DO
Editorial
A República
Suplemento
Nós,doRN...
Diário Oficial do Estado do Rio Grande do Norte
Ano I - Nº 08- Julho de 2005
A pintura que
rompe fronteiras
2
Suplemento
nós, do RN
Apresentação
Alargando os horizontes
Rubens Lemos Filho
Q
ue fiquem despreocupados os intelectuais norteriograndenses: o suplemento do Diário Oficial do
Rio Grande do Norte, "nós, do RN", veio para
ficar. A maior prova disso é a presença desta edição, circulando na periodicidade comprometida com os seus
leitores.
Esta publicação cresce e adquire respeito nos círculos
do saber e da ilustração, graças à política cultural implantada pelo Governo Estadual e seu acompanhamento
direto pela Exma. Sra. Governadora Wilma Maria de
Faria.
"nós, do RN" segue neste mês de julho, desbravando o planeta das artes plásticas para registrar o momento histórico-cultural que o Rio Grande do Norte vive.
Pela exigüidade do tempo, a cobertura jornalística limitou-se aos artistas mais conhecidos, seguindo o princípio
de que "antiguidade é posto"...
Mas tempo virá em que os horizontes deste suplemento serão alargados para mostrar a produção infinita
dos artistas e artesãos potiguares de reconhecimento dos
profissionais de imprensa responsáveis por este órgão de
divulgação cultural.
Editorial
Criadores e criaturas
É
com vaidade que registramos a participação,
nesta expressão gutemberguiana da cultura norteriograndense, alguns expressivos
reprodutores da beleza refletida
pelo sol da nossa terra. Enche-nos
de emoção, a forte lembrança de
Newton Navarro, querido amigo
que, partindo, deixou-nos a
expressão do mais puro socialismo
através do seu patrimônio artístico
de inspiração humanista.
Miranda Sá
Nestas páginas, revemos com satisfação um cortejo de incansáveis batalhadores da cultura potiguar, uns de preciosa permanência nestes campos, outros que ganharam o mundo e, com generosidade, depositaram na terra natal o
reconhecimento da sua formação.
O reencontro com os valorosos
Antonio Marques, Fernando Gurgel,
Dorian Gray, Vatenor e Vicente
Vitoriano, enche-nos de orgulho.
Marques, o respeitável marchand,
Gurgel, sempre menino, Dorian, em
redoma meritosa, Vatenor e o colorido
dos seus cajus, e Vitoriano com a honesta e necessária crítica aos que assediam a perfeição. Chegam também
Avelino Araújo, Socorro Evangelista e
Zaíra Calda, menos íntimos mas conhecidos e admirados à distância.
Os que fazemos "nós, do RN"
reverenciamos os criadores e as criaturas da beleza potiguar na eterna primavera das artes plásticas.
rua de periferia, nos cafundós-do-judas. Em
Parnamirim - que foi distrito de Natal -, em
1944, seus colegas da FAB lhe homenagearam,
dando-lhe o nome a um dos logradouros.
Alistado no Exército, em Natal, setembro de
1914, já de outubro a novembro, recruta ainda,
prestou, como soldado de infantaria, "serviços de guerra" no Ceará, combatendo os jagunços do Padre
Cícero do Juazeiro, comandados por Floro
Bartolomeu - político metade-médico, metade-cangaceiro. Transferido, em 1915, para o 3º Regimento de
Infantaria, no Rio. Garboso 3º. Sargento, em
fevereiro de 1920 era aluno da 2ª. Turma da Escola
de Aviação Militar, sediada no legendário Campo
dos Afonsos. Entre todos, Menezes foi o primeiro a
solar (voar só, sem instrutor), o primeiro a receber o
brevê internacional do Aeroclube da França e o
primeiro a concluir o curso de Piloto-Aviador Militar.
Voando na manhã de 29 de setembro
de 1920, notou um defeito no motor do caça
"Nieuport". Pousou para comunicar a
ameaça de pane ao instrutor da Missão
Militar Francesa, Cap. Etienne Lafay.
Estado do Rio Grande do Norte
Assessoria de Comunicação Social
Wilma Maria de Faria
Governadora do Estado:
Carlos Alberto de Faria
Gabinete Civil do Governo do Estado
Rubens Manoel Lemos Filho
Assessoria de Comunicação Social
D.E. I.
Rubens Manoel Lemos Filho
Diretor Geral em exercício
Henrique Miranda Sá Neto
Coordenador de Administração
e Editoração
Juracir Batista de Oliveira
Subcoordenador de Finanças
Eduardo de Souza Pinto Freire
Subcoordenador de Informática
nós, do RN
editor-geral
Miranda Sá
chefe de redação
Moura Neto
equipe redacional
Paulo Dumaresq - reportagem
Anchieta Fernandes - pesquisa
João Maria Alves - fotografia
diagramação e arte final
Correspondências
Recebemos do leitor Laélio
Ferreira de Melo, por e-mail, uma correspondência em que manifesta seu
protesto contra a omissão do nome do
sargento-piloto João Menezes de Melo
(1896/1920) na edição n. 06 do
Suplemento "Nós, do RN", na qual
foram retratados os pioneiros da aviação no Rio Grande do Norte. O
próprio missivista tratou de apresentar
João Meneses de Melo, irmão do poeta
Otoniel Menezes, da seguinte maneira:
Era natalense da gema, batizado em
Nova Cruz. Filho do Capitão João Felismino
Ribeiro Dantas de Melo (do Ceará-Mirim) e
de Da. Maria Clementina Menezes de Melo
(de Canguaretama). Desde 1927 é nome de
hangar no Campo dos Afonsos (RJ) e no
Campo de Marte (SP.). Um ano depois do seu
sacrifício, em 1920, era (e é) rua em Bento
Ribeiro, bairro carioca onde Ronaldinho
nasceu e aprendeu a jogar bola. Somente há
uns seis anos, decorridos oitenta, Natal, seu
berço, sua terra, lembrou-lhe o nome para uma
Natal - Julho de 2005
Edenildo Simões
Alexandro Tavares de Melo
Além de não atendê-lo na requisição de
outro aparelho para a manobra do "parafuso" (piruetas complicadas, desligando o
motor, planando e religando) o francês, que
não se dava bem com o Sargento, fê-lo de
maneira sarcástica. Tomando a atitude do
superior como uma ofensa ao seu brio - e
não atendendo aos apelos dos colegas que
lhe advertiam, nervosos, para o extremo
perigo que correria - voltou ao avião,
subiu, fez o que era para ser feito e...
caiu! Falhara-lhe o motor ! Não havia
pára-quedas, na época; tampouco
condições de pouso de emergência. Antes
de o avião espatifar-se nas cercanias da
estação de trens de Marechal Hermes,
livrando-se dos cintos, saltou, livre e só, para a
morte. Tombou perto de um campo de futebol, no início da Rua Gravatá. Era solteiro, bonito e tinha só
24 anos de idade. Descansa na "Cripta dos Aviadores"
do Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.
Cordialmente,
Laélio Ferreira de Melo
Programação Visual
Emanoel Amaral
Alexandro Tavares de Melo
Capa
Emanoel Amaral
colaboradores
Carlos Morais
Rubens Lemos Filho
Edson Benigno
Carlos de Souza
João Ricardo Correia
apoio gráfico
Willams Laurentino
Valmir Araújo
DEPARTAMENTO ESTADUAL DE IMPRENSA
Av. Câmara Cascudo, 355 - Ribeira - Natal/RN
Cep.: 59025-280 - Tel.: (084) 3232-6793
Site: www.dei.rn.gov.br - e-mail: [email protected]
Suplemento
Natal - Julho de 2005
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nós, do RN
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CRÍTICA
A
s artes visuais no Rio Grande do Norte
estão sempre sendo passadas a limpo. Esta
tarefa é realizada com austeridade espartana pelo crítico e professor de História da Arte da
Universidade Federal do Rio Grande do
Norte, o mossoroense Vicente
Vitoriano. Sem papas na língua quando o assunto é
arte pictórica, o crítico
não economiza palavras
ao falar de sua paixão.
A entrevista começa
com
pergunta
à
queima-roupa: existe
arte de boa qualidade no
Rio Grande do Norte? Do
alto de sua experiência,
Vitoriano respira fundo e acena positivamente. Mas ressalva: "o que eu sinto falta é de
uma maior preparação intelectual dos artistas". Ele
atesta que o estado tem excelentes artesãos, no
sentido lato do vocábulo, e artistas gráficos do talento de Erasmo Xavier e Newton Navarro.
Reportando-se à pintura em si, declara que o
Estado tem bons pintores, contudo, por falta de
preparação, o artista trabalha de uma maneira
muito jogada. "Não vejo muita pesquisa. Aqui e
acolá, salvam-se pintores de alto nível como Jomar
Jackson e Fernando Gurgel", elogia. Vitoriano revela que vê pouca produção na área
dos volumes e os poucos
artistas que trabalham
com instalação não
têm um padrão para
se espelhar, o que
acaba refletindo
pobreza conceitual e visual. "Essa
parcela ainda está
muito incipiente por
conta da falta de
o
Vitorian
te
n
e
preparação",
anota.
ic
V
Ele reconhece que há poucos
dados sobre as fases que as artes visuais
atravessaram no RN. Arrisca dizer que, até
Newton Navarro, o estado teve uma fase prémodernista centrada nos temas do academicismo,
tais como retrato, paisagem e natureza-morta, que
nunca deixaram de existir. A partir de Navarro, o
quadro começa a mudar. O modernismo navar-
reano é calcado na Escola de Paris, que seria uma
associação do grafismo expressionista com pinceladas de cubismo. Esta tendência influenciaria
outro importante artista potiguar: o mestre Dorian
Gray.
Vitoriano cita ainda o pintor Tomé Filgueira
que, segundo ele, mantém algumas características
expressionistas. "A partir dos anos 1970 começam
a aparecer artistas trabalhando com o surrealismo
e o primitivismo", registra. Na década de 1980,
destaca o grupo Oxente, de onde saíram os artistas Guaraci Gabriel e Sayonara Pinheiro.
Exposições e/ou salões ajudam a divulgar e valorizar o artista? Para Vicente Vitoriano, o modelo de
salão com premiação, embora criticado e criticável,
continua sendo um tipo de padrão. Exemplifica,
citando a Bienal de Veneza, a mais importante
exposição de artes visuais do mundo. "Realmente
funciona no sentido de projetar o artista", avalia.
Também pode ocorrer o inverso. Cita o caso de
Carlos Humberto Dantas, "um grande artista e premiadíssimo dentro de Natal", mas que está esquecido e fora do mercado. Em compensação, há o caso
de Marcelus Bob, que é conhecido e incensado,
sobretudo pelo esforço pessoal.
Faltam promotores das artes plásticas
Docente há 25 anos na UFRN, Vitoriano afirma que a instituição cumpre rigorosamente o seu
papel no fomento às artes visuais, mas dentro de
limitações financeiras. Acredita que o poder
público não é o principal veículo de promoção
dos artistas, mas, sim, o mercado. "Os nossos
artistas não saem. Falta alguém que os promova",
constata.
Forma e conteúdo ainda são as pedras de toque
na avaliação de uma obra de arte. Para o crítico, a
forma é o artesanato; já o conteúdo, precisa ser
bem estabelecido e estar rastreável na boa forma.
Despido de vaidade, Vitoriano expressa que o
papel da crítica não é tão grande quanto se pode
pensar. Conforme ele, a crítica é a expressão de
uma opinião de uma pessoa orientadora do público. "O crítico não representa ninguém. Ele deve
chamar a atenção do leitor ou do telespectador
para algo que ele acha interessante ou não, mas
sempre como indivíduo", reforça.
Ainda sobre o assunto crítica, Vitoriano
comenta que o exegeta deve ser necessariamente
bem-informado sobre a história da arte, a produção artística e a produção crítica dos outros. Há
11 anos assinando coluna no matutino Diário de
Natal, o crítico certifica que sempre escreve pensando no aspecto pedagógico.
Com ar professoral, aconselha os artistas a
procurarem se capacitar mais mediante educação
aprofundada e prática constante. Assevera que a
UFRN, por meio do Departamento de Artes, tem
grande responsabilidade na formação de futuros
artistas e educadores que ingressarão no mercado
de trabalho. Finalizando, pede mais marchands,
galerias de arte e a manutenção dos salões já existentes.
Tela de Moura Rabelo na Pinacoteca do Estado
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nós, do RN
A arte de comercializar obras de arte
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O
mercado de obras de arte no Rio
Grande do Norte tem dois
momentos distintos: antes e
depois do marchand Antônio Marques.
Referência para qualquer artista e colecionador que se preze, esse filho de Bom
Jesus tem verdadeiramente um tesouro pictórico guardado nos lugares onde abriga as
obras, quais sejam a Galeria de Arte Antiga
e Contemporânea, localizada no Centro de
Turismo, e o Solar das Artes, situado à rua
Coronel Milton Freire, 2931, na Cidade
Jardim.
Este último lugar, por sinal, agasalha
grande parte de sua coleção particular, constituída por centenas de peças sacras de
todos os tipos, tamanhos e procedências,
afora quadros e esculturas dos ícones das
artes plásticas norte-rio-grandenses. A
paixão por santeiros potiguares evoluiu
para pesquisa que pretende publicar em
livro.
Marques informa que quando passou a
residir em Natal, nos anos 1950, começou
a se interessar pelas artes e pela cultura.
Mas o espírito irrequieto obriga-o a dar um
salto maior. É quando parte para o Ceará,
no início da década de 1960, com o intuito
de estudar o conhecimento humano na
Faculdade de Filosofia de Fortaleza. Na
volta, constata que a 'noiva do sol' não sat-
Antônio Marques: marchand desde 1980
isfaz mais o seu gênio aventureiro. Próximo
destino: Bélgica. Mora dez anos naquele
país de língua francesa, precisamente de
1965 a 1975, tendo estudado teologia e
sociologia da cultura.
Identificado com o circuito de museus e
galerias de arte europeus, Antônio Marques,
ao retornar à Natal, se depara "com um
grande vazio de mercado no campo das
artes plásticas". O choque maior é quando
Natal - Julho de 2005
constata que não havia uma só galeria de
arte na cidade. "Eu vi que Natal tinha
crescido em número de artistas, mas não
havia espaço para eles exporem seus trabalhos", relata. Ao ingressar na UFRN, na
condição de professor da disciplina
Antropologia Cultural, Marques começa a
receber pedidos de amigos docentes solicitando-lhe obras de arte. Do amadorismo
para o profissionalismo é um pulo. Pouco a
pouco vai entrando no mercado e quando
menos espera descobre-se marchand.
O destino coloca no seu caminho uma
sala no Centro de Convivência da UFRN,
onde no início da década de 1980 inaugura
a galeria Conviv'art, sob os auspícios do exreitor Daladier da Cunha Lima. Prevendo o
boom turístico em Natal, Antônio Marques
também abre, em 1987, outra galeria de
arte, desta feita no Centro de Turismo.
"O mercado de obras de arte vai se formando pouco a pouco. Eu acredito que
Natal ainda não chegou onde deveria
chegar. Mas já houve um avanço. O mercado se dinamiza na medida que surgem galerias de arte", comenta. Para o marchand,
esse tipo de espaço incentiva o surgimento
de novos artistas, ressaltando também a
importância do mercado na sobrevivência e
valorização do criador da obra.
Perfil do consumidor de arte
Médicos, profissionais da área jurídica
e professores universitários traduzem o
perfil do consumidor de obras de arte em
Natal. Indagado sobre os seus artistas
prediletos, o marchand esquiva-se argumentando que a resposta será vista como
uma forma de prestigiar uns em detri-
Quadros da galeria de Marques
mento de outros. Mas quando o assunto é
preço, ele cita Dorian Gray e Tomé
Filgueira como os artistas cujas obras são
mais valorizadas no estado.
A empatia é o primeiro critério na
aquisição de uma obra de arte. A fama do
pintor e o valor da obra devem ficar em
segundo plano na hora de se adquirir um
trabalho. Mas ressalva que se o comprador estiver pensando em investimento,
a situação é outra: "você não vai comprar
qualquer coisa que encontre na rua e, sim,
procurar obra de um artista que já fez
exposição, que tem um caminho e uma
história, além da própria obra em si".
Há 30 anos no mercado de artes,
Antônio Marques tem muitos casos
pitorescos a relatar. Um deles dá conta da
visita de uma senhora à Galeria de Arte
Antiga e Contemporânea, querendo comprar um móvel, no mínimo, do Século
XVIII.
Depois
de
devassar a galeria, a senhora comenta com o funcionário que
nenhum dos móveis lhe interessava, pois
eram recentes, uns do Século XIX e outros do Século XX. Tentando ser eficiente
na venda, num misto de ingenuidade e
ignorância, o auxiliar de Marques sai-se
com essa: "Ah, nem se preocupe, o seu
Antônio tem peças de todas as épocas. A
do Século XVIII ele faz amanhã mesmo".
História do mercado de artes. (PJD)
Natal - Julho de 2005
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nós, do RN
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Acervo da Funcarte
conta com 320 obras
C
entro irradiador de cultura, a
Fundação Capitania das Artes
(Funcarte) criou curadoria constituída por cinco membros e presidida pelo
artista plástico João Natal para avaliar obras
e selecionar artistas para a ocupação das
três galerias da instituição. Nestes sete
primeiros meses de 2005, a Capitania das
Artes realizou diversas ações no campo pictórico, abrigando de 1° a 19 de julho, a
exposição-denúncia "Fragmentos", da
artista plástica Célia Albuquerque, que
definiu os trabalhos como "intervenções,
por meio do desenho, em fotografias",
mostrando ao público agressões perpetradas
contra o meio-ambiente.
Dando prosseguimento à essa política, a
fundação também está expondo, no período
de 22 de julho a 16 de agosto, parte do seu
respeitável acervo na mostra “Expressões
de um conjunto inacabado”. São 40 trabalhos dos mais conceituados artistas plásticos
norte-rio-grandenses. Pelas contas do chefe
do Departamento de Artes Visuais, Vatenor
de Oliveira, o acervo geral da Funcarte contabiliza hoje 320 obras. É ainda intenção
realizar, em agosto, o I Salão de Arte
Ingênua da Cidade do Natal, congregando
artistas que trabalham nessa linha popular,
sob a luz da etnografia.
A Capitania das Artes está realizando
ainda eventos especiais voltados para segmento específico das artes visuais, como é o
caso da Mostra 8 de Maio, voltada para a
instalação, que, durante uma semana de
atividades, comemorou o Dia do Artista
Plástico, em parceria com o Movimento 08
de Maio (M8M).
A celebração, criada pelo artista Pedro
Pereira em 1999, na Fundação Hélio
Galvão, também promoveu palestras e
debates, inclusive com a presença da
curadora da Bienal da América Latina,
Leonor Amarante, e do representante da
Funarte, Chico Xavier. No dia 9 de Maio,
houve o lançamento do livro "Palatnik", do
jornalista e crítico de O Globo, Luiz Camilo
Ozório, abordando aspectos da vida e da
obra do ícone da arte cinética no Brasil, o
natalense Abraham Palatnik. Uma semana
depois veio a curadora da Bienal de Havana,
Ibis Hernandez, que reuniu artistas, críticos
e simpatizantes das artes visuais, no
auditório da Funcarte, para uma comunicação com filmes.
O IX Salão de Artes Plásticas da Cidade
do Natal também está confirmado para
dezembro. Dada a importância do evento, a
Capitania das Artes está revendo o seu re gulamento. Na avaliação da chefe do
Departamento de Execuções de Projetos e
Atividades Especiais da Funcarte, Candinha
Bezerra, o Salão dá oportunidade aos artistas plásticos mostrarem o que estão fazendo
de melhor. "É uma forma de incentivo e de
crescimento", salienta.
Com os tentáculos cada vez mais longos,
a Capitania das Artes encetou parceria com
a Secretaria Municipal de Educação (SME)
com o fito de levar obras do seu acervo
para sala de aula, visando fortalecer a
cidadania cultural e contribuir para a educação artística dos alunos matriculados na
rede municipal de ensino. O projeto
"Cultura Viva" envolve professores capacitados para tal empresa, os quais discorrem a
respeito da obra propriamente e do artista
que a criou. Após a aula, os alunos fazem
releitura da obra desenhando-a e/ou pintando-a em papel.
Indagada sobre o atual momento das
artes visuais no município, Candinha
Bezerra responde citando a curadora da
Bienal da América Latina, Leonor
Amarante, que, segundo ela, "toda vez que
vem à cidade se surpreende" com a qualidade dos artistas e das obras. "Os artistas
estão questionando mais. Quem faz arte
não pode se acomodar. Tem sempre que
questionar", encerra.
Vatenor e seus cajus: nos quadros da Funcarte
Candinha Bezerra: o artísta precisa questionar
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nós, do RN
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Natal - Julho de 2005
FJA tem quatro campos
C
om responsabilidades multiplicadas em
relação ao Município de Natal, o Governo
do Estado, por meio da Fundação José
Augusto (FJA), tem quatro linhas distintas de atuação no quesito artes visuais. A primeira diz
respeito à renúncia fiscal, por intermédio da Lei
Câmara Cascudo de Incentivo à Cultura, que, em
2005, está abdicando de R$ 4 milhões para atender à área. Esta porta aberta para o artista permite
que o mesmo possa viabilizar, por exemplo,
exposição individual.
A segunda linha de atuação refere-se à
Pinacoteca do Estado, sediada no Palácio da
Cultura, que acolhe mais de 500 obras dos principais expoentes das artes visuais do Rio Grande do
Norte, afora algumas expressões brasileiras, como
é o caso do pintor modernista Alfredo Volpi. A
visitação ao acervo permanente da Pinacoteca é
totalmente gratuita e ocorre de terça a domingo,
no período de 8h30 às 17h30.
Inaugurada em 1998 e localizada na praça 7 de
setembro, na Cidade Alta, a Pinacoteca atende à
demanda de artistas potiguares que a procuram
para expor trabalhos seja em pintura ou escultura.
Além da cessão de sala para exposição, o Governo
do Estado, por meio da Fundação José Augusto,
via Centro de Documentação Cultural Elói de
Souza (Cedoc), se encarrega de confeccionar os
convites e enviá-los pela ECT. "Esta é a forma
com que o governo tem apoiado o artista plástico", depõe a coordenadora do Cedoc, Isaura
Rosado. Ela acrescenta ainda que o Cedoc está
realizando inventário das obras pictóricas do
Governo do Estado, quer as sob a guarda da
Pinacoteca, quer as sob a chancela de repartições
públicas.
Consciente da importância da Pinacoteca e do
que representa, Isaura Rosado revela que o prédio
está carecendo de serviços de restauração. De
acordo com a coordenadora, a governadora
Wilma de Faria já autorizou a liberação de recursos da ordem de R$ 110 mil para proceder à recuperação do prédio, que, com a reforma, poderá
receber mostras e exposições de consagrados
artistas plásticos brasileiros.
À parte isso, o Governo do Estado também
mantém na Cidade da Criança a Escolinha de
Arte Newton Navarro, que realiza trabalho voltado para a formação de jovens pintores, e o Curso
de Belas-Artes Jomar Jackson, destinado a adultos. Meninas dos olhos da Fundação José
Augusto, as Casas de Cultura Popular espalhadas
pelo interior do Estado também exercem impor-
de atuação neste setor
Foto: Ivanízio Ramos
Casa da Cultura: democratização do acesso à cultura com mostras itinerantes pelo interior
Isaura Rosado: inventário das obras pictóricas
tante papel no processo de descentralização e
democratização do acesso à cultura, acolhendo
mostras itinerantes de artistas norte-rio-grandenses. Com respeito à Casa de Cultura Palácio Alzira
Soriano, inaugurada na cidade de Lajes, no dia 18
de junho último, a Fundação José Augusto realizou exposição de banners, apresentando o tema
"Mulher Potiguar", em sintonia com a história de
vida da homenageada.
Para o futuro próximo, a idéia é investir em
intercâmbio entre artistas natalenses e do interior
quando da realização do programa "Governo nas
Cidades". Seguindo o exemplo da Prefeitura do
Natal, o Governo do Estado também pretende
criar salão de artes plásticas como já ocorre no
Município. Conforme Isaura Rosado, o Centro já
tem minutadas as ações para sugerir a criação de
prêmios ao presidente da Fundação José Augusto,
François Silvestre, e à governadora Wilma de
Faria. "Os salões têm dado um impulso muito
grande às artes plásticas", complementa.
Natal - Julho de 2005
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Navarro,
nós, do RN
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Foto: Reprodução
fantasias de papel numa boemia de cores e tipos
Carlos Morais
E
xistia, encravada no meio da Rússia
Imperial, uma aldeia que abrigava um céu
enorme, em que vacas coloridas pastavam,
os apaixonados levitavam e a maioria das pessoas
costumava esvoaçar sobre as casas de madeira ou
tocar violino nos telhados. Os amantes da pintura
logo descobrem, pela descrição,Vitebski, a aldeia
nativa de Marc Chagall (1887-1985), o prodígio
russo que, aos 10 anos, se decidiu pelo pincel e,
dez anos depois, começou a freqüentar a
Sociedade de Belas Artes, em São Petersburgo, e,
seduzido pela Europa, foi desembarcar em Paris,
onde produziu furiosamente, embriagado pela
alquimia da boemia de cores. Aí se naturalizou
francês e viveu a maior da sua vida em Saint-Paulde-Vence, no sul da França.
Natal, despojada da tradição e do brilho estético-pictórico do universo europeu, acolheu um
retirante das letras, despachado de uma fazenda
interiorana, em Angicos, determinado a pintar e
repovoar o mundo, à sua maneira. E com sua vigorosa imaginação criadora e seu talento bruto em
gestação artística, transformou sua aldeia adotiva,
a do coração, universalizando-a com o condão
cristalizador da arte, ao transportar suas reminiscências vivenciais para as telas, sem deslembrar as
suas acontecências infantis, transmutando-as com
suas fantasias de papel.
"Aqui, o natalense nascido na fazenda angicana
de Milhã, que colheu nas mãos as cores das manhãs da Ribeira, das tardes litúrgicas do Tirol, a
sempiterna nostalgia dos morros que circundam
Natal, e fez desta cidade a paisagem definitiva de
seu viver e conviver indissolúveis, nas horas de
martirológio que, muitas vezes, a cidade exige de
cada um de nós, ou mesmo na extuante, dionística
e talássica força de luz que explode na vibração
dos dias bons de nossas noites calmas", resumiu o
poeta Sanderson Negreiros, companheiro de
boemia do poeta a multifacetado artista, também
da palavra, Newton Navarro (1928-1991).
Desde 1949, na sua primeira exposição de pintura, quando conseguia despertar o sono da letárgica província natalense e imprimir o toque inaugural na criação do espaço da arte moderna,
Navarro acordou Natal para um admirável mundo
sempre novo.
O universo navarriano é a sua vivência, a sua
participação diuturna na cidade, em comunhão
etilírica com as madruganças e cheganças do sol,
em amanheceres de nunca acabar, enlaçado a
boêmios repetentes, também em Dó menor, às
quais surpreendeu e prestou solidariedade presencial, muitas vezes, em botes alugados, velejando ao
sopro do vento e ao sabor das correntes do
onipresente Potengi. Potengi, rio que contemplou,
365 vezes por ano, o descaimento do Sol sob as
janelas do atalaia Cascudo.
Navarro apresenta - e representa - sua cidade
com o traço onírico, apontador de uma beleza
imortal. Projeta a alma natalense em tintas carregadas e mescladas de paixão: suas ruas da
Ribeira, enfumaçadas, margeantes ao Potengi, com
suas prostitutas plantonistas, sempre à espera de
seus cambaleantes marinheiros à procura de novo
amor em novo porto, seus becos dorminhoquentos, suas esquinas imprevisíveis, a salsugem despejada pelo mar e pelo rio, tudo isso com pinturas
riscadas por jorros de encanto estético.
Navarro congela essa característica de Natal,
sua essência, por natureza e excelência, de cidade
talássica, reconquistada diariamente por um azul
mediterrâneo. Uma das epígrafes do seu livro "Do
Outro Lado do Rio entre os Morros" resgata um
verso de Albert Camus: "Quem vem pra beira do
Mar/ Nunca mais quer voltar..."
O desejo de Navarro em enriquecer e dotar
com veracidade a sua obra, inventou, com a intensidade de sua inspiração, personagens fantásticos,
incorporados à sua estética artística. Seus São
Francisco respiram a dignidade do homem que
reencontra a pureza e a sensibilidade primitivas, a
Newton Navarro: imaginação criadora
capacidade de amar ao próximo, o altruísmo dos
despossuídos de bens materiais mas ricos de
espírito e de coração. Nos temas de realidade
nordestina, do cangaço, das danças e do festejos
populares, funde-se sempre a identificação do
artista com as raízes de uma cultura menos folclórica e mais enriquecida, de alguém que acocora
o ouvido no som geral do mundo e, de repente,
percebe e escuta o contentamento e magia da
estranha alegria que enternece o coração o povo.
Navarro conseguiu, com sua visão penetrante
da alma brasileira, com uma linguagem pictórica
impactante, em que suas paisagens marinhas e
toda uma galeria de tipos de temas incorporados
em sua pintura (históricos, sociais, religiosos, o
trabalho no campo, cidade, infância, festas populares, animais e paisagens) e que se transformaram
em marca registrada de nossa universalidade
nordestina. São seres que passaram a habitar o
coletivo de nossa gente, imorredouros, portanto,
envolvidos no contexto filosófico, social e política de sua obra.
Cada pintor patrimonizará, quando único e
verdadeiro, seu traço especial, marcante, perpetuando no interior daquele território artístico
daquele museu imaginário, descrito por André
Malraux. Esse é o legado que recebemos da herança artístico-estética de Navarro.
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nós, do RN
Suplemento
Natal - Julho de 2005
Um terremoto docemente pornográfico
U
geografia dos mitos de Newton Navarro.
m artista múltiplo, não apenas no mundo da província.
O 'Subúrbio do Silêncio" e "O Solitário
Em 1960, o trabalho desse grupo frutificaria
das artes plásticas, alcançando destaque e
premiado também nos campos da literatura com o despontar de uma geração que começava a Vento do Verão" - Na pela de poeta, despontou
- conto, novela e poesia - e na carpintaria teatral. dar suas primeiras pinceladas em busca da con- com o "Subúrbio do Silêncio", em 1953, já imponDepois de sua vinda de Angicos para Natal, onde sagração provinciana. Navarro, a partir daquele final do seu estilo pessoal, um estilo moderno, pontiviveu sua infância e adolescência, e partir para Recife, dos anos 1940, passou a revolucionar e fazer parte lhado por versos livres, despidos de rima e também
onde foi estudar Direito e desviou-se para sua ver- de todos os movimentos artísticos do estado, tendo aplicando um pontapé na cadência ordeira e submissa da métrica bem
dadeira arte, a pincomportada, confestura. Aí começou a
sando estar cami- nhanfreqüentar o curso
do na busca do "lirismo
livre de desenho,
comedido".
ministrado por Lula
Em 1964, nos
Cardoso
Ayres,
primeiros anos de perfilamudança que determento ao regime dos genminou uma guinada
erais, o poeta Navarro conna sua carreira
quista o prêmio Câmara
profissional, deterCascudo, escrevendo num
minando-o a optar
estilo popular, na inforpela arte, que conmalidade dos poetas do
quistou uma nova
cordel.
dimensão ao participar do I Salão
E quando penetrou
de Arte Moderna,
na área do conto, com
no Recife, em 1948,
"O Solitário Vento do
quando Newton
Verão, o escritor e crítiNavarro ainda ia
co Manoel Onofre Jr já
completar 20 anos
alertava para o nascide idade. A partir
mento de um ta- lento
daí, adotaria a
que "se firmava com M
arte como sua
maiúsculo", reforçado
primeira dama,
Navarro adotou a arte como sua primeira dama, companheira até a sua morte em março de 1991 quando escreveu seu
companheira até
segundo livro de contos,
em seguida viajado para a Europa, de onde voltou "Os Mortos São Estrangeiros", em 1970, e, logo
sua morte, em 18 de março de 1991.
Navarro provocaria um terremoto artístico- com sua bagagem recheada de influências, mas sem depois, quando produziu sua bela novela "De Como
estético, em Natal, no ano seguinte, quando se apre- jamais perder o seu vigor artístico pessoal, irre- se Perdeu o Gajeiro Curió, em 1978. Também pensentou no II Salão de Arte Moderna do Estado, movível e sua marca de pintor figurativo incon- etrou no carpintaria teatral, escrevendo, entre outras
material que trazia de Recife a bagagem a marca do fundível. Uma personalidade que se alçou à obras a adaptações de peças, "Via Sacra", "Onde
novo, a autenticidade do traço, o ideal viçoso da condição de artista plástico número um da arte Começa a Cruz", "Jardim Chamado Getsêmani" e "O
juventude: apresentou quadros provocadores e norte-rio-grandense, pela monumentalidade arroja- Muro", de Jean-Paul Sartre.
docemente irresponsáveis, para a sonolência pictóri- da de sua composição a estampar o talento de
Navarro, boêmio até às últimas conseqüências,
ca e artista da cidade, um deles com título ao estilo muralista, pelas suas delicadezas imagísticas popu- podia resumir sua eterna peregrinação boêmia e líride Nelson Rodrigues, "Sejamos docemente lares, pelas vigorosas representações simbólicas de ca com um poeta com quem ele tinha o afinidade,
pornográficos" e "Frutos do Amor Amadurecem sua estética pictórica, a existência corpórea dos vul- Maiakosviski, o menino de ouro da Revolução
ao Sol". Trabalhos que, juntamente com os de tos navarrianos, plasmado pela qualidade e verniz Russa, que destilou uma sentença: "É melhor se
Dorian Gray Caldas e Ivon Rodrigues, ganharam as humano e pela profundeza do sentimento, que embriagar de vodca de que de tédio". Navarro prefemanchetes dos jornais e agitaram os meios artísticos obrigaram Natal a adentrar no universo da ria uísque, cachaça ou cerveja. (CM)
Natal - Julho de 2005
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Suplemento
nós, do RN
9
uma vocação nata
para a pintura
Carlos de Souza
Dorian Gray mantém a simplicidade do início de carreira e confessa compulsão pela leitura
orian Gray Caldas é, provavelmente, o maior
pintor potiguar de sua geração. Aos 75 anos,
ele continua com a mesma simplicidade que
sempre o acompanhou na trajetória de sua carreira
artística. Ele nos recebeu na sua casa da rua Ana
Néri, numa manhã de sexta-feira, pedindo desculpas
pela demora porque estava tentando limpar as tintas
das mãos. "Sou diferente de Portinari, que se vestia
todo de branco para pintar. Quando pinto, fico todo
lambuzado".
Nasceu em Natal no ano de 1930 e logo cedo
descobriu sua vocação. "Comecei a pintar muito
novo, cedo... pintar não, desenhar, eu desenhava tudo
que via. Desenhava com carvão, desenhava com giz,
desenhava no chão, quer dizer, para mim não precisava nem papel. Eu estava sempre criando, né? Isso,
com oito anos de idade eu já desenhava. E com 10
anos eu já pertencia àquela categoria de artistas que a
família olha e diz: 'Tá bonito, tá parecido'. É aquela
coisa de fazer a cópia, eu copiava muito. Fazia cópia
dos clássicos. E tudo que via eu reproduzia, quer
dizer uma compulsão pela pintura e, realmente, uma
vocação que despertou muito cedo em mim. Uma
vocação para a arte".
Isso não é muito estranho quando se sabe que
Dorian cresceu num meio que valorizava a arte. Sua
mãe gostava de pintar, seu tio Rabelo Moura gostava
de pintar, seu tio Rafael Rabelo era poeta. "Meu tio
Moura era pintor dos anos 30. Foi embora de Natal,
mas tem quadros dele aqui que são famosos: O
Caminho da Caridade de Padre João Maria, Entre os
Humildes, O Baldo antigo, etc. Era um pintor clássico e eu tinha essa vocação para a pintura clássica,
porque eu sabia que copiava bem e era muito natural
que eu me encaminhasse a fazer a pintura tal qual ela
se apresenta na fotografia, aquela coisa bem nítida,
bem disciplinada, bem organizada, o classicismo".
Mas depois de adulto, depois dos 18 anos, Dorian
Gray começou a despertar para a pintura moderna
internacional. Já conhecia o Movimento de Arte
Moderna de 22, em São Paulo. "Eu gostava de algumas coisas e de outras não gostava na pintura, como
também gostava de algumas coisas e de outras não
na literatura. Eu transferi toda aquela minha energia
da juventude para produzir esse novo tipo de arte".
Com tudo isso, ele confessa que nunca fez cursos
regulares de pintura. "Eu fazia uma pintura intuitiva. Mudei também de técnica de pintura por acaso.
Conheci Newton Navarro, que fazia parte do
Modernismo, conheci a pintura que se fazia em
Recife, Vicente Rego Monteiro, Lula Cardoso Ayres,
Francisco Brennand, João Câmara, aquela geração
do Recife que influenciou muito a pintura aqui do
Rio Grande do Norte e a dos paraibanos. Eu tinha
muita admiração por esses pintores, então resolvi
fazer parte desse grupo. E tinha uma coisa que me
ajudou muito, foi a pintura francesa, eu tinha um
amigo, Geraldo Carvalho, que recebia muita revista
francesa. Nós éramos muito amigos e ele fundou a
Revista de Letras, aqui em Natal, e eu fui o primeiro
ilustrador e escrevia também. Era uma revista que já
nasceu com bom conceito. E eu tinha acesso à pinacoteca e aos livros dele, principalmente aos livros de
arte. Foi quando eu descobri a pintura francesa, os
impressionistas, os abstratos, o abstracionismo estava começando a despertar com grande alarde".
D
Compulsão pela leitura
Grandes mestres como Mondrian, Paul Klee,
Kandinski passaram a fazer parte da vida de Dorian.
"Eu decidi que devia mudar a minha maneira de pintar. Porque a maneira de pintar que eu fazia, até
então, era a clássica, e reproduções. Quando vi que
havia esse outro viés da pintura, eu absorvi aquela
coisa e nada melhor do que esses mestres para
desenvolver minha arte". Foi por essa época também
que Dorian Gray aperfeiçoou mais seus conheci-
mentos de literatura. "Comecei a ler um pouco,
exercitar um pouco a minha leitura, porque na minha
casa, meus pais liam, mas a nossa biblioteca era
pequena. Eu também tinha uma verdadeira compulsão pela leitura. Na juventude é a fase que a gente lê
mais, porque tem mais tempo".
Isso depois resultaria numa maior incursão de
Dorian Gray pela literatura, notadamente a poesia,
ofício a que iria se dedicar até os dias atuais,
escrevendo versos, crônicas, artigos e hoje é autor de
vários livros, dos quais os que mais se destacam são
os livros sobre as artes plásticas no Rio Grande do
Norte. Qualquer leitor mais atento sabe que Dorian
Gray figura todos os domingos nas páginas da
Tribuna do Norte, na página Quadrantes, em que
divide o espaço com Sanderson Negreiros e Clotilde
Tavares, além de outros nomes de destaque da cultura potiguar como a poetisa Carmen Vasconcelos.
Porém, nesta fase da vida, o pintor já começava a
mostrar seus trabalhos ao público potiguar. "A
primeira exposição minha, nos anos 50, com Newton
Navarro e Ivon Rodrigues, foi no Primeiro Salão de
Artes Modernas de Natal e Veríssimo de Melo em
uma crônica a propósito da exposição, disse que eu
era o mais moço dos três que estavam expondo, mas
o mais aproximado ao abstracionismo. Porque eu fiz
uma exposição totalmente abstrata e Navarro fez uma
figurativa e Ivon também. Ivon com umas figuras
parecendo um pouco com El Grego e tinha alguma
coisa de Modigliani... e Navarro esplendoroso, com
uma pintura muito influenciada por Picasso. Eu me
lembro que, nos preparativos da exposição, ele
preparou ligeiramente um galo bem bonito".
Essa exposição foi realizada no antigo prédio da
Cruz Vermelha, na avenida Rio Branco, Cidade Alta,
e surpreendeu pela qualidade dos jovens artistas
expositores que iriam levar bem longe o nome das
terras potiguares no mundo das artes plásticas.
10 nós, do RN
Suplemento
Uma mistura
de artes plásticas
e literatura
M
uita gente pensa que artistas plásticos potiguares vivem exclusivamente da produção de sua arte. Mas se tomarmos Dorian Gray como exemplo, vamos ficar
cientes de que a realidade é bem diferente. Ele é funcionário público aposentado pela Secretaria de Tributação. "Nunca vivi de pintura. Até dizem que eu assumi a
pintura e que era o único pintor que vivia da arte. Eu vivi da arte da tapeçaria, principalmente, fui funcionário público, tive alguns cargos de confiança, fui diretor de cultura,
diretor de museu (isso no governo de Monsenhor Walfredo), fui diretor de teatro. Mas,
a tapeçaria foi que me permitiu, por alguns anos, praticamente 10 anos, de ter uma
sobrevivência na arte, a tapeçaria me deu isso. Porque a tapeçaria é uma obra encantatória, tem muita cor e houve por parte dos críticos brasileiros e dos colecionadores,
uma procura muito grande. Eles me procuraram e eu comecei a vender, vendi para o
Brasil inteiro e até no estrangeiro". Dorian Gray chegou a produzir uma quantidade de
tapetes tão formidável que hoje ele não sabe ao certo quanto vendeu, mas estima em
milhares.
E a pintura, que sempre foi sua grande paixão, esta não vendeu tanto, apesar da
qualidade incontestável. "Eu vendo hoje mais a pintura do que eu vendia nos anos
60,70,80. Naqueles anos era a coisa de pintar, guardar em casa, expor... Eu expus no
Brasil inteiro, no Recife, na Bahia, em São Paulo, no Rio de Janeiro e também nos
Estados Unidos, em Washington.
Essa versatilidade fez com que Dorian Gray permanecesse como o grande artista
de sua geração. Hoje seus murais encantam quem circula com o olhar mais atento por
Natal. O mural mais recente, o do Aeroporto Augusto Severo é o cartão de visitas da
cidade para o turista que chega para conhecer nossas belezas naturais e culturais. "Eu
sempre fui muralista, está aí uma coisa que é também interessante. Quando Clarivaldo
Prado Valadares esteve aqui em Natal, veio para dar um curso. Ele viu meu trabalho e
disse: 'Olha, você é um muralista'. Mesmo quando eu faço trabalhos pequenos eu dou
a dimensão de um mural. Eu acompanhei muito o trabalho dos muralistas: Rivera,
Orozco, Portinari, Djanira...".
Daí a pujança de seus desenhos valorizando as formas curvilíneas do corpo
humano. "Eu acho que a minha influência na figura humana, a forma mais gorda, eu
sempre defendo a forma gorda na pintura, porque há uma tradição nisso, eu acho que
sempre foi Portinari o meu mestre. Embora tenha procurado não ser muito influenciado por ele, porque Portinari é uma marca, um pintor nacional, um pintor de grande
envergadura. A forma mais usual minha é a que Portinari consagrou, aquela forma
gorda. E é até um contracenso você achar, em Portinari, um pintor de tema social,
fazer formas opulentas. É um contracenso. Eu sinto que Portinari também teve uma
influência de Picasso, porque este também tem, na fase azul, que é uma fase de figuras
gordas, arrendondados. E tem uma fase também da Flauta de Pan, que se parece mais
com a obra de Portinari, porque, além de ser gorda, ela é terrosa, ele usava poucas
cores. São formas gordas e escuras, muito parecidas com aquela fase do Café, de
Portinari". Há influências também, na obra de Dorian Gray, do mexicano Diego
Rivera, com sua forma gorda e também do colombiano Botero.
Dorian Gray vive uma fase especial em sua pintura. Hoje ele cobra o mesmo que
artistas nacionais pelos seus quadros. "Eu modifiquei um pouco meu mercado de arte.
Hoje eu estou pedindo bem mais caro que antes. Porque até o ano passado, eu vendia
meus quadros ao preço que se vende aqui em Natal, os artistas iniciantes. Realmente é
porque eu pensava em viver da arte e a tapeçaria eu vendia a preço de metro quadrado.
Eu considerava que estava vendendo quase que um artesanato. Então vendi muito. Foi
uma fase muito boa economicamente. E a pintura eu sempre guardei, que tinha mais
valor, e realmente tem. Hoje os quadros estão bem mais caros. Eu quero ver se eu me
aproximo um pouco do mercado nacional". (C.S)
Natal - Julho de 2005
Natal - Julho de 2005
Suplemento
nós, do RN
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Foto: Giovanni Sérgio
Impressões expressas
de um artista
Fernando Gurgel em seu atelier: o artista já realizou duas exposições este ano. uma coletiva e outra individual, o que revela seu ìmpeto laborioso
Moura Neto
É
possível encontrá-lo numa mesa de bar ou de
restaurante, sozinho, absorto em tudo que se
passa em volta. Durante duas, três horas, fica
assimilando os acontecimentos urbanos, munindo-se
de impressões. Capta palavras e gestos como uma
antena parabólica. Como matéria prima para ser lapidada. O mesmo processo pode se repetir no cinema, na frente da televisão ou no meio da rua, em
pleno trânsito. E geralmente dura algumas semanas,
até traduzir essas imagens, em estado bruto, para o
papel, para a tela, para um painel, geralmente com
uma série de obras sobre o mesmo tema.
O processo criativo do artista plástico Fernando
Gurgel transcorre em dois momentos distintos,
como ele mesmo afirma: no primeiro, a arte o
domina. Pela emoção, formata as idéias no papel,
sem rabiscar nada a priori. Jorra de uma só vez,
tudo. No segundo momento, pela técnica, domina a
arte. É quando o artista se torna frio, racional, para
materializar os conceitos que o consumiam. "Nessa
etapa não há espaço para improvisação", conta.
Perfeccionista, é capaz de refazer a pintura cinco,
seis vezes, até ficar exatamente como imaginou.
Aos 47 anos, Fernando Gurgel é um artista premiado pelo talento (Prêmio Governador do Estado,
Natal, 1976, entre outros). Com nome consolidado
no Rio Grande do Norte e reconhecido até fora do
país.
Certa vez, visitando um zoológico em João
Pessoa, observou o olhar triste dos animais presos
em cativeiro. Ficou impressionado com aquela sensação, dispositivo que aciona o ato criativo do
artista. Pesquisou o tema nas revistas especializadas,
nos programas de TV, na internet. Entendeu que
tão deprimente quanto o cárcere, para a vida silvestre, é a industrialização da pele e do couro dos
animais. Transformou seu olhar inquieto numa série
de colagens, tendo como utensílio o próprio couro,
que resultou na exposição intitulada
"Manufaturados" (AS Book, 2001).
Operante e produtivo, dedica-se à arte como um
operário da arte. Funcionário público de carreira,
lotado na Secretaria de Educação, Fernando Gurgel
passou sete anos à disposição da Fundação Cultural
Capitania das Artes, onde ocupou por um ano a
função de coordenador do ateliê. Também desenvolveu
funções no Solar Bela Vista. Agora tem projetos que
pretende desenvolver na repartição de origem, relacionados, é claro, com a questão artística.
Arte na infância - A vocação para a arte, podese afirmar, vem do berço. Filho do folclorista
Deífilo Gurgel, sobrinho do escritor e jornalista
Tarcísio Gurgel, irmão do poeta Carlos Gurgel,
encontrou na família o estímulo necessário para
seguir sua vocação. Aos quatro, cinco anos, lembra,
já gostava de rabiscar. Pintava paisagens, figuras. O
pai começou a guardar os desenhos e incentivar a
criança, presenteando-a com livros e material apropriados, levando-a a exposições de arte.
Um dia, tempos depois, Newton Navarro visita
Deífilo. Como todo pai coruja, mostra ao amigo a
produção neófita do rebento. Navarro não só gostou do que viu, como viabilizou uma exposição na
Galeria Vila Flor Arte, de Augusto Severo Neto, no
centro da cidade. Fernando Gurgel não tinha mais
do que dez anos de idade, quando alguns trabalhos
da sua modesta lavra, em guache sobre papel,
ficaram à mostra do público, com divulgação na
imprensa e tudo o mais. "Foi uma emoção tão
grande, fiquei tão embevecido com aquilo, que terminei perdendo o ano no colégio", recorda. Aluno
do Marista, ele era um estudante exemplar, daqueles
que são coroados com medalhas.
Ainda na infância, enquanto os irmãos e amigos
jogavam bola no quintal da sua casa, ele preferia
pintar com carvão os muros do mesmo quintal. Era
como se estivesse descobrindo, já naquela época, a
tendência de trabalhar com espaço amplo. Fernando
Gurgel, como artista consagrado, tem painéis pintados na Secretaria Estadual do Trabalho, Habitação e
Assistência Social, na Universidade Potiguar, no
Sebrae. São pinturas em acrílico ou látex, sobre
temas voltados para a função da repartição, medindo, em média, cinco por três metros.
Uma curiosidade sobre o artista: ele é daltônico.
Significa ser portador de um distúrbio visual, que
consiste na incapacidade de perceber certas cores.
Durante muito tempo, sua prima Cristina Jácome,
também artista plástica, o auxiliou na hora de
definir as cores da obra em que trabalhava. "A dificuldade maior era quando pintava figuras humanas,
pois costumava trocar o marrom pelo vermelho",
confessa. "Mas dizem que o daltônico vê tudo mais
bonito, mais colorido", diz, com um sorriso no
canto dos lábios.
12 nós, do RN
Suplemento
Natal - Julho de 2005
Arte sem rótulo, sem compromisso de estilo
U
m ser urbano, que tira desse contexto os
elementos necessários para sua arte. Uma
arte sem rótulo, a de Fernando Gurgel,
segundo define o próprio. Quando ele fazia um
curso de especialização em Artes Visuais no Parque
Lage, no Rio de Janeiro, em 1981, recebeu do professor Enéas Valde um ensinamento que alargou
seus horizontes e ampliou a dimensão do seu ofício
- não ter compromisso estilístico. "Isso foi para
mim um divisor de águas", avalia. "Jamais quis virar
um produto com marca digital". Ter liberdade de
criar, para ele, é algo tão vital quanto o ato de criar.
De fato, a obra de Fernando Gurgel não tem
uma característica única. Ela passeia por estilos
diversos, mas deixa no seu rastro um certo refinamento que identifica o artista. Sua obra o revela
pelo que ele quis dizer, pela forma própria como
se coloca como artista. "A arte também é autoconhecimento", admite. E Fernando Gurgel foi se
conhecendo pelo que concebe enquanto artista,
aprimorado pelos cursos que realizou nos grandes
centros entre os anos 81 e 88 (além do Parque
Lage, Centro de Aquarela Alberto Kaplan, RJ,
Atelier Livre do Museu Lasar Segal, SP, e Escola
Superior de Propaganda e Marketing, SP).
2005 tem sido um ano generoso com ele, que
acaba de encerrar com sucesso, no espaço cultural
do restaurante Maturi (rua São José, Lagoa Nova),
a exposição Impressões Expressas, um conjunto de
nove obras, todas vendidas, em que retrata as
nuances do cotidiano, como a passagem do tempo
e seus efeitos sobre o ser social. Nelas, se utiliza das
mesmas técnicas que usava na infância, como colagens, recortes, monotipia, pintura a óleo. Só que,
agora, o artista deita um olhar maduro sobre as
coisas que vê. No início do ano, participou da coletiva Workshop Brasil Alemanha, na Galeria de Arte
da UFRN, uma experiência que o enriqueceu pelo
convívio com os artistas alemães, uma espécie de
intercâmbio no campo da linguagem visual. "Eles
são compulsivos", frisa.
As obras de Fernando Gurgel ultrapassaram as
fronteiras do Rio Grande do Norte. Já expôs na
Alemanha, em duas cidades diferentes (1991), em
Portugal (1993) e na Espanha (1995). Lembra-se
com carinho da receptividade que ele e outros dois
artistas norte-rio-grandenses (César Revoredo e
João Natal) tiveram na cidade de Dotternhausen,
na Alemanha, onde seus trabalhos ficaram expostos no Museu Werkforum Rohrbach Zement.
Vendeu tudo. Uma de suas obras, inclusive, foi
adquirida por uma conceituada colecionadora de
arte. O que, no mínimo, confere ao artista uma
dimensão que vai além da sua aldeia. (MN)
O artista visto por:
Para onde, da série “Impressões Expressas”
Pausa para voar, da série “Impressões Expressas”
Diálogo, da série “Impressões Expressas”
Vicente Vitoriano (artista plástico, crítico) - "Não é de hoje que Fernando Gurgel
surpreende seus admiradores com exposições
em que, a cada uma, apresenta frutos de uma
criatividade privilegiada. A obra de Fernando
Gurgel, em sua polidez, é um estímulo à sensibilidade e à inteligência".
Eduardo Alexandre (artista plástico,
escritor, fundador da Galeria do Povo) "Fernando Gurgel é um dos artistas plásticos
mais criativos que eu conheço no cenário
local. Trabalha de forma diversificava, apresentando sempre novas propostas. E é isso
que o faz um grande artista".
Erasmo Costa Andrade (artista plástico,
professor do Departamento de Artes da UFRN,
curador do Núcleo de Arte e Cultura da
UFRN) - "Um artista que admiro. É um bom
pintor, um bom desenhista. Dono de uma técnica apurada, aborda um sua obra uma temática que transcende ao regional, atingindo a universalidade. Está acima do limiar da província".
Franklin Jorge (jornalista, escritor, crítico de arte) - "Discreto e laborioso, Fernando
Gurgel tem produzido ao longo dos últimos
trinta anos uma obra que o inscreve entre os
mestres da estética contemporânea. Ao surgir, nos anos ´70, logo se destacou por seu
talento inovador, exigência de qualidade e
por uma intuição que o fez recusar o apelativo folclórico e as facilidades de um populismo que, herdado da geração anterior, contamina grande parte da produção dos nossos
artistas.Juntos, participamos das atividades
do famoso e hoje histórico Grupo Cobra,
que, juntamente com um pequeno grupo de
artistas então ainda muito jovens, fundamos
para mostrar além dos limites geográficos do
Rio Grande do Norte uma arte antenada
com a modernidade.Por tudo o que tem produzido, não tenho receio de afirmar que sua
obra, mais do que a de qualquer outro artista
aqui nascido e radicado, nos representará no
futuro".
Natal - Julho de 2005
Suplemento
Socorro Evangelista: artista que explora tinta dos vegetais
S
ocorro Evangelista, 60 anos, professora de ensino de artes
da UFRN, é uma das mais importantes artistas plásticas
potiguar. Trabalha com pintura desde criança. Começou
como profissional em 1979, quando terminou o curso de
Educação Artística do Departamento de Arte da UFRN. Junto
com um grupo de artistas plásticos do estado, foi uma das fundadoras do Atelier de Artes da UFRN, órgão que depois deu
origem ao NAC - Núcleo de Artes e Cultura da UFRN.
A técnica que mais gosta de trabalhar é com o óleo, mas, por
motivo de problemas de intoxicação, teve que deixar. Dedica-se
agora a aquarela, acrílico e técnicas mistas. "Como professora de
artes, desenvolvo uma disciplina a qual exige que a gente cada
vez mais possa explorar os materiais populares e outras técnicas" conta. Possui uma sensibilidade aguçada e sua inspiração
surge com a musicalidade. "Basta uma canção romântica, clássica, e ai realmente entro num estado supremo da sensibilidade da
criação", descreve.
Seus trabalhos são reconhecidos nacionalmente e divulgados
em exposições. Ela já foi agraciada com vários prêmios. Em
1995, participou do I Salão de Artes Plásticas do RN, promovido pela Fundação José Augusto, e ficou em primeiro lugar "Foi
quando tive uma grande tristeza na minha vida, pois não recebi
o prêmio, que era uma passagem para Barcelona, meu grande
sonho", completa.
Reconhecida também fora do Brasil, já teve a oportunidade
de enviar obras para países como o Canadá, além de ter recebido convites para realizar exposições no México. "Vivo com a
arte e não da arte, pois encontro no magistério apoio financeiro
para sobreviver", argumenta. "Mas gostaria de viver só da arte".
Atualmente está fazendo mestrado em Ciências Sociais na
UFRN, onde conclui pesquisa sobre papel reciclado. "Gosto do
Mestrado porque tenho a oportunidade de desenvolver meu trabalho com leituras e principalmente porque contribui para ampliar exatamente a contextualização e fundamentação teórica. Faço
uma relação de todas as minhas leituras com a arte", conta.
Socorro Evangelista não segue somente um estilo. Seu
primeiro trabalho foi natureza morta, com a técnica de óleo.
Quando criança, como não tinha condições de comprar tinta,
explorava plantas, flores, folhas e caules. Já como professora,
achou importante implantar um projeto que se chamava "Projeto
Arte na Praça, desenvolvido com crianças na rua. Mas como não
tinha material para seus alunos, "e para não frustrá-las, procurei
fazer o segmento dos próprios vegetais, que contribuiu para minhas futuras pesquisas", conclui.
Um toque feminino na obra de arte
Fotos: Edson Benigno
Edson Benigno
nós, do RN
13
Transfigurativismo como
o novo na arte potiguar
"Trabalho há quase 70 anos com arte; não vivo da arte, mas
a arte é minha vida", confessa a artista plástica Zaira Caldas
Pereira, 77 anos. Ela lembra que começou pintando cidades,
como os casarões de Recife, para onde se mudou aos 8 anos de
idade. Mergulhou ainda nas paisagens do sertão, inspirada pelo
cenário da região onde vive. Depois, numa outra fase da carreira, resolveu descobrir o seu próprio estilo.
Quando se casou, em 1945, foi morar no Rio de Janeiro. Fez
várias exposições e teve contatos com artistas plásticos. Passou
uma temporada pintando as favelas cariocas, numa época em
que nelas o crime organizado ainda não tinha se entrincheirado.
Recebeu convite para fazer exposição no Museu de Niteroi. Foi
no Rio de Janeiro, também, que Zaira descobriu o
Transfigurativismo, nome concebido pelo critico de arte Valmir
Ayala para conceituar tudo que já foi feito em arte.
"Zaíra acabou descobrindo que a arte ainda tem caminhos
inimagináveis e que, além do Transfigurativismo, ela ainda
explica a teoria da terceira visão", afirma Iaperi Araújo, médico,
artista plástico e crítico de arte. "A escolha da palavra
Transfigurativismo deve ser entendida como proposta estética e
ética, como palavra psicológica espiritual, perante o quadro da
criação intelectual da sua realização e sua contingência de produzir efeitos externos", escreveu Franco Jasiello.
"As pessoas não tomaram consciência que
Transfigurativismo é uma coisa nova. É tão importante quanto
o Cristianismo, o Socialismo, etc. Os artistas têm receio de afirmarem isto, mas os críticos, professores de artes de fora do
Brasil, afirmam", atesta Zaíra.
Ganhadora de Medalha de Ouro na Bélgica, em 1997, Zaíra
tem quadros expostos na Pinacoteca do Estado. Seu atelier,
instalado na sua própria residência, é aberto ao público. Ela
costuma utilizar, como matéria prima das suas obras, cascas de
cajueiro, raízes de mangues, garrafas e tampinhas de refrige rante, caixas de remédios e pedras de chão. "Minhas escrituras
são feitas com raízes, resina e papel jornal", conclui.
Zaíra Caldas Pereira: arte de raízes, resina e papel jornal
Suplemento
14 nós, do RN
Natal - Julho de 2005
ARTES PLÁSTICAS
VERSUS POEMA VISUAL
Anchieta Fernandes
A
rigor, não poderia haver distinção entre
artes plásticas como gênero, e poema
visual como especificidade de prática
dentro do gênero artes plásticas: no caso, interpenetrado de semânticas literárias. Poder-se-ia
dizer de determinados objetos interpretados
como artes plásticas, que são verdadeiros poemas
visuais. Exemplo: os objetos seriados em
camadas de cores do pintor Ítalo Trindade.
Por outro lado, quando um Falves Silva, como
poeta/processo, elabora alguns poemas "construtivistas", está com as mesmas "preocupações
estéticas explicitadas nas conquistas das vanguardas plásticas" - como disse Dácio Galvão, em
seu livro "Da Poesia ao Poema" (Zit Gráfica e
Editora, 2004). Justamente Falves Silva e outro
poeta visual do RN, Avelino de Araújo, demonstram, ao longo de suas respectivas carreiras de
criadores, a competência em trabalharem dentro
dos dois vetores: artes plásticas e poemas visuais,
com exemplários de obras que de imediato não
podem ser confundidas na leitura.
Falves Silva:
geometrismo como marca
Tendo começado na metade da
década 60 do século passado como pintor e desenhista, sob influências do
cubismo e surrealismo, entre outras
correntes, logo, no entanto, Falves Silva
adquiriria autonomia em processos
próprios. Eu diria que o geometrismo
dos primeiros quadros deste paraibano,
que adotou o Rio Grande do Norte
como sua pátria de criação, ainda é sua
marca nas pesquisas gráficas que modelam os contornos das imagens em
alguns de seus poemas postais.
Ao longo de sua carreira produtiva, ele
tem trabalhado telas para exposições e produtos que, sejam ou não no contexto da
teoria vanguardística do Poema/Processo,
como poemas visuais, e portanto em uma
dimensão menor, são publicados em revistas e jornais culturais. Ou fazem-se presentes nos envelopes da Arte Correio; ou,
ainda, são o conteúdo dos seus próprios
livros de arte.
Sua versatilidade tem despertado o
entusiasmo leitural dos críticos
(J.Medeiros, Moacy Cirne, Dailor
Varela, Iaperi Araújo, Nelson Patriota,
Flávio M. Lott, Dorian Gray, Assis
Brasil, Wlademir Dias-Pino, Jomard
Muniz de Britto, J. Charlier Fernandes).
Atualmente, pouco pinta. Mas desenha,
faz colagens, opera com carimbos e os
efeitos de outros materiais. Seus temas
principais são o corpo feminino (visualizado com toda a autenticidade erótica,
quase pornográfica) e as grandes visões
fotográficas (fotografias retrabalhadas,
cortadas, montadas com outras) das
problemáticas sociais, como a fome,
injustiças, cinismo político, os mitos da
mídia submetidos ao massacre da
exposição diária.
Na sua primeira fase, chocou a
moral provinciana, tendo quadros retirados de uma exposição por uma autoridade, sob alegação de pornografia. Ele
ousou também, na época, expor num
famoso cabaré de Natal - o Francesinha.
Às vezes, dizer que um trabalho de
Falves é artes plásticas ou poema visual
se torna um pouco difícil. Adicionando
às suas pesquisas a linguagem das
estórias em quadrinhos, no entanto
seus quadrinhos ultrapassam o
endereçamento ao leitor comum das
revistas das bancas. São mesmo estórias
em quadrinhos? Ou são documentos
gráficos, seqüenciados quadro a quadro
(ou quadro a anti-quadro, e vice-versa)?
Para resumir: quem foi ver a
exposição de colagens de Falves "Brasil:
Ontem e Hoje", mostrada no já um
pouco distante ano de 1983, no
Instituto Luis Maranhão, em Natal, participou de um momento de contemplação de arte plástica; quem leu/viu
seu livro "Desconstrução Verbal"
(1997), esteve partícipe de um momento de poema visual em ação, retraduzindo/redistribuindo a tradição vocabular
em abertura a um novo tempo.
Falves Silva: poeta gráfico que entusiasma os críticos com sua versatilidade
Suplemento
Natal - Julho de 2005
nós, do RN
15
Avelino Araújo,
poeta plástico
A
importância deste artista vindo de
Patu para revolucionar os caminhos
da vanguarda norte-rio-grandense
está, pelo menos, em três fatos: um de seus
poemas visuais foi o editorial da revista de arte
alternativa norte-americana "Pig Iron"; outro
está no catálogo de uma exposição na
República da Coréia; outros ilustram vários
números da revista francesa de vanguarda
"Doc(k)s". Na arte de Avelino, também podese rastrear os dois vetores específicos: artes
plásticas e poemas visuais.
Como Dorian Gray Caldas observou no
livro Artes Plásticas do Rio Grande do
Norte (1989), "na sua pintura de cavalete,
Avelino se permite à divagação onírica e ao
niilismo habilidoso, acentuado pelas formas
puras. A exigência formal de uma arte erudita (mais para o espírito do que para os
olhos), em pleno domínio de formas, sugeridas à semelhança de Miro, num universo de fragmentações elétricas. Nesta fase sua
arte desata as suas fantasias e o coloca mais
próximo dos expressionistas abstratos".
Mas, a maior parte da produção de
Avelino está nas pesquisas de poemas
visuais. É a latência conteudística que se
transforma em imagens manifestadas concretamente. O artista (= poeta) procura sempre, ou quase sempre, os temas de uma visão
social-política (a fome, a guerra, a ação nefasta de governos ditatoriais e repressores, passando sob o crivo de um registro contestador), determinando-a formalmente desde
um compromisso com o comunicante visual, com o semiótico.
Nele, o poema obedece (com
raras exceções)
Fotos: Edson Benigno
Avelino Araújo: “divagação onírica e niilismo habilidoso”, segundo Dorian Gray
ao efeito de somar a linguagem escrita à linguagem visual. Se a linguagem escrita (veículo da literatura verbal) é
perceptível pelo olho,
mas de forma linear,
sinal após sinal, trata-se
aqui de vincular ela à
linguagem visual, para
resultar num novo
veículo lingüístico de
comunicação, o poema
visual, possibilitador da
percepção global imediata.
A partir desta operação técnica (onde o
poeta trabalha a junção
de palavras a imagens
usando letraset, fotos de
jornais e revistas e seu
próprio
desenho),
desenvolve-se um discurso semiótico, distribuído algumas vezes em
séries, imagens seriadas cujo título designador,
para uma leitura decodificadora, tanto poderia
se referir à forma como ao tema escolhido.
Certa vez, em uma entrevista, Wlademir
Dias-Pino disse uma frase que expressa à
perfeição o entendimento da questão: "eu
nunca fiz diferença entre poeta e pintor.
Acho que o que é válido é
o caráter da invenção." E
Avelino é um dos maiores
exemplos de inventor
norte-rio-grandense no
trabalho com o visual:
retrabalhando a forma
soneto (v. o seu "Livro de
Sonetos", 1994), compondo fotos de objetos em
planos inusitados, alargando ou encompridando
letras de formas a apresentá-las como objetos
visuais distintos, montando, colando, operando as
possibilidades e os recursos experimentais do
computador e da cópia
xerox, transitando na
Internet, fazendo poemas de humor (quase
charges).
Poemas plásticos? Artes plásticas
poemáticas? Em Avelino de Araújo, cabe
uma leitura opcional neste contexto multisemiótico. (A.F)
Natal - Julho de 2005
Suplemento
16 ..................................................................................................................................................................................
A
“O artista é aquele que fixa
e torna acessível
aos demais humanos
o espetáculo de que
participam sem perceber”
(Merleau-Ponty)
A DIMENSÃO
ONÍRICA
DA MATÉRIA...
afirmação glauberiana explica como a arte destrói a brutalidade da
matéria, impondo-lhe a fantasia e a pureza transitória da forma.
Expressão de emoções e desejos, numa ação criadora de procedimentos
inéditos para a invenção de objetos. Eternidade e fugacidade simultâneas: seu
pertencimento ao contexto onde se encontra e sua inserção em uma tradição é que lhe
dá sentido.
O artista reflete sobre a sociedade, seja para criticá-la, afirmá-la ou superá-la. Um
caminho de interseção entre o singular e o universal, o particular e o geral; através da
nuance de uma obra artística, temos o acesso ao significado de uma realidade.
Arte não é apenas alegoria e símbolo. É algo mais profundo, leva-nos a descobrir
o sentido da própria história. A arte faz ver a visão, falar a linguagem, ouvir a audição,
sentir as mãos e o corpo, emergir o natural da natureza, o cultural da cultura. Arte é,
pois, revelação e manifestação da essência humana, esquecida em nossa efêmera
existência cotidiana.
Onde encontrar raízes, delimitar rupturas, denotar raridades, distender “ismos”
ou tendências?
Na proto-história, exuberância em instigantes registros para a posteridade, em
duas vertentes da arte lítica: a “Nordeste” (Mirador/Parelhas e Pedra do
Alexandre/Carnaúbas dos Dantas ), riqueza em ritos cosmogônicos; e a “Agreste”
(Lajedo Soledade/Apodi), presença de antropomorfismos totêmicos. A deflagração
abrupta da civilização desnuda e se apropria da paisagem, a fortaleza poligonal/estrelar
do Gaspar de Samperes; os batavos Frans Prost, Jorge Macgrave e Albert Eckhout,
desvendam nossas paragens em desenhos geo/etnográficos.
Contemporaneiguarmente, o retratismo de Moura Rabelo. Erasmo Xavier na Art
Deco/Nouveau extrapola os fronts da província. Palatinik ensaia o movimento
perpétuo via arte cinética. Precursor-modernista, Newton Navarro deglute as
vanguardas (“ver com os olhos livres”). Tessituras cubistas nas tapeçarias do Dorian
Gray. Impressionismo fulgurante do Thomé Filqueira. Intimismo Expressionista em
Leopoldo Nelson. Transfigurativismo fantasmagórico da Zaíra Caldas.O pop-concreto
“1822” do Nei L. de Castro conflui ao poema processo, projetando o verso/língua
para o universo/linguagem e culmina na visualidade poética do A. de Araújo. Falves
Silva, bocetas e concretude minimalista das sêmias até a exaustão sígnica. Temporadas
no Inferno & Iluminações, Dunga escancara as portas da “Galeria do Povo” e
sacramenta à Praia aos Artistas. Vatenor, “praias sombreadas de cajuais”. Non-sense
nas cores do Italo Trindade. Gilson Nascimento, Hiperealismo conga.Grafismo
ensandecido do J. Medeiros e o intróito da performance amálgama. Lay-outs aluados
Venancianos. Ulteriores humanóides Bobianos. Experimentalismo ousado do Júlio
Revoredo. Fernando Gurgel caracteriza a geração 80 (Parque Lage), intervindo na
tela/suporte, rasgando, colando. O desbunde pictórico de Flávio Freitas. As linhas
caricatuais em Léo Sodré. Saudades do Novenil... Pedro Peralta Pereira prova que na
labuta criativa não existe apenas “dom”, mas movimentos corpo/mente - transpiração
e inspiração em comunhão. O Oxente (Guaracy, Sayonara e Civone) transgride
conceitualmente nas “instalações” e desemboca no M8M - o limiar do fazer engajado.
Busca frenética em Valderedo Nunes, Fábio Eduardo e Franklin Serrão. Marcelo
Fernandes abstraí-se na cêra. O blague nos traços dos cartuns do Cláudio e Edmar.
Nativismo lúdico do João Natal. A arte Brut do Helmut. O “naif ” /ingênuo em Djalma
Paixão, Estelo, Iaperi, Nivaldo, Jotó remetem´às faces melancólicas do Assis Marinho.
Simplicidade popular e mágica dos bonecos do Chico Daniel e Zé Relampo; no boi de
Marinheiro; nas esculturas de Manxa, Ojuara e a talha ontológica do Jordão (Riomar);
no sacrossanto do Chico Santeiro. Na fotografia, das reminiscências veladas por
Manuel Dantas à plasticidade transluzente de Giovanni Sérgio. Os vídeos paridos no
quengo do Augustululante. A redenção da sétima arte na película “Boi de Prata” do
Augusto Ribeiro Jr.
Enfim, tais protagonistas, em antropofágica profusão estética, combinando
experiência de saberes e vertigem das sensações, configuram instrumentos eficazes de
legitimação e pertença do imaginário Potiguar.
Plínio Sanderson
Poeta, Antropólogo e membro do Conselho de Cultura (Lei Câmara Cascudo)
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