Crédito e bancos no sul de Minas Gerais (1917-27): reconstituição da
história econômica da região em sua transição para o capitalismo
RELATÓRIO FINAL APRESENTADO À FAPEMIG
PROJETO SHA APQ 04432-10
(PROGRAMA PRIMEIROS PROJETOS - PPP)
Thiago Fontelas Rosado Gambi (Coord.)
Andréa Vieira Megda (Bolsista)
ICSA/ UNIFAL-MG
Agosto de 2012
1
Sumário
Introdução.............................................................................................................................. 3
1ª PARTE – REGIONALIZAÇÃO E URBANIZAÇÃO DO SUL DE MINAS ........................... 5
1. Sul de Minas em transição: opção por uma regionalização como ponto de partida............ 5
2. Urbanização no sul de Minas: elementos históricos ......................................................... 12
2ª PARTE – A DINÂMICA BANCÁRIA DE MINAS GERAIS E OS BANCOS DO SUL
DE MINAS ........................................................................................................................... 18
3. Bancos e desenvolvimento econômico ............................................................................ 19
4. Bancos em Minas Gerais ................................................................................................. 21
5. Bancos no sul de Minas Gerais........................................................................................ 24
3ª PARTE – AS CIDADES E OS BANCOS NO SUL DE MINAS (1817-27) ........................ 30
6. Bancos na região de Varginha ......................................................................................... 30
7. Bancos na região de Guaxupé ......................................................................................... 37
8. Bancos na região de Pouso Alegre .................................................................................. 38
Considerações finais............................................................................................................ 38
Referências ......................................................................................................................... 39
ANEXO I .............................................................................................................................. 44
ANEXO II ............................................................................................................................. 45
ANEXO III ............................................................................................................................ 62
2
Introdução
Este relatório final de pesquisa apresenta uma caracterização dos bancos do
sul de Minas Gerais na passagem do século XIX para o XX. Ele está dividido em três
partes. Na primeira, são feitas considerações sobre a regionalização e a urbanização
dessa parte do território mineiro, observando como os bancos, além de outros
elementos, ajudam a caracterizar o espaço sul-mineiro e a formação de suas cidades.
Na segunda, os bancos da região são brevemente analisados no contexto mais amplo
da dinâmica bancária de Minas Gerais. Finalmente, na terceira parte, são
apresentadas características gerais de bancos fundados nas principais cidades do sul
de Minas. O foco da análise neste item são os bancos criados em Varginha, Alfenas,
Campanha e Paraguaçu entre 1917 e 1927.
Na tentativa de encontrar documentação primária sobre essas instituições mais especificamente sobre o Banco da Varginha e o Banco Comercial e Agrícola, de
Varginha; a Cooperativa Pastoril Sul Mineira, de Três Corações; o Banco da
Campanha; o Banco de Paraguaçu e o Banco Comercial de Alfenas -, percorremos o
fórum e o cartório de registro de títulos de Varginha, e acessamos a coleção particular
de jornais do Sr. Nico Vidal; o Centro de Memória Cultural do sul de Minas (CEMEC) e
o arquivo do Museu Regional do sul de Minas, em Campanha; o cartório de registro de
títulos e um arquivo particular, em Alfenas; e, finalmente, o Museu Alferes Belizário e o
cartório de registro de títulos em Paraguaçu. Ao longo das buscas, deixamos de lado a
Cooperativa Pastoril Sul Mineira por não ter a atividade bancária como finalidade
específica.
Diante da escassa documentação encontrada sobre essas instituições, a
principal fonte primária utilizada neste trabalho foram os jornais regionais, que
publicaram propagandas e balanços desses bancos. Embora os dados coletados não
sejam suficientes para se fazer uma caracterização mais ampla da dinâmica do crédito
e dos bancos da região, as informações apresentadas neste relatório certamente
serão úteis para a construção posterior dessa caracterização. Encontramos no arquivo
do fórum de Varginha um conjunto de documentos interessantes sobre a falência do
Banco do Sul de Minas, que funcionou em Varginha de XX a XX. Não os exploramos
nesta pesquisa, porque o banco escapava ao nosso recorte temporal. Apesar disso,
digitalizamos essa documentação, que abre uma boa perspectiva para um trabalho
futuro que trate especificamente dessa instituição (Anexo I).
Vale ressaltar que o objeto da pesquisa foi discutido durante 2011, no Núcleo
de Estudos em História Econômica e Economia Política, no contexto de um debate
mais amplo sobre a urbanização do sul de Minas; que a documentação digitalizada
3
ficará disponível em CD; e, finalmente, que parte desta pesquisa foi publicada como
capítulo “A expansão bancária no sul de Minas em transição (1889-1930)” no livro “Sul
de Minas em transição: a formação do capitalismo na passagem para o século 20”,
organizado pelos professores Alexandre Saes (USP) e Marcos Lobato (UNIFAL-MG),
e publicado pela Edusc, com o apoio institucional da FAPEMIG. Além disso, a bolsista
do projeto utilizou a pesquisa em seu trabalho de conclusão de curso (Anexo II) e
apresentou a pesquisa em dois eventos acadêmicos de Iniciação Científica
organizados pela universidade (Anexo III). Esses foram os principais resultados da
concretização deste projeto.
Finalmente, é preciso dizer que este foi apenas um primeiro esforço de busca
de fontes primárias sobre o crédito e os bancos no sul de Minas, e o apoio da
FAPEMIG foi fundamental para que ele pudesse ser realizado.
4
1ª PARTE – REGIONALIZAÇÃO E URBANIZAÇÃO DO SUL DE MINAS
1. Sul de Minas em transição: opção por uma regionalização como ponto de
partida*
Entender a economia de Minas Gerais durante o século XIX tem sido um
desafio que a historiografia tem cumprido muito bem. Desde que os trabalhos de
Roberto Martins e Robert Slenes lançaram um frutífero debate acerca da economia
escravista mineira oitocentista, diversas pesquisas se preocuparam em dar
contribuições novas ao debate em outros importantes temas. A historiografia
econômica conseguiu apreender bem o que Guimarães Rosa já afirmara há tempos,
“Minas são muitas”. A diversidade regional é uma das marcas da economia mineira,
um espelho do Brasil.
Nesse sentido, parte dos trabalhos que abordam a Minas Gerais do século XIX
buscou analisar a história da Província levando em conta esses aspectos regionais.
Apesar dessa ênfase na diversidade regional, estudos como de Roberto Martins e
Douglas Libby baseavam-se em recortes políticos tradicionais do território mineiro,
recortes estes que remontam à realidade do século XX e que, por isso, nem sempre
são os mais adequados ou relevantes para a abordagem histórica.1 Esse recorte
político do território mineiro também seria retomado por John Wirth, mediante o uso do
Anuário Estatístico de 1922, para a análise de Minas Gerais no período entre 1889 e
1937.2
Foi somente com os trabalhos de Marcelo Godoy e Clotilde Paiva que a
regionalização passou a ser problematizada para Minas Gerais.3 Levando em conta
aspectos históricos, por meio de relatos de viajantes estrangeiros, dividiram o território
mineiro oitocentista em 18 regiões. Nos relatos eram os aspectos geográficos,
econômicos e populacionais que definiriam as regiões por níveis de desenvolvimento,
*
Reprodução parcial de texto publicado em SAES, Alexandre e LOBATO, Marcos. Sul de
Minas em transição: a formação do capitalismo na passagem para o século 20. Bauru: Edusc,
2012.
1
MARTINS, Roberto. Growing in Silence: The Slave Economy of Nineteenth-Century Minas
Gerais, Brazil. Tese de Doutorado: Varderbilt University, 1980; MARTINS, Roberto. A economia
escravista de Minas Gerais no século XIX. Belo Horizonte: Cedeplar/UFMG, 1980a, e LIBBY,
Douglas. Transformação e trabalho em uma Economia escravista: Minas Gerais no século XIX.
São Paulo: Brasiliense, 1988.
2
WIRTH, John. O fiel da balança: Minas Gerais na federação brasileira (1889-1937). Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1982.
3
PAIVA, Clotilde Andrade. “População e Economia nas Minas Gerais do século XIX.”, São
Paulo: USP/Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, 1996; GODOY, Marcelo
Magalhães. Intrépidos viajantes e a construção do espaço: uma proposta de regionalização
para as Minas Gerais do século XIX. Belo Horizonte: UFMG/CEDEPLAR, 1996.
5
de maneira que considerassem tanto o grau de mercantilizarão da economia como o
papel da escravidão. A idéia principal dessa metodologia era apontar para a
importância de uma regionalização construída a partir de elementos históricos e
geográficos. Assim, fundamental era perceber a diversidade e o contraste dos mais
variados espaços mineiros nos oitocentos.
Tal regionalização, como é possível avaliar no mapa abaixo, apreende a
realidade da primeira metade do século XIX, da “grande fazenda” mineira, cuja
diversificação produtiva ganhava destaque.4 Na área mais escura, vinculada tanto às
cidades mineradoras como ao circuito mercantil em direção ao Rio de Janeiro, se
encontravam as regiões mais urbanizadas e desenvolvidas da Província. Nas áreas de
cor intermediária, por sua vez, predominavam as regiões de abastecimento, como da
pecuária de Araxá e dos leitos do São Francisco e Rio das Velhas, como também, as
fronteiras da Província com o Rio de Janeiro e São Paulo, a Mata e o Sul Central
respectivamente. Nas áreas de baixo desenvolvimento, por fim, representadas pela
cor clara, a produção comercial ou a integração aos circuitos exportadores era
limitada.
O que hoje comumente conhecemos como o Sul de Minas está caracterizado
acima pelas regiões Sudoeste (XVIII) e Sul-Central (XVII) que, conforme as listas
nominativas de 1831/2, concentravam juntas cerca de 16,5% da população. E ainda:
Contrastando com a Região da Mata, a Região Sul apresentava a vegetação
de campos como cobertura dominante, sendo que as florestas predominavam,
sobretudo, na sua porção meridional. A criação, principal atividade da região,
era exercida nos campos. As matas, derrubadas para o cultivo, eram
dominadas por agricultura voltada para o abastecimento de mercados intra e
inter-regionais ou auto-consumo. Alguns gêneros respondiam por importantes
fluxos comerciais, sendo exportados para fora da região. Spix/Martius, vindos
de São Paulo, cruzam a Região Sul na sua porção central, passando inclusive
por Campanha. Saint-Hilaire também cruza a região por duas vezes, porém, na
sua porção oriental.
Podemos dividir o território percorrido por Spix/Martius em duas porções. Até
mais ou menos a altura de Campanha os autores relatam a grande incidência
de matas, a agricultura voltada para o auto-consumo e na área de Campanha,
a mineração de ouro vigorosa. Já a parte percorrida entre Campanha e São
5
João Del Rei apresentava a criação como atividade preponderante.
4
PAIVA, Clotilde A. & GODOY, Marcelo M. “Território de contrastes: economia e sociedade das
Minas Gerais do século XIX”. X Seminário sobre a economia mineira. Diamantina, 2002, p. 35.
5
CUNHA, Alexandre Mendes & GODOY, Marcelo Magalhães. "O espaço das Minas Gerais:
processos de diferenciação econômico-espacial e regionalização nos séculos XVIII e XIX".
6
A região apresentava, portanto, vínculos com mercados externos à Província
enquanto a sua economia era caracterizada pelas atividades de criação e agricultura
de abastecimento. Godoy e Paiva consideraram as regiões Sudeste e Sul-Central com
nível de desenvolvimento médio, em contraposição a região central local em que
concentravam as áreas mais dinâmicas da Província. Afinal, nos tradicionais centros
mineradores – tanto tendo em vista suas atividades econômicas como a concentração
da população –, constituíam-se as maiores cidades e as mais abastadas redes
comerciais da Província na primeira metade dos oitocentos.6 Contudo, ao longo desse
período, o Sul de Minas alcançaria um crescente destaque no jogo político e
econômico da Província. Na historiografia essa identidade do Sul de Minas seria
revelada por Alcir Lenharo.7 Neste trabalho pioneiro, ao abordar o real valor da
economia de gêneros de abastecimento em Minas Gerais durante a primeira metade
do século XIX, o autor passaria a enfatizar a relação da emergência do Sul de Minas
como ator político no período imperial quanto da rápida expansão da demanda do
mercado interno em função da instalação da Corte no Rio de Janeiro em 1808.8 A
Revolta Liberal de 1842 marcaria a ascensão definitiva dos grupos sul-mineiros no
tabuleiro político da Província,9 numa fase em que na ponta norte da Mantiqueira o
café passava a ser introduzido, recriando o território mineiro.
Mas nunca é demais advertir: o próprio Sul de Minas é recortado por diferentes
dinâmicas, resultantes das articulações dos transportes, especialmente as ferrovias,
Congresso brasileiro de história econômica, 5; conferência internacional de história de
empresas, 6. Caxambu (MG). Anais ABPHE, 2003. (Disponível em CD-ROM), p. 25-6.
6
Mas isso não significa nos apegarmos necessariamente a ideia de regionalização mediante o
conceito de rede de cidades, em que destacam-se relações econômicas, hierarquias e graus
de influência entre as cidades. Para trabalhos que seguem essa análise, conferir: VELLOSO,
André e MATOS, Ralfo. “A rede de cidades do Vale do Jequitinhonha nos séculos XVIII e XIX”.
Anais do VIII Seminário sobre a Economia Mineira, vol. 1. Belo Horizonte: CEDEPLAR/UFMG,
1988; RODARTE, Mário Marcos Sampaio. O caso das minas que não se esgotam: a pertinácia
do antigo núcleo central minerador na expansão da malha urbana da Minas Gerais oitocentista.
Belo Horizonte: CEDEPLAR/UFMG, 1999. (Dissertação de mestrado); RODARTE, Mário
Marcos Sampaio e GODOY, Marcelo Magalhães. “Pródromos da formação do mercado interno
brasileiro: um estudo de caso das relações entre capital mercantil, rede de cidades e
desenvolvimento regional, Minas Gerais na década de 1830”. Anais do XII Seminário sobre a
Economia Mineira. Belo Horizonte: CEDEPLAR/UFMG, 2006. RODARTE, Mário Marcos
Sampaio; PAULA, João Antônio de; SIMÕES, Rodrigo Ferreira. “Rede de cidades em Minas
Gerais no século XIX”. História Econômica & História de Empresas. São Paulo:
Hucitec/ABPHE, v. 7, n. 1, 2004. Para uma crítica ao argumento de rede de cidades:
MARTINS, Marcos Lobato. “Regionalidade e história: regionalização nos estudos
historiográficos mineiros”. XVI Encontro Regional de História – ANPUH-MG, 2008
7
LENHARO, Alcir Lenharo. As tropas da Moderação - O abastecimento da Corte na formação
política do Brasil — 1808-1842. São Paulo: Edições Símbolo, 1979.
8
Mas como lembra Amilcar Vianna Martins Filho, Daniel de Carvalho em 1916 já teria feito a
primeira crítica ao modelo de ciclos de exportação para Minas Gerais com o trabalho Notícia
histórica sobre o algodão em Minas. Cf. MARTINS FILHO, Amilcar. O segredo de Minas: a
origem do estilo mineiro de fazer política (1889-1930). Belo Horizonte: Crisálida: 2004, p.14.
9
LENHARO, op. cit., p.137.
7
das variações geográficas e das próprias relações mercantis e culturais dos
fazendeiros e comerciantes locais. Cidades tradicionais no abastecimento, cidades
com aptidões turísticas, cidades que rapidamente se convertem em economias
exportadoras. Enquanto o café alcançava com maior rapidez as áreas da Serra da
Mantiqueira, o “planalto” sul-mineiro ainda preservava sua produção bastante
diversificada, com marcado apego ao gado, milho, fumo entre outros produtos. Ao
mesmo tempo em que as áreas da Mantiqueira e seus contrafortes (como por
exemplo, Itajubá, Pouso Alegre, Poços de Caldas, Guaxupé e até Passos),
pertencentes à faixa de fronteira com São Paulo, vinculam-se a dinâmica econômica
paulistana e ao fluxo comercial com o Porto de Santos, as áreas do planalto sulmineiro (como por exemplo, Alfenas, Varginha, Três Corações e Campanha)
conservaram até meados do século XX relações mais estreitas com o Rio de Janeiro.
Isso levante a quantidade de variáveis a serem consideradas em qualquer tentativa de
regionalização do chamado “Sul de Minas”.
É nessa perspectiva que uma questão se faz necessária: mas afinal, quais são
os caminhos percorridos pelo Sul de Minas ao longo do século XIX? Considerando a
regionalização como um processo dinâmico,10 nosso objetivo neste livro é perceber as
transformações na região no período de transição do século XIX para o século XX.
Transição essa, fundamental para entender os caminhos da formação do capitalismo
em Minas Gerais, que não perpassa um único caminho, mas ergue percursos que
precisam ser desvendados conforme as articulações entre sociedade, economia e
política.
O Sul de Minas na transição para o século XX como referido nas pesquisas de
John Wirth é um território bastante distinto daquele na regionalização proposta por
Paiva & Godoy para o início do século XIX. Assim, como reconstruir esse novo
território que emerge nas décadas finais dos oitocentos? Para tanto, não podemos
deixar de compreender que a regionalização política proposta por Wirth, com
demarcações permanentes e objetivas, esconde uma regionalização que é dinâmica
na sua construção histórica e, por outro lado, que deve ser flexível quanto às suas
demarcações.11
10
CUNHA, Alexandre Mendes & et alli. “História Econômica e Regionalização: Contribuição a
um Desafio Teórico-Metodológico”. Estudos Econômicos. São Paulo, V.38, N. 3, JulhoSetembro, 2008.
11
Carlos Eduardo Rovaron lembra, por exemplo, que a definição da fronteira entre São Paulo e
Minas Gerais na região da caldeira vulcânica da região de Poços de Caldas somente foi
plenamente definida em acordo entre os governadores dos dois estados, Armando Sales de
Oliveira e Benedito Valadares Ribeiro, em 1937. ROVARON, Carlos Eduardo. “A utilização de
8
Seguindo essa ideia de regionalização, incorporando maior flexibilidade nas
demarcações e de processo dinâmica, Marcos Lobato Martins considera: “que as
unidades regionais não se distinguem tanto por suas características naturais, mas por
serem espaços socialmente construídos a partir da materialização das relações
sociais”.12 Por isso mesmo, o Sul de Minas não esgota sua existência econômica,
social e cultural nas fronteiras paulistas ou cariocas, mas pelo contrário, é
transformado e promove transformações em seus longos territórios de intersecção. A
economia cafeeira do Sul de Minas não se difere completamente da cafeicultura da
região da Mogiana. Assim, é possível imaginar maiores similaridades entre cidades
próximas a fronteira Minas – São Paulo, do que uma completa homogeneidade entre o
Sul de Minas ou toda a região da Mogiana.
Ao mesmo tempo, não podemos deixar de lado a perspectiva da dinâmica do
território sul-mineiro que, ainda na primeira metade do século XIX, se integrava
plenamente ao abastecimento da capital do Império, e que na transição para o século
XX já estende maiores relações com o estado de São Paulo, não apenas produzindo
gêneros de abastecimento, mas inclusive, ampliando substancialmente a produção
primário-exportadora de café.
Assim, no último quartel dos oitocentos o Sul de Minas vinha constituindo tanto
seu sistema de transportes por meio das estradas de ferro, como vendo a abertura de
seus primeiros bancos. Entretanto, ao que parece, a região ainda mantinha sua
economia subordinada às suas fronteiras: a comercialização do café se voltava para
os comissários do Rio de Janeiro ou para as Casas Comerciais paulistas. Os bancos
locais, aparentemente, supriam pequenas atividades, enquanto o grande capital ainda
seria suprido ou por fontes governamentais ou por bancos de São Paulo e Rio de
Janeiro.
Nesse sentido, o Sul de Minas tornou-se mais um caso específico dentro o
“mosaico” mineiro: uma região historicamente dinâmica, tanto por sua função de
abastecimento da corte imperial, como em transformação por causa da expansão das
lavouras de café na transição para o século XX, mas que não conseguiu se aproximar
do ritmo e pujança econômica dos estados vizinhos do Rio de Janeiro e São Paulo.
Para uma regionalização mais flexível, é possível considerar que o Sul de
Minas seria formado por um complexo de cidades medianas, com populações entre
memorialistas como fonte de pesquisa alternativa para acompanhar processos de ocupação”.
XVIII Encontro Regional de História – ANPUH-SP, Assis, 2006, p.1.
12
MARTINS, “Regionalidade e história”..., p.5.
9
vinte e quarenta mil habitantes, atendidas pela rede ferroviária Sul Mineira, resultado
da fusão das estradas Minas e Rio, Sapucaí e Muzambinho. Todavia, mesmo uma
regionalização flexível não garante a homogeneidade ao território: o Sul de Minas não
deixa de agregar a economia cafeeira em expansão, as atividades de abastecimento
tradicionais aos comerciantes locais, um complexo turístico com o circuito das águas,
enfim, pequenas dinâmicas particulares dentro de uma estrutura econômica regional.
No início do século XX, a população da região cresce. O mesmo fenômeno se
verifica para o transporte ferroviário, a indústria e o sistema bancário da região. Em
Minas Gerais, as ferrovias se desenvolveram primeiro nas regiões onde o comércio
era mais intenso. Depois da Mata e do Oeste, as ferrovias chegam ao sul da província,
na década de 1880, por meio de quatro empresas, a saber, a Estrada de Ferro Rio
Verde, posteriormente chamada de “Minas e Rio”; a Viação Férrea Sapucaí; a Estrada
de Ferro Muzambinho e, finalmente, já nos primeiros anos do século XX, a Companhia
Mogiana de Estradas de Ferro, originária de São Paulo, atenderia o triângulo e o Sul
de Minas. Apesar de um sistema ferroviário em expansão para quase toda a região
neste período de transição para o século XX, a inexistência de centro irradiador para o
transporte promoveria, na verdade, a integração ferroviária do Sul de Minas não com
suas próprias cidades, mas sim com os mercados exteriores. Ainda que
provisoriamente, é possível pensar que as ferrovias no Sul de Minas Gerais
começaram a se instalar para atender uma região dinâmica e promissora voltada para
o comércio de abastecimento do Rio de Janeiro e de São Paulo, e para o plantio e
exportação de café. E, mais importante, o que se observa é a constituição do sistema
ferroviário com interligação do Sul de Minas com os portos do Rio de Janeiro e Santos,
ou com os mercados dos Estados vizinhos, uma modernização do transporte que
poderia surgir como condição para fortalecer o mercado interno,13 mas que ao que
parece, surge para estreitar as relações, inclusive de dependência, com outras
regiões.
Nesse ensejo é que se verifica o processo de formação das primeiras
indústrias do Sul de Minas: uma dinâmica ainda frágil em comparação com aquela
experimentada nas regiões da Zona da Mata e Metalúrgica.14 Tais indústrias,
geralmente ligadas à economia de abastecimento ou à economia agrário-exportadora
13
GODOY, Marcelo Magalhães & BARBOSA, Lidiany Silva. “Uma outra modernização.
Transportes em uma Província não exportadora – Minas Gerais, 1850-1870”. Economia e
Sociedade. Campinas, vol. 17, n.2 (33), 2008.
14
Cf. classificação de Diniz, Estado e capital estrangeiro....
10
cafeeira,15 apresentavam uma média muito baixa de apenas quatro trabalhadores por
empresa quando comparada aquelas empresas de Juiz de Fora, por exemplo. Essa
característica está disseminada em praticamente todas as cidades sul-mineiras, com
indústrias mais próximas de pequenos artesanatos e empreendimentos familiares,
fundamentalmente no ramo de alimentos, e para o consumo local.16 Era, portanto, a
típica e rudimentar manufatura, com poucos trabalhadores, sem sofisticações
tecnológicas e que, assim, crescia numa dinâmica ambígua, ora reproduzindo o
modelo cafeeiro da Zona da Mata, ora recuando às suas heranças de abastecimento
interno.
É somente na década de 1920 que a região Sul amplia sua participação para a
produção industrial, praticamente dividindo a segunda posição com a região
metalúrgica. Um argumento plausível para essa aproximação é, de um lado, a
continuidade de uma estrutura industrial arcaica na região metalúrgica, somada, por
outro lado, com a maior representatividade da região Sul na produção da economia
mineira de maneira geral. O modo como se deu sua industrialização revela o Sul de
Minas como síntese de uma economia periférica na periferia. Era uma região que,
participando de uma contínua integração regional, incorporando os elementos
modernos difundidos do centro do capitalismo, não conseguia criar a “grande
indústria”. A falta de um mercado consumidor amplo e a reduzida capacidade de
acumulação pode ser indicativa para essa estrutura industrial arcaica. Sua produção
industrial vinha ampliando a participação no valor total da produção de Minas Gerais,
quase dobrando entre 1907 e 1920, mas, ainda assim, a indústria mantinha uma
estrutura bastante rudimentar.
Processo semelhante ocorre com os bancos da região. Nas décadas de 1910 e
1920, há uma expansão significativa do número de bancos criados no Sul de Minas,
cujo setor financeiro passa a se desenvolver com maior vigor num espaço mais ligado
à ascendente economia paulista, à ferrovia, à indústria e ao café.17 No entanto, apesar
da mudança da direção da expansão bancária de Minas Gerais rumo ao Sul, o grosso
das operações bancárias estava concentrado em poucos grandes bancos, nenhum
deles localizado nessa região. O banco Hipotecário e Agrícola e o banco Comércio e
15
PAULA, Ricardo Zimbrão A. de. “Indústria em Minas Gerais: origem e desenvolvimento”. X
Seminário sobre a Economia Mineira. Diamantina, 2002.
16
Vale a noção de artesanato, manufatura e grande indústria do historiador Paul Mantoux (s/d).
A grande indústria exige a introdução de máquinas e equipamentos, da maior divisão social do
trabalho e dos preceitos fundamentais que definem uma sociedade e produção capitalista. A
produção artesanal, quase familiar, não permite a ruptura com o modelo arcaico de produção,
permitindo a formação efetiva de uma lógica capitalista de produção e sociabilidade.
17
COSTA, Fernando Nogueira. Os bancos de Minas Gerais (1889-1964). Campinas: Unicamp
– Dissertação de Mestrado, 1978.
11
Indústria, ambos de Belo Horizonte, e o banco de Crédito Real, de Juiz de Fora, por
exemplo, eram responsáveis em conjunto por cerca de 90% dos depósitos em conta
corrente de Minas entre 1920 e 1925.18 O Sul de Minas expande seu sistema bancário,
mas como as indústrias e as cidades da região, são bancos pequenos, locais,
fragmentados em uma economia que se transforma, mas ainda muito lentamente. Em
que pese o grau de concentração na Zona da Mata a expansão bancária do Sul de
Minas no período não deixa de refletir que algo se passava com a economia daquela
região.
O Sul de Minas estava definitivamente em transição na passagem para o
século XX. Uma transição para uma sociedade capitalista, em que as relações sociais
e econômicas seriam cada vez mais impostas pelas regras do mercado, mercado este
capitalista. Mas a dinâmica para que as transformações dessa região levassem a
consolidação da estrutura capitalista, isto é, a efetivação do trabalho assalariado, de
uma produção capitaneada pela indústria e de toda uma infra-estrutura necessária,
avançaria por caminhos próprios no Sul de Minas. Em parte por esse flerte da
economia tanto com as atividades de abastecimento como com o setor exportador; em
parte pela fragmentação da economia em diversos municípios médios, com variadas e
pequenas indústrias, e numerosos bancos com atuação local; e, ainda, possivelmente
com uma capacidade de acumulação reduzida em comparação com outras regiões de
Minas Gerais, ou mesmo do país. Todas essas condições dão um caráter especial
para esse “Sul de Minas em transição”, uma dinâmica própria e nova cuja
problemática é lançada agora com este livro. Sem a pretensão de responder as
causas da peculiaridade dessa transição, os textos que seguem certamente colocaram
o Sul de Minas neste debate.
2. Urbanização no sul de Minas: elementos históricos**
Nesse quadro de disparidades, a urbanização do sul de Minas se dá no
contexto contraditório em que a economia brasileira ainda é majoritariamente agrícola
e mercantil e, ao mesmo tempo, vê a construção do mundo urbano moderno de início
do século XX atrelado ao avanço do capitalismo nos países centrais. Esse contexto
contraditório é característico da transição, o rural atrasado como base econômica, ao
mesmo tempo estimula e limita o avanço do urbano moderno, criador de uma “vida de
18
COSTA, Os bancos de Minas Gerais....
Reprodução parcial a partir de texto apresentado no Encontro da ANPUH-MG de 2012,
realizado em Mariana/MG.
**
12
cidade pequena”19 e de uma infraestrutura básica para atender às necessidades do
capital. As condições para sua reprodução chegam, via provisão de infraestrutura, mas
de modo limitado, respeitando os contornos impostos pela interação entre o rural e o
urbano. Aquelas cidades ou partes de cidades que não outorgam ao capital as
condições gerais de sua valorização simplesmente permanecem inexploradas20.
Já é possível notar nas cidades do Sul de Minas em transição a produção de
valores de uso complexos e extrair delas uma “quantidade de consciência” diferente
da que a vida rural extrai. Na virada do século XIX para o XX, muitas dessas cidades
assistem à construção de praças, teatros e cinemas (Minas Gerais, 1909).
Acompanham, em certa medida, o processo de modernização que vinha ocorrendo
nas maiores cidades do país, cujo caso mais exemplar é o do Rio de Janeiro. As
cidades da região, apesar de não apresentarem um padrão demográfico muito
diferente de outras regiões neste período de transição, não geravam grandes efeitos
úteis de aglomeração,21 nem chegavam a constituir o conjunto frenético de impressões
da metrópole, o turbilhão de fenômenos responsável por sua diversidade. Suas
maiores cidades, no Sul de Minas, como algo recorrente entre outras experiências,
contavam entre 30 e 40 mil habitantes nessa época22 (Minas Gerais, 1909).
Mantinham ainda o caráter simples da vida mental de pequena cidade,
que descansa mais sobre relacionamentos profundamente sentidos e
emocionais. Estes últimos se enraízam nas camadas mais
inconscientes do psiquismo e crescem sem grande dificuldade ao
23
ritmo constante da aquisição ininterrupta de hábitos .
Apesar dessa mentalidade hipotética de vida de pequena cidade, as condições
para a expansão da produção capitalista vão se formando no sul de Minas: as cidades
entre final do XIX e início do XX começam a se dotar da infraestrutura que garantirá
19
SIMMEL, Georg. “A metrópole e a vida mental”. In: Velho, Octávio (org). O fenômeno urbano.
Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. p.12.
20
TOPALOV, Christian. La urbanizacion capitalista. Cidade do México: Editorial Edicol, 1978.
21
Benefícios decorrentes da concentração espacial. TOPALOV, Christian. La urbanizacion...
Op.Cit.
22
Se considerar a comparação com São Paulo, conforme o censo de 1912, o perfil
populacional das cidades do estado, de maneira geral, era muito próximo ao paulista. Em
Minas Gerais encontramos apenas uma cidade com mais de cem mil habitantes (em São Paulo
eram duas); quatorze cidades entre cinqüenta e cem mil habitantes (em São Paulo eram sete);
e, setenta e sete cidades com população entre vinte e cinquenta mil habitantes (em São Paulo
eram 52). IBGE. Annuario estatistico do Brazil 1908-1912. Rio de Janeiro: Directoria Geral de
Estatistica, v. 1-3, 1916-1927; Minas Gerais. Annuario Historico-Chorographico de Minas
Gerais. Belo Horizonte, 1909.
23
SIMMEL, Georg. “A metrópole... Op.Cit. p.12.
13
seu predomínio sobre o mundo rural.24 Concretamente, não é possível dissociar o
crescimento da população na região das transformações decorrentes da transição
para o século XX. Com uma população de aproximadamente de 260 mil habitantes em
1872, o Sul de Minas em 1907 já apresentava quase 730 mil habitantes e, finalmente,
mais de 1 milhão em 1920. Região que sustentava cerca de vinte por cento da
população do Estado de Minas Gerais, teve “dois grandes ciclos econômicos” que
incentivaram o crescimento urbano: uma primeira fase por conta dos circuitos de
abastecimento da Corte, e uma segunda fase, por conta da expansão econômica
cafeeira.
Assim, com a ampliação das atividades econômicas e da população, nasciam
os novos municípios. Alfenas, Boa Esperança, Três Corações e Varginha, por
exemplo, faziam parte desta segunda fase de emancipação de municípios, entre as
décadas de 1860 e 1880, como resultado da introdução do café na região (Anexo 1).
Com a disseminação da produção cafeeira entre os municípios do Sul de Minas, novo
movimento de formação de municípios, ainda mais vigoroso, teria início nas duas
primeiras décadas do século XX. O ano de 1911, por exemplo, seria o ano de
formação de 12 novos municípios no Sul de Minas, resultado da emancipação de
antigos distritos que cresciam e reivindicavam sua autonomia política. A região
administrativa passava, então, de 36 para 48 municípios. Por meio desta tendência de
formação de novos municípios, o Sul de Minas se destacava como uma região
dinâmica na expansão das atividades urbanas em comparação ao restante do Estado
de Minas Gerais. Em 1872, a concentração de municípios na região era de 22%,
alcançando 27% na primeira década do novecentos.
Mil habitantes
Gráfico 1. Número de cidades e população em milhares
Sul de Minas (1872, 1907, 1912, 1920)
80
70
60
50
40
30
20
10
0
1872
1907
1912
1920
0
10
20
30
40
50
Número de cidades
Fonte: IBGE. Annuario estatistico do Brazil 1908-1912. Rio de Janeiro:
Directoria Geral de Estatistica, v. 1-3, 1916-1927.
24
Embora haja predominância do urbano, a formação da cidade é resultado de um processo
histórico e não de uma geração espontânea, o que mistura o rural com o urbano, pois há
permanência dos comportamentos anteriores que, se não eram urbanos, eram rurais.
Assumindo aqui que o rural vem primeiro e depois o urbano. Mas é preciso atentar para o
processo contrário, o rural que sai do urbano. Cf. JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes
cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
14
Como indicado acima, os dados coletados nos censos demográficos, entre
1872 e 1920, indicam esse aumento significativo do número de cidades no Sul de
Minas, isto é, novas cidades se formam ou se desmembram de outras já existentes ao
longo do período. Mas, ainda mais importante é considerar que, apesar da população
aumentar em várias dessas cidades, o que indica um processo de expansão urbana
em curso, foi mantido na região um padrão de formação de cidades medianas. Como
é possível observar no gráfico abaixo, as cidades para todos os censos permanecem
sem grande disparidade entre suas populações. Mas mais importante, ao que parece,
mesmo com uma ligeira expansão populacional, estes municípios medianos não
constituíam vidas efetivamente urbanas.
Seguindo a classificação tomada por Yves Leloup25, o Sul de Minas em 1920
não teria nenhuma cidade (como núcleo urbano) com mais de 20 mil habitantes. Para
o autor, o núcleo urbano do município era a população total deste menos os cidadãos
referentes aos distritos, e ainda, considerar apenas como centros urbanos, as sedes
de cidades que apresentariam mais do que cinco mil habitantes. Em suma, apesar de
48 municípios, segundo o critério de Leloup, o Sul de Minas teria em 1920, apenas 5
cidades com população entre sete e doze mil habitantes, outras 4 entre cinco e sete
mil habitantes e, finalmente, mais três entre quatro e cinco mil habitantes.
Diferentemente da Zona da Mata com Juiz de Fora, da área central a partir da década
de 1920 com Belo Horizonte e de Teófilo Otoni para o Vale do Mucuri, a região do Sul
de Minas seria marcada por uma profunda fragmentação de sua população em
cidades pequenas e medianas, sem um centro irradiador das atividades econômicas.
Ainda que sem a criação de uma grande cidade irradiadora de dinamismo, o
crescimento populacional e a concentração de municípios na região foram
acompanhados por mudanças qualitativas na infraestrutura urbana. Como vimos, a
constituição de 1891, ao outorgar maior autonomia financeira aos municípios,
fomentou a tendência de aumento nos investimentos em melhorias urbanas26. Em
Minas Gerais, particularmente, a lei n.546, de 27 de setembro de 1910, garantia
empréstimos do Estado para melhoramentos urbanos27. Esse movimento regional em
compasso com o movimento nacional atesta a existência de um projeto político
mineiro que passava pela proposta de valorização do mundo urbano encabeçado pelo
Estado, e que era seguido à risca pelas cidades do Sul de Minas.
25
LELOUP, Yves. Lês Villes Du Minas Gerais. Paris: Université de Paris, 1970.
COSTA, Emília Viotti da. “Urbanização no Brasil no século XIX”. Da monarquia à República:
momentos decisivos. São Paulo: Editora Unesp, 1999.
27
MINAS GERAIS. Relatório de Presidente de Estado. Julio Bueno Brandão. Belo Horizonte:
Imprensa Oficial, 1914.
26
15
Emília Viotti da Costa diz que, nesse contexto de preocupação governamental
com o urbano, foi estimulada a construção de hotéis, jardins, teatros, cafés e destaca
as melhorias nos sistemas de calçamento, iluminação, transportes e abastecimento de
água. Essas seriam, portanto, características que indicariam certo processo de
urbanização. É o que também diz Wirth para o caso de:
A predominância da cidade, especialmente da grande cidade, poderá
ser encarada como uma conseqüência da concentração, em cidades,
de instalações, e atividades industriais e comerciais, financeiras e
administrativas, de linhas de transporte e comunicação e de
equipamento cultural e recreativo como a imprensa, estações de
rádio, teatros, bibliotecas, museus, salas de concerto, óperas,
hospitais, instituições educacionais superiores, centros de pesquisa e
publicação, organizações profissionais e instituições religiosas e
28
beneficentes .
Se tomarmos as descrições do anuário histórico-corográfico de Minas Gerais
de 1909 para as cidades do sul de estado podemos vislumbrar justamente esse
processo. Vejamos o caso de Campanha, município com mais ou menos 20 mil
habitantes em 1900. O anuário destaca o teatro, a biblioteca, os hotéis, o
abastecimento de água, o serviço de correios e a ampla cadeia pública:
A cidade possui um hospital de caridade (...); uma praça de mercado,
boa iluminação pública, o Colégio Sion, o Noviciado dos Padres
Jesuítas, teatro, uma excelente biblioteca pública, 5.000 volumes (...),
estação férrea da Cia Muzambinho, cemitério público, vários templos
e prédios excelentes (...). Há na cidade regular suprimento de água
para as necessidades da população, sendo proveniente de fontes
públicas e particulares, cisternas, etc. A municipalidade possui um
encanamento, obra de valor, e que hoje não se faria com poucas
centenas de contos, e que é destinado a trazer água aos pontos mais
elevados da Campanha. (...) Foi criada a diocese de Campanha por
decreto pontifício de 8 de setembro de 1907. (...) Publica-se na
cidade a mais velha das folhas do Estado, o ‘Monitor Sul Mineiro’,
com 35 anos de existência. (...) A sub-administração dos Correios da
Campanha compreende todas as agências postais do sul e sudoeste
do Estado de Minas. (...) O teatro São Cândido existente na cidade foi
reconstruído em 1907. (,,,) A cadeia de Campanha é uma das
29
melhores de Minas e tem capacidade para guardar 100 presos .
Itajubá, uma das cidades mais prósperas do Sul de Minas à época, com uma
população de mais de 40 mil habitantes, já contava com a energia elétrica, que
impulsionava o dinamismo do município. Diz o mesmo anuário sobre a cidade:
28
WIRTH, John. O fiel..Op.Cit.. p.93.
MINAS GERAIS. Annuario Historico-Chorographico de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1909.
pp.295-6; p.303.
29
16
A cidade de Itajubá (...) é iluminada à luz elétrica, instalada a 12 de
janeiro de 1907, com grandes festejos populares, e por iniciativa da
Câmara Municipal presidida pelo farmacêutico sr. José Manso Pereira
Cabral. (...) Possui a cidade um Instituto de Educação secundária
equiparado ao Ginásio Nacional. Itajubá tem três igrejas (...). Tem o
lugar um cemitério que era pequeno, mas que vem sendo aumentado
(...) Contava a cidade cerca de 450 casas, das quais 59,
seguramente, feitas nos últimos 10 anos; tem um bom teatro com o
nome de Santa Cecília (...), uma cadeia com acomodações para 20
presos, tendo no pavimento superior sala para as sessões do júri e da
municipalidade; uma praça de mercado (...), pretendendo-se
substituí-la por um edifício melhor (...), tinha banda de música boa (...)
As ruas são bem calçadas (...) Nos subúrbios da cidade existem
fontes de água boa, havendo em diversas casas cisternas. (...) Em
1884, fora fundada na cidade, a Biblioteca Machado de Assis (...)
Havia então na cidade uma “Sociedade Dramática”, a loja maçônica
“Deus e Humanidade”, 2 tipografias, colégios, fábricas e outros
30
melhoramentos locais” .
Pouso Alegre também contava com energia elétrica desde 1907 e tinha,
segundo o anuário, o melhor teatro do sul de Minas, com capacidade para quase 1000
pessoas. Era sede da diocese, com uma catedral para cerca de 3000 pessoas, e, em
1904, havia sido inaugurado o Ginásio Nacional, com cursos superiores de medicina,
direito, engenharia, seminário maior, farmácia e odontologia31. Interessante notar a
referência às mudanças ocorridas na cidade após a proclamação da República:
Depois da República, foi grande a transformação material e moral
operada em Pouso Alegre: a comarca subiu de entrância, criou-se a
diocese católica, fundaram-se seminário, catedral, colégios e fábricas;
apareceram jornais novos, foi instalada a iluminação elétrica, e
32
estendeu-se por maior área a cidade .
De maneira geral, é recorrente a presença de teatros, praças, igrejas, hospitais,
colégios, ferrovias e bondes, hotéis, calçamento, iluminação pública e outras
características citadinas nas descrições das cidades sul-mineiras apresentadas no
documento. Apesar do caráter impressionista de muitas dessas descrições, elas são
ilustrativas do processo de urbanização que estava em curso na região combinado
com o avanço da indústria, das ferrovias e dos bancos33.
Mas afinal, qual é o impacto da formação de suposto novo mundo urbano na
construção das relações capitalistas no Sul de Minas? As mudanças quantitativas e
qualitativas apontadas acima indicam o fortalecimento do mundo urbano, das
30
Idem. Idem. pp.518-23.
Idem. Idem. pp.844-58.
32
Idem. Idem. pp.845-6.
33
SAES, Alexandre Macchione, COSENTINO, Daniel do Val, SILVA, Marcel Pereira da,
GAMBI, Thiago Fontelas Rosado Gambi. Sul de Minas em transição... Op.Cit.
31
17
atividades comerciais citadinas, e da necessidade de construção de aparatos políticos
que sustentassem os municípios. Portanto, a urbanização de transição para o século
XX possui um significado ainda mais particular do que aquele presente nos sinais de
modernidade existentes nas origens de Minas Gerais, de sua “vocação urbana”.
Apesar de a Província durante os séculos XVIII e XIX ser “a região mais urbanizada e
populosa do Brasil”, com níveis de urbanização e dinâmica demográfica que poderia
ser ressaltada em comparação com o padrão urbano do conjunto do Novo Mundo e da
Europa34, isto não garantia a superação das amarras escravistas e coloniais na
construção de um mercado interno pleno.
Essas condições emergiam na construção do mundo urbano moderno de início
do século XX, permeado pela crescente monetarização das atividades econômicas,
pela incorporação das técnicas e padrões de consumo modernos, resultantes da
Segunda Revolução Industrial. O crescimento do número de cidades e de suas
populações, a formação da malha ferroviária e a formação de bancos e indústrias
indicam que a região seguia os rumos da integração da economia brasileira com o
mercado externo, internalizando as relações capitalistas para seu território.
Mas o que permite considerar o Sul de Minas com essa dinâmica própria, e por
isso, pensar em sua regionalização e urbanização, é uma certa homogeneidade no
perfil das cidades e a intensidade das transformações econômicas do período. A
região, não há dúvidas, integrou-se no mercado capitalista nacional, mas
diferentemente da Zona da Mata e Central, não conseguiu criar uma plena
hierarquização de suas cidades. Permaneceu com um perfil citadino muito próximo:
pequenas
e
medianas
cidades,
mercados
consumidores
restritos
e,
conseqüentemente, atividades econômicas de caráter local. Por isso um grande
número de indústrias, mas pequenas. Por isso um grande número de bancos, mas
também pequenos. Assim, as relações econômicas capitalistas avançavam, mas
vagarosamente (e com uma intensidade limitada).
2ª PARTE – A DINÂMICA BANCÁRIA DE MINAS GERAIS E OS BANCOS DO SUL
DE MINAS
34
PAULA, João Antônio de. “Urbanização e modernização em Minas Gerais”. Relatório de
pesquisa Urbanização e Formação do Mercado Interno em Minas Gerais 1831-1930. Belo
Horizonte: FAPEMIG/UFMG, 2007. p.39; p.42.
18
3. Bancos e desenvolvimento econômico***
Para uma economia industrial, assalariada e capitalista, os estudos que tentam
descobrir as relações entre bancos e desenvolvimento econômico indicam que, do
ponto de vista macroeconômico, o sentido mais geral dessas instituições é promover o
crédito e o desenvolvimento da economia. A literatura que trata da relação entre
bancos e desenvolvimento é vasta, mas, freqüentemente, não consegue fugir da
circularidade dessa relação, pois nela se firmam duas visões predominantes que
estabelecem relações de causa e efeito simetricamente opostas. Enquanto uma visão
aponta a expansão dos bancos como efeito, a outra aponta tal expansão como causa
do
desenvolvimento
econômico.
Hugh
Patrick
chamou
essas
duas
visões
35
predominantes de demand following e supply leading . Entre elas, estão as visões
que tentam negar a relação entre bancos e desenvolvimento econômico36 e as que
tentam mostrar que essa relação seria total, quer dizer, por mais que se quisesse, não
seria possível estabelecer o sentido da relação de causa e efeito, uma vez que o
processo que leva ao desenvolvimento econômico seria duplamente determinado.37
Embora muitos economistas privilegiem o demand following na explicação do
desenvolvimento econômico,38 os estudos de história econômica têm sugerido o
supply leading como fator importante para promovê-lo. Joseph Schumpeter foi um dos
primeiros estudiosos do tema a relacionar explicitamente sistema bancário e
desenvolvimento econômico.39 Bancos, crédito, empresário e inovação são pilares de
sua teoria do desenvolvimento econômico. Não cabe aqui entrar em detalhes da teoria
schumpeteriana, vale dizer apenas que o crédito fornecido pelos bancos é visto como
condição para que o empresário, agente da inovação, possa concretizá-la. Assim, a
disponibilidade de crédito estaria na base do desenvolvimento econômico.
Inspirado em Schumpeter e em pesquisas empíricas, Rondo Cameron
comparou processos de industrialização em diferentes países e notou que o traço
comum do início da industrialização em todos eles era o relacionamento entre bancos
***
Reprodução parcial do capítulo publicado em SAES, Alexandre e LOBATO, Marcos. Sul de
Minas em transição: a formação do capitalismo na passagem para o século 20. Bauru: Edusc,
2012.
35
PATRICK, Hugh. Financial Development and Economic Growth in Underdeveloped
Countries. Economic Development and Cultural Change, v.14, n.2, jan.1966. pp.174-7.
36
MODIGLIANI, Franco e MILLER, Merton H. The Cost of Capital, Corporation Finance and the
Theory of Investment. American Economic Review, 48, 1958. pp. 261-97.
37
GOLDSMITH, Raymond. Financial Structure and Development. New Haven: Yale University
Press, 1969.
38
ROBINSON, Joan. The Model of An Expanding Economy. The Economic Journal, v.62,
n.245, mar.1952. pp.42-53.
39
SCHUMPETER, Joseph Alois. Teoria do desenvolvimento econômico :uma investigação
sobre lucros, capital, crédito, juro e o ciclo econômico. São Paulo: Abril Cultural, 1982. Cap.1.
19
e indústrias.40 O crédito ligava o setor financeiro ao produtivo, sendo condição
importante
para
o
desenvolvimento
tecnológico
do
processo
produtivo
e,
conseqüentemente, para o incremento da produção. Na mesma linha, o estudo
clássico de Alexander Gerschenkron destacou o papel desempenhado pelos bancos,
particularmente pelos bancos de investimento, que privilegiavam o risco e o
investimento em longo prazo, possibilitando o desenvolvimento industrial nos países
atrasados ao suprir sua demanda por crédito.41 O estudo de Patrick já referido, que
relaciona desenvolvimento financeiro e econômico, corrobora parcialmente a
conclusão de Gerschenkron. Segundo ele, o supply leading predominaria nos estágios
iniciais do processo de industrialização. Contudo, uma vez que a economia atingisse
um estágio de maturidade, passaria a predominar o demand following.
No caso da França, Jean Bouvier chamou atenção para o papel dos bancos
comerciais e dos banqueiros privados no início da industrialização do país e apontou
que, embora privilegiassem o comércio, os bancos organizaram o sistema de crédito
francês construindo o caminho rumo ao desenvolvimento econômico.42 Em suma, seja
em países atrasados ou avançados, seja como demand following ou supply leading, os
estudos de história econômica apontam forte ligação entre bancos, processos de
industrialização e desenvolvimento econômico.
A relação entre bancos e desenvolvimento econômico também aparece na
historiografia brasileira. Flávio Saes, ao observar a realidade brasileira e compará-la
com a de outros países apoiando-se nos estudos de Cameron e Gerschenkron, propôs
a hipótese geral de que, a priori, não se pode atribuir um papel determinado ao crédito,
e por extensão aos bancos, no processo de desenvolvimento econômico.43 Esse papel
dependeria da especificidade de cada processo. É nesse sentido que Bárbara Levy e
Ana Maria Ribeiro de Andrade afirmaram a especificidade da relação entre Estado,
moeda e crédito nas colônias da América do Sul. Como colônias de exploração, a
gestão monetária e creditícia se realizava no âmbito do grande comércio internacional,
subordinado no século XIX à hegemonia inglesa. Dessa maneira, as instituições
40
CAMERON, Rondo. Banking in the Early Stages of Industrialization. A Study in Comparative
Economic History. Nova York: Oxford University Press, 1967. pp.7-10.
41
GERSCHENKRON, Alexander. Economic backwardness in historical perspective: book of
essays. Cambridge: Harvard University Press, 1962. Introdução.
42
BOUVIER, Jean. Relaciones entre sistemas bancarios y empresas industriales en el
crecimiento europeu del siglo XIX. In: VILLAR, Pierre et al. La Industrialización Europea.
Estadios y tipos. Barcelona, Ed. Crítica, 1981. p.146.
43
SAES, Flávio Azevedo Marques de. Crédito e bancos no desenvolvimento da economia
paulista 1850-1930. São Paulo: IPE/USP, 1986.
20
financeiras
coloniais,
e
mesmo
pós-coloniais,
estariam
mais
ligadas
ao
44
desenvolvimento econômico externo do que interno.
Contudo, a historiografia regional aponta o dinamismo interno e a diversificação
da economia mineira no século XIX.45 Como veremos, a criação de bancos em Minas
Gerais ganha impulso no final da década de 1880 e início da década de 1890. Já os
bancos do Sul de Minas especificamente, se desenvolveram especialmente a partir da
década de 1910, quando a economia brasileira, ainda que voltada para fora, procurava
timidamente criar instituições que pudessem sustentar sua dinâmica econômica
interna, bancos inclusive. Como apontou Saes, o papel do crédito, e, por extensão,
dos bancos, no processo de desenvolvimento econômico depende da especificidade
de cada processo. Nesse sentido, torna-se relevante aprofundar o estudo dos bancos
do Sul de Minas para entender a especificidade de seu processo de desenvolvimento
econômico.
4. Bancos em Minas Gerais****
“Ser mineiro é vender queijos e possuir bancos” diz um dos trechos do texto
famoso de Fernando Sabino. Porém, de certa maneira, a expansão dos bancos
mineiros se fez tardiamente, somente depois da abolição da escravidão, em 1889, e
bem depois da consolidação da produção de café na Zona da Mata, em torno de 1850.
As primeiras notícias de bancos em Minas remontam à caixa filial do Banco do
Brasil estabelecida em Vila Rica ainda em 1819. Depois dela, foi criada uma caixa
econômica em Ouro Preto, em 1838, e uma nova caixa filial do Banco do Brasil, em
1856. Essa caixa foi a única criada por iniciativa do próprio banco e com capital
próprio. Todas as suas outras caixas filiais eram originárias de instituições particulares
já existentes nas províncias. As operações dessas caixas refletiam, em alguma
medida, a dinâmica do comércio em suas respectivas províncias. As operações da
caixa de Ouro Preto eram as menores dentre todas as caixas do banco, menores
44
LEVY, Maria Bárbara e ANDRADE, Ana Maria Ribeiro de. A gestão monetária na formação
do Estado Nacional. In: Revista Brasileira de Mercado de Capitais, v.6, n.17, mai/ago., 1980.
pp.138-153.
45
Cf., por exemplo, IGLÉSIAS, Francisco. Política econômica do governo provincial mineiro,
1835-1889. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1958; LENHARO, Alcir Lenharo. As
tropas da Moderação - O abastecimento da Corte na formação política do Brasil — 1808-1842.
São Paulo: Edições Símbolo, 1979; MARTINS, Roberto. A economia escravista de Minas
Gerais no século XIX. Belo Horizonte: Cedeplar/UFMG, 1980.
****
Reprodução parcial de capítulo publicado em SAES, Alexandre e LOBATO, Marcos. Sul de
Minas em transição: a formação do capitalismo na passagem para o século 20. Bauru: Edusc,
2012.
21
inclusive do que as do Maranhão ou Pará, o que sugere uma economia provincial
menos dinâmica ou mais dependente da Corte do que a de outras províncias.46
Talvez por isso mesmo, até 1887, seriam criados apenas mais quatro bancos
na província, um na cidade de Paraopeba e os demais na própria região de Ouro Preto
e em São João del Rey. Em 1887, foram criadas a Caixa Econômica de Ouro Preto e
o Banco Territorial e Mercantil em Juiz de Fora. Antes da abolição, Minas contava com
nove bancos concentrados na região de Ouro Preto e São João del Rey. A Zona da
Mata, que será a região bancária mais importante de Minas na primeira década
republicana, contava nessa altura com apenas um banco. Hasenbalg e Brigagão
chegam a afirmar que a atividade bancária em Minas durante o império foi quase
inexistente.47
O reduzido número de bancos e sua concentração espacial levaram
Mascarenhas e Albino a localizar a origem do sistema bancário mineiro somente no
contexto do surto industrial experimentado pela região da Mata nas duas últimas
décadas do século XIX.48 A marca dessa origem seria o Banco de Crédito Real
estabelecido em 1889 na cidade de Juiz de Fora, Zona da Mata. Com isso, os autores
sugerem uma relação entre o surto industrial e a origem dos bancos mineiros. No
entanto, ao considerar a atividade bancária pré-abolição, Bastos sustenta que o final
do século XIX, mais do que de origem, foi um momento de expansão dos bancos
mineiros e, junto com Pires, defende que o capital direcionado para tais bancos nesse
momento não estava ligado ao surto industrial, mas à agricultura, sobretudo à
produção de café.49 O surto industrial teria servido apenas para expandir e estruturar
uma atividade que já era comum entre fazendeiros da região que ia de São João del
Rey a Juiz de Fora.
Lima, ao negar o vínculo exclusivo da indústria e, por extensão, dos bancos,
com a economia cafeeira em Minas, indica outras perspectivas para a origem do
46
GAMBI, Thiago Fontelas Rosado. Centralização política e bancos regionais no II Império: o
caso da caixa filial do Banco do Brasil em Minas Gerais. In: Anais do XVI Encontro Regional de
História – ANPUH-MG. XVI Belo Horizonte: Encontro Regional de História, 2008.
47
HASENBALG, Carlos A. e BRIGAGÃO, Clóvis. O setor financeiro no Brasil: aspectos
históricos. Rio de Janeiro: Dados, 1970.
48
ALBINO, Washington. Perspectivas Atuais da Economia Mineira. In: II Seminário de Estudos
Mineiros. UFMG, Belo Horizonte, 1957; MASCARENHAS, Nelson Lage. Bernardo
Mascarenhas. O surto industrial de Minas Gerais. Rio de Janeiro: Ed. Aurora, 1954.
49
BASTOS, Claúdio de Albuquerque. Op.Cit.; PIRES, Anderson. Capital agrário, investimentos
e crise na cafeicultura de Juiz de Fora – 1870/1930. Dissertação de Mestrado – UFF – Niterói,
1993.
22
capital dos bancos mineiros, embora não as aponte.50 Outras perspectivas já trilhadas
por Hasenbalg e Brigagão ao sugerirem que a principal fonte do capital bancário foi o
capital comercial, sobretudo o de pequenos e médios comerciantes do interior do
estado.51 Wirth segue essa linha ao indicar que a expansão dos bancos mineiros
estava ligada à expansão do comércio numa economia em desenvolvimento.52 Já
Maurício Borges, citado por Costa, deixa o comércio e enfatiza, a partir do exemplo de
uma casa bancária do Sul de Minas, que o capital dos bancos mineiros surgiu do
avanço das relações de crédito entre grandes e pequenos proprietários.53
As interpretações divergentes sobre a origem do capital bancário mineiro
parecem encobrir que até o final do século XIX eram os bancos do Rio de Janeiro que
ofereciam seus serviços aos clientes mineiros. Dessa maneira, segundo Iglésias, os
bancos da capital abafavam o surgimento de bancos em Minas e canalizavam
recursos mineiros para o Rio de Janeiro. Como sintetiza Wirth, o isolamento entre os
centros comerciais de Minas, a ausência de uma saída para o mar e a ligação entre os
produtores de café e os bancos do litoral contribuíam para reforçar tal movimento.54
Por isso, independentemente da origem de seu capital, a criação de bancos em
Minas no final do XIX significou um rompimento do canal que levava os recursos
mineiros para os bancos do Rio de Janeiro. Daí o interesse de governantes mineiros
em estimular o estabelecimento de bancos em Minas com agências nos centros
exportadores.55 A partir dessa época, a expansão dos bancos em Minas segue o ritmo
do desenvolvimento econômico do estado, com picos no próprio final do século XIX,
em meados da década de 1910 e, sobretudo, na década de 1920 (Gráfico 1).
50
LIMA, João Heraldo. Café e indústria em Minas Gerais (1870-1920). Dissertação
Mestrado – Unicamp – Campinas, 1977.
51
HASENBALG, Carlos A. e BRIGAGÃO, Clóvis. O setor... Op.Cit.
52
WIRTH, John. O fiel da balança: Minas Gerais na federação brasileira (1889-1937). Rio
Janeiro: Paz e Terra, 1982.
53
COSTA, Fernando Nogueira da. Bancos em Minas Gerais (1889-1964). Dissertação
Mestrado – Unicamp - Campinas, 1978.
54
IGLÉSIAS, Francisco. Política econômica… Op.Cit.; WIRTH, John. O fiel... Op.Cit.
55
PIRES, Anderson. Capital agrário... Op.Cit.; WIRTH, John. Minas e a nação: um estudo
poder e dependência regional (1889-1937). In: O Brasil republicano. São Paulo: Difel, 1975.
de
de
de
de
23
Gráfico 2 - Nº de Bancos Criados em Minas Gerais entre 1889 e 1930
(por data de criação do banco)
Fonte: BASTOS (1997) e COSTA (1978).
De maneira sucinta, a expansão bancária verificada entre o final de década de
1880 e o início da década de 1890 corresponde à liberação de capitais decorrente da
abolição da escravidão e ao transbordamento de recursos acumulados na produção
cafeeira da Mata para a atividade bancária.56 A crise da cafeicultura de meados da
década de 1890 interrompe o ritmo de criação de bancos até o início da década de
1910.
Bastos chega a afirmar que nenhum banco foi criado em Minas Gerais entre
1896 e 1909.57 De fato, os bancos que aparecem no gráfico em 1897 e 1903 são, na
verdade, bancos já existentes que foram reinaugurados na recém-construída Belo
Horizonte. Já a instituição financeira apontada em 1907 é uma cooperativa de crédito
fundada em Miraí, cidade da Zona da Mata, que funcionava como banco. Ou seja, a
rigor nenhum banco foi criado em Minas no período destacado por Bastos.
5. Bancos no sul de Minas Gerais
Depois de um período sem criação de bancos, o início da década de 1910
experimenta não só o aumento do ritmo da expansão bancária mineira, como a
mudança da direção dessa expansão. Se no período anterior, prevaleceram os bancos
criados na Zona da Mata, agora a expansão bancária segue rumo à nova capital e ao
Sul de Minas. Na década de 1920, quando o desenvolvimento dos bancos em Minas é
mais marcante, a liderança do estado no setor bancário se consolida (Gráficos 2 e 3).
Costa associa o aumento do ritmo da expansão bancária mineira à transição de uma
56
BASTOS, Claúdio de Albuquerque. Instituições... Op.Cit.; PIRES, Anderson. Capital agrário...
Op.Cit.; Idem. Café, finanças e bancos: uma análise do sistema financeiro da Zona da Mata de
Minas Gerais: 1889/1930. Tese de Doutorado – USP – São Paulo, 2004.
57
Idem. Idem.
24
economia agro-exportadora para uma economia de tipo capitalista, em que seria
inevitável a separação do capital bancário, industrial e comercial. Para ele, é como se
as diversas “faces do capital cafeeiro” fossem se libertando e autonomizando. Se
antes o financiamento provinha do capital cafeeiro, agora o fracionamento desse
capital, sua libertação e separação em diversos setores, exige a expansão do sistema
bancário no país para promover o movimento inter-setorial do capital. Numa
perspectiva mais abstrata seria essa a explicação para a expansão bancária do Sul de
Minas na segunda década do século XX.
Mais concretamente, o mesmo autor associa tal expansão às condições
econômicas reais da região à época. Assim, considera também a coincidência da
criação de bancos em áreas cafeeiras do Sul de Minas, mas segue a hipótese de
Hasenbalg e Brigagão de que foram as atividades econômicas geradas indiretamente
pela economia do café que explicam a expansão.58 Demand following ou supply
leading?
Para esses autores, demand following. Costa chega a afirmar que essa
hipótese poderia ser confirmada pelo tipo de crédito oferecido pelos bancos mineiros,
o desconto de letras, crédito tipicamente comercial. No entanto, é preciso lembrar que
esse tipo de crédito, embora fosse de fato mais adequado para o comércio, pois
geralmente era de curto prazo, também acabava sendo usado como crédito de longo
prazo para atender à demanda da lavoura.59 “Corre pela cidade a notícia de que
alguns cavalheiros cogitam a criação de um estabelecimento deste gênero [casa
bancária] entre nós, a fim de auxiliar o desenvolvimento da lavoura e do comércio”60,
dizia em primeira página o jornal A Justiça, da cidade de São Gonçalo do Sapucaí. A
afirmação feita pouco antes do início da década de 1920 aparentemente corrobora o
demand following. A lavoura e o comércio existentes precisavam dos bancos para se
dinamizar e os bancos surgem no período seguinte para atender a essa demanda na
região.
O movimento de expansão dos bancos mineiros em direção ao Sul de Minas
coincide também com o movimento mais geral da economia brasileira em que a
economia fluminense começa a perder importância relativa frente à economia paulista.
Se inicialmente os bancos da Zona da Mata se desenvolvem num espaço ligado
economicamente ao Rio de Janeiro, agora é o setor financeiro do Sul de Minas que
58
COSTA, Fernando Nogueira da. Bancos... Op.Cit.
Cf. TRINER, Gail. Banking and Economic Development: Brazil, 1889-1930. New York:
Palgrave MacMillan, 2000.
60
A Justiça, 26 de janeiro de 1919.
59
25
passa a se desenvolver com mais vigor num espaço economicamente ligado a São
Paulo. A mudança do eixo da economia nacional do Rio de Janeiro para São Paulo
parece ser elemento importante para explicar a ascensão dos bancos nessa região.
Gráfico 3 – Nº de Bancos Criados
no Sul de Minas e na Zona da
Mata (1889-1908)
Gráfico 4 – Nº de Bancos Criados
no Sul de Minas, na Zona da Mata
e em Belo Horizonte (1909 -1930)
Fonte: BASTOS (1997) e COSTA (1977)
É também na década de 1920 que cresce significativamente o número de
agências bancárias espalhadas por Minas. São os novos bancos fundados nesse
período que irão investir na criação de uma rede de agências no estado (Tabela 1).
Como boa parte desses bancos foi criada no Sul de Minas, é lícito supor que a região
contasse com razoável rede de atendimento bancário. Por exemplo, o Banco
Hipotecário e Agrícola de Minas Gerais, fundado em 1911, tinha agências em
Varginha, São Sebastião do Paraíso, Guaxupé, Formiga, Barbacena, Araguari,
Curvelo, Muriaé, Carangola e Ubá. O Banco do Brasil era mais antigo do que o
Hipotecário e Agrícola, mas também ampliou o número de agências nessa época61 e,
em Minas, contava com agências em Juiz de Fora, Cataguases, Carangola, Uberaba,
Três Corações e Varginha. Dos bancos estudados especificamente nesta pesquisa,
apenas o Banco Comercial de Alfenas possuía agências, todas no sul de Minas:
Machado, Cabo Verde, Campos Gerais e Três Pontas.
61
PACHECO, Cláudio. História do Banco do Brasil. Brasília: Banco do Brasil, 1979. v.4. Para
as agências de ambos os bancos, cf. figuras 2 e 3.
26
Tabela 1 – Estabelecimentos Bancários em Funcionamento em Minas Gerais em
1925
Data de inauguração
Matrizes Agências
Total
Antes de 1891
1
-
1
1891-1900
-
3
3
1901-1910
1
2
3
1911-1920
10
33
43
1921-1925
30
35
65
Fonte: COSTA (1978).
O padrão da expansão dos bancos é semelhante ao padrão da expansão
industrial no Sul de Minas. Segundo dados do censo industrial de 1907, a região
contava com muitos estabelecimentos industriais. No entanto, de maneira geral, eram
estabelecimentos pequenos, com baixo número de trabalhadores por unidade
produtiva, volume de capital e produção em relação às indústrias de outras regiões de
Minas.62 No caso dos bancos, repete-se o padrão disperso, com estabelecimentos
pequenos e baixo volume de capital. Por isso, vale ressaltar que, apesar da mudança
da direção da expansão bancária, o grosso das operações bancárias estava
concentrado em poucos grandes bancos, nenhum deles localizado no Sul de Minas. O
banco Hipotecário e Agrícola e o banco Comércio e Indústria, ambos de Belo
Horizonte, e o banco de Crédito Real, de Juiz de Fora, por exemplo, abocanhavam
juntos cerca de 90% dos depó sitos em conta corrente de Minas entre 1920 e 1925.63
Em que pese o grau de concentração indicado por esse dado, a expansão bancária do
Sul de Minas no período não deixa de refletir que algo se passava com a economia
daquela região. A localização geográfica dos bancos do Sul de Minas fornece algumas
pistas nesse sentido. A interação entre as economias do Sul de Minas e de São Paulo
não pode ser desprezada da dinâmica da expansão bancária regional. É interessante
notar que os bancos sul-mineiros criados nas décadas de 1910 e 1920 se
concentraram nos arredores de Varginha ou se dispersaram ao longo de uma linha
que acompanhava a borda paulista, nos arredores de Gauxupé e Pouso Alegre. Os
bancos criados na região na década de 1910 já se enfileiravam próximos às cidades
62
SAES, Alexandre Macchione, COSENTINO, Daniel do Val, SILVA, Marcel Pereira da,
GAMBI, Thiago Fontelas Rosado Gambi. Sul de Minas em transição... Op.Cit.
63
COSTA, Fernando Nogueira da. Bancos... Op.Cit.
27
paulistas e os da década seguinte reforçaram a expansão bancária em direção a São
Paulo.
Se considerássemos também os dados de produção de café e produção
industrial da região e os cruzássemos com a localização dos bancos no Sul de Minas,
notaríamos que as principais cidades produtoras de café da região em 1927 e que, ao
mesmo tempo, tinham alguma produção industrial em 1907, tiveram algum banco
criado entre 1909 e 1927 (Tabela 2). Além disso, a Mogiana e a Rede Sul Mineira
levavam o trem à maioria dessas cidades.
Tabela 2 – Principais Cidades Produtoras de Café do Sul de Minas em 1927 com
alguma Produção Industrial apontada em 1907
Ano de
fundação
Banco
Local
1909
1915
1917
1918
1921
1921
1921
1922
1922
1922
1922
1924
1924
1924
1925
1925
1925
1927
1927
Banco de Guaxupé
Casa bancária Alves Pereira e Cia
Banco Santaritense
Banco de Monte Santo SA
Casa bancária Campos Lima e Cia
Casa bancária Alves Pereira e Cia
Banco Machadense
Casa bancária Odilon Freire e Cia
Ferreira Alves e Cia Ltda
Banco J.O. Rezende e Cia
Casa bancária Lima, Bernardes, Forli e
Banco Popular do Sul de Minas
Banco Comercial e Agrícola A.C. Pinho e
Casa bancária Alves Lima e Cia
Casa bancária Tavares, Monteiro e Cia
Banco da Varginha - Dias Ferreira e Cia
Banco Comercial e Agrícola de Varginha
Casa bancária Bernardino Nantes
Banco Comercial e Agrícola Soc. Ltda
Guaxupé
Guaranésia
Santa Rita do Sapucaí
Monte Santo
Guaranésia
Guaranésia
Machado
Guaranésia
Guaxupé
São Sebastião do
Monte Santo
Santa Rita do Sapucaí
São Sebastião do
Monte Santo
Guaranésia
Varginha
Varginha
Monte Santo
São Sebastião do
Fonte: COSTA (1978); DINIZ (1981); BASTOS (1997).
De maneira muito geral, a tabela aponta uma interessante correlação entre
café, indústria, ferrovias e bancos no Sul de Minas. Mais do que criar condições
favoráveis ao investimento inicial da cafeicultura e da indústria, talvez os bancos
tenham vindo para essa região em busca das oportunidades geradas por essas
atividades, como sugere Wirth para o caso de Minas em geral, seguindo uma possível
28
demanda por crédito e outros serviços financeiros.64 A agência de Alfenas do Banco
Hipotecário e Agrícola, por exemplo, em anúncio de primeira página publicado no dia
1º de novembro de 1931, recomendava aos interessados que não negociassem seu
café sem antes consultar o banco, pois oferecia crédito para o financiamento desse
comércio. Além da produção cafeeira e industrial, não se pode ignorar o comércio de
outros bens como fonte geradora dessa demanda. A mesma agência também publicou
a oferta de cartas de crédito para os negócios de gado no triângulo mineiro e em
Goiás65.
Além dos bancos criados nessas cidades, outras que não se destacavam tanto
na produção cafeeira ou industrial também tinham suas instituições financeiras. Entre
1909 e 1930, foram criados trinta e cinco bancos no Sul de Minas.66 Com o intuito de
apenas organizar sua distribuição na região, podemos localizá-los em três subregiões,
a saber, Varginha, Guaxupé e Pouso Alegre (Gráfico 4).
Gráfico 5 - Nº de Bancos Criados no Sul de Minas Gerais entre 1909 e 1930
(por subregião e município)
Fonte: BASTOS (1997) e COSTA (1978).
A informação do número de bancos criados no Sul de Minas entre 1909 e 1930
também indica a relação entre essas instituições financeiras e a produção de café. Na
região de Pouso Alegre, são dois bancos criados em Santa Rita do Sapucaí; na região
de Varginha, também são dois bancos criados no município de mesmo nome; e,
finalmente, na região de Guaxupé, destacam-se claramente as cidades de
Guaranésia, Monte Santo, São Sebastião do Paraíso, Arceburgo e Guaxupé.
64
WIRTH, John. O fiel... Op.Cit.
Para o café: O Alfenense, 1º de novembro de 1931. As condições eram 180 dias de prazo e
12% de juros. Para o gado: O Alfenense, 28 de fevereiro de 1932.
66
Vale lembrar que não estamos considerando a seção bancária União Comercial em
Guaranésia por não termos a data de sua criação.
65
29
A dinâmica da criação de bancos e sua localização no Sul de Minas ajudamnos a dar um passo além das informações anteriores e também indicam,
aparentemente, a correlação entre bancos, café, ferrovias e integração econômica
com São Paulo. Contudo, tal indicação ainda precisa ser confirmada com pesquisas
empíricas específicas em cada cidade. A seguir, falaremos um pouco dos bancos de
cada subregião, a fim de nos aproximarmos mais concretamente do objeto deste
trabalho. Apenas indicamos quais são esses bancos e algumas de suas
características, tal como apontadas no trabalho de Bastos, exceção feita aos bancos
do município de Varginha, para os quais há informação original. Buscamos com isso
construir uma espécie de mapa específico dos trinta e cinco bancos do Sul de Minas
criados entre 1889 e 1930.
3ª PARTE – AS CIDADES E OS BANCOS NO SUL DE MINAS (1817-27)
6. Bancos na região de Varginha
Varginha aparece no rol das cidades que contavam com produção industrial e
de café, e apareceria também entre aquelas que eram servidas pelas linhas do
transporte ferroviário. Para José Roberto Salles, a cidade viveu sua belle époque entre
1881 e 1913, período em que alcançou o status de cidade, em 1882; experimentou a
expectativa de mudança social com a abolição da escravidão, em 1888; foi elevada à
condição de sede de comarca, em 1890; viu chegar a estrada de ferro, em 1892, e, no
final do século XIX, os imigrantes italianos.67
Foi nesse quadro que, entre as décadas de 1910 e 1920, a cidade recebeu
suas primeiras agências bancárias, embora, segundo Rubião, a lavoura e o comércio
de Varginha já demandassem antes disso a abertura de um estabelecimento de
crédito na cidade. O autor do Álbum da Varginha considerava admirável o fato de uma
cidade “com uma pletora enorme de capitais, com um recorgitamento crescente de
economias, com um vai-vem contínuo de transações, sustentar toda uma enorme
circulação fiduciária sem uma casa bancária”.68
No entanto, isso não quer dizer que não havia serviços financeiros disponíveis
na cidade antes da abertura de suas primeiras agências. Bancos e casas comissárias
67
SALLES, José Roberto. Espírito Santo da Varginha (1763-1920). Varginha: Gráfica Editora
Sul Mineira, 2003.
68
RUBIÃO, José Luiz Álvares. Álbum da Varginha. Varginha: Casa Maltese, 1919. Apud
SALLES, José Roberto. Espírito… Op.Cit.
30
de outras regiões atendiam àquela demanda. Por exemplo, um anúncio do Banco
Popular de Minas Gerais, cuja sede ficava em Belo Horizonte, oferecia serviços
financeiros em Varginha, inclusive os de sua agência bancária no Rio de Janeiro
(Figura 1). Interessante notar que, nesta praça, os serviços contemplavam
armazenagem e comissões para venda de café e cereais em geral.69
Figura 1 – Banco Popular de Minas Gerais
Fonte: O Momento, 12 de agosto de 1917.
Rubião considerava um fenômeno econômico curioso o fato de Varginha não
possuir bancos ou agências bancárias, a despeito da grande circulação fiduciária. Mas
era pensando na fidúcia que o autor constatava que tal fenômeno
só pode ser explicado pela confiança ilimitada que gozava [sic]
a praça da Varginha, pela firmeza do crédito de nossos
fazendeiros, que jogavam e moviam grandes capitais apenas
com a sua palavra, transações enormes desdobravam-se neste
município, sem documento algum, sem a menor formalidade do
timbre comercial.70
As palavras de Rubião trazem implícita a informação de que os serviços
financeiros demandados pela lavoura e pelo comércio varginhense eram realizados
em outras praças. A “pletora enorme de capitais” de Varginha só foi capaz de atrair
uma instituição financeira para o município em 1915. Era uma agência do banco
Hipotecário e Agrícola do Estado de Minas Gerais, cuja sede também ficava na capital
69
BASTOS, Cláudio de Albuquerque. Instituições... Op.Cit. As figuras apresentadas no texto
fazem parte do acervo particular do Sr. Nico Vidal, de Varginha. O autor agradece à família o
acesso a esse acervo.
70
RUBIÃO, José Luiz Álvares. Álbum... Op.Cit. Apud SALLES, José Roberto. Espírito… Op.Cit.
31
(Figura 2). Pouco tempo depois, em 1918, no contexto da expansão nacional do
Banco do Brasil, Varginha também receberia uma agência desse banco (Figura 3).
Entretanto, foi Três Corações, cidade vizinha, a primeira a receber uma agência do
Banco do Brasil em Minas Gerais, em 1916. Até janeiro de 1919, eram essas as
agências desse banco na região, mas outra agência estava para ser aberta em
Guaxupé.71
Figura 2 – Banco Hipotecário e
Agrícola de Minas Gerais
Figura 3 – Banco do Brasil, agência de
Varginha
Fonte: O Momento, 31 de agosto de 1919.
Sylvestre Fonseca e J oão Liberal saudavam a chegada das novas agências a
Varginha, considerando-as “elementos propulsionadores [sic] do grande comércio
varginhense” que muito contribuiriam para dar à cidade a primazia comercial da
região. Narravam à época que a cidade contava
com dois magníficos estabelecimentos: - uma agência do
Banco Hipotecário e Agrícola de Minas Gerais, há três anos e
tanto inaugurada, e uma do Banco do Brasil, ambas
luxuosamente instaladas em prédios próprios. Como
mecanismos de operações pouco diferentes, esses dois
bancos, auxiliando muito as transações nesta zona, pela
71
VARGINHA. CÂMARA MUNICIPAL. Varginha, sua história, sua gente. Varginha: Centro de
Processamento de Dados, Arquivo histórico da Câmara Municipal, 1982.
32
facilidade monetária, têm, outrossim, auferido grandes lucros,
porque levam também suas negociações para muito longe do
município.72
Vale lembrar que as loas aos bancos referidos no texto não eram gratuitas.
João Liberal era editor-chefe de O Momento e ambos os bancos eram grandes
anunciantes do seu jornal. Contudo, tais loas eram referendadas por Rubião, para
quem “a criação de uma agência bancária na cidade [Varginha] foi, se assim podemos
exprimir, a maior parcela lançada pelo Destino na ‘conta-corrente’ da história
econômica deste município”.73 Independentemente do interesse particular referido
acima, parecia haver de fato uma demanda local por crédito suficiente para justificar a
abertura dessas instituições financeiras. Inclusive demanda do poder público, pois
numa sessão extraordinária da câmara de Varginha foi aprovada por unanimidade a
autorização para o depósito em conta corrente de fundos municipais no Banco
Hipotecário e Agrícola. O presidente da câmara, major Evaristo Soares, justificava o
pedido de autorização dizendo que assim “ficava o erário municipal a coberto de
qualquer emergência”.74
Por meio dos anúncios de jornal podemos ter uma idéia dos serviços
oferecidos por esses estabelecimentos, cujos mais importantes eram aparentemente o
recebimento de depósitos em conta corrente e o desconto de letras. Chama a atenção
o destaque dado no anúncio do Banco do Brasil à cobrança de faturas de gado e café,
indicando que o banco mirava agropecuaristas da região, tanto em Varginha como em
Três Corações, uma vez que esses eram os principais produtos de exportação desses
municípios.75
As primeiras agências bancárias de Varginha foram abertas, portanto, em
meados da década de 1910. A partir de 1918, a cidade se expandiu e seu comércio se
diversificou, podendo “ser considerado o mais importante do Sul de Minas, pois
importantes casas atacadistas servem as praças de Elói Mendes, Três Pontas, Dores
de Boa Esperança, Campos Gerais, Paraguaçu, Carmo da Cachoeira e Vila
72
FONSECA, Sylvestre e LIBERAL, João. Álbum de Varginha. São Paulo: Pocai e Cia, 1920.
Apud SALLES, José Roberto. Espírito Santo...Op.Cit.
73
RUBIÃO, José Luiz Álvares. Álbum... Op.Cit. Apud SALLES, José Roberto. Espírito… Op.Cit.
74
Cf. Sessão de 26 de março de 1915 in VARGINHA. Atas da Câmara Municipal. p.96.
75
Para gado e café em Varginha, cf. FRADE, P. Diccionario Chorographico e estatistica
chorographica de distancias do estado de Minas Geraes. Imprensa oficial do Estado de Minas
Gerais, 1917. Para gado em Três Corações, cf. ROSA, Elton Rodrigo e SAES, Alexandre
Macchione. Mercando pontual: análise da atuação estatal na formação da feira de gado de
Três Corações (1900-1920). In: Anais do XIV Seminário sobre a economia mineira. Diamantina:
XIV Seminário sobre economia mineira, 2010.
33
Nepomuceno”.76 Em 1924, seriam instaladas na cidade a fábrica de malhas Colibri e a
cervejaria Ártica. Talvez não seja coincidência, então, que os primeiros bancos da
cidade, o Banco de Varginha e o Banco Comercial e Agrícola de Varginha, tenham
aparecido em 1925.
As informações sobre o Banco de Varginha ainda são escassas. Sabe-se
apenas que era de propriedade de Dias, Ferreira & Cia, tinha um capital nominal de
1.200:000$, médio para a época e para a região, e que em novembro de 1926 ainda
estava em funcionamento. E não se pode deixar de notar o sugestivo endereço da
instituição: “Rua dos Comissários” (Figura 4).
Já o Banco Comercial e Agrícola de Varginha teve vida mais longa. Funcionou
até outubro de 1943, quando seu ativo líquido foi incorporado ao Banco do Distrito
Federal. No ano de inauguração, seu capital nominal montava a importantes
5.000:000$. Era presidido por Domingos Ribeiro de Resende, deputado estadual eleito
na década de 1920, e sua diretoria era composta por João Otaviano da Veiga Lima,
Paulo Rodrigues Alves, José Bonifácio Caldeira de Araújo e José Rebelo da Cunha.77
A identificação desses dirigentes certamente será um passo importante para
estabelecer o papel dos bancos na economia de Varginha e do Sul de Minas. De
acordo com os balanços desses bancos, suas principais operações eram os depósitos
em conta corrente e o desconto de letras (Figura 5).
Figura 4 – Banco de Varginha
Figura 5 – Banco Comercial e Agrícola de
Varginha
Fonte: Arauto do Sul, 11 de novembro de 1926.
Fonte: Arauto do Sul, 7 de novembro de 1926.
76
77
RUBIÃO, Luiz José Álvares. Álbum... Op.Cit.
BASTOS, Claúdio de Albuquerque. Instituições... Op.Cit.
34
A dispersão e o tamanho dos bancos da região já referidos poderiam sugerir
uma relação mais estreita da origem de seu capital e de suas atividades de
financiamento com o comércio. No entanto, as primeiras informações colhidas sobre o
Banco Comercial e Agrícola não corroboram tal sugestão. A julgar pelo seu capital
nominal, o Banco Comercial e Agrícola de Varginha não era pequeno. Para se ter uma
idéia, dois dos maiores bancos na época, o Banco Comércio e Indústria de Minas
Gerais, de Belo Horizonte, e o Banco de Crédito Real, de Juiz de Fora, tinham capitais
nominais, respectivamente, de 6.000:000$ e 7.000:000$. Em relação aos outros
bancos do Sul de Minas, o capital daquele banco varginhense se destacava. Era maior
do que os 2.000:000$ do Banco Santaritense e do Banco Comercial de Alfenas e bem
maior do que os de outros bancos da região, como os de Machado, Paraguaçu e São
Sebastião do Paraíso, que giravam em torno dos 500$000.78
O Banco Comercial de Alfenas foi fundado em 1918, mas iniciou suas
atividades apenas em 1920. Começou com um capital de apenas 500$000. Em 1924
atingia os 2.000:000$000 e, em 1937, dois anos antes de ser encampado pelo Banco
da Lavoura, chegava a 5.000:000$00079. A principal operação do banco era o
desconto de letras80, mas o banco também recebia depósitos a prazo fixo e em conta
corrente. Seu anúncio dizia que o banco fazia “todas as operações bancárias, exceto
câmbio” (Figura 6).
Figura 6 – Banco Comercial de Alfenas
Fonte:O Alfenense, 3 de novembro de 1931.
Essa informação é interessante, porque destaca uma eventual característica do
mineiro cliente de banco: a desconfiança em relação a letras de câmbio. Uma
78
Idem. Idem.
BASTOS, Cláudio de Albuquerque. Instituições... Op.Cit. p.98.
80
Segundo dados do balancete de outubro de 1931, publicado no jornal O Alfenense, edição
de 3 de novembro do mesmo ano, as operações de empréstimo correspondem a
7.984.656$030 de um ativo total de 15.939.588$010.
79
35
reportagem sobre o Banco da Campanha, publicada em O Campanhense, de 3 de
março de 1929, chamava a atenção para a ideia de que o mineiro tinha um “pavor
inexplicável” a esse tipo de serviço bancário.
O Banco de Campanha, fundado em outubro de 1927, não tinha um ativo tão
robusto quanto o do Comercial de Alfenas. Realizava todas as atividades bancárias,
isto é, fazia empréstimos e recebia depósitos a prazo ou em conta corrente (Figura 7).
Em 1929, seu ativo montava a 3.198.363$420 e as operações de empréstimo, também
se destacando o desconto, alcançavam 2.745.809$380. Na mesma reportagem
referida acima, há um trecho revelador:
O Banco da Campanha está em correspondência com grandes
Bancos nacionais, entre os quais figuram os da praça de Santos que
é conhecida no país e no estrangeiro como uma das praças mais
81
rigorosas nesses delicados assuntos financeiros .
A menção explícita à praça de Santos, conhecida pelas atividades financeiras ligadas
ao café, é mais um indício da relação entre as operações do banco e a produção e o
comércio de café, embora não seja possível comprová-la a partir dos dados coletados
até aqui. Em dezembro de 1938 o banco foi encampado pelo Banco da Lavoura, assim
como será o Comercial de Alfenas um ano depois.
Figura 7 – Banco da Campanha
Fonte: A Campanha, 27 de outubro de 1927.
Enfim, estavam os bancos de Varginha, e de outras cidades da região, ligados
ao café e à indústria ou surgiam para acompanhar a expansão comercial da cidade?
Teria o capital dos bancos de Varginha e região origem no comércio, tal como
apontaram Hasenbalg e Brigagão para os bancos de Minas de maneira geral? É
81
A Campanha, 3 de março de 1929.
36
preciso aprofundar a pesquisa para responder a essas perguntas. As pesquisas
iniciais apontam para a relação entre bancos e café, mas é preciso ir adiante para
melhor qualificar essa relação.
7. Bancos na região de Guaxupé
Na região de Guaxupé, as cidades de Guaranésia e Monte Santo se destacam
pela presença de instituições financeiras. Porém, em Guaranésia, todas elas eram
casas bancárias ou seções bancárias.82 Não temos a data precisa de fundação da
União Comercial, que era uma seção bancária, só sabemos que foi fundada antes de
1910, por isso não a consideramos na contagem de instituições financeiras dessa
cidade e da região. Em 1915, foi fundada como seção bancária a Alves, Pereira e Cia,
que se tornará casa bancária em 1921. Nesse ano surgiu a casa bancária Campos
Lima e Cia. e, no ano seguinte, a casa bancária Odilon Freire. Finalmente, em 1925,
foi aberta a Tavares, Monteiro e Cia. Monte Santo tinha um perfil semelhante ao de
Guaranésia nesse aspecto. Com exceção do Banco de Monte Santo, criado em 1918,
todas as outras instituições financeiras do município eram casas bancárias, a saber, a
casa bancária Lima, Bernardes, Forli e Cia., fundada em 1922; a casa bancária Alves
Lima e Cia., de 1924; e a casa bancária Bernardino Nantes, criada em 1927 e que
será encampada posteriormente pelo Banco de Monte Santo. Andradas e Botelhos
também contavam apenas com casas bancárias, respectivamente, a casa bancária
Monici e Graziani, de 1924, e a casa bancária de Botelhos, de 1922.
Por outro lado, São Sebastião do Paraíso contava apenas com bancos: O
Banco J. O. Resende, criado em 1922 e posteriormente incorporado ao Banco da
Lavoura; o Banco Comercial e Agrícola A. C. Pinho, de Antônio de Carvalho Pinho,
fundado em 1924; e, finalmente, o Banco Comercial e Agrícola Sociedade Limitada
que, na verdade, era o sucesso do banco de Antônio de Carvalho Pinho. Cabo Verde,
Muzambinho e Cássia também contavam com bancos, respectivamente, o Banco de
Cabo Verde, de 1924; o Banco Comércio e Lavoura de Muzambinho, de 1914; e o
Banco de Cássia, de 1925.
Guaxupé contava com os serviços do Banco de Guaxupé, fundado em 1909, e
da casa Ferreira Alves, de 1922. Arceburgo também contava com um banco, o Banco
de Arceburgo, criado em 1924, e com a casa bancária Ferreira, fundada um ano antes.
Finalmente, em Poços de Caldas encontrava-se a seção bancária Moreira Salles e
82
As seções bancárias eram estabelecimentos comerciais que faziam operações típicas de
bancos, como depósitos e empréstimos.
37
Cia. Esta seção se tornará, em 1931, a casa bancária Moreira Salles e,
posteriormente, em 1940, se fundirá com a casa bancária de Botelhos e com o Banco
Machadense para formar o Banco Moreira Salles S/A, embrião do Unibanco S/A.83
8. Bancos na região de Pouso Alegre
Nessa região, Itajubá contava com a seção bancária J. Dias e Cia., de 1924, e
com a casa bancária Cia. Industrial Sul Mineira, de 1912. Entre bancos e casas
bancárias do Sul de Minas, este era o único estabelecimento a se referir à indústria no
nome. Pouso Alegre contava apenas com o Banco de Pouso Alegre S/A, criado em
1928. Já Santa Rita do Sapucaí, cuja produção de café era significativa, contava com
o Banco Santaritense, de 1917, e o Banco Popular do Sul de Minas, de 1924.
Considerações finais
A expansão dos bancos mineiros entre o final do século XIX e início do XX
indica que a economia de Minas Gerais passava por importantes transformações,
demandando crédito em maior quantidade e de melhor qualidade. Tal expansão
certamente contribuiu para o aumento quantitativo do crédito, porém, até 1930, a
economia mineira ainda se ressentiria de financiamento de longo prazo com juros mais
baixos.84 Essa demanda específica e a oferta financeira possivelmente gerada por ela
podem ser consideradas reflexos de uma economia agroexportadora em transição. Ao
mesmo tempo, algo aconteceu na economia mineira ou no contexto mais amplo em
que estava inserida para provocar o deslocamento territorial da expansão bancária
para o Sul de Minas. Entre 1909 e 1930, são criados nessa região bancos e agências
numa proporção maior do que em qualquer outra região do estado.
O mapeamento dos bancos do Sul de Minas e as primeiras informações
coletadas apontam que a região de Varginha demandava serviços financeiros para
atender à demanda da lavoura, sobretudo cafeeira. Para isso, contava inicialmente
com a oferta de bancos de outras regiões e, posteriormente, com duas agências de
bancos de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro, e com dois bancos locais. A região de
Guaxupé se destaca pelo grande número de bancos criados no período. Predomina,
no entanto, a criação de casas bancárias, o que indica associação com a produção
83
RIBEIRO, Benedito e GUIMARÃES, Mário Mazzei. História dos bancos e do
desenvolvimento financeiro do Brasil. Rio de Janeiro: Pró-service, 1967.
84
WIRTH, John. O fiel... Op.Cit.
38
cafeeira. Já na região de Pouso Alegre, chamam a atenção os bancos de Santa Rita
do Sapucaí, município também ligado ao café.
As informações apresentadas brevemente acima sugerem uma correlação
entre café e bancos na região. Contudo, é preciso aprofundar os estudos nesse
sentido, a fim de confirmar tal correlação e verificar que tipo de relação era mantida
pelos dois setores, por meio da documentação específica de cada banco em cada
localidade. O maior obstáculo para a concretização desse trabalho é a falta de
documentos primários sobre os bancos dessas cidades. Embora seja relativamente
nova, com pouco menos de um século de existência, a documentação sobre essas
instituições financeiras é escassa e, certamente, serão necessárias buscas mais
complexas e trabalhosas de documentação, por exemplo, os inventários das pessoas
ligadas a elas.
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Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
43
ANEXO I
Fotos selecionadas do processo de falência do Banco do Sul de Minas
44
ANEXO II
Trabalho de Conclusão de Curso da bolsista Andréa Megda Vieira
UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALFENAS/UNIFAL-MG
ANDRÉA VIEIRA MEGDA
UMA ANÁLISE HISTÓRICA DOS BANCOS DO SUL DE MINAS
GERAIS (1900-1930)
VARGINHA/MG
2012
45
ANDRÉA VIEIRA MEGDA
UMA ANÁLISE HISTÓRICA DOS BANCOS DO SUL DE MINAS
GERAIS (1900-1930)
Trabalho de Conclusão do Programa
Integrado de Ensino, Pesquisa e Extensão
(PIEPEX) apresentado como requisito para
conclusão
do
curso
Bacharelado
Interdisciplinar em Ciência e Economia pela
Universidade Federal de Alfenas.
Orientador: Thiago Fontelas Rosado Gambi.
VARGINHA/MG
2012
46
RESUMO
Na primeira metade do século XX o estado de Minas Gerais experimentou uma
expansão do sistema bancário acompanhado de um desenvolvimento da região, que até
então era dependente da província do Rio de Janeiro, no que se refere aos aspectos
bancários. Muitos estudos já foram realizados com o intuito de identificar a origem dos
bancos na região e justificar este crescimento, porém a historiografia sobre os bancos
mineiros ainda é pouco desenvolvida e não conclusiva em muitos de seus aspectos. Os
trabalhos destinados a entender as transformações ocorridas no setor bancário em Minas
Gerais no final do século XIX e início do XX ainda são muitos divergentes. Este
trabalho consiste em uma revisão bibliográfica em que se pretende recuperar, a partir da
historiografia sobre os bancos de Minas Gerais, alguns aspectos da história dos bancos
no sul do estado, com o objetivo de contribuir com os estudos desta área.
47
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO................................................................................................................. 49
2. BANCOS NO BRASIL ........................................................................................................ 51
3. BANCOS EM MINAS GERAIS ......................................................................................... 54
4. BANCOS NO SUL DE MINAS GERAIS .......................................................................... 56
5. OBSERVAÇÕES FINAIS .................................................................................................. 58
6. REFERÊNCIAS ............................................................................................................................. 60
48
1. Introdução
A Revolução Industrial teve inicio em meados do século XVIII e, a partir desse
período, surgiram condições de possibilidade de consolidação de um sistema econômico
em que o capital se concentrava na busca de um excedente cada vez maior
(HOBSBAWM, 1979). Com a expansão do processo produtivo, também surgiu a
necessidade de se desenvolver um sistema financeiro que fosse capaz de satisfazer uma
demanda nova por crédito, favorecendo assim a acumulação de capital e o crescimento
da economia.
Essas importantes transformações no processo produtivo chegaram tardiamente
ao Brasil, mas a formação de bancos nacionais, no início do século XIX, se deu quase
ao mesmo tempo em que na Europa. Contudo, desde a extinção do primeiro Banco do
Brasil, em 1829, e da tentativa fracassada de 1833, não havia um banco oficial no país
que pudesse promover o crédito e ajudar o governo na solução dos problemas
monetários. Em 1838 foram apresentados os estatutos do Banco Comercial do Rio de
Janeiro, porém sua aprovação ocorreu somente em 1842. Devido à falta de interesse por
parte do governo em relação aos bancos, iniciativas de caráter privado começaram a
surgir com o propósito de solucionar o problema de escassez de meio circulante e de
ofertar créditos para os comerciantes. No período que se estende de 1838 a 1850
diversas intituições financeiras surgiram, entre elas o Banco do Ceará (1836-1839), o
Banco Comercial do Rio de Janeiro (1838), o Banco Comercial Bahia (1845) e o Banco
Comercial do Maranhão (1847), proporcionando assim casas de crédito que, se não
chegavam a constituir um sistema bancário, serviam como um estímulo à economia
mercantil brasileira.
Com o propósito de facilitar as transações financeiras, os bancos surgiram para
oferecer crédito aos capitalistas ou negociantes. De acordo com Cairu, os negociantes
no império seriam aqueles que empregavam grandes fundos em tráficos e manufaturas,
colocando em rápido movimento e extensão a indústria nacional. São “os que fazem
comércio de especulação, bancos e seguros, e precisam de grande penetração,
sagacidade, inteligência teórica e prática para bem calcularem as circunstâncias
vantajosas aos negócios que projetam” (LISBOA, 1874, p.510).
Esses negociantes estavam dispostos a investir na economia mercantil nacional,
proporcionando uma ampliação de vários de seus setores. Tornaram-se assim,
instituições importantes para o crescimento econômico e para o fornecimento de crédito
49
no país. O marco inicial da história bancária do Brasil se deu em 12 de outubro de 1808,
com a publicação do alvará de criação da primeira instituição bancária no país, o Banco
do Brasil, com características de um banco de crédito que tinha como finalidade
financiar as despesas do Estado ( FRANCO & PACHECO, 1979; FREIRE, 1907;
VIANA, 1926).
Especificamente no estado de Minas Gerais, até meados do século XIX o
sistema bancário ainda era precário. Somente em 1° de janeiro de 1819 foi que se
instalou no estado o seu primeiro banco, a caixa filial do Banco do Brasil, em Vila Rica,
que possuía como função única a compra de ouro e prata (BESSA, 1981). Depois foi
criada uma caixa econômica em Ouro Preto, em 1838, e uma nova caixa filial do Banco
do Brasil, em 1856. Em 1860 foi inaugurado em São João Del Rei um dos primeiros
estabelecimentos de crédito de iniciativa particular do Brasil, a Casa Bancária Custódio
de Almeida Magalhães & Cia. Já na última década do século XIX é criado em Minas
Gerais o Banco de Crédito Real de Minas, com sede na cidade de Juiz de Fora, cuja
assembleia de instalação ocorreu em 23 de janeiro de 1889. Posteriormente foi instalado
na capital mineira, em 11 de junho de 1922, o Banco Hipotecário e Agrícola do Estado
de Minas Gerais. Estes dois bancos tiveram uma ligação muito grande com estado,
servindo e amparando diversas atividades agrícolas, inclusive o próprio café (COSTA,
1978).
Na região do sul de Minas Gerais, o sistema bancário começou a se desenvolver
a partir da década de 1910, quando se observa o surgimento de muitos bancos em
diversas cidades da região, entre eles o Banco de Guaxupé (1909), Casa Bancária Alves
Pereira e Cia (1915), Banco Santaritense (1917), Banco de Monte Santo SA (1918),
Casa Bancária Campos Lima e Cia (1921), Casa Bancária Alves Pereira e Cia (1921),
Banco Machadense (1921),Casa Bancária Odilon Freire e Cia (1922), Ferreira Alves e
Cia Ltda (1922), Banco J.O Rezende e Cia (1922), Casa Bancária Lima, Bernardes,
Forli e Cia (1922), Banco Popular do Sul de Minas (1924), Banco Comercial e Agrícola
A.C Pinho e Cia Ltda (1924), Casa Bancária Alves Lima e Cia (1924).
Não
é
possível
afirmar
categoricamente
a
relação
entre
bancos
e
desenvolvimento econômico, pois existem duas concepções predominantes que
estabelecem relações de causa e efeito simetricamente opostas. Hugh Patrick (1996)
denominou essas duas concepções predominantes de “demand following” e “supply
leading”, onde entre essas, existem as concepções que tentam negar a relação de bancos
e desenvolvimento (MODIGLIANI, 1958) e as que tentam demonstrar que esta relação
50
seria total, pois não seria possível instituir uma relação de causa e efeito, sendo que o
processo para se chegar ao desenvolvimento econômico seria duplamente determinado
(GOLDSMITH, 1969).
Na visão de Flávio Saes (1986), o crédito não possui um papel determinado no
processo de desenvolvimento econômico e esse papel que ele desempenha na economia
depende muito da especificidade de cada processo. É na tentativa de captar essa
especificidade para o sul de Minas que se enquadra este trabalho. O crescimento do
sistema bancário no sul de minas na sua transição para o capitalismo ainda foi pouco
explorado, sendo que os trabalhos voltados para esse setor, mas referentes ao estado de
Minas Gerais como um todo apresentam conclusões divergentes.
Considerando que estudos nesta temática ainda são escassos na historiografia
mineira, e que o Sul de Minas Gerais é uma região pouco explorada nessa historiografia,
este estudo busca recuperar alguns aspectos da história dos bancos no sul de Minas
Gerais, com o objetivo de contribuir com os estudos desta área. Nesse sentido, esta
pesquisa procurou fazer uma revisão dos trabalhos ligados à história econômica de
Minas e da região sul do estado, buscando contribuir para a valorização e divulgação da
história local e regional.
2. Bancos no Brasil
O sistema financeiro é formado por um conjunto de instituições, formais e
informais, que tem por finalidade oferecer aos indivíduos serviços e produtos
financeiros. Como vimos, a relação entre bancos e desenvolvimento econômico não é
simples, mas é possível afirmar que o sistema financeiro pode estimular o crescimento
econômico, já que este proporciona condições para o financiamento de projetos que
exigem investimentos altos, de longo prazo de maturação e de risco elevado
(ALCÂNTARA, 2010). O sistema bancário é parte do sistema financeiro. Atualmente, o
sistema bancário nacional pode ser compreendido como aquele conjunto de instituições
monetário-financeiras, públicas e privadas, que agem no atacado ou no varejo,
oferecendo créditos tanto para o financiamento, quanto para o consumo. Embora o
primeiro banco do Brasil tenha sido criado em 1808 e novos bancos tenham surgido na
década de 1840, Nozaki (2009) diz que, no Brasil, essa formação inicia-se com a
reforma bancária da década de 1920 e sua evolução só ocorreu a partir da expansão
bancária da década de 1950.
51
De fato, seria exagerado falar em sistema bancário brasileiro na primeira metade
do século XIX, no entanto, o aparecimento dos bancos apoiou o funcionamento da
economia mercantil nacional. A chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil em 1808
gerou novas demandas ao mercado interno. A região do sul de Minas, que já se havia se
especializado no fornecimento de gêneros alimentícios de primeira necessidade,
aproveitou a crise da mineração para aprofundar essa especialização e expandir o seu
mercado, vendendo inclusive para a Corte (LENHARO, 1979).
O ano de 1808 foi marcado, não só pela vinda da Corte Portuguesa para o Brasil,
mas também pelo inicio da história bancária no Brasil, pois em 12 de outubro foi
publicado o alvará de criação do primeiro banco que viria a funcionar no país. O
primeiro Banco do Brasil era definido como uma instituição que possuía amplas
atribuições, já que operava como banco de depósitos, de desconto, de emissão e de
câmbio ( FRANCO & PACHECO, 1979; FREIRE, 1907; VIANA, 1926).
Devido à má administração e a emissão desregulada de notas, o primeiro Banco
do Brasil teve sua extinção aprovada em 23 de setembro de 1829. Porém como previa a
lei o banco só se extinguiria em 20 de dezembro do mesmo ano, dia em que completaria
exatos vinte anos de funcionamento. Com a extinção do primeiro Banco do Brasil,
iniciou-se uma discussão com o propósito de se criar um novo banco oficial, porém ao
contrário do primeiro este banco teria como finalidade auxiliar o governo a solucionar
os problemas relacionados com o meio circulante e, consequentemente, estabilizar o
valor da moeda nacional (GAMBI, 2010).
Alguns anos se passaram até que novos bancos se formassem no Brasil e, em
meados do século XIX, fosse possível a expansão da atividade bancária (ALMEIDA,
2010). Entre as décadas de 1830 e 1840, foram criados, tanto na Corte como nas
províncias, bancos privados, todos eles emissores de vales. Dentre estes novos bancos,
destacavam-se os dois maiores, que eram o Banco Comercial e o Banco do Brasil, de
Irineu Evangelista de Souza, ambos localizados na Corte. Esses dois bancos se
fundiriam, em 1853, para formar um novo Banco do Brasil, com monopólio de emissão
no império. Em seguida vinham os bancos das províncias da Bahia, Pernambuco,
Maranhão e Pará (GAMBI, 2010). A década de 1850 também foi decisiva para a
história econômica do país, uma vez que se observou neste período o primeiro surto de
exportação de café (PELÁEZ & SUZIGAN, 1981). Porém neste contexto de aumento
52
das exportações de café, nota-se uma escassez de créditos para os setores produtivos
nacionais.
Com a crise de 1864 e o inicio da guerra do Paraguai o governo passou a
depender das emissões do Banco do Brasil para financiar suas despesas, criando uma
relação de ambiguidade com o banco. Ao mesmo tempo em que restringia suas
emissões, autorizava o aumento na medida exata dos títulos que o próprio governo lhe
enviava. Diante desse cenário, em 12 de setembro de 1866 foi criada a lei 1.349, que
previa um acordo entre o Banco do Brasil e o governo, onde este retirava o direito de
emissões do Banco do Brasil. Desta maneira a emissão voltaria ser de responsabilidade
do governo por meio da caixa de amortização (GAMBI, 2010).
Com a Proclamação da República em 1889, o país iniciou uma fase de agitação
econômica. Foi estabelecida uma nova legislação financeira (lei bancária de 1890),
posta em prática pelo então ministro da fazenda Rui Barbosa, que acabava com as leis
bancárias do período imperial, adequando a antiga regulação financeira ao novo
contexto econômico do país. Com isso o governo esperava ampliar a rede bancária e
consolidar bancos de emissão regionais no país85. A consequência dessa reforma seria a
expansão do crédito bancário, com a finalidade de desenvolver a economia e possibilitar
a criação de recursos suficientes para prover remuneração do trabalho assalariado no
campo, uma vez que a escravidão havia sido abolida um ano antes, ainda no império.
Desta forma o aumento do meio circulante seria capaz de atender a grande demanda dos
cafeicultores por créditos, possibilitando também o fornecimento de recursos
necessários para a constituição, ampliação e diversificação das demais atividades
produtivas do país (CHAVANTES, 2004).
A nova lei bancária resultou numa multiplicação bancária, ou seja, fez com que
o números de agências triplicasse, promovendo uma expansão no setor bancário
(PIRES, 2009). Porém no período que se estende de 1890 a 1914 não houve no país
condições estruturais para a consolidação de um sistema bancário brasileiro, pois antes
da abolição (1888) e da república (1889), a falta de mercado de trabalho e a inexistência
da burguesia agiram como obstáculos para o avanço moderno da industrialização e da
urbanização, desse modo impossibilitando a ampliação da circulação de crédito e da
moeda na escala necessária ao desenvolvimento do capital (NOZAKI, 2009).
85
Rui Barbosa estava preocupado com a viabilização da indústria no país. Por isso é considerado por
Heitor Ferreira Lima como um industrialista brasileiro, ao lado de Mauá e Roberto Simonsen (LIMA,
1976).
53
A falta de articulação entre empresas e bancos fez com que o sistema bancário
brasileiro servisse apenas de intermediário entre as empresas nacionais e o crédito
externo (TAVARES, 1999). Em relação ao crédito para o consumo, ao longo de sua
historia da evolução dos bancos e do crédito, o Brasil enfrentou os limites de um país
que possuía uma das piores concentrações de renda e de riqueza e uma das maiores
dimensões populacional e territorial do mundo (COSTA, 1978).
Se no império eram as velhas oligarquias que controlavam e influenciavam o
governo, agora na República Velha (1889-1930) serão os cafeicultores do Oeste de São
Paulo e de Minas Gerais que tomariam a frente, tornando-se o setor mais moderno e
dinâmico da elite rural brasileira. O Coronelismo86 deve ser lembrado aqui, como
maneira de ressaltar como o estado de São Paulo e Minas influenciaram as estruturas
políticas e econômicas da época. Assim a economia brasileira, nas três primeiras
décadas do século XX, era baseada na agricultura e no latifúndio, com alguns centros
urbano-industriais.
A crise do café que ocorreu a partir de 1897, combinando superprodução e
queda dos preços e, posteriormente, mantendo uma tendência declinante nos preços até
1910 (COSTA, 1978), serviu para que essas oligarquias criassem políticas voltadas para
a valorização do produto, ou seja, políticas voltadas para o setor interno do país. Desta
maneira nota-se que houve uma necessidade de expandir o crédito no país.
3. Bancos em Minas Gerais
Somente em 1° de janeiro de 1819 foi que se instalou no estado o seu primeiro
banco, a caixa filial do Banco do Brasil, em Vila Rica (BESSA, 1981). Posteriormente
veio a ser criada uma caixa econômica em Ouro Preto, em 1838, e uma nova caixa filial
do Banco do Brasil, em 1856 (GAMBI, 2008). No entanto, em meados do século XIX,
o sistema bancário mineiro ainda era precário (HASENBALG & BRIGAGÃO, 1970).
A origem do sistema bancário em Minas possui muitas interpretações diferentes,
já que até o final do século XIX eram os bancos do estado do Rio de Janeiro que
ofereciam créditos e serviços bancários aos mineiros (WIRTH, 1982). Grandes
transformações ocorreram no estado de Minas Gerais, desde a transição de uma
economia mineradora para uma economia mercantil de gêneros alimentícios na Região
86
Para coronelismo, ver LEAL (1975).
54
Sul, até o desenvolvimento da cafeicultura mineira para a Zona da Mata (PAULA,
2001).
Porém, pela ausência de estudos empíricos e até mesmo inexistência de
documentação adequada, permanece a discussão sobre o desenvolvimento do sistema
bancário em Minas. Mascarenhas (1954) e Albino (1957) defendem a ideia que a
origem do sistema bancário estaria ligado ao surto industrial ocorrido na Zona da Mata
nas duas últimas décadas do século XIX. Ao analisar a atividade bancária como préabolição, tudo indica que esta estaria ligada a agricultura, mas especificamente para a
produção de café (BASTOS, 1997; PIRES, 1993). Porém ao discordar que a produção
de café seria responsável pela expansão dos bancos, Costa (1978) argumenta que os
lucros dos produtores de café seriam incapazes de extravasar para outros setores da
economia mineira, portanto a produção de café não poderia ser responsável pelo capital
bancário mineiro.
Outras explicações para a origem do capital dos bancos mineiros são indicadas,
porém não são apontadas, mas de certa forma o vinculo exclusivo com o surto industrial
e com a economia cafeeira em Minas é negado (LIMA, 1977). Sobretudo o capital
comercial, de pequenos e médios comerciantes do interior do estado, também é indicado
como possível responsável pela expansão bancária de minas (HASENBALG &
BRIGAGÃO, 1970). Wirth (1982) reforça esta ideia acreditando que a expansão do
comércio foi fundamental para a expansão do sistema bancário mineiro numa economia
em desenvolvimento.
Paiva (1996) ressalta que mesmo antes da decadência da produção mineradora,
Minas Gerais já se destinava a se dedicar a várias outras atividades econômicas. O
estado de Minas Gerais possuía um setor exportador agropecuário não cafeeiro muito
importante, que era responsável pela formação de uma renda monetária significativa
(SLENES, 1988). Desta maneira o centro-dinâmico que foi responsável pelo
crescimento de Minas Gerais ao longo do século XIX seria o setor exportador da
Província, e a acumulação de capital do estado se dava na esfera mercantil (SLENES,
1988; PAIVA, 1996).
O avanço das relações de crédito entre grandes e pequenos proprietários seria o
ponto principal dessa expansão, deixando assim de enfatizar o comércio como causa
principal da expansão bancária mineira (COSTA, 1978). A expansão do sistema
bancário em Minas no final do século XIX, não significou apenas uma transformação
55
importante na economia, serviu também como rompimento com os bancos do Rio de
Janeiro.
Essas diversas interpretações em relação à origem do capital bancário dizem
respeito aos bancos do estado de Minas como um todo, e algumas delas se referem
especificamente á Zona da Mata. A origem deste capital no Sul de Minas ainda precisa
ser mais explorada, deste modo pretendemos fazer uma análise voltada para esta região,
com o intuito de entender melhor de que maneira esta expansão do sistema bancário
ocorreu no Sul de Minas e quais fatores da economia contribuíram para isso, já que a
partir de 1910 a região se fortaleceu e criou condições para que se instalasse nos seus
municípios um número razoável de bancos e agências bancárias.
4. Bancos no Sul de Minas Gerais
Minas Gerais, que teve sua plantação de café superada pela do estado de São
Paulo entre 1888 e 1908, tornou-se então o principal produtor de alimentos de
subsistência do país. Desse modo o vinculo estabelecido com o Rio de Janeiro que era
capital da Corte e o principal centro comercial, se fortaleceu (LENHARO, 1979;
FURTADO, 1983). Com isso, a região do Sul esteve voltada especialmente para o
abastecimento da cidade do Rio de Janeiro, e dessa maneira os bancos da capital
abafavam o surgimento de bancos no estado de Minas, fazendo com que os recursos
mineiros se voltassem para o Rio de Janeiro (IGLÉSIAS, 1958).
Portanto até o final do século XIX eram os bancos do estado do Rio de Janeiro
que ofereciam créditos e serviços bancários aos mineiros (WIRTH, 1982).
Especificamente no sul de Minas Gerais, o sistema bancário começou a se desenvolver a
partir da década de 1910, já na década de 1920 o desenvolvimento bancário se torna
ainda mais marcante e se consolida (COSTA, 1978). Foi neste contexto de expansão dos
bancos em Minas, que ocorreu também o enfraquecimento da economia fluminense
perante a economia paulista. Com isso o estado de Minas Gerais passa a se desenvolver
com mais intensidade num ambiente economicamente ligado ao estado de São Paulo
(GAMBI, 2011).
Embora haja necessidade de estudos mais aprofundados, o esgarçamento dos
laços que ligavam a economia mineira ao estado do Rio de Janeiro e a mudança do
centro da economia nacional para o estado de São Paulo parecem ser elementos
56
importantes para explicar o aumento do número de bancos na região do sul de Minas na
década de 1920 (GAMBI, 2011).
Gráfico 2 – Nº de Bancos Criados no Sul de Minas e
na Zona da Mata (1889-1908)
Fonte: BASTOS (1997) e COSTA (1977)
Gráfico 3 – Nº de Bancos Criados
no Sul de Minas, na Zona da Mata
e em Belo Horizonte (1909-1930)
Fonte: BASTOS (1997) e COSTA
(1977)
Como a maioria destes bancos foram criados no Sul de Minas, é correto supor
que a região dispunha de uma razoável rede de atendimento bancário. O Banco
Hipotecário e Agrícola de Minas Gerais fundado em 1911 é um exemplo disto, pois este
tinha agências em Varginha, São Sebastião do Paraíso, Guaxupé, Formiga, Barbacena,
Araguari, Curvelo, Muriaé, Carangola e Ubá (GAMBI, 2011). O Banco do Brasil, mais
antigo que o banco Hipotecário (PACHECO, 1979), também ampliou seu número de
agências na região do Sul de minas e contava com agências em Três Corações e
Varginha.
Costa (1978), ao sugerir que a origem do capital bancário mineiro teria ligação
com o capital comercial do mercado interno, seja pela comercialização de gado, seja nos
“negócios urbanos”, propôs uma análise das principais características econômicas dos
municípios onde se instalaram os novos bancos, já que estes não possuíam filiais ou
agências. A casa Bancária Cia. Industrial Sul Mineira tinha sua sede na cidade de
Itajubá no sul de Minas. Nesta cidade, por exemplo, eram produzidos café, fumo, cana,
algodão, feijão, milho e arroz. Esses produtos eram exportados para o estado do Rio de
Janeiro e São Paulo.
O Banco Comércio e Lavoura tinha sua sede em Muzambinho, município
situado numa região cafeeira e vinícola, que em 1907 já apresentava certo
57
desenvolvimento, com bons comércios, fábricas de vinhos, móveis, massas alimentícias,
usinas e engenhos. Santa Rita do Sapucaí era sede do Banco Santaritense, além de
exportar café, cereais e gado. Alfenas também era um município com atividade
econômica agrícola e pastoril. Monte Santo, na fronteira com São Paulo, fazia parte de
um município cafeeiro. Por último, Poços de Caldas que era sede da Casa Bancária
Moreira Salles & Cia, município que exportava café, cereais, vinhos e laticínios.
Os exemplos acima indicam as principais atividades econômicas das cidades
sul-mineiras, a produção agrícola de gêneros alimentícios e café. Em algumas delas,
nota-se também a presença de uma atividade industrial, atividade esta que de uma
maneira geral mantinha alguma ligação com á economia de abastecimento ou com á
economia agro-exportadora cafeeira. Essas indústrias estariam voltadas para o ramo de
alimentos e para o consumo local, possuindo uma estrutura com poucos trabalhadores e
com uma baixa tecnologia.
Se considerarmos os dados da produção de café e da produção industrial do Sul
de Minas e relacionarmos essas informações da localização dos bancos na região,
percebemos que as principais cidades produtoras de café em 1927 e que, ao mesmo
tempo, tiveram algum tipo de produção industrial em 1907, tiveram algum banco criado
entre 1909 e 1927. Além de que a maioria dessas cidades tinham acesso a linha de trem,
através da Mogiana e a Rede Sul Mineira. A instalação da rede ferroriária do Sul de
Minas mantinha ligação com o Rio de Janeiro e São Paulo, não promevendo um
transporte entre suas próprias cidades. Assim o século XX é marcado por um período de
transição e avanços na economia sul mineira, tanto nos aspectos bancários, indústriais e
de integração de suas ferrovias, porém estes avanços ocorreram de maneira lenta
(SAES, COSENTINO, SILVA e GAMBI, 2010).
5. Observações Finais
Seja pelo número de trabalhos, seja por problemas de documentação, o
desenvolvimento dos bancos em Minas Gerais não possui ainda uma historiografia
consolidada. Mascarenhas (1954) e Albino (1957) em seus trabalhos apoiavam na ideia
de que o elemento responsável para tão expansão seria o surto industrial que houve na
Zona da Mata no fim do século XIX. Mas em seu trabalho Lima (1977) nega este
58
vinculo da criação dos bancos com o surto industrial, acreditando que existem outras
perspectivas para a origem do capital dos bancos, embora não as aponte.
Costa (1978) ressalta que as relações de crédito entre grandes e pequenos
proprietários seriam o foco principal para ter ocorrido este desenvolvimento, deixando
de lado o comércio, fator este que Wirth (1982) acreditava ser fundamental para a
expansão dos bancos. Apesar da discussão sobre a origem dos bancos mineiros, pode-se
afirmar que o século XIX foi marcado pelo inicio do avanço do sistema bancário estado
e que, no século XX, essa expansão se consolida.
Em relação ao Sul de Minas é possível que o avanço do sistema bancário se deu
após o rompimento do estado com o Rio de Janeiro e neste mesmo momento a região
passou a ter uma relação maior com o estado paulista. Os estudos ainda são escassos no
que diz respeito à historiografia da região do Sul de Minas, porém podemos notar que a
produção de café no século XX perdeu força e que na região havia uma economia
diversificada. Devemos enfatizar também que os bancos criados no Sul de Minas teriam
suas sedes em cidades próximas às cidades paulistas, o que remete a uma ligação mais
forte entre as economias mineira e paulista.
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WIRTH, John. O fiel da balança: Minas Gerais na federação brasileira(18891937). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
61
ANEXO III
Certificados de participação em eventos
IV Jornada de Iniciação Científica da UNIFAL-MG
2ª Semana de Ciência e Economia e 3ª Semana do PIEPEX – UNIFAL-MG
62
Download

Crédito e bancos no sul de Minas Gerais (1917-27 - Unifal-MG