“A CRUZ DO TABULEIRO” E “O EREMITA” DE AFONSO BEZERRA:
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Maria da Conceição Silva Dantas Monteiro (UERN)
[email protected]
Articular historicamente acontecimentos passados não significa
conhecê-los 'como propriamente aconteceram'. Significa apoderarse de uma memória, como ela relampagueia no momento de um
perigo.
Walter Benjamin
Considerações Iniciais
Este artigo é parte de um esforço coletivo na tentativa de estudar os textos literários,
de domínio público, abrigados no Portal da Memória Literária Potiguar. O portal é uma
importante ferramenta de divulgação da cultura e da literatura locais, pois armazena obras na
íntegra e partes de obras de autores de domínio público, bem como textos de autores mais
recentes, mas cuja família autorizou a divulgação.
Dar continuidade às pesquisas a fim de ampliar o conhecimento sobre temáticas locais
é um dos objetivos ambicionados pelo projeto ao qual este artigo se vincula. É míster ressaltar
que esse interesse não é recente, tendo em vista que estamos envolvidos com esse trabalho
desde a década de 1990, a partir do momento em que tivemos nosso primeiro contato com a
Literatura Brasileira, produzida especificamente no estado do Rio Grande do Norte, e ainda
durante a graduação (1995-1998), quando participamos de uma Base de Pesquisa, na
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que tem como um dos focos discussões sobre
Literatura e cultura locais, no contexto da Modernidade1.
A experiência com a pesquisa, durante a graduação, nos possibilitou o ingresso no
mestrado em 1999 e a partir de então passamos a realizar estudos e direcionar, ainda mais,
nosso olhar para esta área de interesse. Produzimos nossa Dissertação (DANTAS
MONTEIRO, 2003), apresentamos trabalhos em eventos, publicamos capítulos de livros e
artigos em revistas (Cf. DANTAS MONTEIRO, 2010, 2011), dentre outras atividades
envolvendo a Literatura do Rio Grande do Norte. E, atualmente, como professora da
Universidade do Estado do Rio Grande do Norte2, passamos a nos dedicar de forma mais
específica ao estudo e à pesquisa dessa literatura, pois acreditamos que conhecer a memória
cultural de um povo é condição fundamental para construirmos nossa identidade, e sendo a
literatura um elemento constitutivo da cultura, segundo Candido (2002), tem uma importante
função humanizadora. Por isso, a relevância desse trabalho, que se preocupa em estudar a
literatura e a memória cultural locais. Então, por compreender que a literatura funciona como
elemento formador do homem (CANDIDO, 2002) e está relacionada diretamente à memória
cultural, é que nos propomos a pesquisar, refletir e escrever artigos como esse, porque desse
1
Grupo de Pesquisa Estudos da Modernidade: processos de formação cultural, coordenado pelo Prof. Dr.
Humberto Hermenegildo de Araújo, que também coordena o Núcleo Câmara Cascudo de Estudos Norte-riograndenses (NCCEN/UFRN) do qual somos membro.
2
Pretendemos, também, com esse trabalho contribuir para a consolidação da linha de pesquisa “Literatura,
Ensino e Memória Cultural”, do grupo de pesquisa ao qual estamos vinculados: Práticas Discursivas,
Linguagens e Ensino (PRADILE), certificado pela UERN e pelo CNPq.
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modo poderemos colaborar com o levantamento, sistematização e análise de textos literários
abrigados no portal.
Estão disponíveis atualmente no Portal da Memória Literária Potiguar
(www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria) 16 textos - entre contos e crônicas - do escritor norterio-grandense Afonso Bezerra, dos quais foram selecionados 02 para leitura e análise, neste
primeiro momento. Dos 16 textos postados 05 foram publicados originalmente em revistas do
Rio Grande do Norte e de outros estados do Brasil, 10 foram publicados em jornais locais ou
nacionais, e 01 não teve sua fonte divulgada. Eis um quadro com a listagem dos textos:
“Primeira Comunhão”
“O orvalho”
“O eremita”
“Rasga-mortalha”
“A cruz da estrada”
“O viajante”
“A Ressurreição”
“Visagem”
“No rancho dos Bentinhos”
“Tapera”
“Poldro brabo”
“A caçada”
“Mordido de cobra”
“Quirino Pereira”
“A cruz do tabuleiro”
“Noite de São João”
O Beija-Flor / Rio de Janeiro (RJ)
16/04/1925
O Beija-Flor / Rio de Janeiro (RJ)
1°/07/1925
Letras Novas / Natal (RN)
Set./1925
Diário de Natal / Natal (RN)
04/02/1928
Vida Nova / Rio de Janeiro (RJ)
20/10/1928
Diário de Natal / Natal (RN)
26/02/1928
Diário de Natal / Natal (RN)
27/03/1928
Diário de Natal / Natal (RN)
08/04/1928
Diário de Natal / Natal (RN)
21/04/1928
Revista Excelsior / Rio de Janeiro (RJ)
s/d
Diário de Natal / Natal (RN)
03/06/1928
Diário de Natal / Natal (RN)
02/10/1928
Diário de Natal / Natal (RN)
17/11/1928
Diário de Natal / Natal (RN)
13/03/1929
Diário de Natal / Natal (RN)
25/05/1929
Diário da Manhã / Recife (PE)
07/09/1929
Diário da Manhã / Recife (PE)
17/11/1929
s/f
s/d
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Afonso Ligório Bezerra nasceu no dia 09 de junho de 1907, em Carapebas (hoje, Afonso
Bezerra/RN), filho de João Batista Alves Bezerra e Maria Monteiro Bezerra. A sua produção
literária foi publicada no livro Afonso Bezerra: ensaios,
contos e crônicas, obra póstuma. Segundo Santos (2001), a
personalidade do precoce Afonso Bezerra apresentava as
seguintes características:
Impressionante figura de polígrafo (com uma proeminência da
sua veia de crítico cristão, influenciado pelo Centro Dom Vital),
chegou a publicar pela imprensa uma interessante sucessão de
artigos, críticas e contos regionalistas. Estes últimos, como
perceberam alguns estudiosos, próximos da prosa do grande
regionalista goiano Hugo de Carvalho Ramos (…).
Este artigo apresenta, inicialmente, uma leitura da
crônica “A cruz do tabuleiro”, publicada no jornal Diário da Manhã, de Recife (PE), em 17
de novembro de 19293.
O título do texto remete a dois elementos: a cruz, símbolo da religião cristã e da
igreja católica e tabuleiro “planalto pouco elevado, arenoso e de vegetação rasteira”
(FERREIRA, 2001, p. 697).
Tradição e memorialismo em “A cruz do tabuleiro”
Narrada em primeira pessoa, a crônica “A cruz do tabuleiro” trata de um antigo
costume sertanejo: fincar cruzes para marcar o local onde ocorreu uma morte. Símbolo maior
da religiosidade cristã, a cruz, que representa o “signo da nossa fé tradicional”, pode
representar também o lugar no qual se encontra um grande mistério: quem teria morrido ali e
por quê? A cruz é denominada, pelo narrador, como sendo a “sentinela incansável de uma
sepultura abandonada, ponto final de uma existência obscura, pontos de interrogação, marco
derradeiro de uma vida que se findou, sacrário do passado, pedestal”, ela ainda “simboliza
uma época” e é posta na crônica como “ imagem sugestiva de uma era de preconceitos”.
Todos esses títulos atribuídos à cruz mostram a sua relevância para a cultura
sertaneja e reforçam a ideia de que a fé está presente tanto na vida quanto na morte dos que
vivem no sertão. A morte, assim como a cruz, é sacralizada pelo sertanejo; o narrador, como
seu porta-voz, traduz isso em palavras, pois ao ler a crônica temos a impressão de que para o
homem do sertão a morte é o momento mais importante de sua vida.
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No trecho do prefácio do livro de Afonso Bezerra, Nilo Pereira destaca: “As figuras ingênuas, os mitos, as
assombrações, a chuva, a seca, a barbárie temperada pelo lirismo do povo, a música das toadas plangentes, o
canto da terra, o trágico luar sobre campos devastados, o perigo das cobras, o primarismo instintivo, o que há de
resignado e simplório numa gente humilde e desprevenida, a fé em Deus – tudo isso é a atmosfera dos contos, a
substância da sua ficção. Esses contos, muitos deles, vi-lhos escrever. Traçava antes o plano da sua criação. E
vivia de tal modo a sua fantasia que me deu sempre a impressão de que apenas trazia a realidade para o gênero
literário predileto. Era assim mesmo: a realidade lhe fornecia o tema, refazendo no seu espírito o drama da
pobreza e da resignação, que é ainda hoje o mesmo”.
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A crônica recupera um momento único da fé do sertanejo, um ritual que atravessou
os anos e permanece vivo na memória do povo das comunidades mais afastadas: o ato de
reverenciar a cruz onde quer que ela esteja. O narrador compara o sertanejo a sua terra: “Tudo
isso é coisa somente para os filhos daqueles rincões, onde o solo crestado e granítico parece
ter moldado o caráter do homem à sua imagem e semelhança”.
No parágrafo inicial da crônica é apresentado o cenário do sertão: “Em pleno coração
do tabuleiro calcinado pelas soalheiras ignescentes, onde apenas florescem, ao banho
procriador das invernias, juremas e pereiros, marmeleiros e favelas de permeio com o lençol
ondulante do panasco, rendilhado de cactos e macambiras...”. Os elementos da flora da região
se sobressaem como uma estratégia do narrador para envolver o leitor e transportá-lo para o
universo descrito. A monotonia da história pode ser entendida como metáfora para representar
a calmaria do sertão e a melancolia instaurada pela presença da morte; o ambiente tem ares de
sepulcro e isso determinaria o ritmo utilizado para narrar e pode estar associado à própria
atividade narrativa.
O narrador antecipa e/ou prevê o que irá acontecer ao longo da história; ele se
apresenta como uma espécie de “dono do destino” das personagens (a cruz/o sertanejo/ele
próprio). Ele narra tentando manter a “distância estética” (ADORNO, 2008, p. 61) e se
apropria de termos do repertório religioso como estratégia para convencer sobre o que
escreve, conduz o leitor pelas veredas do sertão e apresenta elementos que compõem o
ambiente local. Como um elemento constituinte daquele espaço ela aparece: “lá está a cruz
como simplesmente a crismou a memória popular, sozinha, sentinela incansável de uma
sepultura abandonada”.
Vários aspectos podem e devem ser destacados no texto. Eles podem revelar
elementos da cultura sertaneja como, por exemplo, detalhes de um rito secular, que aparece no
texto como um gesto aparentemente corriqueiro, e até banal, quase automatizado pela
repetição; mas é relevante pensar sobre a sua origem, e o texto nos conduz a esse caminho. O
gênero crônica, enquanto “lugar de memória” na concepção de LE GOFF (1994), nos fornece
dados a respeito de algo que está cristalizado na cultura sertaneja.
É provável que o hábito de fincar cruzes tenha surgido há muitos séculos. Esse
costume enraizado na fé e na cultura, principalmente do sertanejo, provavelmente foi trazido
da Península Ibérica (Portugal, Espanha e Andorra) muito tempo atrás. Todavia, no hipogeu
(sepultura subterrânea) dos Aurélio, em Roma, datado de fins do século II ou começo do
século III, acha-se um afresco que apresenta um personagem apontando respeitosamente o
sinal da Cruz. Assim, a âncora, por exemplo, que representava ao mesmo tempo a cruz e a
esperança decorrente da Cruz (Cf. Hb 6; 19), se encontra nos recintos mais antigos das
catacumbas romanas, grafada em lápides de sepulcros ou pintada sobre monumentos que
podem ser atribuídos ao século I. O gesto de por pedras sobre a cruz do morto (para que o
peso das pedras diminua seus pecados) é igualmente antigo e também tem origem,
provavelmente, na Península Ibérica há muitos séculos atrás. Com o passar do tempo, todos
esses costumes foram incorporados ao universo do sertão, isto é, à cultura sertaneja.
Na crônica, “A cruz do tabuleiro”, o ritual de reverência à cruz é descrito com
precisão pelo narrador como se ele, assim como a cruz, também estivesse fincado ao chão:
“arreda da cabeça o chapelão de couro, e não raro balbucia uma prece íntima, para depois
acrescentar mais uma ao montículo de pedra que a superstição dos transeuntes lhe erigiu em
pedestal.”
O cenário é composto por uma sequência de imagens que remetem ao sertão com
todas as suas intempéries. Dois sertões são sugeridos pelo narrador: o primeiro chovido, com
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verde, mas desabitado, desértico. Outro cinza, sem qualquer sinal de vida. Apenas a morte se
faz presente e é representada pela cruz, que perpassa os dois ambientes descritos ao longo da
narrativa. Ela é símbolo de resistência da cultura sertaneja e do homem do sertão, que, embora
tenha sua vida curta, ao morrer permanece, ou seja, passa a ser percebido através da cruz que,
por tradição, o representa. O ambiente também é descrito como um lugar de difícil
sobrevivência. Percebe-se uma preocupação em descrevê-lo como forma de perpetuar o
descrito, nesse sentido, o homem e o meio se metamorfoseiam em um: o Homem-Terra.
A partir da leitura do texto poder-se-ia dizer que a imagem criada do homem é a de
um sertanejo corajoso, que é, diariamente, desafiado pela presença constante da morte, por
isso o homem do sertão vive o hoje sem procurar refletir sobre o passado ou o futuro: “Para
ele o pretérito é um mistério que não procura desvendar, assim como o porvir é um enigma
que o não preocupa.” Assim, mesmo vivendo a mercê dos perigos que o cercam, inserido em
um ambiente absolutamente inóspito, o homem do sertão sobrevive.
Na perspectiva do narrador, o sertanejo tem o futuro incerto, mas é mostrado como
um ser inserido no contexto e “conformado” com sua realidade. “Alma ingenuamente
religiosa (...) Passa mudo, e só”. E então fica o questionamento: o que mata no sertão? As
causas são diversas, a crônica suscita várias possibilidades: a seca, a violência, catástrofes
naturais como as cheias, os raios, a desertificação e até as provocadas pelo próprio sertanejo,
pelo seu meio e forma de vida, tais como: as rivalidades, as rixas, o cangaço e outros fatores
que causam a mortandade precoce.
Se fôssemos estabelecer uma comparação entre a crônica e um filme qualquer,
poderíamos dizer que não há, ao longo da narrativa, apenas um antagonista, o que há são
antagonistas (o ambiente insalubre; a morte; a seca; o banditismo). A morte, a exemplo do
sertão, pode ser antagonista e protagonista, pois poupa o homem do sofrimento, liberta-o.
Diante do exposto vem o questionamento: quem é o narrador? Um homem do sertão ou um
transeunte? Ao que parece, trata-se de um conhecedor dos costumes da região: “Como o
homem do campo, eu não quero desvendar a cortina que a protege contra os olhares da
curiosidade ambiente. Não a incomodemos com os extemporâneos inquéritos de decifradores
de enigmas históricos”.
A religiosidade do sertanejo é representada no texto como fio condutor de todas as
atividades de sua vida, a única coisa que o legitima como homem e como ser próximo de
Deus: “Alma ingenuamente religiosa, ao defrontar com ela, arreda da cabeça o chapelão de
couro, e não raro balbucia uma prece íntima, para depois acrescentar mais uma ao montículo
de pedra que a superstição dos transeuntes lhe erigiu em pedestal.”
A língua, enquanto fenômeno sociocultural, pode representar a tradição da região, ou
seja, a escolha lexical concretiza o jeito de falar do sertanejo, os termos empregados remetem
ao vocabulário daquele cotidiano. A escrita mostra o domínio da linguagem culta, no entanto,
o narrador opta por fazer também uso da linguagem “coloquial”, a qual era naturalmente
falada pelos que viviam naquele espaço/tempo, revelando todo o conhecimento que ele
demonstra ter sobre temáticas que co-habitam o imaginário do sertão. Os costumes, os mitos,
as lendas, enfim o dito e o sugerido no texto em estudo.
A crônica instiga o leitor a refletir sobre o lugar que a religiosidade ocupa na cultura
sertaneja. O texto é permeado por palavras como: tabuleiro, favela, erigiu, perquirem, etc.,
reforçando a ideia de que os vocábulos compõem um repertório tradicionalmente sertanejo
e/ou local. Mas afinal, qual a intenção do narrador? Provocar reflexões sobre a morte ou
apenas discutir acerca de aspectos da religiosidade e da fé do povo sertanejo?
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Muitas são as perguntas lançadas pelo leitor ao longo do texto: o que a cruz
representa para a cultura (cristã) brasileira e, sobretudo, para a sertaneja/nordestina e norterio-grandense? Será que a opção pelo gênero crônica é também uma tentativa de instaurar
uma tradição? A temática escolhida pelo cronista indica uma forma de cristalizar a tradição?
O que o autor desejava afinal? Qual o seu objetivo, sua intenção? Exercer o papel de guardião
dessa cultura?
Diversas respostas poderão surgir a cada pergunta que ecoa. Resta saber, porém, se
elas são, de fato capazes de calar tantas indagações. Mas, de uma coisa tem-se a certeza: de
que a crônica, enquanto documento (LE GOFF, 1994), registra e guarda histórias para outras
gerações e isso acaba permitindo fazer reflexões sobre a época em que foi escrita. Nesse
sentido, afirma BENJAMIN (1985, p. 223) “O cronista que narra os acontecimentos, sem
distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia
aconteceu pode ser considerado perdido para a história”.
“O eremita”: fé, memorialismo e tradição na cultura sertaneja
O conto “O eremita”, publicado na Revista Letras Novas, em setembro de 1925,
relata a angustiante espera de um homem pela morte, ciente de que seu último suspiro seria
dado naquele lugar e, naquele momento, ele reflete sobre algo que o perseguiu a vida inteira:
a solidão.
“Eremita”, conforme Aurélio Buarque de Holanda, significa “quem vive só, em lugar
ermo, por penitência” (FERREIRA, 2001, p. 277). No entanto, o que na vida foi uma opção,
na hora da morte tornou-se um problema, pois na cultura cristã e na sertaneja, sobretudo, é
senso comum acreditar que quem morrer só, sem luz, permanecerá na escuridão. Por isso os
“últimos instantes” que antecedem a morte de um eremita servem de matéria para esse conto,
o qual provoca, também no leitor, reflexões acerca da vida e da morte: o que fazemos vivos
influencia na morte? Por que aquele homem que passou a vida inteira só, por opção, no
momento de sua morte lamenta-se da solidão?
Presente na memória e na tradição do sertão, o ritual de velar os moribundos era algo
sagrado para o eremita; mas ele não teve a mesma sorte e via se aproximar sua hora, sozinho.
Mesmo assim preparava-se para a morte, justamente ele, o missionário que foi responsável
por “encomendar” tantas almas, na hora em que precisava, não tinha quem o fizesse por ele:
“Com o crucifixo aconchegado ao peito, velando-lhe o leito mortuário, velha tábua nua,
companheira de suas vigílias”.
Refletir sobre elementos que remetem à memória do povo sertanejo é pensar em
uma cultura pautada numa tradição secular, herdada dos nativos, europeus e africanos que
habitaram e povoaram essa região, por isso acreditamos estar nosso pensamento coerente com
o de Candido (1997, p. 24) quando afirma que tradição é a “Transmissão de algo entre os
homens, é o conjunto de elementos transmitidos, formando padrões que se impõem ao
pensamento ou ao comportamento”. A fé e a religiosidade do eremita, sua escolha para ser um
“servo do Senhor”, ou seja, um representante da religião católica estão enraizadas em muitos
e muitos anos de tradição, segundo a acepção referida.
Em “O eremita” o narrador observa o ambiente e o descreve de modo que o leitor
crie imagens do lugar no qual tudo aconteceu: “Alta noite. (...) apenas à luz bruxuleante do
pequeno candieiro, o eremita agonizava naquela solidão,”. Gradativamente, o sentimento de
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morte se apropria do religioso: “A agonia aumentava... O santo solitário sentiu que ia, em
muito breve, morrer...”. É provável que haja uma cruz no lugar (tabuleiro) onde o eremita
morreu, pois ele, assim como a cruz, também era solitário e vivia no tabuleiro.
O conto contém elementos comuns ao primeiro texto, a crônica “A cruz do
tabuleiro”, tais como: morte, solidão, religiosidade e a tradição, que é mantida pelo eremita,
homem resignado, que prefere morrer sozinho a ter de abrir mão de sua fé, que se abastece e
se mantém pautada na tradição. O estabelecimento do diálogo entre os dois textos demonstra
que é possível aproximar dois gêneros distintos a partir de uma temática em comum.
O texto é inundado por vocábulos que revelam toda a religiosidade que permeia o
conto, por isso termos do repertório religioso e/ou cristão tais como: “crucifixo, Jesus, religião
de Cristo, Supremo Rei, querubim, Deus, mensageiro celeste, anjo e céu” aparecem e
demarcam a escolha lexical do narrador, mostrando que mais importante do que contar é
como contar, “pois contar algo significa ter algo especial para dizer” (ADORNO, 2008, p.
56).
O memorialismo do sertanejo é registrado pelo escritor que, utilizando uma
linguagem próxima do coloquialismo, é um narrador onisciente, escreve as histórias narradas
pelo povo de seu lugar. O imaginário popular repleto de histórias possibilitou ao escritor
mostrar parte do cotidiano do sertão com suas lendas e seus mitos.
Será que é apenas uma questão de tradição como na outra história (colocar a
cruz/velar o momento da morte)? De fato, não fica claro, sabe-se apenas que o narrador
registra o momento mais importante na vida de um homem, que é o da sua morte.
No instante em que daria seu suspiro final: “... uma claridade sobrenatural inundou a
pequena cela, indo ofuscar o brilho apagado de seus olhos. (...) – Era um querubim, enviado
por Deus, que vinha assistir a exalação de seu último suspiro!” A fé do eremita lhe permite
acreditar que um anjo estaria velando o momento de sua morte...
Quando o eremita morreu, finalmente, aparece uma sequência de belas metáforas
presentes na escritura do texto: “Morreu... A voz do mensageiro celeste, no ofício dos mortos,
ecoou por aquelas florestas longínquas que pareciam chorar, no farfalhar melancólico de suas
folhas, o vácuo impreenchível que a seta da fatalidade acabava de abrir em seus domínios
seculares...”. Será que uma cruz marcou o lugar onde o eremita morreu?
Considerações Finais
Esse estudo visa contribuir para o estudo sistemático da literatura produzida
especificamente no Rio Grande do Norte e que se encontra disponível no Portal da Memória
Literária Potiguar (www.mcc.ufrn.br/portaldamemoria), bem como para a consolidação da
linha de pesquisa “Literatura, Ensino e Memória Cultural”, do grupo de Pesquisa
PRADILE/UERN. Sugerimos como possibilidade de estudo/pesquisa a continuidade da
leitura e análise dos textos de Afonso Bezerra e dos demais autores inseridos no portal, pois a
partir desse trabalho poderemos compreender melhor ou quem sabe até (re)construir uma
história da literatura local.
Esse trabalho pretende, portanto, incluir os textos literários do escritor norte-riograndense Afonso Bezerra, os quais ainda não foram estudados, como exemplos de
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permanência e de continuidade, possuidores de uma tradição, no sentido do que esta última
palavra representa para T. S. Eliot (1997) quando se refere à concordância entre o “velho e o
novo”. Neste caso, ressalta-se a necessidade da comparação com autores do mesmo período
ou da mesma temática, o que não foi possível realizar nos limites deste trabalho.
Partindo do princípio de que “monumento é tudo aquilo que pode evocar o passado,
perpetuar a recordação” (LE GOFF, 1994, p. 535), acreditamos serem os textos de Afonso
Bezerra, selecionados para esse trabalho, exemplos de “monumentos”, tendo em vista sua
relação com o passado (tempo no qual foram escritos) e o presente (período em que estão
sendo estudados). Tais textos podem ser considerados, portanto, como “um legado à memória
coletiva” (LE GOFF, 1994, p. 536).
É importante ressaltar que antes do início dos anos 1920, não havia no Rio Grande do
Norte uma forte tradição literária – segundo Araújo (1995), alguns autores escreviam suas
obras, mas de forma isolada, pois não estavam organizados em grupos, não tinham
consciência coletiva daquilo que estava sendo produzido. Nomes como Ferreira Itajubá, Auta
de Souza, Henrique Castriciano, Eloy de Souza e outros não estavam ainda plenamente
integrados a um sistema literário no sentido que lhe dá Antonio Candido (1997), embora já
figurassem de algum modo nesse sistema. Tais obras se aproximam mais, portanto, do
estatuto de “manifestações literárias” pelo fato de não dialogarem entre si, isto é, não haver
entre elas uma consistente ligação do ponto de vista estético, histórico ou formal. Segundo T.
S. Eliot, essas bases (estruturas) devem estar sempre prontas para receber e “abarcar” todas as
produções e é nisto que consiste a tradição: “Os momentos existentes formam uma ordem
ideal, a qual é modificada pela introdução da nova, da verdadeiramente nova, obra de arte”
(ELIOT, 1997, p. 23).
Ainda nesse sentido, podemos afirmar que
Foi somente a partir do Modernismo – movimento cultural amplamente
divulgado no Brasil –, através da ação cultural de Câmara Cascudo e do
intercâmbio com os grandes centros urbanos, que os potiguares passaram a
ter consciência de seu papel, enquanto escritores, e a partir de então poderse-ia dizer que se iniciou um maior diálogo com a literatura produzida em
outros centros de difusão cultural. (DANTAS MONTEIRO, 2003, p. 22)
Segundo Araújo (2004, p. 92), no artigo “Pós-românticos no Rio Grande do Norte”,
Luís da Câmara Cascudo estava empenhado em “sistematizar”, organizar e registrar a
produção literária potiguar:
O ensaísta Câmara Cascudo, seguindo uma linha geral do pensamento da
intelectualidade brasileira do século XX, promoveu na sua obra uma
combinação da literatura com outras disciplinas das ciências humanas, no
que resultou um modo singular de perceber o Brasil [...] Câmara Cascudo
demonstrou o desejo de sistematizar a produção literária local, chegando
mesmo a deixar inédita uma “História da literatura norte-rio-grandense, [...]
Para Candido (2002, p. 87), quando se trata do texto literário, o dado local “se vai
modificando e adaptando, superando as formas mais grosseiras até dar a impressão de que se
dissolveu na generalidade dos temas universais”, isso nos mostra que na visão do crítico, local
e universal devem se harmonizar no contexto da obra literária.
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A leitura da crônica “A cruz do tabuleiro” e do conto “O eremita” foi pautada em
nossa vivência e conhecimento de mundo. Por se tratar de um trabalho pioneiro, tendo em
vista que pouco da obra do autor foi estudado, acreditamos haver muitas outras relações que
ainda não foram estabelecidas. São essas, portanto, nossas primeiras impressões, as quais
ainda precisam ser retomadas e discutidas.Tentamos ao longo da escritura do artigo não nos
distanciar do foco que são as questões locais, sem, no entanto, perdermos o vínculo com o
nacional, pois como propõe Antonio Candido:
Trata-se de um caso privilegiado para estudar o papel da literatura num país
em formação, que procura a sua identidade através da variação dos termos e
da fixação da linguagem, oscilando para isto entre adesão aos modelos
europeus e a pesquisa de aspectos locais (2002, p. 86).
Referências
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ARAÚJO, H. H. Modernismo: anos 20 no Rio Grande do Norte. Natal: EDUFRN, 1995.
ARAÚJO, H. H. Pós-românticos no Rio Grande do Norte. In: Múltipla palavra: ensaios de
literatura. João Pessoa: Idéia, 2004.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da
cultura. Tradução de Paulo Sérgio Rouanete. São Paulo: Brasiliense, 1985.
BEZERRA, Afonso. Afonso Bezerra: ensaios, contos e crônicas. Pesquisa, Introdução e
Notas de Manoel Rodrigues de Melo. Rio de Janeiro: Pongetti, 1967.
BÍBLIA SAGRADA. Tradução João Ferreira de Almeida. Barueri/SP: 1993.
CANDIDO, A. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Belo Horizonte:
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CANDIDO, A. A literatura e a formação do homem. In: Textos de intervencão. Seleção,
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FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Século XXI: o minidicionário da
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LE GOFF, Jacques. História e memória. Tradução de Bernardo Leitão [et al]. 3. ed.
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Maria da Conceio Silva Dantas Monteiro