11 UNIVERSIDADE ESTADUAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E NATURAIS DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA E HISTÓRIA ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA DO MARANHÃO MARIA DAS GRAÇAS SARAIVA BARROSO A ESCRAVIDÃO E A CRISE DO ESCRAVISMO NO ANTIGO MUNICÍPIO DE PICOS - MA. São Luís 2006 12 MARIA DAS GRAÇAS SARAIVA BARROSO A ESCRAVIDÃO E A CRISE DO ESCRAVISMO NO ANTIGO MUNICÍPIO DE PICOS - MA. Monografia apresentada ao Curso de História do Centro de Ciências Exatas e Naturais da UEMA, Campus de São Luís, como parte dos requisitos para obtenção do grau de Especialista em História do Maranhão. São Luís 2006 13 Barroso, Maria das Graças DE SaraivaAPROVAÇÃO CERTIFICADO Escravidão e a crise do escravismo no antigo município de Picos MA. Maria das Graças Saraiva Barroso. -São Luís, 2006 xi, 80 f.:il; 15 Monografia (Especialização em História Universidade Estadual do Maranhão, 2006. do Maranhão). - 1. Escravidão. 2. Crise. 3. Lei do ventre livre. 4. Abolição. 5. Memória oral. I. Barroso, Maria das Graças Saraiva. II Título CDU 94(812.1).063 14 MARIA DAS GRAÇAS SARAIVA BARROSO A ESCRAVIDÃO E A CRISE DO ESCRAVISMO NO ANTIGO MUNICÍPIO DE PICOS - MA. Monografia apresentada ao Curso de História do Centro de Ciências Exatas e Naturais da UEMA, Campus de São Luís, como parte dos requisitos para obtenção do grau de Especialista em História do Maranhão. Orientador: Prof. MSc. Josenildo de Jesus Pereira Aprovado em, ____/____/______ Banca examinadora: ________________________ Presidente da banca ________________________ 2º examinador ________________________ 3ª examinador 15 Dedicatória In memória A minha mãe Ao meu marido João Francisco. Obrigada pelo companheirismo, dedicação e apoio na busca de um sonho. 16 AGRADECIMENTOS À Deus pelo dom e preservação da vida; À meu pai e irmã pelo carinho; À minha sogra pelas orações ao nosso favor; À meus filhos: Marcio Jerry, Leny Régia, João Haroldo, Márcia Rejane, Dinorá Elisa, Wendeel, João Filho, Samuel e Silas André, obrigada por acreditarem em mim. Às minhas noras: Kátia, Katiane, Eliane, Paula Fernanda e os genros Sérgio Paulo, Péu e André. Obrigada por ser parte da nossa família. Ao cunhado Haroldo e seu aluno Carlos pela força nos momentos difíceis na formatação do trabalho. À Ana Lúcia pelo cuidado dispensado a nossa casa. Às netas: karolliny, Thalita, Rafisa, Camila, Dandara, Paula Andréia, Raiza, Gabriela, Rebeca, Mariane, Iara Thalita, Régia Milena, Ana Elisa e aos netos Caetano, Lucas André e João Ricardo, obrigado por trazerem alegria a nossa casa. Ao professor Josenildo, obrigada pela atenção e orientação do trabalho. Aos senhores Antonio Farias, João Santana, Maria da Paixão, Antônia Ferreira, Francisca Dias Ferreira, obrigada pelos depoimentos valiosos ao nosso trabalho. À Simone, pelo carinho e atenção na digitação dos textos. Aos cartórios de Colinas, obrigada Jardânia, Júnior, João e Helenilde pelo acesso aos livros de notas. Ao cartório de passagem franca, obrigada tia Valdeci pelo acolhimento dispensado. Obrigada a todos que direto ou indiretamente cooperaram para que esse trabalho fosse realizado. 17 As relações entre senhores de escravos são frutos das ações de senhores e de escravos, enquanto sujeitos históricos tecidas nas experiências desses homens e mulheres diversos, imersos em uma vasta rede de relações pessoais de dominação e exploração. Thompson 18 RESUMO Neste trabalho estuda-se a Escravidão e a Crise do Escravismo no processo de formação do município de Picos, atual Colinas – Maranhão. Analisa-se a desagregação do sistema no contexto da vigência da Lei do ventre Livre, relação senhores escravos, Fundo de Emancipação e Caminhos da Abolição com ênfase na memória oral. Palavras – Chaves: Escravidão, crise, Lei do Ventre Livre, Abolição, memória oral. 19 ABSTRACT In this work studies it Slavery and the Crisis of the Escravismo in the process of formation of the city of Peaks, current Hills - Maranhão. It is analyzed disaggregation of the system in the context of the validity of the Law of the Free, relation enslaved gentlemen, Deep womb of Emancipation and Ways of the Abolition with emphasis in the verbal memory. Words - Keys: Slavery, crisis, Law of the Free Womb, Abolition, verbal memory. 20 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 11 2. PICOS NO CONTEXTO MARANHENSE ............................................................ 12 2.1 O Porto de Picos e o desenvolvimento do Alto Itapecuru .................................. 23 3. A ESCRAVIDÃO AFRICANA NO BRASIL MARANHÃO E PICOS. ................. 25 3.1 O comércio ......................................................................................................... 36 3.2 As relações sociais nos primórdios da conquista .............................................. 38 4. A ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO E MEMÓRIAS DE REMANENCENTES DE ESCRAVOS EM COLINAS ..................................................................................... 41 4.1 Memórias de remanescentes de escravos em Colinas ..................................... 56 5. CONCLUSÃO ..................................................................................................... 67 REFERENCIAS .................................................................................................. 69 ANEXOS 1. Relação de senhores de escravos. 2. Relação de compra e venda de escravos. 3. Mapa da população escrava de Picos, 1883. 4. Carta de Liberdade. 5. Relação de senhores que registraram escravos a serem libertos pelo fundo de emancipação. 6. Fotos de remanescentes de escravos. 21 1. INTRODUÇÃO As novas pesquisas da historiografia brasileira vêm demonstrando que a escravidão apresentou viv6encias e experiências diversas e o escravo não foi um sujeito passivo, mas sim um agente de sua história. É dentro dessa perspectiva que se busca estudar a escravidão no contexto da formação da antiga vila de Picos no Maranhão. O interesse pelo tema deu-se em função da necessidade de um estudo que contemple a história da escravidão negra no processo de formação do município e a utilização da mão-de-obra escrava na agroexportação, ao lado da pecuária extensiva, no contexto da desagregação do sistema escravista. A pesquisa teve inicio com a leitura de trabalhos da historiografia negra, brasileira e maranhense, bem como fontes primárias em cartórios e paróquias. Consultou-se livros de notas e inventários nos cartórios de passagem franca e colinas, registros de batismos e registro de escravos. A documentação trouxe a tona varias informações que diz respeito à idade, propriedade, condição jurídicas sendo estas fontes para analisar as relações escravistas. A memória oral oriunda dos remanescentes de escravos foi uma preciosa fonte que esclareceram várias perguntas sobre os documentos. O recorte temporal do trabalho corresponde às décadas de 70 e 80 do século XIX, época que nasce Picos na crise de desagregação do escravismo. O presente trabalho foi construído com base na teoria da historia social que tem como objetivo compreender o social na sua pratica, o método utilizado foi o histórico critico com base na teoria de E. P. Thompson segundo o qual os sujeitos sociais constroem suas experiências cotidianas. O trabalho foi dividido em três capítulos. No primeiro capítulo, Picos no contexto maranhense esboça-se o processo e formação de Picos inserido na colonização brasileira e nela a do Maranhão. No segundo capítulo, A Escravidão Africana no Brasil, Maranhão, Picos, destaca-se o cenário econômico e social do Maranhão focalizando a vida dos escravos, o trabalho na agricultura e pecuária, bem como as relações sociais. No terceiro capitulo a abolição e memória dos remanescentes de escravos em Colinas destaca-se o processo de abolição desenvolvido a partir da criação da lei 2040, atuação do fundo de emancipação, registro das memórias daquilo que ficou cristalizado pelos remanescentes. 22 2. PICOS NO CONTEXTO MARANHENSE Colinas, cidade maranhense que integra a região do Alto Itapecuru teve na sua origem o nome Picos. Este foi mudado em razão da Legislação Federal que impedia a duplicidade de nomes a vilas ou cidades brasileiras. Desse modo Picos do Maranhão perdeu para Picos do Piauí por ser esta a cidade mais velha. A partir do Decreto Lei nº. 331, do dia 02 de fevereiro de 1943, a cidade passou a denominação de Colinas. 1 O processo de formação histórica do município está inserido no chamado território de Pastos Bons, vinculado, portanto, ao povoamento da Corrente Baiana, a qual atravessando e povoando o Piauí estabeleceu as primeiras povoações de Pastos Bons. É importante lembrar que a colonização do Maranhão ocorreu através de duas frentes de expansão; uma foi a litorânea que se expandiu sobre o controle do Estado português. A outra corrente povoadora penetrou o interior e ocupou o território que envolve desde o Alto Itapecuru, Rio Balsas e alcança o Tocantins – o então chamado território de Pastos Bons. 2 A fazenda de gado constituiu a unidade básica da conquista da região, como também determinou a força de ocupação do solo. 3. Em 1839 a região atraiu os balaios que fizeram trincheiras em pontos estratégicos, aterrorizando assim os proprietários que temiam perder os negros a sua principal mão de obra. 4 A região de Pastos Bons embora com seu processo de colonização desvinculado do litoral, a violência praticada em relação aos nativos não foi diferente. O comando de Pastos Bons representado por Manuel Lopes e depois pelo seu filho Domingos Lopes, entre 1793 a 1801, organizaram expedições no sentido de aprisionar índios, fazendo em toda região inúmeros prisioneiros. Os índios Timbiras do sexo feminino e os meninos eram os seus alvos principais. ___________________ 1 Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. XV vol. IBGE, Rio de Janeiro, 1959, p. 159. 2 CABRAL, Maria do Socorro Coelho. Caminhos do gado: Conquista e ocupação do Sul do Maranhão. São Luis, SIOGE, 1992, P. 101. 3 Id. Ibid.P. 144. 23 4 Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Op.Cit, p. 158. Em represália a essas atrocidades, os nativos Timbiras lutaram como puderam no sentido de preservar o seu espaço. Chegaram a assolar e despovoar por algum tempo as fazendas de gado que ficavam nas proximidades do Alpercatas. Dentre estas fazendas pode-se citar: Maté, Maravilha, Gameleira, Salinas e Fazenda Grande. 5 Em relação ao povoamento do território que hoje é situado a cidade de Colinas, sabe-se que o Governo Provincial de D. Francisco de Melo Manuel da Câmara (1806-1809), pretendendo promover a navegação do Rio Itapecuru, incumbiu Francisco de Paula Ribeiro da Construção de um povoado na confluência do Rio Alpercatas com o Itapecuru. Estava-se no ano de 1807, época que a família real portuguesa transferia-se para o Brasil e em sua homenagem, o povoado foi chamado de Arraial do Príncipe Regente. 6 O local do referido povoado era habitado pelos nativos “os Timbiras Canelas Finas”, que no processo traumático de violência praticada pelo branco, impediram o desenvolvimento do Arraial do Príncipe Regente. 7 Em 1808, nas proximidades do local citado, em um riacho, a 6 km da atual cidade de Colinas, um menino de 10 anos, trabalhando como servente dos duzentos homens comandados por Manuel. Lopes foi assassinado pelos Timbiras, em represália aos ataques constantes. Após o “crime” retiraram as orelhas e levaram como troféu pela vitória. O assassinato dessa criança mostra o grau da violência imposta pelo colonizador branco, que utilizava menores indefesos na busca dos seus objetivos. Para os nativos, o assassinato de um menino usado nessa “guerra” não compensaria as inúmeras perdas que tinham de mulheres e filhos feito prisioneiros. Era sim uma vingança em uma luta que sem dúvida sairiam vencidos, pela inferioridade que tinham suas armas em relação ao agressor. _______________________ 5 RIBEIRO, Francisco de Paula, memória do sertão maranhense. Editora Siciliano, p. 176 6 MEIRELES, Mário. História do Maranhão, Fundação Cultural do Maranhão, São Luís, 1980, p. 207- 208. 7 RIBEIRO, op. cit. p. 172 24 Em 1815, quando Francisco de Paula Ribeiro foi encarregado de fazer a divisão limítrofe do Maranhão com a Capitania de Goiás, iniciou sua viagem pela foz do Rio Itapecurú, na canoa denominada Graça Divina, que o conduziria até o último porto navegável, no mesmo rio. Passou por Caxias e de lá chegou até o arraial do Príncipe Regente, que se encontrava totalmente deserto. É possível que diante da violência do conquistador na ânsia de ocupar o espaço dos nativos, os poucos sobreviventes terminaram fugindo para a mata deserta. Diante da resistência dos nativos e o isolamento que havia entre as igrejas Matrizes, no território de Pastos Bons, em 1822 foi criado a Freguesia de Almeida D’el Rei, cuja povoação situava-se a margem direita do Itapecuru. 8 É importante lembrar que a Igreja Católica desde a vinda dos portugueses ao Brasil, tinha uma estreita relação com o estado. Esta relação se aperfeiçoou cada vez mais estando sempre a Igreja a serviço do Estado, na defesa dos seus interesses. À medida que as freguesias se expandiam, sem dúvida o controle do Estado seria maior. A criação da Freguesia de Almeida D’el Rei promoveu uma maior integração com o litoral maranhense através do rio Itapecuru. O porto construído a margem direita do rio até meados do século XIX serviu a Pastos Bons e Passagem Franca. Com o afluxo de trabalhadores rurais de diversas regiões, logo foi plantado um núcleo colonial e foi edificada a Capela de São Miguel. O Pároco indicado para a Freguesia foi Francisco da Rocha, que atendia toda a jurisdição de Almeida D’el Rei, que corresponde as atuais paróquias e municípios de Colinas, Buriti Bravo, Passagem Franca, São João dos Patos, Barão de Grajaú, São Francisco, Sucupira do Riachão. 9 _______________________ 8 RIBEIRO, op. cit. , p. 172 9 SANTOS, Neto, Antonio Fonseca dos, Memória das Passagens... Editora EDUFPI, Teresina 2006, p. 66. 25 O local que hoje é Colinas, foi um pouso de viajantes de Passagem Franca e Pastos Bons que se dirigiam a Almeida D’el Rei. Os viajantes que por lá passavam atraídos pelas vantagens naturais fixaram-se construindo suas moradias, pois as terras devolutas eram importantes áreas para expansão da colonização. Nesse contexto Germano Pereira de Sá obteve por meio de Sesmaria uma vasta área de terra, a partir da qual, se desenvolveu o povoado da chamada Fazenda Grande10. Em 1835, pela Lei Provincial nº. 07 de 29 de abril, foi criada a Comarca de Pastos Bons, que ficou dividida em dois municípios: Passagem Franca e Pastos Bons. A Fazenda Grande de Germano Pereira de Sá ficou pertencendo ao município de passagem Franca e ganhando cada vez mais admiradores daqueles que passavam para transportar suas produções pelo porto de Almeida. A principal produção embarcada para Caxias era o algodão e de lá eram trazidas Mercadorias que abasteciam o mercado das vilas de Pastos Bons e Passagem Franca. A partir de 1835, Almeida D’el Rei foi anexada a freguesia de São Sebastião de Passagem Franca. O porto de Almeida D’el Rei foi sem dúvida um dos fatores que mais contribuiu para o desenvolvimento da Fazenda Grande. Outras fazendas inseridas no município também se destacavam, como é o caso da Maté, Gameleira, São Félix e Maravilha. Em 1838, a Balaiada penetrou em parte da província, chegando à cidade de Caxias, que rende-se aos revolucionários. Foi nesse contexto que a Fazenda Grande, do município de Passagem Franca, como muitas outras, foram invadidas pelos Balaios. Na época, o dono herdeiro da Fazenda Grande era o senhor José Pereira de Sá, que temendo que seus escravos se unissem aos balaios pediu socorro às autoridades de Caxias, vindo reforço sob o comando do Tenente Joaquim Eloi de Queirós. Houve combates no povoado Piquete, onde o Srº. Pereira de Sá morreu. Muitas outras vidas foram ceifadas, onde os seus restos mortais jazem num cemitério no Bairro Piquete. _______________________ 10 Enciclopédia dos Municípios brasileiro XV, IBGE, Rio de Janeiro 1959, p. 159. 26 Com o fim da Guerra da Balaiada o tenente Joaquim Eloi de Queirós passou a residir na Fazenda Grande, integrando a família de Dona Cândida Xavier de Monte Serrat, a viúva do Srº José Pereira de Sá. Outros genros integravam a família, entre eles José Caminha Trajano Brandão e Francisco Figueira. O ex-tenente Queirós passou a ser um ponto de apoio à viúva, inclusive sendo professor das filhas menores. Essa relação de amizade e consideração logo suscitou o ciúme e rivalidades na família. Diante das intrigas, Dona Cândida antes de dividir os bens resolveu doar a data da Fazenda Grande à Nossa Senhora da Conceição, a qual compreendia meia légua de terras em quadra, onde na época já havia uma capela de adoração à Padroeira do lugar. Esse ato de Dona Cândida cooperou para o apaziguamento da família e José Trajano Caminha Brandão, passou a ser uma das lideranças da família e do lugar, cooperando sempre para seu engrandecimento. Aos 28 de maio de 1868, através da Lei Provincial nº. 1338, a Fazenda Grande foi elevada à categoria de Distrito Administrativo, com o nome de Consolação 11 Com as vantagens que a referida povoação oferecia, muitos dos criadores e produtores de Passagem Franca transferiram suas residências prosperando assim cada vez mais o povoado. _______________________ 11 IBGE, op. cit. 1959, p.158 27 Esses novos moradores cooperaram para que o então Distrito de Consolação fosse transformado em vila, a qual recebeu o nome de Picos, nome este sugerido pelo Drº Francisco Dias Carneiro, que foi um político e respeitado homem de letras da região. Veja o que diz a lei: “Lei nº. 879 de 04 de junho de 1870. O Drº. José da Silva Maia, vice-presidente da providência do Maranhão: fácil saber a todos os seus habitantes que a assembléia legislativa providencial decretou e eu sancionei a lei seguinte: Art. 1 - Fica elevada à categoria de vila a povoação dos Picos à margem direita do Itapecuru, no município de Passagem Franca. Art. 2 - Para esta vila fica transferida a rede do município de Passagem Franca. Art. 3 - Na mesma vila fica criado um distrito de pais cujos limites ficam sendo os mesmo da subdelegacia que já ali existe por portaria de 24 de abril de 1869. Art. 4 - Fica extinta a vila de Passagem Franca passando a ser o 2º distrito de paz do esmo município. Art. 5 - Os limites de4sse município com o de Pastos Bons continuam a ser a linha imaginária da foz do rio Alpercatas em direção à Inhumas e às cabeceiras do riacho fundo conforme a lei providencial n° 13 de 08 de maio de 1835 . Art. 6-ficam pertencendo ao município de Picos os lugares denominados presidi de baixo, Maravilha,Jenipapeiro, Floresta, Suçuarana, Maté, Peixe e os mais que com estes estão debaixo da mesma linha divisória. Art.7-ficam revogadas as disposições em contrário.Mando portanto a todas as autoridades a quem o conhecimento e execução da referida lei pertence que a cumpram e façam cumprir tão inteiramente com nela se contém. O secretário do governo a faça imprimir, publicar e correr. Palácio do governo do Maranhão, 4 de junho de 1870. a) José da Silva Maia. ( Publicada no jornal ‘Publicador Maranhense’ de 10 de junho de 1870”. 12 28 A elevação de Picos a Vila causou ciúme dos moradores de Passagem Franca, os quais através da Câmara Municipal, fizeram reclamações ao então Presidente da Província. A elevação de Picos a Vila causou ciúme dos moradores de Passagem Franca, os quais através da Câmara Municipal, fizeram reclamações ao então Presidente da Província. A 30 de dezembro de 1870, o Presidente dava resposta negativa aos passagenses, dizendo que a Lei já estava em vigor. 13 Aqueles moradores que eram a favor da transferência da vila de Passagem Franca a Picos, justificavam com o discurso que a força da lavoura estava no Itapecuru e que sendo melhoradas as cachoeiras, poderia chegar até Picos a navegação a vapor, a qual beneficiaria toda a Comarca, especialmente Picos e Mirador.14 Já aqueles que eram contrários a elevação da Vila de Picos argumentavam que só a força do partido é que poderia descobrir a importância em elevar a vila uma povoação com 18 ranchos, como se fez pela Lei Provincial de 04 de junho de 1870. O político e articulador responsável por essa transferência foi o Drº Francisco Dias Carneiro, o qual nasceu em 1837 em Passagem Franca. Foi deputado e vice-presidente do Maranhão Provincial e um dos grandes nomes do Partido Conservador. Dias Carneiro foi um empreendedor rural que se destacou na exportação do algodão. O seu pai era o Coronel Dias Carneiro que juntamente com outros produtores e criadores de Passagem Franca construíram um patrimônio, concentrando em seu poder grandes áreas de terras e gado. _______________________ 12 – IN Reis JR, Minha terra minha gente, p. 153, 154. 13- MARQUES, César Augusto. Dicionário histórico e geográfico da história do MA. Ri J., fon fon Seleta, 197012. 14 Id. Ibid 29 Para se ter uma idéia, em 1894 Dona Rufina Dias Carneiro, na partilha que fez após a morte do seu marido, o Coronel Antonio Regino de Carvalho, ficou registrado no seu inventário 2.500 bois distribuídos em 12 fazendas nos termos de Passagem Franca e Picos, além dos bens móveis a família possuía títulos e ações da Companhia Industrial Caxiense.15 Todo esse poder econômico vai proporcionar a família o poder político na região. O Drº Dias Carneiro foi o articulador responsável pela mudança da Fábrica de Tecidos de São Luís para Caxias, por onde o poder econômico da família se alastrava. 16 Pelos registros do Livro de Notas do 1º Tabelionato de Picos pode-se perceber a liderança política de Francisco Dias Carneiro na região, onde sempre o apresentavam como procurador na resolução de negócios em Caxias, São Luís e até na capital do Império. ________________________ 15 Livro de Notas do Cartório do Segundo Ofício de Picos 16 CALDEIRA, José de Ribamar. ORIGEM DA INDÚSTRIA NO SISTEMA AGRO-EXPORTADOR MARANHENSE. 1875-1895. p.189. 30 Com a elevação de Picos a categoria de Vila, a sede do município que era em Passagem Franca passou a ser instalado em Picos. Aos 12 de outubro de 1871 o Juiz de Direito Doutor Salvador Pires Carvalho e Albuquerque faz a abertura do Livro de Audiências, com a primeira audiência no dia 26 de outubro de 1871, aberta pelo primeiro Oficial de Justiça de Picos, o senhor Adauto José de Sousa. O Doutor Salvador Pires de Albuquerque ficou no cargo até 16 de agosto de 1872. E, em 1873 foi criada a comarca do alto itapecuru pelo referido juiz. Es a lei de criação da comarca do alto Itapecuru. Artigo 1 fica desmembrado da comarca de pastos bons, o termo judicial dos picos, com parte do de São Francisco, das comarcas de São Jose dos matões elevado a categoria de comarca com denominação de comarca do alto itapecuru. Artigo 2 os limites da comarca são os seguintes: §1- Da BARRA DO RIO CORRENTE ATÉ DO RIACHO S.DOMINGOS e por este acima até suas cabeceiras do brejo da onça até a estrada real que vai para PARANAGUÁ passando na fazenda –POR ENQUANTO – até o porto dos VEADOS no rio Parnahyba; e por este acima até de fronte da fazenda BURITY. §2- Da fazenda – seguira uma linha reta passando pelas fazendas SERRA GRANDE, GENIPAPO, PÉ DE SERRA, TABOLEIRAO, UNIÃO, MARAVILHA, PRESIDIO DE BAIXO, e BARRA DOS ALPERCATAS.17 Com sede da comarca instalado em Picos ocorreu, em 1879 a eleição de deputados provinciais para o biênio de 1880 a 1881. O Colégio Eleitoral reuniu-se na casa da Câmara Municipal no dia 16 de novembro do referido ano composto de 24 eleitores, sendo presidido por Feliciano Joaquim Carneiro para eleição de 30 deputados provinciais. 18 _______________________ 17 JACOBINA, Apud,SANTOS, Neto, Antonio Fonseca dos, p 115 18 Livro de Notas. Cartório do 1º Oficio, p. 116-118 31 Segundo a ata da Eleição o resultado foi logo publicado recebendo cada candidato apresentado dezesseis votos, visto que cada eleitor podia escolher vinte nomes.19 É importante lembrar que o voto por todo o Período Imperial era restrito a uma pequena parcela da população. Aos escravos e negros libertos era negado o direito ao voto, assim como também as mulheres. A idade mínima do eleitor era de 25 anos de acordo com a constituição de 1824, exceto os casados, oficiais militares maiores de 21 anos. O voto também era censitário, isto é, exigia-se uma renda mínima para ser eleitor ou candidato. 20 Em 1869, quando Picos era vinculado a Passagem Franca, uma carta desta Vila foi divulgada por César Marques no seu dicionário. Em relação à renda foi comunicado que o Município tinha cento e tantos proprietários, mais ou menos abastados e aptos para concorrer aos cargos públicos, sendo cadastrado 138 jurados para aquele ano. Portanto, o Colégio Eleitoral de 1879, reunido em Picos, comprovou as inúmeras restrições ao voto nesta Vila. É importante frisar que a Igreja na defesa dos interesses do Estado, tinha grande influência no processo eleitoral nesse período. Geralmente era no interior da Igreja que ocorriam as eleições. Após a Missa, assistida pelo Pároco, este era quem indicava os nomes de dois cidadãos para integrar a mesa eleitoral como os Secretários e escrutinadores. Além disso, os candidatos às eleições deveriam professar a religião oficial do Estado – a Católica.21 A eleição de 1879 em Picos foi uma exceção, sendo realizada na Casa da Câmara Municipal, porque segundo a Ata, o Padre da Paróquia se encontrava doente, onde foi justificada a não ocorrência da Missa do Espírito Santos como também foram justificadas as faltas de três eleitores, inclusive o padre Francisco Maximiano da Costa, Pároco da Freguesia. _______________________ 19 Ibid, pág. 116 20 PORTO, Walter Costa. O Voto no Brasil – Da Colônia a Quinta República. História Eleitoral do Brasil, 3º Vol. Brasília – DF, 1989, pág. 25 21 Ibid. 1992, pág. 53 32 Em razão da sede da comarca ter sido transferido de Passagem Franca a Picos, a partir daí o comércio ganhou impulso assim como todas as demais áreas. A vila de Picos, a partir de 1870 passou a ter uma estação de Correios, a qual teve como ajudante dos Correios, o senhor Franco Pereira da Fonseca, que conciliava esta função com a de Professor Primário do sexo masculino. A professora primária do sexo feminino era Dona Inácia Rosa de Moraes Azevedo. Ambos os professores recebiam os seus vencimentos, assim como o aluguel da casa onde funcionava a escola através de procurações que enviavam a parentes ou amigos em Caxias. 22 Em 1878, os representantes da Comissão responsável peã construção da Igreja de Nossa Senhora da Consolação reivindicaram da Assembléia Provincial a verba de Um Conto de Réis, destinada a conclusão da obra, a qual teria sido votada na Lei de orçamento. A procuração foi representada pelos senhores: Professor Franco Pereira da Fonseca e Rafael Bernouchi, os quais constituíram seus procuradores o Doutor Dias Carneiro, o Capitão Gesuino Moreira Lima, Bento José Esteves e João Pedro Ribeiro. Aos referidos nomes eram sempre enviadas procurações de picoenses, do Carcereiro da Cadeia Pública ao Juiz de Direito, para receber na capital da Província seus vencimentos ou outros negócios. 23 Em 1880 a Câmara Municipal de Picos, composta pelos Vereadores: Major Fernandes de Moura e Brito, Alferes Felinto da Silva Ribeiro e José de Brito comprou uma casa do senhor Alferes Elpídio Ferreira de Sousa, na Rua dos Quintais, pelo valor de 840 mil réis. Não foi possível identificar o local da referida casa, mas a verdade é que a mesma foi um dos primeiros bens públicos da Vila de Picos.24 _______________________ 22 Livro de Notas, 1876-1880 23 Ibid, p. 81 24 Ibid, p. 129-130 33 2.1 O Porto de Picos e o desenvolvimento do Alto Itapecuru Com a ascensão de Picos, surgiu também seu Porto, em função da produção do algodão na região. O Porto de Picos foi um impulsionador do desenvolvimento da lavoura e do comércio, era considerado o melhor porto, sendo um entreposto da navegação de Mirador, onde as barcas duplicavam suas cargas devido a maior capacidade do rio. Estava situado uma légua abaixo da confluência do Rio Alpercatas, sendo o último porto a chegar uma boa navegação. 25 Diante da pouca durabilidade do projeto de navegação iniciado pelo Governador Francisco de Melo Manuel da Câmara, (1806 a 1809), os moradores de Picos deram continuidade a esse projeto com autonomia própria. Os modelos de embarcações arcaicas e rudimentares foram construídos pelos mesmos a beira do rio. Nesse contexto surgiu ao lado das tradicionais embarcações a figura lendária do “vareiro” que por muitos anos contou histórias misteriosas do Rio Itapecuru. Os principais tipos de embarcações eram: a canoa, a igarité e o bote. As canoas eram movidas a remo, destinadas a transportar passageiros, a igarité e o bote tinham quilhas firmes para proteger-se de pedras na correnteza. Devido ao rio correr entre floresta densa não era possível aproveitar a energia dos ventos naturais. Surgiu assim a necessidade de um instrumento para empurrar rio acima as navegações. Esse instrumento foi a “vara de ponta ferrada”, que por um século foi a principal característica da navegação do Alto Itapecuru, a “Navegação a Vara”. _______________________ 25 MARQUES, César Augusto. Dicionário Histórico e Geográfico da Província do Maranhão. Rio de Janeiro, Editora Fon fon seleta. 1970. p.158. 34 O trabalho dos vareiros rio abaixo consistia em direcionar as embarcações pelo canal mais fundo do rio para evitar os redemoinhos. As viagens rio acima tinham conotação diferente, a igaraté parte e os vareiros com suas varas começam a descer em fila indiana, o mestre dirige a pesada embarcação no canal da água mansa, que é o canal da subida. A viagem de Picos a Caxias durava 10 dias e em 15 dias o retorno. Os vareiros faziam parte de uma sociedade isolada, moravam geralmente nos barcos, mesmo quando estavam atracados. Quando em terra, gostavam de cachaça, viviam cercados de mulheres que lhes tiravam os tostões da economia forçada de um mês em alto rio. Em relação ao vestuário, em viagem usavam apenas uma tanga e em terra usavam roupas comuns, sapatos de borracha e um boné branco de pala. Os vareiros eram vistos como homens honestos, nunca roubavam no seu barco e se por acaso, cometessem tal infração, seriam punidos com a expulsão do seu mundo, depois de muito apanhar. Os vareiros alimentavam-se de carne seca com farinha, que era a primeira refeição, às oito da manhã, ao meio dia almoçavam feijão, toucinho, carne e arroz, quando lhe era concedido o repouso de uma hora. Ao amarrarem para adormecer, lhes era servido carne seca e farinha. Esse cardápio era variado com os mandubés, os fidalgos e os surubins pescados pelo cozinheiro da tripulação. 26 A figura do vareiro fez parte do processo de criação, povoamento e desenvolvimento da região do Auto Itapecurú. Só em 1897 é que vai registrar-se, pela primeira vez a vinda de um vapor à cidade de Picos. Era o vapor “Gonçalves Dias” da Companhia de Navegação a Vapor do Maranhão. Havia ancorado anteriormente, em 1891, a pequena lancha denominada “Nhonhô”, na qual viajava o Doutor Palmério de Carvalho, que fazia estudos sobre a navegabilidade do Rio Itapecuru. 27 ________________________ 26 REIS, Júnior José Sérgio dos. Nos desvãos do Itapecurú. SN. 1980, p.106 27 IBGE, 1959, p.159. 35 3. A ESCRAVIDÃO AFRICANA NO BRASIL MARANHÃO E PICOS. A escravidão foi um regime social de sujeição que por mais de três séculos perdurou no Brasil. Apesar de ter sido abolido oficialmente há mais de um século, as duas marcas se mantém em todos os recantos do Brasil, manifestando-se através de atitudes de preconceito e discriminação em relação ao negro. O trabalho escravo foi instituído no Brasil em função da instalação da propriedade mono-cultural da cana-de-açúcar. O negro africano foi usado para resolver o problema da mão-de-obra a qual se estendeu a todas as áreas e setores de atividades de Norte a Sul do país. A presença do escravo negro era marcada em toda a parte onde fosse desenvolvido o trabalho. Os portugueses no que diz respeito ao tráfico eram peritos, pois desde meados do século XV já traficavam negros da Costa da África. Como colonizadores do Brasil fizeram do tráfico um dos negócios mais lucrativos da Colônia. 28 Existem dúvidas em relação à época da chegada dos africanos ao Brasil. Mas sabe-se que entre 1502 e 1800, mais de nove milhões de africanos foram transportados para as Américas e o Brasil figurou-se como o maior importador de homens pretos. Nesse contexto delineou-se a formação econômica do Maranhão, embora tardia em relação às outras partes do Brasil. 29 Sobre a entrada dos africanos no Maranhão também há controvérsias. Diante das condições de penúria que vivia a população maranhense nas últimas décadas do século XVII é provável que fosse impossível a importação de negros, visto que o preço do mesmo era altíssimo. 30 ________________________ 28 PINSKY, Jaime, A Escravidão no Brasil, 7ª Edição, São Paulo. Editora Contexto, 1988. 29 MATTOSO, Kátia M. Queirós. Ser Escravo no Brasil. São Paulo. Brasiliense, 1990. 30 MARQUES, César Augusto. Dicionário Histórico e Geográfico da Província do Maranhão. RJ, Fon fon e Seleta, 1970. 36 Por volta de 1682 os fazendeiros maranhenses através da chamada Revolta de Bequimão reclamavam da falta de compromisso da Companhia de Comércio do Maranhão e Grão Pará que em acordo firmado deveria enviar 10.000 negros ao Maranhão à razão de 500 por ano. No prazo de três anos o negócio foi extinto e a noticia que se tem é de 200 escravos trazidos por um dos navios da companhia. 31 A importação de escravos no período deve-se à iniciativa particular, sendo os dados insignificantes. Nos anos de 1692, 1693 e 1698 o Maranhão importou 508 escravos. 32 A entrada de maior número de escravos ao Maranhão deve-se à criação da Companhia de Comércio do Grão Pará e Maranhão que a partir de 1755 passou a abastecer o mercado de escravos numa média de 600 escravos por ano. 33 Nesse período a mão-de-obra escrava baixou de preço, tendo em vista as determinações do governo português, recomendando que as vendas atendessem principalmente aos lavradores, facilitando também as formas de pagamento. O preço do escravo no trabalho era em torno de 160$000 em 1703 e variou de 20$000 a 120$000 no período em que atuou a Companhia no Maranhão. 34 A Companhia de Comércio do Grão Pará e Maranhão foi extinta em 1777, mas a agro-exportação continuou expandindo-se e utilizando cada vez mais o escravo; porém com um agravante que foi a alta do preço, variando na década de 1780 entre 135$000 a 200$000 e em 1813 de 230$000 a 300$000. Indignado com a subida dos preços, Raimundo José Gaioso, Patrono da Cadeira Nº 13IHGM, considerou a escravidão um dos maiores entraves ao desenvolvimento da produção maranhense. 35 É importante ressaltar que o referido contemporâneo da escravidão estava contestando o preços dos escravos, e não ao regime escravocrata. _____________________________ 31 MEIRELES, Mário M. História do Maranhão, São Luís, FAC-Similar, 1992, pg. 85.. GAIOSO, APUD FARIA, Regina Helena Martins de. Trabalho Escravo e Trabalho Livre na Crise da Agroindústria do Maranhão, São Luís, 1998, pg. 40. 32 MATTOSO, Kátia M. Queirós. Ser Escravo no Brasil. São Paulo. Brasiliense, 1990. 33 FARIA, Regina, op. cit. Pg. 40 34 Idi Ibid 35 JUNIOR, Caio Prado. História Econômica do Brasil. São Paulo, Editora Brasiliense, 1994, pg. 82. 37 Mesmo com o preço em alta, o Maranhão continuou importando escravos vindo diretamente da África, de outros portos como Salvador, Rio de Janeiro e Recife e também através de rotas pelo interior, que saiam da Bahia e Pernambuco, cortando o Piauí, chegando à Caxias. 36 A grande produção de algodão no Maranhão ocorreu entre 1812 a 1821, quando o Estado foi destaque no cenário da economia brasileira. 37 Com o crescimento da agro-exportação aumenta o número de escravos, chegando a 53% da população maranhense em 1822. Desse contexto surgiu a célebre frase: “O algodão apesar de branco tornará preto o Maranhão”. 38 O número de escravos da Ribeira do Itapecuru, grande produtora de algodão, era de 83% de sua população.39 Em 1850, com a Lei Eusébio de Queiroz, que proibiu o tráfico internacional, a população escrava passou a declinar, sendo isto mais visível onde as províncias estavam em decadência. O Maranhão, uma das províncias que detinha o maior número de escravos no início do século XIX, enquadra-se nesta posição, pois a partir do segundo quartel do mesmo século, sua população escrava diminuiu bastante, em virtude das pressões inglesas em relação ao tráfico africano e do crescimento do tráfico interprovincial. 40 Diante da crise financeira vivenciada pelos fazendeiros maranhense e possível que a partir de 1831 o Maranhão tenha se desligado da fonte abastecedora de escravos. O fato ocorreu não porque os maranhenses fossem superiores aos demais brasileiros em moralidade e obediência à lei, mas sim porque a queda do preço do algodão empobreceu e quebrantou o ânimo dos nossos lavradores, a ponto de não poderem pagar pelos negros importados. 41 ________________________ 36 Id. Ibid. 37 FARIA, Regina, Op. Cit. Pg. 40. 38 RIBEIRO, Jacila Ayub. Jorge. A Desagregação do Sistema Escravista. 39 REIS, Fábio. APUD. RIBEIRO, Op. Cit. Pg. 82 40 RIBEIRO, Jacila Ayub. Jorge., op. cit. Pg. 83 41 Id. Ibid. pg. 84 38 A economia maranhense via-se diante de antigos problemas, como o débito, a concorrência e o desencontro dos preços. Houve, portanto, uma mudança radical de antigo importador de escravos, passou a exportar com rapidez grandes contingentes da sua força de trabalho. 42 Por duas vezes, o Maranhão beneficiou-se da desarticulação do algodão nos Estados Unidos. A primeira vez ocorreu no período das guerras de independência e depois da Guerra de Secessão, que culminou com a abdicação da escravidão daquele país. A Lei Regencial de 1831, que abolia o tráfico de escravos, coincidiu com a crise econômica que se instaurava na província maranhense. Com o fim das guerras de independência, os Estados Unidos voltaram a produzir algodão e o preço em baixa restringiu a partir de 1820. Em 1830, portanto, o Maranhão estava mergulhado em uma significante crise econômica. 43 Diante da referida crise que ameaçou os fazendeiros maranhenses, sempre endividados com os comerciantes, viram aqueles, no tráfico interprovincial, um meio de obter lucros, para amenizar suas dívidas. 44 Os primeiros registros de venda de escravos no Maranhão para outras províncias ocorreu em 1846, prosseguindo nas décadas seguintes. De 1847 a 1851 foram vendidos 363 escravos para as regiões cafeeiras. Na década de 1850 a exportação aumentou, chegando a 1361 escravos em 1857. Esse tráfico perdurou por toda a década de 1870 indo até 1885, quando foi proibido. A Vila de Picos, atual Colinas, localizada na região do Alto Itapecuru, em seu processo de formação também vivenciou a escravidão, a qual foi a principal relação de trabalho e base da vida econômica e social. Entre as fazendas da região do Alto Itapecuru, estava a Fazenda Grande, que em 1822 foi requerida e concedida através de Sesmaria à Jerônimo Pereira de Sá. Esta fazenda foi o primeiro núcleo da conquista que deu origem à Vila de Picos, atual Colinas e pertencia ao município de Passagem Franca. As terras na Ribeira do Alto Itapecuru foram muito disputadas no seu processo de demarcação no início do século XIX. Aconteceu inclusive de uma ________________________ 42 Id. Ibid. pg. 85 43 Id. Ibid 44 Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. XV Volume, IBGE, pg. 159, Rio de Janeiro, 1999. 39 mesma área ser concedida a diferentes sesmeiros. As fazendas tinham em geral três léguas de terra e entre cada fazenda havia uma légua devoluta, que serviria de divisa. 45 A grande propriedade era um dos elementos básicos da criação de gado, pois o gado sendo criado solto exigia grande extensão de terra. As instalações da fazenda compreendiam a Casa do Vaqueiro, a qual era coberta de palha e o Curral do Gado. O trabalho na fazenda era desempenhado por mão de obra livre e escrava, porém, o trabalho escravo nas fazendas de gado era raro. 46 Na segunda década do século XIX, em toda a região de Pastos Bons, havia uma população de aproximadamente 5.000 habitantes e 1.000 escravos. Os escravos representavam quatro vezes menos a população livre, enquanto em toda a Província, a população escrava representava 50,9% do total da Província. População total e população escrava na província do Maranhão e Sertão de Pastos Bons – 1819/1821. 47 DISTRIBUIÇÃO Província Pastos Bons POPULAÇÃO TOTAL POPULAÇÃO ESCRAVA % 152.893 77.954 50,9% 5.000 1.000 20% Pelos dados acima pode-se perceber que na época que a criação de gado sobressaia-se na região, a mão de obra livre predominava nessa atividade, enquanto a mão de obra escrava era utilizada na agricultura de subsistência. Nas fazendas de gado do Alto Itapecuru, o vaqueiro era a figura principal, e o seu trabalho era pago em espécie, recebendo um quarto da produção de cinco em cinco anos. O trabalho do vaqueiro era espinhoso, tendo que embrenhar-se nas matas em busca do gado, cuidando das vacas paridas e de amansar os bezerros. No mês de agosto ou setembro, o pasto era queimado com o fim de brotar novas pastagens nas primeiras águas. 48 ________________________ 45 RIBEIRO, Francisco de Paula. Memórias dos Sertões Maranhenses. Ed. Siciliano, pg. 88, 2002. 46 Id ibid. P. 84. 47 Ibid. 48 CABRAL, Maria do Socorro Coelho, op cit. Pg 150. 40 O vaqueiro, no convívio das matas, enfrentava o perigo das cobras venenosas e das onças ferozes, as quais procurava combatê-las. No cumprimento de sua tarefa, esse desbravador do sertão, chegava a dormir no campo ou despertava na madrugada, a fim de encontrar o gado nas malhadas e verificar as condições dos mesmos. No caso de haver crias novas, estas eram cuidadas para evitar o contato com moscas varejeiras. As vacas prestes a dar crias, deveriam ficar sob as vistas do vaqueiro, evitando que ficassem bravas com a dispersão. Nas fazendas destacava-se também a figura do fábrica, o qual era uma espécie de ajudante do vaqueiro, que cuidava dos cavalos e de amansar o gado. A quantidade de fábricas era determinada pelo tamanho da fazenda e o seu pagamento, quando este era trabalhador livre, era feito segundo o contrato verbal, que poderia ser mensal ou anual. O fábrica também poderia ser o escravo da fazenda, ou mesmo os filhos dos fazendeiros que no caso, aprendiam a cuidar do gado e passariam a ganhar o quarto das criações de seus pais. Os fábricas também cuidavam da manutenção da subsistência da família. Eram estes que plantavam nas roças os legumes e cereais necessários à alimentação. 49 O vaqueiro enfrentando todas as dificuldades mencionadas, trabalhava motivado por uma ascensão social, de vaqueiro podia tornar-se fazendeiro. É provável que os escravos fossem pouco solicitados à função de vaqueiro, por essa possibilidade. Nas fontes consultadas, encontrou-se apenas dois vaqueiros escravos. Trata-se de Apolinário, 56 anos, preto, vaqueiro de Quirino Moreira Lima, o qual em 1873 compunha uma relação dos escravos a serem libertos pelo Fundo de Emancipação e Eduardo, escravo vaqueiro de Ana Francisca de Carvalho, que recebeu Carta de Alforria em 1879. 50 A partir dos anos 40, o gado vacum teve sua produção em declínio, quando foram acometidos de epidemias que vitimaram grandes rebanhos. As pragas também se multiplicaram e o criador que praticava uma pecuária extensiva, sem nenhuma assistência técnica e veterinária, esperava as providências divinas. 51 ___________________ 49 RIBEIRO, Francisco de Paula, op. cit. Pg. 150. 50 Livro de Notas, Cartório do 2° Ofício, Colinas – MA 51 APUD, César Marques, pg. 510-511 41 Com todas essas inconveniências, em 1861, a população bovina do sertão de Pastos Bons era de 131.200 de gado vacum e 32.800 bezerros. O município de Passagem Franca, inserido nessa totalização, tinha uma população de 26.800 gados vacuns e 6.700 bezerros. 52 Em 1870, ano que se deu a transferência da sede do município de Passagem Franca para Picos, o município tinha uma população bovina de 60.000 gados vacuns e 16.000 bezerros. Esses dados relacionados aos de 1861 são surpreendentes, verificando-se um aumento significativo. 53 Nas proximidades do Rio Itapecuru e do Riacho Balseiro, a lavoura de subsistência era variada, plantando ali os moradores, mandioca, cana-de-açúcar, cebola e alho. O algodão também já era produzido, embora em pequena escala, devido a falta de transportes para o escoamento. Em 1818, uma canoa que vinha de Caxias em combate aos índios Timbiras Canelas Finas na região, embarcou de volta no Porto de Almeida D’el Rei carregada de algodão. 54 Apartir de 1840 a criação de gado que se desenvolvia nas chapadas de Passagem França, foi vitima de inúmeras pragas e epidemias, que desmotivaram os criadores, levando-os mesmos a se dedicarem a outras atividades. Da mesma forma ocorreu com os agricultores da cana de açúcar que se adaptava muito bem nos terrenos de brejos, mas não havia incentivo para produção em grande escala, devido à falta de transportes. 55 São essas inconveniências que levaram muitos lavradores a busca de novas terras às margens do Rio Itapecurú, onde se dedicaram ao plantio do algodão. Com a expansão algodoeira surgiram novos núcleos urbanos, como foi o caso de Picos e Mirador. Nas décadas de 1860 a 1870, a lavoura do algodão passou a ser destaque na região do Alto Itapecuru, enquanto que a criação de gado declinou, sendo uma atividade acessória dos lavradores abastados. ____________________ 52 CABRAL, Mara do Socorro Coelho. Op.Cit. pág. 143. 53 CABRAL, Maria do Socorro Coelho, op cit, p 143. 54 RIBEIRO, Francisco de Paula, op. cit. Pg. 175. 55 RIBEIRO, Jalila Ayub Jorge. op. cit. Pg. 48 42 O algodão era cultivado em baixões, várzeas, com prioridade para os vales da Serra do Belém. Foi nessa área que concentrou-se o maior número de escravos distribuídos nas fazendas Mate, Sítio do Meio, Catumbá, Jaguarana, Cacimbas, etc. Belém atualmente é conhecido como Belém dos Negros. 56 A referida produção mostra o grau de fertilidade da terra, que apesar dos agricultores utilizarem o método tradicional da coivara conseguiram ter uma produção vantajosa. Nesse processo os trabalhadores escravos preparavam a terra, primeiro com foice e machado brocavam e derrubavam no mês de junho, em agosto tocavam o fogo e de outubro em diante plantavam. Mas o trabalho não parava por aí, pois tinham que fazer a capina para manter limpos os pés de algodão e por último a colheita, o ensacamento e o transporte até o Porto de Almeida D’el Rei e depois o Porto de Picos, embarcados ali para Caxias. De Caxias seguia ao Porto de São Luís de onde era exportada para a Europa. 57 Diante da abundância das terras, o lavrador não demorava mais de dez anos numa fazenda. A década de 1860 foi marcada por mudanças para o lado esquerdo do Itapecuru. As capoeiras também eram aproveitadas para o plantio de algodão. Os grãos eram plantados em fileira e intercalados ás vezes por outros gêneros alimentícios, obtendo-se assim bons resultados. Nos terrenos mais pobres era plantado o algodão herbáceo, sendo este mais rico em felpa como também mais rápido no desenvolvimento em relação ao arbóreo. 58 Outros gêneros alimentícios como arroz, milho, feijão, mandioca, etc, não eram cultivados com vistas ao comércio devido a falta de meios de transporte. Esses alimentos eram para subsistência das famílias de senhores e seus escravos. Com o desenvolvimento das atividades mencionadas, a mão de obra escrava era imprescindível. ________________________ 56 Relatório da Camara Municipal de Passagem Franca, APUD, César Marques, pg. 512. 57 Id Ibid 58 Id Ibid 43 Em maio de 1847, o mapa da população do I Distrito de Paz da Vila de Passagem Franca era o seguinte: 59 CONDIÇÕES PESSOAS LIVRES HOMENS MULHERES PESSOAS CATIVAS HOMENS MULHERES 1 A 18 anos 771 654 156 131 18 a 25 anos 207 236 65 62 25 a 50 anos 345 413 168 99 50 p/ mais 98 106 36 20 Soma por condições Soma por almas 2.833 734 3.570 No mesmo ano de 1847, em Ofício da referida vila ao Presidente da Província, Dr° Joaquim Francisco de Sá, eram enviados dois nomes como proposta para Capitães do Mato da Vila de Passagem Franca. Os nomes enviados foram: Pedro Barbosa de Sousa, 36 anos, casado, lavrador e João Francisco de Castro, 26 anos, solteiro, lavrador, de conduta regular. A indicação da proposta estava baseada em uma ordem do Presidente da Província, transmitindo em Ofício de N° 334, de 20 de setembro de 1847. 60 A figura do Capitão do Mato na sociedade, surgiu em função do aumento do número de escravos. Esses homens, diante dos maus tratos que a escravidão lhes impunha, viram na fuga o único meio de conquistar a sua liberdade. Foram muitos os redutos formados por negros fugidos das fazendas, os quais eram chamados de Mocambos. A formação dos Mocambos tornou-se uma ameaça aos fazendeiros, como também causavam prejuízos diante da ausência da mão de obra nas lavouras. O Governo através dos Capitães de Milícias, lutava de todas as formas pela destruição dos Mocambos. Para auxiliar nesta missão, surgiu a figura do Capitão do Mato. ____________________ 59 Oficio do Presidente da Câmara de Passagem Franca ao Presidente da Província do Maranhão – Arquivo Público do estado. 60 Id. Ibid. 44 Apesar da instituição ter nascido no século XVII, no Maranhão a regulamentação veio com o Governador Bernaldo da Silveira Pinto Fonseca (17181822). 61 Segundo o regulamento, o Capitão do Mato seria nomeado pelo Governador, a partir da indicação da Câmara Municipal. O documento deveria atestar a conduta e a partir da nomeação, o Capitão do Mato tinha à sua disposição vários soldados do Corpo de Milícias. 62 A nomeação do Capitão do Mato dava-se em função do aumento do número de escravos presentes nas atividades econômicas da região. O desenvolvimento da lavoura de cana-de-açúcar no Maranhão ganhou força a partir do segundo quartel do século XIX e perdurou algumas décadas por vinte anos. 63 O Presidente da Província, Joaquim Franco de Sá, incentivou a produção através de medidas governamentais. Além de medidas protecionistas, oferecia através do Ministério um prêmio de 30 contos de réis ao lavrador que produzisse acima de 1.000 arrobas de açúcar. A vinda de mudas de cana caiena e a distribuição gratuita das mudas aos plantadores também foi incentivo. Com os esforços do Governo Provincial a partir da década de 1850 foram surgindo inúmeros engenhos. Na década de 1860 o Maranhão contava com 410 engenhos e em 1870, 500. A região do Alto Itapecuru Maranhense, embora com terras propícias ao plantio da cana-de-açúcar, não chegou a ser destaque na região, produzindo apenas a rapadura e a cachaça para o consumo interno. Os engenhos eram rudimentares, visto que os mais modernos foram impossibilitados de chegar na região devido ao atraso da navegação do Rio Itapecuru, como também as condições precárias das estradas. 64 ____________________ 61 VIVEIROS, Jerônimo de. História do Comércio do Maranhão (1612-1895). Associação Comercial do Maranhão, 1977, pg. 88. 62 Id. Ibid. 63 Ibid. Ibid. pg. 89 64 REIS, Júnior, REIS, José Sérgio dos. Minha Terra, Minha Gente – Picos, Atual Colinas Esboço Histórico:SN (19613) pg. 32. 45 1869, Picos fazia parte do território do município de Passagem Franca, momento que demarcava o poder econômico rural pela posse de escravos.e de bois. Nesse contexto, a pecuária por ser extensiva ocupava um número reduzido de escravos como mão-de-obra, enquanto que nas monoculturas agrícolas (algodão e cana-de-açúcar), ocupou um número significativo de escravos e bois. Demonstrado no ANEXOI. O critério utilizado para a classificação foi com base no número de escravos. Chamou-se pequenos senhores aqueles que tinham em 1 a 10 escravos, médios senhores os que tinham 12 a 25 escravos, e grandes senhores os que tinham de 30 a 60 escravos. 65 Na região em estudo, o lugar de morada dos escravos era senzala, a qual situava-se nas imediações da Casa Grande, sendo administrada pelos senhores. Havia também as feitorias, que eram os núcleos independentes localizados em terras afastadas da fazenda sob a administração dos feitores. Os escravos segregados em feitorias, conservavam os usos e costumes de suas terras de origem. Esses preservaram de uma certa forma o contato com brancos e índios. Nas fazendas os negros cumpriam uma dura jornada de trabalho sobre a liderança de um escravo da confiança do senhor, o feitor, a quem eram transmitidas as ordens no sentido de cumprir as exigências do trabalho pesado da lavoura. O escravo era acionado a levantar cedo com destino ao roçado, numa jornada de 12 a 14 horas 66 . volta ao trabalho os negros apesar do cansaço entoavam canções com ritimos monótonos. Seus instrumentos musicais mais usados eram viola, pífaro e os berimbaus. Na festa profana praticavam danças que resumiam-se no tambor, que era exercitado no pátio da senzala e no samba, dançado aos pares em local de barro batido. 67 m das festas citadas os negros realizavam cerimônias religiosas. A religião era uma mistura de espiritismo, catolicismo e seita africana. Para praticar a sua religião, dirigiam-se os negros a um local distante, na mata, onde erguiam um altar à Santa Bárbara e prestavam culto sob a liderança de um chefe. Após esse ato no “terreiro” entoavam cânticos e todos participavam da dança própria da religião. 68 ___________________ 65 Almanaque do diário do Maranhão 1969 66 JESUS, Pereira Josenildo, O mundo do trabalho, texto mimeografado.p 13 67 REIS, Júnior José Sergio, Minha terra minha gente. 68 Id Ibid 46 3.1 O comércio Um dos problemas que dificultavam o desenvolvimento do comércio em toda a região do Alto Itapecuru era a falta de transportes para o escoamento da produção. Como já mencionado, a produção de cana-de-açúcar não chegou à grande escala de exportação, visto a precariedade das estradas e a tardia navegação do Rio Itapecuru. O pontapé inicial no sentido de promover a navegação do Rio Itapecuru foi dado em 1807 com o estabelecimento do Arraial do Príncipe Regente na confluência do Rio Itapecuru com o Rio Alpercatas. Apesar das vantagens oferecidas pela navegação e pelo estabelecimento do Arraial do príncipe regente, a falta de interesse político o fez desmoronar ainda no nascedouro. Todas as expectativas em relação aos benefícios que adivinham da navegação foram frustradas. As fazendas de gado recuaram, a lavoura de algodão paralisou-se. O preço do sal na época, passou de 2$400 réis o alqueire para 6$400, atingindo o valor de 12$800 réis no ano de 1817. 69 Vila de Caxias era o principal centro comercial do sertão, onde vendiase algodão, solas, couros de veados, fumo e gados. De volta aos seus locais de origem (Picos, Passagem Franca, Pastos Bons), os comerciantes traziam os produtos manufaturados provenientes da Europa, que compravam naquele centro comercial. É importante frisar que em Caxias também eram vendidos escravos vindos da Bahia às povoações do Alto Itapecuru. Remete-se ainda, a possibilidade de comercialização de escravos trazidos através do litoral. 70 Das estradas existentes, duas merecem destaque quanto à importância: a que ligava a Vila de Pastos Bons à Caxias e a que unia Caxias à Passagem da Manga, nas proximidades do Rio Parnaíba. 71 ____________________ 69 RIBEIRO, Francisco de Paula. Op. Cit. Pg. 175; 70 Id. Ibid. 71 Id. Ibid. 47 Através da estrada de Passagem da Manga era feito o escoamento de boiadas aos centros açucareiros. Em 1870, no auge da produção de algodão, na região do Alto Itapecuru, foi promulgada a Lei Provincial Nº. 911 que dava autonomia a qualquer cidadão à abertura com recursos próprios, de uma estrada entre os municípios de Passagem Franca e Pastos Bons, para uso público. 72 A referida Lei concedeu este direito ao Tenente Coronel João Manuel de Magalhães e a qualquer interessado. É importante lembrar que no ano de 1870 estava acontecendo uma crise política no que diz respeito à transferência da sede do município para as margens do Rio Itapecuru. Como já foi dito, a transferência não foi um consenso entre os chefes políticos, proprietários de terras da região. Uma parte deles alegou ao Presidente da Província não haver necessidade da abertura dessa estrada que passava por suas terras, sem indenização e sem a autorização de seus donos. Enquanto esses proprietários buscavam a anulação da Lei, outros, direcionados pelo Drº Dias Carneiro, procediam à abertura da estrada, só que ligando os municípios mencionados até o Porto da Vila de Picos. A conclusão da estrada se deu em 30 de dezembro de 1870, quando Francisco Dias Carneiro e Antonio Carneiro da Silva comunicaram ao Presidente da Província, nas condições impostas pela Lei. Em 1871, os referidos senhores receberam elogios do Presidente da Província através do despacho datado do dia 03 de fevereiro de 1871. Pelo visto, as divergências existentes em torno da construção da estrada davam-se em virtude do direcionamento da mesma, se para a antiga sede, a Vila de Passagem Franca, ou se para o Porto de Picos. 73 O certo é que essa estrada contribuiu para o desenvolvimento do comércio naquela região, funcionando como uma via de escoamento dos produtos da região do Porto de Picos e deste para Caxias. O transporte utilizado até esse porto era os burros direcionados pelos tropeiros, que condiziam enormes cargas. ____________________ 72 César Marques,opc. pg. 510-511 73 Id Ibid 48 3.3 As relações sociais nos primórdios da conquista No Alto Itapecuru, a célula da sociedade era a família patriarcal, composta pelo fazendeiro e seus dependentes. O chefe da família exercia amplos poderes sobre os trabalhadores, estando estes direta ou indiretamente ligados a ele. O poder dos proprietários rurais em todo o Brasil era comum desde a colônia, durante o Império, chegando inclusive até o período republicano. 74 As fazendas sendo o núcleo fundamental da vida social, não estavam completamente isoladas, existia uma relação entre elas, até mesmo em função das atividades de pastoreio. O gado, criado solto, exigia que o vaqueiro percorresse terras chegando em outras fazendas, onde havia uma relação recíproca de amizade.75 Uma das práticas que favoreciam a articulação entre as fazendas eram as festas religiosas e populares. As desobrigas eram reuniões realizadas pelos padres em determinadas fazendas, com o objetivo de realizar missas, casamentos, batizados e confissões. Após a realização dos ofícios religiosos acontecia a festa dançante, uma importante atividade no Sertão do Alto Itapecuru. 76 As desobrigas eram um dos momentos onde se faziam presentes as relações de compadrio, que se davam entre senhores das fazendas, familiares e até entre senhores e escravos. Entre 1856 e 1864, nas desobrigas realizadas pelos vigários da freguesia de São Sebastião, aconteceram vários batizados de escravos e filhos de senhores. Os padrinhos dos escravos eram os próprios escravos de senhores da redondeza ou os próprios familiares dos seus senhores. Na Fazenda Maté, de propriedade dos Carneiros, em uma desobriga realizada em 10 de agosto de 1859, foram batizados pelo Padre Francisco de Paula Meneses, 20 escravos, e outras crianças livres. A fazenda maté funcionava como a matriz das propriedades da família Dias carneiro, e nessas desobrigas reunia os senhores de varias localidades que também batizava seus familiares. ________________________ 74 CESAR, Marques op. Cit 75 CABRAL, Maria do Socorro. op. cit. Pg. 180. 76 Id. Ibid. 49 Pode se constatar no mesmo dia batizado de nove crianças livres filhos de senhores da região. Da relação de escravo da relação constatou-se através de depoimentos orais, descendentes desses escravos residentes hoje no município de Picos. 77 Nome Maria Idade 01 Mãe Anacleta Senhor Francisco Dias Padrinhos Honório e Luísa (Escravos) Carneiro Filomena 18 meses Gertrude Francisco Dias Coronel Antonio Dias Carneiro Carneiro e sua esposa Rozalinda Carneiro Victória 07 anos Joana Pedro Vieira Torres Antonio Pereira de Sousa e Joana Pereira de Sousa Benta Raimundo 05 anos Joana Pedro Vieira Torres Clementino (escravo) ? Joana Pedro Vieira Torres Honório e Maria Vitória (escravos) Valentina 06 anos Rita Pedro Vieira Torres Justino P. de Sousa Borlonge Vieira Torres Sebastião 04 meses Rita Pedro Vieira Torres Venâncio de S. Torres Nossa Senhora Sutéria Maria 03 anos 18 meses Joana Silvéria Francisco Dias Nazaril e Cipriano Carneiro (escravos) Cel. Antonio Dias Júlio e Isabel (escravos) Carneiro Agerida Bárbara Manoel 06 meses Clementina 02 anos 01 anos Clementina Sipriana Cel. Antonio Dias Belchior e belizária Carneiro (escravos) Cel. Antonio Dias Semile e Benedito Carneiro (escravos) Arcângela Antonio Dias Carneiro Angélica Rufina Joaquina das Mercês 50 João 05 anos Theotônio 18 meses Domingas Bonifácia Cel. Antonio Dias Venâncio Vieira Torres Carneiro Bárbara Pacheco Joana Ferreira de Antonio Dias Carneiro Sousa Rufina Joaquina das Mercês Cezário Anacleta 05 meses 01 ano Antonia Maria Antonio Dias Nazaré e Ângela Carneiro (escravos) Pedro Dias Carneiro Samuel Augusto de Oliveira Maria Correia de Almeida Inácio 04 anos Esteva Capitão Avelino e Antonio e Martinha Eria G. Duarte (escravos) Siriaco 02 anos Maria Pedro Dias Carneiro Jorge e Luísa (escravos) Sebastião 03 meses Isabel Cel. Francisco Dias Antonio e Martinha Carneiro (escravos) Pedro Vieira Torres Raimundo José de Sousa Filomena 03 anos Joana Maria Rosa ________________________ 77 Livro de Batismo Nº 7, Freguesia de São Sebastião, pg. 150-153 51 4. A ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO E MEMORIAS DE REMANENCENTES DE ESCRAVOS EM COLINAS. A escravidão negra no Brasil começou a entrar em processo de decadência a partir de 1850 quando foi extinto o tráfico nacional. Esse fato levou os fazendeiros da lavoura de café a enfrentar o problema de mão de obra. Os fazendeiros da Região Sudeste passaram a comprar escravos do Nordeste, surgindo assim o tráfico interprovincial. Este não atendeu a demanda nas lavouras do café, apelando então os senhores para imigração européia. A utilização das duas formas de trabalho (escravo e livre) veio demonstrar a incompatibilidade da vigência das mesmas, aumentando cada vez mais o descrédito na escravidão. 78 O surgimento da indústria manufatureira no Brasil também veio reafirmar a ineficiência do trabalho escravo diante da modernidade. 79 As contradições existentes na escravidão serviram de base ao seu processo de decomposição. A pressão abolicionista foi tanto interna como externa. A França através da Junta Francesa de Emancipação enviou cartas ao Imperador com assinatura das maiores figuras do abolicionismo francês. 80 As idéias abolicionistas européias impregnaram autoridades brasileiras e intelectuais que passaram a perceber a divergência entre escravidão e um estado que pretendia modernizar-se dentro de princípios de liberdade e igualdade jurídica dos cidadãos. Enfim, as pressões contra a escravidão são provenientes das transformações sócio-econômicas presentes no país a partir de 1850. 81 A Guerra de Secessão nos Estados que pôs fim a escravidão daquele país contribuiu também para a reativação das discussões parlamentares no Brasil, pois o mesmo colocava-se numa posição incômoda em relação a outros países que tinham libertado seus escravos. 82 ________________________ 78 PRADO, Júnior Caio. História Econômica do Brasil. 41ª Ed. São Paulo. Brasiliense, 1994. 79 Id. Ibid. 80 COSTA, Emília Viotti da. A Abolição. Coord. Jaime Pinsk. São Paulo. Global. Ed. 1982. pg 45. 81 QUEIROZ, Suely R. Reis de. A Abolição da Escravidão. São Paulo. Brasiliense, 1999, pg. 46. 82 FARIA, Regina Helena Martins de. Trabalho Escravo e Trabalho Livre na Agro-Exportação do Maranhão. Pg. 113. 52 A questão da emancipação dos escravos ganhou mais força com a Guerra do Paraguai. Na organização das tropas brasileiras para o confronto, o governo concedeu liberdade aos escravos designados para o exército. Esse fato contribuiu para aumentar nos escravos o desejo de libertação. Esse sentimento foi se propagando por diversas partes do país através de grêmios, clubes, jornais e associações. 83 As idéias emancipacionistas chegam aos rincões mais distantes do país e nestes encontra espaço para se desenvolver diante do desmoronamento do Sistema Escravista. Apesar disso em Picos era comum nos anos setenta do século XIX a comercialização de escravos e até leilões em praça pública. Da mesma forma na antiga sede do município Passagem Franca verificou-se em números casos de compra e venda de escravos, variando o preço entre 100$000 (cem mil réis). Em Picos este passou a ser percebido através da instabilidade econômica dos senhores, que passaram a vender seus escravos como meio de compensar suas dívidas. Na antiga sede do município de Passagem Franca, por toda a década de 60 do século XIX verificou-se inúmeros casos de compra e venda de escravos, inclusive leilões em praça pública. Naquela época o preço do escravo variava entre 100$000 (cem mil réis) a 1.200$000. 84 Em 1870 a sociedade passagense participa de um leilão quando um escravo por nome Vicente recebeu 3 lances: A primeira no valor de 50$000 (cinqüenta mil réis), o segundo 150$000 (cento e cinqüenta mil réis) e o terceiro oferecia 50$000 (cinqüenta mil réis) sobre o maior lance, ou seja, 200$000 (duzentos mil réis). A última proposta partiu de João de Barros Marinho, que por ter sido tutor dos órfãos donos do escravo, teve seu lance recusado. Por fim o escravo foi arrematado por Joana Baptista Labre, no valor de 150$000 (cento e cinqüenta mil réis). 85 ________________________ 83 COSTA, Emília Viotti da. Op. Cit. Pg. 44 84 Livro de Notas N° 8 (1869-1878), fls 13-14 85 Id. Ibid. pg. 14 53 É importante ressaltar que o intuito de João Marinho ao pedir o direito de posse sobre o escravo, deu-se pelo fato desse senhor já ser proprietário de uma parte do escravo. Este havia sido comprado de uma outra órfã por nome Isabel. Vejo o teor da Audiência Pública: “Audiência Extraordinária...Aos dois...em audiência extraordinária que fazia o juiz dos Orphãos Doutor Theodoro Thadeu de Assumpção comigo escrivão ao diante nomeado aberta a audiência com o toque de campainha e apregoes pelo Official de Justiça Francisco de Paula Dutra. Declarou o mesmo Juis que se achava em praça e arrematação o escravo Vicente de propriedade dos órphãos Clarinda e Francisco, filhos do fallecido Raimundo de Barros Marinho e convidou aos pretendentes que aprezentassem suas propostas que forão aprezentadas uma do Tenente Rodrigo Alves dos Santos oferecendo cincoenta mil réis, outra de Dona Joanna Baptista Labre offerecendo cento cincoenta e um requerimento de João de Barros Marinho pedindo adjudicação e offerecendo para esta cincoenta mil réis sobre o maior lanse e considerando o juis que João de Barros tinha cido tutor dos ditos Órphãos encluzive da Orphã Izabel de quem houve por compra aparte do escravo que se arrematava indeferiu sua petição mandou que se passasse titulo de arrematação a Dona Joanna, do que....” Aos 14 de março de 1873 em Picos, o Tenente Coronel Joaquim Francisco de Carvalho arrematou em público a escrava Jovência pela quantia de setecentos mil réis. De acordo com esses relatos verificou-se que o valor pelo qual o escravo Vicente foi arrematado estava aquém do preço da época, embora se tratasse na ocasião do leilão, de apenas 2/3 do escravo. A crise da agro-exportação que ocorreu junto a crise do escravismo levou muitos senhores a contrair dividas penhorando, assim, seus escravos junto a outras propriedades. Em dezembro de 1876, o Tenente Coronel José Farias Pereira contraiu uma dívida de onze contos e setecentos e cinqüenta mil réis a João Rodrigues da Silveira,de São José dos Matões. Na escritura foram penhorados a data São Felis e Lagoa Grande (hoje povoado de Colinas) e mais treze escravos de onze a quarenta anos, todos roceiros. Não foi possível constatar se a dívida foi paga e se os escravos voltaram ao seu senhor. 86 54 Da mesma forma, o senhor Evaristo Raimundo de Freitas com uma dívida de um conto de réis para pagar em dois anos à Joana Francisca da Silva, penhorou o escravo de nome Manuel Catuaba, 39 anos. A credora comprometia-se a tornar sem efeito, caso o devedor desse a escrava Brígida, de 15 anos de idade. A referida conta foi quitada após quatro anos, através da escrava Brígida, com 19 anos e Ana com 27. A escritura de penhor de Manuel Catuaba ficou sem efeito e o mesmo foi vendido para São José dos Matões. 87 Uma outra escritura pública de dívida e penhor coloca em xeque os escravos do Coronel João Francisco de Carvalho, por conta de uma dívida de três contos e quinhentos mil réis ao seu mano Major Antonio Regino de Carvalho. Portanto, seis escravos de seis a trinta e nove anos, a partir de onze de agosto de 1876 ficaram em poder do Major citado. 88 A crise dos senhores também é percebida a partir da compra e a venda dos seus escravos que se dava com perdas significativas. Um exemplo disso é o do Vigário Francisco Mariano da Costa. O mesmo comprou do Major Honório a escrava Vicência e seu filho Israel por 1.200$000 no mês de janeiro. Em abril do mesmo ano (1869) vendeu ao Alferes Firmino de Athaide Galvão por 1.000$000 (1 conto de réis).89 De acordo com o mapa de 1883 entraram em Picos 253 escravos e saíram 435. O aumento da saída dos escravos se dá em função da crise econômica enfrentada pelos fazendeiros que viam nos vantajosos preços oferecidos pelos traficantes uma forma de minorar suas dívidas. É possível que essas vendas fossem intraprovinciais, visto que a população escrava, segundo o mapa da época apresentava um elevado número de homens, que parece não estar sendo tão drenado pelo tráfico interprovincial que priorizava a força do trabalho masculina. 90 Diante desse clima de instabilidade, os caminhos da Abolição estão sendo trilhados. A gradual emancipação dos escravos foi uma das propostas contidas no manifesto dos liberais em 1869. _________________________ 86. Livro de Notas (1876-1880). Primeiro Tabelionato de Picos, Nota N° 32. Cartório do I Ofício – Colinas-MA. 87. Id. Ibid. 88. Id. Ibid. Nota N° 20 89. Id Ibid 90. Id. Ibid. 55 Embora não tenha sido acatada pela ala radical que propôs alguns meses depois a abolição, o manifesto gerou uma grande mobilização pública. Em março de 1871 um projeto pautado numa visão gradualista foi apresentado à Câmara por Visconde do Rio Branco e após meses de intensa agitação foi aprovado aos 28 de setembro.91 A lei Rio Branco sob N° 2040, chamada posteriormente de Lei do Ventre Livre, colocava em pauta o debate em torno da emancipação gradual dos escravos. No seu Artigo primeiro dizia: “Os filhos de mulher escrava que nasceram no Império desde a data desta Lei, serão considerados livres”. Estes, no entanto, ficariam em poder dos senhores, os quais ficavam na obrigação de mantê-los até os oito anos de idade. Chegando a essa idade o senhor poderia optar em entregar a criança ao Estado, recebendo uma indenização no valor de 600$000 ou mantê-la até a idade de vinte e um anos. O ingênuo, como se chamava o liberto, ficava na obrigação de trabalhar sem remuneração em troca pelo sustento até 21 anos de idade. 92 Entre os dispositivos e parágrafos que faziam parte da Lei do Ventre Livre estava o da criação de um Fundo de Emancipação como também era concedido ao escravo o direito de formar um pecúlio, que no caso de ser suficiente para indenizar seu valor teria direito a comprar a sua liberdade. Os recursos para a manutenção do Fundo seriam arrecadados através de uma taxa sobre os escravos, impostos gerais sobre transmissão de propriedade escrava, multas em função da Lei ou quotas que deveriam ser criadas no orçamento geral, provincial e municipal, legados e doações.93 Na antiga Vila de Picos, a Lei 2040 começou a ser percebida a partir da mobilização dos senhores de escravos que foram convocados pela Junta de Classificação a fazerem o registro dos escravos a serem libertos pelo Fundo de Emancipação. Em abril de 1873 o Inspetor da Tesouraria da Fazenda do Maranhão fazia a abertura e o encerramento de um livro, ________________________ 91. COSTA, Emília Viott. Op. Cit. P. 43. 92. Id. Ibid. 93. Livro do Estado Servil. ART $8$2: Ir. VEIGA, Luís Francisco da. 1873. 56 o qual “deveria servir para o lançamento do quadro das classificações dos escravos existentes no município da Vila de Picos”, que têm de ser libertados conforme a quota disponível do Fundo de Emancipação nos termos de Req... que baixou com o N° 5135 de 13 de novembro de 1872”. 94 Segundo os critérios estabelecidos, os escravos deveriam ser registrados no prazo de um ano e em caso de omissão dos senhores, os escravos não registrados seriam libertos ou do contrário o senhor pagaria uma multa de 100$000 a 200$000 por escravos. 95 Os trabalhos da Junta de Classificação sediada na Casa da Câmara Municipal de Picos tiveram início em 1873 com o comparecimento de 35 senhores, os quais registraram 136 escravos, com idades variadas entre 1 a 88 anos. Após 2 anos, os referidos senhores registraram os escravos em Ordem de Famílias e Ordem de Indivíduos. Em 1ª Classe foram agrupados os escravos casados, de diferentes senhores e filhos menores de até 6 anos de idade. A 2ª Classe foi composta por escravos solteiros entre 12 a 43 anos de idade. Na 4ª Classe foram agrupados os escravos casados com filhos livres. Na referida relação como vê-se não apareceu a 3ª Classe. 96 Segundo Ofício Circular do Ministério da Agricultura e Obras Públicas, as prioridades deveriam ser dessa forma abaixo descrita: “Na ordem das famílias compreendem-se: I – os escravos casados com pessoas livres; II – os cônjuges que forem escravos de diferentes senhores, estejam ou não separados, pertençam aos mesmos ou a diferentes condomínios; III – os cônjuges que tiverem filhos ingênuos menores de 18 anos; IV – os cônjuges que tiverem filhos livres menores de 18 anos; V – os cônjuges que tiverem filhos menores. Escravos; VI – as mães, viúvas ou solteiras, que tiverem filhos escravos menores de 21 anos; VII - os cônjuges sem filhos menores ou sem filhos. Na ordem dos indivíduos compreendem-se: I – a mãe, viúva ou solteira, com filhos livres; II – o pai, viúvo com filhos livres; III – os escravos solteiros de 12 a 50 anos de idade, começando pelos mais moços, no sexo feminino e pelos mais velhos, no masculino. 97 ________________________ 94. Livro de Registro de Escravos. Cartório do 2° Ofício, Colinas – MA. 95. COSTA, Emília, Op. Cit. Pg. 47 96. Livro de Registro de Escravos. Cartório do 2° Ofício, Colinas – MA. 97. APUD, FARIA, Regina. Op. Cit. Pg. 116 57 As juntas de Classificação em Picos, apesar de tentar obedecer aos critérios estabelecidos pela Lei 2040, muitos senhores de escravos e políticos tiraram proveito da mesma cometendo várias irregularidades. A primeira foi em relação aos registros que foi dada preferência aos escravos idosos e inválidos, sendo esta uma forma de se desfazer dos mesmos sem a perda total do que nele foi investido. Na relação apresentada por João Francisco de Carvalho estavam os escravos Custódio e Carlos com 72 e 60 anos, ambos carapinas e casados, porém foi ignorado o nome de suas mulheres. Lucas Bandeira Barros na sua relação, apresentou somente o escravo Mateus de 88 anos, roceiro, no entanto, encontra-se inválido. José Camilo Teles Virgínio, registrou Felipe, 76 e Francisco 64 anos, ambos roceiros, também casados com mulher e marido ignorados. 98 Fica bem claro que a emancipação desses escravos, cujas forças de trabalho estavam esgotadas, iria beneficiar os seus senhores, que receberiam preços exorbitantes caso fossem emancipados, esses escravos continuavam com a mesma vida de outrora. O trabalho da Junta de Classificação em Picos foi muito lento e os poucos resultados só foram percebidos após uma década. Escravos classificados na primeira relação organizada pela Junta (1873) em 1882 continuaram sendo listados. A escrava Ignez, de Manoel de Jesus Rocha, fazia parte da 1ª Classe de famílias registradas em 1873, com 32 anos de Idade. Na relação de 10 de janeiro de 1882, Ignez aparece com 42 anos ao lado de Sebastião, seu marido e dois filhos ingênuos, com um detalhe: Ignez encontra-se paralítica. Em 1883 ao lado do registro de Ignez, encontra-se a observação que seu marido, foi emancipado pelo Fundo na última classificação. Da mesma forma ocorreu com Janaína, escrava de Lavínia; o marido, Basílio foi emancipado em 1882 e a mesma continuava escrava na relação de 1884. _______________________ 98. Livro de Registro de Escravos. Cartório do 2° Ofício, Colinas – MA. 58 Em 1886, Picos na tentativa e angariar recursos do fundo de emancipação na libertação dos escravos enviou a última relação a qual segue abaixo: José, cor preta, 53 anos, casado, roceiro, valor: 322$000 do senhor Joaquim Francisco de Carvalho. Virgílio, casado, roceiro, 32 anos, avaliado em 784$000 do senhor José Dias de Oliveira Pimentel. Theotônio, 24 anos, casado, roceiro, 661$000, de dona Ana Francisca. Justina, 54 anos, solteira, 240$680, de Joaquim Francisco de Carvalho. De acordo com relações desse tipo enviadas ao ministério da agricultura observa-se a importância dada as famílias no processo de libertação. O casamento foi incentivado, uma forma de manter a unidade familiar e fortalecer o regime escravista, sendo portanto um meio de prorrogar o mais que possível seu desmoronamento total. Em função da proposta gradualista de Rio Branco, a Lei 2040 em seu Artigo 4, concedia liberdade através do pecúlio. Este utilizado nas alforrias em Picos foi de 698$260. Dos escravos classificados para libertação pelo Fundo, tinha pecúlio em poder do Senhor, a escrava Justina, com 50 mil réis, Bárbara, 200$000 (duzentos mil réis). A escrava Justina cujo valor era calculado em 240$680 para comprar a sua liberdade necessitava, portanto, de mais 200 mil réis. O Fundo de Emancipação em todo o país enfrentou uma série de problemas e em Picos também não foi diferente. Um deles como já falou-se foi a morosidade, a distância da capital, a falta de comunicação, a falta de vontade política na aplicação dos fundos, tudo isso prejudicava a liberação das manumissões. A quota do Fundo de Emancipação destinada à Picos foi de 29.929$695, sendo distribuídos por etapas de acordo com o número de escravos existentes. O número de escravos libertos pelo Fundo de Emancipação foi de 43 escravos. 99 Da relação de escravos, pertencentes a João Francisco de Carvalho, enviadas a serem libertos pelo fundo de emancipação constatou-se os seguintes nomes de libertos no dia 20/04 de 1877: Custódio, de 73 anos, casado, carpina,apto para o trabalho, avaliado em cem mil réis; Simplício, 43 anos, casado, roceiro, apto para o trabalho,avaliado em quinhentos mil réis; Rita, 59 anos, casada, roceira, apta para o trabalho, avaliada em cento e cinqüenta mil réis. Escravos de Ana Francisca 59 de Carvalho: Bento, 34 anos, casado, carpina, apto para o trabalho, avaliado em oitocentos mil réis; Isabel, 37 anos, casada, roceira, avaliada em quinhentos mil réis; Hylário, de 8 anos, apto para o trabalho, avaliado por um conto de réis; Cândido, 6 anos, avaliado por novecentos mil réis. E o escravo do Quirino Moreira Lima: Apolinário, 37 anos, casado, vaqueiro, apto para o trabalho, avaliado pó setecentos mil réis. 100 A declaração dos nomes desses libertos foi feita pelo juiz Paulo José de Almeida em audiência pública na casa da Câmara municipal referente a cota do fundo de emancipação distribuída naquele ano para o município no valor de quatro contos seis centos setenta e seis mil oitenta e oito réis. Além desses libertos, identificou-se em 1882 os nome s de Sebastião e Basílio. O primeiro de 51 anos, roceiro, de Manuel Jesus Rocha e o segundo, preto, de 50 anos, escravo dos órfãos de Ana Idalina Labres de Sousa. 101 Diante do exposto observa-se que parece haver um apadrinhamento político na liberação do nome dos libertos. Os primeiros agraciados são justamente os irmãos João Francisco e Ana Francisca de Carvalho que receberam quantia significativa por escravos com uma vida de trabalho. Em uma época que a expectativa de vida do escravo era de 40 anos, o escravo Custódio de 73 anos foi avaliado em 100 mil réis. Um outro absurdo contido na relação é com referencia ao escravo Cândido de 6 anos é avaliado por 900 mil réis. Se em 1877 esse escravo tinha 6 anos o mesmo deveria ter sido contemplado com a lei do Ventre Livre. É provável que diante desse exemplo a lei 2040 era burlada pelo senhores escravos. ________________________ 99 Ribeiro, Jalila Ayoub Jorge op cita pg 148. 100 Livro de notas numero 8(1869-78) fls 73 e 73 v Apud Santos Neto 101. Livro de registros de escravos de Picos. Cartório do segundo ofício. Colinas-MA de 60 No período que começou a aparecer os resultados do Fundo de Emancipação o Inspetor da Tesouraria da Fazenda do Maranhão, notificava o recebimento dos mapas em anexo, enviados pelo Coletor das Rendas Gerais de Picos, o senhor José Joaquim Ferreira. A notificação é do dia 04/12/1883, referente às matrículas efetuadas até 20/06/1883. 102 Nas décadas de 1870 a 1880 a população escrava de Picos decresceu em função do tráfico interno, da elevada mortalidade e também influenciado pelas manumissões, ou seja, a concessão do direito do escravo alforriar-se. A mortalidade no meio rural foi um dos fatores que contribuiu para a redução da população escrava. Os medicamentos eram a base de ervas, pois nas fazendas não havia assistência médica, sendo esse um dos motivos dos altos índices de mortalidade. Segundo o Mapa da População Escrava de Picos em 1883 a mortalidade foi responsável pelo decréscimo de 164 escravos. Através do processo de manumissão vários cativos foram alforriados. As alforrias poderiam ser do livre arbítrio do senhor e outras concedidas através da Lei 2040. A Carta de Liberdade foi um dos instrumentos da manumissão mais utilizados para conceder liberdade ao escravo. Nessas cartas era mencionados o senhor ou a senhora que concedia liberdade ao escravo, logo em seguida a identificação do escravo que estava sendo liberto. 103 As Cartas de Liberdade concedidas pelos senhores e senhoras de Picos e registrados em Cartórios, nos Livros de Notas, foram redigidas tanto pelo escriturário e assinados pelo senhor ou procurador; no caso deste não saber escrever e também pelo próprio senhor do escravo. As primeiras Cartas de Alforrias concedidas por senhores de Picos datam da época da Fazenda Grande. Aos 23 de setembro de 1863 foi registrada no Cartório de Passagem Franca uma Carta de Liberdade de Ignez, concedida pelo Alferes João Francisco de Carvalho. Nessa mesma época, escravos desse senhor foram batizados na Fazenda Maravilha, então município de Colinas. 104 _______________________ 102. Arquivo Público do Estado do Maranhão. 103. Livro de Notas Nº. 2. Segundo Tabelionato de Passagem Franca. 104. Id Ibid 61 Dessa mesma década foram registradas mais de quatro Cartas de Alforria. Belizária da Mota Carneiro concedeu liberdade à sua escrava Rosa, de 40 anos, pelo valor de 480$000 (quatrocentos e oitenta mil réis) em moeda. A referida Carta dói assinada na Fazenda Gameleira, também hoje município de Colinas. Outra Carta de Liberdade foi concedida ao escravo Luís, de 70 anos, pelo valor de 200$000 (duzentos reis). 105 Na década de 1870, quando Picos passou a condição de Vila e a sede do município, constatou-se seis Cartas de Alforria, como vê-se abaixo: 106 DATA SENHOR 03/11/1875 Francisca Maria ESCRAVO IDADE Manoel 28 da Rocha 10/03/1977 Quitéria Maria Alforria pelos bens prestados. Caciano ? Alves Usufruir liberdade depois da morte da sua dona. 19/02/1877 Carlota Felisbella Carlos 60 de Jesus 20/02/1877 Manoel Joaquim amor a liberdade Leonardo 45 Noleto 01/12/1878 Quintino Pereira Alforria por Liberdade pelo valor de 300$000 Raimunda ? de Sá Concede liberdade pelos serviços prestados à mãe no valor de 58 réis na parte que lhe cabe, por herança do pai Francisco Pereira de Sá. 02/02/1879 Ana Francisca de Carvalho Eduardo 49 Concedida pelo valor de 600$000 (seiscentos mil réis). 62 As cartas de alforrias eram concedidas de maneira gratuitas ou onerosa, isto quer dizer, que podiam ser doadas pelo senhor ou compradas pelo escravo, ou por alguém que pretendesse vê-lo livre. Na descrição acima vê-se exemplos de alforrias onerosas e gratuitas. Em relação as alforrias, o motivo pelo qual o senhor concedia era sempre pelos “bons serviços prestados ao senhor” ou em entre outros casos por “amor a Deus” ou “amor a liberdade”, como é o caso da alforria concedida ao escravo Carlos de 60 anos. As cartas de alforria podiam ser também condicionais. Alforria condicional determina em que o alforriado servisse ao seu senhor. Nos exemplos acima o escravo Cassiano recebeu carta de dona Quitéria, mas na condição de só usufruir liberdade depois da morte da sua dona. A manumissões também podiam ser concedidas através de disposições testamentárias, sendo que não identificou-se esse exemplo em Picos. Houve casos em que os escravos no maranhão receberam liberdade paga por instituições religiosas e particulares. Pode-se citar a irmandade de São Benedito e sociedade manumissora maranhense 28 de julho. Essas instituições colaboraram para o decréscimo da população cativa na província 107 O mapa de escravos de 1883 contém um total de 51 escravos manumitidos, sendo 9 a títulos onerosos e 42 a títulos gratuitos. Das Cartas de Liberdade analisadas três foram concedidas gratuitamente, cinco onerosas e uma condicional. 108 Segue em anexo uma Carta de Alforria concedia pela senhora Carlota Felisbella de Jesus ao seu escravo Carlos, de sessenta anos de idade. _______________________ 105. Livro de Notas do 1º Tabelionato de Picos. Cartório do 1º Ofício, Colinas – MA, pg. 67-69 106. Id Ibid 107. Ribeiro, jallila op. cit, pg. 121-122. 63 Apesar da lei 2040 não atender as expectativas esperadas, contribuiu de certa forma para diminuir a população escrava diminuir, os escravos a partir de então perderão a importância no sentido de garantir as transações comerciais dos proprietários rurais. 109. Ao iniciar a década de 80 o movimento abolicionista cresce em todo o Brasil, principalmente nos centros urbanos. Cartazes em favor da abolição desfilavam pelas ruas das cidades, assim como promovem-se conferencias e comícios nas varias províncias e foi nesse clima que o ministério liberal Sousa Dantas apresentou a câmara em projeto de emancipação dos escravos sexagenários. Diante do fato a câmara dividiu-se e o ministério Dantas em função da oposição da câmara ao projeto foi dissolvido e novas eleições convocadas A nova eleição foi desfavorável ao ministério Dantas e com um novo ministério liberal formado, um novo projeto com versão modificada foi apresentado em 1884. O novo projeto estipulava que os escravos emancipados aos 60 anos ficavam obrigados a trabalhar mais três anos para o seu senhor, ou até atingir 65 anos. Alem disso, o projeto também oferecia vantagens aos senhores que libertassem seus escravos concedendo indenização. ________________________ 108. Arquivo Público do Estado 109. Ribeiro, Jalila op. cit pg. 150. 64 O projeto provocou repulsa dos abolicionistas mais radicais o que colaborou para o enfraquecimento do ministério levando o presidente Saraiva a renunciar. Em 1885 um novo gabinete ministerial presidido pelo Barão de cotegippe conseguiu aprovação do projeto transformado em lei que passou a ser chamada lei Saraiva cotegippe ou dos sexagenários. 110 Nas discussões do referido projeto de lei ficou registrado nos anais da câmara o discurso do maranhense e articulador político de Picos Dr. Francisco Dias carneiro. O mesmo pregava que abolição da escravidão se daria sem precisa de leis, dando-se através do que ele chamava “elaboração social”, ou seja, as raças africanas e européias através das misturas constituíram uma raça brasileira. O discurso do deputado terminava desta forma: “Sr. Presidente, vou concluir com uma suplica ao venerando Sr. Presidente do conselho; se estamos fatalmente condenados a votar uma reforma do elemento servil, peço ao presidente do conselho que se inspire no seu grande patriotismo, no futuro deste país, que tanto amamos e para o qual desejamos toda prosperidade; e seja qual for sua resolução não tenha receio dos agitadores imprudentes, dos anarquistas das ruas, porque eles não constituem a nação, não podem decidir seu destino. O senhor Saraiva. Presidente do conselho: - “se eu também que quero emancipação dos escravos.. não é por medo dos anarquistas”. ______________________________ 110 Costa Emilia viott Da .op.cit pg. 68-69 65 Nas palavras do deputado fica bem claro a sua concepção conservadora, como também fica claro a importância da pressão popular no processo da abolição da escravidão. O deputado fazia parte da elite agrária que se posicionava contra o movimento abolicionista É essa mesma elite que descaracterizou o projeto inicial da lei do sexagenária que em vez de dar liberdade aos escravos com sessenta anos, só foram libertos com sessenta e cinco anos, pois os que tinham sessenta anos eram obrigados a trabalhar mais três para os seus senhores como indenização. Mesmo depois de aprovada a lei Saraiva cotegippe continuava colocando em anuncio de jornais a compras de escravos. É possível que diante desse comportamento é que a lei nº. 3 270 não teve resultado satisfatório para os escravos. Na luta contra a escravidão os escravos encontraram importante setores da sociedade como aliado. Dessa aliança de escravos com abolicionista é que em 1884 foi extinta a escravidão no Ceará. Vários escravos a partir dessa data fugiam para o Ceará com ajuda dos abolicionistas. 111 No Maranhão Dunshee de Abranchs foi um dos abolicionistas que se destacou na organização de fuga de escravos, como também na organização de clubes abolicionistas que se espalharam nas principais cidades maranhenses. Em Picos uma comissão abolicionista foi formada por representantes da vila os quais foram combatidos pelo então juiz municipal que era um senhor escravocrata. Em picos não foi possível constatar benefícios da lei 3270 conhecida como a lei do sexagenário, em todo o Maranhão apenas 452 escravos foram beneficiados pela lei. o último recurso da repressão, o açoite, foi abolido em 1886 e isso reduziu muito a força dos senhores de escravos.112 O processo de libertação no Maranhão só foi concluído no dia 13 de maio de 1888 quando em fim foi assinada a lei áurea que disponha de dois artigos: 1 é declarada a extinta a escravidão no Brasil 2 revogam-se as disposições ao contrario. ___________________ 111 Montenegro, Antonio Torres. Reinventando a liberdade. 16 Edição, editora atual, p. 13. e enciclopédia dos municípios brasileiros. XV vol. IBGE. Rio de janeiro, 1959, p.159. 112 CONRAD, APUD Ribeiro Jalila. pg. 154. 66 O então deputado maranhense e picoense Francisco Dias Carneiro, acompanhando o posicionamento do partido conservador assinou a lei áurea, sendo esta ação repudiada pelos familiares, inclusive a sua mãe Ana Francisca que residia na fazenda Maté no município de Picos. 113 Sobre o fato um dos remanescentes de escravos residentes na Jaguarana nas proximidades da Fazenda Maté tem registrado na memória aos versos abaixo: No dia 13 de maio a liberdade chegou, chorava dona Antônia, soluçava seu Godô a dona Ana deu vaia e o doutor Lobão se obrou”. João Santana 4.1 Memórias de remanescentes de escravos em Colinas Memórias de Remanescentes de Escravos em Colinas. A Vila de Picos, atual Colinas, apesar de ter surgido no cenário maranhense na desagregação do sistema escravista, as suas marcas ficaram registrada na memória dos remanescentes. Na tentativa de fazer um resgate dessas memórias buscou-se entrevistar remanescente de escravos identificados através de sobrenomes comuns aos senhores de escravos de Picos e as áreas de produção da lavoura. A memória aqui, não é real vivido e sim uma construção das lembranças que foram passadas por familiares aos seus descendentes. As recordações que serão registradas são de netos e bisnetos, algumas individuais e outras adquiridas socialmente tornando coletivas. ________________________ 113. Fonseca neto. Op.cit, pg. 369. 67 Nas conversas com os descendentes escravos alguns informaram que ouviram muitos casos narrados pelos seus ancestrais, mas não deram importância, talvez porque desejassem fugir do estigma desse passado. Os depoimentos que serão registrados são de dois homens e quatro mulheres que se identificam como negros e descendentes de escravos que viveram em áreas de produção agrícola do município de Colinas e Passagem Franca. Três depoentes rememoram com nitidez os seus pais, avô, avó, descrevendo sua genealogia até a época da escravidão e os outros não conseguiu identificar além da primeira geração. Eis aqui a relação dos nossos entrevistados: Antonio Farias Pereira - 90 anos, natural de Colinas. Filho de Dorotéia Borges da Silva e José Farias Pereira. Os seus avós foram escravos de Belisário e Cândida, família escravocrata de Picos. Entrevistado em 14/11/2005 João Santana da Silva Barbosa - 71 anos, natural do povoado Jaguarana, reconhecido como Comunidade Quilombola-Colinas-Ma. Entrevistado em 09/12/2005 Maria da Paixão - 73 anos, natural de Passagem Franca, residente no Bairro Cambirimba - Colinas, filha de Raimundinho Preto.e Isabel. Entrevistado em 04/11/2005. Caetana Maria da Conceição Silva - 73 anos, natural do Belém dos negros. Filha de Marcelina (negra) e Manoel Martins (caboclo). Entrevistado em 12/11/2005 Antonia Dias Ferreira - 84 anos, natural da Taboca do Belém filha de Maria da Soledade e Graciliano Dias Ferreira - descendentes de escravos de Dias Pimentel. Francisca Dias Ferreira - 82 anos, natural da Taboca do Belém filha de Maria da Soledade e Graciliano Dias Ferreira - descendentes de escravos de Dias Pimentel. Entrevistada em 07/12/2005 Nas entrevistas realizadas buscou-se identificar as lembranças de sua família, a vida do cativeiro bem como as relações com os senhores, cultura e a vida do negro após a abolição. 68 Dialogando sobre as suas origens os depoentes assim se expressaram: “A minha mãe foi do fim do cativeiro, nasceu em 1887, mas a mãe dela viveu como cativa. Ela foi criada pela Iaiá que era irmã de sua mãe Joana. A sua avó, a escrava chamada Clara foi mucama na casa do Senhor Belizário. Ela era muito inteligente e com um professor dentro de casa pra ensinar os filhos do Senhor, ela aprendeu a ler e a escrever. Minha bisavó era escrava, mas lia bem e escrevia. O meu bisavô, esse era dono de escravo, batia em negro, era o Tenente Coronel José Farias Ferreira e depois meu pai se chamava por esse mesmo nome... Naquele tempo era assim, a escrava tinha filho com o Senhor. Meu avô materno foi escrava, mas não chegou a apanhar, ele era um carpina fino, trabalhava bem na madeira, era o escravo Sulino, dessa gente aí da Lagoa Grande, eu ainda conhecia o casarão dessa gente”. Antonio Farias. “Meus avós era Jerônima Monteiro da Silva e Tito Vieira Torres. A vó de Tito era da cozinha de branco, desse povo de Torres da floresta, aí sabe como é que é naquele tempo as escravas, muitas vezes embuchava do seu Senhor.O meu bisavô era feitor preto, quando me entendi encontrei vaca, égua dele,porque o feitor era escravo, mas tinha outra liberdade, era de confiança do Senhor, que era esse João Cândido Torres. Eu conheci um banco que meu avô conservava. Ele dizia que aquele banco era de bater em negro lá na floresta....A floresta era onde tinha a Casa Grande do João Cândido, era lá, outra na Maté desses carneiros e também do Sítio do Meio. Na Maté ainda tem pra quem quiser ver um muro de pedra feito pelos escravos. Lá na Mate era uma das sedes de fazenda tinha a Casa Grande”. João Santana. “Nasci na Taboca do Belém e até hoje moro lá, meu pai foi criado na casa do Senhorzinho, ele não foi do cativeiro, mas sabia tudo e contava para nós. O pai dele foi mesmo cativo. Ele dizia que o avô dele era João e Salomé, só assim naquele tempo negro só tinha o primeiro nome. O dono dele era chamado Dias Pimentel”. Francisca Ferreira Dias “Minha mãe era Izabel que veio do Piauí, já de conta própria, era muié livre já de conta própria quando veio morar em Passagem Franca. Ela dizia que nasceu na era dos três oito (1888)no ano que o cativeiro acabou. A minha mãe tinha até um livro da Princesa Isabel, que dói, em falar, pois ela quem inventou os negros, num foi?!... O meu pai era Raimundo aí desses negros da 69 banda do Redute(Colinas). Ele achou minha mãe na Passagem e se juntaram até morrer. Já morreu aqui no Cambirimbo”. Maria da Paixão “Tanto a minha avó Grégoria como meu avô Timóteo eram escravos de Iria Pimentel que vieram aí da banda do Sítio do Meio lá pra Taboca do Belém onde se vive até hoje”. Antônia Ferreira Dias. As informações contidas em quatro depoimentos contidos acima chegam até a terceira geração. Os dados registrados na memória do Senhor Antonio Farias, são impressionantes quando se refere ao seu bisavô, o Tenente Coronel José Pereira de Farias. Da mesma forma encontraram-se registros do mesmo no quadro de Senhores que classificavam seus escravos, e também nos livros de nota em procurações e escrituras. Em relação aos seus ancestrais maternos refere-se a bisavó Clara a Iaiá Joana. Esta família compõe o quadro dos escravos a serem libertos pelo fundo de emancipação em 1873. Eis como aparecem os ancestrais do Senhor Antônio Farias. Número Nome Cor Idade Profissão Senhor 309 Clara preto 30 anos roceira Belisário e Cândida 310 João preto 10 anos roceira " " " 311 Silvéria preto 08 anos roceira " " " 312 Joana preto 06 anos roceira " " " 313 Maria preto 04 anos roceira " " " Diante de cópias do livro de registros de escravos, levadas a serem vistas pelo referido depoente, o mesmo com gesto de satisfação, pergunta pelo escravo Sulino, que é o seu avô paterno. Não se identificou o mesmo nos registros de escravos, crê-se que os seus dados estejam em folhas rasuradas que foram impossibilitadas de serem lidas. Em relação ao segundo depoimento de João Santana, os dados da memória oral confere, com os documentos da época. O mesmo senhor, João 70 Cândido Torres foi suplente de juiz em Picos (1873) ao mesmo tempo em que era Major e Ajudante de Ordens da Guarda Nacional. Os depoimentos de Antonia e Francisco com dois anos diferentes de idade, vêm complementar um ao outro. Dona Antonia tem lembranças da vó Grégoria e do avô Timóteo. Já Dona Francisca acrescenta o nome dos bisavós, sendo que a primeira enfatiza o nome da Senhora Iria e a segunda faz menção do Senhor e Senhora de escravos dos seus avós. Dados dos referidos senhores constam em procurações, batismos e como também nas listas de classificações de escravos a serem emancipados. O Tenente José Dias de Oliveira Pimentel era proprietário de fazendas no município de Picos e em São José dos Matões, e em 1879 foi juiz interino da Comarca do Alto Itapecuru. Nas indagações que se fez aos entrevistados sobre as lembranças da vida dos cativos registrou-se o seguinte: A escravidão em Picos não foi diferente dos outros lugares do Brasil. Era o mesmo sofrimento. Os meus avós tiveram uma vida de sofrimento. A minha vó se acanhava de falar. Meu bisavô, este era dono de escravos, tanto batia como mandava bater em negros. Minha vó falava que lá na Almeida tinha um lugar de açoite. O escravo mesmo levava uma carta feita pelo seu dono, saia aí do Centro da Lagoa Grande com essa carta que dizia quantas chibatadas era pra ser dada pelo carrasco. Era um sofrimento danado. Meu avô materno foi escravo, mas não chegou a apanhar. Era o escravo Sulino, ele era um carpina fina. A minha mãe, essa já nasceu no fim do cativeiro, já nasceu livre!...Mas agora tinha outros, como o povo da minha sogra Isabel, o pai dela era o Matias escravo do José Moreira, Pai do Major Sebastião. Esse Senhor mandava nas cacimbas e no Canto Bom. Lá é que dizem que tinha sofrimento. O lugar de açoitar os negros era lá, que depois é que passaram a chamar Serra Negra. Lá o golpe passou, e os negros continuaram apanhando. Antônio Farias “No Sítio do Meio, tinha uma Casa Grande e de lá meu avô Tito contava muitos casos do Comendador Severino. Era Severino Dias Carneiro. Agora esse Senhor era malvado... Nesse tempo as viagens para Caxias de animal. Comendador Severino 71 numa destas viagens, tempo de guabiraba, ele foi subir num pé de guabiraba, de botas e nisso caiu e ficou enganchado. Um negro que presenciou correu pra acudir. Quando acudiu que tirou do engancho ele disse: __ Agora vira pra cá, eu vou te dá um tiro, pra tu não sair aí dizendo que viu o Comendador trepado que nem guariba. Deu um tiro e o sujeito ficou lá mesmo.”. “Outra vez diz que tinha umas parentas da família e comentaram com ele de conversa que sabiam de matar negro, bater em negro e ele assim falou:__ Vem aqui que eu vou te mostrar como é que se mata guariba. Chamou um nego, mandou subir num pau, deu um tiro, e ele caiu queto. Ficou todo mundo horrorizado. Nesse dia tinha lá na fazenda uns vendedor de Santo do Ceará e num sei onde esses homens denunciaram dele, o certo é que veio a polícia e prendeu o Comendador. Aí os negos quando viram ele preso, zombaram dele e aproveitaram pra fugir. Diz que tinha três nego carrasco da confiança dele, era...eu num lembro o nome, um se chamava Guabiraba, os outros não me lembro. O certo é que os negros fugiram. O Comendador logo foi solto e voltou pra fazenda, mandou caturar os negros e logo trouxeram de volta. Na volta uns se valeram dele. Os mais perigosos não pediram perdão. O Comendador mandou os negros cortar pau e trazer da mata. Mandou fazer uma fogueira, quando tava na brasa viva disse: ___ Eu não vou mandar bater em vocês, mas o que passar três vezes por cima da brasa, esse vai ganhar a alforria. Aí eu num sei o resultado.” João Santana. “Lá no Centro da Floresta tinha uma casa com lugar próprio de bater em negro. Minha mãe não apanhou, foi criada pela dona Iria(filha) mas era como filha. Um dia um hóspede da família encontrando uma escolha no arroz reclamou e disse: Iria essa tua criada carece ser castigada, não cata o arroz direito, e ela assim respondeu: 72 A minha criada é como se fosse filha e eu não vou castigar por isso...”. Antonia Ferreira “...Os negros apanhavam, mas o senhorzinho, se falava que era bom. Quando tinha negros ruins, que não estava se dando bem, aí eles vendiam pra outro cruel. Tinha Senhor que não tinha coração, botava os negros para o caminho em uma travessa da casa de um alado para outro e com o espeto por baixo. Eh! Negro sofria!” Francisca Ferreira “...A minha mãe contava tanto sofrimento que eu não gostava nem de escutar. Tinha uns, que para se livrar do cativeiro, se juntava e fugia.Quando estavam já longe no meio da mata, já com fome, um subia no pau mais alto, pra vê se não via modo de gente. Tando tudo calmo eles acendiam um fogo pra fazer alguma comida. As vezes quando a panela já tava fervendo, escutavam um tiro, aí juntavam tudo e corriam de novo até encontrar um lugar seguro pra viver em paz.Tinha aqueles homens só de caçar os negros fugidos e bater. Era uma perseguição horrível.” Maria da Paixão “...dos negros aqui do Belém nunca sei se apanhavam, mas eu via os mais velhos falar que na Serra Negra, no tempo do Seu Sales amarravam os negros num pau e assanhavam os maribondos. Negro sofria!e num era só negro não, era quem trabalhava pra ele. Era trastejar o pau comia”. Caetana Esses são alguns exemplos do que foi a escravidão em Picos, a qual o Sr. Antonio Farias sintetizou muito bem quando disse que não foi diferente do resto do Brasil, era o mesmo sofrimento!.O símbolo da repressão, o tronco esteve em vários locais do município de Picos. O negro no entanto não se acomodou diante do sofrimento, a prova esta nas fugas que faziam, embora enfrentado a fúria do capitão do mato. 73 O negro em Picos também lutou em busca dos seus direitos, como foi o caso do escravo Serafim de Eufrásio Alves da Mota, que em 16 de março de 1877 compareceu a audiência municipal de órfãos fazendo de4núincis dos maus tratos e abandono que vinha recebendo em função de está doente. Outro exemplo de luta que merece destaque foi do escravo Eugênio que lutou na justiça contra Carlota Ferreira de Sousa que moveu queixa crime contra Anacleto Joaquim Ferreira que deu carta de liberdade ao referido escravo. O depoimento de Francisca faz lembrar da venda de uma escrava de 5 anos, feita por Germano de Morais Cutrim ao Coronel João Francisco de Carvalho. A escritura da referida compra e venda dizia que o comprador comprometia-se a pagar “300$000(trezentos reis) pela escravinha, Raimunda, no estado “em que se acha” e com todos os achaques, manhas, sérios defeitos presentes e futuros que tem”. A principio pensou-se na hipótese de ser a escrava filha do senhor, que a comprava. O depoimento de Francisca porém vem agregar outra hipótese: o então comprador poderia ser “um senhor cruel” capaz de tirar os defeitos da escravinha através da violência. Na narrativa de Caetana a mesma associa a violência da escravidão com a Serra Negra no tempo do Sales Moreira. Sales Moreira era o chamado Capitão da Serra negra, influente “político da região nas décadas de 1940 e 1950”. Antonio Farias também se reporta ao local quando fala:...″Na Serra Negra o golpe passou e os negros continuaram apanhando”. Um outro tema abordado pelos entrevistados foi em relação a cultura negra na região,onde foi enfatizado o seguinte: “Minha mãe falava que sua avó Clara fazia uma festa todos os anos reunindo todos os lavradores com os produtos da roça parta festejar. Essa festa é lá do Velho Testamento, a festa de Izídio. Eu até lembro de um pedacinho da reza que dizia assim: Meu Senhor Izídio filho da Espanha, nosso advogado... aí eu não lembro mais. Depois dessa festa aí tinha o tambor de crioula, mas era proibido tomar qualquer coisa para embriagar”. Antonio Farias “O tambor que eles brincavam na África aqui só podia fazer se fosse bem longe para os Senhores não serem incomodados. Até aqui em Colinas quando nós chegamos aqui, a Mariinha do Doca inventou o tambor pra nós baiar. O Sargento 74 Matos veio aqui e proibiu a brincadeira. Ela teve que fazer uma casa bem distante pra poder baiar o tambor de mina. A festa de Santa Bárbara, essa tem todo o ano, eu tô assim doente mas os outros organizam tudo, uma vez até me levaram.”...O meu pai esse gostava era da festa de São Sebastião da Passagem Franca. Ele foi por muitos anos o capitão do Mastro dessa festa. Depois que nós se mudamos ele ia pra lá, juntava com outros amigos pra derrubar aquele pau grande e na madrugada pra amanhecer o 10 de janeiro iam buscar esse pau as vezes distante duas ou mais léguas. De lá vinham cantando, bebendo e entravam pelas ruas da cidade de casa em casa louvando o santo e aquele pessoal nas suas casas até chegar na porta da igreja.Lá enficavam aquele mastro que ficava até o dia 21 quando novamente todo mundo reunia pra derrubada do mastro.Essa festa até hoje se faz na Passagem Franca”. Maria da Paixão “Eu sempre ouvi os mais velhos falar, que aqui tinha uma grande festa, que era festa de Bárbara. Quem trouxe pra cá foi uma escrva da moda Rosália, essa veio mesmo da África. Era a mãe de Prudêncio e de Ezaquiel. Aqui quem fazia festa de Bárbara eram eles; mas era dentro das matas... Tinha também outras festas para se divertir. Tinha as tocada de pifees e tambo. Tinha também o tambor; ah!os negros gostava de festa e ainda gosta!”. Francisca Ferreira Dias Em relação aos negros depois da abolição veja o que diz nossos depoentes: “No Cruzeiro pra banda da Lagoa Grande muitos negros herdaram terra dada pelo Coronel José de Farias Pereira. Lá na Lagoa Grande ficou o Firmino Ramos, a Virgínia era dessa gente... A Virgínia era dessa gente...A Virgínia ela era a mãe da Martinha, que foi professora lá na Lagoa Grande, ensinou muita gente. Ela também era da gente do meu bisavô... Só que elas ficaram com outro nome, acho que é do Norberto”. Antonio Farias. 75 “No fim do cativeiro quando o avô de meu pai tava forro ele comprou uma terra desses Dias Pimentel porque aqui os grandes era esses Dias Pimentel e os Carneiro. Mas era tudo misturado, só que os Carneiro ficava lá na Maté... Pois bem, como eu falava, uma parte dessas terras deu confusão. Foi quase um cativeiro. O Capitão Lili comprou um pedaço de terra lá dos Machado e entrou nas nossas. Botou lá um agente dele pra agir, houve uma briga terminou com morte, morreu o agente dele e meu primo Timóteo que era o mesmo nome de meu pai”. “ Terminado o cativeiro os negros continuaram trabalhando nas terras do senhor. Para meu avô foi dado umas terras, mas ele não se importou, pois terra não valia nada, o que valia era o gado. Depois de muito tempo os Moreiras compraram a fazenda de gado e o lado do açude e com o tempo se apoderaram de tudo. Ficou assim: quando alguém reclamava porque não tinha terra pra roça, ele dizia que a terra era do gado. Daí em diante começou outro cativeiro, com o dia da lei ... O dia da lei era o seguinte: todo morador das terras do capitão Moreira era obrigado a trabalhar três dias de serviço por ano nas terras dele. Era na limpa das quintas, nas roças, era limpando as beiras de estrada e tudo que ele precisasse. Agora aí não era só negro não; todo morador dele era obrigado a trabalhar”. João Santana Em relação ao dia da lei o mesmo foi instituído na Serra Negra, município de Picos, hoje Colinas. O depoimento a cima é confirmado em relatos do capitão o qual descreve como funcionava a participação dos seus moradores no cumprimento da lei assim como agia em função dos que desobedecessem. O referido dia da lei, como era chamado pelos moradores, tratava-se de umas das cláusulas dos direitos e deveres dos agregados. 114 Essa prática adotada pelo capitão Moreira Lima pode ser comparada com a corvéia, uma das obrigações dos servos na idade média, os quais tinham que trabalhar algumas vezes por semana nas terras do senhor feudal. Só que essas práticas foram 76 adotadas em épocas bem diferentes. O dia da lei em meados do século XX, em quanto que a corvéia foi adotada em pleno obscurantismo da idade média. Atualmente grande parte das terras que no passado foram trabalhadas no regime de escravidão hoje são áreas de assentamento compradas pelo INCRA e com carências de infraestrutura para que os moradores venham a viver com dignidade. _______________________ 114 Oliveira Antônio Augusto Pires de: o capitão da Serra Negra: relato de Gonçalves Moreira Lima, São Paulo: Martins, 1982 77 5. CONCLUSÃO A atual cidade de Colinas do maranhão surgiu no período de decadência do sistema escravista. O município inserido na região de Pastos Bons teve como primeiros habitantes os índios timbiras, canelas finas, os quais travaram varias investidas no sentido de preservar o seu espaço. O comando dos conquistadores sediado em Pastos Bons, organizaram várias de combates aos nativos conseguindo, portanto, eliminar grande parte e os poucos sobreviventes emaranharam-se nas matas. A partir da expulsão dos nativos, a região foi aos poucos povoada através do que se chama corrente baiana, cujos componentes passaram a instalar suas fazenda de gado, em áreas de terras concedidas chamada Sesmaria. As terras ás margens do alto Itapecuru foram muito disputadas entre os sesmeiros sendo que a área da fazenda Grande a unidade básica do povoamento, foi concedida a Germano Pereira de Sá. A fazenda Grande na época da Balaiada era uma das mais prósperas da região e foi invadida pelos balaios. No enfrentamento das forças, e o dono da Fazenda, morreu em combate, o que gerou o declínio da fazenda. O gado vacum que até nos anos 40 do século XIX foi uma das maiores produção da região a partir daí foi vitima de pragas e epidemias que desmotivaram os criadores. Vários desses criadores que habitavam em Pastos Franca e Passagem Franca onde se dedicaram a produção de algodão. Foi desse fluxo de moradores em rumo às margens do rio Itapecuru que emergiu da fazenda Grande a Vila de Picos. Nas áreas de produção de algodão nas proximidades da Serra do Belém a principal mão de obra, foi o escravo negro que era proveniente de Caxias e São Jose dos Matões. As fazendas de uma mesma família eram distribuídas em vários locais e a comercialização desses escravos com os senhores dessas localidades. O fundo de emancipação de escravos que era um, dispositivo da lei do ventre livre foi manipulado pelos políticos conservadores beneficiando os grandes senhores que faturaram somas exorbitantes em escravos idosos e crianças. O movimento abolicionista através de clubes associações, comissões, esteve presente em Picos, mas a liberdade dos escravos só foi concretizada com a lei áurea, que libertou os negros a partir da assinatura da lei aos 13 de maio 1888. A 78 partir da sonhada liberdade o negro passa a lutar pela terra por um espaço de trabalho. Atualmente a maioria dos remanescentes que reside em colinas vivem na periferia da cidade, em áreas de atrito de terra e assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). 79 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRANCHES, Dunshee de. O Cativeiro. 2 ed. São Luís: Alumar, 1992. Arquivo público do estado do Maranhão. Ofício do presidente da câmara de Passagem Franca CABRAL, Maria do Socorro Coelho. Os Caminhos dos gados. SIOGE. 1992. CALDEIRA, José de Ribamar. Origem da indústria no sistema agroexportador maranhense. 1895. CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravatura no Brasil. 1850 – 1888. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. COSTA, Emília Viott. Da. Da senzala à colônia. São Paulo: Fundação editora da UNESP. 1998. COSTA, Emília Viott. A abolição. Coordenação Jaime Pinsk. São Paulo. Global. Ed. 1982. Enciclopédia dos municípios brasileiros. 5 vol. IBGE. Rio de Janeiro. 1959 Faria Regina Helena, Martins de. 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