PRETO COMO CARVÃO E FEIO COMO O “CÃO”: desdobras de um preconceito
negativo presente nos padrões de beleza
Josilene Barbosa do Nascimento
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1. INTRODUÇÃO
Inicialmente, sabendo que mudanças históricas proporcionam concepções de corpo
e de beleza diferentes, consideramos imprescindível a compreensão da historicidade do
corpo e da beleza e também dos valores a eles atribuídos como meio de refletirmos sobre
os modelos de corpos femininos e masculinos. Ora, cada sociedade tem seu corpo, ou seja:
o corpo está submetido à gestão social. Nesse caso, o corpo deve ser analisado enquanto
objeto histórico, heterogêneo e plural; enquanto uma realidade multifacetada.
A cultura fabrica, controla, disciplina os corpos dos homens e das mulheres. Nesse
sentido, devemos desmistificar o caráter fixo e imutável do corpo. É na sociedade de
consumo capitalista, então, que discursos sobre o corpo são propagados pelos meios de
comunicação de massa. No capitalismo o corpo virou fetiche, e o fetiche sempre vira
mercadoria. O corpo, aqui, entra no mercado para ser consumido. Porém, é nessa mesma
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Doutoranda. Universidade Federal de Campina Grande. E-mail: [email protected]
sociedade de consumo que surgem os padrões de beleza com pretensão de serem
universais.
Há uma imposição, no capitalismo, de um modelo de corpo ideal. A indústria cultural,
através dos meios de comunicação de massa, encarrega-se de produzir desejos e reforçar
imagens de “corpos padronizados”. Essas imagens físicas estão sempre se modificando,
conforme o próprio corpo da mulher ou do homem se transforma com a idade ou devido à
doença, à fome ou à fadiga. São também remodelados pelos caprichos da moda.
Atualmente, o que é considerado um corpo bonito numa determinada sociedade, pode não
ter sido ontem e pode deixar de sê-lo amanhã. As imagens corporais e a sua beleza não são
entidades rígidas. Constroem-se e reconstroem-se continuamente. Por esse motivo a beleza
feminina e masculina deve ser contextualizada historicamente, porque ela nem sempre foi
pensada, vista, dita, nomeada e significada da mesma forma.
Aqui nesse texto, então, iremos problematizar exatamente os padrões de corpo,
perscrutando tal padronização enquanto possibilitadora de preconceitos relativos às
características físicas contrárias aquelas consideradas ideais. No caso, aqui, nosso
interesse será discutir certos traços fenotípicos dos negros em relação aos traços
brancóides, procurando discutir uma suposta hierarquia existente entre ambos – que poderá
legitimar um preconceito negativo – em relação à aparência física.
2. A BELEZA É UMA INVENÇÃO?
Courtine (2008), na introdução do terceiro volume da obra “História do Corpo”, fala
de certo regime de visibilidade que define a verdade do corpo e de tudo que diz respeito ao
mesmo, como a saúde e a doença, a estética etc., regime este que inventou, teoricamente,
o corpo ou a verdade sobre o corpo. Então, primordialmente, segundo o referido autor,
“como é que o corpo se tornou, em nossos dias, um objeto de investigação histórica?”
(2008, p. 07). Ora, no século XIX, caracterizado por uma tradição filosófica dominada pelo
cartesianismo, era atribuído ao corpo um papel secundário. Na virada do século houve uma
redefinição da relação entre o sujeito e o seu corpo:
Nosso século apagou a linha divisória do ‘corpo’ e do ‘espírito’ e encara a vida
humana como espiritual e corpórea de ponta a ponta, sempre apoiada sobre o
corpo [...]. Para muitos pensadores, no final do século XIX, o corpo era um pedaço
de matéria, um feixe de mecanismos. O século XX restaurou e aprofundou a
questão da carne, isto é, do corpo animado. (MERLEAU-PONTY apud COURTINE,
2008, p. 07)
Para Courtine, o corpo foi inventado no século XX, em primeiro lugar, pela
psicanálise, a partir do momento em que Freud, realizadas algumas observações
relacionadas à histeria, desenvolveu a tese de que o inconsciente fala através do corpo,
abrindo questões sobre as somatizações. “Seguiu-se a este um segundo passo, que talvez
se possa atribuir à idéia que Edmund Husserl fazia do corpo humano como o “berço original”
de toda significação” (2008, p. 08), ou seja, como afirmava Maurice Merleau-Ponty, do corpo
como “encarnação da consciência”, como “pivô do mundo”.
Uma terceira etapa dessa descoberta ou invenção do corpo foi possível quando o
corpo foi inserido e/ou problematizado a partir das formas sociais da cultura. Aqui temos o
corpo emergido do terreno da antropologia, precisamente da surpresa que Marcel Mauss
experimentou observando, durante a Primeira Guerra Mundial, “a infantaria britânica desfilar
num passo diferente do passo dos franceses e cavar buracos de maneira singular” (2008, p.
08).
Faltava-lhe um derradeiro obstáculo a transpor: a obsessão lingüística do
estruturalismo. Esta, desde o pós-guerra até a década de 1960, ia, com efeito,
enterrar a questão do corpo com a do sujeito e suas “ilusões”. Mas as coisas
começaram a mudar pelo fim da década de 1960: isto se deveu provavelmente
menos (...) à iniciativa dos pensadores do momento que ao fato de que o corpo se
pôs a desempenhar os primeiros papéis nos movimentos individualistas e
igualitaristas de protesto contra o peso das hierarquias culturais, políticas e sociais,
herdadas do passado. (idem)
Aqui, movimentos de mulheres, inicialmente, e movimentos homossexuais,
posteriormente, gritavam que o corpo pertencia aos mesmos, protestando contra, por
exemplo, às normas de sexualidade, às leis que proibiam o aborto etc.
Era preciso, primeiro, liberar o corpo, o corpo reprimido, maltratado, e por isso, ele
mesmo, foi investido no contexto das lutas travadas pelos direitos das minorias no decorrer
da década de 1970.
Passou o sonho. Mas ainda se vê como as lutas políticas, as aspirações individuais
colocaram o corpo no coração dos debates culturais, transformaram profundamente
a sua existência como objeto de pensamento. Ele carrega, desde então, as marcas
de gênero, de classe ou de origem, e estas não podem ser mais apagadas. (ibidem,
p. 09)
Atualmente o investimento sobre o corpo eleva-o à categoria de produto consumível.
A sociedade de consumo faz com que as pessoas falem, preocupem-se e invistam no
próprio corpo. A proliferação de imagens ideais dos corpos através dos meios de
comunicação de massa encarrega-se de produzir desejos e reforçar imagens de “corpos
padronizados”. No entanto, o que é beleza física e como a reconhecemos? Como
aprendemos a discriminar o que seria um corpo ideal ou não?
A autora Angier (1998, p. 56), inspirada nas explicações dos biólogos evolucionistas,
que estudam o porquê da atração entre os animais, diz que: “uma bela aparência pode ser
atraente não por caprichos estéticos, mas porque a beleza externa é um indicador
razoavelmente confiável da qualidade do que está por trás”.
Tal justificativa da beleza, de caráter evolucionista, é pautada na idéia de que
diversas espécies de animais, inclusive os seres humanos, julgam a aparência de um
provável parceiro utilizando critérios que são um marco clássico da beleza: a simetria.
Nesse sentido, procura-se num possível pretendente o melhor equilíbrio entre as duas
metades do corpo. Entre alguns animais, os sinais de harmonia física indicariam pistas do
estado de saúde do pretendente, do vigor de seu sistema imunológico e da capacidade de
seus genes para enfrentar as atribulações do ambiente. No caso dos seres humanos, Angier
(1998) assegura que as faces consideradas mais “perfeitamente” belas são, na verdade,
algumas das mais simétricas, harmoniosas.
A visão do evolucionismo social pode legitimar o racismo, pois inventa uma
hierarquização das raças, pensando-as como um continnum evolutivo do inferior até o
superior. Ao lado do evolucionismo social temos outra teoria, o determinismo racial,
afirmando que a raça constitui um fenômeno essencial, ou seja, diz-se com isso que há, por
exemplo, entre o branco e o negro a mesma distância que existe entre o cavalo e a mula;
acredita-se que a partir de características exteriores – como a cor da pele, o tamanho do
cérebro, o tipo de cabelo – pode-se chegar a conclusões sobre aspectos morais das
diferentes raças. Esse tipo de pensamento estimula certas uniões e impedem outras. Os
europeus seriam, portanto, a raça pura, superior, perfeita, a mais bela esteticamente.
Aqui temos, então, tentativas de se inventar a beleza, o corpo ideal. Acreditamos,
portanto, que o corpo humano pertence menos à natureza do que a história. É evidente que
não nascemos sabendo antecipadamente o que seria um rosto bonito ou não. Do mesmo
jeito podemos pensar o corpo. Portanto, a beleza física é muito menos um dado da natureza
do que uma construção cultural. Ela é “iluminada” de determinada forma dependendo da
sociedade e da época.
Guatarri (1996, p. 30), comentando sobre tais modelos de beleza, diz que “o padrão
de corpo é uma referência tornada obrigatória pelo poder para lhe permitir situar, localizar,
territorizar e controlar as intensidades do desejo.” Ao padronizar o corpo é negada a
singularidade, impedindo formas alternativas de pensá-lo. Vê-se que a padronização do
corpo que se quer sob medida, o qual homogeneíza, serializa e normatiza, termina
sufocando a estética em prol de um conceito de belo estabelecido socialmente.
2.1. Lábios carnudos, cabelos crespos e nariz largo: podem significar feiúra?
Era uma vez um rei e uma rainha muito generosos, porém, lamentavam por não
terem, depois de muitos anos de casamento, um herdeiro. A boa fada-madrinha,
recompensando-os por suas boas ações, lhes concedeu um último pedido. A rainha feliz e
comovida pediu: "Oh! Como eu gostaria de ter uma filha, mesmo que fosse escura como a
noite que reina lá fora". Literalmente, o pedido foi concedido pela fada-madrinha, nascendo,
depois de nove meses, uma criança "preta como o carvão". No reino, a figura da menina
escura – a princesa Rosa Negra – proporcionou tanta lamentação e revolta que a fada viuse obrigada a modificar sua primeira dádiva, pressagiando que a menina poderia ter sua cor
repentinamente transformada na cor branca, se a mesma permanecesse no castelo até seu
aniversário de dezesseis anos, caso contrário, se desobedecesse à ordem, a promessa não
se realizaria e Rosa Negra teria seu futuro também negro como sua pele. Um belo dia, uma
serpente tentou Rosa Negra, convidando-a para sair do castelo. Assim que deixou o palácio,
a menina viu sua vida transformar-se num inferno, conforme previa a fada-madrinha. Para
livrar-se de tanto sofrimento e horror, Rosa Negra aceitou se casar com o animal mais feio
da terra. Depois do casamento, a princesa preta pôs-se a chorar de tristeza, não por ter
casado com um animal nojento, de feição deformada, mas porque ela nunca mais seria
branca. Lamentando de sua desgraça, Rosa Negra abraçou seu marido que, num passe de
mágica, transfigurou-se num jovem belíssimo e ela numa mulher branca como o leite.
Finalmente, o casal "belo e branco" foi feliz para sempre.
De acordo com Schwarcz (1998), essa narrativa infantil, publicada no Brasil em
1912, no livro "Contos Para Crianças", retrata bem o preconceito de cor. Percebemos,
então, que a cor da pele de Rosa Negra era motivo maior de suas lamentações do que a
feiúra do seu marido; a sua pele negra seria mais feia que o mais feio dos homens, seu
marido.
É certo que, atualmente, em várias partes do mundo, existe um discurso crescente
de que todos os seres humanos têm direitos humanos básicos, e que nenhum grupo
humano é "superior" ou "inferior" a outro em termos de intelecto ou valor com base na
"raça". Porém, no Brasil, por exemplo, um país erroneamente chamado de "democracia
racial", temos a presença da discriminação racial contra afro-brasileiros e a desigualdade
codificada pela cor.
É verdade que, atualmente, algumas agências de publicidade brasileiras estão
colocando modelos negros em suas campanhas. Agências de modelos, também, têm
aumentado, significadamente, a contratação de beldades negras. Porém, apesar desse
aumento de modelos negros nas agências de modelos e campanhas publicitárias, a imagem
do negro na mídia pode reforçar "traços brancos", pondo para escanteio o padrão "negro",
ou seja: negro com fenotípico negróide (cabelos crespos, nariz largo e chato etc.). Como
exemplo, na época em que a sudanesa Alek Wek estava na moda (1997/98), o seu padrão
de beleza negróide foi muito pedido pelas agências de moda. Não podemos deixar de
mencionar que Alek surgiu nas passarelas exatamente quando o look negro e/ou africano
estava na moda, isso, em meados de 1997. Mesmo assim, não podemos negar que a
modelo negra que mais consegue trabalho tem uma cor de pele 'bom-bom' e traços
delicados, ou seja, são negras, mas com fenotípico brancóide/europeu.
Ora, sabemos que as grandes beldades do mundo da moda e as capas da grande
maioria das revistas ainda continuam sendo de mulheres brancas, de nariz fino e arrebitado
e cabelo liso ou levemente ondulado. As modelos que recebem os maiores cachês ainda
são as brancas.
Na maioria das capas das revistas brasileiras, nos anúncios e reportagens de moda,
vemos rostos brancos sorrindo nas capas. Para Etcoff (1999), os grupos economicamente
dominantes, isso em todos os países, apresentam suas próprias características físicas como
ideais de beleza. Assim, as preferências de beleza universais apontam para a pele clara, o
cabelo liso, lábios grossos, olhos claros etc.
Ainda Etcoff (1999), salientando que atualmente a maioria das pessoas no mundo
são morenas, afirma que são as modelos de pele clara que enfeitam as revistas no Brasil e
no resto do mundo. Será que é porque os negros são considerados feios? A referida autora
explica esse fenômeno no Brasil, remontando a desigualdade radical entre portugueses que
chegaram em 1500 e a população indígena nativa, que eles conquistaram, e os africanos,
muitos deles levados como escravos para as plantações de açúcar. “Quatro séculos depois,
somente 40% da população do Brasil são brancos, mas permanecem sendo os ricos e
poderosos.” (p. 139)
Referindo-se ao ideal de beleza, Etcoff (1999) salienta que durante toda a história,
artistas tentaram capturar as proporções geométricas da beleza projetando sistemas de
medidas para o corpo humano. Os artistas gregos e da Renascença, e os eruditos, ao
contrário da idéia de simetria defendida pelos biólogos evolucionistas – uma simetria criada
a partir da correspondência exata da forma dos lados opostos de uma linha divisora ou eixo
central –, acreditavam que “a simetria significava a relação e exata correspondência entre as
partes, geralmente expressa no todo ou em números racionais” (p. 26). Significava, portanto,
“comensurabilidade”. Quando falavam em simetria, se referiam ao corpo como um todo, por
exemplo, medindo-o por palmos ou em relação ao comprimento do polegar. “Galeno
argumentou que um braço correspondendo a três palmos era mais simétrico, e, portanto,
mais belo, do que um correspondendo a dois e meio ou três palmos e meio.” (idem)
Etcoff (1999), escrevendo a respeito da depreciação do homem negro, da
associação do negro à feiúra, diz que foi a partir de Platão que o perfil retilíneo da estátua
grega era geralmente considerado a face humana ideal. Um de seus vários triunfos era não
se parecer com a face de um coelho, bode, macaco, sapo ou qualquer outro animal ignóbil.
A beleza significava não parecer com um animal. Para Hegel, um filósofo do século XVIII, o
perfil grego, longe de ser uma forma externa e acidental, é a encarnação da idéia de beleza
em si. Também no século XVIII, o artista e anatomista holandês Petrus Camper, inventou
um mecanismo de medida dos ângulos faciais do perfil.
Mediu a face horizontalmente da orelha ao lábio, e verticalmente do ponto mais
saliente da testa ao mais saliente do lábio superior. A interseção desses pontos era
o ângulo facial. O ângulo facial de Camper se tornou o primeiro sistema de medida
amplamente utilizado para comparar crânios de raças diferentes. Mas a intenção de
Camper foi tentar quantificar a beleza. (p. 54)
Camper descobriu que as estátuas gregas antigas tinham ângulos faciais de 100
graus (perfis relativamente retilíneos), enquanto a maioria dos perfis humanos se
classificava de 70 a 90 graus. Como macacos, cachorros e outros animais têm ângulos
faciais menores que os humanos e as estátuas gregas apresentam ângulos ligeiramente
maiores, Camper achou que encontrara o ângulo da beleza. As estátuas gregas foram
assumidas, então, como àquelas que representavam o ideal de beleza.
Medindo os crânios de raças diferentes, descobriu que os ângulos faciais
aumentavam dos orangotangos e macacos aos negros africanos, aos orientais, aos
europeus e, finalmente, à estátua grega, tornando o homem europeu o mais próximo
da beleza ideal e o homem negro o mais distante. (ETCOFF, 1999, p. 55)
Constata-se que, a partir de tais analogias e comparações, os homens europeus
propuseram a idéia de que os homens e mulheres europeus eram os humanos mais belos.
Como o seu ângulo facial aproximava-se do ângulo dos deuses gregos, o mesmo era válido
para seu caráter e inteligência, justificando a superioridade cultural e racial dos europeus
sobre os outros povos. O curioso foi à ligação entre um homem negro e o macaco. O negro
próximo da animalidade e não do homem. A cor negra como sendo não humana. Aí está o
racismo revelado. Sabemos que tal discurso denota preconceito contra o negro, a partir da
repetição de uma frase popular muito dita: “o negro veio do macaco”.
Ora, depois de mostrarmos tentativas de se inventar a beleza e questionando as
explicações evolucionistas para a beleza, que hierarquiza, também, as raças, acreditamos
que o corpo humano pertence menos à natureza do que à história. É evidente que não
nascemos sabendo antecipadamente o que seria um rosto bonito ou não. Do mesmo jeito
podemos pensar o corpo. Portanto, a beleza física é muito menos um dado da natureza do
que uma construção cultural. Ela é “iluminada” de determinada forma dependendo da
sociedade e da época.
É certo que não é fácil definir a beleza corporal, porém, parecemos reconhecê-la
quando a vemos. Geralmente as pessoas tendem a concordar sobre quem é bonito ou não.
É aí que o nosso olhar, a nossa percepção visual das imagens dos corpos e dos rostos,
considerando-as entre bonitas e/ou atraentes ou não, é muito menos livre do que supomos
ser. Nosso olhar é constituído por todos os discursos que nos fazem ver a beleza, e vê-la de
uma determinada maneira. Assim, ninguém enxerga, na realidade, com os olhos. O olho é
onde a imagem se forma, mas a decodificação do que enxergamos, é uma decodificação
cultural. Vemos beleza naquilo que acreditamos e/ou aprendemos que é belo. Nesse
sentido, a beleza não é reconhecida instantânea e instintivamente: temos de ser treinados
desde a infância a fazer aquelas discriminações. Aprendemos a discriminar o que é o corpo
e o rosto belo através do processo de socialização.
3. CONCLUSÃO
Os padrões de beleza ditam rostos e corpos considerados harmoniosos ou dentro de
uma suposta harmonia física. A harmonia física é uma invenção que varia de acordo com a
época e/ou sociedade. A desarmonia é exatamente a desordem das formas, que termina
afetando negativamente as aparências do corpo. Por esse motivo, o corpo estar sempre
sendo julgado, como bom ou ruim, grande ou pequeno, limpo ou sujo, forte ou fraco,
saudável ou doente, branco ou preto, sensual ou impotente, novo ou velho, rico ou pobre,
feminino ou masculino e, consequentemente, feio ou bonito.
A feiúra está relacionada às características físicas contrárias aquelas consideradas
bonitas. O negro, por apresentar fenotípico contrário aquele considerado ideal, muitas vezes
é considerado "naturalmente" feio. Assim, dentro do que é considerado desarmonia física,
podem surgir discursos que associam a feiúra aos traços fenotípicos dos negros. Como por
exemplo, em uma pesquisa realizada por nós numa comunidade da zona rural no Estado da
Paraíba em 2001, que tinha o objetivo de problematizar o corpo belo segundo discursos das
mulheres residentes em tal localidade, uma entrevistada falou o seguinte: “ele (o negro) é
tão bonito que era para ter nascido branco”, ou, “esse branco é tão feio que parece negro”.
Aqui o preconceito não estava relacionado à cor da pela, mas aos traços fenotípicos
negróides.
Finalmente, a raça e as características ligadas à aparência têm efeitos reais sobre a
vida das pessoas. Os dados sobre disparidades entre brancos e negros falam por si só.
Historicamente, as pessoas de aparência européia, de pele branca, monopolizaram o poder
e os recursos sociais, políticos e econômicos. Apenas, recentemente, o padrão de
subserviência negra e de dominância branca tem sido questionado.
Evidentemente ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por
sua origem, ou sua religião. Ninguém acha alguém mais bonito de que outro naturalmente.
Aprendemos a discriminar, negativamente, aparências a partir de modelos ideais de corpos,
criados e propagados socialmente, que subjetivamos cotidianamente. Uma pessoa
preconceituosa em relação à cor de pele escura e/ou fenotípico negróide dificilmente achará
um negro bonito; não conseguirá ver beleza no negro. Por traz desses padrões estão
discursos que legitimam a inferioridade do negro frente ao branco. Inferioridade embasada
em simples diferenças físicas. Assim, "negro" foi um conceito construído para significar
inferioridade em relação ao branco. O preconceito não suporta o diferente, o estranho. É a
negação do outro, do diferente, que nesse caso é o negro. Ora, o discurso de raça legitima
desigualdades sociais, naturalizando-as.
4. REFERÊNCIAS
ANGIER, Natalie. A beleza da fera: Novas formas de ver a natureza da vida. Rio de
Janeiro: Rocco, 1998.
COURTINE, Jean-Jacques. História do corpo. 3: As mutações do olhar. O século XX. 2 ed.
Petrópolis: Vozes, 2008.
ETCOFF, Nancy. A lei do mais belo: a ciência da beleza. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999.
GUATTARI, Félix e ROLNIK, Suely. Micropolítica: cartografias do desejo. 4. ed. Petrópolis,
RJ: Vozes, 1996.
SCHWARCZ, Lília Moritz (org.). História da vida privada no Brasil: contrastes da
intimidade contemporânea. Vol. 4. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
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PRETO COMO CARVÃO E FEIO COMO O “CÃO”: desdobras de um