PRÊMIO AMIGO DO MEIO AMBIENTE 2014 INSTITUTO BUTANTAN GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS MERCURIAIS EM ESTABELECIMENTO DA SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE DE SÃO PAULO: O CASO DO INSTITUTO BUTANTAN Neuzeti Maria dos Santos Tel: (11) 26279364 E-mail: [email protected] São Paulo Setembro, 2014 1 RESUMO O mercúrio é um metal que se apresenta sob diversas formas químicas, podendo ser divididas em três categorias básicas: mercúrio metálico ou elementar, mercúrio inorgânico e mercúrio orgânico. O mercúrio metálico é uma espécie de interesse do ponto de vista de saúde pública e ambiental devido sua alta toxicidade. As atividades relacionadas com a assistência à saúde estão entre as fontes importantes de emissões antrópicas de mercúrio. Existem alternativas ao uso do mercúrio que são seguras e economicamente viáveis para quase todas suas aplicações no cuidado da saúde. A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo publicou a Resolução SS-SP nº 239 em 07/12/2010, proibindo a compra, o uso e o armazenamento de materiais contendo mercúrio nas instituições vinculadas. Ainda definiu que os mesmos deveriam ser destinados de acordo com a legislação vigente. Diante deste cenário, o Instituto Butantan, um centro de pesquisa biomédica, responsável pela produção de vacinas e de soros para uso profilático e curativo e que também desenvolve diversas pesquisas relacionadas com a saúde pública, comprometido com as questões socioambientais e atendimento legal, realizou a substituição dos termômetros contendo mercúrio. Foram encaminhados 183 kg de resíduos para empresa especializada no processo de desmercurização, onde o mercúrio destilado foi extraído e os demais materiais saíram do processo descontaminados. 1. INTRODUÇÃO O mercúrio é considerado um dos metais mais perigosos no que diz respeito à contaminação ambiental e a saúde humana. Apesar de conhecido como substância altamente tóxica, o mercúrio, apresenta ampla aplicação. Na sua forma metálica, o mercúrio é usado para a extração de ouro e prata, em manômetros para medir e controlar a pressão, em restaurações de amálgama dental, em interruptores elétricos e eletrônicos, em lâmpadas fluorescentes e, em termômetros. A ruptura de equipamentos contendo mercúrio, com consequente derramamento do metal, pode ocasionar exposição ocupacional ao mercúrio, além de problemas ambientais, visto que a incineração de resíduos mercuriais oriundos do Serviço de Saúde é uma das principais fontes de emissão de mercúrio lançado na atmosfera. Diante deste cenário, a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Administração em Saúde e Segurança Ocupacional (OSHA) e o Instituto Nacional de Segurança e Saúde (NIOSH), sendo estes últimos órgãos do governo americano, estabeleceram políticas públicas, considerando a exposição ao mercúrio um fator de risco ocupacional e estabeleceram limites para exposição ao metal. No final da última década, o setor de saúde dos EUA praticamente eliminou 2 dispositivos médicos à base de mercúrio e hoje é praticamente impossível comprar um termômetro de mercúrio nesse país. No Brasil, a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo (SES-SP), publicou a Resolução SSSP nº 239 em 07/12/2010, proibindo a compra, o uso e o armazenamento de materiais contendo mercúrio nos estabelecimentos assistenciais da SES-SP e determinou que os mesmos devam ser destinados de acordo com a legislação vigente, em todas as unidades licenciadas para sua recepção, tratamento e disposição. Comprometido com as questões ambientais, com a segurança de seus trabalhadores e colaboradores e com o atendimento da legislação vigente, o Instituto Butantan, considerado um dos maiores centros de pesquisa biomédica do mundo e um dos principais centros produtores de vacinas e soros antivenenos e antitoxinas, para uso profilático e curativo no Brasil, criou em 2012 o Programa de Gerenciamento de Resíduos, com a finalidade de orientar e executar ações relativas ao gerenciamento dos resíduos do instituto. Como parte deste programa e em atendimento especificamente a Resolução SS-SP nº 239, o IBu, substituiu os termômetros contendo mercúrio por termômetros menos impactantes à saúde e ao meio ambiente. 2. OBJETIVO Este trabalho tem o objetivo de apresentar o processo, bem como os fluxos realizados pelo Instituto Butantan na substituição dos termômetros contendo mercúrio por termômetros menos impactantes à saúde e ao meio ambiente. 3. DESENVOLVIMENTO A metodologia utilizada para atingir os objetivos do trabalho seguiu os passos abaixo descritos. 1. Levantamento bibliográfico sobre a temática dos resíduos perigosos e normas vigentes no país, em especial sobre mercúrio; 2. Diagnóstico do passivo de resíduos mercuriais; 3. Descrição das ações para o gerenciamento de resíduos mercuriais; 4. Resultados do processo. Durante a etapa inicial foi realizado o levantamento bibliográfico e do marco legal-regulatório pertinente à temática dos resíduos de mercúrio no país, envolvendo as esferas federal, 3 estadual, municipal e as normas internas da instituição. Assim, foram observadas as determinações estabelecidas na: Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS), Lei Federal 12.305 de 2010, que dispõe sobre os instrumentos e diretrizes relativas à gestão de resíduos sólidos; Resolução RDC 306/2004 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA, que dispõe sobre o regulamento técnico para o gerenciamento de resíduos de serviços de saúde; Política Estadual de Resíduos Sólidos, Lei Estadual 12.300/2006, que institui as diretrizes e instrumentos para a gestão integrada e compartilhada de resíduos sólidos no Estado de São Paulo; Lei Municipal 13.478/2002, que dispõe sobre a organização do Sistema de Limpeza Urbana do Município de São Paulo; e, principalmente na Resolução SS-SP nº 239/2010 da SES-SP, que proíbe a compra, o uso e o armazenamento de materiais contendo mercúrio nos estabelecimentos assistenciais de instituições vinculadas a SES SP. O inventário qualitativo e quantitativo dos equipamentos contendo mercúrio presentes no IBu foi realizado por meio do preenchimento de um formulário contemplando as informações: área geradora, modelo, escala e estado dos equipamentos. Os equipamentos em estoque também foram adicionados ao inventário. Foi efetuada a identificação e quantificação dos equipamentos contendo mercúrio em bom estado, os quebrados, bem como os resíduos líquidos de mercúrio. Os termômetros íntegros foram embalados e acondicionados em tambores homologados para transporte terrestre de produtos perigosos de acordo com a Resolução ANTT nº 420/2004. Figura 1 – acondicionamento de equipamentos contendo mercúrio Os termômetros quebrados foram acondicionados sob água evitando a evaporação do mercúrio. O mercúrio líquido foi acondicionado de maneira hermética, e acondicionado de modo similar aos termômetros inteiros, conforme demonstrado na figura 1 4 As embalagens foram devidamente identificadas, lacradas, pesadas e enviadas para tratamento e recuperação do mercúrio em empresa especializada e licenciada pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo – CETESB. O tratamento do resíduo de mercúrio envolve o aquecimento a uma temperatura de aproximadamente 480C em baixa pressão em um processo denominado desmercurização. O mercúrio destilado é extraído com uma pureza de aproximadamente 99,9% e os demais materiais saem do processo descontaminados. A aquisição de novos termômetros adequados para cada caso, foi realizada pelo Setor de Compras do IBu e posteriormente encaminhados para o Departamento de Garantia da Qualidade (DGQ) para calibração. A troca dos termômetros contendo mercúrio, pelos novos instrumentos calibrados foi realizada de maneira integrada à Gerência de Meio Ambiente (GMA). Figura 2 fluxograma com todas as etapas do processo desse trabalho. 4. RESULTADOS De acordo com o diagnóstico realizado, o IBu identificou 2050 termômetros, dentre os equipamentos contendo mercúrio. Do total de termômetros, 487 pertenciam aos 26 laboratórios de pesquisa e 332 às 17 áreas de produção, além de 1231 nos setores controle de qualidade, estoque, museus, ambulatório e no Hospital Vital Brasil. A escala e o estado destes termômetros foram rigorosamente averiguados. A faixa de medida estava compreendida entre 50 ºC a +300 ºC e a maioria dos termômetros (90%) estavam em bom estado, sendo que apenas 10% estavam danificados. A figura 3 apresenta a distribuição em porcentagem dos termômetros encontrados, divididos entre os setores de pesquisa, produção e áreas de apoio e serviços. 5 Figura 3 – Áreas do Instituto Butantan onde foram encontrados equipamentos contendo mercúrio. De posse do descritivo da escala e quantitativo de termômetros contendo mercúrio, e de acordo com a tabela 1, o Setor de Compras adquiriu termômetros novos de forma equivalente em número e escala. Foram comprados termômetros preenchidos com etanol, com tolueno, com pentano e digitais, com faixa de medida entre -100 ºC a +300 ºC. Apesar do mercúrio ser uma ótima substância termométrica, como podemos observar na tabela 1, o conjunto dos termômetros contendo etanol, pentano e tolueno e os digitais fornece uma ampla faixa de medida (-200 a +1200 C) e, portanto, atende a demanda do IBu, minimizando os problemas ocupacionais e ambientais. A tabela 1 permite uma visão geral dos principais líquidos de preenchimento de termômetros utilizados em conjunto com os seus limites operacionais e suas abreviaturas mais comuns. Tabela 1: Principais líquidos de preenchimento de termômetros Liquido Abreviação Limite inferior (°C) Limite Superior (°C) Mercúrio Hg -38,5 +357 Pentano C5H12 -200 Aproximadamente +35 Etanol C2H6O -110 Aproximadamente +100 Tolueno C7H8 -90 Aproximadamente +100 6 Os limites superior e inferior são definidos pelas propriedades físicas, tais como ponto de fusão e ponto de ebulição. Previamente à entrega, os termômetros novos foram calibrados pelo DGQ. Em uma ação conjunta entre a GMA e o DGQ, para cada termômetro contendo mercúrio recolhido um termômetro novo calibrado foi entregue. Dentre os termômetros recolhidos, os íntegros geraram 78,9 kg de resíduos mercuriais, os quebrados somados a água de acondicionamento 104 kg, e ainda foram gerados 150 g de mercúrio líquido residual, totalizando 183 kg de resíduos mercuriais encaminhados para destinação final. Assim, em conformidade com a legislação vigente, sobretudo a Resolução SS-SP nº 239/2010, os resíduos mercuriais foram destinados a unidades licenciadas para sua recepção, tratamento e disposição. O fluxo de descarte de resíduos mercuriais integrou o Guia Prático de Descarte de Resíduos do Instituto Butantan, que foi elaborado pela Comissão de resíduos e pela Gerencia de Meio Ambiente e está disponível para consulta por meio eletrônico http://www.butantan. gov.br/home/pdfs/guia_pratico_descarte_residuos.pdf. 5. CONCLUSÃO A substituição dos termômetros contendo mercúrio por termômetros menos impactantes à saúde e ao meio ambiente utilizou uma combinação de etapas de forma integrada entre os setores Garantia da Qualidade e Compras do IBu, sob a coordenação da Gerência de Meio Ambiente. O uso de equipamentos contendo líquidos alternativos como etanol, tolueno e pentano e até mesmo eletrônicos no IBu contribuiu para o desempenho seguro das atividades nos diferentes setores, minimizando os riscos operacionais e ao meio ambiente, em atendimento à Resolução SS-SP nº 239/2010. 6. COMPOSIÇÃO DA EQUIPE DE GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS MERCURIAIS Sonia Aparecida de Andrade - Coordenadora Debora Mastantuono Bianca Guimarães Giovana Cappio Barazzone Mônica Spadafora Ferreira Neuzeti Maria dos Santos 7 7. AGRADECIMENTOS COMISSÃO DE RESÍDUOS Mônica Spadafora Ferreira (Presidente) Neuzeti Maria dos Santos (Gestora) GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO Geraldo Alckmin Governador SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE David Uip Secretário INSTITUTO BUTANTAN Jorge Kalil Diretor FUNDAÇÃO BUTANTAN Urânio Bonoldi Jr. Superintendente Geral 8