POZOLANICIDADE E RESISTÊNCIA MECÂNICA DE ARGAMASSAS CONFECCIONADAS... 249 POZOLANICIDADE E RESISTÊNCIA MECÂNICA DE ARGAMASSAS CONFECCIONADAS COM CINZA DA CASCA DA CASTANHA DE CAJU Sofia Araújo Lima João Adriano Rossignolo Marília de Freitas Campos Laboratório de Construção Civil, Departamento de Arquitetura e Urbanismo, Escola de Engenharia de São Carlos – EESC, USP, Brasil, e-mail: [email protected], [email protected], [email protected]. Resumo Atualmente, o aproveitamento de resíduos na construção civil tem sido estimulado por ser este um dos maiores consumidores de materiais naturais em seus processos e produtos. As cinzas agroindustriais ocupam lugar de destaque dentre os resíduos com possibilidades de aplicação em materiais cimentícios, pois algumas, como a cinza da casca do arroz, apresentam propriedades pozolânicas, contribuindo para a redução do consumo de cimento Portland. Nesse sentido, esta pesquisa aborda a avaliação da viabilidade técnica do uso da cinza da casca da castanha de caju (CCCC) como adição mineral em matrizes de cimento Portland. Foram realizados ensaios para avaliação da composição química e a determinação da fase amorfa. Os índices de pozolanicidade (IP) com a cal e o cimento Portland foram, portanto, definidos segundo as normas NBR 5751/92 e 5752/92, respectivamente. Os resultados indicaram que os IPs das amostras com CCCC não atingiram o mínimo exigido pelas normas, mas que esses parâmetros não podem ser os únicos a definir o grau de reatividade de uma cinza. Como análise complementar, utilizando-se por referência a NBR 5752/92, avaliou-se também a resistência à compressão de corpos-de-prova de argamassa com teores de CCCC entre 0% e 30% em relação à massa de cimento, nas idades de 14, 28, 56 e 91 dias. Os resultados da análise da resistência à compressão das argamassas indicaram que apenas os teores abaixo de 5% de CCCC apresentaram valores correspondentes ao traço de referência (0%). Os demais teores de CCCC (acima de 5%) reduziram em mais de 70% os valores da resistência à compressão das argamassas em até 91 dias. Palavras-chave: pozolanicidade, propriedades mecânicas, cinza da casca da castanha de caju, cimento Portland. Introdução A preocupação com o cenário energético mundial, que vem se agravando desde a Crise do Petróleo iniciada em 1973, tem estimulado a busca por fontes de energias renováveis que diminuam o consumo de combustíveis fósseis, esgotáveis e altamente poluentes, isto é, a busca por produtos sustentáveis em acordo com as normas ambientais vigentes. Sabe-se que a queima de derivados de combustíveis fósseis (petróleo, carvão, etc.) está acelerando o aumento da temperatura do planeta, fenômeno conhecido pela comunidade científica como aquecimento global. Apesar de não ser recente, somente agora esse assunto tem preocupado os países desenvolvidos, até então alheios aos apelos da comunidade científica. Perda da diversidade, aumento da temperatura, temporais, diminuição da produção de gêneros alimentícios e outros problemas são algumas consequências desse fenômeno (Greenpeace, 2007) e que podem frear qualquer tipo de desenvolvimento humano, esteja ele na escala econômica ou social. Por essa razão, a busca por materiais alternativos, o desenvolvimento de materiais menos poluentes ou que utilizem menos matérias-primas naturais, a reutilização de resíduos sólidos e a diminuição da emissão de gás carbônico são algumas medidas necessárias no atual cenário mundial. As cinzas agroindustriais Os subprodutos de origem vegetal, notadamente os subprodutos agroindustriais, resíduos ou cinzas processadas, vêm sendo estudados para utilização como combustíveis, fertilizantes e estabilizantes de solos. A reciclagem desses resíduos é hoje uma necessidade para a preservação do meio ambiente e redução do custo e do consumo de energia na produção de materiais e componentes de construção. A construção civil, pelo expressivo volume físico de materiais que incorpora, apresenta grande potencial para utilização de materiais reciclados (Silva & Souza, 1995). As cinzas são resíduos gerados por processos industriais ou agroindustriais, ou se originam da queima Minerva, 5(3): 249-256 250 LIMA, ROSSIGNOLO & CAMPOS de outros resíduos, pela reincorporação desses no processo. Pode ser citado como exemplo a casca do arroz, resíduo incinerado para obtenção de energia e que gera a cinza da casca do arroz, outro subproduto. Segundo John et al. (2003), em princípio, qualquer cinza vegetal predominantemente siliciosa, que possa ser produzida no estado amorfo e com finura adequada, pode ser utilizada como adição mineral. Sua reatividade dependerá da composição química, fortemente influenciada pelo produto que gerou a cinza, pelo solo e pelo processo de produção da cinza. Uma vez que contenham elevado teor de sílica podem ser de utilização viável como adições minerais. Outro fator relevante referente às adições minerais está relacionado à sua composição física (estado amorfo ou cristalino), e caso apresentem reatividade em meio aquoso com o CH (hidróxido de cálcio), resultando em endurecimento, podem ser utilizados como adição mineral pozolânica (John et al., 2003). O Estado de São Paulo é um dos maiores produtores de cinzas residuais do Brasil, uma vez que é responsável por um terço do PIB agroindustrial do país (Portal de Investimentos, 2006). O Estado produz anualmente cascas de amendoim, bagaço de cana-de-açúcar, palha de arroz, folhas de milho, dentre outros. Todos esses resíduos são potenciais fontes de cinzas que podem ser convertidos em adições para cimento, seja como adição pozolânica ou como fíler. As cinzas da casca do arroz e do bagaço da canade-açúcar têm sido objeto de estudo de várias pesquisas, quanto ao seu aproveitamento como substituto ao cimento Portland em matrizes cimentícias (Freitas, 1996; Santos, 1997; Hernández et al., 1998; Santos & Prudêncio Jr., 1998; Rêgo et al., 2004; Cordeiro et al., 2005; Cordeiro, 2006; Souza et al., 2007; entre outros). Sobre as cinzas da castanha-do-pará, do amendoim e da mamona foram encontrados também alguns estudos na literatura (Cincotto, 1988; Cincotto & Kaupatez, 1988; Camelo et al., 2005). Dentre as cinzas ainda não estudadas, objetivando a utilização na construção civil, a casca da castanha de caju é a mais produzida no país e a única que não necessita de calcinação depois de finalizado o processo industrial (Lima & Rossignolo, 2007). Várias instituições brasileiras estão desenvolvendo pesquisas que tratam do aproveitamento dos derivados do caju. No entanto, segundo Paiva et al. (2000), o Estado do Ceará detém, ao lado dos Estados do Piauí e Rio Grande do Norte, a produção e exportação de castanha do caju brasileira, ocupando com a cultura do caju metade das áreas cultiváveis pela agroindústria no Nordeste do Brasil. A castanha de caju apresenta-se como o primeiro produto de exportação do Estado do Ceará, com uma produção de 300.000 toneladas por ano (Conab, 2007). Essa produção destina-se, tradicionalmente, ao mercado externo, gerando, em média, divisas da ordem de 150 milhões de dólares Minerva, 5(3): 249-256 anuais. O maior consumidor mundial de amêndoas de castanha são os Estados Unidos, que as consome principalmente como petiscos – snacks (Lopes Neto, 1997). A cinza da casca da castanha de caju Nesta pesquisa utilizou-se como estudo de caso a cinza da casca da castanha de caju (CCCC), resíduo final da produção de amêndoas de caju. O caju é um fruto típico de países de clima tropical, sendo formado por um pedúnculo carnoso, de onde se obtém o suco, e pelo fruto verdadeiro, a castanha de caju (ou simplesmente castanha), de onde se extrai o principal produto de consumo, a amêndoa (Paiva et al., 2000). A CCCC representa aproximadamente 5% do peso da castanha inicial e, com a atual produtividade da cajucultura, a geração dessas cinzas pode chegar a até 15 mil toneladas por ano. Até o momento, porém, poucas pesquisas foram desenvolvidas com a cinza da casca da castanha do caju, mesmo que com fins diversos ao da construção civil. Uma delas utilizou o resíduo da casca da castanha de caju, analisado como estabilizante de solos na produção de tijolos de terra crua, obtendo resultados pouco expressivos, estando sujeito, ainda, a estudos complementares (Lima et al., 2004). Na bibliografia consultada não foram observadas pesquisas sobre o uso da cinza da casca da castanha de caju (CCCC) como adição mineral para concretos e argamassas. Objetivos O objetivo principal deste artigo é avaliar a pozolanicidade da CCCC segundo ensaios normatizados pelas NBR 5751/92 e 5752/92. Complementarmente analisaramse argamassas confeccionadas com teores variados de CCCC em substituição parcial ao cimento Portland, por meio de ensaios de resistência à compressão nas idades de 14, 28, 56 e 91 dias, visando a sua utilização como adição mineral para matrizes cimentícias. Materiais e Métodos Apresenta-se, neste item, a metodologia empregada para avaliação da pozolanicidade e resistência à compressão de exemplares de argamassa confeccionados com a cinza da casca da castanha de caju. Materiais Para os ensaios utilizaram-se os seguintes materiais: cimento de alta resistência inicial, CP V ARI, com massa específica de 3,12 g/cm3 e massa unitária igual a 1,02 g/ cm3; cal hidratada tipo CH-III, marca Itaú, comercializada pela Votorantim Cimentos, com massa específica de 2,30 g/cm3 e massa unitária no estado solto igual a 0,50 g/cm3; areia normal do IPT, segundo as recomendações da norma NBR 7214 (ABNT, 1982); cinza da casca da castanha de caju, cedida pela empresa CIONE (Companhia Industrial de Óleos do Nordeste), localizada em Fortaleza, CE. POZOLANICIDADE E RESISTÊNCIA MECÂNICA DE ARGAMASSAS CONFECCIONADAS... Métodos Análise química O método utilizado para análise química foi a análise quantitativa. A amostra foi solubilizada em meio de fusão alcalina e os elementos determinados em espectrômetro de emissão ótica com plasma induzido, modelo VISTA, da marca Varian, exceto para potássio e silício, que foram determinados em espectrofotômetro de absorção atômica com chama, modelo Spectra A 640, da marca Varian. Análise da pozolanicidade com o cimento Portland Para este ensaio foram moldados 3 (três) grupos com 3 corpos-de-prova cada, denominados de grupo Padrão, grupo A e grupo B, respectivamente, segundo as normas NBR 7215 (ABNT, 1996) e 5752 (ABNT, 1992). No grupo A, utilizou-se a CCCC moída (moagem por 1 hora em moinho de bolas), e no grupo B esta foi também moída e peneirada (# no 200, abertura de 0,075 mm), sendo utilizado apenas o material passante. A quantidade de CCCC foi calculada segundo a norma NBR 5751, pela massa específica da CCCC (2,23 g/cm3) e pela massa específica do cimento CP ARI PLUS (3,12 g/cm3). Análise da pozolanicidade com a cal Para este ensaio foram moldados 2 (dois) grupos com 3 corpos-de-prova cada, denominados de grupo A e grupo B, respectivamente, segundo as normas NBR 7215 (ABNT, 1996) e 5751 (ABNT, 1992). Assim como no ensaio de pozolanicidade com o cimento Portland, no grupo A utilizou-se a CCCC moída (moagem por 1 hora em moinho de bolas), e no grupo B esta foi também moída e peneirada (# no 200, abertura de 0,075mm), sendo utilizado apenas o material passante. A quantidade de CCCC foi calculada segundo a norma NBR 5751, pela massa específica da CCCC (2,23 g/cm3) e pela massa específica da cal hidratada, fornecida pelo fabricante (2,30 g/cm3). Análise do teor ótimo de substituição da CCCC A influência da variação dos teores de substituição do cimento Portland pela CCCC foi analisada segundo o ensaio de resistência à compressão NBR 5739 (ABNT, 1992) em corpos-de-prova de argamassa. Para esse ensaio foram moldados 2 (dois) grupos com 6 (seis) traços cada, 0%, 2,5%, 5%, 10%, 15%, 20% e 30%. O grupo A corresponde aos traços confeccionados com teores variados de CCCC moída (moagem durante 1 hora no moinho de bolas) e peneirada (material passante na peneira no 200, abertura de 0,075 mm) de 2,5% a 30%. 251 O mesmo tratamento e condições se referem às amostras do grupo B, no entanto, nesse grupo a CCCC não passou por processo de peneiramento. Todos esses traços foram ensaiados aos 14, 28, 56 e 91 dias, para determinação da resistência à compressão axial. Como forma de melhor avaliar esses dados, foi utilizada inferência estatística pelo teste T de Student. Com essa ferramenta será possível determinar se os valores das médias das resistências das amostras dos grupos A e B são estatisticamente iguais à média do traço padrão, denominado TR0, ainda que se apresentem em valores distintos. Foram utilizados corpos-de-prova cilíndricos de 50 × 100 mm, cimento CP V ARI PLUS e areia normal do IPT, no traço 1:3. O teor de água foi determinado pelo índice de consistência entre 220 e 230 mm, segundo norma NBR 5752 (ABNT, 1992). Paralelamente a esse ensaio, foram determinadas as massas específicas no estado fresco das argamassas, segundo a norma NBR 13278 (ABNT, 1995). Com os resultados desse ensaio, será possível calcular a massa específica teórica das argamassas bem como o teor de ar incorporado. Análise de Resultados Análise Química Os resultados da análise química da cinza da casca da castanha de caju (CCCC) encontram-se descriminados na Tabela 1. Os constituintes determinates são potássio (K2O), magnésia (MgO) e sílica (SiO2), nessa ordem. Para John et al. (2003), na avaliação da reatividade de uma adição mineral, é de fundamental importância realizar uma análise química completa, devendo esse material sempre apresentar silício como elemento predominante. Nos resultados da análise química da CCCC (Tabela 1), notase um teor de sílica (SiO2) no valor de 12,17%, abaixo dos teores recomendados por outras pesquisas (Cincotto, 1988; John et al., 2003; Prudêncio et al., 2003) para que uma cinza apresente reatividade. Pela análise química, observou-se também expressiva quantidade de magnésia (MgO), 16,34%, de sódio (Na2O), 2,15%, e de potassa (K2O), 24,79%, presentes na CCCC. Esses constituintes, denominados de álcalis, podem prejudicar o desempenho dos produtos à base de cimento (Neville, 1997). Os álcalis são representados pelos elementos Na2O, K2O, MgO e CaO e podem provocar a decomposição do concreto e influenciar a velocidade do aumento da resistência desse material. Tabela 1 Análise química da CCCC. Constituntes Amostra (%) SiO2 Al2O3 Fe2O3 12,17 1,37 3,06 Na2O 2,15 CaO 6,54 K2O 24,79 MgO 16,34 P2O5 10,08 TiO2 0,087 MnO 0,29 PF 17,90 Minerva, 5(3): 249-256 252 LIMA, ROSSIGNOLO & CAMPOS O teor de Na2O, por exemplo, não deve ultrapassar 0,6% em massa no concreto. A norma NBR 12653 (ABNT, 1992) também limita a quantidade de equivalentes de Na2O nos materiais pozolânicos em 1,5%. O cálculo da equivalência de Na2O leva em consideração também o teor de potássio, por meio da equação "Na2O + 0,64K2O" (Mehta & Monteiro, 1994). Por essa fórmula, a quantidade de álcalis disponíveis na CCCC fica em 18,02%, limitando seu uso em baixos teores de substituição pelo cimento Portland. Análise da pozolanicidade com o cimento Portland Concluído o tempo de cura, estabelecido pela norma NBR 5752 (ABNT, 1992), os corpos-de-prova foram esfriados à temperatura ambiente, capeados com enxofre e foi determinada a resistência à compressão simples. O índice de pozolanicidade (IP) das amostras A e B em relação à amostra de referência não atingiu os 75% exigidos pela Norma, ficando bem abaixo desse valor, como já tinha sido observado no ensaio que avaliou os tempos de moagem da CCCC (Lima & Rossignolo, 2007). As resistências adquiridas, bem como os índices de pozolanicidade de cada amostra, são mostradas na Tabela 2. O teor de CCCC em substituição no valor de 35% em volume, exigido pela Norma, pode ser considerado alto, uma vez que o teor de CCA em substituição fica em torno de 15% para uma máxima resistência, segundo Prudêncio Jr & Santos (1997). Dessa forma, a CCCC não se enquadra nos parâmetros mínimos exigidos pela NBR 5752, não tendo como ser classificada por essa como material pozolânico. Análise da pozolanicidade com a cal Concluído o tempo de cura, estabelecido pela norma NBR 5751 (ABNT, 1992), no qual os corpos-de-prova Tabela 2 Resistência à compressão p Índice de Pozolanicidade foram mantidos protegidos por filme plástico para evitar perda excessiva de umidade, esses foram esfriados à temperatura ambiente e capeados com enxofre. No entanto, devido à pouca resistência adquirida durante a cura, não foi possível concluir o capeamento com enxofre em consequência da desintegração dos corpos-de-prova durante a operação (Figura 1). Essa baixa resistência à compressão, bem inferior aos 6,00 MPa exigidos pela norma NBR 5751, também foi atestada por Camelo et al. (2005). Em seu trabalho, o pesquisador obteve menos de 1,00 MPa para esse mesmo ensaio, realizado com a cinza da casca da castanha-dopará. John et al. (2003) observam que alguns estudos mostraram que não existe correlação entre os resultados da atividade pozolânica obtidos com a mistura de cal e os obtidos com cimento Portland. Na verdade, são dois sistemas diferentes, estudados sob condições de ensaio também diferentes. Não se pode deixar de considerar o efeito da elevada temperatura no ensaio com a cal. O ensaio similar, em temperatura ambiente, deve demonstrar resultados bem inferiores. Assim, esse ensaio só seria relevante se a aplicação que se busca para a pozolana envolver a mistura com a cal levada à alta temperatura. Influência da variação dos teores de substituição A avaliação do comportamento das argamassas, confeccionadas para análise da influência da variação dos teores de CCCC em substituição ao cimento Portland, foi verificada em duas etapas: moldagem (estado fresco) e pós-cura (estado endurecido). As variáveis observadas durante a moldagem foram: i) tempo de trabalhabilidade; ii) massa específica no estado fresco; iii) teor de ar incorporado. . Resultados: ensaio NBR 5752/91. Amostra 27,19 – Amostra A 9,33 34,31 Amostra B 6,05 22,25 Figura 1 Aspecto dos corpos-de-prova ainda úmidos após 7 dias de cura (esquerda). Capeamento com enxofre e desintegração dos corpos-de-prova (direita). Minerva, 5(3): 249-256 POZOLANICIDADE E RESISTÊNCIA MECÂNICA DE ARGAMASSAS CONFECCIONADAS... constante (Figuras 4 e 5), não tendo sido observados picos de crescimento nas maiores idades para as amostras que utilizaram CCCC. Tal fato é um forte indicativo da ausência de atividade pozolânica. Sabe-se que os materiais pozolânicos têm reatividade latente, ocasionando máximas resistências em idades avançadas (Cincotto, 1988; Lawrence et al., 2005; Cyr et al., 2006). Analisando os dados apresentados nas Figuras 4 e 5 pode-se afirmar, também, que a evolução das resistências apresenta-se semelhante nos grupos A e B. Com isso, não se observa diferença significativa entre os valores de resistência à compressão dos corpos-deprova que utilizaram CCCC moída e peneirada (menor tamanho de grão) em relação aos que utilizaram material apenas moído. Notou-se pequena evolução nos valores das resistências com teores de substituição de até 15%. Acima de 20% o ganho de resistência é mínimo ao longo do tempo, observando-se constância nos valores das resistências dos corpos-de-prova com 30% de substituição. Argamassas no estado fresco Apesar de a demanda de água, para a trabalhabilidade requerida pela norma NBR 5752 (ABNT, 1992), ter variado menos de 3% entre o valor do traço TR0 (0,590) e o do traço TR30 (0,608), os valores das massas específicas no estado fresco (MEF) apresentaram variações de até 10%. Os resultados encontram-se na Figura 2. O aumento no teor de ar incorporado foi diretamente proporcional à diminuição da massa específica no estado fresco, conforme a Figura 3. A maior incorporação de ar, porém, não alterou a trabalhabilidade (índice de consistência) das argamassas em estado fresco. Com o aumento do teor de cinza observouse perda rápida de trabalhabilidade das argamassas, algumas vezes afetando a moldagem dos corpos-de-prova. Argamassas no estado endurecido Analisando-se o desenvolvimento das resistências ao longo do tempo, verificou-se que a diferença entre a amostra-padrão (TR0) e as demais, em geral, manteve-se Massa específica (g/cm³) 253 2,0 1,5 1,0 0,5 Massa específica (g/cm³) 0 TR 0 TR 2A TR 5A TR 10A TR 15A TR 20A TR 30A Traços – grupo A (CCCC moída e peneirada) Massa específica final Massa específica teórica 2,0 1,5 1,0 0,5 0 TR 0 TR 2B TR 5B TR 10B TR 15B TR 20B TR 30B Traços – grupo B (CCCC moída) Massa específica final Massa específica teórica 4 B 30 B 20 TR TR 15 B B 10 TR TR 5B 0 2B A A 30 20 Traços – grupo A TR A TR 15 A TR 10 TR 5A TR 2A TR 0 0 8 TR 4 12 0 8 16 TR 12 20 TR 16 Teor de ar incorporado (%) 20 TR Teor de ar incorporado (%) Figura 2 Variação da massa específica final em relação à massa específica teórica – amostras do grupo A e B em relação à amostra de referência (TR0). Traços – grupo B Figura 3 Teor de ar incorporado – grupo A e grupo B. Minerva, 5(3): 249-256 LIMA, ROSSIGNOLO & CAMPOS Resistência à compressão (MPa) 254 60 50 40 30 20 10 0 TR 0 TR 2 A TR 5 A TR 10 A TR 15 A Traços – grupo A 14 dias Resistência à compressão (MPa) Figura 4 28 dias 91 dias 60 50 40 30 20 10 0 TR 0 TR 2 B TR 5 B TR 10 B TR 15 B Traços – grupo B 28 dias 56 dias TR 20 B TR 30 B 91 dias Evolução da resistência à compressão em função dos teores de CCCC – grupo B. Foram feitas análises por inferência estatística com valores de resistência à compressão, obtidos pelos corposde-prova confeccionados com substituição de CCCC por CP V ARI, nas condições estabelecidas por esta pesquisa. Os resultados apontam para uma hipótese de igualdade entre o traço com 2,5% (TR2) de CCCC e a amostra de referência, apesar da diferença encontrada nos valores médios de resistência à compressão aos 91 dias de idade. Esse fato ocorre tanto para as amostras do grupo A quanto para as do grupo B. O valor de 2,5%, portanto, pode ser apontado como o valor ótimo de substituição de CCCC dentre os teores analisados, com o qual não há prejuízo das propriedades mecânicas de argamassas moldadas com cimento CP V ARI. No que se refere à baixa evolução de resistência à compressão dos demais traços, há de se levar em consideração os altos teores de incorporação de ar no estado fresco para alguns traços. Sabe-se que, quanto maior a porosidade de um material, menor sua densidade e, consequentemente, menor a resistência à compressão do Minerva, 5(3): 249-256 TR 30 A Evolução da resistência à compressão em função dos teores de CCCC – grupo A. 14 dias Figura 5 56 dias TR 20 A sistema. Segundo Mehta & Monteiro (1994), para um dado fator água/cimento a incorporação de ar reduz a resistência à compressão. Para o traço com 15% de CCCC pertencente ao grupo A (cinza moída e peneirada), a incorporação de ar chegou a 16%, mais de três vezes o valor observado para o traço de referência. De maneira geral, os valores de ar incorporado foram maiores nos traços do grupo A (cinza moída e peneirada) do que no grupo B (cinza moída). Tal fato pode ser relacionado a maior finura do grão de CCCC no primeiro grupo. Ainda que a CCCC não tenha contribuído significativamente para o efeito pozolânico e o ganho de resistência ainda que tardio, o alto teor de incorporação de ar também foi determinante para os baixos valores de resistência à compressão encontrados nos traços com teor de substituição acima de 10%. Ao baixo teor de sílica somam-se a perda de trabalhabilidade no estado fresco e a incorporação de ar elevada como fatores determinantes para os baixos valores de resistência à compressão encontrados por esta pesquisa. POZOLANICIDADE E RESISTÊNCIA MECÂNICA DE ARGAMASSAS CONFECCIONADAS... Considerações Finais Pode-se concluir que a análise química, por si só, não pode nem deve ser a principal determinante do potencial reativo de uma cinza, visando a seu aproveitamento como substituto parcial do cimento Portland em matrizes cimentícias. Os ensaios normativos existentes para determinação da pozolanicidade de adições minerais mostraram-se incompletos, não fornecendo subsídios para a análise da reatividade por outros parâmetros, como a quantidade de material amorfo presente na amostra. Os resultados da análise da resistência à compressão de argamassas confeccionadas com teores variados de CCCC em substituição ao cimento Portland indicaram que apenas o teor de 2,5% apresentou valores estatisticamente iguais ao traço de referência. O alto teor de ar incorporado observado em algumas amostras pode ter contribuído para os baixos valores de resistência à compressão observados nos corpos-de-prova de argamassa com teores de substituição acima de 10%. A utilização de resíduos em produtos para a construção civil apresenta-se como uma alternativa viável, atual e de elevada importância. Tendo em vista a capacidade das matrizes cimentícias de estabilizarem materiais contaminantes presentes em alguns resíduos, os estudos nessa área de conhecimento devem ser estimulados. No caso da CCCC, faz-se necessário ainda que outros ensaios sejam realizados com o intuito de avaliar a durabilidade das argamassas e pastas confeccionadas com CCCC, como também para investigar a presença de contaminantes nessa cinza, o que poderia limitar seu uso em materiais de construção. Agradecimentos Os autores gostariam de agradecer à FAPESP, pelo apoio financeiro; à empresa CIONE, na pessoa do Sr. Gerardo Aguiar; e ao Laboratório de Construção Civil (LCC), da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC/USP). Referências Bibliográficas ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). NBR 5739: Concreto – ensaio de compressão de corpos-de-prova cilíndricos. 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