V Encontro Nacional da Anppas 4 a 7 de outubro de 2010 Florianópolis - SC – Brasil ______________________________________________________ Análise do Potencial Arqueoturístico na Comunidade de Moju-PA. Gisele Lopes Moreira (UFPA) Turismóloga, Especialista em Estudos Culturais da Amazônia [email protected] Resumo O Turismo Cultural, além de seus efeitos sobre a economia, com criação de novos postos de trabalho, contribui para a coesão social, para a preservação do patrimônio cultural, o desenvolvimento comunitário e o conseqüente aumento da identidade local. O arqueoturismo é um segmento oriundo do Turismo cultural e, ainda que incipiente, vem ganhando destaque no cenário nacional e no Estado do Pará, que apresenta enorme potencial por possuir grande diversidade de sítios arqueológicos históricos, localizados nos centros urbanos e, principalmente, em áreas naturais rurais. Esta atividade destaca-se para a região como mais uma alternativa de desenvolvimento econômico-social e cultural para comunidades autóctones, capaz de promover a preservação das áreas em que estes sítios estão inseridos e melhorar significativamente a qualidade de vida da população local. Como estratégia metodológica deste trabalho, aliou-se um referencial teórico às pesquisas de campo, que resultaram em um diagnóstico da realidade local no entorno do sítio Jaguarari e uma análise do potencial para o turismo arqueológico, bem como a viabilidade de um projeto de base comunitária no município de Moju-Pará. Palavras-chave Turismo, Patrimônio cultural, Arqueoturismo, Comunidade. V Encontro Nacional da Anppas 4 a 7 de outubro de 2010 Florianópolis - SC – Brasil ______________________________________________________ Introdução Atualmente, a atividade turística é considerada como uma das mais expressivas na economia mundial. Além de ser considerada a maior prestadora de serviços no mundo, é responsável por receitas importantes a setores da economia e a eles ligados direta ou indiretamente. O turismo é um grande gerador de empregos, renda e divisas, podendo vir a ser a solução para o desenvolvimento econômico-social de uma nação. De La Torre (1992) evidencia a importância sócio-cultural e econômica da atividade turística, comprovando que esta, se bem desenvolvida, é capaz de gerar benefícios para todos os envolvidos, ou seja, podendo ser uma das ferramentas para o desenvolvimento de localidades com potencial para tal. Entretanto, ao fazer uma análise do turismo como um fenômeno sóciocultural, econômico, ambiental e científico, depara-se com uma atividade complexa, que não depende apenas de belas paisagens, mais sim de profissionalismo, estudos e pesquisas baseados no planejamento sustentável. No estado do Pará, há um vasto número de sítios arqueológicos que favorecem a prática do Arqueoturismo ou Turismo Arqueológico. Isso se deve ao fato de possuir uma extensa rede hidrográfica e solos férteis de várzea que favorecem os povoamentos às margens dos rios e propiciam a criação de aldeias e vilas rurais, que atualmente são objetos de pesquisa da arqueologia, por meio do estudo de sítios arqueológicos ricos em história, acumulada desde os primeiros habitantes amazônicos à chegada dos portugueses e expedições missionárias. Em muitos destes sítios, como no sítio Jaguarari, já foi realizado o salvamento arqueológico por meio de escavações detalhadas, onde os bens culturais foram resgatados e analisados, o que o deixa em condições favoráveis para o desenvolvimento do Arqueoturismo. Esses sítios aguardam por uma iniciativa inovadora que fortaleça os laços de identidade cultural de municípios e comunidades locais e principalmente, preservem o patrimônio. Este trabalho apresenta o diagnóstico da realidade local e uma análise do potencial arqueoturístico do Sítio Jaguarari, localizado no município de Moju, próximo à Rodovia Alça Viária. Para tanto, é necessário esforço integrado dos diversos atores do processo: órgãos governamentais, empresas privadas, residentes, turistas, profissionais do turismo e da arqueologia e outras áreas afins, que deverão integrar os recursos naturais e culturais por meio de um processo gradual de desenvolvimento. Durante o ”Fórum de Turismo e Arqueologia da Amazônia” realizado no Pará em 2005, foi constatado que os casos mais freqüentes de danos ao patrimônio arqueológico estão vinculados aos grandes projetos empreendedores e a utilização desenfreada do turismo nas áreas dos sítios V Encontro Nacional da Anppas 4 a 7 de outubro de 2010 Florianópolis - SC – Brasil ______________________________________________________ arqueológicos, que não leva em consideração o valor histórico e cultural que representam para a humanidade. A implantação desses grandes projetos desenvolvimentistas e obras de engenharia (estradas, ferrovias, hidrelétricas, edificações, etc) podem causar diversos impactos negativos ao patrimônio arqueológico. Como exemplo, podemos citar o projeto “Alça Viária”, executado pelo Governo Estado do Pará, no ano de 2000 com a finalidade de construir um sistema rodoviário de 66 Km de extensão, visando integrar a região metropolitana de Belém ao sul do estado. As obras deste projeto, que incluíram a abertura e pavimentação de estrada e construção de pontes, causaram uma série de problemas, dentre os quais, os cortes realizados no terreno que colocaram em risco a estabilidade de estruturas arqueológicas e a destruição das camadas de solo com material arqueológico, portanto, danos irreversíveis aos sítios históricos e à paisagem natural, além de contribuir para o aumento da violência e insegurança na comunidade local. Esta é a situação atual em que se insere o objeto de estudo deste trabalho. Objetivos Este trabalho consistiu em diagnosticar e identificar potencialidades e oportunidades para o incremento do Turismo na área de entorno do sítio histórico Jaguarari, localizado próximo ao empreendimento da Alça Viária, município de Moju, Pará. Visou ainda, evidenciar esta prática como uma alternativa promissora para o desenvolvimento regional sustentável a partir da análise de diagnóstico realizado na comunidade local, proporcionando a preservação dos patrimônios natural e cultural, o aumento da geração de renda e conseqüente melhoria da qualidade de vida para a população autóctone. Metodologia A pesquisa teve caráter qualitativo e quantitativo, por meio de trabalho de campo, aliado às pesquisas bibliográficas e documentais. Foi de grande relevância levantar a situação atual do sítio arqueológico Jaguarari, com base em projetos e teses publicadas sobre a região, em fatos históricos, depoimentos de profissionais de empresas e instituições ligadas ao tema e, principalmente, em relatos coletados na comunidade. No decorrer deste trabalho, foi necessário primeiramente abordar as implicações relativas ao tema, como as bases teóricas pertinentes ao Turismo e à Arqueologia. Estas reflexões fundamentaram a realização de uma pesquisa detalhada da área a ser explorada, que buscou analisar as potencialidades do Jaguarari para o turismo: os atrativos locais, a acessibilidade, a demanda esperada, a viabilidade do projeto, dentre outros. V Encontro Nacional da Anppas 4 a 7 de outubro de 2010 Florianópolis - SC – Brasil ______________________________________________________ As fontes de informação foram obtidas em entrevistas com profissionais e pesquisadores da área, e em questionários aplicados nas residências ribeirinhas da área de entorno do sítio Jaguarari, utilizando os recursos de memória oral e escrita, junto às pessoas da comunidade. Os métodos e técnicas utilizados para coleta de dados foram: ¾ Levantamento bibliográfico e documental em arquivos, bibliotecas e instituições de pesquisa; ¾ Reconhecimento da área para observar potencialidades, atrativos e estado de conservação dos patrimônios, e realizar o registro fotográfico da situação atual local; ¾ Realização de um diagnóstico que identificassem entraves e atrativos, bem como a descrição do sítio e sua relevância histórica, de acordo com o levantamento de dados e observações em campo; ¾ Aplicação de questionários e entrevistas com comunitários e representantes de instituições ligadas ao turismo. Os questionários aplicados aos moradores serviram para verificar suas expectativas em relação ao desenvolvimento do turismo na comunidade; e as entrevistas foram importantes para saber opiniões de profissionais e estudiosos da área sobre o Arqueoturismo e o efeito sobre as comunidades e patrimônios culturais. As entrevistas foram realizadas nos municípios de Belém e Moju. Em Belém, foram ouvidos os representantes de órgãos públicos e instituições de pesquisa e ensino ligadas à arqueologia e ao turismo. O direcionamento da coleta de dados foi voltado à comunidade local, administração pública, setor privado e representantes da indústria turística, fontes potenciais de informação. Durante os depoimentos, verificou-se inicialmente o grau de conhecimento dos entrevistados a respeito do turismo e da arqueologia e posteriormente, tratou-se de descobrir o conhecimento que as pessoas detêm sobre o segmento chamado Arqueoturismo e sua capacidade de promover melhorias para a população e a valorização e preservação do patrimônio arqueológico. Em um último momento, discorreu-se da possibilidade de implantação e viabilidade de um projeto que atenda, tanto as necessidades do sítio, quanto beneficie a comunidade local, por meio de um projeto sustentável adequado para o sítio Jaguarari. V Encontro Nacional da Anppas 4 a 7 de outubro de 2010 Florianópolis - SC – Brasil ______________________________________________________ Caracterização e Análise dos resultados O sítio Jaguarari localiza-se na margem direita do rio Moju, nas proximidades de sua confluência com o rio Acará, junto à ponte Moju-Alça, da rodovia Alça Viária. Nos dias atuais, a área compreende uma fazenda de rebanho, que é patrimônio do grupo empresarial Y.Yamada, que lá desenvolve atividade de pecuária. O acesso ao sítio se dá pela BR - 316, percorrendo a Rodovia Alça Viária, no sentido BelémBarcarena. É também possível chegar ao local por via fluvial, porém, este serviço fica restrito a embarcações particulares (ver figura 01). Figura 01 - Mapa de acesso ao sítio Jaguarari Fonte: Tese de doutorado"Um Modelo da Agroindústria Canavieira Colonial no Estuário Amazônico: Estudo Arqueológico de Engenhos dos Séculos XVIII e XIX" (Marques, 2004). O sítio Jaguarari apresenta um grande potencial para a atividade turística, visto que é considerado um sítio arqueológico histórico, por estar localizado num ambiente natural, associado a “acontecimentos passados, tradições populares, criações culturais ou da natureza e a obra dos homens, que possuam valor histórico, etnológico, paleontológico ou antropológico” (SECULT/DEPHAC, 2002, p.38). Além de o sítio possuir toda uma importância histórica para a região, também é constituído de atrativos que podem se tornar turísticos se organizados e possui um rico patrimônio arqueológico. A história que compõe o sítio Jaguarari merece grande consideração, porque retrata a importância do local para o desenvolvimento da região ao longo do processo de colonização. A sua origem data do séc. XVII, quando o Jaguarari era de propriedade do Sr. Bernardo Serrão V Encontro Nacional da Anppas 4 a 7 de outubro de 2010 Florianópolis - SC – Brasil ______________________________________________________ Palmela e sua esposa, que fizeram doação das suas terras aos padres da Companhia de Jesus, com a garantia de que estes sustentassem o casal até a morte. A primeira casa e a igreja foram construídas neste mesmo período. No séc. XVIII já havia no local a casa grande, casas de vivenda e algumas “casas térreas”, uma engenhoca na beira do rio, a fábrica de aguardente que gerava bons lucros; uma olaria; uma oficina de ferreiros; uma fábrica de canoas, um curral de gado, uma casa de farinha, com sua roda de ralar mandioca, tecelões, carpinteiros etc. Na fazenda cultivava-se milho, arroz, cacau e café. Enfim, nela eram praticados os mais variados ofícios. Foi também no século XVIII, que foram feitas ilustrações do engenho, durante a viagem filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira em 1784, que demonstram a beleza da arquitetura do lugar. (figura 02). Figura 02 – Iconografia do casarão do engenho. Fonte: Vista em perspectiva do engenho de açúcar do Capitão Ambrósio Henriques, datada de 1784, incluída na obra Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira. No início do séc. XX, o lugar foi propriedade de Francisco Libon, alemão que implantou no local uma colônia agrícola. Segundo um antigo morador, nesta época haviam no local quase trinta casas, enfileiradas na beira do rio, e também com um moinho de arroz e uma serraria, movida à água. A roda dá água além de movimentar a serraria, acionava um motor que gerava eletricidade para todas as casas. E atualmente, no séc. XXI, o local é apenas utilizado como fazenda de rebanho, restando com algumas estruturas do antigo engenho. Em 1996, a área foi objeto de um estudo realizado no projeto “Levantamento de Sítios de Engenho no Estuário Amazônico”, através do qual se constatou sua importância arqueológica como remanescente de engenho colonial, agregando também um valor histórico promissor para o turismo. V Encontro Nacional da Anppas 4 a 7 de outubro de 2010 Florianópolis - SC – Brasil ______________________________________________________ A área em que o sítio está inserido é favorecida por uma paisagem natural exuberante, composta pelo rio Moju, que recebe influência da maré e permite o tráfego de embarcações, passeios fluviais, pesca e outras atividades ; pela floresta nativa, que conta com diversos exemplares da flora amazônica, com frutas típicas da região amazônica, como taperebá, castanha do Pará, cupuaçu, açaí etc. Restam ainda no local, estruturas que fazem parte do patrimônio arqueológico do local, ricas em história e cultura como: as ruínas de uma igreja do séc. XVII (com paredes de até 1m de espessura), que, ora foi em homenagem a Nossa senhora de Assunção, ora foi chamada de Nossa senhora do Carmo até pouco antes de ser desativada (ver fotografia 01). Não se sabe ao certo a quando ocorreu essa mudança; os alicerces do antigo engenho de cana-de-açúcar foram soterrados após as escavações, para que não despertasse a atenção de vândalos e curiosos; a calha da roda d’água, construída na metade do séc. XX ainda em boas condições (ver fotografia 02); e possui ainda uma grande variedade de vestígios materiais históricos e pré-históricos, encontrados durante as escavações do grupo de pesquisa do Salvamento arqueológico do MPEG(ver fotografia 03). De acordo com Marques1 (2004), foram coletados no local, mais de 4.000 fragmentos de cultura material, que variam entre cerâmicas indígenas, garrafas de vidro para vinhos e cervejas, louças de origem européia como faianças e faianças finas. Fotografia 01 – Ruínas da Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Fonte: Equipe do Programa de Salvamento e Monitoramento de Sítios Arqueológicos no Traçado da Alça Rodoviária- BELÉM/PA, 2001. 1 Fernando Luiz Tavares Marques é doutor em História PUC/RS e pesquisador do setor de arqueologia histórica do Museu Paraense Emílio Goeldi em Belém –Pará. V Encontro Nacional da Anppas 4 a 7 de outubro de 2010 Florianópolis - SC – Brasil ______________________________________________________ Fotografia 02 - Calha da roda d’água da metade do séc.XX Fonte: Equipe do Programa de Salvamento e Monitoramento de Sítios Arqueológicos no Traçado da Alça Rodoviária- BELÉM/PA, 2001. Fotografia 03 – Exemplos de cultura material encontrada durante as escavações no Jaguarari. Fonte: Equipe do Programa de Salvamento e Monitoramento de Sítios Arqueológicos no Traçado da Alça Rodoviária- BELÉM/PA, 2001 V Encontro Nacional da Anppas 4 a 7 de outubro de 2010 Florianópolis - SC – Brasil ______________________________________________________ O local não dispõe de qualquer infra-estrutura específica para o turismo ou básica, como: saneamento, energia, telefonia. Conta apenas com a facilidade de acesso pela rodovia Alça Viária. Contudo, é limitada por via terrestre por onde circulam veículos particulares ou coletivos. Existem alguns entraves no local, provocados pela ação humana, que podem ser destrutivos do patrimônio arqueológico. Um dos exemplos mais representativos está relacionado às grandes obras de engenharia, como a construção de estradas e usinas hidrelétricas, nas quais as ameaças ao patrimônio são claramente visíveis. Em 2002, o sítio foi parcialmente destruído por obras de construção da Rodovia Alça Viária, projeto implementado pelo Governo do Estado do Pará, através da Secretaria Estadual de Transportes (SETRANS). Por conta desta ação tornou-se necessário a execução do “Programa de Salvamento e Monitoramento de Sítios Arqueológicos no Traçado da Alça Rodoviária – Belém/Pa”, nos sítios localizados na área de influência direta e indireta do empreendimento. As escavações feitas na área junto à igreja e também no cemitério existente possibilitaram a descoberta de indícios relativos à pré-história e ao período colonial, época em que lá funcionou uma aldeia jesuítica e posteriormente um engenho. Também foram evidenciados pisos e alicerces possivelmente da sacristia e outras construções anexas. O Projeto Alça Viária, além de destruir parte do antigo piso da área frontal à igreja e da perda total de expressivo volume de solo com várias camadas arqueológicas, ocasionou a principalmente a descaracterização integral da paisagem da região (fotografia 04). Outra ação que acarretou danos às ruínas do sítio arqueológico, na área da fazenda, ocorreu em 2004 com a implantação de uma torre de linha de transmissão de energia elétrica sobre a mesma. Fotografia 04 – Área devastada devido às obras de construção da Ponte Moju-Alça. Fonte: Equipe do Programa de Salvamento e Monitoramento de Sítios Arqueológicos no Traçado da Alça Rodoviária- BELÉM/PA, 2001. V Encontro Nacional da Anppas 4 a 7 de outubro de 2010 Florianópolis - SC – Brasil ______________________________________________________ Existem ainda, diversas problemáticas prejudiciais á conservação do sítio Jaguarari relacionadas aos seguintes pontos: o acesso, uma vez que as estradas estão sem manutenção e apresentam trechos esburacados; a estrutura física da ruína da igreja encontra-se ameaçada pela vegetação, pois não há manutenção da área regularmente; a segurança do sítio fica comprometida diante da proximidade com a Rodovia, que torna o sítio muito vulnerável a vândalos e ladrões, uma vez que o local não está devidamente cercado e qualquer pessoa pode entrar a qualquer hora do dia ou da noite; ausência de infra-estrutura de acesso ao interior do sítio, bem como placas de sinalização que identifiquem o sítio arqueológico como área preservada. Além das questões abordadas acima, existem outras ligadas ao âmbito social, que podem surgir ou mesmo serem potencializadas, ameaçando a viabilidade de projetos turístico para o sítio Jaguarari, tais como: violência; abandono das atividades tradicionais; prostituição etc. Conforme observado durante as visitas à área, a comunidade que vive no entorno do sítio apresenta-se como um estilo de vida simples e humilde, possuindo como principal fonte de renda a extração de frutas tropicais, com destaque para o açaí, muito abundante no período de safra, de julho a dezembro (fotografia 05). No período restante do ano, os moradores passam por situações de dificuldades, sobrevivendo com uma renda mensal de menos de um salário mínimo por mês. Fotografia 05 – Morador da comunidade após a extração do açaí. Fonte: Gisele L. Moreira, 2007. V Encontro Nacional da Anppas 4 a 7 de outubro de 2010 Florianópolis - SC – Brasil ______________________________________________________ O nível de escolaridade da população é muito baixo, somente 6% conseguem alcançar o nível médio e cerca de 30% estão no grupo dos que são analfabetos ou freqüentaram apenas a alfabetização. Na comunidade há apenas uma escola de ensino fundamental, a Foz do Cabresto, voltada para alunos de 1ª a 4ª séries. Com isso, as crianças menores de sete anos não têm acesso à escola e os jovens que deveriam cursar a partir da 5ª série são obrigados a percorrer longas distâncias, de canoa, para estudar na comunidade vizinha. Estas dificuldades contribuem para uma grande evasão escolar. Em geral, as pessoas da comunidade não costumam participar de atividades sócio-culturais ou de lazer, sendo tomadas pelo ócio, dando margem ao surgimento de problemas sociais. Por outro lado, algumas famílias dedicam-se à vida religiosa, freqüentando a única igreja do lugar, que é um templo adventista localizado próximo da escola. Verifica-se então que esta comunidade necessita de atividades educativas, culturais e profissionalizantes, que proporcionem tanto uma conscientização da preservação do patrimônio arqueológico, quanto uma fonte de renda extra, o que certamente contribuiria para melhorar as condições de vida local. Quando foram analisados os aspectos sócio-econômicos da comunidade, percebeu-se que há uma grande preocupação dos pais quanto ao futuro dos filhos, pois a educação local atende apenas uma pequena demanda de crianças e algumas ficam abandonadas ao ócio. Acredita-se que a preservação do patrimônio possa ser um grande aliado na educação de jovens e crianças, para que eles reconheçam sua própria história, conforme depoimento de Catarina Leal2: Eu espero realmente que um projeto desse aí traga a formação de educação desse povo, nós temos muitos jovens carentes que às vezes ficam jogados nas drogas, às vezes vão até para o lado da marginalidade por não ter uma opção, não ter um apoio social, não ter assim uma educação mais com uma base, entendeu? E eu acho que nessa parte aí, a educação pra gente aqui é o meu argumento, é o fundamental pra mim (informação verbal). Com relação às obras de grandes empreendimentos, que se instalaram na área da comunidade, como as estradas, a ponte Alça Viária e as torres da rede de alta tensão da Eletronorte, existem dois principais entraves observados: a violência que ocorre devido à proximidade com a rodovia 2 Catarina Leal, 46 anos e moradora da comunidade há mais de 10 anos. V Encontro Nacional da Anppas 4 a 7 de outubro de 2010 Florianópolis - SC – Brasil ______________________________________________________ (assaltos) e ainda a passagem da linha de transmissão sobre as casas, que no entanto, não possuem energia própria. Esta situação é descrita por Rosa Corrêa3: A alça viária beneficiou em muito a comunidade, trouxe desenvolvimento, transporte, acesso as outras localidades. E trouxe insegurança também, aumentou a violência. Já fomos assaltados milhares de vezes, tem muitos marginais que chegam de moto e invadem as casas, tem uns que levam barco, assaltam vans (...). (informação verbal) Outra questão relevante é que a comunidade sente a necessidade de alternativas de obtenção de renda, uma vez que a única fonte de renda é baseada no extrativismo do açaí, 77% sobrevivem dessa atividade, que tem produção apenas no período de safra. Logo, no período diferente deste, a população não possui nenhuma qualidade de vida. Observou-se também que as pessoas têm interesse em se inserir no projeto, por meio de diversas atividades que envolvam mão-de-obra e capacitação profissional, possibilitando oportunidades de empregos diretos e indiretos. O Sr. Pedro Valadares4 afirma: “De várias formas a gente pode ajudar, qualificando pessoas para algumas atividades, como artesanato, até mesmo um guia de turismo, esse tipo de coisa assim” (informação verbal). Fotografia 10 – Depoimento do Sr. Pedro da Silva, colhido durante a pesquisa de campo. Fonte: Gisele L. Moreira, 2007. 3 4 Rosa Corres, 32 anos, mora nas proximidades da ponte da Alça. Pedro Valadares, 48 anos, é um dos moradores mais antigos da comunidade. V Encontro Nacional da Anppas 4 a 7 de outubro de 2010 Florianópolis - SC – Brasil ______________________________________________________ A expectativa maior se dá em torno das oportunidades de geração de renda que este projeto possa proporcionar, como ressaltado pelo o Sr. Francisco Magalhães5: “O projeto melhoraria a comunidade no financeiro e na educação, ia melhorar muito, ia ajudar demais a comunidade” (informação verbal). Segundo o Sr. João Valadares6, “O novo projeto que transforma o sítio Jaguarari num local de visitação de turistas em que a comunidade esteja envolvida é excelente porque é o sonho de todo mojuense de trazer algo assim, é histórico isso” (informação verbal). Ainda com base nos fundamentos da pesquisa, observou-se que uma parcela significativa dos entrevistados, 38%, pouco conhecia ou desconhecia por completo o arqueoturismo, fato justificado pela maioria por se tratar de um segmento novo; os outros entrevistados, correspondente aos 62% restantes, demonstraram amplo conhecimento do assunto, relatando diversas experiências. Outro elemento identificado pelos depoimentos está ligado a questão da viabilidade para a prática do Arqueoturismo, que teve 100% de aceitação. Contudo, ressaltou-se sempre a importância de um planejamento que garanta ao sítio e a comunidade do entorno sustentabilidade social, cultural e econômica. Para o pesquisador Paulo Canto7, a discussão sobre o assunto deve iniciar ainda na Academia: (...) o desenvolvimento de políticas públicas para os sítios arqueológicos devem criar uma interação, uma respeitabilidade muito maior entre turistas e a área que ele visita, por que ai ele já vai ter a noção de que ele não pode chegar simplesmente e destruir e se envolver com a comunidade de uma maneira, que muitas vezes, leva até a prostituição (...) eu vejo que uma nova realidade pode ser implementada com esses segmentos e elas têm que ser discutidas academicamente (informação verbal). Para o professor de Turismo da UFPA, Paulo Pinto8, é imprescindível a inserção da comunidade local em todo o processo: (...) essa sustentabilidade econômica, social, cultural vai depender de como se desenvolverá esse segmento, os roteiros, as atividades econômicas (...) pode sim desde que a sustentabilidade do ponto de vista social é uma perspectiva, ela tem que ser percebida (...) primeiro é a 5 Francisco Magalhães, 43 anos, morador local. João Valdares, construtor de embarcações e morador local. 7 Paulo Roberto do Canto Lopes é Msc. em Arqueologia Histórica UNIRIO/RS e pesquisador da área de arqueologia do Museu Paraense Emílio Goeldi em Belém. 8 Paulo Moreira Pinto é Msc em Serviço Social e coordenador do curso de Turismo da Universidade Federal do Pará. 6 V Encontro Nacional da Anppas 4 a 7 de outubro de 2010 Florianópolis - SC – Brasil ______________________________________________________ própria organização da comunidade que tem acontecer, entorno do que se quer fazer, se é arqueologia tem que dá condições para a comunidade entender o mínimo de arqueologia (...) elas precisam começar pela organização social dessas comunidades para que elas entendam que são importantes para o desenvolvimento daquele produto e como podem ser inseridas (...) (informação verbal). Como parte integrante do processo, também foi ouvida a administração pública do município do Moju, representada pela Secretaria de Turismo, Lazer, Desporto e Cultura, que mostrou-se interessada e disposta a conduzir o projeto adiante, inclusive assumindo a responsabilidade de gestão do sítio. De acordo com a secretária de cultura e turismo de Moju, Carmen Souza9: O projeto a gente sabe que é viável, pelas discussões que tivemos com a comunidade, eles já estão conscientes que é importante para eles, já conversamos com nosso gestor, o prefeito, que sentiu interesse que seja feito esse trabalho(...). O Fernando Yamada já liberou a área, talvez ele possa, quem sabe, investir lá (...) (informação verbal). A preservação do patrimônio tem entre suas funções o papel de realizar “a continuidade cultural”, ser o elo entre o passado e o presente e nos permite conhecer a tradição, a cultura, e até mesmo quem somos e de onde viemos. Desperta o sentimento de identidade. Margarita Barreto defende a “recriação de espaços revitalizados”, como um dos fatores que podem “desencadear o processo de identificação do cidadão com sua história e cultura (Barreto, 2000. P.44). Conclusão O sítio Jaguarari apresenta um grande potencial para a atividade turística, visto que é considerado um sítio arqueológico histórico, por estar localizado num ambiente natural, associado a “acontecimentos passados, tradições populares, criações culturais ou da natureza e a obra dos homens, que possuam valor histórico, etnológico, paleontológico ou antropológico” (SECULT/DEPHAC, 2002, p.38). A história do sítio Jaguarari merece grande consideração, porque retrata a importância do local para o desenvolvimento da região ao longo do processo de colonização. Atualmente, os vestígios destas ocupações neste terreno encontram-se esquecidos pelo passar do tempo e pelo desconhecimento por parte da comunidade que hoje se encontra 9 Carmen Souza é secretária de desportos, lazer e cultura do município de Moju - Pará. V Encontro Nacional da Anppas 4 a 7 de outubro de 2010 Florianópolis - SC – Brasil ______________________________________________________ no local. Contudo, este projeto pretende tornar este sítio histórico acessível à população e ao público visitante, por meio de ações de educação patrimonial e cursos de capacitação, que serão determinantes para o processo de preservação dos bens culturais do patrimônio arqueológico e para beneficiar a comunidade. Após o reconhecimento da importância deste sítio para o mercado turístico, revela um enorme potencial para segmento do Arqueoturismo e a possibilidade de seu egresso nos roteiros como um produto histórico-cultural, capaz de gera renda pelo efeito multiplicador do turismo para a população autóctone. Dessa forma, desde que bem planejado e a população atue no processo participativo, o Arqueoturismo poderá promover o desenvolvimento econômico do município; e ainda representará mais uma oportunidade de negócio para o desenvolvimento turístico do Estado do Pará. Referências bibliográficas BARRETTO, Margarita. Manual de Iniciação ao Estudo do Turismo. Campinas, SP – Papirus, 1995. BARRETTO, Margarita. Turismo e legado cultural: as possibilidades do planejamento. 4. ed. Campinas: Papirus, 2003. BENI, Mário Carlos. Análise Estrutural do Turismo. 11ª ed. rev. atualiz. – São Paulo: senac, 2006 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. 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