Evolução Agradecimento A meu pai que fez a revisão ortográfica e gramatical desse livro e que muito contribuiu com seus questionamentos para que ele ficasse mais claro e preciso. Prof. Dorival Filho 2 Apresentação Prezado(a) Estudante, Sinto-me bastante honrado por você ter adquirido esse material para seu estudo. Ele é, antes de mais nada, fruto da crença de que a biologia é uma ciência fascinante, desde que aprendamos a pensar biologia. A partir do momento em que alcançamos esse objetivo, compreendemos suas implicações filosóficas, éticas, teológicas, enfim, sentimo-nos tão desafiados intelectualmente, que é impossível não nos apaixonar por ela. À primeira vista, pode-se ter a impressão de que o objetivo deste material é apenas ajudá-lo a passar no vestibular. Mas, certo é que não é só isso. Não que passar no vestibular não seja importante, muito pelo contrário. Mas na verdade o desafio que estabeleci para mim mesmo ao produzir este livro é muito maior. Em cada parte, em cada palavra nela escrita, está minha paixão pelo estudo, que antecede a paixão pelo magistério. Portanto meu desejo é que, de alguma maneira, ao estudá-lo, você esqueça que o está fazendo para passar no vestibular ou se sair bem em alguma prova ou teste. Meu sonho é que você se dê conta de que está estudando, antes de mais nada, pelo prazer em aprender. Você tem de concordar comigo em que isso é muito mais do que passar no vestibular, porque o vestibular é apenas uma etapa e o amor ao estudo é para toda a vida. Na busca desse meu objetivo, nada melhor do que começar pelo estudo da evolução. O grande cientista Dobzhansky dizia que em biologia nada faz sentido, se não for sob a luz da evolução. Portanto, quem quer saber essa ciência precisa, antes de mais nada, saber evolução. Quero também de dizer que não produzi um resumo. Você verá muitas matérias de jornais e revistas e reflexões que muitos livros didáticos deixam passar, mas que considero muito importantes para que você realmente compreenda o assunto. Não há, na elaboração deste material, nenhum desejo de simplificação. Essa proposta está de acordo, tanto com o em que eu acredito que deva ser o ensino de biologia, quanto também, com os melhores vestibulares, visto que cada vez mais eles cobram conhecimentos mais amplos e suas implicações, em detrimento de detalhes que todo conteúdo possui. Espero que você sinta, ao estudá-lo, o mesmo prazer que eu senti, ao fazê-lo. Um grande abraço, Dorival Filho Prof. Dorival Filho 3 Capítulo 1 O Pensamento Evolutivo Introdução Ao lançar, no século XIX, sua teoria da evolução das espéciesI, Charles Darwin sabia que despertaria muitas controvérsias. Conta-se, por exemplo, que, ao tomar conhecimento da teoria de Darwin, a esposa de um Pastor Inglês teria dito: “Descender do macaco! Esperemos que não seja verdade. Mas se for, rezemos para que a coisa não se espalhe”. A verdade é que talvez nenhuma outra teoria científica tenha gerado tanta confusão e malentendido como Anúncio publicado em 1873 essa. ridicularizando a teoria de Darwin. Atualmente, já não Fonte: Integrated Principles of Zoology sentimos mais a necessidade de provar que a evolução é um fato. Apenas uma minoria, por não entender que a ciência jamais alcançará uma resposta definitiva, se apega a questões ainda não plenamente resolvidas pela teoria moderna da evolução, para defender o fixismoII. Duas das grandes perguntas que ainda hoje nos fazemos acerca da evolução são: 1. Que posição realmente ocupa a seleção natural de Darwin? O acaso não intervém da mesma forma ou até mais? 2. Como surgem as novas espécies? Como se dá concretamente esse nascimento? Abordaremos essas e outras questões no decorrer desse livro. I Espécie conjunto de indivíduos semelhantes entre si que podem cruzar e gerar descendentes férteis II Fixismo Doutrina que defende que os seres vivos não evoluem. Foram criados por Deus tal qual eles existem hoje. Prof. Dorival Filho Primeiras Idéias Científicas sobre Evolução (Lamarckismo) No século XVIII as descobertas de fósseis se multiplicaram. Foram encontrados mamutes na Sibéria, mastodontes na América do Norte, uma fauna completa de mamíferos na bacia parisiense… Ora, essas espécies registradas nos fósseis não existiam mais. Logo, hoje sabemos, foram extintas. Para explicar a existência dos fósseis, muitos biólogos propuseram que não houve u m momento de criação divina, mas, sim, vários. Por exemplo, após ter sido criada uma fauna, uma catástrofe, como o dilúvio, poderia ter provocado sua extinção. Então, Deus criaria uma nova fauna para substituí-la. Apesar de essa tese não estar em concordância com o Gênesis, pelo menos mantinha a crença de que as espécies são fixas, não evoluem. A primeira teoria realmente científica que defendia a idéia de evolução foi lançada pelo biólogo francês Jean Baptiste de Lamarck (1744-1829). Lamarck lançou uma teoria evolucionista que dava uma boa explicação para a existência dos fósseis, sem aceitar a idéia de extinção das espécies. Acontece que, para muitos estudiosos do século XIX, incluído Lamarck, a extinção era inaceitável. Afinal, como algo criado por Deus poderia se extinguir sem sua permissão? Ao mesmo tempo, se aceitarmos que o Criador concorda com a extinção onde estaria a benevolência divina? A hipótese Lamarckista, ou Lamarckismo, defendia que as espécies não se extinguem, apenas se transformam em outras (por isso ela ficou conhecida como transformismo). Lamarck (1744-1829) Observe Fonte: Biologia Evolutiva que a teoria de Lamarck era mais uma tentativa de resolver 4 uma questão filosófica, do que explicar como as espécies evoluem. Para Lamarck, os fósseis seriam registros de espécies que existiram e não existem mais. Não porque elas se extinguiram, mas, sim, porque se transformaram nas espécies atuaisI. Sua teoria partia de dois pressupostos: 1. O uso contínuo de um órgão, ou parte do corpo, pode desenvolvê-lo. Por exemplo, quanto mais nos exercitamos, mais os nossos músculos se desenvolvem. Da mesmo forma, o não uso pode atrofiá-los. 2. Essas modificações surgidas durante a vida de um organismo são passadas a seus descendentes (lei da transmissão das características adquiridas). Essas idéias ficaram conhecidas como Lei do Uso e Desuso. Além da Lei do Uso e Desuso, Lamarck defendia a idéia de que há uma gradação dos seres vivos, dos mais simples aos mais complexos, sendo que, no topo da perfeição, estava o ser humano. Essa idéia de progresso na evolução foi combatida por Darwin e não é atualmente aceita. Na verdade, mais uma vez, ela estava de acordo com a crença religiosa de Lamarck. Portanto, a afirmação completa de Lamarck pode ser entendida assim: a vida surge continuamente da matéria inanimada por geração espontâneaII e progride continuamente em direção a formas de vida mais complexas e perfeitas, através de “poderes conferidos pelo supremo autor de todas as coisas”. Além disso, é o meio ambiente que dirige essa evolução. Alterações do ambiente fazem com que os seres vivos se adaptem, forçando-os a usar mais uns órgãos do que outros, o que geraria hipertrofia ou atrofia, que seriam transmitidas à próxima geração. IMPORTANTE: A Lei do Uso e Desuso não é atualmente aceita, porque nem todos os órgãos e tecidos reagem como o músculo, que se adapta de acordo com o uso. Além disso, características adquiridas durante a vida não são passadas para a geração seguinte. Se isso ocorresse não seria mais I Vale lembrar que atualmente nós sabemos que o destino de toda espécie é a extinção. Veja mais sobre isso no capítulo sobre o tema. II Geração espontânea teoria que defende que a vida surge da matéria inerte ou orgânica em decomposição. Prof. Dorival Filho necessário aos judeus fazerem a circunsição, porque depois de milênios realizando essa cirurgia, eles já estariam nascendo sem o prepúcio do pênis. O pensamento de Darwin Charles Darwin (1809-1882) também começou a pensar seriamente sobre a evolução, a partir da observação dos fósseis. Só que sua preocupação não era explicar a existência dos fósseis, de maneira a estar de acordo com questões religiosas. Na verdade, ele queria entender como se dava a distribuição geográfica de algumas espécies animais (biogeografia). Observe como, já na introdução de seu famoso livro “A Origem das Espécies por meio da seleção natural”, ele coloca essa preocupação com a biogeografia: Quando a bordo do H.M.S. Beagle, no qual servi como naturalista, fiquei muito impressionado com certos fatos referentes à distribuição dos seres vivos existentes na América do Sul e às relações geológicas entre a fauna e a flora atual e extinta daquele continente. Esses fatos a mim me pareceram lançar alguma luz sobre a origem das espécies – “mistério dos mistérios”, conforme a definição de um dos nossos maiores filósofos. Em sua Galápagos, um arquipélago no Oceano Pacífico, Darwin observou atentamente a distribuição das 13 espécies de tentilhões ali existentes ( o b serve a figura ao lado). Para explicar a distribuição dessas 13 espécies tão parecidas entre si, em 13 ilhas do arquipélago, Darwin propôs o seguinte: os tentilhões de Galápagos descenderiam de uma espécie pioneira do continente sul-americano passagem pelas ilhas Os casais das espécies de tentilhões das ilhas Galápagos. Elas são muito parecidas entre si, cada uma adaptada a seu hábito alimentar. Darwin foi muito influenciado pela observação desses pássaros. Ele percebeu que todos deveriam ter uma origem comum. Fonte: Os Herdeiros de Darwin 5 que não possam ser transmitidas de que teria migrapai para filhoI. do para uma das ilhas. Lá, ela te6. Conseguem sobreviver aqueles com ria sofrido modifias variações que os tornam mais cações, originana d a p t a d o s ao ambiente e que, do uma nova portanto, conseguem aproveitar espécie adaptamelhor os poucos recursos. da às condições 7. Portanto, a própria natureza daquela ilha. Deseleciona os variantes que irão pois, alguns de deixar mais descendentes. Estes seus membros irão herdar as características de teriam migrado seus pais e, assim, mudanças para outra ilha, evolutivas benéficas serão pretambém diferenservadas pela seleção natural. ciando-se e for8. Como consequência da seleção mando uma ounatural, após muitas gerações, a tra espécie. Dessobrevivência e reprodução sa forma, cada diferenciais geram adaptações e uma das treze espécies novas. ilhas do arquipé- 1 – espécie sul-americana. A – migração da Pode-se afirmar que a “Origem lago terminaria espécie 1 para a primeira ilha. Ela sofre das Espécies” defende duas teses: que por possuir uma modificações, se adaptando ao ambiente da todos os seres vivos descendem, espécie diferente ilha, e origina uma nova espécie (2). Alguns com modificações, de um ancestral indivíduos da espécie 2 migram para outra de tentilhões, tocomum e que o principal agente de ilha e originam a espécie 3 . O processo das tendo como continua até formar as 13 espécies modificação é a seleção natural. ancestral co- existentes nas 13 ilhas. mum a espécie As Influências de Darwin do continente sul-americano (veja a figura Além da observação da distribuição de acima). fósseis e seres vivos no planeta, Darwin foi Essa hipótese de Darwin explicava não também muito influenciado por outros pensó a semelhança entre as 13 espécies (e delas sadores. com as sul-americanas), como também, as Entre eles, devemos citar Malthus que modificações que elas teriam sofrido para se argumentava que o crescimento exagerado da adaptar a diversos regimes alimentares e população humana seria a grande fonte de habitats. Não foi à toa que ele chegou a miséria, visto que não haveria alimentos para denominar suas idéias de teoria da todos. descendência com modificação. Ao ler o trabalho de Malthus, Darwin O mecanismo, segundo Darwin, pelo percebeu que poderia estar ali um dos qual as espécies poderiam sofrer as mecanismos que explicasse a origem das modificações é facilmente entendido, seguindo espécies: a luta pela vida e a sobrevivência o raciocínio abaixo: dos mais aptos. 1. Os seres vivos possuem i m e n s a Além de suas leituras, Darwin também capacidade de ter filhos. A fêmea de um procurou se especializar na criação de pombos inseto pode colocar 30.000 ovos por ano. ornamentais, visitando todas as associações de 2. A despeito da enorme capacidade de criadores de aves, das mais sofisticadas às procriação, a quantidade de indivíduos de mais simples. Ora, todos os pombos uma espécie tende a permanecer ornamentais descendem de uma única espécie constante. Portanto, poucos dos que selvagem. A partir de cruzamentos específicos nascem sobrevivem. os criadores iam s e l e c i o n a n d o algumas 3. Poucos sobrevivem, porque não há recurso no ambiente para todos os que nascem. Logo, há uma luta pela vida. I Não confunda evolução com desenvolvimento. 4. Os indivíduos de uma mesma espécie Evolução é modificação de um organismo de uma diferem em morfologia, fisiologia e geração para a outra. Desenvolvimento se refere a comportamento (variação). mudanças relativas ao tempo de vida de um 5. Parte dessa variação é herdável. Para a organismo, como as mudanças que ocorrem desde evolução não interessam características que nascemos até envelhecermos. Prof. Dorival Filho 6 características que queriam realçar e, assim produziam novas raças (seleção artificial). Imediatamen te Darwin percebeu que poderia ser feita ali uma analogia com a seleção natural. Pombos ornamentais. Darwin os observava e pensava na “diversidade das raças…impressionante.” Assim como os criadores, selecionando os reprodutores, podem produzir variedades novas, a natureza, favorecendo a reprodução dos variantes mais adaptados, também poderia, com mais tempo, produzir novas raças e espécies. Fonte:A Vida de um Evolucionista Atormentado - Darwin Contextualizando… Adapatação de matéria publicada pela revista “Ciência Hoje”, no 123. OS PEIXES QUE (SOBRE)VIVEM EM CAVERNAS Isolados em cavernas durante épocas mais secas e em função de outros fenômenos, algumas populações de peixes modificaram-se lentamente no novo ambiente, em geral sem luz e com recursos alimentares escassos. O processo de especializacão resulta em alterações morfológicas e comportamentais, gerando novas espécies… Cavernas são em geral ambientes pouco favoráveis à vida: a ausência permanente de luz impede a existência de plantas clorofiladas e o uso da visão, e grande parte do alimento disponível é importada da superfície, através da água ou de animais que entram no meio subterrâneo, o que em geral leva a escassez alimentar. Diversos organismos, no entanto, Bagre sem olhos encontrado em cavernas brasileiras. sobrevivem em tais condições e alguns, isolados da superfície por eventos geológicos ou climáticos, podem especializar-se a tal ponto que não conseguem viver fora das cavernas. Tais organismos, chamados troglóbios ou cavernícolas obrigatórios, apresentam modificações na morfologia, na fisiologia, e no comportamento, destacando-se a redução dos olhos e da pigmentação da pele… Lamarck e Darwin teriam dado explicações diferentes para a existência de peixes cegos em cavernas onde não há luz. Veja como seria a explicação de cada um deles, abaixo: Lamarck Na caverna não há luz. Logo os olhos desses peixes não eram u t i l i z a d o s , por isso, regrediram. Essa alteração foi, então, passada aos descendentes, de tal forma, que geraram uma espécie de peixes cegos. Prof. Dorival Filho Darwin Existem peixes cegos nas cavernas, porque, lá, devido à falta de luz, os olhos não trazem benefício na luta pela sobrevivência. Portanto, os peixes cegos não ficam em desvantagem em relação aos outros organismos que têm olhos. Eles não conseguiriam sobreviver, se houvesse luz na caverna porque, aí, sim, eles estariam menos adaptados ao ambiente em relação aos que têm olhos e seriam eliminados pela seleção natural. 7 Evidências da Evolução Como já foi dito, atualmente não é mais preciso provar que a evolução é um fato. Ela é uma teoria científica muito sólida mas, como toda ciência, precisa ser continuamente aprimorada. De qualquer forma, como a evolução é um processo muito lento, precisamos saber identificar sua ocorrência, por meio de algumas evidências indiretas que iremos analisar agora. • Fósseis. Quando um ser vivo morre, é rapidamente decomposto pelos organismos saprobiontesI. Mas, sob certas circunstâncias, principalmente as partes mais duras do corpo, como os ossos, podem ser Fósseis de trilobitas. preservados. Sabemos Fonte:Integrated que são poucos os seres Principles of Zoology vivos que morrem e são preservados como fósseisII. Mesmo assim, eles são muito importantes para nos mostrar como era a fauna e flora do passado, ajudando-nos a compreender os Ancestra l caminhos que a evolução percorreu, até Comum formar os seres vivos atuais. Órgãos que possuem a mesma origem evolutiva mas possuem funções, diferentes são ditos órgãos homólogos. Não confunda com os ó r g ã o s análogos. Neste caso, eles possuem a mesma função, mas uma origem evolutiva diferente. Como exemplo, pense na asa de um passarinho e na asa de uma mosca. As duas Órgãos Homólogos. têm a mesma fun- Fonte:Integrated Principles of Zoology ção, voar. Mas não derivam de um ancestral comum. Obseve como morfologicamente são muito diferentes, uma é feita de osso a outra de quitina. Órgã os Hom ólog os Asa do mor cego Divergência Adaptativ a Nada deira da bale ia Braç o hum ano • Anatomia Comparada. • Embriologia. A comparação morfológica entre os animais é também um forte indicativo da Ancestra l do ancestralidade comum proposta por mor cego Convergência Darwin. Adaptativ a A observação dos ossos dos Ancestra l da membros de diversos vertebrados mostra, borb oleta por exemplo, que todos têm uma origem comum. Todos eles possuem basicamente Se obseros mesmos ossos, apenas apresentam-se em varmos atentamenformatos diferentes, cada um adaptado ao estilo te o desenvolvide vida de seu portador. O fato de possuírem mento embrio-nário a mesma estrutura corporal básica é um de diversos aniindicativo de que descendem de um mais, notaremos ancestral comum. Esse ancestral gerou várias uma semelhança espécies diferentes cada uma adaptando esse muito grande entre órgão a um determinado ambiente (divergência eles, principalmenadaptativa ou irradiação adaptativa). te nos estágios Órgã os Análogo s Asa do mor cego e asa da borb oleta iniciais. I Saprobiontes seres que se alimentam de matéria orgânica em decomposição. II Fósseis qualquer resto ou vestígio de seres vivos antigos. Pegadas impressas na rocha e até mesmo fezes petrificadas são também consideradas fósseis. Prof. Dorival Filho Essa semelhança é mais Fonte:Integrated Principles of uma evidência da Zoology origem comum dos seres vivos. 8 • Biologia Molecular. A análise da sequência de bases nitrogenadas do DNA de várias espécies de seres vivos têm confirmado as pesquisas envolvendo fósseis e a anatomia comparada. Por exemplo, vários estudos apontavam o chimpanzé como o animal mais próximo, evolutivamente falando, do ser humano. Com o desenvolvimento da tecnologia, foi possível comparar a estrutura do DNA humano e do chimpanzé e o resultado confirmou a expectativa. Os resultados mais recentes mostram uma semelhança de mais de 98% entre nosso DNA e o deles (leia o quadro abaixo). • Biogeografia. Quando falei sobre o que levou Darwin a formular sua teoria evolucionista, disse que a observação da distribuição dos seres vivos no planeta teve grande importância. Mais tarde, estudos mais aprofundados de biogeografia ajudaram a confirmar a teoria de Darwin. Durante um bom tempo, os biólogos discutiram como explicar a distribuição dos mamíferos marsupiaisI. Eles estão presentes na Austrália, África e América do Sul. Como poderiam ter-se deslocado a pontos tão distantes? Assim que a teoria da deriva continentalII foi confirmada, ficou fácil explicar essa distribuição. Segundo ela, há 200 milhões de anos todos os continentes estavam unidos, formando um supercontinente chamado PangéiaIII. Nessa época, vivia um ancestral comum a todos os marsupiais hoje existentes. Quando os continentes se separaram, populações desse ancestral ficaram isoladas. Com isso, cada uma originou uma espécie diferente situadas cada uma, num dos continentes citados. Folha on-line, 18/02/2001 - 09h06 Atualize-se SEQUENCIAMENTO DO CHIMPANZÉ PODE TIRAR DÚVIDAS SOBRE HOMENS JOANNA MARCHANT da "New Scientist" O ser humano parece ser bem diferente de seu parente mais próximo, o chimpanzé. Mas ambos seriam provavelmente classificados no mesmo gênero, caso somente o DNA fosse usado como termo de comparação, segundo Ajit Varki e Pascal Gagneux, da Universidade da Califórnia em San Diego. Os dois afirmam que somente o sequenciamento completo do DNA do chimpanzé poderia demonstrar o que faz dos humanos o que eles são. "Se você estiver olhando do espaço sideral e considerar somente as diferenças de DNA, é certo que cairíamos em um só grupo, junto com os chimpanzés e os bonobos. Seriam os gorilas e os orangotangos que ficariam do lado de fora", afirma Varki. Chimpanzés e humanos compartilham cerca de 99% de seu DNA e, até agora, somente uma grande diferença foi encontrada. Os humanos não têm um certo açúcar que é encontrado na superfície das células do corpo de outros mamíferos. "Temos algumas pistas intrigantes sobre o efeito que isso teria", diz Varki. Ele acha que a diferença poderia causar mudanças no desenvolvimento cerebral e na suscetibilidade a vírus e bactérias. Svante Pääbo, do Instituto Max Planck para Antropologia Evolutiva, em Leipzig (Alemanha), diz que, se fosse feita a comparação dos dois genomas, o homem ficaria humilhado ao descobrir quanto as duas espécies se parecem. Pelo menos ele encontrou uma coisa que separa os humanos de outros primatas: pessoas diferentes têm seu DNA quase idêntico, diferindo apenas 0,1%, enquanto os chimpanzés têm quatro vezes mais diferenças. Isso apóia a noção de que os humanos evoluíram de um pequeno grupo de ancestrais, enquanto outros primatas vieram de populações maiores. I Marsupiais tipo de mamífero que nasce prematuramente e que são criados dentro de uma bolsa (marsúpio). Ex: canguru e gambá. II Deriva Continental Teoria que afirma que os continentes se deslcoam lentamente sobre o conteúdo pastoso do interior da Terra. III Pangéia Supercontinente que teria existido até cerca de 200 milhões de anos atrás quando se fregmentou. Prof. Dorival Filho 9 Saiba Mais! A essa altura você já percebeu que a teoria da evolução, dependendo da formação de cada um, pode ter algumas implicações religiosas. Veja abaixo como o grande cientista brasileiro Newton FreireMaia classifica as posições fundamentais sobre o tema: 1. Criacionistas-fixistas. Deus criou todos os seres vivos e, desde o início, não houve mudanças significativas. 2. Criacionistas-semifixistas. Deus criou os grandes grupos de seres vivos, como as angiospermas ou os vertebrados. Pequenas mudanças podem ter ocorrido nesses grupos por evolução. 3. Evolucionistas-materialistas . A matéria sempre existiu, ou surgiu por acaso, e a evolução ocorreu pela ação de fatores naturais sem intervenção direta ou indireta de entidade transcedente alguma. 4. Evolucionistas-agnósticos. Aceitam a teoria da evolução em sua forma integral mas consideramse incapazes de conhecer as razões profundas, o absoluto, o transcedente. 5. Criacionistas-evolucionistas. Deus criou a matéria com propriedades evolutivas e, assim, a evolução ocorre pela ação de fatores naturais. Vale lembrar que, como já foi dito, a teoria da evolução é bem fundamentada e aceita. Não há qualquer argumento científico plausível para não aceitá-la. Agora, vale a pena lembrar que a evolução não é contrária à criação divina, desde que entendida como descrito pelos criacionistas-evolucionistas. Ela é totalmente contrária ao fixismo, este, sim, inaceitável do ponto de vista científico. Numa rápida autobiografia, Darwin faz um interessante comentário sobre o tema. Veja abaixo: Quanto aos meus sentimentos religiosos, acerca dos quais tantas vezes me têm perguntado, considero-os como assunto que a ninguém possa interessar senão a mim mesmo. Posso adiantar, porém, que não me parece haver qualquer incompatibilidade entre a aceitação da teoria evolucionista e a crença em Deus. Ao final, gostaria de encerrar com esta afirmação: sistematicamente, evito colocar meu pensamento na religião quando trato de ciência, assim como o faço em relação à moral, quando trato de assuntos referentes à sociedade. C. D. 1881 • • • • • • Supra-Sumo A ciência não é uma atividade humana isolada. Ela sofre influência da cultura, economia, religião… Lamarck defendeu a idéia de que os órgãos podem se desenvolver ou atrofiar de acordo com a intensidade do uso (Lei do uso e desuso) e que essas mudanças podem ser passadas para a descendência (Lei da transmissão das características adquiridas). Darwin lançou a teoria da seleção natural, segundo a qual a natureza seleciona os indivíduos mais aptos e extingue os menos aptos. Há várias evidências de que a evolução ocorre, como as que se têm dos fósseis, da anatomia comparada, da embriologia e da biogeografia. Órgãos Homólogos possuem a mesma origem evolutiva mas têm funções diferentes. Ex: a asa do morcego e a nadadeira da baleia. São formados por irradiação ou divergência adaptativa. Órgãos análogos possuem origens evolutivas diferentes, mas têm a mesma função. Ex: a asa do morcego e a asa de um inseto. São formados por convergência adaptativa. Prof. Dorival Filho 10