Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciência e Tecnologia - PPGECT Da História Natural a ascensão da Ecologia como área de estudos para a Biologia Celso Aparecido Polinarski Edilaine Dalzotto Maria Júlia Corazza Nunes Resumo O presente artigo apresenta uma revisão sobre a ascensão da ecologia como área da Biologia em um posicionamento histórico. A descrição foi desenvolvida sem diferenciar as concepções filosóficas dos naturalistas citados, considerando somente os pontos estruturantes da Ecologia atual. Retoma alguns pontos da história natural de filósofos e pensadores gregos, Renascentistas e da Idade Moderna, descrevendo a influência destes para o crescimento da Ecologia como área do saber. Posiciona as teorias de Lamark e Darwin, e também a importância do Brasil na criação de uma palavra que desponta para a compreensão dos seres vivos e de suas relações diretas e indiretas com a matéria inanimada. E por final, apresenta a forma que a ecologia foi pensada no início e meados do século XX, sendo aquela que influência a muitos ecólogos até o momento. Palavras-chave: Ecologia moderna, História natural, Meio ambiente. Abstract Natural History and the rise of ecology as a field of study for Biology II Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia 07 a 09 de outubro de 2010 Artigo número: 191 ISSN: 2178-6135 Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciência e Tecnologia - PPGECT This article presents a review about the rise of ecology as an area of Biology in a historical positioning. The description was developed without differentiating the philosophical conceptions of the naturalists mentioned, considering only the structuring points of current Ecology. It recovers a couple of points of the Natural History of Greek philosophers and thinkers, Renaissance and from Modern Age, describing their influence on the growth of Ecology as a knowledge area. It stands the Lamark and Darwin`s theories, and also Brazil`s importance in creating a word that rises to the understanding of live organisms and their direct and indirect relations with the inanimate matter. And by the end, it presents how the Ecology was studied in the beginning and middle of twentieth century, and one that influence many ecologists until now. Keywords: Modern Ecology, Natural History, Environment II Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia 07 a 09 de outubro de 2010 Artigo número: 191 ISSN: 2178-6135 Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciência e Tecnologia - PPGECT Introdução Analisar o meio em que vivemos é certamente algo singular, pois seria promover a relação de nós para nós mesmos. Fantástico afirmar que o conhecimento posto até o momento nos deprime e ao mesmo tempo encanta, além de abrir uma diversidade de opiniões e apontar fatores, variáveis e questionamentos traduzidos em concepções humanas. O trabalho de estudar as condições do meio natural foi ofício para muitas áreas quando vemos a história, passando pela filosofia, matemática, física, geografia e principalmente a biologia, disciplina diretamente estabelecida da História Natural. Neste artigo buscamos descrever de forma histórica a compreensão da organização do conhecimento que promoveu a ascensão da ecologia como área de estudos para a biologia e a conceituação de termos para esta área. Também destacamos algumas diferenciações na sistematização da ecologia para a compreensão da organização dos sistemas vivos e da interação destes com o meio. Ao traçar a linha cronológica da evolução histórica da ecologia, verifica-se que, desde os tempos mais remotos na Grécia os trabalhos de inúmeros filósofos continham referências a temas ecológicos (ROCHA, 2006). Assim, analisar uma temática de tal importância não é mera conceituação, então dispomos de muitas dúvidas que a história responde por várias descrições, estruturando caminhos e formulações que poderão direcionar pensamentos e perspectivas de análises diferenciadas as nossas indagações. Descrevemos neste trabalho a ecologia nascente da História Natural de forma linear, não diferenciando as características filosóficas dos naturalistas citados. História que influenciou o desenvolvimento da ecologia Buscar descrever a história da ecologia é retornar a um passado longínquo ao nosso pensar, mas em questão histórica isto é necessário. As relações entre o homem e a natureza surgem, provavelmente, com o aparecimento do homem bípede, ou mesmo antes se considerarmos os ancestrais como indivíduos diretamente relacionados com a natureza e que promovem mudanças estruturais no meio em que vivem. Certamente não temos dados científicos para comprovar que ocorriam alterações, mas encontramos fósseis, cemitérios de animais e humanos, restos de mantimentos e utensílios domésticos, vestimentas e mesmo desenhos seculares em rochas apresentando à ação do homem sobre a natureza. II Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia 07 a 09 de outubro de 2010 Artigo número: 191 ISSN: 2178-6135 Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciência e Tecnologia - PPGECT A ecologia não tem um início muito bem delineado. Encontra seus primeiros antecedentes na história natural dos gregos, particularmente em um discípulo de Aristóteles, Teofrasto, que foi o primeiro a descrever as relações dos organismos entre si e com o meio (CASSINI, 2005) Aproximando da instituição da ecologia moderna, encontram-se escritos de grandes pensadores permeando a preocupação de como usar, utilizar, usufruir e principalmente compreender a forma que a natureza se estrutura, com relação aos vegetais, animais e a matéria inanimada. “Na cosmologia grega dos séculos VII e VI a.C., os filósofos jônios, entre eles, Tales de Mileto, Anaximandro, Anaximenes e seus seguidores, concebiam o mundo da natureza como a inteligência da natureza, baseando-se no princípio de que: “O mundo da natureza era não só vivo como inteligente: não só um vasto animal dotado de “alma”, ou vida própria, mas também animal racional, com “mente” própria” (COLLINGWOOD, s.d., apud MEDEIROS, 2002, p. 72). A cronologia da evolução da Ecologia remonta a antiga Grécia com os naturalistas da época ou aqueles que trabalharam com a história natural. Tanto Hipócrates (460-377a.C.) como Aristóteles (384-322 a.C.), entre outros, desenvolveram idéias e princípios ecológicos, embora não possuíssem uma palavra específica (ROCHA, 2006). Em grande parte descritiva, mas também com trabalhos e principalmente com muitas observações, a história natural foi singular ao desenvolvimento da ecologia. Desde antes de Aristóteles até Lineu e Buffon a ideologia dominante era a teologia natural, mesmo com formulações de teorias explicativas estas colocavam a natureza como algo harmônico. Harmonia posta por um ser superior e este não permitiria ser diferente (MAYR, 2008). De acordo com essa compreensão de mundo, a harmonia na natureza ocorreria independente do número de filhos que um casal reprodutivo obtivesse. Sendo a luta pela sobrevivência benigna para manter o equilíbrio demográfico, poderia ocorrer o controle por diversos fatores, climáticos, predação, doenças ou insucesso na reprodução. Desta forma a natureza operava como uma máquina programada (MAYR, 2008). Destes pensadores e estudiosos da história natural, Teofrasto discípulo de Aristóteles, foi o primeiro a descrever as relações dos organismos entre si e com o meio (SENNA e MAGRIN, 2009). Aristóteles também empregou trabalho sobre a natureza, entretanto seus escritos revelam intenção em discutir como a natureza se reproduz, cresce e as áreas que se desenvolvem, sempre citando exemplos (ROCHA, 2006). II Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia 07 a 09 de outubro de 2010 Artigo número: 191 ISSN: 2178-6135 Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciência e Tecnologia - PPGECT Durante o período Renascentista, muitos cientistas realizaram diversos e interessantes trabalhos no campo da ecologia não se referindo ou denominando essa palavra como campo de estudo. Aos trabalhos dessa época desenvolvidos pelos naturalistas eram nitidamente separados em Ecologia Vegetal e Ecologia Animal (ROCHA, 2006). Na Renascença, os estóicos Zenão de Cício e Crísipo de Solis (336-210 a.C) e os epicuristas Epicuro (341-270 a.C) e Tito Lucrécio (96-55 a.C), concebiam a ciência sobre a natureza das coisas como a base para as suas condições éticas e morais, além de opostas entre si, ambas rejeitavam, de certo modo, as idéias de Aristóteles. Desta forma compreendiam a natureza como dinamista, espiritualista e “vitalista” (MEDEIROS, 2002). “Os epicuristas tinham uma concepção materialista da realidade, admitindo que a “criação” não era obra dos deuses. Tanto o mundo vivo como o inanimado eram constituídos de átomos (idéia proveniente da teoria atomista de Demócrito e Leucipo) e sua origem estava nas causas naturais” (MEDEIROS, 2002). Na Idade Moderna ocorre um despertar de idéias e trabalhos “ecológicos”, com cientistas como Carl von Lineu (1707-1772), Charles Lyell (1797-1875), Charles Robert Darwin (1809-1882) e mesmo Ernst Heinrich Haeckel (1834-1919), o último considerado “pai da Ecologia”. Todos citados e outros contribuíram de forma significativa no campo da Ecologia, porém, ainda mostravam-se influenciados pela noção aristotélica finalista e divina (ROCHA, 2006; ACOT, 1990). Séculos XVIII e XIX: estudos ecológicos em questão Para aqueles que dedicavam para o estudo da natureza, a preocupação com a quantificação era secundária, sendo o levantamento de plantas e animais do planeta considerado a principal tarefa dos naturalistas. Porém a visão integradora e de relações já fazia parte da forma de interpretação da natureza (NUCCI, 2007). Nucci (2007, p. 81), destaca como exemplo: “o médico e geógrafo Alexander von Humboldt (1769-1859), que descrevendo formalmente as relações entre clima, latitude e altitude, chega, em 1805, ao conceito de geobotânica cujo objeto era o estudo das relações das plantas com o ambiente, o que sugere uma visão mais integradora da natureza.” II Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia 07 a 09 de outubro de 2010 Artigo número: 191 ISSN: 2178-6135 Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciência e Tecnologia - PPGECT Em viagem pela América, iniciada em 1799, Humboldt já afirmava: que era possível descobrir os vínculos existentes entre os seres vivos e a natureza inanimada, estudar suas relações mútuas e explicar como se distribuem no espaço; prestou, também, uma grande atenção na perspectiva histórica, interessando-se pela evolução e pelas trocas observáveis na natureza, rompendo-se, assim, com a linha tradicional de pensamento que considerava a natureza como algo estático e imóvel (CAPEL e URTEGA, 1984 apud NUCCI, 2007 p. 81). Segundo Medeiros (2002), para conhecer um pouco mais as concepções de natureza durante o século XVIII e XIX, recorreu-se à vida e às obras dos naturalistas, como Carl von Linné (Lineu) (1707 –1788), George-Louis de Buffon (1707 – 1788), Daubenton (1716 – 1800), Lamarck (1744–1829), Alexandre von Humboldt (1769 –1859) e Charles Darwin (1809 – 1882). Os inventários provenientes das observações dos naturalistas viajantes e as explicações resultantes dos trabalhos experimentais, de campo e de laboratório serviram, durante o século XIX, de base para a primeira e a mais importante teoria integradora da biologia, a teoria da evolução proposta por Lamarck (1744-1829) em 1809 e se baseava na prevalência dos fatores do meio físico (NUCCI, 2007). E 50 anos depois Darwin (1809-1882), propõe a teoria da evolução com base na influência das relações entre organismos, levando à seleção natural. Darwin apontou as infinitas, complexas e ajustadas relações mútuas de todos os organismos entre si e as condições físicas de existência (NUCCI, 2007). As duas teorias opunham-se à noção de um mundo perfeito, ordenado e finalístico, como aquele descrito pelos cientistas do século XVIII. Deixaram aparentes que as relações que ocorrem no meio são aglomeradas e com mudanças, crescimento e desenvolvimento, idéias que passaram a fazer parte das discussões neste tema do século XIX em diante (MEDEIROS, 2002; NUCCI, 2007). Segundo Nucci (2007, p. 82): “Lamarck e Darwin definiram as duas grandes linhas da ecologia e que são partes de sua definição clássica: o estudo das relações recíprocas dos organismos e destes com o ambiente; surge uma teoria integradora, reunindo conhecimentos e conceitos de vários campos do saber”. Para Medeiros (2002), o trabalho e teoria evolucionista de Darwin potencializou o estudo da natureza, ocorrendo desenvolvimento real para as áreas de botânica, zoologia, ciências berço da biologia, e foram abertas as fronteiras para estudos de outras que apareciam somente na história das ciências biológicas: a embriologia, a fisiologia e a genética. II Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia 07 a 09 de outubro de 2010 Artigo número: 191 ISSN: 2178-6135 Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciência e Tecnologia - PPGECT De Ernest Heinrich Haeckel a ecologia sistêmica O biólogo alemão, Ernest Heinrich Haeckel (1834-1919), divulgador das idéias de Darwin, observou que as espécies variavam de acordo com a localização na qual se encontravam e, ao publicar em 1866 o livro “Generelle Morphologie der Organismen”, sugeriu o termo ecologia pela primeira vez, em 1866, por Haeckel, em uma nota de pé de página, substituindo o termo biologia. Na primeira utilização a definição foi restrita: (...) a ecologia (...) ciência da economia, do modo de vida, das relações vitais externas dos organismos etc. (ACOT, 1990; NUCCI, 2007). No segundo volume do livro “Generelle Morphologie der Organismen”, que Haeckel apresenta sua definição mais conhecida: Por ecologia entendemos a totalidade da ciência das relações do organismo com o meio ambiente, compreendendo, no sentido lato, todas as condições de existência (HAECKEL, 1866, apud ACOT, 1990). Em 1868, Haeckel em sua obra “Histoire de la création” descreve a terceira definição da palavra ecologia, visando principalmente à integração da tradição biogeográfica à economia da Natureza: “A ecologia ou distribuição geográfica dos organismos (...) a ciência do conjunto das relações dos organismos com o mundo exterior ambiente, com as condições orgânicas da existência; o que se chamou de economia da natureza, as mútuas relações de todos os organismos vivos num único e mesmo lugar, sua adaptação ao meio que os cerca, sua transformação pela luta para viverem, sobretudo os fenômenos do parasitismo etc”. (HAECKEL, 1874, apud ACOT, 1990, p. 27-28). Embora os ecólogos atuais atribuam para Ernest Heinrich Haeckel o uso do termo “Oekologie”, atual ecologia, outros, anteriormente a Haeckel, já haviam utilizado esta palavra. Em 1858, o norte-americano Henry David Thoreau já havia utilizado o termo. Em 1885, Hans Reiter publicou um livro com o título “Die Consolidation der Physiognomik als Versuch einer Oekologie der Gewaechse” – A consolidação da Fisionomia como Ensaio de Ecologia das Plantas. E em 1897, Conway MacMillan utilizou o termo em seus estudos da vegetação de Minesota. Todos os autores utilizaram o termo ecologia de forma sintética, sugerindo que a palavra era usada amplamente (GOODLAND, 1975 apud VON ZUBEN, 2005). É de conhecimento de todos que naturalistas como Bates, Alfred Russel Wallace, Humboldt, von Martius, Saint-Hilaire, Charles Darwin, dentre outros, visitaram o Brasil especialmente no II Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia 07 a 09 de outubro de 2010 Artigo número: 191 ISSN: 2178-6135 Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciência e Tecnologia - PPGECT século XIX, desenvolvendo estudos de levantamento da flora e fauna, bem como da geologia do Brasil (FERRI, 1980). Para Von Zuben (2001), o Brasil desempenhou um papel de extrema importância no desenvolvimento da ecologia, porém, o público em geral e até mesmo ecologistas desconhecem esta participação. Os trabalhos dos naturalistas citados anteriormente, contribuíram para a formação da área de ecologia, entretanto, outro naturalista e pesquisador, pouco reconhecido nesta área, o dinamarquês Johann Eugen Bülow Warming (1841-1924) foi o primeiro a publicar um livro com estudos ecológicos (VON ZUBEN, 2005). O dinamarquês Warming iniciou sua carreira no Brasil em meados do século XIX, convidado pelo paleontólogo pioneiro da paleontologia sul-americana Peter Wilhelm Lund (1801-1880), qual trabalhava com fósseis precisamente no estado Minas Gerais (AVILA-PIRES, 1999; FERRI, 1980; GOODLAND, 1975 apud VON ZUBEN, 2005). Johann Eugen Bülow Warming, viveu em Lagoa Santa, a 40 Km de Belo Horizonte, de 1863 a 1866, estudando a vegetação da região, com ênfase nos campos cerrados (AVILA-PIRES, 1999; FERRI, 1980; GOODLAND, 1975 apud VON ZUBEN, 2005). Os estudos brasileiros muito contribuíram para a edição pioneira de ecologia “Plantesamfund. Gundtraek af den okologiske Plantegeografi –Philipsen, Ed. Kjobenhavn” – As comunidades Vegetais. Fundamentos de Fitogeografia Ecológica, editada em 1985. (AVILA-PIRES, 1999; FERRI, 1980; GOODLAND, 1975 apud VON ZUBEN, 2005). A publicação “Lagoa Santa: Et Bidrag til den Biologiske Plantegeografi” – Lagoa Santa: Contribuição para a Geografia Fitobiológica – em 1982 foi outro trabalho importante de Warming na área de ecologia (KLEIN, 2002 apud VON ZUBEN, 2005). Para Warming a ecologia procura: “ 1) encontrar as espécies associadas em habitats similares; 2) esboçar a fisionomia da vegetação e da paisagem; 3) responder por que cada espécie tem uma forma e um habitat particulares, por que se agrupam as espécies em comunidades definidas, e por que cada uma dessas comunidades apresenta uma fisionomia característica e 4) analisar os tipos biológicos das plantas a partir das exigências e modalidades de resistência de cada uma ao ambiente, através de suas adaptações morfológicas e anatômicas” (DELÉAGE, 1993 apud VON ZUBEN, 2005 p. 161). II Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia 07 a 09 de outubro de 2010 Artigo número: 191 ISSN: 2178-6135 Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciência e Tecnologia - PPGECT Distanciando da doutrina Darwiniana, qual afirma que a evolução ocorre com a modificação dos descendentes, Warming considerava que são as alterações nas condições climáticas e edáficas da vida das plantas que impulsionavam a sua evolução (AVILA-PIRES, 1999; DELÉAGE, 1993 apud VON ZUBEN, 2005). Segundo o mesmo autor (2005), Warmimg publicou diversos trabalhos sobre sistemática, morfologia vegetal e biogeografia com abordagens na nova área de investigação, a ecologia. As obras de Warming auxiliaram na implantação de termos novos para a ecologia, como o termo “fator Ecológico” que ele apontou para estudos do efeito de fatores como luz, umidade, solo e animais, dentre outros, sobre as plantas, e as adaptações diferenciadas destas a cada fator (VON ZUBEN, 2005). Diversos autores afirmam que a partir das obras de Warming que se formulou a noção de agrupamento vegetal, noção que estabeleceu condições para o conceito de ecossistema definido por Arthur Tansley fundador da primeira sociedade de ecologia, a British Ecological Society, em 1913 (AVILA-PIRES, 1999; DELÉAGE, 1993 apud VON ZUBEN, 2005; GODWIN, 1977 apud VON ZUBEN, 2005). Outro naturalista considerado o pai da ecologia das comunidades (sinecologia, ecossistema), o geógrafo Alexander von Humboldt, um dos fundadores da geografia moderna, publicou: a Geografia das Plantas, 1803, os Quadros da Natureza, 1808 e o Kosmos, publicados em cinco volumes de 1845 a 1862. Estas obras apresentam a concepção de que existe uma harmonia na ordem natural e que a natureza manifesta-se diferenciada na superfície terrestre em função de como ocorre à integração entre os seus elementos (MAYR, 2008; VITTE, 2007). Ao ser alocada como ciência a Ecologia procurou se definir perante aos outros campos do saber e, ao fazer isso, restringiu seu campo de ação e, inevitavelmente, restringiu-se com os limites que lhe foram impostos na época. Todavia, no início, a ecologia, na definição de Haeckel, não conseguiu deslanchar e, na passagem do século XIX para o século XX, ainda permanecia com uma visão mais analítica do que sistêmica. E afirmavam que animais, plantas e humanos são dependentes de seus respectivos ambientes (NUCCI, 2002). O desenvolvimento da Ecologia como ciência se configurou no século XX. Em 1905, o norteamericano Frederick Edward Clements (1874-1945), um ecologista vegetal, publicou o livro “Métodos de Pesquisa em Ecologia”, amplamente recebido pelo mundo Anglo-Saxão, promovendo o aumento da utilização da noção de ecologia (GROENING, 2001). II Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia 07 a 09 de outubro de 2010 Artigo número: 191 ISSN: 2178-6135 Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciência e Tecnologia - PPGECT Nucci (2002) descreve que o ecólogo Arthur Tansley estava ciente e deixou claro que a designação que propôs de ecossistema era modelo abstrato e não uma realidade ecológica, identificável na natureza; entretanto, para aquele momento, foi a visão menos radical e reducionista da organização das comunidades. Na busca por avanços para a Ecologia com visão sistêmica, o que se constatava era uma forte influência de pesquisadores especializados e distribuídos em subáreas da Ecologia e com procedimentos muito mais de análise do que de síntese, assim com influência da mecânica cartesiana-newtoniana (NUCCI, 2002; CAPRA, 1996; MAYR, 2008). No final do século XIX, a mecânica newtoniana, estava suplementada por duas visões diretamente opostas da mudança evolutiva — “a de um mundo vivo desdobrando-se em direção à ordem e complexidade crescentes, e a de um motor que pára de funcionar, um mundo de desordem sempre crescente. Quem estava certo, Darwin ou Carnot?” (CAPRA, 1996 p.54). Segundo o mesmo autor (1996), o biólogo austríaco, Ludwig von Bertalanffy, deu o primeiro passo fundamental para tentar resolver esta questão ao reconhecer que os organismos vivos são sistemas abertos que não podem ser descritos pela termodinâmica clássica. Denominou esses sistemas de "abertos" porque eles precisam se alimentar de um contínuo fluxo de matéria e de energia extraídas do seu meio ambiente para permanecer vivos: “O organismo não é um sistema estático fechado ao mundo exterior e contendo sempre os componentes idênticos; é um sistema aberto num estado (quase) estacionado [...] onde materiais ingressam continuamente vindos do meio ambiente exterior, e neste são deixados materiais provenientes do organismo (Bertalanffy, 1968 apud CAPRA, 1996 p. 54).” Em 1968, após 40 anos de estudos, Ludwig von Bertalanffy apresentou sua Teoria Geral dos Sistemas. Para Bertalanffy, a Biologia seria capaz de substituir a abordagem analítica e mecanicista por uma visão sistêmica, pois sendo essa uma ciência do todo e do organicismo, desempenharia uma diferenciação no papel na nossa visão do mundo (BRANCO, 1989 apud NUCCI, 2007). Certamente o maior impacto da concepção sistêmica da vida é entender que as partes só podem ocorrer com a totalidade integrada, entendida a partir de relações, conexões, contextualizações: A ciência sistêmica mostra que os sistemas vivos não podem ser compreendidos por meio da análise. As propriedades das partes não são propriedades intrínsecas, mas só podem ser entendidas dentro do contexto do todo maior (CAPRA, 1996). II Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia 07 a 09 de outubro de 2010 Artigo número: 191 ISSN: 2178-6135 Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciência e Tecnologia - PPGECT Considerações finais O breve resgate histórico da constituição da Ecologia como ciência mostra que esta área do saber inicialmente se desponta como algo harmônico, onde não ocorreriam intervenções de desordem, e que tudo o que a natureza oferece é para ser utilizado para o homem, no desenvolvimento do seu bem estar. A natureza era posta como algo a mais para o homem, e esta não teria desequilíbrio. Constata-se que muitos naturalistas promoveram tentativas de compreensão da natureza somente com análises descritivas e observações, deixando de lado uma interação maior entre os aspectos que permeiam a composição orgânica de cada individuo ou espécies e como estes interferiam ao meio. Mas descrições de importantíssima ordem para o desenvolvimento que tivemos nesta área. As relações matemáticas, junto com a física e a química promoveram a ascensão das tecnologias, e para a ecologia o desenvolvimento levou a compreender os seres vivos como máquinas que depois de certo tempo, após sua construção, poderia ser desabilitada no que se diz contrário a vida, ou seja, a morte. Certamente Descartes é aplicado neste momento pela sua intenção de entender o mundo e naquele momento era a supremacia desta área, principalmente pelo desenvolvimento da astronomia. Com diversas idéias de como o ser vivo desenvolve, anseios de uma evolução que ocorre sobre a Terra, desponta-se a ecologia não mais como algo mecanicista, mas como uma área que tenta compreender a ordem da desordem que ocorre entre os seres vivos e a natureza que o cerca. A teoria geral dos sistemas de Ludwig von Bertalanffy fez com que a disciplina aplicada a compreensão da biologia se tornasse uma área de aplicação multidisciplinar, agora sendo aceita na compreensão da sociologia, política, economia. Mas será que a lucidez para estas aplicações na sociedade atual. A ecologia apresenta um enorme potencial para aplicação nos assuntos humanos, uma vez que as situações do mundo real quase sempre incluem um componente natural e um sócioeconômico-político. Nesse sentido, ela também se estrutura como ciência original, isso porque enquanto comumente uma ciência tende a analisar um objeto específico, o que nos conduz à divisão em campos de trabalhos particulares, porém, fundamenta-se a partir da síntese de inúmeras disciplinas díspares com características e objetos próprios. II Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia 07 a 09 de outubro de 2010 Artigo número: 191 ISSN: 2178-6135 Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciência e Tecnologia - PPGECT Dentre todas as disciplinas biológicas, a ecologia é a mais heterogênia e também a mais completa, qualquer coisa de que se ocupe o naturalista, história de vida, comportamento reprodutivo, parasitismo, combate a inimigos e assim por diante, é de interesse do ecólogo (MAYR, 2008). Entretanto, muitas pessoas confundem a ecologia com Educação Ambiental, sendo entendida como um subcapitulo da biologia. A Educação é freqüentemente conceituada, apenas como o ato ou a arte de saber educar e educar-se. Sob o ponto de vista ecológico, a Educação constitui a adaptação (ecológica-evolutiva-social) do ambiente em que se vive. Segundo Mayr (2008, p. 279), “a ecologia só veio a se tornar um campo verdadeiramente ativo de investigação por volta de 1920; a fundação de sociedades ecológicas e de periódicos profissionais dedicados a ecologia é ainda mais recente”. Ao final reportamos a questão que não podemos deixar de lado, será que o homem, com todo seu desenvolvimento cognitivo, realmente esta desenvolvendo teorias para compreender o meio? Esta questão faz repercussão desde os gregos a nossa contemporaniedade e ainda é tão necessária. Referências ACOT, P. História da ecologia. Rio de Janeiro: Campus, 1990. AVILA-PIRES, F. D. Fundamentos históricos da ecologia humana. Ribeirão Preto: Holos, 1999. CAPRA, F. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. 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Doutorando do Programa de PósGraduação em Educação para o Ensino de Ciências e a Matemática da Universidade Estadual de Maringá. [email protected] Edilaine Dalzotto. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação para o Ensino de Ciências e a Matemática da Universidade Estadual de Maringá. [email protected]. Maria Júlia Corazza Nunes. Universidade Estadual de Maringá. Professora do Departamento de Biologia e do Programa de Pós-Graduação em Educação para o Ensino de Ciências e a Matemática. II Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia 07 a 09 de outubro de 2010 Artigo número: 191 ISSN: 2178-6135