MULHER E TRÁFICO: A AFETIVIDADE PRESENTE NAS AÇÕES DE
MULHERES ENVOLVIDAS COM O TRÁFICO DE DROGAS
Laisa Dannielle Feitosa de Lima1
Resumo:
Diariamente nos deparamos nos noticiários com histórias de muitas mulheres que se envolveram
com o tráfico de drogas, e isso nos leva a pensar acerca das motivações que levam a inserção da
mulher no crime e em especial de quanto o amor pode contribuir para ações ilegais. Sabemos que
existem problemas sociais para homens e mulheres, ao analisarmos a história da humanidade,
percebemos que para as mulheres, existem fatores culturais característicos do gênero. Escolhemos
o amor para nortear nosso trabalho. Buscamos compreender a participação da mulher no tráfico
de drogas, pois acreditamos ser relevante entender as causas que levam tantas mulheres no Brasil
a entrarem para o mundo da criminalidade, sobretudo o crime do tráfico de drogas, que é a maior
causa de prisões no país. Dentre as motivações que possam levar a mulher ao tráfico de drogas,
nossa análise terá por base a afetividade, como motivação principal para a inserção da mulher no
tráfico. Faremos nossa discussão mediante uma perspectiva que leve em consideração as questões
de gênero, buscando compreender como a mulher traficante de drogas se posiciona enquanto
sujeito e quais as implicações de sua identificação.
Palavras-chave: Mulheres, Tráfico, Afetividade, criminalidade.
INTRODUÇÃO
Ao longo dos anos as sociedades humanas conquistaram inúmeros direitos,
importantes passos foram dados em busca da liberdade e igualdade dos indivíduos. Para
as mulheres a conquista e garantia desses direitos deu-se de maneira mais lenta e
complicada, estas enfrentaram e ainda enfrentam discriminação nas mais variadas esferas
das sociedades. Fica evidente que muitas conquistas foram alcançadas, mas ao mesmo
tempo isso demonstra cada vez mais o longo caminho que as mulheres terão que percorrer
para alcançar a equidade de gênero em todos os espaços da vida social. Foi através de
embates teóricos e na vida pratica que as mulheres iniciaram e vêm lutando contra
posições subalternas em relação aos homens. No que se refere às leis, ao longo do tempo
muitas mudanças nas consciências de homens e mulheres possibilitaram que as leis
também sofressem transformações e assim garantissem a igualdade entre os sexos.
1
Universidade Federal de Campina Grande
Buscamos compreender em nosso trabalho a participação da mulher no tráfico de
drogas, acreditamos ser relevante entender as causas que levam tantas mulheres no Brasil
a entrarem para o mundo da criminalidade, sobretudo o crime do tráfico de drogas, que é
a maior causa de prisões no país. Temos a compreensão que exista uma infinidade de
motivações que levam as mulheres ao mundo do tráfico, mas focaremos a nossa analise
a partir da afetividade.
De acordo com Makiki e Santos (2009) em um âmbito geral, quando se estuda a
população carcerária, seja ela feminina ou masculina, é impossível fugir da análise do
fator que potencializou a imersão destes indivíduos no mundo do crime. Então se entra
em um assunto muito complexo, pois a sociedade é um nicho de acontecimentos que
convergem entre si, perfazendo consequências entre ações e reações, gerando desta forma
um ciclo impetuoso e destrutivo. Dentro deste contexto está todo o conjunto de fatores
negativos existentes na sociedade, como: desemprego, desigualdade social, dificuldades
financeiras, fatores psicológicos e patológicos de cada indivíduo, promiscuidade,
desvalorização da vida, ausência de coerção estatal, entre muitos outros. É nossa intenção
compreender as motivações que levam mulheres a entrar em redes de tráfico de drogas,
focalizando de modo específico a associação entre as identidades de gênero feminino e
os padrões de relações afetivas entre homens e mulheres e o eventual envolvimento delas
na atividade criminosa mencionada.
Para tanto nesse trabalho utilizamos alguns autores que nos ajudam a pensar as
identidades de gênero feminino, tais como Joan Scott (1990); Pimentel (2008), dentre
outros, Também utilizamos a ideia de Luhmann (1991), segundo a qual existem meios de
comunicação que são simbolicamente generalizados e que se disponibilizam aos
indivíduos para solucionar certas questões inerentes à combinação entre seleção e
motivação para a ação, os quais utilizam uma semântica ancorada na realidade: verdade,
amor, poder etc.
Procuramos compreender como a mulher traficante de drogas se posiciona
enquanto sujeito e quais as implicações de sua identificação. Fazendo uma breve revisão
bibliográfica acerca do tema, pode-se verificar que no contexto de sujeição do feminino
ao masculino, a mulher traficante passa a conceber a sua própria identidade a partir do
outro com o qual se relaciona afetivamente, o que pretendemos compreender é de modo
que até mesmo práticas ilícitas passam a povoar o seu cotidiano.
A MULHER E O CRIME NO BRASIL, UMA BREVE ANALISE
O fenômeno do tráfico e do consumo de drogas tornou-se parte do nosso
cotidiano. Fatos relacionados com esse fenômeno são veiculados diariamente pelos meios
de comunicação. Nesse ínterim, nos deparamos nos noticiários com histórias de muitas
mulheres que se envolveram com o tráfico de drogas. Os discursos construídos, tanto
pelas mulheres envolvidas em atividades relativas ao narcotráfico, quanto dos jornalistas
que veiculam essas notícias. Em grande parte dos casos à participação dessas mulheres é
justificada por demandas que a sociedade patriarcal impôs às mulheres.
Como exemplo desse fato, pode lembrar-se a reportagem veiculada no programa
Conexão Reporter, do canal SBT, exibido no dia 9 de agosto de 2012. Nesse programa,
jornalista Roberto Cabrini apresentou a história de algumas mulheres que se encontram
apenadas, pagando pena por envolvimento com o narcotráfico. O agravamento do
“drama” dessas mulheres obedecia à falta de convívio com suas famílias. A maior parte
delas se identificava como mães, algumas como chefes de famílias mono parentais que
se envolveram com o narcotráfico em razão da urgência de dar assistência material a seus
filhos. Em outros casos, elas se apresentavam como esposas submissas e seu
envolvimento com o tráfico era justificado pelo amor e a fidelidade com seu esposo.
Assim nos discursos proferidos aparece uma representação da mulher que
reproduz ideias do pensamento patriarcal, o qual vê a mulher como dona do lar, zelosa
guardadora do bem-estar das pessoas que considera como sendo seus dependentes e mãe
amorosa que arrisca sua vida envolvendo-se em atividades de contravenção, em ações
que possam assegurar retorno financeiro para garantir a subsistência material de sua
família.
No mencionado programa de Roberto Cabrini, foram apresentados alguns casos
de mulheres que, pelo seu bom comportamento na cadeia, passaram a cumprir sua pena
no regime semiaberto2. Algumas dessas mulheres aproveitaram a saída da cadeia para
voltar às atividades do narcotráfico, embora no mesmo programa tenham manifestado
arrependimento e assegurado que, quando ficarem livres, retomariam suas atividades
domésticas e nunca mais se envolveriam em atividades delitivas. Casos como esses não
2
O judiciário brasileiro permite, sob determinadas condições, que apenados completem o tempo de
condenação em regime semiaberto, isto é, passando o dia na sociedade civil e no horário noturno retornando
para dormir na cadeia.
são raros. A partir do nosso engajamento em atividades voluntárias voltadas para
beneficiar pessoas reclusas na Penitenciaria Regional Feminina de Campina Grande no
estado da Paraíba, constatamos que algumas que cumprem penas eram reincidentes e que
a causa de sua condenação era o envolvimento com o tráfico de drogas, fato que a
princípio surpreende ter a figura da mulher nesse cenário do crime.
O narcotráfico como atividade delitiva, no senso comum, é considerado perigoso
e espera-se que seja realizado, quase que exclusivamente, por homens. Essa constatação
é o ponto de partida da nossa pesquisa. Nossa pretensão é indagar sobre a perspectiva das
mulheres e seu envolvimento uma atividade considerada como sendo exclusiva da ordem
masculina. Que papel jogam os vínculos afetivos dessas mulheres em sua decisão de
participar do narcotráfico? Para responder a esses questionamentos realizaremos nossa
incursão analítica levando em consideração a combinação de conceitos, métodos e
técnicas de pesquisa que estão disponíveis no bojo de recursos epistemológicos das
Ciências Sociais.
Acreditamos que os debates em torno da categoria “gênero” nos colocam perante
uma constatação: o cenário das nossas ações é uma sociedade formatada conforme os
modos de pensamento patriarcal. No pensamento patriarcal, a mulher é vista como um
ser frágil, reservado, sensível, cujas funções principais são a procriação e os cuidados
domésticos. No entanto, com o avanço do capitalismo, a demanda de mão de obra, os
resultados emancipatórios das lutas sociais e o fortalecimento dos direitos democráticos
conquistados ao longo do tempo, ela conseguiu certa autonomia financeira, bem como o
acesso a espaços públicos que antes eram predominantemente masculinos. Esses e outros
fenômenos sociais possibilitaram que o processo de construção da identidade social
feminina passe por uma série de transformações. As mulheres passaram a executar
práticas semelhantes às dos homens nas diversas esferas da vida humana.
Ver mulheres transitando na esfera da vida pública, ocupando espaços de
liderança em processos sociais, tendo acesso a cargos de importância seja no mundo dos
negócios ou da política não gera estranhamento, embora esse processo de mudança vem
acontecendo de forma lenta, mas eficaz, nas últimas décadas. Sabemos que a identidade
individual é construída em acordo com o ambiente em que cada indivíduo está inserido.
Dessa sorte, no processo de construção da identidade, entre outros aspectos da vida social,
têm significativa importância as estruturas sociais, a cultura e os modos de interação que
dinamizam os vínculos coletivos (ZANELLI; FERNANDES 2006). Como nos lembra o
Funcionalismo Estrutural de Parsons, a distribuição de papeis sociais “obrigam” à mulher
a agir em sintonia com as expectativas coletivas. Dessa sorte, uma atribuição se torna uma
obrigação, um vínculo que pede para obrar de uma determinada maneira.
Quando nos aproximamos da dinâmica da vida social, podemos observar que as
mulheres estão quase sempre social e culturalmente mais sujeitas a deveres de submissão
e compromissos de cuidado das demandas dos outros, sejam eles o marido, os filhos, o
pai, a mãe ou os irmãos. Como indicam os debates de gênero, a mulher carrega consigo
acumulo de obrigações em consequência da assimetria na distribuição de papeis sociais
em relação aos homens. Em certa medida, a imperceptibilidade das tarefas e a
invisibilidade do esforço condenam às mulheres, em muitos casos, a viver uma vida
marcada pela rotina e insatisfação pessoal. Assim, é possível constatar que muitas
mulheres têm vivenciado poucos projetos pessoais, dado que a meta escolhida por elas
está cultural e socialmente determinada.
Atualmente ao testemunharmos a crescente emancipação da mulher, podemos
constatar em alguns casos que as mulheres adotam medidas masculinas de
comportamento, aceitando a submissão em favor da harmonia, lidando com o temor de
sofrerem julgamentos por pretender querer autonomia ou agir conforme sua vontade.
Como afirma Bourdieu (2002), as mulheres estão ligadas a um pacto cruel e desigual.
Elas são educadas para satisfazer as necessidades afetivas dos outros, para responder
emocionalmente pelo cuidado de seus filhos, do marido ou do colega de trabalho. Mas,
suas próprias necessidades e desejos sucumbem a um segundo plano porque existe uma
demanda social que leva às mulheres a entender que é sua obrigação cuidar das
necessidades dos demais. Nessa mesma linha de raciocínio, aspectos importantes
relacionados com a vida da mulher, como o exercício da sexualidade findam em tema
tabu, e passam a ser instrumentalizados para reforçar atitudes de passividade e submissão
às funções e papeis estereotipados de gênero, nos quais resta para a mulher o
reconhecimento da sua função reprodutora e maternal. Contudo, transitamos por uma
cultura pós-industrial, na qual se valoriza individualismo, a confiança em si mesmo e o
bem-estar pessoal, mais do que a identidade grupal ou social. Dessa sorte, observamos
uma pluralidade de gostos culturais, de modos de lazer e de consumo que denotam certa
autonomia individual.
A maioria das culturas tem estabelecido uma diferenciação de papeis sociais
conforme a determinação dos dados biológicos, embora a legitimação e naturalização
dessas categorias desde o biológico, nas últimas décadas, têm sido bastante discutidas no
sentido de relativizar ou desconstruir esse tipo de colocações. Diferenças biológicas como
o útero, a vagina e as mamas nas mulheres ou a crença de uma “maior” força física nos
homens, têm determinado a assinação de papeis sociais. Esses papeis, quase sempre, pela
orientação de um saber tradicional, são distribuídos entre homens e mulheres e se espera
que os desempenhem conforme as demandas sociais. Essas funções, na maioria das vezes,
revelam-se diferentes e, ao mesmo tempo, antagônicas. As diferenças se tornam visíveis
nos diversos espaços de interação, tal como ocorre no plano educativo, no âmbito
familiar, laboral e em aquelas dimensões da vida coletiva que envolve relações de poder.
De fato, quando observamos alguns espaços de socialização, constatamos que
homens e mulheres desempenham funções similares e que esse desempenho não causa
desconforto nos agentes nem algum tipo de tensão com as demandas sociais. No estudo
realizado sobre os modos de vida de famílias pobres nas periferias de São Paulo, Cintya
Sarti descreve a maneira como as mulheres adotaram e desempenham papeis masculinos
que, pela força da tradição, se esperava que fossem desempenhados pelos homens.
Atividades como disciplinar os comportamentos dos membros da família, a assistência
material e a preservação de valores morais passaram a se tornar responsabilidades das
mulheres. É possível que essas mudanças sejam consequência de alterações nos padrões
sociais e culturais da vida moderna e que, de alguma forma, como consequência dessas
alterações, a mulher na vida contemporânea tenha mais facilidade para se inserir em
espaços públicos que em gerações passadas eram reservados para os homens.
Uma rápida observação dos modos de vida na sociedade contemporânea nos
permite perceber que existe certa facilidade para que homens e mulheres adotem traços
de comportamento que, tradicionalmente, eram atribuídos ao outro sexo. As causas
podem ser múltiplas: a divisão social do trabalho, as crises econômicas, rupturas
familiares, fenômenos migratórios ou deslocamentos territoriais. São muitos os
fenômenos sociais que indicam que as condições sociais e culturais das últimas décadas
oferecem maiores oportunidades para os dois sexos. Esse fato tem levado a reformular as
categorias tradicionais associadas às determinações biológicas relativas ao sexo e a
procurar conceitos mais elásticos e inclusivos nos debates de gênero. No entanto, essa
empreitada ainda precisa ser fortalecida por novas análises da dinâmica da vida coletiva,
no sentido em que grande parte de abordagens em torno dos processos de construção da
identidade sexual ainda reafirmam representações do masculino e do feminino como
categorias diametralmente opostas. Em consequência disso, essas diferenças continuam
estruturando a identidade de homens e mulheres, e resistem a desaparecer dos debates de
gênero.
Tendo como base uma pesquisa realizada pelo Instituo Avante Brasil acerca do
sistema penitenciário brasileiro: Evolução da população carcerária (1990 à 2012) a partir
da confrontação de dados obtidos pelo DEPEN (Departamento Penitenciário Nacional);
o IBGE (Instituto Brasileiro de geografia); IFOPEN(Instituto) nós podemos verificar que:
tivemos um crescimento da população carcerária nos últimos 23 anos (1990-2012) de
508%.
Em 2012 a taxa de presos foi de 283 por 100 mil habitantes considerando a
população de 1993.1946.886 habitantes estimada pelo IBGE para 2012. Com relação a
população carcerária masculina ela teve um crescimento de 130% e já a população
carcerária feminina cresceu 246% no mesmo período. Enquanto a população carcerária
masculina mais que dobrou a feminina mais que triplicou nesse período. No ano de 200
eram 10.112 mulheres presas e em 2012 o número saltou para 35.039.
Dentre os crimes mais cometidos tanto por homens e por mulheres está o tráfico
de drogas que em 2012 esteve no topo dos crimes, com 25,5 % das detenções.
“Olga Espinoza (2004, p.92) “O crime de maior incidência entre as
mulheres presas é o tráfico de entorpecentes”, de fato, como uma
avalanche desenfreada as drogas tomaram conta de parte da vida dos
brasileiros, sejam eles usuários ou traficantes, vítimas ou expectadores,
policiais ou presidiários. De acordo com Soares a prisão de mulheres
devido ao tráfico está ligada ao fato de ficarem em posições de menos
importância, mais expostas a ação policial, Soares (2002, p.02) “o fato
delas ocuparem, em geral, posições subalternas ou periféricas na
estrutura do tráfico, tendo poucos recursos para negociar sua liberdade
quando capturada pela polícia”, e complementando a autora menciona
que dificilmente as detentas se intitulam como chefes do tráfico.
De acordo com o Relatório Final da Secretaria de Políticas Para as Mulheres do
Ministério da Justiça (2008) o perfil da mulher presa no Brasil pode ser descrito como
jovem, mãe solteira, afrodescendente e na maioria dos casos a condenação direta ou
indiretamente por tráfico de drogas, e não ocupa lugar de liderança na cadeia criminosa
do tráfico.
Uma reportagem postada no Portal G1 em 2012 apontou que a Prisão de mulheres na
PB cresce 119% segundo Ministério da Justiça Segundo secretaria, 49,4% das apenadas
foram presas por tráfico. Quase 500 detentas estão distribuídas em 189 vagas em
presídios. Em cinco anos, as prisões de pessoas do sexo feminino na Paraíba aumentaram
em 119% segundo levantamento do Ministério da Justiça. De acordo com dados da
Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), existem 489 mulheres apenadas em
189 vagas, distribuídas nas três unidades prisionais localizadas em João Pessoa, Campina
Grande e Patos. Há cinco anos, eram 223 presas para 123 vagas, em duas penitenciárias.
Ao realizarmos nossa pesquisa sobre o assunto, identificamos que não existem
muitos estudos empíricos sobre este fenômeno, mas está havendo uma maior participação
da mulher. A sociedade é composta por homens e mulheres que são atores sociais e
desempenham os mais diversos papeis na realidade social, no contexto brasileiro o tráfico
de drogas tem se tornado ao longo dos anos o maior responsável pelas detenções no país.
Esse é um problema central nas grandes cidades, onde o tráfico de drogas muitas vezes
está associado a violência. Os dados apontam para um crescimento em grande proporção
da participação das mulheres no tráfico de drogas, o que nos leva a pensar na história da
sociedade brasileira aspectos norteadores da identidade e da construção dessa categoria
ao longo do tempo.
Para José Maria Nóbrega que estuda a temática no nordeste, os parceiros são os
principais culpados pelo envolvimento da mulher no mundo do crime. Elas assumem o
comando de organizações criminosas após a prisão ou assassinato de seus parceiros”, são
os principais culpados pelo envolvimento da mulher no mundo do crime.
O perfil das apenadas, traçado pelo estudo do Ministério da Justiça, é de mulheres
brasileiras, pardas, de idade entre 18 e 24 anos, com Ensino Fundamental incompleto,
cumprindo pena por tráfico de drogas em regime fechado. Os dados revelam que, com o
combate à marginalidade, o controle dos pontos de vendas de drogas vem sendo assumido
pelas companheiras dos traficantes. Elas respondem por mais de 20% das prisões feitas
na Paraíba por tráfico de entorpecentes, sendo que 242 mulheres, 49,4% das apenadas,
hoje cumprem pena por este tipo de crime.
Pensando nas categorias que fazem parte do nosso trabalho, o estudo de gênero, é
extremamente importante, para que possamos analisar os fenômenos que aqui serão
explorados, de acordo com Scott (1990), na sua utilização mais recente, “gênero” é
sinônimo de “mulheres”. Os livros e artigos de todos os tipos que tinham como tema a
história das mulheres, substituíram, nos últimos anos, nos seus títulos o termo “mulheres”
por “gênero”. Sendo assim, em alguns casos, mesmo que essa utilização se reflita
vagamente a certos conceitos analíticos, ela visa, de fato, obter o reconhecimento político
deste campo de pesquisa.
Conforme Scott (1990) o uso do termo “gênero” visa sugerir a erudição e a
seriedade de um trabalho, pois, “gênero” tem uma conotação mais objetiva e neutra do
que “mulheres”. Dessa maneira o uso do termo “gênero” constitui um dos aspectos
daquilo que se poderia chamar de uma busca de legitimidade acadêmica para os estudos
feministas da década de 80.
Dessa forma, podemos compreender que o termo “gênero”, se torna bastante útil
para que possamos refletir acerca das relações sociais, deixando de lado, as explicações
biológicas, é então uma forma de indicar as “construções culturais”, a construção dos
papeis, tidos como adequados aos homens e mulheres, assim, levamos em consideração
as origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas dos homens e mulheres.
Em meados do Século XX crimes caracterizados como femininos eram o aborto
provocado por motivo de honra e o infanticídio por crise psíquica de fundo puerperal, isto
é, crimes associados à maternidade. A prostituição, o baixo-meretrício, a exposição da
sexualidade para fins não reprodutivos, equivaleriam a criminalidade capaz de colocar
em risco a moral familiar e os bons costumes (Soares e Iigenfrtz.2002)
Ao final do Século XX e começo do século XXI, os crimes não são mais
centralizados no âmbito privado, eles ganham vulto no âmbito público e perdem a
conotação de crimes ligados à maternidade. Dessa forma a inserção feminina no tráfico
de drogas se daria de duas formas principais: por meio de namorados bandidos ou de uma
forma mais independente.
Existe uma diferença que foi se construindo ao longo dos séculos fazendo parte
das mais variadas culturas, acerca da situação de subalternidade da mulher e a relação
entre homens e mulheres foi se moldando a partir de certos conflitos e com certas
caraterísticas para ambos. O amor por exemplo se expressa como uma pratica definidora
e participante das relações sociais.
De fato, o culto feminino ao amor, ainda no contexto da contemporaneidade,
subsiste como uma realidade cultural, figurando como elemento formador de
representações sociais. Ainda que as mulheres participem ativamente do mercado de
trabalho, adquirindo autonomia profissional e financeira, lutando pela igualdade e
rompendo com a forte tradição de permanência no espaço doméstico, suas concepções
acerca do amor e suas expectativas amorosas são bem diferentes daquelas vividas pelos
homens. A mulher age em nome do afeto, na medida em que suas práticas estão
diretamente relacionadas a sua identidade na relação afetiva. Por isso, as práticas sociais
femininas no contexto do tráfico de drogas, não têm os mesmos fundamentos
representacionais que as práticas masculinas, notadamente justificadas a partir de
aspectos financeiros e da necessidade do homem de se firmar como sujeito em
determinado grupo social. (Pimentel, 2008)
Podemos inferir que a figura masculina exerce uma forte influência na vida das
mulheres em relação ao tráfico de drogas, já que a mulher acaba não se sentindo criminosa
quando pratica o ato criminoso com fins de auxiliar o marido. Souza (2009) Pimentel
(2008)
Percebe-se que a mulher encarcerada sofreu influências masculinas diretas ou
indiretas que a levaram a sua prisão. Como quando estes as induzem ao cometimento ou
participação do crime ou então, a assumir a culpa sozinha para livrá-lo do cárcere,
servindo como escudo contra a ação policial e outra vez vítima de sua própria natureza
(2008, Grupo de Trabalho Interministerial).
A inserção da mulher no tráfico pode ocorrer de forma independente, porém,
comumente ocorre por influência de uma figura masculina que pode ser pai, irmão, filho
e, principalmente, namorado ou marido (Souza, 2009). O envolvimento da mulher em
práticas ilícitas influenciadas por homens nos remete às representações sociais sobre a
afetividade relacionadas às mulheres. E as relações afetivas são extremante importantes
para a compreensão das motivações que levam a uma lógica tão complexa nas
representações e nos papeis que os indivíduos formulam para si e para o outro.
A AFETIVIDADE E SUA CONTRIBUIÇÃO NAS AÇÕES DE MULHERES
LIGADAS AO CRIME
As mulheres têm uma forma especifica de compreensão acerca dos seus papéis
nas relações afetivas e mediante esse olhar, as mulheres muitas vezes não se reconhecem
como criminosas quando se tornam traficantes em nome do amor que sentem por seus
companheiros e pela família. No contexto das relações sociais com o homem traficante
e a partir das representações sociais que formulam acerca do papel feminino na relação
afetiva, as mulheres que fazem parte do tráfico justificam suas práticas relacionadas ao
tráfico de drogas através das emoções, sentimentos.
As mesmas tomam pra si, uma carga de responsabilidade nos relacionamentos e
assim entendem que são responsáveis pelo lado afetivo do lar, das relações familiares e
também do relacionamento amoroso, dão constantes provas de amor, sendo uma delas o
envolvimento com práticas ilícitas. Outra questão relevante é que, embora as mulheres
estejam ganhando cada vez mais autonomia no meio social, ainda é fortemente presente
a dominação masculina sob a mulher (Pimentel, 2008).
Esta dominação reflete no universo da criminalidade, pois pesquisas mostram que
as mulheres na maioria das vezes, guardadas as exceções, não ocupam lugar de liderança
no tráfico de drogas, mas enquadram-se na função de “mulas”, que são as pessoas que
transportam a encomenda de um lugar ao outro e ganham dinheiro por isso. Esse lugar na
escala hierárquica contribui para o significativo aumento do encarceramento feminino, já
que elas estão mais vulneráveis e correndo maiores riscos de serem pegas e punidas pela
polícia (Soares; Ilgenfritz, 2002).
Luhman (1991) aponta para que existam meios de comunicação que são
simbolicamente generalizados e que se colocam a solucionar certas questões inerentes à
combinação entre seleção e motivação, que utilizam uma semântica ancorada na
realidade: verdade, amor, poder etc. Estas terminologias designam características,
postulados, sentimentos, meios de troca meios de ameaça e etc. Através destas referências
orientadas para quadros de circunstâncias que se opera a aplicação dos meios. São antes
de mais nada, indicações à comunicação que podem ser manipuladas com uma autonomia
relativa a face aos quadros de circunstância, quer estes existam ou não.
“O meio de comunicação amor não é um sentimento em
si mesmo, mas antes um código de comunicação cujas
regras determinarão a expressão, a formação, a
simulação, a atribuição indevida aos outros e a negação
dos sentimentos, bem como a assunção das
consequências inerentes, sempre que tiver lugar uma
comunicação deste género.” (Luhman,1991, p.21).
Segundo o pensamento de Luhman (1991) o amor poderá então movimentar-se
em primeiro lugar e em uma certa medida numa zona indefinida e ser orientado para um
modelo prospectivo generalizado que facilite a seleção capaz, porém, de perturbar
também realização emocionalmente aprofundada. Com isso trata-se de uma significação
do significado, enraizada no código que proporciona a aprendizagem do amor, a
interpretação dos indícios e a transmissão de pequenos sinais para exprimir grandes
sentimentos; é o código que permite a experiência da diferença bem como o destaque
dado a ausência de realização (p.22).
Dessa maneira cada meio de comunicação simbolicamente generalizado pode ser
plenamente diferenciado em função da especificidade do limiar. Para o meio de
comunicação amor este problema reside na própria comunicação altamente
personalizada, ou seja é uma comunicação através da qual o falante procura distinguir-se
dos outros. Tal pode acontecer pelo fato de o próprio sujeito se transformar em tema, ou
seja, falar sobre si próprio; mas também pelo fato de, ao longo de temas objetivos, tornar
a sua relação com o assunto num aspectro crucial da comunicação. (p.22)
“O tema da infinitude que surge continuamente na semântica do
amor significa também que não existem limites para a ação do
próprio, dentro do mundo de vivencias do outro; sobretudo para
aquele que ingressa neste mundo como igualmente amado. A
simetria entre o viver e o agir comporta então a oportunidade de
antecipação: podemo-nos orientar pela vivencia do outro, mesmo
que não tenha agido conforme esperava, mesmo que não tenha
expresso qualquer desejo, nem tenha assumido qualquer das
atribuições de que lhe são próprias. Tal está subentendido,
quando a semântica do amor exige que se ultrapassem os deveres
da galanteria ou quando reporta aos acordos<tácitos), o que é
possível de acontecer sempre que os amantes não necessitam de
qualquer procedimento para estarem de acordo.” (Luhman,1991,
p. 25)
Com relação as mulheres que se inserem em um universo do tráfico de drogas, por
questões afetivas, podemos perceber que nessas situações o amor sobretudo modifica
tanto a vivencia dessa mulher como a relação com o mundo, modificando seu horizonte
e seu agir. Com isto se confere um poder de persuasão a essas emoções e posteriormente
motiva uma ação que não está claro o resultado concreto, mas por causa do seu
“significado simbolicamente expressivo, sintomático do amor, ou se insinua como
consumação da especificidade daquele mundo em que vigora a união com o amor (e com
mais ninguém): o mundo dos gostos comuns, da história comum, dos desígnios comuns,
dos temas falados e dos acontecimentos valorados como afirma Luhman (1991)
Na semântica do amor não se encontra formulada essa
questão, porém ela está simbolizada e o símbolo
dominante que organiza a estrutura temática do meio de
comunicação amor designa-se sobretudo por < paixão> e
paixão significa que se sofre de alguma coisa que não se
consegue modificar em nada e da qual não se pode dar
contas. Algumas tradições ao longo da história trataram
do amor de diversas formas e expressões: o amor é uma
espécie de doença; o amor é uma loucura; o amor cativa.
E lhe foi atribuído um lugar de honra pelo papel que
desempenha socialmente. (p.36)
De acordo com Weber age afetivamente quem satisfaz a sua necessidade atual
de vingança, de gozo, de entrega, de beatitude contemplativa ou de abreação de emoções
atuais (quer de natureza tosca ou sublime), na ação afetiva o sujeito não elabora
conscientemente os pontos de direção últimos da atividade e não se orienta de maneira
consequente. Weber deixa claro que muitas raras vezes a ação, especialmente a social,
está exclusivamente orientada por um ou outro dos tipos citados, os mesmos não passam
de modelos conceituais puros, o que quer dizer em geral as ações sofrem mais de um dos
condicionamentos, todavia são classificados com base naquele que, no caso, é o
predominante. Portanto o sujeito agi de forma afetiva quando sua ação é inspirada em
suas emoções, ou seja, sentimentos como: vingança, amor, desespero, orgulho, inveja,
paixão e compaixão, sem que seja evado em consideração os meios ou fins a que se busca
atingir.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir de uma breve analise bibliográfica acerca da discussão da inserção da
mulher no tráfico, percebemos que comumente ocorre por influência de uma figura
masculina que pode ser pai, irmão, filho e, principalmente, namorado ou marido como
aponta Souza, 2009. Compreender as relações afetivas é algo muito importante para a
compreensão das motivações que levam a uma lógica tão complexa nas representações e
nos papeis que os indivíduos formulam para si e para o outro.
As práticas sociais femininas no contexto do tráfico de drogas, não têm os mesmos
fundamentos representacionais que as práticas masculinas, notadamente justificadas a
partir de aspectos financeiros e da necessidade do homem de se firmar como sujeito em
determinado grupo social. Como nos afirma Pimentel (2008).
A sociedade é composta por homens e mulheres que são atores sociais e
desempenham os mais diversos papeis na realidade social, no contexto brasileiro o tráfico
de drogas tem se tornado ao longo dos anos o maior responsável pelas detenções no país.
Esse é um problema central nas grandes cidades, onde o tráfico de drogas muitas vezes
está associado a violência. Os dados apontam para um crescimento em grande proporção
da participação das mulheres no tráfico de drogas, o que nos leva a pensar na história da
sociedade brasileira aspectos norteadores da identidade e da construção dessa categoria
ao longo do tempo.
Entendemos que a figura masculina exerce uma forte influência na vida das
mulheres em relação ao tráfico de drogas, já que a mulher acaba não se sentindo criminosa
quando pratica o ato criminoso com fins de auxiliar o marido muitas vezes. As mulheres
que se inserem em um universo do tráfico de drogas, por questões afetivas, nessas
situações o amor sobretudo modifica tanto a vivencia dessa mulher como a relação com
o mundo, modificando seu horizonte e seu agir. Na ação afetiva o sujeito não elabora
conscientemente os pontos de direção últimos da atividade e não se orienta de maneira
consequente, porém não podemos esquecer dos outros fatores que fazem parte do
cotidiano dessas mulheres e que exista mais de um fator motivando as decisões das
mesmas.
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MULHER E TRÁFICO: A AFETIVIDADE PRESENTE NAS AÇÕES