O Mercado de Trabalho e o Bacharel em Turismo – Estudo das Empresas Turísticas do Vale do Paranhana e Cidades Vizinhas Ivone dos Passos Maio 1 Faculdades Integradas de Taquara - FACCAT. Resumo: Este trabalho traz os resultados de uma pesquisa realizada nos municípios de Taquara, Igrejinha, Três Coroas, Parobé, Santo Antônio da Patrulha e São Francisco de Paula sobre a inserção do Bacharel em Turismo no mercado turístico destas localidades. Para tanto, num primeiro momento, foram pesquisadas agências de viagem, transportadoras turísticas e meios de hospedagem. Os resultados mostram que há baixa inserção destes profissionais nas empresas pesquisadas, inclusive no nível de estágio, quando estes ainda estão em formação. A pesquisa também busca compreender os motivos que justificam tal realidade. Palavras-chave: Bacharel em Turismo; mercado de trabalho; empresas turísticas. Introdução Muito se discute sobre a formação do Bacharel em Turismo e a relação deste profissional com o mercado de trabalho. O próprio curso de Bacharelado em Turismo surge no Brasil na década de 1970 a partir da idéia de que este seria um novo “filão de mercado”. Tida como a profissão do futuro, aliada talvez ao imaginário das viagens, o curso de turismo começa a ser oferecido em todo Brasil, chegando nos últimos anos a números assustadores. Ao longo destas quarenta décadas muito se evoluiu nos currículos, planos de curso e também em produção científica na área, porém a colocação no mercado do Bacharel em Turismo ainda está bastante aquém do desejado pelos estudantes e egressos. Este talvez possa ser apontado como um dos motivos pela diminuição na oferta de cursos após um boom no início dos anos 2000. Observa-se também, de forma empírica a baixa procura pelos cursos de graduação na área, obrigando cursos 1 Bacharel em Turismo pela PUCRS, Mestre em Turismo pela UCS, professora do curso de Turismo da FACCAT e técnica da Secretaria de Turismo de Porto Alegre. [email protected] tradicionais do Estado como o da PUCRS (Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul) a repensarem suas estruturas curriculares tornando-as mais enxutas. O foco deste trabalho está na inserção dos bacharéis em turismo no mercado de trabalho, a área de estudo compreende as cidades de Taquara, Parobé, Igrejinha, Três Coroas, Santo Antônio da Patrulha e São Francisco de Paula. Os quatro primeiros municípios citados fazem parte do Vale do Paranhana região que abriga as Faculdades Integradas de Taquara, instituição de ensino que atuo desde 2005. Os outros dois município foram incluídos na pesquisa por se constituírem em importantes emissores de alunos para o curso de Turismo da FACCAT e em especial São Francisco de Paula por sua relevância como destino turístico no Estado. Pode-se destacar como objetivos deste estudo: • Verificar se é de conhecimento do empresariado local a existência de uma formação superior em turismo; • Verificar se é de conhecimento do empresariado local as áreas de atuação ou funções que um Bacharel em Turismo é capaz de atuar; • Investigar se as empresas turísticas das cidades selecionadas possuem bacharéis em Turismo no seu quadro de funcionários e se contratam estagiários da área; • Analisar a opinião do empresariado com relação à contratação do Bacharel em Turismo. Para cumprir esta análise, em primeiro lugar faz-se uma breve abordagem sobre a formação superior em Turismo, seguida de colocações sobre o mercado de trabalho do turismo. Por último, lança-se alguns resultados alcançados na pesquisa, ressaltando que esta é ainda uma análise preliminar. Formação nos Cursos Superiores de Turismo O primeiro curso superior de turismo no Brasil surge em São Paulo, em 1971, na Faculdade Morumbi (hoje, Anhambi-Morumbi), instituição privada (REJOWSKI, 1999). O Curso surge a partir de uma pesquisa de mercado que verificou uma demanda interessada nessa formação, portanto cabe ressaltar que o Curso de Turismo não surge por uma maturidade da disciplina Turismo, ou da produção científica gerada neste campo de estudo. Ao contrário, os primeiros cursos de turismo iriam enfrentar dificuldades de encontrar referenciais teóricos que sustentassem seus programas. Foi no Rio Grande do Sul que surgiu o segundo curso superior de Turismo, em 1972 na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). O curso da PUCRS estava vinculado a então Faculdade dos Meios de Comunicação Social, FAMECOS. O site do curso ao contar sua própria história afirma que o curso: surgiu como decorrência das necessidades levantadas pelo Plano Regional de Turismo da Região Sul, realizada em 1970/71 pela Superintendência de Desenvolvimento Econômico do Extremo Sul- SUDESUL. (...) ...em 1971 foram realizadas reuniões com o TRADE e turístico local e colhidas informações sobre um projeto semelhante criado na PUC de Petrópolis, no Rio de Janeiro. A proposta elaborada previa o preparo de técnicos, planejadores e pesquisadores que qualificassem a infra-estrutura local para o Turismo. Em nível Federal estava sendo criada a Empresa Brasileira de Turismo , EMBRATUR. Já no Rio Grande do Sul, surgia o Sistema Estadual de Turismo, criando um ambiente apto para a efetivação do curso de Turismo.( http://www.pucrs.br/face/turismo) Pode-se perceber então que o curso da PUCRS surge a partir de uma série de condicionantes políticas e de mercado e não a partir da produção científica e acadêmica da área de turismo. Este quadro retrata o surgimento dos cursos de Turismo em todo o Brasil, situação vista por Moesch (2000) como a primazia do fazer-saber ante ao saberfazer. Ou seja, a prática se sobrepõe ao conhecimento sobre o turismo na formação dos cursos superiores de Turismo, assim como no desenvolvimento da atividade. No contexto mundial na década de 1970, há uma abordagem do Turismo como uma atividade geradora de benefícios e de possível “salvadora” das economias subdesenvolvidas, ideia difundida especialmente pelos organismos internacionais de desenvolvimento (Barretto, 2003). Na realidade, esta era uma superestimação da atividade turística, se é que houve tal ingenuidade. No Brasil, também há uma valorização da atividade turística, como no suplemento especial da revista Quatro Rodas de 1972 intitulado Turismo – o bom negócio (BRASIL, 2009) Durante toda a década de 1970 irão surgir cursos de Turismo pelo Brasil, como por exemplo, em São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco (REJOWSKI 1999). Porém, até o fim de 1976 o número total de cursos não passava de uma dezena (ANSARAH, 2002). O levantamento de dados a respeito do número de cursos de Turismo e Hotelaria no Brasil pode ser visualizado na tabela abaixo: Ano Número de Cursos de Turismo e Hotelaria no Brasil Número de Cursos na Região Sul 1994 41 8 1996 51 8 2000 298 47 2002 339 62 Tabela 1: Número de cursos de Turismo no Brasil e Região Sul. Fonte: Adaptado de ANSARAH 2002. Alguns dados apontam que por volta de 2003, o número de cursos de Turismo e Hotelaria chegou a mais de 600 em todo o Brasil, posteriormente, a partir de 2004, tevese uma diminuição do número de programas por todo o país (BRASIL, 2009). O crescimento dos cursos superiores de Turismo no Brasil nos anos de 1990 e 2000 talvez possa ser justificado pelo crescimento do turismo tanto no Brasil quanto no mundo inteiro e a forte expectativa que este fato criou. Mas afinal, quais são as habilidades e competências desenvolvidas no curso de Turismo? E ainda, quais as áreas de atuação profissional do egresso deste curso? Nas Diretrizes Curriculares para os cursos de graduação em Turismo (Resolução no. 13 de 24 de novembro de 2006) é apontado que o perfil desejado do graduado inclui capacidade e aptidão para compreender as questões científicas, técnicas, sociais, culturais e econômicas relacionadas com o mercado turístico. De acordo com este perfil, pode-se perceber a necessidade de um estudo amplo e inter ou transdisciplinar do fenômeno turístico. Também em conformidade com as múltiplas disciplinas que contribuem para o estudo do fenômeno turístico, as habilidades e competências esperadas do egresso do curso de Turismo são muitas – 19 ao todo. Não se pretende citar a todas, mas vale sinalizar que elas abordam temáticas que giram em torno de: • Planejamento Turístico em diferentes níveis; • Execução de Planos e Projetos Turísticos; • Atuação em Empresas Turísticas diversas: meios de hospedagem, agência de viagens, transportadoras, empresa promotoras de eventos; • Domínio de diferentes idiomas; • Profunda vivência e conhecimento das relações humanas. As diretrizes curriculares prevêem como obrigatório o Estágio curricular nos cursos de graduação em turismo. A experiência de estágio seria a oportunidade para o aluno desenvolver a relação teoria-prática, além de uma aproximação desejada com o mercado turístico. Para Ansarah (2002) profissionais formados são essenciais ao mercado turístico. Para esta autora, para um bom desempenho nas empresas turísticas o profissional precisará “de determinação, criatividade, visão, disposição para inovar, confiança em si mesmo e nas suas idéias, paciência e preparação apropriada” (ibid p.41). Já Ruschmann (apud PAIXÃO E GANDARA s/d) relaciona a qualificação profissional com responsabilidade socioambiental. Defendendo que para que haja desenvolvimento sustentável em turismo há que se capacitar os recursos humanos. Uma vez revistas as diretrizes que orientam a formação profissional em turismo, quais são as habilidades e competências que os cursos de Turismo devem desenvolver, é necessário conhecer a atuação no mercado turístico do profissional que passou por tal formação. É o que se aborda a seguir. Mercado de trabalho para o Turismólogo Sabe-se que o Turismo em muito transcende a dimensão econômica e comercial. O turismo, entendido como um fenômeno social, revela muito sobre a sociedade, seus costumes e valores conforme teorizou Urry (2001). Além disso, o fenõmeno turístico é complexo e multifacetado, envolvendo questões do universo da Ecologia, da Antropologia, da Sociologia entre outras (JAFARI apud PANOSSO NETO e LOHMANN 2008). Esta complexidade inerente ao turismo pode ser percebida na definição de De La Torre (1992, apud BARRETTO, 2000, p.13): o Turismo é um fenômeno social que consiste no deslocamento voluntário e temporário de indivíduos ou grupos de pessoas que, fundamentalmente por motivos de recreação, descanso, cultura ou saúde, saem do seu local de residência habitual para outro, no qual não exercem nenhuma atividade lucrativa nem remunerada, gerando múltiplas inter-relações de importância social, econômica e cultural. Mesmo reconhecendo a complexidade do fenômeno turístico, no contexto desta pesquisa, dar-se-á ênfase ao turismo como atividade econômica, geradora de divisas e de postos de trabalho. Para este objetivo, a abordagem do turismo como um sistema, proposta por Beni parece a mais adequada. Dentro do Sistema Turístico, Beni (2001) destaca como uma das partes o Conjunto das Ações Operacionais que engloba as relações do mercado turístico: oferta/demanda, produção e distribuição/consumo. A tomada de decisão por parte do turista de viajar começa a gerar uma série de ações e reações desencadeando a necessidade de uma série de serviços e de infra-estrura para que a viagem se concretize. De forma direta, pode-se citar as agências de viagens que são os intermediários clássicos da venda de viagens, as empresas de transporte turístico e as empresas de hospedagem. Também no destino, uma série de empresas e serviços serão envolvidos para suprir as necessidades do turista, como guias de turismo, serviços de alimentação, atrações e entretenimento. Outros serviços, não especificamente turísticos também acabam beneficiando-se com o fluxo de turistas como postos de gasolina, farmácias, entre tantos outros. Esta complexa rede que envolve serviços e produção industrial para suprir estas empresas, foi o que Lemos (1998) caracterizou como efeito link age do turismo. Pela importância na economia mundial e pela diversidade de atividades econômicas envolvidas o mercado de trabalho em Turismo parece promissor, mas vale lembrar que a imensa maioria de postos de trabalho gerados não exigem formação superior. No caso do Bacharel em Turismo, o mercado oferece uma série de áreas para sua atuação, que segundo Ansarah (2002, p.27), são as seguintes: • Hospedagem: empresas relacionadas à acomodação em geral e com diversas categorias (hotelaria, motéis, camping, pousadas, albergues...), cassinos, shopping centers e, atualmente, o direcionamento para hospitais; • Transportes: aéreos, rodoviários, ferroviários e aquaviários e demais modalidades de transportes; • Agenciamento: em agências de viagens, operadoras e representações (GSA e Consolidadoras); • Alimentação: restaurantes, fast food, cruzeiros marítimos, parques temáticos, eventos e similares; • Lazer: com atividades de animação / recreação – clubes, parques temáticos, eventos, empresas de entretenimento, agências, cruzeiros marítimos, hotéis, colônias de férias; • Eventos: empresas organizadoras para atuação em mini e megaeventos, e também feiras, congressos, exposições de caráter regional, nacional e internacional ou similares; • Hospitalidade: atuação no núcleo turístico em atividades de caráter hospitaleiro; • Órgãos oficiais: atuação em planejamento e em programas estabelecidos por uma política de turismo, fomento, pesquisa e controle de atividades turísticas; • Consultoria: atuação em pesquisa e/ou em planejamento turístico; • Marketing e vendas turísticas; • Magistério: cursos de graduação, pós-graduação, especialização, extensão, atualização e cursos livres; • Publicações: empresas e/ou instituições de ensino para atuação em editoração especifica, escritor de textos para jornais e revistas especializadas; • Especialização em mercado segmentado: turismos ecológicos, sociais, infanto-juvenis, para idosos, deficientes físicos, de negócios, segmentos étnicos ou culturais em geral; • Pesquisa: centros de informação e documentação; • Outros ramos de conhecimento humano: algumas áreas novas, quando tomadas em uma dimensão mais ampla, estão surgindo, como geração de banco de dados para o turismo, tradução e interpretação dirigidas para o setor, instituições culturais, informática aplicada ao turismo, entre outras. As possibilidades são muitas, mas há estudos e publicações que questionam se o mercado está realmente valorizando e empregando o Bacharel em Turismo. Em janeiro de 2005, a revista Você S/A publicou uma reportagem com o título: A Carreira que é um mico, a frase seqüente questiona: “O turismo gera empregos? Sim, mas só para camareira, garçom, faxineira... Quem é qualificado continua penando.”(CUNHA, 2005, p.50) O texto da reportagem enfatiza o grande número de faculdades de turismo no Brasil (570, conforme a revista) e afirma que os bacharéis em turismo não encontram colocação no mercado a não ser que aceitem “começar de baixo”. Mário Carlos Beni, professor da USP (Universidade de São Paulo) é um dos consultados para a reportagem e afirma que a grande necessidade de recursos humanos na área é de formação técnica e não superior. Outro estudo (FORNARI, 2006), parece demonstrar que não é só uma questão de não haver postos de trabalho de nível superior, mas sim que as empresas turísticas não valorizam nem dão preferência para empregar profissionais formados na área. Em pesquisa realizada no setor hoteleiro de Natal/RN, Fornari (2006) encontrou alguns resultados interessantes. Na pesquisa, os gestores de RH (recursos humanos) afirmam não haver vagas de gerência que os profissionais formados em turismo tenham preferência em ocupar. Nos hotéis pesquisados, do total de cargos de gerência (65) apenas 25% eram ocupados por profissionais com formação superior em turismo. Ainda segundo Fornari (2006) para os gestores pesquisados, vale mais a experiência na área do que a formação. Retomando dessa forma, a questão do fazer-saber, mencionada anteriormente. Outra pesquisa realizada com os coordenadores de cursos de Turismo de Curitiba/PR, aponta que os entrevistados acreditam que o setor hoteleiro faz pouca ou nenhuma distinção entre o Bacharel em Turismo e um técnico em Turismo, com maior prejuízo ao primeiro. Os motivos dados pelos coordenadores para esta realidade são os seguintes (PAIXÃO e GÂNDARA s/d) • o desconhecimento da formação do Bacharel: muitos gerentes não vêem uma diferença clara entre os dois profissionais e acreditam que os bacharéis possuem um treinamento operacional não eficiente. • Alguns gerentes acreditam que o Bacharel em Turismo/Hotelaria é concorrente ao cargo de gerência em face a sua preparação; • A não existência da cultura que estimula a contratação do Bacharel; • Os gerentes pouco identificam o Bacharel com a profissão. Estas possíveis explicações para a não contratação do Bacharel em Turismo devem ser verificadas junto aos empresários do setor. A formação das faculdades em Turismo busca, cada vez mais, atender em seus currículos o perfil que o profissional em turismo deve ter, não sabe-se porém se os empresários conhecem essa formação. Além disso, a realidade do mercado de trabalho para o Bacharel em Turismo pode variar de região para região dependendo de fatores como o nível de desenvolvimento turístico, do reconhecimento do profissional e também da cultura de contratar bacharéis em Turismo. Neste sentido, o próprio poder público não tem contemplado em seus concursos o Bacharel em Turismo mesmo que o turismo seja uma pasta constante das administrações. O Governo do Estado do Rio Grande do Sul realizou o primeiro e único concurso para Bacharéis em Turismo em 1995, oferecendo 10 vagas, a nomeação ocorreu em 1997. Já a prefeitura de Porto Alegre, realizou o primeiro concurso público para Bacharéis em Turismo em 2008, oferecendo 5 vagas. Com a criação do Ministério do Turismo a nível federal em 2002, foram abertas diversas vagas com diferentes níveis salariais (algumas delas com salários muito baixos se considerado o custo de vida em Brasília) que exigiam especificamente a formação em Turismo e outros que ampliavam para Turismo e Administração de Empresas. Pode ser que ocorra um “efeito cascata” e os concursos públicos para a área de Turismo sejam ampliados nos estados e municípios, como de certa maneira já se pode observar ainda que timidamente. De forma empírica, pode-se afirmar que os Bacharéis em Turismo não se sentem valorizados pelo mercado, a luta pela Regulamentação da profissão desde a década de 1970 é um dos indicares disso. Para Trigo, a contratação de bons profissionais está diretamente ligada a boa prestação de serviços e ao próprio desenvolvimento do turismo: Ainda existe, em vários lugares do planeta, resistência à compreensão de que a elevação da qualidade dos serviços turísticos, dos padrões de segurança, lucratividade e eficiência depende em boa parte de formação profissional séria e continuada. (TRIGO, 2000 p.172). Resta conhecer qual a realidade local, não somente do número de contratados, mas também qual a opinião que as empresas turísticas têm do Bacharel em Turismo e sua formação. Metodologia A pesquisa é de cunho quantitativo e apoiou-se no questionário como instrumento de coleta de dados. Os participantes da pesquisa em um primeiro momento sofreram uma seleção geográfica. Quatro delas pertencentes ao Vale do Paranhana, região de interesse da pesquisa uma vez que oriunda das Faculdades Integradas de Taquara, e foram incluídas as cidades de São Francisco de Paula e Santo Antônio da Patrulha em especial por serem importantes emissoras de alunos para a FACCAT e também por sua relevância, no caso da primeira, e potencial, no caso da segunda, com relação a atividade turística. O foco da pesquisa voltou-se para as empresas turísticas (ETs), talvez consideradas mais tradicionais: Agências de Viagem (receptivas emissivas, operadoras ou não), Transportadoras Turísticas (neste caso, todas terrestres) e meios de hospedagem (considerando hotéis e pousadas). Para efeito de seleção da amostra optou-se por duas formas distintas devido a fatores limitantes como recursos humanos e financeiros e escassez de tempo. Para os municípios com até 12 ETs adequadas ao perfil estabelecido fez-se contato com todas elas, buscando atingir o total de empresas. No caso do município de São Francisco de Paula que possuía um total de 39 ETs, devido aos fatores limitantes já citados, optou-se por uma seleção de amostra nãoprobalística por conveniência que segundo Gil (1999, p. 104) é aquela que “o pesquisador seleciona os elementos a que tem acesso, admitindo que estes possam, de alguma forma, representar o unierso”. Neste caso escolheu-se como amostra 1/3 do total das ETs adequadas ao perfil, selecionadas a partir da sua relevância e prestígio no mercado turístico do município. Não se obteve a totalidade pretendida em nenhum dos municípios devido basicamente a dois fatores: 1 - ETs que se negaram a receber ou a responder o questionário; 2 – ETs que por serem microempresas não possuíam um escritório aberto ao público, dificultando o acesso dos pesquisadores. A tabela abaixo demonstra os municípios participantes, o total de empresas por cidade e a quantidade de estabelecimentos pesquisados: Município Total de Empresas Empresas Pesquisadas Igrejinha 10 6 Três Coroas 8 7 Parobé 6 5 Taquara 7 5 São Francisco de Paula 39 11 Santo Antônio da Patrulha 12 9 Total 82 43 Tabela 2: Relação de cidades e quantidade de empresas turísticas pesquisadas A primeira etapa da pesquisa constitui-se de revisão bibliográfica do tema e preparação do instrumento de pesquisa que incluía o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido a ser assinado pelo respondente, conforme preconiza o Comitê de Ética em Pesquisa da FACCAT. Posteriormente, depois de escolhidas as cidades, fez-se um levantamento das empresas que se encaixavam no perfil delimitado, para isso obteve-se ajuda dos órgão municipais ligados ao turismo. É importante ressaltar que devido ao volume de trabalho a pesquisa contou com um grupo de oito alunos voluntários para a aplicação dos questionários, contribuindo assim para a terceira etapa. Os questionários foram aplicados nas empresas e foram respondidos pelo proprietário ou gerente do estabelecimento. A quarta etapa da pesquisa foi a tabulação dos dados e análise dos resultados. Resultados obtidos Conforme mencionado acima, esta é uma apresentação preliminar dos resultados obtidos, ainda não se esgotaram as chances de cruzamentos e também se estuda a possibilidade de ampliar a aplicação dos questionários a outras empresas do perfil selecionado ou de outros. De qualquer maneira, considera-se relevante os dados obtidos até o presente momento. Sobre o conhecimento do empresariado da existência de formação superior em Turismo, é possível afirmar que 95% das empresas afirmam que sabiam do curso. Do total de ETs, apenas 5 possuem bacharéis em Turismo no seu quadro funcional, ou seja 12%. Sendo que destes, somente dois ocupam cargo de gerência ou supervisão. Àquelas empresas que afirmaram não possuir Turismólogo no seu quadro, foi questionado o motivo da não contratação, ao que se obteve as seguintes respostas: Motivo da não contratação Nunca considerei esta possibilidade 49% Devido ao alto custo 27% Não conheço as habilidades e competências do 5% Bacharel em Turismo Não acredito nas habilidades do Bacharel em 3% Turismo Outros/Não respondeu 16% Tabela 3: Motivo da não contratação de Bel. Em Turismo pelas ETs Quase metade dos estabelecimentos nunca considerou a possibilidade de contratar um Bacharel em Turismo, o que pode demonstrar falta de conhecimento sobre a formação ou baixa consideração com relação à contribuição que um bacharel traria ao seu negócio. Esta questão certamente merece ser aprofundada. Vale destacar também que muitas empresas que responderam que não contratavam devido ao custo, salientaram que suas empresas eram familiares. Para as empresas que responderam não possuir bacharéis em Turismo no seu quadro foi questionado qual a formação das pessoas que ocupavam cargo de gerência e supervisão, conforme segue tabela: Formação dos cargos de gerência e supervisão Ensino Médio (completo ou incompleto) 38% Administração de Empresas 22% Técnico em Turismo/Guia de Turismo 14% Hotelaria 5% Ensino Fundamental (completo ou incompleto) 5% Ensino Superior (outros cursos) 5% Não Respondeu 32% Tabela 4: Formação dos cargos de gerência na ETs Pode-se observar que os cargos de gerência e supervisão das ETs pesquisadas são ocupados em sua maioria por pessoas sem formação específica na área e sem formação superior. Ao questionamento sobre as áreas ou funções de um Bacharel em Turismo obteve-se as seguintes respostas: Áreas/funções do Bacharel em Turismo segundo as ETs Organização/Venda de Viagens 49% Meios de Hospedagem 47% Planejamento 26% Eventos 16% Elaboração de Roteiros 16% Guia de Turismo 12% Órgão Público de Turismo 7% Outros 9% Não responderam 9% Tabela 5: Áreas de atuação do Bacharel em Turismo Percebe-se que as atividades relacionadas à agência de viagem e à hospedagem foram as mais citadas. Ressalta-se que esta era uma pergunta aberta e estas categorias foram criadas posteriormente para que não houvesse indução das respostas. Chama a atenção as ETs que não responderam a pergunta, que somam 9%. As áreas citadas são limitadas frente àquelas que vimos anteriormente como possíveis para a atuação do Turismólogo. Além disso, há uma percepção equivocada de que o Bacharel em Turismo é apto a atuar como Guia de Turismo. Sobre a contratação de consultoria de um Bacharel em Turismo, 91% das empresas respondeu nunca ter contrato este serviço. Entre as explicações fornecidas obtiveram destaque a que afirmava “Não acredito que hajam motivos para a consultoria” com 38% das respostas e “Há planos de a curto prazo contratar uma consultoria” com 31%. O alto custo deste serviço foi justificativa para 13% dos respondentes. Outra questão relevante é com relação a oportunidades de estágios nas ETs, apenas 19% das empresas afirmaram já ter tido alguma experiência com estagiários do curso de Turismo. Dentre aquelas ETs que nunca tiveram estagiários, 43% afirmaram que a empresa não tinha interesse e 17% justificaram que não havia procura dos alunos ou das Instituições de Ensino. Algumas considerações A atividade turística não é a principal atividade de nenhum dos municípios pesquisados, porém já possui destaque em muitos deles, como em Três Coroas devido ao fluxo ao Templo Budista e às corredeiras do Rio Paranhana para a prática do rafting e outras modalidades de Turismo de Aventura. Também Igrejinha, com forte vocação para o turismo de compras (sapatos) e sede da Oktoberfest que atrai mais de 160.000 pessoas ao ano. Santo Antônio da Patrulha com importante evento de música e roteiros estabelecidos, e São Francisco de Paula importante destino do pé da Serra Gaúcha, cidade membro da Rota Romântica e recentemente da rota Caminhos Temperados ao lado de Porto Alegre, Bento Gonçalves e Canela. Acredita-se, portanto já existe a oportunidade real para os Turismólogos atuarem nessas localidades. Entretanto, observou-se baixíssima inserção deste profissional nas ETs pesquisadas, tanto como funcionários, quanto como consultores. Este dado vem confirmar a preocupação que tanto as faculdades, como alunos e egressos tem tido com relação à difícil colocação do Bacharel em Turismo no mercado de trabalho. Também chama a atenção a pequena quantidade de empresas que já contratou algum estagiário da área. O estágio poderia ser uma ótima oportunidade não só para a formação do Bacharel em Turismo como para que o mercado destes municípios conhecessem um pouco mais sobre este profissional, suas habilidades, competências e possibilidades de atuação. Neste sentido, a própria Instituição de Ensino pode realizar ações que busquem aproximar as ETs do curso e dos estudantes, além de sensibilizar os alunos da importância de ter experiência na sua área de estudo. Retomando os objetivos colocados no início deste trabalho, podemos afirmar que é de conhecimento da ampla maioria das ETs pesquisadas a existência da formação superior em turismo, porém o conhecimento das áreas de atuação é reduzido. Pode-se afirmar também que mesmo reconhecendo a área de agenciamento de viagens e a de meios de hospedagens como áreas de atuação do profissional em turismo, não se verifica a valorização deste profissional traduzida na contratação dele pelas ETs. Assim como, a maioria das empresas não contrata estagiários da área. Considera-se preocupantes opiniões do empresariado que expressam a baixa valorização do Bacharel em Turismo, como por exemplo afirmar que nunca consideraram a contratação de Turismólogos (49%) ou que não acreditam que hajam motivos para a contratação de consultoria de Bacharéis em Turismo (38%). Mesmo a justificativa dada pra não contratação de consultoria que está ligada ao “alto custo” pode ser questionada, pois esta ação também poderia ser considerada um investimento e não um custo. Destaca-se também a baixa escolaridade dos cargos de gerência e supervisão, o que pode sugerir também baixa profissionalização do setor e baixa qualidade de gestão. Acredita-se que esta pesquisa abre a possibilidade para algumas reflexões e possibilidades, pois é necessário aumentar a inserção do Bacharel em Turismo nas ETs, podendo começar pelos estágios. Também é necessário pensar formas de tornar a formação em turismo mais conhecida e valorizada pelo empresariado local. O que também reflete que o mercado turístico tem que avançar rumo a profissionalização dos serviços e produtos oferecidos, e a contratação de profissionais qualificados pode contribuir muito para isso. Ainda estamos em um processo de luta para que o saber também encontre espaço nas práticas turísticas. Referências ANSARAH, Marília Gomes dos Reis. Formação e Capacitação do Profissional em Turismo e Hotelaria. São Paulo: Aleph, 2002. BARRETTO, Margarita. O imprescindível aporte das Ciências Sociais para o planejamento e a compreensão do turismo. Horizontes Antropológicos v.9, n.20, 2003. __________________.As ciências sociais aplicadas ao turismo. In SERRANO, C., BRUHNS T. 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