UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA ESCOLA DE DANÇA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DANÇA MARÍA LAURA CORVALÁN O desvendar do vento: manifestações artísticas da dança de orixás. Salvador 2012 MARÍA LAURA CORVALÁN O desvendar do vento: manifestações artísticas da dança de orixás. Dissertação a ser apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Dança da Universidade Federal da Bahia como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Dança. Orientadora: Profa. Dra. Gilsamara Moura Robert Pires Salvador 2012 Sistema de Bibliotecas da UFBA Corvalán, Maria Laura. O desvendar do vento : manifestações artísticas da dança de orixás / María Laura Corvalán. 2013. 116 f. : il. Orientadora : Profª. Drª. Gilsamara Moura Robert Pires. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal da Bahia, Escola de Dança, Salvador, 2012. 1. Bispo, Tania. 2. Soares, Isa. 3. Dança - Traduções. 4. Dança dos orixás. 5. Dança moderna. I. Pires, Gilsamara Moura Robert. II. Universidade Federal da Bahia. Escola de Dança. III. Título. CDD - 793.3 CDU - 793.3 MARÍA LAURA CORVALÁN O desvendar do vento: manifestações artísticas da dança de orixás. Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Dança, Programa de Pós-Graduação em Dança, Universidade Federal da Bahia. Aprovada em 20 de Fevereiro de 2013 Banca Examinadora ______________________________________ Prof. Dra. Gilsamara Moura Robert Pires (PPGDança – Universidade Federal da Bahia) _______________________________________ Prof. Dra. Inaicyra Falcão dos Santos (Instituto de Artes/ UNICAMP) ________________________________________ Prof. Dra. Helena Katz (PPGDança – Universidade Federal da Bahia) AGRADECIMENTOS A Isa Soares, por abrir meus caminhos da dança e da vida. A Tânia Bispo, por me possibilitar dançar meus mitos e transformá-los. Às duas professoras, Isa e Tânia, pela confiança, generosidade e envolvimento neste trabalho. A meu avô paterno, Tata Manolo (in memorian), por me transmitir o gosto pela música e pela dança. A minha avó materna, Lala Dorita, pelo apoio e as rezas a distância. A minha mãe, Beatriz Splendiani e meu pai, Victor Corvalán, por confiar nos meus passos, mesmo incompreensíveis, desviados, incertos, ousados... A minha madrinha, Susana Splendiani, pela força constante. A minha querida orientadora Profa. Dra. Gilsamara Moura, pela escuta sensível e cuidadosa, e pela cumplicidade. À Profa. Dra. Helena Katz, por me reafirmar no caminho e valorizar meu trabalho como artista e pesquisadora. À Profa. Dra. Inaicyra Falcão dos Santos, pela disposição e suas preciosas devoluções. Aos meus irmãos Manuel, Luciano, Andrea, Malena e Victoria, por estarem presentes, me acompanhando cada um a seu modo. Às minhas amigas e parceiras nesta caminhada: Julia Broguet, Betina Pellegrini, Juana Lamas e Silvana Saavedra, e todas as pessoas que passaram por Iró Bàradé. A Juan Pablo Cruciani – Cipó - amigo e professor de capoeira angola, e ao grupo Terreiro Mandinga de Angola, Rosário. Por irmos juntos, desde sempre, na caminhada. A Javier Infante, Laura Ro, Mariana Pereiro e a todos que fazem parte de Alábase. A Fernando Herrera, pelo seu envolvimento e contribuição na montagem dos vídeos. A Mãe Silvia de Iansã e o Terreiro ‘Ilê Axé Opon de Obaluaye ati Iansã’, da cidade de Resistência, Chaco, Argentina. A Tata Muta Imê Santos, pelas profundas conversas e os ensinamentos sobre o universo sagrado dos candomblés. A Edivandete Santos Pires – Obã Itanã - pelo acolhimento no universo religioso em Salvador. Ao grupo Nzinga de capoeira angola por ser minha família em Salvador, e me dar tantos momentos de felicidade e aprendizado. A Mãe ‘Francisca de Iansã’ - Chica – por me receber, com tanta abertura, em suas festas no terreiro “Ilê Axe Oiá Jambeleji”, em Salvador. A Escola de Dança da UFBA e ao PPGDança pelas referências nos modos de fazer, de indagar, de escrever outra dança, de dançar outra escrita. A CAPES, pelo apoio financeiro que me permitiu realizar a pesquisa com maior dedicação e concentração. Às minhas amigas de sempre, Paula Scaroni e sua irmã Anita Scaroni (in memorian), por me ensinarem a viver olhando para a luz da vida, e a tecer relações sempre com positividade e alegria. A todos os amigos e pessoas que fizeram parte deste processo de pesquisa, que vai muito além dos anos de mestrado. A Martín Lorenzo, meu companheiro, sem o qual tudo teria sido mais difícil. CORVALÁN, María Laura. O desvendar do vento: manifestações artísticas das danças dos orixás. (116) Dissertação (Mestrado) – Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia. Salvador, 2013. RESUMO Esta pesquisa se propôs abordar e refletir sobre as manifestações artísticas das danças dos orixás de duas dançarinas baianas: Tânia Bispo e Isa Soares, que moram, respectivamente, em Salvador e em Buenos Aires, iluminando os diferentes modos de traduzir que cada uma construiu, entre o universo mitológico dos orixás e o ambiente artístico e contemporâneo da dança dos seus respectivos e distintos contextos. Para este estudo, foi escolhido um mito que fala da relação de dois orixás: Omolú\Obaluaiê, a energia da terra, e Iansã, a energia do vento e do ar. A pesquisa parte da proposta de tradução cosmopolita proposta pelo sociólogo português Boaventura de Souza Santos, que reconhece que não há uma teoria geral, mas que todas as culturas pressupõem incompletudes. Portanto, a tradução sempre implicará em criação e transformação. Assim, este trabalho de tradução permite tirar do escuro certas experiências que não são legitimadas pela monocultura ocidental. A bibliografia que apoia a construção desta reflexão parte de Souza Santos (2002), Carvalho (2002), Dominguez (2004), Motta (2009), Elbein dos Santos (2002), entre outros. As manifestações artísticas de Tânia Bispo e Isa Soares são um modo de dar visibilidade a saberes e práticas que não existem na educação oficial. Sob a hipótese de que sempre que uma dança ocorre, num contexto diferente de onde supostamente surgiu, há então uma tradução, o trabalho apontou para a necessidade de outra tradução corporal, inspirada pelas duas artistas aqui estudadas, porém realizada pela pesquisadora desta dissertação. Palavras-chaves: Tradução cultural, manifestação artística, dança dos orixás, Tânia Bispo, Isa Soares. CORVALÁN, María Laura. O desvendar do vento: manifestações artísticas das danças dos orixás. (116) Dissertação (Mestrado) – Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia. Salvador, 2013. ABSTRACT This research propose to deal with and think about the artistic manifestations of the dance of the orixás of two bahian dancers, Tania Bispo and Isa Soares, who lives, respectively in Salvador and Buenos Aires, enlightening the different ways of translation that each one built between the mythological universe of the orixás and the artistic and contemporary environment of the dance on their own different contexts. For this study, was chosen a myth that talk about the relationship between two orixas: Omolú\Obaluaiê, the earth energy, and Iansã, the wind and air energy. This investigation begins on the cosmopolitan translation proposed by the Portuguese sociologist Boaventura de Souza Santos, who recognizes that there is not a general theory, but every culture is incomplete. Therefore the translation always will imply creation and transformation. Thus, this translation work allows taking from darkness many experiences that are not legitimated in the western monoculture. The bibliography that support the construction of this reflection is based on Souza Santos (2002), Carvalho (2002), Dominguez (2004), Motta (2009), Elbein dos Santos (2002), among others. The artistic manifestations of Tânia Bispo e Isa Soares are a way of give visibility to knowledge and practices that does not exist in the official education. Under the hypothesis that every time a dance occurs, in a different context from the place that supposedly came up, then there is a translation, the inquire focus in the necessity of another body translation, inspired in the two artists here studied, however made from the researcher of this dissertation. Key words: Cultural translation, artistic manifestation, orixás´s dance, Tânia Bispo, Isa Soares. LISTA DE SIGLAS Teatro SENAC Pelourinho - Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial UFBA – Universidade Federal da Bahia SESC - Serviço Social do Comércio LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1: Manifestação artística de Tânia Bispo.............................................................46 Figura 2. Tânia Bispo ensinando os elementos simbólicos usados nos rituais do Candomblé a um grupo de dançarinas.............................................................................54 Figura 3. Curso com Tânia Bispo....................................................................................57 Figura 4. Manifestação artística de Tânia Bispo.............................................................60 Figura 5. Manifestação artística de Tânia Bispo.............................................................61 Figura 6. Manifestação artística de Tânia Bispo.............................................................62 Figura 7. Manifestação artística de Tânia Bispo.............................................................64 Figura 8. Manifestação artística de Tânia Bispo.............................................................65 Figura 9. Manifestação artística de Tânia Bispo............................................................ 66 Figura 10. Performance ‘Orixás de la Tierra’……………………….…………………69 Figura 11. ‘Danças do Xirê de Orixás’ no Congreso Afro Americano...........................77 Figura 12. Performance ‘Orixás de la Tierra’……………………………………….…79 Figura 13. “Danças do Xirê de Orixás”. Isa Soares e Alabasé. Parque Lezama............81 Figura 14. Alábase na Marcha do 24 de março pelos desaparecidos.............................87 Figura 15. Performance ‘Orixás de la Tierra’……………………………………….....88 Figura 16. Manifestação artística de Isa Soares..............................................................92 Figura 17. Performance ‘Orixás de la Tierra’………………………………………….94 Figura 18. Performance ‘Orixás de la Tierra’………………………………………….95 Figura 19. Manifestação artística de Isa Soares..............................................................97 Figura 20. Manifestação artística de María Laura Corvalán.........................................101 Figura 21. Manifestação artística de María Laura Corvalán.........................................105 Figura 22. Manifestação artística de María Laura Corvalán.........................................106 Figura 23. Manifestação artística de María Laura Corvalán.........................................107 Figura 24. Manifestação artística de María Laura Corvalán,........................................108 Figura 25. Manuel Corvalán tocando Hung Drum. ...................................................108 Figura 26.Manifestação artística de María Laura Corvalán..........................................109 Figura 27. Manifestação artística de María Laura Corvalán........................................110 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 12 ENTRE ROSÁRIO, SALVADOR E OUTROS CONTEXTOS – UM PEQUENO RELATO OU DIÁRIO DE BORDO.......................................................12 NOMEAR É PRECISO? ..............................................................................................15 1 MOVER O INVISÍVEL. UMA PROPOSTA COSMOPOLITA PARA TRADUZIR AS DANÇAS MITOLÓGICAS DOS ORIXÁS ............................... 22 1.1DESMITIFICAR O GLOBAL ..................................................................................22 1.2 OS RECORTES: DO ORIXÁ AO MITO, DO MITO À DANÇA .........................25 1.3 POR UMA RAZÃO COSMOPOLITA ..................................................................27 1.4 O TRABALHO DE TRADUÇÃO ..........................................................................30 1.5 O QUE TRADUZIR? ..............................................................................................31 1.6 ENTRE QUÊ TRADUZIR? ....................................................................................37 1.7 QUANDO TRADUZIR? ........................................................................................38 1.8 QUEM TRADUZ?...................................................................................................39 1.9 COMO TRADUZIR?...............................................................................................41 1.10 2 PARA QUE TRADUZIR?..................................................................................44 TÂNIA BISPO: TRANSCENDER O “MITO PESSOAL”...............................46 2.1 SALVADOR, DO TABU AO EXOTISMO...........................................................47 2.2 A UNIVERSIDADE. DANÇA DE QUAL HISTÓRIA........................................49 2.3 ODUNDÊ: NOVO CICLO DE UM POVO............................................................51 2.4 OMI OLORUM, OUTRO FLUIR COM O PÚBLICO...........................................52 2.5 OS RISCOS DE TRADUZIR...................................................................................53 2.5.1 A CONSTRUÇÃO DE LUGARES COMUNS.................................................53 2.5.2 A DIFICULDADE DA LÍNGUA, A OPORTUNIDADE DO SILÊNCIO........57 2.6 O QUE O VENTO VÊ... (O SILENCIO DA PESTE)............................................59 3 ALÁBASE, O LABUTAR DE IS A SOARES.......... ...... ...... ... .......6 9 3.1 PALPAR A DANÇA................................................................................................71 3.2 BUENOS AIRES: INVISIBILIDADES EPIDÉRMICAS......................................73 3.3 NEGOCIAÇÕES ENTRE CORPO E AMBIENTE. A ARTE DE SER LEGITIMADO................................................................................................................76 3.4 TEMPORALIDADES E ESPERANÇAS................................................................81 3.5 DANÇAS DO “XIRÊ DE ORIXÁS”: ARGUMENTOS DA TRADUÇÃO............82 3.6 A DIFICULDADE DO OUVIR O CORPO.............................................................87 3.7 ALÁBASE EM DANÇA............................................................................................88 3.8 ENTÃO.....................................................................................................................89 3.9 O QUE DIZ O SILÊNCIO.......................................................................................91 3.10 ATRÁS, NO FUNDO DA TERRA....................................................................92 3.11 O AR....................................................................................................................95 3.12 QUANDO O DESFRUTE TRANSFORMA..........................................................97 4 TRADUZIR À BEIRA DO MITO.......................................................................101 4.1 À BEIRA DAS DANÇAS......................................................................................104 5 REFERÊNCIAS....................................................................................................113 12 INTRODUÇÃO Entre Rosário, Salvador e outros contextos – um pequeno relato ou diário de bordo A dança e a música me habitam desde que eu cheguei a este mundo. Criei-me entre tangos e chacareras que o meu avô e o meu pai tocavam no piano e no bombo legüero1, e minha avó, de longe, cantava. Eu adorava dançar, o ritmo parecia me queimar por dentro. Porém, desde muito cedo, quando comecei a dançar na ‘academia de danças folclóricas’, aquele imenso desejo, aquela emoção que me produzia a chacarera2, não tinha como ser expressa naquela dança. Explico: as danças chamadas de ‘folclóricas argentinas’, como a zamba, gato, bailecito, chacarera, remedio, huella, cuatro esquinas, entre muitas outras, são ensinadas na educação oficial com coreografias fechadas e esvaziadas do seu conteúdo histórico, da sua paisagem geográfica e da cultura onde cada uma estava inserida. Assim, eu tinha de me ajustar a uma série de posturas rígidas e memorizar as coreografias sem nenhuma relação com o ritmo e a música. Também nesta fase da infância ingressei no mundo do balé clássico, e algo similar sucedia: eu não me reconhecia naquele universo, naquela música, naqueles personagens. As técnicas posturais resultavam muito forçadas, impositivas e produziam muita dor, mas, mesmo assim, era indicado sorrir. As experiências com dança moderna e dança contemporânea não foram as mais amáveis; mesmo que as músicas fossem mais agradáveis para mim, tinha que copiar sequências de movimento que não tinham relação nenhuma com o que me acontecia. Enquanto eu buscava, quase por descuido, alguma “emoção” naquelas danças, uma pergunta me dava voltas com intensa curiosidade: o que tinham em comum aquelas práticas que, embora tão diferentes, chamavam-se todas de ‘dança’? Qual era a relação com aquilo que eu, desde pequena, sentia como dança? Não sei exatamente como eu decidi que queria ‘dançar afro’, mas no ano 2000 fui a Buenos Aires e conheci Isa Soares, que ministrava aulas de danças baseadas nos orixás. Para minha surpresa, me encontrei com algo totalmente diferente das minhas expectativas, muito ignorantes por sinal, que pressupunham que tudo o que fosse ancestral teria de ser simples; ali me deparei com um tipo de dança extremamente 1 Tambor tradicional de Santiago del Estero, Argentina, com grande influência africana, com o qual se tocam ritmos populares argentinos como chacarera, zamba, cueca, etc. 2 Ritmo e dança do folclore argentino, oriunda de Santiago del Estero, com grande preponderância rítmica. 13 complexa pela densidade do seu discurso e sua carga gestual. Este fato ajudou-me a entender que quando não se conhece algo e se olha “de fora”, observa-se primeiro de uma forma completamente homogeneizadora e pasteurizante, ou seja, todas as danças são parecidas, com o mesmo tipo de roupa, o mesmo batuque e se simplificam numa mesma coisa debaixo de um mesmo nome. Tenho como argumento que seja uma ignorância provocada e reafirmada por ações colonizadoras. Porém, o que me deteve na proposta de Isa Soares durante mais de dez anos não foi “a dança” em si, mas o modo como a professora compartilhava os ensinamentos daquela dança, que implicavam em aprender também um modo diferente de relacionarse com o corpo, com a dança e com o mundo. Algo se acalmava em mim, a dança começava a cobrar um novo sentido. No ano de 2003, comecei a levar Isa Soares para a cidade onde morava, Rosário, viajando mensalmente durante quatro anos. Isto provocou o encontro de um grande número de pessoas em Rosário, com interesses e inquietudes parecidas a respeito da dança. Destes cruzamentos surgiu no ano 2003 o grupo Iró Bàradé, o qual eu coordeno, em conjunto com outras colegas, entre as que preciso destacar Julia Broguet, Betina Pellegrini, Silvana Saavedra e Juana Lamas3. Em yorubá Iró significa relato, notícia, ruído dos corpos quando chocam e Bàradé, combinar com a natureza de alguém. Desde então, fui experimentando diferentes cenários e modos de recriar e traduzir esta dança. Com o grupo Iró Bàradé, realizamos diversos tipos de criações e apresentações, partilhamos aulas com artistas de outras cidades, com comunidades indígenas (Qom) no norte argentino, com adolescentes de um bairro suburbano de Rosário, entre outras. Minha atenção estava sempre focada em buscar modos de traduzir esta dança baseada em mitologias africanas em cada contexto onde me encontrava. No entanto, cada experiência me provocava novas inquietudes em relação ao ‘outro’ e à ideia de identidade como traço único e determinante, e em minha monografia de Licenciatura em Comunicação Social4 (2007), abri questionamentos sobre ‘de que modo habitar danças de mitos e deuses longínquos e ancestrais em corpos atuais e argentinos (rosarinos)’. 3 Embora muitas outras pessoas fossem responsáveis da gestão coletiva de Iró Bàradé, nomeio aqui as colegas que coordenaram aulas e fizeram parte da produção do grupo nos últimos anos. 4 “Corpo e comunicação na dança dos orixás”, Licenciatura em Comunicação Social, Universidad Nacional de Rosario, Orientadora, Prof. Olga Corna. 2007 14 Estas inquietações foram atravessadas por minhas estadias na Bahia, desde o ano 2003, em que fui me aproximando dos ambientes onde também acontece esta dança afro, com muita potência, e se traduz em diversos sentidos religiosos e artísticos. Enquanto participava de diversas festas de candomblé, ia percebendo que nas escolas de dança, as aulas de dança afro ou afro-brasileiras eram muito diferentes da proposta de Isa Soares, elas estavam mais perto de uma colagem de passos a ser copiada e reproduzida. Compreendia então como as condições de cada contexto configuram a dança de um modo particular e que, para fazer criações artísticas a partir deste vocabulário, era fundamental conhecer suas fontes, história, cultura e filosofia. Foi na minha primeira viagem à Bahia (2003) que conheci Tânia Bispo. Eu assisti ao show folclórico no Sesc Pelourinho do qual ela dirigia e me encontrei emocionada, contaminada pela energia das dançarinas, muito longe do que esperava de um ‘show tipicamente folclórico’. Na segunda viagem (2004), depois de tomar aulas com muitos professores, acabei organizando uma oficina de dança ministrada por Tânia Bispo, com várias pessoas que ia conhecendo na viagem. Então percebi que sua proposta podia conversar muito bem com a proposta de Isa Soares e, cinco anos mais tarde, em 2009, voltei com várias companheiras de ‘Iró Bàradé’ (Argentina). Neste curso, algo se moveu em mim de tal modo que entendi que tinha que viver na Bahia por um tempo, me deixar contaminar por mais tempo pelas lógicas de vida do povo baiano, viver o cotidiano e as contradições sociais da cidade, as cores, os aromas, as comidas, as crenças que entretecem seus mitos, mistérios e mandingas. Assim, ingressei no Curso de Especialização em Estudos Contemporâneos em Dança – Latu Senso (UFBA- 2010), onde achei um espaço para ler, refletir e discutir sobre estas problemáticas da dança, o que me incentivou para reafirmar a construção do pensamento contemporâneo nas danças mitológicas dos orixás dentro do espaço acadêmico da dança. O simples fato de viver na Bahia já me colocou na condição de estrangeira, e a tarefa de traduzir virou um modo de estar, de me comunicar e de compreender o mundo. Por esse caminho, consegui estabelecer laços afetivos que ampliaram e enriqueceram minhas buscas, como foi o encontro com Edivandete Santos Pires, mais conhecida como Oba Itanã, grande amiga que me acolhe e me orienta nas questões em torno da religião do candomblé de Keto. Oba Itanã, faz parte do terreiro “Ilê Axê Opó Ajaôkeji”, localizado em Barra do Pojuca, Camaçari-BA, onde tem a função hierárquica de ekede 15 (aquela que cuida do orixá quando desce) do (orixá) Oxaguiã. Especificamente, ela recebeu o cargo de Ia Tebêssê, quem invoca os cânticos em todas as cerimônias. Vale dizer que Oba Itanã é muito reconhecida no ambiente religioso pela sua experiência e compromisso. Também tive a sorte de conhecer a mãe ‘Francisca de Iansã’, mãe do terreiro “Ilê Axê Oiá Jambeleji”, de Salvador, mais conhecida como ‘Chica’, baiana que vende acarajé embaixo do morro de São Lázaro, onde eu moro. Os encontros cotidianos com ela e sua gente me permitiram participar das suas cerimônias de Candomblé de uma forma mais familiar, o que me habilitou, inclusive, a fazer registros audiovisuais das festas, material de grande valor para a análise das danças para esta pesquisa. Nas últimas viagens, conheci Tata Mutá Imê Santos, um líder espiritual do ‘Terreiro Mutá Lambô ye Kaiongo’, Candomblé da nação Angolão Paquetan, muito reconhecido em Salvador. Embora fosse Oba Itanã quem me apresentou a ele, Tata Mutá ministrava aulas de “danças de voduns, nkisses e orixás” no espaço onde eu aprendo capoeira angola. As aulas de Mutá representaram para mim, uma ponte entre o contexto religioso e o contexto artístico. Por sua vez, aprender as danças de outras nações, além da yorubá, foi uma chave para minha pesquisa, no reconhecimento da diversidade de nações dentro do universo mítico dos candomblés, fato que desmitifica a hegemonia yorubá tão relembrada por antropólogos e demais pesquisadores. Embora minhas duas mestras de danças, Isa Soares e Tânia Bispo, trabalhem especificamente com a cultura yorubá, eu percebo a importância de frisar as pluralidades de nações que são responsáveis pela construção dos candomblés, o universo mítico dos orixás. De fato, desde sempre foi no encontro com o outro e suas possíveis misturas que se gestaram novas formas de estar e de sobreviver no mundo. Todas essas experiências pessoais e, seguramente, muitas outras que não tive consciência ou que não foram registradas aqui, acabaram nutrindo esta pesquisa de Mestrado da qual me animo a dizer, começou quando comecei a dançar, onde sem saber já estava traduzindo outras culturas. Nomear é preciso? Qual é o sentido de nomear uma dança? Quais são os riscos? 16 Nomear uma dança implica posicioná-la e afirmá-la entre os membros da comunidade onde surge e sua nomeação depende totalmente do contexto onde está inserida. Neste caso, urge esclarecer que esta dança, constituída por elementos da cultura afro, yorubá, gege, congo, angola, brasileira, e muitas outras (árabes, portuguesas, indígenas, espanholas), ainda não está isenta de problemas em sua nomeação. Na Bahia, onde a prática religiosa é muito presente, se sublinha a diferença entre “dança de orixás”, que é a manifestação do orixá quando desce e se incorpora numa pessoa, e a dança-afro que se pratica nas academias de dança e contém elementos da simbologia dos orixás. No entanto, na Argentina, tal dança convive com outras danças de origem afro, tanto do Noroeste da África (entre as que se encontram: djole, ku-ku, domba, dunumba, yankadi, makuru, e mendiani)5, quanto com a dança afroperuana, afrocolombiana, afrocubana, afrouruguaya, entre outras; portanto, não pode ser chamada simplesmente de dança-afro. No Brasil, chamá-la de dança afro-brasileira também gera confusão com outras práticas da mesma origem como é o samba, a capoeira, o congado, o maracatú, o maculelé, etc. Durante algum tempo, em Rosário, onde a religião era muito pouco conhecida, a chamamos de ‘dança de orixás’, para diferenciá-la de todos os afros e afro-brasileiras; mas, depois de conhecer o seu significado na Bahia, começou a ser um problema ainda maior para mim. Por enquanto, em Rosário está nomeada como “dança afro-yorubá”, mas, ao entender a multiplicidade de nações que constituem este universo mitológico, é preciso deixar de alimentar a hegemonia yorubá já instalada. Segundo Godard: “nossa maior tentação é de nos contentarmos em classificar as danças por épocas históricas, por origens geográficas, por categorias sociais, por escolhas musicais, pela estética do figurino, da cenografia, ou ainda pela forma dos diferentes segmentos corporais colocados em ação. Todos esses parâmetros descrevem muito bem o limite externo ao campo da dança, mas pouco se aproximam das riquezas da dinâmica interna do gesto, que a ele dão sentido” (1995, p. 12). 5 Informação oral de percussionista do grupo “Afô Paraná” de danças africanas. 17 Assim, vemos que, embora o problema apresentado nesta dissertação seja o da tradução, ela enfrenta mais um problema que é o da nomeação. A impossibilidade de encontrar um nome adequado que contemple as necessidades religiosas de onde essas danças são, ou seja, do ambiente do candomblé para outro ambiente artístico e contemporâneo da dança. Se no ambiente religioso são os orixás que dançam, quem é exterior ao ambiente religioso, já está fazendo uma tradução desse ambiente. Que nome dar a uma dança que existe predicada a quem a faz - o orixá – quando é feita por quem não é orixá? Ou seja, alguém que está traduzindo uma dança que no seu ambiente é feita por quem é. E aqui, fora desse ambiente é feita por quem não é. Sobre o pressuposto que o nome, de algum modo, coloca a dança entre outras, não pretendemos solucionar o problema, nem esquivar todos os riscos que implica a nomeação, mas por enquanto vamos sugerir tratar todas as manifestações dançadas para quem está fora do ambiente religioso como “manifestações”. Deste modo, já não chamamos dança “de orixá” quando não é dele. Vamos nomear uma “manifestação artística dessa dança”, indicando que se trata da dança de outra pessoa. Assim, chamamos “manifestação artística das danças dos orixás”, não a dança da divindade quando incorpora na cerimônia religiosa, mas a dança realizada conscientemente, seja qual for o contexto e o sentido de comunicar. O objetivo dessa dissertação reside em estudar os diferentes processos de tradução de manifestações artísticas das danças dos orixás, realizados por Tânia Bispo em Salvador e por Isa Soares em Buenos Aires, os quais serão complementados pela minha própria criação. Estas traduções flutuarão entre o contexto do universo mitológico dos orixás e o ambiente artístico e contemporâneo da dança onde se desenvolve cada artista. Esta dança se caracteriza por sua grande gestualidade, sua rítmica, sua relação com a natureza, seu sentido mítico e pelos valores da sua cosmovisão africana, considerando que as relações efetivas destas informações organizam-se de certo modo que determinam suas técnicas corporais específicas. Interessa-me estudar como se dão as diferentes possibilidades de tradução dos conceitos, cosmogonias e arquétipos deduzidos da mitologia yorubá e como eles se traduzem em princípios de movimentos que permitem fazer um caminho pessoal e criativo em cada corpo. Será necessário, portanto, identificar que tipo de informações dessas danças ficou ancestralmente como 18 estável, nos diversos diálogos interculturais até identificar-se como manifestações artísticas das danças dos orixás. Para deduzir estas questões pretende-se analisar a construção do corpo dos orixás Obaluaiê/Omolu6, divindade da terra e da peste, e Iansã, força do vento e a tempestade, retratados pelas duas profissionais da dança, acima citadas: Tânia Bispo e Isa Soares, cada uma no seu respectivo contexto (Salvador/Brasil e Buenos Aires/Argentina). Daqui, importa-nos reconhecer diferentes graus ou tipos de tradução corporal a partir da relação corpo-ambiente-orixá que entra em jogo no processo criativo da dança. Sem desmerecer a relevância de todos e de cada um dos orixás, foram selecionados somente dois, Obaluaiê/Omolú e Iansã com a intenção de aprofundar no tema da pesquisa. Obaluaiê/Omolú representa a terra, e Iansã, o elemento ar. Para estas cosmovisões africanas, a terra é a matéria de nosso corpo, e o ar é o elemento que lhe outorga vida e movimento; assim, interessa-nos explorar como essas energias atuam no corpo e na dança. Esta escolha também é consequência da necessidade de partir das doenças de cada corpo, das suas faltas e incômodos, e da vontade de transformá-las na combinação com o outro, para realizar o processo criativo da tradução do mito para dançar. Assim, foi escolhido um mito onde a palha que cobria a terra/pele de Obaluaiê é descoberta pela dança/vento de Iansã, e em agradecimento, Obaluaiê lhe concede o poder sobre os mortos. A relação desses dois orixás com a morte cobrou uma dimensão muito importante durante os dois anos da pesquisa, por eu vivenciar situações ligadas à morte de pessoas muito próximas, onde pude reconhecer o grande tabu que temos a respeito dela. O corpo teórico selecionado para a dissertação propiciou diálogos entre estudos da dança e da sociologia, entre cosmovisões africanas e pensamentos contemporâneos, entre estudos científicos e estudos artísticos. Para contextualizar a situação social onde surgem estas traduções em dança, trazemos as propostas de Canclini (2008) e Lepecki (2006) sobre a globalização e o pós-colonialismo, que nos permitem chegar ao entendimento de ‘tradução cultural’ que propõe o sociólogo português Souza Santos (2002), o qual busca uma articulação recíproca entre culturas, evitando uma canibalização da cultura hegemônica. 6 Tanto o nome Obaluaiê quanto Omolú, referem-se a diferentes qualidades do mesmo orixá, senhor da terra e a peste. Porém nesta pesquisa, vamos a utilizar qualquer dos dois nomes indistintamente. Já que as professoras vão nomear das duas formas diferentes. 19 Para estudar o contexto da cultura yorubá no Brasil, foram muito significativos os escritos de Elbein Santos (2007; 1975), Prandi (2001), Verger (2003), Reis (2000), em discussão com a pesquisa de Capone (2009), na qual traz reflexões críticas sobre a construção de legitimidade dos cultos afro-brasileiros. No que se refere ao estudo do universo mitológico das danças dos orixás, os trabalhos de Barbara (1995 e 2003) e Zenicola (2001) serão de grande apoio. Porém, para o nosso foco voltado para os processos criativos desta dança, interessa destacar a investigação “Corpo e Ancestralidade”, de Inaicyra Falcão dos Santos (2006), que atende à experiência singular de cada intérprete por meio de memórias ancestrais, com ações corporais carregadas de significados e valores da tradição africana brasileira, trazendo-as para o presente e as ressignificando por meio da arte do movimento criativo. Mesmo assim, no intuito de abordar contemporaneamente esta dança surgida da tradição afro-brasileira, este trabalho parte do conceito de contemporâneo do filósofo Giorgio Agambem (2009, p. 64), quem o define como a singular relação que se estabelece entre o indivíduo e o seu tempo: "o contemporâneo é aquele que percebe o escuro do seu tempo como algo que lhe concerne e não cessa de interpelá-lo, algo que, mais do que toda luz, dirige-se direta e singularmente a ele". Interessa-nos pensar aqui um modo de manifestar, artisticamente, a dança dos orixás a partir da relação do corpo com a luz e as sombras dele e de seu entorno. Em palavras de Najmanovich (2001, p. 28), “um corpo que participa de uma dinâmica criativa de si mesmo e do mundo com que ele está em permanente intercâmbio”, é um corpo que interage com o seu ambiente, onde se modifica e o modifica, que consegue garantir a sua permanência no mundo contemporâneo e a sua evolução. Neste viés, Bittencourt (2004) e Britto (2008) discorrem sobre as configurações em dança e suas permanências, entendendo a dança como expressão do pensamento do ambiente em que se encontra o corpo que dança. A gestualidade também merece ser analisada nesta dança em questão, para o qual Godard (1995) sublinha o pré-movimento como condição da expressividade do gesto humano e o diferencia do movimento. Para estudar estas traduções foi necessário realizar pesquisa de campo tanto no contexto mitológico do Candomblé, quanto no contexto artístico da dança das 20 professoras Tânia Bispo e Isa Soares7. A pesquisa de campo no contexto mitológico consistiu na observação participante de cerimônias de candomblé de diversas nações ou cultos (keto, angola, caboclo), nas quais consegui experimentar diversos modos de participação das mesmas de acordo com o grau de familiaridade e abertura dos terreiros. Em algumas festas, consegui participar como assistente; em outras, me foi permitido fazer um registro audiovisual e, em outra, me convidaram a dançar no xirê (sob o cuidado de Oba Itanã). Também foram realizadas entrevistas com Tata Muta Imê Santos e com Oba Itanã sobre as danças desta pesquisa a fim de engrandecer o rol de informações, embora não serão citadas nesta dissertação. A pesquisa de campo no contexto artístico da dança contou com a observação participante das aulas de Isa Soares, os cursos de Tânia Bispo realizados em 2004, 2009, 2010 e 2011, o registro audiovisual dos mesmos e a realização de entrevistas semiestruturadas às duas professoras, isto é, entrevistas com base numa guia de perguntas bastante abertas, que vão se complementando de acordo as falas das pessoas entrevistadas. Além disto, como já pudemos constatar, as experiências vividas com estas duas pessoas durante alguns anos fazem parte da coleção de informações que interagem e alimentam esta investigação. A pesquisa, direcionada pelo trabalho de tradução, as percepções do pesquisador e a reflexão biográfica foram de grande importância para guiar a investigação. Procurou-se apresentar as múltiplas perspectivas dos participantes, atendendo aos modos de relacionamento de cada corpo com o ambiente da manifestação artística da dança dos orixás. Haverá, assim, múltiplas vozes, e uma diversidade de modos de dançar. Esta dissertação está organizada em quatro capítulos. O primeiro capítulo debruça sobre a proposta de ‘tradução cosmopolita’ do sociólogo Boaventura de Souza Santos, para pensar os processos tradutórios das manifestações artísticas das danças dos orixás elaboradas pelas professoras Isa Soares e Tânia Bispo. A proposta de tradução cosmopolita parte do reconhecimento da incompletude de todas as culturas, em busca de um diálogo horizontal, recíproco e não hegemônico. Portanto, as condições de nosso campo de tradução serão atravessadas por 7 Nesta dissertação, optei por chamar as professoras Tânia Bispo e Isa Soares pelo nome e sobrenome, para uma maior otimização da memória viva desses nomes, reafirmando o reconhecimento das artistas. 21 questionamentos sobre o que traduzir, entre quê, quem traduz, quando, como e com que objetivos. No segundo capítulo estudaremos como a professora Tânia Bispo retrata as corporalidades dos orixás Omolú/Obaluaiê e Iansã, a partir de uma abordagem sensorial baseada nas vivências do culto aos orixás e arquétipos oriundos dos mitos. Apresentaremos as questões levantadas mais relevantes, os obstáculos e os caminhos que a professora foi transitando dentro do seu trabalho. No terceiro capítulo vamos refletir sobre o trabalho que a baiana Isa Soares desenvolve em Buenos Aires. Estudaremos como ela traduz no corpo as danças dos orixás Obaluaiê e Iansã, no contexto da sua proposta “Xirê de Orixás”. Nas cerimônias do candomblé, chama-se xirê à ordem hierárquica na qual os orixás ingressam ao barracão. A professora toma este xirê como base das suas recriações de danças arquetípicas dos orixás, respeitando a organização hierárquica imposta pelas funções e lugares simbólicos que ocupa cada orixá. Descreveremos como as danças de Obaluaiê e Iansã são recriadas a partir de vivências, histórias e relações da professora com o seu contexto. Atenderemos também às dificuldades que a professora se encontra neste processo de tradução. Por último, o capítulo “Traduzir da tradução: minha dança na vera do mito” abrirá questionamentos para os diferentes graus ou tipos de tradução e as complexidades que isto implica num diálogo com os autores estudados. Os modos como as danças propostas por Isa Soares e Tânia Bispo são traduzidas e recriadas por mim, a partir das minhas condições com a dança em Rosário e em outras cidades de Argentina. Minha dança contaminada pelas manifestações artísticas de dança de orixás destas professoras e pela minha história pessoal, o tango e a zamba vêm problematizar os contornos das traduções culturais das danças. Este capítulo finaliza com as considerações finais, os possíveis desdobramentos e propostas para novos projetos de pesquisa. 22 CAPITULO 1 MOVER O INVISÍVEL Uma proposta cosmopolita para traduzir as danças mitológicas dos orixás Este capítulo pretende trazer à luz o trabalho de tradução que propõe o sociólogo português Boaventura de Souza Santos (2002) como uma opção para traduzir as danças baseadas na mitologia africana dos orixás, em uma cultura colonizada pelos valores e critérios ocidentais, em busca de uma articulação recíproca e não hierárquica. O autor sugere um trabalho de tradução sustentado por dois procedimentos sociológicos: a ‘sociologia das ausências’ e a ‘sociologia das emergências’, os quais visam desafiar, transgressivamente, o modelo de racionalidade imperante, através da dilatação do presente, que amplia as experiências sociais disponíveis e da contração do futuro, que expande o domínio das experiências sociais possíveis. Com o objetivo de analisar, posteriormente, os processos de tradução experimentados nas propostas de duas professoras e dançarinas, Tânia Bispo e Isa Soares, tentaremos aqui atravessar os contextos e condições específicas de nossos campos de tradução pelos seguintes questionamentos que sugere Santos: O que traduzir? Entre quê? Quem traduz? Quando traduzir? Traduzir com que objetivos? Desmitificar o global A contemporaneidade na América Latina, explica Canclini (2008), transforma os cenários da cultura popular na medida em que as categorias dualistas convencionais (subalterno/hegemônico, tradicional/moderno) vão perdendo sentido. Segundo este autor, a propagação trans-local da cultura se intensifica com os deslocamentos de migrantes, exilados e turistas, os fluxos econômicos e comunicacionais, e também com as trocas financeiras multinacionais e os repertórios de imagens e informação distribuídos a todo o planeta por jornais e revistas, redes televisivas e internet. Neste mundo intertextual, mestiço, de interface e de co-presença de todas as tradições (STOÏANOVA 1985, apud PELINSKI, 2000), as manifestações artísticas das danças dos orixás não ficam fora do cruzamento de culturas, ou seja, encontram-se implicadas neste cruzamento, se contaminando e se recriando, tomando novos sentidos. Além da sua natureza religiosa, esta dança se traduz em múltiplos cenários artísticos transnacionalizados. 23 Porém, Canclini (2008) sugere que para analisar como vão se transformando as heranças culturais e ressituando num tempo de misturas interculturais, há que diferenciar os diversos sentidos da globalização: “não são idênticas a globalização financeira, a de bens industrializados e artesanais, as que ocorrem nas indústrias editoriais, de cinema, musicais ou informáticas” (CANCLINI, 2008, p. 30). Os processos de globalização não se dão de forma equitativa, mas com uma assimetria que beneficia aos países donos das indústrias culturais, que decidem sobre a reorganização dos mercados culturais, “reestruturando os estilos de vida e desagregando imaginários compartilhados” (CANCLINI, 2008, p. 28). Em consonância com esta questão, Lepecki (2006) prefere nomear esta ‘condição global’ sob a ideia de “pós-colonialidade”, que segundo o autor, supõe uma transformação social derivada da queda dos impérios Europeus (Alemanha, França e Grã Bretanha) nos anos 50 e 60. O pós-colonialismo, então, antecede a outros termos como multiculturalismo, hibridação e miscigenação, “nomes simpáticos que descrevem a entrada do corpo do ex-colonizado num sistema global de imagens, sons, peles e gostos onde o ocidental se redime do seu passado por via de uma “celebração” da “cultura” do até ontem colonizado” (LEPECKI, 2006). Porém, o autor sublinha que falar de “pós-colonialidade” é um artifício semântico, já que não implica uma superação temporal, como se já vivêssemos uma situação pós. Mas ainda continuamos submetidos “às mesmas lógicas de subjugação e de disciplina que são o chão do projeto colonialista: racismo, fome, guerra, movimento desenfreado, terraplanagem” (Idem). Lepecki chama a atenção para o que o multicultural sugere, ou seja, o fim fictício e delirante das tensões políticas e dos horrores corporais e sociais causados pelo colonialismo, propiciando os mercados culturais globais baseados numa etnodiversidade pacífica, humanista e unanimemente “global”. Portanto, um fenômeno multicultural não pressupõe a ocorrência de trocas recíprocas e coerentes entre culturas. Diante dessa armadilha capitalista, onde as multiculturas redefinem suas estéticas comerciais como “exóticas e performáticas (ou espetaculares, dignas de serem contempladas à distância)” (LEPECKI, 2006), este capítulo busca apresentar questionamentos sobre de que modo é possível traduzir danças de uma cultura africana e ancestral para uma cultura onde imperam os valores e critérios ocidentais 24 contemporâneos, sem se deixar cair numa canibalização8 que suprima tudo o que incomode neste processo e/ou põe em risco a compreensão do mundo ocidental. Neste viés, procurando abrir um diálogo intercultural mais horizontal, o sociólogo Boaventura de Souza Santos (2002), propõe um trabalho de tradução sustentado por dois procedimentos sociológicos, conforme citados no início deste capítulo: a ‘sociologia das ausências’ e a ‘sociologia das emergências’, os quais visam desafiar, transgressivamente, o modelo de racionalidade imperante - que ele chama de ‘indolente’ -. O autor centra-se na crítica a uma de suas formas: a ‘razão metonímica’, a qual opera sempre sob uma teoria geral que implica a ideia de totalidade e a homogeneidade das suas partes. Essa totalidade se explicita, concretamente, nas relações dicotômicas que encobrem sempre uma hierarquia e uma verticalidade: Ocidente/Oriente; civilizado/primitivo; cultura/natureza; branco/negro; conhecimento científico/conhecimento tradicional; etc. (SOUZA SANTOS, 2002, p. 242) A ideia de tradução aqui proposto, se afasta do uso comum e literal do termo, já que inclui sempre algum tipo de criação e, portanto, de transformação. Uma tradução que esta mais perto da transmutação. A teoria da tradução parte do reconhecimento da incompletude de todas as culturas, e daí busca identificar o que é comum entre as entidades, sem suprimir nada da autonomia ou diferença que lhe dá sustento. Assim, na crítica a esta teoria geral da ciência moderna, o autor parte de outro pressuposto: ‘a teoria geral da impossibilidade de uma teoria geral’ (Ibidem, p. 268), para o qual sugere um trabalho de tradução que permita “criar inteligibilidade recíproca, coerência e articulação num mundo enriquecido por uma multiplicidade e diversidade de experiências disponíveis e possíveis” (Ibidem, p. 268). Este pressuposto também sustenta nosso entendimento a respeito das manifestações artísticas das danças dos orixás, para o qual, longe de pretender ‘reproduzir padrões’ de movimentos que representam um dado orixá, busca-se uma dança em que cada corpo contemporâneo e colonizado estabelece um modo de tradução daqueles princípios de movimentos que foram configurados a partir de valores do ambiente onde surgiu tal dança. 8 O termo “canibalização” associado à cultura refere-se ao ato de deglutir a cultura do outro. Embora leve uma longa trajetória no Brasil, está muito associada à indústria do turismo, como explica Carvalho (2010, p.64) o canibal é “um consumidor de costumes alheios e, para isso, se desloca de seu contexto para o contexto do outro, ‘primitivo’, com a finalidade de usufruir de seu modo de vida e de suas expressões culturais. Segundo este autor, este processo de canibalização cultural traz como consequência a espetacularização das culturas populares. 25 Nossa hipótese é que há um processo tradutório sempre que a dança aconteça num ambiente diferente de onde surgiu. Portanto, todas as manifestações artísticas das danças de orixás são traduções de uma cultura para outra. A tradução não toca somente aos estrangeiros, há tradução em Salvador e em Buenos Aires. Se a dança de orixás só existe sendo incorporada dentro do terreiro, então, fora do terreiro, toda dança é tradução cultural. Os recortes: Do orixá ao mito, do mito à dança Os orixás são divindades que eram cultuadas entre os yorubás e chegaram a Brasil com o tráfico de escravos, onde se misturam e se organizam numa religião chamada ‘candomblé’. O termo orixá, na lingua yorubá, é uma combinação de duas palavras: ‘Ori’ que significa cabeça e ‘Sa’, que se traduz como guardião, ficando assim como “Guardião da Cabeça”, “divindade elementar da Natureza” (FONSECA Jr., 1988, p. 311). Mas também há autores que traduzem orixá como “cabaça-cabeça” (ZENICOLA, 2001, p. 15). Para o candomblé, o orixá é um ancestral, que desce à terra montado num dos corpos que dançam para saudar os seus descendentes. Os orixás são personagens internos, arquétipos que cada um tem e que não são controláveis, que sacamos à luz em determinadas situações, antes que pudéssemos pensar em como agir. Com uma perspectiva contemporânea e artística, podemos tomar os orixás como metáforas, por meio de suas danças, para reconhecer as energias que nos compõem, para explorar seus arquétipos representados nos humanos e assim ampliar nossas possibilidades de relacionar-nos com os outros e com o mundo. Utilizamos a ideia de metáfora dos filósofos Lakoff e Johnson (2002), na qual traduzem conceitos, ideias, e são corporais: toda experiência tem lugar dentro de um amplo conjunto de pressuposições culturais. “Os conceitos que governam nosso pensamento não são meras questões do intelecto... Eles estruturam o que percebemos, a maneira como nos comportamos no mundo e o modo como nos relacionamos com outras pessoas.” (LAKOFF e JOHNSON, 2002, p. 45/46) Nesta ótica, pretendemos aqui investigar os processos tradutórios das danças dos orixás Obaluaiê e Iansã que ocorrem entre o seu universo mitológico e a dança criada artisticamente por um corpo colonizado, a partir daquele universo. Interessa-nos aqui apresentar quais são as informações que vão sendo traduzidas e como o corpo de cada um traduz isso de forma criativa. Para esta etapa, se iluminará o 26 trabalho de tradução experimentado por duas professoras e dançarinas: Tânia Bispo9 e Isa Soares10 na construção corporal dos dois orixás selecionados: Obaluaiê/Omolú, a energia da terra e a peste, e Iansã, a energia do vento e a tempestade. Por conhecer os múltiplos e complexos desdobramentos de cada orixá, focalizamos a tradução das suas danças em relação ao seguinte mito: “Omolú nasceu com o corpo coberto de chagas e foi abandonado por sua mãe, Nanã Buruku, na beira da praia... Certa ocasião, todos os deuses reunidos dançavam alegremente, com exceção de Omolú, que da porta observava solitariamente. Ogum perguntou a Nanã por que Omolú não se juntava aos outros e dançava. Ela explicou que ele tinha medo de aparecer por causa das pústulas. Ogum resolveu ajudá-lo e teceu para ele uma roupa de ráfia. Assim, Omolú foi para o salão e dançou bravamente diante de todos, cantando uma cantiga que homenageava Ogum, “que o levara para o mato e lhe dera uma bela veste de palha-da-costa”. No entanto, nenhum orixá se habilitou a dançar com ele, só Iansã, altiva e corajosa, acompanhou Omolú. O turbilhão de ventos de Iansã enfeitou ainda mais a dança e acabou levantando as vestes de Omolú, que, para espanto de todos, revelou-se um homem de rara beleza. “Grato a Iansã, Omolú concedeu a ela o poder de reinar sobre os mortos.” (REIS, 2000, p. 119) Interessa-nos, especialmente, esse mito por falar de um corpo/terra marcado pela doença e rejeitado por isso, que consegue transformar sua condição na combinação com outras energias. O vento destemido de Iansã faz dançar a terra de Omolú levantando a palha e descobrindo os mistérios dele. Como explica Reis (2000, p. 119), o capuz de palha-da-costa (azê) guarda mistérios terríveis para simples mortais, revela a existência de algo que deve ficar em segredo, de interditos que inspiram cuidado e medo. Esses segredos da terra estão relacionados com a morte, por isso são terríveis para os mortais. Segundo o autor, desvendar o azê, a temível máscara de Omolú, seria o mesmo que desvendar os mistérios da morte, pois Omolú venceu a morte (REIS, 2000 p.119). No 9 Tânia Bispo é baiana, dançarina, coreógrafa e diretora de reconhecidos espetáculos em Salvador. Embora trabalhe como professora de dança em diversos espaços da sua cidade (Ufba, Sesc) desenvolve sua proposta sobre ‘Transmissão do Conhecimento da Cultura Afro Brasileira através da Sensibilização’, em oficinas para grupos de estrangeiros. Não é um detalhe menor ressalvar que a profissional integra uma comunidade da religião do Candomblé. 10 Isa Soares, baiana radicada em Buenos Aires. Além de ela ser minha mestra, que me apresentou estas danças, foi a primeira pessoa que levou estas danças para Buenos Aires, a qual hoje está espalhada enormemente. 27 entanto, Iansã, guerreira corajosa, tem a energia da tempestade, de um raio que corta o céu no meio de chuva. Só ela se atreve a dançar com a terra que guarda o mistério da morte. Iansã governa as almas dos mortos, manda-os embora e traz alegria e festa para a vida. Chama atenção o que esse mito diz a respeito da morte, como segredo terrível e misterioso. Porém, há um convívio com o mundo dos ancestrais e Omolú e Iansã os fazem presentes. Os dois orixás dançam aquilo que não se vê, nem se conhece. Eis que vejo uma afinidade entre esse oculto a ser dançado, esse mistério a ser descoberto numa beleza sublime e a nossa ignorância a respeito dessa cultura, ignorância que mantém ela na invisibilidade. Nós não temos acesso a essas informações por não ser reconhecidas pelas monoculturas da razão ocidental, como assinala Souza Santos, portanto elas não aparecem na educação oficial e ficam silenciadas na obscuridade. Do mesmo modo, as informações sobre dança que propõem as professoras Tânia Bispo e Isa Soares, também não se encontram na educação regular. Há razões e causas colonizadoras para elas ficarem na invisibilidade. Enquanto nós continuamos na ignorância, somos agentes de produção de invisibilidade. Este trabalho, então, pretende ser um agente para tirar do escuro estas danças, suas histórias e experiências. Segundo Souza Santos (2002, p. 238), a experiência social em todo o mundo é muito mais ampla e variada do que a tradição científica ou filosófica ocidental conhece e considera importante, e esta riqueza social está a ser desperdiçada. O autor sugere um outro modelo de racionalidade no intuito de dar reconhecimento às múltiplas experiências invisibilizadas: a razão cosmopolita. Por uma razão cosmopolita Para estudar esses processos tradutórios é preciso entrar em contato com outro modo de compreender o mundo, alternativo à razão metonímica, que seja capaz de pensá-lo além do mundo ocidental capitalista. Souza Santos (2002, p. 242), propõe uma ‘razão cosmopolita’ que permita criar o “espaço-tempo necessário para conhecer e valorizar a inesgotável experiência social que está em curso no mundo de hoje...” e assim “evitar o gigantesco desperdício da experiência...”, expandir o presente e contrair o futuro. 28 Nesta razão cosmopolita, o autor procura fundamentar três procedimentos sociológicos: uma ‘sociologia das ausências’, para expandir o presente; uma ‘sociologia das emergências’ para contrair o futuro, e uma teoria ou trabalho de tradução, como alternativa a uma teoria geral, a qual pressupõe sempre a monocultura de uma dada totalidade e a homogeneidade das suas partes... (Ibidem, p. 261/262). Portanto, para um melhor entendimento do trabalho de tradução, é indispensável entender esses dois procedimentos anteriores. A ‘sociologia das ausências’ busca a ampliação do mundo e dilatação do presente, ao tornar visível a infinidade de experiências que acontecem no presente, mas que não são reconhecidas pela razão capitalista ficando na inexistência. Assim, o autor começa por revelar cinco modos em que a ‘razão metonímica’ produz a não-existência do que não cabe na sua totalidade e no tempo linear (Idem, p. 246): - a monocultura do saber, que toma a ciência moderna e a alta cultura como cânones exclusivos de produção de conhecimento ou de criação artística; - a monocultura do tempo linear, que entende a história com sentido e direção únicos: o progresso e a modernização. Tudo o que não é declarado avançado, é residual sob a forma de obsoleto, primitivo, tradicional, simples ou subdesenvolvido; - a monocultura da naturalização das diferenças, onde as hierarquias por raça ou gênero são imodificáveis porque naturais; - a monocultura do universal que outorga validez a realidades independentes do seu contexto específico: o global deixa fora ao local; - a monocultura da produtividade capitalista, no qual o crescimento econômico é um objetivo racional inquestionável, critério que se aplica tanto ao trabalho humano quanto à natureza sob a forma de exploração. Segundo Souza Santos, estas cinco monoculturas produzem cinco formas de não-existência: o ignorante, o residual, o inferior, o local e o improdutivo. (Idem, p. 248). Sob esta perspectiva, evidenciam-se, como nosso objeto de estudo, as manifestações artísticas das danças dos orixás, atravessadas por todas estas categorias: é ignorante e inculto por se basear num saber oral e mitológico; é atrasado e primitivo, por conter temporalidades cíclicas, espiraladas e conviver com os antepassados; é inferior pela sua origem negra e escrava; é local porque sua configuração depende 29 diretamente do contexto e a cada novo contexto tem que se reconfigurar; é improdutivo porque suas lógicas de produção e distribuição não se regem pela exploração do homem e da natureza, mas sim, pelo contrário, cuida da distribuição das energias do universo com dinâmicas que inclui o homem como parte da natureza. A ‘sociologia das ausências’ pretende recuperar essa multiplicidade e diversidade de práticas que Souza Santos chama de “desperdício de experiências” e assim aumentar o campo das experiências credíveis existentes, sugerindo para cada monocultura uma alternativa ecológica: a ecologia de saberes, a ecologia de temporalidades, a ecologia de reconhecimentos, a ecologia de produções e a ecologia de distribuições sociais. A dilatação do presente ocorre pela expansão do que é considerado contemporâneo, pelo achatamento do tempo presente de modo a que, tendencialmente, todas as experiências e práticas que ocorrem simultaneamente possam ser consideradas contemporâneas, ainda que cada uma à sua maneira. (SOUZA SANTOS, 2002, p. 249) Uma ecologia de reconhecimentos permite visualizar como o “popular” deixa de ser sinônimo de local. Segundo Canclini, já não consiste no que o povo é ou tem num espaço determinado, mas no que lhe resulta acessível ou mobiliza a sua afetividade (2008, p. 86). Da mesma forma, a ‘identidade’ já não pode ser pensada em termos estáveis de territorialidade, mas bem se define como uma ‘construção’ permanente de relações selecionadas por identificação e pelas experiências simbólicas, onde um se reconhece e se expressa em relação ao mundo. No âmbito da cultura, ainda é possível gerar laços de identificação entre distintos países de América Latina, onde certamente o Brasil, e especialmente a Bahia, é um referente enquanto ao modo de sobreviver de vários processos de adaptação e resistência da cultura negra. Embora toda a América Latina seja uma construção híbrida e mestiça, configurada com raízes indígenas americanas, mediterrâneas da Europa e de migrações africanas, em países como a Argentina se realizaram políticas de “branqueamento social” tão poderosas que, ainda hoje, a grande maioria dos argentinos nega a presença negra no país. Talvez pelo fato de compartilhar processos históricos e por encontrar, na atualidade, as mesmas condições de desvantagens na participação deste mundo 30 globalizado, resulta-nos mais acessível compreender certos conceitos da cultura africana já traduzidos por uma outra cultura latino-americana. Enquanto a ‘sociologia das ausências’ se ocupa de dilatar o presente, ampliando o domínio das experiências sociais já disponíveis, a ‘sociologia das emergências’ pretende contrair o futuro expandindo o domínio das experiências sociais possíveis. A concepção do tempo linear do discurso colonizador e a planificação da história conseguiram estender o futuro indefinidamente. “Quanto mais amplo o futuro, mais radiosas eram as expectativas confrontadas com as experiências do presente.” (SOUZA SANTOS, 2002, p. 239) A ‘sociologia das emergências’ busca a expansão simbólica de saberes e práticas de diversos campos, a fim de identificar as condições de possibilidades e as tendências do futuro, e determinar “princípios de ações que promovam a realização dessas condições” (Idem, p. 256). . A ‘sociologia das emergências’ é a investigação das possibilidades e capacidades plurais e concretas que permitam contextualizar as expectativas sociais. Este procedimento sociológico pretende, deste modo, equilibrar a relação entre experiência e expectativa já que, quanto mais experiências estiverem hoje disponíveis no mundo, mais experiências são possíveis no futuro. Assim, a fim de fazer emergir as ausências, Santos propõe realizar um trabalho de tradução, capaz de fazer inteligível a multiplicidade de experiências disponíveis, buscando uma relação coerente com aquelas outras que ainda são possíveis. Portanto, “o trabalho de tradução permite criar sentidos e direções precários, mas concretos, de curto alcance, mas radicais nos seus objetivos, incertos, mas partilhados” (Idem, p. 274). O trabalho de tradução Greiner, no seu texto “A natureza precária das traduções” (2010, p. 25), vislumbra a emergência de uma pluralidade de projetos coletivos articulados de modo não hierárquico, capazes de confeccionarem teorias cada vez mais específicas e localizadas, a favor da eliminação do pressuposto da existência de uma teoria geral. O trabalho de tradução cosmopolita tem lugar sobre saberes e sobre práticas que são saberes aplicados e materializados-, que partem desse mesmo consenso transcultural, já enunciado anteriormente: “a teoria geral da impossibilidade de uma teoria geral”. Assim, este procedimento tende a explicitar os limites e as possibilidades 31 da articulação entre os diferentes saberes e práticas culturais, já que, nas palavras de Santos, “todas as culturas são incompletas e, portanto, podem ser enriquecidas pelo diálogo e pelo confronto com outras culturas” (SOUZA SANTOS, 2002, p. 264). Daí se compreende a necessidade de buscar em outra cultura, regida por outros valores e modos de estar no mundo, respostas para problemas e vazios da cultura própria. Em concordância, Bhabha diz que “não há comunidade ou massa de pessoas cuja historicidade emita “sinais corretos”. Por isso, o ato de negociação/tradução precisa ser sempre interrogatório.” (apud GREINER, 2010, p. 30) Não se trata, então, de pensar numa tradução literal ou absoluta, mas numa tradução que implique uma mudança, que dê lugar para uma criação e para uma mutação. Para esclarecer as condições e procedimentos deste trabalho de tradução, Santos sugere formular as seguintes questões: O que traduzir? Entre quê? Quem traduz? Quando traduzir? Como traduzir? Traduzir com que objetivos? Assim, inspirada e instigada pela proposta de Souza Santos, seguirei com as questões a partir deste ponto da dissertação. O que traduzir? A razão cosmopolita propõe construir ‘zonas de contato’, que se definem como campos sociais onde se encontram, chocam e interagem diferentes práticas e conhecimentos. Esta ‘zona de contato’ é sempre seletiva, cada saber ou prática decide o que é posto em contato com quem, contudo, tais saberes e práticas excedem a zona de contato selecionada (SOUZA SANTOS, 2002, p. 268). Para nosso trabalho de tradução, pretende-se colocar, como ‘zona de contato cosmopolita’, a ‘dança’ que, de acordo com Bittencourt (2001, p. 36) “revela-se como um sistema de alta complexidade e temporalidade ao configurar-se como produtora de linguagem, um sistema de informações que estabelece relações efetivas, transformandose dinamicamente ao transitar em ambientes diversos”. Sob esta perspectiva, as manifestações artísticas da dança dos orixás se configuram como um sistema composto por múltiplas informações: um orixá, um elemento da natureza, um mito, um ritmo, um canto, uma certa gestualidade e o corpo que dança – em interação com o ambiente – e também o modo de relacionar-se entre elas, estabelece lógicas de organização específicas. Portanto, observamos que, o que singulariza o sistema dança não é somente o conjunto de informações, mas é a lógica de 32 organização das informações, na qual a repetição reproduz-se como padrão. “O padrão apresenta-se como organização e, portanto, como resultado de alguma regularidade. E, sendo assim, revela-se como um sistema que possui uma linguagem própria, um sistema de informações” (BITTENCOURT, 2001, p. 44). Assim, os padrões construídos nas manifestações artísticas das danças de orixás, são abordados a partir de seu sistema de informações e de sua lógica de conectividade e organização, a fim de compreendê-los e incorporá-los como linguagem. Mas, como afirma a autora, a dança se transforma dinamicamente ao transitar em ambientes diversos, a partir das informações que traz o corpo que dança, o qual se correlaciona diretamente com seu contexto. “A dança e o corpo que dança expressam o pensamento do ambiente em que se encontram, os valores de sua época, destacando, marcando e transformando hábitos. Por isso, apresenta-se também como sinalizadora de um tempo passado” (BITTENCOURT, 2001, p. 45). Na tentativa de delinear a dança como zona de contato da tradução intercultural, ou seja, cosmopolita, é preciso, antes de mais nada, abrir um diálogo a respeito do entendimento de corpo e de dança entre certos autores fenomenológicos, pesquisadores das danças da cultura yorubá e pensadores contemporâneos. Em “Fenomenologia da Percepção” do filósofo Merleau-Ponty (1977; 1960), destaca um paradoxo de dupla referência na experiência da corporalidade. Vislumbra-se que o corpo é a mesmo tempo sensível e sentente, visível e vidente, isto é, que pode ser um corpo objetivo – coisa entre as coisas, pertence à ordem do objeto - assim como também um corpo fenomênico - aquele que vê e toca às coisas, pertence à ordem do sujeito-. Sujeito e objeto não estão divididos, mas constituem potências numa relação de coimplicação, onde cada uma “chama à outra”. No entanto, corpo e mundo se comunicam inevitavelmente através da espessura da carne: “o mundo está feito com o mesmo pano do corpo” (MERLEAU-PONTY, 1977, p.16-17). Essa noção do corpo como parte do tecido do mundo, descarta a dicotomia de corpo-mente e restabelece a relação horizontal do corpo e a natureza para podermos nos reconhecer neste corpo sensível e “que sente”, objeto e sujeito, que afeta e se deixa afetar por outros corpos e pelo mundo. Para a cultura yorubá, o corpo humano, “é um microcosmo e nele estão contidos todos os elementos e forças da natureza que, distribuídos harmoniosamente pelo corpo, explicam a sua mitologia” (ZENICOLA, 2001, p. 84). Assim como o corpo é natureza, 33 a natureza é corpo, sua “terra” são os tecidos, a carne, pele e ossos. O fogo aparece quando as emoções se externalizam e se modulam; assim a temperatura se altera, seja por ira, seja por vergonha ou por paixão; ou também para enfrentar alguma doença, como no caso do corpo febril. A água flui, conecta as suas partes, transporta o alimento, regula sua temperatura, relaxa e amolece a “terra” do corpo, tira o excesso e equilibra. O ar, que também está no abstrato do corpo, nos pensamentos, na imaginação, na inspiração, entra e sai dele, alimentando cada célula. Por outro lado, Augras (1983, apud ZENICOLA, 2001) explica como certas partes do corpo se relacionam com o mundo a volta: Os pés apoiam-se no concreto, no barro de onde saiu e para onde voltará, na terra que os antepassados pisaram e à qual retornaram. O pé direito corresponde à herança dos antepassados masculinos, e o pé esquerdo, à herança feminina. A mão direita e esquerda atuam sobre o mundo e transformam as coisas. A cabeça, que reproduz as quatro dimensões do espaço, contém, na interseção dos pontos cardeais, o centro da individualidade, ori-inu, manifestação do duplo sagrado, que provém de substância divina, da qual os próprios deuses são tributários. (Idem, p. 84) Rosamaria Susanna Barbara em sua tese ‘A dança das aiabás. Dança, corpo e cotidianidade das mulheres do candomblé’ (BARBARA, 2003, p. 66), afirma que para o candomblé o corpo é considerado o local da sabedoria. Os orifícios, os sentidos, a pele em geral são órgãos de conhecimentos. Merleau-Ponty (1977; 1960), discute que o mundo não pode constituir-se como mundo, nem o ‘eu’ como ‘eu’, a não ser em sua relação. Através dessas formulações, a ‘fenomenologia da percepção’ introduz a questão do outro e de como o sentido do mundo se constrói intersubjetivamente, diferenciandose radicalmente da filosofia mecanicista de Descartes que centrava essas questões no âmbito exclusivo do indivíduo e sua razão. Para o filósofo, o corpo é um agente e é a base da subjetividade humana. A percepção, não é uma representação interna de um mundo exterior, mas é uma experiência incorporada e ocorre antes no mundo que na mente. A percepção se fundamenta no comportamento, no ver, ouvir, tocar, enquanto formas de conduta baseadas em hábitos culturais adquiridos. Assim, tentando aproximar a fenomenologia da percepção, proposta por Merleau-Ponty, do pensamento yorubá sobre o corpo, trazemos uma explicação que a 34 professora e dançarina Isa Soares utilizou para propor suas recriações das danças de orixás: A terra do meu corpo às vezes eu posso modificar mudando suas dimensões (emagrecendo ou engordando, subindo aos saltos, ou pintando o meu cabelo), mas a energia do meu corpo, o modo como vou me movimentar é a que vai gerar quimicamente algum pólo positivo do outro e que se conecte com algum pólo positivo ou negativo do meu corpo, e isso pode gerar simpatia ou antipatia, as duas iguais no grau de importância e necessárias para estabelecer minhas relações com o mundo. (SOARES, 2005, Buenos Aires, sala de aula) Pelo fato do corpo ter movimento, deslocando no tempo e no espaço, a motricidade é o modo de o corpo ‘ser-no-mundo’, “estabelecendo relações portadoras de sentido, possibilitando a comunicação e permitindo, desta forma, que criamos, em nossos vários desdobramentos, o mundo da intersubjetividade” (BARBARA, 2003: p. 56). “A espessura do corpo, longe de rivalizar com a do mundo, é, pelo contrário, o único meio que tenho para ir até o coração das coisas, convertendo-me em mundo e convertendo a elas em carne” (MERLEAU-PONTY, (1964) 1970, p. 168). Já na contemporaneidade, Najmanovich (2008) sugere que não podemos conhecer os objetos independentes de nós, o conhecimento implica interação, relação, transformação mútua, codependência e coevolução. Tomando as palavras de Barbara, podemos dizer que o corpo na cosmogonia11 yorubá é o ponto de conjunção entre as energias naturais e a cultura e, por intermédio do ritmo traduzido na dança, transforma os eventos naturais em significados culturais. Cada gesto mostra o sentido de um símbolo, criando assim a dialética, o fluir dinâmico do ritual. (2003, p. 54) Vemos aqui como a dança tem um papel fundamental no processo de transmissão de costumes e valores de uma determinada nação que, já desterrada da sua África, busca sobreviver numa nova cultura, reconfigurando-se na religião do Candomblé. Mauss (1872-1950), sociólogo, historiador de religiões e antropólogo francês que colocou a sociologia dentro da ciência moderna sugerindo considerar cada fenômeno sociocultural segundo os usos sociais, no seu livro ‘Sociologia e 11 A cosmogonia é uma narração mítica que pretende dar resposta à origem do universo e da própria humanidade. A cosmogonia ajuda a construir a percepção do universo e da origem dos deuses, a humanidade e elementos naturais. 35 Antropologia’ (1950), fala de ‘técnicas corporais’ para expressar a maneira com que os seres humanos, de cada sociedade, usam e adaptam seus corpos numa forma tradicional. Nomeio técnica ao ato eficaz tradicional (vem, pois como esse ato não se diferencia do ato mágico, do religioso ou do simbólico). É preciso que seja tradicional e seja eficaz. Não há técnica nem transmissão enquanto não tenha tradição. O homem se diferencia fundamentalmente dos animais por essas duas coisas, pela transmissão das suas técnicas e provavelmente pela sua transmissão oral. (MAUSS, 1950, p. 342) As manifestações das danças dos orixás se configuram num conjunto de movimentos e intenções corporais que estabelecem uma significação dependente da sua cosmologia. Zenicola, falando especificamente da dança que acontece na cerimônia do Candomblé, comenta que “trata-se de um conjunto de passos específicos e intenções claras de movimentos para cada orixá que, embora permita variações interpretativas de intenção e na ordem em que os passos serão apresentados, não aceita mudanças na execução do movimento.” (ZENICOLA, 2001: 86) Não é a nossa intenção estudar a dança que acontece no contexto religioso, mas buscar modos de traduzi-la desde seu universo mitológico para o contexto da arte. Por este caminho, Inaycira Falcão dos Santos (2006) traz uma proposta para a arte da dança que se afasta da tradicional abordagem focada na cópia de formas do rito vivenciado no terreiro e se volta para o corpo do intérprete-bailarino por meio de memórias ancestrais, com ações corporais carregadas de significados, trazendo-as para o presente por meio da arte do movimento criativo (SANTOS, 2006). Interessa-nos, aqui, como a autora foca na experiência singular de cada intérprete, na qual, além da vivência física, filosófica e criativa, o intérprete reflete sobre a mesma e se percebe corporalmente no processo (SANTOS, 2006). Desta forma, a autora sugere que, para pensar na tradição africana brasileira, já não se trata de reproduzir as formas sagradas advindas das comunidades religiosas, mas como este sagrado pode inspirar o artista, discernindo formas, valores da cultura em questão, buscando o seu conhecimento e o respeito. Assim, vemos que a dança se modifica de acordo com as relações que se estabelecem entre o corpo que dança, o seu ambiente e as informações de tal dança. E, nesse modo particular de se relacionar com o ambiente, cada dança e cada corpo se torna único. 36 Em consonância com isto, Katz e Greiner (2005), apresentam a teoria corpomídia, na qual explicam que informações do mundo são selecionadas para se organizar na forma de corpo, e a cada informação que chega ao corpo, reposiciona-o por inteiro. O corpo e o ambiente relacionam-se em processos coevolutivos que tecem “uma rede de pré-disposições perceptuais, motoras, de aprendizado e emocionais” (2004, p. 130). Parafraseando Najmanovich, o corpo participa de uma dinâmica criativa de si mesmo e do mundo com que ele está em permanente intercâmbio. Vale a pena apontar aqui como a teoria corpomídia atualiza o conceito de corpo da fenomenologia da percepção. Merleau-Ponty sugere uma noção de ‘ser-no-mundo’ que implica uma relação indivisível do ser com o ‘haver’ prévio: “o mundo está aí previamente a qualquer análise que eu possa fazer do mesmo”. (Merleau-Ponty 1993 [1945): 10) No entanto, para Katz e Greiner não há nada pré-estabelecido, “tudo o que é vivo existe como resultado sempre parcial de uma condição coevolutiva” (SAITO, 2012, p.19). A teoria corpomídia pesquisa o “estado do corpo ser” (Idem), ou seja o corpo sempre em “estado processual”, em constante mudança e troca com o ambiente, o qual também se modifica e se reconfigura a cada mudança. Katz e Greiner nos convidam, então, a repensar o conceito de corpo, já não enquanto um meio por onde a informação simplesmente passa, pois toda informação que chega entra em negociação com as que já estão, num processo de contaminação (2004, p. 131). O corpo como resultado desses cruzamentos se torna mídia de si mesmo, afastando-se da ideia de mídia como veículo de transmissão. Desta forma, a dança é tratada como uma experiência cognitiva que opera no fluxo entre corpo e ambiente, de modo que o corpo vive em estado do sempre-presente. Segundo as autoras, as experiências são frutos de nossos corpos, de nossas interações com nosso ambiente através das ações de se mover (sensório-motoras) e de nossas interações com outras pessoas dentro da nossa cultura e fora dela. O ato de dançar, então, “é o de estabelecer relações testadas pelo corpo em uma situação, em termos de outra, produzindo, neste sentido novas possibilidades de movimento e conceituação” (Ibidem, 132). Portanto, a zona de contato da tradução, vai ser aquela manifestação artística da dança dos orixás (especificamente de Obaluaiê e de Iansã) que, “em ressonância com seu ambiente, cria e é submetido a mitologias do corpo em movimento” (GODARD, 1995, p. 11). 37 Entre quê traduzir? A seleção dos saberes e práticas para realizar o trabalho de tradução resulta de uma convergência de sensações de carência, de inconformismo, e da motivação para superá-las de uma forma específica (SOUZA SANTOS, 2006, p. 270). Esta sensação de carência e motivação para realizar algo é parte fundamental das condições necessárias para que a dança surja e se desenvolva num certo contexto. A cada novo contexto, a dança se reconfigura de acordo com as adaptações às condições particulares. Propomo-nos, então, estudar o processo de tradução entre diferentes contextos onde ocorrem as danças baseadas em mitos de Obaluaiê e de Iansã. Mesmo pressupondo que existem tantos contextos quanto danças e modos de dançar, para esta pesquisa serão abordados dois modos de traduzir: entre o contexto do universo mitológico dos orixás e o ambiente artístico e contemporâneo da dança. Tomamos por ambiente não somente o espaço físico, mas todo um conjunto de condições necessárias para que a dança aconteça, onde corpo e ambiente trocam informações num fluxo contínuo de acordos coadaptativos (FOLEY, 2003). Assim, numa primeira instância serão analisadas as reconfigurações destas danças na passagem da África à Bahia, onde em condições da escravidão, o culto aos orixás era a motivação para superar as experiências do desarraigamento ou extirpação e as vivências mais inumanas a que foram submetidos. A dança era, aqui, uma forma de comunicar-se com os ancestrais, com sua terra do outro lado do oceano e também entre eles, já que nem todos compartilhavam o mesmo dialeto. Como ilustra Verger: ... disso resultou, no Novo Mundo, uma multidão de cativos que não falava a mesma língua, possuindo hábitos de vida diferentes e religiões distintas. Em comum, não tinham senão a infelicidade de estarem, todos eles, reduzidos à escravidão, longe das suas terras de origem. (VERGER, 2003, p. 22) Numa segunda instância, serão analisados dois contextos onde a dança surge como expressão artística contemporânea, de corpos colonizados pelos valores ocidentais e capitalistas, privados de escolherem outras formas de viverem e se relacionarem com o mundo, além do mundo capitalista. A dança cobra um sentido singular em cada pessoa, de acordo com as possibilidades interativas entre o corpo, o ambiente e as características selecionadas desta dança. 38 Neste sentido, podemos afirmar que as conexões musculares dos corpos de uma técnica de dança correspondem a uma determinada lógica de cognição e essa lógica obedece a valores de um certo contexto. Assim, cada corpo vai criando regras para compor a dança, isto é, seleciona uma ou mais possibilidades de composição. Britto explica: Toda dança resulta do modo particular de um corpo organizar, com movimentos, o seu conjunto de referências informativas (biológicas e culturais). Do mesmo modo, o contexto cultural corresponde ao ambiente do corpo, no sentido de que o conjunto de informações que caracterizam os modos de pensar e operar vigentes na sociedade em que está inserido delineia seu campo particular de possibilidades interativas. (BRITTO, 2008, 72) Portanto, o processo de tradução da dança entre o contexto mitológico e cada ambiente do corpo que traduz, será sempre em relação à seleção de informações que faz sentido para ele e que faz algum tipo de conexão com sua história corporal, suas buscas e necessidades. É por aí onde vemos a possibilidade de fazer um caminho pessoal e criativo nas manifestações artísticas da dança dos orixás e onde a tradução se aproxima mais a uma ‘transmutação’ (Jakobson) ou a uma ‘transcriação’ (CAMPOS, apud GREINER, 2010, p. 15). Quando traduzir? Nas zonas de contato multiculturais, tem de se confluir uma constelação de tempos, ritmos e oportunidades que a “sociologia das ausências” se encarregou de revelar, em contraposição à lógica da monocultura do tempo linear. (SOUZA SANTOS, 2002, p. 271) Para a cultura africana, “o tempo é uma composição dos eventos que já aconteceram ou que estão para acontecer imediatamente” (MBITI, 1990, p. 16-17, apud. PRANDI, 2001, p. 7). Longe de pensar o tempo independente do ser humano, como algo a ser consumido ou vendido, para o africano, o tempo tem que ser criado, “ele faz tanto tempo quanto queira” (Idem, p. 4). No Brasil, em comunidades religiosas regidas por tradições africanas, o tempo, até hoje, é pensado e descrito de um modo muito diferente do tempo linear e causal do capitalismo. Em palavras de Prandi (2001, p. 4): 39 “o tempo será sempre definido pela conclusão das tarefas consideradas necessárias no entender do grupo, ou seja, por meio da fórmula: ‘quando estiver pronto’”. Na cosmovisão africana, o tempo é circular, é o tempo da natureza, onde os eventos do presente são repetições de um passado distante que se “transmite” oralmente pelo mito. Porém, na mitologia, os eventos também não se ajustam a um tempo contínuo e linear. Os mitos são narrativas parciais, onde fatos que são narrados como acontecimentos de uma mesma época, ocorreram em momentos muito distantes. “O tempo do mito é o tempo das origens, e parece existir um tempo vazio entre o fato contado pelo mito e o tempo do narrador.” (Idem, p. 7) Na zona de contato cosmopolita das manifestações artísticas das danças dos orixás, o tempo da tradução será de uma contemporaneidade que permita abranger este pensamento de tempo. Ou seja, contemporaneizar esta prática e este saber pelo simples fato de estar acontecendo nesta época, mas, atendendo, sobretudo às suas lógicas de tempo. Neste caso, se a tradução é contemporânea, a dança também pode ser tratada como contemporânea. Quem são os meus contemporâneos? — pergunta-se Juan Gelman. Juan diz que às vezes encontra homens que têm cheiro de medo, em Buenos Aires, em Paris ou em qualquer lugar, e sente que estes homens não são seus contemporâneos. Mas existe um chinês que há milhares de anos escreveu um poema, sobre um pastor de cabras que está longe, muito longe da mulher amada e mesmo assim pode escutar, no meio da noite, no meio da neve, o rumor do pente em seus cabelos; e lendo esse poema remoto, Juan comprova que sim, que eles sim: que esse poeta, esse pastor e essa mulher são seus contemporâneos. (GALEANO, 1991, p. 123) Quem traduz? A tradução é um trabalho intelectual, geralmente exercido por líderes de grupos sociais. Já Heidegger, concebia possível a tradução de uma palavra, se o tradutor consegue trasladar-se para o “horizonte de experiência a partir do qual a palavra se enunciou” (GREINER, 2010, p. 15). Portanto, esses tradutores cosmopolitas precisam estar “fortemente enraizados nas práticas e saberes que representam, tendo de uns e de outras uma compreensão profunda e crítica” (SOUZA SANTOS, 2002, p. 271). 40 Para explicar esta idéia, Souza Santos remete-se à filosofia da sageza da África tradicional. Os sages eram poetas, contadores de histórias, músicos ou médicos tradicionais de sabedoria, que transmitiam o modo de pensar e de explicar o mundo de uma comunidade através de uma “sabedoria didática” que se caracterizava pela sua dimensão crítica frente ao senso comum. Só que muito dessa filosofia da sageza não está escrita e tem se perdido (ODERA ORUKA, 1990-1998, apud SOUZA SANTOS, 2001, p. 263) Pela mesma via, o saber popular das cosmovisões africanas - tanto yorubá, bantu ou fon, entre outras-, transmitido pela oralidade, foi perdendo importância sob a forma de ignorante ou inculta, ficando legitimado somente o que os cientistas e intelectuais europeus conseguiram escrever nos seus livros. Porém, muitas informações tiverem continuidade através da mitologia, dos cânticos, dos rituais e das danças. Como já apresentamos, para este estudo, as tradutoras analisadas serão as professoras Isa Soares e Tânia Bispo. Tânia Bispo desenvolve o seu trabalho em Salvador/ BA, a partir do contato com a simbologia ritualística dos orixás e sua relação com o elemento da natureza correspondente, energias, características, arquétipos e leituras simbólicas dos fundamentos ligados ao orixá. O trabalho busca explorar a criação de sequências individuais e composições coletivas em relação com o “mito pessoal” e retratos das memórias ancestrais. Tânia Bispo conta que a pesquisa começou com ela mesma, quando na sua formação na ‘Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia’ deparou-se com a dificuldade de improvisar com ‘uma linguagem própria’, por conta de ter incorporado tantas informações da dança moderna, do balé clássico e demais técnicas “importadas” desenvolvidas na Escola de Dança naquela época. A dançarina relata que sentia que tinha perdido a sua língua matriz, a sua ancestralidade. Foi a partir da percepção da carência de uma oferta de dança que contemplasse a sua história pessoal, que decidiu “pesquisar com o núcleo Odundê, os princípios básicos da postura de um corpo negro, a postura de um corpo que dança matriz sagrada” (entrevista, 2011). Por sua vez, Isa Soares, baiana radicada em Buenos Aires/Argentina, há mais de trinta anos, desenvolve sua proposta de ‘recriações das danças de orixás’ a partir do trabalho do ‘Xiré’, isto é, uma ordem de aparição dos orixás, na qual eles representam ‘diferentes instâncias mediadoras, dentro dos ciclos vitais’… “Os gestos, nessa recriação, relatam o recorrido do corpo por instâncias da vida...” (SOARES, 2006). A 41 professora conta que seu trabalho de dança partiu da necessidade de se incluir na sociedade porteña (de Buenos Aires) onde mora, porque foi ela que decidiu se instalar ali, sendo negra, sem família e com um filho. Ela precisava dialogar com as pessoas por meio da dança, de dizer como era ela, como gostaria que a tratassem e como ela gostaria que fosse o mundo. Na hora de partilhar o seu trabalho, Isa Soares sublinhava sobre o lugar que ela tinha recriado cada movimento: “aconteceu-me isto, eu o reproduzo assim, entrego-lhes dessa maneira, vocês façam com ele o que quiseram. Contudo, observem sempre, desde a sua necessidade de fazer. Não da repetição porque sim.” (SOARES, 2005, entrevista) Nos dois casos, o trabalho de tradução da dança se reconfigura a partir da dimensão crítica de cada professora em relação com o seu ambiente e com o universo mitológico da dança. Porém, vemos que, desta atitude crítica, surge um sentimento de incompletude “e a motivação para encontrar noutros saberes ou noutras práticas as respostas que não se encontram dentro dos limites de um dado saber ou de uma dada prática”. (SOUZA SANTOS, 2002, p. 271) Esta ideia de carência e a motivação para superá-la, segundo Souza Santos, podem ser melhores entendidas com o questionamento do sociólogo indiano Vishvanatran (2000, apud, SOUZA SANTOS, 2002, p. 264): “o meu problema é como ir buscar o melhor que tem a civilização indiana e, ao mesmo tempo, manter viva a minha imaginação moderna e democrática”. Tal problematização, de alguma maneira, converge para os nossos modos de pensar as traduções culturais das danças: como tomar certos valores e princípios da cosmovisão africana para transformar modos de nos relacionarmos e criar mundos possíveis, a partir de nossa história pessoal? Como traduzir? Souza Santos explica que o trabalho de tradução é um trabalho argumentativo, o qual confirma a “emoção cosmopolita de partilhar o mundo com quem não partilha o nosso saber ou a nossa experiência” (SOUZA SANTOS, 2002, p. 272). Assim, o autor apresenta três principais dificuldades do trabalho de tradução: 1- A primeira dificuldade são as premissas de argumentação. Cada cultura ou saber, conta com um consenso de regras, postulados e ideias, nomeadas como ‘lugar comum’ ou ‘topoi’, nas quais assentam as premissas de argumentação. Porém, esses 42 topoi, por serem próprios de uma cultura, não são aceitos como óbvios por outra cultura ou saber. Portanto, para o trabalho de tradução, cada saber ou prática leva para a zona de contato, certos topoi que deixam de ser ‘premissas da argumentação’ e tornam-se ‘argumentos’ da tradução. No processo do trabalho de tradução, vão se construindo “topois adequados à zona de contacto e à situação de tradução” (Idem, p. 272). A escolha do trabalho das professoras Isa Soares e Tânia Bispo para este estudo relaciona-se com a particular capacidade delas para construir topois ou ‘lugares comuns’ adequados à zona de contacto da dança da mitologia afro-yorubá, que argumentam de forma coerente o processo de tradução de cada trabalho. Os argumentos de tradução de cada uma das professoras estão construídos a partir do ambiente de cada corpo, e são os que possibilitam e sustentam o processo criativo de cada dança. Porém, como afirma o sociólogo, este “é um trabalho exigente, sem seguros contra riscos e sempre à beira de colapsar” (SOUZA SANTOS, 2002, p. 272). 2- A segunda dificuldade está na língua. A dificuldade aparece especialmente quando a ‘zona de contato cosmopolita é multicultural’ e a argumentação é conduzida pela língua colonial, a qual muitas vezes tornam impronunciáveis aspectos centrais dos saberes e práticas oprimidos na zona colonial. (SOUZA SANTOS, 2002, p. 272). Neste trabalho de tradução, a linguagem é a dança. O risco está em que, para poder fazer algum tipo de tradução desta dança de origem afro-yorubá, é indispensável partir de outra noção de corpo, diferente daquela que marca o corpo colonizado, organizado por lógicas e valores da cultura ocidental, questão que já foi discutida para delimitar a zona de contato a traduzir, isto é, dança. A tradução é um trabalho paralelo ao processo de aprendizagem de uma nova linguagem corporal, com outros conceitos de corpo, de estética, de tempo e que implica estabelecer uma relação mais íntima e horizontal com a natureza, a partir do entendimento de que o corpo é composto por uma multiplicidade de energias possíveis de serem desenvolvidas. No intuito de atender a uma tradução corporal que abrange aquilo que não se sabe como pronunciar, Greiner sugere que o indizível da linguagem “sempre pode ser traduzido como um querer-dizer”, e nesse silêncio, uma fala secreta torna a tradução próxima da criação. (GREINER, 2010, p. 15) 3- A terceira dificuldade está nos silêncios. A tradução do silêncio é uma das tarefas mais complexas, já que cada saber e prática outorgam um significado diferente ao silêncio, assim como um ritmo específico na articulação com as palavras. (SOUZA 43 SANTOS, 2002, p. 273). Para a cultura tradicional africana, o silêncio está associado ao segredo, ao fundamento do culto aos orixás, que só podem ter acesso pessoas que passam por uma série de rituais iniciáticos através de longos anos. Prandi (2001) comenta que são os velhos os depositários do segredo da tradição e da cultura viva: “Mitos, fórmulas rituais, louvações, genealogias, provérbios, receitas medicinais, encantamentos, classificações botânicas e zoológicas, tudo é memorizado” (PRANDI, 2001, p. 12). A única maneira de aprender é na sua convivência, mas é um aprendizado silencioso e sem muitas perguntas, baseado na observação e repetição. Mesmo assim, silêncio em yorubá significa “Atótó!”, e com esta palavra se cumprimenta a Obaluaiê em sinal de respeito: “Atótó! Omolú Olúké a jí béèrù sápadà!” (Silêncio! O filho do Senhor é o Senhor que grita, nós acordamos com medo e corremos de volta!) (OLIVEIRA, 1997, p. 75). Essa questão de como traduzir o silêncio, portanto, estará presente no estudo das danças do orixá Omolú/Obaluaiê nos próximos capítulos. Como bem assinalava Souza Santos, essa cultura também concede um ritmo específico ao silêncio na articulação com as palavras. No caso da linguagem corporal desta dança mitológica, o silêncio é marcado pelos diferentes toques percussivos de cada dança. O ritmo sugere uma energia particular que, para atingi-la é indispensável “silenciar” certas partes do corpo para que outras possam se movimentar. Contudo, já sabemos que este silenciamento do corpo não é uma questão meramente de visibilidade músculo-esquelética. Segundo Godard, “a cultura, a história do dançarino, a sua maneira de perceber uma situação, de interpretar, vai induzir uma “musicalidade postural” que acompanha ou despista os gestos intencionais executados” (GODARD, 1995, p. 13). Porém, o autor acrescenta que esses mecanismos não são muito compreensíveis e também não podem ser dirigidos pela intenção. Godard sugere, então, atender ao pré-movimento, ou seja, à “atitude em relação ao peso, à gravidade, que existe antes mesmo de se iniciar o movimento”, (idem, p. 13) que é o que vai produzir a carga expressiva do gesto. Assim, este estado corporal que antecede ao gesto, será 44 retomado e aprofundado no capitulo quatro, na hora de analisar as traduções das danças de Isa Soares e Tânia Bispo. Para que traduzir? O trabalho de tradução cosmopolita contribui para apontar resposta à primeira pergunta deste estudo: de que modo é possível realizar um trabalho de tradução de danças africanas e ancestrais para uma cultura colonizada pelos valores e critérios ocidentais, buscando uma articulação recíproca e evitando uma tradução hegemônica? A razão cosmopolita reconhece uma América Latina cheia de experiências além do seu colonizador ocidental. Nesta dilatação do presente, diferentes culturas não hegemônicas podem buscar respostas ao inconformismo que produz o mundo ocidental, num diálogo transcultural com diversos tipos de tradução que habilita a uma inteligibilidade recíproca. Retomando as palavras de Souza Santos, o trabalho de tradução entre práticas não hegemônicas é uma condição da conversão das práticas nãohegemônicas em práticas contra-hegemônicas. (SOUZA SANTOS, 2002, p. 265). Para o trabalho de tradução cosmopolita, é urgente, ante disso, reconhecer nossa condição de inexistentes e entender que essa invisibilidade é produzida pela cultura hegemônica ocidental, a qual só legitima as monoculturas que cabem no seu raciocínio. É a partir de reconhecermo-nos colonizados, de registrar o sentimento de incompletude que nos incomoda e da vontade de transformá-lo, que podemos estabelecer um diálogo de reciprocidade com uma outra cultura não hegemônica. As manifestações artísticas das danças de orixás podem se converter em práticas contra-hegemônicas ‘somente’ se o trabalho de tradução - trabalho intelectual, político e emocional- consegue atender à diversidade de experiências, valores e cosmovisões que desafie à razão ocidental capitalista. A quantidade de experiências invisibilizadas não é tanto problema quanto as infinidades de experiências e saberes que, por estarem respondendo às monoculturas ocidentais, reproduzem-se através de ações e discursos colonizadores sem terem consciência disso. A ‘sociologia das ausências’ e a ‘sociologia das emergências’ se tornam pilares indispensáveis para realizar os trabalhos de tradução das dançarinas Tânia Bispo e Isa Soares nos próximos capítulos. Tais sociologias apontam para a desnaturalização dos parâmetros de legitimação com os quais somos educados no dia-a-dia, ampliando o 45 presente a partir das ecologias de saberes, de temporalidades, de reconhecimentos, de produções e de distribuições sociais. Deste modo, as experiências das artistas aqui pesquisadas se tornam visíveis e são legitimadas pelos valores das culturas colonizadas implicadas na tradução. Deixa-se assim, o terreno propício para dar visibilidade a muitas outras experiências. 46 CAPITULO 2 TÂNIA BISPO: TRANSCENDER O ‘MITO PESSOAL’ Figura 1: Manifestação artística de Tânia Bispo, Salvador, 2012. Foto: Arquivo da autora Este capítulo propõe apresentar um estudo sobre o modo em que a dançarina e professora Tânia Bispo consegue traduzir, artisticamente, as danças mitológicas dos orixás Omolú e Iansã - duas deidades cultuadas na religião do candomblé. A partir do trabalho de tradução cosmopolita, segundo Souza Santos, iluminamos a manifestação artística desta dançarina, que logra um processo criativo, sensorial e pessoal da dança, baseado nos arquétipos oriundos dos mitos e nas vivências do culto aos orixás. Evitando traduzir esta cultura a partir dos valores e critérios ocidentais, Tânia Bispo constrói outros ‘lugares comuns’ para novas ‘premissas de argumentação’. Segundo ela, para fazer a tradução é preciso diferenciar o espaço sagrado do artístico, entender que todos (de qualquer origem e religião) podemos nos reconhecer na natureza por meio de emoções e arquétipos e que a preparação corporal não precisa 47 apenas de técnica ou de cópia de passos, mas de um trabalho de sensibilização de cada corpo, respeitando a individualidade e as diferenças. Deste modo, esta experiência contribui em contrapor o fenômeno de colonização instalado pelo sistema capitalista. Como foi explicitado anteriormente, a zona de contato desta tradução é a dança inspirada no seguinte mito: “Omolú nasceu com o corpo coberto de chagas e foi abandonado por sua mãe, Nanã Buruku, na beira da praia... Certa ocasião, todos os deuses reunidos dançavam alegremente, com exceção de Omolú, que da porta observava solitariamente. Ogum perguntou a Nanã por que Omolú não se juntava aos outros e dançava. Ela explicou que ele tinha medo de aparecer por causa das pústulas. Ogum resolveu ajudá-lo e teceu para ele uma roupa de ráfia. Assim, Omolú foi para o salão e dançou bravamente diante de todos, cantando uma cantiga que homenageava Ogum, “que o levara para o mato e lhe dera uma bela veste de palha-da-costa”. No entanto, nenhum orixá se habilitou a dançar com ele, só Iansã, altiva e corajosa, acompanhou Omolú. O turbilhão de ventos de Iansã enfeitou ainda mais a dança e acabou levantando as vestes de Omolú, que, para espanto de todos, revelou-se um homem de rara beleza. Grato a Iansã, Omolú concedeu a ela o poder de reinar sobre os mortos.” (REIS, 2000, p. 119) Com a finalidade de pesquisar o processo de tradução de Tânia Bispo, precisamos primeiramente, compreender os diversos contextos, as dificuldades e as condições específicas nas quais a tradutora foi se desenvolvendo e construindo este trabalho. 2.1. Salvador: do tabu ao exotismo. Salvador é uma cidade que se tece no deambular das suas próprias contradições. Os três séculos de tráfico de escravos provenientes de diferentes culturas africanas lhe deixou uma população com alta porcentagem de negros e uma cultura caracterizada pela quantidade de práticas com traços africanos como o samba, a capoeira, as comidas, as festas, a religião, as oferendas, entre outros que se misturaram com costumes indígenas e europeus. Este fenômeno de miscigenação não se deu de forma pacífica nem conciliatória e o poder eurocêntrico e colonizador se encarregou de levantar a bandeira da democracia racial, que aparenta uma feliz convivência entre as diferentes raças e classes sociais. Ao longo da história foi se instalando sorrateiramente um racismo velado sob a ideia de mestiçagem, amplamente difundida por artistas e pensadores românticos que 48 construíram a ilusão de um Brasil harmonioso e sempre sorridente. Paralelamente, podem-se perceber diversos movimentos de resistência negra que vão das lutas nos quilombos -1830- até a africanização do carnaval12 -1970-, os quais, estrategicamente, procuravam manter vigente sua cultura. Infinidades de músicas, assim, falam do brilho do mar, do céu tropical, dos corpos morenos e curvos e das danças sensuais, alegres e coloridas. Semelhante promessa turística atrai e alimenta o sonho europeu e enriquece o mercado da indústria cultural. De tal modo, as práticas culturais negras que sobrevivem no cotidiano e no pensamento do povo baiano sofrem diversos modos de espetacularização e exotização por parte da indústria cultural, na busca de minimizá-las e negar-lhes sua vigência como parte da identidade baiana. Segundo Carvalho: “a “espetacularização” é a “operação típica da sociedade de massas, em que um evento... criado para atender a uma necessidade expressiva específica de um grupo é preservado e transmitido através de um circuito próprio, é transformado em espetáculo para consumo de outro grupo, desvinculado da comunidade de origem”. (Carvalho, 2010, p. 47) Assim sendo, o samba de roda, a capoeira e as cerimônias de candomblés viraram produtos folclóricos vendidos como lembranças aos estrangeiros. Porém, estas práticas ainda conseguem, de certo modo, manter algum sentido de resistência e valorização da comunidade negra. Na década de 1970, em plena ditadura, Salvador vivia um clima de efervescência na luta pela resistência negra. De acordo com Motta (2009, p. 46), em 1974 é fundado o Bloco Negro Ilê Ayê o qual, na busca por desenvolver a autoestima do povo negro baiano, contribuiu na revelação de músicos e dançarinos negros. Seguidos pelo impulso do Ilê Ayê surgiram outros importantes blocos entre os quais não podemos deixar de citar, como o bloco afro Malê Debalê, originário de Itapuã; e os blocos de afoxés como Os Filhos de Gandhi e o Badauê, que conduziam aproximadamente seis mil pessoas (Ibidem, p. 47). Estas manifestações culturais deram visibilidade e reconhecimento social e político aos afrodescendentes baianos, preparando o terreno para um novo ciclo de afirmação da cultura negra e luta contra o racismo. 12 Termo utilizado por Antônio Risério para nomear o fenômeno dos blocos afros e afoxés no carnaval da Bahia observado a partir dos anos de 1970 (MOTTA, 2009, p. 14). 49 Nesse contexto, Tânia Bispo inicia sua carreira como dançarina no grupo folclórico do SESC (Serviço Social do Comércio), com o professor Raimundo Bispo dos Santos, conhecido como Mestre King, e depois, ela se profissionaliza na Escola de Dança da UFBA (Universidade Federal da Bahia). Numa entrevista concedida para este trabalho, Tânia Bispo comenta, porém, que quando entrou na Escola de Dança, houve um choque ao se encontrar com uma escola que era totalmente voltada para culturas estrangeiras, ou seja, as técnicas de dança que a escola propunha eram todas de origem europeia e americana. Vale esclarecer, que neste trabalho não nos focaremos na história da Escola de Dança da UFBA, nem tampouco em suas referências e percursos no campo da dança. Apenas vamos apontar para as informações mais relevantes que revelam as circunstâncias nas quais Tânia Bispo foi construindo seu modo de dançar, e especialmente, de manifestar artisticamente as danças dos orixás. 2.2. A universidade. Dança de qual história? Conforme Motta (2009, p. 33), a ‘Escola de Dança’ da UFBA, fundada em 1956, tem deixado importantes marcas ao longo da história da dança no Brasil, já que, além de ser a única escola de dança de nível superior no país em suas primeiras décadas de existência, sempre colaborou especialmente na consolidação da dança como área de conhecimento. No início da Escola, a dança só podia ser pensada em referência a Europa ou aos Estados Unidos: a dança clássica ou as danças modernas como o expressionismo alemão e as técnicas americanas de Martha Graham. Essas últimas, muito em voga naquela época, respondiam às circunstâncias daqueles que viviam no seu lugar de origem, com características que nada tinham a ver com as da Bahia, nem do Brasil. Em palavras de Motta: “passávamos do convívio cultural dividido entre as visões ameríndias, luso-ibéricas e africanas para uma expressão de um pós-guerra de uma guerra acontecida numa Europa em que os habitantes da província soteropolitana mal tinham ouvido falar”. (Ibidem, p. 32) No programa curricular da Escola, todas as disciplinas “práticas" trabalhavam técnicas corporais importadas da Europa e Estados Unidos, como o balé clássico, a dança moderna, principalmente a técnica de Martha Graham e as danças de caráter. Só 50 contava com uma disciplina chamada ‘Danças Folclóricas’ onde podia conhecer-se algo da cultura local como o samba de roda, a capoeira e o maculelê,... (Ibidem, p. 33) Assim, Tânia Bispo se encontrou numa disciplina chamada ‘Improvisação’, com a dificuldade de improvisar quando lhe era cobrada uma linguagem própria. A dançarina comenta que “não sabia mais o que fazer desse corpo, porque já tinha perdido a língua própria”. Ela não sabia se falava a sua língua matriz, sua ancestralidade, não sabia se falava a linguagem que era desenvolvida na Escola de Dança na época, como a dança moderna e o balé clássico, ou a linguagem que era a dança afro. (Bispo, entrevista, 2011) Numa entrevista prestada a Motta, Tânia Bispo relata que ela sentia dificuldade para executar as técnicas da dança moderna e principalmente do balé clássico. Mesmo assim, os critérios da Escola para qualificar as técnicas curriculares eram muito rígidos: “um corpo que não conseguisse realizar adequadamente estas técnicas, desconsiderava a aluna como habilitada para dançar” (MOTTA, 2009, p. 55). Porém, Tânia Bispo afirma que “seu corpo negro, de forma orgânica dançava no dia-a-dia, rebolava no subir e no descer da ladeira, entrava no samba de roda em qualquer esquina e isso determinava o seu padrão corporal. Acompanhava a charanga, entrava no samba de partido e tudo isso não era somado e nem considerado na Escola”. (idem, p. 55) A professora Conceição Castro13 estava a cargo da disciplina acima mencionada na qual Tânia Bispo se encontrou em conflito. Quando ela ouviu o questionamento da aluna, desafiou-lhe que então improvisasse com toda sua história pessoal: “pesquise como é esse movimento no seu corpo. Como ele se traduz? Como você pode trazê-lo do seu interior para expressá-lo com o seu próprio sentimento sem ferir a sua história, sem ferir as suas identidades. Preste atenção ao que lhe move e porque” (segundo depoimento de Tânia Bispo a MOTTA, 2009, p. 56). Conceição Castro já vinha percebendo essas dificuldades dos alunos negros que, embora fossem muito bons dançarinos nos seus contextos e muitos dançavam nos blocos afros e outras manifestações culturais, entraram numa escola que lhes impunha técnicas corporais que nada tinham a ver com sua história. Mais uma vez, os negros se encontravam em condição de desvantagem diante dos alunos brancos que já traziam formação em balé ou dança moderna. 13 Maria da Conceição Castro Franca Rocha. Mestre em Educação, hoje aposentada, pertencia ao quadro docente do Departamento de Teoria e Criação Coreográfica da Escola de Dança da UFBA. 51 A professora Conceição Castro tomou essa crise de Tânia Bispo como disparadora para conformar um núcleo que pesquisasse os princípios básicos da postura de um corpo negro e que valorizasse o conhecimento dos alunos afrodescendentes. 2.3. Odundê: novo ciclo de um povo O grupo Odundê, surge no ano 1981, com um projeto de pesquisa nomeado “Estudo do movimento na Dança Afro-brasileira”, o qual propunha aproximar as tradições e influências culturais africanas ao movimento contemporâneo (BISPO, 2004, p.11). Motta relata a respeito, que o grupo buscava configurar uma dança que ‘encarnasse’ as formas de viver, trabalhar, sofrer e celebrar da comunidade negra em suas diferentes relações com a sociedade baiana e com o mundo. (MOTTA, 2009, p. 52) Percebe-se então, que o grupo tinha duas pretensões muito ousadas para a época. Por um lado, buscava pesquisar esta dança, cheia de tradições e simbolismos afrodescendentes, dentro de um contexto acadêmico onde até agora só contemplava as danças importadas dos países hegemônicos. Ao mesmo tempo, se interessava em estudá-las com uma abordagem contemporânea. Nas palavras de Motta (Ibidem): “Essa dança deveria liberar dimensões ocultas que revelassem, não apenas no aspecto coreográfico, mas no próprio corpo dos dançarinos, identificações com a resistência, com seu imaginário e desejos contemporaneamente comungados”. Como consequência das pesquisas em sala de aula, o grupo começou a compor um espetáculo que levava o mesmo nome. Sobre este processo, Tânia Bispo lembra que se estudava como era a postura do corpo que dança, quais eram os pontos de energia desse corpo, ou seja, pesquisavam os blocos musculares necessários para que o corpo transmitisse um conhecimento de modo que o espectador não precisasse dizer: “a! é Iansã! é Oxossi! é Oxum! mas sim reconhecer uma guerreira, uma mulher sensual. Vêse só a tradução e deixa-se o orixá no candomblé”. (BISPO, entrevista, 2012) Podemos dizer, seguindo Motta (2009, p. 71), que o grupo Odundê buscava abandonar o padrão ocidental e estereotipado da dança afro da época, atendendo às informações que estavam ocultas até para eles próprios e que emergiam no processo da criação. O projeto de Odundê foi apresentado e aprovado no Departamento de Teoria e Criação Coreográfica e, a partir de 1981, o designam como um dos grupos oficiais da Escola de Dança da UFBA. (Ibidem, p. 72) 52 Odundê, em yorubá, significa: Odun – destino de um povo, ano novo – e dê – tempo, vida nova, novidade. Ou seja: nova era, novo ciclo que se inicia (Ibidem, p. 60). Seguramente Odundê significou um novo ciclo para a dança em Salvador e para a Escola de Dança. É evidente que este grupo abriu um horizonte para suas integrantes. Odundê continuou realizando vários espetáculos e apresentações até 1995, com mudanças na direção, no elenco e no processo de criação dos espetáculos. Tânia Bispo permaneceu dançando e participando durante todo esse percurso e afirma que ainda continua dançando a mesma proposta. 2.4. Omi Olorum, outro fluir com o público Tânia Bispo trabalha no Serviço Social do Comércio – SESC/ Salvador, num projeto voltado à valorização das tradições da cultura regional, através de aulas de dança afro, dança folclórica, criação e execução de espetáculos (BISPO, 2004, p. 11). Neste marco, a professora dirigiu o espetáculo “Omi Olorum”, que ficou em cartaz durante oito anos no ‘Teatro SENAC Pelourinho’, em Salvador/ BA. É interessante ressaltar como esta obra, apresentada no lugar mais turístico de Salvador, conseguiu se diferenciar do típico espetáculo folclórico que sempre alimenta uma imagem do corpo afro-americano construída pela indústria do turismo. Em palavras de Carvalho (2010, p. 51): “o processo de “espetacularização” coloca artistas populares na condição de objeto: deverão apresentar-se, alterando as bases de seus códigos específicos, para deleite de espectadores de classe média, em seus momentos de consumo, de lazer ou cultura de turismo”. O autor acrescenta, a respeito deste processo, que o público também torna-se objeto pelos mesmos agentes que contratam os artistas, produzindo assim, uma estrutura controlada pela indústria do entretenimento ou pela ordem política que contrata o espetáculo. (Idem, p. 51) Porém, Tânia Bispo logrou afastar-se deste lugar quase inegociável entre o turismo e o espetáculo, atendendo ao processo criativo e tratamento estético de sua obra. A artista explica que “Omi Olorum” era um espetáculo que já trazia uma pesquisa por trás. Os dançarinos do elenco desenvolveram um trabalho de exploração com o elemento água (omi), sua simbologia ritualística e seus arquétipos. Assim, as danças dos orixás já não eram aqueles orixás montados, como é montado no candomblé, era um trabalho artístico diferente nesse contexto. Esta sutileza no modo de abordar a criação 53 da obra era muito perceptível pelo público. A partir de “Omi Olorum” a diretora ganhou importante visibilidade e reconhecimento e recebeu várias propostas para dar aulas para grupos estrangeiros. 2.5. Os riscos de traduzir As diversas experiências de Tânia Bispo como dançarina e pesquisadora do grupo Odundê, como diretora da obra Omi Olorum e como professora, especialmente de grupos de estrangeiros de diversas partes do mundo, lhe promoveram trocas de diversas culturas por meio da dança, reafirmaram certos pressupostos e lhe permitiram superar dificuldades na tradução desta dança. Como foi explicitado no primeiro capítulo, para Souza Santos, a tradução pretende “partilhar o mundo com quem não partilha o nosso saber ou a nossa experiência” (SOUZA SANTOS, 2002, p. 272). Este é um trabalho argumentativo, para o qual o autor nos apresentou três dificuldades principais: as premissas de argumentação, que passam a serem argumentos por não serem óbvias para a outra cultura; a diferença de língua e a tradução dos silêncios. Dando prosseguimento, pretendemos iluminar a forma como a professora conseguiu lidar com tais dificuldades. 2.5.1. A construção de lugares comuns As premissas de argumentação sustentam o ‘lugar comum’ ou ‘topoi’ no consenso de uma cultura. Ao traduzir para outra cultura, a qual não tem como óbvio esse lugar comum, estas premissas de argumentação passam a serem os argumentos da tradução, enquanto vão se construindo os lugares comuns apropriados à situação de tradução (Idem, p. 272). No trabalho de Tânia Bispo, segundo as entrevistas concedidas, conseguimos destacar três topois ou lugares comuns que a professora foi construindo na zona de contato da tradução. O primeiro topoi se constrói a partir do entendimento das diferenças dos dois espaços, o sagrado e o artístico. Tânia Bispo afirma que o sagrado tem fundamentos que não precisam ser trazidos para o espaço artístico. “A diferença de você trazer o sagrado para sala de aula é você não oportunizar ao outro entrar em contato com o sagrado dele”. Para a professora, o sagrado ritualístico é diferente do ritual da sala de aula, o 54 qual não deixa de ser ritual, mas vai conectar com outra parte desse corpo, a parte do intelecto, a parte da transformação. E acrescenta: “Perceber a diferença do corpo de uma manifestação de um orixá, para o corpo de uma manifestação de um artista é muito importante, porque o artista tem a capacidade de transcender, mas transcender com a consciência, e o orixá transcende, mas num processo dentro de um fundamento que isso aí eu não sei explicar, porque aí eu, como filha de orixá, eu sei que transcendo, mas não sei aonde é que eu vou, nem onde é que fico.” (entrevista, 2012) Figura 2. Tânia Bispo ensinando os elementos simbólicos usados nos rituais do Candomblé a um grupo de dançarinas. Foto: Arquivo da autora A partir da própria vivência como artista e como religiosa, a dançarina logra separar os dois estados corporais com muita clareza. O corpo do dançarino é um corpo consciente que tem a capacidade de transcender, de traduzir uma imagem, uma música, um movimento, um símbolo, a partir de todo o conhecimento que traz que possa contribuir nessa transformação. No espaço sagrado, pelo contrário, Tânia Bispo explica não se transforma nada, porque há que seguir os fundamentos. Não se pode chegar ao candomblé pra dizer que se vai transformar o movimento de Iansã, ou vai se transformar um padê de Exu, ou uma comida de orixá; lá se tem que seguir a tradição. 55 Porém é importante ressaltar aqui, que mesmo que no terreiro de candomblé se pretenda manter o que está codificado entre os pares, não cabe afirmar que é original, está também em permanente evolução. Ao longo do tempo, é possível perceber mudanças. Se ainda persiste até hoje é justamente pela sua natureza não imutável. Existem transformações, mas também existe permanência. As mudanças são mais lentas porque tende a manter a tradição. O segundo topoi parte do pressuposto de que todos nós somos filhos da natureza e todos temos algum tipo de relação com ela. Como foi explicado no capítulo anterior, o corpo humano, para a cultura yorubá, “é um microcosmo e nele estão contidos todos os elementos e forças da natureza que, distribuídos harmoniosamente pelo corpo, explicam a sua mitologia” (ZENICOLA, 2001, p. 84). Esta relação do corpo com a natureza, por sua vez, implica que há diversas combinações dos elementos naturais em cada corpo, ou seja, certas energias da natureza predominam num corpo e outras ficam mais reservadas. De acordo com essa combinação, cada pessoa se condiciona a exercer determinadas funções na sociedade. A respeito disso, Juana Elbein dos Santos, no seu livro “Os Nagô e a morte” (2007 (1986), p. 203), aponta que, para o povo yorubá, o ser humano, como todos os seres, é constituído por elementos coletivos, representações míticas, ancestrais ou antepassados (de linhagem ou família) e por uma combinação de elementos que constituem sua especificidade, ou seja, sua unidade individual. Esta ideia do corpo constituído por uma variedade de elementos materiais e abstratos, de vários tempos e planos, contribui a entender a relação que sugere Tânia Bispo entre os elementos da natureza e os diferentes estados emocionais do corpo. Conforme a dançarina, todos nós podemos reconhecer-nos nas energias da natureza quando temos momentos mais calmos ou mais bravos, quando vivemos situações que nos tornam mais guerreiros ou outras em que estamos mais doces ou mais maternais e etc. Todos esses elementos da natureza, por conseguinte, também estão relacionados com os arquétipos que estão em cada um e que estão no mundo. Segundo Tânia Bispo (2011), sempre temos algum arquétipo mais imponente, que tem haver com as qualidades mais características de cada um. E os demais estão num pano de fundo lhe dando apoio. Deste modo, a dançarina admite que, mesmo que para esta dissertação tenha sido pedido para ela dançar a partir do mito de Omolú e Iansã, e ela leu e se deu um tempo 56 para pensar e sentir, na verdade, quando o atabaque soa, conecta com um ponto nela que é o arquétipo de Omolú que está dentro dela, e conecta um ponto nela que é o arquétipo de Iansã que está nela. Que tem momentos da vida dela que lhe dizem: Nossa! Que brava você! (entrevista, 2012) O terceiro topoi se baseia na preparação do corpo que, para dançar, não precisa de técnica nem de cópia de passos, mas sim é necessário um trabalho de sensibilização de cada corpo com seus elementos da natureza e seus arquétipos, respeitando a individualidade e diferenças de cada um. No espaço sagrado, segundo Tânia Bispo, o ‘povo de candomblé’ não tem outra preparação corporal para dançar que os fazeres cotidianos como: lavar, engomar, mexer panela de carurú, fazer vatapá, bater martelo quebrando osso de animal, varrer, vasculhar, etc. (BISPO, entrevista, 2011) É a partir do próprio cotidiano do candomblé que cada corpo se conecta com as gestualidades das danças sagradas. No espaço artístico da sala de aula, Tânia Bispo, então, não quer impor uma técnica para dançar, porque opina que se ela impõe uma técnica vai levar o outro a um lugar que só é comum a ela, mas não é comum para o outro. E acrescenta: “Assim eu estou impondo o que eu quero para esse corpo e eu acredito que este corpo tem que vir com o que ele entende e responde”. (BISPO, entrevista, 2012) A professora prefere preparar o corpo a partir de uma sensibilização com ritmos, cantos e simbologias do universo dos orixás, para que cada um faça as conexões com suas próprias histórias, seus mitos e seus arquétipos. Cada corpo consciente tem a capacidade de traduzir um movimento, uma música ou uma sensação a partir de alguma imagem que está no seu inconsciente. Tânia Bispo afirma que essa transcendência é a grande arte, porque já não é cópia do outro corpo, mas é um autoconhecimento deste corpo a partir de sua relação com seus elementos. E assenta que “essa imitação nunca chega próxima do que é. Porque a gente não vai ser o que não é. O que é, é o que lhe pertence... Então, esse corpo que tem um conhecimento, que escuta uma voz, que sente alguma coisa, ele pode sim traduzir”. (Ibidem) Mesmo assim, a dançarina adverte que, para dançar um bonito ijexa14, é necessário ter um bom trabalho de ombros. Mas não necessariamente se precisa entrar 14 Ritmo para saudar e dançar os orixás das águas, especialmente para Oxum. 57 num processo técnico, o importante é que cada um descubra esse ritmo no seu corpo e respeite a individualidade. “É muito mais fácil a gente deixar que o outro conecte com o que é seu, do que a gente dar emprestado.”(Ibidem, 2012) Figura 3. Curso com Tânia Bispo Salvador, 2009 Foto: Arquivo da autora Tânia Bispo afirma assim que cada corpo vai fazer diferente, porque cada corpo fala diferente, e essa diferença tem que ser valorizada. “Senão seria cortar uma cabeça e colocar outra, e colocar bonequinhos em sala de aula fazendo igual. Mas ele nunca vai fazer igual.” (Ibidem, 2012) Esses três topois ou lugares comuns que a professora foi construindo ao longo da sua experiência ajudam a esclarecer também outra questão que atravessa esta pesquisa, que é entender que a gente não dança orixá, a gente dança a história da gente. Portanto, não é possível nomear a nossa dança como “Dança ‘de’ Orixá”, porque a dança dele é ele quem dança na cerimônia de candomblé. Em todo caso, é a nossa criação inspirada nas danças deles, traduzindo sua simbologia e seus arquétipos. 58 2.5.2. A dificuldade da língua, a oportunidade do silêncio. Tânia Bispo se encontrou em várias ocasiões na tarefa de fazer um trabalho de tradução da cultura afro-brasileira com grupos de estrangeiros; alguns que falavam somente inglês. Como ela não fala inglês decidiu desenvolver um método através de uma linguagem que é oriunda do candomblé: o silêncio. Tânia Bispo, então, não fala nas aulas. Afirma que o conhecimento que você traduz através das palavras não o é o conhecimento que precisa para este trabalho. E acrescenta: “se eu falo nesse momento, eu estou induzindo a outro a chegar onde eu quero. Mas eu não quero que ele chegue a onde eu quero, quero que ele chegue onde ele quer chegar, onde ele pode chegar” (BISPO, entrevista, 2011). Nestas aulas, portanto, a professora aspira dialogar com um conhecimento que está adormecido e que vai se descobrindo, acionando e revelando aos poucos, a partir de uma sensibilização. Então não interessa a língua que fala o outro. Como vimos no capítulo anterior, a maior dificuldade neste tipo de tradução não é a linguagem verbal, mas a linguagem corporal constituída por toda uma cosmovisão africana. Assim, Tânia Bispo comenta que cada grupo que recebia tinha dificuldade de entender uma linguagem que era comum para pessoas que estavam inseridas naquele contexto. Então, de acordo com o tipo de dificuldade que se encontrava, ela ia inserindo propostas através de um som, de um ritmo, de um canto, de um cheiro ou de um objeto, a fim de criar independência desse corpo para ele encontrar o seu ponto de apoio, o seu ponto de conexão com o que ela estava propondo. Esse processo era desenvolvido lentamente, sem muita cobrança de forma, do resultado final e sim uma cobrança de um resultado pessoal. Esta questão lembra a sugestão de Greiner a respeito à tradução corporal que possa abranger àquilo que não há como pronunciar. Uma fala secreta e indizível que habilita à criação. A autora alude que esse silêncio “sempre pode ser traduzido como um querer-dizer”. (GREINER, 2010, p. 15) Quando a zona de contato da tradução é multicultural, como neste caso, Souza Santos nos alerta do risco de que a argumentação seja conduzida pela língua colonial, a qual muitas vezes tornam impronunciáveis aspectos centrais dos saberes e práticas oprimidos na zona colonial. (SOUZA SANTOS, 2002, p. 272). Deste modo, vemos como a professora tenta esquivar ou superar esta dificuldade ao tomar certas práticas do 59 universo religioso de candomblé para propor um modo diferente de relacionamento entre o corpo e o ambiente, construindo uma linguagem corporal baseada em conceitos da cultura afro-yorubá. Por outra parte, Tânia Bispo se baseia em que todos nós temos alguma experiência com os elementos, a questão é como você conectar com eles. Assim, ela diz a respeito: “... eu não preciso contar como é um raio, porque todo mundo já passou pela experiência de ter visto. Nem preciso contar como é a energia de uma água batendo no seu corpo ou de entrar numa mata e sentir o cheiro das folhas, porque todos alguma vez passaram por essa experiência”. Então quando cada um conecta com todos esses elementos, conecta também com seus elementos internos e aí automaticamente se transcende no símbolo. “A gente realmente traduz toda nossa relação e sentimento através das imagens arquetípicas”. (BISPO, entrevista, 2011) Neste sentido, no momento da dançarina criar sua tradução corporal do mito de Omolú e Iansã, ela parte para fazer as seguintes perguntas: Como é que eu posso compor a minha história, junto com a história de Omolú, de Iansã? O que é que Iansã tem a ver comigo? O que é que Omolú tem a ver comigo? Esse homem que tem o poder de transformar, de dar vida, tanto quanto pode tirá-la. Como todos. Que é que ele pode transformar na minha vida? Que símbolo é esse que o meu corpo faz, e onde ele está? O que o vento vê... (o silêncio da peste) Inquieta. Vibrante. Brava. Gira. Ora é deusa, ora é bicho. Gira. Olhar de raio, O que é o que não se pode ver? Olhar com as costas, com o quadril, com as mãos. Gira e é outra, sempre é outra. Quita sua pele, solta. Solta e muda. O corpo se cobre e descobre num constante movimento. Gira em redemoinhos. Olha o invisível, o inadmissível, o inapreciável. 60 Olha e incita a ser olhada. Ri dela e do que vê. Corpo em tempestade não tem nada que temer. Mãos de garras, carne indigesta. Acolhe-se, encolhe-se, funde-se dentro da terra. Grito emudecido que apenas alguém percebe. Não há rosto nem palavra. Não é para dizer, nem para ver. A dor solitária bate na terra. Um pé nos olha: Quem se diz saudável? Quem não tem nenhuma chaga queimando a pele? Terra dentro da terra, coberta de terra. A peste não pede licença. Mas nós.15 Figura 4. Manifestação artística de Tânia Bispo, Salvador, 2012. Foto: Arquivo da autora Tânia Bispo chegou à hora marcada para a Escola de Dança da UFBA com os percussionistas: seu filho Ícaro Bispo e Fernando Trancinha16, com quem trabalha há muitos anos. Estava vestida com um macacão de algodão branco e um tecido na cabeça 15 Neste trecho da pesquisa, houve uma necessidade da pesquisadora de fazer uma tradução poética da dança de Tânia Bispo, no intuito de registrar sensações e percepções que escapam do discurso acadêmico, mas que são constitutivas desta escrita. 16 Além de tocar sempre com ela, os dois são religiosos e também tocam os atabaques nas cerimônias de Candomblé. 61 de cores amarela, laranja e marrom. Também trazia outro tecido igual que colocou como saia para dançar. Antes que os tambores começaram a soar e antes que a câmera estivesse pronta, subitamente, Tânia Bispo solta um giro e a partir daí, um meneio constante invade seus ombros e seus quadris. Os músicos olham o primeiro movimento dela e logo começam a tocar. Tânia Bispo começou dançando o vento, embora no mito apareça ao final. A dançarina vai transitando por diferentes estados corporais a partir de gestualidades e simbologias que ela traduz do orixá Iansã. Ao longo da dança é muito notável o trabalho criativo com os arquétipos deste orixá. Tânia Bispo descreve a Iansã como uma mulher guerreira, sensual e enérgica, que também traz uma boa gama de acentos masculinos. “O corpo dela se transforma como se transforma também o tempo numa tempestade. Ao mesmo tempo em que você vê um raio surgir no céu, depois fecha e vem aquela sensação de limpeza e de calmaria. Mas em qualquer momento ela pode estar explodindo.” (BISPO, entrevista, 2012) Figura 5. Manifestação artística de Tânia Bispo, Salvador, 2012. Foto: Arquivo da autora 62 Assim, na dança é possível perceber como cada vez que ela solta um giro, ela se transforma e nunca volta ao mesmo estado. São giros sobre um pé, com braços e pernas dobradas que dão a sensação de desequilíbrio. Porém, é um modo do corpo se organizar que lhe permite manter um controle naquele desequilíbrio. Nessas transformações ela é uma deusa e em determinados momentos ela vira um bicho e fica brava, mas também é uma fresca borboleta. Seu rosto se oculta por detrás dos dedos que se movem em intermitência. A energia do corpo se traduz no olhar, um olhar que se espalha na corporalidade, no som, no ar. Figura 6. Manifestação artística de Tânia Bispo, Salvador, 2012. Foto: Arquivo da autora Num momento da dança os braços se elevam rígidos, como uma faca, fazendo gestos de cortes. Logo corta algo profundo lá embaixo, talvez seu próprio parto, e volta a ficar em pé, com as mãos na cintura, olhando para frente ameaçadoramente. Tânia Bispo comenta que no momento que Iansã esta brava ela não enxerga a quem ela fere, e a quem ela arranca a cabeça, então depois de ela ter parido, ela cortou a continuidade. 63 Isso sugere à dançarina a sensação de ‘única’, de ser uma coisa só. Só ela gira entorno dela mesma. Ela transforma por si só. Tânia Bispo explica que este orixá tem muita energia na língua, na fala do corpo, na expressão. Dá para perceber na dança, como ela sempre dirige o olhar para alguém, como para o publico, ou neste caso para a câmera. Há um momento em que ela se aproxima da câmera, séria e olhando sempre de frente. Quando chega bem perto da câmera, a percussão acaba e Fernando Transinha, o percussionista, começa a cantar para Iansã e entram com outro toque. Xê umbêlê xê umbêlê éléni xáxerê Xê umbêlê xê umbêlê éléni xáxerê17 (OLIVEIRA, 2009, p. 118) A artista começa a fazer um gesto de abrir e descobrir algo que está à altura do seu rosto. Logo, dá um giro e fica de costas para a câmera com as mãos na nuca com o mesmo movimento de mover algo e começa a girar. Movimentos leves, gestos de algo que continua no seu quadril, pode ser uma saia, recolhe o tecido do chão e o pendura do ombro e vai andando para trás, olhando (para a câmera). Olha e ri. Brinca com o tecido, o enrola no pescoço, o estende na frente do seu rosto, e vai espiando detrás dele. Novamente, a percussão acaba e muda de toque; desta vez começa o opanijé, ritmo específico de Omolú, o orixá da terra. Tânia Bispo se ajoelha, tira os brincos, anéis e pulseiras, e coloca-os no chão. Logo, apoia a cabeça na terra, rola e volta a apoiar a cabeça agora sobre as mãos que estão no chão. Numa entrevista, a dançarina relata que quando vê esse orixá no terreiro, ela sente uma necessidade de reverenciar ou de se encolher para entender o que acontece dentro do seu ventre, “ele me traduz a minha transformação interna”. A maior parte do tempo, a dança sucede no plano baixo deitada ou ajoelhada com o peito e rosto no chão. Nesta dança, Tânia Bispo entra num estado corporal como doente, por vezes tenso, outras num estado pesado. Um corpo frágil, sempre caindo. Por vezes, aparece um impulso de querer sair desse lugar, mas de um modo ou de outro, o 17 Cantiga em Iorubá com tradução à fonética portuguesa, que se traduz: “Proteja a nossa casa, proteja a nossa casa (Oyá), Senhora para quem nós brincamos”. (OLIVEIRA, 2009, p. 118) 64 próprio corpo o impede. Os momentos que o rosto se descobre são mínimos e tão fugazes quanto impactantes. A dançarina confessa que dançar Omolú para ela é muito difícil porque ele é um orixá muito forte, que traz um mistério debaixo de toda sua indumentária. Vale lembrar que Omolú, no mito, traz o corpo coberto por uma roupa de palha. Segundo Tânia Bispo, por mais que se descubra quem está por trás da palha, nunca vai se atingir a profundidade que tem este orixá. Figura 7. Manifestação artística de Tânia Bispo, Salvador, 2012. Foto: Arquivo da autora Ainda deitada com o peito no chão, a artista clava uma mão nas costas, clava a outra e estica uma perna na frente. O dedão dessa perna começa a avançar pelo solo ao redor do corpo fazendo-o girar no seu eixo. Depois começa a rolar pelo chão e as mãos nas costas parecem querer empurrar o corpo para cima, como se algo dentro das costas estivesse lhe impacientando, mas a cabeça e os pés continuam colados no solo. Vários mitos contam que por debaixo da palha Omolú tem seu corpo transformado, tem a doença, tem a peste. Porém, Tânia Bispo sente que há algo muito 65 mais profundo que todo isso, porque a doença, todos os corpos têm. Ela, então, não quer falar de doença senão de diferença: todos os corpos trazem suas diferenças. Na dança de Tânia Bispo não há palha, mas o corpo na maioria do tempo está fechado em contato com o chão, ocultando o rosto e o peito. Entre os poucos momentos que o rosto se revela encontramos uma clara relação com o silêncio. Interessa-nos aqui descrever três momentos. O primeiro deles dura apenas um segundo. A dançarina está sentada com a cabeça no chão e a mão direita esticada na frente e os dedos que se dobram como garras. No instante que ela levanta a cabeça e abre a boca enorme, os braços fazem o gesto de abrir a boca maior do que o rosto. Em menos de um segundo, fecha e volta com a cabeça para o chão. Num outro momento, ela toma o rosto como se fosse uma mordaça. Sempre sentada ou ajoelhada, gira e vai para o chão. A mão de mordaça vai arrancando algo do rosto até que se mostra a boca contorneada pela mão. Logo a mão sai da boca com o punho fechado como se tivesse arrancado algo (som, voz, palavra?). O punho fechado bate no chão. Figura 8. Manifestação artística de Tânia Bispo, Salvador, 2012. Foto: Arquivo da autora 66 Num terceiro momento, Tânia Bispo está deitada com o peito e a cabeça no chão. Os braços rastejam pela frente da cabeça mostrando a palma de uma mão e o dorso da outra. Uma mão pega o cabelo e levanta a cabeça mostrando o rosto, logo a mão solta, e a cabeça cai com a frente no chão. Com a outra mão, faz a mesma coisa e volta a cair, e mais uma vez repete a mesma situação. Nesses três momentos que o rosto se revela, é possível perceber diferentes modos em que o silêncio é traduzido. Segundo Souza Santos (2002, p. 273), uma das principais dificuldades no trabalho de tradução é como traduzir o silêncio de uma cultura para outra, já que cada saber e prática lhe outorgam um significado diferente. O silêncio para a cultura africana está associado ao segredo, ao mistério. Omolú\Obaluaiê é cumprimentado com a palavra yorubá “Atótó!”, que significa silêncio, em sinal de respeito. E como conta Tânia Bispo, Omolú guarda um mistério embaixo da sua palha. Esse segredo, isso que não se pode saber, também é a peste. Mas como explicava a dançarina, a doença é a própria diferença. Então, o que se deve calar é a diferença de cada um; que pelo fato de estar oculta se torna mais misteriosa e temida. Figura 9. Manifestação artística de Tânia Bispo, Salvador, 2012. Foto: Arquivo da autora No primeiro gesto a boca se abre num grito silencioso tão breve que fica a sensação de dúvida se realmente aconteceu. No segundo momento, o rosto se mostra 67 amordaçado pela mão que logo tira algo da boca, o guarda no punho fechado e bate com ele na terra. E no terceiro momento, a mão mostra um rosto já silenciado, como sem vida. Podemos deduzir, então, que quando o rosto se mostra, também se revela aquilo que está oculto. A palavra não dita, o grito silenciado, o corpo doente, a diferença. Porém, o corpo consegue expressar seu grito através de batidas na terra com as mãos e os pés. Assim, vemos como as mãos tomam uma perna que fica diante do corpo, com a palma do pé em primeiro plano e um olho que se assoma por trás. Esse pé, logo pisa com firmeza na terra e o rosto olha para o céu. Um dedo assinala também para o céu e logo baixa e assinala a terra enquanto a cabeça também desce para o chão. Começa uma fase de expressividade mais intensa, ou, melhor, menos silenciosa: dedos que assinalam e mãos de garra. Punho fechado e pés golpeando na terra. Mãos batendo em distintas partes do corpo, pisadas fortes no chão, batendo, soando. Com o torso dobrado para embaixo, a cabeça pendurando e as mãos nas costas, a dançarina dá dificultosos passos para frente, os pés vêm tortos e joelhos juntos. E mais uma vez dá pisadas fortes no chão, batendo com tanta força que corpo se balança e o quadril e a cabeça se sacodem. Para Tânia Bispo, esta dança implica a própria transformação do corpo, tanto externo como interno, como a transformação que sofre o milho para pipoca. É um expulsar e um encolher, tem alguns que não abrem e outros que se abrem. No final, ajoelhada, o corpo se abre para cima e as mãos se sacodem na frente do peito e volta a se fechar com a cabeça para embaixo. Outra vez, se abre sacudindo as mãos no peito e volta a se fechar. Com o corpo acolhido, vai trazendo as mãos e se relaxa no chão. “É como se o corpo tivesse realmente encolhendo, é um retorno”. (BISPO, entrevista, 2012) Um aspecto significativo na manifestação artística de Tânia Bispo está no diálogo permanente entre a dança e a percussão. Uma vez que foram esclarecidas as diferenças entre o contexto artístico e religioso, podemos encontrar rasgos interessantes no ritmo geral da obra que lembra as cerimônias de candomblé. Os percussionistas vão realizando um toque, até que num momento acabam e deixam um silêncio. E logo começa com um novo ritmo, que, às vezes lhe antecede a um canto. Isto outorga à obra um ritmo cíclico, já que quando parece que vai a finalizar, começa um novo toque e o 68 corpo se ativa com outra energia, de acordo ao ritmo que está soando. Nesta dança mitológica, os diferentes toques percussivos de cada dança sugerem o estado corporal necessário para a execução da mesma. Como foi assinalado no capítulo anterior, o ritmo sugere uma energia particular que, para atingí-la é indispensável “silenciar” certas partes do corpo para que outras possam se movimentar. É fácil perceber, nesta manifestação artística, como a dançarina move o corpo a partir dos seus arquétipos, seus gestos e de seus próprios mitos pessoais. Nesse sentido, mais do que falar da energia do vento e a terra, a dança de Tânia Bispo me sugere chamá-la “a guerreira e a peste”. Podem-se destacar características bem diferenciadas de cada uma; na dança da guerreira, o corpo mudava de estado constantemente, vemos que na dança da peste, se manifesta um mesmo estado corporal, frágil e doente, que apenas muda de intensidade. A guerreira olha sempre para alguém, desafiando, brigando ou rindo; o doente nem sequer mostra o seu rosto, apenas manifesta seu silencio. A guerreira explode em tempestade, a peste sacode-se pela febre. A peste não tem medo da morte. A guerreira não tem medo de olhar para a peste. 69 CAPITULO 3 ALÁBASE, O LABUTAR DE IS A SOARES Figura 10. Performance ‘Orixás de la Tierra’, Buenos Aires, 2011. Foto: Javier Infante Este capítulo trata da dança de Isa Soares, da forma como a artista consegue traduzir informações oriundas do universo mitológico dos orixás para uma dança que possa transitar criativamente pelos acontecimentos da vida pessoal. O estudo é a partir da dança de dois orixás na sua relação mítica: Omolú/Obaluaiê, a energia da terra, e Iansã, a energia do vento e do ar. A terra empestada, coberta por palha é desvendada pela dança do vento. E no descobrir, a terra já não é aquela horrorosa que todos achavam, mas é de uma rara beleza. Sob a proposta de tradução de Souza Santos, a qual cancela a possibilidade da existência de uma teoria geral, trazemos à luz os modos de Isa Soares se colocar com sua dança na cidade de Buenos Aires, que fogem das monoculturas do saber, do tempo, da naturalização das diferenças, etc. construídas pela razão capitalista. Porém, a dançarina não deixa de buscar algum tipo de legitimação, já não em espaços que requisitam adaptar a dança para obedecer à demanda do discurso colonizador da mídia, 70 mas em outros grupos e espaços com necessidades e situações compartilhadas, nas quais pode se reconhecer. Neste sentido, tentamos distinguir certos argumentos que a professora foi estabelecendo nos seus percursos para fazer a tradução da dança. Tais argumentos atendem à relação do corpo com a natureza, à gestualidade e às relações com os outros. Pela mesma via, a artista sugere dançar o xirê, um espaço tempo que permite transitar diferentes instâncias da vida e acolhe aos diversos estados corporais. Como conceito, Isa Soares escolhe como proposta Alábase (pronuncia-se alábasse), aquele que compartilha uma tarefa, na qual a dança interage com outras práticas cotidianas que sejam feitas com consciência de colaborar para uma vida melhor. “Soy Maria Isabel (Isa) Soares. Nací en la ciudad de Maragojipe, cuna de los Maragós, aborígenes descendientes de los tupi-guaranís afincados en la zona del litoral de Bahia, Brasil. Hija de Iraildes Sousa Gomes (su nombre de soltera) y Fernando Bispo Soares. Soy la primera de 10 hermanos vivos. Llegué a la Argentina en la primavera del 1983 casada legalmente con un argentino de Bahia Blanca, residente en San Pablo en plena década del 70. El huía de la feroz dictadura militar que sufría el país en aquel entonces. Trabajaba como artesano en las calles como cualquier inmigrante. Yo huía de la soledad. En el camino dejé un trabajo, una carrera universitaria, una familia y amigos. Luego, irremediablemente me separé. Tuve un hijo. Eché raíces y me quedé en el país.”18 (SOARES, 2012, apresentação do blog pessoal) Com essas palavras, Isa Soares se apresenta diante da sociedade portenha de Buenos Aires, cidade cosmopolita da América do Sul que prefere se olhar no espelho europeu. Se bem que a Argentina passou por processos muito similares que o Brasil e o resto de América Latina a respeito à colonização e a inserção de milhares de africanos trazidos como escravos, diversos mecanismos oficiais com objetivos sóciopolíticos concretos se encarregaram de ‘invisibilizar’ a população negra enquanto se fomentava uma massiva imigração europeia19. Desse modo, o mito da Argentina branca e 18 Sou Maria Isabel (Isa) Soares. Nasci na cidade de Maragojipe, berço dos Maragós, tribo originária do recôncavo baiano. Descendentes dos tupi-guaranis. Filha de Iraildes Sousa Gomes – seu nome de solteira e de Fernando Bispo Soares. Sou a primeira de 10 irmãos vivos. Cheguei a Argentina na primavera de 1983 casada legalmente com um argentino de Bahia Blanca, residente em São Paulo. Ele fugia da feroz ditadura que sofria seu país. Em plena década dos 70! Trabalhava como artesão nas ruas, como qualquer imigrante nessa época. Eu fugia da solidão. No caminho deixei um trabalho, uma carreira universitária e amigos. Logo irremediavelmente me separei. Tive um filho. Finquei raízes e fiquei no país. (Tradução de Soares) 19 “Os liberais da Argentina, no século XIX, tinham como objetivo fazer do país uma nação moderna segundo o modelo britânico ou francês, professando uma espécie de fé na superioridade das repúblicas europeias. E, para formar uma nação como as européias, precisava-se – segundo esta linha de pensamento – de gente como a européia. O território argentino, na visão dos pensadores com influência política nesse período, era escassamente povoado por 71 homogênea não encontrou resistência alguma e ainda sobrevive e se reproduz na educação oficial, na mídia e nas relações sociais habituais. A raça negra deixou de existir, quase misteriosamente, deste país delegando esse ‘problema’ ao Brasil. Tal como relata Dominguez, “em 1883, Sarmiento tinha antecipado que, em 1900, se um argentino desejasse ver como era um negro, precisaria ir ao Brasil (REID ANDREWS apud DOMINGUEZ, 2004, p. 17)”. E recentemente, em 1996, o então presidente Carlos Menem declarou num discurso nos Estados Unidos: “Na Argentina não existem negros, esse problema o tem o Brasil” (HEGUY, apud DOMINGUEZ, 2004, p. 22). Porque será que esta mulher brasileira decidiu ficar nessa cidade onde ser negra, dançarina e mãe solteira, irremediavelmente, a exporia aos mais negativos preconceitos raciais e sexuais? De que modo a dança de Isa Soares conseguiu resistir e sobreviver às discriminações sociais deste ambiente e encontrar um espaço de diálogo? Palpar a dança Hoje, Isa Soares reconhece que ter vindo para Buenos Aires foi uma falta de paciência, uma falta de respeito com o próprio projeto pessoal que ela tinha: ‘ser professora de inglês e português’. E explica: “priorizei a família... e voltei ao analfabetismo... Intelectualizada, voltei a ser analfabeta, com um idioma que eu não sabia ainda, eu tive que aprender... outra vez tudo, o ‘abc’ da vida. Com uma carreira por atrás! sem o meu título, porque não era válido aqui” (SOARES, 2012, entrevista) A dança aparece em Isa Soares como ‘um pedido do corpo dentro do desespero’, e confessa que se ela fizesse outra coisa, nunca ia saber que seu corpo sabia tanta coisa. A dançarina lembra que quando começou a pesquisar os orixás, apareciam-lhe arquétipos que ela já sabia que tinha e que era a vida mesma dela que estava em jogo no xirê20, mas acrescenta que não foi um processo muito feliz: “Eu fui sentindo cada um “raças subordinadas” que condenavam o país a uma posição secundária no mundo, o que somente podia ser evitado com a imigração de europeus” (DOMINGUEZ, 2004, p.18) (...) “Como a imigração não produziu o “branqueamento” na velocidade esperada, o processo foi então acelerado por meios artificiais, recorrendo a categorias como a do ‘triguenho’ nos censos. A população negra estava desaparecendo no sentido de se tornar invisível, não no de deixar de existir” (Reid Andrews, 1989 apud, DOMINGUEZ, 2004, p 19). 20 Xirê é a ordem hierárquica na que aparecem nos orixás, num certo momento da cerimônia do candomblé, de acordo com as relações mitológicas e as funções sociais que representam. 72 deles, mas no meu processo de dor, não foi na alegria. Todo o meu trabalho foi gestado assim.” (SOARES, 2012, entrevista) Porém, as experiências da artista com os orixás se remitem a sua infância: “Acompañé mucho a mi madre en sus andanzas por recobrar la salud. Por esta razón encontré desde temprana edad motivos para observar con curiosidad las danzas y las prácticas afro religiosas en mi lugar de nacimiento. Observé las danzas en sus formas asimétricas e híbridas, fundamentadas en los simbolismos de la cultura africana, así como la música, con sus diferentes sonidos y su particular polirítmia. Asistí a eventos tanto festivos como curativos con la misma entereza con la que normalmente lo hacen los chicos. Seguramente no los podía comprender del todo. Lo que sí podía advertir era el bien estar que sentía. Experimenté los éxtasis juveniles acompañados por estas imágenes. Estas vivencias echaron sus raíces y fueron fuentes idóneas capaces de reforzar mi interés por los temas que abordo actualmente. Estaba segura de que lo que pasaba por mi mente-cuerpo era importante y a mí modo lo atesoraba como tal. Observaba la dignidad, la fuerza, la destreza, la armonía y un sin fin de atributos y cualidades que intuía en aquellos cuerpos en movimiento. Ellos fueron mis referentes”21. (SOARES, 2012, blog pessoal) Estes depoimentos da dançarina deixam perceber como o seu processo de tradução da dança foi a partir e através das suas experiências de vida. A professora conseguia transformar, num discurso, as coisas que lhe sucediam no dia-a-dia. A questão era “fazer intelectual aquilo que passava por trás do gesto que sai do corpo instintivamente”. Segundo Souza Santos, a tradução é um trabalho intelectual. O tradutor cosmopolita precisa estar “fortemente enraizado nas práticas e saberes que representam, tendo de uns e de outras uma compreensão profunda e crítica” (SOUZA SANTOS, 2002, p. 271). 21 Acompanhei muito à minha mãe nas suas andanças para recuperar a saúde. Por esta razão na minha infância encontrei desde muito cedo, motivos para observar com curiosidade, as danças e as práticas afro-religiosas em meu lugar de nascimento. Observei as danças em suas formas assimétricas e híbridas, fundamentadas nos simbolismos da cultura africana. Assim como a música, com seus diferentes sons e sua particular polirritmia. Assití a rituais tanto festivos como curativos com a dignidade que normalmente caracteriza as crianças. Seguramente não podia compreendê-los totalmente. O que sim podia sentir era o bem que me fazia. Experimentei os êxtases juvenis acompanhados por estas imagens. Estas experiências se fortificaram e suas raízes foram fontes idôneas, capazes de reforçar meu interesse pelos temas que abordo atualmente. Estava segura que o que passava por meu corpo-mente era importante e a meu modo o entesourava como tal. Admirava a dignidade, a força, a destreza, a harmonia y um sem fim de atributos y qualidades que intuía naqueles corpos em movimento. Eles foram meus modelos e minhas referências. (Tradução de Soares) 73 Esta atitude crítica, segundo o autor, surge de um sentimento de incompletude “e a motivação para encontrar noutros saberes ou noutras práticas as respostas que não se encontram dentro dos limites de um dado saber ou de uma dada prática”. (Idem, p. 271) Isa Soares afirma que, em Buenos Aires, aprendeu a sociabilizar com as pessoas ensinando dança, conduzindo o seu trabalho sempre em relação com seu dia-a-dia, tornando a dança a “matéria” mais palpável que ela tem, na qual mexe a mão para sair na rua, para falar com o porteiro ou com a vizinha. E a professora acrescenta: “se eu não dançasse, ia ser muito mais difícil pra mim. Então... eu entro nos lugares e eu digo... se eu pudesse dançar aqui algumas situações, eu poderia entender melhor.” (SOARES, 2012, entrevista) Buenos Aires: invisibilidades epidérmicas A partir da década de 1970, Buenos Aires foi moradia de muitos imigrantes vindos do Uruguai, Brasil, Equador, Peru, República Dominicana, Senegal, Costa de Marfim, Jamaica e Serra Leoa, muitos dos quais encontraram na difusão da sua cultura de origem um modo de sobreviver e interagir com a sociedade. Assim, foi se conformando uma comunidade em torno do “afro” que acolhe tanto a africanos, afrodescendentes de diferentes países de América Latina e afrodescendentes argentinos. Esta comunidade foi gestando e habitando espaços culturais, bares, praças para se encontrar, ensaiar e difundir as manifestações culturais de cada região. Dançarina e dançarinos, músicos, candomberos22, capoeiristas, entre outros podiam, então, se encontrar nos bares: ‘África 1’, ‘The Limit-African Pub’ e ‘Remembranza Candomblé’ (no bairro de ‘San Telmo’); nos seguintes centros culturais: o ‘Centro Cultural Ricardo Rojas’, o ‘Danzario Americano’, a sede do ‘Movimiento Afro Cultural’ (localizada no limite entre os bairros de ‘San Telmo’ e ‘Barracas’) e no ‘Parque Lezama’ (no bairro de ‘San Telmo’). (DOMINGUEZ, 2004, p 42) Embora as diferenças características de cada cultura do país que provinha, havia uma identificação que os agregava: “… cubanos, brasileiros, uruguaios, num sentido me parece que temos uma raiz afro-latino-americana muito parecida, além das diferenças nos diferentes estilos”. (SOARES, apud DOMINGUEZ, 2004, p. 89) 22 Percussionista que toca o tambor de ‘candombe’, ritmo afro-rioplatense. 74 As contribuições da antropóloga Maria Eugenia Dominguez, sobre os imigrantes oriundos de países sul e centro americanos e africanos vindos para Buenos Aires, releva as formas deles se colocarem e se organizarem neste contexto. Entretanto, a autora expõe como, na cidade portenha, “existe um racismo velado” e afirma que “o racismo portenho se exorciza através do preconceito de que na Argentina não existem nem diferentes raças, nem preconceito racial”. (DOMINGUEZ, 2004, p. 136) Segundo a pesquisa de Dominguez (2004, p. 14), no imaginário da sociedade portenha os ‘negros’ sempre são identificados como brasileiros. Ainda mais, permanece o estereótipo de que ‘todos os brasileiros são alegres e divertidos (características de que nós, portenhos tristes e melancólicos, careceríamos), de que são sensuais e de que são ótimos tanto na dança quanto na música (FRIGERIO, 2002; DOMÍNGUEZ, 2001)’. (Idem, p. 102) O estereótipo, para Homi Bhabha, é a maior estratégia do discurso colonial, sendo uma “forma de conhecimento e identificação que vacila entre o que sempre está ‘no seu local’, já conhecido, e algo que deve ser repetido ansiosamente...” (BHABHA, 2002, p. 91). Inclusive, esta associação do negro com a ‘brasilidade’, válida para todos negros que moram em Buenos Aires, sejam do país que forem e mesmo se argentinos, muitas vezes foi usada para tirar proveitos econômicos e até certo reconhecimento. Guinea, um candombero (percussionista de candombe) uruguaio, comenta numa entrevista concedida a Dominguez que “durante a década de 1990 tocar ‘música brasileira’– lambada, axé, samba, etc. – foi o que garantiu sua sobrevivência e também a de outros uruguaios” (DOMINGUEZ, 2004, p. 95). Mesmo assim, Guinea descreve as atitudes dos portenhos quando ainda não se viam muitos negros na cidade: “vos ibas caminando y te tocaban la rodilla, el trasero… la onda era que el tipo o la mina te tenía que tocar la rodilla o el trasero pero vos tenías que verlo, ahí venía la suerte. Y te agarrabas cada calentura, 'qué te pasa!', y te juro, terminabas re mal… cuando yo vine, era terrible. Así como era bueno era también terrible. Vos ibas a un lugar y decían '¿y este?'”23 (GUINEA, apud, DOMINGUEZ, 2004, p. 96) 23 “você ia andando e te tocavam o joelho, a bunda… a coisa era que o rapaz ou a mulher teriam que te tocar o joelho ou a bunda, mas você tinha que olhar eles, aí trazia a sorte. E aí você ficava com uma raiva e dizia, 'qual é a sua!', e te juro, você acabava muito chateado… quando eu cheguei, era terrível. Assim como era bom, era também terrível. Você ia a um local e diziam 'e esse cara? De onde veio?' (Tradução nossa) 75 Bhabha (2004, p. 92) diz a respeito: que o exercício do poder colonial, através do discurso, exige uma articulação de formas de diferença racial e sexual. E sustenta que “o corpo está sempre simultaneamente (embora conflituosamente) inscrito tanto na economia do prazer e do desejo, quanto na economia do discurso, dominação e poder”. No entanto, o depoimento do uruguaio lembra a situação que Bhabha traz do texto: “Pele negra, máscaras brancas” de Franz Fanon: “Numa ocasião uma menina branca fixa a Fanon com um olhar e uma palavra quando se vira a identificá-lo com sua mãe… “Olha, um Negro… mãe, olha ao Negro! Assusto-me”. “O que outra coisa poderia ser para mim”, concluí Fanon, “senão uma amputação, uma excisão, uma hemorragia que salpicava meu corpo todo com sangue nego?”(FANON, apud BHABHA, 2004, p. 101) O discurso estereotípico constrói o sujeito colonizado e divide-o entre os conhecimentos incongruentes do corpo, a raça e os ancestrais. “O esquema corporal derrubou-se, seu local foi ocupado por um esquema epidérmico racial” (FANON, apud, BHABHA, 2004, p. 105\106) Do mesmo modo, muitas vezes Isa Soares, falando de situações deste tipo que lhe aconteciam na rua, tem feito comentários como: “quando eu me olho no espelho, não me reconheço com aquilo que se vê”, ou “eu não sou essa negra que esperam que seja” (SOARES, 2007, conversação pessoal). Esses comentários ficam ressoando quando nas aulas da professora ela sugere um modo de se relacionar com o próprio corpo, atendendo a modos de nos mover e as possibilidades de se afetar com os outros corpos: “A cor do meu corpo eu não posso mudar, mas a energia que move meu corpo é a que vai permitir que meus pólos positivos e negativos se juntem com os pólos positivos e negativos do outro. Se juntem ou se repelem, é uma questão química.” (SOARES, 2006, sala de aula) Citando Bhabha (2004, p. 107), se “a ‘pele’ no discurso racista é a visibilidade da obscuridade”, Isa Soares encontra, nos efeitos químicos da dança, um modo de iluminar histórias, emoções, valores que foram silenciados pela ansiedade da negritude estereotipada. 76 Negociações entre corpo e ambiente. A arte de ser legitimado “Há uma procura do Negro”, diz Fanon, “é necessário, mas só se o faz-se agradável em certo modo. Infelizmente o Negro joga abaixo o sistema e quebra os tratados”. (FANON, apud BHABHA, p. 103) Entre os espaços onde Isa Soares se desenvolveu como professora, vamos ressaltar o ‘Centro Cultural Ricardo Rojas’, ligado a ‘Secretaria de Extensão da Universidade’ de Buenos Aires, que funciona na “Avenida Corrientes”, no centro da capital. Além da professora ministrar aulas de ‘Danzas Afro-Yorubas – recreaciones de mitos afrobrasileños’, até 2006, a mesma coordenava a área do centro cultural nomeada “Culturas Afro-americanas”, onde atuavam muitos professores de manifestações “afro”24. Depois, com a nova administração, a professora foi removida da coordenação e a área mudou de nome como “Danzas Étnicas” (DOMINGUEZ, 2004, p. 54). A professora comenta que justificavam ter mudado o nome (“Culturas Afro-americanas” por “Danzas Étnicas”) dizendo que a dança afro-yorubá não é cultura, é somente dança. Isa Soares explana a respeito: “... cultura para eles é claramente teatro, literatura, cultura mais erudita, reconhecida…”. Porém, a artista alude que nesta dança há um esclarecimento, uma história das coisas que se associam, há uma preparação do figurino, se fala da comida. “Não é que eu me paro adiante e faço uns passos e nada mais... É uma cultura, que tem um idioma próprio, uma musicalidade própria, valores próprios. (...) Tudo passa pela gestualidade e o corpo, mas é cultura, não é somente dança. Aqui são muitas coisas interatuando”. (SOARES apud DOMINGUEZ, 2004, p. 55). 24 Conforme Gayoso (2006), neste departamento se encontravam também: Telma Meirelles (Danza Afro contemporánea), Cidinha Fursan (Danza Afro Jazz), Evon Correia (Danzas afro populares), e mais tarde se incorporam Claudio de Oliveira (Técnica de la Danza Afro y Ritmos Populares brasileños) e Alberto Bonne, (danza afro cubana y ritmos populares cubanos). Conforme Dominguez também tinha Capoeira regional (prof. Marcos Gytaúna), Iniciación en la Capoeira angola (prof. Fabio Rizzo). 77 Figura 11. ‘Danças do Xirê de Orixás’ no “Congreso Afro Americano”, Buenos Aires, 2007. Foto: Arquivo de Alábase Este jeito da professora se colocar diante das instituições, sem negociar com os seus princípios, nem esperar ser reconhecida por valores não compartilhados por ela, também se manifesta quando é convidada a se apresentar em algum evento ou espaço. A artista afirma que “a todos os lados eu fui com a minha consciência de que eu vou dançar, mas eu vou dançar o que estou sentindo nesse momento, em relação ao evento” (SOARES, 2012, entrevista). E esclarece que ela tem que estar de acordo, politicamente, com o lugar aonde seu corpo vai. Um modo de agir que sempre foi saudável para ela. Nesta tarefa de tradução da dança, seguindo Souza Santos, importa perguntarnos “entre que traduzir?”. Há uma seleção de práticas e saberes a partir de uma convergência de sensações, de inconformismo e da motivação para superá-las de forma específica (SOUZA SANTOS, 2006, p. 270). Este inconformismo e a vontade de transformá-lo faz parte constitutiva das condições necessárias para que a dança ocorra num certo contexto e permaneça. Isa Soares parece prestar especial atenção a este ‘onde traduzir’, ou seja, em que contexto sua dança acontece, já que a cada novo contexto a dança se reconfigura de acordo com as adaptações às condições particulares. Esta relação entre a dança e o contexto pode ser compreendida de maneira melhor, trazendo a sugestão de Katz e 78 Greiner de que o corpo e o ambiente interagem modificando-se um ao outro, em processos coevolutivos. Algumas informações do mundo são selecionadas para se organizarem transformadas em corpo. Este processo elimina a possibilidade de pensar o corpo como recipiente e o mundo como um objeto aguardando um observador. Nesse fluxo de trocas de informações entre corpo e ambiente se “produzem uma rede de prédisposições perceptuais, motoras, de aprendizado e emocionais”. (KATZ, 2005, 130) Contexto, então, deixa de ser um lugar passivo e estático. De acordo com o semioticista Thomas Sebeok (1991), o contexto admite influências na interrelação com o corpo. Definido como uma espécie de contexto-sensitivo, este inclui “sistema cognitivo (mente), mensagens que fluem paralelamente, a memória de mensagens prévias que foram processadas ou experienciadas e, sem dúvidas, a antecipação de futuras mensagens que ainda serão trazidas à ação, mas já existem como possibilidade”. (apud KATZ, 2005, p. 130) Com este entendimento de contexto sensitivo, Isa Soares foi escolhendo desde qual lugar ela se colocaria para dançar, evitando entrar em certas negociações do discurso colonial: “Eu não vou fazer uma dança... ‘ajeitadinha’ dentro dos moldes sociais acomodados, para que as pessoas quando olhem não sintam que essa é coisa de macaco, né? Que são os gestos primitivos, dança primitiva, um corpo dizendo coisas de uma época onde se fazia uhuhuhuh! né? Ou seja, enfeitar a dança para que um setor social que pode ver essa dança em outro lado, igual veja algo exótico? Que lhe mova alguma coisa, mas não mobilize tanto... Que seja uma diversão, né?” (SOARES, 2012, entrevista) Isa Soares decide, então, ficar fora do conceito de diversão do exótico da dança e não declinar às “mais loucas fantasias (no sentido popular) do colonizador” (Bhabha, 107). Ainda afirma que, se no momento em que ela está dançando, ela sente alguma interferência que lhe impede fazer o que ela ia fazer, com a complexidade que implica de poder se relacionar e comunicar desde o lugar que ela necessita e não do lugar que necessita o outro que está lhe pagando, a dançarina pode decidir não mais fazer. E afirma: “a gente precisa ter todos esses cuidados”. 79 Figura 12. Performance ‘Orixás de la Tierra’, Buenos Aires, 2011. Foto: Javier Infante O corpo de Isa Soares faz uma dança consciente desse ‘contexto sensitivo’, ou seja, entra em diálogo intuitivo e alerta sobre as possíveis mensagens que lhe sugerem satisfazer a demanda estereotipada do discurso colonial. Bhabha cita a Said para explicar o modo como as novas informações podem ser julgadas como sendo versões de alguma coisa conhecida. Este processo não é tanto um modo de receber uma nova informação como “um método de controlar o que se parece uma ameaça a alguma visão estabelecida das coisas”. E acrescenta, “a ameaça é calada, os valores conhecidos impõem-se, e no final a mente reduz a pressão.” (SAID apud, Bhabha, p. 98) Este método é um claro exemplo das negociações entre corpo e ambiente, no qual o corpo acomoda a informação para não se desestruturar demasiadamente, quase como um instinto de sobrevivência. Isa Soares sugere então que, para resistir a estes mecanismos de controle social e político sobre a dança e os valores que esta possa insinuar, é muito importante o artista definir de que lugar se quer fazer e ser responsável. Porque certas decisões significam não ter acesso a determinados lugares onde está a mídia com um capital, com um investimento. (SOARES, 2012, entrevista) 80 Vemos então que a professora evita entrar em espaços nos quais, para ser legitimada, tem que “enfeitar a dança” e tirar as coisas que “possam incomodar”. Ao invés disso, encontrou outros espaços nos quais ela conseguiu se reconhecer e sua dança legitimar-se em coerência com os valores propostos. Um deles foi o grupo Banakabú – Música tradicional africana, dirigido por Abdoulaye Badiane, um jovem senegalês que mora em Buenos Aires desde 2001. Isa Soares atuava como cantora e dançarina e numa entrevista formulada por Dominguez, pode-se notar que, para Isa Soares, era um modo de legitimação do seu trabalho: “Eu acho que isto é fundamental. É como legitimar o que eu já faço. Eu me encontro em um lugar de resgate e de afirmação de um discurso que tenho tido durante todo esse tempo e encontro a alguém para legitimá-lo justamente. É uma forma de legitimar! Porque há muita trabalho relacionado à cultura do africano. Sempre houve. Mas nunca houve um africano fazendo coisas de africanos aqui. Sempre houve brasileiros fazendo coisas com o enfoque do africano, cubanos fazendo coisas de africanos, sendo fiéis aos simbolismos de sua ancestralidade. De gente que já veio de onde vieram com o sistema nervoso alterado. Porque sabemos o que é a escravidão, o que foi, o que gerou no psiquismo do negro africano ao sair da África. Então para mim é como legitimar algo que os afroamericanos já estamos realizando”. (SOARES, apud DOMINGUEZ, 2004, p. 91\92) Outro espaço que Isa Soares costuma ocupar, que bem pode ser visto como um lugar de legitimação e visibilidade do seu trabalho é o Parque Lezama, um espaço que hoje se escolhe para realizar atividades artístico-culturais concebidas como sendo ‘dos negros’, remetendo à sua história. Entre 1706 e 1712, nos limites do Parque se assentaram os barracos onde viviam os negros escravizados desde que chegavam no porto da cidade até serem trasladados a outros mercados provinciais. Dominguez comenta que este local atualmente serve de cenário para a prática do candombe, roda de capoeira, como também a antropóloga teve oportunidade de assistir ao “músico senegalês Abdoulaye Badiane tocando tambores da música tradicional africana e a dançarina brasileira Isa Soares apresentando coreografias de dança ‘afro’” (DOMINGUEZ, 2004, p. 47). Além das aulas em “El Rojas”, no qual já faz vários anos que a professora deixou de trabalhar, Isa Soares vem partilhando aulas e apresentações numa sala privada do bairro San Cristobal, nomeada ‘La Saavedra’. Na atualidade, este é o único espaço 81 aonde a artista desenvolve com continuidade a proposta: “Danças do “Xirê de Orixás” – Afro-brasileiras”. Figura 13. “Danças do Xirê de Orixás”. Isa Soares e Alabasé. Parque Lezama, Bs. As. Foto: Arquivo do Blog http://isasoaresdanzas.blogspot.com.br Temporalidades e esperanças Souza Santos afirma que a monocultura do tempo linear, avaliada pela razão ocidental, entende a história somente com o sentido do progresso e modernização, na qual tudo o que não é declarado avançado, se torna obsoleto sob o nome de primitivo, tradicional ou subdesenvolvido. Diante desta questão, o autor propõe dilatar o presente para que diferentes culturas não hegemônicas possam assim buscar respostas ao inconformismo que produz o mundo ocidental, num diálogo transcultural com diversos tipos de tradução que habilita a uma inteligibilidade recíproca. (SOUZA SANTOS, 2002, p. 265). 82 Conforme Souza Santos (2002, p. 271), nas zonas de contato interculturais, tem de se confluir uma constelação de tempos, ritmos e oportunidades que se contrapõe à lógica da monocultura do tempo linear. Com essa perspectiva, observamos que Isa Soares contextualiza sua proposta de dança como um estrato da cosmovisão do homem africano - proveniente, em grande medida da Nigéria, África ocidental e Angola- e o seu aporte na América, em consequência da escravidão que se deu entre finais do século XVIII e princípios do XX. (SOARES, 2012) Porém, a professora remarca, numa entrevista, que não se trata de uma dança do passado, mas é do aqui agora, do ciclo de cada dia vivido: “Para mim a dança é a tradução de todas essas coisas que eu senti, desejei, fiz ou não fiz, durante o dia. Que se concretiza... quando danço um ritual de agradecimento a todas essas coisas que eu consegui durante este ciclo do dia que vai desde que eu me levanto até quando eu me deito. E também é um agradecimento pelas coisas que não tenho ainda porque eu sei que a partir da consciência de que falta alguma coisa, no outro dia eu vou trabalhar para consegui-la, ou para pelo menos seguir desejando, ne? Ter esperança! Em definitiva, eu danço para seguir tendo esperança.” (SOARES, 2012, entrevista) A artista ressalta que “o mais importante é que quem dance aproveite todo o que passa na sua vida para transformar em movimento” (Idem). Esta sugestão de Isa Soares se evidencia no interagir entre as informações que já são corpo e nas informações do ambiente que reconstitui a cada segundo o corpo. Neste fluxo contínuo “corpo vive no estado do sempre-presente” (KATZ, 2005, p. 130). Danças do “Xirê de Orixás”: argumentos da tradução Como fizemos no capítulo de Tânia Bispo, para estudar o trabalho de tradução de Isa Soares precisamos observar os argumentos que ela construiu para fazer traduções de uma cultura para outra, ou seja, do contexto do universo mitológico dos orixás para o ambiente artístico e contemporâneo da dança. De acordo com Souza Santos, cada saber ou prática leva para a ‘zona de contato’ da tradução - neste caso a dança - certos topois ou ‘lugares comuns’ que deixam de ser ‘premissas da argumentação’ e tornam-se ‘argumentos’ da tradução. Enquanto isso, vão se construindo “topois adequados à zona de contacto e à situação de tradução” (SOUZA SANTOS, 2002, p. 272). Ao longo da 83 sua trajetória, Isa Soares foi criando certos ‘lugares comuns’ que lhe permitissem traduzir o universo mitológico dos orixás para a dança no ambiente artístico de Buenos Aires. A partir das entrevistas realizadas para as pesquisas de 2007 e 2012, mais os escritos dela, conseguimos distinguir os seguintes topois ou ‘lugares comuns’: • Sobre a relação do corpo e a natureza Quando Isa Soares apresenta sua proposta, afirma que as “danças transmitem no seu conteúdo a relação do homem com a natureza... O corpo manifesta os arquétipos de cada deidade através de movimentos que se assemelham às formas visíveis dos elementos naturais. Estes são: a terra, o ar, a água e o fogo.” (SOARES, 2012, escrito) Para entender esta relação do corpo e a natureza, a dançarina baseia-se em reconhecer a natureza em nosso corpo, além dos mecanismos fisiológicos, apontando que esses elementos ‘estão’ em nosso corpo, nos movimentos do corpo e na qualidade desses movimentos (CORVALÁN, 2007, p. 21). Isa Soares traduz isto da seguinte maneira: “A terra é o corpo material, seu peso e sua estatura, a pele, os ossos e os músculos. O ar está na respiração, sendo nosso primeiro combustível, a oxigenação, entra e sai constantemente, conectando o interior do corpo com o exterior. O fogo, é o impulso que nos motoriza, nos excita e nos acelera. É a libido que nos desloca, é a paixão. Quando choramos, quando transpiramos aparece a água salgada, nosso líquido interno é salgado, como o mar. A água doce é o único elemento que não temos dentro do corpo. Devemos buscá-lo fora. É o que bebemos, o elemento que mais escasseia. Depois do ar, é o que mais necessitamos para viver.” (SOARES apud CORVALÁN, 2007, p. 21\22) A partir desses conceitos, vamos observar o modo como o corpo se organiza para expressar nos movimentos, as formas visíveis dos elementos da natureza. Nesta ocasião, vamos focar somente nos elementos terra e ar, os quais se relacionam com Omolú e Iansã, os orixás do mito abordado neste estudo. A energia da terra está nos pés, apoiados firmemente no solo, dos dedos aos calcanhares; enquanto que o sacro - a terminação da coluna vertebral - se encontra também apontando para o solo. Os joelhos ficam dobrados e o peito se encontra um tanto inclinado para frente, como se estivesse dialogando com a terra. Os movimentos 84 são pesados, como se a terra mesma tivesse um magnetismo que me empurra até ela. Só uma vibração nas costas impulsiona para cima, deixando o resto do corpo com todo seu peso para a terra. Tem a ver com a fertilidade e a nutrição, com a doença e a sanidade, com a vida e a morte. A energia do ar, pelo contrário, empurra o corpo para cima, partindo do centro do quadril, abrindo todos os buracos do corpo. Inclusive os buracos das axilas, dos cotovelos, da virilha, liberando o quadril e os ombros, desprendendo os calcanhares do chão. O quadril se move em forma de pêndulo lateral, deixando entrar o ar no corpo todo o tornando leve e fresco. Tem a ver com a liberação, com a festa e com a provocação. Estes princípios de movimentos, portanto, são consequência do tipo de relacionamento do corpo com a natureza, que vai depender das subjetividades de cada corpo, com sua história e suas possibilidades. • Sobre a gestualidade e as relações “A gestualidade é o resultado de usos e costumes, produto das relações humanas, da inter-relação com objetos e coisas, dos seres com a natureza e basicamente das funções sociais que nos coresponde cumprir.” (SOARES, 2004) Para Isa, a dança afro-yorubá é de relação o tempo todo. É uma possibilidade para se descobrir e descobrir o que é que ela necessita no encontro com as pessoas quando dança. “Conhecer meus códigos e minhas necessidades me orienta. Um gesto liberador destas necessidades me permite entender alguns significados...” (SOARES, apud CORVALÁN, 2007, p. 14) Isa Soares situa os gestos que faz com o torso, do umbigo para cima, que são as partes do corpo que nos relacionam com o outro, e agrega: “... no torso temos os braços que estão para conter, para abraçar... As mãos para saudar, pegar, afastar, acariciar... Em princípio, o gesto é inconsciente, não estruturado, não intencional. Nos libera, nos situa, pois conhecemos seu significado dentro da sociedade em que vivemos.” (SOARES, CORVALÁN, 2007, p. 14) 85 Conforme a dançarina explica, o gesto aparece quando a mecânica do movimento, que faz à anatomia construir uma forma, se impregna de uma intenção, um desejo ou uma representação simbólica de alguma coisa que a gente tem no corpo e quer expressar. O gesto é isso, você colocar um discurso. Para ela, é fundamental explicar o lugar onde esse gesto historicamente surgiu, dentro do fundamento e da concepção dessa disciplina. Tempo, história, personagem, época, situação econômica, social e política. Um gesto não esta fora do contexto sociopolítico. Estes dois argumentos de Isa Soares concordam com a proposta de corpo explanada anteriormente, de pensar o corpo como “corpomídia” (KATZ e GREINER, 2005) de si mesmo. Ou seja, mídia se refere ao processo evolutivo de selecionar informações que vão constituindo o corpo. “Capturadas pelo nosso processo perceptivo, que as reconstrói com as perdas habituais a qualquer processo de transmissão, tais informações passam a fazer parte do corpo de uma maneira bastante singular: são transformadas em corpo.” (KATZ, 2005, p. 130) O fluxo entre as trocas de informações entre corpo e ambiente não estanca, portanto, o “corpo vive no estado do semprepresente”. Ou seja, as informações não simplesmente passam pelo corpo, mas entram em negociação com as informações que já estão no corpo, o reconfigurando a cada nova informação. • Sobre o Xirê e a proposta Alábase O trabalho de Isa Soares consiste em “recriações de danças arquetípicas dos orixás - deuses do panteão africano- respeitando sua origem e fundamento”. Os orixás têm qualidades e defeitos similares aos humanos e se manifestam nas danças através dos seus simbolismos e arquétipos. Conforme escreve Isa Soares, “os gestos... relatam o percurso do corpo por instâncias da vida. Vão contando como realizarmos algumas tarefas”. O Xirê que propõe a professora tenta respeitar “a ordem hierárquica imposta pelas funções e lugares simbólicos que ocupa cada Orixá, desde Exú a Oxalá: princípiofim, cabeça-cauda, atividade-descanso”. Isa Soares explica que a palavra “xirê” provém da palavra yorubana “Siré”, que significa: jogo, prática de um esporte. Através desse formato foi que ela se atreveu a fazer recreações das danças consideradas rituais. Então, 86 confessa: “muitas vezes observo-me ainda extremamente exposta enquanto desenvolvo este trabalho.” (SOARES, 2007, pag. 2) “… O trabalho do xirê é um instrumento de contenção. Uma dança para harmonizar todos os elementos numa sequência, dentro de um espaço e um tempo apropriados. Um dos objetivos é o de não estar fixado somente numa forma, postura, sensação ou relação. A dança do xirê permite que todos experimentem as mesmas coisas. Possam aceder à atividade aportando o diferente e o particular como qualidades inerentes a cada um.” (SOARES, apud CORVALÁN, 2007, p. 28) Deste modo, a professora encontra uma possibilidade de partilhar o espaço, “acedendo potencialmente à construção de um ‘algo entre todos’”. Com a mesma intenção, foi-se afirmando o labutar de Isa Soares ao qual hoje escolhe nomear Alábase: “’Alábase’ es una palabra africana que quiere decir - aquel que comparte una tarea. Así denomino a todas las personas que deseen acercarse a esta ventana para mirar un poco mi "afuera". A todos mis alumnos que eligen mi trabajo, a los compañeros que luchan por la cultura desde todas las ramas del arte para generar salud. A todos, les deseo que encuentren la dicha de reconocerse dignos y fuertes en sus quehaceres. Así concibo mi trabajo. ‘Alábase’ es mi concepto.”25 (SOARES, 2012, blog pessoal) Na proposta de Isa Soares, este partilhar a tarefa não é exclusivo da dança, mas ela se encontra com outras práticas. Do mesmo jeito que ela consegue palpar a dança para suas relações cotidianas, também logra articular um coletivo onde a dança é mais uma ação para melhorar os encontros. Alábase inclui o pedreiro, o rapaz que vem desentupir o banheiro, “ou qualquer pessoa que faz alguma coisa com consciência de que está cooperando para que a vida de todos seja melhor”. (SOARES, 2012, escrito) 25 Alábase é uma palavra africana que quer dizer - aquele que partilha uma tarefa. Assim eu nomeio a todas as pessoas que desejem se aproximar a esta janela para olhar um pouco o meu "afora". A todos meus alunos que escolhem o meu trabalho, aos companheiros que lutam pela cultura de todos os campos da arte para gerar saúde. A todos, desejo-lhes que encontrem a beatitude de reconhecerem-se dignos e fortes nos seus quefazeres. Assim eu concebo o meu trabalho. Alábase é o meu conceito. 87 Figura 14. Alábase na Marcha do 24 de março pelos desaparecidos. Buenos Aires, 2009. Foto: Arquivo do Blog http://isasoaresdanzas.blogspot.com.br A dificuldade do ouvir o corpo: Além da dificuldade na construção de novas premissas de argumentação, Souza Santos chama a atenção a respeito da língua da tradução que comumente corre o risco de ser conduzida pela língua colonial. Como foi desenvolvida nos capítulos anteriores, neste trabalho de tradução, a linguagem é corporal. A professora propõe um modo de cada um se relacionar com o seu próprio corpo, que se afasta da lógica ocidental capitalista. Ao longo da sua trajetória como professora, Isa Soares foi percebendo certas dificuldades na forma de interpretar as particularidades da sua proposta de dança, chegando à seguinte conclusão: “cada sociedade aceita e/ou adapta seus códigos gestuais pela necessidade de educar e/ou submeter aos seus integrantes uma certa ordem. As proibições, desde esse ponto de vista, poderiam sabotar o desenvolvimento de todo aquilo que não seja considerado totalmente como próprio. Por medo ao novo, ou simplesmente, por ignorar seus atributos.”(SOARES, 2007) 88 Por esta via, a dançarina opina que nossa linguagem corporal se apresenta, às vezes, dissociada. O corpo não se vê como unidade. Atenta com esta situação, nos fundamentos da sua proposta, Isa Soares ressalta a importância de escutar o corpo e de ser conscientes da existência e da interação dos elementos naturais na química dos corpos. E sugere, por conseguinte, observar, reconhecer e qualificar as diferentes combinações resultantes dessa química na relação com o outro dentro de um espaço partilhado. Figura 15. Performance ‘Orixás de la Tierra’, Buenos Aires, 2011. Foto: Javier Infante A artista assume: “eu danço desde que eu necessito... que esses movimentos vão rebotar e vibrar em certa energia que tenha alguma pessoa que olha, e ela possa... se identificar em algum momento com algum gesto...” (SOARES, 2012, entrevista). E acrescenta que desse modo, procura criar um acesso, para que o outro possa colocar o corpo em movimento, de acordo com seu desejo, de acordo com suas percepções, recriando o que Isa Soares vai lhe dar. Alábase em dança 89 Chegamos à casa La Saavedra, onde Isa Soares ministra aulas. Javier Infante, amigo e companheiro das aulas de Isa Soares, veio nos ajudar com a gravação. Vamos a uma sala atrás porque a sala onde ela sempre trabalha está ocupada. A sala é um pouco escura pelas cores das paredes e do chão, mas Isa Soares, que chegou com três bolsos cheios e pesados, tira um pano branco grande, pregos e um martelo, “que por acaso, eram necessários”. Então colocarmos o pano branco na parede do fundo com a ajuda de Javier e depois tentamos melhorar a luminosidade do espaço. Estes tipos de gestos, prévios à dança, sobre o cuidado nos detalhes, deixam em evidência o compromisso e a coerência no trabalho da artista, que depois se visualiza na dança. Além disso, depois tira dos bolsos, uma sacola com terra e quatro objetos feitos de algum material de palha. Colocarmos montículos de terra desenhando uma roda e os quatro objetos, também fazendo a roda, dispostos na frente da câmera. Um objeto que tem forma de cone duplo com as pontas unidas é colocado horizontalmente. Em cima dele, na junção das pontas, se apoia outro objeto, um feixe de galhos de palmeira enfeitada com búzios que acaba num rabo de cavalo, ao qual chamaremos aqui ‘erukere longo’. A cada lado do duplo cone, são acomodados dois rabos de cavalo com cabo mais curto do que o primeiro, também enfeitado com búzios, denominados erukeres, que para esta pesquisa serão distinguidos como ‘erukeres curtos’. Isa Soares entrega o cd com a pista de áudio e vai se vestir para dançar. Na seguinte escrita da dança, vamos nos deter em certos momentos ou aspectos da mesma, em relação aos modos da professora traduzir pondo em questão valores e conceitos instalados pela razão capitalista e o seu discurso colonizador. Então... A música começa com um som grave e constante, como se fosse um “didjeridoo” (tronco oco que se sopra com uma respiração cíclica). No começo, Isa Soares entra bordejando a roda, pisando sobre cada montículo de terra. O ritmo se expande, sem pressa, criando o espaço-tempo necessário para ir encontrando relações com a terra e o ar, atendendo às modificações que produzem no corpo. A dança ocorre sempre dentro da roda. 90 A dançarina está vestida com um macacão de algodão, de tons roxos e marrons, com cascavéis ao redor do decote. No torso, tem uma espécie de saia pendurada no ombro, e deixando o outro ombro descoberto. A saia é feita com quatro grandes retalhos, um de cor vermelho, outro amarelo, outro roxo e outro marrom. Também tem costuradas umas cascavéis nas suas bordas. A cabeça está rodeada com um tecido tricotado de palha, amarrado por uma corda em que penduram fitinhas do mesmo material. O cabelo cai num rabo de cavalo. Nos pulsos e nos tornozelos tem pulseiras enfeitadas com búzios. Após dar duas voltas ao redor da roda, a dançarina ajoelha-se no centro da roda e procura debaixo dos objetos uma bolinha de argila, pega um pouquinho de terra do montículo de lado e junta à argila. Toma a bolinha com as duas mãos e cuspe nela várias vezes: ‘tz tz - tz tz - tz tz - tz tz’. Amassa. Coloca a bolinha de argila, terra e saliva na sua frente. E vai descendo com a bolinha, marcando uma linha pelo centro do rosto até o peito. Marca-se abaixo de um olho. Relaxa o braço e suspira. Logo se passa a argila pelo outro olho e pelo rosto todo, pelo pescoço. ‘Tz – tz – tz – tz – tz’, volta a cuspir na bolinha várias vezes e a amassa. Passa argila numa mão, passa na outra, aperta a bolinha com uma mão bem fechada, leva ao alto e a lança na frente. Fecha a mão vazia ainda no alto, e a desce bem devagar para o chão. É sabido que em nossa sociedade, o ato de cuspir, nunca é bem visto, é falta de educação e grosseria. Nesta performance, a cuspida não é somente visual, sua sonoridade forte e rítmica ressalta o som constante da musica mecânica. tz tz - tz tz - tz tz - tz tz. Para a cosmovisão yorubá, a saliva é um elemento condutor de axé - poder do princípio de realização-. Segundo Elbein Santos (2007, p. 41) a força do axê contida e transmitida através de uma grande variedade de elementos representativos do reino animal e mineral agrupados em três categorias: “sangue” “vermelho”, “sangue” “branco”, “sangue” “preto”. A saliva como o sêmen, o hálito, e as secreções, pertence ao grupo de condutores do sangue branco, do reino animal. Vemos aqui como o ato de cuspir sobre a bolinha de argila e terra pode simbolizar uma prática sagrada, dar axé ou, também, a união de uma substância provinda do corpo com elementos naturais que estão fora dele para logo passar essa matéria misturada pela pele. Pinta assim, os rasgos do rosto com barro. Já que segundo a dançarina, Omolú “é já de por si o corpo mesmo. Porque os ossos, as articulações, os 91 tendões, cartilagem, músculos, pele, cabelo, unha, todo o corpo já é terra... Tanto é que quando a gente morre (solta um riso) vai fazer parte do que a gente já é”. (SOARES, 2012, entrevista) Seja qual fora o sentido de tal gesto, Isa Soares põe em questão os valores estéticos imperantes provindos da ciência moderna e da alta cultura, se aproximando mais ao pensamento estético dos yorubás. Para eles, o conceito de estética “é utilitário e dinâmico”. Conforme Elbein Santos, (2007, (1966:1) p. 49) “o belo não é concebido unicamente como prazer estético: faz parte de todo um sistema”. Se na “monocultura do saber” (SOUZA SANTOS, 2002, p. 248) reconhece-se somente a criação artística que entra nos cânones por ela imposta, avaliando como ignorante ou inculto todo saber e criação que fica excluído da ciência moderna ou da alta cultura, Isa Soares, ao trazer um outro saber com sua criação artística, inverte de algum modo os locais da ignorância e do saber. Deixa em evidência a nossa ignorância sobre aquele saber. O que diz o silêncio Na terra, o ritmo de corpo, muitas vezes, se silencia numa espécie de detenção ativa. A dançarina passa longos períodos de tempo, deitada, ajoelhada ou agachada, em busca de contato com o chão. Descrevemos aqui um trecho da dança: Ajoelhada e com os braços abertos no chão, a dançarina leva o torso para a terra apoiando o queixo no erukere mais longo, que está em cima do duplo cone. Repousa. Quando se levanta, estica as pernas e traz o corpo mais para frente, apoiando o peito sobre a cana e o queixo no chão. Logo se levanta e vai se deitar com o peito no chão, se encolhe e se estica muitas vezes, rastejando num ritmo constante que se intensifica no tempo e se detém abruptamente. Fica encolhida com o queixo no chão olhando para os objetos, tocando os punhos dos erukeres dos laterais. Fica assim um tempo prolongado. Depois, traz as pernas embaixo do quadril e, timidamente, se aproxima aos objetos, mexe as mãos por debaixo do duplo cone, desce a cabeça. Interessa chamar a atenção neste momento da dança, ao ritmo pausado, quase preguiçoso que habilita a um estado corporal mais silencioso, indispensável para a conexão da dançarina com o elemento terra. Deitada no chão, Isa Soares toma um tempo de repouso. Sem esse tempo, o gesto seria outro. 92 F Figura 16. Manifestação artística de Isa Soares. Buenos Aires, 2012. Foto: Arquivo da autora Surge assim outra dificuldade que adverte Souza Santos (2002, p. 273), a tradução do silêncio. Parafraseando o autor, cada saber e prática concede ao silêncio um significado diferente, assim como um ritmo específico na articulação com as palavras. Trazendo para a tradução corporal de Isa Soares, o tempo de repouso, onde o corpo se move sem pressa e espera, manifesta um gesto de intimidade e diálogo com a terra. O silencio nesta dança, faz parte da ‘musicalidade postural’ (GODARD, 1995, p. 13) que permite que o gesto aconteça. Por sua vez, esta tradução do silêncio, somente é possível por dispor de uma concepção do tempo, que vai além do tempo linear, onde o presente não se reduz a um instante fugaz entre o que já não é o que ainda não é (SOUZA SANTOS, 2002, p. 245). O silêncio traduzido no repouso na dança contribui para ampliar o tempo presente, para dar visibilidade a experiências que estão sendo negadas, esquecidas ou, em palavras de Souza Santos, desperdiçadas. Atrás, no fundo da terra A partir desta lógica de tempo que contempla múltiplas temporalidades, (passados, presentes, futuros, cíclicos, lineares, simultâneos), Isa Soares fala dos 93 princípios básicos para entrar em contato com a energia da terra de Omolú: “os pés, as pernas flexionadas, o corpo dobrado para frente... que é uma volta à origem, é uma reverência... As posturas básicas sempre vão estar inclinadas nos tótens, dobrado para frente, olhando para baixo”. A professora acrescenta que a dança de Omolú sugere, “no plano do corpo da gente, um desejo como ancestral de voltar a engatinhar, de colocar as mãos no chão, que é a origem do corpo...” (SOARES, 2012, entrevista). Os objetos contribuem na relação com os elementos, o erukere longo espanta as doenças da terra26 e os erukeres curtos limpam o ar das más vibrações. Isa Soares afirma que a função do orixá da terra de tomar o erukere, tem a ver com a saúde, com a doença, com espantar as coisas da pele, com tratar de melhorar animicamente. Mesmo assim, vamos ver nesta fase da dança outra função da terra: cavar a terra. O erukere é tomado com as duas mãos na frente do torso. Uma mão o agarra com o rabo de cavalo para cima e outra mão sustenta a outra ponta do objeto. O erukere sobe e desce detrás para frente. O corpo se traslada detrás para adiante, avançando e retrocedendo com pulinhos que repercutem no corpo todo. O joelho da perna da frente sobe em cada pulo; quando vem para frente o corpo desce um pouco. O erukere também acrescenta seu movimento subindo e descendo. Agora, dá uns passos em lateral, cruzando atrás para mudar a direção. O erukere continua subindo e descendo detrás para frente, como num gesto de cavar na terra. Nesse traslado lateral de um limite da roda para o outro, a dançarina vai girando bem devagar, passando por toda a circunferência da roda. O gesto que a dançarina faz com o erukere longo, como de cavar a terra, lembra a dança de Nanã, mãe de Omolú, quando move o ibirí, sua ferramenta e seu bastão. Ao mesmo tempo, pode ter relação com um comentário que Isa Soares fez na conversa depois de dançar: “hoje, acabei de enterrar muitos ciclos e muitas pessoas que passaram por minha vida na dança. Vou precisar de um tempo agora para me acomodar”. É notável aqui como a dança de Isa Soares é atravessada pelo momento atual dela, os gestos característicos dos orixás da terra são traduzidos em função das relações de Isa Soares com o seu ambiente. A dançarina sugere que há toda uma postura que se transcende, que vai além do conceito do orixá. 26 Vale chamar a atenção que Omolú, o orixá da terra é representado por outro elemento chamado Xaxará (Sàsàrà), “o feixe de nervuras de palmeira que revela claramente sua simbologia, imagem coletiva de espíritos ancestrais” (SANTOS ELBEIN, 2007, p. 96). Mas Isa usou erukeres tanto para dançar a terra quanto o ar, diferenciando eles pela sua longitude. Segundo esta autora, os dois emblemas tem significados similares, representar os espíritos ancestrais. 94 Pela mesma via, Isa Soares se pergunta: quando a gente olha para baixo? “Quando você olhou para baixo tem uma conexão com alguma coisa, quer pensar intimamente, não é? É que a gente quer recuperar alguma coisa que perdeu. Então, quando a gente está atenta a algo ou tem vergonha, a gente se esconde, olha pra baixo.” Porém, a dançarina afirma que não adianta ficar na postura da vergonha, ou da timidez. Mas há que colocar a timidez para fora, trabalhar alguma coisa que tenha a ver com a timidez: “Vamos a dançar a timidez! Para que, quando apareça, seja tão graciosa e tão glamorosa que você inclusive escolha ser tímida. Porque já é seu capital”. (SOARES, 2012, entrevista) Figura 17. Performance ‘Orixás de la Tierra’, Buenos Aires, 2011. Foto: Javier Infante Por sua vez, essa associação do gesto de olhar para baixo com ter vergonha, ou com se esconder, no mito de Omolú, se traduz na palha que oculta seu corpo. O ar surge, então, como a possibilidade de desvendar (e transformar) aquilo que se esconde detrás da palha. A dança de Iansã levanta a palha e aparece o corpo de Omolú. Do mesmo jeito, o ar contribui a tirar para fora a vergonha, a timidez, a expressar aquilo que se oculta. 95 Segundo Isa Soares, o ar é o elemento que está em todos os lados. Até a terra respira. Mas, na postura do plexo para a terra, na qual o corpo se dobra a partir do cóccix-sacro, a respiração se estabiliza de uma forma diferente de quando você está na vertical. “É como quando a gente abre um buraco na terra, a terra respira e se pode colocar uma flor ou algo mais nesse lugar, nessa amplitude do buraco. Alguma coisa saiu aí, que estava presa. Isso é a respiração.” (Idem) Mesmo assim, a professora esclarece que quando o elemento ar aparece dentro do xirê, na forma de Iansã, é fácil perceber como modifica a forma de respirar e a dinâmica do corpo. Figura 18. Performance ‘Orixás de la Tierra’, Buenos Aires, 2011. Foto: Javier Infante O Ar Repetir repetir – até ficar diferente. Repetir é um dom do estilo (BARROS, 1993, p. 13) 96 A dançarina pega os dois erukeres curtos. Abre e cruza os braços energicamente sacudindo os rabos de cavalo, com as pernas abertas, o quadril se balança de uma perna para a outra. Vai passando por diferentes movimentos de braços, alguns mais retos, outros mais circulares, às vezes movimenta um braço por vez, um por baixo, outro por cima, depois os dois juntos em paralelo, logo os dois em cruzamentos. Os erukeres parecem limpar ao redor do corpo. Vai mudando as frentes conforme a roda. A cada lado, o gesto é diferente, cada movimento é diferente, não há como repetir. Dá para perceber como o ar vai entrando em doses silenciosas, os movimentos começam pequenos, movendo os centros de energia e os extremos se abrem aos poucos e trasladando o corpo dentro da roda. Os movimentos são executados durante um tempo prolongado, se reiterando. Mas, nessa reiteração, os movimentos se modificam sutilmente, nunca são os mesmos. Não tem como haver repetição, cada movimento já é outro. Segundo Katz (2005, p. 39) “um processo de repetição não se dá sem minúsculas diferenças entre cada repetição (...) e a repetição com essas minúsculas diferenças, a certa altura, produz uma diferença que se nota”. Gira com um erukere estendido e a outra mão na cintura. Gira para o outro lado, com um braço que se eleva. (...) Sacode os erukeres para abaixo e para cima, alternadamente. Se trasladando nas laterais caminhando para trás. Gira na caminhada para mudar de frente. Passa pelas quatro frentes várias vezes. (...) A pélvis se move lateralmente e os pés se apóiam de um lado para outro. O torso também se acomoda ao movimento da pélvis. A cabeça, por vezes, desce para avançar ou mudar de frente e sobe quando está na frente. Os braços movem os erukeres em forma de círculos. Move os erukeres de cima para abaixo com o movimento do quadril. Logo o gesto se intensifica pulando de uma perna para outra, uma na frente e a outra atrás. Vai variando as frentes também. Ora uma perna fica na frente, ora fica a outra. Agora os braços também se alternam acima e abaixo, em oposição com as pernas. Nestes diferentes momentos da dança do ar, cada gesto vai se configurando através de pequenas mudanças no fluxo do movimento. Citando Katz (2005, p. 57), a dança se constrói “como um contínuo, não um compósito de partes”. 97 Figura 19. Manifestação artística de Isa Soares. Buenos Aires, 2012. Foto: Arquivo da autora No entanto, é surpreendente como a professora consegue manifestar o ar sem precisar sair da roda para se espalhar pelo espaço. O ar se faz presente em cada mudança da dança: “Modifica a corporalidade, modifica o enfoque, modifica as direções, se muda de frente, se muda de plano, ou seja, o corpo se oxigena de verdade, porque tem muita disposição no espaço” (SOARES, 2012, entrevista). Sempre dentro do círculo, as mudanças de frentes estão direcionadas para as quatro paredes do espaço que simbolizam os quatro pontos cardinais. A dança, então, oferece um tempo para perceber o que acontece, não somente na frente do corpo, mas nas costas e em todos os seus perfis. Quando o desfrute transforma Mais uma vez, o movimento lateral da pélvis sugere sensação de leveza nas pernas. Agora, as mãos se apoiam alternadamente num ombro e num lado da pélvis. (...) Outro giro, este com as duas mãos esticadas e os erukeres nas pontas. Quando freia, dá 98 uns pulinhos no lugar e volta a girar para o outro lado. Isa Soares sorri. Cada vez mais leve, percebe-se no corpo uma sensação de alegria. Quando acaba o giro passa um erukere ao redor da cabeça. Fazendo um pequeno rebote nos calcanhares, olha os dois erukeres, aproxima um deles à sua boca e beija longamente, logo faz a mesma coisa com o outro. Depois beija os dois juntos e os coloca sobre cada ombro. Caminha meneando a pélvis para frente e para trás. Desce os erukeres e solta os ombros, sacudindo as cascavéis. Interessa registrar, nesta parte da dança, como é visível na gestualidade, uma mudança emocional; aparece o sorriso, os beijos, o sacudir dos ombros. Isa Soares afirma que Iansã dentro do xirê é importante porque é ela quem traz a possibilidade de festejar, de que o corpo se abra, para receber o resto dos orixás até Oxalá. ... Abrem-se as pernas, se abrem as articulações da cadeira, se abrem os braços, a axila, que é importante que a gente deixe os braços... (leva os braços pra cima), trabalhe com as mãos, trabalho com... (faz um gesto de movimentar o ar com as mãos), é outra coisa que sucede no corpo, é o ar. (SOARES, 2012, entrevista) Esclarecem-se, assim, como as emoções na dança estão diretamente relacionadas com a organização do corpo nas posturas e nas gestualidades. Ao levar este sentido à relação de Omolú\Obaluaiê e Iansã (os orixás do mito aqui trabalhado), Isa Soares observa que Iansã é o único orixá que pode trabalhar com Obaluaiê de uma forma festiva. “Segundo os mitos, é ela quem tira a Obaluaiê, é o ar que tira a terra para dançar. Têm como uma amizade.” Entendendo esta relação a partir dos elementos da natureza, a dançarina afirma que é o ar que faz mover a terra, é ele que estabiliza, é ele que oxigena, que faz entrar e sair as partículas de átomos e prótons. E nesse reagir químico do ar na terra, se produz a transformação. Quando no mito Iansã dança com Omolú, levanta a palha e descobre o corpo que estranhamente não é horroroso como se dizia, mas de uma rara beleza. Mostrar intempestivamente aquilo que não era para ser visto, e que seguramente produz alguma coisa em quem está olhando é um gesto que parece se reiterar de diversas formas no trabalho de Isa Soares. Propondo outros valores no seu jeito de dançar. Outras estéticas que podem até incomodar ao espectador, outros espaços de legitimação, outro modos de se colocar no mundo. A artista encontra na dança a possibilidade de transformar as dificuldades e melhorar os encontros. E diz Isa 99 Soares: “ele (Omolú) desfruta com ela (Iansã). É ela que alegra. Se ela está ele desfruta”. Mesmo que a dançarina utilize música mecânica para sua performance, ela não deixa de estabelecer um diálogo com a mesma. Como vemos nos seguintes momentos: Quando Isa Soares, na primeira parte da dança, cuspe, vai marcando um ritmo diferente que combina com ritmo que está soando. Também, em certos momentos, os pés acentuam um tempo do ritmo e em outros, as cascavéis que rodeiam os ombros vibram em cada pulo, em cada pisada, ou às vezes são sacudidas. E quando Isa Soares deixa o erukere longo e vai buscar os erukeres curtos para dançar o vento, na música, entra muito sutilmente um agogô, duplo cone de ferro, que marca uma clave, guia da música. No final, quando a música vem mantendo uma percussão constante, a dançarina vai girando com o cone duplo estendido na frente. No momento que a percussão some, ela acaba o giro, se detém na frente e eleva o cone com as duas mãos e coloca-o na frente do peito. Segundo Isa Soares, o cone duplo é um relógio de arena. Representa o tempo que é um dos territórios de Iansã. (...) Já no chão, abre as mãos contendo os objetos e apoia a cabeça na base do cone, encima dos irukeres. Repousa. Finaliza a música. A instalação se desarma e Isa Soares acolhe os objetos embaixo dela e deita. Descansa. Um tempo depois, a dançarina levanta o torso com os braços ainda apoiados no chão e olhando para os objetos entoa um canto em yorubá. No final, o canto diz: “Axé, Axêee, Alabase, Axê” Como falamos anteriormente, e de acordo com Elbeim Santos (2007, p. 42), o axê é uma força que permite as coisas existirem e devirem, o qual é transmitido através de gestos, de palavras pronunciadas “acompanhadas de movimento corporal, com a respiração e o hálito... que atingem os planos mais profundos da personalidade”. A autora explica ao respeito: “Num contexto, a palavra ultrapassa seu conteúdo semântico racional para ser instrumento condutor de àse... Se a palavra adquire tal poder de 100 ação, é porque ela está impregnada de àse, pronunciada com o hálito – veículo existencial – com a saliva, a temperatura; e a palavra soprada, vivida, acompanhada das modulações, da carga emocional, da história pessoal e do poder daquele que a profere.” (ELBEIN SANTOS, 2007, p. 46) Tomar conhecimento destes conceitos ajuda a descartar qualquer pressuposto da lógica ocidental capitalista que tenta avaliar a obra artística como menor ou inexistente, a qual, como vemos, é tecida por princípios do universo mitológico dos orixás. Axé, o principio da existência, Alábase, aquele que partilha uma tarefa. Na própria entoação destas palavras, se manifesta a carga emocional, histórica e pessoal da dançarina. Nomear é uma maneira de valorar e dar visibilidade a algo. Só partilhando a tarefa, trocando com outros e nos oxigenando, é possível dar continuidade a nossa potência. 101 CAPITULO 4 TRADUZIR À BEIRA DO MITO Figura 20. Manifestação artística de María Laura Corvalán, Salvador, 2012. Foto: Martín Lorenzo Esta pesquisa propôs trazer à luz as manifestações artísticas das danças dos orixás, realizadas por Tânia Bispo, em Salvador, e por Isa Soares, em Buenos Aires, atendendo aos processos tradutórios que cada uma construiu entre o universo mitológico dos orixás e o ambiente artístico e contemporâneo da dança. Para este estudo, foi escolhido um mito que fala da relação de dois orixás: Omolú/Obaluaiê, a energia da terra, e Iansã, a energia do vento e do ar. A investigação foi atravessada pela proposta de tradução cosmopolita do sociólogo português Boaventura de Souza Santos, que parte do reconhecimento de que não há uma teoria geral, mas todas as culturas são incompletas. Portanto, a tradução sempre implica uma criação e transformação, aberta a outras leituras e recriações. A partir das circunstâncias que foram vivendo as dançarinas, cada uma foi construindo ‘novos lugares comuns’ que sugerem modos de se colocarem no mundo, afastadas dos discursos colonizadores. Deste modo, as artistas conseguem traduzir em sua dança 102 valores, conceitos e cosmovisões africanas que habilitam um diálogo horizontal, recíproco e não-hegemônico entre as diferentes culturas. Foi possível também constatar como, tanto Tânia Bispo quanto Isa Soares logrou defender suas propostas de uma dança que não cabe nos cânones comerciais da espetacularidade, entrando e saindo dos espaços de dança, os quais se modificavam, tanto quanto as artistas em questão. Enquanto isso, cada uma foi fazendo relações e construindo ambientes onde puderam se reconhecer e sua arte pôde ser valorizada e legitimada. Partimos da hipótese de que sempre que a dança ocorrer num contexto diferente de onde surgiu, segundo registros historiográficos, há tradução. Portanto, para haver tradução, não é preciso ser estrangeiro daquela cultura; todas as manifestações artísticas das danças de orixás são traduções de uma cultura para outra, sejam elas em Salvador, em Buenos Aires, em Rosário ou outra cidade qualquer. Assim, vimos como Tânia Bispo, tendo experiências religiosas e artísticas, consegue diferenciar estes dois estados, entendendo que fora do terreiro, quando ela dança de forma artística ou está dando aula, ela faz um trabalho de tradução. A dançarina esclarece que somente quando há consciência é possível traduzir criativamente uma imagem, um movimento ou um símbolo. O corpo consciente é o que tem a capacidade de transcender a partir de todo o conhecimento que ele traz. Pelo contrário, no espaço religioso, não há nada que transformar, mas há que seguir os fundamentos da tradição. Isto não significa que o universo mitológico seja original e não mude nunca, mas como a tendência é manter a tradição, as transformações são significativamente mais lentas. Observamos, também, como Isa Soares não precisou ser religiosa para fazer tradução daquele universo mitológico dos orixás num contexto artístico de Buenos Aires. E, ainda, sua proposta ganhou grande reconhecimento por ser reveladora de informações que não circulam facilmente naquele ambiente de dança de Buenos Aires. As duas experiências ressaltam a possibilidade de transformação através de tais processos tradutórios. Dançar, manifestar, criar para transmutar estados corporais, situações, relações, emoções, etc. A importância destes tipos de tradução reside em que, somente assim, é possível tirar do escuro, valores, mitos, danças e muitas informações que, de outra forma, ficariam ainda na obscuridade. O trabalho das duas dançarinas, analisados aqui, é uma 103 forma de dar continuidade, de manter vivo saberes e práticas que não estão acessíveis na educação regular. Reflete-se aqui outra motivação que atravessou esta pesquisa: o fato destas informações sobre dança não terem lugar na educação oficial ou formal, por não serem legitimadas pelos valores da ‘monocultura’ da razão ocidental. Então, não há igualdade de acesso para essas informações, como tem para outras que estão a serviço do sistema capitalista. Pode-se afirmar, portanto, que existem razões concretas para esses saberes ficarem no escuro e ainda tais ações trazem consequências sociais e educacionais na formação de qualquer pessoa. Manter à margem aquilo que não vem do colonizador, não pode ser mais do que reflexos de uma postura colonizada de aceitação social. Apontamos, com este trabalho de tradução cultural, o desvendar daquilo que a cultura colonizadora cobriu com a palha da razão capitalista. Neste exercício de trazer à luz as manifestações artísticas de Tânia Bispo e Isa Soares, nos capítulos anteriores tentamos realizar uma tradução verbal das danças das mesmas. Porém, pelo fato de ser uma investigação em dança, onde os conhecimentos que a pesquisadora encontrou em ambientes fora da universidade foram nutridas pelas teorias estudadas dentro da universidade, houve também a necessidade de fazer uma tradução corporal das mesmas, ou seja, traduzir a dança com outra dança, de um corpo para o outro, lembrando que a tradução sempre será diferente, individual e criativa. Dar movimento às traduções aqui expostas permite agregar informações do que não basta em palavras, enquanto se abrem questionamentos sobre as inúmeras traduções culturais possíveis da dança. No intuito de sugerir que ainda há tantas outras traduções a serem dançadas, transmutadas e/ou ressignificadas que precisam sair à luz para fortalecer estes outros paradigmas de valorações e reconhecimentos, apresentamos aqui uma tradução corporal da pesquisadora desta dissertação, María Laura Corvalán. Estende-se, assim, outro horizonte quando as danças destas professoras são traduzidas em outro corpo, que já traz outras informações da sua cultura e da sua história. Surgem, então, as seguintes indagações respeito aos diferentes graus ou nivéis de tradução cultural. Quando se alongam as distâncias na tradução: quais são os riscos? O que é o que tem de permanecer para que continue sendo uma tradução (artística) de danças de orixás? Onde e como tomar cuidado para continuar se mantendo o diálogo entre as culturas? Estas perguntas não estão resolvidas nesta pesquisa, mas são desdobramentos que compartilhamos com outros possíveis tradutores culturais 104 dimensionando a responsabilidade de fazer um trabalho crítico e com fundamento de parte das duas culturas a traduzir. A necessidade de dançar estas traduções aparece também como um modo da pesquisadora apresentar seu caminho pessoal da sua tradução. Várias informações sobre a dançarina-pesquisadora já foram enunciadas na introdução desta dissertação, mas vale sublinhar que a mesma não é brasileira; é argentina, nascida na cidade de Rosário e vem estudando e se formando com Isa Soares há mais de dez anos, tanto em Buenos Aires, quanto em Rosário, junto ao seu grupo Iró Bàradé. Por sua vez, em suas viagens à cidade de Salvador, a pesquisadora vem tomando cursos intensivos com Tânia Bispo desde o ano de 2004. Esta formação também se atualiza dia-a-dia em suas experiências como professora e dançarina na sua cidade natal, na Argentina. À beira das danças A sala de dança do ‘Alto da Sereia’, um morro do bairro Rio Vermelho em Salvador/BA, que acolhe muitos estrangeiros, é o cenário da dança À beira do mito. Pelas janelas entra a luz do dia e o som constante do mar. Num canto da sala está o percussionista Manuel Corvalán27, irmão da dançarina. No centro do espaço, a dançarina: tronco flexionado e cabeça pendurada junto aos braços. Os dois estão vestidos de branco. Começa um canto, um pedido de licença -‘agô’- para a terra. “A jí dagôlônã qui uá xauòrò Dagô ilêilê dagôlonã qui uá xauôrô Dagô ilêilê”28 (OLIVEIRA, 1997, p. 76) Logo entra a percussão, lenta, pesada, mas com ritmo muito marcado. O corpo mostra o que não pode ver: suas próprias costas. A parte posterior está na frente e tem algo que dizer. As costas movimentam-se como se tivesse algo que lhe incomoda, que 27 Manuel Corvalán é músico percussionista e contrabaixista que acompanha María Laura Corvalán em vários trabalhos de dança em Rosário, Argentina. 28 Ao acordar pedimos licença ao senhor no caminho, aquele a quem fazemos o culto tradicional, dê licença! à nossa casa, que pede licença no caminho a quem nós fazemos o culto tradicional (OLIVEIRA, 1997, p. 76). 105 vibra, queima e pica no corpo. Como se uma doença silenciada pedindo para se ‘expressar’. As mãos mergulham na pele tentando acalmar a coceira. Arrancam algo das costas e o jogam no chão e a cada mão que se lança, o corpo todo vai se arremessando na terra. A terra empestada do corpo descansa na grande terra mãe. Mas o que é um corpo empestado senão um corpo com um poder tão enorme quanto a arte? Antonin Artaud (2002, p. 23) compara a peste com o teatro, porque ambos afetam importantes comunidades produzindo “um caos social, uma desordem orgânica carregada de mistério”. Figura 21. Manifestação artística de María Laura Corvalán, Salvador, 2012. Foto: Martín Lorenzo A pele é só uma membrana que traduz processos muito mais profundos e invisíveis que lhe acontecem ao corpo. No caso da peste, há uma disfunção e putrefação dos órgãos, que provoca uma desordem geral no corpo. Gases e fluidos tentam fugir pelas chagas e bolhas que aparecem na pele. No caso desta dança, afloram memórias 106 reprimidas, ritmos históricos e emoções que querem ser ouvidas. O desconforto que se manifesta na pele é só uma consequência de tudo o que já estava preso no silêncio. Com pouca força, o corpo pesado rasteja em direção ao tecido que está no chão. Entra por baixo e vai se cobrindo com ele. Cobre a cabeça e o torso e descola-se do chão. Coberto com o tecido traslada-se aos poucos para trás. Por momentos, há uma força que puxa para baixo, mas ele aproveita a puxada para mudar de direção. O corpo empestado, não venera suas feridas nem sua fraqueza; oculto no tecido busca avançar, se movimentar, transformar seu estado. As mãos também contribuem no movimento passando pelo corpo com um gesto que tira as doenças dele. Ainda com o corpo dobrado para frente e coberto com o tecido, se traslada de lado com uma mão projetada no chão, ora mostrando o dorso, ora a palma. Gesto que fala da vida e a morte que representa a terra, mas também fala de um agradecer e um pedir para a terra. Depois, vai para frente em grandes passos elevando os joelhos e braços alternadamente. Após três passos, o corpo se estica, os braços sobem sacudindo as mãos e muda de direção. Figura 22. Manifestação artística de María Laura Corvalán, Salvador, 2012. Foto: Martín Lorenzo 107 No mito, a peste de Omolú não pode ser vista e é coberta por uma roupa de palha que lhe deu seu irmão Ogum. Artaud, comparando a peste com o teatro, diz que: “o teatro, em essência, se assemelha com a peste, não já pelo fato de ser contagioso, mas porque, como ela, seria revelação e manifestação de um conteúdo de crueldade latente. Por meio dele, percebe-se, seja num indivíduo ou num povo, as numerosas possibilidades de perversão do espírito”. (Idem, p. 25) Na dança acontece algo parecido. O corpo deve disfarçar-se de técnicas esvaziadas, sorrisos forçados, ocultando emoções, histórias, pensamentos sejam de um indivíduo ou de uma comunidade que bem perverteriam as normas de controle social. E ainda mais, quando a dança se perverte, é muito contagiosa. Traslados, giros, mudanças no espaço, o ar vai tomando mais presença na dança da terra. Num momento o vento que entrou parece se acalmar. Detenção. Silêncio. Calma chicha29. Aos poucos, o quadril começa a mexer. Os braços sobem por baixo do tecido. O quadril não deixa de mexer, com as pernas sempre flexionadas. Figura 23. Manifestação artística de María Laura Corvalán, Salvador, 2012. Foto: Martín Lorenzo 29 No norte argentino, onde correm fortes ventos, se chama ‘calma chicha’ ao momento que o vento da uma parada, um silêncio, que anuncia que logo vem a tempestade. 108 Por cima do tecido, aparecem os olhos, as mãos abrem o buraco do tecido, que vai mudando de forma e mostrando diferentes partes do rosto e cobrindo outras. A boca se assoma, fazendo muitas gesticulações como dizendo algo, mas sem som; nada se ouve. Descobre-se a cabeça, descobre-se um ombro e um braço que logo saem por cima do tecido. Descobre-se o outro ombro, os braços liberados. Continua a ‘fala muda’ no silêncio. A saia na cintura. Vento que não tem medo do contagio, mas a tempestade tem um fogo que transforma a peste em beleza. Vários mitos relatam que quando se levanta a palha de Omolú, as pessoas não conseguem enxergá-lo, ou ficam cegas, por ele se tornar uma imensa luminosidade. Por isso o associam ao sol. Em palavras de Reis (2000, p. 119): “a capucha de palha-dacosta (aze) cobre o rosto de Obaluaiê para que os seres humanos não olhem para ele de frente (já que olhar direitamente ao sol pode prejudicar a vista)”. Artaud, por sua vez, afirma que “o teatro acolhe, ao igual que a peste, uma sorte de raro sol, uma luz de anormais e fortes tons, onde o dificultoso e até o impossível de improviso se converterá em elemento normal”. (ARTAUD, 2002, p. 26) Este sol que não se olha de frente, esse fogo que encandeia, é a doença transformada, a fortaleza de um sofrimento já cicatrizado e imunizado. O invisível se ilumina, o horroroso se embelece e a peste vira imunidade. Figura 25. Manuel Corvalán tocando Hung Salvador, 2012. Foto: Martín Drum. Lorenzo Figura 24. Manifestação artística de María Laura Corvalán, Salvador, 2012. Foto: Martín Lorenzo 109 Surgem sons mais harmônicos, mais metálicos e agudos, numa música realizada com o ‘Hung Drum30’. O ar move o quadril que move as pernas, que mudam o peso de uma e outra, até ficar com o peso do corpo numa perna só. A outra perna flutua no ar, se afastando e se aproximando da outra perna, numa conexão do torso que articula braços e pernas com um movimento único, rodeando o eixo num sentido espiralado. Há um estado corporal que lembra um tango, leve e sensual. Mas essa leveza por vezes se altera de tal jeito que corta e afasta tudo o que está em seu redor. A brisa torna-se um vendaval que traslada o corpo e modifica sua postura. Ombros e braços se movimentam ondulados. Um gesto da mão empurra e provoca um giro, fica de costas. A mão empurra para o alto, o rosto olha para o que empurra. Gira de repente e muda de direção. Agora, o olhar se afasta daquilo que empurra. Segundo Isa Soares, às vezes é possível olhar para o que estamos afastando, soltando, deixando ir, no intuito de incentivar o outro a partir. Mas, às vezes, não é possível olhar para o que estamos soltando, porque se aquilo que é solto vira-se para trás, corremos o risco de que memórias e emoções ressurjam e já não seja tão fácil soltar. Figura 26.Manifestação artística de María Laura Corvalán, Salvador, 2012. Foto: Martín Lorenzo 30 Instrumento redondo e metálico, de origem suíça, que se toca com os dedos. 110 Assim, o fato de olhar ou não para aquilo que se empurra muda o gesto completamente porque muda a relação com o espaço. Queira ou não queira, o vento sempre solta, não é uma escolha, é sua natureza. Como diz a canção ‘Confesiones del viento’: “(…) Iba quebrado de culpas y seguía confesando, en su lomo de distancias no cabalgaba ni un pájaro, Era un fantasma ese viento, un alma en pena penando 31 y en ese telar de angustias, tejió sus babas el diablo (…)” (Fragmento da canção ‘Confesiones del Viento’, letra: YACOMUZZI, R., música: FALÚ, J.) A energia do vento não elege jogar árvores à terra. E se lamentando das destruições que provoca no seu andar, vai se distanciando, quebrado de culpas. Assim vai a dança, empurrando o ar com os braços, avançando sem rumo, fugindo de seu próprio poder. Figura 27. Manifestação artística de María Laura Corvalán, Salvador, 2012. Foto: Martín Lorenzo 31 Ia quebrado de culpas e seguia confessando, no seu lombo de distâncias não cavalgava nenhum pássaro. Era um fantasma esse vento, uma alma em pena penando, e nesse tear de mágoas, teceu suas babas o diabo. (Fragmento da canção ‘Confissões do Vento’. Tradução nossa) 111 Um fogo desata-se na bacia e as pernas criam um sapateado que reboleia a saia. Aparece a energia de búfalo, mulher-bicho, mulher-brava que bate na terra qual sapateado de ‘chacarera’32. Fogo que transforma a dor, vento que seca as chagas, ar que refresca o temperamento do corpo. Doença vira dança, tristeza vira festa e solidão, companhia. Olhando para frente, um dedo assinala o peito em movimento, depois seu ombro que também se move vibrante e solto. Logo assinala para sua boca, que está bem aberta. Aponta para a terra, depois para o céu, e para a percussão. Aponta para a câmera, para seus olhos, para sua boca e para seu quadril que se move. Aponta para o peito, aponta para a música e aponta para frente (possível espectador), para outro, e para outro. Cada coisa assinalada cobra uma presença que antes não tinha, ilumina-se, foca-se, move-se ainda mais. Assinala a terra, o quadril, o céu, o ombro... Apontar, assinalar, expor, dar luz para os detalhes que foram negados durante muitas danças. Os dedos mudam cada vez mais rápido de direção e na velocidade deslocam o corpo, girando e voltando. Fica de costas, apontando para um ombro com um dedo e com o outro para o publico. Detém-se, a música vai se calando aos poucos. Esta tradução corporal e cultural pode intitular-se “Dança à beira do mito”. Dançar à beira permite alargar sua fronteira, fazer mais extenso o interstício para conversar entre duas culturas. Dançar à beira do mito de Omolú e Iansã oferece um espaço propício para que ocorram encontros inesperados entre o vento e a terra, entre a arte e a ciência, entre o sagrado e o profano de cada ser. Quando um corpo se encontra com sua peste, não adianta ocultar-se embaixo de qualquer roupa. Somente um forte vento pode desvendar o que estava podre, desamarrar a peste para que continue seu processo de mutação. “Se advertirá aqui que, da ótica humana, a ação do teatro, como a da peste, é de beneficio, já que ao impulsionar aos homens a que se vejam tal e como são, elimina a máscara, faz visível a mentira, a debilidade, a baixeza, a hipocrisia, sacudindo a paralisante inércia da matéria que mascara e obstaculiza ainda as testemunhas mais claras que nos dão os sentidos e revelando às comunidades sua obscura potencia, sua força latente, as induz a adotar, diante o destino, uma ação heroica e superior, que de outra forma jamais tivessem atingido.” (ARTAUD, 2002, p. 27) 32 Lembrando: Chacarera é um ritmo e dança do folclore argentino, oriunda de Santiago del Estero, com grande preponderância rítmica. 112 Assim como Artaud fala da ação do teatro, a ação da dança também pode ser reveladora. Segundo a proposta de Souza Santos, a ação de traduzir também pode ser. Fazendo analogia com o mito de Omolú e Iansã, o trabalho de tradução é um vento em tempestade. É uma dança que move até o que ficou nas sombras da palha. A tradução corporal da pesquisadora aqui apresentada vai além das danças. É uma estratégia de sobrevivência. É mais uma forma de tirar do escuro as informações reveladas pelas artistas e espalhar suas propostas, anelando que muitas outras traduções artísticas cosmopolitas sejam dançadas e iluminadas. A tradução cosmopolita se anima a ventilar o corpo empestado de outras culturas que ameaçam a monocultura da razão ocidental. Avizinha-se a uma contaminação de diversidade cultural, uma verdadeira peste ‘ecológica’ e, neste caso, pode ser contagiosa. 113 REFERÊNCIAS ABNT: Associação Brasileira de Normas técnicas. NBR 14724, Rio de Janeiro 2011. AGAMBEM, Giorgio. O que é o contemporâneo e outros ensaios. Ed. Argos, Santa Catarina, 2009 ______ . Profanaciones, Buenos Aires: Adriana Hidalgo, 2005 ARTAUD, Antonin. El Teatro y su doble. Ed. 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