1 REVISTA DO CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E TECNOLOGIA v. 12, n. 26 • dezembro de 2010 ISSN 1516-0025 TRAÇOS Belém v.12 n.26 p. 1-168 dez. 2010 2 REVISTA DO CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E TECNOLOGIA C 2010, UNIVERSIDADE DA AMAZÔNIA REITOR Antonio de Carvalho Vaz Pereira VICE-REITOR Henrique Guilherme Carlos Heidtmann Neto PRÓ-REITOR DE ENSINO Mário Francisco Guzzo PRÓ-REITORA DE PESQUISA, PÓS-GRADUAÇÃO E EXTENSÃO Núbia Maria de Vasconcelos Maciel DIRETOR DO CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E TECNOLOGIA E COORDENADOR DO CURSO DE ENGENHARIA SANITÁRIA E AMBIENTAL EVARISTO CLEMENTINO REZENDE DOS SANTOS COORDENADOR DO CURSO DE ARQUITETURA E URBANISMO JOSÉ AKEL FARES FILHO COORDENADOR DO CURSO DE ENGENHARIA CIVIL SELÊNIO FEIO DA SILVA COORDENADOR DO CURSO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO ANDRÉ CRISTIANO SILVA MELO COORDENADOR DO CURSO DE TECNOLOGIA EM PROCESSAMENTO DE DADOS CLÁUDIO OTÁVIO MENDONÇA DE LIMA COORDENADOR DO CURSO DE BACHARELADO EM CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO MAURO MARGALHO COUTINHO COORDENADORA DO CURSO DE ARTES VISUAIS E TECNOLOGIA DA IMAGEM ANA DEL TABOR VASCONCELOS MAGALHÃES COORDENADOR DO CURSO DE LICENCIATURA EM MATEMÁTICA MIGUEL CHAQUIAM EXPEDIENTE EDIÇÃO: Editora UNAMA RESPONSÁVEL: João Carlos Pereira SUPERVISÃO: Helder Leite NORMALIZAÇÃO: Maria Miranda FORMATAÇÃO GRÁFICA: Elailson Santos REVISÃO DE TEXTO: Luis F. Branco PROJETO DA CAPA: Fernanda Beliche ILUSTRAÇÃO DA CAPA: Fernando Navarro “Campus” Alcindo Cacela Av. Alcindo Cacela, 287 66060-902 - Belém-Pará Fone geral: (91) 4009-3000 Fax: (91) 3225-3909 “Campus” BR Rod. BR-316, km3 67113-901 - Ananindeua-Pa Fone: (91) 4009-9200 Fax: (91) 4009-9308 “Campus” Quintino Trav. Quintino Bocaiúva, 1808 66035-190 - Belém-Pará Fone: (91) 4009-3300 Fax: (91) 4009-0622 “Campus” Senador Le mos Av. Senador Lemos, 2809 66120-901 - Belém-Pará Fone: (91) 4009-7100 Fax: (91) 4009-7153 Catalogação na fonte www.unama.br T759t Traços: revista do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia - Belém: UNAMA, v. 12, n. 26, 2010. 168 p. ISSN: 1516-0025 1. Ciências exatas. 2. Ciências exatas - pesquisa. 3. Ciências exatas-estudos de caso. 1. Periódicos. CDD: 507.2 3 REVISTA DO CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E TECNOLOGIA v. 12 n. 26 2010 EDITORIAL .................................................................................................................... 5 ARTIGOS ....................................................................................................................... 7 PASSOS DE UMA CAPELA: ALVORECER E CREPÚSCULO DE UM MONUMENTO EM BELÉM, NO PARÁ ........................................................................... 9 STEPS OF A CHAPEL DAWN AND TWILIGHT OF A MONUMENT IN BELÉM, STATE OF PARÁ Domingos Sávio de Castro Oliveira ANÁLISE DE DESEMPENHO LOGÍSTICO DAS CADEIAS PRODUTIVAS DE PRODUTOS FLORESTAIS NÃO MADEIREIROS ORIUNDOS DA REGIÃO AMAZÔNICA ...................... 27 LOGISTICS PERFORMANCE ANALYSIS OF PRODUCTIVE CHAINS RELATED TO AMAZONIAN NON-TIMBER FOREST PRODUCTS André Cristiano Silva Melo Bruna Brandão Moreira Evander Dayan de Mattos Alencar O USO DE RECICLAGEM DE PAVIMENTOS, COMO ALTERNATIVA PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL EM OBRAS RODOVIÁRIAS NO BRASIL ................ 39 USE THE RECYCLING OF PAVEMENTS, AS ALTERNATIVE FOR SUSTAINABLE DEVELOPMENT IN ROAD WORKS IN BRAZIL Clauber Costa Wandemyr Filho A IMAGEM DO TRANSPORTE HIDROVIÁRIO E DO TURISMO NA ILHA DE COTIJUBA NA VISÃO DOS USUÁRIOS .................................................................... 59 THE IMAGE OF WATER TRANSPORT AND THE TOURISM IN COTIJUBA ISLAND IN VIEW OF USERS Maisa Sales Gama Tobias Andréa Girlene Tavares Barreto TRAÇOS Belém v.12 n.26 p. 1-168 dez. 2010 4 AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO DE REDES WIRELESS SUBMARINAS VIA SIMULAÇÃO .... 75 PERFORMANCE EVALUATION OF UNDERWATER WIRELESS NETWORKS BY SIMULATION Isadora Mendes dos Santos Mauro Margalho Coutinho ESTUDO DA DINÂMICA POPULACIONAL NO PERÍODO DE 1970-2000: UMA ANÁLISE DO CENTRÓIDE E DA DISPERSSÃO DA POPULAÇÃO DO ESTADO DO PARÁ ................. 85 A STUDY OF THE POPULATIONAL DYNAMIC BETWEEN 1970 AND 2000: A CENTROID AND DISPERSION POPULATION ANALYSIS IN THE PARÁ STATE José Ferreira da Rocha Sérgio Castro Gomes Magno Roberto Alves Macedo Eugênia Rosa Cabral UM RELATO DE MELHORIA DO PROCESSO DE TESTE DE SOFTWARE APLICADO A UMA FÁBRICA DE SOFTWARE ............................................................... 101 A REPORT ABOUT SOFTWARE TESTING PROCESS IMPROVEMENT APPLIED IN A SOFTWARE FACTORY Inácio Leite Gorayeb Sandro Ronaldo Bezerra Oliveira SISTEMA DE RECONHECIMENTO DE FACES UTILIZANDO O MÉTODO DAS COMPONENTES PRINCIPAIS ............................................................................... 119 FACE RECOGNITION SYSTEM USING PRINCIPAL COMPONENTES METHOD José Augusto Furtado Real Thierry Pinheiro Moreira COMPLEXIDADE E MODELAGEM MATEMÁTICA NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM ..................................................................................... 131 COMPLEXITY AND MATHEMATICAL MODELING IN THE TEACHING-LEARNING PROCESS Lênio Fernandes Levy Adílson Oliveira do Espírito Santo LICEU PARAENSE: BERÇO CULTURAL NA AMAZÔNIA ................................................149 LYCEUM PARAENSE: CULTURAL CRADLE AMAZON Elaine da Silva Gaspar Gleeydson Fernando Lima Borges Miguel Chaquiam EDITORIAL5 A Revista TRAÇOS desde a sua criação, em 1998, fomenta a produção e a disseminação de pesquisas técnicas e científicas voltadas à região Amazônica, tornando-se um veículo que atende acadêmicos, professores e pesquisadores comprometidos com o desenvolvimento regional. Esta Revista, na versão impressa e on-line, cresce e afirma-se no Centro de Ciências Exatas e Tecnologia (CCET) da Universidade da Amazônia no momento em que este Centro comemora, no mês de agosto, seus 30 anos de existência, constituído inicialmente pelos cursos de Arquitetura e Urbanismo, Engenharia Civil e Licenciatura em Matemática. Além das comemorações dos 30 anos de existência do Centro, com uma vasta programação de cunho acadêmico, científico e cultural, comemora-se também os excelentes resultados obtidos frente as avaliações efetuadas pelas Comissões de Especialistas do MEC, in loco, onde sempre é dado ênfase a importância das publicações da Revista TRAÇOS. A disponibilização da Revista na versão on-line por meio do site www.unama.br/ revistatracos, contemplando todos os exemplares anteriores, amplia sua circulação, facilita a permuta para a versão impressa e possibilita o cadastro de novas assinaturas. As publicações nesta Revista, impressa e eletrônica, galgam novas dimensões frente às novas demandas sociais e acadêmicas, registram conhecimentos e experiências, constituindo, de certa forma, um legado às futuras gerações. Neste número são apresentados dez artigos técnico-científicos relacionados às áreas da Arquitetura, Computação, Engenharias e Matemática, retratando a nossa realidade e corroborando com a missão da Unama, “Educação para o desenvolvimento da Amazônia”. Ao analisar cada artigo quanto ao vínculo institucional dos autores, percebe-se que há certo intercâmbio, fato que caracteriza a importância da revista de certo modo e contribui para maior integração da Unama no cenário regional e nacional. A Revista TRAÇOS aceita para publicação, em forma de artigo científico, trabalhos inéditos de autores brasileiros e estrangeiros, redigidos em português, espanhol ou inglês, desde que atendam ao Regulamento e as Normas para publicação. Miguel Chaquiam Coordenador do Curso de Matemática 6 7 REVISTA DO CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E TECNOLOGIA EDIÇÃO Nº 26 CADERNO DE ARTIGOS TÉCNICOS E CIENTÍFICOS CONSELHO EDITORIAL: Alberto Carlos de Melo Lima Ana Del Tabor Vasconcelos Magalhães André Cristiano Silva Melo Antônio Erlindo Braga Júnior Cláudio Alex Jorge da Rocha Cláudio Otávio Mendonça de Lima Débora Bandeira Moraes Trindade (Secretária) Elzelis de Aguiar Müller Evaristo Clementino Rezende dos Santos (Presidente) Filomena Mata Vianna Longo Janice Shirley de Souza Lima José Akel Fares Filho José Augusto Furtado Real Miguel Chaquiam Natanael Freitas Cabral Selênio Feio da Silva COMITÊ CIENTÍFICO INTERNO: Benedito Coutinho Neto Elcione Maria Lobato de Moraes Fábio José da Costa Alves Hélio Raymundo Ferreira Filho Leonardo Augusto Oliveira Bello Marco Aurélio Arbage Lobo Marisa de Oliveira Mokarzel Mauro Margalho Coutinho Pedro Franco de Sá Ruy Guilherme de Castro Almeida Maisa Sales Gama Tobias Sérgio Castro Gomes COMITÊ CIENTÍFICO EXTERNO: Édison da Silva Farias - UFPA Eliane Gonçalves Gomes - EMBRAPA-DF Iran Abreu Mendes - UFRN Lindemberg Lima Fernandes - UFPA Marcelo Câmara dos Santos - UFPE Maria Seráfico Pinheiro - UFPA Simaia do Socorro Sales das Mercês - UFPA Thienne Mesquita Johnson - USP-SP 8 9 PASSOS DE UMA CAPELA: ALVORECER E CREPÚSCULO DE UM MONUMENTO EM BELÉM, NO PARÁ Domingos Sávio de Castro Oliveira* RESUMO A cidade de Belém, no Pará, possui, dentre seu patrimônio edificado, a pequena, e pouco conhecida, Capela Pombo, localizada em seu Centro Histórico. Construída no século XVIII para servir à família do coronel Ambrósio Henriques, é a única capela particular ainda existente na cidade. Tem características estilísticas, pertencentes ao movimento tardo-barroco, o que lhe confere importância artística. Por ter sido erguida no período de formação da cidade e estar localizada em uma área que corresponde ao segundo bairro implantado, é testemunho do passado da capital paraense, época em que a mesma passou por um crescimento nunca dantes visto. Hoje, o monumento se encontra em um estado que preocupa e inspira cuidados, tendo em vista suas degradadas condições físicas. (Re)descobri-la e revelá-la são objetivos desse artigo. Palavras-chave: Arquitetura Religiosa. Antonio Landi. Belém. STEPS OF A CHAPEL DAWN AND TWILIGHT OF A MONUMENT IN BELÉM, STATE OF PARÁ ABSTRACT The city of Belém, in Pará, possesss, amongst its built patrimony, the small, and not very known, Pombo Chapel, located in its Historical Center. Built in the century XVIII to serve Colonel Ambrósio Henriques’s family, it is still the only private chapel existent in the city. It has stylistic characteristics, belonging to the late-Baroque movement, what confers artistic importance to it. For having been raised in the period of formation of the city and to be located in an area that corresponds to the second implanted district, it is evidence of the past of the capital of Pará State, period where the city passed by a development never imagined before. Today, the monument is in circumstances that worries and inspires cares, in view of its degraded physical conditions. (Re)discovering and disclosing this monument are the objectives of this article. Keywords: Religious Architecture. Antonio Landi. Belém. *Mestrando em Artes - ICA/UFPA; especialista em Interpretação, Conservação e Revitalização do Patrimônio Artístico de Antônio José Landi - UFPA / FAU / Fórum Landi; arquiteto (UFPA/1990) e engenheiro civil (CESEP/1987). É servidor do Ministério Público do Estado do Pará. Dedica-se à pesquisa da arquitetura do século XVIII em BelémPA, com ênfase no repertório estilístico do arquiteto italiano Antônio Landi. [email protected]. Ministério Público do Estado do Pará Traços, Belém, v. 12, n. 26, p. 9-26, dez. 2010 10 1 INTRODUÇÃO A Capela do Senhor dos Passos ou, simplesmente, Capela Pombo, assim como outros referenciais arquitetônicos próximos, marca a passagem do tempo no bairro do Comércio, em Belém. Reconhecidamente, a capela precisa ter seu significado recuperado e revelado, tornando-se, assim, ponto de atração para a área e razão para sua preservação. Hoje, ela está “perdida” entre muitas edificações degradadas, em um espaço onde, outrora, conviveram edifícios comerciais e residenciais, e que, ao longo do tempo, teve suas funções alteradas. O monumento tem importância arquitetônica, artística e histórica: arquitetônica, pois é um exemplo de tipologia singular na cidade – capela anexa à casa –, além de ser um edifício do tipo “encaixado”1 entre duas residências; artística, por apresentar características particulares que demonstram as influências sofridas em sua concepção, dos movimentos estilísticos europeus do século XVIII; histórica, por estar inserida no centro histórico da cidade, legalmente delimitado e guardar referências de um período importante da formação e desenvolvimento urbano, social e cultural de Belém. Há muitas lacunas na trajetória histórica da edificação, entretanto pode-se observar sua importância a partir das muitas referências ao monumento nas obras de importantes pesquisadores. Esses autores, a partir da análise das características arquitetônicas da capela e por comparação com outras obras de Antônio José Landi, atribuem a autoria de seu projeto ao arquiteto bolonhês. Dentre eles, Isabel Mendonça2 é a que mais aprofunda a análise e faz comparações com as obras do artista, as quais denomina “landianas”. É necessário ressaltar que é impossível analisar a capela sem pensar nas edificações de seu entorno imediato e, em particular, no casarão a que esteve ligada, que se ressentem de uma atenção por parte do poder público, dos seus proprietários e da população. Por isso, é dedicado parcela desse texto ao entorno imediato e, especificamente, ao casarão ao lado. O texto está dividido em quatro partes. Inicialmente, é apresentada uma breve trajetória da tipologia casa com capela anexa no Brasil colonial. Em seguida, é feita a caracterização histórica e atual do entorno do edifício, e traçado um breve histórico do monumento. Por fim, é analisado o binômio capela e casarão, fazendo-se um detalhamento dos ornamentos da primeira, interna e externamente. Dessa forma, este artigo visa ressaltar aspectos que ratifiquem o valor do monumento a partir dos vieses arquitetônico, estilístico e histórico, como forma de valorização do bem cultural diante da sociedade com vistas a sua preservação e, dessa forma evitar seu iminente desaparecimento. Não há a intenção de esgotar o assunto, mas contribuir para o preenchimento de lacunas ainda existentes na história da cidade. 1 2 Termo utilizado por Camillo Sitte (1992, p. 39). Na obra António José Landi (1713-1791): um artista entre dois continentes. Traços, Belém, v. 12, n. 26, p. 9-26, dez. 2010 11 2 A EDIFICAÇÃO RELIGIOSA NA CASA COLONIAL BRASILEIRA Para compreender a presença da edificação religiosa na casa brasileira colonial é necessário verificar suas origens na casa portuguesa do mesmo período. A obra de Carlos de Azevedo (1969, p. 82), historiador português, nos mostra uma configuração que agrega capela a casa e que melhor se manifestou no século XVIII, em todo o território português. As primeiras referências de casas com capela no Brasil remontam ao século XVII e são referentes à ocupação portuguesa. Luís Saia (1978), Aracy Amaral (1981) e Carlos Lemos (1989) fazem referência a essa tipologia nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, porém havia semelhança entre os exemplares espalhados pelo território brasileiro com algumas adaptações devido ao clima de cada região. A utilização dessa tipologia em Portugal esteve presente nas áreas urbanas, entretanto, no Brasil, foi adaptada ao meio rural dadas as grandes distâncias entre as casas rurais e as cidades e ao fato de as famílias, isoladas nas fazendas, só frequentarem a cidade em ocasiões especiais, em particular, durante as festas religiosas. Os documentos do Pará colonial 3 fazem referência à presença de vários engenhos de cana-de-açúcar por todo o território paraense. Segundo Marques (2004, p. LXIV), em 1881, havia 209 engenhos, dos quais 152 localizavam-se às proximidades de Belém. Barata (18—?, p.10-11, 205-6, 148-9) relaciona alguns deles e suas capelas: dos Santos Reis ou de Ponta de Pedras, na ilha do Marajó, com Capela dos Santos Reis Magos; Real de Burajuba ou Ibirajuba ou São Francisco de Boya, no rio Moju, com Capela de N. S. de Nazaré; Curussambaba, no rio Tocantins, com capela de N. S. do Pilar; Itabora, no rio Moju, com Capela de Santo Cristo; Juquiri-Assu, no rio Moju, com capela de Santo Antônio; e Marauaru ou Maruaru, na ilha do Marajó, com Capela de São Miguel. Marques (2004, p. XVII) analisa a disposição espacial das estruturas e os materiais e técnicas de construção de quatro engenhos: Murutucu (na periferia de Belém, às margens do igarapé Murutucu), Mocajuba (à margem direita do rio Mocajuba), Uriboca (à margem esquerda do rio Uriboca) e Jaguarari (à margem direita do rio Moju). Dos quatro, sabe-se da existência da edificação religiosa em dois deles: no Murutucu, capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição4, e no Jaguarari, cujas ruínas estão em estado de destruição avançado. Nas terras do Jaguarari, um inventário de 17615, relaciona uma igreja, dedicada a Nossa Senhora da Assunção, executada de pedra e cal, que media 22mx7m. A posição da capela em relação a casa foi sendo alterada ao longo do tempo. Até o século XVIII, era posicionada no interior da casa. A partir desse século, houve um afastamento da residência, tornando-se, aos poucos, autônoma. Em meados do século XIX, ela passou a ser instalada às proximidades daquela. Com o passar dos anos, perdeu 3 Doc. N.º 4142, ant. 1760, “Relação dos engenhos existentes na Comarca do Pará”, localizado em APEP/AHU. [2002]. 4 A capela do Engenho Murutucu, segundo informações históricas, foi construída em 1711 pelos frades carmelitas e reformada, posteriormente pelo arquiteto italiano Antonio Landi, seu proprietário na época da reforma. (MARQUES, 2004, p. LXXXI). 5 Esse inventário foi realizado sob ordem do governador Manoel Bernardo de Melo e Castro com vistas à transformação da fazenda em vila. (MARQUES, 2004, p. CVII). Traços, Belém, v. 12, n. 26, p. 9-26, dez. 2010 12 sua importância e foi reduzida a um compartimento da casa – o quarto dos santos – ou substituída por um pequeno oratório6. A presença do edifício religioso nas casas rurais foi uma constante no período colonial, no meio urbano, entretanto, deixaria de ter sua função primária, pois a comunidade não tinha as mesmas características daquele meio, bem como a igreja pública dominava a privada. Em Belém, no Pará, são encontrados registros de capelas particulares segundo o 7 ofício , de 1773, do bispo dom frei João Evangelista Pereira da Silva, no qual o religioso relaciona sacerdotes, igrejas e capelas do bispado, dentre essas: [...] O oratório nas casas dos herdeiros do [ilegível] de Campo Antonio F erreira Ribeiro. Os das casas da viu va do Capitam Guilherme Bruum [?] de Abreu [?] na rua do Espirito Santo. O do Reverendo [?] Arcipreste Antonio Rodrigues. O naturalista baiano Alexandre Rodrigues Ferreira (1784, n.p.), também fez referência, no Diário da Viagem Philosophica, a algumas capelas particulares em Belém: Oratorios publicos são o do Palacio do Bispo, o do Palacio do Governador e Capitão General, o do Seminario, o da Cadeya da Cidade, o do Capitão Ambrozio Henriques, alem de outros particulares, como o do defuncto Mestre de Campo Pedro de Sequeira, o do Capitão Luiz Pereira da Cunha, o de Manoel da Costa Leitão Xavier […] Dessas, existem, hoje, apenas a Capela do Palácio dos Governadores e a do Capitão Ambrósio, as quais Ferreira classificou como públicas. Da segunda, a, popularmente, conhecida Capela Pombo, é do que trata o presente artigo. 3 ÁREA DE PESQUISA: CARACTERIZAÇÃO HISTÓRICA E ATUAL Se considerarmos a formação de Belém, no Pará, a partir da vinda dos portugueses, em 1616, sua ocupação se deu, primeiramente, próximo ao Forte do Presépio, constituindo o bairro da Cidade, atual Cidade Velha. Em seguida, ainda no século XVII, foi ampliada para a área que equivale à Campina, atual bairro do Comércio, sendo os dois bairros, à época, separados pelo alagado do Piri. 6 7 O oratório, que substituiu as capelas rurais, foi introduzido sob a forma de nichos nas paredes ou nos quartos para uso individual. Chegou à Colônia pelas mãos do português e espalhou-se pelas fazendas, senzalas e res idênci as, to rnando -se p arte d o coti diano da ca sa col onial brasi leira (Dispo nível em: < w w w. i t a u c u l t u r a l . o r g . b r / a p l i c E x t e r n a s / e n c i c l o p e d i a _ i c / index.cfm?fuseaction=instituicoes_texto&cd_verbete=5402>. Acesso em: 13 ago. 2008). Ofício encaminhado para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro em que o bispo solicita, entre outras coisas, mais sacerdotes para o exercício do serviço religioso. (Doc. Nº. 5.948, de 8 de janeiro de 1773, “Ofício do Bispo do Pará, [Dom fr. João Evangelista Pereira da Silva],...”, localizado no APEP/ AHU. (transcrição de Moema Bacellar) Traços, Belém, v. 12, n. 26, p. 9-26, dez. 2010 13 A Campina passou a existir a partir do eixo Rua Conselheiro João Alfredo 8/Rua Santo Antônio. Antes um bairro fundamentalmente residencial, foi, com o tempo, sendo transformado em comercial, e, atualmente, é chamado de Comércio. A área é formada por vias estreitas, particularidade do traçado inicial da cidade. Segundo Teixeira (1998, p. 58), são revestidas de asfalto, mas já o foram de terra batida e de paralelepípedos. Suas calçadas são cobertas com pedras de lioz, ladrilho hidráulico ou cimento. É intenso o tráfego de veículos e pedestres na área. A rua João Alfredo, principal eixo, e algumas transversais são limitadas aos pedestres, sendo permitidas aos veículos somente aos domingos, feriados e após o horário comercial, dada a ocupação do leito viário por vendedores do comércio informal. Predominam na área as edificações de dois pisos, que ocupam os lotes em sua maioria, peculiaridade do período de ocupação da área. O uso das edificações do local é principalmente comercial, porém encontram-se as modalidades serviço e uso misto (comercial / serviço / habitacional). Além disso, ainda se acham raras edificações de uso institucional. O residencial, exclusivamente, quase não permanece e o religioso é marcado pela Capela do Senhor Bom Jesus dos Passos e por uma igreja evangélica. Como se localiza no Centro Histórico de Belém, a área é tombada e regulamentada pela lei n.° 7.709, de 18 de maio de 1994, e, como tal, tem diversos edifícios com interesse de preservação. A população residente no bairro é bastante reduzida, situação comum aos centros históricos, porém a área conta com uma população flutuante equivalente aos trabalhadores ou frequentadores do comércio. A área, no estado de desordem física, visual e sonora em que se encontra, atrai apenas pessoas que utilizam as funções de comércio e serviço que a mesma possui, embora até mesmo essas funções sejam preteridas pelos usuários por outras opções pela cidade. A Capela do Senhor Bom Jesus dos Passos e o casarão contíguo estão situados na travessa Campos Sales, antiga rua do Passinho 9, entre as ruas 13 de Maio e Senador Manoel Barata, bairro do Comércio. Os dois prédios – capela e sobrado - são apenas alguns dos possíveis atrativos do local, mas, o estado de conservação e a descaracterização em que se encontram, preocupam pela sua manutenção na paisagem urbana. Além disso, esse estado transmite ao passante um sentimento de desconhecimento e desvalorização dos edifícios, diminuindo o interesse por eles, salvo pelo referencial simbólico ainda vinculado à capela, porém sem maiores relações ao prédio em si, mas pelo seu valor religioso, ligado a algumas festas católicas na cidade. 8 9 A rua Conselheiro João Alfredo foi inicialmente chamada rua dos Mercadores e, posteriormente, Rua da Cadeia. Conforme relatos de Ferreira (1784, n.p.) “a rua mais larga aberta até o ano de 1784, [...] no bairro da CAMPINA [...] não tinha regularidade nem dimensão oficial”. Essa denominação primitiva da rua se deveu à existência de uma pequena capela – a Capela do Passinho – na confluência dessa via com a atual rua Conselheiro João Alfredo. Traços, Belém, v. 12, n. 26, p. 9-26, dez. 2010 14 4 BREVE HISTÓRIA DA CAPELA POMBO A história da Capela do Senhor dos Passos10 ou do Senhor Bom Jesus dos Passos11 (figura 1) está ligada ao coronel Ambrósio Henriques (c.1750-1820), senhor de engenhos, português, que se mudou para Belém na segunda metade do século XVIII. Diz-se, que por ele foi mandada edificar, anexa ao casarão de sua propriedade, para que a família participasse das celebrações religiosas, juntamente com seus amigos e escravos. A denominação está ligada ao fato de a capela ter abrigado, a partir da década de 1830, uma imagem do Senhor dos Passos, que foi transferida da antiga capela do Passinho, demolida em 1841, pois entrara em ruínas. Figura 1 – Fachada da capela. Fonte: Domingos Oliveira, 2009. Não é confirmada, a data de sua construção. Conforme Meira Filho (1969, p. 1), teria sido concluída em 1790, ano de sua consagração, de acordo com Tocantins (1987, p. 269), embora já existisse em 1784, conforme menciona Alexandre Ferreira (1784). Barata (1914, p. 1), entretanto escreveu: “esta capela foi ereta em 1793, sob a invocação de N. S. da Conceição”. Essa afirmação ratificaria a suposição de Isabel Mendonça (2003a, p. 510), historiadora portuguesa, de que o monograma mariano existente no altar da capela indicaria que ela fora dedicada à Virgem Maria. 10 11 Denominação utilizada em Meira Filho (1969, p. 1). Denominação utilizada em Tocantins (1987, p. 265). Traços, Belém, v. 12, n. 26, p. 9-26, dez. 2010 15 A tradição secular da família Pombo provém da filha do coronel Ambrósio, Maria do Carmo, que se casou em 1801 com o português Joaquim Clemente da Silva Pombo. A capela, também conhecida como Pombo ou dos Pombo, assim chamada pela população, por associação ao nome da família proprietária, teve, ao longo do tempo, vários responsáveis e foi sendo passada aos descendentes do coronel Ambrósio. É, atualmente, a única capela privada existente em Belém. Para Meira Filho (1969, p.1), sua significação, seu nome, seu destino histórico, seu valor como obra de arte e patrimônio da cidade, estão intimamente vinculados à evolução de Belém, sob múltiplos aspectos. Foi local de diversas cerimônias religiosas e atendia a diferentes dessas manifestações da população do entorno. Mesmo privativa, era cedida aos amigos da família para que ali realizassem suas celebrações. Em certas épocas, a capela abria somente por ocasião dos ritos da Semana Santa, quando servia como uma das estações da Procissão do Senhor dos Passos. Essa procissão saía da Igreja da Trindade e fazia paradas, os denominados passos, nas igrejas do Rosário, de Sant’Ana, de Santo Antônio, das Mercês, na Capela Pombo, correspondendo ao quinto passo, na Igreja da Sé e terminava na Igreja do Carmo, onde acontecia o sétimo passo, conforme matéria publicada no jornal católico “A Palavra”, edição de março de 1940. Hoje, é aberta de segunda a sábado no horário comercial, servindo apenas como local de orações e não mais sendo utilizada para os ritos católicos. O valor do edifício como monumento e joia da arquitetura é indiscutível e ratificado pelas menções que autores como Donato Melo Júnior (1973); Augusto Meira Filho (1973, p. 48); Leandro Tocantins (1987, p. 266) e Isabel Mendonça (2003b, p. 10) fazem a ele, até mesmo conferindo sua concepção projetual arquitetônica e estilística ao arquiteto italiano Antônio José Landi (1713-1791), a partir de suas características e de comparações com a Capela do Palácio dos Governadores, também em Belém, projeto do artista. Analisando as características tipológicas e decorativas do monumento, seja da fachada, seja do seu interior, pode-se observar uma quantidade significativa de elementos empregados por Landi em vários dos edifícios comprovadamente de sua autoria. Landi, a Belém, chegou, no ano de 1755 como “desenhador”, integrando a Comissão Demarcadora de Limites. Na cidade, desenvolveu vários projetos de arquitetura, edifícios esses que marcam sua paisagem até os dias de hoje. Tendo estudado na Academia Clementina, em Bolonha, recebeu influências da família Bibiena 12, além do movimento tardo-barroco, estilo que predominava à época naquela cidade. Também absorveu traços da arquitetura portuguesa, em particular, do estilo pombalino, quando de sua estada em Lisboa, no período que precedeu sua viagem para o Brasil. O trabalho do arquiteto não se restringiu à arquitetura, mas, adotando a tradição bolonhesa, valorizou fachadas e interiores com o uso de elementos decorativos e 12 Os Galli, chamados Bibiena, destacaram-se como desenhistas, organizadores de festivais, cenógrafos e arquitetos de teatros. Quatro membros da família se destacaram: os irmãos Ferdinando (1657-1743) e Francisco (1659-1739) e os filhos de Ferdinando, Giuseppe (1696-1757) e Antonio (1700-74). Com a família, a pintura de quadratura alcançou o auge e, assim, seus membros puderam conseguir reconhecimento internacional, enquanto o estilo bolonhês entrava já em decadência (OLIVEIRA, 2008, p. 24). Traços, Belém, v. 12, n. 26, p. 9-26, dez. 2010 16 arquitetônicos. Isso confirma sua vinculação à pintura de quadratura 13 e à cenografia, com a constante utilização das ordens clássicas nas variantes ornadas. Além disso, segundo Mendonça (2003a, p. 238), utilizou, com frequência, ornamentos originários do chamado barrochetto, versão italiana do rococó, e elementos decorativos inspirados no desenhista e entalhador francês Jean Bérain. 5 A CAPELA E O SOBRADO: ANÁLISE TIPOLÓGICA E ARQUITETÔNICA Uma apreciação arquitetônica da capela não pode ser realizada de forma independente, já que está inserida entre dois casarões, o que para Camillo Sitte (1992, p. 39) seria um edifício “encaixado”. É uma edificação singular na área, quando se pensa em seu uso diferenciado – edifício religioso em meio a edifícios comerciais. A capela tem, à esquerda, um casarão do tipo “casa comprida”, classificação de Azevedo (1969, pp. 80-1), bastante deteriorado e que ainda preserva algumas características originais apenas no piso superior. À direita (figura 2), o casarão é da tipologia “casa com capela anexa”, denominação também de Azevedo (1969, p.81-2), e tinha comunicação com o templo. A edificação possui linhas da arquitetura luso-brasileira do século XVIII: planta horizontal, com dois pavimentos e fachada longa. Ainda restam das características originais: os azulejos, na fachada do piso superior; as cimalhas; o beiral e os vãos com arco pleno no pavimento superior. Figura 2 – A capela e os casarões. Fonte: Domingos Oliveira, 2009. 13 Gênero da pintura que se desenvolveu entre os séculos XVI e XVIII e que consiste na representação de elementos e ornamentos próprios da arquitetura num trabalho figurativo, geralmente realizado em murais, com o objetivo de c riar u m efei to ilus ório. Dispon ível em:<www.itauc ultura l.org. br/apl icexternas/enciclo pedia_ic/ index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=115>. Acesso em: 28 fev. 2010. Traços, Belém, v. 12, n. 26, p. 9-26, dez. 2010 17 A data de construção da edificação à direita é desconhecida. Alexandre Ferreira (1784), ao descrever as residências existentes em Belém, faz referência a uma que pode ser essa em questão: “Das mais antigas, [...] as sofríveis eram a de Ambrósio Henriques, a do vigário geral, a do coronel Manoel Joaquim Pereira de Sousa Feio [...]”, embora, hoje, apresente a fachada azulejada 14, característica já do século XIX. Segundo Mello Júnior (1973), em 1970, o casarão foi bastante alterado no pavimento térreo. Em 1991, sofreu sua maior descaracterização quando foram retirados os azulejos portugueses da fachada do pavimento térreo e alterados os vãos das portas, inclusive os arcos, outrora abatidos e, hoje, com vergas retas. A fachada da capela tem pano15 único e possui, no centro, uma portada e um vão de janela acima, ambos com arco abatido. Essa tipologia de fachada tem semelhança com as da Capela do Palácio dos Governadores e da Igreja de São João, projetos de Landi para Belém. Comparando a Capela Pombo e a Capela do Palácio dos Governadores é importante ressaltar que, no primeiro caso, a fachada da capela é destacada da do sobrado e suntuosa em contraste à simplicidade dele. Ao contrário, a dos Governadores tem fachada bastante discreta e totalmente integrada à fachada lateral do palácio. As dimensões da capela são modestas – “a menor das capelas [...] de Belém” (TOCANTINS, 1987, p.266) –, ao compará-la com outras existentes na cidade. Sua planta é retangular com nave16 única e sacristia na área posterior (figura 3). Figura 3 – Planta baixa da capela. Fonte: adaptado de BRAGA (1998, p. 76). 14 Segundo Robert Smith, esses azulejos são datáveis de cerca de 1890 e têm padrão da fábrica de Santo Antônio do Vale da Piedade (MENDONÇA, 2003a, p. 507). 15 O pano é a superfície plana de uma fachada ou retábulo. 16 Nave sf (lat nave) [...] 2 Parte interior da igreja, desde a entrada até o santuário. 3 Espaço longitudinal, entre fileiras de colunas, que sustentam a abóbada de uma igreja. Disponível em: http://michaelis.uol.com.br/ moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=nave. Acesso em: 28 fev 2010. Traços, Belém, v. 12, n. 26, p. 9-26, dez. 2010 18 O prédio apresenta, na parede posterior, duas portas que ladeiam o altar-mor e dão acesso a uma pequena área, hoje, desocupada e, antes, utilizada como sacristia. Segundo Pombo (1952/53, p.111-2), “[p]or atraz do altar fica a sacristia que se comunica com a capela por duas portas, uma das quais preparada para servir de confessionário; quando fechada, fica o sacerdote na sacristia e o penitente na capela”. Tal adaptação da porta, não mais existe. O retábulo, ladeado por duas aberturas, é uma tipologia que pode ser vista em outros trabalhos de Landi como: na Capela do Palácio dos Governadores e no salão dos Pontificais da Igreja da Sé, em Belém e nos desenhos para as capelas tumular do Governador Ataíde Teive e de Santa Rita de Cássia, ambas em Belém, e para o altar lateral da igreja matriz, em Barcelos. Essa é a característica que confirmaria ser de Landi a autoria do projeto para a capela. A capela possui um balcão17, espécie de coro (figura 4), localizado sobre a porta principal. O acesso a essa parte do edifício era feito a partir da casa e se dava por uma porta, hoje, fechada. O balcão, com balaustrada e piso de madeira, era utilizado pela família e amigos, e o povo e os escravos ficavam na nave. Tocantins (1987, p. 266) diz, a respeito desse espaço: “[...] a área foi suficiente para adotar a solução de um coro, à semelhança das capelas dos palácios de Portugal [...]”. Figura 4 – Balcão com a porta de acesso à residência. Fonte: Domingos Oliveira, 2009. A fachada tem tipologia simétrica (figura 5) e lembra uma composição retabular, ou seja, as formas remetem a um retábulo. Suas linhas gerais são essencialmente tardobarrocas, observadas pelos elementos arquitetônicos movimentados, como as volutas; pelo uso da linha curva 18 associada à linha reta de forma elegante; pelo uso livre das ordens arquitetônicas; e pela sobreposição de elementos escultóricos como rosetas e bossagens, colunas e pilastras. 17 Desde tempos antigos a música faz parte das cerimônias religiosas. Isso explica muitas igrejas serem providas de balcões para os corais e órgãos. A posição elevada melhorava a acústica e dava um efeito celestial (Organs and Cantoria). Disponível em: www.romeartlover.it/Organs.html. Acesso em: 28 fev. 2010 (tradução livre do autor). 18 A linha curva adquiriu, desde a Idade Média, o sentido de elevação da vida moral. No barroco, sendo mais livre, é mais propícia para expressar e gerar emoções, o que justifica o seu grande uso nesse período, não apenas na decoração, mas na própria estrutura arquitetônica (SOBRAL, 1986, p. 116). Traços, Belém, v. 12, n. 26, p. 9-26, dez. 2010 19 A fachada é emoldurada por pilastras assentadas sobre pedestal elevado e arrematadas por entablamento ornado com tríglifos intercalados com rosetas (figura 5 - det. 3). Acima do friso, há uma fileira de dentículos (figura 5 - det. 4). Coroa a fachada, um corpo central ladeado por volutas. O corpo tem frontão em arco, ladeado de segmentos de reta. Lateralmente, há trechos de frontões seccionados que coroam as pilastras e, sobre estes, vasos19 do tipo fogaréu (figura 5). A portada, central, é encimada por um elemento decorativo composto por volutas e concha20 (figura 5 - det. 6). Sobre esta, há um frontão triangular arrematado por dois segmentos de reta laterais, apoiados em mísulas sob a forma de volutas vistas de frente e de lado (figura 5 - det. 2). Acima desse frontão, abre-se a janela com guardacorpo de balaústres, ladeada por pilastras assentadas em bases de perfil arredondado e decoradas com folhas de acanto (figura 5 - det. 1). Os fustes das pilastras são decorados com bossagens21 em forma de estrelas e anéis (figura 6 - det. 5) idênticos a elementos das cenografias dos Bibiena. Figura 5 – Fachada da capela e detalhes dos ornamentos. Fonte: Domingos Oliveira, 2009. 19 O uso constante de vasos na decoração dos templos deve-se, principalmente, ao seu sentido esotérico. O vaso está ligado à simbologia da fecundidade – o útero. O vaso representa, portanto, um depositário da vida, o tesouro da vida espiritual (SOBRAL, loc. cit.). 20 “A concha [...] participa do simbolismo da fecundidade [...]. No cristianismo, a concha é associada ao batismo, que purifica a alma, fecundando-a de graças e tornando-a digna do reino de Deus” (SOBRAL, op. cit., p. 115). 21 s.f. Arquitetura. parte saliente de pedra bruta ou talhada, deixada propositadamente numa parede ou numa coluna para receber escultura ou servir de ornamento. Disponível em: <www.hostdime.com.br/dicionario/ bossagem.html>. Acesso em: 28 fev. 2010). Traços, Belém, v. 12, n. 26, p. 9-26, dez. 2010 20 Alguns elementos presentes nessa fachada podem ser encontrados em outras obras de Landi como: o elemento central do frontão superior que pode ser visto na pintura de quadratura dos altares laterais da Igreja de São João, em Belém e no projeto para a fachada da Igreja Paroquial de Cametá, no Pará; e o frontão triangular sobre a porta de entrada, encontrado na tribuna da Capela do Palácio dos Governadores, em Belém. O interior da capela obedece às mesmas linhas da fachada, em sua maioria tardo-barrocas. As paredes são emolduradas por painéis de argamassa e coroadas por frisos. As laterais têm pilastras sobre pedestais arredondados. Essas pilastras dividem as paredes laterais em três setores, sendo o central (figura 6) tomado por um painel moldurado e enquadrado com arco pleno, coroado com segmentos de frontão e pedra de fecho que apoia uma peanha, hoje, não mais utilizada. Sobre esse painel, há uma janela-nicho falsa, encimada por segmentos de frontão em arco, tendo, ao lado, segmentos de reta. Há ainda um elemento aconcheado e uma flor que lembra uma rosa, símbolo mariano. Figura 6 – Pano central das paredes laterais. Fonte: Domingos Oliveira, 2009. Para Mendonça (2003a, p. 508), na parede lateral direita, haveria, originalmente, uma porta de comunicação com o piso térreo da residência, o que nos parece pouco provável, pois não há sinais de fechamento desse vão. Leandro Tocantins (1987, p. 266) também faz referência a uma porta na nave da capela que servia de acesso à residência, sem, entretanto, precisar sua localização. Teixeira (1998, p. 38) faz alusão à porta de comunicação com a senzala que teria sido fechada em 1973, por ocasião de uma reforma, não fornecendo maiores informações quanto a isso. Traços, Belém, v. 12, n. 26, p. 9-26, dez. 2010 21 Hoje, o interior, assim como a fachada, é pintado de branco, diferente do passado, segundo informação do jornal “A Palavra”22, no qual o autor diz: “Entramos e... pasmamos com a limpeza! As paredes caiadas, com frisos amarelos [...]”. Assim como na fachada, detalhes aconcheados também existem no interior, nos acabamentos das molduras das portas (figura 7) e nas paredes laterais (figura 8). Figura 7 – Detalhes aconcheados. Fonte: Domingos Oliveira, 2009. Figura 8 – Detalhes aconcheados. Fonte: Domingos Oliveira, 2009. “[N]a parede da frente, ao lado da porta de entrada existe uma pia para água benta” (POMBO, 1952/53, p.111-2), essa peça ainda está presente hoje, apesar de deteriorada pelo tempo. As imagens de santos existentes na capela são recentes. As originais, em parte, foram devastadas por cupins e outras estão em poder da família. A imagem do Senhor Morto que ficava no altar e que, por anos, ficou desaparecida, foi recuperada e faz parte do acervo do Museu de Arte Sacra do Pará. 22 RELÍQUIA [...], 1949, p. 1. Traços, Belém, v. 12, n. 26, p. 9-26, dez. 2010 22 Um simétrico retábulo de argamassa existe na parede posterior à entrada. Tem linhas tardo-barrocas, observadas pelo uso livre das ordens clássicas, conjugadas a elementos cenográficos de influência bibienesca. O retábulo (figura 9) é marcado por pilastras sobrepostas de capitel jônico e fuste estriado sobre bases de seção arredondada. As pilastras são coroadas por volutas que convergem para o centro da composição. Na área central do retábulo, há um nicho raso, com peanha, encimado por elementos florais e figura angelical23 (figura 9 - det. 2), ladeado por pilastras com fustes adornados com escamas apostas, bases em formato de volutas e rematadas por placas de volutas convergentes (figura 9 - det. 4), que servem de apoio a capitéis jônicos dos quais pendem grinaldas de flores. Importante ressaltar aqui que as placas de volutas convergentes são elementos característicos do trabalho dos Bibiena, mestres de Landi. No interior do nicho, há elementos decorativos de argamassa. Abaixo desse, existe um elemento composto por volutas ascendentes e descendentes (figura 9 - det. 5). Na parte mais alta da composição, há um resplendor com a pomba do Espírito Santo ao centro (figura 9 - det. 3). Acima do resplendor, há uma cártula com elementos aconcheados, que adornam um monograma mariano (figura 9 - det. 1). Cártula e monograma são arrematados por uma figura angelical e ladeados por volutas ascendentes. Figura 9 – Altar-mor da capela e detalhes dos ornamentos. Fonte: Domingos Oliveira, 2009. 23 Na decoração da arquitetura barroco-religiosa, o uso dos anjos é comum e se enquadra como elemento de composição embora nem sempre representado segundo o simbolismo das hierarquias angelicais da arte medieval, o que, muitas vezes, faz confundir anjos cristãos com Amores ou Cupidos da mitologia greco-romana (SOBRAL, 1986, p. 116). Traços, Belém, v. 12, n. 26, p. 9-26, dez. 2010 23 Muitos dos elementos do retábulo são encontrados em outras obras landianas. Por exemplo, o conjunto formado pelo resplendor com a pomba do Espírito Santo pode ser visto na pintura de quadratura do altar-mor da Igreja de São João e no altar-mor da Capela da Ordem Terceira do Carmo, além de ser notado também nos projetos do altarmor e da Capela do Santíssimo, da Igreja da Sé, todos em Belém. As placas de volutas convergentes podem ser vistas também no altar-mor da Igreja de Sant’Ana e no da Igreja da Ordem Terceira do Carmo e no átrio da sala dos pontificais, na Sé, todas em Belém. As guirlandas de flores, recorrentes nos projetos landianos, podem ser observadas na pintura de quadratura do altar-mor da Igreja de São João e no projeto para a Portada da Alfândega, edifício não construído, ambos em Belém. Importante é observar que o trabalho de Landi apresenta, paralelamente, as duas correntes do barroco tardio, a de tendência classicizante e a de influência borromínica, que caracterizavam a arquitetura de Roma naquela época, como faz referência Oliveira (2003, p. 136): Se a vertente classicizan te inscreve-se d iretamente no co ntexto de sua formação na Aca demia Clementin a de Bolonha, a sedução dos temas borro mínicos, ao que tudo indica, poderia estar relacionada com a breve estadia em Lisboa entre 1750 e 1755, à espera do embarque para a Amazônia. Para Braga (1998, p.129), pelas influências que sofreu, Landi se utilizou de informações do vocabulário do tardo-barroco italiano associadas, às vezes, a elementos de influência portuguesa em composições simples, sem muitos ornatos, possivelmente, pela carência de materiais na região, o que pode, certamente, ter limitado o resultado final da obra no que diz respeito aos elementos ornamentais. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS A Capela Pombo é um monumento de singular importância para a arquitetura, para a história, para a arte, para a cultura da cidade de Belém. Esse artigo reforça sua importância e visa colaborar para ratificar a necessidade de sua preservação e consequente requalificação de seu entorno. Sob o ponto de vista da arquitetura, o bem precisa ser valorizado por ser o único exemplar de capela particular, proveniente do século XVIII, ainda existente na cidade. Sob o ponto de vista artístico, é importante frisar que o monumento reúne, em uma área reduzida, características estilísticas, ligadas ao tardo-barroco. Sob o ponto de vista da história, o edifício faz parte de uma área de ocupação inicial de Belém, a Campina, portanto é referência de um período significativo de formação da cidade. Além disso, os indícios de ser uma obra produzida pelo arquiteto italiano Landi dão a ela um valor imensurável. As pequenas dimensões do edifício, o desconhecimento de sua existência por parte da população, o fato de estar perdida no emaranhado de elementos visuais do seu entorno, ser encaixada entre residências e suas condições precárias de conservação, podem ser os responsáveis pelo esquecimento pelo qual passa o edifício. Traços, Belém, v. 12, n. 26, p. 9-26, dez. 2010 24 Considerando as singulares características arquitetônicas e artísticas da edificação e seu valor histórico, é importante gerar a dispersão dos conhecimentos sobre a mesma, como forma de registro do período de formação da cidade, além de possibilitar revelar valores artísticos e culturais a ela intrínsecos. As já citadas reduzidas dimensões e a delicadeza de suas formas podem servir de diferencial para sua revalorização. Redescobrir esse bem e revelá-lo à comunidade, ampliando seu uso, hoje reduzido, mostrando a importância do mesmo, pode, então, ser o meio através do qual sua valorização pode ser alcançada e, a partir de sua singularidade, tornar-se um ponto de atração na área. Com relação à autoria de seu projeto, atribuída a Landi, nada pode ser confirmado, porém, a partir das comparações com outras obras do arquiteto, não há como negar que há muitas semelhanças com as tipologias e os elementos utilizados por ele em seus trabalhos. E, sabendo-se ser o italiano o único arquiteto conhecido na região à época, é inevitável a ele atribuir sua autoria. Entretanto não é totalmente descartável a possibilidade de ter o arquiteto feito discípulos e de um desses ter vindo tal obra, embora os documentos silenciem quanto a isso e sua execução seja característica de mãos com formação apurada. Contudo, independente da autoria de seu projeto arquitetônico, o bem por si só já acumula, como é visto ao longo deste trabalho, qualidades que lhe conferem importância. O monumento está, hoje, em condições físicas que inspiram cuidados. Medidas preservacionistas precisam ser tomadas de forma imediata, no sentido de tirá-lo do estado de abandono físico em que se encontra e evitando que mais um bem seja perdido do patrimônio da cidade. Várias são as maneiras de entender o monumento, várias as interpretações. Muitos são os significados que possui frente a seus usuários. A capela, apesar da falta de maiores cuidados, continua viva e escrevendo a história da travessa Campos Sales, do bairro do Comércio, da cidade de Belém. Porém, quanto maior seu uso, maior seria sua participação na construção dessa história para as gerações futuras. REFERÊNCIAS A FUGIDA e a procissão do Senhor Bom Jesus dos Passos. A palavra. Belém, 14 mar./940, p.4. AMARAL, Aracy Abreu. A hispanidade em São Paulo: da casa rural à Capela de Santo Antônio. São Paulo: Nobel, 1981. APEP/AHU. Arquivo Público do Estado do Pará / Secretaria de Estado da Cultura (SECULT) Projeto Resgate da Documentação Histórica Barão do Rio Branco – Documentos manuscritos avulsos da capitania do Pará (1616-1883), Conselho Ultramarino – Brasil / Arquivo Histórico Ultramarino, Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa, [2002]. AZEVEDO, Carlos de. Solares portugueses. Lisboa: [s.n.], 1969. p. 82. BARATA, Manuel de Mello Cardoso. Apontamentos para as ephemérides paraenses. Rio de Janeiro: J. 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Traços, Belém, v. 12, n. 26, p. 9-26, dez. 2010 27 ANÁLISE DE DESEMPENHO LOGÍSTICO DAS CADEIAS PRODUTIVAS DE PRODUTOS FLORESTAIS NÃO MADEIREIROS ORIUNDOS DA REGIÃO AMAZÔNICA André Cristiano Silva Melo* Bruna Brandão Moreira** Evander Dayan de Mattos Alencar*** RESUMO Os produtos florestais não madeireiros (PFNM) são cada vez mais utilizados como matéria-prima destinada à produção dos chamados bioprodutos. Dessa forma, na Amazônia, emergem como real possibilidade de uso sustentável dos recursos da biodiversidade. Nesse panorama, o presente estudo consolida-se por meio de levantamento bibliográfico e entrevistas, com representantes de bioindústrias localizadas na Região Metropolitana de Belém, com o objetivo de analisar os fatores-chave de desempenho logístico das cadeias produtivas de PFNM amazônicos. Assim, são identificadas as principais restrições logísticas que cerceiam a agregação de valor a tais produtos, bem como aos processos envolvidos nas cadeias produtivas da biodiversidade amazônica. Também são propostos investimentos e novas articulações entre os atores envolvidos no contexto. Palavras-chave: Cadeias Produtivas. Logística. Produtos Florestais Não Madeireiros. LOGISTICS PERFORMANCE ANALYSIS OF PRODUCTIVE CHAINS RELATED TO AMAZONIAN NON-TIMBER FOREST PRODUCTS ABSTRACT Non-Timber Forest Products (NTFP) are increasingly used as feedstock for the production of so-called bioproducts. Thereby, they emerge as a real possibility of sustainable use of amazonian biodiversity. In this scenario, this paper is based in literature survey and interviews with representatives of bioindustries located in the metropolitan area of Belem, in order to analyse logistics performance key factors related to productive chains of amazo* Professor e coordenador do curso de Engenharia de Produção - Universidade da Amazônia - Unama; professor do curso de Engenharia de Produção da Universidade do Estado do Pará - Uepa e coordenador do Núcleo Integrado de Logística e Operações - NILO. E-mail: [email protected] ** Estudante de graduação em Engenharia de Produção da Universidade do Estado do Pará - Uepa; membro do Núcleo Integrado de Logística e Operações - NILO. E-mail: [email protected] *** Estudante de graduação em Engenharia de Produção da Universidade do Estado do Pará - Uepa; membro do Núcleo Integrado de Logística e Operações - NILO. E-mail: [email protected] Traços, Belém, v. 12, n. 26, p. 27-37, dez. 2010 28 nian NTFP. Thus, the main logistics constraints related to products and processes valueadded are identified. Besides, investments and new connections between actors involved are Proposed. Keywords: Productive Chains. Logistics. Non-Timber Forest Products. 1 INTRODUÇÃO Bastante valorizados e com diversas possibilidades de uso em bioindústrias, os Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNM) são cada vez mais utilizados como matéria-prima destinada à produção dos chamados bioprodutos e, dessa forma, emergem como real possibilidade ao uso sustentável dos recursos da biodiversidade amazônica, de maneira a contribuir, por exemplo, para a geração de renda às comunidades organizadas nas florestas da Amazônia. Existem, todavia, consideráveis aspectos condicionantes a ser superados para que, de fato, os empreendimentos que utilizam como fonte esses recursos naturais consolidem-se em bases sustentáveis. A logística da Região Amazônica torna-se um dos maiores desafios ao desempenho das cadeias produtivas de PFNM. Ressaltem-se, nesse sentido, gargalos em termos de infraestrutura de transporte, comunicação, instalações para armazenagem, complexidade de gestão dos estoques, além da carência de capacitação técnica e organizacional das comunidades. Fatores esses que evidenciam a necessidade de estudos que abordem aspectos referentes à competitividade e sustentabilidade das cadeias produtivas da biodiversidade amazônica. A presente pesquisa consolida-se por meio de levantamentos bibliográficos e entrevistas com representantes de bioindústrias localizadas na Região Metropolitana de Belém, de forma a viabilizar a análise de fatores-chave de desempenho logístico relacionados às cadeias produtivas de PFNM oriundos da Amazônia. Dessa forma, identificam-se as principais restrições logísticas que cerceiam a agregação de valor a produtos e processos envolvidos nessas cadeias produtivas e propõem-se investimentos, bem como novas articulações entre atores envolvidos no contexto. 2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.1 FATORES-CHAVE DE DESEMPENHO LOGÍSTICO Rodríguez et al (2008) ressaltam que “a luta acirrada pelos melhores clientes e a tentativa de se relacionar com os melhores fornecedores faz com que áreas antes consideradas periféricas na gestão empresarial passem a ser significativas.” Conforme os mesmos autores, “uma dessas áreas é a logística, que deixou de ser responsável apenas por transportar mercadorias (um centro de custos), e passou a ser determinante para o sucesso de muitas organizações, (um centro de lucro) agregando valor aos produtos.” Dessa forma, a logística trata da criação de valor manifestado primariamente em termos de tempo e lugar para os clientes e fornecedores de uma empresa e para todos Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 27-37, dez. 2010 29 aqueles que têm nela interesse direto. Ballou (2006) justifica tal proposição ao argumentar que “produtos e serviços não têm valor a menos que estejam em poder dos clientes quando (tempo) e onde (lugar) eles pretenderem consumi-los.” Destaque-se que a importância da logística no gerenciamento de uma cadeia produtiva pode, também, ser evidenciada por meio de suas modernas definições, uma das quais é registrada abaixo: Logística é o processo de planejar, implementar, controlar e analisar criticamente [ ...] a mo vimentaçã o e o ar mazenamen to de matériaprima, estoque em processo e produto acabado, de forma eficiente, eficaz e efetiva, com os custos razoáveis, através dos fluxos de materiais, informações, financeiros e reversos, desde o ponto de origem (fornecedores) até o ponto de consumo (clientes), com propósito de atender aos níveis estratégicos de serviços estabelecidos, inclusive o pós-venda, levando em consideração os aspectos de responsabilidade ética, social e ambiental. (TAPAJÓS, 2003 apud TAPAJÓS, 2008). Razzolini Filho (2006) afirma que, “[...] através da análise e avaliação de desempenho dos seus sistemas logísticos, as empresas poderão atingir seus objetivos mercadológicos e, consequentemente, sobreviver à competitividade em longo prazo.” Nesse sentido, Becker (2007) e, particularmente, Chopra & Meindl (2003) ressaltam, em suas obras, aspectos logísticos condicionantes ao desempenho de uma cadeia de suprimentos, os quais podem ser concebidos pelos fatores-chave expressos a seguir: a) Estoques: elementos reguladores entre transporte, fabricação e processamento, que são espalhados por toda cadeia de suprimentos, passando de matérias-primas para bens em processamento e, finalmente, para bens acabados mantidos por fornecedores, fabricantes, distribuidores e varejistas; b) Transporte: significa movimentação de estoques de um ponto a outro na cadeia de suprimentos, podendo ser feito de várias combinações de modos de transporte e rotas, cada uma com características particulares de desempenho, essenciais quanto ao custo, à velocidade e à segurança, agregando valor de lugar aos produtos, sejam estes bens, serviços ou bens combinados a serviços; c) Instalações: são locais na rede da cadeia de suprimentos onde o estoque é armazenado, montado ou fabricado; e, qualquer que seja a função das instalações, as decisões a respeito de localização, flexibilidade, capacidade de armazenamento e produção das mesmas influenciam significativamente o desempenho de uma cadeia de suprimentos; d) Informação: esse fator-chave envolve sistemas e tecnologias de informação, os quais, por sua vez, englobam recursos humanos, tecnológicos e organizacionais que agregam valor de qualidade e desempenho, mobilizando e disponibilizando dados, informações e conhecimento à cadeia de suprimento, de modo a viabilizar comunicação, monitoramento e controle acerca de estoques, transporte, instalações, custos e clientes. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 27-37, dez. 2010 30 Ratifique-se, diante desses aspectos, que a análise de um sistema logístico, deve, também, fundamentar-se no nível de serviço proposto aos clientes e, consequentemente, nos custos logísticos inerentes às decisões relacionadas aos processos de negócios desenvolvidos na cadeia de suprimentos. Ballou (1993) ressalta que o nível de serviço logístico é o resultado líquido de todos os esforços logísticos oferecidos pelos fornecedores aos seus clientes no atendimento dos pedidos. O autor conclui, ainda, que, como o nível de serviço está associado aos custos de prover esse serviço, o planejamento da movimentação de produtos e serviços deve iniciar-se com as necessidades de desempenho dos clientes. Do ponto de vista da logística, o cliente é a entidade à porta de qualquer destino de entrega e, independentemente da finalidade da entrega, o cliente é o foco e a força motriz para o estabelecimento dos requisitos do desempenho logístico. (BOWERSOX & CLOSS, 2001) Segundo Bowersox & Closs (2001), em algumas situações, o cliente é uma organização ou um indivíduo que toma posse do bem ou serviço entregue; em outras situações, o cliente é uma instalação diferente da mesma empresa ou um parceiro comercial situado em alguma outra parte da cadeia de suprimentos. Um empreendimento consegue, portanto, garantir seu sucesso empresarial à medida que entrega ao cliente o produto ou serviço, de modo que ele possa perceber claramente o seu valor. (KATO, 2003). De acordo com Kato (2003) para garantir esse sucesso, os estudos relacionados aos sistemas logísticos têm alcançado grande importância estratégica, onde novos conceitos têm ampliado os horizontes de atuação dos empreendimentos com merecido destaque em todo o mundo. 3 PRODUTOSFLORESTAIS NÃO MADEIREIROS ORIUNDOSDA BIODIVERSIDADE AMAZÔNICA “Em nenhum lugar do mundo existem mais espécies de animais e de plantas do que na Amazônia, tanto em termos de espécies habitando a região como um todo (diversidade gama), como coexistindo em um mesmo ponto (diversidade alfa).” (MPEG, 2010). “A riqueza da flora compreende aproximadamente 30.000 espécies, cerca de 10% das plantas de todo o planeta [...] São cerca de 5.000 espécies de árvores, enquanto na América do Norte existem cerca de 650 espécies de árvores.” (MPEG, 2010). Estudos da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos ABIHPEC (2004) identificam grandes demandas, no mercado nacional e internacional, por produtos cujos princípios ativos são componentes oriundos de recursos vegetais da biodiversidade, e atribuem as referidas demandas, principalmente, à(s): a) b) c) d) Queda no uso de insumos de origem animal no mercado internacional; Atuais tendências de se substituir produtos sintéticos por naturais; 20% de a biodiversidade de todo o mundo encontrar-se no Brasil; Existência, somente na Amazônia brasileira, de mais de 10 mil espécies de plantas possíveis de ser utilizadas como insumos em produtos para a saúde; e Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 27-37, dez. 2010 31 e) Estímulos às etnociências como parte de uma estratégia para o país obter alguma vantagem comparativa em biotecnologia. Nesse contexto, devido sua vasta aplicabilidade em bioindústrias e pela relevância socioeconômica para as c adeias produtivas da biodiversidade amazônica, ganham g rande destaque os PFNM, cuja função e relevância são abordadas a seguir: Os produtos florestais não madeireiros são bens de origem biológica, originados de florestas nativas ou de florestas plantadas e têm papel fundamental na geração de renda de populações rurais e indígenas em todo o mundo. Esses bens são de grande importância para consumo doméstico, na forma de alimentos, lenha, remédios, matéria-prima para construção de casas, dentre outros. Também são bens que contribuem para geração de renda familiar por meio da comercialização de exsudatos, folhas, frutos, raízes e sementes, além de ter um papel preponderante dentro da economia de comunidades locais. Recentemente esses produtos têm servido, inclusive, como porta de ingresso dessas comunidades em mercados mais amplos, principalmente por conta do uso de produtos extraídos desses componentes. (ANDERSON & CLAY, 2002 apud SILVA, 2005; FAO, 2003 apud SILVA, 2005). Estabelecendo-se um recorte da economia dos produtos da biodiversidade nacional, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2005) apud Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) (2007) “[...] a produção primária florestal é de R$ 10,3 bilhões, sendo que 66,41% são de silvicultura (florestas plantadas) e 33,59% do extrativismo vegetal (produtos coletados em vegetações nativas espontâneas).” Da produção de PFNM, que alcança a soma de R$ 508,4 milhões, os mais importantes produtos são babaçu, piaçava, açaí, erva-mate, carnaúba e castanha-do-pará. Dessa forma, 89,75% do valor total da PFNM incluem seis produtos. Todos os demais produtos da biodiversidade amazônica (óleo de copaíba, andiroba, urucum, guaraná, priprioca, murumuru etc.) representam 10,25% desse valor. (CGEE, 2007). A exploração dos recursos florestais não madeireiros (ou da biodiversidade) tem seu foco principal nos produtos regionais com finalidades comerciais e industriais, no amplo espectro da crescente importância dos bioprodutos para os mercados nacionais e internacionais, como fitomedicamentos e os cosméticos em geral. (COSTA, 2007). De acordo com Soares et al (2008), atualmente, consolida-se uma consciência sobre a importância representativa que os recursos florestais assumem no âmbito da economia de países em desenvolvimento, como o Brasil, uma vez que constituem alternativa viável para superar dificuldades socioeconômicas através de sua diversidade e abundância e da gama de produtos que podem ser obtidos da floresta. A importância dos PFNM da Região Amazônica também é especialmente abordada nos estudos do CGEE (2008): O cheiro do Pará está conquistando o mercado nacional e pode, em pouco tempo, perfumar o mercado internacional (SILVA, 2000b). Vários cremes e loções com frutas e plantas típicas da floresta amazônica Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 27-37, dez. 2010 32 como açaí, acerola, copaíba, cupuaçu, guaraná, buriti, andiroba, estão enriquecen do sabonetes, cremes e loçõ es da ind ústria de cosméticos (ZACHÉ, 2000). Respaldadas em pesquisas, as empresas de cosméticos explicam que o interesse em buscar recursos da Amazônia se bas eia no s poder es med icinais da f lora dessas r egiões . As espécies seriam r icas em substâ ncias q ue hidr atam e previn em o envelhecimen to da p ele. Vários empreendimentos têm procurado integrar os princípios e práticas do desenvolvimento sustentável em seu contexto de negócio, conciliando as dimensões econômica, social e ambiental da sustentabilidade no aproveitamento do potencial da biodiversidade. No entanto, este tipo de estratégia requer investimentos e capacitação em inovação, seja essa tecnológica ou organizacional, interna ou em parceria. (FERRO et al, 2006). Ainda segundo Ferro et al (2006): É neste contexto que se inserem, por exemplo, as atuais estratégias de algumas empresas nacionais atuantes em diferentes setores, como extratos naturais, cosméticos, perfumaria e higiene pessoal, as quais vêm procurando acompanhar e aproveitar o uso econômico da biodiversidade no desenvolvimento de novas trajetórias abertas por este mercado. É comum essas empresas desenvolverem projetos junto às comunidades locais, constituindo parcerias para, por exemplo, realizar a extração da matéria-prima por meio de planos de manejo sustentáveis e garantir a autossuficiência econômica das comunidades. 4 METODOLOGIA DO ESTUDO Para execução do presente trabalho, foram entrevistados representantes de três bioindústrias, do ramo de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, localizadas na Região Metropolitana de Belém. Realizaram-se, ainda, levantamentos bibliográficos acerca de aspectos logísticos da Região Amazônica que limitam o desempenho logístico de atores envolvidos nas cadeias produtivas da biodiversidade nativa. A análise dos dados obtidos no desenvolvimento da pesquisa fundamentou-se em fatores-chave de desempenho logístico, de forma a registrar um panorama das cadeias produtivas de PFNM oriundos da Amazônia e identificar principais demandas por investimentos, com vistas ao desenvolvimento sustentável regional. 5 ANÁLISE DOS FATORES-CHAVE DE DESEMPENHO LOGÍSTICO 5.1 TRANSPORTE Os maiores gargalos logísticos relacionados à obtenção de PFNM situam-se à montante das cadeias produtivas. As grandes distâncias dos pontos de coletas das matérias-primas aos pontos de fabricação de bioprodutos têm como agravante a carência de infraestrutura de transporte, marcante na Amazônia. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 27-37, dez. 2010 33 Os principais modais de transporte utilizados no suprimento de insumos da biodiversidade para empresas são o rodoviário e o fluvial. O primeiro é altamente afetado pelas condições das vias, as quais, em sua maioria, encontram-se em estado precário, o que se torna bastante crítico nos períodos mais chuvosos do ano. Já o modal fluvial encontra como restrições a reduzida frequência, a baixa confiabilidade e a escassez de terminaise armazéns, principalmente nas comunidades mais longínquas, retratando o subaproveitamento do potencial hidroviário da região. Tal situação evidencia, portanto, a necessidade de investimentos em multimodalidade e intermodalidade. 5.2 INFORMAÇÃO: SISTEMAS E TECNOLOGIAS Limitação também bastante influente no desempenho logístico das cadeias produtivas da biodiversidade refere-se ao fluxo de informação. As comunidades coletoras dos PFNM carecem de maior grau de integração e comunicação com os outros elos da cadeia para desenvolver operações de maneira eficiente e eficaz. Neste contexto, informações imprecisas ou incorretas às bioindústrias resultam em perda de produtividade, sistemas redundantes, lentidão e correções no recebimento de matéria-prima. São necessários, portanto, investimentos em infovias que contribuam para maior velocidade no fluxo de informações, conectando todos os elos da cadeia, de modo a fornecer suporte à tomada de decisão. Usualmente, as comunidades fornecedoras desenvolvem o extrativismo com técnicas primitivas. Por isso, quanto à questão sanitária, é incidente a falta de padronização dos PFNM. Adite-se a esse fator a ausência de tecnologias adequadas e a falta de acesso ao conhecimento científico por parte das comunidades. A sazonalidade das safras, a ausência de domínio sobre os preços para comercialização dos insumos e o baixo valor agregado dos mesmos no estado bruto dificultam a obtenção de lucro com a atividade. Dessa forma, raramente essas comunidades adotam o extrativismo de forma exclusiva, o que as leva a procurar alternativas econômicas como a pecuária. Com vistas à atenuação de tais restrições, é importante a organização dos produtores em associações ou cooperativas, as quais contem com apoio de empreendimentos que viabilizem capacitação organizacional e administrativa, aumentando as possibilidades de auferir ganhos com a extração de insumos da biodiversidade. Outro importante passo para a valorização dos recursos da biodiversidade é a certificação florestal, haja vista que oferece maior credibilidade às comunidades e às empresas quanto ao manejo de PFNM e às práticas sustentáveis. O Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (IMAFLORA, 2009) ressalta que os principais benefícios da certificação para o mercado são: i) diferenciação do produto; acesso a novos mercados e manutenção dos atuais; ii) maior propensão a teste de novos produtos; e iii) possibilidade de preços diferenciados. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Fitoterápica (ABIFITO) apud Enriquez (2008), devido à falta de uma legislação adequada para os produtos à base de plantas medicinais, as indústrias de fitoterápicos e de produtos de origem vegetal sofrem diversas punições que vão desde a apreensão dos produtos nas prateleiras das lojas e farmácias até a difamação do setor. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 27-37, dez. 2010 34 Enriquez (2008) ressalta, ainda, que, em decorrência da carência de regulamentação clara sobre o tema, crescem de forma considerável, as patentes estrangeiras sobre os produtos das cadeias produtivas da biodiversidade nacional, os quais, entretanto, já são conhecidos há tempos pelos povos tradicionais. Nesse contexto, como investimento na proposta de melhor aproveitamento do conhecimento tradicional das populações nativas da Região Amazônica, órgãos de fomento devem viabilizar o suporte técnico-científico de instituições de pesquisa regionais ou nacionais para que sejam viabilizados estudos que comprovem a eficácia dos princípios ativos oriundos dos “insumos da Amazônia” utilizados na composição dos bioprodutos, de forma a nortear atividades de bioprospecção. Gonçalves et al (2009) afirmam que a comprovação da eficácia destes produtos é de suma importância para o mercado consumidor, que deseja ver concretizado o apelo de venda que o impulsiona para o ato da compra, com ênfase na comprovação científica dos reais benefícios propostos por essas formulações. 5.3 INSTALAÇÕES Outro fator-chave nas cadeias produtivas da biodiversidade são as instalações, principalmente as relacionadas ao armazenamento de matérias-primas, haja vista que, perecíveis, necessitam de condições de armazenamento próprias, nem sempre seguidas. As instalações destinadas à produção dos bioprodutos localizam-se, em sua maioria, nos centros urbanos e são pertencentes às indústrias atuantes no ramo, isto é, atualmente a maioria das comunidades extrativistas limita-se à extração da matériaprima, o que restringe a agregação de valor aos referidos produtos nesse elo da cadeia. As instalações mais à jusante da cadeia de suprimentos, e, consequentemente, mais próximas aos clientes finais das bioindústrias estão relacionadas ao atacado e varejo tradicionais, além de lojas especializadas (franquias). Ressalte-se, aqui, ainda, a redução de custos logísticos referentes a instalações nos casos das vendas domiciliares (diretas), ou no contexto do e-commerce, tendências atuais. 5.4 ESTOQUES A economia extrativista apresenta limitações quanto ao crescimento do mercado, decorrente da tensão na oferta, que não consegue suprir a demanda, e que, por sua vez, é regida pela existência fixa de estoques naturais. (HOMMA, 2008). Nas cadeias produtivas da biodiversidade amazônica, a gestão dos estoques naturais de PFNM, torna-se ainda mais complexa em decorrência da sazonalidade das safras, da perecibilidade dos produtos, dificultando a rastreabilidade desses insumos. As incertezas decorrentes dos referidos fatores afetam as previsões de suprimento e o planejamento das bioindústrias estudadas. Dessa forma, devido à falta de estoques, não raramente, as bioindústrias passam por problemas que cerceiam o estabelecimento de níveis de serviço mais elevados aos seus clientes. No presente estudo, os representantes das organizações pesquisadas relataram, como principais problemas decorrentes das restrições supracitadas, a parada na produção, as perdas de venda e o atraso nas entregas acertadas com clientes. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 27-37, dez. 2010 35 Os fornecedores de PFNM atribuem, por sua vez, como principais motivos ao não atendimento da demanda das bioindústrias a escassez de estoques naturais, a sazonalidade da atividade extrativista; além de problemas com produção (mão de obra, ferramentas e máquinas). 6 CONCLUSÕES Em termos de sustentabilidade e competitividade para as cadeias produtivas da biodiversidade amazônica, é imprescindível a execução de ações voltadas à promoção de infraestrutura logística mais adequada, especialmente às populações tradicionais que se situam mais a montante, no embrião desta cadeia produtiva, atuando como fornecedores de PFNM, para que essas comunidades, de fato, passem a obter ganhos expressivos e, dessa forma, desenvolvam-se econômica e socialmente. Todavia, é fundamental, também, a organização dessas comunidades extrativistas em associações ou cooperativas, para que possam pugnar por seus direitosnas relações com os outros atores da cadeia, de modo a constituir um elo mais forte e tornar exequíveis as medidas orientadasà capacitação técnica e organizacional, às certificações e ao apoio tecnológico por parte do governo, com vistas a comercializar os produtos em questão com valor agregado superior em comparação ao valor dos mesmos em estado bruto. Neste sentido, são importantes os investimentos em instalações próximas às comunidades as quais sejam adequadas para manutenção dos padrões de qualidade dos PFNM exigidos pelos mercados, e que se destinem não somente à estocagem dos produtos no estado bruto, mas, conforme ressaltado, agreguem valor, como, por exemplo, as usinas de beneficiamento. Investimentos direcionados à melhoria das condições da infraestrutura de transporte na região também reduzirão consideravelmente custos logísticos desse componente de desempenho, os quais, notadamente, representam a maior parte do custo logístico total das cadeias produtivas. A viabilização da multimodalidade e da intermodalidade do transporte na Região Amazônica representa o aproveitamento do potencial hidroviário dos seus rios, a maior integração na região e o desenvolvimento de localidades litorâneas e ribeirinhas. Como consequência das ações acima propostas, a gestão dos estoques, importante fator condicionante de um sistema logístico, será, também, otimizada, uma vez que restrições como os elevados prazos para entrega de matérias-primas e as informações imprecisas ou incorretas serão atenuadas e, assim, a previsão do suprimento e o planejamento da produção apresentarão menores margens de erro. As bioindústrias, cada vez mais, ressaltam a adoção de políticas de responsabilidade social e ambiental nas comunidades extrativistas com as quais se relacionam comercialmente, enfatizando que suas articulações contribuem para o desenvolvimento sustentável da Região Amazônica. Ressalte-se, nesse contexto, a importância da utilização de insumos oriundos da biodiversidade não apenas como marketing para as organizações que produzem e comercializam bioprodutos, mas, especialmente, como forma de promoção da sustentabilidade, nos âmbitos social, econômico e ambiental. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 27-37, dez. 2010 36 REFERÊNCIAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA DE HIGIENE PESSOAL, PERFUMARIA E COSMÉTICOS - ABIHPEC. Potencial de produtos florestais não madeireiros para o setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos. 2004. Disponível em: http://www.abihpec.org.br/ conteudo/s02/cont/apres_compradores.ppt. Acesso em: 4 jan. 2010. BALLOU, Ronald. H. 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Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 27-37, dez. 2010 38 Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 29-42, jun. 2010 39 O USO DE RECICLAGEM DE PAVIMENTOS, COMO ALTERNATIVA PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL EM OBRAS RODOVIÁRIAS NO BRASIL Clauber Costa, MSc.* Wandemyr Filho, MSc.** RESUMO A necessidade da implantação de empreendimentos na área de engenharia e a constatação de sua viabilidade, segundo critérios técnicos e econômicos, sempre foram suficientes para a tomada de decisões nessa área. Neste sentido, os danos ambientais decorrentes dessas atividades foram considerados por muitos anos uma conseqüência natural, compensados pelos benefícios oriundos da oferta de bens e serviços. Contudo, o crescente impacto ambiental dessas atividades levou a sua regulamentação, destacando-se a obrigatoriedade do desenvolvimento de estudos de impacto ambiental (EIA) e o respectivo relatório de impacto ambiental (RIMA), em atendimento à Resolução CONAMA nº 001/86, de 23 de janeiro de 1986. Desta forma, o gerenciamento ambiental em obras rodoviárias federais brasileiras, tomou grande impulso nas últimas décadas. Este trabalho tem como objetivo identificar as vantagens da aplicação de técnicas de reciclagem de pavimentos, como forma de minimizar os impactos ambientais causados por obras de restauração e/ou recuperação de rodovias federais brasileiras. Palavras-chave: Reciclagem de pavimentos. Desenvolvimento sustentável. Meio ambiente. USE THE RECYCLING OF PAVEMENTS, AS ALTERNATIVE FOR SUSTAINABLE DEVELOPMENT IN ROAD WORKS IN BRAZIL ABSTRACT The need for the establishment of ventures in the engineering and realization of its viability, according to technical and economic criteria, were always sufficient for making decisions in this area. In this sense, environmental damage from these activities were considered for many years an outgrowth, offset by the benefits from the availability of goods and services. However, the growing environmental impact of these activities led to its regulation, emphasizing the development of mandatory environmental impact assessment (EIA) and its environmental impact report (EIR) in compliance with CONAMA Resolution No. 001/86 of 23 January 1986. Thus the environmental management in roadworks Brazilian federal, * ** PACS Assessoria Ltda.-Rio de Janeiro –RJ (email: [email protected]) WS Geotecnia Ltda – Belém - PA Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 40 took great momentum in recent decades. This work aims to identify the advantages of applying techniques of pavement recycling, to minimize the environmental impacts caused by the works of restoration and recovery of the Brazilian federal roads. Keywords: Pavement recycling. Sustainable development. Environment. 1 INTRODUÇÃO A escolha brasileira pelo transporte rodoviário traz embutidas diversas conseqüências ambientais. Além do grande efeito poluidor dos gases liberados pelos escapamentos dos automóveis, há o impacto da construção das estradas que implica retirada e transferência de enormes quantidades de terra, desmatamento, alterações na forma de escoamento das águas, assoreamento de rios e expansão urbana associada e os impactos advindos da manutenção das vias. De acordo com o Banco Mundial, existem mais de 15 milhões de quilômetros de estradas pavimentadas e rodovias no mundo inteiro. Cada ano, centenas de milhares de quilômetros das mesmas requerem grandes restaurações. Os governos e as autoridades locais no mundo inteiro gastam anualmente uma quantia estimada em 100 bilhões de dólares americanos no empenho de manter as rodovias funcionais e seguras. Entretanto, devido a orçamentos inadequados para o setor de transporte e ao custo elevado da restauração convencional, o acúmulo global de estradas deterioradas é significante. Pavimentos deteriorados têm como características superfícies de baixa qualidade e defeitos, como trincas, panelas e desagregação. A deterioração do pavimento é influenciada, em grande parte, por condições climáticas severas, volume intenso de tráfego e excesso de cargas, assim como pela qualidade da construção e manutenção da estrada. Essa deterioração tende a acelerar-se após vários anos de serviço, mas a recuperação oportuna com recapeamento ou reciclagem pode restaurar a serventia do pavimento e aumentar a vida útil da rodovia. A camada da superfície dos pavimentos asfálticos é composta de asfalto, um subproduto do petróleo, e agregado mineral, mistura de rocha de qualidade e areia. Em diversas regiões do mundo, estes materiais estão escassos, tornando-os mais caros. Durante décadas, os responsáveis pela pavimentação têm tentado diversos métodos e/ ou tecnologias de restauração e conservação rodoviária, a fim de fazer a melhor utilização do agregado e asfalto presentes nos pavimentos asfálticos deteriorados. Um dos métodos mais promissores é a reciclagem de pavimentos, para a qual há uma variedade de equipamentos e processos consagrados. Estudos do Banco Mundial têm demonstrado que a reciclagem de pavimentos asfálticos é particularmente efetiva em termos de custo, quando realizada antes da deterioração extrema do pavimento. Segundo Miranda e Silva (2000) a reciclagem de pavimentos tem se mostrado um bom caminho não apenas pela rapidez executiva, mas também pelo aspecto da preservação ambiental. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 41 A técnica de reciclagem de revestimentos asfálticos traz vantagens em relação ao meio ambiente, pois faz uso total ou parcial dos materiais do pavimento existente, com seu devido beneficiamento. Também diminui a quantidade de resíduos gerados pelo método tradicional de recuperação rodoviária, que; em geral; consta de adição de nova camada asfáltica ou mesmo pode ter bota-fora da antiga. 2 CONSIDERAÇÕES GERAIS 2.1 A MALHA RODOVIÁRIA FEDERAL O transporte rodoviário passou a evidenciar a sua principal importância no processo de integração nacional a partir dos anos 40, em especial após o término da 2ª Guerra Mundial. Naquela época este modal ultrapassava o ferroviário na movimentação de cargas, e por volta de 1950, passou também a transportar mais “toneladas por quilômetro” de cargas domésticas do que a navegação de cabotagem. A malha rodoviária brasileira apresentou sua maior expansão nas décadas de 60 e 70 – período em que cerca de 20 % do total dos gastos do setor público, conforme relatório do Banco Mundial, foram destinados à construção e manutenção de estradas no país. Os valores apresentados na Tabela 1 mostram a expansão da malha rodoviária brasileira ocorrida no período 1960/1980 e o declínio posterior Tabela 1 – Evolução da Malha Rodoviária Nacional 1960/2000 * valores aproximados Fonte: DNIT ** Não estão computados as extensões de rodovias planejadas, mas não implantadas. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 42 A seguir, na figura 1, mostram-se, de forma gráfica, os dados da tabela 1 referentes à extensão da malha pavimentada rodoviária nacional (quantidade acumulada). Figura 1 – Evolução da Malha Rodoviária Nacional Pavimentada 1960/2000. Vale destacar que o modal rodoviário é inserido no processo produtivo com importante função na atividade meio, com relevância no contexto do desenvolvimento global do país, constitui grande indutor do desenvolvimento sócio-econômico e é fator de segurança e de integração político-administrativa. A falta de investimentos dos órgãos governamentais no setor rodoviário ocorrida nos últimos anos, levou à degradação da rede viária brasileira. As consequências do mau estado de conservação da rede e as perspectivas de agravamento da situação se traduzem em acréscimo do consumo de combustível e no tempo de viagem e elevação do índice de acidentes entre outros impactos negativos. Assim, com os recursos públicos cada vez mais restritos, existe a necessidade de estudos e pesquisas voltadas às áreas de tecnologia e/ou processos que sejam técnica e economicamente viáveis bem como ecologicamente sustentáveis, de modo a promover um desenvolvimento socioeconômico-ambiental mais adequado. 3 IMPACTOS AMBIENTAIS Entende-se por Impacto Ambiental qualquer alteração nas propriedades físicas e/ou químicas e/ou biológicas do meio ambiente, provocadas por ações humanas. Estes impactos podem ser classificados segundo uma série de características como as colocadas na tabela 2, a seguir (DNIT, 2005). Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 43 Tabela 2 – Características dos impactos ambientais Fonte: DNIT, 2005 3.1 IMPACTOS AMBIENTAIS DECORRENTES DE EMPREENDIMENTOS RODOVIÁRIOS Tradicionalmente os programas rodoviários são divididos em 4 (quatro) etapas ou fases, cada qual com características e estudos específicos com potencialidades distintas de impactar o meio ambiente (DNIT, 2005). Essas fases são: viabilidade, planejamento e projeto, construção e operação. A fase de viabilidade consiste do processo de avaliação de uma rodovia sob o aspecto técnico-econômico, com base em um conjunto de estudos, conceituações e avaliações que permitem caracterizar o volume de tráfego anual e futuro, as alternativas de traçado e a definição técnica das alternativas quanto à capacidade, quantificação do conjunto de obras e à interferência com outros planos e programas, objetivando a avaliação dos benefícios resultantes da implantação comparados com os custos requeridos pela obra. Segundo Fogliatti (2004), “na fase de planejamento de um sistema de transporte, devem-se incluir estudos de localização do projeto (no caso de projetos rodoviários, estudos de alternativas de traçado), determinado pelo artigo 5º da Resolução 001/86 do CONAMA, respeitando e observando a compatibilidade do projeto com os planos e programas do governo propostos na área de influência, além das análises de pré-viabilidade técnica e econômica do empreendimento”. Segundo Gourdad (2000), na fase de planejamento e projeto, não são observados impactos ambientais significativos nos meios físicos e bióticos decorrentes das atividades apresentadas, porém esta fase pode ocasionar algumas expectativas, gerando impactos no meio antrópico. Segundo Bella e Bidone (1993) “à medida que se iniciam os trabalhos visando ao projeto de engenharia é muito comum um processo intenso de valorização do preço da terra, tanto nas áreas rurais, como nas áreas urbanas que passarão a ser servidas. Tal valorização tem como consequência as alterações de uso do solo e até mudança do público-alvo, Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 44 que pode não resistir às ofertas de compra com valores crescentes, além de ocasionar impedimentos à construção e à operação, e à potencialização de problemas sociais devido a interfaces com áreas de conflito social ou já degradadas ambientalmente”. Com isso, pode-se destacar como impacto ambiental na fase de planejamento e projeto a grande especulação quanto ao uso do solo, ou seja, a especulação imobiliária. Durante a fase de implantação (construção) da rodovia, as principais atividades são basicamente: a mobilização, a instalação do canteiro, a implantação da obra e a desmobilização (SÁ, 1996). Assim segundo estudos do Geipot (1995), tem-se como principais impactos observados na fase de implantação de um projeto rodoviário aqueles decorrentes do canteiro de obras, dos desmatamentos e limpeza dos caminhos de serviço, da terraplenagem, empréstimos e bota-fora, da drenagem e da exploração de materiais de construção, como por exemplo, a indução de processos erosivos, os assoreamentos e a evasão da fauna, entre outros. Após a implantação da rodovia seguem-se as atividades relacionadas à sua operação que são iniciadas após a conclusão das obras de desmobilização de canteiros e usinas, mais precisamente quando for efetivada a liberação do corpo estradal aos diversos usuários, de modo que estes possam utilizá-lo com condições de conforto e segurança. Assim, a fase de operação engloba atividades de conservação e de restauração. Podem ser destacadas: a conservação de rotina; a de emergência, a especial e o reordenamento do tráfego. Portanto, a conservação da rodovia envolve todas as atividades preventivas e corretivas de controle e de manutenção das rodovias. Podem ser citados como impactos decorrentes desta fase a poluição atmosférica, a poluição das águas, os ruídos e vibrações entre outros. Na Tabela 3 são mostradas as principais fontes de ruído nesta fase. Na tabela 4 são apresentados exemplos de desconfortos causados por exposição a níveis de som em excesso. Nesta fase também os padrões de qualidade do ar adotados no Brasil tem seus valores limite determinados pela Resolução CONAMA nº 03/90 de 28 de junho de 1990, conforme apresentado na Tabela 5. Tabela 3 – Origem dos ruídos na fase de operação de uma rodovia. Fonte: DNIT, 2000 Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 45 Tabela 4 – Níveis de ruídos e suas consequências. Fonte: SOUZA, 1992 apud PEREIRA, 2000 Tabela 5 – Padrões primários de qualidade do ar ambiente. Fonte: DNIT, 2000 Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 46 Uma vez instalada a rodovia e iniciada a sua operação, começa sua deterioração e, portanto, se faz necessária obra de recuperação. Assim a restauração de rodovias representa um conjunto de intervenções que visam ao restabelecimento/recuperação total ou parcial de uma edificação a uma fase anterior. Dentre os impactos ambientais associados a esta fase, pode-se destacar: a fixação temporária de mão de obra, a emissão de poeira e gases, alterando a qualidade do ar, a incidência de focos de incêndio entre outros. 4 MÉTODOS TRADICIONAIS DE RESTAURAÇÃO E/OU RECUPERAÇÃO RODOVIÁRIA Métodos tradicionais para o revestimento de pavimentos asfálticos deteriorados são a aplicação de novas misturas asfálticas a quente no recapeamento, com ou sem fresagem a frio, com equipamentos mostrados nas Figuras 2 e 3 como exemplo, e/ou a remoção dos materiais existentes na superfície com equipamento pesado tipo trator de esteira, (Figura 4). Recapeamentos (adequada sobreposição ao pavimento existente de uma ou mais camada(s) constituída(s) de mistura(s) betuminosa(s) e/ou concreto de cimento portland) são tipicamente utilizados sobre toda a superfície da rodovia, incluindo os acostamentos. Entretanto, essas soluções convencionais utilizam grandes quantidades de recursos naturais, como material betuminoso e materiais agregados (material graúdo e miúdo) de alta qualidade. O processo de recapeamento, de pavimentos asfálticos, além de apresentar um custo relativamente alto, alterar a geometria da pista e sua cota, também consome muito tempo, interrompe o tráfego e é potencialmente perigoso para os motoristas e mão de obra envolvida no trabalho, como mostram os exemplos das Figuras 5, 6 e 7 a seguir. Figura 2 – Máquina fresadora. Figura 3 – Máquina fresadora. Fonte: www.1gec.eb.mil.br Fonte: www.ciber.com.br Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 47 Figura 4 – Restauração rodoviária. Fonte: www.1gec.eb.mil.br Figura 5 – Restauração rodoviária. Fonte: www.prodesivo.com.br Figura 7 – Tapa-buraco. Figura 6 – Restauração rodoviária. Fonte: www.1gec.eb.mil.br Fonte: www.prodesivo.com.br Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 48 4.1 IMPACTOS AMBIENTAIS ASSOCIADOS AOS MÉTODOS TRADICIONAIS DE RESTAURAÇÃO E/OU RECUPERAÇÃO RODOVIÁRIA Durante os serviços de restauração e/ou recuperação rodoviária, sobretudo para os métodos tradicionais, identificam-se possíveis impactos ambientais listados na Tabela 6. Tabela 6: Impactos associados aos métodos tradicionais de reciclagem de pavimentos Fonte: Do Autor Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 49 No impacto ambiental identificado com o surgimento de erosões, deslizamentos, assoreamento, desertificação que normalmente ocorrem em caixas de empréstimo, nos locais de bota-foras e de disposição do material resultante da fresagem do pavimento, a medida mitigadora mais adequada é a execução de obras de drenagem complementares e de substituição de dispositivos. Ainda sobre o meio biofísico, o impacto ambiental identificado com a aceleração do processo de extinção regional de animais silvestres, ocasionado por atropelamento, a medida mitigadora mais adequada é a execução de “passagem seca” para os referidos animais. Para o impacto ambiental causado pela elevada emissão de poeira e gases, alterando a qualidade do ar (Figura 4) a medida mitigadora mais adequada seria aspergir água nas áreas poeirentas e/ou usar máscaras. Com relação ao meio antrópico, a medida mitigadora mais adequada para o impacto de acidentes com pessoas e equipamentos envolvidos direta ou indiretamente no serviço, é a adoção de programas de esclarecimento junto aos operários envolvidos na obra e/ou controlar a velocidade de veículos e equipamentos na obra. Já o impacto relativo ao excesso de ruídos e vibrações, uma medida mitigadora adequada seria realizar manutenção regular das máquinas e equipamentos. De forma geral, o entulho proveniente dos métodos tradicionais de restauração e/ou recuperação rodoviária muitas vezes é gerado por deficiências de implantação de novas tecnologias no processo de construção rodoviária. A melhoria no gerenciamento e controle de obras públicas e também trabalhos conjuntos com empresas, universidades e pesquisadores ligados à construção rodoviária, podem contribuir para atenuar este desperdício. 5 RECICLAGEM DE PAVIMENTOS 5.1 ASPECTOS GERAIS Segundo Momm e Domingues, (1995): Entende-se por r eciclag em de pavimentos, a reutilizaçã o tota l ou parcial dos materiais existentes no revestimento e/ou da base e/ou da s ub-base, em que os materiais sã o remis turados no estad o em que se encontram após a desagregação ou tratados por energia térmica e/ou aditivados com ligantes novos ou rejuvenescedores, com ou sem recomposição granulométrica. Inicialmente a reciclagem era realizada com equipamentos manuais com dispositivos de lâminas e escarificadores (exemplo: Figura 8), para a retirada do material da pista. Atualmente, utilizam-se máquinas fresadoras, (Figuras 2 e 3). Contudo, o princípio básico ainda é o mesmo: fragmentar, triturar e retirar a camada antiga do pavimento e assim reutilizá-la através da combinação com materiais novos obtendo-se uma nova camada, com o emprego de modernas máquinas fresadoras - recicladoras, ou recicladoras/estabilizadoras, (Figuras 9, 11 e 12). Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 50 Figura 8: Trator pesado equipado com escarificador (Ripper). Fonte: www.viciana.com.ar/granprof.htm A reciclagem de pavimento apresenta-se como uma solução para muitos problemas e oferece inúmeras vantagens em relação à utilização convencional de materiais virgens. Podem ser citadas as seguintes (DNIT, 2006): a. Conservação de agregados, de ligantes e de energia, ou seja, a reutilização dos agregados do pavimento degradado propicia uma redução na demanda de novos materiais e das respectivas distâncias de transporte, prolongando o tempo de exploração das ocorrências existentes, além disso, o ligante remanescente pode ter suas propriedades restabelecidas pela adição de asfalto novo ou agente rejuvenescedor. O consumo de energia também pode ser favorecido através de sua redução durante a usinagem da mistura. b. Preservação do meio ambiente, ou seja, evitar a exploração excessiva de jazidas minerais (caixas de empréstimos), evitando, assim, o acúmulo e/ou geração do passivo ambiental. c. Conservação das condições geométricas existentes, ou seja, a adoção das técnicas de reciclagem permite que as condições geométricas da pista sejam mantidas ou modificadas facilmente, evitando-se problemas, como por exemplo, as alturas em túneis (gabarito vertical) e o acréscimo de carga permanente em pontes e viadutos. A partir da crise do petróleo, na década de 70 do século XX, com a escassez de materiais asfálticos e com a crise econômica internacional, os técnicos rodoviários em conjunto com os organismos de fomento, voltaram-se para a idéia de reprocessar os materiais de pavimentação de pistas deterioradas, por meio da reciclagem, de forma a restaurar as condições de tráfego de vias em níveis satisfatórios, tanto do ponto de vista técnico quanto financeiro (BONFIM, 2001). Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 51 No Brasil, a primeira utilização da técnica de reciclagem de revestimentos betuminosos aconteceu na Cidade do Rio de Janeiro em 1960, quando, na época, o revestimento era removido por meio de marteletes, transportado para a usina e remisturado. A primeira rodovia a ser reciclada foi a Via Anhanguera, trecho entre São Paulo e Campinas, na década de 1980 (PINTO, 1989). Simultaneamente foi desenvolvido no Instituto de Pesquisas Rodoviárias/ Departamento Nacional de Infraestrutura Rodoviária (IPR/DNIT) uma pesquisa para adequar as tecnologias de reciclagem trazidas da Itália e da Suíça às condições brasileiras. Foi com base nessas obras que o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte, elaborou a especificação de serviço de concreto betuminoso reciclado a quente no local. A reciclagem em usinas estacionárias, ou seja, usinas de asfalto cujas instalações são fixas, teve na década de 80, importante papel no desenvolvimento da reciclagem no Brasil iniciada com a introdução de usinas do tipo “Drum Mixer”, isto é, equipamentos cuja mistura asfáltica é feita dentro de um tambor misturador e apresentam funcionamento contínuo (Figura 9), trazidas do exterior ou fabricadas no país. Várias obras lançaram mão dessa técnica, no âmbito do DNIT, da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e do Departamento de Estradas e Rodagem – SP (DER-SP). 5.2 TIPOS DE RECICLAGEM De maneira geral, os especialistas do meio rodoviário costumam classificar as técnicas de reciclagem de pavimentos asfálticos em duas modalidades, que são a reciclagem a quente e a frio, que por sua vez podem ser processadas no próprio local, ou seja, “in situ”, ou em usina apropriada. A reciclagem de pavimentos, a quente e a frio, com propósito de manutenção, reabilitação e reconstrução foi reportada pela primeira vez em 1915 nos Estados Unidos (ZELAYA, 1985). Até a década de 1930, foi reciclada uma quantidade considerável de pavimentos, principalmente urbanos. Após esta década, o número de obras com aplicação da técnica de reciclagem foi reduzindo em virtude do aumento da oferta de asfalto no mercado, o que tornava a construção de um novo revestimento mais barata que a sua reciclagem. A reciclagem a quente pode ser feita em usina estacionária, ou seja, usinas de asfalto cujas instalações são fixas, ou pode ser “in situ”, de acordo com as especificações de serviço ES 033/2005 e ES 034/2005 do DNIT, respectivamente. A reciclagem a quente em usina estacionária é um processo em que uma parte ou toda a estrutura é removida e reduzida, geralmente através de fresagem a frio, e posteriormente transportada para ser misturada e recuperada em usina de asfalto apropriada. O processo inclui a adição de novos agregados, material de enchimento, cimento asfáltico de petróleo (CAP) e se necessário, um agente rejuvenescedor. O tipo de usina mais empregada é a “Drum mix” (Figura 9), e o produto final deve atender as especificações de misturas asfálticas a serem aplicadas nas camadas de base, de ligação ou de rolamento (DNIT, 2006). Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 52 Figura 9 – Usina de asfalto Mix Drum. Fonte: www.ciber.com.br A reciclagem a quente “in situ” (regeneração), (Figura 10), é um processo de correção de defeitos de superfície, através do corte e fragmentação do revestimento asfáltico antigo (geralmente por fresagem), mistura com agente rejuvenescedor, agregado virgem, material asfáltico, e posterior distribuição da mistura reciclada sobre o pavimento, sem remover do local (DNIT, 2006). Figura 10 – Super recicladora AR 2000. Fonte: www.martec.ca Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 53 Na década de 90, iniciou-se a reciclagem a frio “in situ”, com o emprego das recicladoras móveis Caterpillar e Wirtgen, cuja operação se desenvolvia no local, com fresagem a frio do revestimento, incorporação de emulsões rejuvenescedoras, homogeneização e espalhamento feito pelo próprio equipamento. No Brasil, o primeiro trecho em que foi utilizada a técnica de reciclagem a frio “in situ”, foi na rodovia BR393/RJ, em novembro de 1993, segmento entre Além Paraíba e Sapucaia, realizada pelo DNER atual DNIT (PINTO et al., 1994). Dois métodos de reciclagem “in situ” já foram utilizados pelo Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) atual DNIT, a saber: a. Método Marine, com o emprego da recicladora Marine A.R.T. 220 de fabricação italiana, cuja fresagem é realizada a frio. O equipamento processa a mistura do material a quente e o posterior espalhamento. O DNER elaborou a especificação ES – 188/87, que contempla este tipo de procedimento. b. Método Wirtgen, com a utilização do “remixer” da Wirtgen, cuja fresagem é realizada após o aquecimento da superfície do revestimento. Para este procedimento o DNER elaborou a especificação ES – 187/87. Quanto ao reprocessamento dos materiais de pavimentação, quando este ocorre sem o dispêndio de energia para o aquecimento dos mesmos, a técnica é designada de reciclagem a frio (MOMM; DOMINGUES, 1995). Podem ser adicionados materiais betuminosos (emul são a sfál tica), agregad os, a gentes rejuven esced ores ou estabilizantes químicos. A mistura final é utilizada como camada de base que deve ser revestida com um tratamento superficial ou uma mistura asfáltica nova a quente, antes de ser submetida à ação direta do tráfego. A reciclagem a frio pode ser classificada em (DNIT, 2006): a. b. Reciclagem com adição de material betuminoso – consiste na mistura do revestimento e da base pulverizados no local, com adição de material betuminoso para produzir uma base estabilizada com betume. Reciclagem com adição de estabilizante químico – consiste na pulverização e mistura na pista da camada de revestimento, da base e da sub-base, ou de qualquer combinação entre essas, com a adição de estabilizantes químicos (cal, cimentos ou cinzas volantes), para produzir uma base estabilizada quimicamente. Atualmente a experiência indica que a técnica de reciclagem a frio para restauração de pavimentos pode ser aplicada mais eficientemente nos seguintes casos (DNIT, 2006): a. b. c. Em rodovias de baixo volume de tráfego (vicinais); Em acostamentos defeituosos de rodovias principais e Na utilização do material reciclado como base estabilizada. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 54 Como a reciclagem a quente, a reciclagem a frio pode ser feita em usinas apropriadas ou “in situ”. A reciclagem a frio em usina pode ser realizada em usinas estacionárias, valendose das usinas de solos, que recebe o material fresado e o processa com a adição de material de enchimento, caso necessário, e agente rejuvenescedor emulsionado (DNER, 1996). Essa técnica é muito utilizada em países europeus e a porcentagem de reaproveitamento do material fresado pode atingir cerca de 90% (DNER, 1996). Também podem ser utilizadas usinas móveis, (Figura 11), que podem produzir misturas com material virgem ou material proveniente de fresagem, (Figuras 1 e 2). Figura 11 – Usina móvel p/ misturas frias. Fonte: www.ciber.com.br A reciclagem a frio “in situ”, (Figura 12) é executada com a utilização de equipamento do tipo fresadora-recicladora, sendo comum no Brasil o uso do modelo da Wirtgen Gmbh de fabricação alemã, (Figura 13). Figura 12 – Reciclagem a frio in situ. Figura 13 – “Trem de reciclagem”. Fonte: www.paulifresa.com.br Fonte: www.br.com.br/portalbr Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 55 5.3 EQUIPAMENTOS UTILIZADOS EM RECICLAGEM DE PAVIMENTOS O crescente interesse em reciclagem de pavimentos tem motivado os fabricantes a produzir equipamentos especiais para reciclar e re-elaborar as camadas do pavimento. As atuais máquinas recicladoras/estabilizadoras, (Figuras 14 e 15), permitem a reciclagem de estradas mesmo em esta do avançad o de degradação, al ém disso, esses equipamentos são soluções de custo acessível e de qualidade para projetos de restauração de rodovias. Os maiores desenvolvimentos tem ocorrido na melhoria da potência dos equipamentos e na produção de peçasmais resistentes. Estes avanços são importantes para que haja máquinas capazes de operar de maneira mais econômica, tanto em revestimentos muito espessos, como em bases granulares e em subleitos com alta plasticidade. Uma dos benefícios da reciclagem consiste de que todo o equipamento e maquinário necessário para o processo podem ser acomodados na largura de uma faixa de tráfego (Figura 16). Em rodovias de pista simples com duas faixas de tráfego, por exemplo, a reciclagem pode ser efetuada em uma metade durante o primeiro turno e a outra posteriormente, e a largura toda, inclusive a pista reciclada, ser reaberta ao tráfego ao cair da noite. Essas vantagens fazem da técnica um processo atraente para a restauração de estradas, otimizando custos e tempo de processamento (Revista CIBER, ano 5, n. 12, set./2004 ). Figura 14 – Recicladora/estabilizadora Caterpillar RR 250. Fonte: www.fresar.com.br/fresar Figura 15 – Recicladora/estabilizadora Wirtgen WR 2500. Fonte: www.fresar.com.br/fresar Pista Livre para Tráfego Figura 16 – Recicladora de pavimentos. Fonte: www.ciber.com.br Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 56 5.4 VANTAGENS AMBIENTAIS ASSOCIADOS À TÉCNICA DE RECICLAGEM DE PAVIMENTOS Considerando-se as técnicas de reciclagem comentadas anteriormente, o material removido, que antes era considerado um entulho problemático, passa a ser um excelente produto para a reciclagem, sem prejuízo da qualidade final. A reciclagem permite, assim, ao pavimento primitivo um ciclo de vida maior, além de poupar os recursos naturais da região. A reciclagem de pavimentos betuminosos em geral se constitui, em relação à solução tradicional de recapeamento(s) sucessivo(s) ou outros métodos de restauração, em uma alternativa possivelmente mais econômica e mais ecológica. A seguir, serão apresentadas algumas vantagens das técnicas de reciclagem em comparação com o método tradicional de recuperação de pavimentos, no que tange à geração de impactos ambientais negativos nos meios antrópico e biofísico. Para o meio antrópico, podem ser destacados como forma de otimização dos impactos ambientais de acordo com o componente ambiental saúde e segurança: a redução significativa dos ruídos e vibrações, e a redução de acidentes envolvendo pessoas e/ou equipamentos. Com relação ao meio biofísico, destaca-se para a componente ambiental, solo, e a componentes visual, paisagem, ruídos e ar: a significativa redução de erosões, deslizamentos, assoreamento, desertificação que normalmente ocorrem em caixas de empréstimo (jazidas), nos locais de bota-foras e de disposição do material resultante da fresagem (corte) do pavimento; a redução da degradação da paisagem natural motivada pela deposição de material de descarte; a redução da emissão de poeira e gases, alterando a qualidade do ar e a diminuição da incidência de ruídos e vibrações. Entretanto, faz-se necessário uma medida de controle (monitoramento para a cada fase ou etapa) para comparação de ganhos ou perdas, de acordo com os respectivos componentes ambientais, como por exemplo, a componente visual, paisagem, ruídos e ar: avaliar a qualidade do ar (medir os níveis de poeira e gases) e a avaliação de ruídos e vibrações às margens lindeiras da rodovia (medir o níveis de ruídos), conforme limites anteriormente citados nas tabelas 4 e 5. 6 CONCLUSÕES O termo reciclagem vem sendo usado nos últimos anos em diversas áreas de produção, pois o processo de reaproveitamento de materiais que anteriormente seriam descartados e na maioria das vezes se torna um “lixo” não desejável é visto com bons olhos por órgãos governamentais e principalmente ambientalistas. A técnica de se reciclar pavimentos é relativamente recente, porém não menos importante. O reaproveitamento dos materiais existentes do pavimento antigo como fonte principal para a construção de pavimentos novos, pode gerar benefícios como: evitar a exploração excessiva de jazidas minerais, já tão escassas em algumas regiões do país; o ligante asfáltico (CAP) remanescente, pode ter recuperadas algumas de suas propriedades originais, que durante sua utilização foram perdidas por oxidação e volatilização. Citamse ainda como benefício do uso da técnica de reciclagem: a conservação do greide da pista Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 57 evitando-se problemas com alturas sob viadutos, túneis e passarelas e o não aparecimento de degraus nos acostamentos provocados pela aplicação sucessiva de camadas de recapeamento, qualidade adequada e resistência do pavimento reciclado, a redução do prazo de execução da obra, o menor tempo de interrupção do tráfego durante o trabalho, nova concepção de recuperação asfáltica, às vezes até com possibilidade de redução de espessuras do revestimento, sem perda de qualidade e finalmente, pode permitir redução dos custos em relação à restauração convencional. Pode-se citar como desvantagem da aplicação dassoluçõesde reciclagem, o emprego de mão de obra especializada, o difícil acesso das máquinas às obrasdistantes dos grandes centros urbanos, como por exemplo, a Amazôniae a necessidade da análise econômica para serviços realizados em diferentes regiões, observando-se as devidas peculiaridades. REFERÊNCIAS BELLA, V.; BIDONE, E. D. Rodovias, recursos naturais e meio ambiente. Niterói: EDUFF, 1993 BONFIM, Valmir. Fresagem de pavimentos asfálticos. 2. ed. São Paulo: Fazendo Arte Editorial, 2001. p. 71-78. DEPARTAMENTO NACIONAL DE ESTRADAS DE RODAGEM DNER. Concreto betuminoso reciclado à quente na usina, DNER-ES 318/97, Rio de Janeiro, 1997.152. ______. Concreto betuminoso reciclado à quente no local, DNER-ES 319/97, Rio de Janeiro, 1997. ______. Manual de Reabilitação de Pavimentos Asfálticos, Rio de Janeiro, 1998. ______. 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Z.; GRECA, Amadeu C.; MORILHA JUNIOR, Armando; RIBEIRO, Wagner S.C.; CHIUMENTO, Jinny L. Estudo da influência de aglomerantes em pó e do tipo de ligante asfáltico no comportamento de misturas recicladas com espuma de asfalto. In: Reunião de Pavimentação Urbana, 11., ABPv: Porto Alegre, 2002. PINTO, Salomão. Tópicos especiais em mecânica dos pavimentos. COPPE/UFRJ. Rio de Janeiro, 1989. SÁ, M. M. Contribuição à implementação de um sistema de gestão ambiental na construção de rodovias: uma lista de verificação para um programa de auditoria ambiental, (Tese de Mestrado) - COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, Brasil, 1996. ZELAYA, D. “In situ” Cold Recycling of Bituminous Pavements. (Tese de Doutorado) – University of Califórnia, USA, 1985. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 39-58, dez. 2010 59 A IMAGEM DO TRANSPORTE HIDROVIÁRIO E DO TURISMO NA ILHA DE COTIJUBA NA VISÃO DOS USUÁRIOS Maisa Sales Gama Tobias* Andréa Girlene Tavares Barreto** RESUMO O presente trabalho fez parte da pesquisa D-Fluvial - Estudo de Demanda Potencial e Formação de Rede Rodofluvial na RMB, executada pela parceria de duas instituições de ensino e pesquisa, a Universidade da Amazônia e a Universidade Federal do Pará, havendo, também, se constituído em uma pesquisa de iniciação científica. O artigo apresenta uma abordagem descritivo-analítica da situação de demanda de transporte e da cadeia do turismo na Ilha de Cotijuba, em Belém, Brasil, caracterizando a demanda hidroviária e aspectos críticos da cadeia do turismo. Trata-se dos resultados oriundos de uma pesquisa de campo amostral, em hora de pico, onde foi possível detectar problemas cruciais que atualmente impedem o crescimento do turismo na Ilha, bem como, de infraestrutura de transporte disponível para os turistas. Palavras-Chave: Hidroviário. Turismo. Infraestrutura THE IMAGE OF WATER TRANSPORT AND THE TOURISM IN COTIJUBA ISLAND IN VIEW OF USERS ABSTRACT This work was part of the D-FLUVIAL research - Potential Demand and Road and River Network Shaping study in BMR, which was implemented in partnership with Amazonia University and Para University, having also been formed in a search for scientific initiation. The article presents a descriptive-analytical approach of the demand and supply transport and tourism situations on the Cotijuba Island, in Belém, Brazil, characterizing the water transportation demand and tourism chain critical aspects. These are the results from a sample survey, in peak hour, where it was possible to detect crucial problems that currently hinder the island tourism growth, as well as, of transport infrastructure available for tourists. Keywords: Water Transportation. Tourism. Infrastructure * ** Engenheira Civil – Unama, Licenciada Plena em Matemática – UFPa, especialista em Gerenciamento do Transporte Fluvial – UFPa, Mestre em Engenharia Civil – UFPb, Doutora em Engenharia de Transportes – POLI – USP. Professora do curso de Engenharia Civil da Unama e da UFPa, Professora do Mestrado em Desenvolviment o e Mei o Ambi ente U rbano da UN AMA. P esquis adora em En genhar ia de Trans portes . e-ma il: [email protected] Acadêmica do curso de Engenharia Civil da Universidade Federal do Pará, bolsista de Iniciação Científica PIBIC/ UFPA e do projeto D-Fluvial-UNAMA/UFPA. e-mail: [email protected] Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 59-73, dez. 2010 60 1 INTRODUÇÃO A necessidade do fluxo de informações, imagens e pessoas está presente desde o surgimento da humanidade. Mais a efetivação desses fluxos só foi possível com a abertura de estradas e o desenvolvimento dos primeiros meios de transportes. A partir daí surgiu o termo “turista”, considerado um visitante temporário, seja nacional ou estrangeiro, cuja residência permanente é diferente do local de realização de onde está sendo abordado e obedece ao critério básico para ser considerado turista, sendo este critério a realização de pelo menos um pernoite no local visitado (período superior a 24h) e no máximo 90 dias. O turista não é apenas considerado um visitante com expectativa de diversão, mas também o visitante que veio ao local por um motivo qualquer seja negócios, saúde, estudo entre outros. Além do que, são pessoas com expectativas e desejos de conhecer lugares que possam oferecer boa hospitalidade. A hospitalidade não se refere somente ao ato de hospedar, mas a ofertar ao turista um serviço de qualidade desde o momento do embarque. A eficiência e eficácia do sistema de transporte turístico estão relacionadas ao momento do embarque, desembarque, percurso da viagem e infraestrutura. Qualquer falha no percurso da viagem, todo o sistema será comprometido resultando em uma possível imagem negativa quanto à rede de serviços do local escolhido. Para Bertaglia (2003) a demanda deve ser identificada para conhecer quais as ações necessárias para que a cadeia produtiva do turismo não falhe ou careça de materiais necessários à satisfação desta demanda. O transporte é um componente essencial da atividade turística, que tem no deslocamento do consumidor a sua própria definição. Portanto, este trabalho de cunho investigativo procurou identificar as relações entre o transporte hidroviário e o turismo, bem como, a visão dos usuários quanto à situação do turismo, notadamente, numa localidade em Belém, a Ilha de Cotijuba, conhecida por ser uma área que reune grande atratividade turística, mas que se ressente de melhor infraestrutura para acolher o turista. A hipótese foi de que há um impacto importante da qualidade do transporte na qualidade do serviço turístico, sendo isto um fator importante para dinamizar o crescimento do setor. Admitiu-se que a exploração do turismo em Cotijuba já se constitui um fator de geração de emprego e renda e, se bem planejado o setor, incluindo o transporte hidroviário e o investimento em consciência da preservação ambiental, a população local poderá se beneficiar dos lucros advindos desta atividade. 2 ÁREA DE ESTUDO Os locais de área de estudo foram a llha de Cotijuba e o Distrito Industrial de Icoaraci, localizadas próximas à cidade de Belém, Estado do Pará, onde existe uma travessia hidroviária. A Ilha de Cotijuba pertence ao conjunto de Ilhas do Extremo Oeste do município de Belém, sendo uma das 39 ilhas, situada à margem direita do estuário do Rio Pará. A Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 59-73, dez. 2010 61 ilha faz parte de um arquipélago situado às margens da baía do Marajó, a 29 km de Belém, capital do Pará, constituindo uma parte insular dessa cidade. A população estimada é de 5000 habitantes D-Fluvial, 2009). As comunidades da ilha vivem, basicamente, da pesca e da agricultura familiar. A ilha foi transformada em APA - Área de Proteção Ambiental em 1990, através de Lei Municipal. Na Ilha de Cotijuba há muitos lagos e igarapés e, ainda, praias, sendo as mais visitadas: Farol, da Saudade, Pedra Branca, Flecheira, Vai-quemquer e praia Funda. O Distrito de Icoaraci p ertence ao muni cíp io d e Belém, di stan do aproximadamente 25 km de Belém e possui cerca de 300 mil habitantes (IBGE, 2005). O grande destaque da economia de Icoaraci está no importante pólo de Artesanato em cerâmica, onde se produz réplicas de vasos típicos de antigas nações indígenas. Também sua economia é baseada no Parque Industrial que atua nos ramos de pesca, madeira e palmito. A cidade possui uma boa estrutura física com ofertas de serviços como bancos, hospitais, fórum, cartório e supermercados. Icoaraci mantém-se importante centro para onde convergem habitantes de pequenos municípios ribeirinhos e bairros próximos. Na Figura 1 tem-se o mapa da Região Metropolitana de Belém com as localizações de Cotijuba e Icoaraci e, nas Figuras 2 e 3, estão duas imagens destes destas localidades, respectivamente e a rota de travessia fluvial. Figura 1 – Área de estudo-localização (D-Fluvial, 2009). Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 59-73, dez. 2010 62 Figura 2 – Ilha de Cotijuba e Distrito de Icoaraci (D-Fluvial, 2009; FUMBEL, 2006). Figura 3 – Rota de travessia da linha Icoaraci – Cotijuba (D-Fluvial, 2009). Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 59-73, dez. 2010 63 Na pesquisa D-Fluvial (2009) foi realizado um levantamento de características em cada um dos trapiches (Cotijuba e Icoaraci) objetivando, identificar os problemas e propor melhorias. a) Trapiche da ilha de Cotijuba: foi observado, principalmente, deslocamentos para o turismo, possuindo linhas regulares para Icoaraci, mas linhas escassas para o município de Belém. Atualmente, o terminal de Cotijuba apresenta inúmeros problemas de prestação de serviços ocasionados pela situação da infraestrutura. As embarcações de pequeno não oferecem segurança aos passageiros e não possuem locais próprios para o armazenamento da carga. Na Ilha de Cotijuba, o transporte é feito por charretes, bicicletas ou “bondinhos”, já que um decreto municipal proibiu veículos automotores na Ilha. Quanto à avaliação das condições do trapiche, em termos de serviços auxiliares, há lanchonetes e existem guichês de venda de passagem e avisos de horários de viagens, porém tudo em situação muito incipiente. Ainda, não existem banheiros públicos, bancos para passageiros, telefone público, entre outros. Apenas, verificou-se proteção contra sol e chuva no acesso a rampa que interliga o trapiche ao flutuante, mas a rampa em si está descoberta. b) Trapiche de Icoaraci: a avaliação foi realizada de uma maneira formal (no caso, com uso de formulários), com os operadores de embarcações de passageiros, onde foram discutidos aspectos ligados à segurança (acomodação de cargas, ocorrências de incidentes, manutenção, demais procedimentos), a fim de obter uma visão geral das questões operacionais e serviços. O trapiche atende, principalmente, a rota Icoaraci-Cotijuba, os habitantes da Ilha e turistas. O trapiche tem a infraestrutura constituída de estacas de concreto armado, sobre as quais estão apoiados os blocos de concreto que suportam o vigamento da superestrutura. A superestrutura é constituída de vigas em concreto armado sobre as quais está apoiado o assoalho em concreto e estrutura metálica com cobertura também metálica que dá acesso ao flutuante. Para facilitar a operação de embarque e desembarque de passageiros foi construída uma plataforma flutuante na parte frontal do trapiche. Os acessos à embarcação possuíam corrimãos e piso era antiderrapante. Atualmente, o trapiche apresenta inúmeros problemas de prestação de serviços ocasionados pela infraestrutura deficiente. Nos serviços auxiliares, as lanchonetes são deficientes em termos de infraestrutura e higiene. Quanto à segurança foi constatado que não há saída de emergência e nem rampa de acesso às embarcações, além do que, foi constatada uma precária iluminação. No local há proteção contra sol e chuva e proteção na passarela que dá acesso ao trapiche e na rampa que interliga o trapiche ao flutuante. Também, há nas proximidades estacionamento para veículos terrestres e serviço de bilheteria, administrado por uma cooperativa de barqueiros. Na Figura 4 estão imagens dos trapiches de Cotijuba e Icoaraci. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 59-73, dez. 2010 64 3 PESQUISA DE CAMPO A pesquisa de campo foi realizada com a demanda turística nos pontos turísticos estudados (trapiches de Cotijuba e Icoaraci), nos meses de novembro e dezembro de 2009. Em virtude da ausência de dados populacionais de demanda turística nestes pontos, houve uma contagem inicial de demanda turística em cada um dos pontos, para se definir uma amostra representativa de turista. Além disso, foram utilizados os dados do transporte hidroviário de passageiros levantado na pesquisa D-Fluvial (2009) nestes locais. Figura 4 – Trapiches de Cotijuba e Icoaraci (TADEU THALLES, 2007). Assim, a amostra se constituiu em 50 turistas em cada trapiche (ou seja, 100 turistas no total) e, ainda, em Cotijuba e Icoaraci, do total de 30 donos de estabelecimentos. Para efeito de representatividade, o total de entrevistas a turistas foi dividido proporcionalmente, entre final de semana e dois dias úteis da semana. O questionário constituiu-se, primeiramente, por uma parte de caracterização socioeconômica e de padrões de viagem e, depois, com dados relativos à opinião do turismo sobre a qualidade do serviço de transporte. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 59-73, dez. 2010 65 3.1 PLANEJAMENTO DA PESQUISA A metodologia foi estabelecida com base na sequência lógica de objetivos do trabalho: a) Análise de material teórico pertinente ao assunto proposto e planejamento das etapas dos levantamentos de campo; b) Efetuaram-se visitas técnicas a Cotijuba e Icoaraci, fazendo o reconhecimento da área em questão. c) Elaboração dos instrumentos de pesquisa, como a preparação de formulários específicos e aplicação dos formulários nos finais de semana, coletando dados; d) Paralelo as entrevistas foram realizados, levantamento das praias mais visitadas, hotéis e pousadas, bares e restaurantes da ilha de Cotijuba e o Distrito de Icoaraci; e) Produção de um banco de dados obtido pelo programa EXCEL, e posteriormente a tabulação dos dados; f) Diante da sistematização dos dados e do diagnóstico identificaram-se os possíveis problemas de transportes e infraestrutura que afeta a cadeia turística das ilhas de Cotijuba e Icoaraci. 3.2 RESULTADOS DOS LEVANTAMENTOS NA ILHA DE COTIJUBA E NO TRAPICHE DE ICOARACI Os dados presentes dizem respeito ao atual cenário de oferta de produtos e serviços da ilha, com base nas entrevistas nos trapiches de Cotijuba e Icoaraci, aos turistas e na própria ilha aos donos de estabelecimentos comerciais ligados mais diretamente à atividade turística. a) Turistas Perfil socioeconômico e padrão de viagem dos turistas: observou-se que a faixa etária dos turistas se concentra entre 19 e 25 anos (36% da amostra total). Seguem-se os visitantes com faixas etárias entre os 26 e 35 anos de idade (30%). Relativamente ao tipo de ocupação, dos 100 entrevistados a maioria dos entrevistados que frequentavam a ilha era assalariado com um percentual de 39%. Em segundo lugar, com um percentual de 23% eram os funcionários públicos. i. A renda dos turistas está entre três e seis salários mínimos o que representam a escala entre R$ 1.560,00 a R$3.120,00 (52%). A maioria dos turistas se hospeda em hotéis e pousadas (55%) e permanecem na Ilha de um a dois dias (70%), sendo 60% dos turistas pertencentes à região norte. O turista vem geralmente acompanhado de mais uma pessoa e em uma viagem com extensão de um a dois dias tem uma despesa total média de um a dois salários mínimos (65%). Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 59-73, dez. 2010 66 No padrão de viagens, foi destacada na frequência de viagens de turistas, que a maior parte já estava fazendo uma viagem de retorno aos locais de estudo em mais de duas vezes em torno de três a quatro vezes, sendo a embarcação de pequeno porte a mais utilizada para a prática da travessia para o acesso à Cotijuba (52%). ii. Opinião dos turistas: as entrevistas ocorreram levando-se em consideração o tempo de permanência na ilha, dentro do conceito do que seja um turista. A pesquisa de opinião focou os seguintes requisitos: infraestrutura, transporte, segurança pública, diversão noturna, comércio, transporte complementar, refeições, hospedagem, qualidade ambiental e impressão geral do turismo. Na infraestrutura geral para turismo na Ilha, atribuiu-se na maioria conceito regular (37%). No transporte, a imagem negativa do serviço predominou em 31%, sendo considerada regular das opiniões totais quanto no transporte complementar para a ilha de Cotijuba, a imagem mostrou 40% das opiniões no conceito bom. Nos itens: diversão noturna e comércio o nível de qualificação foi de regular com variações percentuais de 38% e 35%, respectivamente em qualidade ambiental o percentual predominante foi de 38% para a opção ruim, o que demonstra que tanto nos trapiches de Icoaraci e Cotijuba esse quesito é insatisfatório para os turistas sendo um ponto negativo para o desenvolvimento do turismo ecológico, principalmente na Ilha. Mostra-se, também, que foram considerados bons os quesitos refeições e impressão geral do turista, percentuais de 36% e 44%. Na segurança pública, o nível de serviço está concentrado em regular (45%) e, em relação à hospedagem, o nível de qualificação variou entre regular e bom, com 32% e 26% das opiniões, respectivamente. No Quadro 1 estão apresentados os dados estatísticos da caracterização socioeconômica e de viagens e, no Quadro 2, estão os dados das opiniões dos usuários sobre o serviço de turismo em Cotijuba. b) Donos de estabelecimentos em Cotijuba e Icoaraci: a entrevista foi realizada com 15 donos de estabelecimentos: hotéis ou pousadas, bares, restaurantes e alguns do comércio em geral. i. Perfil socioeconômico e padrão de viagens: pode-se observar que a maioria dos fornecedores de serviços e produtos se encontra na faixa etária entre 36 e 46 anos (60%). Além da atividade principal, que é o comércio, possuem outros tipos de ocupação, vivendo de rendas adicionais (17%). O tipo de estabelecimento predominante na coleta das informações foram os hotéis e pousadas, 55%, atendendo um mercado de 44% de turistas da Região Metropolitana de Belém e 23% de turistas regionais. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 59-73, dez. 2010 67 Quadro 1 – Dados socioeconômicos e padrão de viagens dos turistas de Cotijuba . Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 59-73, dez. 2010 68 Quadro 2 – Opiniões dos turistas de Cotijuba e Icoaraci. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 59-73, dez. 2010 69 A maior parte dos entrevistados possui moradia permanente na ilha, em torno de 73%, morando no próprio estabelecimento (82%). O período predominante de posse do estabelecimento está acima de três anos (54%). No padrão de viagens, foi constatado que 38% utilizam o automóvel como transporte complementar para atender suas necessidades enquanto comerciante, em segundo lugar, com 28%, estando vans e kombi. A frequência média de viagens é de três dias em uma semana. ii. Opinião dos donos de estabelecimentos sobre o turismo em Cotijuba: os requisitos avaliados foram os mesmos para os turistas: Infraestrutura, Transporte, Segurança pública, Diversão Noturna, Transporte Complementar, Turismo, Comércio, Hospedagem, Refeições e Qualidade Ambiental. Na parte de infraestrutura, a média do grau de satisfação foi de 40%, como bom, sendo importante ressaltar que a ênfase quanto ao conceito refere-se ao Distrito de Icoaraci. Quanto aos itens transporte e transporte complementar, houve coincidência nos conceitos, sendo considerados regular, ambos com 53%, já no quesito segurança pública foi considerado ruim (63%) este serviço ofertado, ainda por melhorar para satisfazer as necessidades turísticas. Quanto ao item diversão Noturna e comércio, estes obtiveram em maior parte nível de satisfação considerado regular, representando 46% e 50%, respectivamente, da opinião dos entrevistados amostra total. Quando foram lhe perguntados, quanto ao grau de satisfação do turismo e hospedagem, estes consideraram bons, com percentuais maiores de 47% e 51%, respectivamente. Na parte de refeição, a maior parte dos entrevistados considera boa, em torno de 44% do total. Ainda, na qualidade Ambiental, a imagem foi considerada ruim, exibindo um percentual de 38% do total. Os Quadros 3 e 4 apresenta os resultados da pesquisa para os donos de estabelecimentos comerciais na Ilha de Cotijuba e no Distrito de Icoaraci. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 59-73, dez. 2010 70 Quadro 3 – Dados socioeconômicos e padrão de viagens dos comerciantes em Cotijuba e Icoaraci. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 59-73, dez. 2010 71 Quadro 4 – Opiniões dos comerciantes sobre o turismo em Cotijuba e Icoaraci. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 59-73, dez. 2010 72 4 CONCLUSÕES As visitas in loco e os levantamentos da pesquisa de campo permitiram extrair algumas conclusões a respeito do transporte hidroviário e do turismo em Cotijuba: • • • • Os comerciantes da ilha são pessoas de média idade assentadas no negócio há bastante tempo, morando no próprio estabelecimento comercial e indo à Belém continental pelo menos três vezes na semana, tendo um transporte próprio ou, ainda, utilizando-se de vans e microônibus após a travessia. Os comerciantes, também, avaliaram a infraestrutura da Ilha como regular e na parte de diversão noturna apresentaram uma avaliação regular, um pouco melhor que a visão do turista. A opinião sobre hospedagem, refeições, segurança pública na Ilha foi boa, de maneira semelhante a dos turistas. Também, concordaram com os turistas quando acharam a preocupação com a qualidade ambiental muito ruim, por parte da população. Os turistas são pessoas jovens de renda média, geralmente, assalariados, funcionários públicos e pessoas que vivem de renda, que viajam acompanhados em busca de um local de beleza natural, tendo como atrativo principal as praias, sendo um turista que vai com freqüência até a Ilha advindo, principalmente, da própria região norte. Os hotéis, pousadas e casa de conhecidos são os principais lugares de hospedagem para uma estadia em média de um a dois dias. Para o período de hospedagem, a despesa média é razoável, de um a dois salários mínimos. O transporte mais utilizado pelos turistas são as embarcações da cooperativa de barqueiros, sendo também as de maior frequência de viagens até a Ilha, apesar de serem barcos pequenos. A opinião sobre a infraestrutura é regular, mas a imagem do transporte é ruim, destacando-se a falta de segurança no transporte de travessia e, no transporte complementar dentro da ilha, a falta de opções de transporte, sendo insatisfatório o que existe atualmente. No interior da Ilha, itens como diversão noturna, comércio e a preocupação com a qualidade ambiental não foram bem avaliados, sendo considerados deficientes e carentes de intervenção para dar melhor suporte ao turista. Por outro lado, itens como hospedagem, refeições e segurança pública foram tidos como razoáveis, com qualificação variando de regular para bom. Os comerciantes que atuam dentro da cadeia do turismo na ilha são pessoas de média idade assentadas no negócio há bastante tempo, morando no próprio estabelecimento comercial e indo à Belém continental pelo menos três vezes na semana, tendo um transporte próprio ou, ainda, utilizando-se de vans e microônibus após a travessia. Os comerciantes, também, avaliaram a infraestrutura da Ilha como regular e na parte de diversão noturna apresentaram uma avaliação regular, um pouco melhor que a visão do turista. A opinião sobre hospedagem, refeições, segurança pública na Ilha foi boa, de maneira semelhante a dos turistas. Também, concordaram com os turistas quando acharam a preocupação com a qualidade ambiental muito ruim, por parte da população. No transporte de passageiros, não há segmentação entre passageiro e carga nas Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 59-73, dez. 2010 73 • • embarcações de pequeno porte, tendo sido listados pelos turistas inúmeros problemas tais como insegurança no percurso da viagem, ineficiência e ineficácia no embarque e desembarque de passageiros e cargas e a ausência de componentes na estrutura física nos trapiches. Os passageiros não possuem informação impressa embarque e desembarque. No aspecto viário da Ilha, as vias que dão acesso às praias não têm pavimentação sendo de chão batido com imensos buracos. De maneira geral, o turismo em Cotijuba ainda não é tão consolidado e deveria haver investimentos na infraestrutura turística, já que a ilha é detentora de imenso potencial turístico. Em linhas gerais, as necessidades mais imediatas para os dois trapiches investigados seriam as seguintes: (i) elaboração de projeto de infraestrutura física adequada a transferência de passageiros entre os terminais fluviais e terrestres e (ii) possibilitar de oferta de um conjuntos de serviços correlatos ao trânsito de turistas. Do ponto de vista do transporte, as embarcações atuais necessitam de revisão tecnológica tanto no aspecto de capacidade quanto em termos de projeto para contemplar itens importantes de segurança. Apesar de todos os problemas e necessidades elencadas, o turista sai com um conceito regular do turismo em Cotijuba e os comerciantes permanecem no local acreditando no potencial da Ilha. Daí a crescente importância de investimentos para dinamizar este setor e torná-lo um fator gerador de emprego e renda, a começar pelo transporte hidroviário que é a porta do turismo em Cotijuba. REFERÊNCIAS BERTAGLIA, P.R. Logística e gerenciamento da cadeia de abastecimento. 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Todavia, as especificidades técnicas desse nicho ainda são pouco difundidas no Brasil, principalmente por causa da dificuldade em se encontrar documentação associada. Os recursos limitados dos centros de pesquisas têm aumentado o número de investigações via simulação. Este artigo pretende documentar esse procedimento a fim de contribuir com pesquisas futuras explorando o Network Simulator. Palavras-chave: wireless. Submarina. Redes acústicas. Comunicações submarinas. Simulação. PERFORMANCE EVALUATION OF UNDERWATER WIRELESS NETWORKS BY SIMULATION ABSTRACT The past decades have seen a growing interest in underwater wireless communications researches. However, the technical characteristics of this niche are still poorly distributed in Brazil, mainly because of the difficulty of finding associated documentation. The limited resources of researches centers have increased the number of investigations by simulation. This article aims to document this procedure in order to contribute with future research exploring the Network Simulator. Keywords: underwater wireless. Acoustic network. Underwater communications. Simulation. * ** Professora da Universidade da Amazônia - Unama. [email protected] Professor da Universidade da Amazônia - Unama. [email protected] Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 75-84, dez. 2010 76 1 INTRODUÇÃO O uso da técnica de avaliação de desempenho conhecida como simulação tem viabilizado uma grande quantidade de investigações científicas em redes wireless submarinas. Graças ao poder computacional das máquinas de hoje e a existência de simuladores gratuitos, reconhecidos tanto na academia quanto fora dela, é possível investigar diferentes aspectos dessas redes. Um dos exemplos é o simulador Network Simulator ou NS-2. Desenvolvido a partir de um projeto denominado VINT (Virtual InterNetwork Testbed), que teve como incubadora a Universidade de Berkeley, o NS-2 tem se consolidado quase como um padrão de simulação para redes de computadores. O fato de ser livre e de código aberto permite que diversos módulos possam ser agregados e testados. Áreas onde não há recursos para fazer experimentos ou há limitações são propícias para testes via simulação. Todavia, a incorporação de módulos de terceiros no simulador pode se tornar um tormento para aqueles que querem reproduzi-los. Um dos objetivos deste artigo é documentar os procedimentos requeridos para a incorporação do módulo de simulação de redes wireless submarinas ao simulador NS-2, uma vez que o mesmo pode contribuir para vários trabalhos com foco na região amazônica, como é o caso de aplicações na piscicultura conforme abordado em (SANTOS; SOUZA; MARGALHO, 2010). Além desta sessão, este trabalho está dividido da seguinte forma. Na sessão 2 é apresentado um estudo acerca do estado da arte de redes sem fio com referências a alguns trabalhos correlatos. A sessão 3 abordará os detalhes do método de simulação. A sessão 4 apresentará os detalhes acerca da criação dos scripts de simulação. A sessão 5 apresenta um exemplo de aplicação da técnica e na sessão 6 serão feitas as considerações finais e conclusões. 2 WIRELESS SUBMARINA As Redes Wireless Submarinas ou Redes Acústicas Submarinas como é chamada a forma de comunicação de dados sem fio embaixo da água, é um campo de pesquisa bastante vasto e que vem crescendo muito nos últimos anos. Muito disso se deve à necessidade de se desenvolver aplicações para segurança marítima, coleta de dados oceanográficos, assistência à navegação e monitoramentos aquáticos(AKYILDIZ et al., 2005). Estas redes são basicamente formadas estabelecendo-se uma ligação entre instrumentos como veículos autônomos submarinos (AUV’s) ou sensores que podem ou não se conectar a uma estação na superfície que contenha uma conexão de rádio frequência. Esta configuração cria um ambiente onde se podem obter informações em tempo real(SOZER et al., 2000). Na figura 1 observa-se um exemplo do ambiente de uma rede wireless submarina. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 75-84, dez. 2010 77 Figura 1 – Exemplo de Redes Wireless Submarina. Uma das primeiras utilizações desta modalidade de rede ocorreu durante a II Guerra Mundial, em 1945, quando os Estados Unidos desenvolveram um telefone para se comunicar com submarinos (AKYILDIZ et al., 2005; STOJANOVIC, 1998). A comunicação sem fio submarina se dá por meios de ondas sonoras, porém, este não é o único meio de transmissão de sinal embaixo da água. As ondas eletromagnéticas sofrem grande absorção pela água e só penetram a frequências extremamente baixas, ainda assim a elevadas potências de transmissão(MIGUENS, 2000). As ondas óticas, por sua vez, sofrem com espalhamento. Isto torna a transmissão sonora a solução mais adequada. Apesar disso, o desenvolvimento de sistemas baseados em comunicação sem fio embaixo da água encontra desafios significativos devido ao fato de que as características de propagação no ambiente subaquático são muito variáveis (PREISIG, 2006), ou seja, ambientes diferentes sofrem processos físicos diferentes, logo, uma aplicação desenvolvida para funcionar efetivamente em um ambiente pode falhar completamente em outro ambiente. Outros desafios enfrentados pelas redes wireless submarinas são a limitação da largura de banda, atraso de propagação, altas taxas de erros de bits e perda de conectividade em determinadas áreas (AKYILDIZ et al., 2004; PREISIG, 2006; STOJANOVIC; MILICA, 2006). Mas a previsão para estas redes é de que se possa promover a troca de dados de controle, vídeo, imagem e voz e para que se alcance esse objetivo muitos estudos estão sendo desenvolvidos atualmente focados no desenvolvimento de algoritmos eficientes de comunicação, meios de modulação, protocolos adequados às suas características, e técnicas para comunicação móvel embaixo da água (STOJANOVIC, 1998). Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 75-84, dez. 2010 78 3 ANÁLISE DE DESEMPENHO VIA SIMULAÇÃO Devido ao custo, a falta de equipamentos e as dificuldades para realizar testes no mar, as simulações usando softwares adequados tem sido a opção mais utilizada nas pesquisas de redes wireless submarinas. As simulações permitem uma avaliação de desempenho mais rápida, para vários protocolos e muito próxima dos resultados reais, além de que existem diversas ferramentas para este fim. O simulador de redes utilizado neste trabalho foi o Network Simulator (NS-2) utilizado também em (III; ZORZI, 2007), versão 2.31. O NS-2 tem um bom nível de aceitação pela comunidade científica internacional. Ele permite a simulação de sistemas de redes altamente complexos e diversos tipos de redes: com fio, sem fio, satélites, e subaquáticas, entre outras, além de que trabalha com muitos protocolos, filas de roteamento de vários tipos e geradores de tráfego. Trata-se de um software desenvolvido em C++ e TCL (Toll Command Language) e seu código é aberto o que possibilita um constante processo de desenvolvimento em busca de melhorias. Atualmente o NS-2 se encontra na versão 3.0, que vem sendo desenvolvida em C++ e Phyton. Maiores informações acerca deste simulador de redes podem ser encontradas em (NS2, 2010). Para possibilitar a realização da simulação de ambientes subaquáticos faz-se necessária a instalação de vários pacotes. Uma sugestão é o uso do sistema operacional Ubuntu 7.10, já que ocorreram problemas de compatibilidade com outras versões. Além do NS-2.31 deve-se instalar um complemento (patch) para utilização de bibliotecas dinâmicas (patch-dl-ns-2.31). Este patch permite o uso dinâmico de módulos diferentes no momento da simulação sem a necessidade de se recompilar todo o NS. Além disso, ele torna a instalação de módulos de terceiros mais fácil, modular e escalável, mantendo a compatibilidade com versões anteriores. Maiores informações e download podem ser encontrados em (UNIVERSITÀ DEGLI STUDI DI PADOVA, 2010a). Outro item que deve ser instalado é o NS-MIRACLE (Multi-InteRfAce Cross-Layer Extension library for the Network Simulator). Trata-se de um conjunto de bibliotecas que aumentam as funcionalidades do simulador. Essas bibliotecas permitem a coexistência de vários módulos na mesma pilha de protocolos e fornecem um eficiente mecanismo para manipulação de mensagens de camadas cruzadas. O framework NS-MIRACLE facilita a implementação e simulação dos mais modernos sistemas de comunicação. Após estes procedimentos deve-se instalar a biblioteca dei80211mr (UNIVERSITÀ DEGLI STUDI DI PADOVA, 2010b) que fornece uma implementação 802.11 para o NS-2. Essa biblioteca pode ser usada com o NS-MIRACLE ou somente associada ao NS-2. Somente a partir da versão NS-2.33 ela se tornou parte da distribuição oficial do ns-allinone. Por fim deve-se instalar o módulo underwatermiracle que é um módulo desenvolvido para o NS-MIRACLE e permite uma simulação detalhada do canal submarino, Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 75-84, dez. 2010 79 incluindo atenuação, ruído, temperatura e velocidade de propagação de acordo com a profundidade. Este módulo implementa dois modelos físicos, um baseado no teorema de Shannon e o outro implementa o esquema de modulação BPSK. Além destes há suporte aos protocolos ALOHA e FDMA da camada MAC. O download e a documentação deste módulo se encontram em (UNIVERSITÀ DEGLI STUDI DI PADOVA, 2010c) As ferramentas citadas, à exceção do NS, foram desenvolvidas pelo laboratório SIGNET da Universidade de Padovia na Itália (DEPARTAMENT OF INFORMATION ENGENEERING, 2010). 4 SCRIPT DE SIMULAÇÃO Um processo de simulação se dá através de: 4.1 ESCRITA DO SCRIPT TCL 4.2 EXECUÇÃO DO SCRIPT 4.2.1 Geração do arquivo trace ao final da simulação com todos os registros da simulação 4.3 ANÁLISE DO ARQUIVO TRACE ATRAVÉS DE FERRAMENTAS GERADORAS DE GRÁFICOS PARA QUE SE OBTENHAM OS RESULTADOS DA SIMULAÇÃO Na etapa de confecção do script é necessário definir alguns parâmetros básicos. A pasta samples do módulo underwatermiracle possui alguns exemplos de scripts de simulação de cada um dos protocolos oferecidos que podem ser usados como exemplo na criação do script. Em qualquer simulação é imprescindível criar o objeto simulador que irá instanciar o NS e o Ns-MIRACLE. Isto pode ser feito como mostra o quadro 1. set ns [new Simulator] $ns use-Miracle Quadro 1 – Criação do objeto simulador. Para a geração do arquivo trace, deve-se definir no script de simulação o nome, o modo de abertura, que neste caso é escrita (write), e o que ele gravará no arquivo. O quadro 2 mostra como o trace grava todos os eventos ocorridos na simulação. set opt(tracefilename) “nome.tr” set opt(tracefile) [open $opt(tracefilename) w] $ns trace-all $opt(tracefile) Quadro 2 – Geração do arquivo trace. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 75-84, dez. 2010 80 Podem-se estipular os tempos de início e fim da simulação através das funções apresentadas no quadro 3. set opt(starttime) set opt(stoptime) Quadro 3 – Início e fim da simulação. Por se tratar de um canal de simulação diferente, utilizando outro módulo do NS, alguns parâmetros importantes devem ser definidos, de acordo com os quadros de 4 a 7. • Distância equivalente ao eixo x do plano cartesiano set opt(xmax) 500 Quadro 4 – Definição da distância máxima no eixo x. • Frequência e largura de banda set smask [new MSpectralMask/Rect] $smask setFreq 8.625e3 $smask setBandwidth 10.886e3 Quadro 5 – Definição de freqência e largura de banda. • Potência Module/MPhy/BPSK/Underwater set TxPower_ 100e9 Quadro 6 – Definição de potência. • Taxa de transmissão, que pode ser determinada diretamente através da linha abaixo, ou separadamente através dos valores do tamanho do pacote e do período de envio. Module/CBR set rate_ 3000b Quadro 7 – Definição da taxa de transmissão, Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 75-84, dez. 2010 81 A criação dos nós é realizada através de um procedimento e é de fundamental importância, pois nele são definidas as conexões entre as camadas. De acordo com a figura 2 um nó possui três camadas: CBR (camada de rede), MAC (protocolo ALOHA) e PHY (camada física). O pacote percorre as três camadas e então é transmitido aos outros nós através de comunicação broadcast. Figura 2 – Exemplificação do tráfego entre os nós. O processo citado é codificado de acordo com o quadro 8. set cbr($id) [new Module/CBR] set mac($id) [new Module/MMac/ALOHA] set phy($id) [new Module/MPhy/BPSK/Underwater] $node($id) addModule 3 $cbr($id) 0 “CBR($id)” $node($id) addModule 2 $mac($id) 0 “MAC($id)” $node($id) addModule 1 $phy($id) 0 “PHY($id)” $node($id) setConnection $cbr($id) $mac($id) 1 $node($id) setConnection $mac($id) $phy($id) 1 $node($id) addToChannel $channel $phy($id) 0 Quadro 8 – Criação dos nós e conexão entre camadas Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 75-84, dez. 2010 82 A quantidade de nós e suas localizações são definidas de acordo com o quadro 9. createNode 1 $position(1) setX_ 5.0 $position(1) setY_ 5.0 $position(1) setZ_ 5.0 $ns at $opt(starttime) “$cbr(1) start” $ns at $opt(stoptime) “$cbr(1) stop” Quadro 9 – Definição da quantidade e localização dos nós. Onde as duas últimas linhas equivalem ao início e fim do tráfego de dados e devem ser definidas apenas pelo nó transmissor, de acordo com o modelo que será utilizado. Feito isso, o script termina executando o simulador como mostra o quadro 10. $ns run Quadro 10 – Execução do simulador. 5 ESTUDO DE CASO Para exemplificar uma das aplicações desta técnica, (SANTOS et al., 2010) simularam sua utilização em um cenário amazônico de piscicultura a fim de analisar sua viabilidade na automatização do monitoramento de água. A figura 3 demonstra o cenário utilizado na pesquisa. Figura 3 – Exemplo do cenário simulado. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 75-84, dez. 2010 83 A pesquisa referenciada utilizou os parâmetros descritos na tabela 1. Tabela 1 – Parâmetros utilizados na simulação. Fonte: Hipotético 6 CONCLUSÃO Este artigo documentou os procedimentos para instalação do módulo de simulação submarina no Network Simulator (NS-2) assim como os procedimentos para a realização da simulação. Ele contribuirá com pesquisadores e/ou estudantes que desejem reproduzir este estudo ou se aprofundar em estudos futuros. Com o crescente interesse nas redes wireless submarinas pelos pesquisadores, muitas melhorias ainda são esperadas para esta tecnologia, o que incentivará, no futuro, aplicações ainda melhores como o reconhecimento de espécies marinhas, a transmissão de vídeos submarinos e fotos, o que contribuiria com muitas atividades e estudos embaixo da água. REFERÊNCIAS AKYILDIZ, I. F.; POMPILI, D.; MELODIA, T. Challenges for Efûcient Communication in Underwater Acoustic Sensor Networks.pdf. SIGBED Review, 2004. ________. T. Underwater acoustic sensor networks/ : research challenges. Ad Hoc Networks, v. 3, p. 257-279, 2005. DEPARTAMENT OF INFORMATION ENGENEERING, U. DEGLI S. DI P. SIGNET. Disponível em: <http://telecom.dei.unipd.it/labs/read/3/>. Acesso em: 12 maio. 2010. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 75-84, dez. 2010 84 MIGUENS, A. P. Noções sobre geração, transmissão, propagação e recepção das ondas eletromagnéticas e acústicas. Navegação: A Ciencia e a Arte, v. Volume III, p. 1221-1264, 2000. NS2. User Information. Disponível em: <http://nsnam.isi.edu/nsnam/index.php/ User_Information>. Acesso em: 12 maio. 2010. PREISIG, J. Acoustic Propagation Considerations for Underwater Acoustic Communications Network Development. Society, p. 1-5, 2006. SANTOS, I.; SOUZA, G.; MARGALHO, M. The Use of Underwater Wireless Networks in Pisciculture at Amazon. Journal of Computer Science, v. 7, n. 5, p. 112-116, 2010. SOZER, E.; STOJANOVIC, M; PROAKIS, J. Underwater acoustic networks. IEEE Journal of oceanic engineering, v. 25, n. 1, p. 72-83, 2000. STOJANOVIC, MILICA. Underwater acoustic communication. Wiley Encyclopedia of Electrical and Electronics …, p. 688-698, 1998. STOJANOVIC, Milicia. Underwater wireless communications: current achievements and research challenges. IEEE Oceanic Engineering Society, p. 2-7, 2006. III, A. F. H.; ZORZI, M. Modeling the Underwater Acoustic Channel in ns2. Proceedings of the 2nd international conference on Performance evaluation methodologies and tools (ValueTools ’07). Anais... Brussels, Belgium: ICST (Institute for Computer Sciences, Social-Informatics and Telecommunications Engineering), 2007 UNIVERSITÀ DEGLI STUDI DI PADOVA. A patch for effectively using Dynamic Libraries in NS-2. Disponível em: <http://www.dei.unipd.it/wdyn/?IDsezione=3970>. Acesso em: 12 maio. 2010a. __________. Dei80211mr: a new 802.11 implementation for NS-2. Disponível em: <http:/ /www.dei.unipd.it/wdyn/?IDsezione=5090>. Acesso em: 14 abr. 2010b. __________. NS-MIRACLE: Multi-InteRfAce Cross-Layer Extension library for the Network Simulator. Disponível em: <http://www.dei.unipd.it/wdyn/?IDsezione=3966>. Acesso em: 14 abr. 2010c. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 75-84, dez. 2010 85 ESTUDO DA DINÂMICA POPULACIONAL NO PERÍODO DE 1970 – 2000: UMA ANÁLISE DO CENTRÓIDE E DA DISPERSÃO DA POPULAÇÃO NO ESTADO DO PARÁ José Ferreira da Rocha* Sérgio Castro Gomes** Magno Roberto Alves Macedo*** Eugênia Rosa Cabral**** RESUMO O presente trabalho apresenta dois objetivos principais que se correlacionam. Um interessado em analisar a dinâmica populacional no Estado do Pará nas décadas de 70, 80 e 90, levando em consideração o padrão espacial da distribuição populacional. E outro de identificar a formação de aglomerados populacionais (clusters) no estado. Para analisar a distribuição espacial da população do estado foi calculado o centro médio,a distância padrão, a elipse do desvio padrão ponderadas pela população dos municípios. Para avaliar a formação de clusters de municípios, em relação ao tamanho da população residente foi encontrada a autocorrelação espacial local (LISA). Os resultados apontam evidências de que a população do estado se distribuiu espacialmente no sentido Nordeste/Sudoeste, no período de 1970-2000. Palavras-chave: Centro médio. Desvio padrão. Aglomerados. Centróide. A STUDY OF THE POPULATIONAL DYNAMIC BETWEEN 1970 AND 2000: A CENTROID AND DISPERSION POPULATION ANALYSIS IN THE PARÁ STATE ABSTRACT This paper presents two main objectives that correlate. One interested in analyzing population dynamics in Para State in the ’70s, ’80s and ’90s, taking into account the spatial pattern of population distribution. And another to identify the clustering of populations (clusters) in the state. To analyze the spatial distribution of the state population was calculated by the center median, the standard distance, the ellipse of * ** *** **** Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará – IDESP. Av. Municipalidade, 1461 – Umarizal – CEP: 66050-350 – Belém-PA. [email protected] Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará – IDESP. Av. Municipalidade, 1461 – Umarizal – CEP: 66050-350 – Belém-PA. Universidade da Amazônia – UNAMA. Avenida Alcindo Cacela, 287 – Umarizal – CEP: 66060-902 - Belém-PA. [email protected] Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará – IDESP. Av. Municipalidade, 1461 – Umarizal – CEP: 66050-350 – Belém-PA. [email protected] Universidade da Amazônia – UNAMA. Av. Alcindo Cacela, 287 – Umarizal – CEP: 66060-902 – Belém – PA. [email protected] Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 85-99, dez. 2010 86 standard deviation weighted by the population of municipalities. To assess the formation of clusters of municipalities in relation to the size of the resident found the local spatial autocorrelation (LISA). The results show that the state’s population is spatially distributed in the direction northeast / southwest, in the period 1970-2000. Keywords: Center median. Standard deviation. Clusters. centroid. 1 INTRODUÇÃO Durante as décadas de 1960 e 1970, a estratégia de desenvolvimento adotada pelo Governo Federal, para a Amazônia Legal, via planejamento central, estava focada em grandes projetos de investimentos que, estrategicamente localizados, teriam fortes vínculos com suas áreas de influência política, social, econômica e institucional, promovendo o crescimento e o desenvolvimento das regiões. A política de desenvolvimento regional da Amazônia Legal priorizou os gastos públicos em infraestrutura e na formação dos fatores de produção, capital e trabalho. O primeiro via incentivos fiscais e investimentos em infraestrutura feitos pelo setor público, e o segundo, a partir do processo de povoamento de extensas áreas da Amazônia, dado a abundância de terras e de recursos naturais. Algo em torno de 60 mil quilômetros de estradas foi construído no período de 1970 a 1985. Em 1970, a participação relativa da Amazônia Legal no PIB do Brasil foi de 4,08%, passados mais de 37 anos, a contribuição da região para a formação do PIB brasileiro de 2007 se ampliou, chegando a 12,41%, a preços correntes de 2000. Nesse processo o Estado do Pará tem papel preponderante na formação da renda gerada na Amazônia Legal uma vez que contribuiu com 50,76% e 37,06%, na composição do PIB de 1970 e 2007, respectivamente. A partir dosanos de 1970 a população do Pará apresentou uma expressiva evolução, saindo de 2,16 milhões de habitantes em 1970 para 7,06 milhões de habitantes em 2007. Em termos geométricos, a taxa de crescimento populacional no período de 1970 a 1990 foi de 4,07% ao ano, enquanto que no período de 1991 a 2007 o crescimento continuou a ocorrer, só que em proporções decrescentes, em média 2,03% ao ano. Essa dinâmica demográfica foi bastante influenciada pelo movimento migratório realizado por contingente significativo de habitantes das Regiões Nordeste e Centro-Oeste, atraídos pelas oportunidades de emprego no setor minero-metalúrgico e na agropecuária (IBGE, 2007). As regiões metropolitanas, do sudoeste e sudeste do Pará foram as que registraram as maiores elevações da população, com destaque para a capital Belém e os municípios de Marabá, Paragominas, Parauapebas, Itaituba, Santarém e Castanhal. A literatura sobre a geografia urbana sinaliza para a forte evidência da correlação positiva entre o crescimento econômico, representado pelo PIB, e o crescimento populacional, daí a concentração populacional em cidades com elevado valor de PIB. Esse crescimento econômico resulta, em grande medida, do que os economistas denominam de economias de aglomeração, ou seja, o adensamento das cidades gera a Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 85-99, dez. 2010 87 elevação e diversificação da demanda por produtos e serviços. (GLAESER, 1995; OLIVEIRA, 2006). Incorporar as coordenadas geográficas de um espaço, no cálculo das medidas estatísticas sobre esse local, contribui para dar maior robustez aos resultados obtidos para as variáveis econômicas, sociais e ambientais, fato que não se consegue a partir da utilização das medidas estatísticas clássicas. Segundo Anselin (1988), o cálculo das medidas estatísticas descritivas e das relações entre variáveis investigadas pela econometria, levando-se em consideração o posicionamento geográfico da ocorrência do fenômeno social, econômico e demográfico, adiciona à informação produzida, aspectos deixados de lado pela abordagem da estatística clássica, em que a unidade espacial serve apenas para situar geograficamente o dado agregado. A análise espacial ressalta a mensuração das propriedades e o relacionamento entre variáveis considerando a localização geográfica e, por conseguinte, incorporando na modelagem do processo gerador dos dados características relacionadas ao posicionamento espacial do fenômeno investigado. O aumento do uso das ferramentas georreferenciadas resulta, em grande medida, da redução dos custos de hardware e software, da forma amigável da interface desses sistemas e da absorção dessas tecnologias pelas diferentes áreas de conhecimento científico que acoplaram em suas metodologias o espaço onde os fenômenos são registrados. Segundo Druck et al (2004), compreender a distribuição espacial de dados referentes aos fenômenos observados no espaço tem contribuído significativamente para elucidar questões centrais em áreas de conhecimento como: saúde, meio ambiente, agronomia, economia, geologia, entre outras. De posse das informações georreferenciadas é possível observar o padrão espacial da concentração industrial, do número de ocorrências de homicídios, das fontes de poluição e de doenças contagiosas, entre outros fenômenos de interesse. Assim como se pode encontrar a intensidade do relacionamento de um município com os seus vizinhos mais próximos, ou ainda, avaliar o efeito da externalidade espacial de uma variável econômica, como a renda per capita de um município sobre os seus vizinhos, conhecido na teoria do crescimento econômico como externalidades espaciais ou spillovers (ANSELIN, 2000, 2003; LESAG, 1998). Os sistemas que realizam o tratamento de dados geográficos e armazenam a geometria e os atributos dos dados são conhecidos como Sistemas de Informações Geográficas (SIG). Segundo Druck et al (2004) esses sistemas apresentam os seguintes componentes: interface com usuários, entrada e integração de dados, funções de processamento gráfico e de imagens, visualização e plotágem, armazenamento e recuperação de dados (organizados sob a forma de banco de dados geográficos). A área de análise do presente estudo é formada pelo contorno territorial dos municípios do Estado do Pará, representados por um polígono fechado aos quais os dados agregados e as coordenadas geográficas do município estão relacionados em um banco de dados. Nos últimos 30 anos, a quantidade de municípios no Estado do Pará cresceu Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 85-99, dez. 2010 88 cerca de 72,3%, saindo de 83 unidades em 1970 para 143 em 2000, ou seja, foram criados 60 municípios. Como a criação desses municípios se dá pela união de partições de áreas de um ou mais municípios, as variáveis sociais, econômicas, demográficas perdem o efeito da comparação intercensitária. Diante dessa ampliação utilizou-se o conceito de Áreas MínimasComparáveis (AMC), de maneira a garantir um mínimo de homogeneidade aos indivíduos da população e a homogeneidade interna à unidade regional (REIS; ALVARENGA; PIMENTEL, 2006). O presente trabalho apresenta dois objetivos principais que se correlacionam. Um interessado em analisar a dinâmica populacional no Estado do Pará nas décadas de 70, 80 e 90, levando em consideração o padrão espacial da distribuição populacional. E outro de identificar a formação de aglomerados populacionais (clusters) no estado. Além desta introdução, o trabalho está estruturado em mais quatro seções. Na segunda seção encontra-se os procedimentos metodológicos, onde se descreve as técnicas de análise espacial utilizadas no estudo. Na seção seguinte conduz-se a análise de resultados das medidas de estatística espacial empregadas no estudo. A sessão seguinte contempla a conclusão e por fim a bibliografia utilizada. 2 METODOLOGIA Os dados municipais referentes a população residente foram obtidos no site do IPEADATA, para os anos de 1970, 1980, 1990 e 2000. Em decorrência das alterações no recorte territorial, devido a criação de novos municípios no período em análise, a comparação da variável municipal entre os anos de 1970 e 2000 ficou prejudicada. Em função dessa inconsistência adotou-se, o conceito de Áreas Mínimas Comparáveis (AMC), metodologia elaborada por Reis, Alvarenga, Pimentel (2006). A vantagem de utilizar as AMC reside no fato de se garantir que a variável envolvida na modelagem possa refletir áreas minimamente homogêneas. Do contrário, poder-se-ia incorrer em um erro de se comparar áreas não comparáveis. 2.1 MEDIDAS DE TENDÊNCIA CENTRAL DE DISPERSÃO ESPACIAL Centro Médio Medida análoga a média aritmética e definida como o ponto de um plano que minimiza a soma das distâncias quadráticas em relação a todos os demais pontos do plano (EBDON, 1985). Equivale ao centro gravidade de um corpo e é empregado para descobrir as mudanças na distribuição espacial dos centróides ao longo do tempo (TARTARUGA, 2008). É obtida a partir da formulação a seguir: 1 n 1 n ( x , y ) xi , yi , n i 1 n i 1 em que: x : coordenada X (longitude) do centro médio; Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 85-99, dez. 2010 (1) 89 y : coordenada Y (latitude) do centro médio; x i : coordenada X (longitude) do centróide do município “i”; yi : coordenada Y (latitide) do centróide do município “i”; n: número de centróides (municípios) Centro Médio Ponderado Uma vez que o centro médio informa apenas o centro gravitacional dos centróides, sem levar em consideração a informação sobre o tamanho da população no município, se torna imprescindível a incorporação dessa variável no modelo, onde ela funcionará como um fator de ponderação, como na média aritmética ponderada apresentada pela estatística clássica. Em termos matemáticos: n n p i xi p i yi ( x , y ) i 1n , i 1n pi pi i 1 i 1 (2) em que: p i que é o peso correspondente ao centróide (município) “i”. A demais definição de variáveis segue a configuração anterior. Desvio Padrão Após a obtenção do centro médio é possível avaliar o nível de dispersão da distribuição espacial dos pontos em torno do centro médio. Essa medida é conhecida como distância padrão e representa o raio de um círculo com ponto central localizado no centro médio da distribuição. A relação entre a dispersão e a distância padrão é positiva e direta, ou seja, quanto maior a distancia padrão maior será a dispersão dos pontos em torno do centro médio, e vice-versa. A definição matemática dessa medida é dada por: n (x S xy n i x ) 2 ( yi y ) 2 i 1 i 1 (3) n em que: S xy : Distância padrão x : coordenada X (longitude) do centro médio; y : coordenada Y (latitude) do centro médio; x i : coordenada X (longitude) do centróide do município “i”; yi : coordenada Y (latitide) do centróide do município “i”; n: número de centróides (municípios) Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 85-99, dez. 2010 90 Desvio Padrão Ponderado De maneira análoga ao que foi feito para o centro médio ponderado, à distância padrão ponderada é obtida a partir da incorporação do peso (população residente) na formulação (4). n n pi ( xi x ) 2 pi ( yi y )2 S xy i 1 i 1 n p (4) i i 1 Adicionando-se a equação (3): p i que é o peso correspondente ao centróide (município) “i”. Elipse de Desvio Padrão Levando-se em consideração a densidade e a orientação, como forma de identificar a tendência da distribuição dos pontos, utilizou-se a formulação apresentada por Tartaruga (2008). De posse dessa informação será possível mostrar o comportamento, no tempo, da distribuição dos pontos, isto é, a dinâmica da distribuição espacial da população residente ao longo do período em foco. Segundo o autor a elipse é determinada a partir de três parâmetros: ângulo de rotação, dispersão ao longo do maior eixo e dispersão ao longo do menor eixo. O maior eixo define a direção de máxima dispersão da distribuição e o menor eixo define a direção mínima de dispersão. Além do mais se pode definir o número de desvios padrão que se deseja para representar a abrangência da elipse, como definido para uma distribuição normal padrão. No caso da elipse ponderada, incorpora-se ao cálculo dos parâmetros o peso (população residente). O cálculo dos parâmetros da elipse e das demais medidas foi viabilizado a partir do software para geoprocessamento ArcGIS. Para obtenção dos Centros Médios e Desvio Padrão, utilizou-se no software ArcGIS a ferramenta Spatial Statistics Tools, no módulo Measuring Geographic Distributions para definição do Mean Center que foi atribuídos ao shape da base de municípios do Estado do Pará com peso igual ao período do estudo, no caso, 1970 até 2000 e processo igual para a definição das elipse de crescimento populacional. Autocorrelação espacial local (LISA) Um dos pressupostos básicos levado em consideração para efeito de análises empíricas sobre os fenômenos espaciais é a primeira lei da geografia, enunciado por Tobler (1970); “todas as coisas são parecidas, mas coisas mais próximas se parecem mais que coisas mais distantes”. Com base nesse enunciado surge o conceito de dependência espacial, frequentemente utilizado para avaliar a correlação espacial levando-se em consideração a distância entre duas localidades. A medida de estatística espacial utilizada neste estudo para mensurar a dependência espacial local foi a estatística I-Moran, que faz parte do conjunto de ferramentas de estatística espacial utilizadas para desenvolver a Análise Exploratória de Dados Espaciais (AEDE). Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 85-99, dez. 2010 91 O processo de implementação da AEDE requer a construção de uma matriz de pesos espaciais (W). No presente estudo a matriz foi construída com base no modelo dos k vizinhos mais próximos, utilizando a métrica do grande círculo entre os centros dos municípios. Segundo Anselin (1988), por meio deste procedimento, é possível avaliar a hipótese de aleatoriedade espacial, comparando os valores do indicador de cada região com os indicadores das regiões vizinhas. Dessa forma, a estatística de I de Moran Local (Ii) mensura a autocorrelação espacial de uma localização específica com os seus vizinhos, e pode ser expressa por: Ii xi xi2 w x ij j j (5) i A decisão estatística da hipótese de autocorrelação local é dada por: . A rejeição da hipótese nula indica que há evidência estatística de que o município “i” está correlacionado, espacialmente, com os seus vizinhos, ou seja, existe um aglomerado de municípios que, segundo as características de classificação, podem ser agregados em Alto-Alto, Baixo-Baixo, Alto-Baixo, Baixo-Alto, em que as duas primeiras classificações mostram similaridade entre os municípios vizinhos e as demais indicam dissimilaridade. O cálculo das estatísticas de Moran Local foi realizado no software Geoda. 3 RESULTADOS E DISCUSSÕES 3.1 DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA DA POPULAÇÃO No ano de 1970 observou-se uma predominância de municípios com contingente populacional na faixa representada pela cor mais escura, com destaque para as Áreas Minimamente Comparáveis (AMC) ou municípios localizados no Nordeste Paraense, situados próximos a capital, Belém. Esse padrão pode ser explicado, em grande medida, pelo fato de Belém representar, nesse período, o principal entreposto comercial da região amazônica (Figura 1). Os resultadoscensitários para 1970 mostram que os municípios das regiões do Baixo Amazonas e do Sudoeste do estado apresentavam-se pouco adensadas populacionalmente. Com destaque para os municípios de Almeirim, Juruti, AMC7097003 e AMC7097010 (ambas na microrregião de Itaituba), AMC7097014 (microrregião de Paragominas), AMC7097016 (microrregião de Conceição do Araguaia) e AMC7097020 (microrregião de São Félix do Xingu), todos com tamanho populacional abaixo de 20 mil habitantes. A AMC7097017 e AMC7097019, situada na microrregião de Santarém e Almeirim, além de Belém, estão entre as áreas com contingente populacional acima de 100 mil habitantes. A população residente nessa AMC e Belém representava 40,99% da população total do estado recenseada em 1970. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 85-99, dez. 2010 92 Figura 1- Distribuição espacial da população residente segundo método de quebras naturais (Jenks)1 , Estado do Pará, 1970 No início da década de 1990 a população do Estado do Pará, mais que duplicou, em relação a população de 1970, saindo de 2,1 milhões para 4,8 milhões de habitantes (Figura 2). Nesse período tem-se o adensamento da população provocado por fatores naturais relativos a nascimentos e mortes, assim como a forte migração de pessoas vindas do Maranhão, Ceará, Piauí e alguns estados do sudeste. Esse movimento migratório surge em função da efetivação das obras do projeto Grande Carajás. Figura 2 - Distribuição espacial da população residente segundo método de quebras naturais (Jenks), Estado do Pará, 1990. Os resultados censitários de 1990 mostram que o número de municípios ou AMC com contingente populacional acima de 100 mil saltou de três para sete, os quais representavam 55,11% do total populacional do estado. 1 Método de classificação de dados que busca reduzir a variância dentro dos grupos e maximizar a variância entre os diferentes grupos. Foi utilizado devido a discrepância entre os dados populacionais para a capital do estado e os demais municípios (TARTARUGA, 2008). Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 85-99, dez. 2010 93 Em 2000, a população residente, estimada pelo IBGE, atingiu 6,2 milhões de habitantes (Figura 3). A concentração populacional situa-se na porção centro oeste e sudeste, como reflexo da ampliação das atividades minero-metalúrgicas e agropastoris. Além da capital Belém. Figura 3 - Distribuição espacial da população residente segundo método de quebras naturais (Jenks), Estado do Pará, 2000 No ano de 2003, existiam 13 municípios com população residente acima de 100 mil habitantes, esses municípios ou AMC concentravam cerca de 67,70% da população do estado. A distribuição espacial desses municípios se deu, em maior proporção nos municípios da Região Metropolitana de Belém, no Sudeste e Sudoeste e Nordeste. Com destaque para os municípios ou AMC: Ananindeua, AMC7097011 (microrregião de Parauapebas), AMC709707 (microrregião de Redenção), Castanhal e Abaetetuba. 3.2 CENTRO MÉDIO E DESVIO PADRÃO Em relação aos centróides, no ano de 1970, ele se encontrava na posição geográfica referente ao município de Limoeiro do Ajuru, na microrregião de Cametá. No ano de 1980, localizou-se nos limites do município de Cametá e Oeiras do Pará, ainda na microrregião de Cametá, porém, inicia a trajetória no sentido Sudoeste do Pará. Em 1990, ele concentra-se no limite dos municípios de Oeiras do Pará e Bagre, transpondo da microrregião de Cametá para a microrregião de Portel. O centro médio em 2000 estava situado na mesma região limítrofe dos municípios de Oeiras do Pará e Bagre, com trajetória direcional para o Sul do Estado do Pará . A figura 4 possibilita visualizar o comportamento dos centros médios no sentido Nordeste/Sudoeste. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 85-99, dez. 2010 94 Figura 4 - Distribuição espacial dos centros médios da população residente, Estado do Pará, 1970-2000 A forma da elipse para os anos de 1970 e 1980 mostra-se quase circular. Com efeito, não é possível identificar um eixo que seja predominante para a distribuição da população. No entanto, na figura 5 é possível perceber uma rotação da elipse no sentido Nordeste/Sudoeste, com perspectiva de se deslocar no sentido sudeste (com a mesma trajetória dos centros médios). Figura 5 - Elipses de desvio padrão da população residente, Estado do Pará, 1970-2000 Os dados referente a Distância Padrão expressos na tabela 1 mostram uma tendência de concentração da população do Estado do Pará a partir dos dados registrados para o período 1970-2000. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 85-99, dez. 2010 95 Em termos de distância padrão observa-se uma ampliação da ordem de 40 km no período de 1970-1998, enquanto que na década de 1990 o que se expressa é uma redução de 1 km. Tabela 1 - Distância Padrão da população residente, Estado do Pará, 1970 - 2000 Ano Km Diferença 1970 336,38 1980 355,69 19,31 1990 376,64 20,95 2000 375,65 -0,99 - Fonte: Resultados da pesquisa. Como pode ser observado na tabela 2, há uma ampliação da distância padrão em ambas as coordenadas, isto é, a área da elipse está aumentando com o passar dos anos, o que já foi observado com o aumento da dispersão dos dados. A rotação observada na elipse mostra a tendência de crescimento populacional ocasionada pelas ocupações territoriais em curso nos municípios do sudoeste e sudeste do Pará, com destaque para Altamira, Conceição do Araguaia, Marabá, Paragominas, e Parauapebas. Na área dos municípios citados ocorre a presença de atividades produtivas ligadas a extração de minérios de ferro, bauxita e ouro, entre outros. Além da intensificação da pecuária de corte e de leite. A extração e beneficiamento de madeira proveniente de floresta nativa, a ampliação das áreas de pasto e de áreas utilizadas para cultivo de lavouras temporárias e permanentes contribui para o adensamento populacional. Cabe destacar o avanço da cultura da Soja e de outros grãos cultivados nessas regiões. Tabela 2 - Elipses de desvio padrão da população, Estado do Pará, 1970-2000 Ano Distância padrão em X (km) Distância padrão em Y (km) Rotação Graus decimais Parcela da população na elipse (%) 1970 219,8 421,89 77,57 82,72 1980 260,6 430,26 70,78 80,81 1990 285,46 449,7 61,24 82,34 2000 280,47 451,17 59,8 83,55 Fonte: Resultados da pesquisa Nota: Utilizou-se um desvio padrão para cálculo da elipse. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 85-99, dez. 2010 96 3.3 AUTOCORRELAÇÃO ESPACIAL LOCAL (LISA) Em relação ao padrão de correlação espacial local (LISA), a Figura 6 mostra a presença de um padrão baixo-baixo, ou seja, municípios com tamanho populacional abaixo da média, circundado por municípios de tamanho populacional baixo. Essa característica foi observada quando da distribuição da população em classes. Outro padrão verificado foi o baixo-auto, isto é, municípios com tamanho populacional abaixo da média circundado por municípios com tamanho populacional acima da média. A estatística LISA mostrou-se não significante para um elevado número de municípios. Figura 6 - Padrão de distribuição espacial local (LISA) para população residente, Estado do Pará, 1970 Fonte: Resultad os da pesq uisa. No ano de 1970, o padrão alto-alto, ou seja, um cluster formado por municípios com tamanho populacional acima da média circundado por municípios acima da média é registrado, onde se destacam as AMC 7097011, na microrregião de Parauapebas e a 7097020, na microrregião do sudeste, ambas na messoregião do Sudeste do Pará. O padrão baixo-baixo para a distribuição espacial da população é observado na região do Marajó e Nordeste do Pará. Observa-se a ampliação do número de municípios nesse padrão, fato observado desde o ano de 1970. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 85-99, dez. 2010 97 Figura 7 - Padrão de distribuição espacial local (LISA) para população residente, Estado do Pará, 1990 Fonte: Resultad os da pesq uisa. No ano de 2000 o padrão de distribuição espacial da população é semelhante ao observado para o ano de 1990. Ocorre a presença do padrão Alto-baixo na região do Marajó. Figura 8 - Padrão de distribuição espacial local (LISA) para população residente, Estado do Pará, 2000 Fonte: Resultad os da pesq uisa. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 85-99, dez. 2010 98 A trajetória da formação dos aglomerados de municípios no Estado do Pará segue o que foi apontado na análise espacial realizada com base nos centros médios, no desvio padrão ponderados e nas elipses de desvios padrão. A tendência é de crescimento das cidades situadas na direção Nordeste/Sudoeste, com uma discreta tendência a se deslocar para a região Sudeste nos próximos anos. 4 CONCLUSÕES Diante dos resultados apresentados conclui-se que a distribuição espacial da população do Estado do Pará sofreu mudanças significativas no adensamento populacional no sentido Nordeste/Sudoeste, com indicação de que ela deverá convergir para a região Sul do Estado. Em termos de padrão da distribuição espacial local e a formação de clusters há evidências estatísticas significativas a 1,0% de probabilidade da formação de aglomerados populacionais do tipo alto-alto, na região Sul e Sudeste do Estado. A trajetória dos centros médios e a sua dispersão mostram que essa distribuição espacial da população não é convergente, pois apresenta uma série composta por valores elevados para os desvios padrão. De maneira que as cidades crescerão de forma heterogênea, porém, ligadas aos investimentos privados e públicos levados a efeito nessas regiões. Entre os municípios situados no eixo descrito pelos centros médios e pela elipse de desvio padrão cabe destacar aqueles onde estão presentes atividades de extração e beneficiamento de minérios, produção de gado de corte, plantação de soja e outros grãos, produção de lavoura permanente (frutas) e temporária, extração e beneficiamento de madeira e serviços. REFERÊNCIAS ANSELIN, L. 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Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 85-99, dez. 2010 100 101 UM RELATO DE MELHORIA DO PROCESSO DE TESTE DE SOFTWARE APLICADO A UMA FÁBRICA DE SOFTWARE Inácio Leite Gorayeb* Sandro Ronaldo Bezerra Oliveira** RESUMO Este trabalho relata a experiência da mudança e evolução de um processo de software, além de descrever um arcabouço de ferramentas livres para apoiar o processo de teste de software, em uma fábrica de software. São fornecidas avaliações para a escolha de ferramentas de software livre de apoio ao processo, bem como problemas motivadores para as mudanças do processo inicial para o processo evoluído. O artigo mostra também resultados obtidos com o uso destes e de futuros trabalhos. Palavras-chave: Teste de Software. Fábrica de Software. Software Livre. Automação de Teste. Processo de Teste. ABSTRACT This paper reports the experience of the change and evolution of a defined software process beyond to define a suite of free tools to support the Software Test process in a software house. Assessments for the choice of tools to support the process are discussed as well as the reasons that motivate the changes in initial process. It also shows the results obtained with the use of these and future works. Keywords: Software Testing. Software House. Free Software Tools. Test Automation. Test Process. 1 INTRODUÇÃO À medida que o emprego de sistemas de informação pela sociedade cresce ao ponto em que boa parte dos negócios depende cada vez mais de software e computadores, passa a ser de grande importância contar com um software de qualidade [1]. Com objetivo de se tornar mais competitivas, algumas empresas de software vêm implantando a gerência sistemática dos processos utilizados para o desenvolvi- * ** Bacharel em Ciência da Computação pela UNAMA - Universidade da Amazônia. Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação – UFPA. [email protected] Doutor em Ciência da Computação pelo CIn/UFPE. Professor da Faculdade de Computação do ICEN/UFPA. [email protected] Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 101-118, dez. 2010 102 mento e a manutenção de software. Por meio da avaliação de seus produtos e da melhoria dos seus processos, essas empresas têm obtido a necessária melhoria da qualidade de seus produtos e, com isso, melhores resultados nos negócios. Essas empresas que desenvolvem software compreendem a importância de se produzir sistemas com baixo nível de defeitos, bem como a importância de um processo maduro para atingir este objetivo. Mesmo assim, os sistemas atuais ainda contêm um alto índice de defeitos [1]. As etapas da engenharia de software de verificação e validação surgiram com a necessidade de garantir extrema confiabilidade de software nos sistemas, de maneira que um mínimo erro resultaria na falha da missão, resultando em perda de tempo e enorme recurso financeiro [8]. A validação de software não é uma atividade trivial. A atividade de teste, por exemplo, exige conhecimentos, habilidades, e infraestrutura específica. Um bom desenvolvedor ou projetista de software sem esta base dificilmente realizaria uma boa tarefa de testes. Já o propósito do processo de verificação é confirmar que cada serviço e/ou produto de trabalho do processo ou do projeto atente apropriadamente os requisitos específicos [11]. Adicionalmente, Molinari [8] acrescenta ao conceito dois critérios fundamentais: o software deve executar todas as funções desejadas; e o software na sua execução, não deve passar por nenhum caminho que não tenha sido testado em alguma combinação com outras funções. Este trabalho relata as mudanças ocorridas no processo de teste de uma fábrica de software no contexto do antes e depois da formação de uma equipe dedicada à execução desta disciplina, bem como, relata os critérios e motivações para escolha de ferramentas livres para o apoio a esse processo. Serão tratadas as motivações e necessidades dessas mudanças, bem como, mostradas as opções de ferramentas para apoio a determinados procedimentos e atividades do processo, além de justificada a escolha da ferramenta utilizada. Serão mostrados, também, resultados alcançados com as mudanças e a utilização de ferramentas. O projeto desenvolvido pela fábrica consiste em um sistema de gestão de fomento. O sistema basicamente possui o escopo de gerenciamento de contratos, projetos, liberação de recursos, para projetos fomentados na Região Amazônica. Além desta seção introdutória, este relato apresenta seis outras seções. A seção 2 ambienta quanto ao cenário da fábrica de software, do projeto e da organização em que ocorre. A seção 3 explica o processo de teste inicial da fábrica de software. A seção 4 discute o processo de teste após as mudanças e atualmente executado na fábrica de software. Na seção 5 serão descritas as ferramentas de apoio ao processo de teste, justificando as escolhas. A seção 6 discute alguns resultados e melhorias obtidos com a adoção/utilização do arcabouço de ferramentas escolhidas, bem como as melhorias do processo evoluído. Por fim, a seção 7 trata das conclusões deste trabalho e aponta futuras adaptações no processo. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 101-118, dez. 2010 103 2 CONTEXTUALIZAÇÃO DO CENÁRIO DO PROJETO A empresa foco deste relato foi fundada em 1974, e foi a primeira empresa genuinamente brasileira a produzir e comercializar tecnologia no segmento de informática. Nos anos 90, já fazendo parte de estrutura de um banco nacional, tornou-se uma integradora de solução. Em 2004 essa empresa iniciou o desenvolvimento de um programa de excelência tecnológica com um cliente bancário situado na Região Norte, cujo objetivo era dotar os profissionais do cliente de um ferramental composto por novos processos, novas soluções tecnológicas e novos paradigmas de negócios, para que pudessem aprimorar os níveis de competitividade e qualidade de serviços e com isso viabilizar as diretrizes do planejamento estratégico da organização. No ano de 2007, diante da necessidade do cliente em atualizar tecnologicamente (mudança de plataforma operacional) um sistema de fomento e em função da sua complexidade, o projeto ganha uma equipe dedicada para seu desenvolvimento. Com isso, a empresa cria seu projeto piloto de uma fábrica de software no Pará. A fábrica possui aproximadamente 60 (sessenta) recursos humanos desempenhando papéis bem definidos e seguindo um processo de software também definido. Pela constante necessidade de comunicação com diversos stakeholders do cliente, foi acordado que a fábrica ficaria sediada no mesmo espaço físico do cliente. Acordou-se, ainda, que o sistema seria entregue por módulos funcionais, onde estes, após a entrega, ficariam por um período em homologação, para o cliente validação dos requisitos implementados. Tratando do cenário do sistema, a empresa enfrentou diversas dificuldades quanto à aquisição e definição de recursos. O projeto não contemplava recursos de software e hardware, com isso, o projeto foi direcionado a usar os recursos que o cliente dispusesse a licença. Assim, diversas ferramentas de software livre foram usadas para apoiar diferentes disciplinas da engenharia. Quanto aos recursos humanos, o projeto até hoje possui dificuldade em compor a equipe, pela falta de mão de obra qualificada no mercado local para atender aos papéis definidos no processo de software. Para suprir essas necessidades, a empresa oferece de conhecimento, workshops e cursos internos. Para caracterizar o tamanho do projeto em desenvolvimento, no início do projeto havia sido estimado 4560 UCPs (Pontos de Casos de Uso) a ser implementados, porém com o surgimento de novos requisitos este esforço está sendo revisado. Hoje o projeto possui aproximadamente 1000 UCPs desenvolvidos. No contexto de SLAs (Service Level Agreement – Acordo de Nível de Serviço) do projeto, foi definido que a criticidade dos bugs (erro de funcionamento comum de um software) seria tratada como: crítico, importante e trivial. Para a homologação acontecer, o sistema: não poderia possuir nenhum bug crítico (bug que impede que o cliente realize sua tarefa) pendente; menos de 25% de bugs classificados como importantes (bug que dificulta ou atrapalha a realização da tarefa, porém não a evita), onde o fornecedor mesmo assim possui o compromisso de corrigi-los mesmo após o módulo ser homologado; e bugs triviais não seriam impeditivos para a homologação, devendo o fornecedor corrigir depois que módulo seja homologado. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 85-102, dez. 2010 104 3 CENÁRIO E PROCESSO INICIAL DE TESTE DE SOFTWARE Nesta seção será mostrado como o processo geral e específico de teste de software eram conduzidos inicialmente na fábrica de software relatada na seção anterior. A figura 1 mostra de forma geral as etapas do processo de desenvolvimento de software da fabrica com ênfase na disciplina de teste. Para melhor entendimento do fluxo de atividades do processo foram utilizadas notações de UML – Unified Modeling Language, para descrever como ocorre o processo de teste de software atualmente. Uma descrição do fluxo será discutido logo abaixo. Figura 1 – Fluxograma do processo geral incial. Inicialmente as Regras de Negócio (RN) são entendidas com o cliente e é elaborado um documento de regra de negócio. Na segunda etapa, tendo como insumo a documentação de regras de negócio, uma documentação de Casos de Uso (UC) é elaborada, onde a documentação aproxima da linguagem utilizada na regra de negócio do nível de linguagem adotada pela programação (implementação). Na etapa de modelagem da base de dados (Modelagem BD) é feito, então, o modelo de banco de dados que dará suporte aos engenheiros de software para a implementação do caso de uso. Paralelamente a etapa de modelagem de banco de dados, e também baseado na documentação de caso de uso, o projeto de teste (contempla informações necessárias sobre o planejamento dos testes no módulo funcional em desenvolvimento e seus casos de testes para execução) é elaborado dando subsídio para a execução dos testes. Após a liberação do caso de uso implementado, é então iniciada a execução dos testes. Inicialmente, os testes, pela falta de uma equipe dedicada à realização desta disciplina, eram realizados pelos próprios analistas de requisitos. Após o término dos Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 101-118, dez. 2010 105 testes e realização das devidas correções o U.C. implementado, é então disponibilizado para homologação. Alguns problemas foram detectados com este cenário. O primeiro é que pelo fato do teste ser elaborado pelo próprio analista de requisito, a execução do teste acabava tornando-se viciada/tendenciosa, ou seja, um teste sem outra perspectiva de visão crítica no contexto dos requisitos. O segundo problema diz respeito ao fato de que como o analista deveria elaborar os testes de software e posteriormente executá-los, este cenário acarretava no atraso da execução das suas atividades principais, a análise de requisitos. Outro problema, e não menos importante, percebido é que pela falta de uma equipe especializada, o teste não contemplava outros contextos, prejudicando a completude e correção dos próprios testes. Outra questão percebida, é que durante a correção de defeitos não existia um gerenciamento destes através de uma ferramenta automatizada, ou seja, o controle (quem, quando, prioridade, tipo etc.) dos defeitos relatados pelo cliente e pela própria equipe de desenvolvimento acabava por se perder. Além disso, o processo em questão também não contemplava a prática de reteste dos defeitos encontrados, deixando com que estes defeitos não fossem retestados após sua correção, ou seja, sem se ter a certeza de que o mesmo realmente foi corrigido. Na fase de homologação o UC implementado é oferecido em um ambiente próprio para a homologação (aceite) do cliente. A homologação significa para o projeto relatado no cenário, que o módulo funcional está de acordo com o especificado e satisfaz às necessidade do cliente e ainda que está pronto para ser promovido à produção. A figura 2 apresenta as seguintes etapas do processo de teste: Elaboração do Projeto de Teste (PTS) e execução de teste. Na etapa de elaboração, o projeto de teste de software era preenchido pelo analista de requisitos, após o término da elaboração do requisito e contemplava, no mesmo documento, os resultados da execução dos testes. Caso algum defeito fosse encontrado, o responsável pelo teste encaminhava a inconsistência ao desenvolvedor responsável que então executava a correção. Posteriormente, o módulo era incluído para fase de homologação. Figura 2 – Processo de teste de software inicial. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 101-118, dez. 2010 106 Como se percebe, na figura 2, as fases de elaboração e execução de teste eram feitas em paralelo, o que indica que não havia planejamento prévio para o teste do sistema. Além disso, o processo de teste contemplava apenas testes funcionais; os testes executados não tinham a preocupação de testar o software em aspectos também não funcionais, além de conformidade, performance, estresse e regressivo, que eram necessários para a homologação e bom funcionamento do módulo funcional em produção. Outros problemas foram apontados em função do processo acima não contemplar outras práticas de teste de software, não possuir um processo mais completo e ainda não possuir uma equipe de teste dedicada e qualificada. O atraso na descoberta de defeitos acabava ocasionando atraso nas entregas dos módulos funcionais, alto custo no sistema e perda de qualidade do produto recarregado. A partir dos problemas apresentados, com a necessidade de agilidade na homologação do sistema e com o aumento na qualidade do produto, algumas medidas foram tomadas para prover melhorias neste processo, desde a disponibilização de uma equipe dedicada até a adoção de melhores práticas. Estas melhorias serão discutidas na seção a seguir. 4 CENÁRIO E PROCESSO DE TESTE DE SOFTWARE PÓS-MELHORIAS Nesta seção será discutido como se encontra institucionalizado o processo atualmente na fábrica de software, após alguns aportes de melhorias realizados para a execução da disciplina de teste de software, como a contratação de uma equipe dedicada e especializada. Para melhor entendimento do processo de teste de software, foi definido o fluxo de atividades visualizado na figura 3. Figura 3 – Processo de teste de software pós-melhorias. A primeira atividade descrita no fluxo é a elaboração do projeto de teste de software, onde são elaborados os casos de testes e os cenários de teste contemplados em um único documento (Projeto de Teste - PTS). Cada módulo funcional possui seu projeto de teste. A contemplação em um único documento dar-se pelo fato de tornar o processo menos burocrático, já que a demanda de desenvolvimento de casos de uso é alta. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 101-118, dez. 2010 107 A segunda atividade é formada por duas tarefas: a execução do projeto de teste e a Elaboração do Relatório de Teste (RTS). A execução do projeto de teste consiste em aplicar os cenários e os casos de teste de software projetados para o módulo funcional desenvolvido. Já a elaboração do RTS significa a criação de um relatório de teste onde para cada passo constante no cenário do PTS é anotado um resultado no documento RTS, podendo este resultado assumir três aspectos distintos: OK, bug, não executado; e como discutido na seção 2, caso o resultado seja “bug”, três diferentes níveis de criticidade (trivial, importante e crítico) são associados. No relatório de teste, o passo do cenário em análise recebe como resultado: OK, quando o passo é executado sem problemas e o sistema responde como o esperado (descrito na especificação de casos de uso) sem desvios de comportamento; bug, é atribuído para o passo que apresenta algum comportamento inesperado; e não executado, é atribuído quando por algum motivo o passo não pode ser executado, isso ocorre, por exemplo, quando algum bug torna-se impeditivo para a execução deste passo ou ainda por algum motivo inesperado que impeça a sua execução. O documento de relatório de teste possui, ainda, um papel fundamental no processo de teste e mesmo no processo geral da fábrica gerando métricas para avaliações da melhoria contínua do processo. Um exemplo de métricas é bugs/UCs, ou seja, porcentagem de bugs encontrados na fase de testes/homologação contraposto a quantidade de UCPs especificados no módulo funcional para desenvolvimento, permitindo uma análise da eficiência dos testes dada a complexidade da UCP, e da quantidade de bugs que a equipe de teste está deixando de descobrir para serem descobertos apenas na fase de homologação. Quando é finalizada a fase de execução do projeto de teste e de elaboração do relatório de teste, caso haja bugs no módulo funcional em análise, o BUG é registrado na ferramenta de software para a gestão de bugs e atribuída para o responsável pela correção (recurso humano alocado no projeto para o desenvolvimento do caso de uso). Após a correção, o caso de teste é retornado à equipe de testes responsável pela descoberta do bug para reteste (o ciclo de correção se repete até que o bug seja corrigido). Caso o bug tenha sido corrigido, o registro realizado no Mantis é “fechado”. Este procedimento se repete até que o último bug seja corrigido. Na fase de Homologação o U.C. implementado é oferecido em um ambiente próprio para a homologação (aceite) do cliente. A homologação significa para o projeto relatado no cenário, que o módulo funcional está de acordo com o especificado e satisfaz às necessidade do cliente e, ainda, que está pronto para ser promovido à produção. Em vez de bug, se a solicitação cadastrada na ferramenta for uma mudança, então é seguido o procedimento de gestão de mudança. O procedimento de gestão de mudança consiste em convocar uma reunião com o grupo responsável pela gestão de mudanças, alocado para o projeto, para definir impacto, esforço, tempo, custo e tomar a decisão se a mudança será realizada ou não. Esse procedimento é executado tanto internamente quanto em homologação. Importante mencionar que estas etapas foram definidas na forma de um procedimento que se encontra disponível no processo de desenvolvimento de software. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 101-118, dez. 2010 108 Quando não houver mais defeitos é então feito um script da automação de teste regressivo seguindo o projeto de teste, para que futuramente possa ser realizado teste no módulo funcional. Após a criação dos scripts o teste total de regressão do sistema é executado. Ao término, caso não haja mais nenhum bug, o módulo funcional é então publicado para homologação junto ao cliente. Antes de o módulo funcional ser promovido à homologação, o mesmo entra em um processo de GC (Gestão de Configuração) para que possa ser assegurada em que versão poderá ser recuperada, caso necessário, gerando baselines, versões e seu release notes. O processo de homologação consiste em o sistema ficar disponível para o cliente testar, validar e verificar, a fim de sinalizar que o sistema encontra-se realmente dentro do que foi especificado na fase de requisitos, ou ainda, registrar possíveis inconsistências ou bugs. Para isso, foi criada uma nova instância da ferramenta de gestão de bugs e mudanças, apenas para o fim de homologação, ou seja, o cliente registra suas considerações de mudanças ou bugs encontrados, e a equipe de teste é responsável por dar prosseguimento aos registros feitos pelos clientes. Com essa nova instância, conseguimos manter em ambientes separados as demandas dos clientes das solicitações realizadas pela própria equipe interna de testes alocada para o projeto. Estas demandas classificam-se tanto como possíveis correções de bugs quanto de solicitação de mudanças. Isso ajuda na extração de métricas e melhorias contínuas para garantir a satisfação do cliente quanto ao desenvolvimento do projeto. Durante a definição do processo de teste atual, procurou-se realizar sua evolução em conformidade com os Resultados Esperados do Processo1 (Resultado esperado em cada constantes nos processos de Verificação e Validação do modelo MPS.BR2, presente no nível de maturidade3 D (Largamente Definido). Esta avaliação de compatibilidade, no que tange à análise da conformidade, assemelha-se a uma avaliação de aderência dos processos do CMMI4 (Capability Mature Model Integration) na sua visão contínua (visão que classifica em ordem os níveis de maturidade), apesar de se reconhecer que no modelo MPS.BR a implementação dos resultados esperados não ocorre seguindo a visão contínua. A tabela 1 permite uma análise deste atendimento, apresentando quais das recomendações propostas no Guia de Implementação do modelo MPS.BR [7] para os resultados esperados dos processos de verificação e validação podem ser reconhecidas como implementadas pelo processo atual do processo, bem como as recomendações ainda não implementadas. 1 2 3 4 Resultados esperados do processo estabelecem os resultados a ser obtidos com a efetiva implementação do processo[1]. MPS.BR é um programa para Melhoria do Processo de Software Brasileiro[1]. Nível de maturidade estabelecem patamares de evolução de processos na organização[1]. CMMI é um modelo de referência que contém práticas (genéricas ou específicas), necessárias a maturidade de processos de software. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 101-118, dez. 2010 109 Tabela 1 – Atendimento do processo às boas práticas do processo de VER e VAL do MPS.BR. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 101-118, dez. 2010 110 5 FERRAMENTAL DE APOIO AO PROCESSO DE TESTE DE SOFTWARE Para o suporte e apoio ao processo atual executado, foram estudadas e avaliadas diversos tipos de ferramentas de software livre e proprietário para o atendimento automatizado/sistematizado das atividades constantes no fluxo da disciplina de teste. Em quase toda a totalidade as ferramentas escolhidas foram de cunho livre por três motivos: o primeiro retrata o fato da instituição incentivar e colaborar com desenvolvimento e uso de ferramentas livres; o segundo diz respeito à excelência apresentada por essas ferramentas em critérios de qualidade e atendimento às necessidades das atividades e dos processo; e o terceiro trata das questões de custo, as ferramentas são gratuitas e livres para ser utilizadas e adequadas conforme a necessidade apresentada. Nesta seção será dada ênfase para as ferramentas que participam ou apoiam o processo de teste. Para os testes regressivos automatizados foram analisadas duas ferramentas o WebLoad e o Selenium. O WebLoad é uma ferramenta gratuita, porém não open source, que realiza testes regressivos to tipo on click, ou seja o sistema grava a navegação do analista de teste e transforma em script. Porém o WebLoad funciona unicamente na plataforma Windows não dando possibilidade da utilização e outros sistemas operacionais. A escolha da ferramenta para essa função foi o Selenium pelo fato da facilidade de multiplataformas e ainda outras que serão descritas no decorrer da seção. O Selenium [9] é um arcabouço de ferramentas para apoio ao teste automatizado de sistemas web independente de plataforma. O Selenium é dividido em quatro outras ferramentas: a primeira é o Selenium IDE que consiste basicamente um add-on para o navegador Mozilla Firefox, possui a funcionalidade de gravar clicks, frases e outras ações em um script a fim de ser reproduzido para realizar testes automatizados. A figura 4 mostra a interface de gravação de scripts do Selenium IDE. A segunda ferramenta é chamada de Selenium CORE, que consiste de uma aplicação web desenvolvida em Javascript que possui a funcionalidade de prover um “servidor” de scripts de teste. O Selenium CORE fornece uma interface de controle para automação de testes onde podem ser ativados os scripts independente de navegador, apresentando uma ordem de execução, relatório e histórico de sucesso e falha, como mostra a figura 5. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 101-118, dez. 2010 111 Figura 4 – Tela de captura de ações do Selenium IDE.. A terceira ferramenta é chamada de Selenium RC (Remote Control), que consiste de uma ferramenta de automação teste que permite ao usuário escrever testes automatizados em diferentes tipos de linguagens, além disso, tem a capacidade de trabalhar com múltiplos navegadores executando diferentes scripts. A figura 5 mostra como funciona a arquitetura do Selenium RC. Figura 5 – Tela de execução de Scripts do Selenium RC. A quarta e última ferramenta da suite Selenium é o Selenium Grid que consiste em um hub, que é conectado a vários Selenium RC e consegue manipular todos ao mesmo tempo de maneira a gerar concorrência proporcionando realizar testes mais complexos. A suíte de ferramentas de testes automatizados Selenium, contribui para o processo da fábrica de software automatizando testes regressivos de funcionalidade a fim de assegurar que novas funcionalidades ou alterações não tenham inseridas falhas em partes do produto já testadas. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 101-118, dez. 2010 112 Figura 6 – Arquitetura de funcionamento do Selenium RC. Para o teste de performance, foram testadas duas ferramentas, o WebLoad Console e o Apache JMeter. A ferramenta escolhida foi o JMeter, uma vez que é multiplataforma e ainda o WebLoad, não sendo disponibilizado em sua totalidade gratuito. O JMeter consiste em uma ferramenta open source desenvolvida em Java e possui funcionalidades para teste de carga e performance em sistemas web. Além de uma análise estatística precisa, como mostra a figura 7. Outro fator importante para a escolha do JMeter é possuir um suporte de teste para sistemas JAVA que utilizam o framework Java Faces Bean, que para maior segurança da aplicação em cada seção, os objetos recebem pid (números identificadores) diferentes e com essa característica do framework, a maioria das ferramentas de performance acabam falhando por ser perder na hora de executar seus scripts como em alguns casos o WebLoad. Na atividade do processo de elaboração do projeto de teste, são utilizadas duas ferramentas de apoio. Para o controle de versão de documentação e código fonte é utilizado o CVS (Control Version Server) [3], um sistema de controle de versão que permite que se trabalhe com diversas versões de arquivos organizados em uma estrutura de diretórios, mantendo e guardando históricos de quem e quando manipulou os arquivos. O CVS contribui para a primeira fase processo de teste, desde o momento em que o analista de teste acessa o repositório para consultar os requisitos, até o momento em que o projeto de teste é colocado também no repositório. Quando o analista de teste começa sua atividade de entendimento dos requisitos especificados, os mesmos Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 101-118, dez. 2010 113 são acessados através de uma TAG, que contém mapeado os documentos participantes do produto e suas versões “congeladas”, independentemente destes documentos estar em evolução ou não. Figura 7 – Apresentação de resultados do teste de Stress no JMeter. Para apoio à fase de elaboração de projeto de teste e elaboração de relatório de teste nas quais são produzidos documentos de texto e planilhas foram levadas em consideração duas suítes de escritório: o BrOffice e o Microsoft Office. Optou-se por utilizar o BrOffice que consiste em uma suíte de ferramentas de escritório [2]. O BrOffice é uma suite de ferramentas derivada do projeto OpenOffice, sendo adaptada através de pacotes para a língua portuguesa praticada no Brasil. Além de atender às necessidades das atividades citadas acima e o BrOffice ser gratuito, a suíte é compatível com a suíte utilizada pelo cliente, o Microsoft Office. Para as atividades de execução do projeto de teste e elaboração do relatório de teste de software, além da suíte de escritório citada acima, estas fases contam com o apoio de outras ferramentas que dependem do tipo de sistema em desenvolvimento, no caso do cenário da fábrica de software retratado neste trabalho, o sistema é em plataforma web, onde são utilizados diferentes navegadores (Firefox, Internet Explorer, Google Chrome etc.) nas versões estabelecidas em contrato e sistemas operacionais distintos também estabelecidos em contrato. Na atividade de cadastrar não conformidades e elaboração de RTS é utilizada a ferramenta Mantis [6], que consiste de uma ferramenta web de bugtracking livre e open source. O Mantis possui como função o registro, atribuição e acompanhamento de não conformidades através de uma interface web como mostra a figura 8. O Mantis possui a vantagem de possuir seu workflow configurável através de uma máquina de estados definida, onde define fluxo em que o registro irá percorrer de acordo com sua categoria e estado. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 101-118, dez. 2010 114 Figura 8 – Lista de ocorrência de erro do Mantis. Além do Mantis colaborar com o processo de teste, também colabora com o processo de homologação, onde o cliente registra suas requisições (bugs, mudanças, sugestões de melhorias ou pendências) de feedback à fábrica de software. O Mantis corrobora, ainda, com a geração de métricas apresentadas ao final do ciclo do processo a fim de caracterizar a melhoria contínua das práticas, corrigir falhas e ainda medir o desempenho quantitativo/qualitativo da equipe responsável pelos testes. 6 RESULTADOS OBTIDOS Com a evolução e a institucionalização do processo descrito na seção 4, bem como a utilização das ferramentas descritas na seção 5, alguns resultados já foram verificados. Vale ressaltar que essas melhorias não se resumem tão somente ao aperfeiçoamento do processo de teste, e sim à aplicação do programa de melhoria ao processo organizacional da fábrica de software discutida na seção 2. Para a avaliação da melhoria foram coletadas métricas durante todo o processo de desenvolvimento de dois módulos de complexidade similar, as quais, do seu início até sua homologação pelo cliente passaram-se 2 meses cada um. As métricas foram coletadas ao término de cada fase (desenvolvimento, testes, levantamento de requisitos, homologação) pelo fato das mesmas já serem maduras e completas ao término das fases. Essas coletas eram feitas pelos coordenadores (líderes) de cada fase, em função de possuírem um monitoramento da execução das atividades de cada fase e tempo de realização das mesmas. Como instrumentos de coleta foram utilizados registros das ferramentas de bugtraking, monitoramento de andamento com base no cronograma de atividades, relatórios de execução de testes e relatórios de testes regressivos automatizados. As métricas analisadas pelos coordenadores eram repassadas aos gerentes, onde eram verificados os indicadores, e, dependendo de cada métrica, decisões eram tomadas a fim de prover melhorias ao processo de desenvolvimento e aos produtos resultantes da execução deste processo. Para a avaliação da qualidade do produto foram colhidos registros de defeitos na ferramenta de bugtracking tanto pela equipe do fornecedor quanto pelo cliente. Seguem abaixo os resultados: Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 101-118, dez. 2010 115 • Aumento da produtividade: Com a utilização de ferramentas em determinados momentos no processo obteve-se um ganho de tempo considerável na execução das atividades. O teste regressivo, por exemplo, foi uma das atividades que o ganho de produtividade foi mais acentuado, antes da adoção da ferramenta Selenium a equipe levava de 3 a 4 dias para realizar o teste regressivo funcional em todo o sistema, com a ferramenta essa atividade dura em média de 20 a 30 minutos; • Aumento da qualidade do produto: por conta da contratação de uma equipe mais qualificada para a área de teste de software e o aumento das atividades que compõem o fluxo de funcionamento dos testes, é provável que tenha contribuído para que o sistema tenha se tornando mais estável e consideravelmente com menos defeitos [2]. O aumento da qualidade do produto deu-se também pela institucionalização das áreas de garantia da qualidade e controle da qualidade, com isso, uma maior dedicação e expertise voltados para área de teste, porém, é facilmente perceptível que o aumento da qualidade não se resume somente a essas práticas e sim ao conjunto de melhorias providos ao processo; • Sistematização do processo: com a sistematização de parte do processo erros relacionados a desvio de processo ou perda de sincronia entre as equipes foi diminuído em media 40% (informação coletada pela equipe de garantia da qualidade) para alguns procedimentos e atividades. A atividade de registro de não conformidades, por exemplo, que possui seu workflow controlado pela ferramenta Mantis através de uma máquina de estados definida, onde dependendo de categoria o registro é atribuído ao responsável pela próxima tarefa relacionada a não conformidades; • Diminuição de descoberta de defeitos em homologação: com o aumento da abrangência dos testes em diferentes contextos (tipos de testes), tipos de defeitos que antes não eram detectados no período de teste e sim em homologação passaram a ser encontrados na fase correta (testes), por exemplo, conformidade com os requisitos, conformidade ao padrão de interface, análise de desempenho, entre outros. Hoje apenas 15% dos defeitos de desenvolvimento do projeto são descobertos pelo cliente em fase de homologação frente aos 28% medidos no processo inicial. As métricas de quantidade de defeitos encontrados foram calculadas através da coleta de número de defeitos não conhecidos encontrados em fase de homologação frente ao total de defeitos do módulo antes melhorias e pós-melhorias; • Ganho da qualidade do produto: Com a sistematização de algumas atividades do processo e ganho de produtividade, além de melhorias realizadas no processo, o produto apresentou uma melhora considerável na qualidade, apenas 15% dos defeitos conhecidos do sistemas (erros relatados em homologação pelo cliente e não relatado pela equipe de teste) são encontrados em fase de homologação frente aos 30% encontrados anteriormente nessa mesma fase. Essa métrica colhida foi obtida comparando dois módulos de mesma complexidade (contratos e propostas) onde foi pego o número de erros registrado pelo cliente e não registrado pela equipe de teste no módulo de propostas (antes das melhorias) e também o número de erros registrados pelo cliente e não registrados pela equipe de testes para o módulo de contratos (pós-melhorias); Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 101-118, dez. 2010 116 • Descobertas de defeitos prematuramente: em função de o teste de Software começar a acontecer juntamente com o início da codificação do produto, os defeitos acabam sendo relatados mais “cedo”, ou seja, antes mesmo de começar a execução dos testes de fato, e também, antes do cliente receber o sistema, de maneira a antecipar as correções destes defeitos tanto na especificação quanto na implementação dos requisitos. Isso se dá em função da maioria das inconsistências ser corrigidas ainda na iteração de desenvolvimento do próprio módulo funcional, de modo que não consuma o tempo alocado para o desenvolvimento de outros módulos tanto para o desenvolvedores, analistas de requisitos, analistas de testes e Projetistas. Com essas ações o time de desenvolvimento tem a oportunidade de corrigir ou adequar determinadas falhas ou mudanças ainda em tempo de implementação, o que leva também à diminuição de custos e uma quantidade menor de defeitos em fase de homologação; • Diminuição dos custos: a descoberta prematura de defeitos nos módulos funcionais faz com que os mesmos tornem-se menos custosos para a fábrica de software tanto no sentido financeiro quanto no sentido moral [3]. No sentido financeiro, pelo fato de os defeitos ser descobertos após a entrega do produto e os envolvidos na correção já estar alocados em outras tarefas, tendo que parar a realização destas para corrigir os defeitos encontrados, com isso, o tempo de desenvolvimento das novas tarefas era atrasado necessitando de mais esforço alocado para desenvolvê-las, ou seja, gerando mais custos. No sentido moral, pelo fato de um maior número de defeitos ser descobertos antes da entrega do produto para o cliente minimizando os registros de não conformidades na ferramenta de bugtracking. A análise de redução de custos é baseada na lei de 10 descrita por Myers [4]. Outro fato importante que contribuiu para a diminuição dos custos é que o SLA de descobertas de defeitos estabelecido entre fornecedor e cliente, conforme discutido na seção 2, é alcançado com uma redução média (dependendo da complexidade e tamanho do módulo) de 50% do tempo de homologação. Esta métrica foi coletada comparando o tempo de homologação entre dois módulos de mesmo nível de complexidade um antes da melhoria e outro depois; • Concepção e elaboração de um conjunto de ferramentas livres de apoio ao processo de teste de software: Com estudos, tunning e testes das ferramentas apresentadas, projetos e/ou fábricas com similaridades de processo, atividades e procedimentos podem também utilizar a suíte de ferramenta apresentada, ou tomar como referência para decisão de utilização; • Controle das atividades planejadas: a utilização de ferramentas em determinadas atividades, torna o controle de andamento e estimativa de tempo mais exatos, uma vez a ferramenta dando visibilidade de em que ponto, momento ou responsável está determinado procedimento. Esse sentimento foi elencado em entrevista com alguns coordenadores das equipes de teste e homologação. • Melhora da produtividade dos analistas de requisitos: com os Analistas de Requisitos dedicados apenas a sua função (definida no processo) e não mais despendendo tempo em testes, os mesmos aumentaram sua produtividade na elicitação e especificação de requisitos, dispondo de mais tempo para reuniões com cliente e equipe técnica de desenvolvimento para a especificação mais precisa dos requisitos. A informação de produtividade foi relatada pela gerência de requisitos quanto aos resultados alcançados; Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 101-118, dez. 2010 117 • Formação de uma equipe de testes: formou-se uma equipe qualificada e dedicada somente para a disciplina de testes. A equipe atualmente é formada por um líder de testes e quatro analistas de testes. O líder de testes é responsável basicamente por gerenciar recursos e demandas passadas à equipe, bem como definir juntamente com os analistas os tipos de testes a ser realizados nos módulos funcionais do projeto. Já os analistas de testes são responsáveis por gerar o documento projeto de teste, a execução dos testes e os registros de não conformidades; • Redução da quantidade de ciclo de testes: com alguns ciclos gerados no novo processo (pós-melhorias), foi percebido que, com a adoção das boas práticas discutidas na seção 4, o número de ciclo de testes, para o atendimento ao SLA (seção 2), foi diminuído. No caso dos módulos analisados, a diminuição foi de 5 ciclos para 3 ciclos, entendendo que para esses módulos cada ciclo corresponde a um esforço de 80 horas/homem de trabalho, ou seja, obteve uma redução total de 160 horas/homem, levando em consideração que a complexidade dos módulos e a experiência da equipe envolvida eram as mesmas. Com essa redução, o esforço da equipe de testes e o tempo que um módulo é liberado para homologação é menor que o antes verificado. Assim, a equipe pode dar vazão em outros módulos ao invés de realizar mais ciclos nos mesmos. Os pontos de melhorias citados foram os mais visíveis, porém as melhorias não se resumem a estas podendo ser percebidas em vários outros contextos como: arquitetura, usabilidade, padrão de interface etc. 7 CONCLUSÃO Com a melhoria nos processos e utilização de ferramentas associada à configuração, adequação e otimização das mesmas, percebeu-se um ganho de produtividade da equipe alocada para o projeto, aumento de qualidade do produto e principalmente aumento da satisfação do cliente. Porém, a evolução tem continuidade, a intenção é incorporar novas ferramentas que consigam trazer mais controle, produtividade, qualidade e menor custo associado ao produto. Algumas lições aprendidas podem ser destacadas. A primeira remete ao fato de sempre que puder optar por uma ferramenta livre é interessante que seja feito, desta maneira o investimento destinado a uma ferramenta proprietária pode ser convertido em outros tipos de investimento como, por exemplo, contratação de mão de obra, treinamentos etc. A segunda diz respeito ao fato de que ferramentas livres de código aberto possuem um vantagens de poder ser modificadas de acordo com as necessidades do projeto. A terceira retrata o fato de que para algumas tarefas como, por exemplo, teste regressivo, a utilização de ferramentas juntamente com mão de obra especializada geram resultados melhores (tempo, qualidade e custo) do que a utilização de apenas ferramentas ou de apenas de pessoas. Como trabalhos futuros, a ideia é realizar testes com outras ferramentas de maneira a otimizar atividades do processo que ainda não possuem apoio ferramental e fazer com que a suíte de ferramentas se comuniquem entre si de maneira sistematizada e não apenas manual. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 101-118, dez. 2010 118 Este artigo apresenta a utilização de uma suíte de ferramentas livres para utilização em um processo de teste de software, o qual se encontra em definição para compor os resultados dos estudos provenientes de uma dissertação de mestrado do PPGCC/UFPA – Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação, e o primeiro de vários em busca da avaliação MPS.BR por parte da organização cujo relato foi extraído. REFERÊNCIAS [1] ARAUJO, R; CAPELLI, C; GOMES JR, A G; PEREIRA, M; IENDRIKE, H. S; IELPO, D; TOVAR, J. A. A Definição de processos de software sob o ponto de vista da gestão de processos de negócio. 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Esse desafio reside no fato de que as faces humanas são muito similares dependendo das condições de iluminação e pose. Este trabalho propõe um sistema automático de reconhecimento de faces baseado no método das componentes principais (PCA - Principais Componentes Analysis) robusto a variações que ocorrem na iluminação e orientação da face. O sistema combina um método de segmentação baseado no espaço de cor HSV (Hue-Saturation-Value) para extrair a região da face e colocá-la no centro da nova imagem em um tom de cinza conhecido. O método apresentou um alto desempenho no reconhecimento quando as faces estão sujeitas a mudanças de iluminação e variações elevadas na sua orientação. Palavras-Chave: Reconhecimento de Faces. Detecção de Faces. Análise das Componentes Principais. Segmentação. Processamento de imagem. FACE RECOGNITION SYSTEM USING PRINCIPAL COMPONENTES METHOD ABSTRACT The issue of automatic recognition of human faces has received great attention recent years, not only because the technologic development, but also due to the growing commercial interest in the sector. However, this task stills a challenge for the pattern recogniti on area. This chal lenge resi des in the fact that the human faces are very similar under variation of illumination and poses with large rotation angles. This work presents an automated face-recognition system based on principal components analysis (PCA) to be robust the variations that can occur in face illumination, and orientation. The system combines color image segmentation based on HSV (Hue-Saturation-Value) * ** Universidade da Amazônia – UNAMA. Centro de Ciências Exatas e Tecnologia. e-mail: [email protected] Universidade da Amazônia – Unama. Centro de Ciências Exatas e Tecnologia. e-mail: [email protected] Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 119-129, dez. 2010 120 color space to extract the face region on the face. The algorithms put the faces at the centre of the new image with a known grey tone. The system showed the efficient performance in face recognition under variation of illumination and poses with large rotation angles. Keywords: Faces Recogni tion. Face Analysis. Segmentation. Image processing. Detecti on. Pri nci pal Component 1 INTRODUÇÃO A face possui um papel importante na comunicação entre os seres humanos. Através dela é possível não somente reconhecer quem é a pessoa, sua idade e a sua origem étnica, mas também o seu estado emocional. Todas estas características têm motivado a utilização da face em aplicações que envolvem segurança e geralmente associadas a outras formas de identificação biométrica, como o reconhecimento de voz e de impressões digitais. Além disso, em um futuro próximo, as máquinas poderão ser utilizadas para interagir com o ser humano, levando em consideração o seu estado emocional obtido através das expressões faciais (LI, 2005; HJELMÅS, 2001; YANG, 2002). A área de pesquisa em reconhecimento de faces pode ser dividida em duas principais categorias: as baseadas em análise global (KARLEKAR, 1999) e as baseadas em características (análise local) (WANG, 2006). Nos métodos que utilizam uma forma de análise global, a imagem completa é transformada em um vetor e em seguida usada como padrão de entrada para algum método de reconhecimento. Nos métodos baseados em características, partes da imagem (ou pontos de controle) são extraídas para ser utilizadas como informações nos métodos de reconhecimento. Em geral, independentemente da técnica utilizada, o processo de reconhecimento envolve quatro passos: detecção da face (localização), alinhamento (normalização), extração de características e classificação. Na detecção, o objetivo é verificar a existência de qualquer face ou elemento facial (boca, nariz etc.) na imagem, e caso exista, retornar a sua posição (MCKENNA, 1996; GARCIA, 1996). No alinhamento, as variações de luminância são minimizadas para reduzir sua influência na fase de reconhecimento da face (KOUZANI, 2005; LIN, 2005). Além disso, alguns métodos necessitam que as faces sejam centralizadas para manter uma coerência em relação ao banco de imagens, pois não são robustos a translação, como o que ocorre com os métodos estatísticos. Na extração de características são eliminadas as redundâncias nos dadosde tal forma que sejam preservadas somente as informações que são mais relevantes para a classificação. Através da extração de características é possível associar, de forma unívoca, cada face a um conjunto de informações que estão associadas a ela (WANG, 2006). O último passo do processo de reconhecimento é selecionar a face, do banco de imagens, que melhor se aproxima de uma imagem de teste (problema de reconhecimento de faces) ou comparar com padrõesde expressões faciais (problema de reconhecimento de expressõesfaciais) ou rastrear uma determinada face em um ambiente com várias faces (GÓES, 2006). Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 119-129, dez. 2010 121 O sistema proposto é um método de analise global baseado nas componentes principais (PCA – Principal Components Analysis). O primeiro trabalho que utilizou a técnica PCA para reconhecimento de faces foi proposto por Turk e Pentland (TURK, 1991a). Este método é hoje uma das técnicas mais utilizadas para reconhecimento de faces, também conhecido como “método baseado nas autofaces” (Eigenfaces method). Nesta técnica, cada imagem é convertida em um vetor e o conjunto de todos os vetoresimagens forma uma matriz (os vetores-imagem são organizados em linhas ou colunas). Em seguida é calculada a matriz de covariância das imagens, na qual são extraídas somente as componentes principais associadas aos maiores autovalores (maiores variâncias). As demais são descartadas devido influenciarem pouco no processo de classificação. As imagens projetadas nas componentes principais, denominadas de autofaces, são em seguida armazenadas em um banco de imagens. Para recuperar um padrão a partir de uma imagem de teste, esta imagem é projetada neste espaço e em seguida é utilizada uma métrica (ex: distância euclidiana, distância de Mahalanobis etc.) para determinar a menor distância entre esse padrão e os do banco de imagens. No sistema proposto, as faces foram obtidas de um banco de imagens fornecido pelo Audio Visual Technologies Group (GTAV) (TARRÉS, 2010). As imagens desse banco são todas coloridas com resolução 240x320 e criadas no formato bitmap. O banco possui um total de 44 pessoas com 27 imagens por pessoa em diferentes poses, ângulos de visão e iluminação. As imagens de cada indivíduo é pré-processada para reduzir os efeitos da iluminação e centralizadas para minimizar o erro devido ao posicionamento em relação à câmera. Em seguida o método das componentes principais é aplicado em parte do banco (padrão de treinamento) para geração das autofaces (eigenfaces). As imagens selecionadas para teste são projetadas no autoespaço (eigenspace) e comparadas com as do banco para determinar a menor distância entre elas. O trabalho foi organizado da seguinte forma: na seção 2 é apresentado o algoritmo de reconhecimento de faces baseado no método das componentes principais. Na seção 3 é descrito método de segmentação baseado no espaço de cores HSV. A seção 4 descreve o sistema proposto e na seção seguinte são apresentados os resultados experimentais do sistema com o banco de imagens da GTAV. A última seção é utilizada para traçar algumas conclusões em relação à capacidade do sistema a partir dos resultados obtidos na seção anterior. 2 MÉTODO DAS COMPONENTES PRINCIPAIS NO RECONHECIMENTO DE FACES Considere uma imagem , representada na escala de cinza, de dimensão N N , onde cada elemento corresponde à intensidade de um pixel da imagem. Para aplicação do método, cada uma das matrizes imagens é transformada em um vetor coluna de dimensão N 2 1 , representada por U i onde i 1,, n e n é o número de imagens de treinamento (TURK, 1991b; PHIASAI, 2001). Deseja-se representar cada imagem em um espaço de dimensão reduzida, da forma: U i w11 w2 2 wk k Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 119-129, dez. 2010 122 onde k N 2 e i 1, , n . Para reduzir o ruído, calcula-se o vetor média das imagens, da forma: 1 n U i n j 1 Subtraindo cada imagem da média, obtém-se: i U i Observe que cada linha da matriz formada pelos vetores coluna i corresponde aos elementos da imagem de uma posição em particular e as colunas as imagens de treinamento. A covariância da matriz de vetores de imagem é calculada da forma: 1 n C j T j T n j 1 Os autovetores da matriz de covariância com maiores autovalores capturam a maior variação entre os vetores de treinamento i e os de menores autovalores capturam as menores variações. A dimensão do espaço de entrada pode ser reduzida, criando-se um subespaço linear formado pelos autovetores com os maiores autovalores definida como componentes principais. Portanto, para a determinação das componentes principais é necessário calcular os autovalores e autovetores da matriz T . Entretanto, a dimensão da matriz T é N 2 N 2 o que aumenta significativamente o tempo de cálculo dos autovalores, pois existem N 2 autovalores. Uma solução alternativa é calcular os autovalores da matriz T cuja dimensão é , que é muito menor que e possui autovalores. Os autovalores da matriz correspondem aos maiores autovalores da matriz como mostrada em Turk, 1991(a) e Turk, 1991(b). Considere que k autovetores normalizados ( i 1 ), denotado por 1 , 2 ,, k , sejam selecionados correspondendo aos maiores autovalores, denominados de autofaces. Cada imagem de face do conjunto de treinamento pode agora ser representada nesta base, da forma: i w1i 1 w2 i 2 wki k U i T onde w ji i i para i 1, , n e j 1, , k , corresponde a representação do vetor imagem i na base 1 , 2 ,, k . O reconhecimento de uma determinada face de um conjunto de teste, denotada pelo vetor x , pode ser realizado calculando-se a representação deste vetor (subtraído da média ), na base 1 , 2 , , k . Portanto, Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 119-129, dez. 2010 123 onde 1 , 2 , , k são os coeficientes desta representação. A face que melhor aproxima é obtida calculando-se a distância da representação do vetor x para cada uma das representações das faces do conjunto de treinamento. Portanto, k d i j w ji 2 2 j 1 onde k é o número de componentes principais e i é o número de imagens de treinamento. Uma outra métrica utilizada é a distância de Mahalanobis, dada por: 2 k 1 j w ji 2 j 1 j di onde j são os autovalores associados a cada um dos autovetores (autofaces). 3 ESPAÇO DE CORES HSV Uma forma de detecção de faces é através da cor da pele devido à simplicidade no processamento e a sua robustez em relação às mudanças na geometria dos padrões de face (CAETANO, 2001; HSU, 2002; SANDEEP, 2002). Além disso, a cor da pele, mesmo considerando as diferenças raciais, apresenta representações similares em um determinado padrão de cor e dependendo da escolha do padrão, o desempenho do algoritmo de detecção pode ser afetado significativamente (KARLEKAR, 2000). Existem vários métodos de especificação, criação e visualização de cores. Uma cor é geralmente especificada utilizando-se três coordenadas ou parâmetros que formam um determinado espaço de cores. Existem vários espaços de cores padrões, e a escolha por um deles depende de cada aplicação. Neste trabalho, foi utilizado o padrão de cor HSV (Hue, Saturation, Value) para detecção e centralização das faces. Este padrão baseia-se no matiz-saturação que o torna simples para especificar as propriedades das cores numericamente. Além disso, este padrão é invariante a mudanças de intensidade e orientação da fonte de luz. A conversão de uma imagem no padrão RGB (Red, Green, Blue) para o padrão HSV é calculada da forma: H arccos 1 R G R B 2 R G 2 R B G B min R, G , B S 1 3 R G B 1 V R G B 3 onde R, G e B são cada uma das componentes do sistema RGB. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 119-129, dez. 2010 124 4 DESCRIÇÃO DO SISTEMA Um exemplo das imagens utilizadas para testar o sistema é mostrado na figura 1, observe que as faces são apresentadas em ângulos de 0º, ±30º,±45º, ±60º e 90º em relação à câmera sobre um fundo sujeito a efeitos de sombra. Além disso, a face também pode estar deslocada na horizontal em relação ao centro da imagem, sofrer pequenas variações de escala (distância em relação à câmera) e também de iluminação. Figura 1 – Imagem em diferentes ângulos, iluminação e sombra. O primeiro passo no processo de reconhecimento pelo sistema proposto é segmentar a face utilizando o formato HSV. Decompondo os planos de cores da imagem nas suas componentes H, S e V, e considerando somente a componente S, como mostrado no exemplo da figura 2, é possível facilmente extrair a face do fundo da imagem. Figura 2 – Componente S do padrão HSV. Após a extração da face, uma nova imagem é criada em tons de cinza. Esta imagem é centralizada com o fundo assumindo sempre o nível mínimo de intensidade na escala de cinza (preto absoluto). A figura 3 mostra a imagem já processada. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 119-129, dez. 2010 125 Figura 3 – Imagem centralizada em tons de cinza. As imagens processadas são utilizadas como padrão de teste para a aplicação do algoritmo baseado na análise das componentes principais. Observe que o fundo de todas as imagens é representado com um mesmo valor de intensidade (zero na escala de cinza), fazendo com que a face seja a informação mais importante para classificação. Na fase de reconhecimento de um padrão, uma imagem selecionada no banco de imagens de teste é pré-processada (como mostrada anteriormente) e comparada com as imagens de treinamento. A imagem que resultar em menor erro será a candidata a face selecionada. 5 RESULTADOS EXPERIMENTAIS O sistema proposto foi avaliado utilizando o conjunto de imagens de treinamento da Audio Visual Technologies Group (TARRÉS, 2010) e autorizado para fins de pesquisa acadêmica. Este banco foi criado com o propósito de testar a robustez de algoritmos de reconhecimento de faces quando sujeito a mudanças na sua posição angular e condições de iluminação. O banco de dados possui um total de 44 pessoas com 27 imagens por pessoa, com variações no ângulo da face em relação à câmera e sujeitas a três tipos de iluminação (luz natural, luz intensa em 45º e luz com intensidade média em um ângulo quase frontal). A resolução das imagens é de 240x320 e estão no formato bitmap. Para atender aos objetivos do experimento, foram utilizados para treinamento e teste somente as imagens do banco que não apresentavam algum tipo de oclusão (face parcialmente coberta). A figura 4 mostra um exemplo de faces em posição frontal (0º em relação à câmera) pertencentes a este banco e sujeitas a variação na iluminação. A figura 5 mostra outro conjunto de imagens, também pertencentes a este banco, en- Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 119-129, dez. 2010 126 tretanto posicionadas em um ângulo de 90º em relação à câmera. Uma parte das imagens do banco foi escolhida para treinamento, isto é, para determinação das componentes principais e outra parte utilizada para teste. Figura 4 – Amostra de 10 indivíduos pertencentes ao banco de treinamento e teste com variação de iluminação. Figura 5 – Amostra de 10 indivíduos pertencentes ao banco de treinamento e teste com variação de posição em relação ao centro e iluminação. Os experimentos foram realizados para investigar os seguintes aspectos: a robustez do sistema em relação ao número de componentes principais, a robustez em relação à posição da face na imagem e às variações de iluminação. Como é conhecido da teoria, método das componentes principais (MCP) é pouco robusto em relação à translação dos padrões. Quando o sistema foi aplicado com imagens sem qualquer tratamento prévio, resultou em um percentual de acerto próximo de 64%. Para obter uma alta taxa de acerto, as imagens do banco foram convertidas para o padrão HSV, segmentadas e transladadas para o centro, como mostrada na seção 4. Como a imagem do fundo não tem importância no processo de reconhecimento, foi substituída por uma tonalidade de cinza com valor conhecido. O próprio método das componentes principais irá descartar as informações do fundo após a execução. Com este pré-processamento, obteve-se um percentual de 94,94%. As imagens que resultaram em insucesso são mostradas na figura 6. Observe que as duas primeiras colunas resultaram em acerto, se for considerado que a imagem recuperada corresponde à pessoa selecionada. Tendo em vista este aspecto, a taxa de acerto aumenta para 96,97%. Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 119-129, dez. 2010 127 Figura 6 – A primeira linha corresponde aos padrões selecionados e os da segunda os reconhecidos pelo sistema. Foi investigado também o número mínimo de componentes principais no qual a taxa de acerto alcança o máximo. A tabela 1 mostra o percentual de acerto obtido quando o número de componentes principais varia. Observe que o número de componentes não tem influência após uma determinada quantidade. No caso do experimento, esta taxa ficou invariante acima de aproximadamente 40 componentes. Tabela 1 – Efeito do número de componentes na taxa de acerto. Fonte: Resultado da Pesquisa Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 119-129, dez. 2010 128 6 CONCLUSÃO Neste artigo, foi desenvolvido um sistema baseado no método das componentes principais capaz de reconhecer faces sujeitas a variações de ângulo e de iluminação. As imagens no padrão HSV foram centralizadas e o tom de cinza do fundo da cena alterado de tal forma que apresentasse uma alta correlação entre eles (o fundo da imagem). Com esta estratégia observou-se que o percentual de acerto foi da ordem de 95%. Porém, se for considerado que alguns padrões, embora contabilizados como insucesso na classificação, correspondem às mesmas pessoas (em outros ângulos em relação à câmera) a taxa de acerto sobe para 97%. Foi também investigado o efeito do número de componentes principais na taxa de acerto. Observou-se que, para o banco de imagens utilizado, um valor acima de 40 componentes não resulta em melhoria na taxa de acerto, permitindo uma redução significativa do espaço de entrada. 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IEEE Transactions on Pattern Analysis and Machine Intelligence, Ithaca, v. 24, n. 1 Traços, Belém, v.12, n. 26, p. 119-129, dez. 2010 130 Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 85-103, jun. 2010 131 COMPLEXIDADE E MODELAGEM MATEMÁTICA NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM Lênio Fernandes Levy* Adílson Oliveira do Espírito Santo** RESUMO O presente texto diz respeito a uma investigação em nível teórico que acenou com a possibilidade de conjugarem-se intencionalmente, no processo de ensino-aprendizagem, a modelagem matemática e a concepção epistemológica acerca da complexidade. A concepção de complexidade que norteou este trabalho baseou-se no corpo de idéias do filósofo, historiador, antropólogo e sociólogo francês Edgar Morin. Por sua vez, quanto à modelagem, à modelagem matemática e à modelagem matemática no processo de ensino-aprendizagem, levaram-se em consideração várias idéias dos autores brasileiros Rodney Carlos Bassanezi, Maria Salett Biembengut e Nelson Hein. Palavras-chave: Modelagem matemática. Complexidade. Ensino-aprendizagem. COMPLEXITY AND MATHEMATICAL MODELING IN THE TEACHING-LEARNING PROCESS ABSTRACT The present text tells respect the an investigation in theoretical level that it waived with the possibility of conjugate it, intentionally, in the teaching-learning process, the mathematical modeling and the epistemological conception concerning the complexity. The complexity conception that orientated this work based on the body of the philosopher’s ideas, historian, anthropologist and French sociologist Edgar Morin. For it time, as for the modeling, the mathematical modeling and to the mathematical modeling in the teaching-learning process, it were taken into the Brazilian authors’ account several ideas Rodney Carlos Bassanezi, Maria Salett Biembengut and Nelson Hein. keyword: Mathematical modeling. Complexity. Teaching-learning. * ** Professor Mestre da Universidade Federal do Pará - UFPA - [email protected] Professor Doutor da Universidade Federal do Pará - UFPA - [email protected] Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 131-148, jun. 2010 132 MORIN E A COMPLEXIDADE O paradigma moderno ganhou corpo a partir do afã de reação à influência religiosa sobre a produção científica. A Igreja, de um lado, fazia imposições: “Não vá pesquisar nessa direção, pois isso já está escrito em Aristóteles e a teologia integrou Aristóteles. Nós já temos a visão do mundo” (MORIN, 2001a, p.27). De outro lado, a concepção moderna, emergente naquela época, amparava-se na justificativa de que citada interferência estaria atravancando a expansão intelectual do homem, afastando-o da objetividade. Embora as práticas cognitivas marcadas pela tentativa de separação e de ordenação com vistas à melhor compreensão dos problemas e dos fenômenos tenham sido concebidas em épocas mais remotas, é certo afirmar que, a partir da chamada Idade Moderna, cujo início coincidiu com o renascimento da cultura greco-romana, houve pungente valorização da postura fragmentadora e determinista, da qual René Descartes foi um dos baluartes. Os progressos advindos do racionalismo cartesiano mostraram-se imediatos e vastos, abonando-o como corrente filosófica. Cabe frisar, contudo, que o estudo de qualquer evento implica a geração de influências ou interferências, sejam elas do sujeito ou observador sobre o objeto, sejam elas do somatório dos contextos presentes, o que inclui o objeto em foco, sobre o estudioso ou cientista, de tal sorte que não se pode conceber separação, nos termos propostos por Descartes, entre ego cogitans e res extensa. Toda tentativa de redução ou fragmentação da complexidade da natureza, malgrado os relativos progressos científicos que isso possa suscitar, não diz respeito à proximidade de uma visão aceitável dos objetos estudados. A análise laboriosa das partes é fundamental, mas corresponde ao trato de apenas um dos aspectos da realidade, sendo também necessária a consciência de que há vínculos entre os diversos elementos que se integram ao todo. Conforme assevera Morin, “É preciso juntar as partes ao todo, e o todo às partes” (2002a, p.13). Com o escopo de ratificar essa idéia, Silva lembra que: Edgar Morin gosta de citar uma passagem de Pascal: “Sendo todas as coisas causadas e causantes, auxiliadas e auxiliantes, mediatas e imediatas, e mantendo-se todas elas por meio de um vínculo natural e insensível, que une as mais afastadas e as mais diferentes, julgo impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, assim como conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes”. Essa reflexão densa serve-lhe de base para a fundamentação da epistemologia da complexidade. Exposições e entrevistas mais longas levam-no quase sempre a recorrer a essa chave de seu pensamento (SILVA, 2002, p.93). A ênfase desmedida da distinção sem união, particularmente no que tange à tentativa de separação entre sujeito e objeto do conhecimento, em detrimento à procura de uma visão de união e de totalidade, acarretou nos últimos séculos uma consciência empobrecida acerca da natureza. Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 131-148, jun. 2010 133 O diálogo das singularidades que compõem uma totalidade, a exemplo daquele entre sujeito e objeto, é recorrente no ideário moriniano, equivalendo à díade distinção-união. A complexidade da natureza é expressa em termos das múltiplas relações entre os elementos que a constituem, assim como das conexões entre esses elementos e o/um todo, fato que denota uma infinidade de desdobramentos possíveis, justificando-se o acréscimo do fator incerteza ao binômio distinção-união. Morin & Kern referindo-se à conjuntura de nosso planeta, o que é extensivo ao universo como um todo, haja vista o princípio complexo hologramático1, afirmam que: A realidade mundial é justamente inapreensível; ela comporta enormes incertezas devidas à sua complexidade, às suas flutuações, a seus dinamismos mesclados e antagônicos, às suas bifurcações inesperadas, às suas possibilidades que parecem impossíveis e às suas impossibilidades que parecem possíveis. A inapreensibilidade da realidade global retroage sobre as partes singulares, uma vez que o devir das partes depende do devir do todo (MORIN & KERN, 2002, p.133-4). Além do mais, qualquer tentativa de hierarquização é improcedente. Edgar Morin apregoa a valorização, na mesma medida, dos diversos elementos pertencentes a um conjunto, destacando, além do mais, haver vínculos entre todas as singularidades, sendo artificial, por exemplo, a já mencionada crença na separação entre sujeito e objeto do conhecimento, o que também é defendido por Betto: Se um elétron se apresenta ora como onda, ora como partícula, energia e matéria, Yin e Yang, isso significa que cessa o reino da objetividade. Há uma inter-relação entre o observador e o observado. Desmorona-se, assim, o dogma da imaculada neutralidade científica. A natu reza responde às questões q ue leva ntamos. A con sciência do observador influi na definição e, até mesmo, na existência do objeto observado. Entre os dois, reina um único e mesmo sistema. Olho o olho que me olha. [...] Há uma íntima e indestrutível conexão entre tudo o que existe, das estrelas ao sorvete saboreado por uma criança, dos neurônios de nosso cérebro aos neutrinos no interior do sol (BETTO, 2002, p.45-46). A tríade distinção–união–incerteza é inerente ao chamado tetragrama complexo, traduzido por ordem–desordem–interação–organização. A existência concomitante de ordem e desordem é condição sine qua non para qualquer espécie de criação. Nada aconteceria, não haveria transformações, somente imutabilidade, caso apenas a ordem imperasse. Da mesma forma, se unicamente a desordem se manifestasse, o próprio universo careceria de condições favoráveis para se desenvolver. Assim sendo, o diálogo incessante entre ordem e desordem propicia a estruturação dos incontáveis elementos e subconjuntos organizacionais que compõem a natureza. Lima assevera que: 1 O todo está nas partes e as partes estão no todo (MORIN, 2002a). Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 131-148, jun. 2010 134 [...] A ordem e a desordem não subsistem sozinhas, interagem entre si. A desordem está sempre presente, como elemento perturbador, na ordem. Por sua vez, a ordem pressupõe um certo grau de desorganização. Portanto, uma visão mais complexa de ordem implica uma interação com a desordem, e qualquer desordem supõe um grau de organização. Esses quatro elementos: ordem, desordem, interação e organização possibilitam uma compreensão mais complexa das várias realidades do Universo (LIMA, 2002, p.52). Prigogine (1996), no que tange à questão do indeterminismo, afirma com alegria que, diante dos sistemas dinâmicos mais realistas, o “demônio de Laplace” permanece incapaz, seja qual for o seu conhecimento, finito ou até infinito, e que o futuro não é mais dado, tornando-se, como havia dito o poeta Paul Valéry, uma construção. [...] E eis que mostramos que há dinâmicas das probabilidades! Que o futuro, como nas estruturas dissipativas, não está determinado! E a ra zão, no fundo, desse “ indeterminis mo”, é que ess es sistemas nos quais esses fenômenos aparecem não se explicam com base nas partículas individuais, mas nos co njuntos; a física deve integrar as estruturas de conjuntos; como, igualmente, não se pode fazer sociologia com base em um único indivíduo (PRIGOGINE, 2002, p. 37-38). Tanto o acaso puro, repudiado por Einstein, que disse em certa ocasião que Deus não joga dados (PRIGOGINE, 1996), quanto o determinismo significam negação da realidade. Weber, em tom esclarecedor relativamente ao uso da expressão “aleatório” dos textos de Prigogine, assevera que: Prigogine utiliza esse termo de maneira diferente da de outros cientistas [...]. Para Jacques Monod (Chance and necessity), por exemplo, o conceito de aleatório supõe um mundo governado pela casualidade cega, que aponta para um u niverso ca rente de s entido em termos humanos, próximo ao mundo “absurdo” dos filósofos existencialistas, em que Monod apóia seus argumentos. Mas, para Prigogine, aleatório é sinônimo de não-determinado, espontâneo, novo: numa palavra, criativo (WEBER, 1997, p.225). Segundo o próprio Prigogine (1996), deve-se construir, no que tange ao determinismo das leis naturais e ao acaso, os quais levam igualmente à alienação, um caminho estreito entre ambos. Ainda no que diz respeito à questão do indeterminismo prigoginiano, de acordo com Morin: Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 131-148, jun. 2010 135 [...] Na termodinâmica, Prigogine detectou fenômenos de bifurcação no mundo físico. Num dado momento, encontram-se em jogo fatores de influências mútuas, sendo sufic iente um fator infinitesimal para que um processo caminhe por um caminho do que pelo outro (MORI N, 2002b, p.94). Entendemos, outrossim, ser conveniente divulgar um depoimento poético de Prigogine acerca da maravilha da complexidade: O universo parece ter algum parentesco com as Mil e Uma Noites, no qual Shehra zade na rra estórias encrava das uma s nas o utras; há a cosmologia, a história da natureza encravada na cosmologia, a vida na matéria, as sociedades humanas como parte da história da vida (PRI GOGINE, 2001, p.34). Os que prezam a criatividade, enfim, agradecem! O ideário filosófico complexo de Edgar Morin prega a distinção, a individualização. Busca, ao mesmo tempo, a sensibilização quanto à união, quanto à relação entre partes distintas do (ou de um) todo. Admite, também, a incerteza, a criatividade. Distinção, união e incerteza/criatividade são, portanto, palavras essenciais na teoria complexa moriniana. Conforme Petraglia: [...] Os limites e as insuficiências de um pensamento simplif icador não exprimem as idéias de unidade e diversidade presentes no todo. A estrutura do pensamento Moriniano é pautada numa epistemologia da complexidade que compreende quantidades de unidades, interações diversas e adversas, incertezas, indeterminações e fenômenos aleatórios (PETRAGLIA, 2002, p.39-40). O princípio da simplificação corresponde a separar e a reduzir. O princípio da complexidade preconiza reunir e ao mesmo tempo distinguir. O pensamento que separa tem que ser complementado pelo pensamento que une. Morin propõe, conforme já frisamos, o tetragrama ordem–desordem–interações–organização, que se identifica com a tríade distinção–união–incerteza. Petraglia explica-nos que: [...] Entretanto, não basta a comunicação dos termos ordem e desordem, é preciso que tenhamos clareza da necessidade de sua aproximação a outras idéias como interação e organização, num tetragrama, a fim de não perdermos de vista a complexidade do mundo e sua perspectiva multidimensional (PETRAGLI A, 2002, p.56). Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 131-148, jun. 2010 136 A ação do tetragrama é bem evidenciada pelo próprio Morin quando assegura que a vida é um exemplo de ordem que tem necessidade de se auto-produzir através da organização, tolerando ou mesmo colaborando com a desordem (MORIN, 2001b). O pensamento complexo é condizente com a chamada teoria dos sistemas, segundo a qual o todo é, ao mesmo tempo, maior e menor do que a soma das partes. A tapeçaria, por exemplo, transmite ou significa algo mais do que a simples soma de seus fios. Porém, concomitantemente, cada fio tem algumas de suas qualidades inibidas quando é unido aos demais para compô-la (PETRAGLIA, 2002). Além disso, a complexidade preza o princípio dialógico, ou seja, admite a união ou compatibilização de noções antagônicas, que aparentemente deveriam repelir uma à outra (MORIN, 2002a), a exemplo das partículas físicas, que são, ao mesmo tempo, corpúsculos e ondas, constituindose em uma contradição não-absurda. Há também o princípio da recursão, denotativo da idéia de circularidade entre causa e efeito, e que é bem ilustrado pelo seguinte fato: Os indivíduos humanos produzem a sociedade, e a sociedade, por sua vez, produz a humanidade dos indivíduos. Destacamos, por fim, o princípio hologramático, já mencionado em linhas anteriores, o qual corresponde à ideia de que o todo está nas partes e as partes estão no todo. O indivíduo, a propósito, é uma parte da sociedade, mas a sociedade também está presente em cada indivíduo por intermédio de sua linguagem, de sua cultura, de suas normas etc. (MORIN, 2002a). O objetivo da complexidade é, ao mesmo tempo, unir e enfrentar o desafio da incerteza. O pensamento complexo, embora oposto ao pensamento simplificador, não o exclui. A complexidade busca suprir as insuficiências da modernidade. O aumento contínuo do conhecimento humano exige que a especialização seja complementada pela construção de relações entre os elementos desse conjunto, entre os constituintes desse todo que, por sua vez, deixa-nos, se vislumbrado, menos distantes da realidade da natureza. Legislar, disjuntar, reduzir – esses são os princípios fundamentais do pensamento clássico. Não se trata absolutamente, do meu ponto de vista, de decretar que esses princípios sejam doravante abolidos. Mas as práticas clássicas do conhecimento são insuficientes. No momento em que a ciência de inspiração cartesiana ia muito logicamente do complexo ao simples, o pensamento científico contemporâneo tenta ler a complexidade do real sob a aparência simples dos fenômenos. De fato, não existe fenômeno simples (MORIN, 2001b, p.45). Do ponto de vista moriniano, o pensamento baseado na transdisciplinaridade conduz a um entendimento menos distante da complexidade dos objetos estudados, ou seja, a geração de elos entre os conhecimentos, bem como de liames entre eles e a/ uma totalidade cognitiva, insere o homem na esteira do que ocorre à sua volta. Os conhecimentos imbuídos de transdisciplinaridade dizem respeito a um vislumbre menos opaco do que se processa no mundo. No âmbito educacional, torna-se imperioso elaborarem-se tais relações. Entendemos, contudo, que a construção de vínculos entre os campos de conhecimento Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 131-148, jun. 2010 137 não acarreta necessariamente o desaparecimento das disciplinas correspondentes, o que é corroborado pela ideia complexa de união com preservação das distinções, pela ideia de coexistência do todo e das partes. Nesse sentido, ressaltamos os seguintes dizeres de Morin: Precisamos, portanto, para promover uma nova transdisciplinaridade, de um paradigma que, decerto, permite distinguir, separar, opor e, p ortanto, dividir relativamente esses do mínios científicos, mas que possa fazê-los se comunicarem sem operar a redução. O paradigma que d enomino simplificação (redução/s eparação) é insu ficiente e mutilante. É preciso um paradigma de complexidade, que, ao mesmo tempo, separe e associe, que conceba os níveis de emergência da realidade sem os reduzir às u nidades elementares e às leis gerais (MORIN, 2001c, p.138). Trata-se, então, de serem admitidas as singularidades e as suas respectivas conexões, o que entendemos ser compatível, na seara pedagógica, por exemplo, com o ministério de aulas por duplas de professores formados em disciplinas diferentes, ocupantes, tais profissionais, para tanto, do mesmo espaço-tempo pedagógico, agindo, em conjunto com o corpo discente, como desencadeadores de processos que levem à criação de laços entre seus respectivos campos de estudo e que conduzam também à tentativa de elaboração de uma consciência global. O diálogo entre docentes que detêm informações diferenciadas não acarreta necessariamente o desaparecimento das especificidades inerentes às suas áreas, propiciando, com efeito, vários elos recíprocos, constituindo-se em processo conciliador de distinção e união. Vale, por oportuno, ressaltar o ponto de vista de Almeida: Ess e mo vimento de d esco nstr ução, do que foi historic amen te f irmad o como verda deira s cartas de habilitação por áreas temáticas do conhecimento, tem aqui o objetivo de enfraquecer as resistências dis ciplina res que se instala m no s tênues limites entr e as ciências. Não decorre, daí, nenhuma palavra de ordem de “fim às disciplinas”, mas decorre, sim, o alerta de que a disciplinaridade fechada red uz e simplifica a complexidade inerente a q ualquer temática (ALMEIDA, 2002, p.37). As ações pedagógicas a cargo de Duplas Heterogêneas de Professores (DHP)2 conjugam-se, assim entendemos, com os princípios morinianos porque visam, nos termos em que as propomos, à transcendência ou ultrapassagem do isolamento disciplinar sem, todavia, objetivar necessariamente à eliminação das disciplinas. Possibilitam a comunhão entre inúmeros conhecimentos que compõem a nossa cultura, distanciando-nos menos, por conseguinte, do vislumbre da complexidade da natureza. 2 Vide Levy (2003). Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 131-148, jun. 2010 138 Enfim, segundo Morin: Não se trata de abandonar o conhecimento das partes pelo conhecimento das totalidades, nem da análise pela síntese; é preciso conjugá-las. Existem desafios da complexidade com os quais os desenvolvimentos próprios de nossa era planetária nos confrontam inelutavelmente (MORIN, 2002c, p.46). A teoria filosófica da complexidade e o ensino-aprendizagem de ciências e matemática via modelagem matemática: atravessando-se paradigmas O método de pesquisa experimental, alicerce do empirismo modernista, quando acrescido da concepção de criatividade inerente à indeterminação, bem como da visão de interação entre sujeito e objeto, entre sujeito e conhecimento, entre objeto e conhecimento, entre sujeitos distintos, entre objetos distintos e entre conhecimentos distintos, pode gerar resultados identificados com os pensamentos basilares da epistemologia da complexidade, que ora emerge em oposição e em complemento ao paradigma moderno e que é fundada na tríade moriniana distinção-união-incerteza/criatividade. Tal acréscimo é extensível ao âmbito do ensino e da aprendizagem de ciências e matemática via modelagem matemática na medida em que a modelagem mantém laços com a investigação experimental. Na perspectiva da complexidade, Morin, Ciurana & Motta declaram que: É verdade qu e os seg mentos de estra tégias bem-sucedidos no desenvolvimento de um método podem ser arquivado s e codificados como segmentos programados para o futuro se as mesmas condições se mantiverem constantes. O método é uma estratégia do sujeito que também se apóia em segmentos programados que são revistos em função da dialógica entre essas estratégias e o próprio caminhar. O método é simulta neamente programa e estratégia e, por retroação de seus resultados, pode modificar o programa; portanto o método aprende (MORIN; CIURANA & MOTTA, 2003, p.28). O paradigma da simplificação, também chamado de paradigma moderno, é fundamentado no pensamento ao mesmo tempo fragmentador, que distingue e isola, e determinista, que apregoa a possibilidade do alcance cabal de todos os pormenores fenomênicos da natureza. Essa concepção prevalece no mundo, em particular nas sociedades ocidentais, desde o século XVII, quando Francis Bacon e René Descartes revigoraram as duas grandes (e antagônicas, embora concordantes quanto aos aspectos da fragmentação e do determinismo) correntes epistemológicas clássicas: de um lado, a empirista, segundo a qual a cognição tem ou teria por princípio a apreensão do mundo pelo homem através dos sentidos físicos, sendo todo o conhecimento humano, conforme tal ponto de vista, derivado direta ou indiretamente dessa sensibilidade ou percepção experimental (JAPIASSÚ & MARCONDES, 1996); de outro lado, a racionalista, defensora do “alcance das verdades” via exercício racional, mediante utilização, segundo Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 131-148, jun. 2010 139 Descartes, do “bom senso”, elemento que seria imanente a todos os homens. De acordo com Japiassú & Marcondes, o racionalismo: [...] Privilegia a razão dentre todas as faculdades humanas, considerando-a como fundamento de todo conhecimento possível. O racionalismo co nsidera que o real é em última a nálise racion al e q ue a razã o é por tanto c apaz de conhec er o r eal e d e chega r à ver dade sobre a natureza das coisas (JAPI ASSÚ & MARCONDES, 1996, p. 229). O paradigma da modernidade assevera que a ciência, denotativa de rigor, de precisão e de observância a um método inflexível, tem primazia sobre as demais formas de expressão cultural, entre as quais a arte, a filosofia e a religião. Em nome da supremacia dessa ciência, nascida na península balcânica há cerca de dois mil e quinhentos anos – e que teve o seu fôlego renovado após a era medieval –, os saberes e os fazeres de diversos povos3, de grupos humanos que interagiam e interagem com ambientes ou contextos culturais vários e peculiares, foram e têm sido rebaixados, calados ou mesmo aniquilados. O caráter fragmentador da ciência moderna, herança sobremaneira cartesiana, preceitua a separação entre: sujeito e objeto; sujeito e conhecimento; objeto e conhecimento; sujeitos distintos; objetos distintos; conhecimentos distintos. O determinismo das leis naturais, ou melhor, a crença nesse determinismo, denotando um universo supostamente ordenado, regular, reversível, previsível e, portanto, não-criativo e inibidor da liberdade humana, também é idéia central no que tange à modernidade. Edgar Morin assevera que: Até meados do século XX, a maioria das ciências obedecia ao princípio de redu ção, qu e limitava o c onhecimento d o todo ao conh ecimento das pa rtes, co mo se a organiz ação do todo nã o produz isse qualidades ou propriedades novas em relação às partes consideradas isoladamente. O princípio de redução leva naturalmente a restringir o complexo ao simp les. A ssim, aplica às complexid ades v ivas e humana s a ló gica mecânica e determinista da máquina artificial. Pode também cegar e conduzir a excluir tudo aquilo que não seja quantificável e mensurável, eliminando, dessa forma, o elemento humano do humano, isto é, paixões, emoções, dores e alegrias. Da mesma forma, quando obedece estritamente ao postulado determinista, o princípio de redução oculta o imprevisto, o novo e a invenção (MORI N, 2002c, p. 42). A ingerência do paradigma da simplificação, malgrado as suas limitações, foi e, ao que tudo indica, continua sendo notória e predominante nos mais diversos contextos, incluso o relativo ao ensino e à aprendizagem de ciências e matemática. 3 Sociedades não-européias em sua maioria. Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 131-148, jun. 2010 140 Nesse sentido, percebemos a prevalência de um currículo prescritivo, conteudista, em que o conhecimento geralmente não é visto como construção derivada da conexão entre sujeito e objeto de estudo, mas como descoberta, como algo objetivo e independente da intervenção criativa do ser humano, cabendo ao professor e ao aluno, na maioria das vezes, os papéis, respectivamente, de mero transmissor e de receptor passivo desse conteúdo. Habitualmente, os saberes são ou estão fragmentados, dispostos em compartimentos disciplinares que não se comunicam. É comum, em se tratando de cursos de licenciatura em ciências e matemática, pouca ou nenhuma associação entre, por exemplo, as disciplinas específicas e as pedagógicas. Além do mais, o que se estuda na escola é normalmente dissociado de contextos outros. De um modo geral, não se buscam relações entre os conhecimentos trabalhados em sala de aula e os níveis ou âmbitos sociais, políticos, econômicos, ecológicos etc. do mundo extraclasse. Referindo-se ao ensino de ciências e à sua experiência como graduanda, Schnetzler afirma que: Se, por um lado, o que importa nas disciplinas de conteúdo específico era e continua sendo o conteúdo científico em si e por si, por outro lado, por minha própria experiência, quando eu me dirigia à Faculdade d e Educ ação pa ra ass istir às aula s de d isciplinas pedagógicas, ali me deparava com teorias que, pela sua estranheza e desvinculação da realidade, nã o me possibilitavam perceber qualquer contribuição para a minha futura carreira de professora, pois se constituíam de exposições e mesmo de rígidas prescrições pedagógicas genérica s, des colada s do ‘c onhecimento químic o’ que eu sab ia ter que futuramente ensinar (SCHNETZLER, 2000, p. 17). Em que pese a supremacia da epistemologia moderna no mundo atual, suas deficiências são cada vez mais flagrantes. É bem verdade que o paradigma da simplificação/modernidade trouxe grande desenvolvimento – um avanço exponencial, diga-se – às ciências e à tecnologia ao longo dos últimos séculos. Mas também é correto afirmar que esse paradigma dificultou e dificulta a percepção de que, por exemplo, ciência, tecnologia, economia, política e sociedade são interdependentes e decisivas no que tange à paz, à guerra, à riqueza e à pobreza, liberdade e subordinação, sustentabilidade ecológica e crime ambiental etc. Como se não bastasse a progressiva constatação de deficiências afetas ao paradigma moderno/cartesiano (e mesmo por conta dessa constatação), nos últimos decênios um número crescente de pensadores tem chegado a conclusões favoráveis quanto à realidade da interação entre os diversos contextos e quanto ao realismo da indeterminação ou criatividade inerente ao homem e à natureza, o que indica a emergência de um novo paradigma, oposto, frisamos, aos pilares da simplificação. O novo paradigma admite (e essa é uma das suas maiores características) a validade de manifestações culturais até então sufocadas pela intolerância da ciência moderna. Fritjof Capra afirma que: Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 131-148, jun. 2010 141 Quanto mais estudamos os principais problemas de nossa época, mais somos levados a perceber que eles não podem ser entendidos isoladamente. São problemas sistêmicos, o que significa que estão interligados e são interdependentes. Por exemplo, somente será possível estabilizar a população quando a pobreza for reduzida em âmbito mundial. A extinção de espécies animais e vegetais numa escala massiva continuará enquanto o Hemisfério Meridional estiver sob o fardo de enormes dívidas. A escassez dos recursos e a degradação do meio ambiente combinam-se com populações em rápida expansão, o que leva ao colapso das comunidades locais e à violência étnica e tribal que se tornou a característica mais importante da era pós-guerra fria. Em última análise, esses problemas precisam ser vistos, exatamente, como d iferen tes fac etas d e uma única crise, que é, em gr ande medida, uma crise de percepção. Ela deriva do fato de que a maioria de n ós, e em especial noss as gran des ins tituiçõ es socia is, con cordam com os conceitos de uma visão de mundo obsoleta, uma percepção da realidade inadequ ada par a lida rmos co m nosso mundo superpovoado e globalmente interligado (CAPRA, 2004, p. 23). Na pedagogia, o emergente modelo de pensamento coaduna-se com um currículo enquanto processo, enquanto atividade. O currículo passa a ser entendido como o conjunto das experiências vivenciadas no ambiente escolar por professores, alunos e demais agentes educacionais. Como experiências em que sujeito e objeto, articulados, (re) constroem o conhecimento, que agora começa a ser visto como aproximação do objeto de estudo, em vez de ser encarado como a sua cópia ou reprodução exata, ou como algo definitivo e independente do sujeito. Conforme Morin (2002, p.20), [...] conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo externo. Todas as percepções são, ao mesmo tempo, traduções e reconstruções cerebrais com base em estímulos ou sinais captados e codificados pelos sentid os. Doravante, em um mundo pautado pela distinção, pela união e pela incerteza, tornase imprescindível a figura do professor reflexivo e pesquisador4, que é (e por ser) fundamentada na crença acerca da realidade da permanente interação entre sujeito e objeto, interação essa que acarreta incessantes mudanças em ambos. Os trabalhos de Schön a propósito do professor reflexivo são parcialmente fundamentados no ideário deweyano. Por oportuno: Dewey argumenta que o processo de reflexão de professoras e professores se inicia no enfrentamento de dificuldades que, normalmente, o comportamento rotineiro da aula não dá conta de superar. A instabilidade gerada perante essas situações leva-os a analisar as experiências anteriores. Sendo uma análise reflexiva, envolverá a ponderação cuidadosa, persistente e ativa das suas crenças e práticas à luz da lógica da razão que a apóia (CAMPOS & PESSOA, 1998, p. 190-191). 4 Vide o ideário de Donald Schön (CAMPOS & PESSOA, 1998), referente ao professor reflexivo, e/ou o corpo de ideias de Lawrence Stenhouse (DICKEL, 1998), a propósito do professor pesquisador. Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 131-148, jun. 2010 142 Ademais, o processo de ensino-aprendizagem que proclama, diante de situações-problema, a verificação de hipóteses baseadas no conhecimento prévio dos estudantes (cujo arcabouço cognitivo guarda intrínseca relação com os contextos culturais que os influenciam, contextos esses que, por sua vez, recebem a influência criativa de referidos indivíduos) manterá, pois, identidade com os princípios de interação e de criatividade defendidos pela epistemologia emergente. A modelagem e o método experimental valem-se de ações em comum, a exemplo da hipotetização e da verificação. Conforme Japiassú & Marcondes, o método experimental é: [...] aquele que tem por ba se a realiz ação de exp erimentos para o esta belecimento d e teor ias científic as, pr ocedend o atra vés da observação, da formulação de hipóteses e da verificação ou confirmação das hipóteses a partir de experimentos. É valorizado sobretudo nas concepções empiristas (JAPI ASSÚ & MARCONDES, 1996, p.182). A modelagem pode ser útil à consecução de um ensino e de uma aprendizagem de ciências e matemática em sintonia com o paradigma ora emergente, o que apenas depende de ser e da maneira como for utilizada no contexto pedagógico, devendo essa maneira, para tanto, mostrar-se enfática no que tange à adoção de posturas conscientemente criativas e contextualizadoras perante o problema ou o tema com que estivermos trabalhando, posturas essas cuja ausência pode redundar no fortalecimento da visão determinista e da crença quanto à dicotomia entre sujeito e objeto, ou seja, cuja ausência pode acarretar a ênfase no paradigma moderno e nas suas deficiências. Anastácio refere-se a eventuais trabalhos com modelagem, no processo de ensino-aprendizagem, influenciados ainda hoje por aspectos do paradigma moderno. Segundo essa autora: A concepção de conhecimento presente no desenvolvimento da modelagem se inser e no conhecimento desenvolvido no Ociden te por meio da constituição da ciência Moderna com a contribuição da Matemática. O s métodos e procedimentos da Modelagem o riginam-se nas idéias de Galileu e Descar tes e a ssumem uma co ncepçã o de realidade como algo em si, que apesar de sua complexidade, é possível de ser traduzida na linguagem matemática. As conseqüências destas concepções ao se desenvolver um trabalho com modela gem na escola pode implicar na co nstituição de uma idéia de ma temática como algo p resente na rea lidade. Quand o se pergunta pela matemática que se pode ter ao observar um determinado fato, ressalta-se este caráter de imanência da ma temática na Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 131-148, jun. 2010 143 realidade. Reforça-se a concepção pitagórica e pode-se chegar a defender que a matemática está em tudo e sem ela vive-se o caos e o vazio [...] (ANASTÁCIO5, 2007, p.7-8). Ainda se atendo ao binômio realidade-matemática, Anastácio afirma que: Ao apresentar minhas reflexões acerca das concepções de matemática e de realidade que se apresentam no trabalho com a Modelagem, não tenho a intenção de criticar ou colocar por terra todo o trabalho que vem sendo desenvolvido nos diversos âmbitos escolares. Tampouc o pretendo es gotar a temática realidade/c onhecimento matemático. Quero, no entanto, convidar os que trabalham com a Modelagem Matemática e a utiliz am em s uas au las a r efletir em sobr e as concepções que adotam [...] (ANASTÁCIO, 2007, p.10). Trata-se a modelagem de processo em que se busca representar determinado objeto, situação ou evento através da emissão de hipóteses explicativas e da respectiva tentativa de verificação. Quando, no processo em que tentamos obter um modelo, fazemos apelo em larga escala ao ferramental matemático, temos a chamada “modelagem matemática”. Expressões aritméticas ou algébricas, figura s geométricas e diag ramas/g ráfico s são a lguns exemplo s de “mod elos matemáticos”, cujo g rau de representatividade é dir etamente proporcional ao amadurecimento matemático do modelador. “Chamaremos simplesmente de Modelo Matemático um conjunto de símbolos e relações matemáticas que representam de alguma forma o objeto estudado” (BASSANEZI , 2002, p. 20). Segundo Biembengut & Hein (2000), o processo de modelagem matemática compõe-se das seguintes ações: • • 5 Interação: O pesquisador faz contatos com o problema ou tema a ser modelado, buscando familiarizar-se a respeito e coletar dados que possam ajudá-lo em sua investigação; Matematização: São lançadas hipóteses explicativas para as questões suscitadas, hipóteses que se baseiam nos conhecimentos do investigador. Faz-se uso do instrumental matemático com vistas à consecução do modelo com que se pretende representar o evento, tema ou situação em estudo; Tal citação interessou-nos não propriamente devido à perspectiva fenomenológica adotada pela autora, perspectiva que é notada mais explicitamente em outras partes do seu artigo/texto, mas pelo fato de Anastácio declarar a possibilidade de haver, no âmbito pedagógico, trabalhos com modelagem ainda pautados no paradigma moderno, declaração que apoiamos. Entendemos que, com essa afirmação, a autora coloca sob suspeição a hipótese de que, na seara escolar, a modelagem, em qualquer de suas formas de manifestação, sempre é e tem sido concordante com alguns dos pensamentos emergentes e alternativos à epistemologia da modernidade. Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 131-148, jun. 2010 144 • Modelo: Testa-se a validade do modelo construído, devendo-se, em caso de se considerá-lo não-adequado ao objeto estudado, retomar a matematização. É possível, assim entendemos, coadunar a modelagem matemática com o espírito de interação e de criatividade da epistemologia emergente. Trata-se de um convite à transversalidade, à interdisciplinaridade, à contextualização e, em âmbito mais abrangente, à transdisciplinaridade, aspectos que, na seara da aprendizagem de ciências e matemática, tendem a constituir-se em fonte de motivação discente, haja vista contemplarem a construção de conceitos científicos e matemáticos a partir do estabelecimento de relações com conceitos, temas ou contextos que os alunos já dominam. Podemos utilizar a modelagem matemática em aulas de ciências e matemática. Segundo Biembengut & Hein (2000), há correspondência entre os procedimentos apresentados nas próximas linhas e a referida possibilidade. Percebamos, no decorrer da descrição a seguir, a existência de aberturas ao fomento de um pensamento e de uma prática marcados pela interação e pela criatividade: • Diagnóstico: O professor trava contato com aspectos sócio-econômicos e cognitivos de seus alunos. Mediante avaliações, percebe quais são os seus interesses. Percebe também quais são as dificuldades de aprendizagem e os obstáculos didáticos que podem prejudicar a implementação do trabalho proposto; • Escolha do tema: O professor elege o assunto, fenômeno ou evento acerca do qual se buscará construir o modelo, podendo, também, o estudante, mediante orientação docente, protagonizar o processo de escolha. Sugere-se a escolha de um tema presente e impactante nas vidas dos alunos, a fim de que haja maior estímulo à elaboração de conceitos científicos correspondentes. É importante também o trabalho com um tema cuja complexidade não coloque em risco o sucesso da atividade, dadas as naturais limitações dos alunos modeladores e mesmo aquelas do próprio professor orientador; • Desenvolvimento do conteúdo programático: Os alunos, orientados pelo professor, (re) constroem elementos científicos e matemáticos para tentar representar o objeto de estudo. Trata-se justamente dos momentos em que se busca processar a modelagem com ênfase em seu aspecto de método experimental de pesquisa, conforme indicado nas linhas anteriores através de: interação, matematização e modelo; • Orientação de modelagem: O termo orientação, no sentido aqui empregado, não condiz com exposição mecânica, com descontextualização e com absorção acrítica. Indica, diferentemente, o oferecimento de condições para que o corpo discente possa construir conhecimentos a partir de seus próprios saberes e fazeres, a partir de seus próprios elementos culturais, em dinâmica pautada pela interação e pela criticidade. Referindo-se a uma atividade de modelagem desenvolvida com uma turma do primeiro período do Curso Superior de Tecnologia em Eletrotécnica do CEFET-PR6, Ferruzzi, Almeida & Francisco afirmam que: 6 Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná. Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 131-148, jun. 2010 145 Observamos que em alguns momentos, mostrou-se necessária a interv enção d o prof essor c om ques tionamentos p ara que os alunos ultr apassas sem algum imp asse no desen volvimento da soluçã o do prob lema e enriqu ecessem a dis cussão em tor no do p roblema em estudo. O estilo de comunicação entre professor e os alunos possui cara cterísticas de um cen ário de investigação, pois realizamo s um convite aos alunos, visando à reflexão sobre suas conclusões e justificativas. O professor deve comportar-se como um orientador, como um coordenado r das ativid ades, tentand o solu cionar as dúv idas d os alu nos, intervir q uando solicitado e recomendar b ibliogr afias que po ssam auxiliar os aluno s, comp ortando -se as sim como um no rteado r de idéias. É importa nte qu e os a lunos r eflita m sobre o seu traba lho. Assim, o pr ofesso r não d eve res ponder diretamente a s questões, mas sim, us ar ques tões qu e os in centiv em a refletir sobre o seu desenvolvimento (FERRUZZI; ALMEIDA & FRANCISCO, 2005, p.10). • Avaliação: É imprescindível que o professor avalie a si próprio, bem como permita o julgamento de sua prática por terceiros, com vistas a aperfeiçoar-se. Os alunos, e mesmo outros colegas de profissão, poderão dar-lhe os subsídios de que necessita. Por sua vez, a avaliação do corpo discente levada a efeito pelo professor orientador, sendo procedimento que objetiva a melhoria das condições para a consolidação da aprendizagem, há que ser não apenas diagnóstica e somativa, mas também, e sobretudo, formativa. Em que pese, mesmo nos dias atuais, o predomínio da epistemologia fragmentadora e determinista da modernidade, inclusive na seara do ensino e da aprendizagem de ciências e matemática, observamos que as deficiências e limitações da referida epistemologia, aliadas às conclusões a que se tem chegado a propósito das realidades da união ou interação e da criatividade afeta à indeterminação7, têm conduzido um número crescente de pessoas, entre elas diversos membros das comunidades científica e matemática, a defenderem a emergência de um novo paradigma. No contexto pedagógico inerente às ciências e à matemática, as atividades em que se utiliza o método experimental de pesquisa, composto basicamente por tema, problema, hipóteses explicativas e verificação, se acrescidas da consciência de criatividade e de interação, consciência essa que só tem a ganhar com a atuação de um professor “reflexivo e pesquisador da própria prática”, constituir-se-ão em ações irmanadas com o padrão emergente de pensamento. No ensino e na aprendizagem de ciências e matemática, a modelagem, que guarda ligações com o método experimental, uma vez acrescida dos princípios defendidos ao longo deste artigo, ou seja, uma vez levada a efeito mediante o subsídio da concepção de interação e de criatividade, tenderá a identificar-se com o padrão epistemológico que ora emerge. Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 131-148, jun. 2010 146 REFERÊNCIAS ALMEIDA, Maria da Conceição de. Complexidade, do casulo à borboleta. 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Iniciamos destacando a origem da criação do berço cultural na Amazônia e seus precursores, as nomenclaturas que esta instituição tomou ao longo de sua história, além de apresentar brevemente a importância do mesmo na instrução pública no Estado, considerando que, na época, foi à segunda escola estadual a ser erguida no Brasil e, neste sentido, ganha importância por impulsionar avanços nos diferentes segmentos profissionais que no Pará se desenvolvera com o aprofundamento da educação, além de proporcionar aos estudantes paraenses conhecimento intelectual que pouco a pouco foi se disseminando na medida em que o Liceu Paraense vinha ganhando um status épico no cenário educacional paraense com seus professores, e destes apresentamos alguns traços biográficos de suas vidas profissionais. Em termos gerais citamos alguns decretos que foram destaques para que este marco histórico pudesse se consolidar mediante as atitudes que o poder público do estado do Pará tomava aos anseios da educação nativa gerando em tempos posteriores resultados satisfatórios. Palavras-chave: Liceu Paraense. Colégio Paes de Carvalho. Instrução Pública Paraense. Professores do Liceu Paraense. LYCEUM PARAENSE: CULTURAL CRADLE AMAZON ABSTRACT We present excerpts of the history of the Lyceum Paraense, current State College Paes de Carvalho in the state of Pará, from research for the composition of the monograph of Specialization in Mathematics Education, State University of Pará, under Professor Miguel * Licenciada em Matemática pela UNAMA e Especialista em Educação Matemática pela UEPA. [email protected] Licenciado em Ma temáti ca e E specia lista em Edu cação Matemá tica p ela UE PA. [email protected] *** Professor da UNAMA e UEPA. Doutorando em Educação pelo PPGEd da UFRN. [email protected] ** Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 150 Chaquiam. We began highlighting the origin of creation of the cultural cradle of the Amazon and its precursors, the classifications which the latter took over its history, and to outline its importance in public education in the state, whereas at the time was the second state school to be built in Brazil and in this sense, becomes important advances for driving professionals in different segments in order to develop with further education, and provide students paraenses a intellectual knowledge that has been gradually spreading to the extent the Lyceum Paraense had been gaining an epic status in the educational landscape with their teachers paraenses, where these present some biographical traits of their professional lives. In general terms we quote some decrees that were highlights for this landmark could be consolidated by the attitudes that the government of Pará state was taking the aspirations of native education in later times generating satisfactory results. Keywords: Lyceum Paraense. State College Paes de Carvalho. Paraense Public Instruction. Professor of the Lyceum Paraense. 1 O BERÇO CULTURAL NA AMAZÔNIA A cidade de Belém do Pará foi fundada em 1616 por influência dos portugueses e, anos depois, nos conventos praticava-se o magistério com influências religiosas, tendo em vista que a colonização era tida como simples exploração da terra e das pessoas, embora constatemos que a mesma teve aspectos positivos no que se diz respeito ao avanço da instrução dos cidadãos paraenses independentemente de desvios que a colonização possa ter causado. O destaque inicial se dá ao presidente da província paraense, Bernardo de Souza Franco, parlamentar, financeiro e estadista, que, no reinado de D. Pedro II, aprovou na Assembléia Legislativa da Província a Lei de N.º 97 de 28 de Junho de 1841, criando o Liceu Paraense, cuja intenção era dar a sua terra natal o concurso de sua inteligência e os seus serviços, ele não podia deixar de rasgar a cortina existente entre ignorância e o saber, combatendo, assim, as ambições dos que dominavam e dos que queriam dominar, além de vencer a maioria da população que desejava viver sem as luzes da instrução. O Liceu é considerado o segundo estabelecimento de ensino oficial do Brasil e mais, a primeira instituição da região Norte e Nordeste a ter reconhecimento, entretanto, o Liceu Paraense foi inauFotografia 1 – Souza Franco. gurado aproximadamente um mês depois de sua criação, em 28 de Junho de 1841. Bernardo de Souza Franco, entre as diversas realizações públicas que promoveu, dedicou atenção especial à educação paraense. Dessa maneira, além de construir o Liceu Paraense, reinstalou a Casa do Amparo das Educandas, que mais tarde daria origem ao Internato Gentil Bittencourt no estado do Pará e, além disso, naquela época, Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 151 forneceu crédito educativo para que os estudantes paraenses completassem seus cursos no exterior, principalmente nos Estados Unidos nos ramos da engenharia e na Europa para medicina e direito. Diante disso, percebeu-se o quanto Bernardo de Souza Franco foi importante como pensador e organizador de um novo cenário da instrução pública, mesmo sabendo que as guerras civis que ocorreram no Pará, na época de criação do Liceu Paraense, perpetuavam no meio e, além disso, ainda vivíamos reflexos de uma desorganização político-social-educacional que se arrastava desde o período colonial, contudo, esse fato não tirou o brilho que esse cidadão proporcionou ao cenário educacional paraense, que tempos depois veio se concretizar na qualidade de Visconde. As primeiras instalações do Liceu Paraense foram na antiga avenida Independência, no prédio de nº 26, do Largo do Palácio, atual praça D. Pedro II, posteriormente transferido para a Travessa do Passinho, hoje, Campus Sales, depois a Rua Nova de Santana, atual Manoel Barata e, por volta de 1862, passaria para o Convento do Carmo e, finalmente, após trinta anos de sua criação, em 1871 ficou instalado em edifício próprio, no Largo do Quartel, onde hoje é Praça Saldanha Marinho. Quando o Liceu Paraense foi criado, talvez não se pensasse no efeito que o mesmo resultaria à instrução pública, embora soubéssemos que algo deveria ser feito para que o Estado, após a colonização, pudesse caminhar com projetos internos a fim de elevar ou tentar elevar o grau de conhecimento e crescimento intelectual dos jovens paraenses. Era necessário perceber que a instrução na escola não era apenas essencial, mas primordial, para uma sociedade se desenvolver gradativamente nos setores que sustentavam a coletividade humana e que passaram a sustentá-la a posteriormente. Fotografia 2 – Liceu Paraense. Baseado nesse propósito, um dos primeiros passos visando ao progresso foi à organização de um sistema político pedagógico e a efetivação do ensino primário aos jovens paraenses, para que assim pudessem amadurecer em busca de novos posicionamentos nos diferentes ramos da atividade humana. Isso foi feito inicialmente por Bernardo de Souza Franco, considerando que se preocupava em oferecer melhores condições para os estudantes e na tentativa de reconstruir a Província do Pará. Com o passar do tempo, de acordo com as necessidades locais, se fizeram necessárias as criações de cursos para atender as demandas sociais que se estabeleciam com o avanço progressivo da sociedade paraense. Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 152 Falando um pouco das nomeações do Liceu Paraense ao longo de sua história, sabe-se que a mesma passou por diferentes denominações, sejam por questões políticas ou não, até chegar a ser chamada, inclusive atualmente, de Colégio Estadual Paes de Carvalho, a seguir um fluxograma mostrando essa linha de denominações: Fluxograma 1 – Cronologia das nomeações do Liceu Paraense. Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 153 A importância do Liceu ao Estado do Pará diz respeito à regulamentação da instrução primaria e secundária na Província, contudo, desde o ano de sua fundação até o ano de 1855, o Liceu atendia somente a estudantes menores, ou seja, de nível primário e, a partir do referido ano, pela resolução de N.º 278 de 03 de dezembro de 1855, a então presidência da Província converte o Liceu Paraense em um estabelecimento de educação primária e secundária, após a denominação de Colégio Paraense, atendendo clientela de alunos pensionistas, meio-pensionistas e externos. Após a Proclamação da República, em 1889, os representantes do governo paraense encontraram o Colégio Paraense com a denominação primitiva de Liceu Paraense que, em 1901, foi denominado de Ginásio Paes de Carvalho pelo decreto de N.º 959 de 09 de fevereiro, desse mesmo ano, no governo de Augusto Montenegro, em homenagem ao médico José Paes de Carvalho, pois, no governo deste (1895 – 1900), o Pará teve grande impulso na área da educação e muito dos Órgãos foram criados nesse período, Órgãos esses que nasceram à luz desta instituição, todos com a proposta de manter uma estrutura de evolução na educação da sociedade no Pará. E ainda para obedecer aos dispositivos da Lei Orgânica do ensino secundário, baixado pelo decreto N.º 4.244 de 09 de abril de 1942, recebeu o Liceu a denomiFotografia 3 – José Paes nação de Colégio Estadual Paes de Carvalho, que de Carvalho. mantêm até aos dias atuais. Uma medida significativa foi equiparação que o Liceu Paraense obteve em relação ao Ginásio Nacional, estabelecimento padrão do gênero, atual Colégio Pedro II no Rio de Janeiro. Vale ressaltar que o Liceu Paraense surge quatro anos após o referido ginásio ter sido criado em 1837, fato muito significativo, pois indica que o governo provincial acompanhou de perto a iniciativa do governo central no aspecto educacional. Essa medida foi efetuada pelo decreto do governo feFotografia 4 – Ginásio Nacional, RJ. deral de N.º 1.121, de 01 de Novembro de 1892, quando o Liceu Paraense cresceu em termos de matrícula, se definiu como instituição de ensino e obteve projeção nos quadros do ensino público do país. Pode-se até mesmo dizer que após sua criação, e de sua mudança para o atual endereço Praça Saldanha Marinho, a equiparação foi o acontecimento mais importante na vida desta Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 154 instituição, pois passou a gozar de diversas reformas que atendiam diretamente aos alunos e o credenciamento da instituição como ascensão da instrução dos paraenses. Pelo instituto, Liceu Paraense passaram importantes personagens paraenses, sejam na condição de alunos, professores e até mesmo na qualidade de diretores, dentre tantos, citamos Lauro Sodré e Gaspar Viana (Mártir da Ciência), como professor, Hilário Gurjão que lecionava Aritmética e Álgebra e, na qualidade de diretor, Dr. José Veríssimo Dias de Matos, além de muitos outros que se destacaram nos ramos profissionais, políticos, artísticos e empresariais. Contudo, não apenas como sementeira de figuras ilustres que o Liceu Paraense avulta na história do ensino no Pará. Com sua criação, operou-se a unificação e sistematização do Curso de Humanidades, que até então era ministrado isoladamente nas chamadas “Aulas” ou “Escolas” de gramática latina, de filosofia racional ou moral, de retórica, de língua francesa e de geometria, sendo que as duas últimas não chegaram a funcionar no Pará. Ao currículo do Liceu foram inseridas novas matérias, a começar por Contabilidade e Escrituração Mercantil, que pela primeira vez passaram a ser lecionada no estado do Pará em um curso regular de ensino. Foi João Batista de Figueiredo Terreiro Aranha, a lente desta matéria no Liceu, que elaborou a primeira obra da matéria na Amazônia e uma das pioneiras do gênero no Brasil. Intitula-se a obra “Elementos do Comercio”, publicada pelo filho do autor no ano de 1872, no estado do Maranhão, talvez por encontrar lá maiores facilidades de impressão. O mesmo aconteceu com as matérias de Pedagogia e Agrimensura que também foram lecionadas pela primeira vez no Liceu e no Pará, com caráter de matérias curriculares do ensino primário. Com o desdobramento das matérias acima citadas e adjunção de outras, constitui-se posteriormente cursos à parte, como o Curso Comercial, o Curso Normal e o de Agrimensura, em nível médio e secundário, todos vinculados ao Liceu. Seguindo a história do Liceu Paraense, abrigaram-se em suas dependências, originariamente ou não, cinco estabelecimentos de ensino, sendo dois de níveis superiores, uma Escola Normal, hoje Instituto de Educação do Pará - IEP, e o Liceu de Artes e Ofício Benjamim Constant. Outros estabelecimentos que também funcionaram nas dependências do Liceu foram o Instituto Cívico Jurídico Paes de Carvalho, a Faculdade de Odontologia, a Faculdade de Medicina, além de dois corpos legislativos, estes Assembléia Provincial e Senado Estadual, além de dois órgãos administrativos, Conselho Superior de Instrução Pública e a Biblioteca Pública, uma Instituição Científica na época chamada de Museu Paraense, hoje Museu Paraense Emílio Goeldi, e por fim, uma Instituição Cultural chamada Instituto Histórico e Geográfico do Pará, essas foram as instituições identificadas no decorrer da pesquisa. Alguns desses estabelecimentos ficaram durante algum tempo em suas dependências, em outrora, tiveram autonomia em prédios separados, mas não deixaram de se organizar em função do Liceu. Segundo Moreira (1980), um fato curioso observado aponta que mesmo depois de alguns órgãos ou instituições se desligarem do Liceu Paraense, os mesmos continuaram submetidos a sua atração e desempenho, tanto que voltaram a vincular-se ao Liceu, como aconteceu com a Escola Normal, em 1885, quando chegou a fundir-se com ele por força da Lei Provincial de N.º 1.224 de 03 de dezembro de 1885. Moreira (1980) salienta que: Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 155 E quem nos dir á que a extinta Ac ademia de Belas-Ar tes e o a ntigo Conservatório de Música, que outrora funcionaram ao lado dele, no prédio hoje ocupado pela Academia Paraense de Letras, não se localizaram aí por efeito dessa atração. (MOREIRA, 1980, p. 2). Frisando novamente os cursos que no Liceu se estabeleceram, no caso específico, o curso de Humanidades e o Comercial, ambos no conjunto de suas disciplinas, encontravam-se matérias envolvendo a matemática, e nesses cursos se tinha a Aritmética, Álgebra e Geometria como matérias padrão dentro das mesmas. O avanço que o Liceu sofreu tempos depois de sua criação e inauguração foi historicamente importante, porém, ressaltamos que os estudantes paraenses demoraram um pouco para se adaptarem aos novos tempos de estudo nas escolas, principalmente em matemática, devido às adaptações que ocorreram e pelo fato de ser ministrado por um professorado eficiente e capaz, fazendo com que muitos alunos não conseguissem chegar ao final do curso. Entende-se como uma conseqüência natural das medidas adotadas, entretanto, com insistência ao longo das décadas os rendimentos foram melhorando e a demanda pelos cursos foi se elevando a cada ano, levando o Liceu Paraense ao apogeu. 2 O COLÉGIO ESTADUAL PAES DE CARVALHO Destacamos esse ponto em função de algumas considerações que entendemos ser de relevante abordagem, ou seja, a denominação Colégio Estadual Paes de Carvalho (CEPC) foi última modificação ocorrida no nome do Liceu Paraense e, além disso, é a denominação teoricamente mais conhecida pelos paraenses, o que nos leva a caracterizá-la em um momento destacado, embora seja, na realidade, a continuidade do Liceu Paraense. Outro fator interessante diz respeito ao ano em que o Liceu Paraense foi definitivamente denominado CEPC, isto é, em 1942, o que nos permite traçaraspectos mais próximos da nossa atualidade. Neste ano, 2010, o Liceu Paraense, o atual Colégio Estadual Paes de Carvalho (CEPC), esta ilustre instituição formadora de cidadãos paraenses, completa em 28 de junho de 2010, 169 anos de história na instrução pública, guardando consigo diversas idealizações e consideráveis transformações na cultura educacional paraense, sobrevivendo frente as dificuldades de transição, em diferentes épocas, que passou o Pará, formando grandes nomes no cenário estudantil paraense, proporcionando grande atração por outros estabelecimentos que seguiram suas metas e se utilizaram muitas vezes de Fotografia 5 –Colégio Estadual Paes suas dependências. A sede do estabelecide Carvalho. mento foi totalmentereconstruída em 1967, guardando as linhas arquitetônicas do prédio original, a qual dispomos hoje em Belém do Pará, ilustrada na fotografia do atual Colégio Estadual Paes de Carvalho, antigo Liceu Paraense. Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 156 A partir de 1942, o CEPC não mudou mais de nome e continuou sua caminhada, trilhando novos cursos, trilhando novos horizontes para se adaptar a outros momentos históricos que o Pará viveria posteriormente. Uma mudança considerável ocorreu pelo decreto de N.º 5.300 de 25 de novembro de 1966, o CEPC após tantos anos de autonomia e formalização de seus próprios regulamentos passou a fazer parte da Fundação Educacional do Estado do Pará (FEP) com os cursos ginasial, clássico e cientifico. Mais adiante, a implantação da Lei 5.692, de 11 de agosto de 1971, fez com que no CEPC começassem a funcionar os cursos de Construção Civil, Administração e Saúde. A partir de 1980, o mesmo inicia uma nova fase, funcionando apenas com os cursos de Habilitação em Saúde e, com isso, a adaptação efetivada no colégio implica um novo processo de adaptação dos alunos. O CEPC passou a ser um campo de estágio, aberto aos alunos da Escola Superior Magalhães Barata e da Universidade Federal do Pará - UFPA, além de oferecer cursos de aperfeiçoamento na área de chefia e liderança e primeiros socorros, mantendo ativa a participação nas campanhas de saúde pública. Durante esse período, os alunos se destacaram em concursos culturais estaduais e nacionais. As novas reformulações geraram dificuldades, principalmente pela falta de embasamento do aluno que ingressava no 2º grau; dificuldades de engajamento no campo profissional e grande evasão dos alunos da 3ª série para cursos preparatórios de vestibular. Com a Lei 7.044 que retirou a obrigatoriedade do ensino profissional nas escolas, a direção do CEPC devido à solicitação do corpo docente e discente, fez opção pelo ensino de Educação Geral, passando a funcionar assim com os cursos de Ciências Humanas e Ciências Biológicas, aumentando ainda mais os horizontes do colégio, embora fosse obrigado a lidar com um novo processo de adaptação em de cada mudança ou alteração ou criação. Notavelmente no CEPC foram se formalizando novos cursos e as opções para os estudantes paraenses logicamente também foram sofrendo variações e adaptações ao longo da caminhada deste colégio. Entretanto não avaliamos se o enérgico e eficaz regulamento continuou sendo força motriz da instituição, onde todos os integrantes do CEPC tinham suas funções bem definidas e supervisionadas. Embora quase todas as escolas públicas passem por dificuldades atualmente no cenário brasileiro, é sempre gratificante resgatar um marco histórico da educação para potencializar novas idéias a fim de buscar novamente uma estrutura pedagógica forte aliada a “modernidade” que vivemos, e esse resgate do Liceu Paraense, o atual Colégio Estadual Paes de Carvalho, desempenha um papel importante em desencadear motivação visando a novas transformações e atualizações. Este recorte vem contribuir como registro de um dos maiores marcos históricos educacionais do estado do Pará, o Colégio Estadual Paes de Carvalho. Lamentavelmente a atual direção da instituição e as autoridades educacionais do Estado abandonaram o acervo do CEPC que se encontra em total estado de degradação e abandono, com boa parte documental num estado quase que irrecuperável. Descrevemos com mais detalhes e profundidade a situação em que se encontra o referido acervo na monografia apresentada ao Colegiado do Curso de Especialização em Educação Matemática da Universidade do Estado do Para. Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 157 3 PROFESSORES DO LICEU PARAENSE AO CEPC Procuramos evidenciar alguns membros docentes de matemática que integravam ora o Liceu Paraense, ora o Colégio Estadual Paes de Carvalho em variados momentos da história desta instituição de acordo com os registros constantes no acervo do CEPC e das pesquisas realizadas, assim como apresentar mais detalhadamente a carreira de alguns destes matemáticos e de outros de áreas afins que por lá passaram, deixando sua marca na história como docente ou pelo seu empenho em fazer do Liceu Paraense, ou CEPC, um espaço de crescimento intelectual e social. Alguns dos documentos observados no arquivo do próprio colégio foram portarias, relatórios que apresentam abertura de inscrições e nomeações dos professores, dentre outros, que mencionaremos à frente. Tomando por base esses registros apresentamos alguns nomes de mestres de matemática que ao longo dos anos tiveram a oportunidade de ingressar e contribuir para o melhor rendimento da educação da classe estudantil paraense, contudo, destacaremos o corpo docente, a abertura de inscrições para professores, as nomeações para as cadeiras de matemática, organizando uma listagem com os matemáticos que faziam parte dessa instituição ao longo de alguns anos, além de mencionarmos programas de ensino dos cursos do CEPC que conseguimos obter, e mais, destacamos alguns livros didáticos que foram disponibilizados aos professores de matemática. De uma maneira geral, os professores que almejavam fazer parte do corpo docente do CEPC, assim como do Liceu Paraense, eram avaliados mediante concurso público realizados na capital do Estado, por meio de provas escritas e orais, além de apresentarem uma tese sobre a área de conhecimento de sua formação de acordo com a cadeira em questão. Começamos destacando um documento encontrado no arquivo do CEPC do ano de 1945, de autor desconhecido, que versa com orgulho o corpo docente do colégio dizendo que os professores que constituíam o CEPC eram competentes, muitos dos quais no próprio colégio fizeram seus estudos secundários e que, com o passar do tempo, assumiram cadeiras dos que foram seus mestres e que cansados das lidas do ensino ou colhidos pelo falecimento, tiveram que deixar de exercer o nobre e patriótico encargo de ensinar. Neste documento constam vários nomes de professores, dentre os quais, os catedráticos de matemática Oswaldo de Oliveira Serra (Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais) na 1ª cadeira e Ruy da Silveira Britto (Engenheiro Civil) na 2ª cadeira e, como professores auxiliares de matemática, Omir Corrêa Alves, Luis Gonzaga Baganha e Alírio César de Oliveira, ambos acadêmicos de Engenharia. Noutro documento analisado, a portaria de 01 de Abril de 1946, consta que o diretor Antônio Gomes Moreira Junior determinava os professores catedráticos, interinos e auxiliares das diversas disciplinas, bem como os cursos e séries que ficariam lotados. A partir desta portaria, o professor de matemática Oswaldo de Oliveira Serra, de categoria catedrático, ministraria aula na 1ª, 2ª e 4ª séries do curso ginasial, além de ministrar a disciplina na 3ª série do curso clássico. O professor de matemática Ruy da Silveira Britto, de categoria catedrático, ficaria incumbido de ministrar aulas aos alunos da 3ª série do curso ginasial, além da 1ª, 2ª e 3ª séries do curso científico nos turnos diurno e noturno. O professor de matemática Omir Corrêa Alves, da categoria auxiliar Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 158 ficaria incumbido de ministrar aulas da 1ª, 2ª e 4ª séries do curso ginasial. Outro professor auxiliar, Luiz Gonzaga Baganha, professor de matemática, ministraria aulas na 1ª e 2ª séries do curso clássico do CEPC e por fim, temos o professor de matemática e desenho Alfredo Boneff que ministraria aulas de matemática apenas para os alunos da 4ª série do curso ginasial, conforme determinação do diretor. Encontramos também documentos que apontam aberturas de inscrições e nomeações de professores para as cadeiras do CEPC de variadas disciplinas, entretanto, nos atentamos as cadeiras de matemática, objetivo particular da pesquisa. Em 08 de novembro de 1921 se inscrevia para concorrer à cadeira de matemática o Dr. Antonio Travassos da Rosa, apresentando sua tese intitulada “Os incomensuráveis e o método geométrico na variação das funções”, a qual continha 70 páginas. Anteriormente se inscreveu, em 02 de junho de 1921, Dr. Francisco de Castro Ribeiro, cuja tese defendida retrata “Funções ou formações elementares”, constituída de 50 páginas. Para a 2ª cadeira de matemática, em 06 de julho de 1924, o Dr. João Dias da Silva se inscreveu a fim de ser efetivado como professor à cadeira supracitada, apresentando para isso a tese “Considerações gerais sobre a variação das funções algébricas e gráfico das curvas”. Com relação às nomeações, o professor de matemática Moacyr Valmont foi nomeado em 10 de maio de 1938, cuja posse só ocorreu em 14 de julho do mesmo ano. No Diário Oficial de maio de 1941, o interventor federal Deodoro de Mendonça ratifica o professor Moacyr Valmont como regente das turmas da cátedra de matemática do CEPC. O professor Ruy da Silveira Britto, também foi nomeado em 10 de maio de 1938, tomou posse em 15 de julho do mesmo ano. Outro professor de matemática, Oswaldo de Oliveira Serra, foi nomeado como professor interino em 18 de abril de 1938 tomando posse um dia depois. A professora de matemática Neusa Martins e Silva foi nomeada em 31 de março de 1939 e tomou posse em primeiro de abril do mesmo ano, e no Diário Oficial de maio de 1941, o interventor federal Deodoro de Mendonça dentre os vários atos que assinalou, estava o de referendar a professora Neusa Martins como regente de turmas da cátedra de matemática do CEPC. Também, em 31 de março de 1939, foi nomeado o professor de matemática Annibal Alberto de Albuquerque Maranhão que tomou posse no dia seguinte. Na mesma edição do Diário Oficial de maio de 1941 o interventor federal também assinalou a regência do professor para as turmas da cátedra de matemática do CEPC. O engenheiro Joaquim Gonçalves foi nomeado como professor interino de matemática em 23 de abril de 1901 para a cadeira de Geometria e Trigonometria, tomando posse dois dias depois. Também foi nomeado para a mesma cadeira o professor interino Claudemiro Julio de Andrade Figueira em 28 de agosto de 1901. Para a cadeira de Aritmética e Álgebra foi nomeado como professor interino Horácio Henrique da Silva em 09 de maio de 1902 tomando posse três dias depois. No dia 30 de abril de 1904 era nomeado como professor interino, para a mesma cadeira, o Dr. Philegnésio Augusto Penna de Carvalho, vindo tomar posse em quatro de maio do mesmo ano. O Dr. Eustáchio F. da Costa Rodrigues foi nomeado no dia 05 de agosto de 1912 como professor efetivo da cadeira de Aritmética e Álgebra, tomando posse em 08 de agosto do referido ano. Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 159 O Dr. José Justiano Freire foi nomeado e empossado em 03 de março de 1922 na qualidade de professor interino da cadeira de matemática. Como professor auxiliar, foi nomeado e empossado em 10 de julho de 1923, José Balthazar de Oliveira Serra para a cadeira de matemática. Para a cadeira de Aritmética foi nomeado o professor Francisco da Silva Nunes em 29 de março de 1924 e empossado três dias depois. Em 14 de agosto de 1924 foi nomeado para a 2ª cadeira de matemática, como professor interino, Dr. João Dias da Silva, com posse efetivada em 20 de agosto do referido ano. Identificamos outra data de nomeação vinculando o nome do referido professor, 24 de janeiro de 1925, a cadeira de matemática, empossado em 2 de fevereiro do mesmo ano, supõe-se que houve uma mudança da 2ª cadeira para a cadeira efetiva da disciplina de matemática. Na sequência das nomeações, em 31 de março de 1925, foi atribuído a Francisco da Silva Nunes, a cadeira de matemática, como professor normalista, tomando posse em primeiro de abril de 1925. Como professor interino, foi nomeado no dia 14 de abril de 1931 para a 2ª cadeira de matemática, o Sr. José Coutinho de Oliveira, tomando posse em 22 de abril. O Dr. Abel Martins da Silva foi nomeado e empossado em 11 de setembro de 1931 na qualidade de professor interino da 2ª cadeira de matemática. Identificamos que no dia 20 de abril de 1936 houve nova nomeação do professor Dr. Abel Martins da Silva para a cadeira de matemática, possivelmente essa outra nomeação tenha sido para assumir a cadeira de matemática efetiva. O último registro de nomeação data de 10 de maio de 1938, com a efetivação da professora Maria Thereza Dias da Silva à cadeira de matemática, tomando posse em 18 de julho do mesmo ano. E também na mesma edição do Diário Oficial de maio de 1941, o interventor federal Deodoro de Mendonça assinalou que a professora poderia reger as turmas para a cátedra de matemática do CEPC. Ressalta-se que da maioria dos professores que destacamos não dispomos do tema de suas teses apresentadas e, principalmente, o corpo desses trabalhos. Dentre os vários documentos identificados no decorrer das pesquisas, o relatório de 1961 descreve o corpo docente em exercício nos cursos ginasial e científico de várias disciplinas, contudo apresentaremos os matemáticos que neste ano se estabeleceram como docentes no CEPC. Assim, os professores que fizeram parte do curso ginasial neste respectivo ano foram Francisco de Assis Jucá Soares, Fernando Antônio Moreira Aflalo, Orlando Eduardo Bentes de Oliveira, Dirceu Raimundo da Rocha P. Marques, Oswaldo de Oliveira Serra, Geraldo Daltro da Silveira e Manoel Viegas Campbell Moutinho, já no curso científico fizeram presença os professores Fernando Antônio Moreira Aflalo, José Maria Constante Lins, Raimunda Nonata Barbosa, Manoel Campbell Moutinho, Leide de Oliveira Brito e Manoel Leite Carneiro. Identifica-se nos registros desta instituição consta a composição do corpo docente do nos anos de 1966, 1967, 1970, 1971, 1973 e o de 1983, aqui apresentamos uma listagem dos professores de matemática com seus respectivos ano(s) de atuação: Ruy da Silveira Britto (1966), Raimundo Roberto Gonçalves Neves (1966, 1967, 1970, 1971, 1973, 1977, 1983), Aurélio Leal Alves do Ó (1966, 1967, 1970, 1971, 1973, 1977), Manuel Leite Carneiro (1966, 1967, 1970, 1971), José Maria Constante Lins (1966, 1970, 1971), Cleyton Nogueira de Oliveira (1966, 1967, 1970, 1971, 1973, 1983), Fernando Antônio Moreira Afla- Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 160 lo (1966, 1967, 1970, 1971, 1973), Geraldo Daltro da Silveira (1967, 1970, 1971, 1977, 1983), Manoel Viegas Campbell Moutinho (1970, 1971, 1973), Paulo Vilhena da Rocha (1970, 1971), Leão Samuel Benchimol (1970, 1971, 1973), Jorge Wilson Delgado Leão (1970), José Alfredo Teixeira Pinto (1971), Germando Gilberto M. e Silva (1973), José Maria de Jesus Sousa (1977, 1983), Abílio Ortiz de Matos (1977), José Felipe Filho (1977), João Carmino Ferreira (1977), Lucivaldo Sales de Sá (1977), Raimundo José Siqueira Mendes (1977), Luiz Carlos C. de Oliveira (1983) e Reginaldo Peres de Barros (1983). Retornando ao período colonial, a educação paraense se ressentia de materiais didáticos, em particular os livros didáticos, embora houvesse certa quantidade de compêndios importantes, mas que não eram suficientes para abranger igualmente os estudantes paraenses seja na capital seja no interiordo Estado. As produções didáticas foram ganhando gradativamente melhorias na medida em que a qualidade de formação dos professores evoluía, chegando ao ponto de ganhar espaço no ambiente educacional paraense. 4 TRAÇOS BIOGRÁFICOS DE PROFESSORES DO LICEU PARAENSE AO CEPC Neste momento apresentamos alguns aspectos da vida dos professores de matemática e de áreas afins que tiveram a honra de trabalhar na docência do Colégio Estadual Paes de Carvalho. Enfatizamos apenas “traços biográficos” pela razão de não conhecermos com mais detalhes a vida dos mestres que apresentamos a seguir, quando, na verdade, vamos expor apenas um pouco das suas trajetórias na arte de educar. Os traços biográficos conseguidos nas pesquisas que realizamos foram encontrados no livro dedicado a Ruy da Silveira Britto, de tema “Conjuntos Lineares: Sucessão”, tema esse que foi tese do professor Ruy para concorrer à cadeira de matemática do Liceu Paraense (CEPC), cuja edição deste livro data de 1998, sendo organizado pelos professores José Maria Filardo Bassalo, Paulo de Tarso Santos Alencar e José Miguel Martins Veloso, além de alguns documentos de outras fontes que revelam outros aspectos da vida dos professores. Então a seguir mostraremos os traços biográficos dos professores que estiveram em nosso alcance. • Ruy da Silveira Britto - Matemático e Engenheiro Fotografia 6 – Ruy da Silveira Britto O professor Ruy da Silveira Britto, filho de Natalino da Silveira Britto e de Maria Jarina de Britto nasceu em 07 de fevereiro de 1913, no seringal Florescência, Comarca Sena Madureira então território federal do Acre. Segundo filho de uma série de onze, foi batizado solenemente um ano e um mês depois, já no Ceará, de onde seus pais eram originários e para onde haviam retornado em 1914 em busca de saúde para a mãe, severamente castigada por ataques sucessivos de paludismo (malária). A cerimônia ocor- Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 161 reu na matriz Quixadá, no dia 08 de março sendo padrinhos os avós paternos Manoel Antônio de Oliveira Britto e Francisca Maria de Britto. Acossados pela grande seca de 1915, que lhes destruiu todas as economias, os seus pais, com mais dois filhos nascidos no Ceará, regressaram ao Acre, não mais para a Bacia do Iaco, mas para o do próprio Rio Acre, município de Xapuri. A trajetória do professor Ruy começa no único grupo escolar do município de Xapuri onde o mesmo fez seus primeiros estudos e completou o curso primário, com exceção da ultima série, feita no CEPC, em Belém, o curso ginasial se realizou quase integralmente no Liceu do Ceará, em Fortaleza, de 1927 a 1930 e foi concluído em 1931 no Fotografia 7 – Ruy da Pará, cumprindo o então chamado curso seriado. Silveira Britto. Revelou forte tendência para o estudo, sobretudo das Ciências Matemáticas, de que veio a se tornar um dos expoentes em Belém, a tal ponto que, ainda não diplomado, lecionava na Escola de Engenharia do Pará, onde colou grau em 1944 e continuou depois como professor das cátedras de Resistência dos Materiais e Grafostática e de Mecânica Racional. Em 1941, submeteu-se a concurso para catedrático de matemática do CEPC, do qual foi posteriormente diretor, sendo aprovado com a tese intitulada “Conjuntos Lineares: Sucessão”, que teve grande repercussão, por tratar de assunto que era absoluta novidade até então. Esta tese foi defendida pelo professor no concurso de provas e títulos do concurso ao qual concorreu no dia 23 de abril de 1945 perante a banca examinadora constituída pelos professores Antônio Gomes Moreira Junior, Oswaldo de Oliveira Serra, Djalma Montenegro Duarte, Josué Freire e Moacyr Pedro de Valmont, ressaltando que Fotografia 8 – Livro dedicado a Ruy. Fonte: Acervo dos autores esta tese foi reeditada em 1998. Autodidata, foi professor de gerações, vários de seus alunos ocuparam e ocupam posição de destaque no magistério superior e na engenharia. O Colégio Moderno, desde seu início, teve em Ruy da Silveira Britto um dos entusiastas e animadores, tendo sido um dos fundadores e professor de matemática daquele tradicional estabelecimento de ensino em Belém. Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 162 Aposentado, inclusive pela Universidade Federal do Pará, transferiu-se para a cidade do Rio de Janeiro onde havia feito curso no Instituto de Matemática Pura e Aplicada - IMPA. Ensinou na Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense e também na Universidade do Estado da Guanabara, além de ter sido professor da Escola de Cadetes de Aeronáutica no Campo dos Afonsos. Fez o curso da Escola Superior de Guerra e era ainda membro do Conselho Técnico do Instituto de Resseguros do Brasil - IRB, no Rio de Janeiro, do qual chegou a ser vice- presidente. Tornando-se um vitorioso em um dos maiores centros de cultura do país. Foi casado, em primeiras núpcias, com Abigail Prado Britto, com quem teve dois filhos, Rubério, físico especialista em meio ambiente e domiciliado em Bruxelas, Bélgica, que nasceu em Belém do Pará, no dia 31 de dezembro de 1943, e Rui Filho, jornalista também nascido em Belém, no dia 29 de Abril de 1974, e, em segundas núpcias, com a cunhada Maria Prado Britto, falecida em 01 de Outubro de 1995. Encontramos também documento no arquivo do CEPC que trata da ficha funcional do professor Ruy da Silveira Britto quando então a Sra. Graciette de Lima Araújo era secretária desta instituição. Consta neste documento, dentre as várias certificações dadas ao professor Ruy Britto, aquela onde o Interventor Federal do Estado resolvia nomear nos termos dos artigos Fotografia 9 – Escola Estadual Ruy da Silveira Britto. 15º (Item III) e 16º (Decreto Lei N.º 3.902) de 28 de outubro de 1941 (ano do centenário do CEPC) o professor Ruy da Silveira Britto para o exercício efetivo do cargo de professor Padrão “P”, do quadro único, em exercício no Colégio Estadual Paes de Carvalho. Em sua homenagem, existe na Cidade de Belém, no Bairro do Marco, a Escola Estadual “Ruy da Silveira Britto”, localizada na Trav. Enéas Pinheiro, n.º 2.871. Ruy da Silveira Britto veio a falecer em 17 de março de 1970, em plena seção do Conselho Técnico do IRB, realizada no começo da tarde. • José Maria Filardo Bassalo - Físico e Engenheiro Civil O professor José Maria Filardo Bassalo nasceu em Belém do Pará no dia 10 de setembro de 1935, realizou seu curso primário no Instituto “Luso Brasileiro”, de Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 Fotografia 10 – José Maria Filardo Bassalo. 163 1943 a 1946, o curso ginasial foi cursado no período 1947 a 1950, e o curso científico foi realizado no período de 1951 a 1953, ambos no Colégio Estadual Paes de Carvalho. Em 1954 ingressou na Escola de Engenharia do Pará e, em dezembro de 1958, recebe o diploma de Engenheiro Civil. Iniciou em 1968 pós-graduação na Universidade de São Paulo (USP) e obteve o título de mestre em física em 1973 e o de doutor em física em 1975. Lecionou física, no extinto Colégio “Abraham Levy” no período de 1954 a 1959, no Colégio Santa Rosa durante o ano de 1963 e no CEPC, de 1957 a 1966. Em 1961, ingressou como instrutor de ensino no então Nú- Fotografia 11 – Jose Maria Filardo Bassalo. cleo de Física e Matemática da UFPA e, em 1989, depois de realizar concurso público, tornou-se professor titular do departamento de física da UFPA, cargo que permanecia até 1998, data de publicação do livro sobre a tese de Ruy da Silveira Britto, “Conjuntos Lineares: Sucessão”, num trabalho com outros organizadores denominado de Memórias I. No departamento de física desenvolveu trabalhos de ensino, pesquisa e divulgação da física, apresentando 28 trabalhos científicos publicados no Brasil e exterior, 123 trabalhos sobre a História da Física divulgados em revistas especializadas nacionais e internacionais, 91 palestras e seminários em várias universidades e colégios secundários brasileiros. Ao longo desse período escreveu ainda 88 artigos sobre Física e Política Científica nos seguintes jornais: O Liberal, A Província do Pará, Diário do Pará e Jornal Pessoal de Belém, O Estado de São Paulo de SP e Jornal da Ciência do RJ. É o autor dos livros “Introdução a mecânica dos meios contínuos” de 1963, “Crônicas da física”, Tomo 1 (1987), Tomo 2 (1990), Tomo 3 (1992), Tomo 4 (1994), Tomo 05 (1998) e “Nascimentos da física” de 1996, todos editados pela UFPA. • Rui dos Santos Barbosa - Bacharel e Licenciado em Matemática O professor Rui dos Santos Barbosa nasceu em Belém do Pará em 01 de agosto de 1935. Começou seu percurso escolar realizando seu curso primário no Grupo Escolar “Barão do Rio Branco” de 1943 a 1947, depois realizou seu curso ginasial no período compreendido entre 1943 e 1953 e seu curso científico no período compreendido entre 1954 e 1956, ambos realizados no Colégio Estadual Paes de Carvalho (CEPC). Em seguida, no ano de 1957, ingressou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da recente criada Universidade do Pará, onde se bacharelou e licenciou em Matemática, respectivamente, em 1959 Fotografia 12 – Rui Barbosa. e 1960. Entre 1965 e 1967, realizou estudos de pósgraduação em Matemática na Universidade de São Paulo (USP). Ensinou MatemátiTraços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 164 Fotografia 13 – Rui Barbosa ca no CEPC em 1963 e 1964, e em 1969 e 1970, foi vice- diretor desse colégio. Ingressou como professor de Matemática na UFPA, em 1961, e aposentou-se em 1991. Nessa Instituição Federal de Ensino Superior, foi Coordenador do Colegiado de Matemática (1979 – 1983) e Chefe do Departamento de Matemática (1983 – 1985). Desde 1994, é professor de Matemática na Universidade Estadual do Pará (UEPA), na qual foi Coordenador do Colegiado de Matemática (1997 – 1998). • Luiz Gonzaga Baganha - Matemático e Engenheiro Civil O professor Luiz Gonzaga Baganha nasceu no dia 08 de maio de 1922, em Belém do Pará. Começou sua jornada escolar realizando seu curso primário no Grupo Escolar “Floriano Peixoto” (1931 – 1935), o seu curso ginasial no Ginásio Paes de Carvalho, o CEPC, (1936 – 1940), e o seu curso pré- politécnico já no Colégio Estadual Paes de Carvalho (1941 – 1942). Neste mesmo período fez o Curso de Professor Normalista na Escola Normal do Pará. Em 1943, entrou na Escola de Engenharia do Para, diplomando-se engenheiro civil, em 27 de dezembro de 1947. Em 1964, fez o curso de pós- graduação Engenharia Ferroviária e Rodoviária na Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1965 e 1966, realizou os cursos de Engenharia de Tráfego, Pavimentação e Administração Rodoviária, patrocinados pelo Instituto de Pesquisas Rodoviárias (IPR). Foi professor de Matemática nos Colégios Estaduais Paes de Carvalho e Visconde de Souza Franco, na Escola Normal do Pará, no Ginásio Pará- Amazonas e Colégio Herbart, sendo que neste último foi também diretor. Ensinou também Matemática nas Faculdades de Ciências Econômicas e de Educação, e respondeu pela cátedra de Estradas de Ferro e de Rodagem da Escola de Engenharia do Pará desde 1957 até se aposentar. Como engenheiro civil, exerceu os mais diversos cargos de direção e assessoria dentre os quais se destacam: Diretor Geral do Departamento Municipal de Estradas de Rodagem (DMER – BI) e do Departamento de Água e Esgoto (DAE) do Estado do Pará, assessor da secretária de finanças da Prefeitura Municipal de Belém e Prefeito do Campus Universitário da Universidade Federal do Pará (UFPA) por duas vezes. E ainda recebeu as honrarias “Palma de Ouro Universitária da UFPA”, “Comendador” e “Mérito Educacional” (Governo do Estado do Pará), “Mérito Legislativo” (Assembléia Legislativa do Pará), “Diplomas de Velho Mestre” (Clube de Engenharia do Pará) e “Caldeira Castelo Branco” (Prefeitura Municipal de Belém). Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 165 • Fernando Medeiros Vieira - Bacharel e Licenciado em Matemática O Professor Fernando Medeiros Vieira nasceu em Capanema no dia 30 de dezembro de 1924, no Pará. Realizou o curso primário no Grupo Escolar “Monsenhor Mâncio Ribeiro” na cidade de Bragança, no Pará, de 1933 a 1937, o curso ginasial no Colégio Nossa Senhora de Nazaré de 1938 a 1942 e o curso científico no Colégio Estadual Paes de Carvalho de 1943 a 1944. Em 1947 iniciou os estudos na Faculdade de Filosofia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, onde se bacharelou e licenciou-se em Matemática no ano de 1951. De volta a Belém, começou a lecionar Matemática no Colégio Santa Rosa, de 1953 a 1960, e no CEPC, de 1954 a 1956. Lecionou também física na Fotografia 14 – Fernando Escola da Marinha Mercante no período de 1955 a 1956 Medeiros Vieira. e no Colégio Nossa Senhora do Carmo, de 1955 a 1959. Em 1956 foi convidado a reger a cadeira de geometria da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, em Belém, ficando nessa regência até 1960. Em 1961, passou a reger a cadeira de física no Núcleo de Física e Matemática da Universidade Federal do Pará. Nesse mesmo ano, foi para o Rio de Janeiro para o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas - CBPF onde concluiu, em 1962, o Curso de Especialização em Física Geral e Experimental, Física Atômica e Nuclear. De 1954 a 1960 foi diretor do Ginásio Pará-Amazonas, de 1965 a 1969 foi diretor do Núcleo de Física e Matemática da Universidade Federal do Pará, de 1969 a 1972 foi diretor do CEPC, e de 1972 a 1973 foi coordenador do Ensino Superior da Fundação Educacional do Estado do Pará. Em 1969, recebeu a Palma Universitária – Classe Especial, da Universidade Federal do Pará, e em 1981 aposentouse como professor titular da UFPA. • Moacyr Pedro Valmont - Matemático e Médico Fotografia 15 – Moacyr Valmont. O professor Moacyr Pedro Valmont, natural do Estado do Pará, nascido em 16 de agosto de 1906. Em 1924 ingressou na Escola Militar do Realengo, porém, não concluiu o referido curso. Diplomou-se pela antiga Faculdade de Medicina do Pará na turma de 1938. Por ato do interventor federal, foi designado para regente de turmas suplementares de matemática, e nos anos de 1932 a 1942 tornou-se regente de turmas suplementares no Colégio Estadual Paes de Carvalho da mesma disciplina, sempre reconduzido a esse cargo por decretos governamentais, sendo os Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 166 últimos datados de 10 de maio de 1938, 10 de março de 1939, 05 de abril de 1940, 30 de abril de 1941 e 15 de abril de 1942. Lecionou também no Colégio Progresso Paraense. Abandonou voluntariamente o magistério e passou às suas atividades de médico, com lotação na Secretária de Estado de Saúde Pública. Aposentou-se do serviço público estadual em 01 de novembro 1978. Era poeta, tendo deixado inédito, o livro “Sonhos das horas vagas”. Faleceu aos 94 anos de idade em 02 de fevereiro de 2001. • Antônio Gomes Moreira Júnior O professor Antônio Gomes Moreira Júnior era filho de Antônio Gomes Moreira e Ermelinda Bentes Moreira, natural do Estado do Pará, nascido em 16 de outubro de 1917. Por ato do interventor federal de 25 de outubro de 1940, foi nomeado para reger turmas suplementares de física do Ginásio Paes de Carvalho, posteriormente, foi nomeado para regente de turmas da cátedra de física do Ginásio em 30 de abril de 1941. Por decreto de 15 de abril de 1942, foi nomeado regente de turmas suplementares da cátedra de física do CEPC. Em 26 de fevereiro de 1943, foi nomeado Fotografia 16 – Antônio Gomes para exercer o cargo de regente de turmas suplementares da cadeira de matemática. No ano seguinMoreira Junior. te, em 14 de março, foi nomeado para exercer interinamente o cargo de preparador e, em 03 de julho de 1944, assumiu em comissão o cargo de diretor do Colégio Estadual Paes de Carvalho, permanecendo em exercício até 14 de fevereiro de 1971, quando, a pedido, foi exonerado. No ano de 1945, em 26 de julho, ficou incumbido para exercer interinamente o cargo de professor da cátedra de física. Em 17 de maio de 1946, foi designado como membro de uma comissão especial para promover as bases necessárias para a organização em Belém de uma Faculdade de Livre Filosofia. Por meio da portaria de 23 de fevereiro de 1946, ficou encarregado, na qualidade de presidente da comissão, pela elaboração e adaptação do ensino normal. Foi nomeado interinamente, em 08 de outubro de 1946, para o cargo de professor catedrático da cadeira de complementos de matemática da Faculdade de Filosofia do Pará. Foi presidente da Sociedade Civil de Agronomia e Veterinária do Pará, mantenedora do Ginásio Visconde de Souza Franco de onde, por muitos anos, foi diretor. Em 27 de janeiro de 1951 foi designado Fotografia 17 – Antônio para responder pelo expediente da Diretoria do DeparGomes Moreira Junior. Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 167 tamento de Educação e Cultura. Foi Secretário de Estado de Educação no governo de Aloysio da Costa Chaves. Por decreto N.º 11.129 de 01 de março de 1979, o governador Clóvis Moraes Rego agraciou-o com a ordem do mérito Grão-Pará. Com o seu nome existe, em Belém, a Escola da Rede da Secretária de Estado de Educação, denominada Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Professor Antônio Gomes Moreira Júnior, localizada no Bairro da Sacramenta, no Conjunto Paraíso dos Pássaros, WE 07, N.º 01. O professor Antônio Gomes Moreira Júnior veio a falecer no dia 27 de novembro de 1998. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Nosso trabalho de resgate da história da educação e de instituições de ensino paraense foi iniciado com a publicação do trabalho “Fragmentos Históricos da Educação Paraense” no X Encontro Nacional de Educação Matemática, realizado em julho de 2010, na Bahia, com o trabalho monográfico do curso de especialização em Educação Matemática da UEPA e artigo publicado nos Anais do VII Encontro Paraense de Educação Matemática e apresentado como Comunicação Científica. Notavelmente no CEPC foi a força motriz da educação paraense no passado, embora, hoje, apesar de todas as dificuldades que as escolas públicas se encontram no cenário brasileiro, o CEPC continua sendo uma das melhores, entretanto, é necessário potencializar novas idéias a fim de buscar novamente uma estrutura pedagógica forte, capaz de atender as demandas sociais e transformações científicas e tecnológicas. Este recorte vem contribuir como registro de um dos maiores marcos históricos educacionais do estado do Pará, o Colégio Estadual Paes de Carvalho. Lamentavelmente a atual direção da instituição e as autoridades educacionais do Estado abandonaram o acervo do CEPC que se encontra em total estado de degradação e grande parte documental num estado quase que irrecuperável. Na monografia apresentada ao Colegiado do Curso de Especialização em Educação Matemática da Universidade do Estado do Pará constam maiores detalhes e aprofundamentos sobre esse tema. REFERÊNCIAS ADESÃO do Pará à Independência: uma revolução sem mudanças. Disponível em: <http:// www.portal.ufpa.br/imprensa/noticia.php?cod=2269>. Acesso em: 30 set. 2009. 13h30min. ARQUIVO COLÉGIO ESTADUAL PAES DE CARVALHO. Belém - Pará, 2009. ______. Implantação do 2º grau na Fundação Educacional do Pará de 1971 – Projeto de Ensino. Belém - Pará, 1971. CHAQUIAM, Miguel; GASPAR, Elaine da Silva. A Trajetória Histórica do Liceu Paraense ao Colégio Estadual Paes de Carvalho. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE HISTÓRIA DA MATEMÁTICA. SEÇÃO TÉCNICA ORAL. Belém: Unama, 2009. ______. Um resultado da disciplina História da Matemática. Revista Trilhos da Matemática. Belém, 2006. Traços, Belém, v. 12, n. 25, p. 149-169, jun. 2010 168 COLÉGIO Estadual Paes de Carvalho. Disponível em: <http://www.wikipédia.com.br.> Acesso em: 31 ago. 2009. 20h30min. CONTENTE, José Cupertino. A sociedade: sua origem e organização geral. Pará: Clássica, 1926. 114p. (These apresentada em concurso para provimento efetivo). CRUZ, Ernesto. História do Pará. Belém-PA. 2. Ed. Editora: Coleção Funtelpa, 1973. V. 1. DI SANTO, Joana Maria R. Estrutura do ensino: breve histórico e considerações. 2004. Disponível em: <http://www.centrorefeducacional.com.br/estruens.htm>. Acesso em: 7 out. 2009. 12h00min. DOCUMENTÁRIO das Obras realizadas. O Pará na administração Alacid Nunes. Belém PA: [s.n], 1966 a 1971. 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