DO Editorial A República Suplemento Nós,doRN... Diário Oficial do Estado do Rio Grande do Norte Ano I - Nº 08- Julho de 2005 A pintura que rompe fronteiras 2 Suplemento nós, do RN Apresentação Alargando os horizontes Rubens Lemos Filho Q ue fiquem despreocupados os intelectuais norteriograndenses: o suplemento do Diário Oficial do Rio Grande do Norte, "nós, do RN", veio para ficar. A maior prova disso é a presença desta edição, circulando na periodicidade comprometida com os seus leitores. Esta publicação cresce e adquire respeito nos círculos do saber e da ilustração, graças à política cultural implantada pelo Governo Estadual e seu acompanhamento direto pela Exma. Sra. Governadora Wilma Maria de Faria. "nós, do RN" segue neste mês de julho, desbravando o planeta das artes plásticas para registrar o momento histórico-cultural que o Rio Grande do Norte vive. Pela exigüidade do tempo, a cobertura jornalística limitou-se aos artistas mais conhecidos, seguindo o princípio de que "antiguidade é posto"... Mas tempo virá em que os horizontes deste suplemento serão alargados para mostrar a produção infinita dos artistas e artesãos potiguares de reconhecimento dos profissionais de imprensa responsáveis por este órgão de divulgação cultural. Editorial Criadores e criaturas É com vaidade que registramos a participação, nesta expressão gutemberguiana da cultura norteriograndense, alguns expressivos reprodutores da beleza refletida pelo sol da nossa terra. Enche-nos de emoção, a forte lembrança de Newton Navarro, querido amigo que, partindo, deixou-nos a expressão do mais puro socialismo através do seu patrimônio artístico de inspiração humanista. Miranda Sá Nestas páginas, revemos com satisfação um cortejo de incansáveis batalhadores da cultura potiguar, uns de preciosa permanência nestes campos, outros que ganharam o mundo e, com generosidade, depositaram na terra natal o reconhecimento da sua formação. O reencontro com os valorosos Antonio Marques, Fernando Gurgel, Dorian Gray, Vatenor e Vicente Vitoriano, enche-nos de orgulho. Marques, o respeitável marchand, Gurgel, sempre menino, Dorian, em redoma meritosa, Vatenor e o colorido dos seus cajus, e Vitoriano com a honesta e necessária crítica aos que assediam a perfeição. Chegam também Avelino Araújo, Socorro Evangelista e Zaíra Calda, menos íntimos mas conhecidos e admirados à distância. Os que fazemos "nós, do RN" reverenciamos os criadores e as criaturas da beleza potiguar na eterna primavera das artes plásticas. rua de periferia, nos cafundós-do-judas. Em Parnamirim - que foi distrito de Natal -, em 1944, seus colegas da FAB lhe homenagearam, dando-lhe o nome a um dos logradouros. Alistado no Exército, em Natal, setembro de 1914, já de outubro a novembro, recruta ainda, prestou, como soldado de infantaria, "serviços de guerra" no Ceará, combatendo os jagunços do Padre Cícero do Juazeiro, comandados por Floro Bartolomeu - político metade-médico, metade-cangaceiro. Transferido, em 1915, para o 3º Regimento de Infantaria, no Rio. Garboso 3º. Sargento, em fevereiro de 1920 era aluno da 2ª. Turma da Escola de Aviação Militar, sediada no legendário Campo dos Afonsos. Entre todos, Menezes foi o primeiro a solar (voar só, sem instrutor), o primeiro a receber o brevê internacional do Aeroclube da França e o primeiro a concluir o curso de Piloto-Aviador Militar. Voando na manhã de 29 de setembro de 1920, notou um defeito no motor do caça "Nieuport". Pousou para comunicar a ameaça de pane ao instrutor da Missão Militar Francesa, Cap. Etienne Lafay. Estado do Rio Grande do Norte Assessoria de Comunicação Social Wilma Maria de Faria Governadora do Estado: Carlos Alberto de Faria Gabinete Civil do Governo do Estado Rubens Manoel Lemos Filho Assessoria de Comunicação Social D.E. I. Rubens Manoel Lemos Filho Diretor Geral em exercício Henrique Miranda Sá Neto Coordenador de Administração e Editoração Juracir Batista de Oliveira Subcoordenador de Finanças Eduardo de Souza Pinto Freire Subcoordenador de Informática nós, do RN editor-geral Miranda Sá chefe de redação Moura Neto equipe redacional Paulo Dumaresq - reportagem Anchieta Fernandes - pesquisa João Maria Alves - fotografia diagramação e arte final Correspondências Recebemos do leitor Laélio Ferreira de Melo, por e-mail, uma correspondência em que manifesta seu protesto contra a omissão do nome do sargento-piloto João Menezes de Melo (1896/1920) na edição n. 06 do Suplemento "Nós, do RN", na qual foram retratados os pioneiros da aviação no Rio Grande do Norte. O próprio missivista tratou de apresentar João Meneses de Melo, irmão do poeta Otoniel Menezes, da seguinte maneira: Era natalense da gema, batizado em Nova Cruz. Filho do Capitão João Felismino Ribeiro Dantas de Melo (do Ceará-Mirim) e de Da. Maria Clementina Menezes de Melo (de Canguaretama). Desde 1927 é nome de hangar no Campo dos Afonsos (RJ) e no Campo de Marte (SP.). Um ano depois do seu sacrifício, em 1920, era (e é) rua em Bento Ribeiro, bairro carioca onde Ronaldinho nasceu e aprendeu a jogar bola. Somente há uns seis anos, decorridos oitenta, Natal, seu berço, sua terra, lembrou-lhe o nome para uma Natal - Julho de 2005 Edenildo Simões Alexandro Tavares de Melo Além de não atendê-lo na requisição de outro aparelho para a manobra do "parafuso" (piruetas complicadas, desligando o motor, planando e religando) o francês, que não se dava bem com o Sargento, fê-lo de maneira sarcástica. Tomando a atitude do superior como uma ofensa ao seu brio - e não atendendo aos apelos dos colegas que lhe advertiam, nervosos, para o extremo perigo que correria - voltou ao avião, subiu, fez o que era para ser feito e... caiu! Falhara-lhe o motor ! Não havia pára-quedas, na época; tampouco condições de pouso de emergência. Antes de o avião espatifar-se nas cercanias da estação de trens de Marechal Hermes, livrando-se dos cintos, saltou, livre e só, para a morte. Tombou perto de um campo de futebol, no início da Rua Gravatá. Era solteiro, bonito e tinha só 24 anos de idade. Descansa na "Cripta dos Aviadores" do Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Cordialmente, Laélio Ferreira de Melo Programação Visual Emanoel Amaral Alexandro Tavares de Melo Capa Emanoel Amaral colaboradores Carlos Morais Rubens Lemos Filho Edson Benigno Carlos de Souza João Ricardo Correia apoio gráfico Willams Laurentino Valmir Araújo DEPARTAMENTO ESTADUAL DE IMPRENSA Av. Câmara Cascudo, 355 - Ribeira - Natal/RN Cep.: 59025-280 - Tel.: (084) 3232-6793 Site: www.dei.rn.gov.br - e-mail: [email protected] Suplemento Natal - Julho de 2005 e a r o H da z e v Jorge o l u a P Dum aresq nós, do RN 3 CRÍTICA A s artes visuais no Rio Grande do Norte estão sempre sendo passadas a limpo. Esta tarefa é realizada com austeridade espartana pelo crítico e professor de História da Arte da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o mossoroense Vicente Vitoriano. Sem papas na língua quando o assunto é arte pictórica, o crítico não economiza palavras ao falar de sua paixão. A entrevista começa com pergunta à queima-roupa: existe arte de boa qualidade no Rio Grande do Norte? Do alto de sua experiência, Vitoriano respira fundo e acena positivamente. Mas ressalva: "o que eu sinto falta é de uma maior preparação intelectual dos artistas". Ele atesta que o estado tem excelentes artesãos, no sentido lato do vocábulo, e artistas gráficos do talento de Erasmo Xavier e Newton Navarro. Reportando-se à pintura em si, declara que o Estado tem bons pintores, contudo, por falta de preparação, o artista trabalha de uma maneira muito jogada. "Não vejo muita pesquisa. Aqui e acolá, salvam-se pintores de alto nível como Jomar Jackson e Fernando Gurgel", elogia. Vitoriano revela que vê pouca produção na área dos volumes e os poucos artistas que trabalham com instalação não têm um padrão para se espelhar, o que acaba refletindo pobreza conceitual e visual. "Essa parcela ainda está muito incipiente por conta da falta de o Vitorian te n e preparação", anota. ic V Ele reconhece que há poucos dados sobre as fases que as artes visuais atravessaram no RN. Arrisca dizer que, até Newton Navarro, o estado teve uma fase prémodernista centrada nos temas do academicismo, tais como retrato, paisagem e natureza-morta, que nunca deixaram de existir. A partir de Navarro, o quadro começa a mudar. O modernismo navar- reano é calcado na Escola de Paris, que seria uma associação do grafismo expressionista com pinceladas de cubismo. Esta tendência influenciaria outro importante artista potiguar: o mestre Dorian Gray. Vitoriano cita ainda o pintor Tomé Filgueira que, segundo ele, mantém algumas características expressionistas. "A partir dos anos 1970 começam a aparecer artistas trabalhando com o surrealismo e o primitivismo", registra. Na década de 1980, destaca o grupo Oxente, de onde saíram os artistas Guaraci Gabriel e Sayonara Pinheiro. Exposições e/ou salões ajudam a divulgar e valorizar o artista? Para Vicente Vitoriano, o modelo de salão com premiação, embora criticado e criticável, continua sendo um tipo de padrão. Exemplifica, citando a Bienal de Veneza, a mais importante exposição de artes visuais do mundo. "Realmente funciona no sentido de projetar o artista", avalia. Também pode ocorrer o inverso. Cita o caso de Carlos Humberto Dantas, "um grande artista e premiadíssimo dentro de Natal", mas que está esquecido e fora do mercado. Em compensação, há o caso de Marcelus Bob, que é conhecido e incensado, sobretudo pelo esforço pessoal. Faltam promotores das artes plásticas Docente há 25 anos na UFRN, Vitoriano afirma que a instituição cumpre rigorosamente o seu papel no fomento às artes visuais, mas dentro de limitações financeiras. Acredita que o poder público não é o principal veículo de promoção dos artistas, mas, sim, o mercado. "Os nossos artistas não saem. Falta alguém que os promova", constata. Forma e conteúdo ainda são as pedras de toque na avaliação de uma obra de arte. Para o crítico, a forma é o artesanato; já o conteúdo, precisa ser bem estabelecido e estar rastreável na boa forma. Despido de vaidade, Vitoriano expressa que o papel da crítica não é tão grande quanto se pode pensar. Conforme ele, a crítica é a expressão de uma opinião de uma pessoa orientadora do público. "O crítico não representa ninguém. Ele deve chamar a atenção do leitor ou do telespectador para algo que ele acha interessante ou não, mas sempre como indivíduo", reforça. Ainda sobre o assunto crítica, Vitoriano comenta que o exegeta deve ser necessariamente bem-informado sobre a história da arte, a produção artística e a produção crítica dos outros. Há 11 anos assinando coluna no matutino Diário de Natal, o crítico certifica que sempre escreve pensando no aspecto pedagógico. Com ar professoral, aconselha os artistas a procurarem se capacitar mais mediante educação aprofundada e prática constante. Assevera que a UFRN, por meio do Departamento de Artes, tem grande responsabilidade na formação de futuros artistas e educadores que ingressarão no mercado de trabalho. Finalizando, pede mais marchands, galerias de arte e a manutenção dos salões já existentes. Tela de Moura Rabelo na Pinacoteca do Estado Suplemento nós, do RN A arte de comercializar obras de arte 4 O mercado de obras de arte no Rio Grande do Norte tem dois momentos distintos: antes e depois do marchand Antônio Marques. Referência para qualquer artista e colecionador que se preze, esse filho de Bom Jesus tem verdadeiramente um tesouro pictórico guardado nos lugares onde abriga as obras, quais sejam a Galeria de Arte Antiga e Contemporânea, localizada no Centro de Turismo, e o Solar das Artes, situado à rua Coronel Milton Freire, 2931, na Cidade Jardim. Este último lugar, por sinal, agasalha grande parte de sua coleção particular, constituída por centenas de peças sacras de todos os tipos, tamanhos e procedências, afora quadros e esculturas dos ícones das artes plásticas norte-rio-grandenses. A paixão por santeiros potiguares evoluiu para pesquisa que pretende publicar em livro. Marques informa que quando passou a residir em Natal, nos anos 1950, começou a se interessar pelas artes e pela cultura. Mas o espírito irrequieto obriga-o a dar um salto maior. É quando parte para o Ceará, no início da década de 1960, com o intuito de estudar o conhecimento humano na Faculdade de Filosofia de Fortaleza. Na volta, constata que a 'noiva do sol' não sat- Antônio Marques: marchand desde 1980 isfaz mais o seu gênio aventureiro. Próximo destino: Bélgica. Mora dez anos naquele país de língua francesa, precisamente de 1965 a 1975, tendo estudado teologia e sociologia da cultura. Identificado com o circuito de museus e galerias de arte europeus, Antônio Marques, ao retornar à Natal, se depara "com um grande vazio de mercado no campo das artes plásticas". O choque maior é quando Natal - Julho de 2005 constata que não havia uma só galeria de arte na cidade. "Eu vi que Natal tinha crescido em número de artistas, mas não havia espaço para eles exporem seus trabalhos", relata. Ao ingressar na UFRN, na condição de professor da disciplina Antropologia Cultural, Marques começa a receber pedidos de amigos docentes solicitando-lhe obras de arte. Do amadorismo para o profissionalismo é um pulo. Pouco a pouco vai entrando no mercado e quando menos espera descobre-se marchand. O destino coloca no seu caminho uma sala no Centro de Convivência da UFRN, onde no início da década de 1980 inaugura a galeria Conviv'art, sob os auspícios do exreitor Daladier da Cunha Lima. Prevendo o boom turístico em Natal, Antônio Marques também abre, em 1987, outra galeria de arte, desta feita no Centro de Turismo. "O mercado de obras de arte vai se formando pouco a pouco. Eu acredito que Natal ainda não chegou onde deveria chegar. Mas já houve um avanço. O mercado se dinamiza na medida que surgem galerias de arte", comenta. Para o marchand, esse tipo de espaço incentiva o surgimento de novos artistas, ressaltando também a importância do mercado na sobrevivência e valorização do criador da obra. Perfil do consumidor de arte Médicos, profissionais da área jurídica e professores universitários traduzem o perfil do consumidor de obras de arte em Natal. Indagado sobre os seus artistas prediletos, o marchand esquiva-se argumentando que a resposta será vista como uma forma de prestigiar uns em detri- Quadros da galeria de Marques mento de outros. Mas quando o assunto é preço, ele cita Dorian Gray e Tomé Filgueira como os artistas cujas obras são mais valorizadas no estado. A empatia é o primeiro critério na aquisição de uma obra de arte. A fama do pintor e o valor da obra devem ficar em segundo plano na hora de se adquirir um trabalho. Mas ressalva que se o comprador estiver pensando em investimento, a situação é outra: "você não vai comprar qualquer coisa que encontre na rua e, sim, procurar obra de um artista que já fez exposição, que tem um caminho e uma história, além da própria obra em si". Há 30 anos no mercado de artes, Antônio Marques tem muitos casos pitorescos a relatar. Um deles dá conta da visita de uma senhora à Galeria de Arte Antiga e Contemporânea, querendo comprar um móvel, no mínimo, do Século XVIII. Depois de devassar a galeria, a senhora comenta com o funcionário que nenhum dos móveis lhe interessava, pois eram recentes, uns do Século XIX e outros do Século XX. Tentando ser eficiente na venda, num misto de ingenuidade e ignorância, o auxiliar de Marques sai-se com essa: "Ah, nem se preocupe, o seu Antônio tem peças de todas as épocas. A do Século XVIII ele faz amanhã mesmo". História do mercado de artes. (PJD) Natal - Julho de 2005 Suplemento nós, do RN 5 Acervo da Funcarte conta com 320 obras C entro irradiador de cultura, a Fundação Capitania das Artes (Funcarte) criou curadoria constituída por cinco membros e presidida pelo artista plástico João Natal para avaliar obras e selecionar artistas para a ocupação das três galerias da instituição. Nestes sete primeiros meses de 2005, a Capitania das Artes realizou diversas ações no campo pictórico, abrigando de 1° a 19 de julho, a exposição-denúncia "Fragmentos", da artista plástica Célia Albuquerque, que definiu os trabalhos como "intervenções, por meio do desenho, em fotografias", mostrando ao público agressões perpetradas contra o meio-ambiente. Dando prosseguimento à essa política, a fundação também está expondo, no período de 22 de julho a 16 de agosto, parte do seu respeitável acervo na mostra “Expressões de um conjunto inacabado”. São 40 trabalhos dos mais conceituados artistas plásticos norte-rio-grandenses. Pelas contas do chefe do Departamento de Artes Visuais, Vatenor de Oliveira, o acervo geral da Funcarte contabiliza hoje 320 obras. É ainda intenção realizar, em agosto, o I Salão de Arte Ingênua da Cidade do Natal, congregando artistas que trabalham nessa linha popular, sob a luz da etnografia. A Capitania das Artes está realizando ainda eventos especiais voltados para segmento específico das artes visuais, como é o caso da Mostra 8 de Maio, voltada para a instalação, que, durante uma semana de atividades, comemorou o Dia do Artista Plástico, em parceria com o Movimento 08 de Maio (M8M). A celebração, criada pelo artista Pedro Pereira em 1999, na Fundação Hélio Galvão, também promoveu palestras e debates, inclusive com a presença da curadora da Bienal da América Latina, Leonor Amarante, e do representante da Funarte, Chico Xavier. No dia 9 de Maio, houve o lançamento do livro "Palatnik", do jornalista e crítico de O Globo, Luiz Camilo Ozório, abordando aspectos da vida e da obra do ícone da arte cinética no Brasil, o natalense Abraham Palatnik. Uma semana depois veio a curadora da Bienal de Havana, Ibis Hernandez, que reuniu artistas, críticos e simpatizantes das artes visuais, no auditório da Funcarte, para uma comunicação com filmes. O IX Salão de Artes Plásticas da Cidade do Natal também está confirmado para dezembro. Dada a importância do evento, a Capitania das Artes está revendo o seu re gulamento. Na avaliação da chefe do Departamento de Execuções de Projetos e Atividades Especiais da Funcarte, Candinha Bezerra, o Salão dá oportunidade aos artistas plásticos mostrarem o que estão fazendo de melhor. "É uma forma de incentivo e de crescimento", salienta. Com os tentáculos cada vez mais longos, a Capitania das Artes encetou parceria com a Secretaria Municipal de Educação (SME) com o fito de levar obras do seu acervo para sala de aula, visando fortalecer a cidadania cultural e contribuir para a educação artística dos alunos matriculados na rede municipal de ensino. O projeto "Cultura Viva" envolve professores capacitados para tal empresa, os quais discorrem a respeito da obra propriamente e do artista que a criou. Após a aula, os alunos fazem releitura da obra desenhando-a e/ou pintando-a em papel. Indagada sobre o atual momento das artes visuais no município, Candinha Bezerra responde citando a curadora da Bienal da América Latina, Leonor Amarante, que, segundo ela, "toda vez que vem à cidade se surpreende" com a qualidade dos artistas e das obras. "Os artistas estão questionando mais. Quem faz arte não pode se acomodar. Tem sempre que questionar", encerra. Vatenor e seus cajus: nos quadros da Funcarte Candinha Bezerra: o artísta precisa questionar 6 nós, do RN Suplemento Natal - Julho de 2005 FJA tem quatro campos C om responsabilidades multiplicadas em relação ao Município de Natal, o Governo do Estado, por meio da Fundação José Augusto (FJA), tem quatro linhas distintas de atuação no quesito artes visuais. A primeira diz respeito à renúncia fiscal, por intermédio da Lei Câmara Cascudo de Incentivo à Cultura, que, em 2005, está abdicando de R$ 4 milhões para atender à área. Esta porta aberta para o artista permite que o mesmo possa viabilizar, por exemplo, exposição individual. A segunda linha de atuação refere-se à Pinacoteca do Estado, sediada no Palácio da Cultura, que acolhe mais de 500 obras dos principais expoentes das artes visuais do Rio Grande do Norte, afora algumas expressões brasileiras, como é o caso do pintor modernista Alfredo Volpi. A visitação ao acervo permanente da Pinacoteca é totalmente gratuita e ocorre de terça a domingo, no período de 8h30 às 17h30. Inaugurada em 1998 e localizada na praça 7 de setembro, na Cidade Alta, a Pinacoteca atende à demanda de artistas potiguares que a procuram para expor trabalhos seja em pintura ou escultura. Além da cessão de sala para exposição, o Governo do Estado, por meio da Fundação José Augusto, via Centro de Documentação Cultural Elói de Souza (Cedoc), se encarrega de confeccionar os convites e enviá-los pela ECT. "Esta é a forma com que o governo tem apoiado o artista plástico", depõe a coordenadora do Cedoc, Isaura Rosado. Ela acrescenta ainda que o Cedoc está realizando inventário das obras pictóricas do Governo do Estado, quer as sob a guarda da Pinacoteca, quer as sob a chancela de repartições públicas. Consciente da importância da Pinacoteca e do que representa, Isaura Rosado revela que o prédio está carecendo de serviços de restauração. De acordo com a coordenadora, a governadora Wilma de Faria já autorizou a liberação de recursos da ordem de R$ 110 mil para proceder à recuperação do prédio, que, com a reforma, poderá receber mostras e exposições de consagrados artistas plásticos brasileiros. À parte isso, o Governo do Estado também mantém na Cidade da Criança a Escolinha de Arte Newton Navarro, que realiza trabalho voltado para a formação de jovens pintores, e o Curso de Belas-Artes Jomar Jackson, destinado a adultos. Meninas dos olhos da Fundação José Augusto, as Casas de Cultura Popular espalhadas pelo interior do Estado também exercem impor- de atuação neste setor Foto: Ivanízio Ramos Casa da Cultura: democratização do acesso à cultura com mostras itinerantes pelo interior Isaura Rosado: inventário das obras pictóricas tante papel no processo de descentralização e democratização do acesso à cultura, acolhendo mostras itinerantes de artistas norte-rio-grandenses. Com respeito à Casa de Cultura Palácio Alzira Soriano, inaugurada na cidade de Lajes, no dia 18 de junho último, a Fundação José Augusto realizou exposição de banners, apresentando o tema "Mulher Potiguar", em sintonia com a história de vida da homenageada. Para o futuro próximo, a idéia é investir em intercâmbio entre artistas natalenses e do interior quando da realização do programa "Governo nas Cidades". Seguindo o exemplo da Prefeitura do Natal, o Governo do Estado também pretende criar salão de artes plásticas como já ocorre no Município. Conforme Isaura Rosado, o Centro já tem minutadas as ações para sugerir a criação de prêmios ao presidente da Fundação José Augusto, François Silvestre, e à governadora Wilma de Faria. "Os salões têm dado um impulso muito grande às artes plásticas", complementa. Natal - Julho de 2005 Suplemento Navarro, nós, do RN 7 Foto: Reprodução fantasias de papel numa boemia de cores e tipos Carlos Morais E xistia, encravada no meio da Rússia Imperial, uma aldeia que abrigava um céu enorme, em que vacas coloridas pastavam, os apaixonados levitavam e a maioria das pessoas costumava esvoaçar sobre as casas de madeira ou tocar violino nos telhados. Os amantes da pintura logo descobrem, pela descrição,Vitebski, a aldeia nativa de Marc Chagall (1887-1985), o prodígio russo que, aos 10 anos, se decidiu pelo pincel e, dez anos depois, começou a freqüentar a Sociedade de Belas Artes, em São Petersburgo, e, seduzido pela Europa, foi desembarcar em Paris, onde produziu furiosamente, embriagado pela alquimia da boemia de cores. Aí se naturalizou francês e viveu a maior da sua vida em Saint-Paulde-Vence, no sul da França. Natal, despojada da tradição e do brilho estético-pictórico do universo europeu, acolheu um retirante das letras, despachado de uma fazenda interiorana, em Angicos, determinado a pintar e repovoar o mundo, à sua maneira. E com sua vigorosa imaginação criadora e seu talento bruto em gestação artística, transformou sua aldeia adotiva, a do coração, universalizando-a com o condão cristalizador da arte, ao transportar suas reminiscências vivenciais para as telas, sem deslembrar as suas acontecências infantis, transmutando-as com suas fantasias de papel. "Aqui, o natalense nascido na fazenda angicana de Milhã, que colheu nas mãos as cores das manhãs da Ribeira, das tardes litúrgicas do Tirol, a sempiterna nostalgia dos morros que circundam Natal, e fez desta cidade a paisagem definitiva de seu viver e conviver indissolúveis, nas horas de martirológio que, muitas vezes, a cidade exige de cada um de nós, ou mesmo na extuante, dionística e talássica força de luz que explode na vibração dos dias bons de nossas noites calmas", resumiu o poeta Sanderson Negreiros, companheiro de boemia do poeta a multifacetado artista, também da palavra, Newton Navarro (1928-1991). Desde 1949, na sua primeira exposição de pintura, quando conseguia despertar o sono da letárgica província natalense e imprimir o toque inaugural na criação do espaço da arte moderna, Navarro acordou Natal para um admirável mundo sempre novo. O universo navarriano é a sua vivência, a sua participação diuturna na cidade, em comunhão etilírica com as madruganças e cheganças do sol, em amanheceres de nunca acabar, enlaçado a boêmios repetentes, também em Dó menor, às quais surpreendeu e prestou solidariedade presencial, muitas vezes, em botes alugados, velejando ao sopro do vento e ao sabor das correntes do onipresente Potengi. Potengi, rio que contemplou, 365 vezes por ano, o descaimento do Sol sob as janelas do atalaia Cascudo. Navarro apresenta - e representa - sua cidade com o traço onírico, apontador de uma beleza imortal. Projeta a alma natalense em tintas carregadas e mescladas de paixão: suas ruas da Ribeira, enfumaçadas, margeantes ao Potengi, com suas prostitutas plantonistas, sempre à espera de seus cambaleantes marinheiros à procura de novo amor em novo porto, seus becos dorminhoquentos, suas esquinas imprevisíveis, a salsugem despejada pelo mar e pelo rio, tudo isso com pinturas riscadas por jorros de encanto estético. Navarro congela essa característica de Natal, sua essência, por natureza e excelência, de cidade talássica, reconquistada diariamente por um azul mediterrâneo. Uma das epígrafes do seu livro "Do Outro Lado do Rio entre os Morros" resgata um verso de Albert Camus: "Quem vem pra beira do Mar/ Nunca mais quer voltar..." O desejo de Navarro em enriquecer e dotar com veracidade a sua obra, inventou, com a intensidade de sua inspiração, personagens fantásticos, incorporados à sua estética artística. Seus São Francisco respiram a dignidade do homem que reencontra a pureza e a sensibilidade primitivas, a Newton Navarro: imaginação criadora capacidade de amar ao próximo, o altruísmo dos despossuídos de bens materiais mas ricos de espírito e de coração. Nos temas de realidade nordestina, do cangaço, das danças e do festejos populares, funde-se sempre a identificação do artista com as raízes de uma cultura menos folclórica e mais enriquecida, de alguém que acocora o ouvido no som geral do mundo e, de repente, percebe e escuta o contentamento e magia da estranha alegria que enternece o coração o povo. Navarro conseguiu, com sua visão penetrante da alma brasileira, com uma linguagem pictórica impactante, em que suas paisagens marinhas e toda uma galeria de tipos de temas incorporados em sua pintura (históricos, sociais, religiosos, o trabalho no campo, cidade, infância, festas populares, animais e paisagens) e que se transformaram em marca registrada de nossa universalidade nordestina. São seres que passaram a habitar o coletivo de nossa gente, imorredouros, portanto, envolvidos no contexto filosófico, social e política de sua obra. Cada pintor patrimonizará, quando único e verdadeiro, seu traço especial, marcante, perpetuando no interior daquele território artístico daquele museu imaginário, descrito por André Malraux. Esse é o legado que recebemos da herança artístico-estética de Navarro. 8 nós, do RN Suplemento Natal - Julho de 2005 Um terremoto docemente pornográfico U geografia dos mitos de Newton Navarro. m artista múltiplo, não apenas no mundo da província. O 'Subúrbio do Silêncio" e "O Solitário Em 1960, o trabalho desse grupo frutificaria das artes plásticas, alcançando destaque e premiado também nos campos da literatura com o despontar de uma geração que começava a Vento do Verão" - Na pela de poeta, despontou - conto, novela e poesia - e na carpintaria teatral. dar suas primeiras pinceladas em busca da con- com o "Subúrbio do Silêncio", em 1953, já imponDepois de sua vinda de Angicos para Natal, onde sagração provinciana. Navarro, a partir daquele final do seu estilo pessoal, um estilo moderno, pontiviveu sua infância e adolescência, e partir para Recife, dos anos 1940, passou a revolucionar e fazer parte lhado por versos livres, despidos de rima e também onde foi estudar Direito e desviou-se para sua ver- de todos os movimentos artísticos do estado, tendo aplicando um pontapé na cadência ordeira e submissa da métrica bem dadeira arte, a pincomportada, confestura. Aí começou a sando estar cami- nhanfreqüentar o curso do na busca do "lirismo livre de desenho, comedido". ministrado por Lula Em 1964, nos Cardoso Ayres, primeiros anos de perfilamudança que determento ao regime dos genminou uma guinada erais, o poeta Navarro conna sua carreira quista o prêmio Câmara profissional, deterCascudo, escrevendo num minando-o a optar estilo popular, na inforpela arte, que conmalidade dos poetas do quistou uma nova cordel. dimensão ao participar do I Salão E quando penetrou de Arte Moderna, na área do conto, com no Recife, em 1948, "O Solitário Vento do quando Newton Verão, o escritor e crítiNavarro ainda ia co Manoel Onofre Jr já completar 20 anos alertava para o nascide idade. A partir mento de um ta- lento daí, adotaria a que "se firmava com M arte como sua maiúsculo", reforçado primeira dama, Navarro adotou a arte como sua primeira dama, companheira até a sua morte em março de 1991 quando escreveu seu companheira até segundo livro de contos, em seguida viajado para a Europa, de onde voltou "Os Mortos São Estrangeiros", em 1970, e, logo sua morte, em 18 de março de 1991. Navarro provocaria um terremoto artístico- com sua bagagem recheada de influências, mas sem depois, quando produziu sua bela novela "De Como estético, em Natal, no ano seguinte, quando se apre- jamais perder o seu vigor artístico pessoal, irre- se Perdeu o Gajeiro Curió, em 1978. Também pensentou no II Salão de Arte Moderna do Estado, movível e sua marca de pintor figurativo incon- etrou no carpintaria teatral, escrevendo, entre outras material que trazia de Recife a bagagem a marca do fundível. Uma personalidade que se alçou à obras a adaptações de peças, "Via Sacra", "Onde novo, a autenticidade do traço, o ideal viçoso da condição de artista plástico número um da arte Começa a Cruz", "Jardim Chamado Getsêmani" e "O juventude: apresentou quadros provocadores e norte-rio-grandense, pela monumentalidade arroja- Muro", de Jean-Paul Sartre. docemente irresponsáveis, para a sonolência pictóri- da de sua composição a estampar o talento de Navarro, boêmio até às últimas conseqüências, ca e artista da cidade, um deles com título ao estilo muralista, pelas suas delicadezas imagísticas popu- podia resumir sua eterna peregrinação boêmia e líride Nelson Rodrigues, "Sejamos docemente lares, pelas vigorosas representações simbólicas de ca com um poeta com quem ele tinha o afinidade, pornográficos" e "Frutos do Amor Amadurecem sua estética pictórica, a existência corpórea dos vul- Maiakosviski, o menino de ouro da Revolução ao Sol". Trabalhos que, juntamente com os de tos navarrianos, plasmado pela qualidade e verniz Russa, que destilou uma sentença: "É melhor se Dorian Gray Caldas e Ivon Rodrigues, ganharam as humano e pela profundeza do sentimento, que embriagar de vodca de que de tédio". Navarro prefemanchetes dos jornais e agitaram os meios artísticos obrigaram Natal a adentrar no universo da ria uísque, cachaça ou cerveja. (CM) Natal - Julho de 2005 : y a r G rDo ian Suplemento nós, do RN 9 uma vocação nata para a pintura Carlos de Souza Dorian Gray mantém a simplicidade do início de carreira e confessa compulsão pela leitura orian Gray Caldas é, provavelmente, o maior pintor potiguar de sua geração. Aos 75 anos, ele continua com a mesma simplicidade que sempre o acompanhou na trajetória de sua carreira artística. Ele nos recebeu na sua casa da rua Ana Néri, numa manhã de sexta-feira, pedindo desculpas pela demora porque estava tentando limpar as tintas das mãos. "Sou diferente de Portinari, que se vestia todo de branco para pintar. Quando pinto, fico todo lambuzado". Nasceu em Natal no ano de 1930 e logo cedo descobriu sua vocação. "Comecei a pintar muito novo, cedo... pintar não, desenhar, eu desenhava tudo que via. Desenhava com carvão, desenhava com giz, desenhava no chão, quer dizer, para mim não precisava nem papel. Eu estava sempre criando, né? Isso, com oito anos de idade eu já desenhava. E com 10 anos eu já pertencia àquela categoria de artistas que a família olha e diz: 'Tá bonito, tá parecido'. É aquela coisa de fazer a cópia, eu copiava muito. Fazia cópia dos clássicos. E tudo que via eu reproduzia, quer dizer uma compulsão pela pintura e, realmente, uma vocação que despertou muito cedo em mim. Uma vocação para a arte". Isso não é muito estranho quando se sabe que Dorian cresceu num meio que valorizava a arte. Sua mãe gostava de pintar, seu tio Rabelo Moura gostava de pintar, seu tio Rafael Rabelo era poeta. "Meu tio Moura era pintor dos anos 30. Foi embora de Natal, mas tem quadros dele aqui que são famosos: O Caminho da Caridade de Padre João Maria, Entre os Humildes, O Baldo antigo, etc. Era um pintor clássico e eu tinha essa vocação para a pintura clássica, porque eu sabia que copiava bem e era muito natural que eu me encaminhasse a fazer a pintura tal qual ela se apresenta na fotografia, aquela coisa bem nítida, bem disciplinada, bem organizada, o classicismo". Mas depois de adulto, depois dos 18 anos, Dorian Gray começou a despertar para a pintura moderna internacional. Já conhecia o Movimento de Arte Moderna de 22, em São Paulo. "Eu gostava de algumas coisas e de outras não gostava na pintura, como também gostava de algumas coisas e de outras não na literatura. Eu transferi toda aquela minha energia da juventude para produzir esse novo tipo de arte". Com tudo isso, ele confessa que nunca fez cursos regulares de pintura. "Eu fazia uma pintura intuitiva. Mudei também de técnica de pintura por acaso. Conheci Newton Navarro, que fazia parte do Modernismo, conheci a pintura que se fazia em Recife, Vicente Rego Monteiro, Lula Cardoso Ayres, Francisco Brennand, João Câmara, aquela geração do Recife que influenciou muito a pintura aqui do Rio Grande do Norte e a dos paraibanos. Eu tinha muita admiração por esses pintores, então resolvi fazer parte desse grupo. E tinha uma coisa que me ajudou muito, foi a pintura francesa, eu tinha um amigo, Geraldo Carvalho, que recebia muita revista francesa. Nós éramos muito amigos e ele fundou a Revista de Letras, aqui em Natal, e eu fui o primeiro ilustrador e escrevia também. Era uma revista que já nasceu com bom conceito. E eu tinha acesso à pinacoteca e aos livros dele, principalmente aos livros de arte. Foi quando eu descobri a pintura francesa, os impressionistas, os abstratos, o abstracionismo estava começando a despertar com grande alarde". D Compulsão pela leitura Grandes mestres como Mondrian, Paul Klee, Kandinski passaram a fazer parte da vida de Dorian. "Eu decidi que devia mudar a minha maneira de pintar. Porque a maneira de pintar que eu fazia, até então, era a clássica, e reproduções. Quando vi que havia esse outro viés da pintura, eu absorvi aquela coisa e nada melhor do que esses mestres para desenvolver minha arte". Foi por essa época também que Dorian Gray aperfeiçoou mais seus conheci- mentos de literatura. "Comecei a ler um pouco, exercitar um pouco a minha leitura, porque na minha casa, meus pais liam, mas a nossa biblioteca era pequena. Eu também tinha uma verdadeira compulsão pela leitura. Na juventude é a fase que a gente lê mais, porque tem mais tempo". Isso depois resultaria numa maior incursão de Dorian Gray pela literatura, notadamente a poesia, ofício a que iria se dedicar até os dias atuais, escrevendo versos, crônicas, artigos e hoje é autor de vários livros, dos quais os que mais se destacam são os livros sobre as artes plásticas no Rio Grande do Norte. Qualquer leitor mais atento sabe que Dorian Gray figura todos os domingos nas páginas da Tribuna do Norte, na página Quadrantes, em que divide o espaço com Sanderson Negreiros e Clotilde Tavares, além de outros nomes de destaque da cultura potiguar como a poetisa Carmen Vasconcelos. Porém, nesta fase da vida, o pintor já começava a mostrar seus trabalhos ao público potiguar. "A primeira exposição minha, nos anos 50, com Newton Navarro e Ivon Rodrigues, foi no Primeiro Salão de Artes Modernas de Natal e Veríssimo de Melo em uma crônica a propósito da exposição, disse que eu era o mais moço dos três que estavam expondo, mas o mais aproximado ao abstracionismo. Porque eu fiz uma exposição totalmente abstrata e Navarro fez uma figurativa e Ivon também. Ivon com umas figuras parecendo um pouco com El Grego e tinha alguma coisa de Modigliani... e Navarro esplendoroso, com uma pintura muito influenciada por Picasso. Eu me lembro que, nos preparativos da exposição, ele preparou ligeiramente um galo bem bonito". Essa exposição foi realizada no antigo prédio da Cruz Vermelha, na avenida Rio Branco, Cidade Alta, e surpreendeu pela qualidade dos jovens artistas expositores que iriam levar bem longe o nome das terras potiguares no mundo das artes plásticas. 10 nós, do RN Suplemento Uma mistura de artes plásticas e literatura M uita gente pensa que artistas plásticos potiguares vivem exclusivamente da produção de sua arte. Mas se tomarmos Dorian Gray como exemplo, vamos ficar cientes de que a realidade é bem diferente. Ele é funcionário público aposentado pela Secretaria de Tributação. "Nunca vivi de pintura. Até dizem que eu assumi a pintura e que era o único pintor que vivia da arte. Eu vivi da arte da tapeçaria, principalmente, fui funcionário público, tive alguns cargos de confiança, fui diretor de cultura, diretor de museu (isso no governo de Monsenhor Walfredo), fui diretor de teatro. Mas, a tapeçaria foi que me permitiu, por alguns anos, praticamente 10 anos, de ter uma sobrevivência na arte, a tapeçaria me deu isso. Porque a tapeçaria é uma obra encantatória, tem muita cor e houve por parte dos críticos brasileiros e dos colecionadores, uma procura muito grande. Eles me procuraram e eu comecei a vender, vendi para o Brasil inteiro e até no estrangeiro". Dorian Gray chegou a produzir uma quantidade de tapetes tão formidável que hoje ele não sabe ao certo quanto vendeu, mas estima em milhares. E a pintura, que sempre foi sua grande paixão, esta não vendeu tanto, apesar da qualidade incontestável. "Eu vendo hoje mais a pintura do que eu vendia nos anos 60,70,80. Naqueles anos era a coisa de pintar, guardar em casa, expor... Eu expus no Brasil inteiro, no Recife, na Bahia, em São Paulo, no Rio de Janeiro e também nos Estados Unidos, em Washington. Essa versatilidade fez com que Dorian Gray permanecesse como o grande artista de sua geração. Hoje seus murais encantam quem circula com o olhar mais atento por Natal. O mural mais recente, o do Aeroporto Augusto Severo é o cartão de visitas da cidade para o turista que chega para conhecer nossas belezas naturais e culturais. "Eu sempre fui muralista, está aí uma coisa que é também interessante. Quando Clarivaldo Prado Valadares esteve aqui em Natal, veio para dar um curso. Ele viu meu trabalho e disse: 'Olha, você é um muralista'. Mesmo quando eu faço trabalhos pequenos eu dou a dimensão de um mural. Eu acompanhei muito o trabalho dos muralistas: Rivera, Orozco, Portinari, Djanira...". Daí a pujança de seus desenhos valorizando as formas curvilíneas do corpo humano. "Eu acho que a minha influência na figura humana, a forma mais gorda, eu sempre defendo a forma gorda na pintura, porque há uma tradição nisso, eu acho que sempre foi Portinari o meu mestre. Embora tenha procurado não ser muito influenciado por ele, porque Portinari é uma marca, um pintor nacional, um pintor de grande envergadura. A forma mais usual minha é a que Portinari consagrou, aquela forma gorda. E é até um contracenso você achar, em Portinari, um pintor de tema social, fazer formas opulentas. É um contracenso. Eu sinto que Portinari também teve uma influência de Picasso, porque este também tem, na fase azul, que é uma fase de figuras gordas, arrendondados. E tem uma fase também da Flauta de Pan, que se parece mais com a obra de Portinari, porque, além de ser gorda, ela é terrosa, ele usava poucas cores. São formas gordas e escuras, muito parecidas com aquela fase do Café, de Portinari". Há influências também, na obra de Dorian Gray, do mexicano Diego Rivera, com sua forma gorda e também do colombiano Botero. Dorian Gray vive uma fase especial em sua pintura. Hoje ele cobra o mesmo que artistas nacionais pelos seus quadros. "Eu modifiquei um pouco meu mercado de arte. Hoje eu estou pedindo bem mais caro que antes. Porque até o ano passado, eu vendia meus quadros ao preço que se vende aqui em Natal, os artistas iniciantes. Realmente é porque eu pensava em viver da arte e a tapeçaria eu vendia a preço de metro quadrado. Eu considerava que estava vendendo quase que um artesanato. Então vendi muito. Foi uma fase muito boa economicamente. E a pintura eu sempre guardei, que tinha mais valor, e realmente tem. Hoje os quadros estão bem mais caros. Eu quero ver se eu me aproximo um pouco do mercado nacional". (C.S) Natal - Julho de 2005 Natal - Julho de 2005 Suplemento nós, do RN 11 Foto: Giovanni Sérgio Impressões expressas de um artista Fernando Gurgel em seu atelier: o artista já realizou duas exposições este ano. uma coletiva e outra individual, o que revela seu ìmpeto laborioso Moura Neto É possível encontrá-lo numa mesa de bar ou de restaurante, sozinho, absorto em tudo que se passa em volta. Durante duas, três horas, fica assimilando os acontecimentos urbanos, munindo-se de impressões. Capta palavras e gestos como uma antena parabólica. Como matéria prima para ser lapidada. O mesmo processo pode se repetir no cinema, na frente da televisão ou no meio da rua, em pleno trânsito. E geralmente dura algumas semanas, até traduzir essas imagens, em estado bruto, para o papel, para a tela, para um painel, geralmente com uma série de obras sobre o mesmo tema. O processo criativo do artista plástico Fernando Gurgel transcorre em dois momentos distintos, como ele mesmo afirma: no primeiro, a arte o domina. Pela emoção, formata as idéias no papel, sem rabiscar nada a priori. Jorra de uma só vez, tudo. No segundo momento, pela técnica, domina a arte. É quando o artista se torna frio, racional, para materializar os conceitos que o consumiam. "Nessa etapa não há espaço para improvisação", conta. Perfeccionista, é capaz de refazer a pintura cinco, seis vezes, até ficar exatamente como imaginou. Aos 47 anos, Fernando Gurgel é um artista premiado pelo talento (Prêmio Governador do Estado, Natal, 1976, entre outros). Com nome consolidado no Rio Grande do Norte e reconhecido até fora do país. Certa vez, visitando um zoológico em João Pessoa, observou o olhar triste dos animais presos em cativeiro. Ficou impressionado com aquela sensação, dispositivo que aciona o ato criativo do artista. Pesquisou o tema nas revistas especializadas, nos programas de TV, na internet. Entendeu que tão deprimente quanto o cárcere, para a vida silvestre, é a industrialização da pele e do couro dos animais. Transformou seu olhar inquieto numa série de colagens, tendo como utensílio o próprio couro, que resultou na exposição intitulada "Manufaturados" (AS Book, 2001). Operante e produtivo, dedica-se à arte como um operário da arte. Funcionário público de carreira, lotado na Secretaria de Educação, Fernando Gurgel passou sete anos à disposição da Fundação Cultural Capitania das Artes, onde ocupou por um ano a função de coordenador do ateliê. Também desenvolveu funções no Solar Bela Vista. Agora tem projetos que pretende desenvolver na repartição de origem, relacionados, é claro, com a questão artística. Arte na infância - A vocação para a arte, podese afirmar, vem do berço. Filho do folclorista Deífilo Gurgel, sobrinho do escritor e jornalista Tarcísio Gurgel, irmão do poeta Carlos Gurgel, encontrou na família o estímulo necessário para seguir sua vocação. Aos quatro, cinco anos, lembra, já gostava de rabiscar. Pintava paisagens, figuras. O pai começou a guardar os desenhos e incentivar a criança, presenteando-a com livros e material apropriados, levando-a a exposições de arte. Um dia, tempos depois, Newton Navarro visita Deífilo. Como todo pai coruja, mostra ao amigo a produção neófita do rebento. Navarro não só gostou do que viu, como viabilizou uma exposição na Galeria Vila Flor Arte, de Augusto Severo Neto, no centro da cidade. Fernando Gurgel não tinha mais do que dez anos de idade, quando alguns trabalhos da sua modesta lavra, em guache sobre papel, ficaram à mostra do público, com divulgação na imprensa e tudo o mais. "Foi uma emoção tão grande, fiquei tão embevecido com aquilo, que terminei perdendo o ano no colégio", recorda. Aluno do Marista, ele era um estudante exemplar, daqueles que são coroados com medalhas. Ainda na infância, enquanto os irmãos e amigos jogavam bola no quintal da sua casa, ele preferia pintar com carvão os muros do mesmo quintal. Era como se estivesse descobrindo, já naquela época, a tendência de trabalhar com espaço amplo. Fernando Gurgel, como artista consagrado, tem painéis pintados na Secretaria Estadual do Trabalho, Habitação e Assistência Social, na Universidade Potiguar, no Sebrae. São pinturas em acrílico ou látex, sobre temas voltados para a função da repartição, medindo, em média, cinco por três metros. Uma curiosidade sobre o artista: ele é daltônico. Significa ser portador de um distúrbio visual, que consiste na incapacidade de perceber certas cores. Durante muito tempo, sua prima Cristina Jácome, também artista plástica, o auxiliou na hora de definir as cores da obra em que trabalhava. "A dificuldade maior era quando pintava figuras humanas, pois costumava trocar o marrom pelo vermelho", confessa. "Mas dizem que o daltônico vê tudo mais bonito, mais colorido", diz, com um sorriso no canto dos lábios. 12 nós, do RN Suplemento Natal - Julho de 2005 Arte sem rótulo, sem compromisso de estilo U m ser urbano, que tira desse contexto os elementos necessários para sua arte. Uma arte sem rótulo, a de Fernando Gurgel, segundo define o próprio. Quando ele fazia um curso de especialização em Artes Visuais no Parque Lage, no Rio de Janeiro, em 1981, recebeu do professor Enéas Valde um ensinamento que alargou seus horizontes e ampliou a dimensão do seu ofício - não ter compromisso estilístico. "Isso foi para mim um divisor de águas", avalia. "Jamais quis virar um produto com marca digital". Ter liberdade de criar, para ele, é algo tão vital quanto o ato de criar. De fato, a obra de Fernando Gurgel não tem uma característica única. Ela passeia por estilos diversos, mas deixa no seu rastro um certo refinamento que identifica o artista. Sua obra o revela pelo que ele quis dizer, pela forma própria como se coloca como artista. "A arte também é autoconhecimento", admite. E Fernando Gurgel foi se conhecendo pelo que concebe enquanto artista, aprimorado pelos cursos que realizou nos grandes centros entre os anos 81 e 88 (além do Parque Lage, Centro de Aquarela Alberto Kaplan, RJ, Atelier Livre do Museu Lasar Segal, SP, e Escola Superior de Propaganda e Marketing, SP). 2005 tem sido um ano generoso com ele, que acaba de encerrar com sucesso, no espaço cultural do restaurante Maturi (rua São José, Lagoa Nova), a exposição Impressões Expressas, um conjunto de nove obras, todas vendidas, em que retrata as nuances do cotidiano, como a passagem do tempo e seus efeitos sobre o ser social. Nelas, se utiliza das mesmas técnicas que usava na infância, como colagens, recortes, monotipia, pintura a óleo. Só que, agora, o artista deita um olhar maduro sobre as coisas que vê. No início do ano, participou da coletiva Workshop Brasil Alemanha, na Galeria de Arte da UFRN, uma experiência que o enriqueceu pelo convívio com os artistas alemães, uma espécie de intercâmbio no campo da linguagem visual. "Eles são compulsivos", frisa. As obras de Fernando Gurgel ultrapassaram as fronteiras do Rio Grande do Norte. Já expôs na Alemanha, em duas cidades diferentes (1991), em Portugal (1993) e na Espanha (1995). Lembra-se com carinho da receptividade que ele e outros dois artistas norte-rio-grandenses (César Revoredo e João Natal) tiveram na cidade de Dotternhausen, na Alemanha, onde seus trabalhos ficaram expostos no Museu Werkforum Rohrbach Zement. Vendeu tudo. Uma de suas obras, inclusive, foi adquirida por uma conceituada colecionadora de arte. O que, no mínimo, confere ao artista uma dimensão que vai além da sua aldeia. (MN) O artista visto por: Para onde, da série “Impressões Expressas” Pausa para voar, da série “Impressões Expressas” Diálogo, da série “Impressões Expressas” Vicente Vitoriano (artista plástico, crítico) - "Não é de hoje que Fernando Gurgel surpreende seus admiradores com exposições em que, a cada uma, apresenta frutos de uma criatividade privilegiada. A obra de Fernando Gurgel, em sua polidez, é um estímulo à sensibilidade e à inteligência". Eduardo Alexandre (artista plástico, escritor, fundador da Galeria do Povo) "Fernando Gurgel é um dos artistas plásticos mais criativos que eu conheço no cenário local. Trabalha de forma diversificava, apresentando sempre novas propostas. E é isso que o faz um grande artista". Erasmo Costa Andrade (artista plástico, professor do Departamento de Artes da UFRN, curador do Núcleo de Arte e Cultura da UFRN) - "Um artista que admiro. É um bom pintor, um bom desenhista. Dono de uma técnica apurada, aborda um sua obra uma temática que transcende ao regional, atingindo a universalidade. Está acima do limiar da província". Franklin Jorge (jornalista, escritor, crítico de arte) - "Discreto e laborioso, Fernando Gurgel tem produzido ao longo dos últimos trinta anos uma obra que o inscreve entre os mestres da estética contemporânea. Ao surgir, nos anos ´70, logo se destacou por seu talento inovador, exigência de qualidade e por uma intuição que o fez recusar o apelativo folclórico e as facilidades de um populismo que, herdado da geração anterior, contamina grande parte da produção dos nossos artistas.Juntos, participamos das atividades do famoso e hoje histórico Grupo Cobra, que, juntamente com um pequeno grupo de artistas então ainda muito jovens, fundamos para mostrar além dos limites geográficos do Rio Grande do Norte uma arte antenada com a modernidade.Por tudo o que tem produzido, não tenho receio de afirmar que sua obra, mais do que a de qualquer outro artista aqui nascido e radicado, nos representará no futuro". Natal - Julho de 2005 Suplemento Socorro Evangelista: artista que explora tinta dos vegetais S ocorro Evangelista, 60 anos, professora de ensino de artes da UFRN, é uma das mais importantes artistas plásticas potiguar. Trabalha com pintura desde criança. Começou como profissional em 1979, quando terminou o curso de Educação Artística do Departamento de Arte da UFRN. Junto com um grupo de artistas plásticos do estado, foi uma das fundadoras do Atelier de Artes da UFRN, órgão que depois deu origem ao NAC - Núcleo de Artes e Cultura da UFRN. A técnica que mais gosta de trabalhar é com o óleo, mas, por motivo de problemas de intoxicação, teve que deixar. Dedica-se agora a aquarela, acrílico e técnicas mistas. "Como professora de artes, desenvolvo uma disciplina a qual exige que a gente cada vez mais possa explorar os materiais populares e outras técnicas" conta. Possui uma sensibilidade aguçada e sua inspiração surge com a musicalidade. "Basta uma canção romântica, clássica, e ai realmente entro num estado supremo da sensibilidade da criação", descreve. Seus trabalhos são reconhecidos nacionalmente e divulgados em exposições. Ela já foi agraciada com vários prêmios. Em 1995, participou do I Salão de Artes Plásticas do RN, promovido pela Fundação José Augusto, e ficou em primeiro lugar "Foi quando tive uma grande tristeza na minha vida, pois não recebi o prêmio, que era uma passagem para Barcelona, meu grande sonho", completa. Reconhecida também fora do Brasil, já teve a oportunidade de enviar obras para países como o Canadá, além de ter recebido convites para realizar exposições no México. "Vivo com a arte e não da arte, pois encontro no magistério apoio financeiro para sobreviver", argumenta. "Mas gostaria de viver só da arte". Atualmente está fazendo mestrado em Ciências Sociais na UFRN, onde conclui pesquisa sobre papel reciclado. "Gosto do Mestrado porque tenho a oportunidade de desenvolver meu trabalho com leituras e principalmente porque contribui para ampliar exatamente a contextualização e fundamentação teórica. Faço uma relação de todas as minhas leituras com a arte", conta. Socorro Evangelista não segue somente um estilo. Seu primeiro trabalho foi natureza morta, com a técnica de óleo. Quando criança, como não tinha condições de comprar tinta, explorava plantas, flores, folhas e caules. Já como professora, achou importante implantar um projeto que se chamava "Projeto Arte na Praça, desenvolvido com crianças na rua. Mas como não tinha material para seus alunos, "e para não frustrá-las, procurei fazer o segmento dos próprios vegetais, que contribuiu para minhas futuras pesquisas", conclui. Um toque feminino na obra de arte Fotos: Edson Benigno Edson Benigno nós, do RN 13 Transfigurativismo como o novo na arte potiguar "Trabalho há quase 70 anos com arte; não vivo da arte, mas a arte é minha vida", confessa a artista plástica Zaira Caldas Pereira, 77 anos. Ela lembra que começou pintando cidades, como os casarões de Recife, para onde se mudou aos 8 anos de idade. Mergulhou ainda nas paisagens do sertão, inspirada pelo cenário da região onde vive. Depois, numa outra fase da carreira, resolveu descobrir o seu próprio estilo. Quando se casou, em 1945, foi morar no Rio de Janeiro. Fez várias exposições e teve contatos com artistas plásticos. Passou uma temporada pintando as favelas cariocas, numa época em que nelas o crime organizado ainda não tinha se entrincheirado. Recebeu convite para fazer exposição no Museu de Niteroi. Foi no Rio de Janeiro, também, que Zaira descobriu o Transfigurativismo, nome concebido pelo critico de arte Valmir Ayala para conceituar tudo que já foi feito em arte. "Zaíra acabou descobrindo que a arte ainda tem caminhos inimagináveis e que, além do Transfigurativismo, ela ainda explica a teoria da terceira visão", afirma Iaperi Araújo, médico, artista plástico e crítico de arte. "A escolha da palavra Transfigurativismo deve ser entendida como proposta estética e ética, como palavra psicológica espiritual, perante o quadro da criação intelectual da sua realização e sua contingência de produzir efeitos externos", escreveu Franco Jasiello. "As pessoas não tomaram consciência que Transfigurativismo é uma coisa nova. É tão importante quanto o Cristianismo, o Socialismo, etc. Os artistas têm receio de afirmarem isto, mas os críticos, professores de artes de fora do Brasil, afirmam", atesta Zaíra. Ganhadora de Medalha de Ouro na Bélgica, em 1997, Zaíra tem quadros expostos na Pinacoteca do Estado. Seu atelier, instalado na sua própria residência, é aberto ao público. Ela costuma utilizar, como matéria prima das suas obras, cascas de cajueiro, raízes de mangues, garrafas e tampinhas de refrige rante, caixas de remédios e pedras de chão. "Minhas escrituras são feitas com raízes, resina e papel jornal", conclui. Zaíra Caldas Pereira: arte de raízes, resina e papel jornal Suplemento 14 nós, do RN Natal - Julho de 2005 ARTES PLÁSTICAS VERSUS POEMA VISUAL Anchieta Fernandes A rigor, não poderia haver distinção entre artes plásticas como gênero, e poema visual como especificidade de prática dentro do gênero artes plásticas: no caso, interpenetrado de semânticas literárias. Poder-se-ia dizer de determinados objetos interpretados como artes plásticas, que são verdadeiros poemas visuais. Exemplo: os objetos seriados em camadas de cores do pintor Ítalo Trindade. Por outro lado, quando um Falves Silva, como poeta/processo, elabora alguns poemas "construtivistas", está com as mesmas "preocupações estéticas explicitadas nas conquistas das vanguardas plásticas" - como disse Dácio Galvão, em seu livro "Da Poesia ao Poema" (Zit Gráfica e Editora, 2004). Justamente Falves Silva e outro poeta visual do RN, Avelino de Araújo, demonstram, ao longo de suas respectivas carreiras de criadores, a competência em trabalharem dentro dos dois vetores: artes plásticas e poemas visuais, com exemplários de obras que de imediato não podem ser confundidas na leitura. Falves Silva: geometrismo como marca Tendo começado na metade da década 60 do século passado como pintor e desenhista, sob influências do cubismo e surrealismo, entre outras correntes, logo, no entanto, Falves Silva adquiriria autonomia em processos próprios. Eu diria que o geometrismo dos primeiros quadros deste paraibano, que adotou o Rio Grande do Norte como sua pátria de criação, ainda é sua marca nas pesquisas gráficas que modelam os contornos das imagens em alguns de seus poemas postais. Ao longo de sua carreira produtiva, ele tem trabalhado telas para exposições e produtos que, sejam ou não no contexto da teoria vanguardística do Poema/Processo, como poemas visuais, e portanto em uma dimensão menor, são publicados em revistas e jornais culturais. Ou fazem-se presentes nos envelopes da Arte Correio; ou, ainda, são o conteúdo dos seus próprios livros de arte. Sua versatilidade tem despertado o entusiasmo leitural dos críticos (J.Medeiros, Moacy Cirne, Dailor Varela, Iaperi Araújo, Nelson Patriota, Flávio M. Lott, Dorian Gray, Assis Brasil, Wlademir Dias-Pino, Jomard Muniz de Britto, J. Charlier Fernandes). Atualmente, pouco pinta. Mas desenha, faz colagens, opera com carimbos e os efeitos de outros materiais. Seus temas principais são o corpo feminino (visualizado com toda a autenticidade erótica, quase pornográfica) e as grandes visões fotográficas (fotografias retrabalhadas, cortadas, montadas com outras) das problemáticas sociais, como a fome, injustiças, cinismo político, os mitos da mídia submetidos ao massacre da exposição diária. Na sua primeira fase, chocou a moral provinciana, tendo quadros retirados de uma exposição por uma autoridade, sob alegação de pornografia. Ele ousou também, na época, expor num famoso cabaré de Natal - o Francesinha. Às vezes, dizer que um trabalho de Falves é artes plásticas ou poema visual se torna um pouco difícil. Adicionando às suas pesquisas a linguagem das estórias em quadrinhos, no entanto seus quadrinhos ultrapassam o endereçamento ao leitor comum das revistas das bancas. São mesmo estórias em quadrinhos? Ou são documentos gráficos, seqüenciados quadro a quadro (ou quadro a anti-quadro, e vice-versa)? Para resumir: quem foi ver a exposição de colagens de Falves "Brasil: Ontem e Hoje", mostrada no já um pouco distante ano de 1983, no Instituto Luis Maranhão, em Natal, participou de um momento de contemplação de arte plástica; quem leu/viu seu livro "Desconstrução Verbal" (1997), esteve partícipe de um momento de poema visual em ação, retraduzindo/redistribuindo a tradição vocabular em abertura a um novo tempo. Falves Silva: poeta gráfico que entusiasma os críticos com sua versatilidade Suplemento Natal - Julho de 2005 nós, do RN 15 Avelino Araújo, poeta plástico A importância deste artista vindo de Patu para revolucionar os caminhos da vanguarda norte-rio-grandense está, pelo menos, em três fatos: um de seus poemas visuais foi o editorial da revista de arte alternativa norte-americana "Pig Iron"; outro está no catálogo de uma exposição na República da Coréia; outros ilustram vários números da revista francesa de vanguarda "Doc(k)s". Na arte de Avelino, também podese rastrear os dois vetores específicos: artes plásticas e poemas visuais. Como Dorian Gray Caldas observou no livro Artes Plásticas do Rio Grande do Norte (1989), "na sua pintura de cavalete, Avelino se permite à divagação onírica e ao niilismo habilidoso, acentuado pelas formas puras. A exigência formal de uma arte erudita (mais para o espírito do que para os olhos), em pleno domínio de formas, sugeridas à semelhança de Miro, num universo de fragmentações elétricas. Nesta fase sua arte desata as suas fantasias e o coloca mais próximo dos expressionistas abstratos". Mas, a maior parte da produção de Avelino está nas pesquisas de poemas visuais. É a latência conteudística que se transforma em imagens manifestadas concretamente. O artista (= poeta) procura sempre, ou quase sempre, os temas de uma visão social-política (a fome, a guerra, a ação nefasta de governos ditatoriais e repressores, passando sob o crivo de um registro contestador), determinando-a formalmente desde um compromisso com o comunicante visual, com o semiótico. Nele, o poema obedece (com raras exceções) Fotos: Edson Benigno Avelino Araújo: “divagação onírica e niilismo habilidoso”, segundo Dorian Gray ao efeito de somar a linguagem escrita à linguagem visual. Se a linguagem escrita (veículo da literatura verbal) é perceptível pelo olho, mas de forma linear, sinal após sinal, trata-se aqui de vincular ela à linguagem visual, para resultar num novo veículo lingüístico de comunicação, o poema visual, possibilitador da percepção global imediata. A partir desta operação técnica (onde o poeta trabalha a junção de palavras a imagens usando letraset, fotos de jornais e revistas e seu próprio desenho), desenvolve-se um discurso semiótico, distribuído algumas vezes em séries, imagens seriadas cujo título designador, para uma leitura decodificadora, tanto poderia se referir à forma como ao tema escolhido. Certa vez, em uma entrevista, Wlademir Dias-Pino disse uma frase que expressa à perfeição o entendimento da questão: "eu nunca fiz diferença entre poeta e pintor. Acho que o que é válido é o caráter da invenção." E Avelino é um dos maiores exemplos de inventor norte-rio-grandense no trabalho com o visual: retrabalhando a forma soneto (v. o seu "Livro de Sonetos", 1994), compondo fotos de objetos em planos inusitados, alargando ou encompridando letras de formas a apresentá-las como objetos visuais distintos, montando, colando, operando as possibilidades e os recursos experimentais do computador e da cópia xerox, transitando na Internet, fazendo poemas de humor (quase charges). Poemas plásticos? Artes plásticas poemáticas? Em Avelino de Araújo, cabe uma leitura opcional neste contexto multisemiótico. (A.F) Natal - Julho de 2005 Suplemento 16 .................................................................................................................................................................................. A “O artista é aquele que fixa e torna acessível aos demais humanos o espetáculo de que participam sem perceber” (Merleau-Ponty) A DIMENSÃO ONÍRICA DA MATÉRIA... afirmação glauberiana explica como a arte destrói a brutalidade da matéria, impondo-lhe a fantasia e a pureza transitória da forma. Expressão de emoções e desejos, numa ação criadora de procedimentos inéditos para a invenção de objetos. Eternidade e fugacidade simultâneas: seu pertencimento ao contexto onde se encontra e sua inserção em uma tradição é que lhe dá sentido. O artista reflete sobre a sociedade, seja para criticá-la, afirmá-la ou superá-la. Um caminho de interseção entre o singular e o universal, o particular e o geral; através da nuance de uma obra artística, temos o acesso ao significado de uma realidade. Arte não é apenas alegoria e símbolo. É algo mais profundo, leva-nos a descobrir o sentido da própria história. A arte faz ver a visão, falar a linguagem, ouvir a audição, sentir as mãos e o corpo, emergir o natural da natureza, o cultural da cultura. Arte é, pois, revelação e manifestação da essência humana, esquecida em nossa efêmera existência cotidiana. Onde encontrar raízes, delimitar rupturas, denotar raridades, distender “ismos” ou tendências? Na proto-história, exuberância em instigantes registros para a posteridade, em duas vertentes da arte lítica: a “Nordeste” (Mirador/Parelhas e Pedra do Alexandre/Carnaúbas dos Dantas ), riqueza em ritos cosmogônicos; e a “Agreste” (Lajedo Soledade/Apodi), presença de antropomorfismos totêmicos. A deflagração abrupta da civilização desnuda e se apropria da paisagem, a fortaleza poligonal/estrelar do Gaspar de Samperes; os batavos Frans Prost, Jorge Macgrave e Albert Eckhout, desvendam nossas paragens em desenhos geo/etnográficos. Contemporaneiguarmente, o retratismo de Moura Rabelo. Erasmo Xavier na Art Deco/Nouveau extrapola os fronts da província. Palatinik ensaia o movimento perpétuo via arte cinética. Precursor-modernista, Newton Navarro deglute as vanguardas (“ver com os olhos livres”). Tessituras cubistas nas tapeçarias do Dorian Gray. Impressionismo fulgurante do Thomé Filqueira. Intimismo Expressionista em Leopoldo Nelson. Transfigurativismo fantasmagórico da Zaíra Caldas.O pop-concreto “1822” do Nei L. de Castro conflui ao poema processo, projetando o verso/língua para o universo/linguagem e culmina na visualidade poética do A. de Araújo. Falves Silva, bocetas e concretude minimalista das sêmias até a exaustão sígnica. Temporadas no Inferno & Iluminações, Dunga escancara as portas da “Galeria do Povo” e sacramenta à Praia aos Artistas. Vatenor, “praias sombreadas de cajuais”. Non-sense nas cores do Italo Trindade. Gilson Nascimento, Hiperealismo conga.Grafismo ensandecido do J. Medeiros e o intróito da performance amálgama. Lay-outs aluados Venancianos. Ulteriores humanóides Bobianos. Experimentalismo ousado do Júlio Revoredo. Fernando Gurgel caracteriza a geração 80 (Parque Lage), intervindo na tela/suporte, rasgando, colando. O desbunde pictórico de Flávio Freitas. As linhas caricatuais em Léo Sodré. Saudades do Novenil... Pedro Peralta Pereira prova que na labuta criativa não existe apenas “dom”, mas movimentos corpo/mente - transpiração e inspiração em comunhão. O Oxente (Guaracy, Sayonara e Civone) transgride conceitualmente nas “instalações” e desemboca no M8M - o limiar do fazer engajado. Busca frenética em Valderedo Nunes, Fábio Eduardo e Franklin Serrão. Marcelo Fernandes abstraí-se na cêra. O blague nos traços dos cartuns do Cláudio e Edmar. Nativismo lúdico do João Natal. A arte Brut do Helmut. O “naif ” /ingênuo em Djalma Paixão, Estelo, Iaperi, Nivaldo, Jotó remetem´às faces melancólicas do Assis Marinho. Simplicidade popular e mágica dos bonecos do Chico Daniel e Zé Relampo; no boi de Marinheiro; nas esculturas de Manxa, Ojuara e a talha ontológica do Jordão (Riomar); no sacrossanto do Chico Santeiro. Na fotografia, das reminiscências veladas por Manuel Dantas à plasticidade transluzente de Giovanni Sérgio. Os vídeos paridos no quengo do Augustululante. A redenção da sétima arte na película “Boi de Prata” do Augusto Ribeiro Jr. Enfim, tais protagonistas, em antropofágica profusão estética, combinando experiência de saberes e vertigem das sensações, configuram instrumentos eficazes de legitimação e pertença do imaginário Potiguar. Plínio Sanderson Poeta, Antropólogo e membro do Conselho de Cultura (Lei Câmara Cascudo)