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I ntr odução
A apr esent ação da obr a Hel ena de Machado de Assi s ser á abor dada medi ant e os
aspct os ci t ados abai xo
e co m o pr óposi to de most r ar ao
al uno pesqui sador as
i nfl uênci as das t r ansf or mações do Sécul o XI X. E co mo Machado de Assi s expli cou e m
suas obr as t ai s mo ment os nos mai s di ver sos modos e que só Machado sabi a f azer.
Por i sso “ O pesqui sador da al ma hu mana” pel a capaci dade de co mpr eender os mai s
í nti mos pensa ment os de suas per sonagens.
No capít ul o 1 t rat ar emos da vi da e obr a de Machado de Assi s, sua t r aj et óri a, o
cont ext o soci al, políti co e cult ur al
No capít ul o 2 trat ar emos da obr a Hel ena onde obor dar emos t odos os pont os
pri nci pai s de u ma obr a lit er ári a co mo : enr edo, per sonagens, narr ador, t empo,
a mbi ent e, clí max, desf echo.
No capít ul o 3 trat ar emos da f ort una críti ca e m r el ação a obr a, ou sej a,
co ment ári os sobr e as per sonagens, suas atitudes e por que o narr ador não deu u mfi nal
f eli z aos pr ot agoni st as, ou sej a, Hel ena e Est áci o.
Ao est udar mos u ma obr a de estil o r eali st a é i mport ant e saber mos que est a mos
trat ando de u m período lit er ári o mui t o rel evant e par a o est udo da lit er at ur a. É
necessári o que f açamos u ma expl or ação do mo ment o, ou sej a, o que est ava
acont ecendo par a poder mos i denfi car nas obr as t odas as car act eri sti cas do mo ment o
hi st óri co mundi al. E passar mos a co mpr eender que t odo perí odo lit er ári o f az part e
t ambé m de u m cont ext o hi st óri co soci al e cul t ur al. E por que a lit er at ur a t a mbé m
r efl et e t odo u m cont ext o hi st óri co? Tendo e m vi st a que cada mo ment o t e m suas
pr ópri as car act eri sti cas. De acor do co m cada at mosf er a e especifica ment e se t r at ando
do Reali s mo que f oi u m mo ment o de vári as mudanças. O Br asil evol ui u mui t o do
Ro manti s mo par a o Reali s mo- Nat ur ali s mo.
Segundo Couti nho ( 2001. pag. 182 ) , a co mpr eensão de cada mo ment o é de
extr ema r el evânci a, e as mudanças de cada t empo t e mbé m são i mport ant es no est udo
da lit er at ur a.
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O que se pode co mpr eender co m a afi rmação supr a ci t ada é que se est abel eceu
u ma r el ação entr e t empo hi st óri co e lit er at ur a, por i sso per cebemos que se mpr e que
l evant amos dados sobr e det er mi nados aut ores not amos suas i nfl uênci as nos cont ext os
pol íti cos- soci ai s.
Os adept os do Reali s mo r epr esent am uma voz de r evolt a e desencant o di ant e de
u ma soci edade do mi nada pel o capi t al e pel a ost ent ação do poder mat eri al.
Sur ge na Fr ança, co m a obr a de Gust ave Fl aubert, Mada me Bovar y. Est a obr a
ve m a ser ver dadei r o libel o contr a os padr ões românti cos.
Ema Bovar y busca as avent ur as de um a mor i mpossí vel e perf eit o, só r eali zado
nos enr edos dos r o mances r o mânti cos. E i ncapaz de se co mf ormar co m a r eali dade
que a r odei a, r eali dade essa se m e moções, ti pi cas das camadas médi as. Não
consegui ndo r eali zar suas pr et ensões co met e o sui cí di o.
Na ver dade, t al panor a ma cul t ur al apenas r efl et e a r eali dade politi ca e soci al do
Oci dent e.
No ca mpo das i déi as, os doutri nadores do soci ali s mo ut ópi co são ouvi dos. O
mundo oci dent al passa por séri as cri ses soci ai s e politi cas. O pr ol et ári ado au ment a
nu meri ca ment e e adqui r e consci ênci a de seus di r eit os e de sua condi ção sub hu mana
de vi da. As l ut as pr ol et ári as se al astr am por t oda Eur opa. Fat os co mo a 1ª
I nt er naci onal Oper ári a ( 1864 ), o gr ande movi ment o oper ári o i ngl ês e a pr ocl amação
da r epúbli ca da Co muna ( Pari s ), vão i nfl ui r no pensa ment o pol ítico eur opeu e, co mo
conseqüênci a, nos paí ses, co mo o Br asil, que são ver dadei r os sat élit es da r eali dade
pol íti ca, econô mi ca e soci al da Eur opa.
Ta mbé m ci entifica ment e, a segunda met ade do Sécul o XI X passa por gr andes
evol uções e t r ansf ormações que r efl et em no co mport ament o soci al,. As ci ênci as
nat ur ai s dão u m passo mar cant e co m a t eori a da evol ução das espéci es de Dar wi n.
Fr eud, co m a psi canál i se, escandali za o mundo co m suas novas t eori as. É mai s u ma
abert ur a par a a co mpr eensão do ho me m e seu cr esci ment o conseqüent e. August o
Co mt e pr et ende f azer u ma sí nt ese fil osóf i ca baseada excl usi va ment e e m dados
ci entífi cos; sua t eori a posi ti vi st a r ej eit a a met afi si ca. Por outr o l ado, o mét odo di al éti co
i ni ci ado por Hegel passa a ser adot ado emt oda Eur opa.
O Br asil, co mo r efl exo da Eur opa, t ambé m sof r e u ma séri e de t r ansf or mações.
A base da sust ent ação da econo mi a br asil eir a t or nou - se, no Sécul o XI X f oi o caf é. Os
caf ei cult or es do mi na m no cenári o politi co naci onal . O Oest e pauli st a t or na- se ri co
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pr odut or e r ei nvi ndi ca par a si t odos os poder es e a aut ono mi a de ação. Li gados a
capi t ai s estr nangei r os e pr oduzi ndo par a o mer cado ext er no, não acei t am mai s o
patri ar cali s mo est at al. Tal patri ar cali s mo r et ar da sua evol ução capi tali st a e i mpede seu
cont at o di r et o co m as nações co mpr ador as do pr odut o. Par a esses caf ei cult or es,
i nt er essa m as t eori as li ber ai s e a r epúbli ca f eder ali st a. São t ambé m aboli ci oni st as
i nt er essados no au ment o da cl asse consu mi dor a e no menor i nvesti ment o e m mãode- obr a . va mos encont r ar t ambé m o i ncentivo à mi gr ação de t r abal hador es eur opeus
par a as l avour as br asil ei r as. Tai s i mi gr ant es f or ma m u ma mão – de – obr a mai s
pr oduti va e r ent ável
Co m o au ment o da i mi gr ação, mui t as i déi as pol íti cas novas ent r ar ão na r eali dade
do t r abal hador br asil eir o. Mai s consci ent e e de mel hor ní vel, o assal ari ado i mi gr ant e vai
i nfl ui r e mui t o no cenári o soci al do nosso paí s.
É nest e a mbi ent e de agi t ações i nter nas que encont r amos nossa pri mei r as
pr oduções r eali st as. Os i nt el ect uai s pr ocurar ão r etr at ar e m suas pr oduções não mai s
os l uxos da alt a soci edade ur bana. Nossas chagas ser ão agor a acusadas.
As pri mei r as mani f est ações r eali st as
( 1968 ) se der a m nos doi s núcl eos
i nt el ect uai s do Br asil: Reci f e ( Facul dade de Di r eit o ) e São Paul o ( Facul dade de
Di r eit o )
Em Reci fe, t ai s mani f est ações ser ão li der adas por Tobi as Barr et o e e m
São Paul o, por José Boni f áci o, ( O moço ). Consi der a- se por ém di dati ca ment e, o
Reali s mo i ntr oduzi do e m 1881 co m as obr as: Me móri as Póst umas de Br ás Cubas,
de Machado de Assi s e O Mul at o de Al uí si o de Azevedo.
A vi da deve ser most r ada pel a lit er at ur a e pel a art e em ger al não c o mo
gost arí amos que el a f osse, mas co mo r eal ment e el a é. O Reali smo pr opôs- se a
most r á-l a co m t udo que nel a haj a de bo m ou de mau, f ei o ou bel o, mor al ou i mor al.
Est e obj eti vo f oi mai s t eóri co do que pr áti co. Pode mos assi m di zer, pel o f at o que l evou
mui t os dos nossos escrit or es t er em sua pr ópri a vi são da r eali dade e t a mbé mt er e mti do
a cor age m de most r á-las i mpli cit as e m suas obr as. I mpl í cit as por que é a co mpr eensão
do l eit or que vai f azer co m el e suponha a i nt ençÃo do escrit or at r avés do narr ador.
Cont r ari ament e ao pri ncí pi o f unda ment al da escol a, os ho mens e os f at os er a m se mpr e
encar ados co m pessi mis mo.
Quase t odas as cri at ur as er a m más, i ntr essei r as,
i nvej osas, a mbi ci osas. Est a atit ude est á e m contr adi ção co m a obj eti vi dade a que a
escol a se pr opunha e só pode ser expli cada pel o desej o de oposi ção e m f ace da
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escol a ant eri or. Co m ef eit o, par a os r o mânti cos, quase t odas as pessoas er a m
bondosas, i deali st as despendi das.
Assi m co mo a ali ment ação, o esporte, o t r abal ho, a vi da i nt el ect ual , o sexo
t ambé m é u ma r eali dade, e conseqüent ement e deve t er seu l ugar na lit er at ur a. O que
não pode ser j ustifi cado pel a obj eti vi dade é a exager ada const ânci a co m que são
obor dados os t e mas sexuai s e, mai s grave ai nda, a manei ra sensaci onali st a e
escandal osa co mo a mai ori a dos aut or es r eali st as tr at ava m os t emas r el aci onados co m
sexo.
Os t e mas sexuai s são utili zados abusi va ment e e de f or ma a chocar os padr ões
mor ai s do l eit or. Al ém di sso, apar eci am const ant ement e os t emas e vocabul ári os de
bai xo cal ão. Um exe mpl o est á no r o mance O Pri mo Basíli o de Eça de Quei r ós onde
encont r amos val ori zados os arr ot os er óti cos da per sonage m D. Feli ci dade. Tudo que
possa ser escr aboso é narr ado se m cont ar os sonhos er óti cos da per sonage m Luí za
co m o pri mo Basíli o.
Uma exceção dentr o desse pr ocedi ment o é Machado de Assi s que de acor do
co m Couti nho ( 2001. pág 195 ) nunca se dei xou l evar par a os exager er ados t ons
nat ur ali st as, e que r eagi u mes mo contr a a f ór mul a de Eça no est udo criti co que l he
dedi cou. O mes mo se t r at ava a r espei t o de
Al uí si o de Azevedo e m sua obr a
O
Corti ço , onde o narr ador expl or a a sexuali dade e sensuali dade da mul at a Ri t a
evocando os desej os car nai s dos ho mens do corti ço. Ri t a er a u m sí mbol o, a mul at a
f acei r a dos quadri z avant aj ados. Co mo t a mbé m no At eneu de Raul Po mpéi a, onde o
pr ópri o col égi o moti va a ho mosexuali dade ent r e os j ovens. Jovens esses car ent es de
af eti vi dade f a mili ar e f rat er na ao pont o de vi re m na úni ca per sonage mf e mí ni na a fi gur a
mat er na a Senhor a Ema esposa do di r et or do At eneu.
Os r eali st as procur a m se ocupar dos f at os mai s vul gar es e co muns da vi da
hu mana, os r o mânti cos pr ocur ava m r etr at ar o extr aor di nári o, o i nvul gar. As mul her es
er a m ver dadei r as deusas,
pur as, i macul adas, br ancas co mo bi bel ôs. Os ho mens
ver dadei r os her ói s. Os r eali st as, pel o cont rári o, pr ocur a m o anti - her ói. Na ver dade,
anali sam o ser hu mano nor mal e co mu m e m sua vi da di ári a.
As pr ópri as i déi as
r eali st as j á se pr eocupa m e m denunci ar t odas as mazel as do anti - her oi s mo. No
concei t o r eali st a as pessoas são vi st as e avali adas pel as atit udes e co mport a ment o e m
soci edade, como agem no seu pr ópri o mei o.
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1.
Vi da e obr a
J OAQUI M MARI A MACHADO DE ASSI S
( O pesqui sador da al ma hu mana )
DADOS CONTEXTUAI S
1839
DADOS BI OGRÁFI COS
Nasci ment o
de
Machado
Joaqui m
de Assi s
Janei r o, no Morr o do
1840
Mai ori dade de D. Pedr o II
1844
A Mor eni nha - Macedo
1850
Caf é
do mi na
a
Mari a
Ri o de
Li vr ament o
econo mi a
br asil ei r a.
1855
Publi ca seu 1º poe ma El a – Jor nal A
Mar mot a Fl umi nense
1856
Ent r a co mo apr endi z na Ti pogr afi a
Naci onal ; conhece Manuel Ant ôni o de
Al mei da seu 1º pr ot etor.
1858
1860
Dei xa a I mpr ensa Naci onal .
I ngr essa na Redação do Di ári o do
Ri o de Janei r o.
1861
Desencant os;
mul her es t
Queda
que
as
Tê m pel os t ol os
( ( t eatr o )
15
16
1863
O Ca mi nho da Porta ( t eatr o)
1864
Cri sáli das
Mi ni str o
1865
(
poesi as),
Quase
e (t eatr o)
Guerr a do Par aguai – Quest ão
Coi mbr ã
1867
Retir ada da Lacuna
1869
T To mada de Assunção
1870
Conhece Car oli na
Casa- se
Fal enas
(
poesi as)
Cont os
Fl umi nenses
Uma ode de Anacr eont e
1871
Lei do Ventr e Li vr e
1872
Ressurr ei ção
1873
Hi st óri as da Mei a noi t e
1874
A Mão e a Luva
1875
Ameri canas
1876
Hel ena
1878
I ai á Gar ci a; O Bot e de Rapé
( t eatr o ); Ant es da Mi ssa
1880
1881
Tu, Só , Tu, Pur o Amor ( t eatr o)
O Mul at o, Al uí si o Azevedo
Reali s mo no Br asil
1882
Me móri as
Póst umas
de
Br ás
Cubas
Papéi s Avul sos ( cont os)
16
17
1884
1885
1889
Hi st óri as se m dat a
Lei dos Sexagenári os
Repúbli ca
1891
1893
Qui ncas Bor ba
Si mboli s mo no Br asil
Pági nas Recol hi das
1900
Do m Cas murr o
1904
Esaú e Jacó
1906
Reli qui as da Casa Vel ha ( cont os)
Li ção de Bot âni ca ( t eatr o)
1908
Me mori al de Ai res; morr e a 29 de
set embr o
Joaqui m Mari a Machado de Assi s nasceu e m 21 de j unho de 1839 no Morr o do
Li vr ament o no Ri o de Janei r o. Seu pai er a br asil ei r o mul at o e pi ntor de par edes; sua
mãe er a port uguesa da Il ha de Açor es e l avadei r a. Fr equent ou apenas a escol a
pri mári a. aos dezessei s anos j á fr equent ava a ti pogr afi a de Paul o Brit o, onde er a
publi cada a r evi st a “ Mar mot a Fl umi nense” , e m cuj o nú mer o de 21 de j anei r o de 1855
sai o poe ma “ El a “ ( sendo a estr éi a de Machado de Assi s nas l etras ). Casa- se e m 12
de nove mbr o de 1869 co m a port uguesa Car oli na Xavi er de Novai s, i r mã de seu
a mi go, o poet a Faustino Xavi er de Novai s. Em 1873 é no meado pri mei r o ofi ci al da
Secr et ari a de Est ado do Mi ni st éri o da Agri cul t ur a, Co mér ci o e Obr as Públi cas. Te m
u ma carr ei r a met eóri ca co mo ser vi dor público, o que l he deu t r anqüili dade fi nancei r a.
Em 1896 f unda a Acade mi a Br asil ei r a de Letras ( t ambé m cha mada casa de Machado
de Assi s ), da qual se t or nari a pr esi dent e no ano segui nt e, e concreti za o vel ho sonho
de r euni r a elit e dos escrit or es da época e m u m f echado cl ube lit er ári o. Após a mort e
de sua esposa, t or na- se r ecl uso; sua saúde, mui t o abal ada pel a epil epsi a, por
pr obl emas ner vosos e por u ma gaguez pr ogr essi va, t ambé m contri buí a par a seu
i sol ament o.
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18
Machado dei xou mui t as saudades e m que ml he conheceu no seu t e mpo bril hant e
de escrit or.
“
Est ás
se mpr e
ai ,
br uxo
al usi vo
e
zo mbet ei r o, que r evol ves em mi mt ant os eni gmas. ”
( Carl os Dr u mmond de Andr ade, no poe ma “ A u m br uxo, co m a mor” , sobr e Machado
de Assi s em sua obr a.)
A obr a e m r o mances de Machado de Assi s f oi el abor ada ent r e os anos 1872 (
Ressurr ei ção ) e 1908 ( Me mori al de Ai r es). Par a ef eit os di dáti cos, est á di vi di da e m
r omânti ca e r eali st a. Mas, t al di vi são não deve ser encar ada co m mui t o ri gor, poi s
Machado pri ma por uma vi são de mundo t oda i ndi vi dual . Por est e moti vo, pode mos
est abel ecer r el ações se mel hant es entr e as duas f ases. Obser var emos no r o mance
Hel ena que est udar e mos no desenr ol ar dos co ment ári os segui nt es.
O ano de 1880 f oi u m mar co de i mportanci a na obr a machadi ana. A partir dest e
ano encontr amos suas obr as r eali st as. Sua i r oni a, pessi mi s mo, sua fil osofi a de vi da
ser á agor a expr essa de f or ma mai s cl ar a e acent uada.
Os
r o mances r o mânti cos, e mbor a apr esent e m t r aços ori gi nai s que nos
anunci am o f ut ur o Machado de Assi s, ai nda possue mt r aços r o mânti cos vi sí vei s, co mo
a mor contr ari ado, f abul ações r o manescas, el e ment os senti ment ai s; i st o ali ado ao t o m
l eve ment e ir ôni co, à li nguage m pur a, sóbri a, ao equilí bri o e gr ande perf ei ção f or mal .
1. 1 Aspect os gerai s da obr a machadi ana
Pr of unda i r ôni a e penet r ação psi col ógi ca, o que o t or na exceção ent r e os
r eali st as. Encar a a nat ur eza hu mana e a soci eade co m sar cas mo, cepti s mo, i r ôni a e
pessi mi s mo. Seus r omances são ver dadei r os cont os a mpli ados. Os capít ul os são
conci sos. Co mpr eende m hi st óri as sol t as dentr o de u m cont ext o mai or que é o
r omance.
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Ja mai s descr eve fi si cament e a mbi ent es ou per sonagens.
As descri ções
pr ende m- se aos aspect os hi st óri cos mai s mar cant es das per sonagens. Vej a mos o que
afi r ma Moi sés ( 1967. pág 205 )
Machado de Assi s ocupa l ugar à part e na evol ução na
nossa l it er at ur a por u m a séri e de r azões, dent r e as
quai s a at enção conf eri da ao t e mpo co mo di mensão
r omanesca. Nas obr as da f ase r o mânti ca, o t e mpo da
narr ati va e das per sonagens é ai nda o hi st óri co, mas j á
se vi sl umbr a m obser vações que dei xa m ent r ever u m
fi cci oni st a i nt er essado no t e mpo e m si , e, depoi s, no
t empo co mo i ngr edi ent e dos r o mances: nu m caso e
noutr o, per cebe- se a i ntr omi ssão do t e mpo psi col ógi co,
ao menos e m seus aspect os superfi ci ai s. “ O t empo
andava co m o passo do cost u me, mas à ansi edade no
mancebo afi gur ava- se mai s l onga...” , l e mbr a Machado
nu m tr echo de Hel ena.
Vej amos u mtr echo da obr a onde o narrador f az menção ao t empo Ex.
“ As pri mei ras se manas corr er a m sem nenhu m sucesso not ável, mas assi m
i nt er essant es.
Er a por assi m di zer, um t e mpo de espera,
hesi t ação,
de
obser vação recí pr oca” .
Er a u m mo ment o de espect ati vas com r el ação ao co mpor t ament o de Hel ena.
Que m er a essa moça co mo agi ri a di ant e de u ma soci edade exi gent e e bur guesa.
Segundo o narr ador er a a perf ei ção e m pessoa, mas havi a sob essa apar ênci a u m
gr ande segr edo. Car act erí sti cas tí pi cas das per sonagens f e mi ni nas das obr as de
Machado de Assi s, chei as de mi st éri os e segr edos. Toda per songe m f e mi ni na das
obr as de Machado são mul her es de per sonalidade f ort e.
19
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2 - Análi se lit erári a da obr a
Hel ena de Machado de Assi s f oi pr oduzi da no ano de 1876. É u mr o mance que possui
al gu mas car act eri sti cas r o mânti cas, mas não é u ma obr a r o mântica. Tendo e m vi st a,
que Machado é um escrit or fi el a seu t empo e suas obr as são pur ament e r eali st as.
O r o mance Hel ena al ém de apr esent ar tr aços mar cant es da soci edade bur guesa
co mo o pat ri ar cali smo,
a mor aos bens mat eri ai s most r a t a mbé m f at or es que
enfl uenci ar am o co mport ament o das per sonagens, ou sej a, o narrador at ent a o l eit or
par a as car act eri sti cas supr a ci t adas. E que ao obser var mos as atit udes das
per songens e l ogo pode mos i dentifi cá -l as mai s cl ar ament e.
Pode mos abser var a ver ossi mil hança dos f at os mes mo se t rat ando de u ma obr a
de fi cção, cuj o obj eti vo é r el aci onar o fi ctí ci o ao r eal sob uma vi são anal íti ca.
2. 1
Foco narrativo e narrador omni sci ent e i ntr uso
De acor do co m Lei t e ( 1987. pág, 26 ) é esse o ti po de narr ador que t e m a
li ber dade de narr ar à vont ade, de col ocar- se aci ma, ou, co mo quer J. Pouill on, por
trás, adont ando u m PONT O DE VI STA di vi no, co mo di ri a Sartr e, par a al é m do t e mpo e
do espaço. É est e o narr ador da obr a que i re mos anali sar. El e vai narr ar o enr edo de
f or ma que o l eit or possa at é senti r-se co mo se esti vesse dentr o da hi st óri a.
O Consel hei r o Val e er a u m ho me m mui t o ri co. Segundo o narr ador dado às
avent ur as a mor osas. Nu ma dessas avent uras conheceu D. Angel a da Sol edade. El a
ti nha u ma fil ha que passou a ser tr at ada co mo fil ha pel o Consel hei r o, que por si nal
ti nha mui t o cari nho pel a meni na que se chamava Hel ena. El e mor ava co m sua f a míli a,
D. Úr sul a e Est áci o seu fil ho e m Andar aí, pequena ci dade no Est ado do Ri o de Janei r o.
Os mes mos não ti nham conheci ment o dessa out r a f amíli a do consel hei r o que só vei o à
t ona após sua mort e. Est e é u mf at o ver ossí mi l . Vej amos o que nos afi r ma Gancho (
2001, pág 10 ) Os f at os de u ma hi st óri a não pr eci sa m ser ver dadei r os, no senti do de
corr esponder e m exat a ment e a f at os ocorri dos no uni ver so ext eri or do t ext o, mas
deve m ser ver ossí mei s i st o quer di zer que, mes mo sendo i nvent ados, o l eit or deve
acr edi t ar no que l ê. Pel a oni sci ênci a do narr ador pode mos compr eender t odos os
20
21
aspect os psi col ógi cos das per songens. Suas ações f ut ur as e at é mes mo seus mai s
í nti mos pensa ment os.
No di a 25 de Abril de 1850 às 7 hor as da noi t e morreu de apopl exi a o
Consel hei r o. Apopl exi a é o que conhece mos por mort e súbi t a. A passage m r ápi da do
Consel hei r o pel o r o mance f oi o bast ant e par a que o narr ador desse i ní ci o ao t r ama.
Vej amos que as dat as dos acont eci ment os, nos f az medi t ar na quest ão de que m er a
esse Consel hei r o
2. 2 Enr edo
A
Pode mos
pri ncí pi o a per gunt a er a, exi sti a u m t est ament o? O que conti nha nel e ?
obser vr ar que o t est ament o
do Consel hei r o passou a ser o f oco das
at enções. Poi s at é ent ão o narr ador at ent ou par a a sur pr esa que est ava por vi r. Na
ver dade f oi a partir desse el ement o que o narr ador cri ou u m cli ma de per specti va ent r e
os t r ês per sonagens; Est áci o, D. Úr sul a e o Dr. Ca mar go, que pensati vo, per ece não
estr anhar a atit ude do a mi go. É o pont o cr uci al par a o desencadea ment o de t odos os
conflit os i nt er nos e ext er nos das per sonagens. Um docu ment o i nesper ado que ao
mes mo t e mpo ger ou t oda u ma espect ati va de desconf ort o e moci onal nas per sonagens.
De u ml ado par a outr o Dr. Ca mar go par eci a saber que o Consel hei r o havi a pr epar ado
al gu ma sur pr esa.
2. 3 Das per songens
Consel hei r o Val e - per sonage m secundári a , parti ci pa do enr edo, mas de
f or ma i ndi r et a.
O narr ador mui t as vezes f az u ma r etrospecti va das ações do Consel hei r o par a
que o l eit or
associ e os novos f at os às causas e conseqúênci as de al gu ms
co mport ament os dos de mai s per sonagens. Ex :. “ D. Úr sul a er a e mi nent ement e sever a
a r espei t o de cost umes. A vi da do Consel hei r o, mar chet eada de avent ur as gal ant es,
est ava l onge de ser uma pági na de cat eci smo; mas o at o fi nal podi a ser a r epar ação
de l evi andades a mar gas. Er a co mo se soubesse que est ava pr est es a morr er, vi st o
que a i ncl usão do no me de Hel ena j á conti nha do t est ament o.
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O Dr. Ca mar go -
per sonage m r edonda ;
é di nâ mi ca, possui densi dade
psi col ógi ca, vi da i nt erior, e por i sso sur pr eende o l eit or pel o seu comport ament o. O Dr.
Ca mar go er a pouco si mpáti co à pri mei r a vi sta. Ti nha as f ei ções dur as e f ri as, os ol hos
per scr ut or es e sagazes, de u ma sagaci dade i ncô moda par a que m encar ava co m el es,
o que o não f azi a atr aent e. Fal ava pouco e seco. Seus senti ment os não vi nha m a fl or
do r ost o. Na noi t e do t est ament o Dr. Camar go de monstr ou um gest o no ent ant o
suspei t o par a sua esposa e fil ha. O narr ador conhece be m a per sonage m ao pont o de
saber o seu l ado mai s í nti mo. Ex.
Quando Ca mar go chegou à casa, no Ri o Co mpri do, achou sua mul her, D.
To mási a mei o adormeci da nu ma cadei ra de bal anço e Eugêni a ao pi ano,
execut ando u m t r echo de Belli ni. Eugêni at ocaca co m habili dade; e Ca mar go
gost ava de a ouvi r.
Naquel a ocasi ão, por é m,
di sse el e, par eci a pouco
conveni ent e que a moça se entregasse a u m gêner o de r ecr ei o qual que. Eugêni a
obedeceu, al gu m t ant o de má vont ade. O pai que se achava ao pé do pi ano,
pegou-l he nas mãos, l ogo que el e se l evant ou, e fit ou-l he uns ol hos a mor osos e
pr of undos, como el a nunca l he vi ra.
-
Não fi quei trist e pel oque me di sse, papai, obser vou a moça. Tocava por
destrai rme. D. Úr sul a co mo est á? Fi cou t ão afrit a!
Ma mãe queri a de mor ar- me
mai s t e mpo; mas conf esso que não podi a ver a tri st eza daquel a casa.
- Mas a tri st eza é necessári a à vi da acudi u D. To mási a, que abri ra os ol hos
l ogo à entrada do mari do. As dor es al hei as f aze ml e mbr ar as pr ópri as, e são u m
corr eti vo da al egri a, cuj o excesso pode engendr ar o orgul ho. Eugêni anao
co mpr eendeu o que os doi s havi a m dit o.
- Acont eceu l á al guma coi sa?
- Absol ut a ment e nada, respondeu Ca mar go, dando- l he um beij o na t est a.
Er a o pri mei r o beij o, ao menos o pri mei r o que a moça ti nha me móri a. A
cari ci a enencheu – de or gul ho fili al: mas a pr ópri a novi dade del a i mpr essi onou- a
mai s. Eugêni a não creu no que di sser a o pai.
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Foi u m gest o i nesper ado por Eugêni a. Mas j á er a de se i magi nar que aquel e beij o
traduzi a u m pensa ment o de Ca mar go co mr el ação a f urt una do Consel hei r o. Er a co mo
se seu cor ação esti vesse cont ent e co m a mor t e do a mi go, e t a mbém por que Est áci o se
t or nar a her dei r o. Pode mos ent ão di zer que o Dr. Ca mar go ti nha r eal ment e out r os
i nt er esses.
A per sonage m do Dr. Ca mar go er a o si nôni mo de a mbi ção e i nt er esse mat eri al.
Tant o que na obr a os úni cos gest os de cari nho “ pat er no” que t eve par a co m sua fil ha
Eugêni a f or am: a espect ati va do cont eúdo do t est ament o, do noi vado da moça co m
Est áci o e da mort e de Hel ena.
D. Úr sul a – per sonage m- r edonda
D. Úr sul a cont ava co m ci nqüênt a e poucos
anos. Er a sol t ei r a e t o mava cont a da casa
do i r mão desde a mort e da mãe de
Est áci o. Gost ava de ol har o padr e pel a j anel a, se car act eri zar mos D. Úr sul a er a u ma
ver dadei r a “ ur sa”
D. Úr sul a nunca acr edi t ou na enocênci a de Hel ena, apesar del a t er de monst r ado
ser uma moça de boa índol e.
Padr e – mestre Mel chi or – per sonage m r edonda.
Mel chi or er a capel ão e m
casa do Consel hei r o. Ti nha 60 anos. Er a home m de est at ur a medi ana, magr o, cal vo,
br ancos e poucos cabel os, e uns ol hos não
menos sagazesque mansos. De
co mpost ur a qui et a e gr ave, aust er o se m f or mali s mo, soci ável se m mundani dade,
t ol er ant e se mfr aqueza, er a o ver dadei r o var ão apost al ógi co.
Dr. Mat os – personage m pl ana - Dr. Mat os er a u m vel ho advogado, que e m
co mpensação da ci ênci a do di r eit o, que não sabi a, possui a noções mui t o apr ovei t ávei s
de met eor ol ogi a e bot âni ca, da art e de co mer, volt er et e, do ga mão e da políti ca.
Eugêni a - per sonage m - r edonda. Er a a fil ha do Dr. Car mago cuj a o mes mo
desej ava casá-l a co m Est áci o. Te m parti ci pação expr essi va na obr a. A cari cat ur a do
no me não tr aduz i ngenui dade da per sonage m, mui t o pel o contr ári o é uma gêni a.
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Est áci o - per sonage m- pri nci pal. Assu me u m papel central no desenr ol ar da
ação e por i sso ocupa mai or espaço t ext ual . Est áci o ti nha vi nt e e set e anos, f or mado
e m Mat e máti cas. É o ti po de per sonage m criado par a agr ado do públi co f emi ni no.
D. Angel a da Sol edade - per sonagem - secundári a.
Er a a mãe de Hel ena.
“ Ângel a er a um co mpl exo de qualidades si ngul ar es. Capaz de suport ar as
mai or es angústi as, fort e e ri sonha no mei o das máxi mas pri vações, esqueceu
nu m i nst ant e as vi rtudes que ti nha par a corr er atraz de u ma f ant asi a de a mor.
Não f oi a ri queza que a seduzi u; el a i ri a, ai nda que ti vesse de tr ocar a ri queza
pel a mi séri a” .
Que m f ez t al afirmação f oi a per sonage m “ Sal vador “ qui s di zer que D. Angel a
não er a i nt er essei r a e o a mor par a el a er a mai s i mport ant e que a ri queza, i sso segundo
o narr ador.
D. Leonor- per sonage m- pl ana. Er a esposa do Dr. Mat os. Na obr a poucas são
f al as dessa per songem.
Cor onel Macedo - per sonage m - pl ana.
O cor onel que não er a cor onel e si m
maj or. Er a bo m co mpanhei r o, f ol gazão e comuni cati vo.
Sal vador-
personage m - secundári o.
Er a
o ver dadei r o pai de Hel ena,
bast ant e pobr e . El e passou mui t o t empo t ent ando se apr oxi mar da fil ha, mas a mãe
da meni na di zi a se mpr e que el e havi a morri do.
D. To mási a - per sonage m - pl ana. Er a a esposa do Dr. Ca mar go e mãe de
Eugêni a. Não er a mui to de conver sa, por ém boa obser vador a.
Mendonça - personage m - pl ana.
Er a a mi go de Est áci o desde a f acul dade.
Logo que vol t ou da Eur opa ao se depar ar co m Hel ena l ogo se apai xonou pel a moça.
Mas Est áci o per cebendo que Hel ena não o amava deu u mj eit o de acabar o casa ment o
da i r mã. Na ver dada pel o que o narr ador conhece da per sonage m, o l eit or ent ende que
o moço est ava mes mo er a co m ci úmes do ami go.
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Vi cent e - per sonage m - pl ana. Er a o e mpr egado que auxili ava Hel ena nas
caval gadas mati nai s. Foi o r esponsável pel o desvendar do segr edo de Hel ena. Tal vez
não ti ver a si do por mal dade, mas por se pr eocupar co m sua si nhá. Todo desf echo se
deu por cont a da r evel ação de Vi cent e ao padr e Mel chi or que l ogo pr ocur ou Hel ena a
fi m saber a ver dade.
Hel ena - per sonage m pri nci pal. Er a dócil, af ável , i nt eli gent e, pi ani st a di sti nt a,
sabi a desenho, f al ava vári as l í nguas, e pr endada e m dot es do mésti cos, se m cont ar
co m a bel eza ext eri or e i nt eri or. Mist eri osa e guar dava um gr ande segr edo.
2. 4 Espaço geográfi co
Andar aí l ugar onde se desenvol ve o enr edo. Embor a o narr ador t enha f ei t o suas
obser vações quant o ao l ocal onde ocorr em os f at os, Andar aí é ver ossí mil. No s écul o
XI X ai nda pequena a ci dade t r aduzi a uma soci edade bur guesa. Seus casar ões,
chácar as, co mér ci o, i gr ej as er a m tí pi cos,
o
cenári o perf eit o par a que o narr ador
desenvol ve- se o enr edo. Suas serr as e mont es, o ar fr esco, a veget ação er a m
car act eri sti cas peculi ares de Andar aí. Er a u ma ci dade serr ana, hoj e seu no me é tij uca.
( Ver f ot os nos anexos). A pri mei r a gr avura most r a a anti ga Andar aí no sécul o XI X.
Co m a evol ução i ndústri al not a- se que, a veget ação vai per dendo espaço e co meça a
desapar ecer.
2. 5 Ambi ent e
O a mbi ent e na obr a é apr esent ado de duas f or mas: o aberto e o f echado. No
f echado ocorr em f at os dentr o da casa da f amí li a do Consel hei r o.
Ex:. Entrar a m os doi s. Tudo est ava do mes mo modo que no di a que o
consel ei r o f al ecer a. Est áci o deu al gu mas i ndi cações r el ati vas ao t eor da vi da
do mésti ca de seu pai; mostr o- l he a cadei ra e m que cost umava l er, de t ar de e de
ma nhã; os r etrat os da f a míli a, a secr et ári a, as est ant es; f al ou de quant o podi a
i nt er essá -l a. Sobr e à mesa, pert o da j anel a, est ava ai nda o úl ti mo li vr o que o
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consel hei r o l er a:
era m as Máxi mas do Mar quês de Mari cá. Hel ena pegou nel e e
beij ou a pági na aberta. Uma l ágri ma br ot ou – l he dos ol hos, quent e de t odo cal or
de uma al ma apai xonada e sensí vel; br ot ou, desli zou- se e f oi cai r no papel.
-
Coit ado! mur mur ou el a.
Hel ena er gueu- se.
- Gost ava del e? Per gunt ou el a.
-
Que m não gost ari a del e?
- Te mr azão. Er a u ma al ma gr ande e nobr e; eu ador ava-o. Reconheceu- me;
deu- me f a míli a e f utur o; l evant ou- me aos ol hos de t odos e aos meus pr ópri os. O
rest o depende de mi m, do j ui zo que eu t i ver, ou t al vez da f ort una. Est a úl ti ma
pal avr a sai u- l he do cor ação co m u m suspiro.
A cena que acont ecer a no gabi net e do consel hei r o, as pal avr as de Hel ena,
t al vez at é t enha m convenci do o supost o i r mão. Mas o narr ador escl ar ece ao l eit or “ a
úl ti ma pal avr a sai u - l he do cor ação co m um suspi r o.
A f ort una f oi essa pal avr a a
r esponsável pel o suspi r o mai s pr of undo de Hel ena.
No a mbi ent e abert o, ou sej a, na chácar a, nos passei os a caval o, f at os i ncrí vei s
acont eci am. Os i r mãos caval gava m pel as ver edas da chácar a, o char me, a bel eza de
Hel ena er a m moti vos par a i mpr essi onar t ant o o supost o i r mão quant o as de mai s
pessoas que vi am - na. Segundo o narr ador Hel ena ti nha a bel eza de uma pri nci cesa.
2. 6 Clí max
O Padr e – Mest r e Mel chi or questi ona Est áci o a r espei t o do que el e r eal ment e
est á senti ndo por Hel ena. Seri a u m i ncest o u m i r mão ali ment ar pel a i r mã u m
senti ment o que não f osse f r at er nal.
Mas o cor ação de Est áci o est ava r eal ment e
nutri ndo u m a mor que l he er a i mpossí vel aos ol hos do mundo e pri nci pal ment e ao
ol hos de Deus.
- És f ort e? Per gunt ou o padr e.
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- Sou.
-
Cr ês e m Deus?
Est áci o estre meceu e ol hou par a o anci ão, se m responder. Mel chi or i nsi sti u.
-
Cr ês?
- Essa per gunt a...
-
Cr ei o.
- Poi s be m, t u transgr edi sse a l ei di vi na co mo t a mbé m a l ei hu mana, se m o
saber. Teu cor açao é u m gr ande i nconsci ent e.
-
Mas o que é, padr e – mestre?
Mel chi or i ncli nou- se e encar ou o moço. Os
ol hos fit os nel e, er a m co mo u m
espel ho poli do e fri o, desti nado a repr oduzi r a i mpr essão do que l he i a di zer.
- Est áci o, di sse Mel chi or pausada ment e, t u a mas t ua ir mã.
Est áci o não respondeu nada; não podi a responder nada.
A mudez de Est áci o cessou e mfi m; o corpo agi t ou- se; o l ábi o arti cul ou al gu mas
frases desconsert adas.
-
Padr e- mestre! Mur mur ou Est áci o, cuj o o cor ação recebi a a i nfl uênci a da
pal avr a de Mel chi or, a umt e mpo sever a e mei ga.
- Não f al es, continuou o padr e; negá-lo é menti r; conf essá- l o é oci oso. Co mo
nasceu e m t eu cor ação se mel hant e sentime nt o? Qui s a f ort una que ent r e vocês
doi s não houvesse a i mage m da i nf ânci a e a cu munhão dos pri mei r os anos; que,
e m pl ena moci dade, passase m do t ot al desconheci e ment o. Hel ena apar eceu- t e
mul her comt odas as seduções pr ópri as da mul her.
-
Não padr e- mestre! excl a mou el e dei xando- se cai r na cadei ra.
É i mpossí vel e i st o que me est á di zendo é um sonho mau.
Hel ena não se dava cont a de que sua f ar sa poderi a ser desvendada de u m
mo ment o par a out r o. El a j á pr evi a que sua menti r a est ava pr est es a vi r à t ona. E
agor a? Qual seri a o desti no da moça que t ant o encant ou a t odos. Seri a el a capaz de
r enunci ar a ri queza e assu mir seu a mor ? Mes mo senti ndo que est ava apai xonada por
Est áci o as atit udes de Hel ena são bast ant es suspei t as.
As saí das secr et as os
segr edos dos bil het es envi ados por el a atr avés do escr avo e a desconfi ança do padr e
abr e m mar ge m às gr andes descobert as.
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2. 7 Desf echo
Após t er ti do uma conver sa co m Est áci o o padr e f oi embor a.
A noit e er a escur a
co m u m senti ment o de pena questi onava- se se poderi a haver ali naquel a casa al go t ão
asso mbr oso capaz de desf azer t odo or gul ho e ri queza co m o i rr emedi ável espet ácul o
da f r agili dade hu mana? Tal vez por ser o r eli gi oso u m ser hu mano mui t o sensat o e dado
a r efl exão per cebi a que al go mui t o escr aboso est ava par a acont ecer.
-
Não, di zi a el e consi go mes mo.
A ver dade é que t udo se encadei a e
desenvol ve l ogi ca ment e.
Nest e pont o chegava ao port ão. Aí det eve- se u m i nst ant e. O passo caut el oso e
tí mi do de al gué m f ê-l o vol t ar a cabeça. Um vul t o, cuj o r ost o não vi a, t ão escur o
co mo a noi t e, ali estava e l he t ocava r espei t osa ment e as abas da sobr ecasaca.
Er a o paj e m de Hel ena.
- Seu padr e, di sse est e, di ga- me por f avor o que acont eceu e m casa. Vej o
t odos tri st es; nhanhã Hel ena não apar ece; f echou- se no quart o... Me per doe a
confi ança. O que f oi que acont eceu?
-
Nada, respondeu Mel chi or.
- Hu m! ge meu i ncr edul a ment e o paj e m. Há al gu ma coi sa que o escr avo não
pode sabe; mas t a mbé m o escr avo pode saber al gu ma coi sa que os br ancos
t enha m vont ade de ouvi r...
Mel chi or r epri mi u u ma excl a mação. A noi t e não l he per miti a exa mi nar o
r ost o do escr avo, mas a voz era dol ent e e si ncer a (...)
-
Nhanhã Hel ena é u ma sant a. Se al gué m a acusa,
acusa o bo m
pr ocedi ment o del a. Eu l he di rei t udo.
Naquel e mo ment o o padr e não est ava di spost o a escut ar o escr avo, mas al go f ez
co m que el e par asse, er a um outr o escr avo que vi nha f echar o portão.
- Ve m gent e, disse Vi cent e; a manhã. ..
O escr avo não t eve o menor r ecei o e m conf essar o segr edo de Hel ena, mes mo
por que pensava el e que o padr e j á sabi a de al go. Ent ão l he cont ou dos bil het es que
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Hel ena mandava par a Sal vador. Mas na ver dade el e não sabi a se er a o pai de Hel ena.
El a menti u par a o escravo t ambé m.
Pel a vol t a do mei o- di a segundo o narrador, o padr e chegou na casa de Hel ena.
Na sal a de vi sit as est ava D. Úr sul a que o espr eit ava de uma das j anel as.
D. Úr sul a par eci a na ver dade u ma ur sa, ti nha u mf ar o que a f azi a senti r o chei r o
de conf usão de l onge. Naquel a ocasi ão o Vi cent e j á t eri a cont ado al go ao padr e.
-
Não hesi t o, repli cou Hel ena; e m t ai s sit uações, u ma cri at ur a, co mo eu,
ca mi nha di reit o a um r ochedo ou a u m abi s mo; despedaça - se ou so me- se não
há escol ha. Est e é o papel,
conti nuou ti rando da al gi bei ra u ma cart a, -- est e
papel l he di rá t udo; l ei a e r efira t udo a Est áci o e D. Úr sul a. Não t enho âni mode os
encar ar nest a ocasi ão.
Co m a cart a nas mãos, se m ousar abri -l a, receoso dos mal es que i a m dali
sai r, se m cert eza ao menos de que fi cari a no f undo a esperança. I a abri -l a, e
hesi t ou se o devi a f azer na ausênci a, de Est áci o e D. Úr sul a; venceu o escr úpul o
e l eu.
Logo após l er a cart a o padr e a deu par a os de mai s l er em. O mo ment o f oi de
gr ande sur pr esa. Ni ngué m poderi a acr edi t ar no que est ava escrit o. Revol t ado Est áci o
qui s tir ar sati sf ações co m o ho me m a que m Hel ena di sser a ser seu ver dadei r o pai . A
pri ncí pi o pensou ser um i mpost or que qui sesse ti r ar al gu ma vant age m de Hel ena, ao
chegar e m na hu mil de casa, escut ar amt oda hi st óri a do ho me m. A pati r daí const at ouse t oda ver dade sobr e o passado de Hel ena.
Est áci o por um mo ment o não sabi a o que f azer di ant e da r evel ação.
-
Mas, posso eu, à vi st a do que acaba mos de ouvi r conser var a Hel ena u m
tít ul o que ri gor osame nt e não l he pert ence? Hel ena não é mi nha i r mã, é
absol ut a ment e estranha à nossa f a míli a; o tít ul o que nos li gava, desapar ece. Por
que moti vo conti nuarí amos nós uma f al sificação.
Cha mada a ouví -l os, Hel ena desceu daí a al guns mi nut os. A cor da ver gonha
ti ngi u-l he a f ace, l ogo que el a deu co m Est áci o que a esper ava, ao l ado de Mel chi or,
a mbos cal ados, mas se m nenhu m vi sl umbr e de i rrit ação. Após um sil ênci o l ongo e
abaf ado, Est áci o co muni cou a Hel ena a r esol ução da f a míli a e seus senti ment os de
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gener osi dade e confi ança; concl ui u di zendo que, sobr e t odas as coi sas, pr eval eceri a a
vont ade de seu pai. Co m voz tr êmul a Hel ena di sse:
- Meu cor ação fi car á et er na ment e grat o ao r est o de estima que não per di ;
a si t uação mudou, e f or ça é mudar co m el a. Não quer o a pr ot eção da l ei, ne m
poderi a r eceber compl acênci a de cor ações a mi gos. Co me ti um err o, e devo
expi á-l o. Enquant o a ver gonha vi vi a só comi go, er a possi vel vi ver nest a casa; eu
at or doava- me par a esquecê-l a; mas agora que é pat ent e, vê-la - ei nos ol hos de
t odos e no sorri so de cada um.
Hel ena j á não vi a moti vo par a conti nuar na casa. Constr angi da co m a si t uação
dos mo ment os de ansi edade que havi a passado, el a se debilit ou na saúde.
A manhã não tr ouxe a Hel ena o esqueci ment o e a paz. A noi t e não l he
ser vi u de r e médi o, ant es l egou à aur or a t oda a sua mort al angústi a. Debilit ada,
ner vosa, i mpaci ent e, não podi a a moça vencer- se ne m suporta- se. Hel ena f ugi a a
t odos, a vi gili a e a dor a ti nha mi mpali deci do mui t o. Er a chegada a hor a. O padr e
r eco medar a mui t o à f amíli a que vi gi asse a moça. Poi s t emi a que el a f ugi sse de casa
ou r ecorr esse a al gu m at o de desesper o. Hel ena mal podi a t ol er ar a sit uação.
Uma vez, que descesse à chácar a, sai u Est áci o a pr ocur á-l a, não a encont r ando
se não ao cabo de al guns mi nut os. Achou- a ao pé do t angue, no l ugar e m que l he
f al ar a poucos di as ant es, sent ada no mes mo banco de pau. Vendo- o estr emeceu; el e
apr oxi mou- se, cont ent e de a haver encont r ado. O di a est ava f ei o; gr ossas nuvens
negr as t úmi das de t e mpor al br eve. Est áci o f oi a el a, pegou-l he nas mãos a aconvi dou- a
a sai r dali.
- Entr e mos, di sse el e pel a t er cei ra vez, ol he que vai chover. Hel ena dei xouse l evant ar; u m cal afri o per correu-l he o cor po t odo, e as mãos que o moço ai nda
ti nha entre as suas, est ava m mui t o mai s quent es que o nat ur al. Hel ena caí r a
of egant e no banco. Est áci o f al ou-l he com abundânci a e t er nur a.
Gr ossos pi ngos de chuva co meçavam a r uf ar nas ár vor es. Est áci o pegou na
mã o de Hel ena par a conduzi -l a à casa. A moça f ugi u-l he, i ndo col ocar- se al guns
passos adi ant e, onde a chuva l he caí a mi as e m chei o na cabeça nua eno cor po
l eve ment e cobert o. Quando Est áci o, desvai rado de t err or, correu par a el a, Hel ena
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af ast ou- se del e, mas ne m seus pés o poderi a m vencer nunca, ne ml ho per miti a m
agor a as f or ças quebradas por t ant as e t ão pr of undas comoções.
-
Dei xe- me morrer! mur mur ou el a.
Dur ant e set e di as est eve Hel ena acamada e quase se m de monst r ar nenhu m
i nt er esse pel a vi da. Não havi a mai s a que m apel ar a não ser encontr ar Sal vador seu
pai , mas f oi i nútil. Hel ena morr eu . Morr eu e l evou consi go t odo or gul ho ou que m sabe
f oi a ver gonha de t er que encar ar t odas as pessoas do seu conví vi o.
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3. Fort una críti ca
O l eit or pr ovavel ment e per ceber á que o r o mance Hel ena t e m car act erí sti cas
r omânti cas, co mo t oda hi st óri a de a mor. Mas o que quer e mos enf atizar na obr a Hel ena
não é o senti ment ali smo a mor oso, mas seus aspect os r eali st as mostr ados at r avés do
ol har do narr ador. Os f at os conti dos na obr a de monstr ar am o por quê de não t er havi do
u mfi nal f eli z. É j ust ament e por ser u ma obr a de car át er r eali st a, j á co m denúnci as anti
– r o manti cas. Pode mos t a mbé m ci t ar co mo exe mpl o u ma das obr as r eali st as mai s
co ment adas do r eali smo Port uguês que é O Pri mo Basíli o de Eça de Quei r ós. Onde
Luí za pr ot agoni st a da tr ama morr e no fi nal. E co mo di z o pr ópri o escrit or de Hel ena
“
Est a nova edi ção de Hel ena sai co m vári as e mendas de li nguage m e
outr as, que não al t era m a f ei ção do li vr o. El e é o mes mo da dat a e m que co mpus
e i mpri mi, di ver so do que o t e mpo me f ez depoi s, corr espondendo assi m ao
capí t ul o da hi st óri a do meu espí rit o, naquel e ano de 1876.
Não me cul pei spel o que l he achardes r omanesco. Dos que ent ão fi z, est e
me er a parti cul ar ment e pr ezado. Agor a mes mo, que há t ant o me f ui a out r as e
di f er ent es pági nas, ouço u m eco r e mot o ao r el er est as, eco de moci dade e f é
i ngênua. É cl ar o que, e m nenhu m caso, l he tirari a a f ei ção passada; cada obr a
pert ence ao seu t e mpo. “
( Machado de Assi s )
O l i vr o apr esent a t odas as per sonagens de f or ma cl ar a e de acor do co m a
i nser ção desses na hi st óri a. Ali nguage m obedece a nor ma cul t a da l í ngua Port uguesa.
O li vr o é de l eit ur a envol vent e e de f ácil compr eensão.
Uma das peculiari dades da obr a é o f at o do narr ador vez por outr a di ri gi r-se
di r et ament e ao l eit or, co mo se t ent asse escl ar ecer as mai s r omot as dúvi das e as
i ncert ezas do mes mo..
No desenr ol ar da narr ati va acr edi t amos nu m fi nal f eli z par a as per sonagens
pri nci pai s, no caso Est áci o e Hel ena. Exi st e u m t r echo na obr a onde o narr ador t ent a
cri ar u ma expect ati va no l eit or. É a cena em que os doi s j ovens se encont r a m e os
ol har es f al amt udo do que a mbos est ão sentindo u m pel o outr o.
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Ex. : A pri nci pi o f oi esse ol har u m si mpl es encontr o; mas dent r o de al guns
i nst ant es, er a al guma cousa mai s.
Era a pri mei ra r evel ação, t áci t a mas
consci ent e, do sentime nt o que os li gava. Nenhu m del es pr ocur ava esse cont at o
de suas al mas, mas nenhu m f ugi u. O que el es di sser a m um ao out r o, co m os
si mpl es ol hos, não se escr eve no papel, não se pode r epeti r ao ouvi do; confi ssão
mi st eri osa e secr et a, f eit a de u m a outro cor ação, que só ao céu cabi a ouvi r,
por que não er a m vozes da Terr a, ne m par a a t erra as di zi a m el es. As mãos, de
i mpul so pr ópri o, uni ra m- se co mo os ol hares; nenhu ma ver gonha, nenhu mr ecei o,
nenhu ma consi der ação det eve essa f usão de duas cri at uras nasci das par a
f or mar uma exi st ênci a úni ca.
É esse ti po de questi ona ment o que mexe co m o espí rit o do l eitor. Por que Hel ena
não f ugi u co m Est áci o?
O pr ópri o narr ador enf ati za o a mor exi st ent e. Após t oda
r evel ação r est ava u ma sol ução a f uga par a vi ver em u m a mor i nt enso. Mas nada di sso
seri a possi vel nu m r omance r eali st a onde o f oco é o mat eri al e não o i mat eri al.
Al guns at é di ze m que Hel ena não ti nha nenhu mi nt er esse mat eri al, mas cabe ao
l eit or avali ar, anali sar e tirar suas concl usões.
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Consi der ações fi nai s
Concl ui mos o est udo da obr a co m o ent endi ment o da segui nt e mensage m: Não
val e a pena menti r par a obt er vant agens fi nancei r as, pri nci pal ment e quando est a mos
li dando co m os sentiment os das pessoas. Bri ncar co m coi sas séri as às vezes pode
nos cust ar mui t o car o. Hel ena não f oi coer ent e, enganou a t odos par a ser her dei r a da
f ort una do Consel hei r o. Quant o t udo vei o à t ona pr ef eri u morr er par a f ugi r da ver gonha
de t er menti do.
O mundo se mpr e f oi mat eri ali st a. Um exe mpl o be m cl ar o é o caso de Judas
Escari ot es, que movi do pel a ganânci a tr ai u Jesus o ent r egando aos r o manos por t ri nt a
moedas de pr at a. E o f i nal do mes mo f oi tr ági co, poi s quando se ar r ependeu f oi t ar de.
Essa hi st óri a de não se val ori zar os sent i ment os nobr es co mo: a mor, hu mil dade,
sabedori a é mui t o ant i ga. E hoj e est á pi or por que as pessoas passa m t oods os di as
corr endo at r ás de bens mat eri ai s, mas quando são col ocadas e m cert as si t uações r ar a
de si nceri dade di ze m que pr eci sa m de col o, de a mor , de cari nho. Te me m a f or ma
absol ut a do abandono, da agr essi vi dade, do egoi s mo. Nos mo ment os de mai or
franqueza t odos f al am de bens i mat eri ai s. Co mo so mos l evados di ari ament e a buscar
mat eri ali dade e o que r eal ment e desej amos é i mat eri al, est a doença cont agi osa t e m
nos manti dos mui t os di st ant es de nossa paz. As al mas est ão
apodr ecendo, os
cor ações enf r aquecendo pel a f alt a de a mor. Fal ar de Amor hoj e em di a não é pi egas,
não é coi sa de poet a i ngênuo ou de al gu ml ouco... ? Mas não ser á f unda ment al ? As
pessoas mai s sensat as da hi st óri a da humani dade er a m chamadas de l oucos ou
l oucas, aqui pode mos ci t ar al guns exe mpl os: o pri mei r o se m sombr a de dúvi das f oi
Jesus Cri st o os out r os após f or a m Madr e Ter eza de Cal cut á, Gandhi, I r mã Dul ce,
Beti nho, os Purit anos e outr os r omânti cos que f aze mf alt a à hu mani dade.
Tal vez sej a essa f alt a de a mor pr ópri o que est á l evando as pessoas a não
encotr ar em a paz i nt eri or.
O desej o e a cobi ça, e a f ant asi a de i mort ali dade ali cer çar am o mat eri ali s mo. É
quase i mposí vel co ment ar- mos o a mor se ml e mbr ar que o fil ósof o Pl at ão nos ensi na o
que o a mor r epr esent a na vi da do ser hu mano. Hoj e e m pl eno Sécul o XXI vi ve mos nu m
r eali s mo mai s expr essi vo do que no Sécul o XI X onde houver am t ant as mudanças
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t ecnol ógi cas que
mai s do nunca continua m i nfl uenci ando no co mport ament o
psi col ógi co e soci al das pessoas, f azendo co m que as pessoas se t or ne m menos
r aci onai s e r efl exi vas di ant e do poder model ador do mundo capi t ali st a.
É evi dent e que o a mor é desej o. Sabe mos, por é m que
os que não a ma m t a mbém desej a m os obj et os que s ão
bel os. Co mo, poi s, di sti ngui r emos ent r e o que a ma e o
que não a ma? Deve mos, al é m di sso, exa mi nar o
segui nt e: e m cada u m de nós há doi s pri ncí pi os que nos
gover na m e conduze m, e nós os segui mos par a onde
nos l eva m: u m é o desej o i nat o do pr azer, out ro a
opi ni ão que pr et ende obt er o que é mel hor. Essas duas
t endênci as que exi st em dentr o de nós concor da m por
vezes, e m out r as ent r am e m conflit o, por vezes vence
u ma e por vezes a out r a. Or a, quando a t endênci a que
se i nspi r a na r azão é a que vence, conduzi n- do nos ao
que é mel hor, cha ma- se i sso t e mper ança; quando pel o
contr ári o, o desej o nos arrast a se m deli ber ação par a os
pr azer es, e é el e que pr edo mi na e m nós, i sso se chama
i nt emper ança. A pal avr a i nt emper ança, cont udo, t em
vári os senti dos, é co mpr eendi da de mui t as manei r as, e o
senti do que se t or nou car act erí sti co f az co m que o
ho me m que possui essa t endênci a r eceba o nome
corr espondent e, e não é bel o ne m honorifi co r ecebê- l o.
Ent r et ant o, cr ei o que devo expli car- me mai s cl ar a ment e.
Quando o desej o, que não é di ri gi do pel a r azão, es maga
e m nossa al ma o desej o do be m e se di rige
excl usi va ment e par a o pr azer que a bel eza pr o met e, e
quando el e se l ança, co m t oda a f or ça que os desej os
i nt emper ant es possue m, o seu poder é i rr esi stí vel . Est a
f or ça t odo- poder osa, i rresi stí vel, cha ma- se Er os ou
Amor.
Pl at ão
Co mo obser va mos no tr echo aci ma, há vári os sécul os os fil ósof os j á vi am o
quant o o mundo se tr ansf or mari a, o quant o o home m se esqueceri a de sua essênci a de
ho me m par a se tr ansf or mar nu m obj et o de mani pul ação.
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Ref er ênci as:
ASSI S, de Machado, Hel ena, t ext o i nt egr al
Edi t or a: Marti n Cl ar et, São
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COUTI NHO, Af r âni o, I ntr odução à Li t erat ur a no Br asil . 17º edi ção . ED.
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São Paul o 1965
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