O Mercado de Trabalho e o Bacharel em Turismo – Estudo das
Empresas Turísticas do Vale do Paranhana e Cidades Vizinhas
Ivone dos Passos Maio 1
Faculdades Integradas de Taquara - FACCAT.
Resumo: Este trabalho traz os resultados de uma pesquisa realizada nos municípios de
Taquara, Igrejinha, Três Coroas, Parobé, Santo Antônio da Patrulha e São Francisco de
Paula sobre a inserção do Bacharel em Turismo no mercado turístico destas localidades.
Para tanto, num primeiro momento, foram pesquisadas agências de viagem,
transportadoras turísticas e meios de hospedagem. Os resultados mostram que há baixa
inserção destes profissionais nas empresas pesquisadas, inclusive no nível de estágio,
quando estes ainda estão em formação. A pesquisa também busca compreender os
motivos que justificam tal realidade.
Palavras-chave: Bacharel em Turismo; mercado de trabalho; empresas turísticas.
Introdução
Muito se discute sobre a formação do Bacharel em Turismo e a relação deste
profissional com o mercado de trabalho. O próprio curso de Bacharelado em Turismo
surge no Brasil na década de 1970 a partir da idéia de que este seria um novo “filão de
mercado”. Tida como a profissão do futuro, aliada talvez ao imaginário das viagens, o
curso de turismo começa a ser oferecido em todo Brasil, chegando nos últimos anos a
números assustadores.
Ao longo destas quarenta décadas muito se evoluiu nos currículos, planos de
curso e também em produção científica na área, porém a colocação no mercado do
Bacharel em Turismo ainda está bastante aquém do desejado pelos estudantes e
egressos. Este talvez possa ser apontado como um dos motivos pela diminuição na
oferta de cursos após um boom no início dos anos 2000. Observa-se também, de forma
empírica a baixa procura pelos cursos de graduação na área, obrigando cursos
1
Bacharel em Turismo pela PUCRS, Mestre em Turismo pela UCS, professora do curso de Turismo da FACCAT e
técnica da Secretaria de Turismo de Porto Alegre. [email protected]
tradicionais do Estado como o da PUCRS (Pontifícia Universidade do Rio Grande do
Sul) a repensarem suas estruturas curriculares tornando-as mais enxutas.
O foco deste trabalho está na inserção dos bacharéis em turismo no mercado de
trabalho, a área de estudo compreende as cidades de Taquara, Parobé, Igrejinha, Três
Coroas, Santo Antônio da Patrulha e São Francisco de Paula. Os quatro primeiros
municípios citados fazem parte do Vale do Paranhana região que abriga as Faculdades
Integradas de Taquara, instituição de ensino que atuo desde 2005. Os outros dois
município foram incluídos na pesquisa por se constituírem em importantes emissores de
alunos para o curso de Turismo da FACCAT e em especial São Francisco de Paula por
sua relevância como destino turístico no Estado.
Pode-se destacar como objetivos deste estudo:
• Verificar se é de conhecimento do empresariado local a existência de uma
formação superior em turismo;
• Verificar se é de conhecimento do empresariado local as áreas de atuação ou
funções que um Bacharel em Turismo é capaz de atuar;
• Investigar se as empresas turísticas das cidades selecionadas possuem bacharéis
em Turismo no seu quadro de funcionários e se contratam estagiários da área;
• Analisar a opinião do empresariado com relação à contratação do Bacharel em
Turismo.
Para cumprir esta análise, em primeiro lugar faz-se uma breve abordagem sobre
a formação superior em Turismo, seguida de colocações sobre o mercado de trabalho do
turismo. Por último, lança-se alguns resultados alcançados na pesquisa, ressaltando que
esta é ainda uma análise preliminar.
Formação nos Cursos Superiores de Turismo
O primeiro curso superior de turismo no Brasil surge em São Paulo, em 1971, na
Faculdade Morumbi (hoje, Anhambi-Morumbi), instituição privada (REJOWSKI,
1999). O Curso surge a partir de uma pesquisa de mercado que verificou uma demanda
interessada nessa formação, portanto cabe ressaltar que o Curso de Turismo não surge
por uma maturidade da disciplina Turismo, ou da produção científica gerada neste
campo de estudo. Ao contrário, os primeiros cursos de turismo iriam enfrentar
dificuldades de encontrar referenciais teóricos que sustentassem seus programas.
Foi no Rio Grande do Sul que surgiu o segundo curso superior de Turismo, em
1972 na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). O curso da
PUCRS estava vinculado a então Faculdade dos Meios de Comunicação Social,
FAMECOS. O site do curso ao contar sua própria história afirma que o curso:
surgiu como decorrência das necessidades levantadas pelo Plano Regional de
Turismo da Região Sul, realizada em 1970/71 pela Superintendência de
Desenvolvimento Econômico do Extremo Sul- SUDESUL. (...) ...em 1971
foram realizadas reuniões com o TRADE e turístico local e colhidas
informações sobre um projeto semelhante criado na PUC de Petrópolis, no
Rio de Janeiro. A proposta elaborada previa o preparo de técnicos,
planejadores e pesquisadores que qualificassem a infra-estrutura local para o
Turismo. Em nível Federal estava sendo criada a Empresa Brasileira de
Turismo , EMBRATUR. Já no Rio Grande do Sul, surgia o Sistema Estadual
de Turismo, criando um ambiente apto para a efetivação do curso de
Turismo.( http://www.pucrs.br/face/turismo)
Pode-se perceber então que o curso da PUCRS surge a partir de uma série de
condicionantes políticas e de mercado e não a partir da produção científica e acadêmica
da área de turismo. Este quadro retrata o surgimento dos cursos de Turismo em todo o
Brasil, situação vista por Moesch (2000) como a primazia do fazer-saber ante ao saberfazer. Ou seja, a prática se sobrepõe ao conhecimento sobre o turismo na formação dos
cursos superiores de Turismo, assim como no desenvolvimento da atividade.
No contexto mundial na década de 1970, há uma abordagem do Turismo como
uma atividade geradora de benefícios e de possível “salvadora” das economias
subdesenvolvidas, ideia difundida especialmente pelos organismos internacionais de
desenvolvimento (Barretto, 2003). Na realidade, esta era uma superestimação da
atividade turística, se é que houve tal ingenuidade.
No Brasil, também há uma valorização da atividade turística, como no
suplemento especial da revista Quatro Rodas de 1972 intitulado Turismo – o bom
negócio (BRASIL, 2009)
Durante toda a década de 1970 irão surgir cursos de Turismo pelo Brasil, como
por exemplo, em São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco (REJOWSKI 1999). Porém,
até o fim de 1976 o número total de cursos não passava de uma dezena (ANSARAH,
2002).
O levantamento de dados a respeito do número de cursos de Turismo e Hotelaria
no Brasil pode ser visualizado na tabela abaixo:
Ano
Número de Cursos de Turismo e Hotelaria no Brasil
Número de Cursos na Região Sul
1994
41
8
1996
51
8
2000
298
47
2002
339
62
Tabela 1: Número de cursos de Turismo no Brasil e Região Sul.
Fonte: Adaptado de ANSARAH 2002.
Alguns dados apontam que por volta de 2003, o número de cursos de Turismo e
Hotelaria chegou a mais de 600 em todo o Brasil, posteriormente, a partir de 2004, tevese uma diminuição do número de programas por todo o país (BRASIL, 2009).
O crescimento dos cursos superiores de Turismo no Brasil nos anos de 1990 e
2000 talvez possa ser justificado pelo crescimento do turismo tanto no Brasil quanto no
mundo inteiro e a forte expectativa que este fato criou.
Mas afinal, quais são as habilidades e competências desenvolvidas no curso de
Turismo? E ainda, quais as áreas de atuação profissional do egresso deste curso?
Nas Diretrizes Curriculares para os cursos de graduação em Turismo (Resolução
no. 13 de 24 de novembro de 2006) é apontado que o perfil desejado do graduado inclui
capacidade e aptidão para compreender as questões científicas, técnicas, sociais,
culturais e econômicas relacionadas com o mercado turístico. De acordo com este
perfil, pode-se perceber a necessidade de um estudo amplo e inter ou transdisciplinar do
fenômeno turístico.
Também em conformidade com as múltiplas disciplinas que contribuem para o
estudo do fenômeno turístico, as habilidades e competências esperadas do egresso do
curso de Turismo são muitas – 19 ao todo. Não se pretende citar a todas, mas vale
sinalizar que elas abordam temáticas que giram em torno de:
• Planejamento Turístico em diferentes níveis;
• Execução de Planos e Projetos Turísticos;
• Atuação em Empresas Turísticas diversas: meios de hospedagem, agência de
viagens, transportadoras, empresa promotoras de eventos;
• Domínio de diferentes idiomas;
• Profunda vivência e conhecimento das relações humanas.
As diretrizes curriculares prevêem como obrigatório o Estágio curricular nos cursos
de graduação em turismo. A experiência de estágio seria a oportunidade para o aluno
desenvolver a relação teoria-prática, além de uma aproximação desejada com o mercado
turístico.
Para Ansarah (2002) profissionais formados são essenciais ao mercado turístico.
Para esta autora, para um bom desempenho nas empresas turísticas o profissional
precisará “de determinação, criatividade, visão, disposição para inovar, confiança em si
mesmo e nas suas idéias, paciência e preparação apropriada” (ibid p.41).
Já Ruschmann (apud PAIXÃO E GANDARA s/d) relaciona a qualificação
profissional com responsabilidade socioambiental. Defendendo que para que haja
desenvolvimento sustentável em turismo há que se capacitar os recursos humanos.
Uma vez revistas as diretrizes que orientam a formação profissional em turismo,
quais são as habilidades e competências que os cursos de Turismo devem desenvolver, é
necessário conhecer a atuação no mercado turístico do profissional que passou por tal
formação. É o que se aborda a seguir.
Mercado de trabalho para o Turismólogo
Sabe-se que o Turismo em muito transcende a dimensão econômica e comercial.
O turismo, entendido como um fenômeno social, revela muito sobre a sociedade, seus
costumes e valores conforme teorizou Urry (2001). Além disso, o fenõmeno turístico é
complexo e multifacetado, envolvendo questões do universo da Ecologia, da
Antropologia, da Sociologia entre outras (JAFARI apud PANOSSO NETO e
LOHMANN 2008). Esta complexidade inerente ao turismo pode ser percebida na
definição de De La Torre (1992, apud BARRETTO, 2000, p.13):
o Turismo é um fenômeno social que consiste no deslocamento voluntário e
temporário de indivíduos ou grupos de pessoas que, fundamentalmente por
motivos de recreação, descanso, cultura ou saúde, saem do seu local de
residência habitual para outro, no qual não exercem nenhuma atividade
lucrativa nem remunerada, gerando múltiplas inter-relações de importância
social, econômica e cultural.
Mesmo reconhecendo a complexidade do fenômeno turístico, no contexto desta
pesquisa, dar-se-á ênfase ao turismo como atividade econômica, geradora de divisas e
de postos de trabalho. Para este objetivo, a abordagem do turismo como um sistema,
proposta por Beni parece a mais adequada.
Dentro do Sistema Turístico, Beni (2001) destaca como uma das partes o
Conjunto das Ações Operacionais que engloba as relações do mercado turístico:
oferta/demanda, produção e distribuição/consumo. A tomada de decisão por parte do
turista de viajar começa a gerar uma série de ações e reações desencadeando a
necessidade de uma série de serviços e de infra-estrura para que a viagem se concretize.
De forma direta, pode-se citar as agências de viagens que são os intermediários
clássicos da venda de viagens, as empresas de transporte turístico e as empresas de
hospedagem. Também no destino, uma série de empresas e serviços serão envolvidos
para suprir as necessidades do turista, como guias de turismo, serviços de alimentação,
atrações e entretenimento. Outros serviços, não especificamente turísticos também
acabam beneficiando-se com o fluxo de turistas como postos de gasolina, farmácias,
entre tantos outros. Esta complexa rede que envolve serviços e produção industrial para
suprir estas empresas, foi o que Lemos (1998) caracterizou como efeito link age do
turismo.
Pela importância na economia mundial e pela diversidade de atividades
econômicas envolvidas o mercado de trabalho em Turismo parece promissor, mas vale
lembrar que a imensa maioria de postos de trabalho gerados não exigem formação
superior.
No caso do Bacharel em Turismo, o mercado oferece uma série de áreas para sua
atuação, que segundo Ansarah (2002, p.27), são as seguintes:
•
Hospedagem: empresas relacionadas à acomodação em geral e com
diversas categorias (hotelaria, motéis, camping, pousadas, albergues...),
cassinos, shopping centers e, atualmente, o direcionamento para hospitais;
•
Transportes: aéreos, rodoviários, ferroviários e aquaviários e demais
modalidades de transportes;
•
Agenciamento: em agências de viagens, operadoras e representações
(GSA e Consolidadoras);
•
Alimentação: restaurantes, fast food, cruzeiros marítimos, parques
temáticos, eventos e similares;
•
Lazer: com atividades de animação / recreação – clubes, parques
temáticos, eventos, empresas de entretenimento, agências, cruzeiros
marítimos, hotéis, colônias de férias;
•
Eventos: empresas organizadoras para atuação em mini e
megaeventos, e também feiras, congressos, exposições de caráter regional,
nacional e internacional ou similares;
•
Hospitalidade: atuação no núcleo turístico em atividades de caráter
hospitaleiro;
•
Órgãos oficiais: atuação em planejamento e em programas
estabelecidos por uma política de turismo, fomento, pesquisa e controle de
atividades turísticas;
•
Consultoria: atuação em pesquisa e/ou em planejamento turístico;
•
Marketing e vendas turísticas;
•
Magistério: cursos de graduação, pós-graduação, especialização,
extensão, atualização e cursos livres;
•
Publicações: empresas e/ou instituições de ensino para atuação em
editoração especifica, escritor de textos para jornais e revistas
especializadas;
•
Especialização em mercado segmentado: turismos ecológicos, sociais,
infanto-juvenis, para idosos, deficientes físicos, de negócios, segmentos
étnicos ou culturais em geral;
•
Pesquisa: centros de informação e documentação;
•
Outros ramos de conhecimento humano: algumas áreas novas, quando
tomadas em uma dimensão mais ampla, estão surgindo, como geração de
banco de dados para o turismo, tradução e interpretação dirigidas para o
setor, instituições culturais, informática aplicada ao turismo, entre outras.
As possibilidades são muitas, mas há estudos e publicações que questionam se o
mercado está realmente valorizando e empregando o Bacharel em Turismo.
Em janeiro de 2005, a revista Você S/A publicou uma reportagem com o título: A
Carreira que é um mico, a frase seqüente questiona: “O turismo gera empregos? Sim,
mas só para camareira, garçom, faxineira... Quem é qualificado continua
penando.”(CUNHA, 2005, p.50)
O texto da reportagem enfatiza o grande número de faculdades de turismo no Brasil
(570, conforme a revista) e afirma que os bacharéis em turismo não encontram
colocação no mercado a não ser que aceitem “começar de baixo”. Mário Carlos Beni,
professor da USP (Universidade de São Paulo) é um dos consultados para a reportagem
e afirma que a grande necessidade de recursos humanos na área é de formação técnica e
não superior.
Outro estudo (FORNARI, 2006), parece demonstrar que não é só uma questão de
não haver postos de trabalho de nível superior, mas sim que as empresas turísticas não
valorizam nem dão preferência para empregar profissionais formados na área.
Em pesquisa realizada no setor hoteleiro de Natal/RN, Fornari (2006) encontrou
alguns resultados interessantes. Na pesquisa, os gestores de RH (recursos humanos)
afirmam não haver vagas de gerência que os profissionais formados em turismo tenham
preferência em ocupar. Nos hotéis pesquisados, do total de cargos de gerência (65)
apenas 25% eram ocupados por profissionais com formação superior em turismo. Ainda
segundo Fornari (2006) para os gestores pesquisados, vale mais a experiência na área do
que a formação. Retomando dessa forma, a questão do fazer-saber, mencionada
anteriormente.
Outra pesquisa realizada com os coordenadores de cursos de Turismo de
Curitiba/PR, aponta que os entrevistados acreditam que o setor hoteleiro faz pouca ou
nenhuma distinção entre o Bacharel em Turismo e um técnico em Turismo, com maior
prejuízo ao primeiro. Os motivos dados pelos coordenadores para esta realidade são os
seguintes (PAIXÃO e GÂNDARA s/d)
• o desconhecimento da formação do Bacharel: muitos gerentes não vêem
uma diferença clara entre os dois profissionais e acreditam que os
bacharéis possuem um treinamento operacional não eficiente.
• Alguns gerentes acreditam que o Bacharel em Turismo/Hotelaria é
concorrente ao cargo de gerência em face a sua preparação;
• A não existência da cultura que estimula a contratação do Bacharel;
• Os gerentes pouco identificam o Bacharel com a profissão.
Estas possíveis explicações para a não contratação do Bacharel em Turismo devem
ser verificadas junto aos empresários do setor. A formação das faculdades em Turismo
busca, cada vez mais, atender em seus currículos o perfil que o profissional em turismo
deve ter, não sabe-se porém se os empresários conhecem essa formação.
Além disso, a realidade do mercado de trabalho para o Bacharel em Turismo pode
variar de região para região dependendo de fatores como o nível de desenvolvimento
turístico, do reconhecimento do profissional e também da cultura de contratar bacharéis
em Turismo. Neste sentido, o próprio poder público não tem contemplado em seus
concursos o Bacharel em Turismo mesmo que o turismo seja uma pasta constante das
administrações. O Governo do Estado do Rio Grande do Sul realizou o primeiro e único
concurso para Bacharéis em Turismo em 1995, oferecendo 10 vagas, a nomeação
ocorreu em 1997. Já a prefeitura de Porto Alegre, realizou o primeiro concurso público
para Bacharéis em Turismo em 2008, oferecendo 5 vagas. Com a criação do Ministério
do Turismo a nível federal em 2002, foram abertas diversas vagas com diferentes níveis
salariais (algumas delas com salários muito baixos se considerado o custo de vida em
Brasília) que exigiam especificamente a formação em Turismo e outros que ampliavam
para Turismo e Administração de Empresas. Pode ser que ocorra um “efeito cascata” e
os concursos públicos para a área de Turismo sejam ampliados nos estados e
municípios, como de certa maneira já se pode observar ainda que timidamente.
De forma empírica, pode-se afirmar que os Bacharéis em Turismo não se sentem
valorizados pelo mercado, a luta pela Regulamentação da profissão desde a década de
1970 é um dos indicares disso. Para Trigo, a contratação de bons profissionais está
diretamente ligada a boa prestação de serviços e ao próprio desenvolvimento do
turismo:
Ainda existe, em vários lugares do planeta, resistência à compreensão de que
a elevação da qualidade dos serviços turísticos, dos padrões de segurança,
lucratividade e eficiência depende em boa parte de formação profissional
séria e continuada. (TRIGO, 2000 p.172).
Resta conhecer qual a realidade local, não somente do número de contratados,
mas também qual a opinião que as empresas turísticas têm do Bacharel em Turismo e
sua formação.
Metodologia
A pesquisa é de cunho quantitativo e apoiou-se no questionário como
instrumento de coleta de dados. Os participantes da pesquisa em um primeiro momento
sofreram uma seleção geográfica. Quatro delas pertencentes ao Vale do Paranhana,
região de interesse da pesquisa uma vez que oriunda das Faculdades Integradas de
Taquara, e foram incluídas as cidades de São Francisco de Paula e Santo Antônio da
Patrulha em especial por serem importantes emissoras de alunos para a FACCAT e
também por sua relevância, no caso da primeira, e potencial, no caso da segunda, com
relação a atividade turística. O foco da pesquisa voltou-se para as empresas turísticas
(ETs), talvez consideradas mais tradicionais: Agências de Viagem
(receptivas
emissivas, operadoras ou não), Transportadoras Turísticas (neste caso, todas terrestres)
e meios de hospedagem (considerando hotéis e pousadas).
Para efeito de seleção da amostra optou-se por duas formas distintas devido a
fatores limitantes como recursos humanos e financeiros e escassez de tempo. Para os
municípios com até 12 ETs adequadas ao perfil estabelecido fez-se contato com todas
elas, buscando atingir o total de empresas.
No caso do município de São Francisco de Paula que possuía um total de 39
ETs, devido aos fatores limitantes já citados, optou-se por uma seleção de amostra nãoprobalística por conveniência que segundo Gil (1999, p. 104) é aquela que “o
pesquisador seleciona os elementos a que tem acesso, admitindo que estes possam, de
alguma forma, representar o unierso”. Neste caso escolheu-se como amostra 1/3 do total
das ETs adequadas ao perfil, selecionadas a partir da sua relevância e prestígio no
mercado turístico do município. Não se obteve a totalidade pretendida em nenhum dos
municípios devido basicamente a dois fatores:
1 - ETs que se negaram a receber ou a responder o questionário;
2 – ETs que por serem microempresas não possuíam um escritório aberto ao público,
dificultando o acesso dos pesquisadores.
A tabela abaixo demonstra os municípios participantes, o total de empresas por cidade e
a quantidade de estabelecimentos pesquisados:
Município
Total de Empresas
Empresas Pesquisadas
Igrejinha
10
6
Três Coroas
8
7
Parobé
6
5
Taquara
7
5
São Francisco de Paula
39
11
Santo Antônio da Patrulha
12
9
Total
82
43
Tabela 2: Relação de cidades e quantidade de empresas turísticas pesquisadas
A primeira etapa da pesquisa constitui-se de revisão bibliográfica do tema e
preparação do instrumento de pesquisa que incluía o Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido a ser assinado pelo respondente, conforme preconiza o Comitê de Ética em
Pesquisa da FACCAT. Posteriormente, depois de escolhidas as cidades, fez-se um
levantamento das empresas que se encaixavam no perfil delimitado, para isso obteve-se
ajuda dos órgão municipais ligados ao turismo. É importante ressaltar que devido ao
volume de trabalho a pesquisa contou com um grupo de oito alunos voluntários para a
aplicação dos questionários, contribuindo assim para a terceira etapa. Os questionários
foram aplicados nas empresas e foram respondidos pelo proprietário ou gerente do
estabelecimento.
A quarta etapa da pesquisa foi a tabulação dos dados e análise dos resultados.
Resultados obtidos
Conforme mencionado acima, esta é uma apresentação preliminar dos resultados
obtidos, ainda não se esgotaram as chances de cruzamentos e também se estuda a
possibilidade de ampliar a aplicação dos questionários a outras empresas do perfil
selecionado ou de outros. De qualquer maneira, considera-se relevante os dados obtidos
até o presente momento.
Sobre o conhecimento do empresariado da existência de formação superior em
Turismo, é possível afirmar que 95% das empresas afirmam que sabiam do curso.
Do total de ETs, apenas 5 possuem bacharéis em Turismo no seu quadro
funcional, ou seja 12%. Sendo que destes, somente dois ocupam cargo de gerência ou
supervisão.
Àquelas empresas que afirmaram não possuir Turismólogo no seu quadro, foi
questionado o motivo da não contratação, ao que se obteve as seguintes respostas:
Motivo da não contratação
Nunca considerei esta possibilidade
49%
Devido ao alto custo
27%
Não conheço as habilidades e competências do
5%
Bacharel em Turismo
Não acredito nas habilidades do Bacharel em
3%
Turismo
Outros/Não respondeu
16%
Tabela 3: Motivo da não contratação de Bel. Em Turismo pelas ETs
Quase metade dos estabelecimentos nunca considerou a possibilidade de
contratar um Bacharel em Turismo, o que pode demonstrar falta de conhecimento sobre
a formação ou baixa consideração com relação à contribuição que um bacharel traria ao
seu negócio. Esta questão certamente merece ser aprofundada. Vale destacar também
que muitas empresas que responderam que não contratavam devido ao custo,
salientaram que suas empresas eram familiares.
Para as empresas que responderam não possuir bacharéis em Turismo no seu
quadro foi questionado qual a formação das pessoas que ocupavam cargo de gerência e
supervisão, conforme segue tabela:
Formação dos cargos de gerência e supervisão
Ensino Médio (completo ou incompleto)
38%
Administração de Empresas
22%
Técnico em Turismo/Guia de Turismo
14%
Hotelaria
5%
Ensino Fundamental (completo ou incompleto)
5%
Ensino Superior (outros cursos)
5%
Não Respondeu
32%
Tabela 4: Formação dos cargos de gerência na ETs
Pode-se observar que os cargos de gerência e supervisão das ETs pesquisadas
são ocupados em sua maioria por pessoas sem formação específica na área e sem
formação superior.
Ao questionamento sobre as áreas ou funções de um Bacharel em Turismo
obteve-se as seguintes respostas:
Áreas/funções do Bacharel em Turismo segundo as ETs
Organização/Venda de Viagens
49%
Meios de Hospedagem
47%
Planejamento
26%
Eventos
16%
Elaboração de Roteiros
16%
Guia de Turismo
12%
Órgão Público de Turismo
7%
Outros
9%
Não responderam
9%
Tabela 5: Áreas de atuação do Bacharel em Turismo
Percebe-se que as atividades relacionadas à agência de viagem e à hospedagem
foram as mais citadas. Ressalta-se que esta era uma pergunta aberta e estas categorias
foram criadas posteriormente para que não houvesse indução das respostas. Chama a
atenção as ETs que não responderam a pergunta, que somam 9%. As áreas citadas são
limitadas frente àquelas que vimos anteriormente como possíveis para a atuação do
Turismólogo. Além disso, há uma percepção equivocada de que o Bacharel em Turismo
é apto a atuar como Guia de Turismo.
Sobre a contratação de consultoria de um Bacharel em Turismo, 91% das
empresas respondeu nunca ter contrato este serviço. Entre as explicações fornecidas
obtiveram destaque a que afirmava “Não acredito que hajam motivos para a
consultoria” com 38% das respostas e “Há planos de a curto prazo contratar uma
consultoria” com 31%. O alto custo deste serviço foi justificativa para 13% dos
respondentes.
Outra questão relevante é com relação a oportunidades de estágios nas ETs,
apenas 19% das empresas afirmaram já ter tido alguma experiência com estagiários do
curso de Turismo. Dentre aquelas ETs que nunca tiveram estagiários, 43% afirmaram
que a empresa não tinha interesse e 17% justificaram que não havia procura dos alunos
ou das Instituições de Ensino.
Algumas considerações
A atividade turística não é a principal atividade de nenhum dos municípios
pesquisados, porém já possui destaque em muitos deles, como em Três Coroas devido
ao fluxo ao Templo Budista e às corredeiras do Rio Paranhana para a prática do rafting
e outras modalidades de Turismo de Aventura. Também Igrejinha, com forte vocação
para o turismo de compras (sapatos) e sede da Oktoberfest que atrai mais de 160.000
pessoas ao ano. Santo Antônio da Patrulha com importante evento de música e roteiros
estabelecidos, e São Francisco de Paula importante destino do pé da Serra Gaúcha,
cidade membro da Rota Romântica e recentemente da rota Caminhos Temperados ao
lado de Porto Alegre, Bento Gonçalves e Canela. Acredita-se, portanto já existe a
oportunidade real para os Turismólogos atuarem nessas localidades.
Entretanto, observou-se baixíssima inserção deste profissional nas ETs
pesquisadas, tanto como funcionários, quanto como consultores. Este dado vem
confirmar a preocupação que tanto as faculdades, como alunos e egressos tem tido com
relação à difícil colocação do Bacharel em Turismo no mercado de trabalho. Também
chama a atenção a pequena quantidade de empresas que já contratou algum estagiário
da área. O estágio poderia ser uma ótima oportunidade não só para a formação do
Bacharel em Turismo como para que o mercado destes municípios conhecessem um
pouco mais sobre este profissional, suas habilidades, competências e possibilidades de
atuação. Neste sentido, a própria Instituição de Ensino pode realizar ações que busquem
aproximar as ETs do curso e dos estudantes, além de sensibilizar os alunos da
importância de ter experiência na sua área de estudo.
Retomando os objetivos colocados no início deste trabalho, podemos afirmar
que é de conhecimento da ampla maioria das ETs pesquisadas a existência da formação
superior em turismo, porém o conhecimento das áreas de atuação é reduzido.
Pode-se afirmar também que mesmo reconhecendo a área de agenciamento de
viagens e a de meios de hospedagens como áreas de atuação do profissional em turismo,
não se verifica a valorização deste profissional traduzida na contratação dele pelas ETs.
Assim como, a maioria das empresas não contrata estagiários da área.
Considera-se preocupantes opiniões do empresariado que expressam a baixa
valorização do Bacharel em Turismo, como por exemplo afirmar que nunca
consideraram a contratação de Turismólogos (49%) ou que não acreditam que hajam
motivos para a contratação de consultoria de Bacharéis em Turismo (38%). Mesmo a
justificativa dada pra não contratação de consultoria que está ligada ao “alto custo” pode
ser questionada, pois esta ação também poderia ser considerada um investimento e não
um custo.
Destaca-se também a baixa escolaridade dos cargos de gerência e supervisão, o
que pode sugerir também baixa profissionalização do setor e baixa qualidade de gestão.
Acredita-se que esta pesquisa abre a possibilidade para algumas reflexões e
possibilidades, pois é necessário aumentar a inserção do Bacharel em Turismo nas ETs,
podendo começar pelos estágios. Também é necessário pensar formas de tornar a
formação em turismo mais conhecida e valorizada pelo empresariado local. O que
também reflete que o mercado turístico tem que avançar rumo a profissionalização dos
serviços e produtos oferecidos, e a contratação de profissionais qualificados pode
contribuir muito para isso. Ainda estamos em um processo de luta para que o saber
também encontre espaço nas práticas turísticas.
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O Mercado de Trabalho e o Bacharel em Turismo – Estudo