INSTITUTO POLITÉCNICO DE TOMAR UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO Master Erasmus Mundus em QUATERNARIO E PRÉ-HISTÓRIA GRAFISMOS PUROS OU IDEOMORFOS REPETIDOS NA ARTE RUPESTRE DO VALE DO TEJO UMA PERSPECTIVA SÓCIO-COGNITIVA Maria Fernanda Ferrato Melo de Carvalho Orientador: Prof. Dr. Luís Oosterbeek Ano académico 2005/2006 Dedico este trabalho ao Professor José Constantino Ferrato, meu avô, que inúmeras vezes esteve presente ao longo da minha formação académica e pessoal. ii AGRADECIMENTOS A elaboração deste trabalho só foi possível graças à contribuição de várias Instituições e pessoas, a quem quero expressar os meus agradecimentos. Correndo o risco de cometer alguma injustiça, de que antecipadamente peço desculpa, não quero, porém deixar de mencionar aqueles que de modo mais próximo contribuíram decisivamente para que esta dissertação pudesse existir. Ao Instituto Poltécnico de Tomar e à Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro pelo suporte académico. Ao Professor Luiz Oosterbeek concedo meu respeito e meus agradecimentos pela orientação neste trabalho. À Professora Mila Simões de Abreu agradeço a dedicação empregada em seu trabalho, que se reflectiu nas suas indicações para aprimorar o meu estudo. Também a ela sou grata pela grande parte da bibliografia cedida para que este trabalho pudesse ser realizado. Ao Professor Ângelo Fossati e ao Centro Camuno di Studi Preistorici pelos ensinamentos práticos sobre os levantamentos de gravuras rupestres. À Professora Marta Arzarello, pela grande ajuda durante o período que estive em Ferrara, na Itália. Ao Professor Carlo Peretto e a todos os componentes do Departamento de Pré-História da Universidade de Ferrara. iii Ao Professor José Manuel Martinho Lourenço pelo grande auxílio fornecido na elaboração dos mapas por meio do programa ArcGIS. Ao Professor Hipólito Collado Giraldo pelas sugestões proferidas. Ao Professor João Baptista pela atenção e disponibilidade ao longo destes dois anos. Aos Professores Pierluigi Rosina e Silvério Figueiredo por todo o incentivo dado ao longo do mestrado. Ao Professor Maurizio Quagliuolo pelos textos que me enviou sobre Psicologia Aplicada à Arqueologia. À Professora Alexandra Figueiredo pelo material sobre as escavações feitas na região estudada. Ao Professor João Teixeira, do Departamento de Filosofia e Metodologia das Ciências da Universidade Federal de São Carlos pelos seus ensinamentos ao longo da minha graduação que auxiliaram a realização deste trabalho. À Professora Maria Lúcia Batezat Duarte, da Universidade Federal de Santa Catarina, por ter indicado alguns exemplares que compõem a bibliografia utilizada neste trabalho; Ao Dr. Manuel Herculano de Carvalho, o meu amigo tio Manuel, neurocirurgião, pela disponibilização de alguns textos importantes sobre Neuropsicologia e pelas longas conversas que mantivemos acerca deste assunto. Ao Professor José Eduardo Reis, meu querido tio Zé, pelo tempo e esforço que dedicou à leitura e à correcção cuidada do texto além das iv preciosas sugestões que me fez que permitiram melhorar a versão final. Aos funcionários do museu: Isabel, Margarida, Anabela, Sr. Teixeira, D. Rosa e Rui por toda a amizade e incentivo dados ao longo de todo o trabalho. À Catarina Freire, funcionária do IPT, pela sua eficiência e prontidão com que lidou com as questões burocráticas durante o período do Mestrado; A todo o corpo docente do Mestrado pelos ensinamentos valiosos que me deram ao longo deste curso. “Ó mar salgado, quanto teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu à pena? Tudo vale à pena se a alma não é pequena Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor Deus ao mar o perigo e o abismo deu Mas nele é que espelhou o céu” (Fernando Pessoa) Ao cruzar este mar que une Brasil e Portugal, fiz o trajecto rumo às minhas raízes, tão foi verdade, que, no percurso do Mestrado, passei um período em Itália, a terra da família do meu avô materno, além de passar grande parte destes dois anos na terra em que meu pai nasceu. Durante este tempo em que estive em Portugal, várias foram as lições não somente académicas, mas também de crescimento humano. Estas são as mais difíceis de aprender, mas as que mais nos estruturam. Assim como o mar, a vida possui perigos, mas engloba a beleza onde o céu se espelha, como reflecte Fernando Pessoa. Pude encontrar tempestades, mas muitos céus límpidos onde a v melhor essência da natureza humana se mostrou. Agradeço a Deus, uma força criadora benevolente – como posso chamá-Lo– em cuja existência creio. As pessoas que com todo o afecto agradeço são grandes responsáveis pelo céu límpido ou, pelo menos, pelos abrigos durante as tempestades que tanto me ajudaram a olhar novamente o céu e esperar o que em seu horizonte se perdia. Aos amigos Francisco, Filomena e Catarina quero dizer que o mundo precisa de mais pessoas como vocês, que detêm os reais valores de humanidade e amizade desinteressada. Pessoas como vocês merecem toda a minha admiração. Aos amigos Manoj, Margarida, Rui, Anabela, Victor sou grata pelo auxílio que me deram enquanto estive em Mação, assim como aos meus colegas de turma e aos colegas do terceiro ano da edição de Mestrado. Aos meus sogros e cunhado muito obrigada pela atenção e palavras de apoio. Aos meus grandes amigos brasileiros, portugueses e italianos, especialmente à Thaís, Marina, Mariana, Bruna, Francesca, meu “fratello” Michele e sua família, Rogério, D. Angélica e Américo, Gisele, Ottone e à Fátima e ao Japão, agradeço o apoio, o optimismo e a força que tanto me ajudaram nestes dois anos de Mestrado. À Maria do Carmo, por toda a amizade e carinho com que me tratou ao logo destes dois anos e pelas suas maravilhosas tartes de atum. Ao Duarte pela compreensão e paciência em ouvir os meus discursos que, bem sei, não são curtos. Aos meus tios Lena, Amélia, Edward, Paulo, Renata, Cristina e em especial à minha tia Margarida que tanto apoio e carinho me deu ao longo deste período.. Ao Pedro, Jacinto, Guilherme e Pamela, que me apoiaram e me despenderam amizade e fraternidade e especialmente ao Xico sou imensamente grata por coisas, não esquecendo as idas a Mação e a Vigo. Sou imensamente grata ao meu tio Luís e à minha tia Janica por me acolherem como filha em sua casa. À minha tia, obrigada pelos momentos em que me transmitiu a calma tão necessária para a realização deste trabalho. A ela também agradeço toda ajuda e afecto dedicados a mim. Ao meu tio Luís, devo vi também dizer obrigada pelas músicas tocadas no violão, que tanto me inspiraram e me agradaram além dos conselhos que, certamente, serão válidos longo da minha vida e pelos inúmeros scaners que me fez dos “bonequinhos” e “das escalinhas”. Agradeço aos meus outros avós também, Aparecida, Luís Herculano e Maria Margarida, pela forma como cada um deles encontrou para contribuir para a minha formação. Ao meu avô, José Constantino Ferrato, pelos ensinamentos que contribuíram grandemente para a minha formação tanto profissional como pessoal. A ele, que se foi dois dias antes da minha vinda para Portugal, agradeço com todo meu carinho. Sou grata pelas longas discussões sobre História, Filosofia e Psicologia que tanto me instigaram a buscar o conhecimento. A ele, especialmente, dedico este trabalho. À minha tia, madrinha e professora de italiano, Estelinha, agradeço o zelo, o carinho e as aulas de gramática italiana que muito me ajudaram ao longo da minha estada na Europa. Ao meu irmão e grande amigo, Luiz Victor, pelo apoio mesmo estando do outro lado do oceano. Relação entre irmãos igual à nossa é rara e eu tive a sorte de ser participante de uma dessas raridades. Ao meu grande amor, Marcelo, pela paciência e força com que enfrentou estes dois anos de distância e despedidas em aeroportos. Pela sua compreensão, amor, dedicação e incentivo que vem despendendo ao longo dos últimos cinco anos e meio e que foram potencializados durante minha estada em Portugal. Agradeceço-lhe ainda os ensinamentos de Linguística que, no percurso deste trabalho, se mostraram muito importantes. Aos meus pais, António Froilano e Maria Dorotéia, pelos valores ensinados, em que sempre me procurei pautar. Pelos exemplos de força e perseverança e pelo amor. Por me ensinarem quanto vale o esforço quando a intenção é boa; pelo incentivo de ousar dentro dos limites da ética e do respeito ao próximo e por ver o mundo com os olhos maravilhados. Vocês sãos os maiores exemplos que regem a minha vida e os meus alicerces que, não me prendem ao chão, mas me impulsionam com segurança. . vii “Só buscamos aquilo que nos foge E mais se mais nos foge o procuramos... Como ontens de amanhã é que aceitamos Os dias que são hoje. Sempre a raiva de ter o que não temos: Sombra se brilha o Sol, calor no Inverno. Talvez porque no íntimo pensemos No avesso do real achar o eterno... Singular condição que é nossa cruz! Ânsia de perdurar que se traduz Neste gosto de efémeros segredos. As mãos pedem firmeza: lenho ou fraga Mas que delícia pôr as mãos na água E... senti-la fugir por entre os dedos.” (António Herculano de Carvalho) viii RESUMO Este trabalho tem como objecto de estudo os grafismos puros ou ideomorfos do complexo rupestre do Vale do Tejo. Sendo os ideomorfos motivos que geram debate com relação à sua representação, pretende-se ressaltar esta questão abordando-a através de um prisma sócio-cognitivo. Demonstra-se, neste trabalho, como algumas linhas de pesquisa existentes em áreas científicas como a Neurociência, a Psicologia Cognitiva e a Antropologia podem se vincular ao estudo arqueológico na busca de uma maior compreensão desta categoria de motivos da Arte Rupestre. Concebendo a Arte Ruprestre como produto das capacidades criativas dos indivíduos condicionadas pelas estruturas sócioculturais, os ideomorfos do Vale do Tejo foram estudados sob a égide de uma abordagem que leva em consideração as peculiaridades de cada organização social produtora da arte rupestre do complexo. A relação entre o Homem, a Paisagem e o Sagrado direccionam o olhar sobre o estudo, levando-se em conta os processos cognitivos que permeiam essa relação. Na arte rupestre do Vale do Tejo, pode ser verificado, nas últimas fases de gravação do complexo, um aumento das gravações de motivos ideomorfos. Essa maior expressão dos grafismos puros é um reflexo da organização social que se estabelece em comunidades metalurgistas. Entretanto, a representação de ideomorfos no complexo em estudo pode ser vista, em menor índice, nas primeiras fases de gravação, como é o caso da espiral. Palavras-chave: Ideomorfos; grafismos puros; Arte Rupestre; Neuropsicologia; simbolismo. ix ABSTRACT This research chose for study objects the pure graphisms or idiomorphs from Tagus Valley rupestrian complex. As idiomorphs are motifs that generate discussion about their representation, we intend to spotlight this question, approaching it through a socio-cognitive point of view. We demonstrate, in this research, how some research lines from scientific areas such as Neuroscience, Cognitive Psychology and Anthropology can be linked with archaeological studies in order to produce a higher understanding of this category of motifs of Rock Art. Understanding Rock Art as a product of individual creative skills regulated by socio-cultural structures, Tagus Valley idiomorphs were studied with the support of an approach that takes considers the peculiarities of each social organization that produced rock art in the complex. The relation among Man, Landscape and Sacred orientates the view to this study, whereas the cognitive process that permeates this relation. In the Tagus Valley rock art, we can verify, in the last stages of engraving, an increase of idiomorphic motifs engravings. This increased expression of pure graphisms reflects the social organization that is established among metallurgist communities. However the idiomorphic representation in the studied complex can be observed, in a smaller scale, in the first stages of engravings, which is the case of spiral. Keywords: simbolism. Idiomorphs; pure graphisms; x Rock Art; Neuropsychology; ÍNDICE INTRODUÇÃO...............................................................................................................1 1. GRAFISMOS REPETIDOS NA ARTE RUPESTRE.......................................10 1.1. O termo grafismo ..........................................................................................12 1.2. Histórico do estudo dos grafismos irreconhecíveis ....................................16 1.3. A compreensão de um grafismo a partir dos demais motivos que compõem um painel...........................................................................................20 1.4. A repetição do símbolo e as teorias entópicas ............................................21 1.5. O sistema nervoso humano e o inconsciente colectivo perante a Arte Rupestre .........................................................................................................25 2. METODOLOGIA.................................................................................................32 2.1. Metodologia aplicada à recolha de dados no campo .................................40 3. O COMPLEXO RUPESTRE DO VALE DO TEJO.........................................51 3.1. A divisão crono-estilística de Baptista ........................................................70 3.2. Divisão crono-estilística suportada por Mário Varela Gomes..................75 3.2.1. O período arcaico................................................................................... 78 3.2.2. O período estilizado-estático .................................................................. 81 3.2.3. O período estilizado – dinâmico ............................................................ 82 3.2.4. O período meridional ............................................................................. 84 3.2.5. O período atlântico................................................................................. 97 3.2.6. O período de círculos e linhas ............................................................... 99 4. CONTRIBUTOS DE COLLADO GIRALDO PARA A COMPREEENSÃO DO CONJUNTO DE GRAVURAS RUPESTRES DO TEJO .....................................................................................................................108 5. OS IDEOMORFOS DO VALE DO TEJO DE ACORDO COM AS CONTRIBUIÇÕES DOS DADOS RETIRADOS DOS SUPORTES DECORADOS: 155-F, 175-F, G-11 E 15-OCR........................................................112 5.1. A repetição de ideomorfos ao longo das fases de gravação.....................134 5.2. A emersão de uma forma: constatações da Neurociência .......................143 5.3. As contribuições da Psicologia e Psicanálise no entendimento dos ideomorfos do Vale do Tejo.............................................................................148 CONCLUSÃO.............................................................................................................154 BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................159 ANEXO A – Dados iconográficos dos ideomorfos da rocha 155 do Fratel (155-F)...............................................................................................................172 ANEXO B – Dados iconográficos dos ideomorfos da rocha 175 do Fratel (175-F)...............................................................................................................191 ANEXO C – Dados iconográficos dos ideomorfos da rocha 11 do Gardete (11-G) ............................................................................................................196 xi ÍNDICE DE FICHAS FICHA 1. Referência da rocha 15 do Ocreza (15-OCR) ............................................... 49 FICHA 2. Referência do motivo 1 da rocha 155-F...................................................... 173 FICHA 3. Referência do motivo 2 da rocha 155-F...................................................... 174 FICHA 4. Referência do motivo 3 da rocha 155-F...................................................... 175 FICHA 5. Referência do motivo 4 da rocha 155-F...................................................... 176 FICHA 6. Referência do motivo 5 da rocha 155-F...................................................... 177 FICHA 7. Referência do motivo 6 da rocha 155-F...................................................... 178 FICHA 8. Referência do motivo 7 da rocha 155-F...................................................... 179 FICHA 9. Referência do motivo 8 da rocha 155-F...................................................... 180 FICHA 10. Referência do motivo 9 da rocha 155-F.................................................... 181 FICHA 11. Referência do motivo 10 da rocha 155-F.................................................. 182 FICHA 12. Referência do motivo 11 da rocha 155-F.................................................. 183 FICHA 13. Referência do motivo 12 da rocha 155-F.................................................. 184 FICHA 14. Referência do motivo 13 da rocha 155-F.................................................. 185 FICHA 15. Referência do motivo 14 da rocha 155-F.................................................. 186 FICHA 16. Referência do motivo 15 da rocha 155-F.................................................. 187 FICHA 17. Referência do motivo 16 da rocha 155-F.................................................. 188 FICHA 18. Referência do motivo 17 da rocha 155-F.................................................. 189 FICHA 19. Referência do motivo 18 da rocha 155-F.................................................. 190 FICHA 20. Referência do motivo 1 da rocha 175-F.................................................... 192 FICHA 21. Referência do motivo 2 da rocha 175-F.................................................... 193 FICHA 22. Referência do motivo 3 da rocha 175-F.................................................... 194 FICHA 23. Referência do motivo 4 da rocha 175-F.................................................... 195 xii FICHA 24. Referência do motivo 1 da rocha 11-G. .................................................... 199 FICHA 25. Referência do motivo 2 da rocha 11-G. .................................................... 200 FICHA 26. Referência do motivo 3 da rocha 11-G. .................................................... 201 FICHA 27. Referência do motivo 4 da rocha 11-G. .................................................... 202 FICHA 28. Referência do motivo 5 da rocha 11-G. .................................................... 203 FICHA 29. Referência do motivo 6 da rocha 11-G. .................................................... 204 FICHA 30. Referência do motivo 7 da rocha 11-G. .................................................... 205 FICHA 31. Referência do motivo 8 da rocha 11-G. .................................................... 206 FICHA 32. Referência do motivo 9 da rocha 11-G. .................................................... 207 FICHA 33. Referência do motivo 10 da rocha 11-G. .................................................. 208 FICHA 34. Referência do motivo 11 da rocha 11-G. .................................................. 209 FICHA 35. Referência do motivo 12 da rocha 11-G. .................................................. 210 FICHA 36. Referência do motivo 13 da rocha 11-G. .................................................. 211 FICHA 37. Referência do motivo 14 da rocha 11-G. .................................................. 212 FICHA 38. Referência do motivo 15 da rocha 11-G. .................................................. 213 FICHA 39. Referência do motivo 16 da rocha 11-G. .................................................. 214 FICHA 40. Referência do motivo 17 da rocha 11-G. .................................................. 215 FICHA 41. Referência do motivo 18 da rocha 11-G. .................................................. 216 FICHA 42. Referência do motivo 19 da rocha 11-G. .................................................. 217 xiii ÍNDICE DE FIGURAS FIGURA 1. Rocha 15-OCR, onde está gravada uma espiral. Esta rocha situa-se na margem direita do rio Ocreza.....................................................................................41 FIGURA 2. Limpeza da superfície da rocha 15-OCR. ..................................................42 FIGURA 3. Colocação da folha plástica sobre a qual foi feito o decalque da espiral existente na rocha 15-OCR. ................................................................................ 43 FIGURA 4. Execução do decalque da espiral gravada na rocha 15-OCR..................... 44 FIGURA 5. Orientação do suporte 15-OCR efectuado por meio de bússola. ............... 45 FIGURA 6. Processo de decalque em andamento. A espiral da rocha 15-OCR está parcialmente decalcada............................................................................................ 46 FIGURA 7. Últimos retoques no decalque. Com um cotonete embebido em álcool são retiradas as falhas do traço que delimita os contornos do painel na folha plástica. ........................................................................................................................... 46 FIGURA 8. Ficha de campo padronizada segundo as normas disponibilizadas na página electrónica da EuroPreart (http://www.europreart.net)....................................... 48 FIGURA 9. Decalque da 15-OCR, localizada na margem direita do rio Ocreza, que contém uma espiral. ................................................................................................. 50 FIGURA 10. Legenda que ajuda a interpretar o mapa acima e os mapas de 2 a 9........ 56 FIGURA 11. Parte da rocha 155 do Fratel (155-F) evidenciando quatro cervídeos enquadrados no período arcaico devido aos caracteres das figuras. Nota-se elevada segmentação no corpo destes animais representados e o delineamento detalhado e preenchido. .................................................................................................. 80 FIGURA 12. Gravuras pertencentes ao período estilizado-dinâmico situadas na rocha 175 do Fratel (175-F). Pode-se observar nesta rocha a representação de uma situação de caça. A figura do cão indica domesticação do animal no período em que a gravação foi feita................................................................................................... 83 FIGURA 13. Da esquerda para a direita: A – Rocha 158 de São Simão: antropomorfo carregando um cervídeo; B – Rocha 126 do Fratel: antropomorfo sustentando uma figura solar; C – Rocha 12 de Ficalho: antropomorfo e figura solar................................................................................................................................. 90 FIGURA 14. Rocha 78 do Fratel. Os motivos foram expostos apenas como exemplo de figuras soliformes. A imagem não apresenta escala. Neste caso, seu emprego neste trabalho serve para ilustrar o período. .................................................... 92 FIGURA 15. Rocha 137 de São Simão. ........................................................................ 93 xiv FIGURA 16. Alguns ideomorfos da rocha 129 de Fratel (129-F), caracterizada por gravações do período Atlântico e por algumas gravações do período de círculos e linhas. Adaptado de Gomes (1987, 1989). A imagem não apresenta escala. Neste caso, seu emprego neste trabalho serve para ilustrar o período. ............... 99 FIGURA 17. Serpentiformes do Vale do Tejo. Adaptado de Gomes (2004). As figuras serpentiformes restantes ilustram os demais motivos dessa categoria existentes no Vale do Tejo. Os dados específicos das serpentiformes das rochas 11 do Gardete (11-G) e o elemento da rocha 175 do Fratel (175-F) estão nos Anexos C e B, respectivamente. ................................................................................... 101 FIGURA 18. Rocha 68-D do Cachão do Algarve. Ideomorfos pertencentes aos dois últimos períodos do complexo rupestre do Vale do Tejo, segundo Gomes (1989). A imagem não apresenta escala. Neste caso, seu emprego neste trabalho serve para ilustrar o período.......................................................................................... 106 FIGURA 19. A rocha 11 de Gardete (11-G) apresenta incisões pertencentes desde o Neolítico Final até a Idade do Bronze. Adaptado de Gomes (2004). .............. 107 FIGURA 20. Rocha 155 do Fratel (155-F) (Baptista, 1981) ....................................... 115 FIGURA 21. A – Rocha 175 de Fratel: associação entre espiral e dois antropomorfos. Medidas dos motivos: espiral: 22 cm de diâmetro; antropomorfo maior: 11 cm de altura e 3 cm de largura máxima, baseada na delimitação das pernas; antropomorfo menor: 9 cm de altura e 5,5 cm de largura máxima, definida pela extensão dos braços. B – Rocha 155 do Fratel: associação entre dois antropomorfos e espiral. Medidas dos motivos: espiral: 17,7 cm de diâmetro; antropomorfo à esquerda: 5,6 cm de largura máxima, referida pelas extremidades dos braços, e 12 cm de altura; antropomorfo à direita: largura máxima de 6, 3 cm e altura de 12,6 cm (Baptistas, 1981, e Gomes, 1987, 2000). Os decalques dos painéis estão nos Anexos B e A, respectivamente. A imagem não apresenta escala. Neste caso, seu emprego neste trabalho serve para ilustrar o período. ............. 116 FIGURA 22. Rocha 175 do Fratel (175-F) (Gomes, 2000)......................................... 117 FIGURA 23. Rocha 11 do Gardete (11-G). Adaptado de Gomes (2004).................... 123 FIGURA 24. Motivos da rocha 15 do Ocreza (15-OCR). ........................................... 125 xv ÍNDICE DE GRÁFICOS GRÁFICO 1. Percentagem das categorias de motivos da rocha 155 de Fratel (155-F). No Anexo A, está a tabela que contém os dados numéricos que geraram este gráfico.................................................................................................................... 132 GRÁFICO 2. Percentagem das categorias de motivos da rocha 175 de Fratel (175-F). No Anexo B, está a tabela que contém os dados numéricos que geraram este gráfico.................................................................................................................... 133 GRÁFICO 3. Percentagem das categorias de motivos da rocha 11 de Gardete (11-G). No Anexo C, está a tabela que contém os dados numéricos que geraram este gráfico.................................................................................................................... 133 xvi ÍNDICE DE MAPAS MAPA 1. Perspectiva a 3D do território que compreende o complexo rupestre do Vale do Tejo e o índice de concentração de suportes gravados...................................... 56 MAPA 2. Perspectiva a 3D do Vale do Tejo e o seu conjunto de gravuras rupestres. ......................................................................................................................... 57 MAPA 3. Representação a 3D do Vale do Tejo e o seu conjunto de gravuras rupestres. As formações geológicas chamadas “As Portas do Ródão” tiveram a sua altimetria ampliada em cinco vezes no recorte para facilitar a visualização da diferença de altitude........................................................................................................ 57 MAPA 4. Outro ângulo da perspectiva a 3D do Vale do Tejo e o seu conjunto de gravuras rupestres. .......................................................................................................... 58 MAPA 5. Perspectiva a 3D, com aproximação maior do que o mapa anterior, da área que compreende o complexo rupestre do Tejo. ...................................................... 58 MAPA 6. Mais um ângulo diferente da perspectiva a 3D do Vale do Tejo e o seu conjunto de gravuras rupestres. ...................................................................................... 59 MAPA 7. Um terceiro ângulo diferente da perspectiva a 3D do Vale do Tejo e o seu conjunto de gravuras rupestres. ................................................................................ 59 MAPA 8. Um quarto ângulo diferente da perspectiva a 3D do Vale do Tejo e seu conjunto de gravuras rupestres. ...................................................................................... 60 MAPA 9. Um quinto ângulo diferente da perspectiva em 3D do Vale do Tejo e seu conjunto de gravuras rupestres. ................................................................................ 60 MAPA 10. Panorama a 2D da região que compreende o Vale do Tejo e o seu conjunto de gravuras....................................................................................................... 61 MAPA 11. Outro panorama a 2D do Vale do Tejo e seu conjunto de gravuras rupestres. ......................................................................................................................... 62 xvii ÍNDICE DE TABELAS TABELA 1. Divisões cronológicas das gravuras rupestres encontradas no Vale do Tejo propostas por Baptista (1981, 1986, 2001), à esquerda, e Gomes (1987, 1989), à direita. A legenda indica a comunidade que predominava em cada período. ........................................................................................................................... 69 TABELA 2. Iconografia dos ideomorfos da rocha 155 do Fratel (155-F). Adaptado de Baptista (1981). As características específicas de cada motivo presente na tabela estão no Anexo A. ........................................................................... 114 TABELA 3. Iconografia dos ideomorfos da rocha 175 do Fratel (175-F). Adaptado de Gomes (2000). As características específicas de cada motivo da tabela estão no Anexo B. .............................................................................................. 117 TABELA 4. Diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação. Adaptado de Gomes (2004). ......................................................................................... 120 TABELA 5. Iconografia dos ideomorfos da rocha 11 do Gardete (11-G). Adaptado de Gomes (2004). Os dados sobre cada um dos motivos estão no Anexo C.................................................................................................................................... 124 TABELA 6. Números e percentagens das figuras de cada categoria nas rochas 155-F, 11-G e 175-F. .................................................................................................... 134 TABELA 7. Iconografia dos ideomorfos da rocha 155 do Fratel (155-F). Adaptado de Baptista (1981). ....................................................................................... 172 TABELA 8. Iconografia dos ideomorfos da rocha 175 do Fratel (175-F). Adaptado de Gomes (2000). ......................................................................................... 191 TABELA 9. Iconografia dos ideomorfos da rocha 11 do Gardete (11-G). Adaptado de Gomes (2004). ......................................................................................... 197 TABELA 10. Diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação. Adaptado de Gomes (2004). ......................................................................................... 197 xviii INTRODUÇÃO Este trabalho orienta o enfoque para o domínio da arte rupestre do Vale do Tejo, mais precisamente para as gravuras ideomorfas reconhecidas em sítios da região. Amostras de arte rupestre que se verificam no vale do mais importante rio que corre em Portugal podem ser encontradas tanto nas suas margens como entre dois dos seus afluentes: Sever, na margem esquerda, e Ocreza, na margem direita. Estes, juntamente com os demais afluentes portugueses – Érges, Ponsul, Zêzere, Maior, Trancão, Ribeira da Sertã, Almonda, Alviela, Nisa, Sorraia, Almançor e Coina – compõem a Bacia Hidrográfica do Médio Tejo. Alcunhado de “o santuário rupestre” por António Baptista (1981, 1986), Eduardo Serrão (1978), Mário Varela Gomes (1989) e Baptista, Serrão & Martins (1978), este complexo rupestre mostra-se intimamente ligado à temática de sua paisagem, composta de águas e formações geológicas que exibem, de maneira enfática, a actuação das forças escultoras da dinâmica fluvial. No contexto da arte rupestre do Vale do Tejo podemos identificar abrigos formados por alguns painéis com pinturas. Esse conjunto de painéis com pinturas localiza-se no Pego da Rainha em Zimbreira, situando-se na freguesia de Evendos, no concelho de Mação. Estas pinturas fazem parte do complexo rupestre da região, mas não farão parte do objecto principal desta pesquisa por uma questão de metodologia. Dar-se-á mais ênfase às gravuras rupestres do Vale, uma vez que as pinturas representam um número muito reduzido da arte identificada neste complexo. Estas pinturas, no entanto, são dignas de um futuro estudo mais detalhado devido à sua raridade no conjunto rupestre situado no Vale do Tejo. Ao longo deste estudo serão utilizados como exemplo alguns dos painéis existentes no complexo rupestre do Tejo. Entretanto, serão quatro suportes decorados 1 deste conjunto rupestre que sustentarão a grande parte das considerações feitas ao longo desta dissertação. São eles o 155 e o 175, ambos do Fratel, a rocha 11 do Gardete e o painel 15 do Vale do Ocreza. Esses painéis situam-se em três sítios diferentes sendo distintos também no que diz respeito à sua acessibilidade, uma vez que, dois dos suportes, situados em Fratel, se encontram submersos pelas águas da barragem que foi construída naquele local. Os painéis presentes nos outros dois sítios, Gardete e Ocreza, não estão submersos, mas estão circundados por acessos legalmente distintos. Estes suportes decorados possuem motivos ideomorfos executados em períodos distintos e que apresentam associações a diferentes motivos, o que atribui a cada painel sua importância específica para o estudo em questão. Embora a peculiaridade de cada painel que compõe o complexo seja relevante para se compreender melhor o contexto em que foram utilizados para receberem as gravações, bem como os objectivos que induziram a execução de gravuras, a escolha dos quatro painéis foi levada a cabo por uma questão metodológica. Havendo uma amostra a ser analisada podemos chegar a considerações mais consolidadas e precisas. As rochas que fazem parte desta amostra foram escolhidas a partir de um exame bibliográfico sobre os suportes, levando-se em conta características como a existência de diferentes fases de gravação, associações de ideomorfos a outros conjuntos iconográficos – antropomorfos, zoomorfos etc. No caso da rocha 11 do Gardete a sua importância deriva da quantidade de ideomorfos gravados pertencentes a cinco fases de gravação distintas. Mesmo tendo medidas mais modestas (28,7 x 40,4 cm), a rocha 15 do Ocreza expõe, na totalidade do painel, um único motivo ideomorfo – uma espiral – que, como veremos, é um motivo que gera grandes debates sobre a sua origem. A rocha 15-OCR foi escolhida para compor a amostragem por meio do conhecimento do local e das suas rochas decoradas, obtidos pela prospecção feita pelo 2 grupo de pesquisadores do Museu de Arte Pré-Historica e do Sagrado do Vale do Tejo, e não através de um suporte bibliográfico, uma vez que esta rocha ainda não foi publicada. Frequentemente denominados como motivos de carácter geométrico, os ideomorfos ou grafismos puros são um desafio, de forma geral, aos estudiosos da Arte Rupestre no que no que diz respeito à compreensão do seu objecto de estudo. Isto também é válido quando nos deparamos com as representações “geométricas” encontradas região na Bacia Hidrográfica do rio Tejo. Os grafismos ou motivos geométricos, utilizados para nomear os motivos de difícil identificação, estão na origem e estimulam um grande debate na Arte Rupestre, desde logo porque suscitam discordâncias quanto à extensão e precisão do seu significado. Os grafismos, na perspectiva da Arte Rupestre, são tidos como portadores de significados com os mais diversos conteúdos. As críticas dirigidas ao uso parcial do termo argumentam que o seu emprego exclui o carácter artístico e suprime a questão estética que lhe está associada. Se considerarmos a arte como produto de um grupo social cujas técnicas de elaboração derivam do contexto em que se expressa, podemos definir os grafismos como arte, uma vez que eles contêm elementos reveladores de uma intencionalidade estética. No capítulo seguinte, trataremos detalhadamente do conceito de grafismo e das perspectivas teóricas que abordam a repetição de ideomorfos, inclusive a perspectiva psicanalítica de interpretação de símbolos, fundada por Carl Gustav Jung. Neste sentido, este estudo motiva-se pela indagação que paira sobre a repetição dos grafismos e visa responder se seria possível analisar, a partir de teorias arqueológicas associadas às teorias da Psicologia Cognitiva, Neurociência e 3 Antropologia Social, o fenómeno de repetição de grafismos puros ou ideomorfos na arte rupestre do Vale do Tejo. Aqui volta-se o olhar sobre a existência de um ou mais elementos que desencadeiam a repetição de certos símbolos manifestados na Arte Rupestre de uma maneira geral. Contudo, para uma melhor fundamentação referente às possíveis considerações elaboradas por meio de uma investigação feita nesta perspectiva, este trabalho propõe um estudo específico, em que os motivos a serem estudados estão inseridos em uma área espacial delimitada, o Vale do Tejo, sendo a repetição de signos 1, ou até mesmo de símbolos, enquadrada numa perspectiva cronológica e não espacial. Desta forma, a perspectiva cronológica mostra-se eminente de ser destacada, uma vez que a circunstância espacial é definida e, portanto, a frequência de um dado grafismo não poderá ser comparada, neste estudo, com grafismos específicos externos às linhas geográficas que delimitam o Vale do Tejo. Esta dissertação não exclui a possibilidade de se fazer um estudo posterior em que uma análise comparativa faça uso, porém, do mesmo acervo gráfico com o intuito de se poder traçar considerações nodais que incluam a variável espacial. Entretanto, no que se refere ao estudo mais genérico da frequência do aparecimento de signos idênticos na arte rupestre, a questão espacial, ou seja, o facto de alguns motivos se repetirem em áreas geográficas distintas também nos oferece condições para atingirmos a perspectiva em que esta repetição actua. É importante esclarecer que este estudo não visa efectuar uma exposição sobre as mais diversas linhas de pesquisa da Arte Rupestre actual e tradicional acerca dos motivos ideomorfos. Por meio de uma análise de algumas rochas que formam o conjunto de gravuras do Vale do Tejo, pretende-se, isso sim, lançar um olhar sobre a 1 Quando se citar “signo” ou “signos” ao longo deste estudo, dever-se-á ter em conta a relação arbitrária entre o significante e o significado. Como os grafismos que constituem o centro da análise desta pesquisa são portadores de um significado que não se conhece de maneira clara, muitas vezes, poderão estar a ocultar o que é um provável símbolo (que concentra significado). 4 temática da representação ideomorfa, em articulação com a observação de dados arqueológicos que indiciam alguns caracteres da população produtora das gravuras existentes no vale em questão. Para fundamentar devidamente a nossa linha de exposição é pertinente distinguir a noção de signo da de símbolo, a fim de se explicitar a natureza de um e de outro e, mais precisamente, o modo como signo se eleva à categoria de símbolo. De acordo com Chevalier & Gheerbrant (1982), o símbolo diferencia-se do signo na medida em que exibe um vínculo e uma congruência entre o significante e o significado, algo que não se verifica na ocorrência do signo. O símbolo, nas palavras de Durand (1979:14), contém a “(…) homogeneidade do significante e a do significado no sentido de um dinamismo organizador”. As secções que se seguirão oferecem um levantamento bibliográfico específico sobre a arte rupestre encontrada no Vale do Tejo, especificamente os ideomorfos. Os pilares bibliográficos que sustentarão esse patamar inicial da pesquisa serão constituídos pelas obras de Emmanuel Anati (1968), António Martinho Baptista (1981, 1986), Victor Oliveira Jorge (1983), Mário Varela Gomes (1983, 1987, 1989, 1990, 2000, 2004), Luís Oosterbeek (2003, 2004, 2007/2008), Mila Simões de Abreu (1995, 2000), Hipólito Collado Giraldo (2006a, 2006b), Oosterbeek & Cardoso (2004b), Fossati, Abreu & Jaffe (1991), Collado Giraldo & Abreu (1999). Do conjunto de superfícies gravadas, escolhidas para ilustrar a problemática dos ideomorfos repetidos encontrados no Vale do Tejo, algumas serão analisadas por meio de levantamento de dados originais. Já as demais terão suas observações específicas condicionadas pelos levantamentos efectuados por autores que as estudaram posteriormente – António Martinho Baptista, Mário Varela Gomes e Mila Simões de Abreu. Serão utilizadas as visões destes autores que concernem aos motivos 5 ideomorfos existentes na região, não apenas no que tangencia às suas correlações no painel, suas peculiaridades estilísticas e percepções tipológicas, mas também no que concerne à interpretação que poderá ser feita, segundo os autores supracitados, a partir dos dados recolhidos da verificação pragmática e contextualizada das gravuras. Inclui-se ainda neste trabalho contribuições propostas por Leroi-Gourhan (1964), Lewis-Williams & Dowson (1988), Sanchidrián (2005), Taylor (1999), Ucko & Rosenfeld (1967) e outros autores que estudam a temática dos grafismos e que produziram considerações relevantes para o desenvolvimento do tema proposto. O patamar seguinte à discussão teórica será marcado pela exposição da metodologia empregada e a descrição do levantamento das gravuras das rochas do Ocreza. Com isto, pretende-se detalhar os passos de colecta de dados de campo, que implicarão na sustentação de uma análise. É importante salientar os motivos que induziram a escolha do estudo de caso de algumas amostras do conjunto de ate ruestre existente no Vale do Tejo. O estudo de caso, como se sabe, é um importante auxiliar na realização de uma pesquisa com objectivos de generalização teórica. Ao levarmos em consideração a natureza e as principais dificuldades relativas ao exame dos motivos ideomorfos, confrontámo-nos com a necessidade de sondar um conjunto de perspectivas teóricas possíveis de oferecerem diferentes possibilidades interpretativas. Assim se evita produzir uma interpretação generalizada dos motivos “geométricos” que tende a excluir a especificidade de uma compreensão mais precisa do seu significado. Na Arte Rupestre, a busca do sentido é uma actividade imprescindível ao exercício de observação e estudo. No entanto, não deve ser efectuada de maneira aleatória. Para verificar a aplicação de algumas relevantes teorias provenientes de certas áreas científicas para este trabalho como, por exemplo, a teoria dos protótipos vinculada 6 à Psicologia Cognitiva, a formação de imagens cerebrais sustentada pela Neuropsicologia e a teoria dos Arquétipos de Carl Jung, no que toca à interpretação dos ideomorfos, utilizamos uma metodologia cuja componente essencial é a observação de amostras – o estudo de caso –, para, a partir daí, estabelecermos, de acordo com as evidências recolhidas e a partir da observação da repetição de determinados grafismos, uma possibilidade de interpretação mais plausível. Este procedimento metodológico permitir-nos-á avançar para uma etapa posterior da análise, na qual procuraremos conjugar os diferentes contributos teóricos na sustentação das análises interpretativas que fizermos de alguns dos suportes rochosos com motivos rupestres no Vale do Tejo. O estudo de caso e as hipóteses explicativas que sustentam certas interpretações científicas exercem entre si movimentos que fazem parte de um dinamismo dialógico. Conjugam-se na construção de uma análise que pretende articular o conhecimento científico particular com o conhecimento teórico de alcance universal. A Arte Rupestre que predomina no Vale do Tejo levanta a problemática de leitura dos signos geométricos, associados ao modo de disposição particular dos seus grafismos. Contudo, para se iniciar um estudo sobre as manifestações ideomorfas da região, e sobre as razões que levaram à sua eclosão, propõe-se um método de pesquisa que apresenta, primeiramente, a colecta de aspectos a serem analisados e confrontados. Posteriormente, estas peças serão interpretadas com o auxílio de teorias adequadas que nos permitem elucidar sobre a significação dos ideomorfos. Quanto à estrutura da tese, após a exposição dos resultados obtidos por meio do levantamento prático das manifestações de arte rupestre vista em rochas do Ocreza, teoricamente enquadrado conforme a caracterização da arte rupestre no Vale do Tejo, apresentaremos, nos capítulos subsequentes, as evidências observadas e as abordagens teóricas que esclarecem a natureza dos símbolos encontrados, bem como as 7 razões do seu surgimento e dos seus significados. Entre essas abordagens destacam-se: a de Jean Clottes (1998), que aponta como origem do processo entópico o contexto xamanístico; a de Lévi-Strauss (1975), que sustenta a concepção da existência de uma configuração estrutural das expressões da arte rupestre, visão proveniente da linguística estrutural de Ferdinand Saussure (1916); a perspectiva defendida por Lewis-Williams (2002), Lewis-Williams & Dowson (1988) e Lewis-Williams & Pearce (2005), que abarca a questão dos símbolos ideomorfos como tendo na sua origem estados de consciência, decorrentes de uma série de situações às quais o sujeito é submetido, como o cansaço, o consumo de entorpecentes, a exposição a determinadas intensidades luminosas, mas também verificados em condições naturais por qualquer ser humano, nas experiências de transição das etapas do sono e do sonho. Neste sentido, é interessante justapor às considerações de Lewis-Williams as de Carl Jung a respeito do surgimento de símbolos no sonho. Sendo assim, serão observadas algumas dinâmicas mentais, detectadas pelo estudo neuropsicológico, que compõem o processo de formação de símbolos, relacionando as formas geométricas produzidas pela mente e a origem das direcções que moldariam o significado que se funde às formas. Serão apresentadas algumas considerações sobre o processo de formação de um símbolo, suas manifestações e representações. Neste sentido, o conceito de inconsciente colectivo, formulado por Jung (2002), será introduzido na discussão teórica, pois retoma a questão da universalidade inserida do processo produtivo da imaginação simbólica. Convém esclarecer que isto não quer dizer que símbolos idênticos convirjam para um mesmo significado e uma mesma interpretação. Faz parte da atribuição de valor simbólico a um signo a consideração de variáveis antropológicas e etnográficas, na elucidação da combinação do que nele há, simultaneamente, de universal e de específico. 8 Os objectivos deste trabalho são, por conseguinte, os seguintes: a) Oferecer a um tema de carácter arqueológico uma contribuição teórica, proveniente de áreas de estudo como a Psicologia, Antropologia e a Linguística, de modo a fomentar o desenvolvimento de estudos que incidam sobre a temática dos grafismos analisados sobre diversos e, talvez, complementares, pontos de vista. b) Compreender melhor como se dá a representação de certos grafismos que se repetem ao longo de gerações populacionais que ocupam um dado espaço geográfico. c) Contribuir para o aprofundamento das investigações orientadas para os estudos de vestígios arqueológicos do Vale do Tejo. d) Promover uma compreensão mais abrangente no que diz respeito às expressões humanas que concentram em seu bojo estruturas emergentes de diversas sectores que moldam o ser humano. 9 1. GRAFISMOS REPETIDOS NA ARTE RUPESTRE Neste capítulo, abordaremos os grafismos puros que se repetem nos suportes estudados pela Arte Rupestre, abordando as principais perspectivas teóricas que fizeram, e ainda fazem, parte da discussão da interpretação destes elementos, e da construção do seu significado. Pessis (1992) classifica os grafismos em dois tipos: grafismos puros ou irreconhecíveis e grafismos reconhecíveis. Os primeiros dizem respeitos às formas geométricas ou sem formato definido. Por sua vez, os grafismos reconhecíveis são desenhos de referência animal ou humana – antropomorfos e zoomorfos –, cujo significado pode ser depreendido facilmente uma vez que está imanentemente vinculado à forma. O autor Mário Varela Gomes (2004) adopta a classificação de ideogramas e psicogramas àqueles motivos que não representam figurativamente um objecto, animal ou formas humanas. Ideogramas 2, seria a expressão de ideias e conceitos por meio de formas; e psicogramas definem-se como sendo motivos de pouca relevância representativa e muitas vezes sendo considerados como marcas executadas por mero impulso do gravador sem uma intenção prévia ou elaboração da gravura – estes motivos podem ser exemplificados como pequenas linhas ou pontos dispersos. Àqueles motivos que são visivelmente representações directas de algo concreto ou são dotados de formas mescladas de várias entidades, Gomes (2004) denomina pictogramas, são eles: antropomorfos, zoomorfos, figuras de armas etc. Sabemos que a existência dos grafismos designados como “puros” na Arte Rupestre transcende o valor temporal e espacial, de modo que podemos vê-los em várias partes do mundo, datados nos mais diversos períodos e pertencentes a uma série de sociedades. Segundo Abreu (1995), a maior parte que constitui a arte rupestre 2 Os ideogramas possuem a mesma definição de ideomorfos, entretanto, excluem aquelas expressões gráficas que são identificadas como meros riscos ou pontos ao acaso. Sendo assim, os ideogramas e ideomorfos são considerados em sua essência duas nomenclaturas para a mesma definição. 10 mundial, em diferentes espaços geográficos, são as figuras geométricas ou abstractas em que a compreensão de seu significado é difícil. Desta forma, serão abordadas questões como a especificidade e a universalidade que tocam o estudo desta natureza de símbolos que, a todo momento, aparece como problemática merecedora de uma análise atenta, capaz de nos livrar das interpretações pouco fundamentadas e ilusórias. Os motivos ou formas mais recorrentes que compõem o objecto de estudo aqui mencionado - da ordem dos grafismos “irreconhecíveis”, ou ideomorfossão espirais, labirintos, covinhas, círculos concêntricos, serpentiformes, podomorfos e outros que veremos adiante. Para Gomes (2004) as serpentiformes correspondem à ordem dos pictogramas, pois representa figurativamente o animal. Tendo em vista as variações dos motivos serpentiformes observa-se o desencadeamento de dúvidas quanto ao que aquela figura representa sendo que, muitas vezes, a forma do motivo se assemelha à serpente, mas não representa o animal. O motivo é caracterizado pela linha ondulada própria da forma que adjectiva a serpente, mas o intuito da gravação poderia não ser espelhar o animal. A palavra “serpentiforme” traduz a precisão da definição do motivo: a forma é de serpente, mas a palavra não reflete que aquele motivo representa, de facto, um ofídeo. Cabe às pesquisas mais sistematizadas e atentas aproximarem-se de uma resposta fidedigna de modo a conferir aos motivos serpentiformes, singularmente, uma classificação do que eles representam: se de facto representam o animal ou, simplesmente, as formas se assemelham, mas não é a representação de uma serpente. Este trabalho orienta a classificação das gravuras serpentiformes como integrantes do grupo dos ideomorfos pautando-se na relatividade da representação. Pelo mesmo prisma, os podomorfos (formas de pé) são designados como componentes do conjunto chamado ideomorfo. 11 Actualmente as investigações académicas enriquecem-se com os resultados das pesquisas recentes em Neurociência e Psicanálise, que atribuem um novo olhar aos símbolos repetidos encontrados na arte rupestre, sendo a sua repetição atribuída aos esquemas de formações de símbolos produzidos pelo sistema mental e à busca, não aleatória, mas direccionada, da sua simbologia. Com base nestas investigações verifica-se que o valor simbólico dos grafismos ou de certos artefactos não se dá apenas por efeito de condições externas, ou seja, no seio das estruturas sociais, mas também por determinações de produção, isto é, pela activação do sistema neural. Além disso, há também a possível criação pessoal psicossomática de significação simbólica que posteriormente será reelaborada de acordo com o âmbito social de onde emerge. Essa possibilidade de criação pessoal de significação simbólica será tratada adiante e baseia-se em pressupostos da teoria Junguiana de inconsciente colectivo. 1.1. O termo grafismo O termo grafismo é fonte de grande discussão entre os estudiosos da Arte Rupestre. Discussão que provém de um amplo debate que questiona o termo “arte”. Ao identificarmos motivos pintados ou gravados em rochas deparamo-nos com a pergunta “Isto é arte?”. García-Bermejo& Cedillo (2000) expõem que a origem do termo arte se deu na Grécia Antiga, mais precisamente a partir do século VI a. C. Primeiramente o termo empregado era techné e era delegado aos trabalhos que necessitavam de habilidades especiais. Mais tarde, o termo techné foi traduzido, pelos romanos, por ars. O embrião da palavra “arte” encontra-se na cultura greco-romana antiga e detém o 12 sentido de técnica. As artes munidas de conjuntos de técnicas específicas compreendiam um vasto campo não se limitando à representação gráfica, mas também à dança, artesanato e até mesmo à medicina já que esta, para ser executada, é dotada técnicas específicas. A partir do fim do período Medieval a Europa sofreu um processo de transição que se reflectiu em todos os ramos da sociedade, inclusivamente nas produções tidas como artísticas devido ao seu suporte estético. Este período transitório que se estabeleceu entre a queda da idade Média e a ascensão do que seria a Idade Moderna foi o cenário de uma transformação do conceito artístico. Este adquiriu um carácter mais voltado às ideias, que seriam expressas através da arte, do que ao produto material em si que, de acordo com García-Bermejo & Cedillo (2000), se assemelharia a obra artesanal. A partir do período Renascentista a arte foi tratada não como uma maneira de reflectir a imagem estática do mundo, mas uma produção através da qual poderia ser extraído um conceito, uma reinterpretação das coisas. A arte não apenas retratava a sociedade, mas também continha nos seus produtos expressões que dialogavam com o ambiente que a rodeava e no qual ela própria se inseria. O termo “arte” pressupunha técnica, estilo e se comprometia a expressar o Belo munido de interpretações que transporiam a simples estética e se encerrava no centro de sua própria lógica, em que estariam componentes ideológicos, que formavam a base da obra final. A arte do Renascimento havia deixado seu estatuto de complemento deixando de, simplesmente, agrupar técnicas para se tornar a representação das mudanças reflectidas pelos mecanismos sociais. A arte, portanto, desde os pensadores da Grécia Antiga foi pensada e conceituada sendo que, o produto artístico, era aquele que se encaixava nos padrões estipulados do que seria arte na 13 concepção da época. Actualmente, a maneira como concebemos a arte é resultado de toda a problemática ocidental travada desde a Idade Antiga até à Contemporânea. Considerando essa evolução conceptual do termo arte e levando em conta o seu significado não meramente estético, reunindo aspectos de estilo, técnicos com base em regras próprias da esfera artística social, temos um modo direccionado de compreender o que são produções artísticas. No entanto, ao analisarmos manifestações de sociedade que não possuem uma organização condizente à sociedade ocidental contemporânea somos levados, na grande maioria das vezes, a cometermos um grande erro: analisar através dos parâmetros vigentes, em nossa organização social, produtos provenientes de sociedades que não comungam com a sociedade ocidental, os mesmos valores e dinâmicas. “Sin embargo, al referirnos a las manifestaciones artísticas de una época o contexto cultural muy diferentes de los nuestros y al trazar su evolución histórica tendemos a considerar dichas manifestaciones en función del concepto de arte definido por nuestra propia cultura” (GARCÍA-BERMEJO; CEDILLO, 2000) Nas palavras de Abreu (1995:26), “convencionou-se chamar de ‘arte rupestre’ atodas as formas gráficas, pintadas ou gravadas, feitas sobre rocha”.Devido à incerteza quanto à intenção que desencadeou a manifestação de imagens e símbolos na Pré-História, e esta questão estende-se ao campo de sociedades actuais ditas “primitivas”, o uso do termo “arte” é muitas vezes questionado. Provavelmente, alguns dos símbolos produzidos no contexto pré-histórico foram registados com um objectivo que não implicava a intenção estética. A finalidade poderia ser pragmática, utilitária, funcional, e não de apreciação transcendente. Não devemos pensar, no entanto, que a Arte, enquanto expressão estética do ser humano, não pode ter funcionalidade. A função existe mesmo na “arte pela arte”, 14 pois trata-se de uma produção humana que, como tal, satisfaz uma necessidade do ser humano. A arte com um fim em si mesma não é um produto sem utilização, mas possui finalidade de dar expressão à capacidade de simbolização do Homem. Com efeito, faz parte do debate académico o uso do termo “registo rupestre”, segundo o qual gravuras ou pinturas rupestres são consideradas como componentes do registo arqueológico e não como fenómeno separado, que deve ser excluído do contexto arqueológico. Segundo Azevedo Netto (1995), a Arte Rupestre vem sendo cada vez mais considerada como um elemento de comunicação, uma vez que se atribui a sua execução uma finalidade comunicativa. Prous (1992) afirma que uma escultura de sambaqui, uma catedral gótica ou da Nigéria são vistas apenas como uma obra de arte quando não conhecemos as suas outras facetas como, por exemplo, serem “instrumento de culto, ou meio de propagação de uma ideologia" (Prous, 1992:510). O termo “Arte Rupestre” é, assim, não apenas utilizado pelos arqueólogos, mas também pelos historiadores da arte, artistas plásticos e estudiosos da antropologia visual. A hegemonia da sua utilização e da sua assimilação pelo meio académico decorre, como menciona Prous (1992), da frequência com que é empregado. Existem também divergências sobre a origem do termo “grafismo”, derivado do termo grafia para designar a comunicação por meio de signos. De acordo com Hyder (1988 apud Silva, 2004), as manifestações rupestres são produções simbólicas que comportam uma mensagem que se compõe através de signos desvinculados do contexto do qual irromperam, e de que perderam o seu significado de origem. Isto torna-se evidente quando nos referimos aos grafismos puros que não possuem relação directa com um objecto. Sendo assim, para Hyder (1988 apud Silva, 2004), as expressões rupestres devem ser concebidas como forma de linguagem e não como um conceito de arte. O emprego do termo grafismo, também defendido por Prous 15 (1992), traz ao âmbito da Arte Rupestre a ideia de que os grafismos contêm um significado, uma mensagem, que deve ser percebida e apreendida. O termo torna-se alvo de críticas porque supostamente exclui o carácter artístico, suprime a questão da estética. No entanto, se tratarmos a arte como produto de um grupo social cujas técnicas derivam do contexto onde residem, podemos afirmar que os grafismos podem ser considerados arte, já que elaborados a partir dos elementos materiais em que se inscrevem, revelam qualidades expressivas de elevado conteúdo estético. Também a arte como produto cujas intenções são a manifestação e a contemplação estéticas detém em si uma mensagem, a mensagem que materializa seu objectivo, mesmo que ele seja transcendente. A “arte pela arte” não se distancia da finalidade para a qual foi expressa, é portadora de qualidades que se manifestam na materialidade de sua expressão. Portanto, o termo “grafismo”, a despeito de sua semântica não assimilar uma dimensão estética, dialoga com o termo “arte”, na medida em que a sua materialização revela configurações que se podem ler como detentoras de um significado estético. 1.2. Histórico do estudo dos grafismos irreconhecíveis A atenção dada aos grafismos puros ou irreconhecíveis foi estabelecida com maior intensidade no âmbito da Arte Rupestre paleolítica. Estes símbolos, distintamente dos antropomorfos ou zoomorfos, também podem ser, como propõe Baptista (1981) denominados ideomorfos (ideo = ideia; morfo = formas), pois não representam um objecto em si, mas um conceito. No entanto, isso não exclui a 16 possibilidade de um grafismo puro ser considerado como uma forma estilizada de representar um objecto. A tentativa de interpretação de ideomorfos teve o seu primeiro impulso no final do século XIX, com Rivière (1897 apud Ucko & Rosenfeld, 1967), que estudou a arte rupestre encontrada em grutas paleolíticas. O arqueólogo interpretou um dos motivos descobertos como representando parte de uma cabana. Este movimento influenciou a análise interpretativa de Breuil (1952 apud Ucko & Rosenfeld, 1967), que denominou de “tectiformes” os signos que possuíam semelhança com as formas de tecto de cabanas. Cabe ressaltar que os motivos tectiformes de Breuil (1952 apud Ucko & Rosenfeld, 1967) referiam-se aos símbolos que podiam ser vistos nas grutas paleolíticas por ele estudadas, ou seja, símbolos que possuíam formas semelhantes a tectos – susceptíveis de serem interpretados coberturas superiores de cabanas. Breuil, Capitan & Peyrony (1910 apud Ucko & Rosenfeld, 1967) destacaram a importância da análise dos motivos que não apresentavam traços que supostamente representavam animais ou pessoas, isto é, zoomorfos ou antropomorfos, ao atribuírem um capítulo inteiro do seu livro La caverne de Font de Gaume aux Eyzies a esta temática. Os paralelos etnográficos estabeleciam relações daqueles ideomorfos com as cabanas vistas nos assentamentos dos grupos contemporâneos, que possuem um carácter dito “primitivo”. Entretanto, outras possibilidades de interpretação do significado destes símbolos começaram a ser estabelecidas, questionando a interpretação daqueles motivos como representação de cabanas. Alguns dos paralelos etnográficos mostravam que aqueles grafismos podiam representar armadilhas. A relação entre os motivos estudados e o significado atribuído de armadilhas era apoiada, segundo Ucko & Rosenfeld (1967), pelos estudiosos que acreditavam no carácter mágico das representações de caça 17 figuradas nas pinturas existentes nas cavernas paleolíticas. Aqueles autores também se referem à hipótese colocada por alguns investigadores identificarem alguns destes grafismos como sendo armadilhas. Mas armadilhas para maus espíritos e não aquelas utilizadas na caça. Por sua vez, Breuil (1954 apud Ucko & Rosenfeld, 1967) fundamentou a sua tese segundo a qual a significação dos grafismos se relacionava com a morada de espíritos atávicos representando armadilhas. A tese deste arqueólogo apoiou-se na refutação da hipótese formulada pelo paralelismo etnográfico, ou seja, pelo método que estabeleceu a relação entre os ideomorfos estudados e as armadilhas para animais. Uma vez que as armadilhas, os animais e tectiformes, espalhados pela gruta, estavam sobrepostos, indicando que não foram gravados num mesmo espaço de tempo, Breuil (1954 apud Ucko & Rosenfeld, 1967) concluiu que não havia relação entre os símbolos. Muito se teorizou sobre esses motivos descobertos em cavernas paleolíticas. Algumas vezes, as hipóteses de interpretação sobre determinados motivos exaltava seu carácter individual e o facto de que poderiam ser de proveniência temporal diversa, como por exemplo, a interpretação de Breiul (1952 apud Ucko & Rosenfeld, 1967) de que os tectiformes encontrados na gruta de Niaux, eram referências topográficas deixadas por exploradores da Idade do Ferro. A etnografia comparada indicou, primeiramente, que os grafismos nas grutas paleolíticas podiam ser representações de cabanas. Em contrapartida, os estudos que se seguiram exibiam a diversidade de símbolos que não eram de imediata identificação. Comparações posteriores fomentaram que havia uma extensa diversidade interpretativa que se debruçou sobre a questão dos grafismos nestas grutas. Capitan (1925 apud Ucko & Rosenfeld, 1967) realça a importância de cultivar a prudência do método lógico no que concerne à interpretação, que não pode 18 correr o risco de generalizar o significado de certos grafismos. Considera que uma única teoria não é capaz de esgotar a explicação do significado dos grafismos, pois sua execução é um feito individual, de modo que há subjectividade em cada resultado obtido. Afirma, portanto, que pode haver signos idênticos com significados diversos. A partir desta discussão ocorrida no plano da arte paleolítica, podemos vislumbrar o prolongamento da mesma no que se refere aos símbolos que não são de fácil identificação, inseridos em outros contextos temporais que não somente o Paleolítico. De acordo com Lewis-Williams & Dowson (1988), o estudo dos ideomorfos é auxiliado pela Neuropsicologia no que diz respeito à explicação do surgimento de algumas formas em certas representações. É com base nos estudos de produção de formas dadas através de fenómenos ópticos que podemos compreender que muitos dos motivos em Arte Rupestre se repetem – e é possível estender esta compreensão ao âmbito das artes plásticas, principalmente a pintura e o desenho. A repetição deve ser analisada, concebendo a manifestação de formas universais geradas por processos neurais e, a partir daí, percebendo que a repetição comporta em seus pilares outros factores que derrubam a simplista e precipitada explicação do contacto entre grupos. Em relação ao significado das formas apresentadas na arte rupestre, mais precisamente na arte paleolítica, que foi objecto de estudo tanto de Lewis-Williams como de Dowson, poderíamos assimilá-lo por meio de paralelos etnográficos. Mesmo assim, os autores reconhecem a dificuldade de se aplicar este método em sítios onde não existem condições para se fazer um estudo etnográfico regional. 19 1.3. A compreensão de um grafismo a partir dos demais motivos que compõem um painel Compreender um símbolo é determinar seu valor, ou seja, apontar desvendar o seu significado a partir da observação dos demais signos com que se articula espacialmente e no interior de uma certa estrutura. Esta é uma abordagem explicativa que deriva do Estruturalismo, linha de pensamento cultivada originalmente pela Linguística Moderna, elevada ao estatuto de ciência no fim do século XIX, por Ferdinand de Saussure 3. As bases que fundamentam a perspectiva estruturalista no estudo da língua serviram como parâmetros à Teoria Estruturalista Antropológica, elaborada e defendida por Lévi-Strauss (1975). Em 1945, como relata Sanchidrián (2005), M. Raphaël suspeitava que havia uma certa ordem nos signos dos animais representados na arte paleolítica. Tendo como inspiração o estruturalismo, que naquela época adquiria grande relevância como método de análise no âmbito do estudo das Humanidades, a percepção foi posteriormente reforçada e melhor fundamentada por Laming-Emperaire (1962 apud Sanchidrián, 2005) e Leroi-Gourhan (1964 apud Sanchidrián, 2005). Os dois pesquisadores observaram, segundo Sanchidrián (2005), que havia um sistema binário de associação que envolvia a representação de bisontes e cavalos. Para compreender o significado desta associação, os autores estabeleceram uma correlação que envolvia cada um dos motivos zoomorfos com demais signos que compunham, muitas vezes, os painéis em que surgiam bisontes e cavalos. Notaram, contudo, uma ligação de representações de bisontes com motivos que continham traços ligados à feminilidade. Dessa verificação, concluíram que na arte paleolítica o Feminino era potencialmente vinculado aos traços de bisontes. Algumas discordâncias sobre o 3 A este respeito, conferir SAUSSURE, F. 2000. Curso de Lingüística geral. São Paulo: Cultrix. 20 sentido da associação da mulher com o bisonte ocorreram entre ambos autores. LeroiGourhan (1964 apud Sanchidrián, 2005) sustentava a ligação directa entre o Feminino e o bisonte, ou seja, defendia que a figura do bisonte era redutível à própria figura da mulher. Já Laming-Emperaire (1962 apud Sanchidrián, 2005) propunha um sistema de oposição entre a mulher e o bisonte, representando este o masculino. Neste sentido o cavalo foi interpretado como o representante do Feminino, contrariamente à tese defendida por Leroi-Gourhan (1964 apud Sanchidrián, 2005) que, ao atribuir o significado com base numa associação dicotómica e complementar, conferia à imagem do cavalo a relação com o Masculino. Ao concluírem por interpretações a interpretações diferentes e divergentes de significados, este método de pensar os motivos encontrados na arte paleolítica, mediante o qual o valor de um signo se estabelece através de sua relação com demais motivos, estes autores proporcionaram a abertura de novos horizontes à analise interpretativa da Arte Rupestre. Muito embora o método estruturalista proveniente da Linguística tenha sido, primeiramente, aplicada à arte paleolítica, foi de grande relevância para o estudo das expressões artísticas pertinentes em outras épocas. Neste sentido, os grafismos puros e seus possíveis significados recebem um novo enfoque de análise. A sua disposição no painel e a correlação com os demais motivos observados em um mesmo suporte tornam-se variáveis de grande importância para compreender, pelo menos parcialmente, o seu significado. 1.4. A repetição do símbolo e as teorias entópicas A Arte Rupestre tem recebido contributos de outras áreas que têm por objectivo o estudo da psique humana que se têm debruçado sobre o conteúdo de 21 algumas representações rupestres relacionadas com alguns planos não ordenados de consciência. A explicação para a produção de alguns grafismos foi atribuída ao fenómeno xamânico. A aceitação, por parte de estudiosos da Arte Rupestre, desta explicação trouxe à discussão arqueológica conceitos dantes tratados pela Antropologia Cultural e, mais profundamente, pela Psicologia. No final da década de 1980, os estudos da Arte Rupestre acolheram uma nova perspectiva de abordagem explicativa que alterou as formas de compreensão dos grafismos. Este novo horizonte de estudo abriu-se a partir de pesquisas da Neurofisiologia Pura, que encontrou nas evidências da Arte Rupestre um testemunho vital do modo de operar o cérebro humano. Concretamente, a teoria dos entópicos veio evidenciar a questão da não linearidade da manifestação consciência e da possível demonstração nas criações da arte rupestre. Sendo assim, alargou-se o âmbito de estudo da Arte Rupestre que passa a considerar não somente a variável cultural fornecida por elementos sociais justapostos – e, a partir daí, determinar a valoração significativa dos motivos –, mas também elementos que dizem respeito a outras variáveis que não se observam no plano do funcionamento estrutural de grupos sociais. De acordo com Lewis-Williams & Dowson (1988), os entópicos, que significam “olhos internos”, são sensações ópticas percebidas e formadas dentro da estrutura ocular devido a alterações na retina. Os fenómenos de ordem entópica desencadeiam-se em circunstâncias diversas e são provocadas pelo cansaço, por certas condições de luminosidade ou mesmo por consumo de substâncias alucinogénicas. A partir da identificação de alguns elementos da Arte Rupestre gerados por efeito de como sendo resultado de um conjunto de práticas rituais xamanistas acompanhadas pela ingestão de alucinogénicos com o intuito de induzir o estado de 22 “transe”, como comprovam estudos etnográficos, as atenções de alguns académicos convergiram para o estudo das produções visuais decorrentes do consumo de drogas psicadélicas. Este enfoque visou compreender não apenas o significado de símbolos observados em certos locais de arte rupestre, mas também o contexto, o mais amplo possível, de produção dos símbolos. A preocupação com as circunstâncias exteriores que condicionam a produção de sentido dos grafismos foi inspirada, em certa medida, em Bakhtin (1995). Autor de uma semiologia hermenêutica, este filósofo e linguista russo afirma que o significado de um símbolo proveniente da articulação da interacção verbal (uma palavra) ou associado a qualquer outra natureza material – uma hóstia, o martelo e a foice, uma camisola de uma equipa de futebol, por exemplo – é determinado por uma exterioridade constitutiva, ou seja, advém de condições sociais e culturais fundamentalmente exteriores ao signo. Por outras palavras, é como se o símbolo, que Bakhtin (1995) avalia como signo verbal, e que nós avaliaremos como ideomorfo, fosse um suporte indeterminado investido e modulado por significados produzidos por sujeitos inseridos num dado contexto social, histórico e ideológico. Assim, os símbolos icónicos da ideologia comunista, que são o martelo e a foice, podem adquirir sentidos depreciativos quando interpretados no interior de um contexto capitalista. Eis a razão porque, para reconstruir o significado que os autores originais dos grafismos lhes conferiram, torna-se essencial avaliar a influência do contexto em que foram produzidos os motivos. Lançada em direcção ao momento de emergência dos símbolos, a teoria dos entópicos vem adicionar aos estudos arqueológicos duas novas problemáticas: da necessidade de investigação de toda a atmosfera que servia de bojo para a representação de motivos, e não apenas sua materialidade; e a importância de aprofundarmos a busca 23 do significado, não nos limitando à égide da classificação e da lógica provenientes de parâmetros culturais do pesquisador. Em muitas plantas utilizadas nos rituais xamânicos, existe uma substância chamada dimetiltriapina (DMT). A produção de certas quantidades desta substância pode ser verificada, inclusive, no cérebro humano. A DMT, quando fumada, provoca efeitos imediatos, induzindo um estado de consciência alterada, o estado de “transe”, bastante conhecido pelos xamãs. Estas alterações são súbitas e rápidas, podendo, em função da quantidade da dose ingerida chegar ao ápice do “transe”, em poucos minutos. Meyer (1994) estudou os efeitos desta substância a partir de depoimentos de utilizadores da droga e estabeleceu três níveis distintos de alteração de consciência. Basicamente, os três níveis são caracterizados, segundo este autor, da seguinte maneira: no primeiro nível, verifica-se um aumento no fluxo de imagens processadas pela consciência; o nível dois corresponde ao processamento de imagens com formas geométricas e coloridas; o último nível é o mais complexo, pois está associado à visão de “entidades” e objectos. De acordo com Taylor (1999), as “entidades” vistas adquirem configurações que são condicionadas pelo ambiente cultural do indivíduo que participa da experiência. O teor da cultura que o envolve e que condiciona a sua percepção de mundo expressa-se nos objectos e entidades visualizadas no nível três do transe provocado pela DMT. Um facto curioso é a narração feita por Taylor (1999) sobre um amigo que se deslocou à Amazónia para estudar os Ayahuasqueiros. Ao participar num rito marcado por experiências de transe induzido pela DMT, observou o surgimento de uma animal e de outras entidades associadas à sua cultura cristã. Este animal nunca fora 24 visto pelo amigo de Taylor até que, dias depois, ainda na Amazónia, ele se deparou com a criatura. A partir destas breves considerações, podemos notar que há um vasto campo de estudo a ser realizado no âmbito dos processos conscientes e inconscientes de cognição humana. Os mecanismos de funcionamento do nosso inconsciente ainda estão por determinar. A Psicanálise, desde Freud, tem procurado analisar e identificar alguns mecanismos e manifestações do nosso inconsciente. De acordo com Jung (2002), as nossas formas positivistas de encarar a realidade e de formar a realidade através de dados imediatamente perceptíveis distancianos de uma dimensão psíquica onde tudo flúi, onde se estabelecem relações que obedecem a um sistema lógico diverso do que é induzido por esquemas perceptivos racionais resultantes de aplicação do método de pensamento cartesiano. O “homem primitivo” – entendendo-se por esta expressão tanto o homem pré-histórico como o ser humano que, ainda hoje, vive em “sociedades cíclicas”, tribais ou sob outras formas de organização social definidas pela ausência da consciência duma historicidade linear – em contrapartida, ao experimentar formas de vida comunitária articuladas por sistema funcional impregnado de misticismo, mantém suas expressões e percepções inconscientes vinculadas à experiência do seu mundo exterior. 1.5. O sistema nervoso humano e o inconsciente colectivo perante a Arte Rupestre A universalidade do sistema neural humano é reconhecida pela comunidade científica, de tal maneira que se tornou praticamente um objecto consensual de estudo. Sendo o Homem integrante de uma mesma espécie, concebemos que as estruturas do seu corpo e seu funcionamento, bem como as estruturas neurais, 25 são sustentadas por pilares formadores comuns. A Biologia demonstra-nos isto, e a Neurologia, ocupada com o funcionamento do cérebro humano, sustenta a universalidade das funções neurais da espécie humana. Segundo Teixeira (2003), actualmente a neurociência fornece-nos dados precisos sobre o funcionamento cerebral do ser humano, sobre as componentes que constituem o cérebro humano e sobre as reacções químicas que nele sucedem. “Contudo o grande desafio que a neurociência ainda enfrenta é a dificuldade (ou será uma impossibilidade?) de relacionar o que ocorre no cérebro humano com aquilo que ocorre na mente, ou seja, de encontrar algum tipo de tradução entre sinais eléctricos das células cerebrais e aquilo que percebo ou sinto como sendo meus pensamentos” (TEIXEIRA, 2003:16) Sabe-se, no entanto, que o cérebro opera mediante a elaboração de formas, visuais e ópticas, cuja “linha produtiva” equivale a dizer que o “produto”, muitas vezes, se repete. Quando apontamos para a problemática dos estados alterados de consciência, deparamos com estudos que, sobretudo, dão conta do processo produtivo de figuras geométricas que têm a sua origem e formação interna no globo ocular. Poderíamos dizer que a construção de significado inicia-se no âmbito do funcionamento psicomotor dos indivíduos que participam dos ritos não somente xamânicos, mas que pressupõem a utilização de enteógenos 4 bem como outros factores que induzem uma alteração no estado de consciência. O significado é assim determinado radicalmente pelas operações básicas do sistema bio-neural dos seres humanos que configuram o aparecimento e a exteriorização das formas. No entanto, a arte rupestre não proveniente de rituais xamânicos ou estados alterados de consciência revela que nela a expressão de um símbolo deve ser 4 Em 1973 propôs-se uma denominação específica para as substâncias alucinogénicas utilizadas em rituais para que o valor pejorativo remetido às drogas alucinogénicas não se estendesse para componentes de rituais que são parte de uma sociedade. Ao invés de alucinogénicos foram chamados de enteógenos. 26 tida como um acto de escolha consciente, de acordo com uma certa finalidade, seja ela de teor místico, funcional ou simplesmente decorativo. Ao pretender expressar algum conceito ou compor alguma situação de cunho específico social, a busca ou escolha de um símbolo se processa, superficialmente, de forma “consciente”, muito embora essa escolha possa ter uma origem menos racional, já que permanecem incógnitos os mecanismos mais profundos de resgate de um símbolo. Talvez esta aleatoriedade de escolha seja ilusória, e exista algum fundamento psicossomático ou social que influencie a escolha de um motivo. À soma indeterminada donde provém a figuração dos símbolos, à ideia de uma dimensão antropológica profunda associada à produção de pensamento simbólico, que não é construído individualmente, mas sim transmitido de geração para geração, Jung (2002) dá o nome de inconsciente colectivo. Nas palavras de Henderson (1964:107), um dos seguidores do psiquiatra suíço, o inconsciente colectivo e os símbolos que por ele são processados correspondem à: “… parte da psique que retém e transmite a herança psicológica comum da humanidade. Estes símbolos são tão antigos e tão pouco familiares ao homem moderno que este não é capaz de compreendê-lo ou assimilá-los directamente” (HENDERSON, 1964:107) Se o inconsciente colectivo pressupõe a existência de uma dimensão psíquica comum, então a expressão de um motivo provavelmente possui uma conexão original com essa dimensão do inconsciente. Tendo em vista a natureza universal da psique humana, não estamos impossibilitados de estabelecer esta hipótese. Entretanto, não podemos alegar, de maneira redutiva, que a figuração de um símbolo – verificado, por exemplo, em Arte Rupestre – traduz puramente um significado que tem a sua origem no inconsciente colectivo. Certamente, ao emergir um símbolo, o seu significado articula-se e faz parte de um conjunto de outros símbolos, os 27 quais especificam o seu valor a partir do momento em que ele for registado. Contudo, a tradição de origem psicológica dos símbolos no inconsciente colectivo, tal como este foi conceptualizado por Jung (2002), permite compreender as razões da selecção de um dado símbolo ao invés de outro. Neste caso, a escolha é feita em meio a símbolos e não signos, que Chevalier & Gheerbrant (1982) definem como formas sem significado simbólico. De certa forma, a figuração de um símbolo, sendo ela oscilante nas suas origens entre a determinação inconsciente e vontade consciente, tanto por parte do indivíduo como no do grupo social em que ele se insere, define a Arte Rupestre não apenas como um campo de estudo de significações e representações materiais exteriores, mas como um objecto de investigação centrado para o conhecimento de zonas profundas do funcionamento da psique humana. “Mas o fato é que, além de memórias de um passado consciente longínquo, também pensamentos inteiramente novos e idéias criadoras podem surgir do inconsciente- idéias e pensamentos que nunca foram conscientes. Como um lótus, nascem das escuras profundezas da mente para formar uma importante parte da nossa psique subliminar” (JUNG, 2002:38) Inventariando as perspectivas de pesquisa que têm vindo a ser mencionadas ao longo deste trabalho, e que grande parte, é desenvolvido a partir da análise da arte rupestre paleolítica, verificamos e reiteramos que o estudo dos grafismos puros se valeu de uma farta herança científica. Sendo símbolos que não possuem uma identificação imediata, os grafismos puros, também chamados de grafismos irreconhecíveis ou ideomorfos manifestam uma repetição que se prolonga e que ultrapassa os limites do tempo e do espaço circunscritos. Esta repetição instiga-nos a aprofundar os estudos feitos sobre estes signos e mostra-nos que, para chegar à compreensão do seu significado e, de certa 28 forma, do comportamento humano que está na sua origem torna-se necessário analisar a natureza dessa repetição. Uma vez que os grafismos são produções de culturas sociais distintas, devemos ser prudentes quando se empreende a análise dos seus significados, principalmente no que tangencia ao estudo dos grafismos puros. A repetição do motivo não implica, necessariamente, uma repetição do significado, como nos mostram algumas comparações etnográficas que serão apresentadas no trabalho. No entanto, não se pode descartar uma certa universalidade na escolha da representação de algumas formas. Neste sentido, é necessário que sejam realizados estudos que abordem a universalidade e a especificidade das repetições. Na análise do significado de um símbolo transmitido como legado cultural, não é possível ter acesso completo à dinâmica do grupo social, pois os símbolos fazem parte de um corpo social que se extinguiu. Por conseguinte, é imperioso apreender todos os elementos relevantes para a reconstituição do seu significado para que se possa fornecer uma hipótese interpretativa aproximada. Muitas vezes, uma determinada forma na arte rupestre pode vir a ser a representação de um artefacto eventualmente encontrado numa escavação arqueológica processada nos arredores do local de dada manifestação rupestre. Além disso, a presença de grafismos em certos locais e sua ausência noutros pode fornecer pistas valiosas sobre a função antropológica, social e cultural daquela “arte" e quais os elementos ligados a ela. É através da distribuição espacial dos motivos que podemos discernir a relação entre uma função ritual (simbólica) ou funcional (prática) daquelas manifestações “artísticas” e a vida das pessoas responsáveis por aquela produção. Algumas considerações podem ser feitas a partir das linhas de pesquisa anteriormente mencionadas. Em relação ao tipo de análise dos motivos propostos pelo Estruturalismo, deve ressaltar-se que este método de conhecimento não descarta a 29 importância diacrónica. Embora a abordagem estruturalista se oriente para uma descrição das relações entre elementos transcendendo portanto os parâmetros cronológicos, não rejeita a especificidade cultural num limite temporal. Ainda assim, a orientação da sua metodologia recai sobre a universalidade dos elementos constantes, no seu conjunto, que atribuem valor. Aplicada à Arte Rupestre a análise do painel permite reconstruir e interpretar, de uma maneira sistematizada, as funcionalidades dos grafismos estudados. A análise do conjunto de motivos expressos permite situar o símbolo em relação aos demais motivos que o rodeiam espacialmente. Cabe ressaltar que as sobreposições que configuram um dado painel evidenciam outra variável importante de estudo, o de que os motivos gravados ou pintados em momentos posteriores sucessivamente foram inseridos em suportes materiais onde já havia pelo menos um signo estampado. Os estudos revelam que as formas que compõem a base estratigráfica de um suporte foram percebidas pelos autores dos grafismos e, de uma forma ou de outra, podem ter direccionado a produção dos motivos subsequentes. Pintar ou gravar num painel com signos estampados anteriormente indica que houve uma percepção atenta e criteriosa, por parte dos “artistas”, dos motivos situados na base estratigráfica. Muitas vezes, as sobreposições estão associadas à problemática da imprecisão da cronologia. Podemos saber que um motivo foi feito posteriormente a outro, mas é impossível afirmar com rigor o que medeou desde a produção do antecessor. Assim, deparamo-nos com a questão sobre qual grupo social foi responsável pelas demais expressões artísticas. A sobreposição e a inferência de que houve a percepção de signos anteriores estimula, no entanto, exercícios de análise antropológica mediante os quais se procura explicar a ordenação e significado dos substratos culturais primeiros e dos símbolos gravados na base original do painel. 30 O estudo dos grafismos, sejam os puros ou os reconhecíveis, está, portanto, na origem de uma série de estudos, que atravessam as fronteiras da Antropologia Cultural, das Artes, da Etnografia, da Linguística, da Psicologia e da Neuropsicologia. Os contributos destas duas últimas mostram ser essencial um maior conhecimento dos mecanismos psicológicos que estão na origem das figurações simbólicas e que são expressas de diferentes maneiras, de acordo com as leis da cultura. Por vezes, existem modos culturais diversos de expressar um mesmo sentido. As manifestações simbólicas presentes em diferentes grupos sociais provêm de duas “forças distintas”: uma que tem a sua origem em associações psíquicas universais, ou seja, que actua no âmbito do inconsciente colectivo; e a outra que se define conforme os elementos culturais específicos de cada sociedade. Sendo assim, no que diz respeito aos estudos dos grafismos que se repetem ao longo da arte rupestre vista, somos convidados a aventurar-nos em diversos campos de pesquisa que visam desvendar algumas das criações das origens do pensamento humano. 31 2. METODOLOGIA O Vale do Tejo apresenta-se como um complexo rupestre dotado de um grande potencial para um estudo sobre o fenómeno da repetição de ideomorfos, uma vez que exibe um número representativamente significativo desse tipo de motivos em detrimento das gravuras zoomorfas e antropomorfas. Devido a esse elevado número de motivos de carácter ideomorfo, reveladores de uma simboligia cuja temática surge tipicamente nas formas de expressão da arte rupestre e congruente com a paisagem onde se inserem as gravuras, a região mostra-se digna de um estudo detalhado sobre os signos ideomorfos que formam parte relevante do complexo. Para esclarecer o objecto que será estudado deve levar-se em consideração que, embora os ideomorfos sejam aqueles motivos que não representam figurativamente, de maneira directa, algo, podem ser representantes tanto de um conceito concreto quanto de um conceito abstracto. As suas formas não reflectem de maneira clara o possível objecto que se queira expressar, podendo, entretanto, condensar ideias complexas. A metodologia empregada neste trabalho compreende três fases principais: a recolha de dados e informações, a análise dos dados reunidos e as etapas interpretativas. Abaixo apresentamos um esquema que esboça a metodologia aplicada neste estudo: 1. Recolha de informações: a) Revisão bibliográfica. b) Colecta de dados específicos acerca dos suportes gravados que compõem o complexo rupestre do Vale do Tejo. Com o intuito de especificar um 32 método adequado para a recolha de informações, a colecta de dados no complexo rupestre do Vale do Tejo foi subdividida em função das suas características geormorfológicas. As três subdivisões foram definidas por: • Suportes submersos. • Suportes não submersos, mas cujos dados não podem ser extraídos devido a impedimentos legais. • Suportes não submersos cujos dados podem ser recolhidos por meio de um estudo de campo. 2. Análise de dados e informações colectadas. 3. Interpretação. A primeira fase é constituída pela revisão bibliográfica e recolha de dados de campo. A revisão bibliográfica foi feita considerando a literatura sobre a temática geral dos ideomorfos, bem as como publicações referentes ao complexo de arte rupestre do Vale do Tejo. Como foi referido acima, nesta primeira fase, foram utilizados três quadros metodológicos que são adequados às diferentes situações em que se encontram os exemplares de arte rupestre identificados no Vale do Tejo. Para se fazer um estudo sobre a arte rupestre situada no Vale do Tejo, temos que levar em conta a situação actual de alguns grupos de suportes. O objectivo principal de analisar a repetição de ideomorfos na arte rupestre do Vale do Tejo, determinou que incluíssemos no estudo da repetição rochas que se encontram actualmente imersas nas águas que banham barragens construídas na década de 1970. 33 Outro conjunto de rochas com gravuras representativas da arte rupestre da região estudada é o que diz respeito à área que não está submersa. Porém, não foi possível fazer um levantamento completo – obtendo-se dados por meio do processo de decalque – uma vez que a legislação em vigor limita a um número restrito de instituições a recolha sistemática de informações in loco. O Museu de Arte PréHistórica e do Sagrado do Vale do Tejo – relacionado directamente com o presente mestrado em Arqueologia Pré-Histórica e Arte Rupestre – não está incluído entre as instituições autorizadas. O terceiro grupo de gravuras é constituído pelos suportes enquadrados num espaço em que o Museu de Arte Pré-histórica e do Sagrado do Vale do Tejo está legalmente autorizado a fazer recolha de dados, e a proceder ao decalque de gravuras. Os locais que compreendem as gravuras que a equipa do mestrado em Arqueologia PréHistórica e Arte Rupestre pode aceder são os suportes situados às margens do Ocreza e em Cobragança. Oosterbeek & Cura (2005) relacionam as gravuras de Cobragança à Idade do Bronze Final e apontam ligações aos motivos, com a mesma cronologia, existente ao longo do Ocreza . Sendo que as gravuras de Cobragança estão neste momento a ser estudadas por uma pesquisadora que integra o grupo de alunos de mestrado em Arqueologia Pré-Histórica e Arte Rupestre, o sítio em questão será, metodologicamente, excluído da amostra analisada pelo estudo aqui desenvolvido. Entretanto, os aspectos discutidos poderão ser utilizados para uma possível contribuição para a pesquisa das gravuras de Cobragança. Este sítio integra o complexo rupestre do Vale do Tejo e apresentada entre outros motivos, significativos círculos concêntricos e covinhas dentre outros motivos. 34 Os três quadros metodológicos descritos sucintamente acima foram formulados a fim de permitirem o resgate de informações específicas que se adaptassem às peculiaridades que circunscrevem cada um destes conjuntos amostrais. Cabe ressaltar que, embora muitos dos suportes que constituem o complexo de arte rupestre do Vale do Tejo não estejam acessíveis tanto à visitação quanto à recolha de dados, os estudos que envolvem a temática das gravuras do Vale devem continuar a ser realizados. A seguir são especificados os três métodos de recolha de informações: a) Referente ao grupo de gravuras submersas, a metodologia utilizada para a extracção de informações implica o levantamento e a leitura de publicações sobre a arte rupestre no Vale do Tejo, incluindo-se os resultados de pesquisa realizada previamente à submersão das gravuras. Estas recolhas de dados foram executadas em campanhas realizadas entre os anos de 1972 a 1974. De acordo com António M. Baptista, Eduardo Serrão e Maria Manuela Martins (1978), nestas campanhas foi levado a cabo: 9 Um amplo levantamento fotográfico. 9 Apreendida uma série de características e elementos – que retratavam tanto a iconografia, a situação das rochas, estado de conservação, dentre outros – retratados por meio de fichas descritivas de campo. 9 Produzidos moldes em látex. 9 Uma análise topográfica de todos os núcleos de arte rupestre encontrados. b) Em relação ao grupo de gravuras não submersas, mas que não podem ser exploradas em campo de forma mais detalhada – a partir de decalques ou da 35 realização de prospecções, por exemplo – devido às restrições legais de acesso, o método desenvolvido para a verificação de dados aplica-se por meio do exame dos elementos e informações expostas em publicações existentes sobre o assunto, por meio da análise da paisagem. Esta faz-se com a visita às áreas em questão e com a verificação e o registo fotográfico da paisagem. c) No que concerne ao grupo de gravuras que legalmente pode ser estudado, o estudo foi feito através da recolha de informações específicas in loco, incluindo a realização de decalques. Assim, neste conjunto de suportes situados no perímetro do Ocreza, a metodologia de apreensão de informações fez-se a partir da ida ao local, do estudo da paisagem e da execução de decalques que permitiram a apreensão detalhada das gravuras e proporcionou-nos a percepção tanto das sobreposições de gravuras existentes como da maneira como as incisões foram produzidas. Como exemplificação do trabalho prático de levantamento de gravuras rupestres, decalcámos a rocha 15-OCR, que contém a figura de uma espiral e que se situa na margem direita do rio. Os procedimentos detalhados e as fotos deste processo estão disponibilizados no item 2.1. Além disto, por meio destes métodos, pôde-se notar o estado de conservação dos suportes e analisar seu desgaste. Os decalques foram examinados em laboratório num momento subsequente, quando também foi feito o cruzamento de dados sobre os demais grupos de gravuras, que foram explicitadas nos itens anteriores do quadro metodológico. 36 É importante justificar a escolha de um objecto que não pode ser examinado na sua plenitude, e isto porque, no caso particular do nosso estudo, algumas das gravuras às quais se faz menção não foram examinadas directamente (in loco), mas sim a partir de trabalhos de estudiosos como António Martinho Baptista (1974, 1981 e 1986) e Mário Varela Gomes (1983, 1987, 1989, 1990, 1999, 2000 e 2004). Destas obras, foram retiradas informações referentes aos levantamentos feitos a partir das rochas originais Num segundo momento da metodologia aplicada, referir-se-á a etapa de análise. Observaram-se os ideomorfos que mais se repetem nos suportes decorados do Vale do Tejo, confrontando os dados provenientes dos três grupos de rochas acima citados. Em seguida, tais motivos foram submetidos a uma análise dos demais motivos que constituem, juntamente com os signos ideomorfos em questão, os painéis. Será levada em conta a possibilidade de haver uma estrutura que sustenta os contextos gráficos onde se encontram os grafismos que mais se repetem. Por isso, neste exame dar-se-á uma atenção cuidadosa aos signos que aparecem relacionados com cada grafismo e ver-se-á se há a repetição de algum motivo quando um determinado grafismo puro exibir mais do que uma ocorrência. O passo seguinte, ainda no âmbito da fase analítica, diz respeito à avaliação da estratigrafia das gravuras na rocha, de modo a se observarem as figuras que se encontram na base estratigráfica e as que foram sendo gravadas em períodos posteriores. Nesta etapa, também são destacados o estilo e a cronologia que constituem o bojo da última etapa metodológica, a etapa interpretativa. Esta fase, por sua vez, define-se por dar uma forma explicativa final com base nos procedimentos de recolha de dados referidos acima. 37 O ponto principal deste estudo abarca a questão dos ideomorfos repetidos no Vale do Tejo, considerando-se também a sua contextualização espacial, paisagística e cronológica. Também incidirá sobre a contextualização dos ideomorfos da região estudada, relacionando-os com os demais signos que compõem a temática existente na arte rupestre do Vale do Tejo. Este processo de contextualização deve ser feito de maneira a ressaltar qual a gama iconográfica da arte rupestre identificada no Vale, bem como dar relevo às demais gravuras que podem complementar um suporte onde se verifica um ou mais grafismos puros. Os signos gravados que não se enquadram sob a classificação de ideomorfos serão também mencionados nesta dissertação, não propriamente como seu objecto de estudo principal, mas como peças que devem ser consideradas para uma compreensão mais fundamentada acerca do fenómeno de repetição dos grafismos puros no Vale do Tejo. Foram tomados por base quatro suportes decorados com a intenção de fundamentar o presente estudo, partindo-se de uma amostra delimitada. Esta amostra é composta por suportes característicos dos três grupos divididos ainda neste capítulo, metodologicamente, pela acessibilidade da colecta de dados. Para tanto, duas superfícies decoradas foram escolhidas para representar o grupo de gravuras submersas, a rocha 155-F (Fratel) e 175-F (Fratel). Esta escolha justifica-se pela existência, em ambas, da iconografia e técnicas variadas correspondentes aos vários períodos de fases de gravação do complexo rupestre do Tejo. Nos dois referidos suportes decorados, situados em Fratel, são identificadas algumas sobreposições e associações, tanto no que diz respeito aos motivos estilisticamente integrados a um dado período de gravação, como entre figuras executadas em fases diferentes. Pelas razões expostas, as rochas 155 e 175 de Fratel são dois exemplares representativos da arte rupestre do Vale, salvaguardando as devidas . A rocha 11-G (suporte 11 do Gardete) pertence ao grupo de rochas que não 38 se encontra submerso, mas que, pela legislação vigente, oferece restrições para se efectuarem estudos sistemáticos e levantamentos de dados. Para constituir o grupo de amostragem que melhor fundamentará as conclusões ou considerações feitas ao longo desta dissertação, escolheu-se este suporte devido ao seu elevado número de figuras, sendo 212 no total, dos quais 62% são ideomorfos, como demonstra Gomes (2004). Por fim, para representar o grupo de rochas não submersas, em que a equipe do Museu de Arte Pré-histórica e do Sagrado do Vale do Tejo detém o consentimento legal de retirada de dados e execução de exames no local onde estão as gravuras, elegeu-se a rocha 15-OCR (15 do Ocreza). Este suporte contém somente uma gravura, a espiral, que ocupa quase a totalidade da sua superfície. A sua escolha deveu-se ao motivo encontrado no suporte que, mantendo-se isolado na superfície de uma rocha, ressalta a importância do próprio motivo, enquadrado na categoria dos ideomorfos. As peculiaridades destas quatro rochas serão expostas mais adiante sendo, no entanto, imprescindível, desde já, enumerar os motivos pelos quais estas rochas foram escolhidas para compor a amostra do grande complexo rupestre que se estende ao longo da Bacia Hidrográfica do rio Tejo. Muito ainda deve ser pesquisado sobre o Vale do Tejo, representando este complexo de arte rupestre nele situado um importante objecto que exige estudos mais apropriados, tanto quanto ao potencial iconográfico que esta área exibe e que requer maiores prospecções, como quanto à necessidade de se realizarem estudos orientados por distintas disciplinas a partir dos dados que já foram levantados. 39 2.1. Metodologia aplicada à recolha de dados no campo O trabalho de campo foi efectuado em duas etapas: A primeira consta do reconhecimento feito do local, averiguação do estado de conservação das gravuras e observação das gravuras já identificadas além do enquadramento da paisagem. Esta etapa ocorreu nos dias 20 e 21 de Abril de 2007. A segunda etapa compreendeu o período entre os dias 24 e 30 de Junho de 2007, período em que uma expedição formada por pesquisadores e estudantes de Arte Rupestre se dirigiu ao Vale do Ocreza para catalogar e recolher dados no campo, para serem analisados posteriormente em laboratório. Incluem-se no referido período o trabalho de campo e de laboratório executados sob a orientação das premissas de catalogação e extracção de vestígios em campo estabelecidas por Abreu & Jaffe (1996a). O registo fotográfico integrou uma das etapas da recolha de material de campo. Tiraram-se fotografias do local e dos suportes, das etapas do trabalho de campo e da paisagem. Ao se fotografar um suporte decorado, tomou-se o cuidado de se proceder segundo fazer um registo fotográfico nos padrões científicos, indicados por Abreu & Jaffe (1996a), de maneira a se fazer um estudo e uma análise posterior, mas também de uma maneira a que não se excluísse o seu sentido artístico com a finalidade de ser utilizado uma possível divulgação futura. Neste caso, o registo fotográfico foi executado mediante o recurso à escala Standard da IFRAO, tendo-se procurado focalizar, quer os detalhes das gravuras de um determinado suporte, quer o suporte em si mesmo. 40 FIGURA 1. Rocha 15-OCR, onde está gravada uma espiral. Esta rocha situa-se na margem direita do rio Ocreza. O método de decalque de gravuras foi aplicado utilizando os seguintes materiais: 9 Plástico transparente com as medidas 57 cm x 76 cm. 9 Blue Tack. 9 Canetas de feltro, à prova de água, nas cores: preto, vermelho e verde. 9 Álcool e algodão (para remover a tinta da caneta, se necessário). Em cada rocha decorada em que se realizou o decalque os procedimentos iniciais foram os seguintes: 41 a) Limpeza superficial da rocha, utilizando-se apenas uma escova. Não foram usados produtos químicos que poderiam deteriorar a superfície da rocha, impedindo estudos futuros. Os líquenes encontrados em algumas superfícies não foram removidos, pois a sua remoção implicaria um possível desgaste de algumas gravuras. Cobriu-se a superfície da rocha com um plástico negro, o que impede a passagem da luz e, consequentemente, a formação e a permanência dos líquenes. FIGURA 2. Limpeza da superfície da rocha 15-OCR. b) Observou-se a orientação do suporte com o auxílio de uma bússola e, em seguida, colocou-se o plástico transparente, tendo-se em consideração a orientação da rocha. Para fixar a folha plástica na rocha fez-se uso do Blue Tack. 42 FIGURA 3. Colocação da folha plástica sobre a qual foi feito o decalque da espiral existente na rocha 15-OCR. c) No canto inferior de cada folha plástica foram colocadas as letras iniciais do sítio, o número correspondente à folha -caso esta integrasse uma composição de um dado suporte que, devido às suas dimensões, excedesse as dimensões da folha de plástico padronizada, recorreu-se a uma peça plástica para cobrir a sua superfície-, a data e o nome da pessoa que protagonizou o decalque. Quando, devido à sua dimensão, o suporte requereu o uso de mais do que uma folha plástica, estas foram sobrepostas com uma margem de dois centímetros cada, de maneira a que toda a decoração da rocha fosse decalcada. d) Os decalques das gravuras foram feitos com caneta preta, tendo-se o cuidado de ressaltar os pormenores das gravuras, evidenciando, na medida do possível, a técnica e o modo da sua execução. As fracturas da rocha foram 43 marcadas com caneta vermelha e os líquenes (se existentes) com caneta verde. FIGURA 4. Execução do decalque da espiral gravada na rocha 15-OCR. Para se fazer o levantamento das gravuras identificou-se a direcção norte, com o auxílio de uma bússola, para que se pudesse orientar o plástico sobre o qual foi feito o decalque. 44 FIGURA 5. Orientação do suporte 15-OCR efectuado por meio de bússola. O decalque foi executado respeitando pormenores provenientes da técnica de gravação para que se pudesse obter uma imagem o mais fidedigna possível da gravura original. 45 FIGURA 6. Processo de decalque em andamento. A espiral da rocha 15-OCR está parcialmente decalcada. FIGURA 7. Últimos retoques no decalque. Com um cotonete embebido em álcool são retiradas as falhas do traço que delimita os contornos do painel na folha plástica. 46 Utilizou-se uma ficha de campo com o padrão estabelecido pela ficha disponibilizada na página electrónica da European Prehistoric Art Database, Art and Prehistory (EuroPreart) (http://www.europreart.net). Devido às novas prospecções no Vale do Ocreza, que ainda não foram oficialmente encerradas, não foi definido o número permanente de identificação das rochas, sendo provisoriamente identificadas pela numeração que lhe foi atribuída em prospecções anteriores coordenadas pela equipa de Hipólito Collado Giraldo. Apresenta-se, em seguida, o modelo de ficha de campo e a ficha de campo empregadas como parte do registo: Localização Código País Região Área Localidade Cordenadas GPS Coordenadas topográficas Altitude Orientação Descrição da paisagem e esboço Descrição da superfície Geologia Dimensão da superície: largura/ altura/ máxima altura do solo/ altura mínima do solo Especificidade: Ar livre ( ) Abrigo ( ) Gruta ( ) Móvel ( ) Megalítico ( ) Conservação Status: Privado ( ) Público ( ) Parque ( ) Classificada ( ) Em vias de classificação ( ) 47 Conservação: Bom ( ) Razoável ( ) Medíocre ( ) Ruim ( ) _________________________________________________________________ Descrição de alterações: Arte: Gravuras ( ) Pinturas ( ) Gravuras e Pinturas ( ) Alto relevo ( ) Baixo Relevo ( ) Geral: Nº de folhas de plástico traçadas ( ) Nº de figuras ( ) Câmara. Equipe: Data FIGURA 8. Ficha de campo padronizada segundo as normas disponibilizadas na página electrónica da EuroPreart (http://www.europreart.net). Localização Código 15-OCR País Portugal Região Ocreza-Mação Evendos Área Localidade Evendos-Mação Cordenadas GPS Coordenadas topográficas Altitude Orientação Descrição da paisagem e esboço: Paisagem formada por rochas xistosas dispostas às margens do Rio Ocreza. Descrição da superfície A rocha estudada possui uma espiral. Há, próximo À figura da espiral, uma pequena nuvem de pontos. A superfície da rocha apresenta um certo grau de Erosão, não sendo alto. A gravura foi executada por picotagem. As linhas formadas por negativos variam entre 0,5cm a 1,0 cm Geologia :rochas xistosas Dimensão da superfície: largura/ altura/ máxima altura do solo/ altura mínima do solo Suas medidas tiradas a partir de seus pontos extremos são: 22,0 cm de largura e 14,0 cm de altura Especificidade: Ar livre (X) Abrigo ( ) Gruta ( ) Móvel ( ) 48 Megalítico ( ) Conservação Status: Privado ( ) Público ( ) Parque ( ) Classificada ( ) Em vias de classificação (X) Conservação: Bom ( ) Razoável (X) Medíocre ( ) Ruim ( ) Descrição de alterações: O maior problema identificao referente ao estado de conservação é a quantidade de líquenes. Arte: Gravuras (X) Pinturas ( ) Gravuras e Pinturas ( ) Alto relevo ( ) Baixo Relevo ( ) Geral: Nº de folhas de plástico traçadas (1) Nº de figuras (2) Câmara. Equipe: Maria Fernanda (levantamento) e Marcelo (Fotos) Data 23/06/07 FICHA 1. Referência da rocha 15 do Ocreza (15-OCR) Após a execução das actividades de campo, o material foi transportado para o laboratório e aí foi limpo. Os decalques foram fotocopiados e também reduzidos a escalas distintas, mais precisamente às escalas de ½ e ¼, com uma fotocopiadora. Os plásticos portadores dos decalques foram arquivados e guardados com os devidos cuidados de preservação, de maneira a conservar a qualidade do material recolhido. Entre as folhas plásticas colocou-se uma folha de papel vegetal. As folhas plásticas que constituíam a superfície de um suporte com dimensões que excediam uma folha plástica, com dimensões padronizadas, foram reduzidas e posteriormente justapostas de modo a formar a totalidade da imagem. Seguimos, portanto, as indicações metodológicas de Abreu & Jaffe (1996a:12) que afirmam que, “ (…) as folhas devem 49 ser coladas umas às outras, de forma a completar o puzzle da rocha e cobrir todas a s gravuras”. FIGURA 9. Decalque da 15-OCR, localizada na margem direita do rio Ocreza, que contém uma espiral. 50 3. O COMPLEXO RUPESTRE DO VALE DO TEJO A arte rupestre do Vale do Tejo foi efectuada tecnicamente por percussão directa ou indirecta, ou seja, pelo contacto directo de um instrumento lítico ou metálico com a rocha, ou com o auxílio de um percutor que permite obter resultados mais precisos.A técnica de picotagem constitui a maior parte das gravuras embora haja alguns exemplares de filiformes, geralmente ligados aos primeiros períodos de gravações efectuadas no Vale. Os motivos presentes nesta arte são motivos de carácter ideomorfo, zoomórfico e antropomórfico. Vale a pena lembrar que na ordenação categórica dos motivos apresentada por Cunha Serrão (1978), a arte rupestre existente no Vale do Tejo é constituída por zoomorfos, antropomorfos, geométricos, astrais, pegadas e covinhas. Neste trabalho, consideram-se como pertencendo à categoria dos ideomorfos as covinhas, pegadas, astrais e todas as figurações que não têm as características de zoomorfos e antropomorfos. Ao longo do curso do rio Tejo, mais precisamente nos arredores do local demarcado pelos acidentes geológicos denominados “Portas de Ródão” – formados pelo impulso das águas em contacto com o maciço quartzítico –, encontra-se um conjunto de gravuras rupestres. O papel de matéria-prima que comporta os motivos gravados é desempenhado pelos blocos rolados de xisto grauváquico dispostos nas margens do rio. O polimento dos blocos de xisto evidencia a constante actividade da força das águas que, progressivamente, moldaram e prepararam o que, posteriormente, se constituiria nos suportes das gravuras do Vale do Tejo. A existência do rio e o seu fornecimento de recursos – e não apenas o ímpeto “grafista” do ser humano – também são responsáveis pelo surgimento do legado simbólico cravado no tempo pelos diversos 51 grupos sociais que deixaram a sua marca naquele espaço geográfico. Foi a partir do exercício da operação fluvial que os blocos de xistos rolados se transformaram em espécie de “altares” adequados a serem talhados, instituindo-se, deste modo, uma ligação íntima entre o surgimento das gravuras no local e a vitalidade das águas do maior rio da Península Ibérica. As primeiras descobertas das gravuras foram feitas em 1971. Anteriormente a esta data, não havia relatos sobre a existência de gravuras rupestres na região do Vale do Tejo. Segundo Baptista, Serrão & Martins (1978), mesmo num minucioso relatório produzido em 1812, por Anastácio Joaquim Rodrigues, cujo tema principal era o curso do rio Tejo e as suas margens enquadradas numa área que abrangia de Abrantes até Malpica do Tejo, nada havia sido mencionado acerca das gravuras situadas na região em questão. O único indício anterior à data que marcou a descoberta da arte rupestre do Vale foi a obtenção da pista, por Paulo Caratão Solomenho, em 1946, de que havia pedras com inscrições naquele território. Mesmo assim, essa referência não foi definida como um achado, uma vez que não se procedeu à identificação destas “escritas”, como foram chamadas na época. A partir de então foram realizadas campanhas, apoiadas pelo Estado português e pela Fundação Calouste Gulbenkian, para resgatar dados deste conjunto de gravuras que se estende pela região do Vale do Tejo. A equipa responsável pelo resgate de dados do complexo foi chefiada por Eduardo da Cunha Serrão e reunia alguns pesquisadores como António Martinho Baptista, Mário Varela Gomes, Vítor Oliveira Jorge, Susana Oliveira Jorge, Luís Raposo, Maria de los Angeles Querol, António Carlos Silva, Manuel Martins, Teresa Marques, Vítor Serrão, João Ludgero Gonçalves, Francisco Sande Lemos. Cinco anos mais tarde, grande parte do sítio que abrigava o conjunto rupestre do Vale do Tejo foi submersa pela água devido à construção da 52 barragem do Fratel. Calcula-se que, nos dias actuais, mais de 50% das gravuras que compõem aquele complexo de arte rupestre estejam submersas. Podem ser observadas gravuras originais de algumas das estações de São Simão, Cachão do Algarve, Gardete e Ocreza. As campanhas de levantamento da arte rupestre do Vale do Tejo foram de importância indiscutível, não apenas porque foram pioneiras no que diz respeito à prospecção e à catalogação da arte rupestre da região, mas também por constituírem os únicos registos feitos perante aqueles núcleos rupestres do complexo. Pouco tempo depois do trabalho de pesquisa realizado no campo e terminado no ano de 1974, grande parte do conjunto de gravuras foi coberta pelas águas da barragem do Fratel, que separa os distritos de Castelo Branco e Portalegre. A expedição de arqueólogos responsáveis por averiguarem o potencial arqueológico da região elaborou levantamentos que constituem o legado de dados provenientes da arte rupestre local. Durante o trabalho de prospecção, foi delimitada a área do complexo rupestre que estendia por 50 km nos arredores do curso do Tejo e dos seus afluentes. Segundo Mário Varela Gomes (1989), o conjunto das gravuras viria a constituir-se num importante ciclo de arte rupestre da arte pré-histórica da Europa. O registo fotográfico detalhado foi executado, bem como a descrição das rochas, gravuras, estado de conservação e posicionamento dos suportes no terreno por meio de fichas de campo, incluindo um exame topográfico que indicava o posicionamento das rochas decoradas na área estudada. A produção de moldes foi de grande importância, uma vez que muitas das gravuras estavam condenadas a serem submersas devido à construção da barragem do Fratel. Um importante achado foi a identificação no Vale do Ocreza, no ano 2000, da figura de um cavalo de estilo paleolítico. O estilo definido por Baptista (2001) é naturalista-estético e deve remeter-se ao início do Paleolítico Superior uma vez que a 53 gravura pode ser comparada a alguns zoomorfos integrados nas fases mais antigas do complexo rupestre do Vale do Côa. Marcos García Diéz (1999), no artigo “Proceso gráfico e implicaciones técnicas de la pintura en el arte paleolítico”, aponta a eleição do suporte como sendo complementar aos temas operativos do processo, ou melhor, como um elemento necessário ao acto de marcar um símbolo na rocha. Considerar este ponto é crucial para estruturar um raciocínio que se debruça sobre as razões pelas quais alguns signos estão gravados em determinados suportes. Assim, a par da verificação da morfologia, conhecer a constituição da sustentação rochosa faz parte da observação que pode fornecer pistas para uma análise mais fundamentada sobre a arte existente num determinado sítio 5. Segundo o autor: “O suporte está submetido a uma acção contínua de mudança (dinâmica), o que supõe uma variabilidade e um movimento ininterrupto dentro de um mesmo: as rochas são entendidas como elementos passivos e activos dentro da natureza e não como materiais inertes. As características físicas (de aparência geral) serão reconhecidas de forma prévia por aqueles que as captaram para a sua posterior utilização” (DIÉZ, 1999:26) Provavelmente, os indivíduos responsáveis pela gravação de motivos consideraram, a par da localização dos rochedos, as suas peculiaridades de maneira a seleccionar a técnica de gravação mais adequada, ou a adequarem a técnica de que dispunham a um suporte que permitisse a obtenção dos resultados desejados. Neste sentido, vinculava-se a escolha do suporte às exigências da intenção específica do registo de um símbolo. Por outras palavras, a escolha de um certo suporte rochoso era determinada por um efeito combinado por factores provenientes da esfera simbólico-social do autor da arte rupestre e pelos processos geológicos responsáveis pela 5 Embora García Diéz (1999) demonstre a pertinência de conhecer a estrutura e os caracteres da base rochosa que suporta apenas pinturas, esta verificação pode ser aplicada às gravuras. 54 formação e configuração exterior dos materiais que serviam de base às gravações. Alguns blocos de xisto polidos, de contornos delineados analogamente a mesas, emergiam na paisagem como superfícies onde seriam gravados alguns símbolos das populações que se fixaram na região. Assim, de um amontoado desordenado de rochas com constituição xistosa sobressaem aquelas torneadas pela erosão fluvial. Segundo Gomes (1987), são algumas destas rochas polidas pela erosão fluvial, oferecendo as superfícies de cor castanhas, em tons variáveis de azulado a vermelho, que serviram de suporte a perto de 20.000 gravuras abertas por percussão. A distribuição dos suportes gravados não possui regularidade, sendo que, em algumas zonas, se encontra uma acumulação maior de rochas decoradas enquanto que em outras zonas se verifica uma menor acumulação. Abaixo segue a georeferenciação da arte rupestre do Vale do Tejo feita com o emprego do ArcGIS, software (programa de computador) que visualiza e edita mapas em duas e três dimensões. Na base da construção destes recortes está um procedimento de comparação de cartas militares de série M888 6 ao mapa que delimita a região do complexo do Vale do Tejo, apresentado na obra de Gomes (1987, 1989). Para obter a georeferenciação desta área foram comparados pontos, que já haviam sido georeferenciados, fornecendo a possibilidade de estabelecer as cotas de todo o recorte. Sendo assim, a georeferenciação não é absoluta, mas relativa podendo haver uma margem de erro mais ou menos significativa. Nas imagens a três dimensões houve um aumento das proporções do fenómeno geológico que se denomina, vulgarmente, como “as Portas do Ródão” para que pudesse ser visível o seu relevo: a ampliação das proporções foi feita aumentando-se cinco vezes o tamanho original no mapa. 6 Esta série indica que a escala da carta é de 1:25.000. 55 MAPA 1. Perspectiva a 3D do território que compreende o complexo rupestre do Vale do Tejo e o índice de concentração de suportes gravados. FIGURA 10. Legenda que ajuda a interpretar o mapa acima e os mapas de 2 a 9. 56 MAPA 2. Perspectiva a 3D do Vale do Tejo e o seu conjunto de gravuras rupestres. MAPA 3. Representação a 3D do Vale do Tejo e o seu conjunto de gravuras rupestres. As formações geológicas chamadas “As Portas do Ródão” tiveram a sua altimetria ampliada em cinco vezes no recorte para facilitar a visualização da diferença de altitude. 57 MAPA 4. Outro ângulo da perspectiva a 3D do Vale do Tejo e o seu conjunto de gravuras rupestres. MAPA 5. Perspectiva a 3D, com aproximação maior do que o mapa anterior, da área que compreende o complexo rupestre do Tejo. 58 MAPA 6. Mais um ângulo diferente da perspectiva a 3D do Vale do Tejo e o seu conjunto de gravuras rupestres. MAPA 7. Um terceiro ângulo diferente da perspectiva a 3D do Vale do Tejo e o seu conjunto de gravuras rupestres. 59 MAPA 8. Um quarto ângulo diferente da perspectiva a 3D do Vale do Tejo e seu conjunto de gravuras rupestres. MAPA 9. Um quinto ângulo diferente da perspectiva em 3D do Vale do Tejo e seu conjunto de gravuras rupestres. 60 MAPA 10. Panorama a 2D da região que compreende o Vale do Tejo e o seu conjunto de gravuras 61 MAPA 11. Outro panorama a 2D do Vale do Tejo e seu conjunto de gravuras rupestres. Desenvolvidas a partir dos dados recolhidos entre os anos de 1972 e 1974, as análises feitas nos anos subsequentes às campanhas de salvamento permitiram identificar diferentes fases de gravações dos motivos encontrados. Foram estabelecidas três fases principais, cada uma englobando características de temática ou estilo semelhantes. É de grande importância ressaltar o rigor profissional dos pesquisadores, entre eles, António Martinho Baptista, Eduardo Serrão & Maria Manuela Martins (1978), que consideraram que aquela divisão referente às fases de gravação era uma definição superficial e de carácter funcional. “Estes pontos carecem, contudo, de precisão. O estudo minucioso de todas as gravuras, as análises de todas as combinações e a sua conjugação estatística, o isolamento e o estudo arqueológico da região natural que enquadra os núcleos gravados são elementos que, no futuro, permitirão uma mais exacta compreensão do grande complexo rupestre do Vale do Tejo” (BAPTISTA; SERRÃO; MARTINS, 1978:2) 62 Para Baptista (1981), a “fase de gravação” significa uma não ruptura e continuidade de “conceitos morfo-figurativos ou imagéticos” que se situam num limite espacial e que pertencem a um determinado período cronológico. O conteúdo do significado dos motivos de um período não deve ser entendido per se como um factor que delimita uma fase de gravação e sim esta é delimitada pelo estilo, a técnica e a figuração. Todavia, não se podem dissociar os traços técnico-morfológicos e temáticos das fases de gravação das diferentes esferas de significado provenientes de um quadro cultural. Anati (1978:24) considera, no seu estudo sobre a arte rupestre galaicoportuguesa, que: “la varietà dei complessi stilistici, dei repertori figurativi, e delle tecniche di incisione, doveva implicare la presenza di concetti e ideologie diversi gli uni dagli altri”. As três vias de classificação estabelecidas em meados da década de 1970 definiram três fases de gravação: uma primeira datada da primeira metade do quinto milénio a. C, foi considerada como uma expressão pré-megalítica, caracterizada por um naturalismo pouco dinâmico; numa segunda e terceira fases, datadas do quarto e terceiro milénios a.C, e que segundo Baptista, Serrão & Martins (1978) seriam “mais ricas e exuberantes”, foram consideradas como expressões da cultura megalítica. Após estudos que se sucederam levados a cabo por autores como Martinho Baptista, Mário Varela Gomes e Victor Oliveira Jorge, pôde concluir-se que o grande grupo de incisões rupestres do Vale do Tejo abrange um vasto ciclo de arte rupestre. Segundo Gomes (2000), as gravuras são provenientes de diversos períodos inseridos num lapso de tempo que varia desde o início do Holoceno, mais precisamente Epipaleolítico, até ao início da Idade do Ferro. Como o complexo possui 63 representantes que foram gravados em diferentes períodos temporais, verifica-se uma grande diversidade estilística e de temática que emana deste conjunto de figuras. Gomes (1987, 1989) divide crono-estilisticamente os grupos de gravuras em seis largos períodos, são eles: o período arcaico, o estilizado-estático, o estilizado-dinâmico, o meridional, o atlântico e o período dos círculos e linhas. Se confrontarmos as primeiras impressões sobre a proveniência dos diferentes grupos de gravuras encontrados na área com as conclusões expostas em finais da década de 1980, podemos comprovar um aumento significativo das pesquisas feitas posteriormente aos anos que marcaram a descoberta do conjunto de gravuras rupestres. A microgeografia local também foi estudada com o intuito de se traçar correlações possíveis entre as gravuras e as formações rochosas que as suportam. A atenção, neste sentido, voltou-se para a paisagem geográfica atravessada pelo Tejo e seus afluentes. A variável de pesquisa que abrange as possíveis influências artísticas foi trabalhada no sentido de determinar os ciclos de arte rupestre que podem ter contactado com a arte rupestre representada no conjunto do Tejo e afluentes. Sendo assim, pela sua situação geográfica, os ciclos peninsulares do Nordeste, do Levante e do Sudeste foram tidos como os ciclos que, potencialmente, poderiam exercer algumas contribuições derivadas sobre a arte manifestada no Vale. Há duas cronologias que se utilizam para designar as gravuras do Vale do Tejo. Uma estipulada por Martinho Baptista (1981) e outra por Mário Varela Gomes (1987 e 1989). Baptista (1981) divide o complexo das gravuras do Tejo em três grandes fases baseadas nos estudos acima citados, e que foram produzidos a partir das primeiras pesquisas que se concentraram para na averiguação da arte rupestre do Tejo. Um aspecto de grande relevância é a questão das sobreposições que demarcam a expressão 64 de um elemento cultural sobre a rocha e que indica a existência de contactos das populações posteriores com a arte deixada pelos grupos ancestrais. Devido ao encontro de signos com datações distintas articulados numa dada composição, esta tese pode ser considerada plausível sobretudo se se tomar em consideração ambas as divisões cronológicas, que abrangem técnicas e estilos propostos pelos dois autores mencionados – Batista (1981) e Gomes (1987 e 1989). Desde a fixação de comunidades posteriores ao período Epipaleolítico – que encontraram na região do Vale do Tejo, nela incluída a Bacia Hidrográfica do Alto e Médio Tejo português, um espaço favorável para se instalarem, dados os recursos essenciais que oferecia para a sua sobrevivência –, que ocorreu o processo sucessivamente observado pelas comunidades que ali chegavam, se pode designar de incorporação paulatina do legado artístico. O termo “incorporação” deve ser compreendido designando um procedimento cultural que inclui a percepção de certos resquícios simbólicos de outras culturas, não no sentido de referir a apropriação dos elementos técnicos e estilísticos. O que se pretende destacar com este termo é a apreensão desses fragmentos simbólicos e a atribuição de um significado que é convergente com os parâmetros específicos de cada cultura que entra em contacto com representações simbólicas de outro povo. Contudo, veremos que a ideia de inclusão de fracções culturais, provavelmente ocorrida ao longo das sucessivas e diversas ocupações, é sustentada pela análise técnica da arte rupestre desenvolvida no Vale do Tejo. As fases de sobreposições indicam algumas permanências temáticas e certas mudanças, coincidentes com o movimento, definido metodologicamente, pelas três etapas do processo de apropriação: apreensão, assimilação e adequação. Em capítulos posteriores, estes três patamares do procedimento aqui referido serão explicados de maneira mais fundamentada. 65 Para que se possa visualizar as relações e divergências entre as duas diferentes cronologias utilizadas, na ordenação das fases de gravação da arte rupestre do complexo, será apresentada uma tabela com as principais definições dos períodos e fases, definidas por perspectivas crono-estilítiscas. O objectivo dessa tabela é sintetizar, de maneira didáctica, os períodos, sua iconografia e os autores de um grupo de motivos. Juntamente procurar-se-á estabelecer, de uma maneira clara, as visões equivalentes e os pontos divergentes da análise de ambas as cronologias. A tabela foi construída tendo-se como base as divisões sustentadas por Baptista (1981) e Gomes (1987 e 1989) relativas às gravuras da região. De acordo com cada definição, foram colocadas na tabela os principais motivos que ilustram um dado período ou fase para cada uma das cronologias adoptadas. Utilizaram-se cores para relacionar, segundo os dois pontos de vista, os conjuntos gravados com os principais sistemas e organizações sociais que lhes deram origem. Deve-se, entretanto, tomar em consideração, que um dado período da arte rupestre caracterizado por certos signos recorrentes, gerados no contexto de certa organização social, não anula a possibilidade de integrar motivos menos comuns executados por outros grupos não pertencentes à comunidade dominante. Um exemplo disso é quando se considera o período meridional associado a sociedades de metalurgistas. A iconografia deste período é, na visão de Gomes (1987, 1989), obra quer de comunidades neolíticas, quer de grupos metalurgistas. Com a intenção de se construir um esquema simples e didáctico optou-se por salientar o sistema social onde ocorreram e culminaram as mudanças dominantes. Neste sentido, a tabela apresentada não evidencia os períodos transitórios. Por exemplo: na tabela é exposto um grupo de gravuras ligadas a sociedades metalurgistas, não se dando conta do que se deu gradualmente através de inovações tecnológicas. Na 66 designação adoptada de “sociedades metalurgistas”, evidenciada na tabela, estão abarcados os processos transitórios referindo-se, portanto, a uma realidade mais complexa. Esta dissertação apoia-se na divisão cronológica proposta por Mário Varela Gomes (1987 e 1989), muito embora aceite visões da cronologia utilizada por António Martinho Baptista (1981). Os seis períodos que Gomes (1987 e 1989) propõe para a arte rupestre do Tejo contêm uma série de pormenores relacionados com as pesquisas arqueológicas feitas na região. Os diversos grupos que ocuparam o território foram minuciosamente observados por meio de vestígios que permitiram estabelecer vínculos com a arte rupestre em estudo. Gomes (1987 e 1989) propõe um número maior de fases de gravação relativamente à divisão estabelecida nos primeiros achados rupestres do Vale. O trabalho de Baptista (1981, 1986, 2001) permitiu superar, por seu lado, alguns problemas de datação de certos motivos inseridos em grandes fases cronológicas propostas inicialmente pelos pesquisadores descobridores do complexo. A análise do notável trabalho de Baptista (1981, 1986, 2001), que centrou a sua pesquisa em estudos sobre os elementos que alicerçam as culturas estabelecidas no Vale ao longo da história, permitiu chegar a importantes e inovadoras conclusões. O caso da espiral e a sua geração pelo grupo rupestre que se fixou no Vale é de grande relevância para que se possa perceber, não somente as características da arte da região estudada, mas também de outras representações da autoria de diferentes organizações de grupos sociais pré-históricos e proto-históricos. O nosso estudo, apesar de aceitar a divisão crono-estilística de Gomes (1987, 1989) considera que algumas definições e relações de motivos com certas comunidades específicas, devem ser objecto de análise mais aprofundada a partir de 67 considerações levantadas e averiguadas por Baptista (1981, 1986, 2001). Assim, por exemplo, não há consenso quanto aos limites cronológicos que definem o período em que foram gerados a espiral e alguns ideomorfos com formatos circulares. As evidências de sobreposições e o conhecimento acerca dos demais resquícios culturais materiais encontrados nos limites geográficos do Vale conduziram Baptista (1981, 1986, 2001) a fundamentar a hipótese da gravação de motivos como a espiral e alguns círculos em épocas anteriores àquelas estabelecidas por Gomes (1987, 1989). Alguns paralelismos com a arte rupestre de outros locais do continente europeu são desfeitos a partir de um cuidadoso estudo das especificidades da arte da região. Embora se aceite a divisão de fases de gravação defendida por Gomes (1987 e 1989) reafirma-se a aceitação, nesta dissertação, da antiguidade da génese de motivos, como a espiral no complexo do Tejo, a partir das considerações fundamentadas feitas no trabalho de Baptista (1981, 1986, 2001). A seguir apresenta-se a tabela comparativa das duas cronologias tratadas nesta discussão. A descrição de cada uma delas será apresentada em dois subcapítulos posteriores. Ao longo da exposição dos padrões crono-estilísticos de cada autor faz-se, paralelamente, uma discussão sobre os elementos sociais e simbólicos que podem ser identificados. Não se pode deixar de acrescentar ao debate os estudos de Hipólito Collado Giraldo (2006a, 2006b). O autor analisou as gravuras rupestres próximas do rio Guadiana, mais precisamente os motivos de Molino Manzánez, e ressaltou uma série de componentes que oferecem um grande contributo ao estudo das gravuras do Vale do Tejo. O ciclo rupestre existente nas margens do Guadiana assemelha-se ao complexo de gravuras do Vale do Tejo. Uma vez que contribuem no debate sobre a diacronia das gravuras do Vale do Tejo, as considerações levantadas por Collado Giraldo (2006a, 2006b) serão expostas mais adiante. 68 MARIO VARELA GOMES (aparecimento de uma ou duas linhas que dividem os corpos); . Espirais associadas aos zoomorfos;* ES TI L D IZA IN D ÂM O IC O Subnaturalista Evoluída ES TI L ES IZA T Á DO TI C O . Algumas espirais geralmente associados a alguns escassos equídeos;* SE FA corpo segmentado. Estilo subnaturalista. AR segmentados e falta de dinamismo, ou seja, estáticos; . Zoomorfos- cervídeos e raros equídeos- com corpos menos segmentados . Zoomorfos geralmente cervídeos e raros equídeos com o CA IC O . Zoomorfos: principalmente cervídeos e raros equídeos. Corpos bem I Subnaturalista Clássica ANTÓNIO MARTINHO BAPTISTA . Antropomorfos. AL IO N serpentiformes, escutiformes, zigue-zagues, reticulados etc; TI C O .podomorfos AT LÂ N Geométricos esquemáticos: AS .círculos concêntricos; .espirais; . grandes círculos característicos do final desta fase: talvez com a intenção LI N H III preenchidos por picotagem. Noções de movimento implementadas. . Zoomorfos com alto grau de esquematização; . Antropomorfos muito esquematizados; .Grande quantidade de geométricos:círculos, soliformes, ID . soliformes; . espirais associados a antropomorfos;* . alguns círculos ?* .antropomórfos esquemáticos; SE . Zoomorfos, de pequenas dimensões, com corpos observador a sensação de volume: representações referentes a outros sítios. O estilo esquemático que, aparentemente designaria o aparecimento de antropomorfos a uma fase posterior é enquadrada nesta fase devido a sobreposições de figuras originárias desta mesma fase.Haveria a possibilidade dos antropomorfos pertencerem ao fim da fase I; M ER II SE FA vida"- ou duas linhas ) Subtraídas as perspectivas e os elementos que conferem ao .antropomorfos: inseridos nesta fase a partir de analogias a outras FA . Zoomorfos com corpos menos segmentados (uma -"linha da C ÍR C U LO S E de substituir a espiral; . poucos zoomorfos; .grandes espirais associadas a antropomorfos; .círculos concêntricos (solitários ou associados entre si); .labirintos: sobrepõem ou envolvem figuras anteriores; .armas; .idoliformes. .grande quantidade de círculos ; .serpentiformes associadas aos círculos; .escassas espirais; .pegadas ou podomorfos sobrepostos ou associados a figuras de períodos precedentes. Legenda: * Simbolos que aparecem enquadrados em periodos posteriores em Gomes (1987) caçadores- recolectores agro-pastoralistas metalurgistas TABELA 1. Divisões cronológicas das gravuras rupestres encontradas no Vale do Tejo propostas por Baptista (1981, 1986, 2001), à esquerda, e Gomes (1987, 1989), à direita. A legenda indica a comunidade que predominava em cada período. Nesta tabela a Fase II de Baptista está indicada com a cor azul, que na legenda remete para os grupos agro-pastoralistas. Nos estudos de Baptista (1981), a Fase II é atribuída principalmente a comunidades de sistema sócio-económico agropastoralista, o que não exclui períodos de inserção de inovações que chegaram 69 juntamente com novos grupos que se fixaram no Vale. Esta fase é atribuída a comunidades neolíticas e também àquelas que se situaram num período intermédio em que o sistema neolítico era dominante, embora as comunidades detivessem algumas práticas características do que se denomina por período Calcolítico. Embora já tenham sido expostas as limitações que a tabela contém, por apenas ilustrar de uma maneira simples os caracteres mais gerais das cronologias propostas pelos dois autores, essa ressalva sobre a Fase II de Baptista (1981) mostrou-se necessária, uma vez que este autor não exclui o grande contributo das comunidades que poderiam ser consideradas calcolíticas. Para efeito didáctico, expôs-se o principal sistema sócio-económico das comunidades que obtiveram, no período, alguns elementos e práticas de exploração do cobre. A Fase II é extensa e, de certa forma, não se dissocia do paralelismo que a tabela oferece com os períodos de Gomes (1987, 1989). 3.1. A divisão crono-estilística de Baptista A Fase I abrange figuras gravadas por comunidades de caçadores-recolectores e comunidades que estão em transição para os moldes neolíticos, cuja agricultura e pastorícia davam os seus primeiros passos. Imperam nesta primeira fase os zoomorfos, principalmente representadas figuras de cervídeos. Baptista (1981) integra aí algumas espirais geralmente associadas aos animais desenhados. O autor divide esta primeira fase em duas sub-fases – subnaturalista clássica e subnaturalista evoluída –, estabelecendo assim distinções estilísticas. A primeira caracteriza-se por um elevado grau de segmentação dos corpos dos zoomorfos. Na subnaturalista evoluída, os corpos dos animais representam-se de modo menos segmentados, com poucas linhas – uma ou duas – dividindo o 70 corpo. Geralmente, a linha que continuou presente nesta mudança estilística foi a “linha da vida”, assim chamada por Gomes, que atravessa o corpo da figura do animal quase de um extremo ao outro. Também se nota um maior aparecimento das espirais relacionadas com os zoomorfos. A espiral é atribuída por Baptista (1981) às fases iniciais do ciclo rupestre do Vale do Tejo estendendo-se pelas demais fases, sendo um símbolo marcante que perpassa os diferentes grupos que se fixaram nos arredores do rio Tejo, nas delimitações do Vale. A Fase II é estabelecida como sendo correspondente às comunidades megalíticas cuja economia era baseada na agricultura e pastorícia, mas também, em períodos mais recentes desta fase, grupos que trabalhavam metais, principalmente o cobre (período Calcolítico). Nesta fase verifica-se a presença de soliformes – motivos com formas de Sol –, espirais e antropomorfos que se associam a elas. Os antropomorfos são um caso peculiar que merecem ser analisados devido ao seu estilo e à sua posição na estratigrafia das figuras gravadas nas rochas. Por serem de um estilo esquemático, eles suscitam alguns problemas de datação da arte rupestre da região. Baptista (1981), na descrição de seu estudo sobre a rocha 155 do Fratel, enfatiza a importância desta superfície para expor a problemática que circunda as figuras antropomórficas. Quando estes motivos se encontram associados ou sobrepostos a outros, identificados como pertencentes a uma das três fases da cronologia apresentada, as figuras antropomórficas podem ser integradas nas categorias de uma das fases. Entretanto, quando aparecem isolados levantam dificuldades na caracterização cronológica. Para o autor, o seu esquematismo não deriva de uma fase esquemática – neste caso, posterior –, já que as suas primeiras manifestações eram dotadas de grande 71 simplicidade de representação. Como indica Baptista (1981), no seu ensaio sobre a rocha 155 do Fratel: “Esta rocha parece demonstrar que, talvez desde os momentos iniciais do grupo do Vale do Tejo, o esquematismo da figura humana estava já adquirido, não podendo integrar-se plenamente numa fase especificamente esquemática, subnaturalista ou naturalista” (BAPTISTA, 1981:37) Alguns antropomorfos, associados ou sobrepostos por outros motivos que permitem uma identificação mais clara sobre a sua cronologia, podem ser atribuídos a esta segunda fase. Os antropomorfos detêm graus de esquematização, uma vez que o esquematismo existe desde as primeiras representações de antropomorfos vistas no Vale. Neste caso, podem designar-se caracteres cada vez mais simplificados no modo de representar uma fase de estilo mais esquemático, sendo que as formas adquirem traços mais geométricos, elementos que se reflectem também nas imagens humanas. As associações a espirais, que Baptista (1981) inclui numa primeira fase, são notadas. Os antropomorfos da segunda fase associam-se, em alguns casos, a espirais da Fase I. Esse facto demonstra que se uma figura não é gravada por determinado grupo social não implica que ela não faça parte do sistema representativo simbólico do mesmo. Sendo assim, a espiral que pertencia a uma fase anterior, foi absorvida ao sistema figurativo das comunidades responsáveis pelas gravuras da Fase II e adequada ao sistema de significados simbólicos dessas comunidades. A Fase III caracteriza-se por integrar um alto nível esquemático de figuras geométricas, em que a iconografia é basicamente formada por círculos concêntricos e simples, linhas e outros signos geometrizados. De acordo com Baptista (1981), esta fase indica uma distinta concepção simbólica das demais fases no que toca seu significado. Agora as gravuras quase não se associam a figuras anteriores e dispõem-se à margem dos motivos originalmente incisos 72 primeiramente. O círculo destaca-se, surgindo, ainda com maior frequência, nos finais desta terceira fase. Esta cronologia aponta para as fases de execução das gravuras, proposta por Baptista, Serrão e Martins (1978), e sustentada por Baptista nos estudos desenvolvidos após a década de 1970, confronta com o sistema crono-estilístico exposto por Gomes (1987), dividido em seis períodos. Além da proposta de divisão feita pelo autor, Mário Varela Gomes, de um maior número de estapas de gravação das figuras do Vale do Tejo, uma das disparidades destas duas classificações crono-estilísticas está na discussão acerca da espiral. Este motivo, muitas vezes associado a zoomorfos e antropomorfos do complexo, é considerado por Baptista (1981) como proveniente da primeira fase da arte rupestre do Vale, se bem que continuado em outras fases. As figuras de espirais, tendo sido gravadas também em períodos posteriores, tiveram alguns de seus exemplares aproveitados no acto de se gravar, proximamente a elas, outras figurações. Encontram-se, portanto, algumas espirais pertencentes a uma fase relacionadas a motivos de outras fases. Tomando-se como exemplo a rocha 155 de Fratel, estudada por Baptista (1981), os zoomorfos vistos na Fase I possuem uma ligação à espiral. No período ou subfase denominada de subnaturalista clássica, alguns zoomorfos, principalmente cervídeos, estabelecem correspondência com algumas espirais. O período subnaturalista-evoluído, o segundo da Fase I, apresenta a figura da espiral relacionada aos zoomorfos de uma forma ainda mais frequente. Na rocha 155 de Fratel, “(…) dir-se-ia que a sua presença é vital junto dos maiores animais, estando unicamente ausente quando os motivos estão incompletos” (BAPTISTA, 1981:34). A espiral também pode ser encontrada na iconografia representada na Fase II, embora as espirais associadas a esta fase, na sua maioria, tenham sido gravadas 73 na fase antecedente. As gravuras inseridas nesta segunda fase da cronologia proposta por Baptista (1981) relacionam-se, segundo o autor, com espirais que outrora foram incisas nas rochas. Sendo assim, a espiral é incorporada na segunda fase, estando presente e associando-se às figuras da Fase II. O autor defende a hipótese de o surgimento da espiral ter ocorrido ao longo da etapa inicial do ciclo rupestre tagano e atribui a sua maior expressão, no que diz respeito à gravação, à Fase I. Ele sustenta essa sua hipótese no facto de não se encontrarem na arte megalítica da Península Ibérica grandes expressões desta figura, o que não faz dela um motivo típico da arte megalítica dos povos que habitaram a região. A tese de Baptista (1981) fundamenta-se, ainda, no simbolismo da espiral, como “imagem da vida”. “No entanto, a espiral, que Siret considerava a “imagem da vida” (Kerenyi, 1950, cit. Por Beltran Martínez, 1971, pag 141), é sem dúvida um motivo carregado de simbolismo e não pode ser considerada como característica de qualquer grupo específico” (BAPTISTA, 1981:38) Baptista (1981) atribui o erro de muitos autores, ao facto de se verificar uma grande abundância de espirais em muitos monumentos megalíticos de outras regiões da Europa, principalmente na Bretanha e Irlanda, onde a decoração megalítica é repleta de grandes espirais. Estabelecendo este tipo de paralelismo, tais autores supuseram que as espirais gravadas nas rochas do vale tagano fossem fruto de povos dos finais do neolítico e povos metalurgistas que demonstravam uma cultura megalítica. A seguir será apresentada uma descrição dos seis períodos constituintes da arte rupestre do Vale do Tejo, na concepção de Gomes (1987). Serão incluídas algumas discussões pertinentes de acordo com os dados expostos por particularidades de cada período, tendo como base a divisão categórica feita pelo autor e aprofundada na sua obra “Arte rupestre do Vale do Tejo – Um santuário histórico”, publicada em 1989. 74 3.2. Divisão crono-estilística suportada por Mário Varela Gomes Em relação à temática dos ideomorfos do Vale do Tejo – objecto de estudo central desta dissertação – notamos, na cronologia estabelecida por Mário Varela Gomes (1987, 1989), um enquadramento principalmente no que se refere aos períodos Meridional, Atlântico e dos Círculos e Linhas, ou seja, nas fases finais da arte rupestre do Vale do Tejo. Muitas vezes, aparecem motivos gravados associando-se a alguma figura anteriormente existente, geralmente um antropomorfo ou um zoomorfo. O período Estilizado-Dinâmico, anterior aos períodos meridional, atlântico, e o dos círculos e linhas, manifesta uma tendência para a representação material de motivos místicos não claramente expressos. Esta questão será discutida de maneira mais detalhada ao longo desta dissertação. Por agora, daremos conta do percurso de alteração que a temática das gravuras do Vale do Tejo sofreu e que revela diversos traços de teor místico associados às diferentes comunidades que ocuparam a região desde o paleolítico até ao início da Idade do Ferro. A classificação das gravuras na cronologia defendida por Gomes (1987, 1989), assim como nas fases propostas por Baptista (1981), foi feita a partir da averiguação dos estilos e das formas das rochas decoradas. Na análise, levaram-se em conta as sequências estratigráficas verticais e o exercício associativo voltado às figuras. O nível de desgaste das gravuras em dados painéis também foi observado para que se pudesse estabelecer parâmetros mais nítidos que estruturassem uma classificação do ciclo de arte rupestre do Vale do Tejo. Alguns paralelos com artefactos decorados fabricados por povos que habitaram a região serviram como importantes indícios para se estabelecer uma cronologia mais consolidada em provas arqueológicas. 75 A divisão destes períodos que integram o ciclo artístico do Vale do Tejo possui vários paralelos com a divisão crono-estilística demonstrada por Anati (1968) relativamente à arte norte ocidental da Península Ibérica. Devido aos vários elementos que promovem o estabelecimento de paralelos com as fases de gravação identificadas no Vale do Tejo, como por exemplo, a repetição da temática e o encontro de certas figuras, em ambos os ciclos artísticos, conjugadas numa mesma fase, estabeleceu-se uma classificação sistematizada em que a divisão das fases de gravação respeitou algumas linhas delimitantes dos períodos encontrados na arte galaico–portuguesa, descritos por Anati (1968). A questão das sobreposições e associações de motivos identificados em suportes decorados do Vale tem sido objecto de algum debate com enfoques distintos, como se pode constatar nas posições explicativas adoptadas por Baptista e Gomes. Estes dois autores propõem diferentes categorizações relativas às gravuras da região. A divisão crono-estilística, relacionando conjuntos de motivos a fases culturais, difere em ambos, o que determinará explicações e conclusões discrepantes. Um exemplo significativo é o que se coloca em relação a algumas figuras geométricas. Na óptica de Baptista a inserção da espiral e do círculo na arte rupestre do Vale do Tejo foi feita a partir do Neolítico, tendo a produção destes motivos continuado até à Idade do Bronze. Em contrapartida, Gomes (1987, 1989) considera que os dois motivos (a espiral e o círculo) foram feitos por comunidades metalurgistas, mais precisamente da Idade do Bronze e não teriam tido expressão em períodos precedentes. Estes dois pontos de vista acarretam modos diferentes de conceber os processos de simbolização das sociedades que ocuparam o Vale. Muito embora, devido às peculiaridades ressaltadas na referenciação crono-estilística dos motivos, tenhamos adoptado a divisão cronológica estipulada por Gomes (1987, 1989) como parâmetro de estudos sobre os grupos de 76 figuras da arte rupestre em questão, não se deixa de sustentar a ideia de Baptista (1981) de que os símbolos da espiral e do círculo podem ser provenientes de um período precedente ao designado por Gomes (1989). Esta afirmação baseia-se no facto de alguns destes motivos se encontrarem sobrepostos por figuras subnaturalistas, podendo ser associados a uma cronologia inferior ou concomitante às gravuras subnaturalistas. Referindo-se ao trabalho apresentado por Mário Varela Gomes e J. Pinho Monteiro – defensores de uma cronologia de seis períodos para a arte Vale do Tejo – apresentado em 1980 no IV Congresso Nacional de Arqueologia, Baptista (1981) atesta: “Temos ainda alguns dados que nos permitirão, em trabalho futuro, uma melhor precisão das principais etapas evolutivas deste grupo artístico, embora para o seu conhecimento exacto ser tenha ainda de estudar melhor o tipo de associações e sobreposições, e mesmo o percurso no próprio Vale do Tejo, de certos símbolos, como o círculo ou a espiral, não sendo esta, como pensamos tê-lo agora provado um motivo unicamente tardio e atlântico, como quiseram J. Pinho Monteiro e M. Varela Gomes, que integraram no seu 5º período” (BAPTISTA, 1981:42) No que se refere às associações de motivos, as suas cronologias não devem ser consideradas como convergentes, ou seja, não é necessário que dois ou mais motivos que se associam sejam originários de um mesmo período, uma vez que pode haver apropriação de um signo por um sistema cultural próprio de uma dada sociedade, diferente daquela em que foi originalmente gerado. Abaixo serão identificados os seis períodos crono-estilísticos propostos por Gomes (1987, 1989), destacando-se os processos e dinâmicas culturais que influenciaram a execução dos distintos grupos figurativos existentes no Complexo do Tejo. 77 3.2.1. O período arcaico O período arcaico, como o define Gomes (1987), é marcado pelo aparecimento de motivos zoomórficos específicos, como os cervídeos e cavalos. Há também registos de uma figura identificada como sendo a representação de um touro. Existem motivos representantes deste período no Fratel, Cachão do Algarve e Lomba da Barca. Estes petroglífos expõem contornos e parte interna com preenchimento, podendo notar-se, em algumas figuras, a utilização da técnica de abrasão para retocar e definir melhor o resultado. A atenção detalhada das gravuras destes zoomorfos é dirigida para a cabeça, uma vez que são as mais ricas em pormenores. Os animais estão dispostos em perfil, estando o pescoço e a parte traseira colocados em perspectiva – nalguns casos, obtida através da técnica de preenchimento de picotagem. As pernas aparecem finas e as linhas dorsais detêm uma ligeira ondulação7. Uma rocha que contém significativas figuras pertencentes a este período cultural é a rocha 155 do Fratel 8. As figuras pertencentes ao período arcaico são cinco veados completos, três cabeças deste mesmo animal, um cavalo e outras gravações que exprimem parte da silhueta de animais incompletos. A arte do período arcaico deve ser compreendida como originária de comunidades de caçadores-recolectores. A arte que se manifesta nesta fase tem a sua origem na arte Paleolítica Superior em que se verifica que há uma grande preocupação em se exprimir de maneira mais fidedigna as características dos corpos dos animais, muitas vezes apresentando detalhes como a representação de órgãos internos nas figuras 7 De acordo com Gomes (1987), a disposição da figura exemplifica o chamado “movimento congelado”, devido à sensação de imobilidade que o motivo sugere. Este elemento é característico do estilo chamado de subnaturalista. 8 A rocha 155 do Fratel possui outros motivos, procedentes de outros períodos culturais da Arte Rupestre do Vale do Tejo, como é o caso de algumas espirais e círculos concêntricos que aparecem associados aos cervídeos. 78 zoomorficas. A atribuição desta arte do período arcaico aos caçadores-recolectores está mais consolidada em consequência da descoberta de sítios remetidos à ocupação do Vale do Tejo no Paleolítico Superior e no Epipaleolítico. O período artístico-cultural, denominado de arcaico, está intimamente ligado à necessidade de conhecimento dos processos e ciclos naturais que integravam a sua principal fonte de sobrevivência, a caça. Por isso, o culto à fecundidade era executado pelas comunidades de caçadores-recolectores. Sendo assim, há uma grande probabilidade desta arte do período arcaico estar associada a rituais de culto à fecundidade, utilizando para o efeito animais representados nas rochas ladeadas pelas águas que circundavam os locais de acampamento existentes no Vale. Estes rituais, de acordo com análises antropológicas feitas a comunidades caçadoras, de uma maneira geral, são desenvolvidos sob a presença tutelar de um xamã – uma espécie de mediador entre o mundo real e o mundo etéreo – que efectuam os trâmites para que se possa garantir uma fase próspera. Não se exclui a possibilidade de existência de magia simpática, que define o culto de elementos vitais para a sobrevivência da comunidade. Outra possibilidade para explicar a temática que engloba esta fase cultural é a variável totémica que engloba um conjunto de crenças e práticas numa comunidade na qual diferentes grupos se identificam com diferentes animais; cada grupo se “apropria”, ou seja, concebe algumas características do seu animal totémico como sendo próprias do grupo, e o animal eleito torna-se seu protector. Portanto, a partir do período crono-estilístico arcaico, em que se integram estas gravuras, pode inferir-se a influência da esfera do sagrado envolvendo ritos que exaltam a fecundidade e incluindo, possivelmente, práticas xamânicas. Tendo como base este período do ciclo artístico do Vale do Tejo e a relação das variáveis que podem ser estabelecidas, Gomes ressalta: 79 “Os seus corpos segmentados, e a perspectiva parcial, recordam a arte ártica e o seu estilo aproxima-se dos animais detectados na base da estratigrafia de outros grandes ciclos artíticos marginais à área da grande arte francocantábrica, como o Arco Alpino (Totes Gebirge e Valcamónica) ou a Península Ibérica, onde encontra, com variantes, alguns paralelos tanto nas pinturas levantinas (Albarracín, Cogul, Calapatá, Minateda, Solana de Covachas, onde existe uma corça com o interior do corpo segmentado), como nas gravuras do Noroeste (Laxe da Rotea de Mendo, Outeiro de Cogoludo, Parada, Laxe dos Cebros )” (GOMES, 1989:56) FIGURA 11. Parte da rocha 155 do Fratel (155-F) evidenciando quatro cervídeos enquadrados no período arcaico devido aos caracteres das figuras. Nota-se elevada segmentação no corpo destes animais representados e o delineamento detalhado e preenchido. 80 3.2.2. O período estilizado-estático Esta fase crono-estilística é atribuída a comunidades que habitaram o Vale do Tejo num espaço de tempo que vai do Epipaleolítico ao Neolítico. A temática e o estilo reflectem o processo lento de mudanças da estrutura dos grupos sociais localizados na região, notando-se a integração de algumas novas características, ao mesmo tempo que se mantêm outros aspectos do período arcaico. A observação das gravuras incluídas no período estilizado-estático fornece a compreensão de que a estrutura das comunidades sofreu algumas alterações, conservando-se, porém, a expressão do Sagrado. Assim, uma das manifestações da estrutura das comunidades arcaicas, ou seja, a expressão mítico-religiosa perpetuou ao longo dos milénios. Isso é comprovável pelas pequenas mudanças ocorridas ao longo dos períodos que deram forma artística àquela expressão, sendo mantidos muitos dos elementos da temática do período anterior. A temática mantém-se, embora os motivos tenham adquirido traços mais estilizados. O elemento de cunho sexual, envolvendo a temática dos zoomorfos, permanece, inferindo-se daí a importância da reprodução e até mesmo a existência de um possível culto à fecundidade que já fora detectado no período precedente. A divisão dos corpos de animais representados nas gravuras desta fase é mais simples, reduzindo-se a algumas indicações isoladas – como é o caso da corça gravada na rocha 211-A do Fratel, que apresenta um detalhe que aparenta ser uma referência a algum órgão ou parte do seu corpo –, algumas retículas, linhas duplas e uma linha que divide o corpo e que foi também encontrada em gravuras anteriores. Esta linha inicia-se na zona frontal, peitoral do animal, e estende-se ao longo do corpo até alcançar a região genital. A linha recebe o nome de “linha da vida” pelo facto de as duas extremidades estarem vinculadas 81 a regiões vitais como o coração e o sexo, sendo que a sua ligação marca a extensão do quase todo o corpo do animal representado. A maior parte das figuras que integram este período encontram-se nas estações do Fratel e Cação do Algarve e são compostas for zoomorfos isolados, ou reproduzindo cenas como é o caso da cena de pré-acasalamento existente na rocha 04 do Cachão do Algarve. 3.2.3. O período estilizado – dinâmico Esta fase integra figuras com pequenas medidas, havendo algumas que chegam a possuir apenas 3 cm, pertencentes ao ciclo artístico galaico-português. As feições são estilizadas. É no período estilizado-dinâmico que surgem as representações antropomórficas. As figuras integram painéis compondo cenas ou aparecem em suportes de reduzidas dimensões, quase ocultas no meio que as circunda. Daqui podemos inferir que, possivelmente, os autores das gravuras deste período não as executavam com a intenção deliberada de serem observadas. Gomes (1989) atribui esta fase da arte rupestre do Vale do Tejo ao Neolítico. São várias as cenas em que aparecem homens representados ao lado de animais, demonstrando a prática da domesticação característica do Neolítico. O período estilizado – dinâmico do Vale do Tejo pode ser, de certa forma, comparado ao período estilizado-dinâmico galaico-português, visto que em ambos se verifica o aparecimento de figuras de pequenas dimensões que representam o Homem e cenas de caça. Amostras deste período encontram-se em rochas situadas mais à borda das águas dos rios devido às potencialidades ligadas à caça. Na rocha 175 do Fratel pode encontrar-se um significativo exemplo deste período: dois homens e um cão andam à caça de três cervos. 82 FIGURA 12. Gravuras pertencentes ao período estilizado-dinâmico situadas na rocha 175 do Fratel (175-F). Pode-se observar nesta rocha a representação de uma situação de caça. A figura do cão indica domesticação do animal no período em que a gravação foi feita. Relativamente aos autores das gravuras inseridas no período estilizado-dinâmico deve levar-se em conta a diferente estrutura produtiva do período Neolítico, em que a prática da agricultura determina o aparecimento de uma estrutura social segmentada e estratificada. Esta nova estrutura social gera uma nova percepção religiosa na qual o Homem passa a ser representado. Isto reflecte uma nova percepção dos autores das gravações em relação a si próprios. Começar a gravar antropomorfos, ou seja, signos que esboçam e representam o ser humano, indica uma nova forma de se situar conscientemente no mundo, sobretudo se se tomar em consideração os demais períodos em que não há testemunhas de antropomorfos gravados. A prática de gravação, inclui, doravante, um novo motivo revelador de uma nova concepção da realidade e é associada ao emergir do consciente religiso. Neste sentido, as incisões pertencentes ao 83 período estilizado-dinâmico são um legado material de práticas relacionadas às crenças que se enraízam nestes grupos sociais. 3.2.4. O período meridional Dadas as características da arte rupestre evidenciadas neste período, presume-se que os seus autores tenham vivido no fim do Neolítico e da Idade do Cobre, já que, segundo Gomes (1989), se observam semelhanças entre a arte com esta designação e aquela encontrada no Mediterrâneo Oriental ou na região carpatodanubiana. Os caracteres que distinguem esta fase dizem respeito ao aumento do grau de esquematização das figuras, que passam a estar despojadas de elementos naturalistas. Estas mudanças são observadas nas representações de antropomorfos e zoomorfos. Os motivos deixam de ser representados com a perspectiva e são eliminados elementos que dão a sensação de volume ou movimento às figuras. Suprime-se também a representação de cenas. Nesta fase crono-estilística surgem os ideomorfos na arte rupestre do Vale do Tejo, figuras geométricas cujo seu significado imediato não é claro. Encontramos também figuras idoliformes, algumas das quais com feições antropomórficas e, provavelmente, inspiradas nas crenças religiosas dos grupos que as representaram. A temática deste conjunto de gravuras é relacionada com este período marcada por estilos diversos de representação antropomórfica, como por exemplo idoliformes, máscaras e representações formadas por dois triângulos (bitriangulares). Como já foi mencionado acima, este período é constituído pela presença de “figuras geométricas” ou ideomorfos: espirais, círculos, zigue-zagues, serpentiformes etc. São 84 raros os artefactos gravados neste período: alguns báculos, arcos, machados e um punhal são os únicos testemunhos. A disposição dessas gravuras surge isolada ou associadas a grupos constituídos no máximo por três signos. Geralmente os suportes em que as figuras pertencentes a este período estão gravadas estão distanciados da margem do rio. Contudo, notamos uma maior sintetização, ou seja, um modo de representação gráfica dos componentes naturalistas com menos pormenores. Estas mudanças de estilo e temática identificadas no período Meridional traduzem um novo modo de significação que deve ser compreendido à luz da cultura então dominante e a partir do reordenamento de elementos definidores da estrutura das comunidades que se fixaram no sul e no sudoeste da Península Ibérica. Encontram-se também muitas representações do Sol relacionadas com a sua provável veneração, uma marca do sistema de crenças, cultos e ritos dos grupos sociais metalurgistas. As figuras solares aparecem associadas, geralmente, a antropomorfos de estilo esquemático. As comunidades provenientes do sudoeste que penetraram na zona, que coincide actualmente com o interior de Portugal, depararam-se com os grupos neolíticos que já ocupavam a região o Vale do Tejo. Ocorreram transformações técnicas devido ao encontro entre as povoações neolíticas residentes no local e grupos vindos doutras áreas da Península Ibérica e que sabiam trabalhar com alguns metais. Neste sentido, para Gomes (1989), pode inferir-se um domínio por parte dos grupos metalurgistas invasores sobre as residentes comunidades neolíticas: “Provocado pelo progresso destes contactos, com novas estruturas, socioeconómicas e culturais, assiste-se a um surto de desenvolvimento da dinâmica própria das populações do Neolítico final desta região do interior, a que pode não ser totalmente estranho um real controle dos mecanismos do poder por parte dos grupos populacionais oriundos do sudoeste” (GOMES, 1989:65) 85 Este “domínio” – ou controlo – mencionado por Gomes (1989) dos meios de poder por parte dos grupos que possuíam técnicas mais avançadas não pode ser visto de maneira simplista sob a égide de uma lógica sócio-evolucionista. Isto porque dois grupos com estruturas sociais distintas não guerreiam necessariamente e nem sempre a cultura do mais forte prevalece intacta. Em ambos os casos há uma apropriação mútua de componentes culturais, prevalecendo, no entanto, as do grupo que detém algumas técnicas mais desenvolvidas e uma organização social mais hierarquicamente estruturada. Há propriamente dizimação do grupo “mais fraco” no decurso de um contacto dominador; nisto os elementos culturais de ambas se tocam e se misturam podendo mesmo algumas tradições do grupo “mais fraco” serem assimilados pelo grupo dominante. Pode também haver um contacto intergrupal (entre dois grupos distintos quer quanto sua ordem social quer pelas técnicas que utilizam para lidar com os seus recursos) que, por efeito de abundância de recursos e de distanciamento espacial, não gera dominação imediata de um grupo sobre o outro. Sendo assim, a troca de elementos culturais pode ser feita de uma maneira mais ponderada, o que não impede que não haja apropriação de técnicas mais avançadas no que diz respeito, por exemplo, ao manuseio dos meios de sobrevivência utilizados pelos grupos. Uma vez que a incorporação de técnicas e utensílios modifica ou rearranja os hábitos sociais, isso reflecte-se na forma como uma comunidade se organiza e, consequentemente, como passa a conceber o mundo à sua volta. As mudanças podem ser notadas através das relações sociais que se estabelecem, a expressão da religiosidade e outros factores que definem o comportamento dos grupos sociais. Esta transformação não ocorre somente nas comunidades tidas como “menos desenvolvidas”, neste caso em grupos neolíticos, na medida em que alguns factores da comunidade neolítica podem influenciar a sociedade calcolítica, caso haja contactos 86 entre ambas. É uma relação bilateral e não de domínio linear, uma vez que ambas as culturas estabelecem contactos de várias naturezas que podem ser mutuamente benéficas. Neste caso, para uma análise de alteraçãoes sócio-económicas e culturais de comunidades mortas – ou seja, que desapareceram, deixando apenas alguns vestígios materiais – temos de considerar as evidências que denunciam mudanças através dos produtos materiais derivados da dinâmica de relações sociais que se estabelecem, nomeadamente, através das suas mútuas crenças religiosas e dos seus ritos. Ou seja, para se compreender estes fenómenos de contacto, há que considerar a relação estabelecida entre esferas sociais, económicas e religiosas de ambas as comunidades no pressuposto de que não houve controlo de uma sobre a outra, mas sim uma mútua modulação. Contudo, a arte rupestre do Vale do Tejo exibe características pertencentes aos grupos sociais que a produziram. De acordo com os elementos que podemos identificar vislumbramos algumas facetas das comunidades de onde aquela arte proveio. O carácter religioso, ou seja, a concepção daquela arte como expressão mitográfica surge cada vez mais fortalecida, uma vez que as figuras incisas demonstram possuir um conteúdo simbólico inspirado em componentes integrados na paisagem. O período meridional vem demonstrar a existência de um complexo conjunto mitológico das sociedades produtoras, formadas por comunidades neolíticas e da Idade do Cobre que assinalam uma fase em que caracteres de ambas se miscigenaram. Os indícios de novas representações na temática, encontradas nas gravações das rochas, indicam um diferente enfoque, provavelmente originário da sociedade calcolítica que na época dominara aqueles territórios, apropriando-se de algumas figuras do período anterior e testemunhando uma dinâmica de não eliminação da cultura pré-existente. 87 Assim, se estudarmos de vestígios de expressões culturais de sociedades estruturalmente diferentes que viveram um dado período num mesmo espaço, não podemos, necessariamente, concluir pela existência de um domínio de uma delas sobre a outra através da força, mas sim de uma dominação adquirida de maneira lenta e na qual ambas as sociedades se influenciaram em diferentes aspectos. A rocha 126 do Fratel é um exemplo em que notamos a permanência de algumas características do período estilizado-dinâmico numa óptica de inserção e resignificação numa dada cultura de elementos pertencentes a uma comunidade de distinta. Nela se observa um antropomorfo que segura uma figura solar. Esta composição é atribuída por Gomes (1989) ao período meridional, no qual o culto solar é praticado e representado na arte rupestre em regiões como a do Tejo, mas também noutras onde houve uma ocupação de sociedades calcolíticas. Entretanto, encontramos na rocha 158 de São Simão uma figura humana que carrega um veado, uma representação semelhante àquela vista na rocha 126 do Fratel. Trata-se portanto de uma figura de cervídeo em vez de uma figura do Sol. Na perspectiva de Gomes (1989), a representação encontrada na rocha 126 do Fratel não pode ser vista como uma referência à actividade de caça, uma vez que é evidente a substituição do veado pela figura solar. A figura humana que sustenta o cervídeo não seria simplesmente um registo de uma prática existente – a caça – mas revela-se possuidora de um significado simbólico associado às práticas rituais e ao conjunto de crenças da sociedade que expressou essa figuração. A existência de figuras que demostram uma mesma intenção significativa é favorável à hipótese de se tratar de uma manifestação de idolatria solar inserida na praxis ritualística dos povoados que ocupavam a região central do território português no final do período Neolítico. Em Ficalho, freguesia situada no concelho de Serpa, na 88 região do Alentejo, pode ser encontrada uma imagem gravada que se assemelha àquela existente em Fratel: um antropomorfo, representado esquematicamente, que segura nas suas mãos posicionadas acima da cabeça uma figura solar. A partir destes paralelos, a possível interpretação de representação da actividade de caça através da figuração, remetida ao período precedente, do antropomorfo que segura um veado numa atitude similar às figuras compostas pelo soliforme – isto é, figura com formas solares – acima descritas mostra-se reducionista e inadequada. Há, portanto, que descartar o enfoque simbólico vinculado à mitografia daquele grupo. É importante ressaltar que a mitografia é o registo dos mitos produzidos e aceites por uma comunidade. Neste sentido, os povos existentes na pré-história e na proto-história praticavam uma expressão gráfica mediante a qual executavam gravuras e/ou pinturas com elevada carga simbólico-religiosa. Estas composições formadas pelos motivos antropomorfos são representados em um atitude similar perante diferentes situações podendo exprimir alguns elementos que permaneceram constantes a mudanças decorrentes nas comunidades que sofreram grandes transições sociais. A figura do antropomorfo segurando um cervídeo, situada em São Simão, é relacionada aos grupos que continham características de uma sociedade neolítica sendo a caça uma prática que não havia sido cessada, mas que havia sido aprimorada a partir do auxílio de animais domesticados. A figura antropomórfica que detém em suas mãos um Sol é atribuída a um período transitório, em que práticas próprias do neolítico são inovadas sob a influência de grupos que possuíam a habilidade de trabalhar os metais. A Idade do Cobre está em sua alvorada no Vale do Tejo e com ela outras formas de significações emergem, não a partir da destruição do ordenamento mitográfico pré-existente mas sim reajustando-o e reordenando-o. 89 FIGURA 1. Da esquerda para a direita: A – Rocha 158 de São Simão: antropomorfo carregando um cervídeo; B – Rocha 126 do Fratel: antropomorfo sustentando uma figura solar; C – Rocha 12 de Ficalho: antropomorfo e figura solar. Embora o tema do Sol não faça parte do centro da discussão deste trabalho é importante que observemos algumas considerações a seu respeito, sendo essa importância justificada a partir da necessidade de se compreender em profundidade a simbologia em que se insere. Uma vez que esta dissertação se propõe a analisar os grafismos, procura-se contextualizar as suas manifestações, analisar a sua natureza e estudar a intenção da sua representação. Uma outra justificação para a importância de fazermos algumas breves considerações sobre os soliformes é o facto de algumas destas representações levantarem dúvidas sobre a natureza solar, ou seja, se de facto aquele motivo representaria o Sol, ou se apenas dispõe de caracteres estéticos de uma figura do sol. Neste caso, temos novamente como exemplo a rocha 126 do Fratel, onde a suposta figura solar apresenta apenas quatro raios, sendo que dois deles se unem aos braços do antropomorfo aparentando serem extensões deste. Como o centro da discussão deste estudo se baseia em figuras que não são de identificação imediata, os grafismos, o soliforme insere-se nesta discussão já que esta figura permite um debate sobre a sua real representação. Portanto, cabe indicar a 90 razão pela qual consideramos este motivo como sendo um símbolo solar. Sendo assim, adiantaremos algumas considerações sobre o significado do culto solar no seio das sociedades que gravaram este símbolo nas rochas. As considerações sobre o significado do símbolo solar mostram-se indispensáveis para estabelecermos as ligações entre a figura do cervídeo e a figura solar e vislumbrarmos os mecanismos simbólicos que regem e sustentam a hipótese da substituição de um símbolo por outro, apresentada por Gomes (1989). Como ressalta Gomes (1989), a figura solar é reconhecida tendo como base o conhecimento da existência de uma espécie de “religião solar” das comunidades metalúrgicas que se instalaram na região do Vale e que marcaram o final do Neolítico. As figuras solares também são vistas na rocha 158 do Fratel, integradas no mesmo período artístico em que se situa a composição da rocha 126 da mesma estação mencionada anteriormente. No caso da rocha 158, as duas gravuras soliformes são representadas com mais do que quatro raios, o que caracterizava a figura solar da rocha 78, apresentando uma oito raios e a outra dez. FIGURA 2. Rocha 78 do Fratel. Os motivos foram expostos apenas como exemplo de figuras soliformes. A imagem não apresenta escala. Neste caso, seu emprego neste trabalho serve para ilustrar o período. 91 Em São Simão há um soliforme, na rocha 137, também enquadrado no período meridional, representado com oito raios e com um ponto no centro. Este soliforme está disposto ao lado de um antropomorfo de estilo esquemático. FIGURA 3. Rocha 137 de São Simão. O símbolo do Sol é manifestado em diversas culturas e em diferentes épocas e espaços geográficos. Pode ser considerado um símbolo polissémico, ou pode ser chamado de “símbolo em potencial”, uma vez que abrange componentes que possibilitam o direccionamento de significados distintos e opostos. 92 “O simbolismo do Sol é tão multivalente como rica em contradições é realidade solar. Se não é o próprio Deus, é, para muitos povos, uma manifestação da divindade” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1982: 610) Os mesmos autores consideram ainda que a simbologia do Sol é utilizada em contextos de significação dicotómicos. “Sob outro aspecto, ele é verdadeiro, ele é também o destruidor, o princípio do seco – ao qual se opõe a chuva fecundante. Por isso, os sóis excedentes, na China, resistem a ser abatidos a golpes de flechas. Os ritos de obtenção da chuva implicam, por vezes – por exemplo, no Camboja – , a morte de um animal solar. Produção e destruição cíclicas fazem dele um símbolo de Maia, mãe das formas e ilusão cósmica. De outra maneira, a alternância vida-morte- resnascimneto é simbolizada pelo ciclo solar: diário (simbolismo universal, mas muito rico nos textos védicos): anual. O Sol aparece, assim, como um símbolo de ressurreição e imortalidade” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1982:611) Estas considerações acima citadas dizem respeito a povos de culturas distintas, em que as concepções acerca do simbolismo solar foram moldadas durante muitos anos, de acordo com as tradições e a especificidade cultural de cada povo. Não podemos fazer comparações partindo de contextos culturais distintos sem tomarmos uma série de cuidados metodológicos que confeririam credibilidade às nossas observações. Não se pretende, neste trabalho, aprofundar e perceber as raízes e o desenvolvimento do simbolismo do Sol. Todavia, essas visões acerca da simbologia que envolve a relação Homem-Sol fornecem elementos sobre o potencial de significação deste símbolo, uma vez que ele ocorre em diferentes contextos. O que se pode especular é se essa pluralidade de significados adquiriu expressão na arte dos homens pré-históricos e, mais precisamente, na arte dos homens que ocuparam a região do Vale do Tejo em fins do período Neolítico e durante o Calcolítico. Sendo assim, o que haveria de comum entre o símbolo do veado e o símbolo do Sol para que se pudesse averiguar em que parâmetro a hipótese de substituição de um signo por outro, defendida por Gomes (1989), pudesse ser sustentada 93 mantendo-se a dinâmica simbólica? E se houve essa substituição, seria o significado totalmente alterado ou permaneceria ele com o mesmo conteúdo simbólico definido pelo complexo mitológico que integrava o símbolo que fora substituído? Talvez possamos vislumbrar algumas ligações entre estes dois símbolos, utilizando algumas percepções sobre o simbolismo do veado (ou do cervo). Nas palavras de Chevalier e Gheerbrant (1982:185): “Pela sua alta cornadura, que se renova periodicamente, o cervo é muitas vezes comparado à árvore da vida. Simboliza a fecundidade, os ritmos de crescimentos, os renascimentos.” O símbolo do veado, por outro lado, mantém correlações de sentido com o do Sol. Um dos exemplos é dado por Alexander (1962 apud Chevalier & Gheerbrant, 1982) ao mencionar um cântico dos índios americanos (Pawnee) que apresenta o cervo como o mensageiro do Sol. No mundo da natureza os animais acordam com o nascer do Sol e o cervo é o guia, é o intermediador entre o Homem e o Sol: o cervo, ao acordar pela manhã com os primeiros raios de Sol, dá o sinal para que as crianças saibam que é a hora de despertar. Contudo, o cervo também pode representar um símbolo negativo, atribuindo-se-lhe, por vezes, conotações associadas ao “mal”. “O cervo de ouro encontra-se nas lendas Camboja, mas o carácter solar do animal aparece sob um aspecto maléfico. Como acontece muitas vezes, o animal solar é relacionado com a seca; é preciso, para obter a chuva, matar o cervo. (…) Noutras regiões, acrescenta-se a isso que a penetração do cervo numa aldeia anuncia um incêndio e obriga a população a abandonar os lugares. A mesma ideia de cervo nefasto e portador da seca é conhecida na China antiga” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1982:185) De acordo com estes enfoques torna-se compreensível que a substituição de um símbolo por outro, neste caso do cervo pelo Sol, dá-se como um reflexo de mudanças que ocorreram na organização social das comunidades e da sua estrutura mítico-religiosa. Esta mudança na estrutura mítico-religiosa ajusta-se ao reordenamento 94 da sociedade, cuja lógica de funcionamento passa a ser orientada por um conjunto de crenças e normas derivadas daquela estrutura. Em contrapartida, estas crenças e normas também podem sofrer alterações de acordo com a dinâmica das comunidades e das mudanças e inovações que elas sofrem. Deste modo, as relações sociais, ao reordenarem-se, desencadeiam novos impulsos culturais que, por sua vez, configurados por novos mitos e crenças, geram processos de simbolização legitimadores do funcionamento da comunidade. Podemos observar melhor essa dinâmica através de um estudo mais profundo sobre a hipótese de substituição da figura do cervídeo pela figura do Sol. Embora este não seja o objectivo desta dissertação, cabe relevar este ponto que denota algumas mudanças no plano das representações simbólicas concomitantes das alterações sociais que ocorrem no período em análise. Os excertos de Chevalier e Gheerbrant (1982) devem ser entendidos como indicadores da capacidade significativa do símbolo do Sol e do veado e não como afirmações perante a interpretação das rochas 78 e 126 de Fratel e da rocha 158 de São Simão. O significado do simbolismo Sol/veado mencionado através desses excertos talvez possa ser aplicado à arte rupestre do Vale do Tejo. Este assunto, dada a sua importância, deveria ser alvo de um estudo mais pormenorizado. Não podemos, contudo, deixarmos de estar atentos à modulação das construções culturais a partir de percepções humanas. Sendo o símbolo um signo que é pleno de significado, temos que algumas características apresentadas por um elemento, neste caso o Sol ou o cervo, podem ou não ser absorvidas pela esfera cultural de um povo. Portanto, poderíamos encarar um objecto como detentor de certos caracteres, cabendo à dinâmica cultural de uma dada comunidade direccionar as 95 percepções extraídas deste objecto, sendo o seu significado simbólico criado a partir daí. No caso em estudo, as distintas significações do símbolo do Sol e do cervo fomentam a ideia de que a substituição de um símbolo por outro, no contexto das populações do Vale do Tejo, pode ter ocorrido com base na percepção de elementos coligados entre ambos os significados simbólicos. É no período meridional que, segundo Gomes (1987, 1989), os ideomorfos, vulgarmente chamados “símbolos geométricos”, surgem na arte rupestre da região do Vale do Tejo. Encontram-se neste ciclo linhas onduladas, zigue-zagues e serpentiformes. Os motivos encontrados e situados nesta divisão crono-estilística também se podem observar no conjunto megalítico alentejano. Aqui a figura solar, as serpentiformes e os círculos estão representados em alguns menires e cromeleques, como é o caso do cromeleque de Monte de Roma (Silves). Neste cromeleque estão dispostos círculos e ondulações, correlacionados por Gomes (1989) com os encontrados na rocha 12 do Fratel. O mesmo se verifica nos menires de Vale-de-Rodrigo e de Bulhoa: o primeiro possui círculos e serpentiformes e o segundo figuras de sóis, ondulações e ainda uma figura de um báculo. A natureza dos ideomorfos será discutida em outros capítulos deste estudo e constitui o cerne desta pesquisa. 3.2.1. O período atlântico O período designado como atlântico contém, na sua temática principal, os ideomorfos: espirais, círculos concêntricos, meandros, serpentiformes, escudiformes etc. Neste período, observa-se uma certa extensão de alguns elementos do período meridional, principalmente de ideomorfos. O período atlântico é, portanto, aquele em que as representações condensam conceitos extremamente simbólicos, o que não quer 96 dizer que as figuras observadas noutros períodos crono-estilísticos não sejam caracterizadas pelo aspecto simbólico, mas sim que a execução de gravuras cujas formas não se relacionam a um objecto representado absorve, desde sua formação, uma maior concentração de abstracção figurativa. A iconografia existente neste período pode ser observada na arte megalítica, não somente da Península Ibérica, mas também em outros locais como a Grã-Bretanha e a Irlanda. Devido a estas evidências, Gomes (1987, 1989) atribui alguns símbolos, como é o caso da espiral, a períodos que atravessaram a cultura megalítica e não épocas antecedentes. Na arte do Tejo os motivos que representam o período atlântico aparecem integrados noutros motivos de períodos precedentes. O autor vê, assim como Baptista (1981), composições cronologicamente híbridas, podemos assim chamá-las, ou seja, composições feitas a partir do aproveitamento de figuras de outras fases de gravação. Embora o sistema de cronologia adoptado por ambos os autores não seja igual, e alguns dos motivos sejam remetidos a diferentes períodos, converge a ideia de que na arte rupestre do Vale do Tejo houve a utilização, em uma dada representação iconográfica, de signos gravados em outras épocas por comunidades distintas. Este é um ponto importante a ser explorado que circunda o significado dos símbolos que se ajustaram a imagens já existentes. Este facto indica que houve uma assimilação dos motivos gravados em períodos anteriores por parte das comunidades autoras das gravuras do período atlântico. Às imagens já existentes atribuiu-se um novo significado condizente com os parâmetros que sustentavam os grupos da Idade do Bronze ali presentes. A lógica cultural imperante deu um novo significado aos motivos gravados por povos anteriores além de vinculá-los a novas gravações. Embora haja uma continuidade da tendência, já verificada no período meridional, de expor nas 97 manifestações de gravação formas que não remetem a um objecto directo e que oferecem uma natureza abstracta conceptual, o período atlântico é caracterizado por um número elevado de motivos do género ideomorfo. Nas gravuras do período atlântico identificam-se imagens referentes às armas - espadas, escudos, machados etc - que reflectem as produções materiais provenientes da prática e do conhecimento em trabalhar os metais. As representações destes objectos aparecem isoladas ou vinculadas a antropomorfos. Nota-se neste período uma marcante presença de ideomorfos e um aumento do número deste género de gravuras em relação aos períodos anteriores. Um interessante exemplo citado por Gomes (1989) é a existência de uma grande espiral associada a um meandriforme: esta associação destes dois motivos foi identificada noutros sítios, como na arte megalítica da Irlanda e das Ilhas Canárias. Podemos verificar que, não somente alguns signos singularmente considerados se repetem em sítios distintos, como também são verificadas certas repetições de associações. FIGURA 4. Alguns ideomorfos da rocha 129 de Fratel (129-F), caracterizada por gravações do período Atlântico e por algumas gravações do período de círculos e linhas. Adaptado de Gomes (1987, 1989). A imagem não apresenta escala. Neste caso, seu emprego neste trabalho serve para ilustrar o período. 3.2.2. O período de círculos e linhas Este período é identificado por Gomes (1987, 1989) como pertencente aos grupos relacionados aos finais da Idade do Bronze. Nota-se uma enorme quantidade 98 de ideomorfos, entre eles, vários círculos e serpentiformes, o que deu origem ao nome vinculado ao período. Outros tipos de ideomorfos também aparecem inseridos neste período de círculos e linhas. Os círculos muitas vezes aparecem dispostos uns ao lado dos outros ou conectados por linhas onduladas, rodeando motivos pré-existentes. As armas e as figuras antropomórficas relacionadas com a imagem de heróis, muito comuns no período atlântico, escasseiam na arte rupestre do Vale do Tejo em fins da Idade do Bronze. No entando, são mantidas gravuras como podomorfos ou “pegadas” que tiveram as suas primeiras manifestações no período meridional. Estes símbolos aparecem associados a motivos de períodos anteriores geralmente sobrepondo-se a eles. Alguns motivos possuem formas que fazem alusão a animais fictícios, ou seja, exibem formas híbridas provenientes de diferentes animais. Este factor permite atribuir estes motivos a um possível complexo mitográfico constituído por entidades portadoras de características de vários animais. Os ideomorfos denominados por serpentiformes são figuras que, embora tenham semelhaças com o animal, não devem ser identificados como uma representação sua, sem que antes se faça um exame criterioso. Devido à forma simples que a serpente possui, muitas vezes encontram-se serpentiformes que não foram desenhadas com esse propósito, pelo que deve sempre fazer-se a análise sistemática da figura. Entretanto, muitas figuras claramente identificadas como serpentes -principalmente quando esta apresenta um desenho característico da cabeça do animal- existem na arte rupestre mundial. No Vale do Tejo, gravuras de serpentiformes aparecem principalmente neste período de círculos e linhas. O símbolo da serpente pode ser assim identificado como um dos mais recorrentes no Vale do Tejo, em fases de gravação remetidas Idade à do Bronze, uma vez que encontramos frequentemente gravados motivos com formato de serpente. Pode, 99 por vezes especular –se que se tratar de um símbolo com valor indeterminado, tal como sucede em certas figuras do sexto período crono-estilístico assinalado por Gomes (1987). Apresenta-se, em seguida, alguns serpentiformes encontrados em diferentes rochas decoradas do Vale do Tejo: FIGURA 5. Serpentiformes do Vale do Tejo. Adaptado de Gomes (2004). As figuras serpentiformes restantes ilustram os demais motivos dessa categoria existentes no Vale do Tejo. Os dados específicos das serpentiformes das rochas 11 do Gardete (11-G) e o elemento da rocha 175 do Fratel (175-F) estão nos Anexos C e B, respectivamente. 100 Neste momento é oportuno salientar algumas características do símbolo da serpente, evidenciando alguns elementos das virtualidades semânticas deste símbolo. A serpente reúne características capazes de provocar as mais diversas reacções no ser humano. Em primeira instância, é um animal que causa medo, pois é capaz de matar de modo imprevisível, aparecendo e desaparecendo rapidamente, podendo por vezes ser muito grande quando esticada. Por outro lado, ao enrolar-se em torno de si própria adquire uma forma que ajuda a camuflar-se. Outra característica da serpente é o facto de mudar de pele uma vez por ano, possuir sangue frio e não ter patas; a serpente move-se rastejando. O seu olfacto aguçado e a sua boa visão permitem-lhe aperceber-se de inúmeras vibrações à sua volta. O símbolo da serpente aparece em povos de várias regiões e épocas. A mítica que circunda o animal é, sem dúvida, muito ampla e rica. Cada povo que tomou a serpente como um de seus símbolos apropriou-se das suas peculiaridades físicas e inseriu-as na sua cultura, reajustando os seus elementos culturais e o seu modo de interpretar o mundo. Simbolicamente, a serpente é sinónimo de poder. Ao mesmo tempo que causa medo ao Homem pode significar fonte de cura. É um animal que se esconde, vem de sítios obscuros, que remetem à parte da Natureza que o ser humano desconhece. A serpente é um ser dual, possui uma cabeça quase semelhante à cauda, o que, à primeira vista, dificulta a identificação de seu começo e de seu fim. A serpente pode ser relacionada com a Lua por ser um animal que vem das trevas, do obscuro que se renova, uma vez que sofre transformações cíclicas, a troca da pele, tal qual a Lua apresenta fases. O ciclo natural que a serpente atravessa, manifestado pela troca de pele, pode ser tomado como o poder de renascer. Provavelmente, era vista como um ser de renascimento, de morte e de vida. Para ratificar esta ideia de poder de renascimento relacionada ao símbolo da serpente pode 101 mencionar -se a Uroboro: famosa figura de serpente engolindo a sua própria cauda. Esta representação de um ciclo indica a continuidade sem fim, unindo numa dinâmica constante a vida e a morte: a vida faz-se através da morte e a morte tem a sua origem através da vida. De acordo com Chevalier & Gheerbrant (1982), este símbolo também representa a criação do tempo e a auto-fecundação. O símbolo da serpente manifesta a fertilidade. A sua forma pode alternar entre a forma fálica, quando se encontra esticada, e a forma da genitália feminina, quando se encontra enrolada. Embora se possa associar aos dois sexos, de acordo com a forma adoptada, este animal é geralmente relacionado com o sexo feminino. A mudança cíclica de pele pode aludir ao ciclo menstrual, que se liga à fecundidade e, consequentemente, à vida. Para os gregos, para algumas tribos indígenas do Brasil e, ainda hoje, para alguns indianos, a serpente é considerada como um símbolo de fertilidade. Segundo Chevalier & Gheerbrant (1982), o ser humano e a serpente são ao mesmo tempo antagónicos e semelhantes. A serpente situa-se no início do processo evolutivo dos vertebrados – é um animal rastejante, de sangue frio, sem pêlos ou penas –, e o Homem é um animal biologicamente complexo. Mesmo pertencendo a um estado primitivo na cadeia evolutiva, a serpente desperta o medo e, consequentemente, desafia a posição soberana do Homem. Por este prisma, Homem e serpente superam os seus distintos ciclos evolutivos e competem num mesmo patamar. Por outro lado, a ligação da serpente ao obscuro e à força da natureza incute no ser humano temor, como se pela natureza o Homem se curvasse, contemplando-a e prestando-lhe culto. Os podomorfos, outros motivos que aparecem na arte rupestre delimitada por este período de círculo e linhas, como é chamado por Gomes (1987), são vistos pelo 102 mesmo autor como um elemento relativo ao conceito de passagem vinculado com ao Sagrado. Sendo o círculo um motivo muito encontrado nesta última fase do complexo rupestre é interessante explorarmos um pouco do seu simbolismo. Salienta-se desde já que os significados simbólicos que serão traçados não denotam o significado real e preciso que os autores das gravuras em questão quiseram empregar naquelas representações. Entretanto, para se conhecer melhor o que se explora deve entrar-se em contacto com as diferentes concepções de um mesmo objecto. É neste sentido que se torna relevante o estudo do simbolismo, quer do Sol quer da serpente, a fim de compreendermos como um mesmo símbolo possui diferentes significados consoante a cultura em que se manifesta. O valor da representação de um símbolo varia em função do espectro de valores semânticos que lhe estão agregados, podendo atingir, por vezes, sentidos antagónicos, conforme os distintos contextos históricos e sócio-culturais em que se inserem. Neste sentido, o círculo muito visto neste período final do ciclo rupestre tagano deve ser também compreendido no seu carácter simbólico. Basicamente o símbolo do círculo representa totalidade, o todo. Os círculos concêntricos, muito vistos nesta fase da complexo rupestre do Vale, podem ser entendidos como um prolongamento desta simbologia do círculo, uma vez que os círculos concêntricos são formados por vários círculos que buscam focar um ponto central. “O círculo é, em primeiro lugar, um ponto estendido; participa da sua perfeição. Assim, o ponto e o círculo têm propriedades simbólicas comuns: perfeição, homogeneidade, ausência de distinção ou divisão…O círculo pode ainda simbolizar não as perfeições ocultas do ponto primordial, mas os efeitos criados; dizendo de outra forma pode simbolizar o mundo, quando se distingue de seu princípio. Os círculos concêntricos representam os graus do ser, as hierarquias criadas. Para todas essas categorias” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1982:202) 103 No final do período dos círculos e linhas nota-se que há uma despreocupação com a estética dos motivos gravados e que as figuras são dispostas de modo a evidenciar uma despreocupação com a clareza do que foi gravado. A partir destas características dos níveis finais de representação gráfica da arte rupestre do Vale do Tejo, Gomes considera que o produto rupestre do fim do último período crono-estilístico do complexo não se encaixava em objectivos imbuídos de valores mítico- religiosos, como é vista grande parte da arte rupestre da região. Este autor identifica estas expressões rupestres finais do ciclo existente no Vale do Tejo como uma prática que se encerra nela mesma. Por outras palavras, remete a esses conjuntos de motivos um objectivo final meramente pautado no acto da gravação. “O carácter ideogramático de algumas composições parece, agora, transformar-se, rapidamente, em mero exercício de gravação, esvaziando-se o seu conteúdo formal e espiritual” (Gomes, 1989:75). 104 FIGURA 6. Rocha 68-D do Cachão do Algarve. Ideomorfos pertencentes aos dois últimos períodos do complexo rupestre do Vale do Tejo, segundo Gomes (1989). A imagem não apresenta escala. Neste caso, seu emprego neste trabalho serve para ilustrar o período. 105 FIGURA 7. A rocha 11 de Gardete (11-G) apresenta incisões pertencentes desde o Neolítico Final até a Idade do Bronze. Adaptado de Gomes (2004). 106 4. CONTRIBUTOS DE COLLADO GIRALDO PARA A COMPREEENSÃO DO CONJUNTO DE GRAVURAS RUPESTRES DO TEJO De acordo com o trabalho de Collado Giraldo (2006a, 2006b) que tem como objecto de estudo o conjunto de gravuras de Molino Manzánez, localizado no Sudoeste da Península Ibérica, podemos traçar alguns paralelos provenientes de conclusões que o autor desenvolve acerca das gravuras por ele estudadas. O grupo de gravuras de Molino Manzánez, assim como o conjunto de gravuras do Vale do Tejo, abrange fases de gravação originárias de diferentes períodos sócio-culturais. Collado Giraldo (2006a, 2006b) estabelece uma divisão, baseando-se nas diferentes fases de gravação presentes no conjunto de gravuras de Molino Manzánez. São propostas cinco fases de gravação, sendo as duas primeiras procedentes de sociedades caçadoras-recolectoras. No Vale do Tejo a Fase I proposta por Baptista (1981) que engloba duas sub-fases –subnaturalista clássica e subnaturalista evoluída – é proveniente de comunidades de caçadores –recolectores. Embora a temática das Fases 1 e 2 de Molino Manzánez se assemelhe às primeiras fases de gravação concebidas por Baptista (1981) sobre o Vale do Tejo, e aos três períodos inicias de Gomes (1987, 1989), a técnica utilizada distingue-se, uma vez que no grupo de gravuras estudado por Collado Giraldo (2006a, 2006b) predomina a técnica filiforme. A Fase I de Baptista (1981) e os três períodos iniciais propostos por Gomes (1987, 1989) –o período arcaico, o período estilizado-estático e o período estilizado-dinâmico –, relacionados a comunidades de sistema sócio-económico de caça e recolecta, são marcados pela técnica de picotagem sendo poucas as gravuras filiformes. Estas, na sua maioria, restringem-se a incisões de pequenas linhas e traços, 107 não formando figuras zoomórficas, como no caso de Molino Manzánez e mais amplamente da arte gravada do Guadiana. A Fase 3 sustentada por Collado Giraldo (2006a, 2006b) relativamente às gravuras do conjunto rupestre do Guadiana situa-se entre o período Neolítico e a Idade do Bronze. Estes períodos são caracterizados por comunidades produtoras e, em períodos Calcolítico e da Idade do Bronze, detinham a sapiência de trabalhar os metais possuindo técnicas específicas desta prática. A figura humana que surgira na Fase 2 da arte rupestre de Molino Manzánez, continuou a ser representada através de outros estilos estéticos e tornou-se, principalmente nos períodos Neolítico e Calcolítico, numa figura muito presente. A figura animal – zoomorfos – que practicamente não existe nas expressões do Neolítico de Molino Manzánez volta a ser representada por comunidades calcolíticas, escasseando novamente nas manifestações rupestres da Idade do Bronze. Os zoomorfos gravados por comunidades do Calcolítico guardam estreitas parecenças com os zoomorfos que se situam no Vale do Tejo relacionados ao período estilizado-dinâmico de Gomes (1987, 1989) ou à Fase I de Baptista (1981), mais precisamente na etapa subnaturalista evoluída. Entretanto, a autoria é atribuída a comunidades de sistemas sócio-económicos distintos. Esta é uma questão que requer ser melhor estudada. A hipótese de haver uma relação directa entre as comunidades que habitavam a região do Vale do Tejo e aquelas que ocupavam as margens do Guadiana, foi levantada por Oosterbeek (2001a). Segundo este autor, as evidências que permitem estabelecer um vínculo entre as comunidades de ambas as regiões são, principalmente, as que provêm de vestígios de uma cultura megalítica. É a partir da eclosão do 108 megalitismo que as comunidades começam a ter contactos com outras mais distantes., Os habitantes do Tejo teriam chegado ao Guadiana através do Alto Alentejo: “Complementar a este megalitismo emergente, regista-se um ciclo de arte rupestre dominado por representações zoomórficas, que, tal como a indústria lítica, sublinham a continuidade com tradições e esquemas de adaptação das comunidades epipaleolíticas locais, que verosimilmente intensificam os seus contactos a média e longa distância com o interior alentejano e andaluz (acendendo ao Guadiana pelo Alto Alentejo e, partindo do vale do Guadiana, incorporando as rotas que no Sul,entre as Serras Morena e Nevada, seguiam o Guadalquivir e depois ainda desciam pelo Xunquer e outros vales em direcção ao litoral Mediterrâneo Levantino)” (OOSTERBEEK, 2007/2008:11) Sendo assim, coloca-se a hipótese de uma correspondência entre ambas as regiões, baseada, não só nas similitudes de artefactos relativos à cultura megalítica encontrados como nas semelhanças existentes na arte rupestre que marcam a paisagem tanto da região do Vale do Guadiana como da região do Vale do Tejo. Poder-se-á atribuir essas parecenças não ao acaso, mas à existência de uma influência cultural entre as comunidades. A partir do estudo de Collado Giraldo (2006a, 2006b), os ideomorfos de Molino Manzánez que, na Fase 1 aparecem gravados em técnica filiforme e que, por suas formas, podem ser classificados mais propriamente como psicogramas, têm sua expressividade reduzida em finais desta fase. Na Fase 2, proposta por Collado Giraldo (2006a, 2006b) com relação a Molino Manzánez, ideogramas e psicogramas são inexistentes. A partir da Fase 3, pode ser observada uma nova tendência de gravação de motivos de carácter ideomorfo e que podem mais rigorosamente ser classificados, devido às suas formas mais elaboradas e que não apresentam indícios de meras descargas gráficas. 1 1 A divisão da classificação dos Ideogramas (motivos ideomorfos) e dos Psicogramas que, segundo Gomes (2004), é uma categoria que respresenta estados de espírito do gravador, descargas de energia ou 109 A Fase 4 é relacionada com a Idade do Ferro, a qual não se pode dizer que apresenta representações significativas na arte do Vale do Tejo. A Fase 5 concentra incisões feitas recentemente, não dizendo respeito às expressões culturais de comunidades pré ou proto-históricas. Sendo assim, não cabe analisarmos estas duas últimas fases de Molino Manzánez, uma vez que não se adequam ao objectivo principal de estudo deste trabalho. No período Neolítico da Fase 3, são representados alguns serpentiformes e soliformes que, embora detenham formas de sóis e de serpente, sua simplicidade estética dificulta a identificação. Assim, no Vale do Tejo as gravuras ligadas a comunidades produtoras – agricultores, pecuaristas e, mais posteriormente, metalurgistas – apresentam uma elevação na taxa de gravuras ideomórficas. Embora muito do trabalho de Hipólito Collado Giraldo (2006a, 2006b) possa ser válido para um estudo sistemático das gravuras do Vale do Tejo, no que diz respeito à problemática da técnica, estilo e parecenças representativas de motivos, a grande contribuição do estudo deste autor com relação ao presente trabalho é o reconhecimento de uma concentração de ideomorfos, principalmente nos períodos Neolítico, Calcolítico e da Idade do Bronze. Isto permite-nos consolidar a hipótese de que as mudanças sociais e a estratificação, ocorridas nas comunidades que surgem a partir do período Neolítico, estimularam a produção de ideomorfos sendo reflexo de uma nova relação com o Sagrado e a paisagem. “un cambio que pensamos encuentra su explicación en la evolución ideológica de unas sociedades cuyas bases económicas dejan de depender exclusivamente de la caza y recolección al encontrar acomodo en los nuevos sistemas productivos basados en la agricultura y ganadería” (COLLADO GIRALDO, 2006b:613) ínfima participação iconográgica muitas vezes é feita através de uma ténue linha classificatória.Isto sucede pela dificuldade de discernir muitos motivos que foram gravados com o objectivo de expressarem conceitos ou idéias de gravações que foram efectuadas sem objectivos representativos. 110 5. OS IDEOMORFOS DO VALE DO TEJO DE ACORDO COM AS CONTRIBUIÇÕES DOS DADOS RETIRADOS DOS SUPORTES DECORADOS: 155-F, 175-F, G-11 E 15-OCR Do acervo rupestre que a região da Bacia Hidrográfica do Tejo comporta foram seleccionados alguns suportes gravados a fim de serem observados dados que possibilitassem algumas conclusões relevantes sobre os ideomorfos encontrados no Vale do Tejo. As rochas 155 e 175 de Fratel, 11 de Gardete e 15 do Ocreza não foram escolhidas ao acaso, tendo-se levado em conta elementos variáveis e diversos para construir uma amostragem válida em que pudessem ser extraídos componentes que nos conduzissem a inferências consideráveis sobre os ideomorfos gravados nessa região. As rochas do 155 e 175 Fratel são, praticamente, os suportes mais importantes do grupo rupestre do Vale do Tejo. A rocha 155-F possui uma grande diversidade iconográfica que sustenta, juntamente a outras evidências, a afirmação de que essas expressões são provenientes de diversas fases de gravação. Os dados recolhidos anteriormente à construção da barragem do Fratel, e documentados por Baptista (1981), nutrem a hipótese de que este suporte comporta diferentes fases de gravação que se baseia na documentação sobre o grau de desgaste e o nível de pátina das gravuras desta da rocha, actualmente submersa. As suas gravações executadas com negativos muito profundos revelam vestígios de regravação de certos motivos. Neste painel, todas as gravuras foram produzidas através da técnica de picotagem, imperando a picotagem indirecta. Segundo Baptista (1981) a precisão do desenho das gravuras do painel deveu-se à técnica indirecta e algumas figuras têm traços de execução de esboços feitos anteriormente à efectiva gravação. A rocha 155-F permite estabelecer, através do exame 111 das técnicas de gravação, da observação da estratigrafia das figuras no painel e do estabelecimento do grau de pátina, interessantes pontos relacionados à cronologia desses motivos. Esta rocha permitiu a Baptista (1981) fundamentar a hipótese de que a espiral não era um motivo exprimido somente a partir do Neolítico Final, encontrandose vinculada à Fase I (da cronologia de Baptista) que abrange períodos precedentes àquele. Na tabela 2 abaixo apresentada, o motivo número 1 é uma espiral que fornece indícios 3 de ter sido gravada ao longo da Fase I – que comporta os primeiros períodos de gravação do Vale do Tejo – sendo associada a um cervídeo de técnica subnaturalista. O nível de pátina desta espiral é elevado, demonstrando que a gravação não é recente. A análise do cervídeo ao qual ela se associa indica que fora regravado mais de uma vez e que, portanto, o seu desgaste difere do da espiral. Entretanto, nas partes do zoomorfo que não sofreram regravações verificou-se um grau de pátina análogo ao da espiral que somado à semelhante orientação dos motivos (espiralcervídio) sustenta a hipótese de concomitância cronológica. 2 As tabelas iconográficasnão dizem respeito a todos os ideomorfos de um painel mas os principais exemplares que ele contém. 3 Estes indícios dizem respeito ao grau de pátina, ao estudo do desgaste e as observações sobre a técnica utilizada na execução da espiral concomitantemente à analise dos demais motivos do painel. Estes elementos e seus repectivos estudos são encontrados na obra de Baptista (1981). 112 CLASSIFICAÇÃO DOS MOTIVOS Espirais MOTIVOS 1 2 6 7 3 4 8 5 9 10 Ovais 11 12 13 Círculos concêntricos 14 15 16 17 Meandriformes 18 TABELA 1. Iconografia dos ideomorfos da rocha 155 do Fratel (155-F). Adaptado de Baptista (1981). As características específicas de cada motivo presente na tabela estão no Anexo A. 113 FIGURA 8. Rocha 155 do Fratel (155-F) (Baptista, 1981) 114 A rocha 175 de Fratel, embora contenha um menor número de motivos gravados, sobressai de entre as rochas gravadas do complexo. Esta rocha detém um total de 29 gravuras, entre as quais duas espirais: uma grande e outra pequena. A espiral de maiores dimensões está associada a dois antropomorfos. Esta associação surge também na rocha 155-F, onde a espiral número 7 (numeração de acordo com a tabela iconográfica desta rocha) está associada a dois antropomorfos esquemáticos. A B FIGURA 9. A – Rocha 175 de Fratel: associação entre espiral e dois antropomorfos. Medidas dos motivos: espiral: 22 cm de diâmetro; antropomorfo maior: 11 cm de altura e 3 cm de largura máxima, baseada na delimitação das pernas; antropomorfo menor: 9 cm de altura e 5,5 cm de largura máxima, definida pela extensão dos braços. B – Rocha 155 do Fratel: associação entre dois antropomorfos e espiral. Medidas dos motivos: espiral: 17,7 cm de diâmetro; antropomorfo à esquerda: 5,6 cm de largura máxima, referida pelas extremidades dos braços, e 12 cm de altura; antropomorfo à direita: largura máxima de 6, 3 cm e altura de 12,6 cm (Baptistas, 1981, e Gomes, 1987, 2000). Os decalques dos painéis estão nos Anexos B e A, respectivamente. A imagem não apresenta escala. Neste caso, seu emprego neste trabalho serve para ilustrar o período. 115 FIGURA 10. Rocha 175 do Fratel (175-F) (Gomes, 2000). CLASSIFICAÇÃO DOS MOTIVOS MOTIVOS Espirais 1 2 Podomorfo 3 Serpentiforme 4 Círculo 5 Semicírculo 6 TABELA 2. Iconografia dos ideomorfos da rocha 175 do Fratel (175-F). Adaptado de Gomes (2000). As características específicas de cada motivo da tabela estão no Anexo B. Por sua vez, a rocha 11 de Gardete é uma significativa amostra dos ideomorfos do Vale doTejo, contendo signos gravados desde o Neolítico Final até finais 116 da Idade do Bronze. Este suporte apresenta 212 motivos, sendo a sua grande maioria ideomorfos. O estudo específico desta rocha foi publicado por Gomes (2004) e foi desenvolvido pelo projecto ARTEJO, tendo as suas pesquisas de campo sido iniciadas em 2000. Para além da catalogação e classificação dos motivos foram levadas em conta, de modo a auxiliar nas possíveis conclusões sobre a origem dos motivos gravados neste suporte, a técnica, o grau de pátina das figuras, a estratigrafia vertical e as sobreposições. A estratigrafia horizontal e as associações de motivos também fizeram parte dos itens examinados para se compreender melhor em que contexto os motivos foram gravados. Notamos, portanto, o mesmo procedimento de aproveitamento de figuras anteriormente identificadas nas rochas 155 e 175 de Fratel, o que pode ser encontrado em vários suportes decorados na região do Vale do Tejo. A rocha 11 de Gardete apresenta variação na sua técnica de picotagem, sendo que os motivos mais antigos da rocha apresentam negativos pequenos com um nível de profundidade baixo e, consequentemente, com elevado grau de desgaste. Contrariamente, as figuras gravadas em períodos mais recentes possuem negativos largos e com grande nível de profundidade, ou seja, um nível menor de desgaste. As figuras mais recentes são de maiores dimensões e o seu grau de pátina é menor. A rocha 11-G, de cor castanho-avermelhada, mede 3,30 m de comprimento máximo e possui uma largura média de 2,50 m. Este suporte encontra-se nas margens do Tejo de maneira inclinada 4 , tendo como parte mais baixa a zona do suporte mais próxima do rio. A rocha apresenta fracturas espessas e profundas formando painéis divididos no suporte rochoso. As fracturas e fissuras existentes foram causadas pelo fenómeno geológico chamado meteorização mecânica (este é um fenómeno natural de alteração do material geológico por meio de factores físicos a que 4 De acordo com Gomes (2004) a inclinação da rocha é de 11º. 117 o material é exposto). Sendo assim, as próprias características do suporte estimularam algumas gravações e podemos dizer que, de certa forma, as condicionaram. A técnica predominante na rocha 11-G, assim como ocorre em todo o complexo de gravuras do Vale do Tejo, é a picotagem, existindo apenas algumas manifestações filiformes dispostas paralelamente. São encontrados neste suporte dois tipos de picotagem, a directa e a indirecta, tendo sido executada a maioria dos motivos através da picotagem directa. Pelo que se pôde observar, segundo Gomes (2004), apenas três motivos deste suporte foram gravados através do emprego da picotagem indirecta. 5 A técnica possui, portanto, variação de resultados como a forma, o tamanho e a profundidade dos negativos. A picotagem directa produz essa variação de resultados, o que é menos visto nas gravações de picotagem indirecta, auxiliada por um percutor, sendo os resultados mais regulares e padronizados havendo diversidade relacionada com o tipo e forma de material utilizado. Geralmente, o resultado é mais regular que o obtido através de picotagem directa, sendo ainda maior a padronização se houver a utilização dos mesmos instrumentos. Gomes (2004) indica cinco variantes de técnicas encontradas neste painel e essa variação está intimamente ligada à cronologia de gravação. Apresenta-se em seguida uma tabela que especifica as fases de gravação encontradas na rocha 11 de Gardete. Cada uma delas é caracterizada pelos seus elementos qualitativos: o formato, o tamanho e a profundidade dos negativos produzidos na execução dos motivos, o estilo de linha que um dado conjunto de negativos forma, o grau de erosão e o nível de pátina, bem como a técnica empregada para a incisão das figuras. 5 Gomes (2004) indica que há margem de erro nesta afirmação devido ao método utilizado para a verificação da técnica: a observação macroscópica. 118 Fase de gravação Formato dos negativos gerados pela picotagem Primeira Circulares e ovais Segunda Circulares e ovais Terceira Quarta Quinta Tamanho e profundidade dos negativos gerados pela picotagem Pequenos e profundos Linhas que compõe os motivos Grau de erosão e pátina Descontínuas e contínuas de médio grau de densidade Elevado nível de erosão e pátina Pequenos (mas maiores que os da primeira fase) e profundos. Linhas mais densas. Predominantemente ovais Médios: maiores que os apresentados nas fases anteriores Linhas contínuas e descontínuas Predominantemente Ovais Mesmo tamanho que na terceira fase Linhas contínuas e descontínuas Elevado nível de erosão e pátina embora menor que na primeira fase Grau de pátina e erosão menor que nas fases anteriores mas ainda elevado. Menor grau de pátina e erosão relativamente à terceira fase. Grau baixo de pátina Circulares e Ovais (estes geralmente alongados) TABELA 3. Diversidade técnica (2004). Técnica Picotagem directa e indirecta (esta em menor grau) Picotagem directa Picotagem directa Picotagem directa Negativos Linhas largas e Picotagem médios e profundas directa grandes relacionada com a antiguidade da gravação. Adaptado de Gomes Em relação às figuras ideomorficas da rocha 11-G (designadas por Gomes (2004) de ideogramas, alguns motivos específicos podem ser atribuídos como expressão característica de um dado período de gravação. A maioria dos círculos gravados, de acordo com os estudos efectuados pela equipa do projecto ARTEJO, é remetida ao período meridional (ou IV período) da cronologia proposta por Gomes (1987). Entretanto, os motivos circulares são expressos em gravações de períodos posteriores, notando-se um aumento da sua ocorrência ao analisarmos expressões dos períodos ainda mais recentes da arte rupestre do Vale do Tejo. Tomando-se como base a rocha 11-G, temos que a origem dos motivos circulares se dá a partir do Neolítico Final e do Calcolítico Inicial. O número total de círculos, círculos com ponto central e ovais é de quase metade do total dos motivos 119 gravados no suporte. 6 A interpretação geralmente atribuída a estes motivos, de acordo com estudos decorridos, é a de representação solar. No entanto, como veremos em capítulos posteriores, estas formas são de simples produção, podendo representar esquematicamente diversos objectos. Também podem ser muito utilizadas para expressar conceitos mais abstractos e complexos. A sua forma simples possibilita que este seja um signo eleito para representar significados que transpõem a simples representação de um objecto concreto. Os círculos concêntricos são vinculados ao período atlântico 7 ,que abrange o final do Neolítico e o início do Calcolítico. A rocha 155 de Fratel, acima citada, também apresenta figuras de círculos concêntricos como podemos verificar na tabela iconográfica relativa a esta rocha. Na rocha 11 de Gardete, a incidência de círculos concêntricos é baixa: apenas se encontram três exemplares destes grupos de círculos que podem ser vistos na tabela iconográfica desta rocha. 8 Alguns semicírculos situados neste painel do Gardete são considerados motivos inacabados, enquanto que outros parecem ter a forma pretendida pelos seus executores. Contudo, é difícil discernir quais os semicírculos que seriam partes de motivos que nunca foram completados, daqueles que apresentam a forma desejada pelo gravador. Temos de ter em conta que Gomes (1987, 2004) pauta-se, muitas vezes, em comparações com a arte megalítica existente na região portuguesa do Alentejo, com a arte da Bretanha, das Ilhas Britânicas e, principalmente, com a arte funerária 6 Alguns ideomorfos com formas circulares, na perspectiva de Baptista (1981), seriam originários de períodos que englobam comunidades caçadoras-recolectoras. 7 Para estabelecer o período onde esses motivos se inserem, é adoptado o procedimento de datação relativa feita pela análise dos mesmos motivos existentes em diferentes painéis rochosos do Vale do Tejo e estudando suas associações, grau de pátina e erosão, técnica e sobreposições dos motivos. 8 Esta tabela não portará todos os motivos encontrados na rocha 11 de Gardete. Esta rocha apresenta um grande número de signos gravados sendo alguns repetidos, permitindo a construção de uma tabela que demonstra os tipos principais de gravuras ideomorfas presentes na rocha sem que seja necessário, em termos práticos de estudo, identificar todas as 212 figuras do suporte, na tabela. 120 megalítica da Irlanda. Apesar de alguns estudos considerarem que houve influência dessas artes, provenientes de diversos sítios, na arte do Vale do Tejo não se pode deixar de considerar que a expressão desse tipo iconográfico – onde imperam círculos, círculos concêntricos, ovais, serpentiformes etc – é sustentada pela própria dinâmica do aparato cognitivo integrado nos novos estilos de vida provocados pelas mudanças sociais. Voltamos, assim, ao ponto de debate entre Gomes (1987, 2004), Baptista (1981) e Baptista, Serrão & Martins (1978), em que o foco central é a origem de alguns dos motivos circulares e espiralados. Na rocha 11-G são escassos os meandros e as espirais, havendo no suporte apenas um exemplar de cada motivo. Gomes (2004) interpreta essa reduzida expressão de espirais e meandros como uma diminuição do uso da gravação para fins sócio-religiosos. Devemos considerar que, a quase ausência de alguns motivos anteriormente manifestados não indica, necessariamente, uma menor expressão religiosa por meio da gravação. Ela pode retratar uma mudança nos elementos sócio-religiosos que passaram a ser expressos através de outros signos e, provavelmente, sob outra óptica e outros significados. 121 FIGURA 11. Rocha 11 do Gardete (11-G). Adaptado de Gomes (2004). 122 CLASSIFICAÇÃO DOS MOTIVOS Círculos concêntricos MOTIVOS 1 2 3 Ovais 4 Serpentiformes 5 6 8 7 9 Podomorfos 10 11 12 13 Dois cículos ligados por uma linha 14 15 16 16 Círculos 17 18 TABELA 4. Iconografia dos ideomorfos da rocha 11 do Gardete (11-G). Adaptado de Gomes (2004). Os dados sobre cada um dos motivos estão no Anexo C. Por fim, a rocha 15-OCR possui uma espiral que abrange quase a totalidade do painel, tendo sido incisa através da técnica de picotagem em que foram utilizados seixos de quartzo ou quartzito. As dimensões do suporte são de 36,0 cm de altura por 34,5 cm de largura, sendo que o motivo possui a altura de 14,0 cm e a largura de 22,0 cm (como este motivo não apresenta os contornos de uma esfera não é possível dar o valor do diâmetro pelo que se torna necessário recorrermos às medidas de altura e 123 largura). De acordo com Oosterbeek & Cardoso (2004b), o Vale do Ocreza, onde se situa a rocha, contém gravuras executadas com duas ténicas distintas: a técnica de picotagem e a técnica linear. Alguns picotados dispersos sem forma definida são dispostos no painel, mas sua expressão é baixa sendo que essa “nuvem de pontos” é pequena diante da espiral que ocupa quase totalmente o suporte. Este painel, portanto, tem como destaque a espiral e contém alguns indícios de psicogramas. O grau de pátina não é muito acentuado, mas ainda não há consenso em qual das fases de gravação do Tejo ele se enquadra. De acordo os dados sobre as fases de gravação específicas do Vale do Ocreza publicados em Oosterbeek & Cura (2005), pode-se dizer, pelo grau de pátina encontrado na gravação e pela iconografia típica de cada período, que a espiral da rocha 15-OCR foi gravada entre o período Neolítico e Calcolítico. FIGURA 12. Motivos da rocha 15 do Ocreza (15-OCR). Considerando a iconografia do complexo rupestre do Vale do Tejo e as duas diferentes cronologias que imperam no debate sobre a arte da região, verifica-se que ambas partilham a tese de que as últimas fases de gravação são marcadas por um estilo mais ideogramático do que o que se revela nas primeiras gravações. O facto de alguns signos ideomorfos terem sido desenhados em finais do Paleolítico Superior e 124 início do Neolítico, como admite Baptista (1981), não retira das expressões gráficas, efectuadas por sociedades com práticas metalurgistas, a maior concentração de motivos ideomorfos. O surgimento dos grafismos puros no complexo de gravuras do Vale do Tejo é atribuído por Gomes (1987) a comunidades neolíticas, participantes da cultura megalítica, que se sedentarizaram graças aos seus conhecimentos da prática de agricultura e de domesticação de animais, e que estão associados à edificação dos monumentos megalíticos. “Os três primeiros períodos da arte do Tejo são constituídos, sobretudo, por figuras zoomórficas numa sucessão crono-estilística também reconhecida no Nordeste e no Levante, que indicam não ter havido grandes alterações climáticas e ambientais mantendo-se o recobrimento vegetal do tipo bosque. Na última daquelas etapas surgiu a figura humana seminaturalista, não observando, em qualquer delas, a presença, significativa, de símbolos geométricos ou de formas esquemáticas” (GOMES, 1987:63) Como se verifica neste excerto, o seu autor não atribui as figuras ideomorficas ou grafismos puros aos períodos cronológicos em que se situam comunidades com perfis neolíticos. A própria representação da figura humana é tida como pertencente à transição de um sistema sócio-económico de caçadores- recolectores para um sistema de agro-pastores. Para Baptista (1981), embora a espiral e, possivelmente, as figuras circulares tenham sido gravadas em períodos iniciais do ciclo rupestre do Vale do Tejo, não há dúvida que os momentos finais que marcaram este complexo assinalam uma grande concentração de figurações ideogramáticas, o que mostra que a capacidade de abstracção – ou seja, de representar conceitos complexos mediante uma imagem condensada que figuraria a unicidade de uma dada ideia e delimitaria um certo significado específico – já fazia parte das capacidades cognitivas dos indivíduos que compunham os grupos de caçadores-recolectores. 125 “Os motivos que se integram no último horizonte desta rocha pertencem já inteiramente ao mundo geométrico e esquemático, e enquadram-se tipologicamente na nossa fase III de S. Simão (BAPTISTA, 1981:40)” 9 A última fase de gravação da rocha 155 de Fratel assemelha-se estilística e tecnicamente à terceira fase de gravação do núcleo de S. Simão e adequa-se aos componentes da terceira fase do complexo do Tejo. Baptista (1981) refere que a tendência para a esquematização e para a dimensão imageticamente mais abstracta assinalam principalmente as fases de incisão de figuras delegadas a comunidades de práticas agro-pastoris e metalúrgicas. Este autor considera haver um predomínio da expressão das representações de temática abstracta e de grande complexidade conceptual, visto que praticamente não são representadas formas figurativas. As associações identificadas na justaposição dos signos, tal como foram observadas por Baptista (1981) e Gomes (1989), denotam que há um significado próprio dessas imagens e que não se trata de desenhos feitos ao acaso. O debate que se trava em torno das duas cronologias propostas pelos dois autores permite não só proceder a uma análise sobre os factores materiais relacionados com as capacidades representativas dos sujeitos pertencentes a diferentes etapas do povoamento do Vale do Tejo, como também demonstra, sobretudo recorrendo-se às evidências sobre as primeiras incisões da espiral no local, a importância que as faculdades cognitivas possuem na expressão de ideias abstractas através de figuras, ou seja, a importância que deve ser atribuída à natureza neuropsíquica que está na origem da criação dos motivos da arte rupestre. 9 Faz-se aqui menção à rocha 155 de Fratel, uma das principais rochas do complexo do Tejo a partir da qual as fases de gravação que compõem o ciclo rupestre do local podem ser melhor exemplificados. A rocha possui elementos das três fases constituintes da cronologia apoiada por Baptista (1981) – que define técnico-estilisticamente os grupos de gravuras encontrados. 126 A variável cultural é, sem dúvida, responsável por um direcionamento dos significados representados por meio de símbolos. O exercício de gravar certos motivos, ao invés de outros, é guiado de acordo com os mecanismos culturais mítico-religiosos que moldam e singularizam as sociedades. Esta afirmação é fundamentada no exemplo que estamos a estudar, as gravuras rupestres do Tejo. Existem imagens executadas por povos de sistema caçador-recolector que promovem a capacidade de expressão de conteúdos complexos de ideias. O aparato cognitivo que possibilita efectuar esse processo não é diferente entre indivíduos de sociedades com esquemas sócio-económicos distintos. A concentração maior ou menor de determinados grupos gráficos como, por exemplo, os ideomorfos, depende de razões de natureza cultural. Desta constatação podemos verificar que: 1. Para se compreender a génese dos ideomorfos devemos estar atentos ao funcionamento do procedimento de captação de uma ideia e à representação física do conceito que se tenciona expressar. 2. É necessário especular-se se há alguma ligação entre as formas e o significado do que se pretende manifestar por meio gráfico. 3. É pertinente verificar em que moldes esta ligação se estabelece. 4. Deve analisar-se se a repetição de algumas formas se deve a esta ligação (forma e significado), o que pode fornecer explicações sobre os suportes da repetição de certos grafismos na arte rupestre. Esta proposta de se pensar o ideomorfismo do Vale do Tejo e, de uma maneira mais extensiva, os ideomorfos da Arte Rupestre, não pretende ser de tal maneira generalista que anule as especificidades próprias, e o valor que as esferas culturais possuem e que pode ser verificado pelos estudos levados a cabo nos mais 127 diversos domínios das Ciências Sociais e Humanas. Pretende-se abordar o caráter modulador exercido pela cultura na significação final dos grafismos. Esta possibilidade de moldar o significado emergente de uma actividade cognitivo-representacional está condicionada pela inserção dos indivíduos executores de tal exercício num ethos sócio-religioso. Esta abordagem dos ideomorfos – mais especificamente, daqueles gravados nos limites do Vale do Tejo – procura articular os factores culturais que condicionam a produção de significado com os impulsos primários constituintes do sistema neuropsicológico humano que orienta a sua actividade cognitiva. Retomando a questão da existência da maior concentração de figuras ideomorficas no complexo em fases que postergam a transição do esquema sócioeconómico paleolítico para o neolítico, tem-se um enfoque sobre os traços culturais, no que tangencia a escolha de certos modos de representação, como a escolha de determinados motivos em lugar de outros. Este condicionamento cultural, que molda as comunidades neolíticas, legitima não somente um sentido de concepção de propriedade e de um certo domínio da Natureza, contribuindo para uma divisão de trabalho muito mais complexa, como também promove uma hierarquização social mais elaborada adequada à dinâmica deste novo modelo social. A noção de propriedade adquire um novo perfil, e a lógica cultural associada à estrutura da sociedade passa a funcionar como um reflexo da sua organização, permitindo aos grupos que a constituem fixaremse num dado local e exercerem o seu domínio sobre algumas leis da natureza para uma maior obtenção de recursos. Não se deve, porém, inferir que essas comunidades praticaram um cálculo meticuloso que culminou na decisão de optarem pelo modelo social característico do período neolítico em detrimento das práticas paleolíticas. Todas as mudanças que moldaram o perfil dos pilares neolíticos ocorreram a partir de um 128 processo lento e gradual, passando por um ponto visível de transição em que traços do sistema de caçadores-recolectores se cruzavam com as premissas de um novo modelo. Esta fase de transição entre o Paleolítico e o Neolítico, com as suas peculiaridades culturais próprias, foi designada pelos estudiosos por Mesolítico. Na obra de Jean-Jacques Rousseau, filósofo francês do século XVIII, especificamente em “Do contrato social”, publicada em 1762, salientam-se alguns traços que distinguiram o período Neolítico dos moldes vivenciados anteriormente pela humanidade. Muito embora Rousseau tenha exposto, na sua análise sobre a génese da sociedade civilizada, uma concepção filosófica segundo a qual teria havido uma espécie de “pacto feito pelos homens” para que a vida em sociedade fosse possível, apontou como objectivo principal da sua obra o âmbito das concessões e interesses idealizados que teriam movido o ser humano a se estabelecer no seio de uma divisão social que daria origem às desigualdades hierárquicas ainda hoje conhecidas. Muitas das características descritas pelo autor, no livro supracitado, para designar as leis que regeriam a sociedade, a partir da noção de propriedade, são elementos que podem ser identificados no Neolítico. Na obra deste autor iluminista, o que se discute são os mecanismos sociais que se criaram através de um consentimento humano cujo cerne era a protecção da propriedade. A visão apresentada em “Do contrato social” foi muito criticada, uma vez que a sua demonstração de como a humanidade caminhou para um modelo de vida em comunidade mais estratificado radica numa concepção idealizada e ideológica. Portanto, esse ensaio não deve ser concebido como uma explicação científica ou rigorosa sobre as etapas que a humanidade percorreu e que culminaram na formação de uma sociedade mais hierarquizada e sustentada pela concepção de propriedade, mas sim como um 129 ensaio sobre as variantes de uma ordem social em que teve como seu centro o Homem delimitando um território e o concebeu como seu. É nesta realidade social, impulsionadora de uma organização mais complexa, que também se reconhecem produtos culturais que, distintos dos anteriores, nos fornecem algumas pistas sobre a sociedade que os produziu. Na Arte Rupestre, por exemplo, imagens não directamente identificadas com formas de objectos têm uma maior concentração em fases de gravação delegadas aos grupos sociais “neolitizados”. Sendo assim, a maior concentração de ideomorfos está situada em fases de gravação atribuídas a comunidades com os alicerces sociais suportados por uma concepção de território distinta daquela dos caçadores-recolectores – proveniente da sua fixação num dado local –, uma divisão social do trabalho voltada à actividade da agricultura e pecuária. Isso não quer dizer que tenha ocorrido um total abandono de práticas como a caça e a colecta de alimentos. Neste sentido, podemos deduzir que as mudanças ocorridas no bojo da organização social reflectiram-se de maneira directa nas manifestações sociais. Essas alterações definidoras de um outro modelo social distinto do anterior, próprio das sociedades caçadoras-recolectoras, interferiram em produções culturais que não somente a arte rupestre. A questão de uma maior concentração de signos “geométricos” na arte rupestre do Vale do Tejo durante o período em que prevaleceu o sistema social neolítico pode ser encarada como um exemplo de influência das variantes culturais nas capacidades criativas dos indivíduos. O aparato cognitivo envolvendo a representação não somente de objectos concretos percebidos, exteriormente ao sujeito, mas também na produção de pensamentos abstractos materializados em formas gráficas simples foi utilizado por sujeitos de sociedades paleolíticas, como Baptista (1981) pretende mostrar. 130 Nas sociedades neolitizadas, fixadas no Vale do Tejo ao longo dos diferentes períodos pré-históricos, essa capacidade cognitiva de representação gráfica é ainda mais explorada, aumentando exponencialmente nos períodos relativos às sociedades metalúrgicas. Este aumento da concentração de ideomorfos não segue uma lógicca temporal, portanto, não podemos afirmar que quanto mais inovações os sistemas sociais sofrem, maior a expressão abstracta. Simplesmente, identifica-se o aspecto cultural específico de cada sociedade como um regente do que será representado, uma vez que, o acto da representação é indissociável das práticas sócio-culturais internas de cada comunidade. Podemos observar nos três gráficos abaixo apresentados, construídos a partir da numeração dos motivos gravados em cada uma das três rochas das quatro estudadas (155-F, 175-F e 11-G). Como a rocha 15-OCR contém apenas uma espiral como único motivo gravado no seu suporte, embora tenha alguns indícios de psicogramas, não foi incluída neste procedimento. Rocha 155-F 50 40 % 30 20 10 0 1 Ideogramas (ideomorfos) 2 Psicogramas 3 Pictogramas 4 Fracturas ou esboços inacabados GRÁFICO 1. Percentagem das categorias de motivos da rocha 155 de Fratel (155-F). No Anexo A, está a tabela que contém os dados numéricos que geraram este gráfico. 131 Rocha 175-F 40 % 30 20 10 0 1 Ideogramas (ideomorfos) 2 Psicogramas 3 Pictogramas 4 Fracturas ou esboços inacabados GRÁFICO 2. Percentagem das categorias de motivos da rocha 175 de Fratel (175-F). No Anexo B, está a tabela que contém os dados numéricos que geraram este gráfico. Rocha 11-G 70 60 50 % 40 30 20 10 0 1 Ideogramas (ideomorfos) 2 Psicogramas 3 Pictogramas 4 Fracturas ou esboços inacabados GRÁFICO 3. Percentagem das categorias de motivos da rocha 11 de Gardete (11-G). No Anexo C, está a tabela que contém os dados numéricos que geraram este gráfico. Rocha 155-F Nº % Ideogramas (ou ideomorfos) 50 48 Psicogramas 25 24 Pictogramas 25 24 Fracturas ou esboços inacabados 4 4 104 100 Total 132 Rocha 11-G Nº % Ideogramas (ou ideomorfos) 131 62 Psicogramas 49 23 Pictogramas 32 15 Fracturas ou esboços inacabados 0 0 212 100 Rocha 175-F Nº % Ideogramas (ou ideomorfos) 9 31 Psicogramas 8 28 Pictogramas 11 38 Fracturas ou esboços inacabados 1 3 Total 29 100 Total TABELA 5. Números e percentagens das figuras de cada categoria nas rochas 155-F, 11-G e 175-F. Através destes gráficos, podemos verificar que as rochas 155-F e 175-F tendo fases iniciais de gravação do complexo rupestre do Tejo possuem uma taxa de pictogramas visivelmente mais elevada que aquela da rocha 11-G. O facto de esta rocha possuir fases de gravação relacionadas às comunidades metalurgistas demontra como a arte rupestre expressa a partir do Neolítico Final, e se extendendo ao Calcolítico e à Idade do Bronze, apresenta uma disparidade quanto ao número de ideogramas– que se mostra elevado- relativamente ao número de pictogramas- que é muito baixo. Nas três rochas a percentagem de ideogramas ultrapassa os 30%. A rocha 11-G é a que, percentualmente, possui a sua superfície mais plena de ideogramas. 5.1. A repetição de ideomorfos ao longo das fases de gravação “Nessun dubbio può sussistere oggi riguardo al valore religioso-ideologico di queste incisioni rupestri. Anche considerando le figurazioni isolatamente, il carattere ripetitivo di elementi standartizzati, e gli svariati simboli che appaiono, sembrano indicare che valori ben definiti si nascondano dietro na 133 questi figurazzioni, ma anche prima di analizzare il significato di ogni segno, basta spesse volte osservare la loro ubicazione per comprendere che non è stata scelta a caso” (ANATI, 1978:17) Alguns ideomorfos da região do Vale do Tejo situam-se em mais do que uma fase de gravação. Um mesmo signo pode encontrar-se presente na arte de comunidades com sistemas socio-económicos diferentes. A espiral é um destes motivos, sendo vista, como afirma Baptista (1981), nas produções iniciais de gravuras do Vale. Em alguns casos, um signo gravado num período é reaproveitado em períodos posteriores, sendo integrado em composições que não pertencem à sua fase original de gravação. Embora o significado daquele signo apresente variações, devido ao corpus cultural em que será inserido, é pertinente analisarmos em que moldes este processo de “apropriação” de um motivo se estabelece cognitivamente e verificarmos a razão pela qual se processa a integração selectiva de signos. Deve-se assim atentar às condições culturais que presidiram a escolha, de certos motivos em detrimento de outros, para os integrar num novo contexto de gravação. No capítulo 3 foram referidas as etapas do processo de utilização de um grafismo pertencente a uma fase de gravação anterior a uma nova situação sócio-cultural. A partir deste fenómeno de integração de motivos, executados em períodos precedentes, podemos estabelecer relações com o desenvolvimento cognitivo humano que permite a agregação de novos elementos, externos ao sujeito, ao conhecimento do próprio. Baseada nas considerações de Piaget sobre a cognição humana e seu desenvolvimento, que definido como o processo de acomodação e assimilação, Flavell, Miller e Miller (1999) demonstram, que para aquele autor, o desenvolvimento cognitivo do ser humano era “uma forma específica de adaptação biológica de um organismo complexo a um ambiente complexo”. 134 O procedimento de integrar um signo pertencente a um dado contexto cultural a uma fase posterior, perpassa por um processo cognitivo que, primeiramente, se estabelece nas estruturas cognitivas dos indivíduos estando, por sua vez, situados em uma estrutura cultural que coordenará a aplicação de um novo significado a um motivo. O exercício de apreensão, assimilação e adequação funciona da maneira que se explica a seguir: um motivo já existente é percebido pelo sujeito, que o apreende e assimila mediante a activação de seu sistema cognitivo. Segundo Flavell, Miller e Miller (1999), a assimilação consiste em “aplicar o que já se sabe”. Sabendo-se que a percepção e a compreensão do real actuam de modo condicionado ao aparato cultural temos que, a actividade cognitiva que envolve a representação de um dado objecto (neste caso de um dado motivo gráfico) de uma pertinente comunidade diferente daquela que dará novo significado àquele signo, não uma actividade eminentemente individual, mas condicionada por um complexo de elementos sócio-culturais determinados. Sendo assim, a assimilação é o depósito de percepções que fazem parte da própria vida do sujeito que participa neste processo, ou seja, é a compreensão de um certo objecto a partir de ferramentas perceptivas disponíveis nas esferas sociais e culturais que moldam a maneira como os indivíduos compreendem a si próprios e o que os rodeia. “Interpretamos e construímos os objectos e eventos externos em termos de nossos modos preferenciais e actualmente disponíveis de pensar sobre as coisas. A criança pequena que faz de conta que uma lasca de madeira é um barco está, nos termos de Piaget, assimilando a lasca de madeira a seu conceito mental de barco” (FLAVEL; MILLER; MILLER, 1999:11) O caso da espiral reflecte a aplicação deste movimento de apreensão, assimilação e adequação. No Vale do Tejo a espiral aparece em diferentes fases de gravação. De acordo com Baptista (1981), as fases de gravação que marcam o seu surgimento no ciclo rupestre do Vale antecedem um período megalítico. As sociedades 135 que se foram fixando no Vale, segundo o que indicam as evidências de sobreposições, entraram em contacto com os motivos gravados anteriormente, sendo que alguns foram apreendidos e assimilados pelos indivíduos das comunidades que os observaram. O processo de assimilação dos motivos gravados reconverterá o seu significado pelos moldes sócio-culturais da sociedade que os observa. Um facto que deve ser ressaltado é o de que nem todos os signos pertencentes a fases precedentes são integrados no ethos cultural da sociedade observadora. Muitos signos simplesmente não são aproveitados em composições, não são aprimorados esteticamente e ficam isolados sem haver nenhuma outra gravação ligada a eles. Outros motivos foram simplesmente destruídos, como é referido por Gomes (1987), sendo este acto designado por ele como “intransigência religiosa”. Este autor considerou que a degradação de certos motivos deveu-se a uma mudança do carácter religioso em que aqueles motivos, então destruídos, não podiam ser integrados. Concede aos signos que sofreram sobreposição um mesmo posicionamento daqueles que foram destruídos diante da estrutura sócio-religiosa que se erguia nas sociedades conseguintes, que se estabilizavam no território. Acerca das sobreposições deve-se ter em vista que o motivo não fora propriamente destruído: outro foi gravado por cima dele, tornando-o, por vezes, um motivo de difícil identificação. Sobrepor um motivo a outro implica numa expressão de um dado signo pertencente a uma cultura, neste caso, podendo ser chamado de símbolo sendo que está imbuído de significado (relativo ao contexto cultural de onde proveio). Aplica-se, por cima de uma expressão que não lhe é própria, um elemento que se exprime através das convenções de uma certa sociedade. Não se destrói, mas impõe uma marca de um novo contexto social. Não se ignora o signo anterior, mas o transforma num elemento subordinado ao grupo cultural imperante. Contudo, o signo da base da sobreposição possui um valor, mesmo que hierarquicamente inferior, na 136 concepção dos novos gravadores, que dará o status de superioridade e preponderância aos motivos da superfície. A repetição de motivos, principalmente de carácter ideomorfico, não está coligada somente ao processo de apreensão, assimilação e adequação. Como o próprio nome indica, apreensão é se apossar de algo, tomar ou prender alguma coisa. Apreender, assimilar e adequar explica o procedimento de recodificação de alguns signos que foram anteriormente gravados, mas não explica o surgimento dos signos ideomorficos. Os primeiros gravadores de um certo motivo produziram-no sem terem tido um modelo de motivo gravado como referência. Neste caso, a origem destes símbolos é produzida num estádio inicial do processo cognitivo, nas estruturas mentais do indivíduo. Estações diferentes contêm gravuras rupestres semelhantes, o que ainda é muito mais acentuado quando tratamos dos ideomorfos. Entretanto, nem sempre a repetição está directamente atribuída a um contacto entre as populações que habitaram os locais. Como exemplo voltemos a atenção à arte rupestre mundial que exibe uma grande quantidade de desenhos que se repetem, como é o caso da espiral, dos círculos, círculos concêntricos, dos zigue-zagues de entre outros, em regiões do globo terrestre visivelmente afastadas. Estudando um território, como o Vale do Tejo, e observando que há motivos em estações distintas que datam de uma mesma fase de gravação, ou seja, de um surgimento concomitante, deparamos-nos com a seguinte questão: ou esses signos foram expressos devido ao contacto entre os grupos que habitavam a região num mesmo período ou alguns motivos podem ter sido gravados sem que houvesse uma apropriação das formas desenhadas pelas comunidades. Esta segunda hipótese pode ser sustentada a partir de um exame sobre a formação de símbolos e sobre as produções mentais de certas formas preferidas pelo ser 137 humano às outras: formas simples, mas que contêm propriedades as quais a Neurociência identificou como estimuladoras de certos sentidos humanos. Representar signos de uma maneira muito mais vasta que outros fornece-nos uma pista sobre o funcionamento das nossas produções mentais vinculadas às sensações. O próprio exercício de apreender, assimilar e adequar certos motivos e não outros pode ser pautado a partir dos elementos que induzem o ser humano na escolha sobre como representar graficamente algum objecto ou, no caso dos ideomorfos, conceitos mais abstractos. Quais são os critérios que regem a apreensão de um motivo e não outro? O que está por detrás da repetição gráfica, de formas mais desenhadas pelo ser humano que outras? Como essa repetição se dá quando o que se representa não é um objecto que pode ser percebido pelo sentido da visão, mas sim ideias abstractas repletas de valor simbólico próprias da cultura específica à qual se limita? Estas perguntas nos direccionam ao estudo dos processos mentais que se activam no acto da representação, em que o campo da Neurociência e a Psicologia Cognitiva convergem. Para exemplificar em que moldes a assimilação e a acomodação trabalham tomemos por base um objecto que nunca foi visto por um certo indivíduo. Ao se deparar com o objecto que se desconhece inicia-se uma busca classificatória possibilitada pelas percepções sensoriais. A visão, o olfacto, o tacto permitem que se conheça esse objecto, que se estabeleça um grau de contacto e imediatamente se desencadeie um processo de categorização 10 em que aquele objecto se encaixará por vias classificatórias. Logicamente os sentidos estimulados, a fim de se conhecer aquele objecto, serão aqueles que podem auxiliar em uma percepção mais aguçada do mesmo. 10 A cientista da informação Gercinda Ângela Borém Lima, em seu texto “Categorização como um processo cognitivo” publicado em 2007, define “categorizar” como o acto de agrupar entidades por meio de semelhanças. 138 Por exemplo: se analisamos um cristal provavelmente o olfacto não será muito activado no exercício classificatório. Para Jacob e Shaw (1998 apud Lima, 2007), categorizar é um acto de acumular em grupos as experiências com o ambiente ou mundo externo edificando uma organização social e física que modela a maneira como elaboramos a ordem do mundo externo. Agrupando as experiências entre os indivíduos e o mundo externo formam-se categorias ou grupos alicerçados por similitudes. Em cada agrupamento existe um exemplo central em que o que será incluído ou excluído de uma categoria é discriminado por este centro de referência. Para Gardner (1996 apud Lima, 2007), este membro central é o “protótipo central” e tudo o que se categorizaria está relacionado com este membro estando mais próximo ou mais distante do núcleo de classificação. O sistema de classificar rege-se pelo grau de semelhanças ou dissociações do cerne classificatório de uma categoria. Esta ideia é decorrente da teoria dos protótipos de Eleanor Rosch (1975) e George Lakoff (1987 apud Lima, 2007), que postulavam a existência de unidades mais típicas para definir uma determinada categoria. A tipicidade não era residente do mundo externo, mas se originava no sistema cognitivo dos indivíduos estando este submetido à coerção cultural da sociedade. Quando tratamos da representação de um objecto, ou seja, uma unidade concreta existente no ambiente pode-se atribuir o processo de apreensão, assimilação e adequação. Os ideomorfos encontrados no Vale do Tejo, que fazem parte de fases posteriores àquelas em que o início da expressão de um signo está enraizado, podem encontrar neste exercício cognitivo de representação de algo já dado, uma explicação da sua continuidade na região, em períodos posteriores. A atribuição de significado, porém, se atrela às vertentes da cultura em que aquele signo se manifestou e é condicionada por determinados fins sociais. 139 Ora, esta visão do procedimento da actividade cognitiva de assimilar um objecto e adequá-lo à sua cultura explica a prática de inserção de motivos gravados em determinadas fases e reaproveitados em outras. Explica também a continuidade, em fases de gravação mais recentes, de alguns dos motivos. Uma parte dos motivos ideomorficos, muito provavelmente, é formada por representações estilizadas de um objecto que compõe a natureza. Um exemplo que ilustra esse processo é o círculo que pode ser, em muitos casos, a representação do Sol. No entanto, não se consegue elucidar o processo cognitivo que se estabelece quando um motivo é gravado sem que haja qualquer modelo anterior que incite o seu gravador. Ou seja, quando os primeiros habitantes do Vale começaram a gravar motivos ideomorficos não havia no local nenhum modelo dessas gravuras. Temos de salientar também que nem todo grupo de ideomorfos corresponde a representações em formas simples de um objecto, podendo significar ideias complexas. Os sujeitos que iniciaram as gravações desse tipo de motivos poderiam sim ter sido influenciados, como Gomes (1987, 1989) sustenta. Entretanto, a questão ainda permanece, uma vez que o ser humano em algum momento “estreou” essa iconografia. A hipótese de que a gravação de motivos nas rochas, em sua maioria, fazia parte do conjunto ritual de sociedades é ainda imperante nas visões de pesquisadores que estudaram a arte rupestre do Vale, como Martinho Baptista, Mário Varela Gomes, Vítor Oliveira Jorge e Anati, que estudou também a arte galaicoportuguesa. Como a prática da gravação se estabelecia diante desses possíveis rituais este é um ponto que merecia maiores discussões. Anati (1978) enfatiza a gravação como sendo o centro do ritual e não o fim estético obtido. Gomes (1989) observa no último período – o dos círculos e linhas – uma provável mudança no objectivo, sendo que as 140 figuras não demonstravam grande preocupação, por parte do gravador, com o resultado final, constituindo para o um indício da simples prática de gravação sem que qualquer finalidade ritualista estivesse coligada, o que diferia dos períodos precedentes que Gomes (1987, 1989) identificou no complexo. Todavia, a hipótese de que as gravações de motivos poderiam fazer parte de rituais é vista não somente no que toca a arte do Vale do Tejo, mas está presente nas explicações possíveis de grande parte da arte rupestre mundial. A partir de pesquisas antropológicas e da constatação de que muitas sociedades tribais fazem uso de aluginogénios durante ritos muitas das gravações e pinturas da arte rupestre mundial foram encaradas como fruto de estados alterados de consciência provocados pela actuação de substâncias dispiléticas 11 encontradas em certas ervas, fungos ou sementes. Os efeitos dos enteógenos servem de explicação ao aparecimento de muitos motivos na arte rupestre. “As plantas sagradas, que foram analisadas por químicos, não são mais misteriosas. Seus sucos estão impregnados de neuromoduladores que em grandes doses orais produzem um estado de excitação, delírio e visões. Os efeitos primários são muitas vezes seguidos de narcose e sonhos de tipo semelhante. Na Datura 12 do jívaros, são alcalóides atropina e escopolamina estruturalmente semelhantes. Na Banisteriopsis 13 dos mestiços, incluem beta-carbolinos, aos quais os xamãs muitas vezes acrescentam dimetiltriptamina de outra espécie de planta. As substâncias são psicotrópicas, estimulando uma rajada de imagens suficientemente intensas para abrir caminho pelos processos controlados do pensamento consciente normal. Elas alteram o cérebro da mesma forma que as moléculas neuromoduladoras naturais que regulam os sonhos normais. A diferença é que, sob sua influência, as pessoas entram em um transe semicomatoso em que os sonhos, descontrolados e muitas vezes vívidos e persistentes, não se confinam mais ao sono” (WILSON, 1999:69) Sendo os produtos dos estados alterados de consciência obtidos por uma alteração cerebral induzida pela utilização de enteógenos comparado s ao estado dos 11 As substâncias dispilécticas são aquelas que, actuando no sistema nervoso, causam modificações comportamentais, de personalidade e alteram a concepção de realidade de quem a ingere. Podem ser chamadas também de psicoldispiléticas devido à modificação das expressões psíquicas, que causam. 12 Datura arbórea, de acordo com Wilson (1999), é uma planta da família da dulcamara, de que se extrai um caldo que é utilizado pelos jívaros, do Equador, como enteógenos. 13 Banisteriopsis, segundo Wilson (1999), é uma parreira silvestre a qual pode se obter uma substância alucinogénia muito utilizada pelos Amaringo, no Peru – seguindo a tradição dos antigos povos que habitaram a região. 141 processos cerebrais durante o sono pode-se supor que um método utilizado para estudar os elementos produzidos durante o sono, ou seja, o sonho se aplique às visões desencadeadas por uso de substâncias alucinogénicas. Em Portugal quase não existem plantas que provocam alucinações, embora existam algumas plantas, como uma espécie de papoila (P. somniferum), que tem a propriedade de provocar sonolência. Sabendo-se que alguns estados alterados de consciência são estimulados por outros factores que não somente substâncias alucinogénicas – como por exemplo, batuques de tambores ou mesmo estados como fadiga, sonolência, fome etc – podemos dizer que a existência desse tipo de papoila pode, de alguma maneira, ter contribuído para algumas produções simbólicas materiais. No entanto, o uso de papoilas não pode ser efectivamente afirmado e seus efeitos não atingem os efeitos de enteógenos fortes, como os que são utilizados, por exemplo, na América Latina,. Em vez de fazermos uma análise dos ideomorfos do Vale do Tejo por meio da hipótese de rituais xamânicos ou de outras variantes que também utilizam alucinogénicos na indução de estados alterados de consciência, será colocada em foco a questão de formas preferenciais, conceptualmente fundamentada pela teoria dos protótipos de Rosch (1975) e Lakoff (1987 apud Lima, 2007). 5.2. A emersão de uma forma: constatações da Neurociência A partir da evolução da Neurobiologia algumas considerações foram feitas acerca da arte e das produções artísticas que têm acompanhado o Homo sapiens, bem como do desenvolvimento da linguagem e das maneiras de comunicação que o Homem tem encontrado ao longo de sua existência. Certos produtos culturais foram 142 atribuídos a uma origem epigenética 22, sendo a própria consciência resultado da evolução biológica. “Consciousness has evolved biologically and can therefore be explained biologically. The dense neural link-ups in the brain are not like a programmed computer, nor like the chapels of a cathedral, with or without interconnections, nor like a Swiss army knife, are they more open-ended than any of similes suggest” (LEWIS-WILLIAMS, 2002:186) Edward O. Wilson (1999) descreve uma experiência feita, no início da década de 1970, pela psicóloga belga Gerda Smets no seu estudo de bioestética. Smets controlou as modificações cerebrais utilizando dessincronização das ondas alfa 23 em uma amostra de indivíduos voluntários enquanto observavam “desenhos abstractos”. “Smets fez uma descoberta surpreendente. Encontrou um forte pico de resposta cerebral quando a redundância – repetição de elementos – nos desenhos era de cerca de 20 por cento. Esse é o grau de ordem equivalente encontrado em um simples labirinto, em duas voltas completas de uma espiral logarítmica ou em uma cruz com braços assimétricos. O efeito da redundância de 20 por cento parece inato. Recém-nascidos contemplam mais detidamente desenhos com cerca do mesmo grau de ordem” (WILSON, 1999:219) Como demonstra a experiência executada por Smets, diante de algumas formas gráficas o cérebro humano reflecte um grau de excitação. A dissociação das ondas alfa é mais elevada quando os indivíduos se deparam com formas geométricas que seguem um determinado padrão, ou seja, um padrão de repetição de traços num mesmo motivo. As serpentiformes, as espirais, os labirintos, na sua grande maioria, manifestam estes caracteres. Portanto, a perpetuação dessas formas como motivos 22 Epigenética: epi: superfície, genética: relacionado com os genes ou herança biológica. É aquilo de se origina em um patamar biológico e “vem à superfície” e é exprimido em meios externos como na própria sociedade em forma de prática social. 23 A dessincronização das ondas alfa é um modo muito usado pela Neurobiologia para medir as reacções cerebrais e níveis de excitação. Quanto maior a dessincronização das ondas alfa maior o grau de excitação do indivíduo. 143 preferenciais não se explicaria apenas por uma escolha ocasional das figuras. Haveria uma acção de direccionar a selecção das formas geométricas – que no caso da Arte Rupestre, seriam pintadas ou gravadas – estimulada pela própria excitação causada nos seres humanos. O sociobiólogo Wilson (1999) atribui um elo entre certos componentes epigenéticos com a arte e a estética. Não que a arte seja resultado directo de necessidades específicas naturai, mas a génese das produções artísticas seria ordenada por pilares estéticos inseridos no nosso sistema neuro-cognitivo. Este autor norteamericano demonstra que os motivos que implicam uma maior excitação contêm grandes semelhanças com aqueles, produzidas pelo Homem. “As figuras altamente excitantes de Smets, embora geradas por computador, guardam uma semelhança, intrigante com desenhos abstractos usados mundo afora em frisas, grades, logótipos, colofões e bandeiras. Também se aproximam em ordem e complexidade dos pictogramas do chinês, japonês, tailandês, tamil, bengalês e outras línguas asiáticas escritas de diferentes origens, bem como dos hieróglifos do Egipto antigo e dos maias. Finalmente, parece que alguns dos mais estimados produtos da arte abstracta moderna se aproximam do mesmo óptimo nível de ordem, como mostra a obra de Mondrian” (WILSON, 1999:220) O cérebro humano porém não se excita somente quando reconhece uma imagem com 20% de redundância, como indica Smets. Sendo ele capaz de criar imagens, essa excitação possivelmente se revelaria na produção mais maciça de imagens que respeitassem esse padrão. É necessário frisar que quando se menciona “imagens mentais” não se trata da reprodução de um objecto visto, mas sim da elaboração de uma figura ou cena expressa pela mente. A capacidade de construir imagens é ratificada pela obra “Cognitive Neural Science” de Eric R. Kandel, Thomas M. Jessell, James Harris Schwartz (1995). 144 “… celular analyses of information processing in the visual pathways have shown that the brain does not simply receive pictures of the external world but rather constructs visual images based on a highly selective integration of inputs from discrete parallel pathways” (KANDEL; JESSELL; SCHWARTZ, 1995:321) Segundo a pesquisadora Maria Lúcia Batezat Duarte (2004), a representação infantil dos objectos de uma forma gráfica dá-se através da condensação de caracteres e da expressão das formas básicas que os caracterizam. Seria, portanto, o desenho infantil a simplificação ou redução dos traços dos objectos às suas formas principais. No caso de crianças cegas, esse reconhecimento visual é impossibilitado, sendo o tacto o principal meio sensorial que fornece a possibilidade do conhecimento e do reconhecimento do objecto. Se a representação de um conceito abstracto não requer a identificação de um objecto concreto situado no ambiente (ou seja, identificar os traços básicos de um objecto e a partir daí desenhá-los) e se as formas geométricas são os componentes mais básicos constituindo a grande parte de desenhos infantis, parece clara a utilização de certas formas geométricas vistas na Arte Rupestre – por exemplo nos ideomorfos gravados no Vale do Tejo. Um círculo pode representar um grupo de pessoas reunidas num determinado espaço – neste caso estaríamos diante de uma representação de algo concreto (um grupo de pessoas é algo que se pode designar como objecto concreto) que é expressado de maneira estilizada pelos seus traços elementares. Também pode representar um conceito de totalidade, sendo esse meio de representatividade gráfica diferente do anterior: não se tem um objecto, mas sim um significado conceptual convertido numa forma gráfica. O facto é que o círculo ainda continua sendo uma das figuras mais representadas, seja ela por redução de elementos numa representação de um objecto, seja constituindo um signo que simboliza um conceito. 145 “Os estudos sobre o desenho infantil identificam, há mais de um século, o circulo como a primeira figura desenhada por todas as crianças. Rudolf Arnheim (1974) reconhecera que o movimento de alavanca, próprio à anatomia do braço, é um percursor natural do gesto que desenha e fecha a circunferência no espaço. A partir do fechamento do círculo, as crianças constroem as primeiras representações da figura humana, do sol, da copa das árvores” (DUARTE, 2004:5) Se considerarmos novamente a teoria dos protótipos de Eleanor Rosch (1975) e tendo em vista as constatações feitas no campo da Neurociência e das Ciências Cognitivas, será que haveria um protótipo que regesse uma categorização no que se refere aos símbolos abstractos? Segundo a teoria de Rosch (1978), os protótipos são aqueles elementos centrais de uma dada categoria que possui o número máximo de características que os membros, na sua totalidade, comungam. Esta teoria é atribuída ao sistema de categorização voltado para os objectos e seres existentes no ambiente. Entretanto, podemos, partindo desta teoria, tentar verificar se há nas representações abstractas um elemento central que ordenasse uma categorização pautada em estruturas da Psicologia Cognitiva e da Psicanálise devido à própria natureza das construções abstractas. Este trabalho não tem como objectivo comprovar se há ou não um sistema de categorização que se pode estender ao âmbito das representações abstractas por meio de formas que não denotam um objecto específico. Esse é um estudo que deve ser feito conciliando várias perspectivas científicas e que exige muito mais pesquisas e tempo que aqueles requeridos por um estudo realizado no âmbito de um trabalho de Mestrado. Contudo, a questão deve ser exposta devido à sua relevância e poderá ser estudada num possível futuro trabalho de doutoramento. 146 5.3. As contribuições da Psicologia e Psicanálise no entendimento dos ideomorfos do Vale do Tejo A problemática da repetição de certos signos em fases distintas do Vale do Tejo foi abordada nos tópicos anteriores quando se tratou da apreensão de um signo pertencente a uma fase mais antiga e à sua adequação a novos padrões culturais. Embora esta prática não culmine necessariamente na repetição de um dado motivo, uma vez que se utiliza uma gravura produzida por um grupo social distinto, o facto de comunidades entrarem em contacto com expressões gráficas de povos que habitaram o território fomenta a possibilidade de haver muitos signos observados pelos grupos que se instalavam no local e os reproduziam. A razão que leva a escolha de reproduzir certos motivos e excluir outros é um assunto que ainda necessita de ser debatido. Contudo, algumas pistas ligadas ao estímulo que certos motivos proporcionam aos seres humanos, são fornecidas pela Neurociência. Quando se verifica, nas pesquisas etnográficas, que há no campo mítico-religioso determinadas entidades cuja presença é maciça em vários conjuntos de culturas distintas, o símbolo que se manifesta pode ser chamado símbolo de grande potencialidade. Em capítulos anteriores expôs-se o que seria um símbolo em potencial: que reúne na sua totalidade o maior número de antagonismos e induz as mais diferentes emoções nos indivíduos. A maneira como o símbolo em potencial é esculpido e, por assim dizer, sobressai em cada sociedade é determinada pelas estruturas sociais as quais exercem influências sobre todas as suas esferas, inclusivamente a cultura. Sendo assim, povos que possuíram contacto com os vestígios rupestres daqueles que preexistiram na mesma região provavelmente não tiveram acesso à lógica cultural em que os signos 147 gravados estavam penetrados, mas entraram em contacto com a forma estética do motivo. Se essas formas foram escolhidas para fazer parte do conjunto iconográfico de comunidades posteriores, podemos questionar qual foi o mecanismo de atribuição do significado utilizado. Mesmo a produção de signos semelhantes, sem que houvesse o conhecimento da existência de gravações anteriores, eleva a discussão sobre a existência de signos que estimulem a designação de certos significados (neste momento, questiona-se novamente a existência de um possível “protótipo” para definições abstractas). No que concerne ao estudo da arte rupestre como produção cultural humana, a Psicologia e a Psicanálise têm-se apresentado como auxiliares na captação de mecanismos da psique, a qual emitiria aos produtos culturais, neste caso a arte, buscando alicerces mais amplos para uma interpretação da arte rupestre. Com relação à identificação de formas semelhantes em diversos continentes, a abordagem psicanalítica tem contribuído nas pesquisas sobre o significado destes símbolos, não delimitando e reduzindo os resultados interpretativos à generalizações que excluem as características particulares de cada estrutura social, mas unindo-se ao trabalho antropológico e arqueológico e complementando-o. Os avanços da Psicanálise e de estudos baseados nos principais conceitos freudianos e junguianos têm permitido conjugar o estudo da Arte Rupestre com as pesquisas sobre as estruturas inconscientes do ser humano. A análise do pensamento mítico e do pensamento onírico junta-se às evidências arqueológicas, principalmente a arte rupestre, para observar como os componentes do chamado inconsciente emergem diante das expressões culturais. Como menciona Marzi Chiari (2007), a Psicanálise transpôs os limites do consultório para se tornar um instrumento de pesquisa e interpretação de muitas manifestações humanas como a arte, a religião etc. 148 Sigmund Freud (1999) desenvolveu uma técnica que possibilitava atingir o inconsciente de seus pacientes: a livre associação. Esta técnica tinha como fundamento pontos de emoções vinculados entre si que viriam à tona através da sucessão de pensamentos que o paciente expunha quando diante de algum aspecto do sonho que havia tido. Assim, os aspectos inconscientes poderiam ser identificados auxiliando o tratamento das neuroses. Carl Jung (2002) embora concorde com Freud que os sonhos eram fruto do inconsciente humano, observa que os sonhos são formas de representação de emoções, medos e complexos que não eram identificados pela consciência. Os sonhos, segundo Jung (2002), apresentam-se por meio de uma simbologia a qual, de acordo com seus inúmeros estudos de caso realizados, pareciam seguir uma estrutura de representação. Sendo assim, para se chegar ao cerne das questões inconscientes Jung (2002), ao contrário de Freud (1999), concentrava-se nos episódios dos sonhos e nos símbolos que eles apresentavam, uma vez que a livre associação se “afastaria” do núcleo principal do sonho. Em vez da livre associação, Jung (2002) verificaria as associações simbólicas que os sonhos apresentariam. As conclusões deram origem a conceitos como inconsciente colectivo e arquétipos. No caso dos estudos dos ideomorfos, como já foi exposto em 5.2, algumas imagens devem sua a repetição em larga escala à própria estimulação humana em exprimi-las a partir da excitação detectada no cérebro, como indica Wilson (1999) ao descrever uma experiência no campo da Neurociência. O significado deve ser encarado como esculpido pela cultura específica, mas o estudo do significado simbólico de alguns signos demonstram que muitas vezes há um significado inicial, ou central, que de acordo com a especificidade cultural, se desenvolve de uma maneira ou de outra. 149 “Se dunque molto è nei modelli iconografici determinato dalle peculiari variabili culturali storiche e ambientali, evidenti sono anche le constanti, in regioni diverse, nelle dinamiche cognitive nelle logiche espressive, tematiche e persino stilistiche, senza che queste ‘riflettano necessariamente processi di aculturazzione e diffusione’. Per Anati (cit.) si trata di ‘archetipi logici’ e di modeli universali come se i moduli derivassero da una ‘radice comune’” (SANSONI, 2007:426) Nesta citação, muitos componentes da teoria de Carl Jung sobre o inconsciente colectivo são evidenciados. O conceito de inconsciente colectivo é, de acordo com Jung (2000, 2002), um substrato comum aos seres humanos que transcende as diferenças étnicas, culturais ou de conhecimento. A mitologia, por exemplo, seria aos olhos dos defensores da existência de um inconsciente colectivo, reflexo desta parte da psique. Alguns signos poderiam, portanto, ter um conteúdo básico proveniente deste legado simbólico e, a partir daí, se enquadrariam em diferentes culturas. Os resquícios deste legado são denominados por Freud (1999) de resíduos arcaicos. “(…) Freud dá o nome de resíduos arcaicos_ formas mentais cuja presença encontra explicação alguma na vida do indivíduo que parecem, antes, formas primitivas e inatas, representando uma herança do espírito humano” (JUNG, 2002:67) Pier Luigi Bolmida (2007) afirma que para cada desejo manifestado por um indivíduo, há uma imagem ou ilusão que se relaciona de modo imediato para que o que se deseja possa ser realizado. Neste sentido, se quando estamos diante de algo desconhecido o sistema cognitivo procura classificar o objecto novo, que se vê através de uma espécie de “cadeia associativa” vinculada à memória, não seria de se estranhar que o mesmo mecanismo fosse aplicado por indivíduos que se deparam com gravuras não produzidas por eles. As associações são executadas através da memória, mais precisamente, a memória semântica e as ligações que essa cadeia associativa estabelece não somente se restringem aos factos que a memória semântica resguarda, mas também 150 envolvem elos proporcionados por estímulos emocionais que se assemelham ou que se complementam. Os neurocientistas Bryan Kolb and Ian Q.Whishaw (2003) apontam para a existência de dois tipos de memória: a memória episódica e a memória semântica. A memória semântica seria aquela em que todo o conhecimento que não é autobiográfico é instalado. É este tipo de memória que permite ao indivíduo reconhecer um animal como membro de uma categoria. Por exemplo: um pardal como um pássaro, um labrador como um cão etc. Podemos dizer que o conteúdo da memória semântica se dá através de um sistema colectivo, já que esse conhecimento se estabelece num patamar social de classificação. Portanto, ao nos empenharmos na representação de algo, mesmo que haja uma base abstracta, a nossa memória semântica é activada para que se possa formar uma imagem mental. Os ideomorfos são imagens de algo que, não sendo facilmente identificado, é relacionado, na sua maioria, com conceitos e abstracções. Sendo assim, a produção de uma imagem mental coligada a um sistema de significações remetido à memória semântica possui os seus alicerces edificados numa esfera colectiva que, notada através das manifestações culturais, resguarda em seu bojo o que Freud (1999) identificou como resquícios arcaicos e Jung (2000, 2002) designou como sendo arquétipos ou imagens primordiais. A teoria junguiana contribui para os estudos da Arte Rupestre a partir da premissa de que esta – a Arte Rupestre, assim como as artes em geral e os mitos – é um conjunto de contruções culturais e, portanto, de um conjunto humano. Os avanços que a perspectiva psicológica propõem por meio das bases junguianas e, por assim dizer, freudianas, não apontam para uma concepção das figuras da arte rupestre como sendo directamente ligadas a um significado, já que este é construído por meio da esfera 151 cultural específica de cada grupo social. O que os conceitos junguianos vêm propor é a existência de uma tendência de representar determinadas imagens. “O meu ponto de vista sobre os resíduos arcaicos, a que chamo arquétipos ou imagens primordiais, tem sido muito criticado por aqueles que falta conhecimento suficiente da psicologia e da mitologia. O termo arquétipo é muitas vezes mal compreendido, julgando-se que expressa certas imagens ou motivos mitológicos. Mas estes nada mais são que representações conscientes: seria absurdo supor que representações tão variadas pudessem ser transmitidas hereditariamente. O arquétipo é uma tendência para formar estas mesmas representações de um motivo representações que podem ter inúmeras variações de detalhes sem perder a sua configuração original” (JUNG, 2002:67) Os ideomorfos do Vale do Tejo não seriam um legado simbólico pré-determinado, em que o significado se repetiria, mas sim expressões de um aparato cognitivo humano coordenado pela estrutura social que exercita o papel determinante no desencadeamento de certos impulsos, chamados por Jung (2000, 2002) de arquétipos e por Freud (1999) de resíduos arcaicos. 152 CONCLUSÃO Este trabalho pretendeu expor alguns parâmetros que contribuíssem para o estudo dos motivos ideomórficos do Vale do Tejo como produtos culturais coligados ao sistema cognitivo humano. Não teve, contudo, como objectivo a pretensão de fornecer uma interpretação relativamente a esses motivos. A tentativa de contribuir para a compreensão do conjunto de ideomorfos do Vale do Tejo foi esculpida a partir de questões que circundam a representação gráfica humana e as suas bases cognitivas. Pretendeu acrescentar-se aos estudos do complexo rupestre do Vale do Tejo uma análise envolvendo factores sociais e neuropsíquicos, indicando algumas possíveis respostas referentes à gravação de signos que, pelas próprias características estéticas, muitas vezes não são identificados como sendo a representação de um objecto concreto. Partindo de levantamentos e estudos feitos desde finais da década de 1970, desenvolveu-se um exame integrando os ideomorfismos nos contextos culturais com que são relacionados. Na descrição os períodos propostos por Gomes (1987, 1989), foram mencionados e desenvolvidos pontos considerados relevantes para o estudo dos signos ideomórficos. Ao abordar alguns motivos que não são identificados como ideomorfos – sendo representações claras de um objecto ou animal –, procurou mostrar-se em que aspecto uma maior atenção remetida a essas gravuras auxiliaria num entendimento mais amplo do processo de manifestação do conjunto dos ideomorfos. De maneira mais específica, foram estudadas as rochas 155 e 175 de Fratel, 11 de Gardete e 15 do Ocreza para que se pudesse obter uma amostra que exemplificasse a iconografia apresentada no Vale do Tejo, a sua temática e as diferentes fases de gravação. 153 Foram confrontadas duas propostas de divisão cronológicas ligada às fases de gravação: a de Mário Varela Gomes (1987, 1989) e a sustentada por Martinho Baptista (1974, 1981). Este paralelo analítico foi efectuado de modo a revelar as diferenças existentes entre as duas propostas, possibilitando a verificação dos resultados dos dois estudos. Este método de análise, cuja intenção era cotejar as duas propostas de cronologias acerca de um mesmo objecto – as gravuras do complexo –, possibilitou averiguar cautelosamente a incidência dos ideomorfos no Vale ao longo de diversas fases de gravação. Embora existam divergências quanto às origens de alguns ideomorfos, como é o caso da espiral, ambos os estudos confirmam que há um aumento,ou seja, uma maior concentração, dessa categoria iconográfica em produções de comunidades cuja actividade sócio-económica se alicerçava na agricultura e na pecuária. A percentagem de ideomorfos cresce à medida que se implementam também as actividades metalúrgicas, próprias do Calcolítico e da Idade do Bronze. Este ponto se ratifica ao se fazer uma análise do estudo de Collado Giraldo (2006a, 2006b), em que se verifica também uma maior concentração de ideogramas num período que abrange desde o Neolítico até à Idade do Bronze. Collado Giraldo (2006a, 2006b) indica paralelos entre a arte rupestre do Guadiana e a arte rupestre do Tejo. A própria localização geográfica da área do conjunto rupestre estudado pelo autor permite dizer que muito provavelmente as comunidades que se fixaram naquele local contactaram com as comunidades taganas, influenciando-se mutuamente. Entretanto, os ideomorfos integravam-se nas demandas da própria organização social e adequavam-se aos elementos socio-económicos que, por sua vez, influenciavam directamente as expressões culturais. 154 De acordo com os princípios da teoria de Felipe Criado Boado (1993 apud Berrocal, 2003) a realidade constitui-se através do trabalho humano que se alicerça no material e também pelo ideal que impulsiona a existência do material. Contudo, ao analisar manifestações culturais, ou seja, produções humanas, é possível atingir patamares estruturais que evidenciam dinâmicas que podem ser vistas em produções distintas. O estudo da arte rupestre de um dado local, portanto, contribui para a análise deste fenómeno em geral, captando de maneira aprofundada as dinâmicas que a envolvem. A Arte Rupestre é um fenómeno que marca a maneira como o Homem se relacionou, em dados períodos, com seu espaço e é um importante testemunho sobre as práticas culturais existentes. Em algumas comunidades cíclicas ainda hoje existentes, a Arte Rupestre ainda medeia a relação Homem-meio. A paisagem é “a expressão das práticas sociais de cunho material e imaginário”. (Criado Boado 1993:42 e 1993:11 apud Berrocal, 2003:41). A partir da identificação material, ou seja, a partir de motivos gravados, desenvolveu-se, com base em algumas perspectivas científicas que actualmente estão começando a ser inseridas no estudo da Arte Rupestre, um olhar em direcção aos signos ideomorficos do Vale do Tejo, abrangendo o seu carácter cognitivo, que se situa no aspecto imaginário que Criado Boado (1993a apud Berrocal, 2003) enfatiza. Portanto, a frequência mais elevada com que as gravuras idemorficas aparecem nos períodos Neolítico, Calcolítico e da Idade do Bronze deve ser encarada como uma tendência das comunidades locais integrada na organização sócio-económica das mesmas. A variável sócio-económica apresenta-se, ao longo desta dissertação, como o elemento direccional de uma capacidade já existente nos indivíduos, em seu aparato cognitivo. A expressão gráfica de motivos detentores de formas categorizadas como 155 ideomorfas foi desencadeada por uma organização social que se estruturava, exprimindo um nível mais elevado de estratificação e aumentando a gama de relações sociais que, na estrutura vertical de estratificação social, se tornavam mais complexas. As considerações de Baptista (1981) sobre a origem da espiral no complexo rupestre do Vale do Tejo forneceram dados que comprovaram que, ainda em períodos finais do Paleolítico, quando as sociedades eram essencialmente de caça e recolecta, podiam ser vistas expressões gráficas que não retratavam uma representação primária de um objecto, mas que provavelmente através de um signo embutiam um conceito complexo. Este procedimento cognitivo, que, num primeiro momento, parece simples, mostra-se ineficaz se aquilo que se pretende representar não é concebido pelos demais membros do grupo. Para que estas expressões gráficas de representações conceptuais sejam concebidas por um dado grupo social, deve haver uma organização solidificada entre membros, sendo propiciada primeiramente pela fixação do grupo num dado local. Esta fixação no território permite uma maior integração de membros, um maior desenvolvimento de níveis de estratificação social e, portanto, requer uma relação entre os elementos culturais e a paisagem diversa das sociedades de caçadores-recolectores. Não se almeja lançar uma visão evolucionista social para explicar a atribuição de um maior número de ideomorfos aos períodos em que imperaram comunidades de agricultores-pecuaristas. Pelo contrário, tendo em consideração os diferentes posicionamentos das comunidades distintas sócio-economicamente diante da paisagem e perante as suas necessidades de manifestação cultural que se peculiarizavam de acordo com as diferentes organizações sociais, pretendeu-se evidenciar os elementos que, de certa forma, estimularam certas manifestações gráficas. 156 Este trabalho permitu concluir que, a partir de uma visão multidisciplinar sustentada por teorias provenientes de certas áreas científicas – como é o caso da teoria dos protótipos, do conceito de arquétipos e da tese de formação de imagem através das estruturas cerebrais – associadas à Arqueologia e à Arte Rupestre, conseguimos obter resultados amplos, levando em consideração componentes que se justapõem e que são responsáveis pela origem de uma dada expressão diante de uma manifestação cultural. Neste caso, os ideomorfos no seio da Arte Rupestre. 157 BIBLIOGRAFIA ABREU, M. S. 1995. Universo da Arte Rupestre. PEREIRA, P. 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Este cervídeo é classificado por Baptista (1981) como pertencente à primeira fase de sua cronologia. Em Gomes, este cervídeo seria classificado como membro do período arcaico. • Largura: 5,7 cm; • Altura: 6,4 cm. Tamanho Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Técnica Picotagem Observação O motivo pode ser enquadrado na primeira fase da cronologia de Baptista (1981) e, na classificação cronológica de Gomes (2000), no Período Arcaico, devido ao estado da pátina que se assemelha àquela do cervídeo que a espiral se associa. FICHA 2. Referência do motivo 1 da rocha 155-F. 172 Número de identificação do motivo 2 Fonte Martinho Baptista (1981) Sítio Fratel Painel nº 155-F Classificação Espiral Localização no painel Sobreposições • • Associações Associa-se a um cervídeo gravado posteriormente à espiral (dado obtido através do grau de pátina). Este cervídeo pertence, segundo Gomes, ao período estilizado-estático. De acordo com a cronologia suportada por Baptista (1981), este cervídeo se situaria na segunda parte da Fase I, o subnaturalistaevoluído. • Largura: 9,69cm; Tamanho • Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Altura: 11,4 cm. Técnica Picotagem Observação O motivo pode ser incluído na Fase I, Segunda etapa – subnaturalista-evoluído –, da cronologia sustentada por Baptista (1981). Pela cronologia de Gomes (2000), esta espiral possui as características do período estilizadoestático. FICHA 3. Referência do motivo 2 da rocha 155-F. 173 Número de identificação do motivo 3 Fonte Martinho Baptista (1981) Sítio Fratel Painel nº 155-F Classificação Espiral Localização no painel Sobreposições • • Associações Nenhuma Tamanho • • Técnica Picotagem Observação Por não haver associações e sobreposições, a estipulação do período em que o motivo foi gravado se torna difícil, sendo que somente o grau de desgaste não oferece os elementos necessários para enquadrar o motivo a um período de gravação. Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Largura: 6, 84 cm; Altura: 7,95 cm. FICHA 4. Referência do motivo 3 da rocha 155-F. 174 Número de identificação do motivo 4 Fonte Martinho Baptista (1981) Sítio Fratel Painel nº 155-F Classificação Espiral Localização no painel Sobreposições • • Associações Associa-se a um grupo denso de ponteados. Tamanho • • Técnica Picotagem Observação Não há dados suficientes que permitam encaixar este motivo a um período preciso. Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Largura: 6,27 cm; Altura: 7,41 cm. FICHA 5. Referência do motivo 4 da rocha 155-F. 175 Número de identificação do motivo 5 Fonte Martinho Baptista (1981) Sítio Fratel Painel nº 155-F Classificação Espiral Localização no painel Sobreposições • • Associações Nenhuma Tamanho • • Técnica Picotagem Observação Espiral pouco patinada, o que permite inferir que foi gravada posteriormente aos demais motivos que compõem o painel. Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Largura: 6,84 cm; Altura: 12,54 cm. FICHA 6. Referência do motivo 5 da rocha 155-F. 176 Número de identificação do motivo 6 Fonte Martinho Baptista (1981) Sítio Fratel Painel nº 155-F Classificação Espiral Localização no painel Sobreposições • • Associações Nenhuma Tamanho • • Técnica Picotagem Observação Pequeno grau de pátina relativamente às outras espirais apresentadas neste painel. Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Largura: 13,68 cm; Altura: 14,82 cm. FICHA 7. Referência do motivo 6 da rocha 155-F. 177 Número de identificação do motivo 7 Fonte Martinho Baptista (1981) Sítio Fratel Painel nº 155-F Classificação Espiral Localização no painel Sobreposições • • Associações Associa-se a dois antropomorfos, tanto por proximidade quanto por composição, uma vez que essa correlação entre a espiral e dois antropomorfos já foi visto painel 175-F, que também se situa no sítio do Fratel, no Vale do Tejo. Isto permite inferir que estão realmente associados. • Largura: 17,67 cm; • Altura: 17,10 cm. Tamanho Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Técnica Picotagem Observação A espiral é a maior existente no painel. A pátina existente nas figuras antropomórficas coincide com a da espiral, permitindo com que se estabeleça uma relação entre o período de gravação dos antropomorfos e a espiral: muito provavelmente foram gravados na mesma época. FICHA 8. Referência do motivo 7 da rocha 155-F. 178 Número de identificação do motivo 8 Fonte Martinho Baptista (1981) Sítio Fratel Painel nº 155-F Classificação Espiral Localização no painel Sobreposições Associações Tamanho • • Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: uma linha larga e grossa liga a espiral à parte inferior de um cervídeo, que, na numeração das figuras no painel 155-F é enumerado como n.º 88 em Baptista (1981). Associa-se ao cervídeo. Ambos os motivos são ligados por uma linha que se estende da parte inferior do cervídeo. • Largura: 13,11 cm; • Altura: 13,68cm. Técnica Picotagem Observação Na cronologia sustentada por Baptista (1981), este motivo está inserido na segunda etapa da Fase I (subnaturalista-evoluído). FICHA 9. Referência do motivo 8 da rocha 155-F. 179 Número de identificação do motivo 9 Fonte Martinho Baptista (1981) Sítio Fratel Painel nº 155-F Classificação Espiral Localização no painel Sobreposições • • Associações Associa-se a um cervídeo que, na numeração feita por Baptista (1981) com relação ao painel, é designado pelo número 43 [Fase I da cronologia de Baptista (1981), Segunda Etapa: subnaturalista evoluída]. • Largura: 4,56 cm; • Altura: 5,7 cm. Tamanho Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Técnica Picotagem Observação O número desta espiral, em Baptista (1981), é 42. Esta informação foi acrescentada devido à necessidade de localizar, na classificação de Baptista (1981) referente ao painel, a numeração da espiral para se identificar suas associações. FICHA 10. Referência do motivo 9 da rocha 155-F. 180 Número de identificação do motivo 10 Fonte Martinho Baptista (1981) Sítio Fratel Painel nº 155-F Classificação Espiral Localização no painel Sobreposições • • Associações Tamanho Motivo sobreposto a: cervídeo (pouco sobreposto), situado na Fase I de Baptista (1981) – segunda metade, ou seja, subnaturalista-evoluído; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Associa-se à ténue sobreposição que aproxima a espiral do cervídeo. Pode ser considerada como uma associação de ambos os motivos já que existe a proximidade e o contacto dos dois motivos através de pequena sobreposição. • Largura: 3,32 cm; • Altura: 11,4 cm. Técnica Picotagem Observação N.º 89 em Baptista (1981). Espiral muito patinada. Se insere na cronologia de Baptista (1981) na Segunda Etapa da Fase I. Em Gomes (2000), as espirais aparecem a partir das comunidades neolíticas. FICHA 11. Referência do motivo 10 da rocha 155-F. 181 Número de identificação do motivo 11 Fonte Martinho Baptista (1981) Sítio Fratel Painel nº 155-F Classificação Oval Localização no painel Sobreposições • • Associações Nenhuma Tamanho • • Técnica Picotagem Observação Não há dados sobre o período de encaixe do motivo. No entanto, pela pouca pátina que a gravura apresenta, pode-se deduzir sua gravação em períodos mais recentes. Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Largura: 5,7 cm; Altura: 5,7 cm. FICHA 12. Referência do motivo 11 da rocha 155-F. 182 Número de identificação do motivo 12 Fonte Martinho Baptista (1981) Sítio Fratel Painel nº 155-F Classificação Oval Localização no painel Sobreposições • • Associações Apresenta proximidade com uma outra figura oval que se identifica na tabela pelo número 13. Ambas as figuras ovaladas possuem proximidade com a figura de um cervídeo que possui características com o início da Fase I de Baptista (1981) – subnaturalista-clássico. Pela técnica de picotagem empregada nas duas figuras ovais e pelo semelhante nível de desgaste, pode-se dizer que ambos motivos foram gravados no mesmo período. • Largura: 7,41 cm; • Altura: 8,55 cm. Tamanho Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Técnica Picotagem Observação Não se pode dizer com exactidão a que período este motivo pertence. FICHA 13. Referência do motivo 12 da rocha 155-F. 183 Número de identificação do motivo 13 Fonte Martinho Baptista (1981) Sítio Fratel Painel nº 155-F Classificação Oval Localização no painel Sobreposições • • Associações Situa-se próximo a outra figura oval (n.º 12) que indica nível de desgaste idêntico a esta. Por proximidade, esta figura oval associa-se a um grande cervídeo. • Largura: 5,7cm; • Altura: 7,41cm. Tamanho Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Técnica Picotagem Observação Por falta de maior número de dados, não se pode estabelecer o período de origem da gravação da figura. FICHA 14. Referência do motivo 13 da rocha 155-F. 184 Número de identificação do motivo 14 Fonte Martinho Baptista (1981) Sítio Fratel Painel nº 155-F Classificação Círculos concêntricos Localização no painel Sobreposições • • Associações Situa-se próximo aos motivos ovais (n.º 12 e 13) e ao cervídeo. Entretanto, a pátina indica que este círculo é posterior às figuras ovais e ao cervídeo. • Largura: 6,84 cm; • Altura: 8,55 cm. Tamanho Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Técnica Picotagem Observação Tendo em vista o estilo do cervídeo que está próximo a este motivo, podemos dizer que os círculos concêntricos são posteriores à Fase I de Baptista (1981) e ao Estilizado-Dinâmico de Gomes (2000). FICHA 15. Referência do motivo 14 da rocha 155-F. 185 Número de identificação do motivo 15 Fonte Martinho Baptista (1981) Sítio Fratel Painel nº 155-F Classificação Círculos concêntricos Localização no painel Sobreposições • • Associações Nenhuma Tamanho • • Técnica Picotagem Observação O motivo apresenta o anel (círculo) maior comprometido por uma fractura. Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Largura: 8,55 cm; Altura: 7,40 cm. FICHA 16. Referência do motivo 15 da rocha 155-F. 186 Número de identificação do motivo 16 Fonte Martinho Baptista (1981) Sítio Fratel Painel nº 155-F Classificação Círculos concêntricos Localização no painel Sobreposições • • Associações Nenhuma Tamanho • • Técnica Picotagem Observação De acordo com Baptista (1981), a picotagem é profunda e o índice de pátina é pequeno. As semelhanças geométricas com os padrões das últimas fases do complexo do Vale do Tejo faz deduzir seu enquadramento nestes períodos mais tardios de gravação. Baptista (1981) ressalta semelhanças com a iconografia do noroeste da península Ibérica. Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Largura: 9,69 cm; Altura: 11,4 cm. FICHA 17. Referência do motivo 16 da rocha 155-F. 187 Número de identificação do motivo 17 Fonte Martinho Baptista (1981) Sítio Fratel Painel nº 155-F Classificação Círculos concêntricos Localização no painel Sobreposições • • Associações Nenhuma Tamanho • • Técnica Picotagem Observação A pátina indica que o motivo é pertencente aos últimos períodos de gravação do ciclo. Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Largura: 7,41 cm; Altura: 7,98 cm. FICHA 18. Referência do motivo 17 da rocha 155-F. 188 Número de identificação do motivo 18 Fonte Martinho Baptista (1981) Sítio Fratel Painel nº 155-F Classificação Círculos concêntricos Localização no painel Sobreposições • • Associações São ligados por uma linha a um cervídeo subnaturalista-evoluído, da cronologia de Baptista (1981). • Largura: 7,38 cm; • Altura: 9,67 cm. Tamanho Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Técnica Picotagem Observação O motivo é pouco patinado, portanto, não se situa em períodos iniciais das fases de gravação do complexo rupestre do Tejo. FICHA 19. Referência do motivo 18 da rocha 155-F. 189 ANEXO B – Dados iconográficos dos ideomorfos da rocha 175 do Fratel (175-F) CLASSIFICAÇÃO DOS MOTIVOS Espirais MOTIVOS 1 2 Podomorfo 3 Serpenteforme 4 Círculo 5 Semicírculo 6 TABELA 8. Iconografia dos ideomorfos da rocha 175 do Fratel (175-F). Adaptado de Gomes (2000). 190 Número de identificação do motivo 1 Fonte Mário Varela Gomes (2000) Sítio Fratel Painel nº 175-F Classificação Espiral Localização no painel Extremo norte da rocha Sobreposições • • Associações Tamanho Associa-se a dois antropomorfos formando uma figuração vista em outro painel do complexo do Vale do Tejo, a rocha 155 do Fratel (155-F) Diâmentro máximo: 22,0 Técnica Picotagem indirecta Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Observação FICHA 20. Referência do motivo 1 da rocha 175-F. 191 Número de identificação do motivo 2 Fonte Mário Varela Gomes (2000) Sítio Fratel Painel nº 175-F Classificação Espiral Localização no painel zona esquerda inferior do painel Sobreposições • • Associações Tamanho Técnica Motivo sobreposto a: um cão (sobrepõe uma pequena parte da figura de um cão); Motivos que o sobrepõem: nenhum Associa-se ao cão o qual o sobrepõe de forma ligeira • Diâmetro máximo: 11cm (valor aproximado, sendo que não se pôde fazer a medida real devido a uma fractura da própria rocha que comprometeu o traçado de parte do último anel da espiral) Picotagem indirecta Observação FICHA 21. Referência do motivo 2 da rocha 175-F. 192 Número de identificação do motivo 3 Fonte Mário Varela Gomes (2000) Sítio Fratel Painel nº 175-F Classificação Podomorfo Localização no painel Zona superior direita Sobreposições • • Associações Associa-se por proximidade o podomorfo poderia ser associado à grande espiral (motivo 1). No entanto, a associação somente pode ser designada tendo como base o grau de proximidade do podomorfo à espiral . Não há indícios concretos que sustentem a hipótese de que há correlação entre a grande espiral e o podomorfo. • Largura máxima: 10 cm*; • Altura: 18 cm. Tamanho Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Técnica Picotagem directa Observação *largura medida por meio do contorno existente. Portanto, a largura total poderia equivaler a uma medida maior se parte da figura fosse completa FICHA 22. Referência do motivo 3 da rocha 175-F. 193 Número de identificação do motivo 4 Fonte Mário Varela Gomes (2000) Sítio Fratel Painel nº 175-F Classificação Serpentiformes Localização no painel Região mediana da zona esquerda do painel Sobreposições • Associações Tamanho Técnica Motivo sobreposto a: pequena parte da extremidade de uma das linhas serpentiformes sobrepõe a alguns picotados pertencentes ao caprídeo; • Motivos que o sobrepõem: a outra linha serpentiforme paralela sofre sobreposição de uma mancha circular de tamanho pequeno. Pela proximidade estas serpentiformes devem associar-se ao caprídeo e, possivelmente ao antropomorfo situado à sua esquerda. • Largura máxima: 8 cm; • Altura: 15 cm. Picotagem indirecta Observação FICHA 23. Referência do motivo 4 da rocha 175-F. 194 ANEXO C – Dados iconográficos dos ideomorfos da rocha 11 do Gardete (11-G) CLASSIFICAÇÃO DOS MOTIVOS Círculos concêntricos MOTIVOS 1 3 2 Ovais 4 Serpentiformes 5 6 7 8 9 Podomorfos 10 11 Meandriformes 14 195 12 13 Dois círculos ligados por uma linha 15 16 17 Círculos 18 19 TABELA 9. Iconografia dos ideomorfos da rocha 11 do Gardete (11-G). Adaptado de Gomes (2004). Fase de gravação Formato dos negativos gerados pela picotagem Primeira Circulares e ovais Segunda Circulares e ovais Terceira Quarta Tamanho e profundidade dos negativos gerados pela picotagem Pequenos e profundos Linhas que compõe os motivos Grau de erosão e pátina Descontínuas e contínuas de médio grau de densidade Elevado nível de erosão e pátina Pequenos (mas maiores que os da primeira fase) e profundos. Linhas mais densas. Predominantemente ovais Médios: maiores que os apresentados nas fases anteriores Linhas contínuas e descontínuas Predominantemente Ovais Mesmo tamanho que na terceira fase Linhas contínuas e descontínuas Elevado nível de erosão e pátina embora menor que na primeira fase Grau de pátina e erosão menor que nas fases anteriores mas ainda elevado. Menor grau de pátina e erosão relativamente à terceira fase. Grau baixo de pátina Técnica Picotagem directa e indirecta (esta em menor grau) Picotagem directa Picotagem directa Picotagem directa Circulares e Ovais Negativos Linhas largas e Picotagem (estes geralmente médios e profundas directa alongados) grandes TABELA 10. Diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação. Adaptado de Gomes (2004). Quinta 196 No item “associações” das fichas apresentadas a seguir, pode haver como resposta “nenhuma” ou “nenhuma específica”. Estas observações se diferenciam, uma vez que “nenhuma específica” admite que podem haver associações por proximidade de motivos, já que esta rocha apresenta um grande número de motivos muito próximos uns aos outros. Para que não se cometam grandes erros com a associação de motivos encontrados na rocha 11-G, optou-se pela explicitação do termo “nenhuma associação específica” quando não se observou indícios de associação de motivos. Não está excluída, entretanto, a hipótese de haver associação, já que os motivos deste suporte estão dispostos próximos uns aos outros, facto desencadeado pela grande quantidade de motivos que se apresenta neste suporte. 197 Número de identificação do motivo 1 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Círculos concêntricos Localização no painel Sobreposições Associações • • Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: círculo que, pelas características da técnica empregada, se situa na quinta fase de gravação da rocha. (ver tabela de diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação) Associa-se ao motivo que o sobrepõe Tamanho • • Técnica Picotagem Observação O motivo recebe oficialmente o número 137. Pelas características técnicas, se insere entre a quarta e quinta fases de gravação da rocha. Diâmetro do círculo maior: 11 cm; Diâmetro do círculo menor: 5,50 cm. FICHA 24. Referência do motivo 1 da rocha 11-G. 198 Número de identificação do motivo 2 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Círculos concêntricos Localização no painel Sobreposições • • Associações Nenhuma associação específica Tamanho • • Técnica Picotagem Observação O número oficial do motivo é 60. Pelas características, este motivo se delimita entre a terceira e quarta fases de gravação (ver tabela de diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação). Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Diâmetro do círculo maior: 6 cm; Diâmetro do círculo menor: 2 cm. FICHA 25. Referência do motivo 2 da rocha 11-G. 199 Número de identificação do motivo 3 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Círculos concêntricos Localização no painel Sobreposições • • Associações Nenhuma associação específica Tamanho • • Técnica Picotagem Observação O número oficial do motivo é 61. As características técnicas de gravação situam o motivo na quinta fase de gravação ( ver tabela de diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação). Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Diâmetro do círculo maior: 13,5 cm; Diâmetro do círculo menor: 5 cm. FICHA 26. Referência do motivo 3 da rocha 11-G. 200 Número de identificação do motivo 4 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Localização no painel Sobreposições • • Motivo sobreposto a: um círculo (n.º 19 da tabela) com características técnicas da quinta fase de gravação da rocha e um antropomorfo com caracteres técnicos situados entre a terceira e quarta fases de gravação. Também sobrepõe o círculo n.º 18 da tabela que possui características da quinta fase de gravação (ver tabela de diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação); Motivos que o sobrepõem: nenhum. Associações Associa-se aos motivos que sobrepõe Tamanho • • Técnica Picotagem directa Observação O número oficial do motivo é 41. Pelas características da técnica de gravação situa-se na quinta fase de gravação da rocha. Diâmetro do círculo maior: 13,5 cm; Diâmetro do círculo menor: 12,5 cm. FICHA 27. Referência do motivo 4 da rocha 11-G. 201 Número de identificação do motivo 5 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Serpentiforme Localização no painel Sobreposições • • Motivo sobreposto a: um podomorfo que detém características técnicas da quarta e quinta fases de gravação e um bucrânio de características da segunda e terceira fases de gravação (ver tabela de diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação); Motivos que o sobrepõem: nenhum. Tamanho Associa-se a um círculo que se enquadra entre quarta e a quinta fases de gravação, identicamente ao motivo serpentiforme n.º 5 da tabela. Comprimento: 35 cm Técnica Picotagem directa Observação Apresenta técnica situada entre a quarta e quinta fases de gravação da rocha. O número designado a este do motivo com relação a rocha é 78. Associações FICHA 28. Referência do motivo 5 da rocha 11-G. 202 Número de identificação do motivo 6 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Serpentiforme Localização no painel Sobreposições • • Motivo sobreposto a: uma forma oval enquadrada na quarta fase de gravação e com alguns caracteres da quinta fase de gravação da rocha, um antropomorfo esquemático situado na terceira fase de gravação da rocha e um idoliforme que possui técnica característica da quinta fase; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Associações Associa-se aos motivos que sobrepõe Tamanho Comprimento: 20 cm Técnica Picotagem directa Observação É o motivo número 197 com relação à rocha 11-G. A técnica indica que o motivo foi executado na quinta fase de gravação da rocha, o que é reafirmado por sobrepor um motivo (idoliforme) que possui as características técnicas também do último período de gravação da rocha – ambos foram gravados na quinta fase sendo a serpentiforme mais recente. FICHA 29. Referência do motivo 6 da rocha 11-G. 203 Número de identificação do motivo 7 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Serpentiforme Localização no painel Sobreposições • • Associações Tamanho Parece estar associado a um antropomorfo, sendo este relacionado, pela técnica empregada na gravação de picotagem indirecta e pelos resultados produzidos, à primeira fase de gravação da rocha. Comprimento: 30 cm Técnica Picotagem directa Observação É atribuído ao motivo o número 104 na rocha 11-G. O motivo parece ter sido gravado em duas fases. Portanto, é difícil estabelecer o período em que provavelmente fora gravado. Entretanto, a técnica empregada na maior parte do motivo se enquadra na quarta fase de gravação. Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. FICHA 30. Referência do motivo 7 da rocha 11-G. 204 Número de identificação do motivo 8 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Serpentiforme Localização no painel Sobreposições • • Associações Nenhuma Tamanho Comprimento: 17,5 cm Técnica Picotagem directa Observação O número do motivo com relação à rocha é 145. Possui técnicas características da quarta e quinta fases de gravação da rocha (ver tabela de diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação). Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhuma. FICHA 31. Referência do motivo 8 da rocha 11-G. 205 Número de identificação do motivo 9 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Serpentiforme Localização no painel Sobreposições • • Associações Nenhuma Tamanho Comprimento: 10 cm Técnica Picotagem directa Observação O número do motivo com relação à rocha é o 161. Suas características técnicas enquadramse entre a quarta e quinta fases de gravação (ver tabela de diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação). Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. FICHA 32. Referência do motivo 9 da rocha 11-G. 206 Número de identificação do motivo 10 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Podomorfo Localização no painel Sobreposições • • Motivo sobreposto a: uma figura de um trapézio preenchida em seu interior. Motivos que o sobrepõem: nenhum. Associações Pode estar associado à figura que sobrepõe Tamanho • • Técnica Picotagem directa Observação O número do motivo com relação à rocha é 82. Suas características técnicas se enquadram entre a quarta e quinta fases de gravação da rocha (ver tabela de diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação). Largura máxima: 19,5 cm; Altura máxima: 8,5 cm. FICHA 33. Referência do motivo 10 da rocha 11-G. 207 Número de identificação do motivo 11 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Podomorfo Localização no painel Sobreposições Associações Tamanho • Motivo sobreposto a: um bucrânio, da segunda ou terceira fase de gravação; • Motivos que o sobrepõem: serpentiforme n.º 5 da tabela e por um círculo de técnicas características da quarta e quinta fases de gravação. Associa-se provavelmente aos motivos sobrepostos e o que é sobreposto por ele • Largura média: 9 cm; • Altura máxima: 19,1 cm. Técnica Picotagem directa Observação O número designado por Gomes (2004) ao é 96. Apresenta técnica característica da quinta fase de gravação (ver tabela de diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação). FICHA 34. Referência do motivo 11 da rocha 11-G. 208 Número de identificação do motivo 12 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Podomorfo Localização no painel Sobreposições • • Associações Nenhuma específica Tamanho • • Técnica Picotagem directa Observação O número do motivo no painel é 176. motivo apresenta técnicas da terceira fase gravação desta rocha (ver tabela diversidade técnica relacionada com antiguidade da gravação). Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Largura máxima: 11 cm; Altura máxima: 23,5 cm. FICHA 35. Referência do motivo 12 da rocha 11-G. 209 O de de a Número de identificação do motivo 13 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Oval Localização no painel Sobreposições • • Associações Nenhuma específica Tamanho • • Técnica Picotagem directa Observação O número do motivo relacionado aos demais motivos situados no suporte é 171. A técnica com que foi gravado este motivo indica que pertence à quinta fase de gravação da rocha (ver tabela de diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação). Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Largura média: 7,4 cm; Altura máxima: 12,5 cm. FICHA 36. Referência do motivo 13 da rocha 11-G. 210 Número de identificação do motivo 14 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Meandro Localização no painel Sobreposições • • Associações Pela técnica e pela pânica, bem como pela proximidade, o motivo associa-se aos círculos unidos por uma linha que detém o n.º 17 da tabela. • Largura máxima: 8 cm; • Altura: 10 cm. Tamanho Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Técnica Picotagem directa Observação O motivo recebe o número 182 como identificação oficial no suporte 11-G. Pela técnica com que foi inciso enquadra-se na quarta fase de gravação da rocha (ver tabela de diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação). FICHA 37. Referência do motivo 14 da rocha 11-G. 211 Número de identificação do motivo 15 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Dois círculos ligados por uma linha Localização no painel Sobreposições • • Associações Nenhuma específica Tamanho • • Técnica Picotagem directa Observação Composto por dois círculos, o motivo é considerado, pela numeração de Gomes (2004), como dois motivos distintos. Cada círculo é numerado como sendo um motivo singular e seus números são 108 e 109, sendo que os dois círculos parecem formar um único motivo, tendo sido gravados ao mesmo tempo considerando as evidências da técnica empregada na incisão. Podemos concluir que são idênticas e, portanto, os dois círculos devem, de facto, fazer parte de uma única figuração. Enquadra-se, pela técnica de gravação que apresenta, na terceira fase de gravação da rocha. Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Diâmetro dos círculos: 5,5 cm; Comprimento: 13 cm. FICHA 38. Referência do motivo 15 da rocha 11-G. 212 Número de identificação do motivo 16 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Dois círculos ligados por uma linha Localização no painel Sobreposições • • Associações Nenhuma específica Tamanho • • • Técnica Picotagem directa Observação Assim como o motivo n.º 15 da tabela, o motivo se constitui por dois círculos que parecem formar um único motivo, embora seja enumerado por Gomes (2004) separadamente, sendo 67 e 81 seus números oficiais de identificação. Relaciona-se com a quarta fase de gravação, de acordo com a técnica empregada (ver tabela de diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação). Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Diâmetro do círculo esquerdo: 7,5 cm; Diâmetro do círculo direito: 8 cm; Comprimento: 16 cm. FICHA 39. Referência do motivo 16 da rocha 11-G. 213 Número de identificação do motivo 17 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Dois círculos ligados por uma linha Localização no painel Sobreposições • • Associações Associa-se ao meandro n.º 14 da tabela e também a uma figura oval. Estas associações são estipuladas não tanto pela proximidade, que existe, mas principalmente somando-se ao resultado da técnica empregada, que se mostra idêntica nestes motivos associados, e o grau semelhante de pátina. • Diâmetro do círculo esquerdo: 6 cm; • Diâmetro do círculo direito: 8 cm; • Comprimento: 8,4 cm Tamanho Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. Técnica Picotagem directa Observação Assim como os motivos n.º 15 e 16 da tabela, o motivo se constitui por dois círculos que parecem formar um único motivo, embora seja enumerado por Gomes (2004) separadamente, sendo 183 e 185 seus números oficiais de identificação. Relaciona-se, pela técnica empregada, à quarta fase de gravação da rocha 11-G (ver tabela de diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação). FICHA 40. Referência do motivo 17 da rocha 11-G. 214 Número de identificação do motivo 18 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Cìrculo Localização no painel Sobreposições • • Associações Tamanho Associa-se ao círculo n.º 19 e à figura oval n.º 4, ambos da tabela, e a um antropomorfo com características da quarta fase de gravação da rocha (ver tabela de diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação). • Diâmetro: 5 cm. Técnica Picotagem directa Observação Pela técnica de gravação foi inciso na quinta fase de gravação da rocha. Seu número oficial de identificação no suporte é 39. Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: nenhum. FICHA 41. Referência do motivo 18 da rocha 11-G. 215 Número de identificação do motivo 19 Fonte Mário Varela Gomes (2004) Sítio Gardete Painel nº 11-G Classificação Círculo Localização no painel Sobreposições • • Tamanho Motivo sobreposto a: nenhum; Motivos que o sobrepõem: a figura oval n.º 4 da tabela. Associa-se ao círculo n.º 18, à figura oval n.º 4, ambos da tabela, e a um antropomorfo com características da quarta fase de gravação da rocha (ver tabela de diversidade técnica relacionada com a antiguidade da gravação). • Diâmetro: 5,5 cm. Técnica Picotagem Observação Pela técnica de gravação, foi inciso na quinta fase de gravação da rocha. Seu número oficial de identificação no suporte é 40. Associações FICHA 42. Referência do motivo 19 da rocha 11-G. 216