XXV Encontro Nac. de Eng. de Produção – Porto Alegre, RS, Brasil, 29 out a 01 de nov de 2005 Avaliação da Utilização de Pilhas a Combustível no Segmento de Eletroeletrônicos Portáteis: uma Proposta de Análise de Oportunidades e Barreiras para Inovações com Base no Conhecimento Científico Gilberto Luiz Vimercati Neto (UFRJ) [email protected] Vivian Helena Monteiro de Mattos (IBMEC) [email protected] Resumo Dentre todas as sete fontes de inovação identificadas por Drucker (1998) uma se destaca por oferecer as maiores oportunidades de negócio: a inovação baseada no conhecimento científico. Mas, apesar de todo o seu potencial econômico e industrial, este tipo de inovação necessita de um tempo de maturação muito superior aos demais, o que implica em riscos substancialmente mais altos e exige um tratamento especial quanto à análise de suas aplicações e de seus riscos. Desta forma, este artigo tem como proposta discutir a avaliação das oportunidades e barreiras existentes para o desenvolvimento de inovações com base no conhecimento científico a partir do estudo de caso das aplicações para a tecnologia de pilhas a combustível no segmento de eletroeletrônicos portáteis. Palavras chave: Inovação, Conhecimento Científico, Pilhas a Combustível. 1. Introdução Peter Drucker (1998) enumera sete fontes de inovação: − − − − − − − O inesperado; A incongruência; A necessidade do processo; Mudanças na estrutura do setor ou do mercado; Mudanças demográficas; Mudanças em percepção, diagnóstico ou significado; Novo conhecimento. Dentre todos estes tipos, a inovação baseada no novo conhecimento é aquela que oferece as maiores possibilidades de remuneração do capital investido e de alteração da estrutura de mercados, com o aparecimento de novas empresas usuárias da tecnologia emergente. E embora Drucker (1998) amplie a definição para todo novo conhecimento científico, técnico ou social, são as inovações baseadas no primeiro tipo que se sobressaem. Entretanto, apesar de todo o seu potencial, estas inovações possuem duas características que aumentam o risco dos seus projetos de pesquisa e desenvolvimento: o longo percurso até o mercado e a necessidade de convergência de vários campos do conhecimento. O longo tempo de maturação de uma inovação com base no conhecimento científico é função do tempo necessário para o surgimento do conhecimento e do tempo que este conhecimento levará para se tornar um produto, processo ou serviço. Estima-se que uma tecnologia incluída nesta classificação leve de 25 a 30 anos para se tornar aceita no mercado (DRUCKER, 1998). Além disso, em geral, há a necessidade de convergência de conhecimentos de outras áreas, o que torna o seu sucesso dependente do esforço de mais de uma disciplina, o que, por sua vez, ENEGEP 2005 ABEPRO 4164 XXV Encontro Nac. de Eng. de Produção – Porto Alegre, RS, Brasil, 29 out a 01 de nov de 2005 aumenta o risco. As pilhas a combustível constituem um exemplo deste tipo específico de inovação e como tal devem ser avaliadas e geridas. O seu nível de desenvolvimento em 2005 indica que apesar de existirem vários projetos de demonstração envolvendo a tecnologia, a sua transição para um nível de produção em escala comercial ainda exigirá mais alguns anos de pesquisa em várias áreas, mas especialmente na de materiais. A avaliação desta inovação no segmento de eletroeletrônicos portáteis (composto por telefones celulares, computadores portáteis e baterias móveis com capacidade inferior a 1,5 kW) pode servir de base para o estabelecimento de uma metodologia própria para a avaliação de oportunidades e barreiras encontradas por este tipo específico de inovação. 2. Princípios e Fundamentos das Pilhas a Combustível A primeira etapa para a avaliação das oportunidades e barreiras de uma inovação com base no conhecimento científico consiste em entender os seus princípios e fundamentos de modo que seja possível reconhecer as suas potenciais aplicações, as vantagens oferecidas e os gargalos no seu desenvolvimento. As pilhas a combustível são dispositivos que promovem a reação de hidrogênio (H2) com oxigênio (O2), convertendo energia química em energia elétrica e gerando como únicos subprodutos água e calor. Como não há passagem pelo ciclo de calor, sua eficiência é superior à eficiência dos motores de combustão interna. (BLOMEM, 1993). O funcionamento de uma pilha a combustível é bastante semelhante ao de uma pilha comum de lítio ou níquel-cádmio, se diferenciando apenas pelo fato de possuírem uma vida útil teórica infinita, ou seja, enquanto uma pilha comum consome seus eletrodos durante sua operação, o que limita a sua vida, a pilha de hidrogênio pode, em tese, produzir energia enquanto forem fornecidos hidrogênio e oxigênio (PAULA, 2003). As possibilidades oferecidas por este mecanismo são diversas, intervindo a seu favor o fato de ser uma alternativa limpa, silenciosa e eficiente de geração de energia. Estas características são particularmente interessantes para três aplicações: geração estacionária de energia elétrica, transporte automotivo e montagem de aparelhos eletroeletrônicos portáteis. Entretanto, como a maioria das novas tecnologias, há um número grande de questões a serem resolvidas antes de sua entrada definitiva no mercado, entre elas: o produto não ter atingido um nível técnico maduro, as complexidades da engenharia dos sistemas e as dúvidas quanto a sua durabilidade e confiabilidade. Estas dificuldades acabam sendo refletidas em um alto custo de capital, na ausência de uma infra-estrutura de apoio e no grande risco técnico incorrido por aqueles que adotam a tecnologia em seus estágios iniciais (ENERGY NEXUS GROUP, 2002). Há diversos tipos de pilhas a combustível, sendo o nome de cada uma delas atribuído em função do eletrólito empregado. Desta forma, os tipos de pilha a combustível existentes no início de 2005 eram: − − − − − − Alcalina (Alkaline Fuel Cell – AFC); de Membrana Polimérica (Proton Exchange Membrane Fuel Cell – PEMFC); de Óxido Sólido (Solid Oxide Fuel Cell – SOFC); de Carbonato Fundido (Molten Carbonate Fuel Cell – MCFC); de Ácido Fosfórico (Phosphoric Acid Fuel Cell – PAFC); de Metanol Direto (Direct Methanol Fuel Cell – DMFC). O funcionamento de uma célula a combustível é baseado na conversão direta da energia ENEGEP 2005 ABEPRO 4165 XXV Encontro Nac. de Eng. de Produção – Porto Alegre, RS, Brasil, 29 out a 01 de nov de 2005 química do combustível em eletricidade através de reações de oxidação e redução, sem que ocorra combustão. Essa reação ocorre dentro de uma estrutura composta de dois eletrodos separados por um eletrólito. No ânodo, cada átomo de hidrogênio perde um elétron, adquirindo a forma catiônica H+. Os elétrons que são liberados no ânodo migram por um circuito externo, gerando uma corrente elétrica, e retornam à pilha pelo cátodo para combinarem com o oxigênio. No cátodo, cada átomo de oxigênio ganha 2 elétrons, assumindo a forma aniônica O-2. Em geral, o íon H+ migra pelo eletrólito até o cátodo para reagir com o O-2 , mas nas pilhas de óxido sólido e de carbonato fundido, são os ânions de oxigênio que migram para encontrar a molécula de hidrogênio. Um esquema básico de uma pilha a combustível é apresentado na Figura 1. Figura 1. Esquema Básico de uma Pilha a Combustível Além dos eletrodos, a montagem de uma pilha a combustível inclui uma entrada para alimentação de hidrogênio junto ao ânodo, catalisadores (em geral, de platina), um eletrólito, uma entrada para alimentação de oxigênio junto ao cátodo, um coletor de corrente e saída para os subprodutos e para o excesso de reagentes. O eletrólito, que pode ser líquido ou sólido, é o meio condutor iônico. Ele é o responsável pelo transporte de reagentes dissolvidos e cargas iônicas entre os eletrodos. Ele também atua como selante, vedando a passagem das correntes gasosas de oxidante e combustível e evitando um contato direto entre os gases. Embora os fundamentos da geração de energia elétrica a partir da utilização do hidrogênio sejam conhecidos, ainda existem aspectos que necessitam ser desenvolvidos. A necessidade de catalisadores mais baratos, a simplificação da montagem da pilha e o aumento da eficiência do selante e do coletor de corrente são os principais obstáculos que prejudicam o seu desempenho, especialmente quando comparado ao desempenho de tecnologias maduras. 3. Avaliação do desempenho das pilhas a combustível no segmento de eletroeletrônicos portáteis Uma vez que as características, as vantagens e as dificuldades técnicas de uma inovação com base no conhecimento científico são compreendidas, torna-se necessário entender como elas influirão no desempenho de produtos desenvolvido a partir da tecnologia para o segmento em questão. ENEGEP 2005 ABEPRO 4166 XXV Encontro Nac. de Eng. de Produção – Porto Alegre, RS, Brasil, 29 out a 01 de nov de 2005 3.1 Aspectos relevantes do segmento As pequenas aplicações portáteis são aquelas cuja demanda de energia não ultrapassa 1,5 kW. Apesar de os equipamentos eletrônicos oferecerem cada vez mais funções, as baterias de lítio e níquel-cádmio que os alimentam não evoluíram no mesmo ritmo e podem em breve limitar o seu desenvolvimento. Isto porque são pesadas, possuem um alto custo por kW gerado e uma vida útil muito pequena, o que cria um ambiente propício para a introdução de uma nova tecnologia, como a de pilhas a combustível (DYER, 1999). De todas as potenciais utilizações das pilhas a combustível, as pequenas aplicações portáteis são aquelas que aparentam estar mais próximas do mercado. Isto ocorre porque suas principais concorrentes, as baterias de lítio e de níquel-cádmio, além de possuírem vida útil limitada e custo alto por kW, ainda oferecem autonomia pequena aos equipamentos e, quando descartadas, tornam-se dejetos potencialmente tóxicos que exigem atenção especial da sociedade (BUCHMANN, 2001). Neste caso, as pilhas poderiam ser úteis em rádios comunicadores e ferramentas portáteis, tais como furadoras, e, principalmente para telefones celulares, computadores portáteis, e APDs (Assistentes Portáteis Digitais, também conhecidos pelo termo inglês PDAs – Portable Digital Assistants). Eletroeletrônicos poderiam ter seus desempenhos melhorados com a aplicação deste dispositivo. Além de maior autonomia, eles poderiam se beneficiar de uma disponibilidade maior de energia e, com isso, oferecer funções que antes não podiam ser suportadas pelas baterias convencionais, tais como a terceira geração de telefones celulares (3G) e a conectividade sem fio universal (CROPPER, 2003). Suas características mais valorizadas neste segmento são: − − − − − A alta densidade de potência; A facilidade de recarga; A redução do peso; Os baixos níveis de ruído; e, A possibilidade de utilizar o calor gerado. Apesar de os telefones celulares constituírem o maior mercado potencial nesta aplicação, os desafios relacionados à miniaturização dos componentes, controle da temperatura de operação e custos tendem a ser maiores. Os computadores portáteis assumem a posição de equipamento eletrônico mais suscetível à introdução desta tecnologia porque suas dimensões e seu preço absorvem melhor os impactos da adição de novos componentes. 3.2 Oportunidades e barreiras Para se determinar o tipo de pilha a ser utilizado em determinado projeto é importante que o usuário avalie as diversas tecnologias disponíveis segundo alguns critérios tais como: − Temperatura de operação: a escolha terá impacto no tempo necessário para o início do funcionamento da pilha e no desejo ou não de se aproveitar o calor produzido; − Vida útil: pilhas que utilizam eletrólitos sólidos tendem a ter vida útil maior do que as que utilizam eletrólitos líquidos; − Restrições de corrente e tensão: dependendo da aplicação para a qual se deseja a pilha, se fixa ou móvel, as escolhas deverão ser diferentes; − Estágio de desenvolvimento: os diferentes tipos de pilha se encontram em diferentes estágios de desenvolvimento. Especificamente para o caso das pilhas a combustível, o processo de geração de energia ENEGEP 2005 ABEPRO 4167 XXV Encontro Nac. de Eng. de Produção – Porto Alegre, RS, Brasil, 29 out a 01 de nov de 2005 elétrica a partir do hidrogênio pode ocorrer dentro de um espectro amplo de temperaturas, que varia entre 70 ºC e 1.000 ºC, e, por isso, propicia a existência dos diferentes tipos de tecnologia, sem que, no entanto, seu princípio básico de funcionamento seja alterado. A Tabela 1 apresenta a matriz Aplicação-Potência que ajuda a identificar os tipos de pilha possíveis de serem utilizados dada a aplicação e a demanda de potência. Aplicações Geração Estacionária Transporte Inferior a 1,5 kW 10 kW 100 kW 1.000 kW _ _ PEMFC DMFC PAFC SOCF _ AFC PEMFC DMFC PAFC PEMFC DMFC PAFC SOCF PEMFC DMFC PAFC SOCF MCFC PEMFC DMFC PAFC SOCF MCFC AFC PEMFC _ DMFC PAFC Fonte: Elaborada pelo autor com base em Avadikyan (2003) Eletroeletrônicos Portáteis AFC PEMFC DMFC _ 10 MW 100 MW PAFC SOCF MCFC MCFC SOFC PAFC SOCF MCFC MCFC SOFC _ _ Tabela 1 – Tipos de Pilha a Combustível por Aplicação Analisando-a, observa-se que, para o segmento de eletroeletrônicos portáteis, cuja demanda de potência é inferior a 1,5 kW, podem ser utilizados três tipos de pilhas a combustível: a alcalina, a de membrana polimérica e a de metanol direto. Em relação às três opções possíveis, até setembro de 2004, havia uma disputa entre as pilhas de membrana polimérica (PEMFC) e as de metanol direto (DMFC) pela primazia no segmento, com ligeira vantagem pelo segundo tipo, que liderava com aproximadamente 55% do total de sistemas produzidos (JOLLIE, 2004). A pilha alcalina, apesar de constituir uma opção para este segmento, possui grandes problemas quanto à estabilização do eletrólito, que neste caso é líquido. Este problema tem diminuído o interesse por este tipo de pilha, de modo que, até o início de 2005, o seu estágio de desenvolvimento tecnológico era significativamente mais atrasado que os dos demais. A preferência pela DMFC pode ser explicada em parte pela facilidade de se usar metanol diretamente. É possível que este combustível se torne a opção de combustível para os sistemas portáteis uma vez que ele é a alternativa mais barata e a mais simples existente atualmente. A PMFC, por sua vez, utiliza hidrogênio puro, o que exige um processamento anterior do combustível fonte do gás e também implica em dificuldades técnicas para o seu armazenamento e manipulação. O obstáculo para a ampla utilização do metanol reside na sua toxidade, que exigirá padrões de segurança rígidos da produção à utilização. Outras alternativas de combustível, como hidrogênio líquido ou comprido, são possíveis mas possuem a desvantagem de possuírem um custo alto de produção, sendo improvável que os usuários estejam dispostos a pagar mais por elas. Para se entender como as características de uma inovação baseada no conhecimento científico pode gerar oportunidades e barreiras, é necessário avaliá-la. Para isto, foi preciso selecionar ENEGEP 2005 ABEPRO 4168 XXV Encontro Nac. de Eng. de Produção – Porto Alegre, RS, Brasil, 29 out a 01 de nov de 2005 uma metodologia de avaliação de desempenho. Para o caso em estudo, a proposta escolhida foi a da International Partnership for Hydrogen Economy (IPHE), que se mostrou interessante por ser desenvolvida especificamente para tecnologias que envolvam a utilização do hidrogênio. A IPHE é uma parceria internacional que visa a prover um mecanismo para organizar, avaliar e coordenar programas multinacionais de pesquisa, desenvolvimento e extensão que acelerem a transição para uma economia baseada no hidrogênio (IPHE, 2004). Desta forma, sugere o organismo que as cadeias de energia, de diferentes fontes, sejam avaliadas com atenção a diferentes critérios, tais como, mas não unicamente: − − − − − Eficiência; Custo (direto e indireto); Segurança Impactos ambientais locais; Impactos econômicos (empregos gerados / empregos perdidos, balança comercial etc.). A avaliação de cada um desses critérios deve ser feita comparativamente em relação ao principais concorrentes, ou seja, deve considerar a existência de outras fontes de energia para a aplicação. Estas fontes deverão ser avaliadas segundo cada um dos critérios anteriormente mencionados e comparadas com as pilhas a combustível. Em relação à eficiência com que geram a energia, pilhas a combustível e baterias convencionais não diferem muito, pois ambas são excelentes para converter energia química em elétrica. Entretanto, se analisada a quantidade de energia por unidade de massa dos combustíveis usados, as primeiras têm vantagem. A utilização de hidrogênio líquido puro pode fornecer 800 vezes a energia eletroquímica contida por unidade de massa de níquelcádmio (DYER, 1999). Essa superioridade também ocorre quando o combustível é um composto rico em hidrogênio. Um litro de metanol, por exemplo, teoricamente, poderia gerar cerca de 5.000 Wh, o suficiente para manter em funcionamento um computador portátil por um mês. Um volume comparável de lítio, cuja densidade de corrente é a maior entre as baterias recarregáveis, seria capaz de fornecer apenas um décimo dessa capacidade, ou seja, 500 Wh ou três dias de autonomia (DYER, 1999). A conveniência é outro aspecto positivo a favor das pilhas a combustível. Além de poderem utilizar uma ampla gama de combustíveis, o seu carregamento é rápido, podendo ser feito por meio de ampolas de metanol ou do combustível utilizado, diferentemente das baterias convencionais que levam horas para estarem plenamente recarregadas. O custo de instalação de uma pilha a combustível também é competitivo neste segmento. O custo de geração 1 kW por meio de uma pilha a combustível em 2001 estava entre US$ 3.000 e US$ 7.500, enquanto que para uma bateria de níquel-cádmio de mesma capacidade, esse custo é de US$ 7.100 (BUCHMANN, 2001). Isto significa que apenas nos casos extremos o preço de uma pilha a combustível era superior. Ainda que o preço do combustível seja favorável às baterias convencionais – US$ 0,15/kWh contra US$ 0,35/kWh das pilhas a combustível – os custos totais de operação por kW, que incluem custos de manutenção, gastos com combustíveis e substituição de equipamento, também são favoráveis à nova tecnologia, variando em uma faixa de US$ 1,85 a US$ 4,10/kWh para elas, contra um custo de US$ 7,10/kWh para as tecnologias convencionais (BUCHMANN, 2001). A vida útil também é um aspecto vantajoso deste dispositivo. Enquanto as baterias convencionais possuem vida útil limitada, com seu desempenho sendo comprometido com o ENEGEP 2005 ABEPRO 4169 XXV Encontro Nac. de Eng. de Produção – Porto Alegre, RS, Brasil, 29 out a 01 de nov de 2005 consumo dos seus componentes, o que implica a sua substituição, as pilhas a combustível podem gerar energia por mais tempo, necessitando apenas que mais combustível seja fornecido. Com relação à vida útil, as pilhas a combustível conseguem operar por 2.000 horas antes de uma grande revisão ou troca, enquanto as baterias de níquel-cádmio só atingem 1.500 horas. A Tabela 3.4 apresenta a comparação dos custos para gerar 1 kW de energia entre as pilhas a combustível e as baterias de níquel-cádmio, considerando o investimento inicial, o consumo de combustível, manutenção e eventual substituição do equipamento, utilizando valores de 2001. Investimento Fonte de Energia Custo de Operação e para gerar 1 kW Vida útil Combustível Manutenção total (US$) (em horas) (US$ / kWh) (US$ / kWh) 7.000 1.500 0,15 7,50 3.500 – 7.500 2.000 0,35 1,85 – 4,10 Bateria de NiCd Pilha a combustível Custo do Fonte: BUCHMANN, 2001 Tabela 2 Custos de Instalação e Operação de Pilhas a Combustível e de Baterias de Níquel-Cádmio O último benefício gerado pela nova tecnologia refere-se aos impactos ambientais. O descarte das baterias convencionais envolve cuidados especiais uma vez que estas utilizam metais pesados que, quando não são descartados adequadamente podem contaminar o ambiente. As pilhas a combustível, por originarem apenas água, calor e energia elétrica como resultado de sua operação, não necessitam um tratamento tão rigoroso, podendo inclusive o seu módulo principal ser reutilizado. Quanto à segurança, este talvez seja o único critério no qual as baterias convencionais superam as pilhas a combustível. A dificuldade das pilhas reside em determinar uma forma segura e eficiente de armazenamento do combustível. A utilização de hidrogênio puro sob a forma de gás comprimido é perigosa devido à facilidade com que o gás queima. A liquefação do gás também acarreta transtornos visto que seriam necessários equipamentos criogênicos para isto. A opção do metanol diminui os riscos, mas que de qualquer forma ainda seriam superiores aos oferecidos pelas baterias convencionais. Em virtude de o desempenho das pilhas a combustível para esta aplicação ser superior ao da tecnologia concorrente em quase todos os critérios de comparação, incluindo custo, é possível que este seja o segmento escolhido para a entrada comercial da tecnologia. Entretanto, antes que isto ocorra, será necessário superar alguns obstáculos, tais como: − A miniaturização dos componentes sem que isto comprometa o desempenho ou os custos; − A eliminação de elementos prejudiciais às células do combustível utilizado, como CO e CO2; − A determinação de uma forma segura para o usuário final lidar com o combustível. 4. Proposta de metodologia para análise de inovações originadas a partir do conhecimento científico A análise das oportunidades e barreiras existentes para a aplicação de pilhas a combustível no segmento de eletroeletrônicos portáteis permite que seja proposta uma metodologia de análise para as inovações originadas a partir do conhecimento científico. A primeira etapa consistiu em entender os princípios e os fundamentos da tecnologia. Por ENEGEP 2005 ABEPRO 4170 XXV Encontro Nac. de Eng. de Produção – Porto Alegre, RS, Brasil, 29 out a 01 de nov de 2005 terem origem em conhecimentos laboratoriais, a base teórica deste tipo de inovação pode fornecer dados importantes para sua análise. Esta etapa é fundamental para que se possa entender as características, vantagens e dificuldade técnicas dos produtos originados a partir do conhecimento em questão. Além disso, ela fornece informação suficiente para identificar que áreas de conhecimento necessitarão evoluir de forma a contribuir para a melhora do desempenho dos produtos originados. A partir do entendimento destes princípios, pode-se especular sobre que aplicações poderia obter maiores vantagens da aplicação deste conhecimento e como este poderia se materializar sob a forma de um produto. No caso estudado, por exemplo, observou-se que a geração de energia a partir da utilização de hidrogênio pode ser viabilizada por meio de pilhas de hidrogênio cuja utilização encontra receptividade no segmento de eletroeletrônicos portáteis. Definida uma aplicação, identifica-se os principais dispositivos concorrentes no segmento e avalia-se o desempenho da inovação, comparando-o com o desempenho das tecnologias maduras. A partir dos resultados, é possível avaliar se a inovação possui condições para concorrer naquele segmento ou se necessita de maiores desenvolvimentos em um ou mais aspectos. 5. Conclusões As inovações originadas a partir do conhecimento científico possuem características próprias que exigem atenção. O longo tempo de maturação e a necessidade da convergência de conhecimento de diversas áreas são aspectos que podem aumentar as chances de insucesso de uma nova tecnologia. Assim sendo, analisá-las da mesma forma como são tratados os demais tipos pode implicar avaliações equivocadas. Seguindo a metodologia proposta pelo artigo, observa-se a existência de condições propícias para o desenvolvimento de pilhas a combustível para eletroeletrônicos portáteis. Isto ocorre devido ao desempenho superior desta tecnologia em relação à tecnologia existente. Entretanto, para que isto ocorra de fato, ainda são necessários avanços na área de materiais, especialmente no que se refere ao desenvolvimento de componentes menores, mais simples e mais baratos. Referências AVADIKYAN, A. et al. (2003) - The Economic Dynamics of Fuel Cell technologies. Ed. Springer, Berlin, Alemanha. BLOMEM, L. J. M. J. (1993) – Fuel Cell Systems. Ed. Plenum Press. New York. BUCHMANN, I. (2001) – The Fuel Cell: is it Ready? Disponível em www.buchmann.ca. Visitado em 27/04/04. DRUCKER, P. (1998) – Inovação e espírito empreendedor: práticas e princípios. Ed. Enio Matheus Guazzelli. São Paulo. DYER, C. L. (1999) – Replacing the Battery in Portable Electronics. Revista Scientific American, (Julho de 1999). Pp. 88-93. Ed. Scientific American. ENERGY NEXUS GROUP (2002) – Technology Characterization: Fuel Cells. Energy Nexus Group, Arlington, Virginia, EUA. INTERNATIONAL PARTNERSHIP FOR HYDROGEN ECONOMY (2004) – Socio-economics of Hydrogen. Scoping Paper. IPHE JOLLIE, D. (2004) – Fuel Cell Market Survey: Portable Applications. Disponível em www.fuelcelltoday.com. Visitado em 10/10/04. PAULA, M. C. de (2003) – Avaliação das Pilhas a Combustível como Principal Promotor do Hidrogênio como Vetor Energético. Tese de Mestrado. COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro. ENEGEP 2005 ABEPRO 4171