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IV Reunião Equatorial de Antropologia e XIII Reunião de
Antropólogos do Norte e Nordeste. 04 a 07 de agosto de 2013,
Fortaleza – CE
38. Grupo de Trabalho: Etnoarqueologia, Tecnologia,
Interpretatividade do Registro Arqueológico e Patrimônio Cultural
"As coisas do passado no presente": Os Joanenses e suas
percepções sobre o Patrimônio Arqueológico e os Museus. Ilha do
Marajó, Pará.
Luzia Gomes Ferreira
Universidade Federal do Pará
[email protected]
Alexandre da Silva
Arqueoterra
[email protected]
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Resumo
Nas últimas décadas cresce a demanda pela gestão do patrimônio arqueológico e a criação
de museus por parte de comunidades assentadas próximas ou sobre sítios arqueológicos na
Amazônia. A Vila de Joanes, distrito do município de Salvaterra, na costa leste da Ilha do
Marajó se enquadra nesse contexto. Além de belas praias e igarapés, as ruínas de uma
antiga igreja construída de pedra, datada de meados do século XVII e a presença de
vestígios arqueológicos marcam sua paisagem; cujo núcleo urbano originou-se de um dos
aldeamentos indígenas - a Aldeia de Joanes – estabelecidos na Ilha Grande de Joanes
(denominação dada ao Marajó no período colonial) a partir do século XVII. Após escavações
ocorridas em 1986, 2006 e 2008, os joanenses passaram a demandar a permanência dos
vestígios arqueológicos na vila e a constituição de um museu que conte a "história de
Joanes". Partindo deste contexto, buscaremos aqui estabelecer um diálogo entre
Antropologia, Arqueologia, Museologia e História, refletindo, com base nas narrativas dos
joanenses, sobre as seguintes questões: a) como ocorre à fruição das pessoas do presente
com o passado a partir dos artefatos produzidos por populações extintas? b) Quais
significados locais são atribuídos ao patrimônio arqueológico materializado na paisagem
joanense para além das perspectivas oficiais das políticas públicas para "preservação" do
patrimônio e cientificas das pesquisas acadêmicas? c) O museu: serve para que?
Palavras-chave: Joanes. Museu. Patrimônio Arqueológico.
1. Introdução
Este artigo foi construído como uma tentativa de sintetizar reflexões feitas
separadamente por seus autores em suas dissertações de mestrado que tiveram por
objeto de estudo a Vila de Joanes: “O lugar de ver relíquias e contar história: o
museu presente/ausente na Vila de Joanes, Ilha do Marajó – Pará”1 e Tanta tainha,
pouca farinha: Antropologia Histórica da Vila de Monforte (antiga aldeia de Joanes)
nos tempos do diretório (1759-1769)” 2, pesquisas realizadas entre 2010 e 2012. A
primeira dissertação concentrou-se em pesquisas de campo etnográficas realizadas
na Vila de Joanes e a segunda na análise de documentos históricos sobre a
localidade (produzidos entre 1733 e 1790) depositados no Arquivo Público do
Estado do Pará, em Belém. Os diálogos apresentados foram realizados com os
moradores de Joanes, na maioria, mulheres com faixa etária entre 25 a 76 anos.
Apesar de todos interlocutores (homens e mulheres) terem nos cedido seus nomes
completos e idade, alguns solicitaram que não explicitassem os seus respectivos
nomes, por isso, usamos apenas as iniciais. Tanto nas dissertações, quanto nesse
1
Dissertação de autoria de Luzia Gomes Ferreira, defendida em outubro de 2012 no âmbito do
Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA) da Universidade Federal do Pará (UFPA) sob
a orientação da Prof.ª Dr.ª Marcia Bezerra de Almeida e coorientação do Prof. Dr. Flávio Leonel A. da
Silveira.
2
Dissertação de autoria de Alexandre Silva, defendida em julho de 2012 no âmbito do Programa de
Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS) da Universidade Federal do Pará (UFPA) sob a
orientação da Prof.ª Dr.ª Marcia Bezerra de Almeida.
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artigo buscamos estabelecer as possibilidades de diálogo entre Antropologia,
Arqueologia, Museologia e História. O desenvolvimento destas pesquisas na Vila de
Joanes propiciou um exercício acadêmico no qual a interdisciplinaridade teve que
ser colocada em ação. As tensões entre os campos disciplinares existem e
continuaram existindo, pois, lançamos diferentes olhares sobre as mesmas coisas.
No prefácio da “Comédia Humana”, Balzac fala de seu plano de fazer uma obra
que abarque “(...) os homens, as mulheres e as coisas, ou seja, as pessoas e a
representação material que elas dão a seu pensamento” (BALZAC, 2006, p.23). O
propósito é semelhante aqui: refletir sobre as pessoas e as coisas materiais que as
cercam, ou, como a vida humana se entrelaça entre estes dois elementos. Afinal,
com notou Tilley, “O mundo dos objetos é absolutamente central para um
entendimento das identidades de pessoas e sociedades (...) sem as coisas – cultura
material – nós não poderíamos ser nós mesmos nem conhecer a nós mesmos”
(2008, p. 60).
Refletir sobre as percepções dos joanenses acerca do patrimônio arqueológico
e museu nos possibilita entender os usos e reusos das coisas do passado no
presente, compreendendo como nas diferentes sociedades em funcionamento, os
objetos materiais se transformam, se desgastam, circulam e neste processo são
reclassificados, sendo “[...] importante acompanhar descritiva e analiticamente seus
deslocamentos e suas transformações e reclassificações através dos diversos
contextos sociais e simbólicos” (GONÇALVES, 2007, p.15).
Compreendemos que as funções e significados adquiridos pelas coisas em
contextos como o da Vila de Joanes, estão diretamente associados às relações de
poder estabelecidas em nossa sociedade: ao direito de propriedade e uso destas
coisas e, em especial, a autoridade de falar sobre elas.
A partir da segunda metade do século XX, diferentes coletivos humanos
historicamente excluídos ou desconsiderados durante a elaboração de políticas
públicas para constituição e preservação dos patrimônios, criação de museus e seus
processos de musealização; passam a ter “[...] voz na arena internacional e no seio
das nações (...) internamente lutando por sua autodeterminação face aos estados
nacionais [...]” (DIAS, 2001 p.13), exigindo o direito de falar por si mesmo, sem
intermediários.
No caso do patrimônio arqueológico, passa a ganhar importância perspectivas
que os percebam para além de testemunhos de contextos culturais desaparecidos e
4
fontes principais para seu estudo (fatos, por si só, explicativos da necessidade de
preservá-los) mas também interessadas em entender as novas funções e
significados que adquirem no momento em que são reintegrados ao mundo
contemporâneo. Os modos, usos e significados articulados nos processos de
reintrodução de elementos “(...) de uma cultura extinta numa sociedade viva [...]”
(FUNARI, 1988, p. 24).
Neste contexto, a gestão dos vestígios classificados como patrimônio
arqueológico passa a ser problematizada. Na Vila de Joanes, por exemplo, as ações
de coleta e arquivamento dos vestígios nas reservas técnicas dos museus, visto
apenas pelo que contribui para os estudos acerca do passado mais recuado da
região surgem como procedimentos insuficientes, pois não da conta de entender o
contexto contemporâneo que faz com que os moradores locais percebam estes
vestígios como parte de seu próprio passado. Explicitando o quanto urge
exercitarmos
a
gestão
compartilhada
do
patrimônio
arqueológico
in
situ,
estabelecendo relações simétricas entre moradores, técnicos dos órgãos gestores
do patrimônio e pesquisadores. Buscando assim, construir ações conjuntas de
preservação e musealização descolonizantes.
2. A Arqueologia do Marajó
Dados arqueológicos apontam que a presença humana na Ilha do Marajó
começa há cerca de cinco mil anos com o estabelecimento de pequenos grupos de
pescadores e coletores de moluscos que viviam sobre sambaquis. Construções
feitas a partir da acumulação artificial de conchas, edificadas no fundo de enseadas,
margens de rios e na proximidade dos mangues. (PROUS, 1992; SCHAAN, 2009).
Há cerca de 1500 a.C. registra-se a ocorrência de casas comunitárias que
poderiam abrigar de 100 a 150 habitantes ao norte, sudeste e centro da ilha;
localizadas na mata, no limite dos campos, a pelo menos um quilômetro dos rios
navegáveis. Prous descreve estes locais como caracterizados por “uma ou duas
concentrações muito densas de cacos de cerâmica, no meio de uma matriz de cor
escura, que se estende sobre 300 a 700m².” (PROUS, 1992, p. 474).
A cerâmica encontrada nestes sítios foi denominada Ananatuba. Dentro das
“fases” estabelecidas por Meggers e Evans para o Marajó - relacionadas à “tradição”
denominada “hachurada-zonada” - marcam o início da cronologia proposta pelo
5
casal de arqueólogos - relacionada aos diferentes momentos de ocupação da ilha
transcorridos até meados do século XVIII. Nas palavras de Prous: “[...] um quadro
geral e completo da pré-história do Marajó para um período de mais de dois
milênios” (PROUS, 1992. p. 505); apesar de atualmente muito criticado, este quadro
ainda se constitui num instrumento de conhecimento e discussão fundamental para
os estudos voltados para o passado da região.
Quadro Geral da Pré-História do Marajó Segundo Meggers e Evans
BP
Cultura
500
Europeus
1000
Aruã
1500
Marajoara
2000
Formiga
2700
Mangueira
3000
Ananatuba
3500
Quadro Geral Pré-História do Marajó. Tabela criada por Alexandre Silva (2012)
Tendo esta cronologia por base, Schaan (2009) observa que as populações
estabelecidas na ilha, até o início da era cristã, apesar de diferirem “[...] cultural e
linguisticamente, certamente possuíam várias coisas em comum”. As semelhanças
técnicas da cerâmica e a proximidade entre as aldeias podem indicar constante
contato, seja de maneira amigável ou guerreira; influenciando-se “[...] uns aos outros
em termos de modo de vida e produção de utensílios e objetos diversos.” (SCHAAN,
2009, p. 35).
A partir do século VI d.C. mudanças ocorrem. As fases anteriores,
representadas por poucos sítios, dão lugar à fase Marajoara. Aumento da
população, evidências da existência de uma sociedade hierarquizada, do controle
centralizado sobre a vida ritual, da mobilização de trabalho para a construção de
barragens, reservatórios de água e tesos (feitos acima dos níveis da inundação), faz
muitos arqueólogos considerarem o aparecimento, do século VI até XIII, de
cacicados em diferentes pontos da ilha – nos quais, populações congregavam-se em
torno de chefias regionais. Os tesos seriam as construções mais características
desta fase. Os maiores destinados às funções cerimoniais e residência das elites, e
os menores à moradia dos demais habitantes. Apesar de comumente encontrados
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nas proximidades de vários rios do Marajó, a maioria se concentra “[...] num
pequeno círculo de 50 quilômetros de raio (ao redor do lago Arari, na região dos
campos).” (PROUS, 1992, p. 478).
A partir do século XIII, por razões desconhecidas, esta unidade regional em
torno de centros de poder entra em declínio, e “os assentamentos voltam ao padrão
disperso e mais autônomo que havia caracterizado a vida na ilha antes do período
marajoara.” (SCHAAN, 2009, p. 37). Um dado interessante sobre os trabalhos de
campo que levavam a confecção da cronologia proposta por Meggers e Evans
reside no fato das evidências encontradas referentes a fase Aruã e posteriores,
serem provenientes, na maior parte dos casos, do litoral do Amapá e ilhas menores
como Mexiana e Caviana. Registrando-se apenas um sítio desta fase no Marajó.
Apesar disto, as características destes sítios: habitações de tamanho modesto,
padrões de ocupação provisórios e rápidos; fez com que eles associem esta fase
aos Arawaks, grupo indígena que no momento da chegada dos europeus na foz do
Amazonas no final do século XVI, viviam numa região que se estendia das Guianas
até a costa norte do Marajó.
3. A Vila de Joanes e seus tempos pretérito e presente
A Vila de Joanes se origina de um dos aldeamentos fundados na ilha na
segunda metade do século XVII. Elevada à categoria de vila no XVIII, passa, por um
tempo, a se chamar Monforte e, posteriormente, volta a seu antigo nome. Ainda nos
tempos de aldeia, lá foi implantado o pesqueiro real, responsável pelo
abastecimento da cidade de Belém por praticamente todo período colonial.
Segundo Lopes, para a aldeia de Joanes eram encaminhados os indígenas
que “desciam” do interior para o litoral da Ilha, a fim de serem, “(...) primeiro,
catequizados e depois repartidos como mão-de-obra das missões, ou em Belém;
trabalhando para particulares ou nas obras públicas do Governo local” (LOPES,
1999, p. 39). O mesmo autor informa que apesar de proibida a presença e moradia
de “brancos” nas aldeias indígenas durante o período das Missões Religiosas, “[...]
um posto militar foi montado na aldeia e alguns indígenas foram incorporados como
soldados [...]” (LOPES, 1999, p. 80). Assim, por quase dois séculos, a aldeia de
Joanes e, posteriormente, vila de Monforte se constituiu em um importante
entreposto comercial e militar da Ilha Grande de Joanes – antigo nome da Ilha do
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Marajó - sendo “de extrema importância para o entendimento das relações entre
portugueses, missionários e os diversos grupos indígenas que habitaram a Ilha do
Marajó.” (SCHAAN, 2009; 130).
Desde 1961 a Vila de Joanes passou a ser um dos distritos do município de
Salvaterra, quando esta se desmembrou de Soure, na Ilha do Marajó e possui uma
população de aproximadamente 1.800 pessoas3. Se deslocar para Joanes é
relativamente fácil, se temos como parâmetros as longas distâncias dentro do
estado do Pará. Saindo de Belém, por exemplo, leva-se mais ou menos 03h00min
de viagem de navio. Mas, a depender do tipo da embarcação e da maré a viagem
pode durar um pouco menos. Em Belém, o barco sai do porto da Doca que fica na
região central da capital paraense. Também, é possível ir de balsa, mas, a mesma
sai do trapiche de Icoaraci4 e leva mais ou menos o mesmo tempo de viagem. Os
valores das passagens variam de acordo com a classe. O navio e a balsa aportam
no porto de Camará e de lá é possível pegar a van que leva aproximadamente uns
vinte minutos do referido porto até a Vila. Estas vans só circulam no porto de acordo
com os horários de chegada e partida dos barcos. Agora, se locomover de Joanes,
para outros pontos da Ilha do Marajó é complicado. A locomoção interna é realizada
por vans e micro-ônibus particulares que fazem a ligação de Joanes a Salvaterra,
apenas no turno da manhã. A tarde e à noite não há circulação de vans, algo que os
moradores reclamam muito. É possível utilizar o serviço de táxi, no entanto, este tipo
de transporte é muito caro, tornando praticamente inviável a sua utilização.
Se no passado a pesca se constituiu na principal atividade econômica do local,
isto também vale para o presente. Joanes se configura como uma Vila de
pescadores. A moradora M.L. disse-nos que: “Quando falta peixe, falta tudo” (M.L,
2012). A pesca é um trabalho majoritariamente masculino, porém, na Vila, há uma
mulher que pesca em alto mar, a senhora I. V., mas, ela relatou que só vai para alto
mar na companhia do marido que também é pescador. A senhora I.V. falou que a
pesca é algo mais fácil para os homens, por conta da força, especialmente no
manejo da rede. Os pescadores falam com muita preocupação sobre a diminuição
do pescado naqueles arredores, fazendo-os ter que se distanciar cada vez mais
para pescar. Os peixes mais valorizados por eles são a pescada amarela e o filhote.
Eles desprezam a arraia e muitos deles nos afirmaram que não comem este peixe.
3
4
Dado coletado na Unidade de Saúde da Família “Manoel Frazão”.
Distrito da Região Metropolitana de Belém – PA.
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Todas as pessoas com as quais dialogamos tem algum parente pescador. Um
assunto recorrente na fala desses pescadores é a dor causada geralmente pelo
reumatismo, doença que muitos deles relataram que já tiveram ou tem. A agricultura
é algo pouco praticado em Joanes, praticamente não há mais produção de farinha
na Vila, porém, colhe-se muito bacuri.
Em Joanes há uma pequena, porém, importante atividade comercial,
representada por pequenos comércios de produtos alimentícios, materiais de
limpeza e higiene pessoal. Esses pequenos estabelecimentos são conhecidos na
Vila como tabernas e quase todos pertencem aos moradores que não nasceram em
Joanes, os chamados forasteiros. Os forasteiros são pessoas que moram na Vila,
mas, não nasceram lá. Geralmente são oriundas de outros municípios do Pará;
estados brasileiros e países. O número de estrangeiros morando na Vila é pequeno.
Há também os veranistas que possuem casas em Joanes. Estes, só estão lá em
época de temporada como o verão, ou quando há os feriados prolongados.
Interessante que a moradora M.J., uma das comerciantes da Vila por nós
entrevistada, se auto intitulou forasteira e nos fez a seguinte declaração:
Joanes está se desenvolvendo por conta do turismo. Mas, não tem comerciante querendo investir
aqui, o dinheiro não circula na Vila. As pessoas vivem comprando fiado, a maioria das casas tem um
aposentado que sustenta a família. É preciso desenvolver o potencial turístico (M.J. 2012).
De acordo com M.J., os moradores de Joanes geralmente fazem suas grandes
compras na cidade de Salvaterra e recorrem ao comércio local no final do mês. É
notório que há uma tensão entre os forasteiros e os filhos de Joanes. Durante a
pesquisa alguns forasteiros, não todos, ao conversarem conosco, rotularam os filhos
de Joanes de “ignorantes e atrasados”. De acordo com essas pessoas, os “nativos”,
não sabem valorizar a história local nem o patrimônio e que para Joanes se
“desenvolver” é preciso investir no turismo. Por sua vez, alguns dos filhos de
Joanes, falam que os forasteiros só querem explorá-los. Mas também, acreditam
que é preciso potencializar o turismo para que haja oportunidade de emprego na
Vila.
Joanes também possui pousadas que oferecem oportunidade de emprego para
moradores locais, especialmente mulheres. Na Vila não há farmácia, módulo policial,
salão de beleza, agência bancária e nem caixa eletrônico. Com exceção da agência
do Banco do Brasil, há agências bancárias em Salvaterra. Tem agência do Banco do
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Brasil em Soure, mas, alguns serviços deste banco são oferecidos na agência do
correio. Na Vila, há uma Unidade de Saúde da Família que leva o nome “Manoel
Frazão” trabalham nesta unidade as agentes comunitárias de saúde, conhecidas
como ACs, técnicos em enfermagem, uma dentista e um clínico geral. Os médicos
não atendem todos os dias e sim duas vezes por semana. Para realização de
exames, assim como, para se consultarem com outros especialistas, os joanenses
tem que se deslocar até Belém. As ACs realizam visitas mensais as casas da
família, fazem um cadastro destas, tentam executar um trabalho de planejamento
familiar, assim como, contabilizam o número de pessoas falecidas na Vila.
É interessante constatar como as ruas de Joanes, convergem para a praça
central, onde se localizam o sítio arqueológico, os quiosques, as ruínas, o farol, a
escola de ensino fundamental, a nova Igreja de Nossa Senhora do Rosário, o salão
de festas da igreja, o coreto, algumas casas e estabelecimentos comerciais. A Vila
também possui uma escola de ensino infantil, um cemitério, um campo de futebol,
uma quadra de esportes, uma lan-house, rádio comunitária e igrejas pentecostais e
neopentecostais. O abastecimento d’água é realizado através de poços artesianos e
os moradores pagam uma mensalidade para manutenção das bombas e do
pagamento de energia. Recentemente foi criada a Associação Educativa Rural e
Artesanal de Joanes (AERAJ) onde um coletivo formado majoritariamente por
mulheres produzem peças artesanais com referências iconográficas do grafismo
marajoara e também iconografias específicas da Vila de Joanes, como as ruínas. No
desenvolvimento da pesquisa foi possível identificar mulheres que trabalham como
empregadas domésticas e catadoras de castanha de andiroba; homens e mulheres
que trabalham na limpeza da Vila e das praias e os funcionários públicos ligados à
esfera municipal como os professores e os técnicos que atuam nas escolas da Vila.
A falta de emprego, especialmente para os jovens é recorrente nas narrativas dos
joanenses. Ter um emprego em Joanes possibilita que esses jovens, especialmente
os meninos, permaneçam na Vila. No entanto, alguns jovens ao concluírem o ensino
médio migram para Belém ou para Icoaraci em busca de emprego. Os que
permanecem acabam aderindo à atividade pesqueira, quase sempre, a contragosto
dos pais.
Durante o trabalho de campo foi possível compreender que a ideia de ilha
“como lugar isolado” não se aplica a Joanes. Não apenas pela circulação de
pessoas de outros lugares na Vila, do deslocamento constante dos joanenes para
10
Belém, grande Belém e Icoaraci. Mas também, pela circulação de informações que
chegam até a Vila seja via TV, internet, celulares, revistas, entre outros meios de
comunicação contemporânea. De acordo com Clifford: “[...] As sociedades do mundo
estão sistematicamente interligadas demais para permitir qualquer isolamento fácil
de sistemas separados ou que funcionem de forma independente [...]” (CLIFFORD,
1994, p. 79). Outra questão importante é que aos poucos é possível desmistificar a
ideia de lugar pacato e paradisíaco. Joanes não possui um alto índice de violência,
mas, a mesma não está ausente. É importante perceber que Joanes possui, em
maior ou menor escala, conflitos, tensões, belezas e adversidades que estão no
âmbito da conjuntura nacional.
4. O Patrimônio Arqueológico e o Museu nas narrativas dos joanenses
Vários tempos se entrecruzam na Vila de Joanes. Tempos estes materializados
pelos fragmentos do passado que configuram a paisagem local. Desde nosso
primeiro contato com a Vila nos chamou à atenção a relação dos joanenses com os
vestígios arqueológicos. Pois, além deles atribuírem a estes novos significados e
funções, também se mostram interessados em questões relacionadas à gestão
desse patrimônio que pode ser viabilizado pela criação de um museu. Pudemos
observar que os joanenses estabelecem uma relação de pertencimento com essas
coisas do passado. Segundo Silveira & Bezerra:
O repertório material do sítio inclui: as ruínas da Igreja de Nossa
Senhora do Rosário – retratada pela expedição de Alexandre
Ferreira Rodrigues em 1783 -, construída em cima de antigo
aldeamento indígena, além de expressivo volume de material
arqueológico histórico e pré-colonial: cerâmica, louças, vidros, ferro,
material construtivo e ossos (SILVEIRA; BEZERRA, 2010, p.01).
Houve três escavações no Sítio PA-JO-46, a primeira ocorreu em 1986, à
segunda em 2006 e a terceira em 2008. Os joanenses fazem relatos sobre as
escavações, não necessariamente nessa ordem cronológica, é perceptível que em
suas narrativas esses tempos se misturam. A primeira ocorreu sob a coordenação
de Antônio Nery da Costa Neto, que realizou o salvamento do sítio. É importante
evidenciar que esse foi o primeiro feito pelo Museu Paraense Emílio Goeldi em um
sítio histórico da Amazônia e o mesmo foi registrado no Livro de Tombo de sua área
11
de Arqueologia como Sítio Joanes PA-JO-46 (LOPES, 1999, p.43). Em 2006, vinte
anos depois, ocorreu outra intervenção no sítio. A coordenação deste projeto foi da
arqueóloga e Prof.ª Dr.ª Denise Schaan. Dois anos depois, em 2008, foi
desenvolvido na Vila o Projeto Pesquisa Arqueológica e Educação Patrimonial na
Vila de Joanes sob a coordenação do Dr. Fernando Marques/MPEG e da Prof.ª Dr.ª
Marcia Bezerra/UFPA, o objetivo deste projeto foi continuar com as ações da
intervenção anterior, bem como, desenvolver atividades educativas visando à
redução dos índices de destruição do sítio. (MARQUES; BEZERRA, 2008).
Em 2006, vinte anos depois, houve outra intervenção no sítio PA-JO-46. Desta
vez coordenada pela Prof.ª Dr.ª Denise Schaan da Universidade Federal do Pará
(UFPA) e do Dr. Fernando Marques, do MPEG. De acordo com Schaan (2009) foi
organizada uma equipe multidisciplinar de pesquisadores (arqueólogos, arquitetos,
historiadores, educadores e estudantes de ciências sociais) com o objetivo de
realizar uma ação emergencial no sítio. O trabalho foi pautado pela realização de
reuniões periódicas com os moradores, havendo uma gestão compartilhada do
projeto. Para Schaan, havia um entendimento da superintendência regional do
IPHAN e dos arqueólogos envolvidos de que “[...] a ação somente seria bem
sucedida caso fosse de interesse da vila a recuperação física do sítio, seu estudo e
preservação, pois os próprios moradores é que teriam que zelar pelo patrimônio.”
(SCHAAN, 2009, p. 130).
É recorrente nas narrativas dos joanenses o conflito que existiu entre os
moradores e a equipe técnica do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (IPHAN) durante a escavação de 2006. Segundo as pessoas que nos
relataram o incidente - o mesmo foi suscitado por questões políticas internas.
Apresentamos algumas narrativas de joanenses acerca deste episódio:
E.G.: ... é porque o IPHAN tem um projeto até com o auxilio de vocês, de fazer esse memorial aí,
mas com virtude de política em cima, vereador na richa com o prefeito, que na época tinha uma
divergência com o prefeito, que aqui existe troca de favores né? Entre o legislativo e o executivo aí
fizeram um auê lá na reunião que tava a comunidade... aí desligaram lá o coisa...uma reunião a
noite, o terror, é uma reunião a noite, desligaram a energia, aí ficou escuro aí amedrontou até a
presidente do IPHAN lá, a pessoa responsável que tava pra poder dirigir essa obra né? Ela se
amedrontou e foi embora, achando que aqui tinha gente selvagem.
L: O senhor tava na reunião?
E.G.: Não tava, só escutei boatos, tipo assim teve uma pessoa que mobilizou a população, muitos
chegaram alcoolizados, pra não ter, isso em virtude de, porque como essa pessoa não tava a frente
das coisas ele não queria que acontecesse, ele levou uma turminha pra lá justamente pra bagunçar.
(E.G.B., 2011).
12
L: A senhora participou da reunião com o pessoal do IPHAN?
M.J.: Não, quem foi, foi minha neta.
L: O que ela disse sobre a reunião?
M.J.: Ah! Ela falou que foi a maior confusão e ela foi discriminada.
L: Discriminada, como assim?
M.J.: Mandaram ela calar a boca, porque ela era forasteira (risos)... O povo aqui é muito fechado.
L: Hum... Mas, porque essa confusão?
M.J.: Havia grupos ligados aos políticos que era contra. Achavam que ia fechar a Vila e os carros
não iria passar na praça. As pessoas arrancaram as placas que o IPHAN colocou em volta da ruína.
(M.J. 2012).
L: Mas, você tava aqui quando teve aquela reunião com o IPHAN?
R.G.: Lá na sede?
L: É!
R.G.: Estava.
L: Você chegou a participar da reunião?
R.G.: Eu fui lá na hora.
L: Mas você chegou a vê processo todo que aconteceu?
R.G.: Que apagaram a luz?
L: Sim.
R.G.: Cheguei a vê.
L: Você tava lá então?
R.G.: Tava.
L: Chegou a ter briga?
R.G.: Briga, não. Que eu me lembre não, por que quando apagaram a luz a gente fomo logo embora.
Mas, eu acho que deve ter tido algum bate boca lá, né. Mas briga, assim, fisicamente, assim, não.
(R.G.B., 2012)
L: Quando teve a reunião como o pessoal do IPHAN você tava na reunião, você chegou a ver?
E.C.: Qual será? Será que foi da época que a dona Doroteia veio, será?
L: Isso!
E.C.: Eu não fui a essa reunião, só fiquei sabendo, por que estávamos aqui com um grupo de
alemãs, coincidia com o dia da sopa deles vinda da fazenda então eu não podia me ausentar. Mas,
aí depois algumas pessoas me repassaram o que foi falado na época, foi uma coisa assim muito
interessante por que assim às vezes uma pessoa quer uma coisa e tem outra que não quer, sabe
acho que teve até aconteceram umas coisas meia estranha lá. Mas acho que elas conseguiram falar
o que elas tinham pra falar e mostrar. Mas infelizmente eu não pude participar. (E. C.S., 2012)
Em abril de 2012, um fato importante o qual presenciamos, aconteceu na Vila.
Alguns moradores ligados à direção a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, mesmo
“sem a autorização” do IPHAN resolveram cercar as ruínas para protegê-las das
danificações que estão sendo causadas pelos turistas. Os moradores se reuniram e
realizaram um mutirão para limpar a área das ruínas, pois a vegetação estava muito
alto impedindo das pessoas transitarem pelo sítio, após a limpeza, cercaram o sítio
com mastros enfeitados nas cores verde e vermelho. De acordo com o relato deles,
essa ação foi realizada, para impedir que carros trafeguem sobre o sítio e
principalmente para que os turistas não subam e nem retirem pedaços das paredes
da antiga igreja. Segundo Bezerra, “[...] um dos grupos responsáveis pela destruição
do patrimônio é o dos turistas. (...) Frequentemente se observa grupos de turistas
13
‘escalando’ a torre da igreja para tirar fotografias ou estacionando carros sobre o
sítio” (2011, p. 64).
L: Vocês cercaram as ruínas?
M.S.: Sim, cercamos.
L: Por quê?
M.S.: As ruínas deve ser melhor preservada. Se aquilo ali desaba, a gente perde tudo. Temos que
proteger as ruínas dos turistas. (M.S., 2012).
L: Porque vocês cercaram as ruínas?
C.C.: Por causa dos turistas e dos carros que ficam passando por dentro das ruínas. As pessoas de
fora não gosta quando a gente reclama, aí dá confusão, aí é melhor cercar. Teve gente daqui da
comunidade que gostou e outras não.
L: Sério? Mas, por quê?
C.C.: Mulher tu sabe como é povo, tem gente que não faz nada e fala de quem faz. (C.C., 2012).
Acreditamos que essa ação protagonizada por parte dos moradores de Joanes,
contribui para desmistificar a ideia disseminada de que o fato de pessoas habitarem
o entorno dos sítios arqueológicos, no caso de Joanes, há pessoas que moram
sobre o sítio, geralmente praticam ações de destruição. Ao mesmo tempo, essa
ação também possibilita aos órgãos gestores do patrimônio, nesse caso
especificamente nos referimos ao IPHAN, desenvolver mais ações de gestão
compartilhada.
Evidentemente que não deixamos de levar em consideração, que para uma
parcela significativa dos joanenses o turismo é considerado algo positivo para a Vila
e desejam “potencializá-lo”, oferecendo aos turistas outros atrativos como o museu,
por exemplo. De acordo com as narrativas dos joanenses no museu que eles
desejam constituir devem ser expostos os vestígios arqueológicos que foram
encontrados durante as escavações. Ao realizar um dos nossos trabalhos de campo
em um feriado, constatamos o quanto Joanes é bastante procurada e como a
“rotina” da Vila é alterada. Ao mesmo tempo em que os moradores gostam de
receber os turistas, ficam bastante preocupados com as ações predatórias
protagonizadas por parte de alguns. Corroboro com Bezerra (2011) ao afirmar que:
“É preciso ‘desatanizar’ o turismo”.
Podemos inferir que os contextos das escavações arqueológicas, além de
suscitarem nos joanenses com os quais dialogamos uma necessidade de conhecer
e compreender o passado do lugar onde vivem, aguçou ainda mais o interesse
14
social pelos objetos encontrados. A presença dos arqueólogos e dos técnicos do
IPHAN, em certa medida contribuiu para que eles passassem a perceber aqueles
objetos com outro olhar, atribuindo-lhes outros valores e significados.
Ao constatarmos que a demanda pela criação do museu é oriunda do contexto
das escavações arqueológicas, buscamos ouvir dos joanenses as suas narrativas
sobre essas escavações, queríamos entender de que forma eles se relacionaram
com esses eventos. Dialogamos com os moradores que trabalharam diretamente na
escavação; que fizeram parte da comissão de acompanhamento; os que moram no
entorno do sítio e os que apenas foram ver as escavações por “curiosidade”.
Deduzimos que as narrativas a serem apresentadas abaixo se referem em grande
parte as escavações de 2006 e 2008. Seguem relatos de joanenses acerca desses
eventos.
L.: Quando encontraram as peças, você já estava aqui na escola?
E.B.: Já, eu já estava aqui, só que não acompanhei, eu não acompanhei, mas teve umas pessoas
daqui, umas colegas que estavam acompanhando, alguns alunos também e na primeira, logo nas
primeiras escavações, agora já na segunda eu já fui lá, já vi, então é uma coisa fantástica, pra mim é
uma coisa fantástica pra mim.
L: Me conta como é que foi, o que você gostou?
E.B.: Aí eu fui lá com os alunos, nós chegamos lá tava todo mundo cavando e medindo né? Com
maior cuidado, fazendo a triagem, a limpeza, a lavagem, aquela coisa, aquele processo que tem, por
quê? Porque é um cuidado com aquelas peças, já estão muito tempo né? Na, na, na terra, então pra
se fazer uma escavação tem que ter o maior cuidado né? E eu acho muito bonito isso, muito bonito
mesmo, pra mim é uma coisa fantástica essa coisa de escavação e arqueologia. (E.B.S., 2011).
L: ô dona M. a senhora tava aqui quando as pessoas escavaram aí na praça?
M..J.S: Estava.
L: Tava? A senhora lembra como foi?
M.J.S: A escavação aí, não, não me lembro, quer dizer, pra fazer o que aí na praça, quando eles
escavaram que tiraram um monte de objetos dali, tiraram as coisas dali. M.J.S: Ah do pé do...
Estava, estava sim, ih, era assim com o pessoal dos, técnicos de lá do IPHAN. Aí, eles trouxeram
assim... uns aparelhos, né, pra cavar, aí eu não vi nada, o que é que vi, menina, inclusive, eu tenho
até um livrinho aí, a moça do IPHAN que ela se dá muito comigo, ela trouxe pra mim uma cartilha
assim, um livrinho assim, aonde fala alguma coisa, né, sobre essa escavação e o que encontraram
lá, que foi um pedaço de, uma corrente, sabe, com um crucifixo assim, muito bonito aquilo, aquele
crucifixo e eu acho que ele tá bonzinho, a terra, a idade, o tempo que ele teve lá enterrado, não
mexeu com ele em nada, eu vou procurar, pra... qualquer hora a gente se fala de novo, né, aí eu vou
lhe dá pra vocês olharem.
L: Hum, hum.
M.J.S.: O livrinho, pra vocês como era antigamente essa ponta aí, muito importante essa ponta, aí
essa história que vocês estudam aí.
M.J.S: Aí eles encontraram, e outras e outras e outras coisas, peça de pedaço, assim coisa de barro,
eu dizia: "Isso, isso..." que quando eu era nova, a minha mãe, ela trabalhava com argila.
L: Hum, hum.
M.J.S: Aí ela fazia muita coisa, muita coisa com argila sabe, ela fazia pote, ela fazia alguidar, mas
fazia assim grande, que a gente amassava açaí, a bacaba, porque não tinha máquina, né.
L: Hum, hum.
M.J.S.: Elas faziam com panela, tudo, tudo, uma vasilha colocava no fogo pra torrar café, que
naquele tempo antigo era o café torrado em casa, aí a gente torrava naquelas vasilhas e a minha
mãe trabalhou muito, e eu disse pra um: Olhe, pra vocês restaurarem isso, essas coisas de, de
barro, isso vai custar muito, porque não tá completo, vocês acham um pedaço de uma, depois vem
15
acha o pedaço da outra quebrado de um jeito, outro quebrado de outro, né, se fosse só de uma, tudo
bem, mas não, esses pedaços não tinha só de uma, tinha de várias. (M.J.S., 2012)
L: Como foi trabalhar na escavação? Como tu foi parar lá na escavação?
R.B.: Por que eles tavam sem trabalhador lá pra eles. Tinham poucas pessoas trabalhando.
R.B.: Eles levaram todo material.
L: Você achou interessante achar aquelas coisas?
R.B.: Achei interessante. A gente filho daqui não sabia que tinha tudo isso preso embaixo da terra
L: Você não sabia?
R.B.: Não sabia, quer dizer já tinha ouvido uns comentários, mas não tinha visto ainda.
L: Comentários de quê?
R.B.: De que tinha peças ai embaixo da terra, a gente nunca teve contato com isso. Quando a gente
fez a escavação, aí que a gente percebeu que era real mesmo, existia. (R.B.N., 2012).
M: Nós queríamos saber sobre a escavação que teve aqui e se a senhora estava aqui?
E.C.S: Eu estava. Lá próximo as ruínas.
L: Mas você chegou a acompanhar o processo?
E.C.S: Eu fui lá duas vezes. Fui lá pra olhar como é que eles faziam né, como iniciava e tudo. Aí
depois de um tempo eu voltei pra vê o que eles tavam retirando. Aí eles conseguiram retirar as
coisas e tudo, aí colocavam lá, depois e vinha à limpeza e tudo. Fui também na sede que foi na
época que eles estavam catalogando tudinho, muito trabalhoso pra equipe lá. (E.C.S, 2012)
L: A senhora viu as escavações aí na praça?
M.J.: Vi sim, tinha um monte de pedaços de cerâmica e peças de canhão.
L: Foi mesmo?
M.J.: Foi... (risos). A história de Joanes é conturbada, uns falam uma coisa, outros falam outra. (M.J.,
2012).
A partir de agora, apresentaremos os nossos diálogos com os joanenses
acerca do museu que eles pretendem constituir.
L.: Você acha que seria interessante um museu aqui em Joanes?
E.C.S.: Se seria interessante? Seria sim. Eu acho que seria muito interessante. Até porque, uma,
que a própria comunidade poderia ter acesso inclusive vê o que já tinha e o que eles conseguiram
com as escavações, como os objetos antigos que as pessoas tinham em suas casas. Só pra ter uma
ideia de como foi, entendeu, tem muitas pessoas que não dão assim valor, você encontra uma coisa
assim e você não dá valor, sabe tem muitas pessoas que não dão valor, mas tem muitas que sim,
que dão, e sem contar também com, por exemplo, com a referência: “ah, Joanes tem um museu”,
poxa, já pensou? Tem as ruinas e “olha, Joanes tem um museu”. Temos que vê também pelo lado
turístico que seria uma coisa bem legal, também. Atração também, por que as pessoas não tem
muita coisa assim pra vê né. Então seria interessantíssimo esse museu.
L: Você acha que esse museu poderia funcionar aonde?
E.C.S: Onde poderia funcionar, bom no meu ponto de vista se fosse mais próximo ali do sítio, coisa
que não comprometa o espaço e tal, até por que quando o turista vai visitar as ruinas já teria a
oportunidade de entrar no museu entendeu, eu acho no meu ponto de vista. Lá seria bem
interessante, desde que não comprometa.
L: O que você acha que deveria ter no museu, quais coisas deveriam ser expostas, o que deveria
ter?
E.C.S: Peças, né, por exemplo, que foram retiradas dessas escavações. Sabemos que tem pessoas
que tem moedas muito antigas aqui na vila, também tem um senhor que tem parece assim uma
garrafa térmica, mas não é uma, é de um material que nem é daqui mesmo é dos índios também,
muitas coisas também dos índios que foram encontrados também. Acho que assim mostrar o que a
nossa vila teve ou tem agora que foi resgatada. As histórias também seriam bem interessantes, que
não são poucas as histórias aqui da nossa vila também. Seria tudo colocado pra ser contado aí
chegaria pra ler seria bem interessante.
L: E os turistas. Eles procuram por museus quando vem pra cá?
E.C.S: Procuram, procuram, com certeza. É uma das coisas que eles procuram muito. Esse museu
em Cachoeira do Arari ele só não tem mais acesso devido a localização. Fica em cachoeira do Arari,
então fica muito distante daqui, que sem contar que tem o problema do transporte que nós temos,
16
né. E não é todo tempo que podemos ir para cachoeira por que às vezes a estrada tá com
problemas ainda tem isso. Mas que eles procuram, eles procuram. Esse museu de cachoeira do
Arari ele é bastante famoso porque o pessoal chega aqui e que vê e um vai contando pro outro.
(E.C.S., 2012).
L: O que você acha que deveria ser feito com essas coisas que foram encontradas aqui?
R.B: Acho que o certo mesmo era ter feito um museu aqui mesmo, pra essas coisas ficarem aqui
mesmo, quando o pessoal viesse visitar já tava aí mesmo pra vê, eu acho que deveria ser assim, né.
Ter um museu aqui mesmo.
L: Aonde poderia ser esse museu?
R.B.: Acho que ali onde tem o projeto da luz solar, ali no farol, seria legal lá, por que é bem no
centro, perto das ruinas e aproveitava lá as peças, eu acharia assim.
L: É um prédio, lá?
R.B.: Era um projeto de luz solar que foi feito, mas não deu certo, aí o pessoal desmancharam e
levaram o material.
L: E você acha que seria legal ter esses objetos no museu?
R.B.: Eu acho. Acho que seria legal.
L: Mas por que seria legal ter um museu?
R.B.: Não sei, é porque tem muita gente que quer conhecer, né, o que, que tem na terra, eu acho
assim.
M: Quem tu acha que quer conhecer?
R.B.: Aqui, até pessoal da Vila mesmo. Tem muita gente que ouve muito comentário de que Joanes
é uma vila histórica e tem muita riqueza em baixo da terra, mas ninguém sabe se realmente tem. Aí
com um museu o pessoal ia vê se tinha ou não material.
L: Esses objetos deveriam ficar lá?
R.B.: Eu acho que deveriam.
L: Você acha que isso traria algo de bom pra joanes?
R.B.: Acho que traria sim. Traria emprego, pros moradores daqui que os moradores daqui só
dependem da pesca, único ramo que tem de trabalho. E tem época que não tem peixe, aí o pessoal
fica meio ... Se endividam, né. Aí não tem outro ramo, por que se tivesse outro ramo, emprego de
vigia pelo menos aí já era legal por que não ia depender só da pesca. (R.B., 2012).
L.: Pra você, Joanes tem que ter um museu?
M.L.G. Não! Museu dá muito trabalho. Deveria ter um memorial (...)
L.: Ah tá! Caso seja construído esse memorial, o que deve ter nele? Que objetos devem ter lá?
M.L.G.: As peças arqueológicas da escavação e peças dos artesãos local.
L.: E pra você em que local de Joanes, deveria ficar esse memorial?
M.L.G.: No meio da praça.
L.: No meio?
M.L.G.: Sim, lá perto das ruínas.
L. Entendi. Você acha que seria bom Joanes ter um memorial?
M.L.G.: Sim, assim poderia se conhecer a história de Joanes, seria bom pro turismo ... O povo aqui
não valoriza as coisas da terra, mas com o memorial, quem sabe, pode mudar. (M.L.G., 2012).
L.: Mas, me diz uma coisa, o que tu achas de Joanes ter um museu?
S.R.N.: Acho que tem que ter mesmo... O museu poderia ser mais um ponto turístico de Joanes e ia
gerar emprego e renda... Aqui o chamativo para turista é a ruína.
L.: Mas, se tiver esse museu, onde tu achas que deve funcionar?
S.R.N.: Hum... Tem que ser num lugar estratégico, deveria funcionar em um prédio perto da torre
que tá em desuso. Sabe onde é?
L.: Sei, já me falaram dele. Pra ti, o que tem que ter nesse museu, como ele deve ser, que coisas
tem que ter nele?
S.R.N.: Acho que ele tem que se assemelhar ao museu de Cachoeira. Tem que ter coisas que fale
de memória, o material arqueológico, ferro de passar, coisas que falam de pessoas antigas. O
museu de Cachoeira é bonito tem coisas diferentes, tem o bezerro de duas cabeças. Tu já foi lá?
L.: Poxa, infelizmente não, mas, irei. Já fui visitar o de Salvaterra duas vezes, mas, tava fechado.
Você conhece os dois museus? O de Salvaterra e o de Cachoeira?
S.R.N.: Sim, conheço os dois, mas, gostei mais do de Cachoeira, porque tem mais variedades.
(S.R.N., 2012).
17
L.: D.M. Mas, onde seria um lugar bom pra colocar essas coisas que encontraram, onde a senhora
acha que poderiam colocar?
M.J.S.: Eles poderiam fazer assim, um, um, uma espécie duma, coisa assim, um, pra guardar aquilo,
não era? Mesmo que fosse aí no terreno da escola, dava pra fazer um, um quartinho, uma, um
negócio lá, né, uma casinha, uma coisa assim, até já ficava mais ou menos, ah vamo botar no
museu ali na escola, vamo ver, né.
L.: Hum, hum...
M.J.S.: Não era melhor assim, mas não, olha só, como tá caindo a escola.
L.: Ah tá! Aí será que eles, a senhora acha que poderia ser, criarem esse quarto, depois...?
M. J.S.: Um museuzinho, era sim, pra, pra fazer, pra mostrar, né, pra quem quiser ver, como eu tô
falando, tem pessoas que se interessassem, né, a ver ia lá, pedia lá pra uma pessoa abrir e ia lá ver
tranquila, né.
L.: E esse lugar poderia ser aonde, esse museu?
M.J.S.: Lá mesmo, nessa coisa da escola, ou então aí na praça, em vez de fazerem essa praça pra
vender bebida, pra vandalismo que já acabaram com tudo os brinquedos que tinha, só pra isso, não
adiantou mais nada, pra nada tá aí pra nada tá aí, não tem um quiosque, olha aí como tá, dinheiro do
governo.
L.: Hum, hum. A senhora acha que podia ter um museu aí na praça, é isso?
M.J.S.: Era, fazia, o tempo que fazia aquela casa ali, olha pra nada, colocava lá.
L.: Hum, hum.
M.J.S.: Né meu amor, colocava naquela casinha.
L.: Naquela casinha?
M.J.S.: Vocês não acham? É sim.
L.: Ah!...
L.: Aí a senhora acha que essas coisas das escavações deveriam ficar nesse lugar?
M.J.S.: É, ficava aqui mesmo, olha agora, como bem hoje vocês tão, vocês iam lá fazer os trabalhos
de vocês, se interessasse alguma coisa, não era melhor? Do que eu esta aqui dando as coisas e
não verem o que é, sobre o que eu estou falando, né? Se vocês vissem, seria melhor. (M.J.S., 2012)
5. Sem considerações finais, apenas inconclusivas considerações
Não pretendemos “traduzir” as falas dos joanenses para uma linguagem de
especialistas. Partimos do pressuposto deles explicitarem num português muito claro
suas percepções sobre patrimônio arqueológico e museu. A relação que mantêm
com esses fragmentos do passado, na nossa perspectiva não pode ser
compreendida
apenas
pelo
“rigor”
da
gramática
das
políticas
públicas
patrimonialistas. O hábito de colecionar vestígios encontrados nos quintais das suas
casas, ou de brincar com eles, como fazem algumas das crianças da vila, por
exemplo, não são considerados por nós práticas ilícitas, tão pouco potencialmente
danosas ao patrimônio arqueológico. As pessoas ao mostrarem as suas pequenas
coleções, as apresentam com carinho e zelo. Numa relação que ultrapassa o
simples desejo de possuir algo diferente, exótico a elas. É como se naqueles
fragmentos estivesse parte das suas histórias que os fazem pertencer aquele lugar.
Para Bezerra: “[...] o colecionamento em contextos como o de Joanes não pode ser
18
visto como destruição ou ameaça ao patrimônio arqueológico da Amazônia, mas
como forma de lidar com um passado [...]” (BEZERRA, 2011, p. 62).
Durante o nosso trabalho de campo ao conversar com uma moradora que
coleciona um número significativo de fragmentos, ela nos revelou que se caso o
museu seja construído ela doará a sua coleção para ser exposta nesse espaço.
Entretanto, a sua neta de onze anos, primeiramente se negou a nos mostrar a sua
coleção, depois de conversarmos bastante e ela perceber que não ficaríamos com
os seus “caquinhos” como ela chama, a menina mostrou-nos a sua coleção
apontando as louças com desenhos como os seus preferidos. A primeira vez que
estivemos em Joanes essa mesma moradora nos apresentou uma tigela de louça
provavelmente portuguesa, que ela havia reconstituído a partir dos fragmentos
encontrados no quintal de sua casa. Ficamos observando a forma minuciosa como
ela encaixou fragmento por fragmento e colou com fita durex. Obviamente que do
ponto de vista da conservação/restauração esse procedimento está completamente
“inadequado”. Mas, ao mesmo tempo, observando a forma como ela havia embalado
cuidadosamente aquela tigela em um tecido, colocado numa caixa e a forma como
relatava pacientemente como encontrou cada fragmento, entendemos que diante
daquela situação, não podíamos considerá-la uma “criminosa”, “destruidora” do
patrimônio público. Ao seu modo, essa senhora cuidou, guardou e protegeu aquela
coisa que deve ter um significado para ela, que pode ultrapassar a nossa
compreensão de pesquisadores-(as). “As coisas não são, portanto, simples objetos
neutros que contemplaríamos diante de nós; cada uma delas simboliza e evoca para
nós uma certa conduta [...]” (MERLEAU-PONTY, 2004, p. 23).
Se a Vila de Joanes terá ou não um museu edificado com coisas dentro, será
algo que só daqui a algum tempo poderá ser constatado, uma vez que, durante a
realização das pesquisas não havia nenhum projeto tramitando para a criação de
uma instituição museológica na Vila das Ruínas5. Particularmente ficamos na
expectativa de que esse museu deixe de existir apenas nas narrativas dos
joanenses, mas que de fato, ele possa ser visualizado concretamente de pedra e
cal. Falamos isso, pois consideramos que a criação do museu pode ser uma
possibilidade concreta de manter os vestígios arqueológicos na Vila e isso implica
pensar numa gestão compartilhada. Quem atua na área de museu e patrimônio sabe
5
A Vila de Joanes também é conhecida como a Vila das Ruínas.
19
o quanto a gestão ainda é um campo espinhoso. Ainda carrega-se o ranço de que a
gestão dos diversos patrimônios cabe aos “especialistas do passado” (CANCLINI,
1994). Contudo, acreditamos que esse modelo de gestão estabelecido pode
funcionar fragilmente em alguns contextos, mas não se aplica ao caso de Joanes.
Ao mesmo tempo, não perdemos de vista que o patrimônio arqueológico é
oficializado pelo estado, obviamente que é mais difícil retirar as ruínas da Vila, mas,
os vestígios arqueológicos que se encontram na Escola de Ensino Fundamental são
passíveis de serem transferidos para um museu da capital para ser “armazenado
adequadamente” em uma reserva técnica, sem ser de fato musealizado. Ou seja, o
fato de um acervo está “salvaguardado” na reserva técnica de uma instituição
museológica não quer dizer que esteja musealizado, possibilitando fruição e gerando
conhecimento. Entretanto, também não consideramos que deixar os fragmentos na
escola sem nenhum processo de musealização seja a medida mais adequada.
A partir das narrativas dos Joanenses compreendemos que o museu para eles
pode ser entendido como o lugar do passado, o complemento das ruínas. É
perceptível que eles buscam conhecer e compreender o passado do lugar onde
vivem, sobretudo, a partir dos vestígios arqueológicos. O museu seria o lugar para
contar a “História de Joanes”. Ainda com base nas narrativas dos joanenses
passamos a considerar que a história para eles pode está atrelada a passado, logo
esse passado materializado precisa ser representado e apresentado no museu. Ao
pensar no passado, logo é possível se remeter a ideia de tempo. Sobre o tempo
escreve Norbert Elias: “[...] representação simbólica de uma vasta rede de relações
que reúne diversas sequências de caráter individual, social ou puramente físico.”
(1998, p.17). É um meio de orientação especifico da espécie humana: “[...] para se
orientar, os homens servem-se menos do que qualquer outra espécie de relações
inatas e, mais do que qualquer outra, utilizam percepções marcadas pela
aprendizagem e pela experiência prévia, tanto dos indivíduos quanto a acumulada
pelo longo suceder das gerações” (1998, p.17). Todas as sociedades pensam no
tempo e cria modos de contá-lo, no sentido de ordenar, marcar e valorizar eventos
passados, e contá-lo, no sentido de narrá-lo. Conta-se tanto o tempo cíclico (das
estações, por exemplo), quanto o tempo linear (a sucessão de eventos de natureza
diversos que marcam a vida de um indivíduo, por exemplo). Se toda sociedade
constrói sua noção de tempo, o que Joanes pode atiçar discutir é: como, dentro de
uma mesma sociedade, noções de tempo distintas podem ser construídas,
20
verbalizadas e manipuladas. A cultura material arqueológica é, por motivos óbvios,
ótima para pensar nisto, afinal, seja diante dos pesquisadores, ou dos joanenses, os
artefatos em questão são carregadores de tempo, de passado, ou melhor,
carregadores de noções de tempo e passado.
Para Benjamin: “A verdadeira imagem do passado perpassa veloz. O passado
só se deixa fixar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em
que é reconhecido. [...].” (BENJAMIN, 1994, p. 224). O referido autor continua sua
reflexão sobre o passado, afirmando que: “Articular historicamente o passado não
significa conhecê-lo ‘como ele foi’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal
como ela relampeja no momento do perigo. [...]” (BENJAMIN, 1994, p. 224).
As narrativas dos joanenses também nos levaram a refletir sobre uma questão
bastante complexa. A maioria dos nossos interlocutores sugere que o museu seja
construído próximo às ruínas, algo que é bastante tenso, pois, trata-se de um sítio
arqueológico. No entanto, compreendemos que aquele lugar é passível de
musealização, porém, para os joanenses essa perspectiva não é cogitada. As ruínas
é o símbolo máximo de Joanes, nos atreveríamos a dizer que é partir daquele
fragmento do passado que eles estabelecem uma das suas identidades, no sentido
de reconhecimento de si. A maioria das pessoas com as quais conversamos
desejam que o IPHAN realize algum tipo de intervenção nas ruínas em nível de
conservação, para que a mesma não desabe.
Também é possível entender a partir dos nossos diálogos com os joanenses,
ainda que em menor número, alguns moradores desejam que ao invés de um museu
se construa um memorial. Compreendemos que para os joanenses que defendem a
construção de um memorial, entendem esse espaço como uma espécie de
“minimuseu”, onde deverá ser exposto apenas o material arqueológico de Joanes e
coisas que falem da história local, não precisará ter peças de outras localidades do
Marajó. Eles também disseram que o fato do memorial ser “menor”, não terá
problemas para geri-lo, não haverá tanta burocracia, assim como, não sairá caro a
sua manutenção.
Outro dado importante é que apesar dos forasteiros e filhos de Joanes
chegarem a um consenso no tocante a criação do museu e que ele deverá
potencializar as atividades turísticas na Vila, a tensão entre eles reaparece
fortemente, quando se fala sobre a gestão desse espaço. Para os filhos de Joanes
quem deverá gerir o espaço são pessoas nascidas em Joanes, por outro lado, como
21
alguns forasteiros acreditam que eles deverão implementar e gerir esse espaço
museológico quando for constituído. Acreditamos que tanto os filhos de Joanes,
quanto os forasteiros vislumbram com a criação do museu, sanar problemas que são
de âmbito da gestão pública do Estado, este, muitas vezes, inexistente na Vila.
Por fim, apesar de reconhecermos as particularidades da Vila de Joanes, um
aspecto que nos chamou muito à atenção foi perceber que questões apresentadas
naquele contexto estão em sintonia com demandas que se apresentam no âmbito
nacional e internacional. A busca por conhecer esse passado, que é tão
fragmentado, quase sempre sem continuidade, não é uma singularidade dos
joanenses, mas sim, de vários coletivos humanos espalhados pelas Américas.
Também é possível pensar nas ressignificações dos patrimônios e museus, que de
instrumentos do colonialismo e ainda hoje em alguns contextos, não deixou de ser
um espaço de disputas, tensões e manipulações que resultam em ausências e
silenciamentos, submergindo memórias, numa analogia ao pensamento do Michael
Pollack, passou a ser utilizado como um lugar de voz dos grupos sociais que tiveram
suas vozes silenciadas durante muito tempo na sociedade brasileira e América
Latina.
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22
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IV Reunião Equatorial de Antropologia e XIII Reunião de