11 I ntr odução A apr esent ação da obr a Hel ena de Machado de Assi s ser á abor dada medi ant e os aspct os ci t ados abai xo e co m o pr óposi to de most r ar ao al uno pesqui sador as i nfl uênci as das t r ansf or mações do Sécul o XI X. E co mo Machado de Assi s expli cou e m suas obr as t ai s mo ment os nos mai s di ver sos modos e que só Machado sabi a f azer. Por i sso “ O pesqui sador da al ma hu mana” pel a capaci dade de co mpr eender os mai s í nti mos pensa ment os de suas per sonagens. No capít ul o 1 t rat ar emos da vi da e obr a de Machado de Assi s, sua t r aj et óri a, o cont ext o soci al, políti co e cult ur al No capít ul o 2 trat ar emos da obr a Hel ena onde obor dar emos t odos os pont os pri nci pai s de u ma obr a lit er ári a co mo : enr edo, per sonagens, narr ador, t empo, a mbi ent e, clí max, desf echo. No capít ul o 3 trat ar emos da f ort una críti ca e m r el ação a obr a, ou sej a, co ment ári os sobr e as per sonagens, suas atitudes e por que o narr ador não deu u mfi nal f eli z aos pr ot agoni st as, ou sej a, Hel ena e Est áci o. Ao est udar mos u ma obr a de estil o r eali st a é i mport ant e saber mos que est a mos trat ando de u m período lit er ári o mui t o rel evant e par a o est udo da lit er at ur a. É necessári o que f açamos u ma expl or ação do mo ment o, ou sej a, o que est ava acont ecendo par a poder mos i denfi car nas obr as t odas as car act eri sti cas do mo ment o hi st óri co mundi al. E passar mos a co mpr eender que t odo perí odo lit er ári o f az part e t ambé m de u m cont ext o hi st óri co soci al e cul t ur al. E por que a lit er at ur a t a mbé m r efl et e t odo u m cont ext o hi st óri co? Tendo e m vi st a que cada mo ment o t e m suas pr ópri as car act eri sti cas. De acor do co m cada at mosf er a e especifica ment e se t r at ando do Reali s mo que f oi u m mo ment o de vári as mudanças. O Br asil evol ui u mui t o do Ro manti s mo par a o Reali s mo- Nat ur ali s mo. Segundo Couti nho ( 2001. pag. 182 ) , a co mpr eensão de cada mo ment o é de extr ema r el evânci a, e as mudanças de cada t empo t e mbé m são i mport ant es no est udo da lit er at ur a. 11 12 O que se pode co mpr eender co m a afi rmação supr a ci t ada é que se est abel eceu u ma r el ação entr e t empo hi st óri co e lit er at ur a, por i sso per cebemos que se mpr e que l evant amos dados sobr e det er mi nados aut ores not amos suas i nfl uênci as nos cont ext os pol íti cos- soci ai s. Os adept os do Reali s mo r epr esent am uma voz de r evolt a e desencant o di ant e de u ma soci edade do mi nada pel o capi t al e pel a ost ent ação do poder mat eri al. Sur ge na Fr ança, co m a obr a de Gust ave Fl aubert, Mada me Bovar y. Est a obr a ve m a ser ver dadei r o libel o contr a os padr ões românti cos. Ema Bovar y busca as avent ur as de um a mor i mpossí vel e perf eit o, só r eali zado nos enr edos dos r o mances r o mânti cos. E i ncapaz de se co mf ormar co m a r eali dade que a r odei a, r eali dade essa se m e moções, ti pi cas das camadas médi as. Não consegui ndo r eali zar suas pr et ensões co met e o sui cí di o. Na ver dade, t al panor a ma cul t ur al apenas r efl et e a r eali dade politi ca e soci al do Oci dent e. No ca mpo das i déi as, os doutri nadores do soci ali s mo ut ópi co são ouvi dos. O mundo oci dent al passa por séri as cri ses soci ai s e politi cas. O pr ol et ári ado au ment a nu meri ca ment e e adqui r e consci ênci a de seus di r eit os e de sua condi ção sub hu mana de vi da. As l ut as pr ol et ári as se al astr am por t oda Eur opa. Fat os co mo a 1ª I nt er naci onal Oper ári a ( 1864 ), o gr ande movi ment o oper ári o i ngl ês e a pr ocl amação da r epúbli ca da Co muna ( Pari s ), vão i nfl ui r no pensa ment o pol ítico eur opeu e, co mo conseqüênci a, nos paí ses, co mo o Br asil, que são ver dadei r os sat élit es da r eali dade pol íti ca, econô mi ca e soci al da Eur opa. Ta mbé m ci entifica ment e, a segunda met ade do Sécul o XI X passa por gr andes evol uções e t r ansf ormações que r efl et em no co mport ament o soci al,. As ci ênci as nat ur ai s dão u m passo mar cant e co m a t eori a da evol ução das espéci es de Dar wi n. Fr eud, co m a psi canál i se, escandali za o mundo co m suas novas t eori as. É mai s u ma abert ur a par a a co mpr eensão do ho me m e seu cr esci ment o conseqüent e. August o Co mt e pr et ende f azer u ma sí nt ese fil osóf i ca baseada excl usi va ment e e m dados ci entífi cos; sua t eori a posi ti vi st a r ej eit a a met afi si ca. Por outr o l ado, o mét odo di al éti co i ni ci ado por Hegel passa a ser adot ado emt oda Eur opa. O Br asil, co mo r efl exo da Eur opa, t ambé m sof r e u ma séri e de t r ansf or mações. A base da sust ent ação da econo mi a br asil eir a t or nou - se, no Sécul o XI X f oi o caf é. Os caf ei cult or es do mi na m no cenári o politi co naci onal . O Oest e pauli st a t or na- se ri co 12 13 pr odut or e r ei nvi ndi ca par a si t odos os poder es e a aut ono mi a de ação. Li gados a capi t ai s estr nangei r os e pr oduzi ndo par a o mer cado ext er no, não acei t am mai s o patri ar cali s mo est at al. Tal patri ar cali s mo r et ar da sua evol ução capi tali st a e i mpede seu cont at o di r et o co m as nações co mpr ador as do pr odut o. Par a esses caf ei cult or es, i nt er essa m as t eori as li ber ai s e a r epúbli ca f eder ali st a. São t ambé m aboli ci oni st as i nt er essados no au ment o da cl asse consu mi dor a e no menor i nvesti ment o e m mãode- obr a . va mos encont r ar t ambé m o i ncentivo à mi gr ação de t r abal hador es eur opeus par a as l avour as br asil ei r as. Tai s i mi gr ant es f or ma m u ma mão – de – obr a mai s pr oduti va e r ent ável Co m o au ment o da i mi gr ação, mui t as i déi as pol íti cas novas ent r ar ão na r eali dade do t r abal hador br asil eir o. Mai s consci ent e e de mel hor ní vel, o assal ari ado i mi gr ant e vai i nfl ui r e mui t o no cenári o soci al do nosso paí s. É nest e a mbi ent e de agi t ações i nter nas que encont r amos nossa pri mei r as pr oduções r eali st as. Os i nt el ect uai s pr ocurar ão r etr at ar e m suas pr oduções não mai s os l uxos da alt a soci edade ur bana. Nossas chagas ser ão agor a acusadas. As pri mei r as mani f est ações r eali st as ( 1968 ) se der a m nos doi s núcl eos i nt el ect uai s do Br asil: Reci f e ( Facul dade de Di r eit o ) e São Paul o ( Facul dade de Di r eit o ) Em Reci fe, t ai s mani f est ações ser ão li der adas por Tobi as Barr et o e e m São Paul o, por José Boni f áci o, ( O moço ). Consi der a- se por ém di dati ca ment e, o Reali s mo i ntr oduzi do e m 1881 co m as obr as: Me móri as Póst umas de Br ás Cubas, de Machado de Assi s e O Mul at o de Al uí si o de Azevedo. A vi da deve ser most r ada pel a lit er at ur a e pel a art e em ger al não c o mo gost arí amos que el a f osse, mas co mo r eal ment e el a é. O Reali smo pr opôs- se a most r á-l a co m t udo que nel a haj a de bo m ou de mau, f ei o ou bel o, mor al ou i mor al. Est e obj eti vo f oi mai s t eóri co do que pr áti co. Pode mos assi m di zer, pel o f at o que l evou mui t os dos nossos escrit or es t er em sua pr ópri a vi são da r eali dade e t a mbé mt er e mti do a cor age m de most r á-las i mpli cit as e m suas obr as. I mpl í cit as por que é a co mpr eensão do l eit or que vai f azer co m el e suponha a i nt ençÃo do escrit or at r avés do narr ador. Cont r ari ament e ao pri ncí pi o f unda ment al da escol a, os ho mens e os f at os er a m se mpr e encar ados co m pessi mis mo. Quase t odas as cri at ur as er a m más, i ntr essei r as, i nvej osas, a mbi ci osas. Est a atit ude est á e m contr adi ção co m a obj eti vi dade a que a escol a se pr opunha e só pode ser expli cada pel o desej o de oposi ção e m f ace da 13 14 escol a ant eri or. Co m ef eit o, par a os r o mânti cos, quase t odas as pessoas er a m bondosas, i deali st as despendi das. Assi m co mo a ali ment ação, o esporte, o t r abal ho, a vi da i nt el ect ual , o sexo t ambé m é u ma r eali dade, e conseqüent ement e deve t er seu l ugar na lit er at ur a. O que não pode ser j ustifi cado pel a obj eti vi dade é a exager ada const ânci a co m que são obor dados os t e mas sexuai s e, mai s grave ai nda, a manei ra sensaci onali st a e escandal osa co mo a mai ori a dos aut or es r eali st as tr at ava m os t emas r el aci onados co m sexo. Os t e mas sexuai s são utili zados abusi va ment e e de f or ma a chocar os padr ões mor ai s do l eit or. Al ém di sso, apar eci am const ant ement e os t emas e vocabul ári os de bai xo cal ão. Um exe mpl o est á no r o mance O Pri mo Basíli o de Eça de Quei r ós onde encont r amos val ori zados os arr ot os er óti cos da per sonage m D. Feli ci dade. Tudo que possa ser escr aboso é narr ado se m cont ar os sonhos er óti cos da per sonage m Luí za co m o pri mo Basíli o. Uma exceção dentr o desse pr ocedi ment o é Machado de Assi s que de acor do co m Couti nho ( 2001. pág 195 ) nunca se dei xou l evar par a os exager er ados t ons nat ur ali st as, e que r eagi u mes mo contr a a f ór mul a de Eça no est udo criti co que l he dedi cou. O mes mo se t r at ava a r espei t o de Al uí si o de Azevedo e m sua obr a O Corti ço , onde o narr ador expl or a a sexuali dade e sensuali dade da mul at a Ri t a evocando os desej os car nai s dos ho mens do corti ço. Ri t a er a u m sí mbol o, a mul at a f acei r a dos quadri z avant aj ados. Co mo t a mbé m no At eneu de Raul Po mpéi a, onde o pr ópri o col égi o moti va a ho mosexuali dade ent r e os j ovens. Jovens esses car ent es de af eti vi dade f a mili ar e f rat er na ao pont o de vi re m na úni ca per sonage mf e mí ni na a fi gur a mat er na a Senhor a Ema esposa do di r et or do At eneu. Os r eali st as procur a m se ocupar dos f at os mai s vul gar es e co muns da vi da hu mana, os r o mânti cos pr ocur ava m r etr at ar o extr aor di nári o, o i nvul gar. As mul her es er a m ver dadei r as deusas, pur as, i macul adas, br ancas co mo bi bel ôs. Os ho mens ver dadei r os her ói s. Os r eali st as, pel o cont rári o, pr ocur a m o anti - her ói. Na ver dade, anali sam o ser hu mano nor mal e co mu m e m sua vi da di ári a. As pr ópri as i déi as r eali st as j á se pr eocupa m e m denunci ar t odas as mazel as do anti - her oi s mo. No concei t o r eali st a as pessoas são vi st as e avali adas pel as atit udes e co mport a ment o e m soci edade, como agem no seu pr ópri o mei o. 14 15 1. Vi da e obr a J OAQUI M MARI A MACHADO DE ASSI S ( O pesqui sador da al ma hu mana ) DADOS CONTEXTUAI S 1839 DADOS BI OGRÁFI COS Nasci ment o de Machado Joaqui m de Assi s Janei r o, no Morr o do 1840 Mai ori dade de D. Pedr o II 1844 A Mor eni nha - Macedo 1850 Caf é do mi na a Mari a Ri o de Li vr ament o econo mi a br asil ei r a. 1855 Publi ca seu 1º poe ma El a – Jor nal A Mar mot a Fl umi nense 1856 Ent r a co mo apr endi z na Ti pogr afi a Naci onal ; conhece Manuel Ant ôni o de Al mei da seu 1º pr ot etor. 1858 1860 Dei xa a I mpr ensa Naci onal . I ngr essa na Redação do Di ári o do Ri o de Janei r o. 1861 Desencant os; mul her es t Queda que as Tê m pel os t ol os ( ( t eatr o ) 15 16 1863 O Ca mi nho da Porta ( t eatr o) 1864 Cri sáli das Mi ni str o 1865 ( poesi as), Quase e (t eatr o) Guerr a do Par aguai – Quest ão Coi mbr ã 1867 Retir ada da Lacuna 1869 T To mada de Assunção 1870 Conhece Car oli na Casa- se Fal enas ( poesi as) Cont os Fl umi nenses Uma ode de Anacr eont e 1871 Lei do Ventr e Li vr e 1872 Ressurr ei ção 1873 Hi st óri as da Mei a noi t e 1874 A Mão e a Luva 1875 Ameri canas 1876 Hel ena 1878 I ai á Gar ci a; O Bot e de Rapé ( t eatr o ); Ant es da Mi ssa 1880 1881 Tu, Só , Tu, Pur o Amor ( t eatr o) O Mul at o, Al uí si o Azevedo Reali s mo no Br asil 1882 Me móri as Póst umas de Br ás Cubas Papéi s Avul sos ( cont os) 16 17 1884 1885 1889 Hi st óri as se m dat a Lei dos Sexagenári os Repúbli ca 1891 1893 Qui ncas Bor ba Si mboli s mo no Br asil Pági nas Recol hi das 1900 Do m Cas murr o 1904 Esaú e Jacó 1906 Reli qui as da Casa Vel ha ( cont os) Li ção de Bot âni ca ( t eatr o) 1908 Me mori al de Ai res; morr e a 29 de set embr o Joaqui m Mari a Machado de Assi s nasceu e m 21 de j unho de 1839 no Morr o do Li vr ament o no Ri o de Janei r o. Seu pai er a br asil ei r o mul at o e pi ntor de par edes; sua mãe er a port uguesa da Il ha de Açor es e l avadei r a. Fr equent ou apenas a escol a pri mári a. aos dezessei s anos j á fr equent ava a ti pogr afi a de Paul o Brit o, onde er a publi cada a r evi st a “ Mar mot a Fl umi nense” , e m cuj o nú mer o de 21 de j anei r o de 1855 sai o poe ma “ El a “ ( sendo a estr éi a de Machado de Assi s nas l etras ). Casa- se e m 12 de nove mbr o de 1869 co m a port uguesa Car oli na Xavi er de Novai s, i r mã de seu a mi go, o poet a Faustino Xavi er de Novai s. Em 1873 é no meado pri mei r o ofi ci al da Secr et ari a de Est ado do Mi ni st éri o da Agri cul t ur a, Co mér ci o e Obr as Públi cas. Te m u ma carr ei r a met eóri ca co mo ser vi dor público, o que l he deu t r anqüili dade fi nancei r a. Em 1896 f unda a Acade mi a Br asil ei r a de Letras ( t ambé m cha mada casa de Machado de Assi s ), da qual se t or nari a pr esi dent e no ano segui nt e, e concreti za o vel ho sonho de r euni r a elit e dos escrit or es da época e m u m f echado cl ube lit er ári o. Após a mort e de sua esposa, t or na- se r ecl uso; sua saúde, mui t o abal ada pel a epil epsi a, por pr obl emas ner vosos e por u ma gaguez pr ogr essi va, t ambé m contri buí a par a seu i sol ament o. 17 18 Machado dei xou mui t as saudades e m que ml he conheceu no seu t e mpo bril hant e de escrit or. “ Est ás se mpr e ai , br uxo al usi vo e zo mbet ei r o, que r evol ves em mi mt ant os eni gmas. ” ( Carl os Dr u mmond de Andr ade, no poe ma “ A u m br uxo, co m a mor” , sobr e Machado de Assi s em sua obr a.) A obr a e m r o mances de Machado de Assi s f oi el abor ada ent r e os anos 1872 ( Ressurr ei ção ) e 1908 ( Me mori al de Ai r es). Par a ef eit os di dáti cos, est á di vi di da e m r omânti ca e r eali st a. Mas, t al di vi são não deve ser encar ada co m mui t o ri gor, poi s Machado pri ma por uma vi são de mundo t oda i ndi vi dual . Por est e moti vo, pode mos est abel ecer r el ações se mel hant es entr e as duas f ases. Obser var emos no r o mance Hel ena que est udar e mos no desenr ol ar dos co ment ári os segui nt es. O ano de 1880 f oi u m mar co de i mportanci a na obr a machadi ana. A partir dest e ano encontr amos suas obr as r eali st as. Sua i r oni a, pessi mi s mo, sua fil osofi a de vi da ser á agor a expr essa de f or ma mai s cl ar a e acent uada. Os r o mances r o mânti cos, e mbor a apr esent e m t r aços ori gi nai s que nos anunci am o f ut ur o Machado de Assi s, ai nda possue mt r aços r o mânti cos vi sí vei s, co mo a mor contr ari ado, f abul ações r o manescas, el e ment os senti ment ai s; i st o ali ado ao t o m l eve ment e ir ôni co, à li nguage m pur a, sóbri a, ao equilí bri o e gr ande perf ei ção f or mal . 1. 1 Aspect os gerai s da obr a machadi ana Pr of unda i r ôni a e penet r ação psi col ógi ca, o que o t or na exceção ent r e os r eali st as. Encar a a nat ur eza hu mana e a soci eade co m sar cas mo, cepti s mo, i r ôni a e pessi mi s mo. Seus r omances são ver dadei r os cont os a mpli ados. Os capít ul os são conci sos. Co mpr eende m hi st óri as sol t as dentr o de u m cont ext o mai or que é o r omance. 18 19 Ja mai s descr eve fi si cament e a mbi ent es ou per sonagens. As descri ções pr ende m- se aos aspect os hi st óri cos mai s mar cant es das per sonagens. Vej a mos o que afi r ma Moi sés ( 1967. pág 205 ) Machado de Assi s ocupa l ugar à part e na evol ução na nossa l it er at ur a por u m a séri e de r azões, dent r e as quai s a at enção conf eri da ao t e mpo co mo di mensão r omanesca. Nas obr as da f ase r o mânti ca, o t e mpo da narr ati va e das per sonagens é ai nda o hi st óri co, mas j á se vi sl umbr a m obser vações que dei xa m ent r ever u m fi cci oni st a i nt er essado no t e mpo e m si , e, depoi s, no t empo co mo i ngr edi ent e dos r o mances: nu m caso e noutr o, per cebe- se a i ntr omi ssão do t e mpo psi col ógi co, ao menos e m seus aspect os superfi ci ai s. “ O t empo andava co m o passo do cost u me, mas à ansi edade no mancebo afi gur ava- se mai s l onga...” , l e mbr a Machado nu m tr echo de Hel ena. Vej amos u mtr echo da obr a onde o narrador f az menção ao t empo Ex. “ As pri mei ras se manas corr er a m sem nenhu m sucesso not ável, mas assi m i nt er essant es. Er a por assi m di zer, um t e mpo de espera, hesi t ação, de obser vação recí pr oca” . Er a u m mo ment o de espect ati vas com r el ação ao co mpor t ament o de Hel ena. Que m er a essa moça co mo agi ri a di ant e de u ma soci edade exi gent e e bur guesa. Segundo o narr ador er a a perf ei ção e m pessoa, mas havi a sob essa apar ênci a u m gr ande segr edo. Car act erí sti cas tí pi cas das per sonagens f e mi ni nas das obr as de Machado de Assi s, chei as de mi st éri os e segr edos. Toda per songe m f e mi ni na das obr as de Machado são mul her es de per sonalidade f ort e. 19 20 2 - Análi se lit erári a da obr a Hel ena de Machado de Assi s f oi pr oduzi da no ano de 1876. É u mr o mance que possui al gu mas car act eri sti cas r o mânti cas, mas não é u ma obr a r o mântica. Tendo e m vi st a, que Machado é um escrit or fi el a seu t empo e suas obr as são pur ament e r eali st as. O r o mance Hel ena al ém de apr esent ar tr aços mar cant es da soci edade bur guesa co mo o pat ri ar cali smo, a mor aos bens mat eri ai s most r a t a mbé m f at or es que enfl uenci ar am o co mport ament o das per sonagens, ou sej a, o narrador at ent a o l eit or par a as car act eri sti cas supr a ci t adas. E que ao obser var mos as atit udes das per songens e l ogo pode mos i dentifi cá -l as mai s cl ar ament e. Pode mos abser var a ver ossi mil hança dos f at os mes mo se t rat ando de u ma obr a de fi cção, cuj o obj eti vo é r el aci onar o fi ctí ci o ao r eal sob uma vi são anal íti ca. 2. 1 Foco narrativo e narrador omni sci ent e i ntr uso De acor do co m Lei t e ( 1987. pág, 26 ) é esse o ti po de narr ador que t e m a li ber dade de narr ar à vont ade, de col ocar- se aci ma, ou, co mo quer J. Pouill on, por trás, adont ando u m PONT O DE VI STA di vi no, co mo di ri a Sartr e, par a al é m do t e mpo e do espaço. É est e o narr ador da obr a que i re mos anali sar. El e vai narr ar o enr edo de f or ma que o l eit or possa at é senti r-se co mo se esti vesse dentr o da hi st óri a. O Consel hei r o Val e er a u m ho me m mui t o ri co. Segundo o narr ador dado às avent ur as a mor osas. Nu ma dessas avent uras conheceu D. Angel a da Sol edade. El a ti nha u ma fil ha que passou a ser tr at ada co mo fil ha pel o Consel hei r o, que por si nal ti nha mui t o cari nho pel a meni na que se chamava Hel ena. El e mor ava co m sua f a míli a, D. Úr sul a e Est áci o seu fil ho e m Andar aí, pequena ci dade no Est ado do Ri o de Janei r o. Os mes mos não ti nham conheci ment o dessa out r a f amíli a do consel hei r o que só vei o à t ona após sua mort e. Est e é u mf at o ver ossí mi l . Vej amos o que nos afi r ma Gancho ( 2001, pág 10 ) Os f at os de u ma hi st óri a não pr eci sa m ser ver dadei r os, no senti do de corr esponder e m exat a ment e a f at os ocorri dos no uni ver so ext eri or do t ext o, mas deve m ser ver ossí mei s i st o quer di zer que, mes mo sendo i nvent ados, o l eit or deve acr edi t ar no que l ê. Pel a oni sci ênci a do narr ador pode mos compr eender t odos os 20 21 aspect os psi col ógi cos das per songens. Suas ações f ut ur as e at é mes mo seus mai s í nti mos pensa ment os. No di a 25 de Abril de 1850 às 7 hor as da noi t e morreu de apopl exi a o Consel hei r o. Apopl exi a é o que conhece mos por mort e súbi t a. A passage m r ápi da do Consel hei r o pel o r o mance f oi o bast ant e par a que o narr ador desse i ní ci o ao t r ama. Vej amos que as dat as dos acont eci ment os, nos f az medi t ar na quest ão de que m er a esse Consel hei r o 2. 2 Enr edo A Pode mos pri ncí pi o a per gunt a er a, exi sti a u m t est ament o? O que conti nha nel e ? obser vr ar que o t est ament o do Consel hei r o passou a ser o f oco das at enções. Poi s at é ent ão o narr ador at ent ou par a a sur pr esa que est ava por vi r. Na ver dade f oi a partir desse el ement o que o narr ador cri ou u m cli ma de per specti va ent r e os t r ês per sonagens; Est áci o, D. Úr sul a e o Dr. Ca mar go, que pensati vo, per ece não estr anhar a atit ude do a mi go. É o pont o cr uci al par a o desencadea ment o de t odos os conflit os i nt er nos e ext er nos das per sonagens. Um docu ment o i nesper ado que ao mes mo t e mpo ger ou t oda u ma espect ati va de desconf ort o e moci onal nas per sonagens. De u ml ado par a outr o Dr. Ca mar go par eci a saber que o Consel hei r o havi a pr epar ado al gu ma sur pr esa. 2. 3 Das per songens Consel hei r o Val e - per sonage m secundári a , parti ci pa do enr edo, mas de f or ma i ndi r et a. O narr ador mui t as vezes f az u ma r etrospecti va das ações do Consel hei r o par a que o l eit or associ e os novos f at os às causas e conseqúênci as de al gu ms co mport ament os dos de mai s per sonagens. Ex :. “ D. Úr sul a er a e mi nent ement e sever a a r espei t o de cost umes. A vi da do Consel hei r o, mar chet eada de avent ur as gal ant es, est ava l onge de ser uma pági na de cat eci smo; mas o at o fi nal podi a ser a r epar ação de l evi andades a mar gas. Er a co mo se soubesse que est ava pr est es a morr er, vi st o que a i ncl usão do no me de Hel ena j á conti nha do t est ament o. 21 22 O Dr. Ca mar go - per sonage m r edonda ; é di nâ mi ca, possui densi dade psi col ógi ca, vi da i nt erior, e por i sso sur pr eende o l eit or pel o seu comport ament o. O Dr. Ca mar go er a pouco si mpáti co à pri mei r a vi sta. Ti nha as f ei ções dur as e f ri as, os ol hos per scr ut or es e sagazes, de u ma sagaci dade i ncô moda par a que m encar ava co m el es, o que o não f azi a atr aent e. Fal ava pouco e seco. Seus senti ment os não vi nha m a fl or do r ost o. Na noi t e do t est ament o Dr. Camar go de monstr ou um gest o no ent ant o suspei t o par a sua esposa e fil ha. O narr ador conhece be m a per sonage m ao pont o de saber o seu l ado mai s í nti mo. Ex. Quando Ca mar go chegou à casa, no Ri o Co mpri do, achou sua mul her, D. To mási a mei o adormeci da nu ma cadei ra de bal anço e Eugêni a ao pi ano, execut ando u m t r echo de Belli ni. Eugêni at ocaca co m habili dade; e Ca mar go gost ava de a ouvi r. Naquel a ocasi ão, por é m, di sse el e, par eci a pouco conveni ent e que a moça se entregasse a u m gêner o de r ecr ei o qual que. Eugêni a obedeceu, al gu m t ant o de má vont ade. O pai que se achava ao pé do pi ano, pegou-l he nas mãos, l ogo que el e se l evant ou, e fit ou-l he uns ol hos a mor osos e pr of undos, como el a nunca l he vi ra. - Não fi quei trist e pel oque me di sse, papai, obser vou a moça. Tocava por destrai rme. D. Úr sul a co mo est á? Fi cou t ão afrit a! Ma mãe queri a de mor ar- me mai s t e mpo; mas conf esso que não podi a ver a tri st eza daquel a casa. - Mas a tri st eza é necessári a à vi da acudi u D. To mási a, que abri ra os ol hos l ogo à entrada do mari do. As dor es al hei as f aze ml e mbr ar as pr ópri as, e são u m corr eti vo da al egri a, cuj o excesso pode engendr ar o orgul ho. Eugêni anao co mpr eendeu o que os doi s havi a m dit o. - Acont eceu l á al guma coi sa? - Absol ut a ment e nada, respondeu Ca mar go, dando- l he um beij o na t est a. Er a o pri mei r o beij o, ao menos o pri mei r o que a moça ti nha me móri a. A cari ci a enencheu – de or gul ho fili al: mas a pr ópri a novi dade del a i mpr essi onou- a mai s. Eugêni a não creu no que di sser a o pai. 22 23 Foi u m gest o i nesper ado por Eugêni a. Mas j á er a de se i magi nar que aquel e beij o traduzi a u m pensa ment o de Ca mar go co mr el ação a f urt una do Consel hei r o. Er a co mo se seu cor ação esti vesse cont ent e co m a mor t e do a mi go, e t a mbém por que Est áci o se t or nar a her dei r o. Pode mos ent ão di zer que o Dr. Ca mar go ti nha r eal ment e out r os i nt er esses. A per sonage m do Dr. Ca mar go er a o si nôni mo de a mbi ção e i nt er esse mat eri al. Tant o que na obr a os úni cos gest os de cari nho “ pat er no” que t eve par a co m sua fil ha Eugêni a f or am: a espect ati va do cont eúdo do t est ament o, do noi vado da moça co m Est áci o e da mort e de Hel ena. D. Úr sul a – per sonage m- r edonda D. Úr sul a cont ava co m ci nqüênt a e poucos anos. Er a sol t ei r a e t o mava cont a da casa do i r mão desde a mort e da mãe de Est áci o. Gost ava de ol har o padr e pel a j anel a, se car act eri zar mos D. Úr sul a er a u ma ver dadei r a “ ur sa” D. Úr sul a nunca acr edi t ou na enocênci a de Hel ena, apesar del a t er de monst r ado ser uma moça de boa índol e. Padr e – mestre Mel chi or – per sonage m r edonda. Mel chi or er a capel ão e m casa do Consel hei r o. Ti nha 60 anos. Er a home m de est at ur a medi ana, magr o, cal vo, br ancos e poucos cabel os, e uns ol hos não menos sagazesque mansos. De co mpost ur a qui et a e gr ave, aust er o se m f or mali s mo, soci ável se m mundani dade, t ol er ant e se mfr aqueza, er a o ver dadei r o var ão apost al ógi co. Dr. Mat os – personage m pl ana - Dr. Mat os er a u m vel ho advogado, que e m co mpensação da ci ênci a do di r eit o, que não sabi a, possui a noções mui t o apr ovei t ávei s de met eor ol ogi a e bot âni ca, da art e de co mer, volt er et e, do ga mão e da políti ca. Eugêni a - per sonage m - r edonda. Er a a fil ha do Dr. Car mago cuj a o mes mo desej ava casá-l a co m Est áci o. Te m parti ci pação expr essi va na obr a. A cari cat ur a do no me não tr aduz i ngenui dade da per sonage m, mui t o pel o contr ári o é uma gêni a. 23 24 Est áci o - per sonage m- pri nci pal. Assu me u m papel central no desenr ol ar da ação e por i sso ocupa mai or espaço t ext ual . Est áci o ti nha vi nt e e set e anos, f or mado e m Mat e máti cas. É o ti po de per sonage m criado par a agr ado do públi co f emi ni no. D. Angel a da Sol edade - per sonagem - secundári a. Er a a mãe de Hel ena. “ Ângel a er a um co mpl exo de qualidades si ngul ar es. Capaz de suport ar as mai or es angústi as, fort e e ri sonha no mei o das máxi mas pri vações, esqueceu nu m i nst ant e as vi rtudes que ti nha par a corr er atraz de u ma f ant asi a de a mor. Não f oi a ri queza que a seduzi u; el a i ri a, ai nda que ti vesse de tr ocar a ri queza pel a mi séri a” . Que m f ez t al afirmação f oi a per sonage m “ Sal vador “ qui s di zer que D. Angel a não er a i nt er essei r a e o a mor par a el a er a mai s i mport ant e que a ri queza, i sso segundo o narr ador. D. Leonor- per sonage m- pl ana. Er a esposa do Dr. Mat os. Na obr a poucas são f al as dessa per songem. Cor onel Macedo - per sonage m - pl ana. O cor onel que não er a cor onel e si m maj or. Er a bo m co mpanhei r o, f ol gazão e comuni cati vo. Sal vador- personage m - secundári o. Er a o ver dadei r o pai de Hel ena, bast ant e pobr e . El e passou mui t o t empo t ent ando se apr oxi mar da fil ha, mas a mãe da meni na di zi a se mpr e que el e havi a morri do. D. To mási a - per sonage m - pl ana. Er a a esposa do Dr. Ca mar go e mãe de Eugêni a. Não er a mui to de conver sa, por ém boa obser vador a. Mendonça - personage m - pl ana. Er a a mi go de Est áci o desde a f acul dade. Logo que vol t ou da Eur opa ao se depar ar co m Hel ena l ogo se apai xonou pel a moça. Mas Est áci o per cebendo que Hel ena não o amava deu u mj eit o de acabar o casa ment o da i r mã. Na ver dada pel o que o narr ador conhece da per sonage m, o l eit or ent ende que o moço est ava mes mo er a co m ci úmes do ami go. 24 25 Vi cent e - per sonage m - pl ana. Er a o e mpr egado que auxili ava Hel ena nas caval gadas mati nai s. Foi o r esponsável pel o desvendar do segr edo de Hel ena. Tal vez não ti ver a si do por mal dade, mas por se pr eocupar co m sua si nhá. Todo desf echo se deu por cont a da r evel ação de Vi cent e ao padr e Mel chi or que l ogo pr ocur ou Hel ena a fi m saber a ver dade. Hel ena - per sonage m pri nci pal. Er a dócil, af ável , i nt eli gent e, pi ani st a di sti nt a, sabi a desenho, f al ava vári as l í nguas, e pr endada e m dot es do mésti cos, se m cont ar co m a bel eza ext eri or e i nt eri or. Mist eri osa e guar dava um gr ande segr edo. 2. 4 Espaço geográfi co Andar aí l ugar onde se desenvol ve o enr edo. Embor a o narr ador t enha f ei t o suas obser vações quant o ao l ocal onde ocorr em os f at os, Andar aí é ver ossí mil. No s écul o XI X ai nda pequena a ci dade t r aduzi a uma soci edade bur guesa. Seus casar ões, chácar as, co mér ci o, i gr ej as er a m tí pi cos, o cenári o perf eit o par a que o narr ador desenvol ve- se o enr edo. Suas serr as e mont es, o ar fr esco, a veget ação er a m car act eri sti cas peculi ares de Andar aí. Er a u ma ci dade serr ana, hoj e seu no me é tij uca. ( Ver f ot os nos anexos). A pri mei r a gr avura most r a a anti ga Andar aí no sécul o XI X. Co m a evol ução i ndústri al not a- se que, a veget ação vai per dendo espaço e co meça a desapar ecer. 2. 5 Ambi ent e O a mbi ent e na obr a é apr esent ado de duas f or mas: o aberto e o f echado. No f echado ocorr em f at os dentr o da casa da f amí li a do Consel hei r o. Ex:. Entrar a m os doi s. Tudo est ava do mes mo modo que no di a que o consel ei r o f al ecer a. Est áci o deu al gu mas i ndi cações r el ati vas ao t eor da vi da do mésti ca de seu pai; mostr o- l he a cadei ra e m que cost umava l er, de t ar de e de ma nhã; os r etrat os da f a míli a, a secr et ári a, as est ant es; f al ou de quant o podi a i nt er essá -l a. Sobr e à mesa, pert o da j anel a, est ava ai nda o úl ti mo li vr o que o 25 26 consel hei r o l er a: era m as Máxi mas do Mar quês de Mari cá. Hel ena pegou nel e e beij ou a pági na aberta. Uma l ágri ma br ot ou – l he dos ol hos, quent e de t odo cal or de uma al ma apai xonada e sensí vel; br ot ou, desli zou- se e f oi cai r no papel. - Coit ado! mur mur ou el a. Hel ena er gueu- se. - Gost ava del e? Per gunt ou el a. - Que m não gost ari a del e? - Te mr azão. Er a u ma al ma gr ande e nobr e; eu ador ava-o. Reconheceu- me; deu- me f a míli a e f utur o; l evant ou- me aos ol hos de t odos e aos meus pr ópri os. O rest o depende de mi m, do j ui zo que eu t i ver, ou t al vez da f ort una. Est a úl ti ma pal avr a sai u- l he do cor ação co m u m suspiro. A cena que acont ecer a no gabi net e do consel hei r o, as pal avr as de Hel ena, t al vez at é t enha m convenci do o supost o i r mão. Mas o narr ador escl ar ece ao l eit or “ a úl ti ma pal avr a sai u - l he do cor ação co m um suspi r o. A f ort una f oi essa pal avr a a r esponsável pel o suspi r o mai s pr of undo de Hel ena. No a mbi ent e abert o, ou sej a, na chácar a, nos passei os a caval o, f at os i ncrí vei s acont eci am. Os i r mãos caval gava m pel as ver edas da chácar a, o char me, a bel eza de Hel ena er a m moti vos par a i mpr essi onar t ant o o supost o i r mão quant o as de mai s pessoas que vi am - na. Segundo o narr ador Hel ena ti nha a bel eza de uma pri nci cesa. 2. 6 Clí max O Padr e – Mest r e Mel chi or questi ona Est áci o a r espei t o do que el e r eal ment e est á senti ndo por Hel ena. Seri a u m i ncest o u m i r mão ali ment ar pel a i r mã u m senti ment o que não f osse f r at er nal. Mas o cor ação de Est áci o est ava r eal ment e nutri ndo u m a mor que l he er a i mpossí vel aos ol hos do mundo e pri nci pal ment e ao ol hos de Deus. - És f ort e? Per gunt ou o padr e. 26 27 - Sou. - Cr ês e m Deus? Est áci o estre meceu e ol hou par a o anci ão, se m responder. Mel chi or i nsi sti u. - Cr ês? - Essa per gunt a... - Cr ei o. - Poi s be m, t u transgr edi sse a l ei di vi na co mo t a mbé m a l ei hu mana, se m o saber. Teu cor açao é u m gr ande i nconsci ent e. - Mas o que é, padr e – mestre? Mel chi or i ncli nou- se e encar ou o moço. Os ol hos fit os nel e, er a m co mo u m espel ho poli do e fri o, desti nado a repr oduzi r a i mpr essão do que l he i a di zer. - Est áci o, di sse Mel chi or pausada ment e, t u a mas t ua ir mã. Est áci o não respondeu nada; não podi a responder nada. A mudez de Est áci o cessou e mfi m; o corpo agi t ou- se; o l ábi o arti cul ou al gu mas frases desconsert adas. - Padr e- mestre! Mur mur ou Est áci o, cuj o o cor ação recebi a a i nfl uênci a da pal avr a de Mel chi or, a umt e mpo sever a e mei ga. - Não f al es, continuou o padr e; negá-lo é menti r; conf essá- l o é oci oso. Co mo nasceu e m t eu cor ação se mel hant e sentime nt o? Qui s a f ort una que ent r e vocês doi s não houvesse a i mage m da i nf ânci a e a cu munhão dos pri mei r os anos; que, e m pl ena moci dade, passase m do t ot al desconheci e ment o. Hel ena apar eceu- t e mul her comt odas as seduções pr ópri as da mul her. - Não padr e- mestre! excl a mou el e dei xando- se cai r na cadei ra. É i mpossí vel e i st o que me est á di zendo é um sonho mau. Hel ena não se dava cont a de que sua f ar sa poderi a ser desvendada de u m mo ment o par a out r o. El a j á pr evi a que sua menti r a est ava pr est es a vi r à t ona. E agor a? Qual seri a o desti no da moça que t ant o encant ou a t odos. Seri a el a capaz de r enunci ar a ri queza e assu mir seu a mor ? Mes mo senti ndo que est ava apai xonada por Est áci o as atit udes de Hel ena são bast ant es suspei t as. As saí das secr et as os segr edos dos bil het es envi ados por el a atr avés do escr avo e a desconfi ança do padr e abr e m mar ge m às gr andes descobert as. 27 28 2. 7 Desf echo Após t er ti do uma conver sa co m Est áci o o padr e f oi embor a. A noit e er a escur a co m u m senti ment o de pena questi onava- se se poderi a haver ali naquel a casa al go t ão asso mbr oso capaz de desf azer t odo or gul ho e ri queza co m o i rr emedi ável espet ácul o da f r agili dade hu mana? Tal vez por ser o r eli gi oso u m ser hu mano mui t o sensat o e dado a r efl exão per cebi a que al go mui t o escr aboso est ava par a acont ecer. - Não, di zi a el e consi go mes mo. A ver dade é que t udo se encadei a e desenvol ve l ogi ca ment e. Nest e pont o chegava ao port ão. Aí det eve- se u m i nst ant e. O passo caut el oso e tí mi do de al gué m f ê-l o vol t ar a cabeça. Um vul t o, cuj o r ost o não vi a, t ão escur o co mo a noi t e, ali estava e l he t ocava r espei t osa ment e as abas da sobr ecasaca. Er a o paj e m de Hel ena. - Seu padr e, di sse est e, di ga- me por f avor o que acont eceu e m casa. Vej o t odos tri st es; nhanhã Hel ena não apar ece; f echou- se no quart o... Me per doe a confi ança. O que f oi que acont eceu? - Nada, respondeu Mel chi or. - Hu m! ge meu i ncr edul a ment e o paj e m. Há al gu ma coi sa que o escr avo não pode sabe; mas t a mbé m o escr avo pode saber al gu ma coi sa que os br ancos t enha m vont ade de ouvi r... Mel chi or r epri mi u u ma excl a mação. A noi t e não l he per miti a exa mi nar o r ost o do escr avo, mas a voz era dol ent e e si ncer a (...) - Nhanhã Hel ena é u ma sant a. Se al gué m a acusa, acusa o bo m pr ocedi ment o del a. Eu l he di rei t udo. Naquel e mo ment o o padr e não est ava di spost o a escut ar o escr avo, mas al go f ez co m que el e par asse, er a um outr o escr avo que vi nha f echar o portão. - Ve m gent e, disse Vi cent e; a manhã. .. O escr avo não t eve o menor r ecei o e m conf essar o segr edo de Hel ena, mes mo por que pensava el e que o padr e j á sabi a de al go. Ent ão l he cont ou dos bil het es que 28 29 Hel ena mandava par a Sal vador. Mas na ver dade el e não sabi a se er a o pai de Hel ena. El a menti u par a o escravo t ambé m. Pel a vol t a do mei o- di a segundo o narrador, o padr e chegou na casa de Hel ena. Na sal a de vi sit as est ava D. Úr sul a que o espr eit ava de uma das j anel as. D. Úr sul a par eci a na ver dade u ma ur sa, ti nha u mf ar o que a f azi a senti r o chei r o de conf usão de l onge. Naquel a ocasi ão o Vi cent e j á t eri a cont ado al go ao padr e. - Não hesi t o, repli cou Hel ena; e m t ai s sit uações, u ma cri at ur a, co mo eu, ca mi nha di reit o a um r ochedo ou a u m abi s mo; despedaça - se ou so me- se não há escol ha. Est e é o papel, conti nuou ti rando da al gi bei ra u ma cart a, -- est e papel l he di rá t udo; l ei a e r efira t udo a Est áci o e D. Úr sul a. Não t enho âni mode os encar ar nest a ocasi ão. Co m a cart a nas mãos, se m ousar abri -l a, receoso dos mal es que i a m dali sai r, se m cert eza ao menos de que fi cari a no f undo a esperança. I a abri -l a, e hesi t ou se o devi a f azer na ausênci a, de Est áci o e D. Úr sul a; venceu o escr úpul o e l eu. Logo após l er a cart a o padr e a deu par a os de mai s l er em. O mo ment o f oi de gr ande sur pr esa. Ni ngué m poderi a acr edi t ar no que est ava escrit o. Revol t ado Est áci o qui s tir ar sati sf ações co m o ho me m a que m Hel ena di sser a ser seu ver dadei r o pai . A pri ncí pi o pensou ser um i mpost or que qui sesse ti r ar al gu ma vant age m de Hel ena, ao chegar e m na hu mil de casa, escut ar amt oda hi st óri a do ho me m. A pati r daí const at ouse t oda ver dade sobr e o passado de Hel ena. Est áci o por um mo ment o não sabi a o que f azer di ant e da r evel ação. - Mas, posso eu, à vi st a do que acaba mos de ouvi r conser var a Hel ena u m tít ul o que ri gor osame nt e não l he pert ence? Hel ena não é mi nha i r mã, é absol ut a ment e estranha à nossa f a míli a; o tít ul o que nos li gava, desapar ece. Por que moti vo conti nuarí amos nós uma f al sificação. Cha mada a ouví -l os, Hel ena desceu daí a al guns mi nut os. A cor da ver gonha ti ngi u-l he a f ace, l ogo que el a deu co m Est áci o que a esper ava, ao l ado de Mel chi or, a mbos cal ados, mas se m nenhu m vi sl umbr e de i rrit ação. Após um sil ênci o l ongo e abaf ado, Est áci o co muni cou a Hel ena a r esol ução da f a míli a e seus senti ment os de 29 30 gener osi dade e confi ança; concl ui u di zendo que, sobr e t odas as coi sas, pr eval eceri a a vont ade de seu pai. Co m voz tr êmul a Hel ena di sse: - Meu cor ação fi car á et er na ment e grat o ao r est o de estima que não per di ; a si t uação mudou, e f or ça é mudar co m el a. Não quer o a pr ot eção da l ei, ne m poderi a r eceber compl acênci a de cor ações a mi gos. Co me ti um err o, e devo expi á-l o. Enquant o a ver gonha vi vi a só comi go, er a possi vel vi ver nest a casa; eu at or doava- me par a esquecê-l a; mas agora que é pat ent e, vê-la - ei nos ol hos de t odos e no sorri so de cada um. Hel ena j á não vi a moti vo par a conti nuar na casa. Constr angi da co m a si t uação dos mo ment os de ansi edade que havi a passado, el a se debilit ou na saúde. A manhã não tr ouxe a Hel ena o esqueci ment o e a paz. A noi t e não l he ser vi u de r e médi o, ant es l egou à aur or a t oda a sua mort al angústi a. Debilit ada, ner vosa, i mpaci ent e, não podi a a moça vencer- se ne m suporta- se. Hel ena f ugi a a t odos, a vi gili a e a dor a ti nha mi mpali deci do mui t o. Er a chegada a hor a. O padr e r eco medar a mui t o à f amíli a que vi gi asse a moça. Poi s t emi a que el a f ugi sse de casa ou r ecorr esse a al gu m at o de desesper o. Hel ena mal podi a t ol er ar a sit uação. Uma vez, que descesse à chácar a, sai u Est áci o a pr ocur á-l a, não a encont r ando se não ao cabo de al guns mi nut os. Achou- a ao pé do t angue, no l ugar e m que l he f al ar a poucos di as ant es, sent ada no mes mo banco de pau. Vendo- o estr emeceu; el e apr oxi mou- se, cont ent e de a haver encont r ado. O di a est ava f ei o; gr ossas nuvens negr as t úmi das de t e mpor al br eve. Est áci o f oi a el a, pegou-l he nas mãos a aconvi dou- a a sai r dali. - Entr e mos, di sse el e pel a t er cei ra vez, ol he que vai chover. Hel ena dei xouse l evant ar; u m cal afri o per correu-l he o cor po t odo, e as mãos que o moço ai nda ti nha entre as suas, est ava m mui t o mai s quent es que o nat ur al. Hel ena caí r a of egant e no banco. Est áci o f al ou-l he com abundânci a e t er nur a. Gr ossos pi ngos de chuva co meçavam a r uf ar nas ár vor es. Est áci o pegou na mã o de Hel ena par a conduzi -l a à casa. A moça f ugi u-l he, i ndo col ocar- se al guns passos adi ant e, onde a chuva l he caí a mi as e m chei o na cabeça nua eno cor po l eve ment e cobert o. Quando Est áci o, desvai rado de t err or, correu par a el a, Hel ena 30 31 af ast ou- se del e, mas ne m seus pés o poderi a m vencer nunca, ne ml ho per miti a m agor a as f or ças quebradas por t ant as e t ão pr of undas comoções. - Dei xe- me morrer! mur mur ou el a. Dur ant e set e di as est eve Hel ena acamada e quase se m de monst r ar nenhu m i nt er esse pel a vi da. Não havi a mai s a que m apel ar a não ser encontr ar Sal vador seu pai , mas f oi i nútil. Hel ena morr eu . Morr eu e l evou consi go t odo or gul ho ou que m sabe f oi a ver gonha de t er que encar ar t odas as pessoas do seu conví vi o. 31 32 3. Fort una críti ca O l eit or pr ovavel ment e per ceber á que o r o mance Hel ena t e m car act erí sti cas r omânti cas, co mo t oda hi st óri a de a mor. Mas o que quer e mos enf atizar na obr a Hel ena não é o senti ment ali smo a mor oso, mas seus aspect os r eali st as mostr ados at r avés do ol har do narr ador. Os f at os conti dos na obr a de monstr ar am o por quê de não t er havi do u mfi nal f eli z. É j ust ament e por ser u ma obr a de car át er r eali st a, j á co m denúnci as anti – r o manti cas. Pode mos t a mbé m ci t ar co mo exe mpl o u ma das obr as r eali st as mai s co ment adas do r eali smo Port uguês que é O Pri mo Basíli o de Eça de Quei r ós. Onde Luí za pr ot agoni st a da tr ama morr e no fi nal. E co mo di z o pr ópri o escrit or de Hel ena “ Est a nova edi ção de Hel ena sai co m vári as e mendas de li nguage m e outr as, que não al t era m a f ei ção do li vr o. El e é o mes mo da dat a e m que co mpus e i mpri mi, di ver so do que o t e mpo me f ez depoi s, corr espondendo assi m ao capí t ul o da hi st óri a do meu espí rit o, naquel e ano de 1876. Não me cul pei spel o que l he achardes r omanesco. Dos que ent ão fi z, est e me er a parti cul ar ment e pr ezado. Agor a mes mo, que há t ant o me f ui a out r as e di f er ent es pági nas, ouço u m eco r e mot o ao r el er est as, eco de moci dade e f é i ngênua. É cl ar o que, e m nenhu m caso, l he tirari a a f ei ção passada; cada obr a pert ence ao seu t e mpo. “ ( Machado de Assi s ) O l i vr o apr esent a t odas as per sonagens de f or ma cl ar a e de acor do co m a i nser ção desses na hi st óri a. Ali nguage m obedece a nor ma cul t a da l í ngua Port uguesa. O li vr o é de l eit ur a envol vent e e de f ácil compr eensão. Uma das peculiari dades da obr a é o f at o do narr ador vez por outr a di ri gi r-se di r et ament e ao l eit or, co mo se t ent asse escl ar ecer as mai s r omot as dúvi das e as i ncert ezas do mes mo.. No desenr ol ar da narr ati va acr edi t amos nu m fi nal f eli z par a as per sonagens pri nci pai s, no caso Est áci o e Hel ena. Exi st e u m t r echo na obr a onde o narr ador t ent a cri ar u ma expect ati va no l eit or. É a cena em que os doi s j ovens se encont r a m e os ol har es f al amt udo do que a mbos est ão sentindo u m pel o outr o. 32 33 Ex. : A pri nci pi o f oi esse ol har u m si mpl es encontr o; mas dent r o de al guns i nst ant es, er a al guma cousa mai s. Era a pri mei ra r evel ação, t áci t a mas consci ent e, do sentime nt o que os li gava. Nenhu m del es pr ocur ava esse cont at o de suas al mas, mas nenhu m f ugi u. O que el es di sser a m um ao out r o, co m os si mpl es ol hos, não se escr eve no papel, não se pode r epeti r ao ouvi do; confi ssão mi st eri osa e secr et a, f eit a de u m a outro cor ação, que só ao céu cabi a ouvi r, por que não er a m vozes da Terr a, ne m par a a t erra as di zi a m el es. As mãos, de i mpul so pr ópri o, uni ra m- se co mo os ol hares; nenhu ma ver gonha, nenhu mr ecei o, nenhu ma consi der ação det eve essa f usão de duas cri at uras nasci das par a f or mar uma exi st ênci a úni ca. É esse ti po de questi ona ment o que mexe co m o espí rit o do l eitor. Por que Hel ena não f ugi u co m Est áci o? O pr ópri o narr ador enf ati za o a mor exi st ent e. Após t oda r evel ação r est ava u ma sol ução a f uga par a vi ver em u m a mor i nt enso. Mas nada di sso seri a possi vel nu m r omance r eali st a onde o f oco é o mat eri al e não o i mat eri al. Al guns at é di ze m que Hel ena não ti nha nenhu mi nt er esse mat eri al, mas cabe ao l eit or avali ar, anali sar e tirar suas concl usões. 33 34 Consi der ações fi nai s Concl ui mos o est udo da obr a co m o ent endi ment o da segui nt e mensage m: Não val e a pena menti r par a obt er vant agens fi nancei r as, pri nci pal ment e quando est a mos li dando co m os sentiment os das pessoas. Bri ncar co m coi sas séri as às vezes pode nos cust ar mui t o car o. Hel ena não f oi coer ent e, enganou a t odos par a ser her dei r a da f ort una do Consel hei r o. Quant o t udo vei o à t ona pr ef eri u morr er par a f ugi r da ver gonha de t er menti do. O mundo se mpr e f oi mat eri ali st a. Um exe mpl o be m cl ar o é o caso de Judas Escari ot es, que movi do pel a ganânci a tr ai u Jesus o ent r egando aos r o manos por t ri nt a moedas de pr at a. E o f i nal do mes mo f oi tr ági co, poi s quando se ar r ependeu f oi t ar de. Essa hi st óri a de não se val ori zar os sent i ment os nobr es co mo: a mor, hu mil dade, sabedori a é mui t o ant i ga. E hoj e est á pi or por que as pessoas passa m t oods os di as corr endo at r ás de bens mat eri ai s, mas quando são col ocadas e m cert as si t uações r ar a de si nceri dade di ze m que pr eci sa m de col o, de a mor , de cari nho. Te me m a f or ma absol ut a do abandono, da agr essi vi dade, do egoi s mo. Nos mo ment os de mai or franqueza t odos f al am de bens i mat eri ai s. Co mo so mos l evados di ari ament e a buscar mat eri ali dade e o que r eal ment e desej amos é i mat eri al, est a doença cont agi osa t e m nos manti dos mui t os di st ant es de nossa paz. As al mas est ão apodr ecendo, os cor ações enf r aquecendo pel a f alt a de a mor. Fal ar de Amor hoj e em di a não é pi egas, não é coi sa de poet a i ngênuo ou de al gu ml ouco... ? Mas não ser á f unda ment al ? As pessoas mai s sensat as da hi st óri a da humani dade er a m chamadas de l oucos ou l oucas, aqui pode mos ci t ar al guns exe mpl os: o pri mei r o se m sombr a de dúvi das f oi Jesus Cri st o os out r os após f or a m Madr e Ter eza de Cal cut á, Gandhi, I r mã Dul ce, Beti nho, os Purit anos e outr os r omânti cos que f aze mf alt a à hu mani dade. Tal vez sej a essa f alt a de a mor pr ópri o que est á l evando as pessoas a não encotr ar em a paz i nt eri or. O desej o e a cobi ça, e a f ant asi a de i mort ali dade ali cer çar am o mat eri ali s mo. É quase i mposí vel co ment ar- mos o a mor se ml e mbr ar que o fil ósof o Pl at ão nos ensi na o que o a mor r epr esent a na vi da do ser hu mano. Hoj e e m pl eno Sécul o XXI vi ve mos nu m r eali s mo mai s expr essi vo do que no Sécul o XI X onde houver am t ant as mudanças 34 35 t ecnol ógi cas que mai s do nunca continua m i nfl uenci ando no co mport ament o psi col ógi co e soci al das pessoas, f azendo co m que as pessoas se t or ne m menos r aci onai s e r efl exi vas di ant e do poder model ador do mundo capi t ali st a. É evi dent e que o a mor é desej o. Sabe mos, por é m que os que não a ma m t a mbém desej a m os obj et os que s ão bel os. Co mo, poi s, di sti ngui r emos ent r e o que a ma e o que não a ma? Deve mos, al é m di sso, exa mi nar o segui nt e: e m cada u m de nós há doi s pri ncí pi os que nos gover na m e conduze m, e nós os segui mos par a onde nos l eva m: u m é o desej o i nat o do pr azer, out ro a opi ni ão que pr et ende obt er o que é mel hor. Essas duas t endênci as que exi st em dentr o de nós concor da m por vezes, e m out r as ent r am e m conflit o, por vezes vence u ma e por vezes a out r a. Or a, quando a t endênci a que se i nspi r a na r azão é a que vence, conduzi n- do nos ao que é mel hor, cha ma- se i sso t e mper ança; quando pel o contr ári o, o desej o nos arrast a se m deli ber ação par a os pr azer es, e é el e que pr edo mi na e m nós, i sso se chama i nt emper ança. A pal avr a i nt emper ança, cont udo, t em vári os senti dos, é co mpr eendi da de mui t as manei r as, e o senti do que se t or nou car act erí sti co f az co m que o ho me m que possui essa t endênci a r eceba o nome corr espondent e, e não é bel o ne m honorifi co r ecebê- l o. Ent r et ant o, cr ei o que devo expli car- me mai s cl ar a ment e. Quando o desej o, que não é di ri gi do pel a r azão, es maga e m nossa al ma o desej o do be m e se di rige excl usi va ment e par a o pr azer que a bel eza pr o met e, e quando el e se l ança, co m t oda a f or ça que os desej os i nt emper ant es possue m, o seu poder é i rr esi stí vel . Est a f or ça t odo- poder osa, i rresi stí vel, cha ma- se Er os ou Amor. Pl at ão Co mo obser va mos no tr echo aci ma, há vári os sécul os os fil ósof os j á vi am o quant o o mundo se tr ansf or mari a, o quant o o home m se esqueceri a de sua essênci a de ho me m par a se tr ansf or mar nu m obj et o de mani pul ação. 35 36 Ref er ênci as: ASSI S, de Machado, Hel ena, t ext o i nt egr al Edi t or a: Marti n Cl ar et, São Paul o, 2004. COUTI NHO, Af r âni o, I ntr odução à Li t erat ur a no Br asil . 17º edi ção . ED. Bertr and Br asil, Ri o de Janei r o , 2001 PLATÃO, Fedr o, t ext o i nt egr al, Edi t or a: Marti n Cl ar et, São Paul o, 2003. 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