O CAIS ONDE O PATRIMÔNIO ATRACA: o Cais José Estelita como
parte integrante da Paisagem Cultural do Recife
NÓBREGA, MARIA DE LOURDES CARNEIRO DA CUNHA. (1); TRINDADE,
ISABELLA LEITE. (2); CÂMARA, ANDREA DORNELAS (3)
1. Universidade Católica de Pernambuco. Curso de Arquitetura e Urbanismo
Av. Bernardo Vieira de Melo 738, Piedade, Jaboatão, Pernambuco. Brasil.
E-mail: [email protected]
2. Universidade Católica de Pernambuco. Doutoranda no City Institute: York University, Canadá
278 Bloor Street East. Suite 1506. Toronto, Ontario, Canada. M4W 3M4.
E-mail: [email protected]
3. Universidade Católica de Pernambuco. Curso de Arquitetura e Urbanismo
Rua Edson Alvares, 211/1201, Casa Forte, Recife, Pernambuco. Brasil
E-mail: [email protected]
RESUMO
Uma manifestação popular movida em rede social pela internet promoveu uma ocupação urbana de
protesto denominada #ocupeestelita. Através deste manifesto, dentre outras questões urbanas, são
discutidas as demolições de antigas edificações e equipamentos urbanos na área do Cais José Estelita,
no Bairro de São José, no Recife / PE, Brasil, para a implantação de um novo empreendimento
imobiliário. Estes questionamentos, ora em curso, motivam a elaboração deste artigo, que tem como
objetivo demonstrar a pertinência da conservação das edificações existentes que servem (ou serviram)
às atividades portuárias, como é o caso dos armazéns em demolição no Cais, pois são integrantes da
paisagem histórica da cidade constituindo, em seu conjunto, parte da paisagem cultural recifense. O
Recife, por estar implantado junto a um porto marítimo natural, configurou-se como entreposto
comercial desde a sua colonização. Tem assim uma estreita relação com as atividades portuárias e
suas dinâmicas, que foram transformadoras do seu espaço urbano e consequentemente da sua
paisagem. O Porto e a arquitetura que o compõe são, ora agentes, ora testemunhas da história da
cidade e têm uma estreita relação com a morfologia urbana existente. Assim, apresenta-se a
importância do Porto, que possui parte ainda em funcionamento, para o Recife ao longo da história, e,
demonstra-se o desenvolvimento dos conceitos de preservação e conservação urbana através das
legislações municipais pertinentes, que passa pela instituição das áreas de preservação em 1979/80, e
a preservação de alguns edifícios isolados em 1997. No Recife a história que poderia ser contada
através da arquitetura da cidade, dia a dia, é esquecida ou apagada face as demolições das antigas
estruturas para construção de novos empreendimentos. Sem uma política de conservação do
patrimônio histórico existente, o Recife presenciou áreas de patrimônio perderem seu valor econômico
e consequentemente seu valor de troca. Embora se entenda a necessidade de preservação de
conjuntos urbanos, e não apenas de edifícios isolados, no Recife, a falta de um planejamento urbano
voltado para a conservação da história urbana ao longo do tempo é demonstrada na atual forma de
intervenção no Cais José Estelita que, neste caso, prevê a demolição de antigos armazéns para a
locação de novas construções. Transcorre-se assim, na contramão das atuais discussões
internacionais em torno da preservação, que consideram a necessidade de se planejar através de
estratégias de integração da paisagem aos interesses culturais, estéticos e sociais do território.
Finalmente, conclui-se com a proposição de uma área a ser preservada, nos bairros do Recife e São
José, onde se inclui o Cais José Estelita, e que abriga as edificações que compõem o conjunto
arquitetônico da arquitetura portuária recifense e constitui parte integrante da Paisagem Cultural da
cidade.
Palavras-chave: Patrimônio; Paisagem Cultural; Planejamento Urbano.
3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS
Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro
1.
Mais que um manifesto, um questionamento sobre a
preservação de uma paisagem
Em 2013, o Brasil foi tomado por inúmeros protestos em pelo menos 11 das suas grandes cidades.
Inicialmente destacou-se, em São Paulo, como estopim das manifestações de rua o protesto que ficou
conhecido como “Manifestação do Passe Livre” ou como muitos chamaram "Manifestação dos 20
centavos". A questão que dizia respeito à insatisfação popular pelo aumento da passagem do
transporte coletivo também embutia em si uma insatisfação com a qualidade da infraestrutura urbana
sob vários aspectos, fato esse que fez surgir o bordão popular “Não é Apenas por 20 Centavos” nas
principais redes sociais quando a questão dos protestos era abordada.
A partir de então, as ruas brasileiras foram inundadas por centenas de milhares de manifestantes
organizados pelas redes sociais (como facebook, twitter e whatsaap), em protestos diversos, onde,
além da insatisfação com a precariedade do sistema de saúde, da educação, dentre outros problemas
de ordem social, questões relativas à problemas urbanos estão permanentemente na pauta dos
problemas levantados pela sociedade civil. Os brasileiros foram às ruas exigindo mais de seu governo:
a melhor qualidade tanto dos serviços públicos quanto da infraestrutura urbana das cidades.
Dentre os inúmeros protestos ocorridos desde junho de 2013, um deles, chamou a atenção da mídia
social em todo o país: o "Ocupe Estelita” (#ocupeestelita), na cidade de Recife, cujo foco do
questionamento social é centrado no modelo de urbanização que as pessoas desejam para a cidade.
Em oposição ao planejamento praticado nas últimas décadas centrado na verticalização das
edificações e no uso do espaço urbano pelo automóvel individual, os manifestantes apresentam o
desejo de que seja implementado um modelo de urbanização cujas ações projetuais decorrentes deste
modelo tenham como premissa "o direito a uma cidade para as pessoas” (GEHL, 2013).
Neste caso, a manifestação pública tem como foco a área da cidade denominada Cais José Estelita, no
bairro de São José. Uma área de mais de 10 hectares no centro histórico do Recife, ameaçada pela
construção de um grande projeto imobiliário intitulado pelo empreendedor de "Novo Recife". A partir do
início da demolição de antigos galpões existentes na área, em maio de 2014, que sugeriu o início da
obra do questionado projeto, manifestantes lá acamparam (figura 01). A ocupação teve como objetivo
dizer “não” ao modelo de projeto proposto, a fim de proteger as edificações históricas e lutar para uma
melhor proposta arquitetônica e urbanística, ao menos, nesse trecho da cidade. Os manifestantes
também reivindicam a anulação do processo administrativo que aprovou o projeto de construção do
projeto, já objeto de ações judiciais que contestam a sua legalidade desde 2012.
Já em junho de 2014, após algumas semanas de ocupação, os manifestantes acampados na área
foram violentamente retirados pela polícia militar e passaram a acampar nas proximidades da área.
Dias depois o acampamento foi desmontado e assim como surgiu, o manifesto continua nas redes
sociais e em forma de manifestações culturais (shows, palestras e eventos diversos) como uma forma
de manter as reinvindicações.
3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS
Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro
A manutenção do patrimônio histórico da área é uma entre diversas questões urbanas que são
discutidas com o manifesto e motiva a elaboração deste artigo, que aborda as demolições de antigas
edificações e equipamentos urbanos na área do Cais José Estelita para a implantação do novo
empreendimento imobiliário. Este artigo tem como objetivo demonstrar a pertinência da conservação
das edificações existentes que servem (ou serviram) às atividades portuárias, como é o caso, por
exemplo, dos armazéns em demolição no Cais, motivo da manifestação e consequente ocupação
popular, pois, como será demonstrado mais adiante, essas edificações são integrantes da paisagem
histórica da cidade constituindo, em seu conjunto, parte da paisagem cultural recifense.
Figura 01. Ocupação do Cais José Estelita em junho de 2014 com os galpões de armazenamento de
açúcar que foram parcialmente demolidos ao fundo. Fotografia: Maria de Lourdes Nóbrega.
Através deste artigo, apresenta-se a importância do Porto do Recife, que possui parte ainda em
funcionamento, para a memória do Recife, e, demonstra-se o desenvolvimento dos conceitos de
preservação e conservação urbana através das legislações municipais pertinentes, que passam pela
instituição das áreas de preservação em 1979/80, e a preservação de alguns edifícios isolados em
1997.
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Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro
Através da apresentação da importância do Porto do Recife para a história da cidade e dos processos
que lhe são pertinentes, da análise das questões relativas às normativas de preservação elabora-se
como conclusão do texto a proposição de uma área a ser preservada, nos bairros do Recife e São José,
onde se inclui o Cais José Estelita, e que abriga as edificações que compõem o conjunto arquitetônico
da arquitetura portuária recifense e constitui parte integrante do patrimônio industrial urbano e da
Paisagem Cultural da cidade (figura 02).
Figura 02. Área do Cais José Estelita em 2007. Fotografia: acervo da Empresa de Urbanização do
Recife.
2. Quando a origem da cidade é um porto
O primeiro período do processo de formação da paisagem do Recife situa-se entre os primeiros anos
do século XVII a 1715. Este período é denominado segundo a periodização do sistema capitalista de
período do capitalismo mercantilista (Nobre, 2000). Neste período, que vai desde o início do capitalismo
até a revolução industrial, a acumulação de capital é proveniente das atividades comerciais decorrentes
das conquistas e expansões territoriais.
O mundo do século XVI presencia então a formação de rotas comerciais que surgiram no início do
mercantilismo expansionista, assim como presencia o surgimento de um mercado internacional “ávido
a transacionar e garantir a supremacia comercial das nações individualmente, e a qualquer preço”
(VARGAS, 1993, p. 127). As colônias fundadas neste período, como é o caso do Brasil, fruto das
conquistas expansionistas da Europa possuíam as mesmas características de localização, estavam
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junto a um porto (marítimo ou fluvial) ou tinham acesso direto a ele. Participavam intensamente do
comércio internacional (VARGAS, 1993). Desta forma, o Século XVI testemunha a formação de rotas
comerciais advindas das viagens do século XV, as quais acabam por se transformar em rotas
marítimas, e as proximidades geográficas a rios e mares (ou a um porto fluvial ou marítimo) são
determinantes para a ocupação do território.
O Recife, povoado denominado inicialmente por Duarte Coelho Pereira de “Ribeira do Mar dos
Arrecifes dos Navios”, não foge à característica de localização apontada por Vargas (1993): a de um
vilarejo portuário de colonização portuguesa. Ele surge em função deste comércio de importação e
exportação e a importância do seu porto é ressaltada graças à importância do açúcar e da madeira nos
mercados internacionais que por ele passavam. Em um istmo situava-se o povoado do Recife, área
baixa do território colonizado, onde se desenvolviam as atividades portuárias.
No princípio, existiam ali 200 casas, dentre as quais escritórios e armazéns dos senhores do alto
comércio de Olinda (capital do governo português, situada ao norte do povoado), vendas e tabernas, e
era então, moradia do “povo dos Arrecifes”, “mareantes e pescadores” que viviam em torno da ermida
de São Pedro Gonçalves (ou Igreja do Corpo Santo). O Recife era um porto.
Apesar de ter o Recife sua ocupação inicial diretamente ligada ao comércio de importação e exportação
de mercadorias característico da época, pois seu porto natural podia abrigar a entrada de navios de
grande calado, o adensamento do povoado só veio acontecer após a ocupação holandesa (1630), e
mais especificamente após a escolha, pelo Conde Maurício de Nassau, deste sítio como sede de seu
governo (1637/1644).
“[...] em regra constrói-se um porto para servir a uma cidade; no caso levantaram os holandeses uma
cidade para servir ao seu porto.” (CASTRO, Josué de. apud BALTAR, 1951. p. 42)
O incêndio de Olinda, provocado pela invasão holandesa, fez com que o pequeno povoado do Recife
absorvesse grande parte da população que fugiu da destruição da guerra e que, somando-se a
presença do invasor, rapidamente o fez crescer e o adensou. Como representante da Companhia das
Índias Ocidentais, o Conde Maurício de Nassau norteou sua escolha para a localização geográfica de
seu governo, de forma a melhor adequar às necessidades comerciais da época à configuração
territorial existente.
O Recife é então escolhido por possuir melhor ancoradouro, por ser defendido por fortificações e por se
achar organizado para o tráfego ultramarinho, pois, já era nesta época, o principal porto de embarque
do açúcar brasileiro, possuindo armazéns e trapiches necessários ao embarque e desembarque de
mercadorias, além de ser a rota (fluvial) natural do açúcar vindo dos engenhos (WATJEN, 2004).
Após a saída dos holandeses a capitania de Pernambuco apresenta-se com dois importantes e
distintos espaços urbanos, a Praça do Recife, espaço portuário e do comércio consolidado no período
de Nassau, e Olinda, novamente sede do governo. Esses espaços caracterizaram também os
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principais aspectos da sociedade deste período e seus principais conflitos. Novamente o porto, porta de
entrada e saída de mercadorias é o palco da história.
A ocupação holandesa promoveu o adensamento do Recife e um consequente esvaziamento de
Olinda, que mesmo voltando a ser a capital da província, após a expulsão holandesa, apresentou-se
como um espaço urbano com baixa densidade demográfica. O Recife consolida-se neste período não
apenas como espaço do comércio de exportação e importação, detentor deste porto para embarque e
desembarque de mercadorias, mas como o espaço detentor das principais atividades de comércio e
serviços varejistas características da época.
Esses dois sítios urbanos, Olinda e Recife, também representavam as duas classes sociais que se
destacavam neste período, os nobres ou mazombos, representados pelos senhores de engenho e
considerados filhos da terra, e os mercadores ou mascates, comerciantes estrangeiros ou cristãos
novos (MELLO, 2003). De certo que as diferenças entre as duas classes dominantes de Pernambuco
veio fazer eclodir o conflito denominado Guerra dos Mascates, ou melhor dizendo, as Alterações
Pernambucanas (1711). No centro desta disputa encontra-se o porto da cidade, pois é nele que o
comércio de importação e exportação de mercadorias é exercido para ambas as classes.
As Alterações Pernambucanas não só consistiram na luta pelo poder entre as duas classes (nobres e
mascates), mas também representaram, na análise do espaço urbano da época, a elevação da praça
do Recife à categoria de Vila e a consolidação do espaço urbano do Recife como o espaço
centralizador da atividade comercial em Pernambuco, tendo seu porto como espaço centralizador das
atividades econômicas vigentes.
Este comércio é praticado até o século XIX, a então província de Pernambuco presenciou uma grande
expansão econômica, daí as ideias de liberdade que inspiraram as sublevações ocorridas no estado,
principalmente após a abertura dos portos brasileiros (1808), com o cultivo e exportação do algodão e a
manutenção do cultivo e exportação do açúcar que já vinha dos séculos anteriores. Recife, com seu
Porto, foi o principal entreposto comercial do Brasil, com um intercâmbio direto com a Inglaterra, maior
economia do mundo na época. O porto continua assim como espaço protagonista da história da cidade.
Inserindo-se neste contexto econômico, o Recife, além de exportar, também continua a importar
diversos produtos para atender à crescente demanda de consumo decorrente do crescente aumento
populacional. Inicia no século XIX seu processo embrionário de industrialização, apresentando
algumas fábricas urbanas. Não fugindo a lógica industrial do período, o espaço da cidade passa,
também, a abrigar estes equipamentos ligados às atividades industriais, bem como o transporte sobre
trilhos tanto de carga como de passageiros.
O mapa do Recife de 1914 já apresenta as ruas onde foram assentados os trilhos do transporte
ferroviário urbano, trilhos estes consolidados a partir da primeira linha ferroviária que ligava o Recife ao
município do Cabo (1855), segunda via férrea do Brasil – percebe-se nesta época a expansão dos
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equipamentos portuários para o sul do território, com estação na área hoje denominada Cais José
Estelita, palco dos manifestos populares.
A então Vila do Recife, neste século é elevada à capital da província de Pernambuco e sua malha
urbana é expandida para além do núcleo central (Recife, Santo Antônio e São José) para áreas
suburbanas. Terras de antigos engenhos de açúcar, periféricas ao centro, são loteadas e começam
também a compor a cena urbana. No século XIX o porto é o ponto de chegada (e de partida) de uma
série de vias que começam a surgir em uma configuração radial que o aponta como o Marco Zero da
formação urbana da cidade, ou seja, do porto. Pode-se dizer que é a partir do porto que a província se
torna vila e vem em seguida a constituir uma cidade.
O desenvolvimento do setor industrial iniciado no século XIX e a construção de ferrovias que ligavam o
Recife a povoações mais distantes contribuíram diretamente para as reformas no Porto do Recife
ocorridas em 1910. Após esta reforma, o espaço berço da formação do Recife passou a abrigar
estabelecimentos
do
comércio
atacadista,
estabelecimentos
de
serviços
financeiros
e
estabelecimentos ligados á produtos de exportação e importação, assim como outras atividades
ligadas às atividades portuárias. O Cais José Estelita manteve-se como abrigo da linhas férreas que por
ali passavam até o final do século XX (figura 03).
Figura 03. Rede Ferroviária do Cais José Estelita em 1997. Fotografia: Aurelina Moura.
No final do século XX a maior parte das atividades portuárias foi transferida para o novo porto de Suape
(entre os municípios de Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho), mas, mesmo em um processo crescente
de degradação, ocasionado pela falta de ocupação de vários imóveis desde a reforma do bairro em
1910 até os dias atuais, o Bairro do Recife, bem como o bairro de São José mantêm equipamentos
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(edifícios com escritórios, armazéns, galpões, serviços financeiros, etc.) que servem às atividades
portuárias ainda existentes. Assim, não há como negar a relação do Porto do Recife com os processos
de formação urbana que constituem a memória urbana da cidade e nesta memória situa-se o Cais José
Estelita.
3. A arquitetura portuária do Recife como formadora da sua
Paisagem Cultural
Em Pernambuco, a preservação foi primeiramente instituída em 1928 pelo Governo do Estado; este
aplicou uma lei específica visando à preservação dos seus monumentos. Para a aplicabilidade dessa
lei, elaborou uma lista de edifícios aos quais atribuiu valores históricos e artísticos (SILVA, 2001, p.56).
Ao mesmo tempo, discussões internacionais, tuteladas pela UNESCO, referentes à proteção e
conservação da herança cultural e natural mundial geraram documentos (denominados Cartas
Patrimoniais) referenciais para a definição de políticas públicas de preservação em diversos países,
inclusive o Brasil.
Essa lei estadual privilegiava a preservação de monumentos isolados, não existindo a figura da
preservação de sítios ou conjuntos urbanos, como o identificado pelas atuais Zonas Especiais de
Preservação Históricas (ou ZEPH) existentes atualmente no zoneamento da cidade do Recife. Esta
postura preservacionista também era identificada nos primórdios da preservação a nível federal, que
efetivamente teve início com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN)
entre os anos de 1936 e 1937.
Todavia, apenas na década de 1970 o reflexo dessas novas posturas pôde ser visto no Brasil,
referenciadas pelas Cartas Patrimoniais, apontou para necessidade da preservação dos conjuntos
urbanos e não apenas edifícios isolados. Esta nova abordagem é expressa através da Declaração de
Amsterdam (1975), do Documento de Brasília (1970) e do Documento de Salvador (1971), dos quais foi
signatário o Governo de Pernambuco . Partindo, assim, do princípio da preservação dos conjuntos
urbanos, o Recife incorpora as recomendações do Plano de Preservação dos Sítios Históricos da
Região Metropolitana do Recife (PPSH-RMR) elaborado pela FIDEM (Fundação de Desenvolvimento
da Região Metropolitana do Recife) à legislação de preservação municipal, inicialmente através da Lei
no 13.957 do ano 1979.
A lei de 1979 instituiu “normas gerais de proteção a sítios, conjuntos antigos, ruínas e edifícios isolados
cujas expressões arquitetônicas ou históricas tivessem real significado para o patrimônio cultural da
cidade do Recife”; disciplinando a preservação desses bens; e autorizando a criação de “zonas
especiais de preservação”. Originários desta lei foram aprovados sucessivos decretos municipais, que
instituíram os atuais 33 sítios históricos (ou ZEPH) existentes na cidade.
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Como uma mais nova postura de preservação, destaca-se aqui, em especial, a Recomendação
Europa, de setembro de 1995. Este documento versa “sobre a conservação integrada das áreas de
paisagens culturais como integrantes das políticas paisagísticas”. As definições e conceitos contidos
neste documento auxiliam na compreensão da necessidade de preservar e conservar as edificações
que fazem parte do complexo portuário do Recife. Entendendo que estas edificações são testemunhas
e atores do processo histórico de formação da cidade do Recife, que teve o seu porto como principal
núcleo de atividades econômicas, como já foi exposto.
Compreende-se então que as edificações hoje existentes nos bairros do Recife e São José, que
servem (ou serviram), que estão relacionadas (ou estiveram relacionadas) às atividades portuárias são
integrantes da paisagem histórica da cidade.
Entendendo-se a definição de paisagem como a sugerida pela Recomendação Europa (1995):
“Paisagem é considerada em um triplo significado cultural, porquanto, é definida e
caracterizada da maneira pela qual determinado território é percebido por um
indivíduo ou por uma comunidade; dá testemunho ao passado e ao presente do
relacionamento existente entre os indivíduos e seu meio ambiente; ajuda a especificar
culturas e locais, sensibilidades, práticas, crenças e tradições”.
As edificações que compõem o conjunto da arquitetura portuária são elementos constituintes da
paisagem da cidade do Recife, compreendida, neste caso como parte da Paisagem Cultural do Recife.
O conceito de áreas de paisagem Cultural é aqui compreendido também seguindo a definição da
Recomendação Europa (1995).
As áreas de paisagem cultural – “partes específicas, topograficamente delimitadas
da paisagem formada por várias combinações de agenciamentos naturais e humanos,
que ilustram a evolução da sociedade humana, seu estabelecimento e seu caráter
através do tempo e do espaço e quanto de valores reconhecidos têm adquirido social
e culturalmente em diferentes níveis territoriais, graças à presença de remanescentes
físicos que refletem o uso e as atividades desenvolvidas na terra no passado,
experiências ou tradições particulares, ou representação em obras literárias ou
artísticas, ou pelo fato de ali terem ocorridos fatos históricos”.
Instituídas na década de 1970 / 1980, as posturas que nortearam a criação das Zonas Especiais de
Preservação Histórica, que conformam os atuais sítios a serem preservados no Recife não levaram em
consideração os conceitos e definições constantes na Recomendação Europa, visto que esta
recomendação só ocorreu em 1995. Ressalta-se então a importância em se reavaliar as posturas da
preservação dos territórios históricos da cidade, levando-se em conta estas novas premissas, visto que
os mesmos são testemunhos da história e cultura da cidade.
Ainda no âmbito da preservação observa-se que grande parte do acervo físico existente na faixa
litorânea dos bairros do Recife e São José é composta por edificações e equipamentos que compõem o
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Patrimônio Industrial da cidade do Recife. Este patrimônio é constituído pelo acervo construído
resultante do processo de industrialização, ocorrido no Recife a partir do século XIX. Dentro deste
acervo destaca-se o patrimônio ferroviário existente e remanescente da já mencionada segunda via
férrea do Brasil instalada no bairro de São José ainda no século XIX. Entende-se aqui como Patrimônio
Industrial os monumentos da industrialização que segundo Beatriz Mugayar Kühl (2008) referem-se,
“não apenas à arquitetura dos edifícios relacionados com as unidades de produção,
mas se volta a todo o complexo de edifícios que pode compor um conjunto industrial –
fábrica, enfermaria, escola, etc. – além de abarcar unidades de produção de energia e
meios de transportes; ademais, concerne também a edifícios pré-fabricados (total ou
parcialmente), que são fruto do processo de industrialização”.
Entende-se assim que as edificações que constituem a arquitetura portuária são remanescentes físicos
e consequentemente bens culturais que contam, a sua maneira, a história do processo de formação da
cidade do Recife e devem ser preservados.
4. O patrimônio do Cais José Estelita
A área de mais de 100.000 m2 no Cais José Estelita, foco de discussão por parte da sociedade cuja
utilização é questionada, abrigou o pátio ferroviário da Rede Ferroviária Federal desde o século XIX até
a segunda metade do século XX. Nela ainda são encontrados galpões de armazenamento (do século
XIX e do século XX), antigos edifícios da rede ferroviária, silos de armazenamento, casas de antigos
funcionários, trilhos, trens, etc. Abandonados, esses edifícios e equipamentos testemunham o apogeu
e a morte desta atividade que serviu ao porto com o tráfego e armazenagem de mercadorias, em
especial o açúcar.
A cidade do Recife instituiu suas áreas de preservação em 1979 / 80, na vanguarda do pensamento
preservacionista da época, chegou a instituir 33 zonas especiais de preservação. Sítios inteiros foram
entendidos como áreas que deveriam ter suas edificações externamente preservadas. 34 anos se
passaram e de lá pra cá a única intensão de preservação através de uma normativa foi a lei que instituiu
a preservação de alguns edifícios isolados em 1997, a chamada lei do IEP (Imóveis Especiais de
Preservação). A história que poderia ser contada através da arquitetura da cidade dia a dia
aparentemente parou aí.
Sem uma política (de curto, médio e longo prazo) de conservação do patrimônio histórico existente, o
Recife viu a cada dia as áreas de patrimônio perderem seu valor econômico. O patrimônio edificado da
cidade que deveria ser um bem de altíssimo valor, a ser deixado como herança para gerações futuras
passou em sua grande maioria a não ter valor de troca e consequentemente passou a se degradar por
total falta de interesse de muitos proprietários em manter algo sem valor econômico.
A paisagem que figura ao longo da beira do Cais José Estelita composta pela repetição dos diversos
armazéns ao longo do Cais, intercalados por casas e pelos antigos silos metálicos que serviram de
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estoque de mel de açúcar apresentam o porto que está por vir, pois faz parte dele. Não há como
dissociar estas estruturas, bem como todo patrimônio ferroviário que se encontra atrás desses galpões
do Porto do Recife, ou seja, todo este percurso costeiro testemunha a história da formação da cidade
(ver figura 04). A demolição de parte destas estruturas edificadas, ora em andamento, produz um hiato
na história que poderia ser contada através de suas edificações. A recente história contada através
deste Pátio Ferroviário e suas edificações precisam ser preservadas através de uma postura normativa
que venha contribuir com a valorização deste sítio.
Figura 04. Delimitação da faixa costeira dos bairros do Recife, Santo Antonio e São José, onde se
insere o Cais José Estelita, que abrigaram atividades portuárias na cidade do Recife. Fonte: google
maps trabalhado pelas autoras.
Com um rico patrimônio ferroviário o cais conta atualmente apenas com as estruturas mais antigas
instituídas como imóveis a serem preservados (isto a nível federal). Não há preservação municipal para
a área que pela já citada lei de preservação não foi instituída como ZEPH, e o recente início de
demolição dos galpões construídos no século XX de armazenamento de açúcar demonstra o não
entendimento de todos os agentes envolvidos na formulação do novo projeto da importância destas
estruturas como bens culturais.
Na contramão do planejamento urbano praticado em outras cidades do mundo (como Buenos Aires,
Londres, Amsterdam etc.) onde as estruturas antigas são preservadas e valorizam o empreendimento
proposto através de intervenções de reabilitação das mesmas, o Recife assiste a perda gradativa do
seu patrimônio, em especial do século XX, motivada pela não percepção que as estruturas edificadas
deste século são também componentes da memória da cidade e precisam ser preservadas.
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Não se pretende a partir da demarcação da área aqui delimitada como de arquitetura portuária impedir
que nela ocorram novas construções, mas, sugere-se um olhar criterioso para que quando nela
ocorram novas edificações as mesmas venham a ser inseridas como intervenções em um sítio de
natureza histórica, ou seja, que estas intervenções ocorram de forma contextualizada de forma a não
apagar nas construções existentes os traços da história da cidade.
A definição de Gracia (1992, p. 310) para arquitetura contextualista auxilia no entendimento desta
forma de se intervir no espaço que abriga uma preexistência de caráter histórico:
Arquitetura contextual- “Entendemos por arquitetura contextual aquela que, sem
utilizar os recursos da mimese superficial nem a analogia direta, estabelece uma rara
simbiose com o contexto; prolongando-o ou revalorizando -o através de um esforço de
indagação formal orientado desde o próprio contexto; tratando de salvar o conflito
entre a individualidade dos objetos e as leis estabelecidas na construção da cidade”.
“[...] sua particularidade consiste em colocar a serviço da contextualização a
globalidade do problema de desenho. Digamos que sua importância está em
comprometer-se com o princípio de continuidade diacrônica da forma da cidade. Deve
entender-se, portanto, que a continuidade que estas intervenções procuram não é
redundante nem homogeneizadora, podendo favorecer a presença de elementos de
exceção que atuem como agentes de uma dialética reformadora e criativa”.
Acredita-se assim que se intervindo de forma contextualizada não apenas no sítio demarcado, mas,
nas edificações existentes possa-se garantir a preservação e a leitura da paisagem existente
agregando valor histórico ao empreendimento a ser construído, redefinindo a página da história do
Recife que trata do embate entre renovação x preservação. A partir desta emblemática ocupação do
Cais José Estelita é hora da cidade do Recife refletir como redefinir uma política de preservação dos
seus imóveis históricos de forma que mantê-los venha constituir um ganho (econômico) para o
empreendedor e ao mesmo tempo um ganho cultural para o cidadão recifense.
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Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro
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