Fatores que determinam a qualidade das
Instruções de Aeronavegabilidade Continuada
Talita Guazzelli Dias – Engenheira Mecânica
Engenheira de Desenvolvimento do Produto na Embraer
[email protected]
José Nogueira da Mata Filho – Mestre em Engenharia Aeronáutica
Engenheiro de Desenvolvimento do Produto Sênior na Embraer
[email protected]
Palavras Chave: Aeronavegabilidade Continuada, Manuais, Mecânicos, Tarefas de Manutenção.
BIOGRAFIA
Talita Guazzelli Dias, Engenheira Mecânica, formada pela
Escola de Engenharia Mauá, em São Caetano do Sul.
Com o cargo de Engenheira de Plano de Manutenção na
Embraer, situada em São José dos Campos, iniciou sua
carreira nesta empresa no Programa de Especialização em
Engenharia (PEE), turma 17, em 2011, logo após ter
concluído o ensino superior. Este Programa forma alunos
no curso de Mestrado Profissionalizante em Engenharia
Aeronáutica, com parceria entre a Fundação Casemiro de
Abreu, a Embraer e o Instituto Tecnológico da Aeronáutica
(ITA).
profissionais sejam contratados para suprir esta necessidade e,
neste caso, as tarefas de manutenção devem ser realizadas em
um menor espaço de tempo e por uma quantidade reduzida de
mecânicos.
Para que as tarefas de manutenção possam ser realizadas pelos
mecânicos no tempo adequado, com qualidade para garantir
um voo seguro, atendendo às expectativas dos clientes e sem
erros que venham a ocasionar incidentes ou até acidentes, os
técnicos devem contar com uma documentação que os auxilie,
os faça realizar os procedimentos de manutenção de forma ágil
e eficiente e que não deem margem para erro e má
interpretação.
Atualmente, é responsável pelas análises do Plano de
Manutenção dos sistemas mecânicos da aeronave militar
KC-390.
O objetivo deste trabalho é identificar e demonstrar os fatores
que, muitas vezes, fazem com que o mecânico de manutenção,
ao invés de seguir os manuais, use sua experiência e consulte
outros mecânicos mais experientes para a realização das tarefas
de manutenção.
José Nogueira da Mata Filho, Engenheiro Eletricista,
formado pela Universidade Veiga de Almeida - RJ. Possui
título de Mestre em Segurança de Voo pelo Instituto
Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e MBA em Gestão
Empresarial pela Faculdade Getúlio Vargas (FGV).
Para identificação destes fatores, foram utilizados dados de
suporte à manutenção, resultados de pesquisas bibliográficas e
pesquisa descritiva com mecânicos de um Centro de Serviço.
Desde 1987 atua na área de manutenção aeronáutica da
Embraer, participando e coordenando atividades de
desenvolvimento do Plano de Manutenção de diversas
aeronaves. Atualmente, coordena o time de Plano de
Manutenção e Confiabilidade da aeronave militar KC-390.
É também colaborador nos trabalhos promovidos pelo
comitê internacional da Air Transport Association (ATA) –
Associação de Transportes Aéreos - visando à atualização
do documento MSG-3.
RESUMO
Para suprir a necessidade do aumento da demanda por
viagens áreas, as companhias passaram a, além de adquirir
novas aeronaves, utilizar de forma mais intensa as
aeronaves que já possuem. O aumento de horas de voo e do
número de ciclos (pousos e decolagens) requer maiores
cuidados às aeronaves, resultando em um maior número de
manutenções. No entanto, nem sempre é possível que mais
Dentre os principais fatores levantados, estão a falta de clareza
e praticidade das informações de manutenção. A maneira como
a tarefa é escrita, de acordo com os mecânicos, muitas vezes
não descreve procedimentos básicos e apresenta sequência de
passos que dificulta a execução.
Através dos dados recolhidos, é possível identificar que o
conhecimento da realidade das oficinas de manutenção e uma
maior interface entre engenheiros e mecânicos de manutenção
é fator determinante para que os procedimentos elaborados
sejam de fato utilizados no dia a dia da Manutenção de
Aeronaves.
INTRODUÇÃO
Neste artigo serão apresentados os principais motivos pelos
quais os mecânicos de manutenção, muitas vezes, preferem
consultar seus colegas ou utilizar sua experiência para realizar
as tarefas de manutenção, ao invés de consultar os Manuais de
Manutenção.
- - - - - - - - - - Anais do 6º Simpósio de Segurança de Voo (SSV 2013) – Direitos Reservados - Página 968 de 1014 - - - - - - - - - -
Também serão identificados os principais fatores que
contribuem para a elaboração e execução de uma tarefa de
manutenção e serão propostos meios de otimização deste
processo, de forma a melhorar a qualidade dos Manuais de
Manutenção que são acessados pelos mecânicos.
Com o aumento da confiabilidade dos Manuais de
Manutenção, é possível então diminuir registros de
problemas por parte dos Operadores, com relação aos
manuais, e também o número de incidentes/acidentes
ocasionados por erros ou falhas na manutenção.
MANUTENÇÃO NA INDÚSTRIA
AERONÁUTICA
Função, tipos e níveis da Manutenção de Aeronaves
A função da Manutenção de aeronaves é garantir a
Aeronavegabilidade Continuada, retornando o nível de
Confiabilidade dos sistemas e estrutura do produto à sua
condição inicial.
A Manutenção pode ser dividida em dois tipos básicos: a
Manutenção Preventiva e a Corretiva. A Manutenção
Preventiva é coberta pelas tarefas geradas no Plano de
Manutenção da aeronave, ou seja, tarefas programadas para
um intervalo específico, que previnem a ocorrência de uma
falha ou podem detectar a iminência de falha ou falha
prematura. Já a Manutenção Corretiva ocorre quando se
tem um problema e, então, é preciso corrigi-lo para que a
aeronave continue operando.
Quanto aos níveis de Manutenção, estes podem ser
divididos em: organizacional, quando as tarefas são
realizadas na aeronave, sem retirá-la de operação (onaircraft e line maintenance - manutenção de linha),
intermediário, com tarefas realizadas em um hangar,
exigindo alguns equipamentos especiais de apoio, e
Manutenção nível parque, que é realizada com os
equipamentos desmontados da aeronave (off-aircraft).
Documentos de Manutenção
Para um jato moderno, de acordo com KINNISON (2004),
a quantidade de documentos de manutenção necessária é
equivalente ao peso desta mesma aeronave. Ou seja, são
necessários diversos procedimentos e orientações técnicas
para que os mecânicos possam compreender e executar
tarefas de manutenção.
Além dos manuais de procedimentos e documentos que
descrevem a aeronave, produzidos pelo fabricante, existem
os procedimentos e manuais de sistemas, elaborados pelos
fornecedores, e a documentação gerada pelos operadores,
que são destinadas a cada tipo de operação e utilização.
Tudo isto constitui a documentação da aeronave que deve
ser utilizada na manutenção.
Os principais manuais gerados para auxílio na compreensão
do funcionamento dos sistemas, execução de tarefas e
logística de trabalho dos mecânicos de Manutenção estão
listados a seguir.
Airplane Maintenance Manual
Manutenção da Aeronave
(AMM)
-
Manual
de
O AMM contém, além dos procedimentos detalhados de cada
tarefa de manutenção a ser executada na aeronave, uma
introdução com as principais informações sobre os sistemas e
orientações para tarefas de servicing, testes funcionais e
operacionais, ajustes, reabastecimentos de fluidos e remoção
de instalação de diversas LRUs.
Component Maintenance Manual (CMM) - Manual de
Manutenção de Componentes
Quando um componente é projetado pela fabricante da
aeronave ou até mesmo quando este componente é fabricado
por um fornecedor, devem ser elaborados manuais, que contém
procedimentos de teste, métodos de montagem e desmontagem
e tarefas específicas de manutenção, que possam ser
necessárias e previstas no Plano de Manutenção da aeronave.
Structural Repair Manual (SRM) - Manual de Reparo de
Estruturas
O SRM fornece informações para reparo de partes estruturais
da aeronave. Estas informações são elaboradas pelo fabricante
da aeronave e, assim como outros procedimentos, aprovadas
pela FAA ou algum outro órgão designado por esta.
Task Card (TC) - Cartão de Tarefa
Os TCs são trechos do AMM que são elaborados para que o
mecânico, no momento da execução da tarefa de manutenção,
não precise dispor de todo o manual. Os cartões podem estar
com os procedimentos modificados, de acordo com a
necessidade do operador, e mediante aprovação do fabricante e
do órgão regulador aplicável.
Service Bulletins (SB) e Service Letters (SL) - Boletins de
Serviço e Cartas de Serviço
Sempre que o fabricante da aeronave ou de um sistema elabora
uma modificação ou sugestões de melhoria para manutenção
da aeronave, são gerados documentos que orientam o operador
na execução da tarefa.
O Boletim de Serviço é, normalmente, uma modificação que
melhora a segurança ou operação da aeronave e fica a critério
do operador aplicá-lo ou não, exceto nos casos em que este foi
gerado por uma Airworthiness Directive (AD) - Diretriz de
Aeronavegabilidade - determinada pela FAA.
As Cartas de Serviço são geradas para que o procedimento de
manutenção possa ser realizado de maneira mais efetiva e
adequada, não existindo, neste caso, modificação de
componentes ou sistemas.
Comunicação
Manutenção
entre
Engenheiros
e
Mecânicos
de
Engenheiros trabalham em soluções para problemas práticos.
Sendo assim, estes profissionais devem estar presentes não só
no desenvolvimento da aeronave, mas também ao longo do seu
ciclo de vida e na manutenção.
Os profissionais da Manutenção precisam conhecer, não só as
operações de manutenção, mas também os requisitos de
- - - - - - - - - - Anais do 6º Simpósio de Segurança de Voo (SSV 2013) – Direitos Reservados - Página 969 de 1014 - - - - - - - - - -
aeronavegabilidade e certificação da aeronave, além de
experiência prática, para que os problemas que ocorrem em
campo possam ser detectados e corrigidos da melhor forma.
Como nem sempre é possível encontrar no mercado um
grande número de profissionais que acumulem experiência
teórica e prática, é preciso que, na atividade de manutenção
de um programa da indústria aeronáutica, existam
engenheiros e mecânicos experientes trabalhando juntos.
Os mecânicos de manutenção de aeronaves são,
geralmente, divididos em especialidades (Elétrica,
Aviônica, Hidráulica, Pneumática, Motor, Estruturas) e
podem exercer diferentes tipos de atividades de
manutenção, como: manutenção de linha, manutenção de
base, overhaul, preparação para vôo ou servicing. Porém,
independente de sua função ou especialidade, é esperado
que o mecânico seja capaz de identificar os sistemas da
aeronave, suas funções e os modos de operação. Quando
uma falha ou desvio é encontrado, o mecânico deve
executar
um
procedimento
para
reparo
ou
detecção/isolamento da falha.
A experiência do mecânico pode ajudar em todas estas
tarefas, diminuindo o tempo de execução, facilitando a
detecção de problemas e aprimorando a solução. A
participação em treinamentos em manutenção e específicos
para determinados modelos de aeronave também pode fazer
com que o mecânico adquira maior conhecimento e tenha
assim maior facilidade na execução dos procedimentos.
Os engenheiros, presentes tanto na fabricante de aeronaves
quanto nas linhas aéreas, possuem conhecimento mais
teórico, também especializados em alguma área (Mecânica,
Elétrica, Aeronáutica, Química, Civil, etc), com habilidade
para análises estatísticas, resolução de problemas e
interpretação de resultados.
O engenheiro de manutenção, mais especificamente, deve
ser a ligação entre os mecânicos e o desenvolvimento do
produto, sendo capaz de desenvolver soluções, junto aos
engenheiros de desenvolvimento, que facilitem a execução
e entendimento de uma tarefa de manutenção, não só
modificando ou implementando os manuais, mas também
inovando e influenciando na modificação de sistemas, em
caso de necessidade.
Segundo LEVITT (2008), uma empresa deve ter “seus
ouvidos” voltados para os trabalhadores que estão em
campo e seus supervisores, para detectar deteriorações
aceleradas. Ou seja, os Mecânicos de Manutenção e
Operadores são as figuras que podem, de forma mais
concreta, trazer para dentro da empresa e para as áreas
envolvidas no processo de elaboração dos Manuais de
Manutenção, os reais problemas enfrentados e o que o
Mercado espera de seus produtos e de seu serviço de
suporte.
Departamento de Engenharia de Manutenção
O departamento de Engenharia de Manutenção conta,
normalmente, com as seguintes tecnologias: Procedimentos
de Manutenção, Mantenabilidade, GSEs, Plano de
Manutenção, Confiabilidade, Peças de Reposição e
Operações em Vôo.
Dentre as atividades desenvolvidas, estão: elaboração e revisão
de documentos de Manutenção, estudo de acessibilidade para a
Manutenção, projeto de equipamentos de apoio em solo –
Ground Support Equipments (GSEs), desenvolvimento do
Plano de Manutenção, gerenciamento da Confiabilidade
Operacional da aeronave, levantamento de informações
técnicas das peças de reposição e elaboração dos Manuais
Operacionais.
As tecnologias que mais podem contribuir para que a interface
entre o departamento de Engenharia de Manutenção e os
mecânicos seja impulsionada são: Procedimentos de
Manutenção, Mantenabilidade e Plano de Manutenção.
Melhorias nas informações e formatos dos Manuais de
Manutenção e estudo para melhores condições de trabalho dos
Mecânicos farão com que as áreas de Serviço ao Cliente e os
Operadores adquiram maior confiança e utilizem sempre que
necessário os manuais elaborados pela fabricante.
Fluxo de informações entre as tecnologias
desenvolvimento dos Manuais de Manutenção
no
Os processos em uma empresa são interligados. De acordo com
LEVITT (2008), os departamentos são torres funcionais de
habilidades e os processos são atividades que atravessam estes
departamentos. Os processos devem ser mapeados e
inteiramente compreendidos pelos colaboradores que estão
nele envolvidos e, para facilitar o entendimento, podem ser
representados por flow-charts (diagramas de fluxo), que
ilustram a troca de informações e a seqüência de atividades
entre parte dos departamentos de uma Indústria Aeronáutica.
Cada setor possui responsabilidades e habilidades distintas
para a execução de uma ou mais tarefas, que estão dentro dos
processos da empresa, e farão parte do produto final.
Os departamentos envolvidos no processo de elaboração dos
Manuais de Manutenção e atualização dos mesmos ao longo do
período de operação da aeronave estão representados no
diagrama da Fig. 1, a seguir.
Figura 1 - Flow-chart simplificado do processo de
desenvolvimento dos Manuais de Manutenção, com as
principais áreas de interface e sua funções.
PESQUISA DE CAMPO
Segundo CHAPARRO (2001), os Manuais de Manutenção
podem contribuir com erros nas tarefas de Manutenção, caso
contenham informações insuficientes ou errôneas e
procedimentos confusos.
- - - - - - - - - - Anais do 6º Simpósio de Segurança de Voo (SSV 2013) – Direitos Reservados - Página 970 de 1014 - - - - - - - - - -
No entanto, com perguntas mais específicas foi constatado
que os mecânicos tem, muitas vezes, dificuldades na
utilização dos manuais e entendem que há formas mais
fáceis e práticas de escrever os procedimentos. Outro
grande problema encontrado foi o fato de os usuários dos
manuais, em sua grande maioria, concordarem que quem
escreve os procedimentos não compreendem e não
conhecem o dia a dia da Manutenção.
Nos gráficos das figuras a seguir (Fig. 2-6), é possível
observar que, embora os manuais tenham sido classificados
como “manuais de boa qualidade”, pela maioria dos
entrevistados, estes nem sempre confiam nas informações
ali presentes e, desta forma, não conseguem aproveitar o
conteúdo da melhor forma – motivo que faz com que os
mecânicos, muitas vezes, utilizem sua experiência, e a de
seus colegas, para realizar as tarefas.
35
Porcentagem [%]
Em uma pesquisa realizada com mecânicos de Manutenção
de nível organizacional (manutenção de linha) e
intermediário, com média de 14 anos de experiência em
Manutenção, foi constatado que cerca de 54% dos usuários
classificaram os manuais que utilizam com “boa qualidade”
e informaram que estes possuem diagramas e figuras
também de boa qualidade e 47% informaram que o texto é
claro.
O elaborador do manual entende como é feito o
procedimento de Manutenção?
12
Discordo
35
Concordo
fortemente
Já realizou uma tarefa de um jeito melhor do que o
escrito no Manual?
40
25
16
13
6
Nunca
Raramente
Ocasionalmente
Algumas vezes
Frequentemente
Manual com procedimentos não claros já o levou a
executar tarefas de maneira diferente do que estava
descrito no procedimento?
9
41
2
Concordo
Concordo
fortemente
Figura 2 - Gráfico com as respostas dos entrevistados
para a pergunta “O manual descreve a maneira mais
fácil de executar a tarefa?”. (Adaptado de
CHAPARRO, 2001)
Porcentagem [%]
Neutro
Concordo
Figura 3 - Gráfico com as respostas dos entrevistados para
a pergunta “O elaborador do manual entende como é feito
o procedimento de Manutenção?”. (Adaptado de
CHAPARRO, 2001)
16
Discordo
Neutro
Figura 4 - Gráfico com as respostas dos entrevistados para
a pergunta “Já realizou uma tarefa de um jeito melhor do
que o escrito no Manual?”. (Adaptado de CHAPARRO,
2001)
38
Porcentagem [%]
19
Discordo
fortemente
O manual descreve a maneira mais fácil de executar
a tarefa?
Discordo
fortemente
33
1
Porcentagem [%]
Não há um método específico para medir a qualidade dos
Manuais de Manutenção. No entanto, a medida de
satisfação dos usuários dos manuais pode ser feita através
dos dados de Suporte ao Cliente, que capturam a percepção,
muitas vezes subjetiva, dos usuários com relação à
qualidade e usabilidade dos manuais que utilizam.
23
18
12
4
Nunca
Raramente
Ocasionalmente
Algumas vezes
Frequentemente
2
Sem resposta
Figura 5 - Gráfico com as respostas dos entrevistados para
a pergunta “Manual com procedimentos não claros já o
levou a executar tarefas de maneira diferente do que estava
descrito no procedimento?”. (Adaptado de CHAPARRO,
2001)
- - - - - - - - - - Anais do 6º Simpósio de Segurança de Voo (SSV 2013) – Direitos Reservados - Página 971 de 1014 - - - - - - - - - -
Manual com procedimentos não claros já o levou a
pedir ajuda a um colega para executar uma tarefa?
56
mais de 80% dos acionamentos são para auxiliar na
compreensão dos procedimentos, ou seja, podem ser os
responsáveis por, muitas vezes, os mecânicos utilizarem sua
própria experiência.
Porcentagem [%]
Dados de pesquisa - Centro de Serviço
17
A pesquisa para substanciação deste artigo foi realizada no
Centro de Serviço de uma fabricante de aeronaves, que atende
clientes da Aviação Executiva.
16
6
3
Nunca
2
Raramente
Ocasionalmente
Algumas vezes
Frequentemente
Sem resposta
Figura 6 - Gráfico com as respostas dos entrevistados
para a pergunta “Manual com procedimentos não
claros já o levou a pedir ajuda a um colega para
executar uma tarefa?”. (Adaptado de CHAPARRO,
2001)
Dados de pesquisa – Setor de Suporte à Manutenção
O setor de Suporte à Manutenção recebe dúvidas e
sugestões, com relação à operação e manutenção de
aeronaves, e, além de ajudar na solução dos problemas
apresentados, compila as informações recebidas, com o
propósito de melhorar a qualidade dos produtos e manuais,
facilitando o dia a dia dos operadores.
Entre os anos de 2008 a 2010, foram realizadas cerca de
5300 consultas ao setor de Suporte de um fabricante de
aeronaves, com relação à utilização de manuais de
manutenção.
Segundo pesquisa de MATA FILHO (2011), focada em
1268 consultas, que aconteceram de janeiro a outubro de
2010, grande parte dos acionamentos por parte dos
operadores, foi para esclarecimento de dúvidas, com
relação às informações contidas no manual. Houve também
uma preocupação com procedimentos incompletos,
incorretos e até mesmo correções ortográficas, como é
possível observar no gráfico da Fig. 7, mostrada a seguir.
Informação
incorreta ou
incompleta
20%
Melhorias
12%
Informação
Ausente
1%
Novo Cenário
2%
Foram entrevistados 16 mecânicos, das especialidades de
mecânica, elétrica, estruturas, aviônica e motor, com idade
média de 36 anos (o mais novo com 24 e o mais velho com 52
anos). Todos com curso técnico e alguns deles com Ensino
Superior iniciado e interrompido, para obtenção do certificado
ANAC - Agência Nacional de Aviação Civil, e com
experiência média de 13 anos em Manutenção de Aeronaves.
Todos citaram o AMM como o manual que mais utilizam no
dia a dia e que gastam, normalmente, até 25% do tempo da
tarefa buscando informações neste e em outros manuais.
O maior número de erros encontrados nos manuais, segundo as
entrevistas, são com relação às figuras, porém não com grande
frequência. Para eles, as ilustrações são um grande auxílio no
entendimento da tarefa e principalmente na localização do
sistema na aeronave.
A distribuição de capítulos mostra-se adequada, facilitando a
busca, e os links (referências a outros manuais ou atas) também
auxiliam, quando o sistema e os computadores funcionam
corretamente.
O inglês técnico é de fácil compreensão, mas algumas vezes há
informações que não precisariam estar ali e, portanto, fazem
com que o texto se torne mais complexo. Ao mesmo tempo, as
práticas padrões não aparecem e mecânicos com menos
experiência tem que recorrer a um colega para realizar a tarefa.
A ordem das atividades muitas vezes não é coerente,
demonstrando procedimentos impossíveis de serem realizados,
sendo necessária, novamente, a experiência do mecânico.
Todos os entrevistados discordam do fato de que quem escreve
o procedimento conhece a tarefa, a aeronave e o ambiente em
que eles trabalham. Quase todos fizeram comentários e
expressaram o desejo de que os Engenheiros de Publicações
(Engenheiros que escrevem os procedimentos de Manutenção)
visitem o Centro de Serviço e recebam sugestões para
elaboração dos procedimentos.
Correção
Editorial
1%
Esclarecimentos
64%
Figura 7 - Gráfico com a distribuição de acionamentos
feitos por operadores ao setor de Suporte à
Manutenção, dos meses de janeiro a outubro de 2010.
(Adaptado de MATA FILHO, 2011)
Quando encontram problemas ou erros nos procedimentos,
normalmente comunicam a Engenharia, porém, dificilmente
recebem o retorno da ação de melhoria ou correção tomada.
Isto, de certa forma, faz com que eles percam o interesse em
tentar melhorar e informar quando algum problema é
encontrado, dificultando assim a comunicação entre áreas e
tornando menos freqüente a troca de experiências para
melhoria dos produtos finais (Aeronaves e Manuais).
Os acionamentos para esclarecimentos de dúvidas somam
64% e os que tem relação com informação incompleta ou
incorreta dão um total de 20%. Pode-se concluir então que
- - - - - - - - - - Anais do 6º Simpósio de Segurança de Voo (SSV 2013) – Direitos Reservados - Página 972 de 1014 - - - - - - - - - -
CONCLUSÃO
Springfield: National Technical Information Service, 2001.
(DOT/FAA/AR-01/43-).
Com o crescente número de aeronaves operando, a carga de
trabalho de mecânicos dos Centros de Serviço, que atendem
aeronaves de todo o tipo para manutenção, vem
aumentando, sem que mais mão de obra seja contratada.
GALANTE, S. Segurança de Voo: O DC-10 de Chicago.
Disponível
em:<
http://www.segurancadevoo.com.br/show.php?not=98&titulo=
4>. Data de acesso: 03/07/13.
O maior número de atividades e a cobrança cada vez mais
intensa por qualidade e prazo fariam com que os Manuais
de Manutenção fossem os principais aliados dos técnicos
para agilizar o trabalho, com a certeza de um resultado de
boa qualidade. No entanto, o que se vê é que cada vez mais
os mecânicos deixam os manuais de lado e usam de sua
própria experiência e a experiência de seus colegas para
executar as tarefas.
KINNISON, H. Aviation Maintenance Management. New
York : McGraw-Hill, 2004, 299p.
Esta escolha dos mecânicos vem trazendo, há muito tempo,
consequências graves para a Segurança de Vôo,
ocasionando acidentes como o do DC-10, da American
Airlines. A aeronave do voo 191, em 1979, caiu em
Chicago logo após a decolagem, depois de ter um de seus
motores desprendidos da fuselagem, deixando 273 mortos.
Após investigação, foi descoberto que o problema foi
ocasionado por um procedimento incorreto, e diferente do
emitido no Manual de Manutenção, praticado por facilitar a
retirada do motor da aeronave. Na remoção do motor, este
não era separado do pilone, conforme recomendado, e o
conjunto era retirado da aeronave com a ajuda de uma
empilhadeira. A diferença no centro de gravidade do
conjunto provocava uma fratura no pilone e, quando este
era submetido aos esforços de operação, podia desprenderse da asa, como o ocorrido no voo 191.
LEVITT, J. Lean Maintenance. 1 ed. New York. Industrial
Press, 2008, 200p.
MATA FILHO, J. N. Manutenção Aeronáutica: aspectos de
fatores humanos na qualidade da informação para
aeronavegabilidade continuada. 2011, 155p. Dissertação de
Mestrado em Segurança de Aviação e Aeronavegabilidade
Continuada – Instituto Tecnológico de Aeronáutica, São José
dos Campos.
MOUBRAY, J. RCM II: Reliability-centered Maintenance.
2 ed. New York. Industrial Press, 2002, 440p.
Os motivos que levam os mecânicos, muitas vezes, escolher
trabalhar sem o auxílio dos procedimentos, como pode ser
evidenciado pelas pesquisas realizadas, são: achar que já
conhecem a tarefa suficientemente para realizá-la sem a
ajuda do manual, achar que conhecem meios mais fáceis de
executar os procedimentos se comparados aos
procedimentos escritos, considerar os procedimentos
confusos ou com falta de informações básicas, que
auxiliariam o entendimento, considerar algumas etapas da
tarefa desnecessárias e, acima de tudo, achar que quem
escreve os procedimentos não conhece a rotina das
atividades de Manutenção e, por isto, também não consegue
explicitar da melhor forma como realizar as tarefas.
Fica claro então que uma maneira de fazer com que
Mecânicos e Engenheiros de Manutenção trabalhem juntos,
tornando maior a qualidade dos Manuais de Manutenção, é
investir em uma maneira padrão de comunicação entre as
áreas, intensificar o processo de validação de tarefas, antes
que estas sejam publicadas nos manuais, e fazer uso dos
acionamentos por parte dos clientes para prever problemas
e corrigi-los antes que aconteçam. Ou seja, manter as
equipes atualizadas com relação aos acionamentos de
campo, dispostas a entender os problemas frequentes,
rastreá-los e buscar alternativas para evitar que eles venham
a se tornar a causa de um acidente ou incidente aéreo.
REFERÊNCIAS
CHAPARRO, A., GROFF, L. S. Human Factors Survey
of Aviation Maintenance Technical Manuals.
- - - - - - - - - - Anais do 6º Simpósio de Segurança de Voo (SSV 2013) – Direitos Reservados - Página 973 de 1014 - - - - - - - - - -
Download

Fatores que determinam a qualidade das Instruções de