As novas tecnologias do cimento e a materialização do Corporativismo
Português
Isabel Maria Baptista Bolas
Instituto de Ciências Socias da Universidade de Lisboa
Resumo
Nesta Comunicação vou apresentar alguns resultados obtidos na investigação
que estou a desenvolver. A investigação em curso centra-se nas ligações entre
tecnologia e cimento e a construção do Estado Novo de 1926 a 1948. Parto da
hipótese da existência de um processo de co-produção1 entre os cimentos e o
regime corporativo, seguindo as propostas recentes da História da Ciência e
Tecnologia para conceptualizar as relações entre cientistas e engenheiros e o
desenvolvimento de regimes autoritários.
Parti para esta investigação tomando o cimento como objecto histórico a
investigar. O estudo de caso em que tenho vindo a trabalhar é a Fábrica de
Cimento de Maceira-Liz que pertenceu à Empresa de Cimentos de Leiria (ECL).
A partir deste espaço de produção, tem vindo a ser seguido o processo de
produção, de certificação e de homologação do cimento ali produzido no período
temporal entre 1918 e 1930, com o objectivo de compreender as relações que se
foram estabelecendo entre a emergência tanto da indústria do cimento como de
um Estado Corporativo.
1.A introdução em Portugal de inovações tecnológicas na produção de Cimento –
os Laboratórios e a emergência dos Cimentos (1918-1930)
Na década de 1960, Bruno Zevi iniciava a sua História da Arquitectura Moderna
elencando as quatro justificações mais frequentes entre historiadores quando lhes é
colocada a pergunta, “Porque é que surgiu a Arquitectura Moderna?”. Às justificações
mais usuais o autor atribui quatro premissas teóricas das quais destaco uma2, a
mecanicista, que corresponde à seguinte resposta à pergunta inicialmente formulada por
1
Jasonoff , Sheila (Ed.), 2006, States of Knowledge. The co-production of science and social order, London and New
York, Routledge.
2
As restantes três justificações mais usuais a que Bruno Zevi atribui às respectivas premissas teóricas são: a idealista,
a abstracto-figurativa e a económico-positivista, premissas que correspondem respectivamente às seguintes respostas;
“Pela evolução do gosto; como consequência de novas teorias de visão estética; como resultado de uma radical
transformação social” (Zevi, 1970, p. 35).
1
Zevi: A Arquitectura Moderna surgiu, pelo progresso científico e técnico das
construções (Zevi, 1970, p.35).
É interessante notar como há quase cinquenta anos atrás, referindo-se ao
“progresso científico e técnico das construções”, este historiador da Arquitectura já
chamava a atenção para o papel da Ciência e da Tecnologia enquanto motor de
transformações históricas, embora limitasse, naturalmente, a sua análise ao campo da
História da Arquitectura.
Embora, como Bruno Zevi, não subscreva na totalidade a ideia de que na origem
das transformações da Arquitectura, ou de qualquer outro aspecto da História, se
encontram apenas as evoluções científicas e tecnológicas, esta afirmação deste
historiador contém já a ideia de que a Ciência e a Técnica são objectos dignos de análise
histórica, como aliás defendiam, a partir da década de cinquenta os historiadores da
Ciência e Tecnologia.
Nesse sentido, abordarei nesta comunicação um aspecto específico desse
“progresso científico e técnico”: a introdução em Portugal de determinadas inovações
na Tecnologia da Produção de Cimentos num período particular da construção do
Estado contemporâneo, que foi da Primeira República e transição para o Estado Novo
Corporativo.
Ao fazê-lo, não pretendo tomar a evolução e transferência da Tecnologia como
um dado adquirido, mas antes analisar e problematizar essa própria evolução e
introdução de novas tecnologias associadas aos cimentos em Portugal nesse período,
procurando compreender como se desenvolveu a sua produção. Deste modo abordarei a
Ciência e a Tecnologia dos Cimentos como um objecto merecedor de análise histórica
em si mesmo, seguindo as perspectivas propostas pela História da Ciência e Tecnologia.
Por outro lado, é de sublinhar que a questão da emergência dos cimentos em
Portugal não interessará apenas aos historiadores da arquitectura, mas a todo aquele que
quiser compreender as transformações do Estado na época contemporânea e o
alargamento da sua capacidade de intervenção e presença no território. Algumas das
perguntas que coloco são: Qual o impacto do surgimento deste novo material neste
processo de transformação do Estado? Qual foi a importância dos cimentos para a sua
modernização? Com efeito, grande parte das infra-estruturas necessárias à constituição
de um Estado moderno necessitam, pelo menos a partir de inícios do Séc. XX, de
cimento para a sua construção.
2
Ao tratar a Ciência e a Técnica como objecto de análise histórica, surgem
aspectos cuja relevância até agora não terá merecido a devida atenção dos
investigadores. Assim, outro aspecto fundamental a abordar na presente comunicação é
o do surgimento, institucionalização e funcionamento dos Laboratórios, uma vez que no
processo da evolução do cimento como material construtivo, o papel do Laboratório foi
fundamental. Sem olhar com atenção para o que se fazia nos Laboratórios torna-se
difícil entender a emergência dos cimentos, uma vez que estes foram indispensáveis na
produção de um material de boa qualidade.
Com efeito, é de notar que a transferência de uma tecnologia nunca é um
processo linear ou automático: a forma como ela é apropriada e difundida depende em
grande parte do contexto não só geográfico como social e cultural, e é nesse sentido que
importa conhecer como se deu essa transferência. Os Laboratórios são locais essenciais
para o processo de transferência de uma Tecnologia, assegurando o carácter científico,
neste caso, da produção de um material.
Para identificar o que ocorreu nos Laboratórios onde se estudou e investigou a
produção de cimentos em Portugal (Laboratórios fabris, académicos e estatal), é
fundamental reconstituir as relações que se estabeleceram estre os actores que ali
trabalharam, e que terão permitido a emergência de um novo ideal de modernização.
Este ideal enquadraria ideologicamente uma política de ressurgimento económico
proposta e colocada em prática pelo Ministro das Finanças a partir de 1928 nos últimos
governos da ditadura militar até ao eclodir do Novo Estado Corporativo, António de
Oliveira Salazar. Mas antes de estabelecer as relações entre Estado Novo e Cimentos, é
preciso perceber como surgiram estes em Portugal, o objecto da presente comunicação.
É neste contexto que a infra-estrutura dos Laboratórios que tem vindo a ser estudada
assume a sua relevância histórica.
2.O Laboratório na afirmação dos Estudos de Ciência e Tecnologia
Nos últimos cinco anos, académicos do campo disciplinar da História da Ciência e
Tecnologia têm vindo a constatar que após os produtivos estudos sobre a História do
Laboratório no início dos anos 80, tem sido negligenciado o estudo desta entidade
científica como instituição social (Gooday, Kohler, 2008).
Antes de surgirem os primeiros Estudos de Ciência e Tecnologia, os Laboratórios
eram considerados sítios “especiais” onde era produzido o chamado “conhecimento
puro”. Na década de setenta com o surgimento deste novo campo disciplinar, foi
3
demonstrado que afinal também nos Laboratórios existia todo um mundo de acordos
negociados ou impostos. Entre os autores dos estudos seminais baseados nas
observações da vivência e produção científica e tecnológica em Laboratórios,
elaborados nas décadas de setenta e oitenta destacam-se Bruno Latour, Karin Knorr
Cetina, Michael Lynch, Harry Collins, Steve Woolgar, Trevor Pinch entre outros.
Ao “abrir a caixa negra” (Latour, 1987) da Tecnologia do Cimento, reconstituindo
com alguma precisão o processo de produção de cimento neste período temporal – a
“ciência em acção”, sigo as propostas de Bruno Latour que propõe seguir um objecto
histórico nas duas diversas dimensões, técnica, política económica e social (Latour,
1993).
Assim iniciei a reconstituição dos percursos da rede de actores envolvidos no
início do processo de certificação e homologação dos cimentos no contexto industrial
português, recorrendo a três laboratórios de natureza bem distinta: o Laboratório
Industrial da Fábrica de Maceira-Lis da Empresa de Cimentos de Leiria; o Laboratório
de Química Analítica do IST; e o Laboratório de Ensaios de Materiais que funcionava
nos anos vinte sob a tutela do Ministério do Comércio e Comunicações.
3.Primórdios da Indústria dos cimentos em Portugal. As novas tecnologias e a
montagem da Fábrica de Maceira-Liz
O surgimento da indústria dos cimentos em Portugal resultou do reconhecimento da
importância de um novo material construtivo que começava gradualmente a afirmar-se
na Europa ao longo das três últimas décadas do séc. XIX – o Cimento Portland
artificial3. Em Portugal este ligante começava timidamente neste período a ser utilizado
nos sistemas construtivos, mas ao contrário da cal hidráulica e de outros cimentos
naturais de produção nacional, o cimento Portland artificial vendido era totalmente
importado, já que não existia nenhuma fábrica em Portugal. A importação era
predominantemente de França, Inglaterra, Alemanha e Bélgica (Oliveira, 1999, Vol.1,
p.21). Os principais problemas que este cimento importado apresentava eram o preço
muito elevado e uma qualidade sofrível, para o que contribuía o transporte em barricas
armazenadas em porões de navios mal arejados.
3
Tratava-se de um ligante novo tanto em Portugal como no estrangeiro, que fora patenteado em 1824 por Joseph
Aspdin. No final do século XIX era ainda mal conhecido quimicamente e fabricado por processos herdados da
produção da cal, com tecnologias muito primitivas. Ao longo desta comunicação sempre que é utilizada a palavra
cimento, esta significa, cimento Portland artificial
4
Até 1923, ano em que foi inaugurada a Fábrica de Maceira-Liz, existiam em
Portugal duas Fábricas de Cimento. Segue-se uma breve descrição do processo de
implementação de tecnologias para a produção nesses dois conjuntos fabris, assim como
os principais problemas com que se defrontaram os actores que os dirigiram neste
período pioneiro e experimental do fabrico de cimento no contexto português.
Fábrica Tejo. A primeira Fábrica a ser construída em Portugal foi a Fábrica de
Cimento Tejo, inaugurada em 1894 e situada em Alhandra, pertencendo neste período
inicial a António Theófilo de Araújo Rato (1854-1922)4. Produzia o cimento de marca
«Tejo». A tecnologia adquirida para a montagem da primeira linha de produção era
alemã. Tratava-se de um forno tipo «Hoffmann»5. A decisão relativamente ao sistema
de fabrico de cimento a adoptar, foi tomada por Araújo Rato, tendo apoiado a sua
pesquisa e recolha de informação nas empresas europeias mais modernas na produção
de cimento Portland desse período. Foi a uma Fábrica de Cimento francesa6 que o
empresário recorreu, tendo esta prestado consultadoria e fornecido conhecimentos
técnicos, para a instalação da Fábrica de Alhandra. No início a produção anual rondava
as 6 000t.
Os principais problemas que parecem ter surgido nos primeiros anos deste
conjunto fabril prendem-se com dois aspectos. O primeiro relacionado com a
inexperiência e poucos conhecimentos que a direcção da Fábrica teria no fabrico de
cimento, tanto em termos da produção, como da escolha do tipo de fornos. O segundo
grande problema destes primeiros anos de laboração desta fábrica, foi o conflito que se
estabeleceu entre o Director Químico e o Director Técnico da Fábrica, ambos sem
experiência na produção de cimento. Assim dez anos após a montagem do primeiro
forno O Director Técnico, convence Araújo Rato a alterar o sistema de produção. Entre
1903-1904 são montados em Alhandra quatro fornos verticais com secadores de pasta,
modelo Candlot-Lavocat. As decisões tomadas e os investimentos do Director Técnico,
acabariam por levá-la a uma situação de falência. Em 1912 um grupo liderado pelo
4
António Theófilo de Araújo Rato (1854-1922), era um jovem empresário que trabalhava na empresa familiar
fundada por seu pai, em 1840, a António Moreira Rato e Filhos, Lda.
5
O Forno «Hoffmann» era de marcha contínua, em forma de anel e fora patenteado por Frederick Hoffmann na
Alemanha em 1860. Começara por ser utilizado na cozedura de tijolos de argila e depois no fabrico de cal, de
cimentos naturais e inclusivamente no fabrico de loiça. O principal benefício deste tipo de forno era o de utilizar
menos combustível, mas em contrapartida precisava de muita mão-de-obra para funcionar (cerca de 250 homens).
6
A Fábrica de Boulogn- Sur-Mer fora instalada em 1845-49 por Emile Dupont, apoiado pelos conhecimentos de
Charles de Marle, nos primeiros anos de funcionamento desta fábrica a qualidade dos cimentos ali produzidos não era
a melhor. Tendo vindo a tornar-se uma referência na produção de cimento em França.
5
Engenheiro Francisco Xavier Esteves (1864-1944) criou a Companhia de Cimento Tejo,
sendo movida uma acção de penhora para liquidação das dívidas acumuladas. Com esta
nova gestão foi contratado um técnico belga Lucien Wüillaume7, que passou a ser o
mestre geral da Fábrica. A contratação deste técnico com conhecimentos e alguma
experiência sobre o fabrico de cimento terá contribuído de forma decisiva para que no
período de (1912-1931) fossem tomadas medidas no sentido de modernizar o processo
de fabrico. Resultados que apenas no início dos anos trinta se tornarão visíveis.
A Fábrica do Rasca. A segunda Fábrica portuguesa de Cimento, iniciara a sua
construção em 1904, com o investimento de técnicos e capitais belgas e situava-se junto
ao Outão e à ribeira do Rasca, tratava-se da Compagnie des Ciments du Portugal. O
cimento que produziu inicialmente começou por ser conhecido como «Rasca», o que
não favorecia uma imagem de qualidade e confiança, sendo entretanto registado com a
marca «Tenaz». Os técnicos belgas que constituíram esta Empresa, optaram por montar
três fornos verticais Candlot-Perpignani. Entre 1913 e 1918 chegaram a produzir cerca
de 30 000t de cimento anualmente. Mas as consequências da Primeira Guerra Mundial
fizeram com que a exploração entrasse em falência no início de 1918.
Foi Baltazar Freire Cabral (1868-1929) que consciente da importância que esta
indústria começava a ter a nível internacional, criou uma sociedade que viria ainda em
1918 a adquirir o património da Fábrica. Estabeleceu uma sociedade por quotas – a
Sociedade de Empreendimentos Comerciais e Industriais, Lda (SECIL). Entretanto a
Fábrica recomeçou a funcionar com funcionários portugueses e belgas. Entre 1918 e
1930 novo período se inicia no Outão, repensa-se o método de produção utilizado e
introduzem-se novas tecnologias no processo de fabrico de cimento. Todo o conjunto
fabril foi significativamente modificado. Mas só no início da década de trinta, voltará a
ser fabricado cimento, com a marca «SECIL».
O que se passou durante os anos vinte nas duas fábricas existentes em Portugal,
isto é, repensar todo o processo de fabrico, demolir o que existia e montar nova
tecnologia que permitisse a produção de cimento de melhor qualidade, terá sido muito
provavelmente consequência da montagem da terceira fábrica de cimento portuguesa
iniciada em 1919. A tecnologia ali instalada, era a mais moderna da Europa deste
7
Sabe-se que entre 1909 a 1912 o um técnico belga Lucien Wüillaume fora colaborador da Compagnie des Ciments
du Portugal, empresa que construirá a segunda Fábrica de cimento em Portugal.
6
período, passou a produzir cimento de qualidade bastante superior ao que até então se
produzira na antiquada e frágil indústria cimenteira de então.
3.1.A Montagem da Fábrica de Maceira-Liz (1919-1923)
A Fábrica de Maceira-Lis, de Henrique Araújo de Sommer (1886–1944)8, a terceira
fábrica de cimento a ser construída em Portugal, foi inaugurada a 3 de Maio de 1923. A
construção desta Fábrica, que pertencia ECL constituída em 1919, reflectiu desde o
início as preocupações de índole científica dos seus fundadores, cujo objectivo era
inovar do ponto de vista tecnológico a produção de cimento em Portugal no contexto do
Pós-Primeira Guerra Mundial. Não por acaso, o Laboratório da Fábrica de Maceira-Lis,
foi o primeiro edifício a ser construído do conjunto fabril e social que esta empresa
edificou no lugar da Gândara, na freguesia de Maceira situado no distrito de Leiria,
entre 1920 e 1948. A construção do edifício para o Laboratório foi logo iniciada em
1921, tendo sido concluído um ano depois. Até essa data, o Laboratório fabril
funcionava em instalações provisórias desde meados de 1920.
A preocupação, logo desde o início da construção da fábrica, com a existência de
instalações laboratoriais em funcionamento, ainda que provisórias numa primeira fase,
exprime a importância de que o Laboratório se revestia para os fundadores do conjunto
fabril. Sugere mesmo que era tido por eles como um pré-requisito para a produção do
cimento, o que reforça a importância dada aos Laboratórios na emergência desta
indústria em Portugal.
A 3 de Abril de 1918 fora promulgado o Decreto com força de Lei que
estabelecia o primeiro Regulamento para o Emprego de Beton Armado9 português. Foi
Manuel José Pinto Osório que numa efémera passagem pelo Ministério do Comércio
entre 7 de Março e 3 de Maio de 1918, dum governo presidido por Sidónio Pais, assinou
este documento que viria a contribuir para a dinamização e modernização da indústria
do cimento nacional. Este regulamento tinha influências do Regulamento francês que
fora publicado em 1906 e no alemão cuja publicação ocorrera em 1904.
Um ano depois a 19 de Maio de 1919 um jovem engenheiro, José Osório da
Rocha e Mello (1891-1967), recém-formado na Suíça, apresentou a sua proposta de
8
Henrique Araújo de Sommer (1886–1944), foi um empresário português de ascendência alemã que decidiu investir
a sua fortuna pessoal, e a de parte da sua família, os Sommer da Quinta da Cardiga, na montagem da Fábrica de
Maceira-Liz.
9
Decreto nº 4 036 de 3 de Abril de 1918, primeiro Regulamento do uso de Betão Armado em Portugal. Decreto
emitido pelo Ministério do Comércio. Este documento foi assinado por Manuel José Pinto Osório Ministro do
Comércio a 28 de Março de 1918, num governo dirigido por Sidónio Pais.
7
construção de uma Fábrica de Cimento ao empresário Henrique Araújo de Sommer.
Esta proposta incluía como prioritária desde início a construção do edifício para um
Laboratório fabril no projecto que delineou10. Laboratório que pudesse analisar as várias
matérias-primas necessárias à produção de cimento, assim como os cimentos que
passariam a obter-se quando a fábrica iniciasse a sua produção.
Rocha e Mello concluíra a sua formação como engenheiro na Suíça tendo obtido
o título de engenheiro construtor 11. Em 1918 fizera um estágio de seis meses naquele
país, na Fábrica de Cimento Roche em Vaud. No final desse ano regressa a Portugal e
inicia os contactos com empresários que pudessem estar interessados na construção de
uma Fábrica de Cimento, tendo através de um amigo comum, Carlos Van Zeller, sido
apresentado a Henrique Sommer a 5 de Maio de 1919. Nessa primeira reunião
apresentou o relatório, Notas Industriais. Anteprojecto de uma Empreza um documento
manuscrito pelo próprio. A partir deste documento redigido entre 1918-1919, fica-se a
saber que tendo terminada a sua formação académica em 1916, Rocha e Mello estivera
indeciso sobre que especialização seguir. Ele relata que a leitura feita nesse ano da
publicação Estatística do Commercio e Navegação publicada em Portugal pelo
Ministério das Finanças teve um papel determinante na sua escolha. Através da leitura
deste relatório apercebeu-se das elevadas importações que Portugal fazia neste período
de cimento e da importância que passariam a ter os sistemas construtivos que
dependiam do uso de «cimento armado», que certamente rapidamente chegariam a
Portugal.
Este relatório escrito por Rocha e Mello é um documento valioso não só para a
história da indústria portuguesa, mas também para o aprofundamento dos
conhecimentos sobre o estudo da evolução dos materiais e dos sistemas construtivos
ocorrido em Portugal nos anos vinte. O jovem autor conta-nos que observou, estudou e
consultou os vários técnicos e trabalhadores envolvidos no processo de fabrico de
cimento, desde os engenheiros químicos, aos contramestres até aos operários. Explica
também que foi nesse período que construiu uma carteira de contactos dos melhores
10
MELLO, José Osório da Rocha (1918-1919), Notas Industriais. Ante Projecto de Empreza, 1918-1919.Documento
Em formato A5, manuscrito a caneta, paginado. Arquivo CMP.
11
José Osório da Rocha e Mello (1891-1967) iniciou a sua formação superior em 1908, na Escola Politécnica de
Lisboa, onde frequentou durante três anos o curso geral de Engenharia Civil e Minas. Em 1911 decidiu partir para a
Alemanha, país onde esperava encontrar um curso de engenharia que lhe permitisse colmatar as lacunas que sentira
no que já frequentara. Matriculou-se na Konigliche Thechnishe Hochshule em Charlottenburg, Escola situada em
Berlim, tendo ali frequentado o curso de engenharia até 1914. Nesse ano foi novamente obrigado a interromper os
estudos na Alemanha, com o início da Primeira Guerra Mundial. Em 1915 ingressou nos anos mais avançados da
Ecole d’ Ingénieurs da Université de Lausanne, na Suíça, tendo concluído o curso de «engenheiro construtor» em
1917.
8
fabricantes de maquinismos necessários à montagem de uma fábrica de cimento
moderna que tinha intenções de construir.
Da exaustiva lista de razões descrita por Rocha e Melo para a construção de uma
Fábrica de Cimento em Portugal, evidenciava a vantagem que o país tinha sobre os
restantes países da Europa, visto que no solo português se encontravam as melhores
matérias-primas para o fabrico do cimento (calcários e margas argilosas). Reforçava
ainda o facto de as instalações e processos de fabrico antiquados das duas fábricas
existentes em Portugal, do Rasca em Setúbal e da Tejo em Alhandra, reduzirem a
qualidade do cimento que produziam, que seria sempre de qualidade inferior e como tal
não poderiam competir com o que se propunha produzir na fábrica a montar. Explicava
que o sistema que iria usar permitiria reduzir muito a quantidade de carvão necessária à
produção; quanto ao sistema de produção a montar, frisava que este reduziria seis vezes
o número de pessoal necessário à linha de fabrico, relativamente às duas outras fábricas
que já referira; evidenciava ainda a competitividade deste investimento através da
vantagem de conseguir reduzir os custos do material a produzir relativamente ao que
circulava no mercado português por não ter de pagar os elevados direitos alfandegários.
O jovem engenheiro reforça neste relatório que a Fábrica na Suíça onde estagiou
era a mais moderna que ali existia, tendo sido inaugurada em 1914. Dos contactos lá
estabelecidos, explica ter facilidade em contratar contramestres e outro pessoal
habilitado, que estariam disponíveis para no período inicial de funcionamento da fábrica
se deslocarem a Portugal e por cá permanecerem formando os técnicos e operários
portugueses. O que virá efectivamente a acontecer.
Apresenta também uma lista dos cálculos detalhados de todos os gastos a ter em
conta para a produção que propõe que seria de 35 000 t por ano.
Quanto à escolha do local para implantar uma Fábrica de cimento, enumera uma
lista de prioridades a ter em conta quanto a essa decisão. Reforça em primeiro lugar a
proximidade da existência de carvão de boa qualidade, já que este se gasta não só como
força motriz como nos fornos, e o seu transporte encarece todo o processo. Refere a
importância da proximidade de matérias-primas de boa qualidade e em quantidade
suficiente desse local. Outro factor que considera importante para a redução dos custos é
a proximidade do caminho-de-ferro e a existência de uma estação. Por último realça a
necessidade de haver água em abundância. Consciente da grave crise económica e
social que o país atravessava neste período (1918-1919), Rocha e Mello termina este
relatório abordando as preocupações com a questão do operariado e com as revoltas e
9
greves que pudessem ocorrer. Explica que tendo necessariamente a fábrica de se situar
junto ao local onde existissem matérias-primas, que seria sempre um sítio isolado, o
perigo de ocorrerem revoltas e greves seria sempre menor do que se situasse nas
imediações de uma cidade.
Este documento tem ainda em anexo um conjunto de recortes de notícias sobre as
grandes obras a decorrer no país em que poderia ser usado em grande escala o cimento,
nomeadamente as obras portuárias12.
No Verão de 1919, uns meses após ter terminado a Primeira Grande Guerra,
Rocha e Mello desloca-se à Alemanha e à Suíça, onde contacta as principais empresas
que neste período fabricavam os mais modernos equipamentos necessários à montagem
de uma Fábrica de Cimento, formalizando as encomendas de toda a maquinaria
necessária
As empresas alemãs contratadas para fornecimento de maquinismos, montagem
e construção da Fábrica foram; a G. Polysius de Dessau que forneceu o primeiro forno
para produção de cimento e todo o material de montagem que lhe estava associado. O
tipo de forno encomendado a esta empresa alemã foi um forno rotativo13 de produção
por via seca – o primeiro forno rotativo a ser instalado em Portugal. A invenção deste
tipo de forno nos finais do século XIX permitira melhorar a qualidade do cimento bem
como a sua regularidade, o que foi considerado um passo decisivo na indústria
cimenteira mundial. A introdução desta nova tecnologia na nova Fábrica exigiu a
monitorização da qualidade do novo tipo de produto, o que implicou o contacto com
novos laboratórios, quer em Portugal quer no estrangeiro.
Quanto à empresa contratada para montar todos os maquinismos foi escolhida a
Maschinenfabrik Augsburg-Nürnburg (MAN). A responsabilidade sobre toda a parte
eléctrica do conjunto fabrilcoube à empresa Allgemeine Elektricitäts-Gesellschaft
(AEG). E a Cementbau – Actiengesellschaft (CAG) de Hannover, foi responsável por
todas as construções da primeira fase do projecto. Ao sítio isolado onde se erigiu a
Fábrica, onde até então apenas existia pinhal, alguns vinhedos e vegetação rasteira,
12
MELLO, José Osório da Rocha (1918-1919), Notas Industriais. Ante Projecto de Empreza, 1918-1919.
Documento manuscrito. Arquivo CMP.
13
O Forno Rotativo fora patenteado pelo inglês F. Ransome em 1885 e terá tido pouca aceitação. Em 1890 a patente
de Ransome foi comprada Navarre de Nova York, que lhe introduziu melhoramentos técnicos, vindo a melhorar o seu
desempenho. Em 1892 apenas existiam dois fornos rotativos a funcionar nos EUA, a partir de 1895 o seu uso
generalizou-se rapidamente naquele país, face aos aperfeiçoamentos patenteados por Harry e Seamann nesse mesmo
ano. Na Europa, foram os alemães os primeiros a adoptar definitivamente este tipo de forno entre 1889 e 1890. A
Casa Polysius contribuiu para o seu aperfeiçoamento, assim como a dinamarquesa F.L. Smidth, as inovações técnicas
introduzidas aumentaram simultaneamente a produção nominal e unitária. A partir de então generalizou-se o uso
deste tipo de forno nas Fábricas de Cimento Europeias.
10
começaram entretanto a chegar de Lisboa engenheiros, topógrafos, alguns operários
especializados e a partir de 1920 técnicos alemães especializados nas diversas áreas da
montagem de uma fábrica de cimento14. O impacto que terá causado toda esta mudança
num sítio isolado, pouco povoado e onde se praticava uma actividade agrícola de
subsistência não é difícil de imaginar. Assim num sítio situado no interior do país cujo
nome é conotado com isolamento, infertilidade e pobreza, - a Gândara -é ironicamente
construído um conjunto fabril e social que viria a ser considerado nos anos trinta pelo
Estado Novo, um «modelo» de prosperidade, de riqueza, de inovação, e de
modernização.
4.A importância do Laboratório Fabril no contexto europeu. As relações entre o
Laboratório Fabril, Académico e Estatal em Portugal
Em 1919 era já bem reconhecida a importância dos Laboratórios de ensaios de materiais
de construção como centros essenciais ao progresso da investigação científica e como
força impulsionadora do progresso industrial. Em França, destacavam-se na produção
de cimentos e de produtos hidráulicos os Laboratórios da Fabricas de Boulogne-surMer, Candlot& Cª em Mantes, e Teil em Ardéche. Estas Fábricas possuíam
Laboratórios onde eram analisados e ensaiados em todas as fases de fabrico os materiais
ali produzidos, de modo a promover a sua melhoria. Em Inglaterra existiam
Laboratórios especialmente destinados a promover o comércio e a indústria de
materiais, destaque-se o Laboratório do Engineering Standards Comitee of Iron and
Steel Institute of London, o Engineering Laboratory of Cambridge e ainda o Testing
Work em Scheffield entre outros. Mas era a Alemanha que antes da Primeira Guerra era
considerado por excelência o país dos Laboratórios, sendo grande o número dos que se
dedicavam aos ensaios de materiais de construção. Os que mais se destacavam eram o
de Charlottenburg em Berlim, os de Munique, Chemnitz, Dresden e Brunswik. 15 É
provável que o engenheiro Rocha e Melo que no seu percurso académico estudara
engenharia na Konigliche Thechnishe Hochshule em Charlottenburg entre 1911 e o
início da Primeira Guerra Mundial, possa ter tido conhecimento ou mesmo contactado
com o Laboratório de Ensaio de Materiais de Charlottenburg, considerado então como
um dos mais bem apetrechados e modernos da Europa.
14
PINTO, Gastão Benjamim (1918 a 1927), Caderno II A. Caderno manuscrito de capa preta A5 organizado e
assinado pelo autor. Sem paginação. Arquivo CMP.
15
SEQUEIRA, José V. Duro, 1919, “O Laboratório Português de Ensaios dos Materiais de Construção”, in Separata
da Revista de Obras Públicas e Minas, nº 595 a 600, Julho/Dez. 1919, p.98.
11
O edifício do Laboratório da Fábrica foi construído pela empresa alemã CAG.
Tratava-se de um edifício de dois pisos. No piso térreo ficaria instalado o Laboratório,
Escritórios e a Sala de Desenho, e no primeiro piso a casa do Director da Fábrica.
O início do funcionamento do Laboratório da Fábrica de Cimento de MaceiraLis é-nos minuciosamente descrito pelo Engenheiro Químico que o chefiou no início,
Amável Jardim Granger (1888-1957)16. A 6 de Julho de 1923 este engenheiro, num
relatório que redigiu dando conta do seu trabalho à Direcção da ECL, explica
detalhadamente todos os trabalhos e análises ali desenvolvidos no período entre 1920 e
192317. Em Julho de 1923 trabalhavam no Laboratório de Maceira-Lis seis
funcionários: um químico chefe (Amável Granger), um químico auxiliar (Fiuza Cabral),
dois preparadores e dois serventes.
Em Maceira-Lis o Laboratório teve um papel fundamental na monitorização dos
diversos componentes indispensáveis à produção de cimento de qualidade.
4.1.Os contactos estabelecidos entre o Laboratório de Maceira-Lis e Laboratórios
Oficiais, portugueses e europeus
Os primeiros contactos estabelecidos pela Direcção da Fábrica com o objectivo de
analisar as matérias-primas existente no local da Gândara, calcários e margas, foram
feitos com o IST, através do seu Laboratório de Química Analítica em Outubro de
191818. Fora com base nestas análises que Henrique Sommer decidira avançar com o
projecto da sua Fábrica de Cimento no ano seguinte. Foi o químico Charles Lepierre
(1867-1945), professor daquele Instituto desde a sua formação em 1911, que foi
responsável pela análise das matérias-primas recolhidas nos locais onde passaria a ser
feita a exploração de calcários e margas para a produção de cimento da Fábrica. Esta
análise realizada por Charles Lepierre a um conjunto de amostras de calcários e margas,
informa sobre três aspectos de cada amostra: a composição química do mineral, o seu
índice de hidraulicidade19 e a informação sobre o seu desempenho no hipotético uso no
fabrico de cimento.
16
Amável Jardim Granger (1888-1957) formara-se em Engenharia Química na Ecole de Ingénieurs de Lausanne
(EIL) em Maio de 1919. Foi na Suíça enquanto estudante que conheceu Rocha e Melo.
17
GRANGER, Amável Jardim, 1923, Relatório do Laboratório de 1920-1923, Documento encadernado em formato
A4, manuscrito a caneta, paginado, Arquivo CMP.
18
s.a., Análises Anteriores à Constituição da Empresa de Cimentos de Leiria que se prendem com o Estudo
Preliminar da Fabricação, Documento encadernado A4, manuscrito a caneta, não paginado. Arquivo CMP.
19
Definido por Vicat, é a medida da quantidade de óxidos de ácidos presentes nas margas, sobre a quantidade de
ácidos presentes nos calcários.
12
Apesar da boa qualidade das matérias-primas analisadas, subsistia a dúvida
quanto à existência no local de reservas suficientes para o futuro investimento. Era
também necessário conhecer melhor as capacidades hidrológicas do local onde se
pretendia erigir a Fábrica. Os actores que iriam iniciar a formação da ECL voltam a
encomendar ao IST uma prospecção que viria a ser realizado pelo Professor Ernest
Fleury (1878-1958). O respectivo relatório datado de Julho de 1019 intitulado “Rapport
Géologique et Hydrologique sur un project d’instalation d’une usine de ciment dans la
zone liasique de Maceira” 20, é bastante detalhado começando por fazer considerações
sobre os aspectos geológicos do lugar. Numa segunda parte é exposto um conjunto de
considerações sobre as características hidrológicas do lugar onde virá efectivamente a
ser construída a Fábrica. Conclui que existem calcários e margas de boa qualidade e em
quantidade suficiente para que a Fábrica possa produzir por largos anos. Quanto à
existência de água, proveniente de dois períodos geológicos diferentes, constata que é
de boa qualidade e em quantidade suficiente para o funcionamento do futuro
empreendimento que ali se pretende construir.
Do que fica exposto, parece seguro concluir que tanto a qualidade das matérias
primas existentes, como as prospecções efectuadas estiveram na base da decisão final de
construir a Fábrica no local da Gândara em Maceira. É de realçar portanto a importância
da análise laboratorial no processo de tomada de decisão, o que mais uma vez
demonstra a importância do Laboratório, neste caso do IST neste processo de inovações
tecnológicas nos cimentos.
A partir de 1923 foram estabelecidos vários contactos pela ECL para avaliar a
qualidade do cimento já produzido pelo primeiro forno instalado. O primeiro contacto
de que há registo data de 10 de Setembro de 1923, e trata-se da entrada da primeira
amostra de cimento produzido no Laboratório Estatal - o Laboratório de Ensaio e
Estudo de Materiais, cuja análise foi requerida pela ECL21, cerca de quatro meses após a
inauguração oficial da Fábrica. O primeiro «Certificado de ensaio de material» que
atesta a qualidade do cimento “LIZ” passado pelo Laboratório Estatal, e assinado pelo
Director do Laboratório o Engenheiro José Victor Duro Sequeira é datado de 6 de
Dezembro de 192322.
20
s.a., Análises Anteriores à Constituição da Empresa de Cimentos de Leiria que se prendem com o Estudo
Preliminar da Fabricação, Documento encadernado A4, manuscrito a caneta, não paginado. Arquivo CMP.
21
s.a., Boletim de Ensaios de Cimento «LIZ» feitos em Laboratórios Oficiais, Documento encadernado A4,
manuscrito a caneta, não paginado. Arquivo CMP.
22
. Idem.
13
O Laboratório Estatal fora criado ainda no final do século XIX. Fora em 1887
que se iniciara em Portugal o estudo dos materiais de construção num pequeno
Laboratório instalado no Palácio Sabugal na Rocha do Conde de Óbidos. Foi dirigido
pelo Engenheiro José da Paixão Castanheira das Neves até Outubro de 1919. Este
serviço estatal começou por ser apenas uma secção da 1ª circunscrição hidráulica. Em
1898 passou a depender do Ministério das Obras Públicas.
No último trimestre de 1919, ano em que se iniciou o projecto de construção da
Fábrica de Maceira-Lis, a designação do Laboratório Estatal era Laboratório de Ensaios
de Materiais. Segundo o seu Director nesse período, o Engenheiro José Victor Duro
Sequeira este organismo estatal tinha três princípios orientadores acerca do uso dos
materiais de construção: primeiro, o conhecimento das diversas qualidades desses
materiais (químicas, físicas e mecânicas); segundo, a determinação dos coeficientes de
segurança a aplicar nos cálculos práticos; e por último a verificação por processos
rápidos e económicos das qualidades exigidas pelos materiais de construção 23. No
período aqui estudado este Laboratório estaria a trabalhar com falta de técnicos e com
aparelhos de medição e aferição obsoletos. Só em 1932 grandes modificações ocorreram
neste organismo Estatal. Em Julho de 1932 quando António de Oliveira Salazar tomou
posse como Presidente do Ministério, foi extinto o Ministério do Comércio e
Comunicações e surgiu o Ministério das Obras Públicas e Comunicações, cuja pasta foi
assumida por Duarte Pacheco. Foi este o Ministro que passou a tutelar o Laboratório
Estatal. Consciente da importância que o Laboratório de Ensaio de Materiais virá a ter
na materialização do Plano das Obras Públicas entretanto lançado pelo Governo, reuniu
verba suficiente para realizar o seu programa de modernização a partir desse ano.
Em 1924 a ECL contactou o Laboratório de Ensaio de Materiais da Faculdade
Técnica da Universidade do Porto. A ECL fará aqui alguns pedidos de ensaios de
cimento “LIZ” ao longo dos anos vinte. O contacto com este Laboratório através do seu
Director do Laboratório, o engenheiro Theótonio dos Santos Rodrigues, terá sido
importante para a ECL, já que esta empresa viria a fornecer cimento para as obras do
Porto de Leixões neste período. Provavelmente o contacto continuado com este
Laboratório terá sido importante para a monitorização desta grande obra.
Mas a ECL também estabeleceu neste período contacto com Laboratórios
europeus, para onde enviou amostras do cimento que produzia com o objectivo de obter
23
SEQUEIRA, José V. Duro, 1919, “O Laboratório Português de Ensaios dos Materiais de Construção”, in Separata
da Revista de Obras Públicas e Minas, nº 595 a 600, Julho/Dez. 1919, p.97.
14
análises detalhadas. Nos anos vinte a investigação em torno do cimento ainda era
incipiente em Portugal, tanto nos meios académicos como no Laboratório Estatal. Nesse
sentido, estabelecer contacto com Laboratórios com mais experiência seria sempre uma
mais-valia para a Empresa, no autêntico processo de aprendizagem que foram os
primeiros anos de produção de cimento na Fábrica.
Um dos primeiros contactos para análise do cimento “LIZ” feito com outro país
foi estabelecido com França. Este contacto foi encetado com os Etablissements Poliet &
Chausson em Paris, cujo Laboratoire du Siège Social realizou a análise de uma amostra
de cimento enviada pela ECL, em Abril de 1926. O contacto com este Laboratório
manteve-se durante os anos vinte e são vários os relatórios sobre a qualidade dos
cimentos produzidos em Maceira ali analisados24. Durante este período também foram
estabelecidos contactos regulares com Laboratórios ingleses, belgas e alemães. Na
procura da certificação do cimento «LIZ».
É de referir que nos primeiros anos que a Fábrica de Maceira-Liz funcionou
decorriam grandes obras marítimas e fluviais, promovidas pelo Estado. A Direcção da
Fábrica irá encetar um exaustivo trabalho de certificação da qualidade dos seus
cimentos a serem utilizados nessas obras.
5.O papel da ECL na criação do primeiro Caderno de Encargos para o
fornecimento e recepção de cimento Portland normal português
No início do século XX em França tinham tomado forma legal os Cadernos de Encargo
– Tipo, para os diferentes ligantes hidráulicos25 conhecidos até então. Estes documentos
de homologação, incluíam não só regras para cada produto, como definiam o modo
como este devia ser apresentado comercialmente, em saco ou barrica, explicitavam os
ensaios físicos e químicos de controlo de qualidade a que estes deveriam ser
submetidos, e ainda indicavam os condicionalismos que apresentavam as diferentes
qualidades de ligante hidráulico face às várias aplicações possíveis26.
24
s.a., Análises Anteriores à Constituição da Empresa de Cimentos de Leiria que se prendem com o Estudo
Preliminar da Fabricação, Documento encadernado A4, manuscrito a caneta, não paginado. Arquivo CMP.
25
Designa-se como ligante hidráulico todo o produto que possa ser utilizado na construção que mesmo debaixo de
água mantenha intacta a sua hidraulicidade, isto é a sua capacidade aglomerante. O Cimento Portland e a Cal
Hidráulica hidratada são os mais comuns e utilizados ligantes hidráulicos.
26
OLIVEIRA, Gil Braz de (coord), 1999, A Indústria Portuguesa do Cimento. Um Século de História 1890-1990,
Vol. 2, Lisboa, CIMPOR Cimentos de Portugal, S.A., p.93.
15
Em Portugal nos anos vinte não existia ainda qualquer legislação que
especificasse normas para a produção e qualidade de cimentos nacionais, nem para a
forma como estes deviam ser comercializados.
Foi provavelmente a polémica do uso de cimentos nacionais em obras marítimas
que segundo Gil Brás de Oliveira teve o seu auge entre 1926 e 1931, como resultado da
interdição de utilizar Cimento «LIZ» em certos trabalhos nos portos de Lisboa, Vila
Real de S. António (Oliveira, 1999, Vol.1, p. 35), que levou a ECL a pedir ao Estado
que avaliasse o cimento que produzia.
Uma nota escrita pelo Administrador da ECL27 explica que empresa requereu a 3
de Setembro de 1929, junto do Estado Português a constituição de uma Comissão que
avaliasse a qualidade do cimento «LIZ». O Estado nomeou essa Comissão e definiu que
ela integraria o Director Técnico da ECL e que seria a empresa a pagar todas as
despesas associadas aos trabalhos desenvolvidos. Para esta Comissão foram nomeados
pelo Ministro do Comércio, João Antunes Guimarães para além do Engenheiro José
Osório da Rocha e Melo; o Engenheiro Inspector José Victor Duro Sequeira, como
presidente; o Engenheiro Civil Afonso Zuzarte de Mendonça; e o Engenheiro Civil José
Caetano Vaz Pacheco de Canto e Castro.
A falta de um documento que normalizasse o cimento produzido em Portugal,
terá provavelmente levado o Estado, dois meses após a nomeação desta Comissão, a
criar por sua vez uma outra Comissão com o objectivo de ser legalmente aprovado um
primeiro Caderno de Encargos para o fornecimento e recepção de cimento Portland
normal.
A Comissão nomeada para estudar e dar parecer sobre o Caderno de Encargos,
foi criada a 20 de Novembro de 192928. Este Caderno devia ser elaborado pelo
Laboratório de Ensaios e Estudos de Materiais. A Comissão nomeada pelo governo era
composta por três engenheiros, João Lino de Sousa Calvão Júnior (1853-1956), António
Herculano Guimarães Chaves de Carvalho (1899-1986) e José Osório da Rocha e Melo.
Dos três, Rocha e Melo era quem aparentemente teria mais experiência sobre a matéria
a ser analisada pela Comissão. Já que o primeiro era Inspector do Ministério do
Comércio e Comunicações e o segundo, embora formado em Engenharia Química
27
PINTO, Gastão Benjamim, Caderno I – 1921-1932, documento em formato A5, manuscrito a caneta, paginado.
Arquivo CMP, pp. 196 e 285.
28
Comissão nomeada para estudar e dar parecer sobre o Caderno de Encargos Normal para o fornecimento e
recepção de Cimento Portland criada pela Portaria de 20 de Novembro 1929 - Diário do Governo nº 247, 2ª série de
23 de Novembro de 1929.
16
Industrial pelo IST (1922), e colaborador de Charles Lepierre, não teria neste período
grande experiência no Fabrico de Cimento. Nove meses depois, em Agosto de 1930 foi
aprovado o primeiro Caderno de Encargos normal para o fornecimento e recepção de
Cimento Portland português29.
A partir de 1930 foi criada uma Comissão de Estudo dos Regulamentos Oficiais
de Cimentos e Betões, Rocha e Melo passou a ser membro permanente desta Comissão.
Nesse ano a produção de cimento nacional era já de cerca de 100 000t por ano.
Em Maceira-Lis o primeiro forno fora inaugurado a 3 de Maio de 1923, sendo apenas
cinco anos mais tarde inaugurado um segundo forno com uma inovação técnica, uma
caldeira de recuperação. Todo este investimento técnico feito pela ECL na produção de
cimento de qualidade terá tido como reflexo a necessidade de pedir ao governo a
regulamentação da produção do cimento que produzia, o que acabou por levar o Estado
a criar legislação homologando a produção nacional deste material construtivo.
Produção que até então se regia por regras pouco claras, o que facilitava a existência de
falsificações e adulterações nalgum cimento que circulava pelo país, como refere o
engenheiro Victor Duro Sequeira já em 191930. A realização de todo o processo de
certificação e homologação dos cimentos nacionais acabou por ser, em grande parte, da
responsabilidade da ECL, como se pode concluir do que acima ficou exposto.
Foi ainda a partir de1930 que o Estado iniciou um plano de reconstituição
económica começou com a construção de vias de comunicação que constituiriam um
elemento unificador do mercado interno. Em Julho de 1932 a par da organização
económica corporativa, é lançada a política de obras públicas, com o objectivo de
unificar o mercado interno através de estradas, pontes, portos e caminhos-de-ferro, e
simultaneamente de tornar viável o desenvolvimento agrícola e industrial, através de
aproveitamentos hidroeléctricos, obras de irrigação, abastecimento de águas, e ainda a
construção de infraestruturas culturais e sociais, como as Casas do Povo, escolas,
museus, bibliotecas, e obras assistenciais e de saúde31.
Concluindo, Cimento e Estado encetaram um processo de co-produção neste
primeiro momento de certificação e homologação do cimento nacional. O
29
Diário do Governo, nº 199, Iª Série, Decreto nº 18 782, de 28 de Agosto de 1930, “Caderno de Encargos para o
Fornecimento e Recepção de Cimentos Portland Normal”, Ministério do Comércio e Comunicações – Direcção Geral
dos Edifícios e Monumentos Nacionais, aprovado pelo Ministro João Antunes Guimarães.
30
SEQUEIRA, José V. Duro, 1919, “O Laboratório Português de Ensaios dos Materiais de Construção”, in Separata
da Revista de Obras Públicas e Minas, nº 595 a 600, Julho/Dez. 1919, p.98.
31
Brito, J.M. Brandão de, 2004, “Estado Novo: discursos e estratégias de uma industrialização tardia” in Heitor,
Manuel; Brito, J. M. Brandão de; Rollo, Mª Fernanda (Coord.), Momentos de Inovação e Engenharia em Portugal no
Século XX. Vol. I. s.l: Ed. Dom Quixote /Instituto Superior Técnico, pp. 130-131.
17
desenvolvimento da investigação e produção dos cimentos como resposta aos desafios
que as obras públicas colocavam, configura um processo de simetria entre produtores do
material de construção e organismos do Estado, em que os respectivos actores,
procurando dar resposta às necessidades emergentes, quer de produção de um material
cientificamente validado, quer de constituição de novas entidades que assegurassem a
função reguladora de um Estado Corporativo que nascia, acabam por contribuir, uns e
outros, tanto para o progresso da Indústria dos Cimentos, como para a afirmação desse
mesmo Estado.
Fontes e Bibliografia:
As Fontes Primárias consultados para escrever este artigo pertencem ao Arquivo da
Cimento Maceira e Pataias (CMP) do Grupo SECIL, que contém o espólio da antiga
Fábrica de Maceira-Liz.
Gooday, Graeme, 2008 “Placing or Replacing the Laboratory in the History of
Science?”, Isis, Vol.99, nº 4, December 2008, pp.783-795.
Kohler, Robert E., 2008, “Lab History: Reflexions”, Isis, Vol.99, nº 4, December 2008,
pp 761-768.
Latour, Bruno, 1993, We have Never Been Modern, Cambridge, Harvard University
Press.
Latour, Bruno, 1987, Science in Action. How to Follow scientists and engineers through
society, Cambrige, Massachusetts, Harvard University Press.
Oliveira, Gil Braz de, 1999, A Indústria Portuguesa do Cimento. Um Século de História
1890-1990, 2 Vols., Lisboa, CIMPOR Cimentos de Portugal, S.A.
s.a., 1945, Boletim do Laboratório de Ensaio e Estudo de Materiais, MOPC – Direcção
Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.
Zevi, Bruno, 1970, História da Arquitectura Moderna, Lisboa, Arcádia.
18
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