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MEMÓRIA
Acácio Barradas
Uma perda irreparável
Com a morte de Acácio Barradas, em Outubro último, o jornalismo
português perdeu um dos seus mais dignos e respeitados profissionais
das últimas décadas e o associativismo jornalístico – o Sindicato, a
Casa da Imprensa, o Clube dos Jornalistas – viu desaparecer um
dirigente empenhado, activo e dinâmico como poucos. No que ao
Clube particularmente diz respeito, o Acácio, convém sublinhá-lo, foi
presidente do Conselho Fiscal desde o primeiro até ao mandato
actual, quando a doença que o atormentava já não lhe permitiu
aceitar o encargo; e foi um permanente e interessado apoiante desta
revista, a cujo Conselho Editorial sempre pertenceu. Tínhamos
previsto para o presente número, dedicado ao 25º aniversário do
Clube, uma curta entrevista com ele. Tal já não foi possível. Em jeito
de homenagem, publicamos uma outra, inédita, realizada no quadro
da preparação de um livro entretanto já editado1, e que tem a
particularidade de nos evocar o que foram os pouco conhecidos
primeiros anos da vida profissional do Acácio, em Angola.
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MEMÓRIA
Em 1967, ainda em Angola, pouco tempo antes
de vir para Lisboa
Entrevista com Acácio Barradas
Iniciou a profissão em Angola, depois veio para
Lisboa, mas tudo começou no Porto…
Comecei como jornalista profissional em
Luanda. O projecto familiar era fazer-me advogado, mas de repente tudo se alterou devido a um
acidente de percurso. Fui pai solteiro em plena
adolescência, o que representou um escândalo na
família, até porque a mãe era mais velha do que
eu e de baixa condição social. Enfim, uma história digna de romance neo-realista. Acabei por
não continuar os estudos. Estava no quinto ano
do liceu mas já não fui a exame, pelo que oficialmente fiquei com habilitações académicas ainda
menores do que as que realmente tenho.
Considero-me, portanto, um autodidacta. O que
na minha geração constitui regra dominante. As
habilitações académicas eram normalmente baixas e raros jornalistas tinham formação superior.
Em que ano começou como jornalista?
Como amador, no início dos anos 50, no Jornal
de Lousada. Profissionalmente, por volta de 1955,
em Luanda. Fui para Angola dois anos antes, pois
a família achou que era preciso meter-me na
ordem com a dureza do trabalho assalariado.
Segui para Luanda na terceira classe suplementar
(ou seja, o porão transformado em camarata) de
um navio de passageiros. Mas como tinha a aparência de um pequeno lorde (de acordo com a descrição de um livro então em voga da Condessa de
Ségur) andava livremente por todo o navio,
incluindo as zonas reservadas da 1.ª classe. Na
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altura, ir para as colónias (que o Salazar crismou
de províncias ultramarinas) requeria uma carta
de chamada que garantisse colocação, a fim de
impedir o desprestígio da raça branca pela degradação do desemprego. Mas a verdade é que se
faziam muitas cartas de chamada por favor, que
davam a garantia de um emprego fictício. E só no
destino as pessoas se desenrascavam conforme
podiam. Quando cheguei, havia a possibilidade
de entrar no Banco de Angola, o que me assustava um bocado porque, ao contrário das letras,
lidei sempre mal com números. Depois zanguei-me com a pessoa que me tinha mandado a carta
de chamada e fiquei um pouco ao Deus dará. Eu
tinha, realmente, uma certa vocação inata para o
jornalismo, primeiro porque o meu pai, que era
um homem dos sete ofícios, tinha fundado (com
o meu avô Acácio e o meu tio Romeu) um jornal
chamado Última Hora, no Porto, ainda no tempo
da primeira República. Já fui consultar esse periódico à Biblioteca Nacional e, por aquilo que vi,
não o achei nada revolucionário, antes pelo contrário. Mas encontrei um antigo tipógrafo que me
disse ter sido o jornal estraçalhado, como muitos
nessa época. Invadiram a sede, rebentaram com
as máquinas, etc. Houve muita confusão deste
género durante a Primeira República e o jornal
foi vítima disso.
Vem de uma família de republicanos?
Se o meu pai era republicano, não o posso afirmar. Aliás, morreu muito novo e a minha cons-
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ciência dele foi mitificada na infância. Mas o meu
avô paterno, de quem aliás herdei o nome, era-o
sem dúvida. Até tinha o cartão do Partido
Republicano, que conservava como relíquia e um
dia me mostrou em segredo. Em pleno fascismo,
tal passado não abonava a obediência ao regime
salazarista, o que era perigoso para um funcionário público, condição em que esse meu avô terminou os seus dias, depois de ter sido industrial e
proprietário, em Vila Nova de Gaia, de uma fábrica que acabou destruída pelo fogo. Mas voltando
ao meu pai, que como disse era homem dos sete
ofícios, a sua profissão dominante era a de fotógrafo, com estabelecimento próprio na Rua
Formosa da Baixa portuense. E colaborava com a
Imprensa no registo dos grandes acontecimentos.
Note-se que um fotógrafo nessa época era pessoa
importante. Tal como hoje se fica à espera que
chegue a televisão, antigamente aguardava-se o
fotógrafo. Era ele que conferia dimensão histórica
aos grandes acontecimentos.
lá, embora continuasse a ir ao Porto com frequência. Fazia o meu próprio jornal, à mão, vendia à
família, contava histórias, escrevia peças de teatro, tudo com base na realidade do dia-a-dia.
Logo, tinha a vocação de jornalista bastante acentuada. Quando fui para Luanda e resolvi ser jornalista profissional, soube que havia uma vaga
no matutino O Comércio de Angola e fui lá oferecer-me para a preencher. Mas só lá estive uma
semana. Tinha um feitio levado dos diabos e era
muito independente. No sétimo dia entrei no jornal com o chapéu na cabeça e fui admoestado
pelo chefe de redacção. Não gostei da forma
como se me dirigiu e virei-me a ele de tal maneira que o encostei à parede e acabei por sair. É preciso ver que estávamos em Luanda, um sítio de
sol intenso, eu ainda não estava habituado e trazia o chapéu de palhinha para me proteger. E
como era muito leve, chegava a esquecer-me que
o trazia na cabeça.
Entrar com o chapéu era sinal de má educação?
Como se chamava o seu pai?
Álvaro Barradas, cuja memória pretendi
homenagear ao dar o seu nome a um dos meus
filhos, que por sinal também é um excelente fotógrafo, embora faça disso um hobby. Entre outras,
uma das aventuras do meu pai foi trabalhar com
Reinaldo Ferreira, o célebre Repórter X. Tenho
em meu poder o cartão que testemunha esse
facto e que já prometi ao Museu da Imprensa,
pois é uma verdadeira relíquia. Mas isto era apenas uma das actividades dele, que tinha uma casa
de fotografia, tinha o já referido jornal Última
Hora dirigido pelo irmão, enquanto ele próprio
orientava a publicação de uma revista especializada com o título A Indústria Portuense, entre
outras actividades. Infelizmente morreu novo,
vítima de cancro, pelo que fiquei órfão com
menos de dois anos. Cresci com uma imagem
extraordinária do meu pai e comecei desde muito
novo a interessar-me pelo jornalismo. Tinha
gosto pela escrita, lia muito, lia até desalmadamente, comprava imensos jornais e revistas. A
minha mãe dava-me uma semanada generosa e
eu gastava quase tudo em livros, jornais, cinema,
teatro, concertos. O único dinheiro mal gasto era
com a porcaria do tabaco.
Tudo isso se passa no Porto?
Sim. No Porto e em Paredes, pois a minha mãe
casou-se em segundas núpcias com um comerciante daquela vila (hoje cidade) e fui viver para
Para ele, era. Devia tirar o chapéu para o cumprimentar. Aquilo era uma personagem toda
imbuída de respeitinho serôdio. Na altura, a
gente via que até nas grandes
redacções dos filmes americanos os jornalistas entravam de “Fazia o meu próprio
chapéu na cabeça, alguns nunca jornal, à mão, vendia à
o tiravam, pareciam cowboys. Foi família, contava
chato porque nesse jornal só histórias, escrevia peças
fazia reportagem, todos os dias
de teatro, tudo com
ia trabalhar para a rua e gostava
base na realidade do
muito. Enfim, dessa vez voltei
para a rua, mas definitivamen- dia-a-dia”
te, enfrentando uma situação
de desemprego algo dramática.
Nessa situação, li no jornal a província de
Angola, que era o principal diário da manhã, certa
crónica de um senhor chamado José Manuel da
Costa, sobre os «vadios que andavam por ali a
coçar-se pelas esquinas sem fazer nada» e careciam de ser forçados ao trabalho. Achei que aquilo tinha a ver comigo e bati-lhe à porta do gabinete: «Olhe, eu sou um desses vadios que anda por
aí a coçar-se pelas esquinas, de maneira que eu
agradecia que me desse emprego aqui no jornal».
Ele era o subdirector e ficou um bocado aflito:
«Compreenda, isto não era consigo, era para uns
energúmenos». E acompanhou-me à porta com
ar assustado, porque lhe devo ter feito cara de
poucos amigos.
O certo é que, passado algum tempo, acabei
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Acácio Barradas
por entrar nesse jornal, a fim de ocupar uma
vaga deixada pelo Luís Fontoura, forçado a
demitir-se por causa de um título em que ridicularizava um importante colaborador desse
mesmo jornal. Foi o próprio Luís Fontoura (que
se tornou um dos históricos do PSD e foi secretário de Estado) que me alertou para o facto:
«Agora há uma vaga e eles precisam de gente».
Fui lá, ofereci-me e fiquei. Entrei à experiência
como repórter. Nessa qualidade, fiz uma reportagem no Norte de Angola, ou seja no Uíge, que
me deixou uma forte e desagradável impressão
dos colonos novos-ricos pela alta do café. Vi-os
comportarem-se como labregos que a febre do
dinheiro tornara arrogantes. Esta experiência
servir-me-ia mais tarde para os enfrentar no seu
próprio reduto.
Mas antes de entrar n’ a província de Angola tive
ali um período de transição em que fui correspondente em Luanda do Diário Popular. Foi o
meu emprego precário, em que fazia tudo: era
jornalista, cobrador e ainda angariava publicidade para um letreiro luminoso que havia por cima
da Livraria Lello. Uma promiscuidade abominável, mas de que só tive consciência mais tarde.
O Diário Popular, nessa altura, tinha uma edição especial para o Ultramar, em papel bíblia.
Autoproclamava-se «o jornal de maior expansão
no mundo português» e até era verdade. Tinha
essa edição em papel bíblia três vezes por semana, porque só havia três carreiras aéreas semanais
entre Lisboa e Luanda. Faziam-se em aviões
Dakotas, que voavam aos pulinhos para chegar
ao destino. Quando entrei no jornal a província de
Angola, deixei esse cargo.
Como é que mandava os textos para Lisboa, por
dade para ser apenas jornalista, deixei tudo o
resto e dediquei-me exclusivamente à profissão.
Mas o clique que operou em mim essa transformação radical só se verificou de facto em Maio de
68, quando em Lisboa deparei com esta frase na
porta de um casal de jornalistas meus amigos:
«Nunca escrevas nada que não possas assinar».
Esta frase fez mais por mim do que mil sermões.
Mas se é certo que, nesse tempo, havia muita
ignorância sobre questões de ética e deontologia,
que podem tornar desculpáveis certos comportamentos, que dizer do que se passa hoje e me
parece bastante pior? Ainda recentemente, a
badalada Teresa Guilherme proclamou aos quatro ventos que «quem tem ética passa fome».
Nem sequer lhe ocorreu acrescentar: «mas tem
dignidade e merece respeito». Bem sei que a
Teresa Guilherme não é jornalista, não passa de
uma atrevida. Pior fez a Maria João Avillez, que
mal se viu com a carteira profissional de jornalista violou as incompatibilidades profissionais ao
fazer publicidade redigida para um banco. Fui eu
que denunciei a situação e ela, muito elegante,
entregou o assunto ao seu advogado, o não
menos elegante José Miguel Júdice, que teve o
descaramento de a justificar, como se o texto em
questão fosse anódino e não principescamente
remunerado como publicidade redigida. Hoje,
quando se erra, teima-se no erro e não se pede
desculpa. Só o Eduardo Cintra Torres veio a
público dar-me razão. Uma sujeira.
Que tipo de jornal era a província de Angola?
Era um matutino generalista, o principal
órgão de informação de Angola, que aliás deu
origem ao actual Jornal de Angola, órgão oficioso
do MPLA.
telex?
Não, pelo correio aéreo. Isto dá uma ideia de
como eram as coisas nesse tempo. Por exemplo,
n’ a província de Angola, o jornalista do Desporto
(e que mais tarde viria a ser o chefe de redacção)
era o mesmo homem que angariava publicidade
para o jornal. Não havia regra. Era tudo um
pouco sem ética e o pior é que nem sequer se
tinha noção disso.
Os termos ética e deontologia não se usavam?
Não, só ouvi falar disso mais tarde. Mas que
ser jornalista não era cobrar assinaturas, isso
sabia eu perfeitamente, mas não tinha outros
recursos e precisava de sobreviver. Logo que me
instalei com uma secretária minha e com capaci-
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Em termos tecnológicos, estava bem apetrechado?
Era a tipografia clássica.
Mas conhecendo como funcionavam os jornais aqui
em Lisboa, na mesma época, era parecido?
Só posso responder por avaliação posterior. A
única base de comparação que então eu tinha
era com o jornal onde comecei de facto, mas isso
foi uma actividade amadorística, nas férias,
quando ia para Lousada, onde o meu avô era
guarda-livros (hoje diz-se contabilista) no
Grémio da Lavoura. Havia lá o Jornal de Lousada,
onde publiquei os primeiros textos, inclusivamente artigos de fundo. Fiz uma página cultural
chamada Mensagem, de que alguns colaborado-
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res se tornaram conhecidos: um deles é o Carlos
Porto, crítico de teatro, começou lá.
Correspondia a um movimento cultural de
cinco jovens de Paredes, chamado Clarão.
Começámos a fazer a página no Jornal de
Lousada, porque não nos deixaram fazê-la n’ O
Progresso de Paredes. Achavam que nós éramos
uns fedelhos com a mania de intelectuais e não
nos deram espaço no jornal da terra. Acabei por
encontrar esse acolhimento no Jornal de Lousada,
talvez porque o meu avô paterno era influente
na terra. Comecei a escrever para lá umas coisas
e como adoeceu o homem que fazia os artigos
de fundo, disse ao administrador: «Se quiser, eu
faço». Ele aceitou e durante um tempo os artigos
de fundo do jornal foram escritos por mim, já
com notória propensão polemista.
Esse jornal ainda era muito parecido com os
do tempo do Gutenberg. Era tudo manual, ia-se
compondo letra a letra, linha por linha. Esse meu
primeiro contacto com os jornais fez-me impressão porque o sistema de composição era muito
rudimentar. Estou a falar do final dos anos 40,
princípio dos anos 50. Era muito vulgar, na
época, os jornais de província serem compostos
manualmente, só os grandes jornais tinham
linotypes e intertypes. Em comparação com o
Jornal de Lousada, é evidente que a província de
Angola era um periódico altamente evoluído porque tinha máquinas já de grande envergadura,
embora ainda não dispusesse de rotativa para a
impressão. A tiragem ainda não o justificava.
Mas era um jornal de grande circulação, que saía
em Luanda e era distribuído de manhã por todas
as capitais de distrito com ligações aéreas. Estive
lá uns tempos. Depois saí, ou melhor, fui posto
na rua porque houve um amigo, o escritor
Alfredo Margarido, que publicou no Diário
Popular, primeiro por meu intermédio e depois
noutros jornais, uma série de artigos sobre o
racismo na África portuguesa, sobretudo em
Angola. Esses artigos suscitaram uma reacção
intempestiva entre os colonos brancos. Sentiram
que estavam a ser postos em cheque. O Comércio
de Angola e a província de Angola insurgiram-se e
arremeteram contra o Margarido como se fosse o
demónio, num clamor emocional totalmente
desprovido de sentido crítico. Pretendiam pura e
simplesmente…
Achincalhar?
Exactamente. Achincalhar, chamar a atenção
da PIDE e pressionar as autoridades. De tal modo
que o governador-geral Sá Viana Rebelo fez um
despacho proibindo a residência do Alfredo
Margarido em Angola. O Margarido estava em
Lisboa, onde viera de férias, e já não pôde regressar. Eu escrevi-lhe, achava que ele devia levar o
assunto avante, ou seja: replicar aos ataques de
que fora alvo ao abrigo da Lei de Imprensa. Ele
assim fez, mandou-me as cartas, eu entreguei-as
com todas as formalidades legais, mas os jornais
não as publicaram. Um deles, alegando que a
Censura tinha cortado, o que até era provável; o
outro nem sequer perdeu tempo a dar-me uma
justificação. Achei que aquilo ultrapassava as
marcas e escrevi ao Margarido: «Manda-me uma
procuração», porque o processo só podia ser
accionado em Luanda, não podia ser ele aqui em
Lisboa a fazê-lo. Ele mandou-me uma procuração, eu fui ter com um advogado, que também fez aquilo por
militância e comentou: «Eh pá, “Era difícil
isto é indecente. Este gajo está a encontrar negros
ser encurralado».
que tivessem as
O advogado era o Eugénio habilitações
Ferreira, líder da Oposição, e
necessárias, pelo
como eu era um pelintra não se
menos que escrevessem
fez pagar pelo trabalho. Então
meti O Comércio de Angola e a em bom português”
província de Angola, que era o
meu jornal, no tribunal. Veio a
sentença, que aplicava multas e impunha aos jornais a publicação das cartas de resposta. Devo
dizer que as cartas de resposta nunca foram
publicadas porque a Censura não autorizou. O
poder executivo sobrepôs-se ao poder judicial e
impediu a publicação das cartas, embora as multas tivessem sido aplicadas. Em resultado deste
procedimento fui, mais uma vez, despedido.
Fiquei sem emprego e com dificuldades enormes,
até porque tinha uns vales à caixa, e quando fui
posto na rua estava completamente liso. Nem
sequer podia pagar a pensão onde residia. Fiquei,
de facto, muito aflito.
Aconteceu em que ano?
Deve ter sido por volta de 1957. Nessa altura,
em Luanda, havia três jornais diários. N’ O
Comércio de Angola e n’ a província de Angola tinha
sido despedido. O terceiro era o Diário de Luanda,
órgão da União Nacional, onde eu não era bem
visto, quer dizer, até era bem visto por alguns dos
seus jornalistas menos sectários. Mas era da
Oposição e como tal tinha a entrada cortada.
Portanto, fiquei sem possibilidade de arranjar
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Acácio Barradas
Acácio Barradas em reportagem no Uíge
trabalho nos jornais. Na emergência, um amigo
ofereceu-me emprego na Divisão de Transportes
Aéreos, (DTA, génese da actual TAAG), que tinha
vagas de tarefeiros para vários aeroportos.
Escolhi o mais distante de Luanda como se fosse
para o exílio. Foi assim que fugi (o termo não é
inocente) para Sá da Bandeira.
Estive cerca de um ano na DTA. Quando
houve a campanha eleitoral para a Presidência da
República, em que concorreu o general
Humberto Delgado, surgiu em Luanda um outro
jornal chamado ABC – Diário de Angola. Esse jornal surgiu um pouco à boleia das eleições. A tipografia que depois veio a imprimir o ABC foi a
mesma que fez os cartazes da propaganda do
Humberto Delgado em Angola.
O ABC ficou logo muito ligado à oposição. Eu
estava em Sá da Bandeira e comecei a escrever
para lá umas Crónicas da Huila. Era uma coisa
vagamente literária, com notória influência das
crónicas que o poeta Daniel Filipe então escrevia
do Porto para o Diário Ilustrado. Tal colaboração
parece ter agradado e foi o meu passaporte de
entrada para o jornal. A certa altura, o Machado
Saldanha, que era director executivo do ABC,
convidou-me para redactor e agarrei imediatamente essa possibilidade, regressando a Luanda.
O chefe de redacção era o José Mensurado,
que mais tarde teve em Lisboa funções idênticas
n’ O Século e adquiriu grande projecção na RTP,
porque fez as reportagens dos foguetões da
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NASA e foi pivot na transmissão da chegada do
Homem à Lua.
O José Mensurado entrou em litígio com o
Machado Saldanha, o tal director executivo, e quis
fazer uma greve no jornal. Eu não tinha nada a ver
com a guerra dele e disse ao Mensurado: «Acabo
de chegar, depois de ter tido uma vida infernal
para arranjar este emprego, agora arranjo este
emprego e já me estão a meter num sarilho enorme, ainda por cima nem sei se estás do lado da
razão. Ele começou a explicar-se e eu via que as
razões dele não justificavam tal atitude. O ABC era
um jornal diário, que devia ser feito em máxima
força de manhã e pelas três da tarde entrava na
máquina para sair à rua por volta das cinco, hora a
que os funcionários públicos saíam das repartições. Mas o José Mensurado era pouco madrugador e nunca conseguia estar no jornal antes das
onze, onze e meia, meio-dia. Isto não podia ser,
pelo que eu era muito crítico em relação à maneira como ele anarquizava a redacção. Disse-lhe:
«Tens uma maneira incorrecta de lidar com o jornal, porque eu quando aqui chego sei o que tenho
para fazer, mas há pessoas que ficam paradas à
espera de saber o que o que vais determinar, porque nem uma agenda fazes». Ele ficou muito chateado e eu resolvi ouvir também as razões do
Machado Saldanha. Acabei por não me solidarizar
com o Mensurado. Gerou-se uma ruptura e houve
uma reunião plenária na redacção, em que todos
falámos, dissemos o que tínhamos a dizer e no dia
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D, que o Mensurado tinha dado ao Machado
Saldanha para satisfazer as suas reivindicações,
como não tivesse recebido resposta, declarou:
«Então eu vou-me embora». Em boa verdade só
um jornalista se manteve solidário com ele, embora fosse sem dúvida o melhor. Era o Aníbal Melo,
que mais tarde se tornou combatente do MPLA e
é hoje uma das suas gloriosas referências.
No dia seguinte, encontro uma ordem de serviço a nomear-me chefe de redacção interino. Fiquei
em sobressalto e fui ter com o Machado Saldanha:
«Não posso aceitar por uma razão muito simples:
vão dizer que eu arranjei isto tudo para ficar com
o lugar do Mensurado». Diz-me o Saldanha: «Ai
sim? Então olhe para a redacção e encontre-me
alternativa». Verifiquei que não havia solução,
porque nenhum daqueles tipos que lá estavam
podia ser meu chefe. Nenhum deles revelara ter
qualidades para isso. A alternativa era contratar
alguém de fora, mas levaria tempo, pelo que não
tive outro remédio senão aceitar.
Que tipo de pessoas eram esses jornalistas?
O José Mensurado era um jornalista de grande gabarito. De todos nós, era o mais apetrechado tecnicamente. Falava e escrevia inglês na perfeição, lia a Time com desenvoltura. Portanto, era
um homem dotadíssimo para chefiar a secção
internacional de qualquer periódico. Tinha
excepcionais qualidades, tinha cultura, mas era
um indivíduo para quem não havia horas. Ora,
um jornal faz-se com ritmos horários rigorosos e
quem desempenha funções de responsabilidade
não pode prevaricar. Tem de ser um exemplo de
pontualidade e de regularidade.
O Aníbal Melo, que resolveu sair com ele,
mais tarde foi para a União dos Povos de Angola
(UPA), que depois deu origem à FNLA. Quando
viu o logro em que tinha caído, pois a FNLA era
bastante racista e desprezava os mestiços, transitou para o MPLA, cujo sector informativo dirigiu
durante muito tempo. O Aníbal Melo era uma
pessoa com grandes problemas psicológicos
(acabou por se suicidar já depois da independência pela qual tanto lutou) mas era um indivíduo extremamente habilitado. Os outros não.
Mas foi com esses que fiquei a fazer o jornal, o
que redobrou o meu esforço.
Havia negros na redacção?
O Aníbal Melo era o único mestiço. N’ a província de Angola existia um colaborador, o Luís
Alberto Ferreira, que também era mestiço. É pre-
ciso ver que o acesso dos naturais ao ensino era
muito mais difícil. O liceu em Angola é uma
coisa do princípio do século, mas realmente só
ganhou força nos anos 20 ou 30. Universidade
só houve nos anos 60, graças ao terrorismo, que
neste caso e em muitos outros
acabou por ter efeitos positi“Eu lia revistas e jornais
vos. Antes do terrorismo, não
se pensou sequer em abrir uma estrangeiros, procurava
universidade em Angola por- estudar as paginações e
que queriam que as pessoas acabei por me tornar um
viessem estudar para a metró- especialista nessa
pole. Isso dificultava o acesso
matéria. Tinha um
dos naturais às redacções. Era
misto de jornalista e de
difícil encontrar negros que
tivessem as habilitações neces- tipógrafo”
sárias, pelo menos que escrevessem em bom português. O Aníbal Melo é um
caso excepcional. O Luís Alberto Ferreira é outro
caso excepcional. Veio para Lisboa, foi redactor
do Jornal de Notícias e na televisão fazia comentários de tauromaquia, de que se tornou especialista. O Luís Alberto Ferreira até ganhou uma
alcunha: como escreve muitíssimo bem e é mestiço, houve quem o cognominasse de Camilo
Castelo Preto. Outro caso singular foi o
Bernardino Coelho, também mestiço, que em
Portugal chefiou a secção Cidade do Diário
Popular, mas que, enquanto em Angola, na
redacção d’ O Comércio chefiada por Ferreira da
Costa, raramente ia além do trabalho burocrático de passar à máquina os telegramas de agência, que então elidiam as palavras óbvias ou
intuíveis. Fazer de um jornalista com as qualidades do Bernardino Coelho um dactilógrafo
constituiu para mim uma inequívoca demonstração de racismo. Felizmente safou-se e veio
para Lisboa, onde foi devidamente avaliado e
considerado no Diário Popular.
Voltando ao ABC, como correu a experiência de chefe
interino?
Com enormes dificuldades. Eu nunca tinha
ido à tipografia para paginar o jornal e tive logo
que o fazer no primeiro dia. Tinha ideias, mas
ideias teóricas. Agora meter as mãos no chumbo… Tive uma aprendizagem complicada e acelerada. Uma das pessoas a quem eu mais devo no
jornalismo é a um tipógrafo mestiço chamado
Luciano. Cheguei ao pé dele sem saber mexer no
chumbo e ajudou-me imenso. Meio ano depois
eu já sabia mais do que ele, porque a sua aprendizagem tivera um fim, enquanto eu lia revistas e
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jornais estrangeiros, procurava estudar as paginações e acabei por me tornar um especialista
nessa matéria. Tinha um misto de jornalista e de
tipógrafo. Gostei muito da parte da tipografia e
comecei a mexer no chumbo, a sujar as mãos.
Tornei-me um mestre nessa matéria. Eu próprio
paginava já directamente nas ramas. A única
coisa que os tipógrafos tinham de fazer era o acabamento, fechar as ramas da página, porque
quanto ao recheio estava todo lá. Isto foi uma
coisa que em Lisboa surpreendeu muita gente,
em especial os tipógrafos do Diário Popular,
pouco habituados a ver jornalistas fazerem o seu
trabalho com tanta desenvoltura.
O ABC aguentou-se depois da campanha eleitoral
ca. Essa era uma das coisas que mais chateava a
Censura, a PIDE e as autoridades administrativas.
Cortavam muita coisa?
Sim, muito. Com algumas particularidades. A
Censura em Angola funcionava de uma maneira
que dava alguma latitude a certas coisas que aqui
não se podiam dizer, e lá podiam. Havia outras
que aqui se podiam dizer e lá não. Aqueles artigos do Margarido, por exemplo, a denunciar
situações de racismo em Angola, isso lá era praticamente impossível, mas aqui passou tudo,
mesmo num grande jornal fiel ao regime fascista
como o Diário de Notícias, ao tempo dirigido pelo
escritor Augusto de Castro.
de 1958?
O ABC não existia durante a campanha.
Passou a sair após as eleições. Até aí a tipografia
do ABC só imprimiu os cartazes eleitorais do
general Humberto Delgado. Mas o simples facto
de ter feito os cartazes criou uma expectativa em
relação ao jornal que não foi defraudada. Não
sendo verdadeiramente da oposição, era um jornal independente, tanto quanto possível. E em
Luanda era o único que não alinhava nas hossanas ao regime.
Como é que funcionava a Censura lá? Era como cá,
os censores viam as provas…
Funcionava no Palácio do Governo. O modelo
era exactamente o mesmo, embora os critérios
fossem por vezes dissemelhantes. Em certos
casos, a censura em Angola e também em
Moçambique era mais liberal. Noutros, era mais
dura, em especial se punha em causa o portuguesismo do Ultramar.
Enquanto jornalista em Angola, costumava ir a
outros países africanos em reportagem?
Viajar era quase proibitivo para os recursos da
época, a não ser quando se acompanhavam entidades oficiais, com tudo pago. Mas o ABC era o
único jornal que tinha uma secção diária exclusivamente consagrada a notícias de África. Os
outros jornais não, porque nos anos 50 e 60 as
independências foram sucessivas e eles procuravam sempre denegrir esses países que conquistavam a independência. O ABC era o único que
tinha uma visão positiva desse problema: considerávamos que Angola se situava no continente
africano, não podíamos ignorar a geopolítica e
devíamos dar relevo aos acontecimentos de Áfri-
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E o inverso, lembra-se de alguma situação?
Em 1967, houve na região de Lisboa enxurradas terríveis em que morreram mais de 500 pessoas. As fotografias de toda aquela miséria foram
cortadas nos jornais de cá, que não publicaram
quase nada. Era uma árvore aqui, uma coisa desgarrada ali, nada que tivesse a real dimensão dramática, as vidas humanas perdidas, o gado morto,
os haveres perdidos. Todas essas fotografias não
puderam ser publicadas cá, mas lá foram. Eu na
altura chefiava em Luanda a redacção da revista
Notícia e fiz um suplemento especial repleto com
as imagens aqui proibidas pela censura.
Só se vendia em Luanda?
Não, vendia-se cá também. Tinha uma edição
dupla. E a edição metropolitana incluía o slogan
«Notícia – uma lança de África na Europa». Era
uma revista semanal, saía aos sábados e, na altura, foi um órgão de informação influente.
Quando foi publicado esse suplemento, em 1967,
esgotou-se rapidamente. As pessoas viam finalmente as imagens da grande tragédia obtidas
por muitos dos melhores fotógrafos da Imprensa
metropolitana, e que só assim puderam chegar
ao grande público. Foi o que se chama um grande «furo» jornalístico. A Edite Soeiro, que era
chefe da redacção da delegação de Lisboa, comprou essas fotografias, mandou-mas e eu fiz lá o
suplemento sem que a Censura o impedisse. Por
que haveria essa diferença? A minha interpretação é que, lá, aquilo serviu para mostrar aos indígenas que os brancos também tinham miséria e
sofrimento, não acontecia só nas sanzalas.
Portanto, os critérios que regiam a Censura muda-
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vam em função da latitude?
E da percepção das pessoas, penso eu. No
ABC, a certa altura, tive um colaborador precioso
que fazia um jornalismo sensacionalista, de inspiração brasileira, embora com uma linguagem
tipicamente angolana. Ele gostava imenso e eu
explorava isso, fazia grandes manchetes com as
coisas dele e até mandava anunciá-las por uma
carrinha sonora. Era um grande repórter angolano chamado Ernesto Lara Filho. Por vezes fazia
coisas um bocado demagógicas mas eu alinhava
naquilo porque ele sabia seduzir com as palavras.
Por exemplo, passavam em Lisboa altas personalidades que em Angola eram mitificadas, sobretudo personalidades brasileiras porque nós em
Angola acompanhávamos muito as actualidades
do Brasil. Fascinavam-nos as revistas brasileiras,
o Cruzeiro, a Manchete. Um dia, o Ernesto entrevistou aqui o Jânio Quadros…
Esse repórter trabalhava em Lisboa?
Ele era de lá, nasceu em Benguela, mas estava
cá a estudar e depois acabou os estudos e ficou
por aqui uns tempos, já não me lembro em que
situação. Sei que estava em Lisboa e mandavanos artigos e entrevistas com frequência. O Jânio
Quadros foi Presidente do Brasil, subiu ao poder
na altura em que o capitão Henrique Galvão
andou às voltinhas com o paquete Santa Maria no
meio do Atlântico.
Foi quem lhe concedeu o estatuto de exilado políti-
politicamente delicadas quando se referia especificamente a Angola e não a Portugal. Resolvi
arriscar: escolhi umas letras garrafais de madeira
próprias para cartaz e paginei em duas linhas
fortes a frase do Jânio, que se via a cem metros,
por cima da sua fotografia.
Uma paginação à Diário Popular ?
Uma paginação mais à brasileira. O título
berrava como um cartaz. Aquilo vai à Censura,
que por distracção não entendeu o sentido político da frase. Mas logo que o jornal saiu para a rua,
as reacções não tardaram, sobretudo por parte
dos meios oficiais lisboetas. Fui chamado ao
Palácio, fui chamado à PIDE, mas fiz-me de
parvo. Depois aquilo acabou por não dar em
nada, a menos que quisessem arranjar mais um
sarilho diplomático com o Brasil. E quem foi
corrido foi o censor.
Após este episódio, durante uns tempos a
Censura via tudo à lupa e cortava mais do que devia, numa “Em certos casos, a
autêntica retaliação. O pior é censura em Angola e
que passei a ter que mandar o em Moçambique era
jornal à Censura já paginado,
mais liberal. Noutros,
para eles verem o próprio estréera mais dura, em
pito do título e respectiva localização. Nunca fiquei preso mas especial se punha em
fui numerosíssimas vezes inte- causa o portuguesismo
rrogado pela PIDE por causa de do Ultramar”
matéria publicada no ABC que
tinha passado o crivo da Censura.
co quando o barco aportou no Recife.
Exactamente. O Henrique Galvão esteve dois
dias à espera de entrar com o barco, à espera que
o Jânio Quadros tomasse posse. O Jânio era um
indivíduo de direita. Simplesmente, em relação
ao regime ditatorial português, funcionava como
um democrata. O símbolo político do Jânio
Quadros era algo que nesta altura volta a fazer
falta no Brasil (e em Portugal idem aspas): uma
vassoura. Significava a pretensão de correr com
todos os corruptos da administração pública. O
Jânio Quadros passou por Lisboa e o Ernesto
teve artes de o conseguir entrevistar. No meio da
entrevista, uma frase do Jânio ressoou como um
tiro na minha cabeça: «Se for eleito visitarei
Angola». Resolvi fazer com ela uma manchete
especial, embora temeroso de um corte da censura. Repare-se no melindre: Angola não era um
país independente, era oficialmente uma província do Ultramar português. Logo, o Jânio
Quadros exorbitava e interferia com situações
O trabalho no ABC foi a sua experiência jornalística
em Angola mais relevante?
Estive no ABC em quatro períodos distintos,
sempre como chefe de redacção. Mas em 1962
resolvi aceitar uma operação de risco e fui para o
Jornal do Congo, que se publicava no Uíge, ou seja
no coração do terrorismo da UPA.
O terrorismo começou em Angola em Março
de 1961. O chefe de redacção do Jornal do Congo
foi baleado, não se sabe bem como. Se foi uma
bala desgarrada, nunca se percebeu bem de onde
é que proveio. Ele não morreu, mas ficou deficiente e na emergência foi preciso contratar novo
chefe de redacção. Como o linotipista do jornal
me conhecia do ABC, fez-me tais referências que
lhe pediram para me sondar. E convidaram-me
por engano, pois não sabiam que eu detestava o
jornal e a sua demagogia e que estava decidido a
combatê-la por dentro, utilizando a táctica trotskista do entrismo.
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Acácio Barradas
me assenhorear do jornal e de lhe conferir alguma dignidade. Quis sobretudo acentuar, numa
região onde imperavam os ódios raciais, que os
negros não eram apenas terroristas, tinham uma
cultura e uma identidade dignas de respeito.
Enfim, fiz tudo o que quis e me apeteceu sem dar
satisfações a ninguém.
Álvaro Barradas,
pai do Acácio,
trabalhou com
Reinaldo Ferreira
como fotógrafo
Em situação de guerra, como foi possível essa
liberdade?
Verifiquei que o director do jornal era um panhonhas, estava ali só para dar o nome.
O que aliás era típico nos directores dessa época,
não é?
Os donos do Jornal do Congo eram os homens
do café, quinze proprietários que fizeram uma
sociedade, cada um tinha a sua quota, não me
conheciam, precisavam de um jornalista que
fosse do contra, um indivíduo enérgico, decidido e que não alinhasse facilmente com o poder,
porque eles, na altura, estavam envinagrados
com o poder por terem os seus interesses ali
postos em causa. A tropa nunca mais vinha e
mesmo quando chegou não dava a protecção
que eles reclamavam para as suas propriedades.
A tropa considerava que defender os interesses
de Portugal não era a defesa dos interesses dos
cafezeiros. E foi assim que, para exclusiva protecção das propriedades, foi criado um corpo de
voluntários.
Como era o Jornal do Congo antes da sua entrada?
Era um jornal sem critério, mas que vendia
muito pela demagogia que o caracterizava. Dizia
uma coisa na primeira página, na última dizia o
contrário, chegava inclusivamente a defender
posições racistas em determinados artigos.
Lembro-me de ler lá um artigo em que se proclamava: «Precisamos de fazer aquilo que a África
do Sul fez». No fundo, era o apartheid. Isto ao lado
de outros artigos que defendiam a «nação multirracial e pluricontinental». Era uma coisa sem rei
nem roque, uma desordem, correspondia um
pouco à maneira de ser do tal chefe de redacção
anterior, Sousa Costa. Pensei um bocadinho e
resolvi aceitar. Fui para lá e tive uma estratégia de
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Era típico, porque em Angola havia uma lei
que impunha que os directores fossem licenciados. Alguns proprietários de jornais, não tendo
licenciatura e precisando de um director, iam
pedir a um amigo licenciado que desse o nome
para o cabeçalho. Alguns ganhavam por isso,
outros aceitavam por mera vaidade. Mas havia
casos escandalosos. Por exemplo, o ABC teve
como director um engenheiro que vivia em
Lisboa e que nunca conheci. Eram pessoas que
davam o nome só para figurar no cabeçalho e
mais nada.
No caso do Jornal do Congo, o director era
deste género mas também era vaidoso e a minha
estratégia com ele foi dizer-lhe: «Gostava de
receber instruções suas». Ao que ele respondeu:
«O senhor é que sabe, é que é jornalista». Então
continuei: «Pois fique sabendo que não recebo
instruções de mais ninguém. Os homens do café
têm o dinheiro, mas não dispõem de autoridade
editorial. Para mim, o director é o director». Ele
sentiu-se todo inchado e quando eu tinha lá os
homens do café a chatear-me por causa das coisas que eu punha no jornal, desculpava-me com
ele: «Os senhores escusam de me pressionar,
quem manda aqui é o director». Saíam dali furiosos comigo, mas não podiam fazer nada porque,
do ponto de vista formal, a minha atitude era
legítima. Mal eles saíam, eu pelo telefone avisava o director para ele não ser comido pelos
outros e a partir daí estava tudo OK. Aquele
director era o ideal para mim. O jornal fez-se
como eu quis. Um jornal bastante independente,
devo dizer, numa zona extremamente difícil que
estava em guerra.
O mais curioso é que a própria PIDE reconheceu o meu papel no Jornal do Congo e, mesmo a
contragosto, prestou-me justiça, como mais tarde
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verifiquei ao consultar os seus arquivos na Torre
do Tombo. Dizia, cito de memória, mais ou
menos isto: antes da entrada do Barradas, o Jornal
do Congo era escarnecido na Associação dos
Naturais de Angola. Mas depois passou a ser lido
ali com o maior interesse. Senti-me recompensado com esta medalha do inimigo.
O certo é que no Uíge não fiz só o jornal, animei aquilo, criei um Cine-Clube e levei lá a
Amália Rodrigues a cantar para a tropa.
O jornal também patrocinava espectáculos?
Só dessa vez, devido à minha maneira de ser.
Foi uma cena engraçada, porque a Amália teve
que cantar de dia, no único recinto onde era possível fazer o espectáculo sem o risco de sermos
atacados pela UPA: numa grande piscina e ao ar
livre. Era perigoso ser à noite, porque a segurança seria reduzida e não queríamos arranjar problemas com a Amália. Levei algum tempo a convencê-la a cantar de dia, pois detestava fazê-lo e
acabou por cantar de óculos escuros, como faz
hoje o Pedro Abrunhosa. Na altura, disse-me: «É
a primeira vez que faço isto na minha vida, porque eu só canto à hora das bruxas».
A Amália foi a Angola em digressão e ofereceu
alguns espectáculos para as Forças Armadas. E
para ela não correr riscos, programaram os espectáculos para Nova Lisboa e Benguela. Como
achei isto indecente, fui a Luanda esperá-la e
disse-lhe: «Então a senhora vai cantar para tropa
nos sítios onde não há guerra?». Ela era muito
viva e de compreensão rápida. «Quem é você?»,
começou por indagar. Expliquei que era jornalista e estava no Uíge. Ela nem pestanejou: «Tenho
dois dias livres na minha visita a Angola. Se quiser, arranje o espectáculo para um destes dias que
eu vou lá». Eu assim fizi, tive que tratar de tudo,
avião, alojamento e ela foi lá cantar nessas condições. Note-se que nessa altura a Amália estava no
auge, tendo acabado de editar o que, para muitos, é o seu disco emblemático: Com Que Voz. A
sua actuação no Uíge foi verdadeiramente inesquecível, pois a vibração do acolhimento despertou nela uma fortíssima emoção que se exprimiu
de maneira sublime. Obrigou-me a apresentá-la
antes de entrar em cena, o que me levou a receber a maior ovação da minha vida.
Quando saiu do Jornal do Congo?
Acabei por sair do Jornal do Congo apenas nove
meses depois de nele ter ingressado, devido a um
problema de carácter familiar, relacionado com
aquela minha primeira filha «acidental». Tive de
vir com urgência ao Puto, que era a nossa designação mais carinhosa para Portugal Continental.
E para vir cá, tinha que ser substituído, porque eu
no jornal era tudo.
Não havia outras pessoas na redacção?
Eu era chefe de uma redacção que não existia,
só tinha colaboradores. Não havia possibilidade
nenhuma de eu deixar o jornal durante um mês
ou mais. Então, fiz-me substituir por um excelente jornalista, o Emílio Filipe (já falecido), que
ficou lá uns tempos. Mas quando ele saiu, fê-lo
sem as minhas preocupações de deixar o posto
bem entregue e o jornal caiu nas mãos da extrema-direita. Isto mostra como é que aquele jornal
flutuava conforme o chefe de redacção e sem a
menor interferência do director.
Devo dizer que tive um bom interlocutor na
pessoa do major Rebocho Vaz. Na altura era
governador do Uíge e até intervinha muitas
vezes para levantar cortes de censura. Era um
militar esclarecido e dialogante. A qualquer hora
eu chegava ao palácio para pôr um problema, ele
mandava esperar e logo que
tivesse oportunidade recebia- Chamei os fotógrafos
me. Eu expunha-lhe o proble- da publicação e
ma, ele dizia sim ou não, mas
desafiei-os: «Pàzinhos,
sempre sem peias, sem probletemos aqui a
mas burocráticos, nem salamaleques. Foi sempre uma pessoa possibilidade de fazer
extraordinária, nesse aspecto. brilhar o vosso
Mais tarde, veio a ser governa- trabalho. Vamos deixar
dor-geral de Angola.
as fotos miniatura e
E depois da vinda a Portugal,
trabalhar em grande»
onde retomou a profissão?
Regressei ao ABC, para o cargo de chefe de
redacção, porque as pessoas que ficavam no
lugar tinham sempre dificuldades de trato com o
Machado Saldanha, e eu conseguia superar isso
tudo. A única coisa que não consegui superar foi
o vil metal, pois ele era um forreta e nunca me
pagou (a mim e a ninguém) de forma justa e
compensadora.
Os jornalistas ganhavam mal?
Em relação ao comum dos mortais, o jornalista tinha um vencimento que lhe dava um estatuto social relativamente elevado. Era uma profissão com um nível de rendimento acima da
média. Por exemplo, no ABC, onde eu me queixava de ganhar mal, auferia seis mil escudos. Não
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Acácio Barradas
era muito, não era pouco. Eu é que tinha responsabilidades familiares e diziam que vivia acima
das minhas posses. Quando vim embora para
Portugal Continental, em 1968, já ganhava dez
mil escudos, o que poderia ser considerado bastante bom se tal rendimento não fosse afectado
por subtracções como a pensão determinada pelo
tribunal para os meus filhos menores e outros
encargos familiares de carácter fixo.
Depois do ABC, transitou directamente para o
Diário Popular?
Depois do ABC ainda trabalhei em Luanda
nas revistas Noite & Dia e Notícia, de que o jornalista Charulla de Azevedo entretanto se tornara proprietário, graças ao apoio dos empresários
Manoel Vinhas e Caetano Beirão da Veiga. O
Charulla ficou dono de um pequeno império
que incluía uma gráfica, uma agência de publicidade e as Listas Telefónicas Classificadas. Tinha
33 anos e um promissor futuro, mas não resistiu
ao peso das responsabilidades e teve um enfarte
fulminante. Depois disso, os chacais entraram na
liça para disputarem o poder com intrigalhadas e
eu abomino esses joguinhos de salão, pelo que
pensei livrar-me daquilo na primeira oportunidade.
Foi nessa altura que a Edite Soeiro se deslocou
a Luanda para uma visita de trabalho…
A Edite Soeiro foi sua mulher...
Foi o que hoje se chama uma «união de facto».
Temos um filho, o Luís Barradas, que utilizou os
genes dos pais para outra forma de comunicação:
a publicidade. Foi por causa da Edite que eu voltei ao Puto, porque ela foi a Angola numa visita
de trabalho e ficamos enamorados. A solução era
ela voltar para Angola ou eu vir para Portugal.
Acabei por ser eu a dar o salto, até porque se tornava mais fácil e já se adivinhava que os brancos
tinham os dias contados em Angola, mesmo os
que haviam resistido ao fascismo e se haviam
solidarizado com os nacionalistas que lutavam
pela independência, como era o meu caso.
Na revista Notícia, teve alguma acção determinante?
Entre outras acções determinantes, fui eu que
transformei esse semanário em revista. O que se
verificou mal entrei, por circunstâncias fortuitas.
O Charulla de Azevedo, que era redactor do
semanário, ia estar ausente para uma reportagem
de três semanas na República Federal Alemã e
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pediu-me para eu o substituir. Na altura, o administrador da publicação, António Alves Simões,
deu uma volta comigo pelas instalações da
empresa e, na tipografia, disse-me: «Sabe, eu
tenho estas máquinas de offset que comprei para
imprimir os boletins do Totobola. Mas para o efeito só as utilizo dois dias e ficam paradas o resto
da semana. Se você quiser, pode experimentar
imprimir aqui alguns cadernos da revista, tirando
maior partido das imagens». Perguntei ao
Charulla se via algum inconveniente em que eu
tentasse a experiência durante a sua ausência e
ele deu-me carta branca.
Na altura, havia uma revista francesa de que
eu gostava muito, a Paris Match, quando havia
um acontecimento importante punha grandes
fotografias a morder a página, sem margem. Era
aquilo que eu tinha imaginado sempre, que via
também n’ O Cruzeiro e na Manchete do Brasil.
Chamei os fotógrafos da publicação e desafieios: «Pàzinhos, temos aqui a possibilidade de
fazer brilhar o vosso trabalho. Vamos deixar as
fotos miniatura e trabalhar em grande». Enfim,
entusiasmei-os. E o resultado foi imediato.
Comecei por alterar o caderno que incluía a capa
e as páginas centrais. Deu logo nas vistas e toda a
gente gostou. Tanto que quando o Charulla
regressou da Alemanha, disse-me: «Isto é bestial.
Já não sais de cá». Progressivamente, a revista foi
mudando até ficar completamente feita em offset.
Eu comecei a trabalhar em offset muito cedo, em
meados dos anos 60, em Angola.
Então isso foi antes de existir offset nos jornais de
Lisboa?
Muitos anos antes. Só voltei a trabalhar com o
offset já nos anos 70, no Diário Popular.
Nessa altura, já lá não estava o Francisco Pinto
Balsemão?
Não. O Balsemão saiu da empresa antes dessa
renovação gráfica, que ficou a dever-se ao seu
inimigo figadal Braz Medeiros. Mas foi o
Balsemão que, em 1968, me admitiu no jornal,
depois de uma recomendação do Luís Fontoura.
Quando fui falar com o Balsemão vi que, a par
das informações positivas do Fontoura, também
recolhera a meu respeito informações negativas,
pois a dada altura atirou-me com esta: «Ouvi
dizer que você é muito makeiro», o que em linguagem luandense significava agitador. Fixei-o nos
olhos e respondi ao comentário com um desafio:
«Sabe, Dr. Balsemão, não gosto que me pisem o
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rabo e se o fazem reajo à bruta. Mas se o tranquiliza admitir-me experimentalmente, digo-lhe já
que não me oponho, pois considero a experiência
recíproca. Julgo que bastam três meses». Ele
anuiu e perguntou-me o que é que eu sabia fazer.
«Olhe – disse eu – prefiro dizer-lhe aquilo que
não sei. Não sou excepcional em nada, sou razoável em muitas coisas e tenho um handicap: não
falo inglês, que é uma coisa que cada vez vai
sendo mais necessária, e falo mal francês. Em
matéria de línguas, não sou nenhum barra. Mas
domino as técnicas da profissão, quer como
redactor quer como paginador».
«E politicamente, como é?» – interrompeu-me
de chofre. «Sou democrata», respondi. Ao que ele
replicou: «É disso que a gente precisa». Dessa é
que eu gostei, porque na altura isto era tudo
muito complicado sob o ponto de vista político e
eu tinha cadastro na PIDE.
Chegou a Lisboa em plena Primavera marcelista?
Entrei no Diário Popular em 1968, para aí em
Março, Abril. O Salazar caiu da cadeira uns meses
depois. A minha entrada no Popular verificou-se
antes, ainda não havia a ala liberal da
Assembleia. Francisco Balsemão trabalhava num
gabinete ao fundo da redacção e tinha, de facto,
um certo poder lá dentro, que era contrariado
por uma corrente forte da redacção, a dos veteranos, que se sentiam mais ligados ao administrador Braz Medeiros, que era legionário e presidente do Sporting. O Balsemão estava a entrar num
terreno que tinha sido dominado (e até minado)
pelo Braz Medeiros. Estava a querer renovar os
quadros, com pessoas mais arejadas. Eu entrei
nessa leva de pessoas contratadas por ele e que
tinham uma nova visão do mundo.
Que tipos de serviços é que fez no Popular?
Fiz tudo. E com grande prazer. Como tinha sido
chefe de redacção em vários periódicos, raramente podia sair para a rua em reportagem, estava
muito agarrado à secretária, a rever os textos dos
outros, a organizar, a paginar. De repente, ali
comecei outra vez a ir para a rua, a ir em busca das
notícias, a escrever reportagens e eu adorava isso.
Quando descobriram que eu tinha jeito para a
paginação, resolveram explorar essa faceta e lixaram-me com funções de chefia. Comecei outra
vez a rever o trabalho dos outros, mas eu próprio
a ter uma criatividade menor, a não ser a criatividade que se traduz em títulos e em descobrir
temas para investigar.
Muitas vezes me arrependi de ter demonstrado o meu jeito para a paginação, pois quando
viram que era capaz de associar o jornalismo à
tipografia e fazer coisas na tipografia que os próprios tipógrafos ficavam espantados, deixei de
fazer reportagem. A verdade é que eu estava
mais avançado do que eles, porque já trabalhava
em offset.
Basicamente, saía uma impressão mais limpa e
permitia tirar muito mais cópias...
Tinha todas as vantagens. Era um trabalho
limpo, tecnicamente mais avançado, simplesmente havia a “O Balsemão estava a
oposição dos tipógrafos e querer renovar os
mesmo de muitos jornalistas. O
quadros, com pessoas
offset praticamente acabou com
mais arejadas. Eu
os tipógrafos. Passaram a ser
técnicos de bata branca, a tra- entrei nessa leva de
balhar com pinças, os mais tos- pessoas contratadas por
cos não conseguiram transitar ele e que tinham uma
de uma tecnologia para outra. nova visão do mundo”
Houve uma oposição forte,
mesmo de muitos jornalistas que sentiam que já
não sabiam mexer naquilo.
Quando o Diário Popular comprou a primeira
máquina rotativa em offset, a Goss, eu fui a França
com uma equipa de operários, de tipógrafos, o
homem da gravura, dois chefes de tipografia, os
dois impressores, um grafista. Era um grupo de
uma dezena de trabalhadores especializados. Fui
com eles a França ver trabalhar a Goss, para se
fazer a compra e para eles terem lá uma primeira formação com os técnicos franceses. Ficámos
lá quinze dias para ver funcionar a máquina, ver
as aptidões que ela tinha, para poder ensinar
depois as outras pessoas. Eu fui escolhido para
chefiar o grupo porque era o único no Diário
Popular que sabia daquilo. O problema maior foi
convencer os meus chefes que eles não iam ser
postos de lado. As pessoas tinham um medo
terrível do offset, circunstância agravada pelo
facto de no Diário de Lisboa, primeiro jornal português a adoptar o sistema, o administrador
Lopes do Souto ter feito daquilo um mistério só
acessível a raros.
Quando criou o Expresso, o Balsemão levou
alguém com ele do Popular?
Vou-lhe contar uma coisa que ainda hoje me
causa engulhos. O Balsemão viu-se forçado a sair
do Diário Popular, porque o Braz Medeiros soube
aguardar a oportunidade de o incompatibilizar
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Angola, anos 60: o repouso do jornalista
com o tio, que também se chamava Francisco
Balsemão, e que era detentor da quota principal.
Havia um acordo entre o Braz Medeiros e o
Balsemão tio, de acordo com o qual se um deles
saísse, o outro também sairia. Quando o
Balsemão sobrinho foi eleito para a ala liberal da
Assembleia Nacional e patrocinou a defesa de
uma Lei de Imprensa, o Braz Medeiros influenciou o tio de forma tão negativa que ambos decidiram vender o jornal ao banco Borges & Irmão,
onde o Dr. Miguel Quina era figura de proa. O
Francisco Pinto Balsemão não teve outro remédio
se não bazar, porque ficava em minoria. Em contrapartida, o Braz Medeiros regressou em força
ao jornal, nomeado pelo Miguel Quina como
presidente do Conselho de Administração. Um
golpe de mestre.
Naquelas circunstâncias, tomei a iniciativa de
assinalar a saída do Francisco Pinto Balsemão
com um jantar de homenagem, pondo em relevo
o seu desempenho na defesa de uma Lei de
Imprensa que pretendia pôr termo à Censura.
Fiz um abaixo-assinado que percorreu não só a
redacção mas todas as secções da empresa em
busca de inscrições. E o resultado foi curioso.
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Numa casa com algumas centenas de empregados e em que muitos, sobretudo jornalistas,
deviam favores pessoais ao Balsemão, só houve
umas trinta inscrições para o jantar. Tudo por
medo do Braz Medeiros, que diziam vingativo. E
como eu era o autor da iniciativa, ninguém dava
nada pela minha pele, coisa para que eu aliás me
estava borrifando, pois nesse tempo não me faltavam convites para outros jornais. Mas a verdade é que o clima que gerei era de cortar à faca e
o próprio redactor principal, José de Freitas, que
se blasonava da oposição e até aí fora obsequioso comigo, pura e simplesmente deixou de me
falar, mesmo para corresponder a uma simples
saudação.
O certo é que não fui vítima de nenhuma retaliação por parte do Braz Medeiros e, pelo contrário, muitos daqueles poltrões que deveriam ter
ido ao jantar até porque lhe deviam o emprego, a
protecção e outros favores, vi-os depois serem
desprezados pelo Braz Medeiros, ao qual pretendiam bajular. Uma saborosa ironia, assente na
psicologia muito própria do Braz Medeiros, para
o qual os homens ou têm ou não têm tomates. E
como eu mostrara que tinha tomates, ele achou
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por bem respeitar-me, até porque as informações
dos veteranos sobre as minhas qualidades profissionais eram muito positivas. Daí que me tenha
pago com mais generosidade do que o Balsemão,
que sob este aspecto sempre foi «unhas de fome».
Depois de tudo isso, o Balsemão não o convidou
para o Expresso?
Ora aí está uma pergunta que abre caminho
para a tal situação que ainda hoje me causa
engulhos. Um dia o Balsemão convidou-me a
visitá-lo na Braamcamp, onde o Expresso se instalou até se mudar para Paço de Arcos. Mostrou-me
o projecto gráfico do jornal, pediu-me opinião
sobre vários assuntos, inclusivamente sobre o
melhor dia para a publicação, referiu o nome de
alguns colaboradores e disse que iria em seguida
criar o quadro redactorial, perguntando-me se eu
estava interessado na aventura. Respondi-lhe
sem pestanejar que podia contar comigo se e
quando quisesse, pois o projecto jornalístico dele
era cativante. Não se falou de cargos a desempenhar, nem de remunerações a pagar. E saí dali
com a garantia de que ele me iria contactar em
breve. Até hoje.
Quando recebi convite para o lançamento do
Expresso, não fui. Achei que o comportamento
dele fora, no mínimo, descortês. E pelo que sei
das suas idiossincrasias, não tenho dúvidas que
algum dos meus «amigos da onça» lhe tenha feito
chegar aos ouvidos uma intrigazinha a meu respeito, que o dissuadiu de me convidar. Este lado
fraco do Balsemão, tão permeável à intriga, é
uma das suas facetas mais negativas, que o José
António Saraiva documenta de forma expressiva
nos livros autobiográficos que escreveu sobre o
Expresso, de que foi director ao longo de 22 anos.
Voltando ao Diário Popular, como definiria o posicionamento político do jornal?
Curiosamente, era um jornal que, estando
ligado ao regime, tinha lá dentro muita gente que
não era e fora admitida pelo Francisco Pinto
Balsemão. Portanto, no 25 de Abril foi fácil a
adaptação, excepto nalguns quadros superiores.
Mais de metade da redacção estava mortinha por
que aquilo acontecesse para poder ter outro comportamento. Aqueles que não acompanharam,
ficaram a marcar passo. Mas não fizemos saneamentos abaixo da administração, cumprindo
escrupulosamente a máxima de que «trabalhadores não saneiam trabalhadores». Sob tal aspecto,
fomos exemplares.
O próprio chefe de redacção, coitado, no dia
25 de Abril, foi completamente ultrapassado
pelos acontecimentos. Nunca deixou de enviar os
textos à Censura, até que o estafeta lhe disse: «Ó
sr. Dr., já não está lá ninguém». Ele mandava
aquilo tudo e ainda dizia para o homem da agenda: «Não te esqueças que amanhã o Chefe de
Estado vai não sei onde!». A malta ria-se com
aquilo tudo. O país a cair por todos os lados e ele
ainda estava naquela onda do antigamente.
Refere-se ao Fernando Teixeira?
Sim, ele não estava preparado para os novos
tempos. Acabou por ser promovido a director do
Jornal do Comércio durante uns tempos. Foi a
maneira que o Miguel Quina arranjou de ele ficar
com um lugar qualquer.
O Diário Popular, nos anos 60, era o jornal português mais dinâmico?
Era um jornal com uma grande influência,
vendia cento e tal mil exemplares por dia, era
mesmo popular. É difícil hoje nós encontrarmos
uma redacção com as características que tinha o
Popular desse tempo! Havia
uma mesa de telefones e todos “Quando o Joaquim
os dias era marcado o serviço de Agostinho estava a correr
telefones a três ou quatro jornana Volta à França e todos os
listas. Os telefones estavam
sempre a tocar e eram os leito- dias acabava a etapa, os
res que nos davam notícias, leitores pretendiam saber
informações ou a fazer pergun- em que lugar chegara e para
tas que nos davam pistas para onde é que telefonavam?
informação. Por outro lado, serPara o Diário Popular”
via para o repórter que ia a um
lado qualquer passar as informações pelo telefone, muitas vezes em cima da
hora de fecho e tínhamos de redigir ali as notícias
muito rapidamente. As fontes permanentes eram
os hospitais, a polícia, os bombeiros e depois
íamos aos sítios saber mais detalhes quando
havia alguma coisa que justificasse. Havia serviços de rotina. Por exemplo: se uma pessoa importante estava doente, seguíamos dia-a-dia a sua
evolução. Houve uma ocasião uma senhora que
me encontrou na rua e me disse: «Ai, eu quero
agradecer-lhe imenso porque sei que o senhor
mandava todos os dias telefonar para saber da
saúde do meu marido, foi uma atenção que a
gente não pode esquecer». Uma atenção! Nós
estávamos a fazer de vampiros, queríamos era
dar a notícia logo que essa pessoa morresse!
Quando o Joaquim Agostinho estava a correr
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MEMÓRIA
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Acácio Barradas
na Volta à França e todos os dias acabava a etapa,
os leitores pretendiam saber em que lugar chegara e para onde é que telefonavam? Para o Diário
Popular. O jornal tinha uma ligação profunda ao
leitor, nunca vi uma coisa assim. Cultivava-se
esse espírito. Os jornalistas que iam para os telefones atendiam os leitores com simpatia e delicadeza. Muitas vezes os leitores ligavam a dizer:
«Olhe, passaram aqui na rua três ambulâncias,
sabem o que aconteceu?». O jornalista respondia:
«Não sabemos, mas telefone daqui a dez minutos
e a gente já lhe diz». Averiguávamos a informação e se, por vezes, era uma coisa sem importância, outras vezes tinha. Mas éramos constantemente alertados pelos leitores para tudo e mais
alguma coisa.
O jornal pagava aos informadores que tinha nesses
locais estratégicos?
Alguns eram pagos. Outros tinham a chamada
«benesse». O jornal tratava bem as pessoas que
lhe davam informação ou facilidades. Vou-lhe
dar o exemplo dos polícias sinaleiros. Quando o
Diário Popular saía da oficina, tinha que se levar os
jornais a Santa Apolónia para apanhar o comboio
para o Norte. E no trânsito para Santa Apolónia
havia três polícias sinaleiros que eram fundamentais para não haver atrasos. O trânsito parava para deixar passar o carro do Popular. Esses
polícias sinaleiros recebiam todos o jornal do dia.
O jornal era uma coisa a que todos os nossos
informadores tinham direito e alguns também
recebiam uma avença. Quem não tinha avença,
por alturas do Natal recebia uma prenda. Havia
sempre pessoas a quem o jornal obsequiava com
prendas de maior ou menor valor, consoante a
importância do seu contributo para a nossa missão informativa.
mas. Entre os jornalistas, nessa época, houve
uma renovação. A Universidade, ainda que na
altura não houvesse cursos de jornalismo, começou a criar novos quadros e novos valores. Eu sou
um autodidacta, mas não defendo os autodidactas. Prefiro os que se qualificam pela formação
académica, embora não tenha ilusões sobre a
qualidade do nosso ensino superior, que tantas
vezes é de pacotilha.
Em termos políticos, com a subida do Marcelo
Caetano ao poder, sentiu alguma mudança com
reflexos no trabalho dos jornalistas?
Não sei se directamente por causa do Marcelo.
Acho que já havia antecedentes. Para além dos
acontecimentos no resto do mundo, a nível interno, para mim, houve duas coisas fundamentais:
uma foi o facto de os estudantes, até por egoísmo,
não quererem ir lutar para o Ultramar. Achavam
que a Guerra Colonial não tinha nada a ver com
eles e a perspectiva de terem que pôr uma farda
e irem para a guerra gerou uma crise estudantil
que atravessou todos os anos 60.
O facto de haver uma ditadura punha a juventude contra o poder instituído, sobretudo depois
da grande sacudidela das eleições do Humberto
Delgado, cujos resultados foram fraudulentos.
Essa atmosfera de contestação abalou todos os
anos 60 com múltiplos sismos cujas ondas se
foram propagando. A ditadura, a Guerra
Colonial e a repressão contribuíram para que a
revolta fosse cada vez mais latente. A repressão
da PIDE e da Censura foi particularmente intensa nesse período. JJ
Concorda que os anos 60 foram anos de viragem...
E de crise! Por exemplo, a questão do offset foi
uma revolução que, do meu ponto de vista, criou
mais vítimas do que a informática. O ambiente
do computador, passada a primeira barreira, é
amigável. Agora, a transição do chumbo para offset foi grave porque deu cabo da classe dos tipógrafos.
Em Inglaterra provocou greves com destruição de material. Eles lá são mais brutos do que
nós e houve coisas terríveis. Nós aqui conseguimos passar sem as guerras que houve lá fora, foi
uma coisa relativamente pacífica, talvez porque
os portugueses são mais resignados, mas fez víti-
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Fernando Correia e Carla Baptista, Jornalistas.
Do Ofício à Profissão. Mudanças no Jornalismo
Português (1956-1968), Caminho, 2007.
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Acácio Barradas Uma perda irreparável