EDUCAÇÃO FERRAMENTA CIENTÍFICA EM PRÉ-ESCOLA: O JARDIM COMO Maria Clara de Almeida Zaine1,3, Marina Marques Teixeira Vanini2,3, 1 Graduanda em Ciências Biológicas, USP, professora de Ciências 2 Dra. em Genética e Biologia Molecular, UNICAMP, professora de Ciências e Biologia 3 Colégio São Mauro Modalidade: relato de experiência RESUMO A ciência, antes de tudo, parte do exame na natureza, dos seus eventos e das suas regularidades. Atualmente, a experiência de observação da natureza pelas nossas crianças é mínima. A realidade da maior parte das crianças de ambiente urbano constitui-se em uma rotina confinada ao trajeto apartamento – escola. Jardins escolares podem preencher prontamente a lacuna gerada pela escassez de contato com a natureza por parte das crianças. A presente experiência relata o desenvolvimento e aplicação de um plano para implantação e manejo de um jardim como estratégia de educação científica no nível da préescola e séries iniciais do fundamental numa escola particular sem fins lucrativos. O plano pedagógico consistiu na determinação de frentes de ação necessárias à montagem e manutenção de um jardim. Para cada uma destas frentes, detalharam-se as etapas e o material necessário para execução das mesmas. A partir disto, desenhou-se uma série de atividades educativas destinadas à participação dos alunos na execução das tarefas de jardinagem, delimitando conteúdos e vocabulário a serem apreendidos e determinou-se o material a ser requisitado para as mesmas. As frentes selecionadas foram composteira, sementeira, minhocário, viveiro de mudas e jardim, sendo esta última a frente à qual todas as outras servem. O trabalho em andamento demonstra que os jardins escolares servem como excelente ferramenta de educação científica para crianças em fase escolar inicial. PALAVRAS CHAVE: Educação científica, crianças, jardim escolar INTRODUÇÃO A educação científica desde a infância tem sido apontada como intervenção de grande relevância na sociedade atual. Os avanços científicos e tecnológicos impactam diversas esferas sociais e o termo “científico” confere status de verdade. No entanto, esta noção popularizada da ciência, tão amplamente discutida, distancia a realidade do processo científico, desenvolvido por homens e sujeito a erros (Chalmers, 1993). A ciência, antes de tudo, parte do exame na natureza, dos seus eventos e das suas regularidades. Atualmente, a experiência de observação da natureza pelas nossas crianças é mínima. Distanciá-las desta experiência é sujeitá-las a convicções ainda mais distorcidas acerca do processo científico. A realidade da maior parte das crianças de ambiente urbano constitui-se em uma rotina confinada ao trajeto apartamento – escola (Perrotti, 1990). A televisão, o vídeo-game e os esportes organizados tomaram o lugar da exploração natural (Moore, 1995) num ambiente no qual o desenvolvimento urbano descontrolado e a degradação ambiental restringem as experiências positivas com elementos da natureza (Finch, 2004). Além disso, enquanto crianças nas fases escolares iniciais parecem apresentar interesse em temas relativos às ciências, o mesmo parece não ocorrer nas fases posteriores, nas quais a matemática e as disciplinas científicas são desdenhadas por se apresentarem “muito difíceis de apreender” (American Association for the Advancement of Science, 1990). No contexto da educação infantil, espaços verdes e externos e, especialmente, jardins, constituem excelente oportunidade para compreensão e envolvimento com a natureza, atividades manuais, de observação e investigação, além de representarem importantes momentos para atividades físicas. Jardins escolares podem preencher prontamente a lacuna gerada pela escassez de contato com a natureza por parte das crianças (Finch, 2004). E ao se tratar de um jardim escolar, devemos entendê-lo como espaço verde contenha áreas que contemplem uma mínima complexidade ambiental, e não simplesmente uma área paisagística ou de ornamentação botânica (Finch, 2004). As normas de manutenção e limpeza de um jardim devem, inclusive, ser ajustadas para que tal espaço contenha áreas nas quais o controle do plantio é menor e haja maior interação entre os agentes naturais (Blair, 2009; Finch, 2004). Alguns estudos sugerem a potencialidade de jardins escolares em desenvolver o currículo da escola elementar (nos EUA), sobre tudo em relação aos conceitos científicos (Walizeck et al., 2003). A presente experiência relata o desenvolvimento e aplicação, em andamento, de um plano para implantação e manejo de um jardim como estratégia de educação científica no nível da pré-escola e séries iniciais do fundamental numa escola particular sem fins lucrativos. METODOLOGIA Estudos de De Marco et al.(1999) mencionam que fatores importantes que melhoram a eficiência do uso do jardim escolar são: i) a inclusão das práticas de jardinagem no currículo,ii) a avaliação dos recursos físicos presentes e necessários e conhecimentos e iii) habilidades práticas na área de jardinagem para melhorar a interdisciplinaridade das atividades. Considerando os aspectos apontados por De Marco et al.(1999), realizamos uma pré-avaliação para direcionar o planejamento posterior. Para tanto, o espaço a ser utilizado foi medido e as espécies frutíferas identificadas de acordo com conhecimento pessoal e consulta à bibliografia especializada. A coordenação pedagógica foi consultada acerca dos currículos das séries em questão e da disponibilidade de instrumentação para jardinagem. O plano pedagógico consistiu na determinação de frentes de ação necessárias à montagem e manutenção de um jardim. Para cada uma destas frentes, detalharam-se as etapas e o material necessário para execução das mesmas. A partir disto, desenhou-se uma série de atividades educativas destinadas à participação dos alunos na execução das tarefas de jardinagem, delimitando conteúdos e vocabulário a serem apreendidos e determinou-se o material a ser requisitado para as mesmas. As frentes selecionadas foram composteira, sementeira, minhocário, viveiro de mudas e jardim, sendo esta última a frente para a qual todas as outras servem. A frente composteira foi adotada como “piloto” para execução do trabalho. A montagem da composteira foi realizada com auxílio de alunos no nível médio envolvidos com a feira de Ciências da própria escola. Para tanto utilizou-se tijolos provenientes de descarte de material de construção de obras dos arrededores e uma telha plástica. A montagem foi feita manualmente através do empilhamento dos tijolos e cobertura com a telha. As atividades lúdico-pedagógicas associadas à frente de trabalho “composteira” foram, primeiramente, o estabelecimento de um dia da semana no qual as crianças deveriam trazer frutas para o seu lanche. Durante o horário do lanche os alunos são questionados sobre a origem e destino do seu alimento, suas preferências assim como sobre os alimentos trazidos pelos colegas. Os resíduos orgânicos são destinados a um recipiente especial que os próprios alunos conheceram previamente e confeccionaram uma decoração artística aludindo ao tema da decomposição da matéria orgânica e seus agentes. Após esta etapa, os resíduos são destinados à composteira confeccionada com tijolos rejeitados de material de construção de obras da vizinhança escolar. A cada semana, as atividades do dia da fruta compreendem: observação das frutas, descartes dos resíduos orgânicos, manejamento da composteira, revolvimento do composto, observação da decomposição. Posteriormente o produto da composteira é utilizado para adubar o jardim escolar, atividade que também é realizada de maneira informativa e divertida com a ajuda dos alunos. A frente “jardim” está sendo conduzida paralelamente à frente “composteira” e a sua realização consiste no plantio de mudas de espécies variadas em canteiros murados presentes no pátio durante as aulas de ciências. Para tanto, foram requisitadas mudas de espécies próprias de regiões sombreadas que foram cedidas pela Prefeitura de São Paulo em caráter de doação. Além disso, para incentivar as crianças e mostrar a elas a seriedade das ações a serem realizadas, foi requisitado na lista de material escolar alguns artigos referentes à jardinagem e ao manejo do jardim. As ferramentas solicitadas foram: pá, garfo e rastelo. A manipulação fica à cargo das próprias crianças, que são treinadas no manuseio e finalidade cada ferramenta. Sacos terra para jardim também foram solicitados aos alunos por meio de comunicados aos pais, em virtude na necessidade de incrementar o solo dos canteiros. A frente jardim é conduzida nas aulas de Ciências das três turmas de 1º ano fundamental. As aulas são dividas em três etapas: 10 minutos de teoria, 25 minutos de prática de jardinagem, 10 minutos de discussão e registro. Os parâmetros avaliativos preliminares são as impressões em aula, a aquisição de vocabulário pelas crianças, bem com o seu grau de envolvimento e responsividade nas diferentes atividades. RESULTADOS E DISCUSSÃO Pré-avaliação Considerando os aspectos mencionados por de Marco et al.(1999), constatamos: i-a) a escola em questão já contempla no ciências no seu currículo de 1º ano, e esta série está integrada fisicamente ao grupo escolar, servindo como gancho para futura expansão do plano pedagógico para séries anteriores; i-b) não havia nenhum planejamento para o conteúdo de ciências, nem tão pouco qualquer atividade prática prevista; ii) a escola dispõe de um amplo espaço verde que não se caracteriza por um jardim nem por um pomar, mas que dispõe de solo aberto com algumas árvores frutíferas e porções gramadas. Tal espaço é destinado à recreação dos alunos como complementação do pátio cimentado, mas justamente por se tratar de uma área relativamente abandonada, a recreação neste pátio ocorre como um evento excepcional. Apesar de dispor de um recurso físico fundamental, o espaço, a escola não conta com nenhum tipo de instrumentação apropriada para as atividades de jardinagem. iii) Quanto às habilidades em jardinagem, seu desenvolvimento fica a cargo da transferência da competência particular dos aplicadores do projeto que devem, portanto, treinar professores, monitores e os próprios alunos. O projeto piloto está sendo conduzido com grande entusiasmo pelas crianças. A frente composteira envolveu toda as turmas da unidade escolar, enquanto que a frente jardim foi conduzida pelos alunos do 1º ano fundamental. O acompanhamento do destino e reciclagem dos resíduos gerados pela alimentação orgânica parece surtir excelentes resultados em termos de aprendizado e/ou interesse por conceitos científicos e estímulos a bons hábitos alimentares. Os parâmetros são: o uso de palavras e/ou expressões como “orgânico”, “reciclagem”, “adubo”, “minhoca”, “alimento para as plantas”, “raiz”, “solo”, “decomposição”, “matéria orgânica” por crianças de diferentes níveis; a grande disposição para a manipulação e revolvimento do material em decomposição; a constatação de expressões de desapontamento quando os pais ou responsáveis não enviam o lanche orgânico; a frequência da presença do lanche orgânico fora dos dias estipulados pelo trabalho. O conhecimento adquirido agora sobre as características e propriedades da terra será interligado com o conhecimento adquirido na frente “composteira” mostrando a eles claramente a finalidade da reutilização da matéria orgânica e esclarecendo a diferença entre lixo propriamente dito e restos orgânicos. Tratam-se, porém, apenas parâmetros qualitativos e de caráter subjetivo por parte das condutoras do projeto. Pretende-se, assim, realizar análises quantitativas para confirmar tais impressões preliminares. A frente jardim é aquela à qual todas as outras frentes se destinam. Ainda que as outras frentes não estejam em andamento, a finalidade, que é o aprendizado através do jardim, precisa ser atingida. Por isso, vimos como alternativa já dispormos de mudas desenvolvidas para que o adubo proveniente da composteira pudesse ser utilizado. Este é um trabalho contínuo que vem sendo realizado durante as aulas de Ciências dos alunos de 1º ano do ensino fundamental. As introduções teóricas geram ativa participação e a abordagem sistemática das condições metereológicas do dia para avaliar as condições da atividade prática posterior já predispuseram as crianças para observação ambiental. O início das atividades já parte de constatações sobre o clima e previsão das etapas seguintes das atividades práticas de jardinagem. Os alunos utilizam adequadamente o vocabulário “nublado”, “chuvoso”, “vapor”, “observar”, “planeta Terra”, “raios solares” “raiz”, “caule”, “folha”, “nervura”, “borda”, “planta”, “minhoca”, “lesma”, “solo”, “sais minerais”, “rastelo”, “pá”, “garfo”. Novamente, trata-se de impressões qualitativas e não de dados quantitativos. Porém, o envolvimento, disposição, e sobre tudo, a atenção à explicações relativamente complexas e o envolvimento em discussões sobre as mesma, são parâmetro bastante significativo para concluir sobre os efeitos positivos de simples atividades de jardinagem no aprendizado das crianças acerca de conceitos científicos. Um jardim é um ecossistema em miniatura, e para obter sucesso um jardineiro deve trabalhar em harmonia com a natureza. Os jardins apresentam às crianças o crescimento e o envelhecimento, os ciclos de vida, relações predadorpresa, polinização, ciclo do carbono, morfologia do solo, a decomposição da matéria orgânica, a vida microbiana: o simples e o complexo simultaneamente. As nuvens, a chuva, o sol, os ciclos sazonais, tratam da história natural do local no qual tal jardim está inserido. Além de tudo, o jardim proporciona às crianças talvez uma das lições mais importantes: a interação do homem com o mundo natural. Portanto, devem ser incentivados como ferramenta de educação científica. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS American Association for the Advancement of Science, 1990. Project 2061: Science for all Americans. Oxford University Press, New York. Blair, D. (2009). The child in the garden: an evaluative review of the benefits of school gardening. Journal of Environmental Education 40(2):15-38 . DeMarco, L.W., Relf. D. & MacDaniel, A. (1999). Integrating gardening into the elementary school curriculum. HorTechnology, 9(2): 276-281. Finch, K. (2004). Extinction of experience: A challenge to nature centers? (Or, how do you make a conservationist?). Directions: The journal of the Association of Nature Center Admnistrators, Special Issue 1-7. Moore, R. (1995). Growing foods for growing minds: integrating gardening and nutrition into the total curriculum. Children´s environments, 12(2), 134-142. Perrotti, E. Confinamento cultural, infância e leitura. São Paulo: Summus, 1990. (Novas buscas em educação; v.39). Waliczek, T. M., Logan, P. & Zajicek, J.M. (2003). Exploring the Impact of Outdoor Environmental Activities on Children Using a Qualitative Text Data Analysis System. HortTechnology, 13: 684 – 688.