Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR
Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciência e Tecnologia - PPGECT
Da História Natural a ascensão da Ecologia como
área de estudos para a Biologia
Celso Aparecido Polinarski
Edilaine Dalzotto
Maria Júlia Corazza Nunes
Resumo
O presente artigo apresenta uma revisão sobre a ascensão da ecologia
como área da Biologia em um posicionamento histórico. A descrição foi
desenvolvida sem diferenciar as concepções filosóficas dos naturalistas citados,
considerando somente os pontos estruturantes da Ecologia atual. Retoma alguns
pontos da história natural de filósofos e pensadores gregos, Renascentistas e da
Idade Moderna, descrevendo a influência destes para o crescimento da Ecologia
como área do saber. Posiciona as teorias de Lamark e Darwin, e também a
importância do Brasil na criação de uma palavra que desponta para a
compreensão dos seres vivos e de suas relações diretas e indiretas com a matéria
inanimada. E por final, apresenta a forma que a ecologia foi pensada no início e
meados do século XX, sendo aquela que influência a muitos ecólogos até o
momento.
Palavras-chave: Ecologia moderna, História natural, Meio ambiente.
Abstract
Natural History and the rise of ecology as a field of study for Biology
II Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia
07 a 09 de outubro de 2010
Artigo número: 191
ISSN: 2178-6135
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This article presents a review about the rise of ecology as an area of
Biology in a historical positioning. The description was developed without
differentiating the philosophical conceptions of the naturalists mentioned,
considering only the structuring points of current Ecology. It recovers a couple of
points of the Natural History of Greek philosophers and thinkers, Renaissance and
from Modern Age, describing their influence on the growth of Ecology as a
knowledge area. It stands the Lamark and Darwin`s theories, and also Brazil`s
importance in creating a word that rises to the understanding of live organisms
and their direct and indirect relations with the inanimate matter. And by the end,
it presents how the Ecology was studied in the beginning and middle of twentieth
century, and one that influence many ecologists until now.
Keywords: Modern Ecology, Natural History, Environment
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Introdução
Analisar o meio em que vivemos é certamente algo singular, pois seria promover a relação
de nós para nós mesmos. Fantástico afirmar que o conhecimento posto até o momento nos
deprime e ao mesmo tempo encanta, além de abrir uma diversidade de opiniões e apontar
fatores, variáveis e questionamentos traduzidos em concepções humanas.
O trabalho de estudar as condições do meio natural foi ofício para muitas áreas quando
vemos a história, passando pela filosofia, matemática, física, geografia e principalmente a
biologia, disciplina diretamente estabelecida da História Natural. Neste artigo buscamos
descrever de forma histórica a compreensão da organização do conhecimento que promoveu a
ascensão da ecologia como área de estudos para a biologia e a conceituação de termos para esta
área. Também destacamos algumas diferenciações na sistematização da ecologia para a
compreensão da organização dos sistemas vivos e da interação destes com o meio.
Ao traçar a linha cronológica da evolução histórica da ecologia, verifica-se que, desde os
tempos mais remotos na Grécia os trabalhos de inúmeros filósofos continham referências a temas
ecológicos (ROCHA, 2006).
Assim, analisar uma temática de tal importância não é mera conceituação, então dispomos
de muitas dúvidas que a história responde por várias descrições, estruturando caminhos e
formulações que poderão direcionar pensamentos e perspectivas de análises diferenciadas as
nossas indagações. Descrevemos neste trabalho a ecologia nascente da História Natural de forma
linear, não diferenciando as características filosóficas dos naturalistas citados.
História que influenciou o desenvolvimento da ecologia
Buscar descrever a história da ecologia é retornar a um passado longínquo ao nosso pensar,
mas em questão histórica isto é necessário. As relações entre o homem e a natureza surgem,
provavelmente, com o aparecimento do homem bípede, ou mesmo antes se considerarmos os
ancestrais como indivíduos diretamente relacionados com a natureza e que promovem mudanças
estruturais no meio em que vivem. Certamente não temos dados científicos para comprovar que
ocorriam alterações, mas encontramos fósseis, cemitérios de animais e humanos, restos de
mantimentos e utensílios domésticos, vestimentas e mesmo desenhos seculares em rochas
apresentando à ação do homem sobre a natureza.
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A ecologia não tem um início muito bem delineado. Encontra seus primeiros antecedentes
na história natural dos gregos, particularmente em um discípulo de Aristóteles, Teofrasto, que foi
o primeiro a descrever as relações dos organismos entre si e com o meio (CASSINI, 2005)
Aproximando da instituição da ecologia moderna, encontram-se escritos de grandes
pensadores permeando a preocupação de como usar, utilizar, usufruir e principalmente
compreender a forma que a natureza se estrutura, com relação aos vegetais, animais e a matéria
inanimada.
“Na cosmologia grega dos séculos VII e VI a.C., os filósofos jônios, entre eles,
Tales de Mileto, Anaximandro, Anaximenes e seus seguidores, concebiam o
mundo da natureza como a inteligência da natureza, baseando-se no princípio
de que: “O mundo da natureza era não só vivo como inteligente: não só um
vasto animal dotado de “alma”, ou vida própria, mas também animal racional,
com “mente” própria” (COLLINGWOOD, s.d., apud MEDEIROS, 2002, p. 72).
A cronologia da evolução da Ecologia remonta a antiga Grécia com os naturalistas da época
ou aqueles que trabalharam com a história natural. Tanto Hipócrates (460-377a.C.) como
Aristóteles (384-322 a.C.), entre outros, desenvolveram idéias e princípios ecológicos, embora não
possuíssem uma palavra específica (ROCHA, 2006).
Em grande parte descritiva, mas também com trabalhos e principalmente com muitas
observações, a história natural foi singular ao desenvolvimento da ecologia. Desde antes de
Aristóteles até Lineu e Buffon a ideologia dominante era a teologia natural, mesmo com
formulações de teorias explicativas estas colocavam a natureza como algo harmônico. Harmonia
posta por um ser superior e este não permitiria ser diferente (MAYR, 2008).
De acordo com essa compreensão de mundo, a harmonia na natureza ocorreria
independente do número de filhos que um casal reprodutivo obtivesse. Sendo a luta pela
sobrevivência benigna para manter o equilíbrio demográfico, poderia ocorrer o controle por
diversos fatores, climáticos, predação, doenças ou insucesso na reprodução. Desta forma a
natureza operava como uma máquina programada (MAYR, 2008).
Destes pensadores e estudiosos da história natural, Teofrasto discípulo de Aristóteles, foi o
primeiro a descrever as relações dos organismos entre si e com o meio (SENNA e MAGRIN, 2009).
Aristóteles também empregou trabalho sobre a natureza, entretanto seus escritos revelam
intenção em discutir como a natureza se reproduz, cresce e as áreas que se desenvolvem, sempre
citando exemplos (ROCHA, 2006).
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Durante o período Renascentista, muitos cientistas realizaram diversos e interessantes
trabalhos no campo da ecologia não se referindo ou denominando essa palavra como campo de
estudo. Aos trabalhos dessa época desenvolvidos pelos naturalistas eram nitidamente separados
em Ecologia Vegetal e Ecologia Animal (ROCHA, 2006).
Na Renascença, os estóicos Zenão de Cício e Crísipo de Solis (336-210 a.C) e os epicuristas
Epicuro (341-270 a.C) e Tito Lucrécio (96-55 a.C), concebiam a ciência sobre a natureza das coisas
como a base para as suas condições éticas e morais, além de opostas entre si, ambas rejeitavam,
de certo modo, as idéias de Aristóteles. Desta forma compreendiam a natureza como dinamista,
espiritualista e “vitalista” (MEDEIROS, 2002).
“Os epicuristas tinham uma concepção materialista da realidade, admitindo
que a “criação” não era obra dos deuses. Tanto o mundo vivo como o
inanimado eram constituídos de átomos (idéia proveniente da teoria atomista
de Demócrito e Leucipo) e sua origem estava nas causas naturais” (MEDEIROS,
2002).
Na Idade Moderna ocorre um despertar de idéias e trabalhos “ecológicos”, com cientistas
como Carl von Lineu (1707-1772), Charles Lyell (1797-1875), Charles Robert Darwin (1809-1882) e
mesmo Ernst Heinrich Haeckel (1834-1919), o último considerado “pai da Ecologia”. Todos citados
e outros contribuíram de forma significativa no campo da Ecologia, porém, ainda mostravam-se
influenciados pela noção aristotélica finalista e divina (ROCHA, 2006; ACOT, 1990).
Séculos XVIII e XIX: estudos ecológicos em questão
Para aqueles que dedicavam para o estudo da natureza, a preocupação com a quantificação
era secundária, sendo o levantamento de plantas e animais do planeta considerado a principal
tarefa dos naturalistas. Porém a visão integradora e de relações já fazia parte da forma de
interpretação da natureza (NUCCI, 2007).
Nucci (2007, p. 81), destaca como exemplo:
“o médico e geógrafo Alexander von Humboldt (1769-1859), que descrevendo
formalmente as relações entre clima, latitude e altitude, chega, em 1805, ao
conceito de geobotânica cujo objeto era o estudo das relações das plantas com
o ambiente, o que sugere uma visão mais integradora da natureza.”
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Em viagem pela América, iniciada em 1799, Humboldt já afirmava: que era possível
descobrir os vínculos existentes entre os seres vivos e a natureza inanimada, estudar suas
relações mútuas e explicar como se distribuem no espaço; prestou, também, uma grande atenção
na perspectiva histórica, interessando-se pela evolução e pelas trocas observáveis na natureza,
rompendo-se, assim, com a linha tradicional de pensamento que considerava a natureza como
algo estático e imóvel (CAPEL e URTEGA, 1984 apud NUCCI, 2007 p. 81).
Segundo Medeiros (2002), para conhecer um pouco mais as concepções de natureza
durante o século XVIII e XIX, recorreu-se à vida e às obras dos naturalistas, como Carl von Linné
(Lineu) (1707 –1788), George-Louis de Buffon (1707 – 1788), Daubenton (1716 – 1800), Lamarck
(1744–1829), Alexandre von Humboldt (1769 –1859) e Charles Darwin (1809 – 1882).
Os inventários provenientes das observações dos naturalistas viajantes e as explicações
resultantes dos trabalhos experimentais, de campo e de laboratório serviram, durante o século
XIX, de base para a primeira e a mais importante teoria integradora da biologia, a teoria da
evolução proposta por Lamarck (1744-1829) em 1809 e se baseava na prevalência dos fatores do
meio físico (NUCCI, 2007).
E 50 anos depois Darwin (1809-1882), propõe a teoria da evolução com base na influência
das relações entre organismos, levando à seleção natural. Darwin apontou as infinitas, complexas
e ajustadas relações mútuas de todos os organismos entre si e as condições físicas de existência
(NUCCI, 2007).
As duas teorias opunham-se à noção de um mundo perfeito, ordenado e finalístico, como
aquele descrito pelos cientistas do século XVIII. Deixaram aparentes que as relações que ocorrem
no meio são aglomeradas e com mudanças, crescimento e desenvolvimento, idéias que passaram
a fazer parte das discussões neste tema do século XIX em diante (MEDEIROS, 2002; NUCCI, 2007).
Segundo Nucci (2007, p. 82): “Lamarck e Darwin definiram as duas grandes linhas da
ecologia e que são partes de sua definição clássica: o estudo das relações recíprocas dos
organismos e destes com o ambiente; surge uma teoria integradora, reunindo conhecimentos e
conceitos de vários campos do saber”.
Para Medeiros (2002), o trabalho e teoria evolucionista de Darwin potencializou o estudo
da natureza, ocorrendo desenvolvimento real para as áreas de botânica, zoologia, ciências berço
da biologia, e foram abertas as fronteiras para estudos de outras que apareciam somente na
história das ciências biológicas: a embriologia, a fisiologia e a genética.
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De Ernest Heinrich Haeckel a ecologia sistêmica
O biólogo alemão, Ernest Heinrich Haeckel (1834-1919), divulgador das idéias de Darwin,
observou que as espécies variavam de acordo com a localização na qual se encontravam e, ao
publicar em 1866 o livro “Generelle Morphologie der Organismen”, sugeriu o termo ecologia pela
primeira vez, em 1866, por Haeckel, em uma nota de pé de página, substituindo o termo biologia.
Na primeira utilização a definição foi restrita: (...) a ecologia (...) ciência da economia, do modo de
vida, das relações vitais externas dos organismos etc. (ACOT, 1990; NUCCI, 2007).
No segundo volume do livro “Generelle Morphologie der Organismen”, que Haeckel
apresenta sua definição mais conhecida: Por ecologia entendemos a totalidade da ciência das
relações do organismo com o meio ambiente, compreendendo, no sentido lato, todas as
condições de existência (HAECKEL, 1866, apud ACOT, 1990).
Em 1868, Haeckel em sua obra “Histoire de la création” descreve a terceira definição da
palavra ecologia, visando principalmente à integração da tradição biogeográfica à economia da
Natureza:
“A ecologia ou distribuição geográfica dos organismos (...) a ciência do
conjunto das relações dos organismos com o mundo exterior ambiente, com as
condições orgânicas da existência; o que se chamou de economia da natureza,
as mútuas relações de todos os organismos vivos num único e mesmo lugar,
sua adaptação ao meio que os cerca, sua transformação pela luta para
viverem, sobretudo os fenômenos do parasitismo etc”. (HAECKEL, 1874, apud
ACOT, 1990, p. 27-28).
Embora os ecólogos atuais atribuam para Ernest Heinrich Haeckel o uso do termo
“Oekologie”, atual ecologia, outros, anteriormente a Haeckel, já haviam utilizado esta palavra. Em
1858, o norte-americano Henry David Thoreau já havia utilizado o termo. Em 1885, Hans Reiter
publicou um livro com o título “Die Consolidation der Physiognomik als Versuch einer Oekologie
der Gewaechse” – A consolidação da Fisionomia como Ensaio de Ecologia das Plantas. E em 1897,
Conway MacMillan utilizou o termo em seus estudos da vegetação de Minesota. Todos os autores
utilizaram o termo ecologia de forma sintética, sugerindo que a palavra era usada amplamente
(GOODLAND, 1975 apud VON ZUBEN, 2005).
É de conhecimento de todos que naturalistas como Bates, Alfred Russel Wallace, Humboldt,
von Martius, Saint-Hilaire, Charles Darwin, dentre outros, visitaram o Brasil especialmente no
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século XIX, desenvolvendo estudos de levantamento da flora e fauna, bem como da geologia do
Brasil (FERRI, 1980).
Para Von Zuben (2001), o Brasil desempenhou um papel de extrema importância no
desenvolvimento da ecologia, porém, o público em geral e até mesmo ecologistas desconhecem
esta participação.
Os trabalhos dos naturalistas citados anteriormente, contribuíram para a formação da área
de ecologia, entretanto, outro naturalista e pesquisador, pouco reconhecido nesta área, o
dinamarquês Johann Eugen Bülow Warming (1841-1924) foi o primeiro a publicar um livro com
estudos ecológicos (VON ZUBEN, 2005).
O dinamarquês Warming iniciou sua carreira no Brasil em meados do século XIX, convidado
pelo paleontólogo pioneiro da paleontologia sul-americana Peter Wilhelm Lund (1801-1880), qual
trabalhava com fósseis precisamente no estado Minas Gerais (AVILA-PIRES, 1999; FERRI, 1980;
GOODLAND, 1975 apud VON ZUBEN, 2005).
Johann Eugen Bülow Warming, viveu em Lagoa Santa, a 40 Km de Belo Horizonte, de 1863 a
1866, estudando a vegetação da região, com ênfase nos campos cerrados (AVILA-PIRES, 1999;
FERRI, 1980; GOODLAND, 1975 apud VON ZUBEN, 2005). Os estudos brasileiros muito
contribuíram para a edição pioneira de ecologia “Plantesamfund. Gundtraek af den okologiske
Plantegeografi –Philipsen, Ed. Kjobenhavn” – As comunidades Vegetais. Fundamentos de
Fitogeografia Ecológica, editada em 1985. (AVILA-PIRES, 1999; FERRI, 1980; GOODLAND, 1975
apud VON ZUBEN, 2005). A publicação “Lagoa Santa: Et Bidrag til den Biologiske Plantegeografi” –
Lagoa Santa: Contribuição para a Geografia Fitobiológica – em 1982 foi outro trabalho importante
de Warming na área de ecologia (KLEIN, 2002 apud VON ZUBEN, 2005).
Para Warming a ecologia procura:
“ 1) encontrar as espécies associadas em habitats similares; 2) esboçar a
fisionomia da vegetação e da paisagem; 3) responder por que cada espécie
tem uma forma e um habitat particulares, por que se agrupam as espécies em
comunidades definidas, e por que cada uma dessas comunidades apresenta
uma fisionomia característica e 4) analisar os tipos biológicos das plantas a
partir das exigências e modalidades de resistência de cada uma ao ambiente,
através de suas adaptações morfológicas e anatômicas” (DELÉAGE, 1993 apud
VON ZUBEN, 2005 p. 161).
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Distanciando da doutrina Darwiniana, qual afirma que a evolução ocorre com a modificação
dos descendentes, Warming considerava que são as alterações nas condições climáticas e
edáficas da vida das plantas que impulsionavam a sua evolução (AVILA-PIRES, 1999; DELÉAGE,
1993 apud VON ZUBEN, 2005). Segundo o mesmo autor (2005), Warmimg publicou diversos
trabalhos sobre sistemática, morfologia vegetal e biogeografia com abordagens na nova área de
investigação, a ecologia.
As obras de Warming auxiliaram na implantação de termos novos para a ecologia, como o
termo “fator Ecológico” que ele apontou para estudos do efeito de fatores como luz, umidade,
solo e animais, dentre outros, sobre as plantas, e as adaptações diferenciadas destas a cada fator
(VON ZUBEN, 2005).
Diversos autores afirmam que a partir das obras de Warming que se formulou a noção de
agrupamento vegetal, noção que estabeleceu condições para o conceito de ecossistema definido
por Arthur Tansley fundador da primeira sociedade de ecologia, a British Ecological Society, em
1913 (AVILA-PIRES, 1999; DELÉAGE, 1993 apud VON ZUBEN, 2005; GODWIN, 1977 apud VON
ZUBEN, 2005).
Outro naturalista considerado o pai da ecologia das comunidades (sinecologia,
ecossistema), o geógrafo Alexander von Humboldt, um dos fundadores da geografia moderna,
publicou: a Geografia das Plantas, 1803, os Quadros da Natureza, 1808 e o Kosmos, publicados
em cinco volumes de 1845 a 1862. Estas obras apresentam a concepção de que existe uma
harmonia na ordem natural e que a natureza manifesta-se diferenciada na superfície terrestre em
função de como ocorre à integração entre os seus elementos (MAYR, 2008; VITTE, 2007).
Ao ser alocada como ciência a Ecologia procurou se definir perante aos outros campos do
saber e, ao fazer isso, restringiu seu campo de ação e, inevitavelmente, restringiu-se com os
limites que lhe foram impostos na época. Todavia, no início, a ecologia, na definição de Haeckel,
não conseguiu deslanchar e, na passagem do século XIX para o século XX, ainda permanecia com
uma visão mais analítica do que sistêmica. E afirmavam que animais, plantas e humanos são
dependentes de seus respectivos ambientes (NUCCI, 2002).
O desenvolvimento da Ecologia como ciência se configurou no século XX. Em 1905, o norteamericano Frederick Edward Clements (1874-1945), um ecologista vegetal, publicou o livro
“Métodos de Pesquisa em Ecologia”, amplamente recebido pelo mundo Anglo-Saxão,
promovendo o aumento da utilização da noção de ecologia (GROENING, 2001).
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Nucci (2002) descreve que o ecólogo Arthur Tansley estava ciente e deixou claro que a
designação que propôs de ecossistema era modelo abstrato e não uma realidade ecológica,
identificável na natureza; entretanto, para aquele momento, foi a visão menos radical e
reducionista da organização das comunidades.
Na busca por avanços para a Ecologia com visão sistêmica, o que se constatava era uma
forte influência de pesquisadores especializados e distribuídos em subáreas da Ecologia e com
procedimentos muito mais de análise do que de síntese, assim com influência da mecânica
cartesiana-newtoniana (NUCCI, 2002; CAPRA, 1996; MAYR, 2008).
No final do século XIX, a mecânica newtoniana, estava suplementada por duas visões
diretamente opostas da mudança evolutiva — “a de um mundo vivo desdobrando-se em direção
à ordem e complexidade crescentes, e a de um motor que pára de funcionar, um mundo de
desordem sempre crescente. Quem estava certo, Darwin ou Carnot?” (CAPRA, 1996 p.54).
Segundo o mesmo autor (1996), o biólogo austríaco, Ludwig von Bertalanffy, deu o
primeiro passo fundamental para tentar resolver esta questão ao reconhecer que os organismos
vivos são sistemas abertos que não podem ser descritos pela termodinâmica clássica. Denominou
esses sistemas de "abertos" porque eles precisam se alimentar de um contínuo fluxo de matéria e
de energia extraídas do seu meio ambiente para permanecer vivos:
“O organismo não é um sistema estático fechado ao mundo exterior e
contendo sempre os componentes idênticos; é um sistema aberto num estado
(quase) estacionado [...] onde materiais ingressam continuamente vindos do
meio ambiente exterior, e neste são deixados materiais provenientes do
organismo (Bertalanffy, 1968 apud CAPRA, 1996 p. 54).”
Em 1968, após 40 anos de estudos, Ludwig von Bertalanffy apresentou sua Teoria Geral dos
Sistemas. Para Bertalanffy, a Biologia seria capaz de substituir a abordagem analítica e
mecanicista por uma visão sistêmica, pois sendo essa uma ciência do todo e do organicismo,
desempenharia uma diferenciação no papel na nossa visão do mundo (BRANCO, 1989 apud
NUCCI, 2007).
Certamente o maior impacto da concepção sistêmica da vida é entender que as partes só
podem ocorrer com a totalidade integrada, entendida a partir de relações, conexões,
contextualizações: A ciência sistêmica mostra que os sistemas vivos não podem ser
compreendidos por meio da análise. As propriedades das partes não são propriedades intrínsecas,
mas só podem ser entendidas dentro do contexto do todo maior (CAPRA, 1996).
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Considerações finais
O breve resgate histórico da constituição da Ecologia como ciência mostra que esta área do
saber inicialmente se desponta como algo harmônico, onde não ocorreriam intervenções de
desordem, e que tudo o que a natureza oferece é para ser utilizado para o homem, no
desenvolvimento do seu bem estar. A natureza era posta como algo a mais para o homem, e esta
não teria desequilíbrio.
Constata-se que muitos naturalistas promoveram tentativas de compreensão da natureza
somente com análises descritivas e observações, deixando de lado uma interação maior entre os
aspectos que permeiam a composição orgânica de cada individuo ou espécies e como estes
interferiam ao meio. Mas descrições de importantíssima ordem para o desenvolvimento que
tivemos nesta área.
As relações matemáticas, junto com a física e a química promoveram a ascensão das
tecnologias, e para a ecologia o desenvolvimento levou a compreender os seres vivos como
máquinas que depois de certo tempo, após sua construção, poderia ser desabilitada no que se diz
contrário a vida, ou seja, a morte. Certamente Descartes é aplicado neste momento pela sua
intenção de entender o mundo e naquele momento era a supremacia desta área, principalmente
pelo desenvolvimento da astronomia.
Com diversas idéias de como o ser vivo desenvolve, anseios de uma evolução que ocorre
sobre a Terra, desponta-se a ecologia não mais como algo mecanicista, mas como uma área que
tenta compreender a ordem da desordem que ocorre entre os seres vivos e a natureza que o
cerca.
A teoria geral dos sistemas de Ludwig von Bertalanffy fez com que a disciplina aplicada a
compreensão da biologia se tornasse uma área de aplicação multidisciplinar, agora sendo aceita
na compreensão da sociologia, política, economia. Mas será que a lucidez para estas aplicações na
sociedade atual.
A ecologia apresenta um enorme potencial para aplicação nos assuntos humanos, uma vez
que as situações do mundo real quase sempre incluem um componente natural e um sócioeconômico-político. Nesse sentido, ela também se estrutura como ciência original, isso porque
enquanto comumente uma ciência tende a analisar um objeto específico, o que nos conduz à
divisão em campos de trabalhos particulares, porém, fundamenta-se a partir da síntese de
inúmeras disciplinas díspares com características e objetos próprios.
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Dentre todas as disciplinas biológicas, a ecologia é a mais heterogênia e também a mais
completa, qualquer coisa de que se ocupe o naturalista, história de vida, comportamento
reprodutivo, parasitismo, combate a inimigos e assim por diante, é de interesse do ecólogo
(MAYR, 2008).
Entretanto, muitas pessoas confundem a ecologia com Educação Ambiental, sendo
entendida como um subcapitulo da biologia. A Educação é freqüentemente conceituada, apenas
como o ato ou a arte de saber educar e educar-se. Sob o ponto de vista ecológico, a Educação
constitui a adaptação (ecológica-evolutiva-social) do ambiente em que se vive.
Segundo Mayr (2008, p. 279), “a ecologia só veio a se tornar um campo verdadeiramente
ativo de investigação por volta de 1920; a fundação de sociedades ecológicas e de periódicos
profissionais dedicados a ecologia é ainda mais recente”.
Ao final reportamos a questão que não podemos deixar de lado, será que o homem, com
todo seu desenvolvimento cognitivo, realmente esta desenvolvendo teorias para compreender o
meio? Esta questão faz repercussão desde os gregos a nossa contemporaniedade e ainda é tão
necessária.
Referências
ACOT, P. História da ecologia. Rio de Janeiro: Campus, 1990.
AVILA-PIRES, F. D. Fundamentos históricos da ecologia humana. Ribeirão Preto: Holos, 1999.
CAPRA, F. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. Tradução Newton
Roberval Eichemberg 11. ed. São Paulo: Cultrix, 1996. p.256
CASSINI, S.T. Ecologia: Conceitos Fundamentais. Programa de Pós Graduação em Engenharia
Ambiental – PPGEA UFES. Universidade Federal do Espírito Santo – UFES. VITORIA, 2005.
Disponível em:
http://www.inf.ufes.br/~neyval/Gestao_ambiental/Tecnologias_Ambientais2005/Ecologia/CONC
_BASICOS_ECOLOGIA_V1.pdf. Acesso em: 25 out.2009
FERRI, M.G. História da Ecologia no Brasil. In: FERRI, M.G., MOTOYAMA, S. História das Ciências
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GROENING, G. About the professional reach of garden culture and open space development in
Germany. GEOUSP, 9, São Paulo: DG-FFLCH-USP, 2001, p. 163-171. ISSN 1414-7416
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07 a 09 de outubro de 2010
Artigo número: 191
ISSN: 2178-6135
Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR
Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciência e Tecnologia - PPGECT
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II Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia
07 a 09 de outubro de 2010
Artigo número: 191
ISSN: 2178-6135
Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR
Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciência e Tecnologia - PPGECT
Celso Aparecido Polinarski. Universidade Estadual do Oeste do Paraná –Campus Cascavel.
Professor do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde. Doutorando do Programa de PósGraduação em Educação para o Ensino de Ciências e a Matemática da Universidade Estadual de
Maringá. [email protected]
Edilaine Dalzotto. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação para o Ensino de
Ciências e a Matemática da Universidade Estadual de Maringá. [email protected].
Maria Júlia Corazza Nunes. Universidade Estadual de Maringá. Professora do Departamento de
Biologia e do Programa de Pós-Graduação em Educação para o Ensino de Ciências e a
Matemática.
II Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia
07 a 09 de outubro de 2010
Artigo número: 191
ISSN: 2178-6135
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