de pedras e fogo; quando o povo
peregrinou durante quarenta anos pelo
deserto, o Senhor ia adiante deles de
dia com uma coluna de nuvem e de
noite com uma coluna de fogo para os
iluminar e indicar o caminho; no templo, um castiçal com sete braços ficara
junto à Torah, para iluminar-lhe a leitura (“lâmpada para os meus pés é a
tua Palavra, e luz para os meus caminhos”, cantam os salmistas); Isaías foi
purificado do seu pecado, no culto do
Templo, por uma brasa que um serafim tirara do altar com uma tenaz; Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, amigos
de Daniel, foram preservados do fogo,
quando atirados numa fornalha para
ser castigado por sua fidelidade a Yaweh; João Batista não era a luz, mas
veio para que testificasse da luz; Jesus
disse: “eu sou a luz do mundo” e, ainda, “vós sois a luz do mundo”; no Pentecostes cristão, o Espírito Santo desceu sobre os discípulos e discípulas na
forma de línguas de fogo; o autor de
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LUIZ CARLOS RAMOS
Hebreus diz que “o nosso Deus é fogo
consumidor”; inúmeras são as alusões
ao fogo, no Apocalipse, dentre elas, a
de que “a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo” e “a
cidade não precisa nem do sol, nem da
lua, para lhe darem claridade, pois a
glória de Deus a iluminou, e o Cordeiro
é a sua lâmpada.”
A palavra fogo aparece mais de 360
vezes na Bíblia; luz, mais de 320; isso
para não detalhar sobre a palavra lâmpada, sol, glória, e os verbos iluminar,
resplandecer, glorificar, todos esses,
termos relacionados com fogo/luz.
No culto, as luzes que se acendem
(castiçais) é um importante símbolo da
glória de Deus, da presença do Espírito, da orientação da Palavra de Deus,
etc., etc.
O ar: no princípio, a terra era sem
forma e vazia e o Espírito (ar, sopro,
vento) de Deus pairava sobre a face das
águas; tendo criado o homem do pó do
terra, Deus soprou em suas narinas o
fôlego da vida; no Dilúvio, quando
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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Deus lembrou-se de Noé, na arca, “fez
soprar um vento sobre a terra, e baixaram as águas”; na fuga do Egito, um
vento vindo do Oriente soprou e abriu o
Mar de Juncos para que o povo alcançasse a liberdade; Elias teve um encontro especial com Deus após presenciar
vendavais, terremotos e saraiva, quando Deus se apresentou a ele numa brisa tranqüilo e suave; na visão dos ossos secos, Ezequiel profetizou: “vem
dos quatro ventos, ó espírito, e assopra
sobre estes mortos, para que vivam”;
no Culto do templo, não deveria nunca
faltar o incenso, que simboliza as orações dos fiéis, feito com finíssimas especiarias aromáticas; certa vez, Jesus,
no barco, “repreendeu o vento e disse
ao mar: Acalma-te, emudece! O vento
se aquietou, e fez-se grande bonança”;
ressuscitado, Jesus veio ao encontro
dos seus seguidores, soprou sobre eles
e disse: “recebei o espírito”; no dia do
primeiro Pentecostes Cristão, “veio do
céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde [os
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LUIZ CARLOS RAMOS
discípulos e discípulas] estavam assentados”; o apóstolo Paulo diz que nós,
cristãos e cristãs, somos o bom perfume de Cristo; o último verso do Apocalipse diz: “O Espírito e a noiva dizem:
Vem! Aquele que ouve, diga: Vem!”
Em toda a Bíblia, encontramos a
palavra vento, mais de 150 vezes; espírito, 550 vezes, alma, que significa literalmente “garganta”, por onde passa o
fôlego, mais de 400 vezes; aroma e perfume, mais de 100 vezes.
Tudo isso é muito sugestivo no que
diz respeito à criatividade litúrgica. Explorar os aromas e perfumes, e a simbologia do vento (por meio dos instrumentos de sopro, por exemplo), pode
ser tremendamente sensibilizador no
exercício de uma espiritualidade vívida
e no processo de transmissão da fé às
novas gerações e aos que se achegam à
cultura cristã.
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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O corpo e o culto
Dizem os pesquisadores dos idiomas sinéticos (ou linguagem do corpo
por meio dos gestos e dos movimentos
corporais) que “o corpo é a mensagem”.
Antes de falar, os bebês se comunicam
com o corpo. Por isso se pode dizer que
a pessoa humana é um ser multisensorial. De vez em quando, ele verbaliza
(cf. Birdwhistell).
O sistema de realce sinético (por
meio de expressões corporais) ajuda a
desfazer ambigüidades verbais. Também pode suceder, às vezes, que o
comportamento não-verbal contradiga
o que se está dizendo, em vez de enfatizar (nosso corpo mente menos que a
nossa boca!).
Existe, portanto, uma linguagem
dos sentidos: o tato, o paladar e o olfato
são sentidos que requerem proximidade. A audição e a visão, por outro lado,
podem ser considerados sentidos que
permitem a experiência a distância.
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LUIZ CARLOS RAMOS
Comunicação pelo tato: O tato é provavelmente o mais primitivo dos sentidos. Um embrião, com menos de oito
semanas, antes de ter olhos ou ouvidos, e quando ainda mede menos de
2,5 cm, responde ao tato. O bebê explora o mundo pelo tato. É dessa forma
que ele descobre onde termina seu
próprio corpo e onde começa o mundo
exterior. Em breve ele começa a relacionar a experiência visual com a táctil
(vincular símbolo à experiência e a associar as sensações com as palavras).
O conhecimento emocional começa
pelo tato, também. A voz materna
substitui o toque materno, comunicando ao bebê as mesmas coisas que a
mãe comunicava quando o pegava no
colo — a rigor, a voz (as palavras) só é
uma alternativa associa à experiência
tátil.
A pele é o maior órgão do corpo: o
processamento das informações enviadas pelos lábios, o dedo indicador e o
polegar ocupam uma área desproporcional no cérebro.
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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A pele é “o envelope que contém o
organismo humano” (Lawrence K.
Frank). Todo o meio ambiente nos chega por intermédio da pele. O corpo
humano é sensível ao calor, ao frio à
pressão, à dor; possui zonas erógenas,
sensíveis às cócegas, e zonas calosas
(virtualmente insensíveis).
Em nossa sociedade, por volta dos
cinco ou seis anos, as crianças começam a tocar e a serem tocadas com
menor freqüência, mas na puberdade
tornam-se novamente ávidas daquele
contato físico. Quando o ser humano
descobre as relações sexuais, na realidade ele está redescobrindo a comunicação táctil.
Contato físico e sexo: o contato físico tem freqüentemente conotação sexual e isso faz com que usemos tão
pouco o tato em nossas manifestações
de carinho e afeto. Os behavioristas
falam em fome de pele. Segundo Paul
Byers (antropólogo), “são os idosos que
mais sofrem de fome da pele em nossa
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LUIZ CARLOS RAMOS
sociedade. Eles talvez sejam menos
tocados do que qualquer outra pessoa”.
Cada vez mais cedo as crianças são
deixadas nas creches, ou com babás,
sendo privadas, assim, do carinho dos
pais. Talvez isso explique, em parte, o
porquê de os jovens iniciarem-se sexualmente cada vez mais cedo: para compensar a falta de afeto físico que não
tiveram na primeira infância.
Comunicação pelo olfato: o ser humano é “primitivamente um animal
nasal” (G. Groddeck, colaborador de
Freud): O cérebro humano (todo o
complexo límbico, o cérebro mamífero)
se desenvolve a partir do bulbo olfativo.
O olfato é incontrolável: é impossível evitar ou bloquear o olfato. Daí ser
considerado o sentido mais autoritário
que possuímos, pois não se pode controlá-lo.
Nos animais: o olfato acusa a presença de inimigos, excita na presença
do sexo oposto, funciona como limite
territorial, permite seguir o rebanho e
identificar o estado emocional de ouSCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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123
tras espécies. Cada individuo tem uma
assinatura olfativa.
Os pesquisadores falam também em
subconsciente olfativo: Dr. Harry Wener, um médico dos Laboratórios Pfizer
de Nova Iorque, elaborou a teoria de
que “os homens percebem odores além
daqueles que, conscientemente, a percepção acusa. Odores seriam “mensageiros químicos externos” (MQE), os
feronemas que são substâncias odoríferas que os animais segregam para se
atrair sexualmente e que são capazes
de afetar o comportamento de outros
animais da mesma espécie são, algumas vezes, tão contagiosas numa multidão.
Na Bíblia há muitas referências associadas ao sentido do olfato: o incenso
que representa as orações dos fiéis (cf.
Is 6, Ap 8); nos somos “o bom perfume
de Cristo” (2Co 2.15).
Liturgicamente, diferentes aromas
podem ser associados a diferentes conceitos espirituais e teológicos e podem
ajudar no processo de assimilação e,
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LUIZ CARLOS RAMOS
principalmente, de memorização desses conceitos — dificilmente alguém se
esquece de um cheiro que tenha sentido, antes o reconhece com certa facilidade (exemplo: manjericão, pão assando, café sendo torrado, vazamento de
gás, etc.).
Comunicação pelo paladar: este é
um sentido de base química. Diferente
do tato da visão e da audição, assim
como o olfato, o paladar não é um sentido de base física (impulsos elétricos),
mas uma informação resultante de
uma reação química. Isso implica em
que estes são mais poderosos nos níveis subliminares (comunicação despercebida).
Este é o sentido sacramental por
excelência: “o sacramento da Eucaristia é o sacramento do gosto” (Maraschin). Comer exige ritual. Assim é na
liturgia da igreja, na do amor, na do
lar, nas dos negócios. Não há comemoração sem comida.
Até recentemente, o lugar mais importante na arquitetura doméstica era
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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a cozinha — tratava-se do primado da
cultura da cozinha. Ali se davam as
relações sociais.
No mundo urbano a cozinha é
substituída pelos restaurantes e barzinhos, onde as relações humanas se
dão de forma intensa, regada a comida
e a bebida – quando esse ambiente não
é encontrado em casa ou na Igrejá, ele
será buscado em outro lugar.
O cardápio (a comida e a bebida) de
um “povo” denuncia seu caráter, seu
humor, sua condição social, etc.
Lembranças de gosto e de cheiro
são poderosos vocativos de experiências do passado. Tais experiências estão associadas a “conceitos” que emergem juntamente com a lembrança.
A Eucaristia é, essencialmente, um
ato memorial. Quando Jesus diz: “fazei
isto em memória de mim” (Lc 22.19),
estava, em outras palavras, dizendo:
“nunca se esqueçam de mim” — e as
refeições comunais são “inesquecíveis”.
Ao folhearmos as páginas dos Evangelhos em busca das alusões aos
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LUIZ CARLOS RAMOS
momentos de refeição comunal entre
Jesus, seus discípulos, conhecidos e
até com seus inimigos, ficamos surpresos com a quantidade de referências.
Comunicação pela audição: no culto,
tendemos a considerar comunicação
auditiva aquela relacionada aos processos verbais: pregação, leituras, orações, cânticos, etc. Mas a experiência
auditiva vai muito além.
Num filme, por exemplo, a trilha
sonora (que é muito mais do que músicas) provoca alterações no comportamento e no metabolismo do espectador.
Pressão arterial, batimento cardíaco,
funções metabólicas são acelerados ou
desacelerados, dependendo do tipo de
sonoplastia adotado.
A “engenharia de emoções” é uma
ciência que se estabeleceu definitivamente a partir da década de 70, principalmente na indústria cinematográfica.
Segundo Peter Krass, “a engenharia
de emoções é um ramo recente de atividades, que tem por objetivo alterar o
comportamento
involuntariamente,
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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sem a consciência dos receptores do
público, que é manipulado subliminarmente por sons e cores”.
Slogans e provérbios: “frases feitas”,
ditados, máximas, adágios, aforismos,
anexins, brocardos jurídicos, palavras
de ordem, clichês e formas verbais do
imperativo apresentam um elevado
grau de subliminaridade e tem um enorme poder persuasivo, não tanto pelo que é dito, mas muito mais pelo como é dito. Exemplo: “homo loquax,
homo mendax”, isto é, “homem falando, homem mentindo”, ou, “homem
eloqüente, homem mentiroso” — notese que quando dito em português, o
dito perde a força da sonoridade loquax/mendax.
Há, inclusive, “sons” no silêncio: os
ritmos (alternância sistemática entre
pausa-som-pausa)
podem
acalmar/relaxar (instalados em consultórios de dentistas), podem transmitir a
sensação de conforto, tranqüilidade,
segurança e prazer (72/80 ciclos por
minuto: o ritmo do coração); provocar
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LUIZ CARLOS RAMOS
atitudes (20 ciclos por segundo: em
bancos, levando funcionários e clientes
a fazerem investimentos; em supermercados, para evitar furtos...).
Comunicação pela visão: nós, humanos, tendemos a supervalorizar o
sentido da visão. Dizem os neurocientistas que 87% da arquitetura cerebral destina-se ao processamento de
informação visual.
Culturalmente falando, “estamos
indo ao encontro de uma época mais
visual”, no qual “o que é visto é mais
importante do que aquilo que é escrito”
(Margaret Mead).
A psicodinâmica das cores demonstra que as cores produzem efeitos subliminares (desapercebidos) psicossomáticos.
Parece haver uma “evolução” do
vermelho para o azul: crianças são atraídas por cores quentes; há antropólogos que dizem que isso se evidencia
no padrão cultural dos povos, de modo
que aqueles que têm um estilo mais
primário, tendem a ser mais coloridos e
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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a ornamentarem-se com cores mais
vivas, ao passo que as sociedades mais
“civilizadas” tendem a preferir cores
mais sóbrias.
Cor é luz. Cada cor equivale a um
comprimento de onda: cada comprimento de onda tem um efeito físico, e
mesmo biofísico. A primeira sensação
de cor ocorre no complexo límbico causando instantâneas reações emocionais
e estimulando as glândulas pituitária e
pineal. Tais reações ativam o sistema
endócrino, ativando o hipotálamo (cérebro réptil) e causando ativação do
sistema nervoso simpático e parassimpático.
Esse é trajeto da cor que causará
fome, sede ou excitação sexual direto
no cérebro, agindo subliminarmente,
sem ser percebida.
Pesquisadores explicam os efeitos
psicossomáticos das cores: o azul tem
efeito calmante; o vermelho tem efeito
oposto; o amarelo-avermelhado ativa as
funções do metabolismo do hipotálamo, despertando a fome e alterando a
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LUIZ CARLOS RAMOS
atividade gástrica. As cores intensas,
de longos comprimentos de ondas,
aumentam a circulação sangüínea e
aumentam a força muscular.
Assim, a cor pode induzir subliminarmente a escolha de uma embalagem na prateleira de um supermercado, pode ajudar a trabalhar mais tranqüilamente, pode regularizar a pressão
arterial, ser relaxante...
Todas essas informações podem
nos inspirar e ampliar nosso horizonte
criativo na preparação de liturgias mais
comunicativas — uma vez que estabelece pontes de interação com o indivíduo todo, e não somente com sua racionalidade.
A cultura e o culto
A criatividade litúrgica possibilita o
recurso à expressão artística de modo
geral. Classicamente, a arte tem sido
agrupada em sete formas de expressão
(isso serve apenas para fins didáticos,
pois a arte não pode ser confinada).
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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A Literatura, que é a arte da palavra, está associada a toda palavra bemdita na liturgia: as leituras e litanias,
as orações e bênçãos, a palavra cantada e declamada, e a palavra pregada e
explicada. Nem tudo o que se diz, escreve e lê, tem o status de literatura —
as palavras organizadas alfabeticamente num dicionário não produzem, amiúde, reações como ternura, alegria,
consternação, êxtase, alegria, saudade... A palavra se torna literatura
quando é bela, quando faz diferença
em quem a pronuncia e em quem a
ouve. No culto, a verdadeira literatura
são as palavras bem-ditas que provocam o encontro com a Palavra divina.
A Coreografia, que é a arte do movimento, está associada a todo movimento e a toda movimentação intencional, no contexto celebrativo. Quando
nos levantamos para ouvir a leitura
bíblica, ou para cantar; quando nos
ajoelhamos para orar; quando nos dirigimos ao altar para o ofertório ou para
um ato de consagração; quando o cele132
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LUIZ CARLOS RAMOS
brante repete o gesto de partir o pão e
servir o cálice ou estende os braços
para dar a bênção, etc. — são todos
movimentos coreográficos. Não são gratuitos, são intencionais e carregados de
sentido.
A Arquitetura, que é a arte do espaço vazio, do espaço que se abre para
acolher o belo, está associado, no contexto celebrativo, à toda a ambientação
que transforma os lugares comuns em
espaços sagrados, espaços de encontro
do efêmero com o eterno, do finito com
o infinito, do mortal com o imortal.
Nesse espaço não cabe o assessório,
tudo deve ser essencial, não cabe o
descuidado, o desarrumado, o improvisado, tudo tem que corresponder à
dignidade do evento que ali se dá.
A Escultura, que é a arte do volume,
relaciona-se às texturas, formas e sensações que estas provocam. Superfícies
ásperas e formas pontiagudas transmitem sensação de desconforto, de repulsa. Formas curvas e superfícies lisas
ou aveludadas dão idéia de acolhimenSCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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133
to afetivo. O círculo tem força centrípeta, convida para o centro, para a comunhão; o quadrado sugere a força
centrífuga que envia para a missão; o
triângulo transmite idéia de estabilidade, daquilo que não sofre abalo, que
permanece o mesmo, “ontem, hoje e
eternamente” (cf. Hb 13,8).
A Pintura, que é a arte da cor, nos
ajuda a celebrar com a luz. Pinturas e
vitrais são apenas uma parte do poder
comunicativo das cores no contexto
celebrativo. Os paramentos, os ornamentos, as vestes litúrgicas dos celebrantes, os tapetes, cortinas e toalhas,
tudo no espaço celebrativo deve ser
pensado e ressignificado. Eis a importância da decoração que, etimologicamente, sugere o sentido de ambientar
com cor e com o coração.
A Música, que é a arte do som, é a
rainha das artes. Que seria das nossas
liturgias não fosse a música? Sua força
está na sua capacidade de aproximar
razão e emoção e de alcançar, por isso
mesmo, um nível tão profundo de co134
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LUIZ CARLOS RAMOS
municação como nenhuma outra arte
consegue. Quando cantamos, a combinação entre letra, melodia, harmonia e
ritmo fundem-se, de tal maneira, integrando diferentes níveis do nosso ser.
Corpo, alma e espírito se fundem plenamente. Música é arte e ciência, é
emoção e sensação, é gramática e matemática. Ouvir música é ouvir Deus!
E a controvertida “sétima arte”, o
Cinema, que combina as várias artes.
Um ótimo desafio para a equipe de liturgia é pensar a liturgia como se estivesse preparando para gravar um filme: roteiro e script (literatura), ação
(coreografia), o cenário e ambientação
(arquitetura), as cores, luzes e sombras
(pintura), e a trilha sonora (música).
A Equipe ou Ministério de Liturgia
A constituição de uma Equipe ou
Ministério de Liturgia, em cada igreja
local, é uma tarefa que deve ser realizada com toda responsabilidade e com
a participação representativa das váSCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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135
rias expressões da espiritualidade da
comunidade. O acompanhamento do
pastor ou pastora é fundamental (canonicamente, é ele/a quem responde
pela liturgia na igreja local).
Pode se estruturar a equipe em setores encarregados de executar tarefas
específicas, sempre em articulação com
a equipe como um todo. A seguir, oferecemos uma sugestão de organização
desses setores:
ƒ Palavra e Texto: Responsável pela criação, edição, editoração e
arquivo das liturgias, bem como
pela escala das pregações.
ƒ Espaço e Movimento: Responsável pela ambientação e decoração dos espaços celebrativos,
bem como por expressões, atuações e performances cênicas específicas.
ƒ Luz e Sombra: Responsável pela
comunicação sensorial (tato, olfato, paladar, audição e visão)
por meio de recursos audiovisuais, projeções multimídia, ele136
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LUIZ CARLOS RAMOS
mentos concretos, diferentes
texturas, etc.
ƒ Silêncio e Som: Responsável pela
parte musical (vocal e instrumental) das celebrações, o que
inclui a condução do Coro, e
formação de grupos vocais e instrumentais.
A equipe deve ainda observar os vários processos para que as liturgias
sejam consistentes:
ƒ Investigação e pesquisa no campo da liturgia e da arte litúrgica,
para que os atos tenham profundidade teológica;
ƒ Criação e produção de ordens,
textos e cânticos litúrgicos;
ƒ Execução e condução celebrativa
dos cultos;
ƒ Documentação e avaliação das
produções litúrgicas da equipe
mantendo registro e arquivo de
tudo, de modo a possibilitar o
acesso e a revisão criteriosa das
liturgias produzidas e celebradas;
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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Capacitação e socialização da
experiência litúrgica, disponibilizando o acervo (impresso e/ou
digital).
LUIZ CARLOS RAMOS
Epílogo
Assim se pode fazer verdadeira arte litúrgica: estruturando o culto em
torno da partilha do Pão e da Palavra;
da qual todos possam participar de
corpo e alma, em espírito e em verdade, com alegria e com arte; de tal
forma que envolva integralmente o ser
humano e estabeleça um diálogo efetivo e afetivo com Deus e seu povo.
Referências
Para quem quiser aprofundar seus
estudos dos temas relacionados com
o Culto, sugerimos:
Textos sobre culto e liturgia
ADAM, Adolf. O Ano Litúrgico. São Paulo:
Paulinas, 1982. 360 p.
AGOSTINHO, Santo, Bispo de Hipona,
354-430. A doutrina Cristã: manual de
exegese e formação cristã. São Paulo:
Paulinas, 1991.
ALLMEN, J. J. von. O Culto Cristão: Teologia e Prática. São Paulo: ASTE,
1968. 403 p.
BECKHÄUSER OFM, Frei Alberto. Os
fundamentos da sagrada liturgia. Petrópolis: Vozes, 2004. 327 p.
CARTA PASTORAL do Colégio Episcopal
da Igreja Metodista. O culto da Igreja
em missão. São Paulo: Cedro, 2006.
40 p. (Biblioteca Vida e Missão – Pastorais)
CELAM. Manual de liturgia 1 e 2: a celebração do mistério pascal. São Paulo:
Paulus, 2005. 304 p. (v. 1), 437 p. (v. 2)
DIDACHE: o catecismo dos primeiros
cristãos para as comunidades de hoje.
São Paulo: Paulinas, 1989. 31 p.
FLORISTÁN, Casiano. Teologia practica:
teoria y praxis de la acción pastoral.
Salamanca: Sigueme, 1993. 757 p.
HAHN, Carl Joseph. História do culto protestante no Brasil. São Paulo: Aste,
1989. 403 p.
KIRST, Nelson. Nossa Liturgia: das origens até
hoje. São Leopoldo: Sinodal, 1993. (Colméia).
______. A Liturgia toda: Parte por parte. São
Leopoldo: Sinodal, 1993. (Colméia).
MARASCHIN, Jaci. A beleza da Santidade, ensaios de liturgia. São Paulo: Aste, 1996. 168 p.
NEUNHËUSER OSB, Burkhard. História
da liturgia através das épocas culturais. São Paulo: Loyola, 2007. 277 p.
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LUIZ CARLOS RAMOS
RAMOS, Luiz Carlos (org.). Anuário Litúrgico. São Bernardo do Campo: Editeo,
2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009-.
RITUAL da Igreja Metodista. 2. ed. São
Paulo: Cedro, 2005. 156 p.
SARTORE, D. T. & ACHILLE, M. Dicionário de Liturgia. São Paulo: Edições
Paulinas,1992. 1293 p.
WHITE, James, F. Introdução ao culto
cristão. São Leopoldo: Sinodal, 1997.
267 p.
Textos sobre a comunicação
por vias não-verbais:
BARRETO, Roberto Menna. Análise transacional da propaganda. 4. ed. São
Paulo: Summus Editorial, 1981. 305
p.
CALAZANS, Flávio. Propagação subliminar multimídia. 3. ed. São Paulo:
Summus Editorial, 1992. 116 p. (Novas buscas em comunicação; v. 42).
DAVIS, Flora. A comunicação não-verbal.
6. ed. Trad. de Antonio Dimas. São
Paulo: Summus Editorial, 1979. 119 p.
FERRÉS, Joan. Televisão subliminar: socializando através de comunicações
SCRIPT 2: EM ESPÍRITO E EM VERDADE
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despercebidas. Trad. Ernani Rosa e
Beatriz A. Neves. Porto Alegre: Artmed, 1998. 288 p.
VIEIRA, Stalimir. Raciocínio criativo na
publicidade: uma proposta. São Paulo:
Ed. Loyola, 1999. 101 p.
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