V Encontro Nacional da Anppas
4 a 7 de outubro de 2010
Florianópolis - SC – Brasil
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Análise do Potencial Arqueoturístico na Comunidade de
Moju-PA.
Gisele Lopes Moreira (UFPA)
Turismóloga, Especialista em Estudos Culturais da Amazônia
[email protected]
Resumo
O Turismo Cultural, além de seus efeitos sobre a economia, com criação de novos postos de
trabalho, contribui para a coesão social, para a preservação do patrimônio cultural, o
desenvolvimento comunitário e o conseqüente aumento da identidade local. O arqueoturismo é
um segmento oriundo do Turismo cultural e, ainda que incipiente, vem ganhando destaque no
cenário nacional e no Estado do Pará, que apresenta enorme potencial por possuir grande
diversidade de sítios arqueológicos históricos, localizados nos centros urbanos e, principalmente,
em áreas naturais rurais. Esta atividade destaca-se para a região como mais uma alternativa de
desenvolvimento econômico-social e cultural para comunidades autóctones, capaz de promover a
preservação das áreas em que estes sítios estão inseridos e melhorar significativamente a
qualidade de vida da população local. Como estratégia metodológica deste trabalho, aliou-se um
referencial teórico às pesquisas de campo, que resultaram em um diagnóstico da realidade local
no entorno do sítio Jaguarari e uma análise do potencial para o turismo arqueológico, bem como a
viabilidade de um projeto de base comunitária no município de Moju-Pará.
Palavras-chave
Turismo, Patrimônio cultural, Arqueoturismo, Comunidade.
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Introdução
Atualmente, a atividade turística é considerada como uma das mais expressivas na economia
mundial. Além de ser considerada a maior prestadora de serviços no mundo, é responsável por
receitas importantes a setores da economia e a eles ligados direta ou indiretamente. O turismo é
um grande gerador de empregos, renda e divisas, podendo vir a ser a solução para o
desenvolvimento econômico-social de uma nação.
De La Torre (1992) evidencia a importância sócio-cultural e econômica da atividade turística,
comprovando que esta, se bem desenvolvida, é capaz de gerar benefícios para todos os
envolvidos, ou seja, podendo ser uma das ferramentas para o desenvolvimento de localidades
com potencial para tal. Entretanto, ao fazer uma análise do turismo como um fenômeno sóciocultural, econômico, ambiental e científico, depara-se com uma atividade complexa, que não
depende apenas de belas paisagens, mais sim de profissionalismo, estudos e pesquisas
baseados no planejamento sustentável.
No estado do Pará, há um vasto número de sítios arqueológicos que favorecem a prática do
Arqueoturismo ou Turismo Arqueológico. Isso se deve ao fato de possuir uma extensa rede
hidrográfica e solos férteis de várzea que favorecem os povoamentos às margens dos rios e
propiciam a criação de aldeias e vilas rurais, que atualmente são objetos de pesquisa da
arqueologia, por meio do estudo de sítios arqueológicos ricos em história, acumulada desde os
primeiros habitantes amazônicos à chegada dos portugueses e expedições missionárias.
Em muitos destes sítios, como no sítio Jaguarari, já foi realizado o salvamento arqueológico por
meio de escavações detalhadas, onde os bens culturais foram resgatados e analisados, o que o
deixa em condições favoráveis para o desenvolvimento do Arqueoturismo. Esses sítios aguardam
por uma iniciativa inovadora que fortaleça os laços de identidade cultural de municípios e
comunidades locais e principalmente, preservem o patrimônio.
Este trabalho apresenta o diagnóstico da realidade local e uma análise do potencial
arqueoturístico do Sítio Jaguarari, localizado no município de Moju, próximo à Rodovia Alça Viária.
Para tanto, é necessário esforço integrado dos diversos atores do processo: órgãos
governamentais, empresas privadas, residentes, turistas, profissionais do turismo e da
arqueologia e outras áreas afins, que deverão integrar os recursos naturais e culturais por meio de
um processo gradual de desenvolvimento.
Durante o ”Fórum de Turismo e Arqueologia da Amazônia” realizado no Pará em 2005, foi
constatado que os casos mais freqüentes de danos ao patrimônio arqueológico estão vinculados
aos grandes projetos empreendedores e a utilização desenfreada do turismo nas áreas dos sítios
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arqueológicos, que não leva em consideração o valor histórico e cultural que representam para a
humanidade.
A implantação desses grandes projetos desenvolvimentistas e obras de engenharia (estradas,
ferrovias, hidrelétricas, edificações, etc) podem causar diversos impactos negativos ao patrimônio
arqueológico. Como exemplo, podemos citar o projeto “Alça Viária”, executado pelo Governo
Estado do Pará, no ano de 2000 com a finalidade de construir um sistema rodoviário de 66 Km de
extensão, visando integrar a região metropolitana de Belém ao sul do estado. As obras deste
projeto, que incluíram a abertura e pavimentação de estrada e construção de pontes, causaram
uma série de problemas, dentre os quais, os cortes realizados no terreno que colocaram em risco
a estabilidade de estruturas arqueológicas e a destruição das camadas de solo com material
arqueológico, portanto, danos irreversíveis aos sítios históricos e à paisagem natural, além de
contribuir para o aumento da violência e insegurança na comunidade local. Esta é a situação atual
em que se insere o objeto de estudo deste trabalho.
Objetivos
Este trabalho consistiu em diagnosticar e identificar potencialidades e oportunidades para o
incremento do Turismo na área de entorno do sítio histórico Jaguarari, localizado próximo ao
empreendimento da Alça Viária, município de Moju, Pará. Visou ainda, evidenciar esta prática
como uma alternativa promissora para o desenvolvimento regional sustentável a partir da análise
de diagnóstico realizado na comunidade local, proporcionando a preservação dos patrimônios
natural e cultural, o aumento da geração de renda e conseqüente melhoria da qualidade de vida
para a população autóctone.
Metodologia
A pesquisa teve caráter qualitativo e quantitativo, por meio de trabalho de campo, aliado às
pesquisas bibliográficas e documentais.
Foi de grande relevância levantar a situação atual do sítio arqueológico Jaguarari, com base em
projetos e teses publicadas sobre a região, em fatos históricos, depoimentos de profissionais de
empresas e instituições ligadas ao tema e, principalmente, em relatos coletados na comunidade.
No decorrer deste trabalho, foi necessário primeiramente abordar as implicações relativas ao
tema, como as bases teóricas pertinentes ao Turismo e à Arqueologia. Estas reflexões
fundamentaram a realização de uma pesquisa detalhada da área a ser explorada, que buscou
analisar as potencialidades do Jaguarari para o turismo: os atrativos locais, a acessibilidade, a
demanda esperada, a viabilidade do projeto, dentre outros.
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As fontes de informação foram obtidas em entrevistas com profissionais e pesquisadores da área,
e em questionários aplicados nas residências ribeirinhas da área de entorno do sítio Jaguarari,
utilizando os recursos de memória oral e escrita, junto às pessoas da comunidade.
Os métodos e técnicas utilizados para coleta de dados foram:
¾ Levantamento bibliográfico e documental em arquivos, bibliotecas e instituições de
pesquisa;
¾ Reconhecimento da área para observar potencialidades, atrativos e estado de
conservação dos patrimônios, e realizar o registro fotográfico da situação atual
local;
¾ Realização de um diagnóstico que identificassem entraves e atrativos, bem como a
descrição do sítio e sua relevância histórica, de acordo com o levantamento de
dados e observações em campo;
¾ Aplicação de questionários e entrevistas com comunitários e representantes de
instituições ligadas ao turismo.
Os questionários aplicados aos moradores serviram para verificar suas expectativas em relação
ao desenvolvimento do turismo na comunidade; e as entrevistas foram importantes para saber
opiniões de profissionais e estudiosos da área sobre o Arqueoturismo e o efeito sobre as
comunidades e patrimônios culturais.
As entrevistas foram realizadas nos municípios de Belém e Moju. Em Belém, foram ouvidos os
representantes de órgãos públicos e instituições de pesquisa e ensino ligadas à arqueologia e ao
turismo. O direcionamento da coleta de dados foi voltado à comunidade local, administração
pública, setor privado e representantes da indústria turística, fontes potenciais de informação.
Durante os depoimentos, verificou-se inicialmente o grau de conhecimento dos entrevistados a
respeito do turismo e da arqueologia e posteriormente, tratou-se de descobrir o conhecimento que
as pessoas detêm sobre o segmento chamado Arqueoturismo e sua capacidade de promover
melhorias para a população e a valorização e preservação do patrimônio arqueológico.
Em um último momento, discorreu-se da possibilidade de implantação e viabilidade de um projeto
que atenda, tanto as necessidades do sítio, quanto beneficie a comunidade local, por meio de um
projeto sustentável adequado para o sítio Jaguarari.
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Caracterização e Análise dos resultados
O sítio Jaguarari localiza-se na margem direita do rio Moju, nas proximidades de sua confluência
com o rio Acará, junto à ponte Moju-Alça, da rodovia Alça Viária. Nos dias atuais, a área
compreende uma fazenda de rebanho, que é patrimônio do grupo empresarial Y.Yamada, que lá
desenvolve atividade de pecuária.
O acesso ao sítio se dá pela BR - 316, percorrendo a Rodovia Alça Viária, no sentido BelémBarcarena. É também possível chegar ao local por via fluvial, porém, este serviço fica restrito a
embarcações particulares (ver figura 01).
Figura 01 - Mapa de acesso ao sítio Jaguarari
Fonte: Tese de doutorado"Um Modelo da Agroindústria Canavieira
Colonial no Estuário Amazônico: Estudo Arqueológico de Engenhos
dos Séculos XVIII e XIX" (Marques, 2004).
O sítio Jaguarari apresenta um grande potencial para a atividade turística, visto que é considerado
um sítio arqueológico histórico, por estar localizado num ambiente natural, associado a
“acontecimentos passados, tradições populares, criações culturais ou da natureza e a obra dos
homens,
que
possuam
valor
histórico,
etnológico,
paleontológico
ou
antropológico”
(SECULT/DEPHAC, 2002, p.38). Além de o sítio possuir toda uma importância histórica para a
região, também é constituído de atrativos que podem se tornar turísticos se organizados e possui
um rico patrimônio arqueológico.
A história que compõe o sítio Jaguarari merece grande consideração, porque retrata a
importância do local para o desenvolvimento da região ao longo do processo de colonização. A
sua origem data do séc. XVII, quando o Jaguarari era de propriedade do Sr. Bernardo Serrão
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Palmela e sua esposa, que fizeram doação das suas terras aos padres da Companhia de Jesus,
com a garantia de que estes sustentassem o casal até a morte. A primeira casa e a igreja foram
construídas neste mesmo período.
No séc. XVIII já havia no local a casa grande, casas de vivenda e algumas “casas térreas”, uma
engenhoca na beira do rio, a fábrica de aguardente que gerava bons lucros; uma olaria; uma
oficina de ferreiros; uma fábrica de canoas, um curral de gado, uma casa de farinha, com sua roda
de ralar mandioca, tecelões, carpinteiros etc. Na fazenda cultivava-se milho, arroz, cacau e café.
Enfim, nela eram praticados os mais variados ofícios.
Foi também no século XVIII, que foram feitas ilustrações do engenho, durante a viagem filosófica
de Alexandre Rodrigues Ferreira em 1784, que demonstram a beleza da arquitetura do lugar.
(figura 02).
Figura 02 – Iconografia do casarão do engenho.
Fonte: Vista em perspectiva do engenho de açúcar do Capitão Ambrósio Henriques,
datada de 1784, incluída na obra Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira.
No início do séc. XX, o lugar foi propriedade de Francisco Libon, alemão que implantou no local
uma colônia agrícola. Segundo um antigo morador, nesta época haviam no local quase trinta
casas, enfileiradas na beira do rio, e também com um moinho de arroz e uma serraria, movida à
água. A roda dá água além de movimentar a serraria, acionava um motor que gerava eletricidade
para todas as casas.
E atualmente, no séc. XXI, o local é apenas utilizado como fazenda de rebanho, restando com
algumas estruturas do antigo engenho. Em 1996, a área foi objeto de um estudo realizado no
projeto “Levantamento de Sítios de Engenho no Estuário Amazônico”, através do qual se
constatou sua importância arqueológica como remanescente de engenho colonial, agregando
também um valor histórico promissor para o turismo.
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A área em que o sítio está inserido é favorecida por uma paisagem natural exuberante, composta
pelo rio Moju, que recebe influência da maré e permite o tráfego de embarcações, passeios
fluviais, pesca e outras atividades ; pela floresta nativa, que conta com diversos exemplares da
flora amazônica, com frutas típicas da região amazônica, como taperebá, castanha do Pará,
cupuaçu, açaí etc.
Restam ainda no local, estruturas que fazem parte do patrimônio arqueológico do local, ricas em
história e cultura como: as ruínas de uma igreja do séc. XVII (com paredes de até 1m de
espessura), que, ora foi em homenagem a Nossa senhora de Assunção, ora foi chamada de
Nossa senhora do Carmo até pouco antes de ser desativada (ver fotografia 01). Não se sabe ao
certo a quando ocorreu essa mudança; os alicerces do antigo engenho de cana-de-açúcar foram
soterrados após as escavações, para que não despertasse a atenção de vândalos e curiosos; a
calha da roda d’água, construída na metade do séc. XX ainda em boas condições (ver fotografia
02); e possui ainda uma grande variedade de vestígios materiais históricos e pré-históricos,
encontrados durante as escavações do grupo de pesquisa do Salvamento arqueológico do
MPEG(ver fotografia 03). De acordo com Marques1 (2004), foram coletados no local, mais de
4.000 fragmentos de cultura material, que variam entre cerâmicas indígenas, garrafas de vidro
para vinhos e cervejas, louças de origem européia como faianças e faianças finas.
Fotografia 01 – Ruínas da Igreja de Nossa Senhora do Carmo.
Fonte: Equipe do Programa de Salvamento e Monitoramento de
Sítios Arqueológicos no Traçado da Alça Rodoviária- BELÉM/PA,
2001.
1
Fernando Luiz Tavares Marques é doutor em História PUC/RS e pesquisador do setor de arqueologia histórica do
Museu Paraense Emílio Goeldi em Belém –Pará.
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Fotografia 02 - Calha da roda d’água da metade do séc.XX
Fonte: Equipe do Programa de Salvamento e
Monitoramento de Sítios Arqueológicos no Traçado da
Alça Rodoviária- BELÉM/PA, 2001.
Fotografia 03 – Exemplos de cultura material encontrada durante as
escavações no Jaguarari.
Fonte: Equipe do Programa de Salvamento e Monitoramento de Sítios
Arqueológicos no Traçado da Alça Rodoviária- BELÉM/PA, 2001
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O local não dispõe de qualquer infra-estrutura específica para o turismo ou básica, como:
saneamento, energia, telefonia. Conta apenas com a facilidade de acesso pela rodovia Alça
Viária. Contudo, é limitada por via terrestre por onde circulam veículos particulares ou coletivos.
Existem alguns entraves no local, provocados pela ação humana, que podem ser destrutivos do
patrimônio arqueológico. Um dos exemplos mais representativos está relacionado às grandes
obras de engenharia, como a construção de estradas e usinas hidrelétricas, nas quais as
ameaças ao patrimônio são claramente visíveis.
Em 2002, o sítio foi parcialmente destruído por obras de construção da Rodovia Alça Viária,
projeto implementado pelo Governo do Estado do Pará, através da Secretaria Estadual de
Transportes (SETRANS). Por conta desta ação tornou-se necessário a execução do “Programa de
Salvamento e Monitoramento de Sítios Arqueológicos no Traçado da Alça Rodoviária –
Belém/Pa”, nos sítios localizados na área de influência direta e indireta do empreendimento. As
escavações feitas na área junto à igreja e também no cemitério existente possibilitaram a
descoberta de indícios relativos à pré-história e ao período colonial, época em que lá funcionou
uma aldeia jesuítica e posteriormente um engenho. Também foram evidenciados pisos e alicerces
possivelmente da sacristia e outras construções anexas.
O Projeto Alça Viária, além de destruir parte do antigo piso da área frontal à igreja e da perda total
de expressivo volume de solo com várias camadas arqueológicas, ocasionou a principalmente a
descaracterização integral da paisagem da região (fotografia 04). Outra ação que acarretou danos
às ruínas do sítio arqueológico, na área da fazenda, ocorreu em 2004 com a implantação de uma
torre de linha de transmissão de energia elétrica sobre a mesma.
Fotografia 04 – Área devastada devido às obras de construção da
Ponte Moju-Alça.
Fonte: Equipe do Programa de Salvamento e Monitoramento de Sítios
Arqueológicos no Traçado da Alça Rodoviária- BELÉM/PA, 2001.
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Existem ainda, diversas problemáticas prejudiciais á conservação do sítio Jaguarari relacionadas
aos seguintes pontos: o acesso, uma vez que as estradas estão sem manutenção e apresentam
trechos esburacados; a estrutura física da ruína da igreja encontra-se ameaçada pela vegetação,
pois não há manutenção da área regularmente; a segurança do sítio fica comprometida diante da
proximidade com a Rodovia, que torna o sítio muito vulnerável a vândalos e ladrões, uma vez que
o local não está devidamente cercado e qualquer pessoa pode entrar a qualquer hora do dia ou da
noite; ausência de infra-estrutura de acesso ao interior do sítio, bem como placas de sinalização
que identifiquem o sítio arqueológico como área preservada.
Além das questões abordadas acima, existem outras ligadas ao âmbito social, que podem surgir
ou mesmo serem potencializadas, ameaçando a viabilidade de projetos turístico para o sítio
Jaguarari, tais como: violência; abandono das atividades tradicionais; prostituição etc.
Conforme observado durante as visitas à área, a comunidade que vive no entorno do sítio
apresenta-se como um estilo de vida simples e humilde, possuindo como principal fonte de renda
a extração de frutas tropicais, com destaque para o açaí, muito abundante no período de safra, de
julho a dezembro (fotografia 05). No período restante do ano, os moradores passam por situações
de dificuldades, sobrevivendo com uma renda mensal de menos de um salário mínimo por mês.
Fotografia 05 – Morador da comunidade
após a extração do açaí.
Fonte: Gisele L. Moreira, 2007.
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O nível de escolaridade da população é muito baixo, somente 6% conseguem alcançar o nível
médio e cerca de 30% estão no grupo dos que são analfabetos ou freqüentaram apenas a
alfabetização. Na comunidade há apenas uma escola de ensino fundamental, a Foz do Cabresto,
voltada para alunos de 1ª a 4ª séries. Com isso, as crianças menores de sete anos não têm
acesso à escola e os jovens que deveriam cursar a partir da 5ª série são obrigados a percorrer
longas distâncias, de canoa, para estudar na comunidade vizinha. Estas dificuldades contribuem
para uma grande evasão escolar.
Em geral, as pessoas da comunidade não costumam participar de atividades sócio-culturais ou de
lazer, sendo tomadas pelo ócio, dando margem ao surgimento de problemas sociais. Por outro
lado, algumas famílias dedicam-se à vida religiosa, freqüentando a única igreja do lugar, que é um
templo adventista localizado próximo da escola. Verifica-se então que esta comunidade necessita
de atividades educativas, culturais e profissionalizantes, que proporcionem tanto uma
conscientização da preservação do patrimônio arqueológico, quanto uma fonte de renda extra, o
que certamente contribuiria para melhorar as condições de vida local.
Quando foram analisados os aspectos sócio-econômicos da comunidade, percebeu-se que há
uma grande preocupação dos pais quanto ao futuro dos filhos, pois a educação local atende
apenas uma pequena demanda de crianças e algumas ficam abandonadas ao ócio. Acredita-se
que a preservação do patrimônio possa ser um grande aliado na educação de jovens e crianças,
para que eles reconheçam sua própria história, conforme depoimento de Catarina Leal2:
Eu espero realmente que um projeto desse aí traga a formação de
educação desse povo, nós temos muitos jovens carentes que às vezes
ficam jogados nas drogas, às vezes vão até para o lado da marginalidade
por não ter uma opção, não ter um apoio social, não ter assim uma
educação mais com uma base, entendeu? E eu acho que nessa parte aí, a
educação pra gente aqui é o meu argumento, é o fundamental pra mim
(informação verbal).
Com relação às obras de grandes empreendimentos, que se instalaram na área da comunidade,
como as estradas, a ponte Alça Viária e as torres da rede de alta tensão da Eletronorte, existem
dois principais entraves observados: a violência que ocorre devido à proximidade com a rodovia
2
Catarina Leal, 46 anos e moradora da comunidade há mais de 10 anos.
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(assaltos) e ainda a passagem da linha de transmissão sobre as casas, que no entanto, não
possuem energia própria. Esta situação é descrita por Rosa Corrêa3:
A alça viária beneficiou em muito a comunidade, trouxe desenvolvimento,
transporte, acesso as outras localidades. E trouxe insegurança também,
aumentou a violência. Já fomos assaltados milhares de vezes, tem muitos
marginais que chegam de moto e invadem as casas, tem uns que levam
barco, assaltam vans (...). (informação verbal)
Outra questão relevante é que a comunidade sente a necessidade de alternativas de obtenção de
renda, uma vez que a única fonte de renda é baseada no extrativismo do açaí, 77% sobrevivem
dessa atividade, que tem produção apenas no período de safra. Logo, no período diferente deste,
a população não possui nenhuma qualidade de vida.
Observou-se também que as pessoas têm interesse em se inserir no projeto, por meio de diversas
atividades que envolvam mão-de-obra e capacitação profissional, possibilitando oportunidades de
empregos diretos e indiretos. O Sr. Pedro Valadares4 afirma: “De várias formas a gente pode
ajudar, qualificando pessoas para algumas atividades, como artesanato, até mesmo um guia de
turismo, esse tipo de coisa assim” (informação verbal).
Fotografia 10 – Depoimento do Sr. Pedro da Silva, colhido
durante a pesquisa de campo.
Fonte: Gisele L. Moreira, 2007.
3
4
Rosa Corres, 32 anos, mora nas proximidades da ponte da Alça.
Pedro Valadares, 48 anos, é um dos moradores mais antigos da comunidade.
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A expectativa maior se dá em torno das oportunidades de geração de renda que este projeto
possa proporcionar, como ressaltado pelo o Sr. Francisco Magalhães5: “O projeto melhoraria a
comunidade no financeiro e na educação, ia melhorar muito, ia ajudar demais a comunidade”
(informação verbal).
Segundo o Sr. João Valadares6, “O novo projeto que transforma o sítio Jaguarari num local de
visitação de turistas em que a comunidade esteja envolvida é excelente porque é o sonho de todo
mojuense de trazer algo assim, é histórico isso” (informação verbal).
Ainda com base nos fundamentos da pesquisa, observou-se que uma parcela significativa dos
entrevistados, 38%, pouco conhecia ou desconhecia por completo o arqueoturismo, fato
justificado pela maioria por se tratar de um segmento novo; os outros entrevistados,
correspondente aos 62% restantes, demonstraram amplo conhecimento do assunto, relatando
diversas experiências.
Outro elemento identificado pelos depoimentos está ligado a questão da viabilidade para a prática
do Arqueoturismo, que teve 100% de aceitação. Contudo, ressaltou-se sempre a importância de
um planejamento que garanta ao sítio e a comunidade do entorno sustentabilidade social, cultural
e econômica. Para o pesquisador Paulo Canto7, a discussão sobre o assunto deve iniciar ainda na
Academia:
(...) o desenvolvimento de políticas públicas para os sítios arqueológicos
devem criar uma interação, uma respeitabilidade muito maior entre turistas
e a área que ele visita, por que ai ele já vai ter a noção de que ele não
pode chegar simplesmente e destruir e se envolver com a comunidade de
uma maneira, que muitas vezes, leva até a prostituição (...) eu vejo que
uma nova realidade pode ser implementada com esses segmentos e elas
têm que ser discutidas academicamente (informação verbal).
Para o professor de Turismo da UFPA, Paulo Pinto8, é imprescindível a inserção da comunidade
local em todo o processo:
(...) essa sustentabilidade econômica, social, cultural vai depender de
como se desenvolverá esse segmento, os roteiros, as atividades
econômicas (...) pode sim desde que a sustentabilidade do ponto de vista
social é uma perspectiva, ela tem que ser percebida (...) primeiro é a
5
Francisco Magalhães, 43 anos, morador local.
João Valdares, construtor de embarcações e morador local.
7
Paulo Roberto do Canto Lopes é Msc. em Arqueologia Histórica UNIRIO/RS e pesquisador da área de arqueologia do
Museu Paraense Emílio Goeldi em Belém.
8
Paulo Moreira Pinto é Msc em Serviço Social e coordenador do curso de Turismo da Universidade Federal do Pará.
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própria organização da comunidade que tem acontecer, entorno do que se
quer fazer, se é arqueologia tem que dá condições para a comunidade
entender o mínimo de arqueologia (...) elas precisam começar pela
organização social dessas comunidades para que elas entendam que são
importantes para o desenvolvimento daquele produto e como podem ser
inseridas (...) (informação verbal).
Como parte integrante do processo, também foi ouvida a administração pública do município do
Moju, representada pela Secretaria de Turismo, Lazer, Desporto e Cultura, que mostrou-se
interessada e disposta a conduzir o projeto adiante, inclusive assumindo a responsabilidade de
gestão do sítio. De acordo com a secretária de cultura e turismo de Moju, Carmen Souza9:
O projeto a gente sabe que é viável, pelas discussões que tivemos com a
comunidade, eles já estão conscientes que é importante para eles, já
conversamos com nosso gestor, o prefeito, que sentiu interesse que seja
feito esse trabalho(...). O Fernando Yamada já liberou a área, talvez ele
possa, quem sabe, investir lá (...) (informação verbal).
A preservação do patrimônio tem entre suas funções o papel de realizar “a continuidade cultural”,
ser o elo entre o passado e o presente e nos permite conhecer a tradição, a cultura, e até mesmo
quem somos e de onde viemos. Desperta o sentimento de identidade. Margarita Barreto defende
a “recriação de espaços revitalizados”, como um dos fatores que podem “desencadear o processo
de identificação do cidadão com sua história e cultura (Barreto, 2000. P.44).
Conclusão
O sítio Jaguarari apresenta um grande potencial para a atividade turística, visto que é
considerado um sítio arqueológico histórico, por estar localizado num ambiente natural,
associado a “acontecimentos passados, tradições populares, criações culturais ou da
natureza e a obra dos homens, que possuam valor histórico, etnológico, paleontológico ou
antropológico” (SECULT/DEPHAC, 2002, p.38). A história do sítio Jaguarari merece grande
consideração, porque retrata a importância do local para o desenvolvimento da região ao
longo do processo de colonização.
Atualmente, os vestígios destas ocupações neste terreno encontram-se esquecidos pelo
passar do tempo e pelo desconhecimento por parte da comunidade que hoje se encontra
9
Carmen Souza é secretária de desportos, lazer e cultura do município de Moju - Pará.
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no local. Contudo, este projeto pretende tornar este sítio histórico acessível à população e
ao público visitante, por meio de ações de educação patrimonial e cursos de capacitação,
que serão determinantes para o processo de preservação dos bens culturais do patrimônio
arqueológico e para beneficiar a comunidade.
Após o reconhecimento da importância deste sítio para o mercado turístico, revela um enorme
potencial para segmento do Arqueoturismo e a possibilidade de seu egresso nos roteiros como
um produto histórico-cultural, capaz de gera renda pelo efeito multiplicador do turismo para a
população autóctone. Dessa forma, desde que bem planejado e a população atue no processo
participativo, o Arqueoturismo poderá promover o desenvolvimento econômico do município; e
ainda representará mais uma oportunidade de negócio para o desenvolvimento turístico do Estado
do Pará.
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