Crédito e bancos no sul de Minas Gerais (1917-27): reconstituição da história econômica da região em sua transição para o capitalismo RELATÓRIO FINAL APRESENTADO À FAPEMIG PROJETO SHA APQ 04432-10 (PROGRAMA PRIMEIROS PROJETOS - PPP) Thiago Fontelas Rosado Gambi (Coord.) Andréa Vieira Megda (Bolsista) ICSA/ UNIFAL-MG Agosto de 2012 1 Sumário Introdução.............................................................................................................................. 3 1ª PARTE – REGIONALIZAÇÃO E URBANIZAÇÃO DO SUL DE MINAS ........................... 5 1. Sul de Minas em transição: opção por uma regionalização como ponto de partida............ 5 2. Urbanização no sul de Minas: elementos históricos ......................................................... 12 2ª PARTE – A DINÂMICA BANCÁRIA DE MINAS GERAIS E OS BANCOS DO SUL DE MINAS ........................................................................................................................... 18 3. Bancos e desenvolvimento econômico ............................................................................ 19 4. Bancos em Minas Gerais ................................................................................................. 21 5. Bancos no sul de Minas Gerais........................................................................................ 24 3ª PARTE – AS CIDADES E OS BANCOS NO SUL DE MINAS (1817-27) ........................ 30 6. Bancos na região de Varginha ......................................................................................... 30 7. Bancos na região de Guaxupé ......................................................................................... 37 8. Bancos na região de Pouso Alegre .................................................................................. 38 Considerações finais............................................................................................................ 38 Referências ......................................................................................................................... 39 ANEXO I .............................................................................................................................. 44 ANEXO II ............................................................................................................................. 45 ANEXO III ............................................................................................................................ 62 2 Introdução Este relatório final de pesquisa apresenta uma caracterização dos bancos do sul de Minas Gerais na passagem do século XIX para o XX. Ele está dividido em três partes. Na primeira, são feitas considerações sobre a regionalização e a urbanização dessa parte do território mineiro, observando como os bancos, além de outros elementos, ajudam a caracterizar o espaço sul-mineiro e a formação de suas cidades. Na segunda, os bancos da região são brevemente analisados no contexto mais amplo da dinâmica bancária de Minas Gerais. Finalmente, na terceira parte, são apresentadas características gerais de bancos fundados nas principais cidades do sul de Minas. O foco da análise neste item são os bancos criados em Varginha, Alfenas, Campanha e Paraguaçu entre 1917 e 1927. Na tentativa de encontrar documentação primária sobre essas instituições mais especificamente sobre o Banco da Varginha e o Banco Comercial e Agrícola, de Varginha; a Cooperativa Pastoril Sul Mineira, de Três Corações; o Banco da Campanha; o Banco de Paraguaçu e o Banco Comercial de Alfenas -, percorremos o fórum e o cartório de registro de títulos de Varginha, e acessamos a coleção particular de jornais do Sr. Nico Vidal; o Centro de Memória Cultural do sul de Minas (CEMEC) e o arquivo do Museu Regional do sul de Minas, em Campanha; o cartório de registro de títulos e um arquivo particular, em Alfenas; e, finalmente, o Museu Alferes Belizário e o cartório de registro de títulos em Paraguaçu. Ao longo das buscas, deixamos de lado a Cooperativa Pastoril Sul Mineira por não ter a atividade bancária como finalidade específica. Diante da escassa documentação encontrada sobre essas instituições, a principal fonte primária utilizada neste trabalho foram os jornais regionais, que publicaram propagandas e balanços desses bancos. Embora os dados coletados não sejam suficientes para se fazer uma caracterização mais ampla da dinâmica do crédito e dos bancos da região, as informações apresentadas neste relatório certamente serão úteis para a construção posterior dessa caracterização. Encontramos no arquivo do fórum de Varginha um conjunto de documentos interessantes sobre a falência do Banco do Sul de Minas, que funcionou em Varginha de XX a XX. Não os exploramos nesta pesquisa, porque o banco escapava ao nosso recorte temporal. Apesar disso, digitalizamos essa documentação, que abre uma boa perspectiva para um trabalho futuro que trate especificamente dessa instituição (Anexo I). Vale ressaltar que o objeto da pesquisa foi discutido durante 2011, no Núcleo de Estudos em História Econômica e Economia Política, no contexto de um debate mais amplo sobre a urbanização do sul de Minas; que a documentação digitalizada 3 ficará disponível em CD; e, finalmente, que parte desta pesquisa foi publicada como capítulo “A expansão bancária no sul de Minas em transição (1889-1930)” no livro “Sul de Minas em transição: a formação do capitalismo na passagem para o século 20”, organizado pelos professores Alexandre Saes (USP) e Marcos Lobato (UNIFAL-MG), e publicado pela Edusc, com o apoio institucional da FAPEMIG. Além disso, a bolsista do projeto utilizou a pesquisa em seu trabalho de conclusão de curso (Anexo II) e apresentou a pesquisa em dois eventos acadêmicos de Iniciação Científica organizados pela universidade (Anexo III). Esses foram os principais resultados da concretização deste projeto. Finalmente, é preciso dizer que este foi apenas um primeiro esforço de busca de fontes primárias sobre o crédito e os bancos no sul de Minas, e o apoio da FAPEMIG foi fundamental para que ele pudesse ser realizado. 4 1ª PARTE – REGIONALIZAÇÃO E URBANIZAÇÃO DO SUL DE MINAS 1. Sul de Minas em transição: opção por uma regionalização como ponto de partida* Entender a economia de Minas Gerais durante o século XIX tem sido um desafio que a historiografia tem cumprido muito bem. Desde que os trabalhos de Roberto Martins e Robert Slenes lançaram um frutífero debate acerca da economia escravista mineira oitocentista, diversas pesquisas se preocuparam em dar contribuições novas ao debate em outros importantes temas. A historiografia econômica conseguiu apreender bem o que Guimarães Rosa já afirmara há tempos, “Minas são muitas”. A diversidade regional é uma das marcas da economia mineira, um espelho do Brasil. Nesse sentido, parte dos trabalhos que abordam a Minas Gerais do século XIX buscou analisar a história da Província levando em conta esses aspectos regionais. Apesar dessa ênfase na diversidade regional, estudos como de Roberto Martins e Douglas Libby baseavam-se em recortes políticos tradicionais do território mineiro, recortes estes que remontam à realidade do século XX e que, por isso, nem sempre são os mais adequados ou relevantes para a abordagem histórica.1 Esse recorte político do território mineiro também seria retomado por John Wirth, mediante o uso do Anuário Estatístico de 1922, para a análise de Minas Gerais no período entre 1889 e 1937.2 Foi somente com os trabalhos de Marcelo Godoy e Clotilde Paiva que a regionalização passou a ser problematizada para Minas Gerais.3 Levando em conta aspectos históricos, por meio de relatos de viajantes estrangeiros, dividiram o território mineiro oitocentista em 18 regiões. Nos relatos eram os aspectos geográficos, econômicos e populacionais que definiriam as regiões por níveis de desenvolvimento, * Reprodução parcial de texto publicado em SAES, Alexandre e LOBATO, Marcos. Sul de Minas em transição: a formação do capitalismo na passagem para o século 20. Bauru: Edusc, 2012. 1 MARTINS, Roberto. Growing in Silence: The Slave Economy of Nineteenth-Century Minas Gerais, Brazil. Tese de Doutorado: Varderbilt University, 1980; MARTINS, Roberto. A economia escravista de Minas Gerais no século XIX. Belo Horizonte: Cedeplar/UFMG, 1980a, e LIBBY, Douglas. Transformação e trabalho em uma Economia escravista: Minas Gerais no século XIX. São Paulo: Brasiliense, 1988. 2 WIRTH, John. O fiel da balança: Minas Gerais na federação brasileira (1889-1937). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. 3 PAIVA, Clotilde Andrade. “População e Economia nas Minas Gerais do século XIX.”, São Paulo: USP/Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, 1996; GODOY, Marcelo Magalhães. Intrépidos viajantes e a construção do espaço: uma proposta de regionalização para as Minas Gerais do século XIX. Belo Horizonte: UFMG/CEDEPLAR, 1996. 5 de maneira que considerassem tanto o grau de mercantilizarão da economia como o papel da escravidão. A idéia principal dessa metodologia era apontar para a importância de uma regionalização construída a partir de elementos históricos e geográficos. Assim, fundamental era perceber a diversidade e o contraste dos mais variados espaços mineiros nos oitocentos. Tal regionalização, como é possível avaliar no mapa abaixo, apreende a realidade da primeira metade do século XIX, da “grande fazenda” mineira, cuja diversificação produtiva ganhava destaque.4 Na área mais escura, vinculada tanto às cidades mineradoras como ao circuito mercantil em direção ao Rio de Janeiro, se encontravam as regiões mais urbanizadas e desenvolvidas da Província. Nas áreas de cor intermediária, por sua vez, predominavam as regiões de abastecimento, como da pecuária de Araxá e dos leitos do São Francisco e Rio das Velhas, como também, as fronteiras da Província com o Rio de Janeiro e São Paulo, a Mata e o Sul Central respectivamente. Nas áreas de baixo desenvolvimento, por fim, representadas pela cor clara, a produção comercial ou a integração aos circuitos exportadores era limitada. O que hoje comumente conhecemos como o Sul de Minas está caracterizado acima pelas regiões Sudoeste (XVIII) e Sul-Central (XVII) que, conforme as listas nominativas de 1831/2, concentravam juntas cerca de 16,5% da população. E ainda: Contrastando com a Região da Mata, a Região Sul apresentava a vegetação de campos como cobertura dominante, sendo que as florestas predominavam, sobretudo, na sua porção meridional. A criação, principal atividade da região, era exercida nos campos. As matas, derrubadas para o cultivo, eram dominadas por agricultura voltada para o abastecimento de mercados intra e inter-regionais ou auto-consumo. Alguns gêneros respondiam por importantes fluxos comerciais, sendo exportados para fora da região. Spix/Martius, vindos de São Paulo, cruzam a Região Sul na sua porção central, passando inclusive por Campanha. Saint-Hilaire também cruza a região por duas vezes, porém, na sua porção oriental. Podemos dividir o território percorrido por Spix/Martius em duas porções. Até mais ou menos a altura de Campanha os autores relatam a grande incidência de matas, a agricultura voltada para o auto-consumo e na área de Campanha, a mineração de ouro vigorosa. Já a parte percorrida entre Campanha e São 5 João Del Rei apresentava a criação como atividade preponderante. 4 PAIVA, Clotilde A. & GODOY, Marcelo M. “Território de contrastes: economia e sociedade das Minas Gerais do século XIX”. X Seminário sobre a economia mineira. Diamantina, 2002, p. 35. 5 CUNHA, Alexandre Mendes & GODOY, Marcelo Magalhães. "O espaço das Minas Gerais: processos de diferenciação econômico-espacial e regionalização nos séculos XVIII e XIX". 6 A região apresentava, portanto, vínculos com mercados externos à Província enquanto a sua economia era caracterizada pelas atividades de criação e agricultura de abastecimento. Godoy e Paiva consideraram as regiões Sudeste e Sul-Central com nível de desenvolvimento médio, em contraposição a região central local em que concentravam as áreas mais dinâmicas da Província. Afinal, nos tradicionais centros mineradores – tanto tendo em vista suas atividades econômicas como a concentração da população –, constituíam-se as maiores cidades e as mais abastadas redes comerciais da Província na primeira metade dos oitocentos.6 Contudo, ao longo desse período, o Sul de Minas alcançaria um crescente destaque no jogo político e econômico da Província. Na historiografia essa identidade do Sul de Minas seria revelada por Alcir Lenharo.7 Neste trabalho pioneiro, ao abordar o real valor da economia de gêneros de abastecimento em Minas Gerais durante a primeira metade do século XIX, o autor passaria a enfatizar a relação da emergência do Sul de Minas como ator político no período imperial quanto da rápida expansão da demanda do mercado interno em função da instalação da Corte no Rio de Janeiro em 1808.8 A Revolta Liberal de 1842 marcaria a ascensão definitiva dos grupos sul-mineiros no tabuleiro político da Província,9 numa fase em que na ponta norte da Mantiqueira o café passava a ser introduzido, recriando o território mineiro. Mas nunca é demais advertir: o próprio Sul de Minas é recortado por diferentes dinâmicas, resultantes das articulações dos transportes, especialmente as ferrovias, Congresso brasileiro de história econômica, 5; conferência internacional de história de empresas, 6. Caxambu (MG). Anais ABPHE, 2003. (Disponível em CD-ROM), p. 25-6. 6 Mas isso não significa nos apegarmos necessariamente a ideia de regionalização mediante o conceito de rede de cidades, em que destacam-se relações econômicas, hierarquias e graus de influência entre as cidades. Para trabalhos que seguem essa análise, conferir: VELLOSO, André e MATOS, Ralfo. “A rede de cidades do Vale do Jequitinhonha nos séculos XVIII e XIX”. Anais do VIII Seminário sobre a Economia Mineira, vol. 1. Belo Horizonte: CEDEPLAR/UFMG, 1988; RODARTE, Mário Marcos Sampaio. O caso das minas que não se esgotam: a pertinácia do antigo núcleo central minerador na expansão da malha urbana da Minas Gerais oitocentista. Belo Horizonte: CEDEPLAR/UFMG, 1999. (Dissertação de mestrado); RODARTE, Mário Marcos Sampaio e GODOY, Marcelo Magalhães. “Pródromos da formação do mercado interno brasileiro: um estudo de caso das relações entre capital mercantil, rede de cidades e desenvolvimento regional, Minas Gerais na década de 1830”. Anais do XII Seminário sobre a Economia Mineira. Belo Horizonte: CEDEPLAR/UFMG, 2006. RODARTE, Mário Marcos Sampaio; PAULA, João Antônio de; SIMÕES, Rodrigo Ferreira. “Rede de cidades em Minas Gerais no século XIX”. História Econômica & História de Empresas. São Paulo: Hucitec/ABPHE, v. 7, n. 1, 2004. Para uma crítica ao argumento de rede de cidades: MARTINS, Marcos Lobato. “Regionalidade e história: regionalização nos estudos historiográficos mineiros”. XVI Encontro Regional de História – ANPUH-MG, 2008 7 LENHARO, Alcir Lenharo. As tropas da Moderação - O abastecimento da Corte na formação política do Brasil — 1808-1842. São Paulo: Edições Símbolo, 1979. 8 Mas como lembra Amilcar Vianna Martins Filho, Daniel de Carvalho em 1916 já teria feito a primeira crítica ao modelo de ciclos de exportação para Minas Gerais com o trabalho Notícia histórica sobre o algodão em Minas. Cf. MARTINS FILHO, Amilcar. O segredo de Minas: a origem do estilo mineiro de fazer política (1889-1930). Belo Horizonte: Crisálida: 2004, p.14. 9 LENHARO, op. cit., p.137. 7 das variações geográficas e das próprias relações mercantis e culturais dos fazendeiros e comerciantes locais. Cidades tradicionais no abastecimento, cidades com aptidões turísticas, cidades que rapidamente se convertem em economias exportadoras. Enquanto o café alcançava com maior rapidez as áreas da Serra da Mantiqueira, o “planalto” sul-mineiro ainda preservava sua produção bastante diversificada, com marcado apego ao gado, milho, fumo entre outros produtos. Ao mesmo tempo em que as áreas da Mantiqueira e seus contrafortes (como por exemplo, Itajubá, Pouso Alegre, Poços de Caldas, Guaxupé e até Passos), pertencentes à faixa de fronteira com São Paulo, vinculam-se a dinâmica econômica paulistana e ao fluxo comercial com o Porto de Santos, as áreas do planalto sulmineiro (como por exemplo, Alfenas, Varginha, Três Corações e Campanha) conservaram até meados do século XX relações mais estreitas com o Rio de Janeiro. Isso levante a quantidade de variáveis a serem consideradas em qualquer tentativa de regionalização do chamado “Sul de Minas”. É nessa perspectiva que uma questão se faz necessária: mas afinal, quais são os caminhos percorridos pelo Sul de Minas ao longo do século XIX? Considerando a regionalização como um processo dinâmico,10 nosso objetivo neste livro é perceber as transformações na região no período de transição do século XIX para o século XX. Transição essa, fundamental para entender os caminhos da formação do capitalismo em Minas Gerais, que não perpassa um único caminho, mas ergue percursos que precisam ser desvendados conforme as articulações entre sociedade, economia e política. O Sul de Minas na transição para o século XX como referido nas pesquisas de John Wirth é um território bastante distinto daquele na regionalização proposta por Paiva & Godoy para o início do século XIX. Assim, como reconstruir esse novo território que emerge nas décadas finais dos oitocentos? Para tanto, não podemos deixar de compreender que a regionalização política proposta por Wirth, com demarcações permanentes e objetivas, esconde uma regionalização que é dinâmica na sua construção histórica e, por outro lado, que deve ser flexível quanto às suas demarcações.11 10 CUNHA, Alexandre Mendes & et alli. “História Econômica e Regionalização: Contribuição a um Desafio Teórico-Metodológico”. Estudos Econômicos. São Paulo, V.38, N. 3, JulhoSetembro, 2008. 11 Carlos Eduardo Rovaron lembra, por exemplo, que a definição da fronteira entre São Paulo e Minas Gerais na região da caldeira vulcânica da região de Poços de Caldas somente foi plenamente definida em acordo entre os governadores dos dois estados, Armando Sales de Oliveira e Benedito Valadares Ribeiro, em 1937. ROVARON, Carlos Eduardo. “A utilização de 8 Seguindo essa ideia de regionalização, incorporando maior flexibilidade nas demarcações e de processo dinâmica, Marcos Lobato Martins considera: “que as unidades regionais não se distinguem tanto por suas características naturais, mas por serem espaços socialmente construídos a partir da materialização das relações sociais”.12 Por isso mesmo, o Sul de Minas não esgota sua existência econômica, social e cultural nas fronteiras paulistas ou cariocas, mas pelo contrário, é transformado e promove transformações em seus longos territórios de intersecção. A economia cafeeira do Sul de Minas não se difere completamente da cafeicultura da região da Mogiana. Assim, é possível imaginar maiores similaridades entre cidades próximas a fronteira Minas – São Paulo, do que uma completa homogeneidade entre o Sul de Minas ou toda a região da Mogiana. Ao mesmo tempo, não podemos deixar de lado a perspectiva da dinâmica do território sul-mineiro que, ainda na primeira metade do século XIX, se integrava plenamente ao abastecimento da capital do Império, e que na transição para o século XX já estende maiores relações com o estado de São Paulo, não apenas produzindo gêneros de abastecimento, mas inclusive, ampliando substancialmente a produção primário-exportadora de café. Assim, no último quartel dos oitocentos o Sul de Minas vinha constituindo tanto seu sistema de transportes por meio das estradas de ferro, como vendo a abertura de seus primeiros bancos. Entretanto, ao que parece, a região ainda mantinha sua economia subordinada às suas fronteiras: a comercialização do café se voltava para os comissários do Rio de Janeiro ou para as Casas Comerciais paulistas. Os bancos locais, aparentemente, supriam pequenas atividades, enquanto o grande capital ainda seria suprido ou por fontes governamentais ou por bancos de São Paulo e Rio de Janeiro. Nesse sentido, o Sul de Minas tornou-se mais um caso específico dentro o “mosaico” mineiro: uma região historicamente dinâmica, tanto por sua função de abastecimento da corte imperial, como em transformação por causa da expansão das lavouras de café na transição para o século XX, mas que não conseguiu se aproximar do ritmo e pujança econômica dos estados vizinhos do Rio de Janeiro e São Paulo. Para uma regionalização mais flexível, é possível considerar que o Sul de Minas seria formado por um complexo de cidades medianas, com populações entre memorialistas como fonte de pesquisa alternativa para acompanhar processos de ocupação”. XVIII Encontro Regional de História – ANPUH-SP, Assis, 2006, p.1. 12 MARTINS, “Regionalidade e história”..., p.5. 9 vinte e quarenta mil habitantes, atendidas pela rede ferroviária Sul Mineira, resultado da fusão das estradas Minas e Rio, Sapucaí e Muzambinho. Todavia, mesmo uma regionalização flexível não garante a homogeneidade ao território: o Sul de Minas não deixa de agregar a economia cafeeira em expansão, as atividades de abastecimento tradicionais aos comerciantes locais, um complexo turístico com o circuito das águas, enfim, pequenas dinâmicas particulares dentro de uma estrutura econômica regional. No início do século XX, a população da região cresce. O mesmo fenômeno se verifica para o transporte ferroviário, a indústria e o sistema bancário da região. Em Minas Gerais, as ferrovias se desenvolveram primeiro nas regiões onde o comércio era mais intenso. Depois da Mata e do Oeste, as ferrovias chegam ao sul da província, na década de 1880, por meio de quatro empresas, a saber, a Estrada de Ferro Rio Verde, posteriormente chamada de “Minas e Rio”; a Viação Férrea Sapucaí; a Estrada de Ferro Muzambinho e, finalmente, já nos primeiros anos do século XX, a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, originária de São Paulo, atenderia o triângulo e o Sul de Minas. Apesar de um sistema ferroviário em expansão para quase toda a região neste período de transição para o século XX, a inexistência de centro irradiador para o transporte promoveria, na verdade, a integração ferroviária do Sul de Minas não com suas próprias cidades, mas sim com os mercados exteriores. Ainda que provisoriamente, é possível pensar que as ferrovias no Sul de Minas Gerais começaram a se instalar para atender uma região dinâmica e promissora voltada para o comércio de abastecimento do Rio de Janeiro e de São Paulo, e para o plantio e exportação de café. E, mais importante, o que se observa é a constituição do sistema ferroviário com interligação do Sul de Minas com os portos do Rio de Janeiro e Santos, ou com os mercados dos Estados vizinhos, uma modernização do transporte que poderia surgir como condição para fortalecer o mercado interno,13 mas que ao que parece, surge para estreitar as relações, inclusive de dependência, com outras regiões. Nesse ensejo é que se verifica o processo de formação das primeiras indústrias do Sul de Minas: uma dinâmica ainda frágil em comparação com aquela experimentada nas regiões da Zona da Mata e Metalúrgica.14 Tais indústrias, geralmente ligadas à economia de abastecimento ou à economia agrário-exportadora 13 GODOY, Marcelo Magalhães & BARBOSA, Lidiany Silva. “Uma outra modernização. Transportes em uma Província não exportadora – Minas Gerais, 1850-1870”. Economia e Sociedade. Campinas, vol. 17, n.2 (33), 2008. 14 Cf. classificação de Diniz, Estado e capital estrangeiro.... 10 cafeeira,15 apresentavam uma média muito baixa de apenas quatro trabalhadores por empresa quando comparada aquelas empresas de Juiz de Fora, por exemplo. Essa característica está disseminada em praticamente todas as cidades sul-mineiras, com indústrias mais próximas de pequenos artesanatos e empreendimentos familiares, fundamentalmente no ramo de alimentos, e para o consumo local.16 Era, portanto, a típica e rudimentar manufatura, com poucos trabalhadores, sem sofisticações tecnológicas e que, assim, crescia numa dinâmica ambígua, ora reproduzindo o modelo cafeeiro da Zona da Mata, ora recuando às suas heranças de abastecimento interno. É somente na década de 1920 que a região Sul amplia sua participação para a produção industrial, praticamente dividindo a segunda posição com a região metalúrgica. Um argumento plausível para essa aproximação é, de um lado, a continuidade de uma estrutura industrial arcaica na região metalúrgica, somada, por outro lado, com a maior representatividade da região Sul na produção da economia mineira de maneira geral. O modo como se deu sua industrialização revela o Sul de Minas como síntese de uma economia periférica na periferia. Era uma região que, participando de uma contínua integração regional, incorporando os elementos modernos difundidos do centro do capitalismo, não conseguia criar a “grande indústria”. A falta de um mercado consumidor amplo e a reduzida capacidade de acumulação pode ser indicativa para essa estrutura industrial arcaica. Sua produção industrial vinha ampliando a participação no valor total da produção de Minas Gerais, quase dobrando entre 1907 e 1920, mas, ainda assim, a indústria mantinha uma estrutura bastante rudimentar. Processo semelhante ocorre com os bancos da região. Nas décadas de 1910 e 1920, há uma expansão significativa do número de bancos criados no Sul de Minas, cujo setor financeiro passa a se desenvolver com maior vigor num espaço mais ligado à ascendente economia paulista, à ferrovia, à indústria e ao café.17 No entanto, apesar da mudança da direção da expansão bancária de Minas Gerais rumo ao Sul, o grosso das operações bancárias estava concentrado em poucos grandes bancos, nenhum deles localizado nessa região. O banco Hipotecário e Agrícola e o banco Comércio e 15 PAULA, Ricardo Zimbrão A. de. “Indústria em Minas Gerais: origem e desenvolvimento”. X Seminário sobre a Economia Mineira. Diamantina, 2002. 16 Vale a noção de artesanato, manufatura e grande indústria do historiador Paul Mantoux (s/d). A grande indústria exige a introdução de máquinas e equipamentos, da maior divisão social do trabalho e dos preceitos fundamentais que definem uma sociedade e produção capitalista. A produção artesanal, quase familiar, não permite a ruptura com o modelo arcaico de produção, permitindo a formação efetiva de uma lógica capitalista de produção e sociabilidade. 17 COSTA, Fernando Nogueira. Os bancos de Minas Gerais (1889-1964). Campinas: Unicamp – Dissertação de Mestrado, 1978. 11 Indústria, ambos de Belo Horizonte, e o banco de Crédito Real, de Juiz de Fora, por exemplo, eram responsáveis em conjunto por cerca de 90% dos depósitos em conta corrente de Minas entre 1920 e 1925.18 O Sul de Minas expande seu sistema bancário, mas como as indústrias e as cidades da região, são bancos pequenos, locais, fragmentados em uma economia que se transforma, mas ainda muito lentamente. Em que pese o grau de concentração na Zona da Mata a expansão bancária do Sul de Minas no período não deixa de refletir que algo se passava com a economia daquela região. O Sul de Minas estava definitivamente em transição na passagem para o século XX. Uma transição para uma sociedade capitalista, em que as relações sociais e econômicas seriam cada vez mais impostas pelas regras do mercado, mercado este capitalista. Mas a dinâmica para que as transformações dessa região levassem a consolidação da estrutura capitalista, isto é, a efetivação do trabalho assalariado, de uma produção capitaneada pela indústria e de toda uma infra-estrutura necessária, avançaria por caminhos próprios no Sul de Minas. Em parte por esse flerte da economia tanto com as atividades de abastecimento como com o setor exportador; em parte pela fragmentação da economia em diversos municípios médios, com variadas e pequenas indústrias, e numerosos bancos com atuação local; e, ainda, possivelmente com uma capacidade de acumulação reduzida em comparação com outras regiões de Minas Gerais, ou mesmo do país. Todas essas condições dão um caráter especial para esse “Sul de Minas em transição”, uma dinâmica própria e nova cuja problemática é lançada agora com este livro. Sem a pretensão de responder as causas da peculiaridade dessa transição, os textos que seguem certamente colocaram o Sul de Minas neste debate. 2. Urbanização no sul de Minas: elementos históricos** Nesse quadro de disparidades, a urbanização do sul de Minas se dá no contexto contraditório em que a economia brasileira ainda é majoritariamente agrícola e mercantil e, ao mesmo tempo, vê a construção do mundo urbano moderno de início do século XX atrelado ao avanço do capitalismo nos países centrais. Esse contexto contraditório é característico da transição, o rural atrasado como base econômica, ao mesmo tempo estimula e limita o avanço do urbano moderno, criador de uma “vida de 18 COSTA, Os bancos de Minas Gerais.... Reprodução parcial a partir de texto apresentado no Encontro da ANPUH-MG de 2012, realizado em Mariana/MG. ** 12 cidade pequena”19 e de uma infraestrutura básica para atender às necessidades do capital. As condições para sua reprodução chegam, via provisão de infraestrutura, mas de modo limitado, respeitando os contornos impostos pela interação entre o rural e o urbano. Aquelas cidades ou partes de cidades que não outorgam ao capital as condições gerais de sua valorização simplesmente permanecem inexploradas20. Já é possível notar nas cidades do Sul de Minas em transição a produção de valores de uso complexos e extrair delas uma “quantidade de consciência” diferente da que a vida rural extrai. Na virada do século XIX para o XX, muitas dessas cidades assistem à construção de praças, teatros e cinemas (Minas Gerais, 1909). Acompanham, em certa medida, o processo de modernização que vinha ocorrendo nas maiores cidades do país, cujo caso mais exemplar é o do Rio de Janeiro. As cidades da região, apesar de não apresentarem um padrão demográfico muito diferente de outras regiões neste período de transição, não geravam grandes efeitos úteis de aglomeração,21 nem chegavam a constituir o conjunto frenético de impressões da metrópole, o turbilhão de fenômenos responsável por sua diversidade. Suas maiores cidades, no Sul de Minas, como algo recorrente entre outras experiências, contavam entre 30 e 40 mil habitantes nessa época22 (Minas Gerais, 1909). Mantinham ainda o caráter simples da vida mental de pequena cidade, que descansa mais sobre relacionamentos profundamente sentidos e emocionais. Estes últimos se enraízam nas camadas mais inconscientes do psiquismo e crescem sem grande dificuldade ao 23 ritmo constante da aquisição ininterrupta de hábitos . Apesar dessa mentalidade hipotética de vida de pequena cidade, as condições para a expansão da produção capitalista vão se formando no sul de Minas: as cidades entre final do XIX e início do XX começam a se dotar da infraestrutura que garantirá 19 SIMMEL, Georg. “A metrópole e a vida mental”. In: Velho, Octávio (org). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. p.12. 20 TOPALOV, Christian. La urbanizacion capitalista. Cidade do México: Editorial Edicol, 1978. 21 Benefícios decorrentes da concentração espacial. TOPALOV, Christian. La urbanizacion... Op.Cit. 22 Se considerar a comparação com São Paulo, conforme o censo de 1912, o perfil populacional das cidades do estado, de maneira geral, era muito próximo ao paulista. Em Minas Gerais encontramos apenas uma cidade com mais de cem mil habitantes (em São Paulo eram duas); quatorze cidades entre cinqüenta e cem mil habitantes (em São Paulo eram sete); e, setenta e sete cidades com população entre vinte e cinquenta mil habitantes (em São Paulo eram 52). IBGE. Annuario estatistico do Brazil 1908-1912. Rio de Janeiro: Directoria Geral de Estatistica, v. 1-3, 1916-1927; Minas Gerais. Annuario Historico-Chorographico de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1909. 23 SIMMEL, Georg. “A metrópole... Op.Cit. p.12. 13 seu predomínio sobre o mundo rural.24 Concretamente, não é possível dissociar o crescimento da população na região das transformações decorrentes da transição para o século XX. Com uma população de aproximadamente de 260 mil habitantes em 1872, o Sul de Minas em 1907 já apresentava quase 730 mil habitantes e, finalmente, mais de 1 milhão em 1920. Região que sustentava cerca de vinte por cento da população do Estado de Minas Gerais, teve “dois grandes ciclos econômicos” que incentivaram o crescimento urbano: uma primeira fase por conta dos circuitos de abastecimento da Corte, e uma segunda fase, por conta da expansão econômica cafeeira. Assim, com a ampliação das atividades econômicas e da população, nasciam os novos municípios. Alfenas, Boa Esperança, Três Corações e Varginha, por exemplo, faziam parte desta segunda fase de emancipação de municípios, entre as décadas de 1860 e 1880, como resultado da introdução do café na região (Anexo 1). Com a disseminação da produção cafeeira entre os municípios do Sul de Minas, novo movimento de formação de municípios, ainda mais vigoroso, teria início nas duas primeiras décadas do século XX. O ano de 1911, por exemplo, seria o ano de formação de 12 novos municípios no Sul de Minas, resultado da emancipação de antigos distritos que cresciam e reivindicavam sua autonomia política. A região administrativa passava, então, de 36 para 48 municípios. Por meio desta tendência de formação de novos municípios, o Sul de Minas se destacava como uma região dinâmica na expansão das atividades urbanas em comparação ao restante do Estado de Minas Gerais. Em 1872, a concentração de municípios na região era de 22%, alcançando 27% na primeira década do novecentos. Mil habitantes Gráfico 1. Número de cidades e população em milhares Sul de Minas (1872, 1907, 1912, 1920) 80 70 60 50 40 30 20 10 0 1872 1907 1912 1920 0 10 20 30 40 50 Número de cidades Fonte: IBGE. Annuario estatistico do Brazil 1908-1912. Rio de Janeiro: Directoria Geral de Estatistica, v. 1-3, 1916-1927. 24 Embora haja predominância do urbano, a formação da cidade é resultado de um processo histórico e não de uma geração espontânea, o que mistura o rural com o urbano, pois há permanência dos comportamentos anteriores que, se não eram urbanos, eram rurais. Assumindo aqui que o rural vem primeiro e depois o urbano. Mas é preciso atentar para o processo contrário, o rural que sai do urbano. Cf. JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2009. 14 Como indicado acima, os dados coletados nos censos demográficos, entre 1872 e 1920, indicam esse aumento significativo do número de cidades no Sul de Minas, isto é, novas cidades se formam ou se desmembram de outras já existentes ao longo do período. Mas, ainda mais importante é considerar que, apesar da população aumentar em várias dessas cidades, o que indica um processo de expansão urbana em curso, foi mantido na região um padrão de formação de cidades medianas. Como é possível observar no gráfico abaixo, as cidades para todos os censos permanecem sem grande disparidade entre suas populações. Mas mais importante, ao que parece, mesmo com uma ligeira expansão populacional, estes municípios medianos não constituíam vidas efetivamente urbanas. Seguindo a classificação tomada por Yves Leloup25, o Sul de Minas em 1920 não teria nenhuma cidade (como núcleo urbano) com mais de 20 mil habitantes. Para o autor, o núcleo urbano do município era a população total deste menos os cidadãos referentes aos distritos, e ainda, considerar apenas como centros urbanos, as sedes de cidades que apresentariam mais do que cinco mil habitantes. Em suma, apesar de 48 municípios, segundo o critério de Leloup, o Sul de Minas teria em 1920, apenas 5 cidades com população entre sete e doze mil habitantes, outras 4 entre cinco e sete mil habitantes e, finalmente, mais três entre quatro e cinco mil habitantes. Diferentemente da Zona da Mata com Juiz de Fora, da área central a partir da década de 1920 com Belo Horizonte e de Teófilo Otoni para o Vale do Mucuri, a região do Sul de Minas seria marcada por uma profunda fragmentação de sua população em cidades pequenas e medianas, sem um centro irradiador das atividades econômicas. Ainda que sem a criação de uma grande cidade irradiadora de dinamismo, o crescimento populacional e a concentração de municípios na região foram acompanhados por mudanças qualitativas na infraestrutura urbana. Como vimos, a constituição de 1891, ao outorgar maior autonomia financeira aos municípios, fomentou a tendência de aumento nos investimentos em melhorias urbanas26. Em Minas Gerais, particularmente, a lei n.546, de 27 de setembro de 1910, garantia empréstimos do Estado para melhoramentos urbanos27. Esse movimento regional em compasso com o movimento nacional atesta a existência de um projeto político mineiro que passava pela proposta de valorização do mundo urbano encabeçado pelo Estado, e que era seguido à risca pelas cidades do Sul de Minas. 25 LELOUP, Yves. Lês Villes Du Minas Gerais. Paris: Université de Paris, 1970. COSTA, Emília Viotti da. “Urbanização no Brasil no século XIX”. Da monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Editora Unesp, 1999. 27 MINAS GERAIS. Relatório de Presidente de Estado. Julio Bueno Brandão. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1914. 26 15 Emília Viotti da Costa diz que, nesse contexto de preocupação governamental com o urbano, foi estimulada a construção de hotéis, jardins, teatros, cafés e destaca as melhorias nos sistemas de calçamento, iluminação, transportes e abastecimento de água. Essas seriam, portanto, características que indicariam certo processo de urbanização. É o que também diz Wirth para o caso de: A predominância da cidade, especialmente da grande cidade, poderá ser encarada como uma conseqüência da concentração, em cidades, de instalações, e atividades industriais e comerciais, financeiras e administrativas, de linhas de transporte e comunicação e de equipamento cultural e recreativo como a imprensa, estações de rádio, teatros, bibliotecas, museus, salas de concerto, óperas, hospitais, instituições educacionais superiores, centros de pesquisa e publicação, organizações profissionais e instituições religiosas e 28 beneficentes . Se tomarmos as descrições do anuário histórico-corográfico de Minas Gerais de 1909 para as cidades do sul de estado podemos vislumbrar justamente esse processo. Vejamos o caso de Campanha, município com mais ou menos 20 mil habitantes em 1900. O anuário destaca o teatro, a biblioteca, os hotéis, o abastecimento de água, o serviço de correios e a ampla cadeia pública: A cidade possui um hospital de caridade (...); uma praça de mercado, boa iluminação pública, o Colégio Sion, o Noviciado dos Padres Jesuítas, teatro, uma excelente biblioteca pública, 5.000 volumes (...), estação férrea da Cia Muzambinho, cemitério público, vários templos e prédios excelentes (...). Há na cidade regular suprimento de água para as necessidades da população, sendo proveniente de fontes públicas e particulares, cisternas, etc. A municipalidade possui um encanamento, obra de valor, e que hoje não se faria com poucas centenas de contos, e que é destinado a trazer água aos pontos mais elevados da Campanha. (...) Foi criada a diocese de Campanha por decreto pontifício de 8 de setembro de 1907. (...) Publica-se na cidade a mais velha das folhas do Estado, o ‘Monitor Sul Mineiro’, com 35 anos de existência. (...) A sub-administração dos Correios da Campanha compreende todas as agências postais do sul e sudoeste do Estado de Minas. (...) O teatro São Cândido existente na cidade foi reconstruído em 1907. (,,,) A cadeia de Campanha é uma das 29 melhores de Minas e tem capacidade para guardar 100 presos . Itajubá, uma das cidades mais prósperas do Sul de Minas à época, com uma população de mais de 40 mil habitantes, já contava com a energia elétrica, que impulsionava o dinamismo do município. Diz o mesmo anuário sobre a cidade: 28 WIRTH, John. O fiel..Op.Cit.. p.93. MINAS GERAIS. Annuario Historico-Chorographico de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1909. pp.295-6; p.303. 29 16 A cidade de Itajubá (...) é iluminada à luz elétrica, instalada a 12 de janeiro de 1907, com grandes festejos populares, e por iniciativa da Câmara Municipal presidida pelo farmacêutico sr. José Manso Pereira Cabral. (...) Possui a cidade um Instituto de Educação secundária equiparado ao Ginásio Nacional. Itajubá tem três igrejas (...). Tem o lugar um cemitério que era pequeno, mas que vem sendo aumentado (...) Contava a cidade cerca de 450 casas, das quais 59, seguramente, feitas nos últimos 10 anos; tem um bom teatro com o nome de Santa Cecília (...), uma cadeia com acomodações para 20 presos, tendo no pavimento superior sala para as sessões do júri e da municipalidade; uma praça de mercado (...), pretendendo-se substituí-la por um edifício melhor (...), tinha banda de música boa (...) As ruas são bem calçadas (...) Nos subúrbios da cidade existem fontes de água boa, havendo em diversas casas cisternas. (...) Em 1884, fora fundada na cidade, a Biblioteca Machado de Assis (...) Havia então na cidade uma “Sociedade Dramática”, a loja maçônica “Deus e Humanidade”, 2 tipografias, colégios, fábricas e outros 30 melhoramentos locais” . Pouso Alegre também contava com energia elétrica desde 1907 e tinha, segundo o anuário, o melhor teatro do sul de Minas, com capacidade para quase 1000 pessoas. Era sede da diocese, com uma catedral para cerca de 3000 pessoas, e, em 1904, havia sido inaugurado o Ginásio Nacional, com cursos superiores de medicina, direito, engenharia, seminário maior, farmácia e odontologia31. Interessante notar a referência às mudanças ocorridas na cidade após a proclamação da República: Depois da República, foi grande a transformação material e moral operada em Pouso Alegre: a comarca subiu de entrância, criou-se a diocese católica, fundaram-se seminário, catedral, colégios e fábricas; apareceram jornais novos, foi instalada a iluminação elétrica, e 32 estendeu-se por maior área a cidade . De maneira geral, é recorrente a presença de teatros, praças, igrejas, hospitais, colégios, ferrovias e bondes, hotéis, calçamento, iluminação pública e outras características citadinas nas descrições das cidades sul-mineiras apresentadas no documento. Apesar do caráter impressionista de muitas dessas descrições, elas são ilustrativas do processo de urbanização que estava em curso na região combinado com o avanço da indústria, das ferrovias e dos bancos33. Mas afinal, qual é o impacto da formação de suposto novo mundo urbano na construção das relações capitalistas no Sul de Minas? As mudanças quantitativas e qualitativas apontadas acima indicam o fortalecimento do mundo urbano, das 30 Idem. Idem. pp.518-23. Idem. Idem. pp.844-58. 32 Idem. Idem. pp.845-6. 33 SAES, Alexandre Macchione, COSENTINO, Daniel do Val, SILVA, Marcel Pereira da, GAMBI, Thiago Fontelas Rosado Gambi. Sul de Minas em transição... Op.Cit. 31 17 atividades comerciais citadinas, e da necessidade de construção de aparatos políticos que sustentassem os municípios. Portanto, a urbanização de transição para o século XX possui um significado ainda mais particular do que aquele presente nos sinais de modernidade existentes nas origens de Minas Gerais, de sua “vocação urbana”. Apesar de a Província durante os séculos XVIII e XIX ser “a região mais urbanizada e populosa do Brasil”, com níveis de urbanização e dinâmica demográfica que poderia ser ressaltada em comparação com o padrão urbano do conjunto do Novo Mundo e da Europa34, isto não garantia a superação das amarras escravistas e coloniais na construção de um mercado interno pleno. Essas condições emergiam na construção do mundo urbano moderno de início do século XX, permeado pela crescente monetarização das atividades econômicas, pela incorporação das técnicas e padrões de consumo modernos, resultantes da Segunda Revolução Industrial. O crescimento do número de cidades e de suas populações, a formação da malha ferroviária e a formação de bancos e indústrias indicam que a região seguia os rumos da integração da economia brasileira com o mercado externo, internalizando as relações capitalistas para seu território. Mas o que permite considerar o Sul de Minas com essa dinâmica própria, e por isso, pensar em sua regionalização e urbanização, é uma certa homogeneidade no perfil das cidades e a intensidade das transformações econômicas do período. A região, não há dúvidas, integrou-se no mercado capitalista nacional, mas diferentemente da Zona da Mata e Central, não conseguiu criar uma plena hierarquização de suas cidades. Permaneceu com um perfil citadino muito próximo: pequenas e medianas cidades, mercados consumidores restritos e, conseqüentemente, atividades econômicas de caráter local. Por isso um grande número de indústrias, mas pequenas. Por isso um grande número de bancos, mas também pequenos. Assim, as relações econômicas capitalistas avançavam, mas vagarosamente (e com uma intensidade limitada). 2ª PARTE – A DINÂMICA BANCÁRIA DE MINAS GERAIS E OS BANCOS DO SUL DE MINAS 34 PAULA, João Antônio de. “Urbanização e modernização em Minas Gerais”. Relatório de pesquisa Urbanização e Formação do Mercado Interno em Minas Gerais 1831-1930. Belo Horizonte: FAPEMIG/UFMG, 2007. p.39; p.42. 18 3. Bancos e desenvolvimento econômico*** Para uma economia industrial, assalariada e capitalista, os estudos que tentam descobrir as relações entre bancos e desenvolvimento econômico indicam que, do ponto de vista macroeconômico, o sentido mais geral dessas instituições é promover o crédito e o desenvolvimento da economia. A literatura que trata da relação entre bancos e desenvolvimento é vasta, mas, freqüentemente, não consegue fugir da circularidade dessa relação, pois nela se firmam duas visões predominantes que estabelecem relações de causa e efeito simetricamente opostas. Enquanto uma visão aponta a expansão dos bancos como efeito, a outra aponta tal expansão como causa do desenvolvimento econômico. Hugh Patrick chamou essas duas visões 35 predominantes de demand following e supply leading . Entre elas, estão as visões que tentam negar a relação entre bancos e desenvolvimento econômico36 e as que tentam mostrar que essa relação seria total, quer dizer, por mais que se quisesse, não seria possível estabelecer o sentido da relação de causa e efeito, uma vez que o processo que leva ao desenvolvimento econômico seria duplamente determinado.37 Embora muitos economistas privilegiem o demand following na explicação do desenvolvimento econômico,38 os estudos de história econômica têm sugerido o supply leading como fator importante para promovê-lo. Joseph Schumpeter foi um dos primeiros estudiosos do tema a relacionar explicitamente sistema bancário e desenvolvimento econômico.39 Bancos, crédito, empresário e inovação são pilares de sua teoria do desenvolvimento econômico. Não cabe aqui entrar em detalhes da teoria schumpeteriana, vale dizer apenas que o crédito fornecido pelos bancos é visto como condição para que o empresário, agente da inovação, possa concretizá-la. Assim, a disponibilidade de crédito estaria na base do desenvolvimento econômico. Inspirado em Schumpeter e em pesquisas empíricas, Rondo Cameron comparou processos de industrialização em diferentes países e notou que o traço comum do início da industrialização em todos eles era o relacionamento entre bancos *** Reprodução parcial do capítulo publicado em SAES, Alexandre e LOBATO, Marcos. Sul de Minas em transição: a formação do capitalismo na passagem para o século 20. Bauru: Edusc, 2012. 35 PATRICK, Hugh. Financial Development and Economic Growth in Underdeveloped Countries. Economic Development and Cultural Change, v.14, n.2, jan.1966. pp.174-7. 36 MODIGLIANI, Franco e MILLER, Merton H. The Cost of Capital, Corporation Finance and the Theory of Investment. American Economic Review, 48, 1958. pp. 261-97. 37 GOLDSMITH, Raymond. Financial Structure and Development. New Haven: Yale University Press, 1969. 38 ROBINSON, Joan. The Model of An Expanding Economy. The Economic Journal, v.62, n.245, mar.1952. pp.42-53. 39 SCHUMPETER, Joseph Alois. Teoria do desenvolvimento econômico :uma investigação sobre lucros, capital, crédito, juro e o ciclo econômico. São Paulo: Abril Cultural, 1982. Cap.1. 19 e indústrias.40 O crédito ligava o setor financeiro ao produtivo, sendo condição importante para o desenvolvimento tecnológico do processo produtivo e, conseqüentemente, para o incremento da produção. Na mesma linha, o estudo clássico de Alexander Gerschenkron destacou o papel desempenhado pelos bancos, particularmente pelos bancos de investimento, que privilegiavam o risco e o investimento em longo prazo, possibilitando o desenvolvimento industrial nos países atrasados ao suprir sua demanda por crédito.41 O estudo de Patrick já referido, que relaciona desenvolvimento financeiro e econômico, corrobora parcialmente a conclusão de Gerschenkron. Segundo ele, o supply leading predominaria nos estágios iniciais do processo de industrialização. Contudo, uma vez que a economia atingisse um estágio de maturidade, passaria a predominar o demand following. No caso da França, Jean Bouvier chamou atenção para o papel dos bancos comerciais e dos banqueiros privados no início da industrialização do país e apontou que, embora privilegiassem o comércio, os bancos organizaram o sistema de crédito francês construindo o caminho rumo ao desenvolvimento econômico.42 Em suma, seja em países atrasados ou avançados, seja como demand following ou supply leading, os estudos de história econômica apontam forte ligação entre bancos, processos de industrialização e desenvolvimento econômico. A relação entre bancos e desenvolvimento econômico também aparece na historiografia brasileira. Flávio Saes, ao observar a realidade brasileira e compará-la com a de outros países apoiando-se nos estudos de Cameron e Gerschenkron, propôs a hipótese geral de que, a priori, não se pode atribuir um papel determinado ao crédito, e por extensão aos bancos, no processo de desenvolvimento econômico.43 Esse papel dependeria da especificidade de cada processo. É nesse sentido que Bárbara Levy e Ana Maria Ribeiro de Andrade afirmaram a especificidade da relação entre Estado, moeda e crédito nas colônias da América do Sul. Como colônias de exploração, a gestão monetária e creditícia se realizava no âmbito do grande comércio internacional, subordinado no século XIX à hegemonia inglesa. Dessa maneira, as instituições 40 CAMERON, Rondo. Banking in the Early Stages of Industrialization. A Study in Comparative Economic History. Nova York: Oxford University Press, 1967. pp.7-10. 41 GERSCHENKRON, Alexander. Economic backwardness in historical perspective: book of essays. Cambridge: Harvard University Press, 1962. Introdução. 42 BOUVIER, Jean. Relaciones entre sistemas bancarios y empresas industriales en el crecimiento europeu del siglo XIX. In: VILLAR, Pierre et al. La Industrialización Europea. Estadios y tipos. Barcelona, Ed. Crítica, 1981. p.146. 43 SAES, Flávio Azevedo Marques de. Crédito e bancos no desenvolvimento da economia paulista 1850-1930. São Paulo: IPE/USP, 1986. 20 financeiras coloniais, e mesmo pós-coloniais, estariam mais ligadas ao 44 desenvolvimento econômico externo do que interno. Contudo, a historiografia regional aponta o dinamismo interno e a diversificação da economia mineira no século XIX.45 Como veremos, a criação de bancos em Minas Gerais ganha impulso no final da década de 1880 e início da década de 1890. Já os bancos do Sul de Minas especificamente, se desenvolveram especialmente a partir da década de 1910, quando a economia brasileira, ainda que voltada para fora, procurava timidamente criar instituições que pudessem sustentar sua dinâmica econômica interna, bancos inclusive. Como apontou Saes, o papel do crédito, e, por extensão, dos bancos, no processo de desenvolvimento econômico depende da especificidade de cada processo. Nesse sentido, torna-se relevante aprofundar o estudo dos bancos do Sul de Minas para entender a especificidade de seu processo de desenvolvimento econômico. 4. Bancos em Minas Gerais**** “Ser mineiro é vender queijos e possuir bancos” diz um dos trechos do texto famoso de Fernando Sabino. Porém, de certa maneira, a expansão dos bancos mineiros se fez tardiamente, somente depois da abolição da escravidão, em 1889, e bem depois da consolidação da produção de café na Zona da Mata, em torno de 1850. As primeiras notícias de bancos em Minas remontam à caixa filial do Banco do Brasil estabelecida em Vila Rica ainda em 1819. Depois dela, foi criada uma caixa econômica em Ouro Preto, em 1838, e uma nova caixa filial do Banco do Brasil, em 1856. Essa caixa foi a única criada por iniciativa do próprio banco e com capital próprio. Todas as suas outras caixas filiais eram originárias de instituições particulares já existentes nas províncias. As operações dessas caixas refletiam, em alguma medida, a dinâmica do comércio em suas respectivas províncias. As operações da caixa de Ouro Preto eram as menores dentre todas as caixas do banco, menores 44 LEVY, Maria Bárbara e ANDRADE, Ana Maria Ribeiro de. A gestão monetária na formação do Estado Nacional. In: Revista Brasileira de Mercado de Capitais, v.6, n.17, mai/ago., 1980. pp.138-153. 45 Cf., por exemplo, IGLÉSIAS, Francisco. Política econômica do governo provincial mineiro, 1835-1889. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1958; LENHARO, Alcir Lenharo. As tropas da Moderação - O abastecimento da Corte na formação política do Brasil — 1808-1842. São Paulo: Edições Símbolo, 1979; MARTINS, Roberto. A economia escravista de Minas Gerais no século XIX. Belo Horizonte: Cedeplar/UFMG, 1980. **** Reprodução parcial de capítulo publicado em SAES, Alexandre e LOBATO, Marcos. Sul de Minas em transição: a formação do capitalismo na passagem para o século 20. Bauru: Edusc, 2012. 21 inclusive do que as do Maranhão ou Pará, o que sugere uma economia provincial menos dinâmica ou mais dependente da Corte do que a de outras províncias.46 Talvez por isso mesmo, até 1887, seriam criados apenas mais quatro bancos na província, um na cidade de Paraopeba e os demais na própria região de Ouro Preto e em São João del Rey. Em 1887, foram criadas a Caixa Econômica de Ouro Preto e o Banco Territorial e Mercantil em Juiz de Fora. Antes da abolição, Minas contava com nove bancos concentrados na região de Ouro Preto e São João del Rey. A Zona da Mata, que será a região bancária mais importante de Minas na primeira década republicana, contava nessa altura com apenas um banco. Hasenbalg e Brigagão chegam a afirmar que a atividade bancária em Minas durante o império foi quase inexistente.47 O reduzido número de bancos e sua concentração espacial levaram Mascarenhas e Albino a localizar a origem do sistema bancário mineiro somente no contexto do surto industrial experimentado pela região da Mata nas duas últimas décadas do século XIX.48 A marca dessa origem seria o Banco de Crédito Real estabelecido em 1889 na cidade de Juiz de Fora, Zona da Mata. Com isso, os autores sugerem uma relação entre o surto industrial e a origem dos bancos mineiros. No entanto, ao considerar a atividade bancária pré-abolição, Bastos sustenta que o final do século XIX, mais do que de origem, foi um momento de expansão dos bancos mineiros e, junto com Pires, defende que o capital direcionado para tais bancos nesse momento não estava ligado ao surto industrial, mas à agricultura, sobretudo à produção de café.49 O surto industrial teria servido apenas para expandir e estruturar uma atividade que já era comum entre fazendeiros da região que ia de São João del Rey a Juiz de Fora. Lima, ao negar o vínculo exclusivo da indústria e, por extensão, dos bancos, com a economia cafeeira em Minas, indica outras perspectivas para a origem do 46 GAMBI, Thiago Fontelas Rosado. Centralização política e bancos regionais no II Império: o caso da caixa filial do Banco do Brasil em Minas Gerais. In: Anais do XVI Encontro Regional de História – ANPUH-MG. XVI Belo Horizonte: Encontro Regional de História, 2008. 47 HASENBALG, Carlos A. e BRIGAGÃO, Clóvis. O setor financeiro no Brasil: aspectos históricos. Rio de Janeiro: Dados, 1970. 48 ALBINO, Washington. Perspectivas Atuais da Economia Mineira. In: II Seminário de Estudos Mineiros. UFMG, Belo Horizonte, 1957; MASCARENHAS, Nelson Lage. Bernardo Mascarenhas. O surto industrial de Minas Gerais. Rio de Janeiro: Ed. Aurora, 1954. 49 BASTOS, Claúdio de Albuquerque. Op.Cit.; PIRES, Anderson. Capital agrário, investimentos e crise na cafeicultura de Juiz de Fora – 1870/1930. Dissertação de Mestrado – UFF – Niterói, 1993. 22 capital dos bancos mineiros, embora não as aponte.50 Outras perspectivas já trilhadas por Hasenbalg e Brigagão ao sugerirem que a principal fonte do capital bancário foi o capital comercial, sobretudo o de pequenos e médios comerciantes do interior do estado.51 Wirth segue essa linha ao indicar que a expansão dos bancos mineiros estava ligada à expansão do comércio numa economia em desenvolvimento.52 Já Maurício Borges, citado por Costa, deixa o comércio e enfatiza, a partir do exemplo de uma casa bancária do Sul de Minas, que o capital dos bancos mineiros surgiu do avanço das relações de crédito entre grandes e pequenos proprietários.53 As interpretações divergentes sobre a origem do capital bancário mineiro parecem encobrir que até o final do século XIX eram os bancos do Rio de Janeiro que ofereciam seus serviços aos clientes mineiros. Dessa maneira, segundo Iglésias, os bancos da capital abafavam o surgimento de bancos em Minas e canalizavam recursos mineiros para o Rio de Janeiro. Como sintetiza Wirth, o isolamento entre os centros comerciais de Minas, a ausência de uma saída para o mar e a ligação entre os produtores de café e os bancos do litoral contribuíam para reforçar tal movimento.54 Por isso, independentemente da origem de seu capital, a criação de bancos em Minas no final do XIX significou um rompimento do canal que levava os recursos mineiros para os bancos do Rio de Janeiro. Daí o interesse de governantes mineiros em estimular o estabelecimento de bancos em Minas com agências nos centros exportadores.55 A partir dessa época, a expansão dos bancos em Minas segue o ritmo do desenvolvimento econômico do estado, com picos no próprio final do século XIX, em meados da década de 1910 e, sobretudo, na década de 1920 (Gráfico 1). 50 LIMA, João Heraldo. Café e indústria em Minas Gerais (1870-1920). Dissertação Mestrado – Unicamp – Campinas, 1977. 51 HASENBALG, Carlos A. e BRIGAGÃO, Clóvis. O setor... Op.Cit. 52 WIRTH, John. O fiel da balança: Minas Gerais na federação brasileira (1889-1937). Rio Janeiro: Paz e Terra, 1982. 53 COSTA, Fernando Nogueira da. Bancos em Minas Gerais (1889-1964). Dissertação Mestrado – Unicamp - Campinas, 1978. 54 IGLÉSIAS, Francisco. Política econômica… Op.Cit.; WIRTH, John. O fiel... Op.Cit. 55 PIRES, Anderson. Capital agrário... Op.Cit.; WIRTH, John. Minas e a nação: um estudo poder e dependência regional (1889-1937). In: O Brasil republicano. São Paulo: Difel, 1975. de de de de 23 Gráfico 2 - Nº de Bancos Criados em Minas Gerais entre 1889 e 1930 (por data de criação do banco) Fonte: BASTOS (1997) e COSTA (1978). De maneira sucinta, a expansão bancária verificada entre o final de década de 1880 e o início da década de 1890 corresponde à liberação de capitais decorrente da abolição da escravidão e ao transbordamento de recursos acumulados na produção cafeeira da Mata para a atividade bancária.56 A crise da cafeicultura de meados da década de 1890 interrompe o ritmo de criação de bancos até o início da década de 1910. Bastos chega a afirmar que nenhum banco foi criado em Minas Gerais entre 1896 e 1909.57 De fato, os bancos que aparecem no gráfico em 1897 e 1903 são, na verdade, bancos já existentes que foram reinaugurados na recém-construída Belo Horizonte. Já a instituição financeira apontada em 1907 é uma cooperativa de crédito fundada em Miraí, cidade da Zona da Mata, que funcionava como banco. Ou seja, a rigor nenhum banco foi criado em Minas no período destacado por Bastos. 5. Bancos no sul de Minas Gerais Depois de um período sem criação de bancos, o início da década de 1910 experimenta não só o aumento do ritmo da expansão bancária mineira, como a mudança da direção dessa expansão. Se no período anterior, prevaleceram os bancos criados na Zona da Mata, agora a expansão bancária segue rumo à nova capital e ao Sul de Minas. Na década de 1920, quando o desenvolvimento dos bancos em Minas é mais marcante, a liderança do estado no setor bancário se consolida (Gráficos 2 e 3). Costa associa o aumento do ritmo da expansão bancária mineira à transição de uma 56 BASTOS, Claúdio de Albuquerque. Instituições... Op.Cit.; PIRES, Anderson. Capital agrário... Op.Cit.; Idem. Café, finanças e bancos: uma análise do sistema financeiro da Zona da Mata de Minas Gerais: 1889/1930. Tese de Doutorado – USP – São Paulo, 2004. 57 Idem. Idem. 24 economia agro-exportadora para uma economia de tipo capitalista, em que seria inevitável a separação do capital bancário, industrial e comercial. Para ele, é como se as diversas “faces do capital cafeeiro” fossem se libertando e autonomizando. Se antes o financiamento provinha do capital cafeeiro, agora o fracionamento desse capital, sua libertação e separação em diversos setores, exige a expansão do sistema bancário no país para promover o movimento inter-setorial do capital. Numa perspectiva mais abstrata seria essa a explicação para a expansão bancária do Sul de Minas na segunda década do século XX. Mais concretamente, o mesmo autor associa tal expansão às condições econômicas reais da região à época. Assim, considera também a coincidência da criação de bancos em áreas cafeeiras do Sul de Minas, mas segue a hipótese de Hasenbalg e Brigagão de que foram as atividades econômicas geradas indiretamente pela economia do café que explicam a expansão.58 Demand following ou supply leading? Para esses autores, demand following. Costa chega a afirmar que essa hipótese poderia ser confirmada pelo tipo de crédito oferecido pelos bancos mineiros, o desconto de letras, crédito tipicamente comercial. No entanto, é preciso lembrar que esse tipo de crédito, embora fosse de fato mais adequado para o comércio, pois geralmente era de curto prazo, também acabava sendo usado como crédito de longo prazo para atender à demanda da lavoura.59 “Corre pela cidade a notícia de que alguns cavalheiros cogitam a criação de um estabelecimento deste gênero [casa bancária] entre nós, a fim de auxiliar o desenvolvimento da lavoura e do comércio”60, dizia em primeira página o jornal A Justiça, da cidade de São Gonçalo do Sapucaí. A afirmação feita pouco antes do início da década de 1920 aparentemente corrobora o demand following. A lavoura e o comércio existentes precisavam dos bancos para se dinamizar e os bancos surgem no período seguinte para atender a essa demanda na região. O movimento de expansão dos bancos mineiros em direção ao Sul de Minas coincide também com o movimento mais geral da economia brasileira em que a economia fluminense começa a perder importância relativa frente à economia paulista. Se inicialmente os bancos da Zona da Mata se desenvolvem num espaço ligado economicamente ao Rio de Janeiro, agora é o setor financeiro do Sul de Minas que 58 COSTA, Fernando Nogueira da. Bancos... Op.Cit. Cf. TRINER, Gail. Banking and Economic Development: Brazil, 1889-1930. New York: Palgrave MacMillan, 2000. 60 A Justiça, 26 de janeiro de 1919. 59 25 passa a se desenvolver com mais vigor num espaço economicamente ligado a São Paulo. A mudança do eixo da economia nacional do Rio de Janeiro para São Paulo parece ser elemento importante para explicar a ascensão dos bancos nessa região. Gráfico 3 – Nº de Bancos Criados no Sul de Minas e na Zona da Mata (1889-1908) Gráfico 4 – Nº de Bancos Criados no Sul de Minas, na Zona da Mata e em Belo Horizonte (1909 -1930) Fonte: BASTOS (1997) e COSTA (1977) É também na década de 1920 que cresce significativamente o número de agências bancárias espalhadas por Minas. São os novos bancos fundados nesse período que irão investir na criação de uma rede de agências no estado (Tabela 1). Como boa parte desses bancos foi criada no Sul de Minas, é lícito supor que a região contasse com razoável rede de atendimento bancário. Por exemplo, o Banco Hipotecário e Agrícola de Minas Gerais, fundado em 1911, tinha agências em Varginha, São Sebastião do Paraíso, Guaxupé, Formiga, Barbacena, Araguari, Curvelo, Muriaé, Carangola e Ubá. O Banco do Brasil era mais antigo do que o Hipotecário e Agrícola, mas também ampliou o número de agências nessa época61 e, em Minas, contava com agências em Juiz de Fora, Cataguases, Carangola, Uberaba, Três Corações e Varginha. Dos bancos estudados especificamente nesta pesquisa, apenas o Banco Comercial de Alfenas possuía agências, todas no sul de Minas: Machado, Cabo Verde, Campos Gerais e Três Pontas. 61 PACHECO, Cláudio. História do Banco do Brasil. Brasília: Banco do Brasil, 1979. v.4. Para as agências de ambos os bancos, cf. figuras 2 e 3. 26 Tabela 1 – Estabelecimentos Bancários em Funcionamento em Minas Gerais em 1925 Data de inauguração Matrizes Agências Total Antes de 1891 1 - 1 1891-1900 - 3 3 1901-1910 1 2 3 1911-1920 10 33 43 1921-1925 30 35 65 Fonte: COSTA (1978). O padrão da expansão dos bancos é semelhante ao padrão da expansão industrial no Sul de Minas. Segundo dados do censo industrial de 1907, a região contava com muitos estabelecimentos industriais. No entanto, de maneira geral, eram estabelecimentos pequenos, com baixo número de trabalhadores por unidade produtiva, volume de capital e produção em relação às indústrias de outras regiões de Minas.62 No caso dos bancos, repete-se o padrão disperso, com estabelecimentos pequenos e baixo volume de capital. Por isso, vale ressaltar que, apesar da mudança da direção da expansão bancária, o grosso das operações bancárias estava concentrado em poucos grandes bancos, nenhum deles localizado no Sul de Minas. O banco Hipotecário e Agrícola e o banco Comércio e Indústria, ambos de Belo Horizonte, e o banco de Crédito Real, de Juiz de Fora, por exemplo, abocanhavam juntos cerca de 90% dos depó sitos em conta corrente de Minas entre 1920 e 1925.63 Em que pese o grau de concentração indicado por esse dado, a expansão bancária do Sul de Minas no período não deixa de refletir que algo se passava com a economia daquela região. A localização geográfica dos bancos do Sul de Minas fornece algumas pistas nesse sentido. A interação entre as economias do Sul de Minas e de São Paulo não pode ser desprezada da dinâmica da expansão bancária regional. É interessante notar que os bancos sul-mineiros criados nas décadas de 1910 e 1920 se concentraram nos arredores de Varginha ou se dispersaram ao longo de uma linha que acompanhava a borda paulista, nos arredores de Gauxupé e Pouso Alegre. Os bancos criados na região na década de 1910 já se enfileiravam próximos às cidades 62 SAES, Alexandre Macchione, COSENTINO, Daniel do Val, SILVA, Marcel Pereira da, GAMBI, Thiago Fontelas Rosado Gambi. Sul de Minas em transição... Op.Cit. 63 COSTA, Fernando Nogueira da. Bancos... Op.Cit. 27 paulistas e os da década seguinte reforçaram a expansão bancária em direção a São Paulo. Se considerássemos também os dados de produção de café e produção industrial da região e os cruzássemos com a localização dos bancos no Sul de Minas, notaríamos que as principais cidades produtoras de café da região em 1927 e que, ao mesmo tempo, tinham alguma produção industrial em 1907, tiveram algum banco criado entre 1909 e 1927 (Tabela 2). Além disso, a Mogiana e a Rede Sul Mineira levavam o trem à maioria dessas cidades. Tabela 2 – Principais Cidades Produtoras de Café do Sul de Minas em 1927 com alguma Produção Industrial apontada em 1907 Ano de fundação Banco Local 1909 1915 1917 1918 1921 1921 1921 1922 1922 1922 1922 1924 1924 1924 1925 1925 1925 1927 1927 Banco de Guaxupé Casa bancária Alves Pereira e Cia Banco Santaritense Banco de Monte Santo SA Casa bancária Campos Lima e Cia Casa bancária Alves Pereira e Cia Banco Machadense Casa bancária Odilon Freire e Cia Ferreira Alves e Cia Ltda Banco J.O. Rezende e Cia Casa bancária Lima, Bernardes, Forli e Banco Popular do Sul de Minas Banco Comercial e Agrícola A.C. Pinho e Casa bancária Alves Lima e Cia Casa bancária Tavares, Monteiro e Cia Banco da Varginha - Dias Ferreira e Cia Banco Comercial e Agrícola de Varginha Casa bancária Bernardino Nantes Banco Comercial e Agrícola Soc. Ltda Guaxupé Guaranésia Santa Rita do Sapucaí Monte Santo Guaranésia Guaranésia Machado Guaranésia Guaxupé São Sebastião do Monte Santo Santa Rita do Sapucaí São Sebastião do Monte Santo Guaranésia Varginha Varginha Monte Santo São Sebastião do Fonte: COSTA (1978); DINIZ (1981); BASTOS (1997). De maneira muito geral, a tabela aponta uma interessante correlação entre café, indústria, ferrovias e bancos no Sul de Minas. Mais do que criar condições favoráveis ao investimento inicial da cafeicultura e da indústria, talvez os bancos tenham vindo para essa região em busca das oportunidades geradas por essas atividades, como sugere Wirth para o caso de Minas em geral, seguindo uma possível 28 demanda por crédito e outros serviços financeiros.64 A agência de Alfenas do Banco Hipotecário e Agrícola, por exemplo, em anúncio de primeira página publicado no dia 1º de novembro de 1931, recomendava aos interessados que não negociassem seu café sem antes consultar o banco, pois oferecia crédito para o financiamento desse comércio. Além da produção cafeeira e industrial, não se pode ignorar o comércio de outros bens como fonte geradora dessa demanda. A mesma agência também publicou a oferta de cartas de crédito para os negócios de gado no triângulo mineiro e em Goiás65. Além dos bancos criados nessas cidades, outras que não se destacavam tanto na produção cafeeira ou industrial também tinham suas instituições financeiras. Entre 1909 e 1930, foram criados trinta e cinco bancos no Sul de Minas.66 Com o intuito de apenas organizar sua distribuição na região, podemos localizá-los em três subregiões, a saber, Varginha, Guaxupé e Pouso Alegre (Gráfico 4). Gráfico 5 - Nº de Bancos Criados no Sul de Minas Gerais entre 1909 e 1930 (por subregião e município) Fonte: BASTOS (1997) e COSTA (1978). A informação do número de bancos criados no Sul de Minas entre 1909 e 1930 também indica a relação entre essas instituições financeiras e a produção de café. Na região de Pouso Alegre, são dois bancos criados em Santa Rita do Sapucaí; na região de Varginha, também são dois bancos criados no município de mesmo nome; e, finalmente, na região de Guaxupé, destacam-se claramente as cidades de Guaranésia, Monte Santo, São Sebastião do Paraíso, Arceburgo e Guaxupé. 64 WIRTH, John. O fiel... Op.Cit. Para o café: O Alfenense, 1º de novembro de 1931. As condições eram 180 dias de prazo e 12% de juros. Para o gado: O Alfenense, 28 de fevereiro de 1932. 66 Vale lembrar que não estamos considerando a seção bancária União Comercial em Guaranésia por não termos a data de sua criação. 65 29 A dinâmica da criação de bancos e sua localização no Sul de Minas ajudamnos a dar um passo além das informações anteriores e também indicam, aparentemente, a correlação entre bancos, café, ferrovias e integração econômica com São Paulo. Contudo, tal indicação ainda precisa ser confirmada com pesquisas empíricas específicas em cada cidade. A seguir, falaremos um pouco dos bancos de cada subregião, a fim de nos aproximarmos mais concretamente do objeto deste trabalho. Apenas indicamos quais são esses bancos e algumas de suas características, tal como apontadas no trabalho de Bastos, exceção feita aos bancos do município de Varginha, para os quais há informação original. Buscamos com isso construir uma espécie de mapa específico dos trinta e cinco bancos do Sul de Minas criados entre 1889 e 1930. 3ª PARTE – AS CIDADES E OS BANCOS NO SUL DE MINAS (1817-27) 6. Bancos na região de Varginha Varginha aparece no rol das cidades que contavam com produção industrial e de café, e apareceria também entre aquelas que eram servidas pelas linhas do transporte ferroviário. Para José Roberto Salles, a cidade viveu sua belle époque entre 1881 e 1913, período em que alcançou o status de cidade, em 1882; experimentou a expectativa de mudança social com a abolição da escravidão, em 1888; foi elevada à condição de sede de comarca, em 1890; viu chegar a estrada de ferro, em 1892, e, no final do século XIX, os imigrantes italianos.67 Foi nesse quadro que, entre as décadas de 1910 e 1920, a cidade recebeu suas primeiras agências bancárias, embora, segundo Rubião, a lavoura e o comércio de Varginha já demandassem antes disso a abertura de um estabelecimento de crédito na cidade. O autor do Álbum da Varginha considerava admirável o fato de uma cidade “com uma pletora enorme de capitais, com um recorgitamento crescente de economias, com um vai-vem contínuo de transações, sustentar toda uma enorme circulação fiduciária sem uma casa bancária”.68 No entanto, isso não quer dizer que não havia serviços financeiros disponíveis na cidade antes da abertura de suas primeiras agências. Bancos e casas comissárias 67 SALLES, José Roberto. Espírito Santo da Varginha (1763-1920). Varginha: Gráfica Editora Sul Mineira, 2003. 68 RUBIÃO, José Luiz Álvares. Álbum da Varginha. Varginha: Casa Maltese, 1919. Apud SALLES, José Roberto. Espírito… Op.Cit. 30 de outras regiões atendiam àquela demanda. Por exemplo, um anúncio do Banco Popular de Minas Gerais, cuja sede ficava em Belo Horizonte, oferecia serviços financeiros em Varginha, inclusive os de sua agência bancária no Rio de Janeiro (Figura 1). Interessante notar que, nesta praça, os serviços contemplavam armazenagem e comissões para venda de café e cereais em geral.69 Figura 1 – Banco Popular de Minas Gerais Fonte: O Momento, 12 de agosto de 1917. Rubião considerava um fenômeno econômico curioso o fato de Varginha não possuir bancos ou agências bancárias, a despeito da grande circulação fiduciária. Mas era pensando na fidúcia que o autor constatava que tal fenômeno só pode ser explicado pela confiança ilimitada que gozava [sic] a praça da Varginha, pela firmeza do crédito de nossos fazendeiros, que jogavam e moviam grandes capitais apenas com a sua palavra, transações enormes desdobravam-se neste município, sem documento algum, sem a menor formalidade do timbre comercial.70 As palavras de Rubião trazem implícita a informação de que os serviços financeiros demandados pela lavoura e pelo comércio varginhense eram realizados em outras praças. A “pletora enorme de capitais” de Varginha só foi capaz de atrair uma instituição financeira para o município em 1915. Era uma agência do banco Hipotecário e Agrícola do Estado de Minas Gerais, cuja sede também ficava na capital 69 BASTOS, Cláudio de Albuquerque. Instituições... Op.Cit. As figuras apresentadas no texto fazem parte do acervo particular do Sr. Nico Vidal, de Varginha. O autor agradece à família o acesso a esse acervo. 70 RUBIÃO, José Luiz Álvares. Álbum... Op.Cit. Apud SALLES, José Roberto. Espírito… Op.Cit. 31 (Figura 2). Pouco tempo depois, em 1918, no contexto da expansão nacional do Banco do Brasil, Varginha também receberia uma agência desse banco (Figura 3). Entretanto, foi Três Corações, cidade vizinha, a primeira a receber uma agência do Banco do Brasil em Minas Gerais, em 1916. Até janeiro de 1919, eram essas as agências desse banco na região, mas outra agência estava para ser aberta em Guaxupé.71 Figura 2 – Banco Hipotecário e Agrícola de Minas Gerais Figura 3 – Banco do Brasil, agência de Varginha Fonte: O Momento, 31 de agosto de 1919. Sylvestre Fonseca e J oão Liberal saudavam a chegada das novas agências a Varginha, considerando-as “elementos propulsionadores [sic] do grande comércio varginhense” que muito contribuiriam para dar à cidade a primazia comercial da região. Narravam à época que a cidade contava com dois magníficos estabelecimentos: - uma agência do Banco Hipotecário e Agrícola de Minas Gerais, há três anos e tanto inaugurada, e uma do Banco do Brasil, ambas luxuosamente instaladas em prédios próprios. Como mecanismos de operações pouco diferentes, esses dois bancos, auxiliando muito as transações nesta zona, pela 71 VARGINHA. CÂMARA MUNICIPAL. Varginha, sua história, sua gente. Varginha: Centro de Processamento de Dados, Arquivo histórico da Câmara Municipal, 1982. 32 facilidade monetária, têm, outrossim, auferido grandes lucros, porque levam também suas negociações para muito longe do município.72 Vale lembrar que as loas aos bancos referidos no texto não eram gratuitas. João Liberal era editor-chefe de O Momento e ambos os bancos eram grandes anunciantes do seu jornal. Contudo, tais loas eram referendadas por Rubião, para quem “a criação de uma agência bancária na cidade [Varginha] foi, se assim podemos exprimir, a maior parcela lançada pelo Destino na ‘conta-corrente’ da história econômica deste município”.73 Independentemente do interesse particular referido acima, parecia haver de fato uma demanda local por crédito suficiente para justificar a abertura dessas instituições financeiras. Inclusive demanda do poder público, pois numa sessão extraordinária da câmara de Varginha foi aprovada por unanimidade a autorização para o depósito em conta corrente de fundos municipais no Banco Hipotecário e Agrícola. O presidente da câmara, major Evaristo Soares, justificava o pedido de autorização dizendo que assim “ficava o erário municipal a coberto de qualquer emergência”.74 Por meio dos anúncios de jornal podemos ter uma idéia dos serviços oferecidos por esses estabelecimentos, cujos mais importantes eram aparentemente o recebimento de depósitos em conta corrente e o desconto de letras. Chama a atenção o destaque dado no anúncio do Banco do Brasil à cobrança de faturas de gado e café, indicando que o banco mirava agropecuaristas da região, tanto em Varginha como em Três Corações, uma vez que esses eram os principais produtos de exportação desses municípios.75 As primeiras agências bancárias de Varginha foram abertas, portanto, em meados da década de 1910. A partir de 1918, a cidade se expandiu e seu comércio se diversificou, podendo “ser considerado o mais importante do Sul de Minas, pois importantes casas atacadistas servem as praças de Elói Mendes, Três Pontas, Dores de Boa Esperança, Campos Gerais, Paraguaçu, Carmo da Cachoeira e Vila 72 FONSECA, Sylvestre e LIBERAL, João. Álbum de Varginha. São Paulo: Pocai e Cia, 1920. Apud SALLES, José Roberto. Espírito Santo...Op.Cit. 73 RUBIÃO, José Luiz Álvares. Álbum... Op.Cit. Apud SALLES, José Roberto. Espírito… Op.Cit. 74 Cf. Sessão de 26 de março de 1915 in VARGINHA. Atas da Câmara Municipal. p.96. 75 Para gado e café em Varginha, cf. FRADE, P. Diccionario Chorographico e estatistica chorographica de distancias do estado de Minas Geraes. Imprensa oficial do Estado de Minas Gerais, 1917. Para gado em Três Corações, cf. ROSA, Elton Rodrigo e SAES, Alexandre Macchione. Mercando pontual: análise da atuação estatal na formação da feira de gado de Três Corações (1900-1920). In: Anais do XIV Seminário sobre a economia mineira. Diamantina: XIV Seminário sobre economia mineira, 2010. 33 Nepomuceno”.76 Em 1924, seriam instaladas na cidade a fábrica de malhas Colibri e a cervejaria Ártica. Talvez não seja coincidência, então, que os primeiros bancos da cidade, o Banco de Varginha e o Banco Comercial e Agrícola de Varginha, tenham aparecido em 1925. As informações sobre o Banco de Varginha ainda são escassas. Sabe-se apenas que era de propriedade de Dias, Ferreira & Cia, tinha um capital nominal de 1.200:000$, médio para a época e para a região, e que em novembro de 1926 ainda estava em funcionamento. E não se pode deixar de notar o sugestivo endereço da instituição: “Rua dos Comissários” (Figura 4). Já o Banco Comercial e Agrícola de Varginha teve vida mais longa. Funcionou até outubro de 1943, quando seu ativo líquido foi incorporado ao Banco do Distrito Federal. No ano de inauguração, seu capital nominal montava a importantes 5.000:000$. Era presidido por Domingos Ribeiro de Resende, deputado estadual eleito na década de 1920, e sua diretoria era composta por João Otaviano da Veiga Lima, Paulo Rodrigues Alves, José Bonifácio Caldeira de Araújo e José Rebelo da Cunha.77 A identificação desses dirigentes certamente será um passo importante para estabelecer o papel dos bancos na economia de Varginha e do Sul de Minas. De acordo com os balanços desses bancos, suas principais operações eram os depósitos em conta corrente e o desconto de letras (Figura 5). Figura 4 – Banco de Varginha Figura 5 – Banco Comercial e Agrícola de Varginha Fonte: Arauto do Sul, 11 de novembro de 1926. Fonte: Arauto do Sul, 7 de novembro de 1926. 76 77 RUBIÃO, Luiz José Álvares. Álbum... Op.Cit. BASTOS, Claúdio de Albuquerque. Instituições... Op.Cit. 34 A dispersão e o tamanho dos bancos da região já referidos poderiam sugerir uma relação mais estreita da origem de seu capital e de suas atividades de financiamento com o comércio. No entanto, as primeiras informações colhidas sobre o Banco Comercial e Agrícola não corroboram tal sugestão. A julgar pelo seu capital nominal, o Banco Comercial e Agrícola de Varginha não era pequeno. Para se ter uma idéia, dois dos maiores bancos na época, o Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais, de Belo Horizonte, e o Banco de Crédito Real, de Juiz de Fora, tinham capitais nominais, respectivamente, de 6.000:000$ e 7.000:000$. Em relação aos outros bancos do Sul de Minas, o capital daquele banco varginhense se destacava. Era maior do que os 2.000:000$ do Banco Santaritense e do Banco Comercial de Alfenas e bem maior do que os de outros bancos da região, como os de Machado, Paraguaçu e São Sebastião do Paraíso, que giravam em torno dos 500$000.78 O Banco Comercial de Alfenas foi fundado em 1918, mas iniciou suas atividades apenas em 1920. Começou com um capital de apenas 500$000. Em 1924 atingia os 2.000:000$000 e, em 1937, dois anos antes de ser encampado pelo Banco da Lavoura, chegava a 5.000:000$00079. A principal operação do banco era o desconto de letras80, mas o banco também recebia depósitos a prazo fixo e em conta corrente. Seu anúncio dizia que o banco fazia “todas as operações bancárias, exceto câmbio” (Figura 6). Figura 6 – Banco Comercial de Alfenas Fonte:O Alfenense, 3 de novembro de 1931. Essa informação é interessante, porque destaca uma eventual característica do mineiro cliente de banco: a desconfiança em relação a letras de câmbio. Uma 78 Idem. Idem. BASTOS, Cláudio de Albuquerque. Instituições... Op.Cit. p.98. 80 Segundo dados do balancete de outubro de 1931, publicado no jornal O Alfenense, edição de 3 de novembro do mesmo ano, as operações de empréstimo correspondem a 7.984.656$030 de um ativo total de 15.939.588$010. 79 35 reportagem sobre o Banco da Campanha, publicada em O Campanhense, de 3 de março de 1929, chamava a atenção para a ideia de que o mineiro tinha um “pavor inexplicável” a esse tipo de serviço bancário. O Banco de Campanha, fundado em outubro de 1927, não tinha um ativo tão robusto quanto o do Comercial de Alfenas. Realizava todas as atividades bancárias, isto é, fazia empréstimos e recebia depósitos a prazo ou em conta corrente (Figura 7). Em 1929, seu ativo montava a 3.198.363$420 e as operações de empréstimo, também se destacando o desconto, alcançavam 2.745.809$380. Na mesma reportagem referida acima, há um trecho revelador: O Banco da Campanha está em correspondência com grandes Bancos nacionais, entre os quais figuram os da praça de Santos que é conhecida no país e no estrangeiro como uma das praças mais 81 rigorosas nesses delicados assuntos financeiros . A menção explícita à praça de Santos, conhecida pelas atividades financeiras ligadas ao café, é mais um indício da relação entre as operações do banco e a produção e o comércio de café, embora não seja possível comprová-la a partir dos dados coletados até aqui. Em dezembro de 1938 o banco foi encampado pelo Banco da Lavoura, assim como será o Comercial de Alfenas um ano depois. Figura 7 – Banco da Campanha Fonte: A Campanha, 27 de outubro de 1927. Enfim, estavam os bancos de Varginha, e de outras cidades da região, ligados ao café e à indústria ou surgiam para acompanhar a expansão comercial da cidade? Teria o capital dos bancos de Varginha e região origem no comércio, tal como apontaram Hasenbalg e Brigagão para os bancos de Minas de maneira geral? É 81 A Campanha, 3 de março de 1929. 36 preciso aprofundar a pesquisa para responder a essas perguntas. As pesquisas iniciais apontam para a relação entre bancos e café, mas é preciso ir adiante para melhor qualificar essa relação. 7. Bancos na região de Guaxupé Na região de Guaxupé, as cidades de Guaranésia e Monte Santo se destacam pela presença de instituições financeiras. Porém, em Guaranésia, todas elas eram casas bancárias ou seções bancárias.82 Não temos a data precisa de fundação da União Comercial, que era uma seção bancária, só sabemos que foi fundada antes de 1910, por isso não a consideramos na contagem de instituições financeiras dessa cidade e da região. Em 1915, foi fundada como seção bancária a Alves, Pereira e Cia, que se tornará casa bancária em 1921. Nesse ano surgiu a casa bancária Campos Lima e Cia. e, no ano seguinte, a casa bancária Odilon Freire. Finalmente, em 1925, foi aberta a Tavares, Monteiro e Cia. Monte Santo tinha um perfil semelhante ao de Guaranésia nesse aspecto. Com exceção do Banco de Monte Santo, criado em 1918, todas as outras instituições financeiras do município eram casas bancárias, a saber, a casa bancária Lima, Bernardes, Forli e Cia., fundada em 1922; a casa bancária Alves Lima e Cia., de 1924; e a casa bancária Bernardino Nantes, criada em 1927 e que será encampada posteriormente pelo Banco de Monte Santo. Andradas e Botelhos também contavam apenas com casas bancárias, respectivamente, a casa bancária Monici e Graziani, de 1924, e a casa bancária de Botelhos, de 1922. Por outro lado, São Sebastião do Paraíso contava apenas com bancos: O Banco J. O. Resende, criado em 1922 e posteriormente incorporado ao Banco da Lavoura; o Banco Comercial e Agrícola A. C. Pinho, de Antônio de Carvalho Pinho, fundado em 1924; e, finalmente, o Banco Comercial e Agrícola Sociedade Limitada que, na verdade, era o sucesso do banco de Antônio de Carvalho Pinho. Cabo Verde, Muzambinho e Cássia também contavam com bancos, respectivamente, o Banco de Cabo Verde, de 1924; o Banco Comércio e Lavoura de Muzambinho, de 1914; e o Banco de Cássia, de 1925. Guaxupé contava com os serviços do Banco de Guaxupé, fundado em 1909, e da casa Ferreira Alves, de 1922. Arceburgo também contava com um banco, o Banco de Arceburgo, criado em 1924, e com a casa bancária Ferreira, fundada um ano antes. Finalmente, em Poços de Caldas encontrava-se a seção bancária Moreira Salles e 82 As seções bancárias eram estabelecimentos comerciais que faziam operações típicas de bancos, como depósitos e empréstimos. 37 Cia. Esta seção se tornará, em 1931, a casa bancária Moreira Salles e, posteriormente, em 1940, se fundirá com a casa bancária de Botelhos e com o Banco Machadense para formar o Banco Moreira Salles S/A, embrião do Unibanco S/A.83 8. Bancos na região de Pouso Alegre Nessa região, Itajubá contava com a seção bancária J. Dias e Cia., de 1924, e com a casa bancária Cia. Industrial Sul Mineira, de 1912. Entre bancos e casas bancárias do Sul de Minas, este era o único estabelecimento a se referir à indústria no nome. Pouso Alegre contava apenas com o Banco de Pouso Alegre S/A, criado em 1928. Já Santa Rita do Sapucaí, cuja produção de café era significativa, contava com o Banco Santaritense, de 1917, e o Banco Popular do Sul de Minas, de 1924. Considerações finais A expansão dos bancos mineiros entre o final do século XIX e início do XX indica que a economia de Minas Gerais passava por importantes transformações, demandando crédito em maior quantidade e de melhor qualidade. Tal expansão certamente contribuiu para o aumento quantitativo do crédito, porém, até 1930, a economia mineira ainda se ressentiria de financiamento de longo prazo com juros mais baixos.84 Essa demanda específica e a oferta financeira possivelmente gerada por ela podem ser consideradas reflexos de uma economia agroexportadora em transição. Ao mesmo tempo, algo aconteceu na economia mineira ou no contexto mais amplo em que estava inserida para provocar o deslocamento territorial da expansão bancária para o Sul de Minas. Entre 1909 e 1930, são criados nessa região bancos e agências numa proporção maior do que em qualquer outra região do estado. O mapeamento dos bancos do Sul de Minas e as primeiras informações coletadas apontam que a região de Varginha demandava serviços financeiros para atender à demanda da lavoura, sobretudo cafeeira. Para isso, contava inicialmente com a oferta de bancos de outras regiões e, posteriormente, com duas agências de bancos de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro, e com dois bancos locais. A região de Guaxupé se destaca pelo grande número de bancos criados no período. Predomina, no entanto, a criação de casas bancárias, o que indica associação com a produção 83 RIBEIRO, Benedito e GUIMARÃES, Mário Mazzei. História dos bancos e do desenvolvimento financeiro do Brasil. Rio de Janeiro: Pró-service, 1967. 84 WIRTH, John. O fiel... Op.Cit. 38 cafeeira. Já na região de Pouso Alegre, chamam a atenção os bancos de Santa Rita do Sapucaí, município também ligado ao café. As informações apresentadas brevemente acima sugerem uma correlação entre café e bancos na região. Contudo, é preciso aprofundar os estudos nesse sentido, a fim de confirmar tal correlação e verificar que tipo de relação era mantida pelos dois setores, por meio da documentação específica de cada banco em cada localidade. O maior obstáculo para a concretização desse trabalho é a falta de documentos primários sobre os bancos dessas cidades. Embora seja relativamente nova, com pouco menos de um século de existência, a documentação sobre essas instituições financeiras é escassa e, certamente, serão necessárias buscas mais complexas e trabalhosas de documentação, por exemplo, os inventários das pessoas ligadas a elas. Referências Fontes primárias BRASIL. Ministério do Interior. Relatório apresentado por Dr. João Barbalho Uchoa Cavalcanti. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial, 1891. IBGE. Annuario estatistico do Brazil 1908-1912. Rio de Janeiro: Directoria Geral de Estatistica, v. 1-3, 1916-1927 MINAS GERAIS. Annuario Historico-Chorographico de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1909. MINAS GERAIS. Minas segundo o recenseamento de 1920. Belo Horizonte: Secretaria da Agricultura, 1924. MINAS GERAIS. Relatório de Presidente de Estado. Julio Bueno Brandão. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1914. Jornais A Campanha. 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Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. 43 ANEXO I Fotos selecionadas do processo de falência do Banco do Sul de Minas 44 ANEXO II Trabalho de Conclusão de Curso da bolsista Andréa Megda Vieira UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALFENAS/UNIFAL-MG ANDRÉA VIEIRA MEGDA UMA ANÁLISE HISTÓRICA DOS BANCOS DO SUL DE MINAS GERAIS (1900-1930) VARGINHA/MG 2012 45 ANDRÉA VIEIRA MEGDA UMA ANÁLISE HISTÓRICA DOS BANCOS DO SUL DE MINAS GERAIS (1900-1930) Trabalho de Conclusão do Programa Integrado de Ensino, Pesquisa e Extensão (PIEPEX) apresentado como requisito para conclusão do curso Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Economia pela Universidade Federal de Alfenas. Orientador: Thiago Fontelas Rosado Gambi. VARGINHA/MG 2012 46 RESUMO Na primeira metade do século XX o estado de Minas Gerais experimentou uma expansão do sistema bancário acompanhado de um desenvolvimento da região, que até então era dependente da província do Rio de Janeiro, no que se refere aos aspectos bancários. Muitos estudos já foram realizados com o intuito de identificar a origem dos bancos na região e justificar este crescimento, porém a historiografia sobre os bancos mineiros ainda é pouco desenvolvida e não conclusiva em muitos de seus aspectos. Os trabalhos destinados a entender as transformações ocorridas no setor bancário em Minas Gerais no final do século XIX e início do XX ainda são muitos divergentes. Este trabalho consiste em uma revisão bibliográfica em que se pretende recuperar, a partir da historiografia sobre os bancos de Minas Gerais, alguns aspectos da história dos bancos no sul do estado, com o objetivo de contribuir com os estudos desta área. 47 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO................................................................................................................. 49 2. BANCOS NO BRASIL ........................................................................................................ 51 3. BANCOS EM MINAS GERAIS ......................................................................................... 54 4. BANCOS NO SUL DE MINAS GERAIS .......................................................................... 56 5. OBSERVAÇÕES FINAIS .................................................................................................. 58 6. REFERÊNCIAS ............................................................................................................................. 60 48 1. Introdução A Revolução Industrial teve inicio em meados do século XVIII e, a partir desse período, surgiram condições de possibilidade de consolidação de um sistema econômico em que o capital se concentrava na busca de um excedente cada vez maior (HOBSBAWM, 1979). Com a expansão do processo produtivo, também surgiu a necessidade de se desenvolver um sistema financeiro que fosse capaz de satisfazer uma demanda nova por crédito, favorecendo assim a acumulação de capital e o crescimento da economia. Essas importantes transformações no processo produtivo chegaram tardiamente ao Brasil, mas a formação de bancos nacionais, no início do século XIX, se deu quase ao mesmo tempo em que na Europa. Contudo, desde a extinção do primeiro Banco do Brasil, em 1829, e da tentativa fracassada de 1833, não havia um banco oficial no país que pudesse promover o crédito e ajudar o governo na solução dos problemas monetários. Em 1838 foram apresentados os estatutos do Banco Comercial do Rio de Janeiro, porém sua aprovação ocorreu somente em 1842. Devido à falta de interesse por parte do governo em relação aos bancos, iniciativas de caráter privado começaram a surgir com o propósito de solucionar o problema de escassez de meio circulante e de ofertar créditos para os comerciantes. No período que se estende de 1838 a 1850 diversas intituições financeiras surgiram, entre elas o Banco do Ceará (1836-1839), o Banco Comercial do Rio de Janeiro (1838), o Banco Comercial Bahia (1845) e o Banco Comercial do Maranhão (1847), proporcionando assim casas de crédito que, se não chegavam a constituir um sistema bancário, serviam como um estímulo à economia mercantil brasileira. Com o propósito de facilitar as transações financeiras, os bancos surgiram para oferecer crédito aos capitalistas ou negociantes. De acordo com Cairu, os negociantes no império seriam aqueles que empregavam grandes fundos em tráficos e manufaturas, colocando em rápido movimento e extensão a indústria nacional. São “os que fazem comércio de especulação, bancos e seguros, e precisam de grande penetração, sagacidade, inteligência teórica e prática para bem calcularem as circunstâncias vantajosas aos negócios que projetam” (LISBOA, 1874, p.510). Esses negociantes estavam dispostos a investir na economia mercantil nacional, proporcionando uma ampliação de vários de seus setores. Tornaram-se assim, instituições importantes para o crescimento econômico e para o fornecimento de crédito 49 no país. O marco inicial da história bancária do Brasil se deu em 12 de outubro de 1808, com a publicação do alvará de criação da primeira instituição bancária no país, o Banco do Brasil, com características de um banco de crédito que tinha como finalidade financiar as despesas do Estado ( FRANCO & PACHECO, 1979; FREIRE, 1907; VIANA, 1926). Especificamente no estado de Minas Gerais, até meados do século XIX o sistema bancário ainda era precário. Somente em 1° de janeiro de 1819 foi que se instalou no estado o seu primeiro banco, a caixa filial do Banco do Brasil, em Vila Rica, que possuía como função única a compra de ouro e prata (BESSA, 1981). Depois foi criada uma caixa econômica em Ouro Preto, em 1838, e uma nova caixa filial do Banco do Brasil, em 1856. Em 1860 foi inaugurado em São João Del Rei um dos primeiros estabelecimentos de crédito de iniciativa particular do Brasil, a Casa Bancária Custódio de Almeida Magalhães & Cia. Já na última década do século XIX é criado em Minas Gerais o Banco de Crédito Real de Minas, com sede na cidade de Juiz de Fora, cuja assembleia de instalação ocorreu em 23 de janeiro de 1889. Posteriormente foi instalado na capital mineira, em 11 de junho de 1922, o Banco Hipotecário e Agrícola do Estado de Minas Gerais. Estes dois bancos tiveram uma ligação muito grande com estado, servindo e amparando diversas atividades agrícolas, inclusive o próprio café (COSTA, 1978). Na região do sul de Minas Gerais, o sistema bancário começou a se desenvolver a partir da década de 1910, quando se observa o surgimento de muitos bancos em diversas cidades da região, entre eles o Banco de Guaxupé (1909), Casa Bancária Alves Pereira e Cia (1915), Banco Santaritense (1917), Banco de Monte Santo SA (1918), Casa Bancária Campos Lima e Cia (1921), Casa Bancária Alves Pereira e Cia (1921), Banco Machadense (1921),Casa Bancária Odilon Freire e Cia (1922), Ferreira Alves e Cia Ltda (1922), Banco J.O Rezende e Cia (1922), Casa Bancária Lima, Bernardes, Forli e Cia (1922), Banco Popular do Sul de Minas (1924), Banco Comercial e Agrícola A.C Pinho e Cia Ltda (1924), Casa Bancária Alves Lima e Cia (1924). Não é possível afirmar categoricamente a relação entre bancos e desenvolvimento econômico, pois existem duas concepções predominantes que estabelecem relações de causa e efeito simetricamente opostas. Hugh Patrick (1996) denominou essas duas concepções predominantes de “demand following” e “supply leading”, onde entre essas, existem as concepções que tentam negar a relação de bancos e desenvolvimento (MODIGLIANI, 1958) e as que tentam demonstrar que esta relação 50 seria total, pois não seria possível instituir uma relação de causa e efeito, sendo que o processo para se chegar ao desenvolvimento econômico seria duplamente determinado (GOLDSMITH, 1969). Na visão de Flávio Saes (1986), o crédito não possui um papel determinado no processo de desenvolvimento econômico e esse papel que ele desempenha na economia depende muito da especificidade de cada processo. É na tentativa de captar essa especificidade para o sul de Minas que se enquadra este trabalho. O crescimento do sistema bancário no sul de minas na sua transição para o capitalismo ainda foi pouco explorado, sendo que os trabalhos voltados para esse setor, mas referentes ao estado de Minas Gerais como um todo apresentam conclusões divergentes. Considerando que estudos nesta temática ainda são escassos na historiografia mineira, e que o Sul de Minas Gerais é uma região pouco explorada nessa historiografia, este estudo busca recuperar alguns aspectos da história dos bancos no sul de Minas Gerais, com o objetivo de contribuir com os estudos desta área. Nesse sentido, esta pesquisa procurou fazer uma revisão dos trabalhos ligados à história econômica de Minas e da região sul do estado, buscando contribuir para a valorização e divulgação da história local e regional. 2. Bancos no Brasil O sistema financeiro é formado por um conjunto de instituições, formais e informais, que tem por finalidade oferecer aos indivíduos serviços e produtos financeiros. Como vimos, a relação entre bancos e desenvolvimento econômico não é simples, mas é possível afirmar que o sistema financeiro pode estimular o crescimento econômico, já que este proporciona condições para o financiamento de projetos que exigem investimentos altos, de longo prazo de maturação e de risco elevado (ALCÂNTARA, 2010). O sistema bancário é parte do sistema financeiro. Atualmente, o sistema bancário nacional pode ser compreendido como aquele conjunto de instituições monetário-financeiras, públicas e privadas, que agem no atacado ou no varejo, oferecendo créditos tanto para o financiamento, quanto para o consumo. Embora o primeiro banco do Brasil tenha sido criado em 1808 e novos bancos tenham surgido na década de 1840, Nozaki (2009) diz que, no Brasil, essa formação inicia-se com a reforma bancária da década de 1920 e sua evolução só ocorreu a partir da expansão bancária da década de 1950. 51 De fato, seria exagerado falar em sistema bancário brasileiro na primeira metade do século XIX, no entanto, o aparecimento dos bancos apoiou o funcionamento da economia mercantil nacional. A chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil em 1808 gerou novas demandas ao mercado interno. A região do sul de Minas, que já se havia se especializado no fornecimento de gêneros alimentícios de primeira necessidade, aproveitou a crise da mineração para aprofundar essa especialização e expandir o seu mercado, vendendo inclusive para a Corte (LENHARO, 1979). O ano de 1808 foi marcado, não só pela vinda da Corte Portuguesa para o Brasil, mas também pelo inicio da história bancária no Brasil, pois em 12 de outubro foi publicado o alvará de criação do primeiro banco que viria a funcionar no país. O primeiro Banco do Brasil era definido como uma instituição que possuía amplas atribuições, já que operava como banco de depósitos, de desconto, de emissão e de câmbio ( FRANCO & PACHECO, 1979; FREIRE, 1907; VIANA, 1926). Devido à má administração e a emissão desregulada de notas, o primeiro Banco do Brasil teve sua extinção aprovada em 23 de setembro de 1829. Porém como previa a lei o banco só se extinguiria em 20 de dezembro do mesmo ano, dia em que completaria exatos vinte anos de funcionamento. Com a extinção do primeiro Banco do Brasil, iniciou-se uma discussão com o propósito de se criar um novo banco oficial, porém ao contrário do primeiro este banco teria como finalidade auxiliar o governo a solucionar os problemas relacionados com o meio circulante e, consequentemente, estabilizar o valor da moeda nacional (GAMBI, 2010). Alguns anos se passaram até que novos bancos se formassem no Brasil e, em meados do século XIX, fosse possível a expansão da atividade bancária (ALMEIDA, 2010). Entre as décadas de 1830 e 1840, foram criados, tanto na Corte como nas províncias, bancos privados, todos eles emissores de vales. Dentre estes novos bancos, destacavam-se os dois maiores, que eram o Banco Comercial e o Banco do Brasil, de Irineu Evangelista de Souza, ambos localizados na Corte. Esses dois bancos se fundiriam, em 1853, para formar um novo Banco do Brasil, com monopólio de emissão no império. Em seguida vinham os bancos das províncias da Bahia, Pernambuco, Maranhão e Pará (GAMBI, 2010). A década de 1850 também foi decisiva para a história econômica do país, uma vez que se observou neste período o primeiro surto de exportação de café (PELÁEZ & SUZIGAN, 1981). Porém neste contexto de aumento 52 das exportações de café, nota-se uma escassez de créditos para os setores produtivos nacionais. Com a crise de 1864 e o inicio da guerra do Paraguai o governo passou a depender das emissões do Banco do Brasil para financiar suas despesas, criando uma relação de ambiguidade com o banco. Ao mesmo tempo em que restringia suas emissões, autorizava o aumento na medida exata dos títulos que o próprio governo lhe enviava. Diante desse cenário, em 12 de setembro de 1866 foi criada a lei 1.349, que previa um acordo entre o Banco do Brasil e o governo, onde este retirava o direito de emissões do Banco do Brasil. Desta maneira a emissão voltaria ser de responsabilidade do governo por meio da caixa de amortização (GAMBI, 2010). Com a Proclamação da República em 1889, o país iniciou uma fase de agitação econômica. Foi estabelecida uma nova legislação financeira (lei bancária de 1890), posta em prática pelo então ministro da fazenda Rui Barbosa, que acabava com as leis bancárias do período imperial, adequando a antiga regulação financeira ao novo contexto econômico do país. Com isso o governo esperava ampliar a rede bancária e consolidar bancos de emissão regionais no país85. A consequência dessa reforma seria a expansão do crédito bancário, com a finalidade de desenvolver a economia e possibilitar a criação de recursos suficientes para prover remuneração do trabalho assalariado no campo, uma vez que a escravidão havia sido abolida um ano antes, ainda no império. Desta forma o aumento do meio circulante seria capaz de atender a grande demanda dos cafeicultores por créditos, possibilitando também o fornecimento de recursos necessários para a constituição, ampliação e diversificação das demais atividades produtivas do país (CHAVANTES, 2004). A nova lei bancária resultou numa multiplicação bancária, ou seja, fez com que o números de agências triplicasse, promovendo uma expansão no setor bancário (PIRES, 2009). Porém no período que se estende de 1890 a 1914 não houve no país condições estruturais para a consolidação de um sistema bancário brasileiro, pois antes da abolição (1888) e da república (1889), a falta de mercado de trabalho e a inexistência da burguesia agiram como obstáculos para o avanço moderno da industrialização e da urbanização, desse modo impossibilitando a ampliação da circulação de crédito e da moeda na escala necessária ao desenvolvimento do capital (NOZAKI, 2009). 85 Rui Barbosa estava preocupado com a viabilização da indústria no país. Por isso é considerado por Heitor Ferreira Lima como um industrialista brasileiro, ao lado de Mauá e Roberto Simonsen (LIMA, 1976). 53 A falta de articulação entre empresas e bancos fez com que o sistema bancário brasileiro servisse apenas de intermediário entre as empresas nacionais e o crédito externo (TAVARES, 1999). Em relação ao crédito para o consumo, ao longo de sua historia da evolução dos bancos e do crédito, o Brasil enfrentou os limites de um país que possuía uma das piores concentrações de renda e de riqueza e uma das maiores dimensões populacional e territorial do mundo (COSTA, 1978). Se no império eram as velhas oligarquias que controlavam e influenciavam o governo, agora na República Velha (1889-1930) serão os cafeicultores do Oeste de São Paulo e de Minas Gerais que tomariam a frente, tornando-se o setor mais moderno e dinâmico da elite rural brasileira. O Coronelismo86 deve ser lembrado aqui, como maneira de ressaltar como o estado de São Paulo e Minas influenciaram as estruturas políticas e econômicas da época. Assim a economia brasileira, nas três primeiras décadas do século XX, era baseada na agricultura e no latifúndio, com alguns centros urbano-industriais. A crise do café que ocorreu a partir de 1897, combinando superprodução e queda dos preços e, posteriormente, mantendo uma tendência declinante nos preços até 1910 (COSTA, 1978), serviu para que essas oligarquias criassem políticas voltadas para a valorização do produto, ou seja, políticas voltadas para o setor interno do país. Desta maneira nota-se que houve uma necessidade de expandir o crédito no país. 3. Bancos em Minas Gerais Somente em 1° de janeiro de 1819 foi que se instalou no estado o seu primeiro banco, a caixa filial do Banco do Brasil, em Vila Rica (BESSA, 1981). Posteriormente veio a ser criada uma caixa econômica em Ouro Preto, em 1838, e uma nova caixa filial do Banco do Brasil, em 1856 (GAMBI, 2008). No entanto, em meados do século XIX, o sistema bancário mineiro ainda era precário (HASENBALG & BRIGAGÃO, 1970). A origem do sistema bancário em Minas possui muitas interpretações diferentes, já que até o final do século XIX eram os bancos do estado do Rio de Janeiro que ofereciam créditos e serviços bancários aos mineiros (WIRTH, 1982). Grandes transformações ocorreram no estado de Minas Gerais, desde a transição de uma economia mineradora para uma economia mercantil de gêneros alimentícios na Região 86 Para coronelismo, ver LEAL (1975). 54 Sul, até o desenvolvimento da cafeicultura mineira para a Zona da Mata (PAULA, 2001). Porém, pela ausência de estudos empíricos e até mesmo inexistência de documentação adequada, permanece a discussão sobre o desenvolvimento do sistema bancário em Minas. Mascarenhas (1954) e Albino (1957) defendem a ideia que a origem do sistema bancário estaria ligado ao surto industrial ocorrido na Zona da Mata nas duas últimas décadas do século XIX. Ao analisar a atividade bancária como préabolição, tudo indica que esta estaria ligada a agricultura, mas especificamente para a produção de café (BASTOS, 1997; PIRES, 1993). Porém ao discordar que a produção de café seria responsável pela expansão dos bancos, Costa (1978) argumenta que os lucros dos produtores de café seriam incapazes de extravasar para outros setores da economia mineira, portanto a produção de café não poderia ser responsável pelo capital bancário mineiro. Outras explicações para a origem do capital dos bancos mineiros são indicadas, porém não são apontadas, mas de certa forma o vinculo exclusivo com o surto industrial e com a economia cafeeira em Minas é negado (LIMA, 1977). Sobretudo o capital comercial, de pequenos e médios comerciantes do interior do estado, também é indicado como possível responsável pela expansão bancária de minas (HASENBALG & BRIGAGÃO, 1970). Wirth (1982) reforça esta ideia acreditando que a expansão do comércio foi fundamental para a expansão do sistema bancário mineiro numa economia em desenvolvimento. Paiva (1996) ressalta que mesmo antes da decadência da produção mineradora, Minas Gerais já se destinava a se dedicar a várias outras atividades econômicas. O estado de Minas Gerais possuía um setor exportador agropecuário não cafeeiro muito importante, que era responsável pela formação de uma renda monetária significativa (SLENES, 1988). Desta maneira o centro-dinâmico que foi responsável pelo crescimento de Minas Gerais ao longo do século XIX seria o setor exportador da Província, e a acumulação de capital do estado se dava na esfera mercantil (SLENES, 1988; PAIVA, 1996). O avanço das relações de crédito entre grandes e pequenos proprietários seria o ponto principal dessa expansão, deixando assim de enfatizar o comércio como causa principal da expansão bancária mineira (COSTA, 1978). A expansão do sistema bancário em Minas no final do século XIX, não significou apenas uma transformação 55 importante na economia, serviu também como rompimento com os bancos do Rio de Janeiro. Essas diversas interpretações em relação à origem do capital bancário dizem respeito aos bancos do estado de Minas como um todo, e algumas delas se referem especificamente á Zona da Mata. A origem deste capital no Sul de Minas ainda precisa ser mais explorada, deste modo pretendemos fazer uma análise voltada para esta região, com o intuito de entender melhor de que maneira esta expansão do sistema bancário ocorreu no Sul de Minas e quais fatores da economia contribuíram para isso, já que a partir de 1910 a região se fortaleceu e criou condições para que se instalasse nos seus municípios um número razoável de bancos e agências bancárias. 4. Bancos no Sul de Minas Gerais Minas Gerais, que teve sua plantação de café superada pela do estado de São Paulo entre 1888 e 1908, tornou-se então o principal produtor de alimentos de subsistência do país. Desse modo o vinculo estabelecido com o Rio de Janeiro que era capital da Corte e o principal centro comercial, se fortaleceu (LENHARO, 1979; FURTADO, 1983). Com isso, a região do Sul esteve voltada especialmente para o abastecimento da cidade do Rio de Janeiro, e dessa maneira os bancos da capital abafavam o surgimento de bancos no estado de Minas, fazendo com que os recursos mineiros se voltassem para o Rio de Janeiro (IGLÉSIAS, 1958). Portanto até o final do século XIX eram os bancos do estado do Rio de Janeiro que ofereciam créditos e serviços bancários aos mineiros (WIRTH, 1982). Especificamente no sul de Minas Gerais, o sistema bancário começou a se desenvolver a partir da década de 1910, já na década de 1920 o desenvolvimento bancário se torna ainda mais marcante e se consolida (COSTA, 1978). Foi neste contexto de expansão dos bancos em Minas, que ocorreu também o enfraquecimento da economia fluminense perante a economia paulista. Com isso o estado de Minas Gerais passa a se desenvolver com mais intensidade num ambiente economicamente ligado ao estado de São Paulo (GAMBI, 2011). Embora haja necessidade de estudos mais aprofundados, o esgarçamento dos laços que ligavam a economia mineira ao estado do Rio de Janeiro e a mudança do centro da economia nacional para o estado de São Paulo parecem ser elementos 56 importantes para explicar o aumento do número de bancos na região do sul de Minas na década de 1920 (GAMBI, 2011). Gráfico 2 – Nº de Bancos Criados no Sul de Minas e na Zona da Mata (1889-1908) Fonte: BASTOS (1997) e COSTA (1977) Gráfico 3 – Nº de Bancos Criados no Sul de Minas, na Zona da Mata e em Belo Horizonte (1909-1930) Fonte: BASTOS (1997) e COSTA (1977) Como a maioria destes bancos foram criados no Sul de Minas, é correto supor que a região dispunha de uma razoável rede de atendimento bancário. O Banco Hipotecário e Agrícola de Minas Gerais fundado em 1911 é um exemplo disto, pois este tinha agências em Varginha, São Sebastião do Paraíso, Guaxupé, Formiga, Barbacena, Araguari, Curvelo, Muriaé, Carangola e Ubá (GAMBI, 2011). O Banco do Brasil, mais antigo que o banco Hipotecário (PACHECO, 1979), também ampliou seu número de agências na região do Sul de minas e contava com agências em Três Corações e Varginha. Costa (1978), ao sugerir que a origem do capital bancário mineiro teria ligação com o capital comercial do mercado interno, seja pela comercialização de gado, seja nos “negócios urbanos”, propôs uma análise das principais características econômicas dos municípios onde se instalaram os novos bancos, já que estes não possuíam filiais ou agências. A casa Bancária Cia. Industrial Sul Mineira tinha sua sede na cidade de Itajubá no sul de Minas. Nesta cidade, por exemplo, eram produzidos café, fumo, cana, algodão, feijão, milho e arroz. Esses produtos eram exportados para o estado do Rio de Janeiro e São Paulo. O Banco Comércio e Lavoura tinha sua sede em Muzambinho, município situado numa região cafeeira e vinícola, que em 1907 já apresentava certo 57 desenvolvimento, com bons comércios, fábricas de vinhos, móveis, massas alimentícias, usinas e engenhos. Santa Rita do Sapucaí era sede do Banco Santaritense, além de exportar café, cereais e gado. Alfenas também era um município com atividade econômica agrícola e pastoril. Monte Santo, na fronteira com São Paulo, fazia parte de um município cafeeiro. Por último, Poços de Caldas que era sede da Casa Bancária Moreira Salles & Cia, município que exportava café, cereais, vinhos e laticínios. Os exemplos acima indicam as principais atividades econômicas das cidades sul-mineiras, a produção agrícola de gêneros alimentícios e café. Em algumas delas, nota-se também a presença de uma atividade industrial, atividade esta que de uma maneira geral mantinha alguma ligação com á economia de abastecimento ou com á economia agro-exportadora cafeeira. Essas indústrias estariam voltadas para o ramo de alimentos e para o consumo local, possuindo uma estrutura com poucos trabalhadores e com uma baixa tecnologia. Se considerarmos os dados da produção de café e da produção industrial do Sul de Minas e relacionarmos essas informações da localização dos bancos na região, percebemos que as principais cidades produtoras de café em 1927 e que, ao mesmo tempo, tiveram algum tipo de produção industrial em 1907, tiveram algum banco criado entre 1909 e 1927. Além de que a maioria dessas cidades tinham acesso a linha de trem, através da Mogiana e a Rede Sul Mineira. A instalação da rede ferroriária do Sul de Minas mantinha ligação com o Rio de Janeiro e São Paulo, não promevendo um transporte entre suas próprias cidades. Assim o século XX é marcado por um período de transição e avanços na economia sul mineira, tanto nos aspectos bancários, indústriais e de integração de suas ferrovias, porém estes avanços ocorreram de maneira lenta (SAES, COSENTINO, SILVA e GAMBI, 2010). 5. Observações Finais Seja pelo número de trabalhos, seja por problemas de documentação, o desenvolvimento dos bancos em Minas Gerais não possui ainda uma historiografia consolidada. Mascarenhas (1954) e Albino (1957) em seus trabalhos apoiavam na ideia de que o elemento responsável para tão expansão seria o surto industrial que houve na Zona da Mata no fim do século XIX. Mas em seu trabalho Lima (1977) nega este 58 vinculo da criação dos bancos com o surto industrial, acreditando que existem outras perspectivas para a origem do capital dos bancos, embora não as aponte. Costa (1978) ressalta que as relações de crédito entre grandes e pequenos proprietários seriam o foco principal para ter ocorrido este desenvolvimento, deixando de lado o comércio, fator este que Wirth (1982) acreditava ser fundamental para a expansão dos bancos. Apesar da discussão sobre a origem dos bancos mineiros, pode-se afirmar que o século XIX foi marcado pelo inicio do avanço do sistema bancário estado e que, no século XX, essa expansão se consolida. Em relação ao Sul de Minas é possível que o avanço do sistema bancário se deu após o rompimento do estado com o Rio de Janeiro e neste mesmo momento a região passou a ter uma relação maior com o estado paulista. Os estudos ainda são escassos no que diz respeito à historiografia da região do Sul de Minas, porém podemos notar que a produção de café no século XX perdeu força e que na região havia uma economia diversificada. Devemos enfatizar também que os bancos criados no Sul de Minas teriam suas sedes em cidades próximas às cidades paulistas, o que remete a uma ligação mais forte entre as economias mineira e paulista. 6. Referências Bibliográficas ALCÂNTRA, Daniela Pires Ramos de. Instituições, sistema financeiro e desenvolvimento econômico. Tese de Doutorado: Unicamp-Campinas, 2010. 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