MULHER E TRÁFICO: A AFETIVIDADE PRESENTE NAS AÇÕES DE MULHERES ENVOLVIDAS COM O TRÁFICO DE DROGAS Laisa Dannielle Feitosa de Lima1 Resumo: Diariamente nos deparamos nos noticiários com histórias de muitas mulheres que se envolveram com o tráfico de drogas, e isso nos leva a pensar acerca das motivações que levam a inserção da mulher no crime e em especial de quanto o amor pode contribuir para ações ilegais. Sabemos que existem problemas sociais para homens e mulheres, ao analisarmos a história da humanidade, percebemos que para as mulheres, existem fatores culturais característicos do gênero. Escolhemos o amor para nortear nosso trabalho. Buscamos compreender a participação da mulher no tráfico de drogas, pois acreditamos ser relevante entender as causas que levam tantas mulheres no Brasil a entrarem para o mundo da criminalidade, sobretudo o crime do tráfico de drogas, que é a maior causa de prisões no país. Dentre as motivações que possam levar a mulher ao tráfico de drogas, nossa análise terá por base a afetividade, como motivação principal para a inserção da mulher no tráfico. Faremos nossa discussão mediante uma perspectiva que leve em consideração as questões de gênero, buscando compreender como a mulher traficante de drogas se posiciona enquanto sujeito e quais as implicações de sua identificação. Palavras-chave: Mulheres, Tráfico, Afetividade, criminalidade. INTRODUÇÃO Ao longo dos anos as sociedades humanas conquistaram inúmeros direitos, importantes passos foram dados em busca da liberdade e igualdade dos indivíduos. Para as mulheres a conquista e garantia desses direitos deu-se de maneira mais lenta e complicada, estas enfrentaram e ainda enfrentam discriminação nas mais variadas esferas das sociedades. Fica evidente que muitas conquistas foram alcançadas, mas ao mesmo tempo isso demonstra cada vez mais o longo caminho que as mulheres terão que percorrer para alcançar a equidade de gênero em todos os espaços da vida social. Foi através de embates teóricos e na vida pratica que as mulheres iniciaram e vêm lutando contra posições subalternas em relação aos homens. No que se refere às leis, ao longo do tempo muitas mudanças nas consciências de homens e mulheres possibilitaram que as leis também sofressem transformações e assim garantissem a igualdade entre os sexos. 1 Universidade Federal de Campina Grande Buscamos compreender em nosso trabalho a participação da mulher no tráfico de drogas, acreditamos ser relevante entender as causas que levam tantas mulheres no Brasil a entrarem para o mundo da criminalidade, sobretudo o crime do tráfico de drogas, que é a maior causa de prisões no país. Temos a compreensão que exista uma infinidade de motivações que levam as mulheres ao mundo do tráfico, mas focaremos a nossa analise a partir da afetividade. De acordo com Makiki e Santos (2009) em um âmbito geral, quando se estuda a população carcerária, seja ela feminina ou masculina, é impossível fugir da análise do fator que potencializou a imersão destes indivíduos no mundo do crime. Então se entra em um assunto muito complexo, pois a sociedade é um nicho de acontecimentos que convergem entre si, perfazendo consequências entre ações e reações, gerando desta forma um ciclo impetuoso e destrutivo. Dentro deste contexto está todo o conjunto de fatores negativos existentes na sociedade, como: desemprego, desigualdade social, dificuldades financeiras, fatores psicológicos e patológicos de cada indivíduo, promiscuidade, desvalorização da vida, ausência de coerção estatal, entre muitos outros. É nossa intenção compreender as motivações que levam mulheres a entrar em redes de tráfico de drogas, focalizando de modo específico a associação entre as identidades de gênero feminino e os padrões de relações afetivas entre homens e mulheres e o eventual envolvimento delas na atividade criminosa mencionada. Para tanto nesse trabalho utilizamos alguns autores que nos ajudam a pensar as identidades de gênero feminino, tais como Joan Scott (1990); Pimentel (2008), dentre outros, Também utilizamos a ideia de Luhmann (1991), segundo a qual existem meios de comunicação que são simbolicamente generalizados e que se disponibilizam aos indivíduos para solucionar certas questões inerentes à combinação entre seleção e motivação para a ação, os quais utilizam uma semântica ancorada na realidade: verdade, amor, poder etc. Procuramos compreender como a mulher traficante de drogas se posiciona enquanto sujeito e quais as implicações de sua identificação. Fazendo uma breve revisão bibliográfica acerca do tema, pode-se verificar que no contexto de sujeição do feminino ao masculino, a mulher traficante passa a conceber a sua própria identidade a partir do outro com o qual se relaciona afetivamente, o que pretendemos compreender é de modo que até mesmo práticas ilícitas passam a povoar o seu cotidiano. A MULHER E O CRIME NO BRASIL, UMA BREVE ANALISE O fenômeno do tráfico e do consumo de drogas tornou-se parte do nosso cotidiano. Fatos relacionados com esse fenômeno são veiculados diariamente pelos meios de comunicação. Nesse ínterim, nos deparamos nos noticiários com histórias de muitas mulheres que se envolveram com o tráfico de drogas. Os discursos construídos, tanto pelas mulheres envolvidas em atividades relativas ao narcotráfico, quanto dos jornalistas que veiculam essas notícias. Em grande parte dos casos à participação dessas mulheres é justificada por demandas que a sociedade patriarcal impôs às mulheres. Como exemplo desse fato, pode lembrar-se a reportagem veiculada no programa Conexão Reporter, do canal SBT, exibido no dia 9 de agosto de 2012. Nesse programa, jornalista Roberto Cabrini apresentou a história de algumas mulheres que se encontram apenadas, pagando pena por envolvimento com o narcotráfico. O agravamento do “drama” dessas mulheres obedecia à falta de convívio com suas famílias. A maior parte delas se identificava como mães, algumas como chefes de famílias mono parentais que se envolveram com o narcotráfico em razão da urgência de dar assistência material a seus filhos. Em outros casos, elas se apresentavam como esposas submissas e seu envolvimento com o tráfico era justificado pelo amor e a fidelidade com seu esposo. Assim nos discursos proferidos aparece uma representação da mulher que reproduz ideias do pensamento patriarcal, o qual vê a mulher como dona do lar, zelosa guardadora do bem-estar das pessoas que considera como sendo seus dependentes e mãe amorosa que arrisca sua vida envolvendo-se em atividades de contravenção, em ações que possam assegurar retorno financeiro para garantir a subsistência material de sua família. No mencionado programa de Roberto Cabrini, foram apresentados alguns casos de mulheres que, pelo seu bom comportamento na cadeia, passaram a cumprir sua pena no regime semiaberto2. Algumas dessas mulheres aproveitaram a saída da cadeia para voltar às atividades do narcotráfico, embora no mesmo programa tenham manifestado arrependimento e assegurado que, quando ficarem livres, retomariam suas atividades domésticas e nunca mais se envolveriam em atividades delitivas. Casos como esses não 2 O judiciário brasileiro permite, sob determinadas condições, que apenados completem o tempo de condenação em regime semiaberto, isto é, passando o dia na sociedade civil e no horário noturno retornando para dormir na cadeia. são raros. A partir do nosso engajamento em atividades voluntárias voltadas para beneficiar pessoas reclusas na Penitenciaria Regional Feminina de Campina Grande no estado da Paraíba, constatamos que algumas que cumprem penas eram reincidentes e que a causa de sua condenação era o envolvimento com o tráfico de drogas, fato que a princípio surpreende ter a figura da mulher nesse cenário do crime. O narcotráfico como atividade delitiva, no senso comum, é considerado perigoso e espera-se que seja realizado, quase que exclusivamente, por homens. Essa constatação é o ponto de partida da nossa pesquisa. Nossa pretensão é indagar sobre a perspectiva das mulheres e seu envolvimento uma atividade considerada como sendo exclusiva da ordem masculina. Que papel jogam os vínculos afetivos dessas mulheres em sua decisão de participar do narcotráfico? Para responder a esses questionamentos realizaremos nossa incursão analítica levando em consideração a combinação de conceitos, métodos e técnicas de pesquisa que estão disponíveis no bojo de recursos epistemológicos das Ciências Sociais. Acreditamos que os debates em torno da categoria “gênero” nos colocam perante uma constatação: o cenário das nossas ações é uma sociedade formatada conforme os modos de pensamento patriarcal. No pensamento patriarcal, a mulher é vista como um ser frágil, reservado, sensível, cujas funções principais são a procriação e os cuidados domésticos. No entanto, com o avanço do capitalismo, a demanda de mão de obra, os resultados emancipatórios das lutas sociais e o fortalecimento dos direitos democráticos conquistados ao longo do tempo, ela conseguiu certa autonomia financeira, bem como o acesso a espaços públicos que antes eram predominantemente masculinos. Esses e outros fenômenos sociais possibilitaram que o processo de construção da identidade social feminina passe por uma série de transformações. As mulheres passaram a executar práticas semelhantes às dos homens nas diversas esferas da vida humana. Ver mulheres transitando na esfera da vida pública, ocupando espaços de liderança em processos sociais, tendo acesso a cargos de importância seja no mundo dos negócios ou da política não gera estranhamento, embora esse processo de mudança vem acontecendo de forma lenta, mas eficaz, nas últimas décadas. Sabemos que a identidade individual é construída em acordo com o ambiente em que cada indivíduo está inserido. Dessa sorte, no processo de construção da identidade, entre outros aspectos da vida social, têm significativa importância as estruturas sociais, a cultura e os modos de interação que dinamizam os vínculos coletivos (ZANELLI; FERNANDES 2006). Como nos lembra o Funcionalismo Estrutural de Parsons, a distribuição de papeis sociais “obrigam” à mulher a agir em sintonia com as expectativas coletivas. Dessa sorte, uma atribuição se torna uma obrigação, um vínculo que pede para obrar de uma determinada maneira. Quando nos aproximamos da dinâmica da vida social, podemos observar que as mulheres estão quase sempre social e culturalmente mais sujeitas a deveres de submissão e compromissos de cuidado das demandas dos outros, sejam eles o marido, os filhos, o pai, a mãe ou os irmãos. Como indicam os debates de gênero, a mulher carrega consigo acumulo de obrigações em consequência da assimetria na distribuição de papeis sociais em relação aos homens. Em certa medida, a imperceptibilidade das tarefas e a invisibilidade do esforço condenam às mulheres, em muitos casos, a viver uma vida marcada pela rotina e insatisfação pessoal. Assim, é possível constatar que muitas mulheres têm vivenciado poucos projetos pessoais, dado que a meta escolhida por elas está cultural e socialmente determinada. Atualmente ao testemunharmos a crescente emancipação da mulher, podemos constatar em alguns casos que as mulheres adotam medidas masculinas de comportamento, aceitando a submissão em favor da harmonia, lidando com o temor de sofrerem julgamentos por pretender querer autonomia ou agir conforme sua vontade. Como afirma Bourdieu (2002), as mulheres estão ligadas a um pacto cruel e desigual. Elas são educadas para satisfazer as necessidades afetivas dos outros, para responder emocionalmente pelo cuidado de seus filhos, do marido ou do colega de trabalho. Mas, suas próprias necessidades e desejos sucumbem a um segundo plano porque existe uma demanda social que leva às mulheres a entender que é sua obrigação cuidar das necessidades dos demais. Nessa mesma linha de raciocínio, aspectos importantes relacionados com a vida da mulher, como o exercício da sexualidade findam em tema tabu, e passam a ser instrumentalizados para reforçar atitudes de passividade e submissão às funções e papeis estereotipados de gênero, nos quais resta para a mulher o reconhecimento da sua função reprodutora e maternal. Contudo, transitamos por uma cultura pós-industrial, na qual se valoriza individualismo, a confiança em si mesmo e o bem-estar pessoal, mais do que a identidade grupal ou social. Dessa sorte, observamos uma pluralidade de gostos culturais, de modos de lazer e de consumo que denotam certa autonomia individual. A maioria das culturas tem estabelecido uma diferenciação de papeis sociais conforme a determinação dos dados biológicos, embora a legitimação e naturalização dessas categorias desde o biológico, nas últimas décadas, têm sido bastante discutidas no sentido de relativizar ou desconstruir esse tipo de colocações. Diferenças biológicas como o útero, a vagina e as mamas nas mulheres ou a crença de uma “maior” força física nos homens, têm determinado a assinação de papeis sociais. Esses papeis, quase sempre, pela orientação de um saber tradicional, são distribuídos entre homens e mulheres e se espera que os desempenhem conforme as demandas sociais. Essas funções, na maioria das vezes, revelam-se diferentes e, ao mesmo tempo, antagônicas. As diferenças se tornam visíveis nos diversos espaços de interação, tal como ocorre no plano educativo, no âmbito familiar, laboral e em aquelas dimensões da vida coletiva que envolve relações de poder. De fato, quando observamos alguns espaços de socialização, constatamos que homens e mulheres desempenham funções similares e que esse desempenho não causa desconforto nos agentes nem algum tipo de tensão com as demandas sociais. No estudo realizado sobre os modos de vida de famílias pobres nas periferias de São Paulo, Cintya Sarti descreve a maneira como as mulheres adotaram e desempenham papeis masculinos que, pela força da tradição, se esperava que fossem desempenhados pelos homens. Atividades como disciplinar os comportamentos dos membros da família, a assistência material e a preservação de valores morais passaram a se tornar responsabilidades das mulheres. É possível que essas mudanças sejam consequência de alterações nos padrões sociais e culturais da vida moderna e que, de alguma forma, como consequência dessas alterações, a mulher na vida contemporânea tenha mais facilidade para se inserir em espaços públicos que em gerações passadas eram reservados para os homens. Uma rápida observação dos modos de vida na sociedade contemporânea nos permite perceber que existe certa facilidade para que homens e mulheres adotem traços de comportamento que, tradicionalmente, eram atribuídos ao outro sexo. As causas podem ser múltiplas: a divisão social do trabalho, as crises econômicas, rupturas familiares, fenômenos migratórios ou deslocamentos territoriais. São muitos os fenômenos sociais que indicam que as condições sociais e culturais das últimas décadas oferecem maiores oportunidades para os dois sexos. Esse fato tem levado a reformular as categorias tradicionais associadas às determinações biológicas relativas ao sexo e a procurar conceitos mais elásticos e inclusivos nos debates de gênero. No entanto, essa empreitada ainda precisa ser fortalecida por novas análises da dinâmica da vida coletiva, no sentido em que grande parte de abordagens em torno dos processos de construção da identidade sexual ainda reafirmam representações do masculino e do feminino como categorias diametralmente opostas. Em consequência disso, essas diferenças continuam estruturando a identidade de homens e mulheres, e resistem a desaparecer dos debates de gênero. Tendo como base uma pesquisa realizada pelo Instituo Avante Brasil acerca do sistema penitenciário brasileiro: Evolução da população carcerária (1990 à 2012) a partir da confrontação de dados obtidos pelo DEPEN (Departamento Penitenciário Nacional); o IBGE (Instituto Brasileiro de geografia); IFOPEN(Instituto) nós podemos verificar que: tivemos um crescimento da população carcerária nos últimos 23 anos (1990-2012) de 508%. Em 2012 a taxa de presos foi de 283 por 100 mil habitantes considerando a população de 1993.1946.886 habitantes estimada pelo IBGE para 2012. Com relação a população carcerária masculina ela teve um crescimento de 130% e já a população carcerária feminina cresceu 246% no mesmo período. Enquanto a população carcerária masculina mais que dobrou a feminina mais que triplicou nesse período. No ano de 200 eram 10.112 mulheres presas e em 2012 o número saltou para 35.039. Dentre os crimes mais cometidos tanto por homens e por mulheres está o tráfico de drogas que em 2012 esteve no topo dos crimes, com 25,5 % das detenções. “Olga Espinoza (2004, p.92) “O crime de maior incidência entre as mulheres presas é o tráfico de entorpecentes”, de fato, como uma avalanche desenfreada as drogas tomaram conta de parte da vida dos brasileiros, sejam eles usuários ou traficantes, vítimas ou expectadores, policiais ou presidiários. De acordo com Soares a prisão de mulheres devido ao tráfico está ligada ao fato de ficarem em posições de menos importância, mais expostas a ação policial, Soares (2002, p.02) “o fato delas ocuparem, em geral, posições subalternas ou periféricas na estrutura do tráfico, tendo poucos recursos para negociar sua liberdade quando capturada pela polícia”, e complementando a autora menciona que dificilmente as detentas se intitulam como chefes do tráfico. De acordo com o Relatório Final da Secretaria de Políticas Para as Mulheres do Ministério da Justiça (2008) o perfil da mulher presa no Brasil pode ser descrito como jovem, mãe solteira, afrodescendente e na maioria dos casos a condenação direta ou indiretamente por tráfico de drogas, e não ocupa lugar de liderança na cadeia criminosa do tráfico. Uma reportagem postada no Portal G1 em 2012 apontou que a Prisão de mulheres na PB cresce 119% segundo Ministério da Justiça Segundo secretaria, 49,4% das apenadas foram presas por tráfico. Quase 500 detentas estão distribuídas em 189 vagas em presídios. Em cinco anos, as prisões de pessoas do sexo feminino na Paraíba aumentaram em 119% segundo levantamento do Ministério da Justiça. De acordo com dados da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), existem 489 mulheres apenadas em 189 vagas, distribuídas nas três unidades prisionais localizadas em João Pessoa, Campina Grande e Patos. Há cinco anos, eram 223 presas para 123 vagas, em duas penitenciárias. Ao realizarmos nossa pesquisa sobre o assunto, identificamos que não existem muitos estudos empíricos sobre este fenômeno, mas está havendo uma maior participação da mulher. A sociedade é composta por homens e mulheres que são atores sociais e desempenham os mais diversos papeis na realidade social, no contexto brasileiro o tráfico de drogas tem se tornado ao longo dos anos o maior responsável pelas detenções no país. Esse é um problema central nas grandes cidades, onde o tráfico de drogas muitas vezes está associado a violência. Os dados apontam para um crescimento em grande proporção da participação das mulheres no tráfico de drogas, o que nos leva a pensar na história da sociedade brasileira aspectos norteadores da identidade e da construção dessa categoria ao longo do tempo. Para José Maria Nóbrega que estuda a temática no nordeste, os parceiros são os principais culpados pelo envolvimento da mulher no mundo do crime. Elas assumem o comando de organizações criminosas após a prisão ou assassinato de seus parceiros”, são os principais culpados pelo envolvimento da mulher no mundo do crime. O perfil das apenadas, traçado pelo estudo do Ministério da Justiça, é de mulheres brasileiras, pardas, de idade entre 18 e 24 anos, com Ensino Fundamental incompleto, cumprindo pena por tráfico de drogas em regime fechado. Os dados revelam que, com o combate à marginalidade, o controle dos pontos de vendas de drogas vem sendo assumido pelas companheiras dos traficantes. Elas respondem por mais de 20% das prisões feitas na Paraíba por tráfico de entorpecentes, sendo que 242 mulheres, 49,4% das apenadas, hoje cumprem pena por este tipo de crime. Pensando nas categorias que fazem parte do nosso trabalho, o estudo de gênero, é extremamente importante, para que possamos analisar os fenômenos que aqui serão explorados, de acordo com Scott (1990), na sua utilização mais recente, “gênero” é sinônimo de “mulheres”. Os livros e artigos de todos os tipos que tinham como tema a história das mulheres, substituíram, nos últimos anos, nos seus títulos o termo “mulheres” por “gênero”. Sendo assim, em alguns casos, mesmo que essa utilização se reflita vagamente a certos conceitos analíticos, ela visa, de fato, obter o reconhecimento político deste campo de pesquisa. Conforme Scott (1990) o uso do termo “gênero” visa sugerir a erudição e a seriedade de um trabalho, pois, “gênero” tem uma conotação mais objetiva e neutra do que “mulheres”. Dessa maneira o uso do termo “gênero” constitui um dos aspectos daquilo que se poderia chamar de uma busca de legitimidade acadêmica para os estudos feministas da década de 80. Dessa forma, podemos compreender que o termo “gênero”, se torna bastante útil para que possamos refletir acerca das relações sociais, deixando de lado, as explicações biológicas, é então uma forma de indicar as “construções culturais”, a construção dos papeis, tidos como adequados aos homens e mulheres, assim, levamos em consideração as origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas dos homens e mulheres. Em meados do Século XX crimes caracterizados como femininos eram o aborto provocado por motivo de honra e o infanticídio por crise psíquica de fundo puerperal, isto é, crimes associados à maternidade. A prostituição, o baixo-meretrício, a exposição da sexualidade para fins não reprodutivos, equivaleriam a criminalidade capaz de colocar em risco a moral familiar e os bons costumes (Soares e Iigenfrtz.2002) Ao final do Século XX e começo do século XXI, os crimes não são mais centralizados no âmbito privado, eles ganham vulto no âmbito público e perdem a conotação de crimes ligados à maternidade. Dessa forma a inserção feminina no tráfico de drogas se daria de duas formas principais: por meio de namorados bandidos ou de uma forma mais independente. Existe uma diferença que foi se construindo ao longo dos séculos fazendo parte das mais variadas culturas, acerca da situação de subalternidade da mulher e a relação entre homens e mulheres foi se moldando a partir de certos conflitos e com certas caraterísticas para ambos. O amor por exemplo se expressa como uma pratica definidora e participante das relações sociais. De fato, o culto feminino ao amor, ainda no contexto da contemporaneidade, subsiste como uma realidade cultural, figurando como elemento formador de representações sociais. Ainda que as mulheres participem ativamente do mercado de trabalho, adquirindo autonomia profissional e financeira, lutando pela igualdade e rompendo com a forte tradição de permanência no espaço doméstico, suas concepções acerca do amor e suas expectativas amorosas são bem diferentes daquelas vividas pelos homens. A mulher age em nome do afeto, na medida em que suas práticas estão diretamente relacionadas a sua identidade na relação afetiva. Por isso, as práticas sociais femininas no contexto do tráfico de drogas, não têm os mesmos fundamentos representacionais que as práticas masculinas, notadamente justificadas a partir de aspectos financeiros e da necessidade do homem de se firmar como sujeito em determinado grupo social. (Pimentel, 2008) Podemos inferir que a figura masculina exerce uma forte influência na vida das mulheres em relação ao tráfico de drogas, já que a mulher acaba não se sentindo criminosa quando pratica o ato criminoso com fins de auxiliar o marido. Souza (2009) Pimentel (2008) Percebe-se que a mulher encarcerada sofreu influências masculinas diretas ou indiretas que a levaram a sua prisão. Como quando estes as induzem ao cometimento ou participação do crime ou então, a assumir a culpa sozinha para livrá-lo do cárcere, servindo como escudo contra a ação policial e outra vez vítima de sua própria natureza (2008, Grupo de Trabalho Interministerial). A inserção da mulher no tráfico pode ocorrer de forma independente, porém, comumente ocorre por influência de uma figura masculina que pode ser pai, irmão, filho e, principalmente, namorado ou marido (Souza, 2009). O envolvimento da mulher em práticas ilícitas influenciadas por homens nos remete às representações sociais sobre a afetividade relacionadas às mulheres. E as relações afetivas são extremante importantes para a compreensão das motivações que levam a uma lógica tão complexa nas representações e nos papeis que os indivíduos formulam para si e para o outro. A AFETIVIDADE E SUA CONTRIBUIÇÃO NAS AÇÕES DE MULHERES LIGADAS AO CRIME As mulheres têm uma forma especifica de compreensão acerca dos seus papéis nas relações afetivas e mediante esse olhar, as mulheres muitas vezes não se reconhecem como criminosas quando se tornam traficantes em nome do amor que sentem por seus companheiros e pela família. No contexto das relações sociais com o homem traficante e a partir das representações sociais que formulam acerca do papel feminino na relação afetiva, as mulheres que fazem parte do tráfico justificam suas práticas relacionadas ao tráfico de drogas através das emoções, sentimentos. As mesmas tomam pra si, uma carga de responsabilidade nos relacionamentos e assim entendem que são responsáveis pelo lado afetivo do lar, das relações familiares e também do relacionamento amoroso, dão constantes provas de amor, sendo uma delas o envolvimento com práticas ilícitas. Outra questão relevante é que, embora as mulheres estejam ganhando cada vez mais autonomia no meio social, ainda é fortemente presente a dominação masculina sob a mulher (Pimentel, 2008). Esta dominação reflete no universo da criminalidade, pois pesquisas mostram que as mulheres na maioria das vezes, guardadas as exceções, não ocupam lugar de liderança no tráfico de drogas, mas enquadram-se na função de “mulas”, que são as pessoas que transportam a encomenda de um lugar ao outro e ganham dinheiro por isso. Esse lugar na escala hierárquica contribui para o significativo aumento do encarceramento feminino, já que elas estão mais vulneráveis e correndo maiores riscos de serem pegas e punidas pela polícia (Soares; Ilgenfritz, 2002). Luhman (1991) aponta para que existam meios de comunicação que são simbolicamente generalizados e que se colocam a solucionar certas questões inerentes à combinação entre seleção e motivação, que utilizam uma semântica ancorada na realidade: verdade, amor, poder etc. Estas terminologias designam características, postulados, sentimentos, meios de troca meios de ameaça e etc. Através destas referências orientadas para quadros de circunstâncias que se opera a aplicação dos meios. São antes de mais nada, indicações à comunicação que podem ser manipuladas com uma autonomia relativa a face aos quadros de circunstância, quer estes existam ou não. “O meio de comunicação amor não é um sentimento em si mesmo, mas antes um código de comunicação cujas regras determinarão a expressão, a formação, a simulação, a atribuição indevida aos outros e a negação dos sentimentos, bem como a assunção das consequências inerentes, sempre que tiver lugar uma comunicação deste género.” (Luhman,1991, p.21). Segundo o pensamento de Luhman (1991) o amor poderá então movimentar-se em primeiro lugar e em uma certa medida numa zona indefinida e ser orientado para um modelo prospectivo generalizado que facilite a seleção capaz, porém, de perturbar também realização emocionalmente aprofundada. Com isso trata-se de uma significação do significado, enraizada no código que proporciona a aprendizagem do amor, a interpretação dos indícios e a transmissão de pequenos sinais para exprimir grandes sentimentos; é o código que permite a experiência da diferença bem como o destaque dado a ausência de realização (p.22). Dessa maneira cada meio de comunicação simbolicamente generalizado pode ser plenamente diferenciado em função da especificidade do limiar. Para o meio de comunicação amor este problema reside na própria comunicação altamente personalizada, ou seja é uma comunicação através da qual o falante procura distinguir-se dos outros. Tal pode acontecer pelo fato de o próprio sujeito se transformar em tema, ou seja, falar sobre si próprio; mas também pelo fato de, ao longo de temas objetivos, tornar a sua relação com o assunto num aspectro crucial da comunicação. (p.22) “O tema da infinitude que surge continuamente na semântica do amor significa também que não existem limites para a ação do próprio, dentro do mundo de vivencias do outro; sobretudo para aquele que ingressa neste mundo como igualmente amado. A simetria entre o viver e o agir comporta então a oportunidade de antecipação: podemo-nos orientar pela vivencia do outro, mesmo que não tenha agido conforme esperava, mesmo que não tenha expresso qualquer desejo, nem tenha assumido qualquer das atribuições de que lhe são próprias. Tal está subentendido, quando a semântica do amor exige que se ultrapassem os deveres da galanteria ou quando reporta aos acordos<tácitos), o que é possível de acontecer sempre que os amantes não necessitam de qualquer procedimento para estarem de acordo.” (Luhman,1991, p. 25) Com relação as mulheres que se inserem em um universo do tráfico de drogas, por questões afetivas, podemos perceber que nessas situações o amor sobretudo modifica tanto a vivencia dessa mulher como a relação com o mundo, modificando seu horizonte e seu agir. Com isto se confere um poder de persuasão a essas emoções e posteriormente motiva uma ação que não está claro o resultado concreto, mas por causa do seu “significado simbolicamente expressivo, sintomático do amor, ou se insinua como consumação da especificidade daquele mundo em que vigora a união com o amor (e com mais ninguém): o mundo dos gostos comuns, da história comum, dos desígnios comuns, dos temas falados e dos acontecimentos valorados como afirma Luhman (1991) Na semântica do amor não se encontra formulada essa questão, porém ela está simbolizada e o símbolo dominante que organiza a estrutura temática do meio de comunicação amor designa-se sobretudo por < paixão> e paixão significa que se sofre de alguma coisa que não se consegue modificar em nada e da qual não se pode dar contas. Algumas tradições ao longo da história trataram do amor de diversas formas e expressões: o amor é uma espécie de doença; o amor é uma loucura; o amor cativa. E lhe foi atribuído um lugar de honra pelo papel que desempenha socialmente. (p.36) De acordo com Weber age afetivamente quem satisfaz a sua necessidade atual de vingança, de gozo, de entrega, de beatitude contemplativa ou de abreação de emoções atuais (quer de natureza tosca ou sublime), na ação afetiva o sujeito não elabora conscientemente os pontos de direção últimos da atividade e não se orienta de maneira consequente. Weber deixa claro que muitas raras vezes a ação, especialmente a social, está exclusivamente orientada por um ou outro dos tipos citados, os mesmos não passam de modelos conceituais puros, o que quer dizer em geral as ações sofrem mais de um dos condicionamentos, todavia são classificados com base naquele que, no caso, é o predominante. Portanto o sujeito agi de forma afetiva quando sua ação é inspirada em suas emoções, ou seja, sentimentos como: vingança, amor, desespero, orgulho, inveja, paixão e compaixão, sem que seja evado em consideração os meios ou fins a que se busca atingir. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir de uma breve analise bibliográfica acerca da discussão da inserção da mulher no tráfico, percebemos que comumente ocorre por influência de uma figura masculina que pode ser pai, irmão, filho e, principalmente, namorado ou marido como aponta Souza, 2009. Compreender as relações afetivas é algo muito importante para a compreensão das motivações que levam a uma lógica tão complexa nas representações e nos papeis que os indivíduos formulam para si e para o outro. As práticas sociais femininas no contexto do tráfico de drogas, não têm os mesmos fundamentos representacionais que as práticas masculinas, notadamente justificadas a partir de aspectos financeiros e da necessidade do homem de se firmar como sujeito em determinado grupo social. Como nos afirma Pimentel (2008). A sociedade é composta por homens e mulheres que são atores sociais e desempenham os mais diversos papeis na realidade social, no contexto brasileiro o tráfico de drogas tem se tornado ao longo dos anos o maior responsável pelas detenções no país. Esse é um problema central nas grandes cidades, onde o tráfico de drogas muitas vezes está associado a violência. Os dados apontam para um crescimento em grande proporção da participação das mulheres no tráfico de drogas, o que nos leva a pensar na história da sociedade brasileira aspectos norteadores da identidade e da construção dessa categoria ao longo do tempo. Entendemos que a figura masculina exerce uma forte influência na vida das mulheres em relação ao tráfico de drogas, já que a mulher acaba não se sentindo criminosa quando pratica o ato criminoso com fins de auxiliar o marido muitas vezes. As mulheres que se inserem em um universo do tráfico de drogas, por questões afetivas, nessas situações o amor sobretudo modifica tanto a vivencia dessa mulher como a relação com o mundo, modificando seu horizonte e seu agir. Na ação afetiva o sujeito não elabora conscientemente os pontos de direção últimos da atividade e não se orienta de maneira consequente, porém não podemos esquecer dos outros fatores que fazem parte do cotidiano dessas mulheres e que exista mais de um fator motivando as decisões das mesmas. BIBLIOGRAFIA ALBERTI, Verena. Manual de história oral- 3.ed- Rio de Janeiro: Editora FGV,2005. ASSIS, S. G. & CONSTANTINO, P. (2001). Filhas do mundo: infração juvenil feminina no Rio de Janeiro. 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